1 CARACTERIZAÇÃO DAS PROFESSORAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL NO MUNICÍPIO DO RIO GRANDE/RS 1 Deborah Thomé Sayão Universidade Federal de Santa Catarina Maria Renata Alonso Mota Universidade Federal de Pelotas RESUMO: Este trabalho constitui-se em uma das etapas do levantamento sobre a situação da educação de zero a seis anos no município do Rio Grande/RS. Tal diagnóstico vem sendo realizado a partir da pesquisa que está caracterizando a educação infantil neste município. No primeiro momento, o estudo identificou a situação das crianças e instituições educativas e, nesta etapa, está traçando o diagnóstico acerca das profissionais que atuam na faixa etária em questão. Nosso objetivo central com este estágio do trabalho foi mapear a situação das professoras em relação ao número de docentes atuando, turno de atendimento, faixa etária, tempo de serviço, formação, vínculo empregatício e salários, considerando as diferentes dependências administrativas a que estão vinculadas: rede estadual, municipal, particular e não-governamental. Utilizamos módulos específicos para a coleta dos dados realizada nas instituições onde foram entrevistadas as profissionais. A análise dos dados, apesar de se basear na abordagem quantitativa, não inviabilizou que utilizássemos critérios de cunho qualitativo, relacionando-os constantemente (Gamboa, 1995). Localizamos 48 educadoras na rede estadual, 70 na municipal, 84 na particular e 21 na não-governamental. Os dados demonstram os seguintes resultados: quanto a faixa etária das docentes 47% delas possui entre 31 e 40 anos no caso da rede municipal e estadual. Na rede particular e não-governamental há índices significativos de docentes com idade inferior a 20 anos. Quanto ao tempo de serviço, há uma grande concentração de docentes com 1 a 2 anos de experiência, especialmente nas redes particular e não-governamental. A situação da formação das professoras apresenta-se bastante complexa, pois um percentual muito baixo (em média 10%) possui curso de Pedagogia com habilitação específica. Prevalece, de forma geral, o curso de magistério e outros cursos superiores como maior acesso à formação das profissionais pesquisadas. Quanto aos contratos de trabalho, constatamos formas diversificadas de sua elaboração nas quatro redes. Especialmente na rede particular, há uma diversidade maior de formas de contratação, muitas delas, não assegurando alguns direitos sociais amparados pela legislação trabalhista. Relacionado aos salários, prevalece nas redes estadual uma oscilação entre dois e três salários e, na municipal, uma oscilação entre um e dois salários. Esta situação agrava-se nas redes particular e não-governamental onde há índices significativos de salários inferiores ao mínimo nacional. Estes dados demonstram a urgência de políticas públicas para o setor que privilegiem a formação, salário, carreira e condições de trabalho para as professoras. Os dados acerca da formação quando cruzados com as disposições transitórias contidas na Lei 9394/96 a qual exige que até o final da década da educação, a totalidade das educadoras possuam 1 Esta pesquisa conta com o apoio do PIBIC/CNPq através do financiamento de uma bolsista – Patrícia Freitas Pereira, desde 1998. Conta, também, com a participação dos bolsistas Andréa Marques Soares, Antonio Cesar Esperança, Gisele Ruiz Silva, Josiane dos Santos Dias, Karyne Dias Coutinho e Sabrina Ferreira de Souza. 2 como formação mínima o terceiro grau, demonstra a necessidade de políticas voltadas para o incremento da referida formação que acreditamos, só possa ser viável, a partir de parcerias entre os órgãos contratantes e as universidades como o local onde é possível articular a docência como o eixo fundamental da qualificação, aliada ao ensino integrado de forma indissociável com a pesquisa. Palavras-chave: Educação, Formação de Professores – Ensino e Formação de Professores – Educação Infantil 1. INTRODUÇÃO O debate que nos últimos anos vem se desenvolvendo a nível nacional e também no âmbito internacional sobre a educação das crianças de 0 a 6 anos motivou-nos a investigar a caracterização das crianças, profissionais e as instituições que compreendem esta faixa etária na área de abrangência do município do Rio Grande-RS. Também, o Simpósio Nacional de Educação Infantil ocorrido em Brasília em 1994 foi um dos elementos que contribuiu significativamente para o delineamento desta investigação denominada “Caracterização da Educação Infantil no município do Rio Grande/RS” que iniciou no final de 1997 e se estendeu até meados de 1999 em sua primeira etapa. No primeiro momento coletamos os dados e analisamos a situação das crianças e das instituições 2. As conclusões apontadas revelavam a carência de políticas públicas para o setor no município estudado, sendo que um dado alarmante era a inexistência de atendimento público para a faixa etária de zero a três anos 3. O texto que está sendo apresentado aqui trata, então, daquilo que denominamos segunda etapa da pesquisa onde estudamos especificamente a situação das professoras que atuam em turmas de 0 a 6 anos no município em questão. O documento do MEC(1994) denominado “Por uma política de formação do profissional de Educação Infantil” através dos textos de Barreto, Kramer, Campos, Pimenta, Rosemberg e Oliveira, além da tese de Cerizara (1996) e Machado (1998) problematizaram o assunto contribuindo significativamente para os estudos neste campo. 2 Os dados conclusivos desta primeira etapa foram apresentados na 22ª Reunião da ANPEd realizada em Caxambu/MG em 1999 e o texto integral será publicado na Revista Momento nº12 do Departamento de Educação e Ciências do Comportamento da FURG. 3 Nesta etapa, a pesquisa contava com a participação também de Ana Cristina Coll Delgado 3 A problemática do perfil da profissional que atua na Educação Infantil, aliado à diversidade de propostas pedagógicas que vem sendo implementadas pelo país afora complexificam o tema, principalmente quando a bibliografia nacional e internacional afirma que a integração entre o cuidado e a educação devem ser a tônica das propostas para a área. Esta questão tem levado a diferentes perguntas, tais como: Quem é o(a) profissional de educação infantil? É o(a) professor(a)? Como deve ser sua formação? Embora estejamos vivendo um momento de tantas dúvidas e discussões, temos a certeza de que o locus privilegiado para tal formação deve ser a universidade, tendo em vista que a articulação ensino/pesquisa é fundamental nos processos de formação tanto inicial quanto continuada. Outro aspecto relevante diz respeito a garantia expressa na Constituição de 1988 em relação ao dever do Estado para com a Educação Infantil (art 208, IV) e à LDB (Lei 9394/96) que a manteve no quadro da educação básica. Porém, isto não garantiu nem o acesso nem a qualidade visto que a prioridade foi dada ao ensino fundamental. Este problema acirrou-se com a lei 9496/96 que deixou a cargo das administrações municipais e estaduais o estabelecimento de critérios para a distribuição do pequeno percentual destinado à Educação Infantil. Por esta razão várias têm sido as denúncias pelo Brasil afora da redução do número de matrículas na educação de 0 a 6 anos em detrimento do aumento de matrículas no ensino fundamental. No caso da formação do(a) profissional que atua em creches e pré-escolas há uma ambiguidade nas formas de sua implementação e financiamento. Esta situação foi agravada pelo Decreto 3276/99 que transformou os cursos de Pedagogia lotados nas universidades em Institutos Normais Superiores. Se a situação anterior configurava-se como preocupante, cremos que agora ela se agravará. Diante disso, desenvolvemos a II etapa da Pesquisa analisando a situação destas profissionais em relação a: número de educadoras por rede; turno de atendimento; faixa etária; tempo de serviço; formação; vínculo empregatício e salários. 2. METODOLOGIA DA PESQUISA Realizamos um levantamento quantitativo sobre a educação de zero a seis anos no município do Rio Grande/RS, já que os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra a Domicílio) eram 4 insuficientes para informar a situação especialmente naquilo que concerne à formação das profissionais que atuam na faixa etária em questão. Muitos dados acerca do tema estão dispersos em órgãos como Secretarias de Educação de Estados e Municípios e Delegacias de Ensino, impossibilitando, assim, que se consiga vislumbrar um mapa mais global da situação. Realizamos uma análise qualitativa de dados quantitativos basendo-nos em Cunha (1993); André(1995) e Gamboa(1995). Para estes autores a pesquisa não deve se limitar a seleção de um método, pois a realidade complexa e multifacetada impõe que quantidade e qualidade estejam imbricados na análise de uma mesma realidade, sempre que se fizer necessário. Além disso, o documento final do Congresso Latino-americano de Educação Infantil incentivou a elaboração de estudos que utilizem paradigmas quantitativos e qualitativos como complementares entre si, apontando que isto poderá traçar um panorama mais completo da realidade sobre a situação da infância. Para a coleta dos dados das profissionais, que iniciaram em 1997, tomamos como ponto de partida, os módulos desenvolvidos pelo NEE/UFSC (Núcleo de Educação de zero a seis anos da Universidade Federal de Santa Catarina) e, a partir destes, construímos módulos que se adaptaram à nossa região. Selecionamos bolsistas de iniciação científica do Curso de Pedagogia Pré-Escola e do Curso de Matemática da FURG, reunimos e estudamos o referencial teórico, discutimos a aplicabilidade dos instrumentos de pesquisa e iniciamos as visitas às instituições. Os dados coletados tomaram a totalidade das instituições educativas (estaduais, municipais e não-governamentais 4). Em relação às particulares, salientamos que não foram visitadas em sua íntegra em função da inexistência de um cadastro unificado das mesmas. Para tal, o procedimento tomado por base para a coleta de dados foi o seguinte: visitamos todas as instituições constantes em nosso cadastro e, toda vez que as pesquisadoras se deparavam com uma instituição desta natureza, solicitavam o preenchimento dos módulos. Os dados abrangeram a diversidade de profissionais que atuam no âmbito da educação de zero a seis anos e, a princípio, incluiríamos na análise esta diversidade: professoras, auxiliares de sala, professor(a) de educação física e/ou artes, supervisão 4 Denominamos “não-governamentais” aquelas instituições de caráter beneficente, assistencial e/ou religioso, sem fins lucrativos 5 e/ou coordenação pedagógica, orientador(a) educacional, direção, vice-direção, secretaria, enfermagem, volantes e outros casos. No entanto, a grande quantidade de informações obtidas e o pequeno espaço de tempo que tivemos para analisá-las com profundidade, determinaram que optássemos por incluir, neste momento, somente as professoras. Oportunamente, as análises acerca das demais profissionais serão realizadas e, igualmente, divulgadas. Cabe, ainda, esclarecer que uma diversidade maior de profissionais do que a acima citada foi localizada especialmente na rede privada, dentre estes: recepcionista, professor(a) de inglês, professor(a) de ballet, professor(a) de computação, médico-pediatra, psicólogos(as) e professor(a) de música. A grande maioria destas profissionais afirmaram que atuavam diretamente com turmas de educação infantil e não possuiam vínculo empregatício com as instituições, declarando-se “prestadores(as) de serviços”. Esta situação tem sido bastante frequente no âmbito das instituições particulares, onde a ânsia de atender a um mercado que investe na especialização faz com que estas se moldem à ótica da escola capitalista que centra-se na especialização e consequente fragmentação do conhecimento com vistas a exploração do marketing que objetiva em última instância, o lucro com a educação. 3. PROFESSORAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL: UMA DIFÍCIL REALIDADE Neste estudo foram pesquisadas 48 professoras da rede estadual; 70 da rede municipal; 84 da rede particular e 21 da rede não-governamental.(ver gráfico 01 em anexo) O fato de não termos conseguido pesquisar a totalidade das “escolinhas” privadas ratifica pontos já apresentados em outros estudos, tais como o Plano Nacional de Educação consolidado pelo CONED (1997) que demonstra que é a rede privada quem detém a imensa maioria das vagas para a educação de zero a seis anos. Questiona-se qual o acesso que vem sendo possibilitado às crianças provenientes de famílias de baixa renda em instituições públicas? Outro dado que acompanha este questionamento é a constatação de que é o turno da tarde que concentra o maior atendimento tanto na rede estadual quanto municipal e particular. A única excessão localiza-se na rede não-governamental que concentra a maioria das professoras em dois períodos. 6 No município do Rio Grande, a rede não-governamental, matricula a imensa maioria das crianças provenientes de famílias pobres, tendo em vista que, como já ressaltamos anteriormente, não há atendimento público de zero a três anos. Este fato, certamente, vem sobrecarregando a rede não-governamental face a demanda de vagas em creches e pré-escolas públicas. 5 Quanto a faixa de idade das professoras, constatamos que na rede não-governamental (47%) e no município (47%) das docentes possui entre 31 e 40 anos. Já na rede particular a maioria possui entre 21 e 30 anos (59%). Verificamos, também que um número significativo destas, nas redes particular 11% e não-governamental (10%) possui menos de 20 anos de idade. Este fato nos leva a questionar: qual a formação que as mesmas possuem para atuar com crianças de tão pouca idade? Em que condições este trabalho está sendo realizado? Há parâmetros para a avaliação do trabalho que vem sendo desenvolvido? Na rede estadual, não há professoras com menos de 20 anos e há uma equivalência entre as idades, pois há 35% com 31 a 40 anos e 33% com idade entre 41 e 45 anos.(Ver gráfico 02 em anexo) Em relação ao tempo de serviço das professoras, no estado (67%); no município (78%); na rede não-governamental (90%) concentram entre menos de 1 até 10 anos de trabalho. Somente de 3% a 5% possui mais de vinte anos de experiência. (ver gráfico 03 em anexo) Além disso, os módulos demonstram que, no caso da rede particular e da não-governamental, há uma evidente concentração da experiência localizada entre até um e dois anos. Isto nos leva a supor que exista uma certa rotatividade das profissionais, principalmente, quando cruzamos este dado com os salários que recebem. Quanto a formação das professoras, os dados revelam uma situação bastante preocupante, tendo em vista que em todas dependências administrativas, a categoria “outros” contempla a maioria das docentes. No caso, “outros” refere-se desde a formação em 1º grau completo até cursos de graduação incompletos. Estes percentuais relacionados à categoria “outros” podem ser assim demonstrados: 47% estadual; 48% municipal; 55% particular e 57% não-governamental. Quanto ao curso de magistério, encontramos os seguintes dados: 13% na rede estadual; 29% na municipal; 5 Neste momento, o Núcleo está desenvolvendo uma pesquisa que é desdobramento desta e que se denomina: “Demanda por creches no município do Rio Grande/RS”. Este estudo está levantando a demanda por matrículas em instituições educativas de zero a três anos, bem como a necessidade de atendimento em turno integral e meio período. Estamos mapeando, a princípio, os sete bairros mais pobres do município realizando amostras a domicílio. 7 na particular 27% e na esfera não-governamental 33%. Salientamos que é um número pequeno de educadoras que possui o Curso de Pedagogia com Habilitação Pré-escola ou Educação Infantil, pois são: 13% no estado; 9% no município, 11% na particular e 5% na não-governamental. Há, também, a categoria “3º grau outros”, onde encontramos professoras graduadas em Geografia, História, Educação Artística, Oceanologia, Letras, entre outros. (ver gráfico 04 em anexo) Na rede estadual, até o presente momento, não há concurso específico para professoras de Educação Infantil e, na rede municipal, em janeiro de 2000, pela primeira vez foi realizado tal concurso: Isto, por um lado, pode justificar em parte a existência das profissionais sem habilitação específica atuando com as crianças pequenas. No entanto, por outro lado, é possível perguntar por que as profissionais que vêm sendo formadas desde 1988 no Curso de Pedagogia – Habilitação Pré-Escola - da Fundação Universidade do Rio Grande não vêm sendo localizadas na pesquisa como professoras de zero a seis anos? Estes dados quando colocados à frente do que está regulamentado na Lei 9394/96 em suas disposições transitórias que estabelece um prazo de dez anos a partir da data da promulgação da referida Lei para que todas as profissionais se habilitem em curso superior, causa-nos muita preocupação tendo em vista que há uma gama de profissionais ainda sem formação o que remete à necessidade do estabelecimento de parcerias entre os órgãos contratantes e as universidades para que tal formação seja viabilizada. Apesar disso, é importante destacar que, neste caso, não se trata de apressar esta formação reduzindo a qualidade dos cursos. Quanto ao vínculo empregatício das professoras, na rede estadual, são regidas pelo estatuto público do magistério e, no município, a maioria também é regida por estatuto próprio apesar de termos encontrado 23 professoras que possuíam vínculo com a CLT. No entanto, esta situação deverá ser modificada tão logo se iniciem as nomeações dos(as) aprovados(as) no concurso. Na rede não-governamental, a maioria possui contrato CLT e há, também, algumas cedências da prefeitura. Além destes, existem contratos como estagiárias via CIEE (Centro de Integração Empresa-escola) e, ainda uma categoria que as próprias professoras denominaram “contrato não-especificado”. Causa-nos estranhamento os dois casos porque no primeiro, as professoras são contratadas como estagiárias e 8 assumem turmas como profissionais e, no segundo, muitas delas parecem desconhecer seus direitos sociais. Na rede particular a diversidade de tipos de contratações é ainda maior. Apenas 29% das professoras possui contrato CLT, aumentando o número das que possuem contrato CIEE e também o denominado “contrato não-especificado”. É importante ressaltar que um número considerável de professoras (19%) não informou o tipo de vínculo que mantinham com a instituição. (ver gráfico 05 em anexo) Se verificarmos o somatório dos percentuais obtidos nos diversos tipos de contratos (não- especificado, não informou, CIEE e terceirizado) e cruzarmos com o percentual de professoras que tem carteira assinada ou contrato via CLT, perceberemos que a situação é bastante alarmante, tendo em vista que esta é uma questão que incide diretamente nas condições de salário e trabalho destas profissionais. Quanto aos salários, tendo como referência o salário mínimo vigente em 1998, no município a grande maioria das professoras recebe entre um e dois salários mínimos, sendo que menos de 20 profissionais recebe entre dois e três salários mínimos. Na rede estadual há uma pequena alteração, pois a maioria recebe entre dois e três salários mínimos. Ao analisarmos a distribuição de salários das professoras das instituições não-governamentais e particulares o quadro torna-se ainda mais complexo. Nas instituições não-governamentais existe uma equivalência no número de professoras que recebe entre um e dois salários mínimos e as que recebem menos de um salário mínimo, valor não encontrado nas escolas municipais e estaduais. É importante salientar que estas instituições não foram encontradas professoras que recebessem acima de dois salários mínimos. Nas instituições particulares foram encontradas mais de 40 profissionais com o salário na faixa de um a dois salários mínimos. Algumas recebem menos do que um salário mínimo. Há, também, um número significativo de professoras que não informou o quanto recebiam. (ver gráfico 06 em anexo) Se compararmos o salário recebido por estas profissionais com o piso salarial das escolas particulares do estado do Rio Grande do Sul ( R$ 443,10), perceberemos aí uma distância significativa entre ambos. 4. CONCLUSÕES 9 A caracterização das professoras de Educação Infantil no município do Rio Grande revela que o momento exige políticas públicas de investimento e financiamento para a educação de zero a seis anos que se traduza em qualidade de atendimento. Esta qualidade perpassa por uma melhoria das condições de trabalho, salário e formação. Os estudos e pesquisas realizados na área em nível nacional apontam para a importância da formação profissional da educadora infantil como uma estratégia eficaz para a melhoria do atendimento às crianças de zero a seis anos. Portanto, há necessidade urgente de incentivo e financiamento, por parte do poder público, de ações que viabilizem a formação em serviço e continuada das profissionais que atuam com crianças pequenas. Para isso, acreditamos, que possam ser realizadas parcerias entre os órgãos que financiam a Educação Infantil e as universidades garantindo uma formação que tenha como eixo a docência de forma indissociável com a pesquisa. Temos conhecimento de uma diversidade de iniciativas que estão sendo realizadas em torno do estabelecimento de parcerias entre prefeituras e universidades objetivando a formação de professoras a nível de terceiro grau. Em nossa região, por exemplo, todas as universidades federais (FURG, UFSM, UFRGS e UFPel) estão desenvolvendo projetos de formação em serviço, boa parte deles financiado pelo FUNDEF 6. Entretanto, sabemos que esta é uma solução emergencial e que se apresenta, às vezes, com características bastante contraditórias, face à organização e formas de implementação dadas aos cursos. Talvez seja oportuno organizar fóruns de debate entre as universidades que estão desenvolvendo este tipo de projeto discutindo, por exemplo, a qualidade e as formas de implementação dos mesmos. Ou seja, é preciso garantir a qualidade necessária à formação das profissionais que atuam com crianças de zero a seis anos, apesar da emergência do que a Lei está impondo. Entretanto, aliado à esta problemática está presente, também, o debate acerca da manutenção da formação no âmbito das universidades, sendo necessária a constante mobilização para a revogação do Decreto 3276/99 até que se atinja tal conquista. Também está presente neste momento a necessidade de regulamentação e fiscalização do credenciamento e do funcionamento das instituições de zero a seis anos , tendo em vista que no município pesquisado já foi aprovado o Sistema Municipal de 6 Trata-se da Lei nº 9424/96 – Lei do Fundo de Valorização e Desenvolvimento do Magistério 10 Ensino. Esta ação torna-se importante, principalmente se levarmos em conta que, na rede particular, a situação é muito complexa. O número de “escolinhas” prolifera a cada dia, com profissionais que recebem baixos salários, muitas delas sem formação específica e em espaços físicos, geralmente, impróprios para que a criança possa vivenciar com plenitude suas múltiplas dimensões. Um dos dados que podemos depreender a partir dos módulos de investigação que aplicamos nesta pesquisa é a grande rotatividade de professoras, especialmente na rede particular, tendo em vista as formas de contrato que se apresentam: “contratos não especificados” - como denominam as profissionais - são nada mais do que contratos que têm seu início no mês de março – quando começa o ano letivo – e se encerram no mês de dezembro. Ou seja, no período não letivo as professoras ficam sem contrato de trabalho e, portanto, sem salário. O caso de contratações como estagiários via CIEE, para atuação em instituições particulares, também é uma prática corriqueira no município. Sabemos que, apesar de serem contratadas como estagiárias, estas assumem turmas e encargos de professoras. Como o contrato é prorrogado a cada seis meses e o período máximo de contratação é de dois anos, este é o período máximo que algumas professoras permanecem nas instituições. O que agrava esta situação é o fato de estagiárias assumirem turmas como professoras e receberem salários – na maioria dos casos – bastante inferiores a um salário mínimo 7. Estes dados cruzados com o das idades das profissionais demonstra que são exatamente estas professoras que possuem a menor faixa etária encontrada na pesquisa. Há “docentes” atuando com apenas 14 anos de idade e responsáveis por crianças de várias faixas etárias, inclusive bebês. Novamente perguntamos pela qualidade deste tipo de atendimento. Enquanto no município existe o concurso público específico para professoras de Educação Infantil, na rede particular não há, até então, parâmetros com relação a formação mínima exigida para a contratação das docentes. A implantação de critérios para a regulamentação e a fiscalização destas instituições, são passos importantes para a superação da problemática que envolve a profissionalização das professoras que atuam em instituições de educação de zero a seis anos. 7 O salário médio recebido por estas professoras por 20 horas semanais na época da coleta dos dados era de R$ 65,00 11 Os resultados desta investigação apontam, ainda, para a necessária intensificação de estudos que aprofundem a especificidade das profissionais que atuam na educação desta faixa etária. Questões como: quem é a profissional de Educação Infantil? O que é ser uma profissional de Educação Infantil? Qual o seu perfil? Qual o tipo de formação que necessitam? Entre outras, precisam de maior esclarecimento. Há necessidade, então, de um olhar mais aprofundado através de pesquisas de cunho qualitativo sobre esta temática para que se compreenda melhor a dinâmica das relações entre estas profissionais, bem como o tipo de formação mais adequado às propostas que concebem a criança como sujeito de múltiplas linguagens e que perspectivam incluir aspectos como o cuidar e educar de forma indissociável. Estes estudos, certamente, contribuirão de forma substancial para a elaboração de políticas públicas para a educação da infância e, conseqüentemente, para a melhoria da qualidade na Educação Infantil. 5. BIBLIOGRAFIA ANDRÉ, M. Etnografia da Prática Escolar. Campinas SP: Papirus, 1995. BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. N.º 9.394/96 de 20 de dezembro de 1996. BRASIL, Lei do fundo de valorização e desenvolvimento do Magistério e do ensino fundamental. N.º 9.424 de dezembro de 1996. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo : Tecnoprint, 1988. CERIZARA, Ana Beatriz.(1996). A construção da identidade das profissionais de educação infantil: ente o feminino e o profissional. Tese (Doutorado). São Paulo :FE/USP. CUNHA, Maria Isabel. In: OLIVEIRA, Maria Rita Salles (org.) Didática: Ruptura, Compromisso e pesquisa. Campinas, SP: Papirus, 1993. GAMBOA. Silvio S.(org.). Pesquisa Educacional: Quantidade – Qualidade. São Paulo: Cortez, 1995. IV SIMPOSIO LATINO AMERICANO DE INVESTIGACION Y EVALUACION DE PROGRAMAS DE DESARROLLO INTEGRAL PARA NINOS DE O A 6 ANOS (Documento final). Brasília, Noviembre / 25 a 29 de 1996. 12 KUHLMANN Jr. (1999) Educação Infantil e Currículo. In FARIA, Ana L e PALHARES, Marina. (orgs), (1999) Educação Infantil Pós-LDB: Rumos e Desafios. Campinas/ SP: Autores Associados, São Carlos/SP: Ed da UFSCAR e Florianópolis/SC: Ed da UFSC MACHADO, Maria L. (1998). Formação profissional para educação infantil: subsídios para idealização e implementação de projetos. Tese (Doutorado). 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Módulos da Pesquisa: “O caráter da educação de zero a seis anos em Florianópolis” 1996 (mimeo) 13 ANEXOS Gráfico 01 – Professoras por dependência administrativa Professoras por dependência administrativa 21 48 ESTADO MUNICÍPIO PARTICULAR 84 NÃO GOVERNAMENTAL 70 Fonte: NEPE/DECC/FURG Gráfico 02 - Distribuição das professoras por faixa etária Distribuição das professoras por faixa etária - Estado entre 21 e 30 33% 35% entre 31 e 40 entre 41 e 45 mais de 45 17% 15% Fonte: NEPE/DECC/FURG Distribuição das professoras por faixa etária - Não govermentais 5% 10% menos de 20 entre 21 e 30 47% 38% entre 31 e 40 mais de 45 14 Fonte: NEPE/DECC/FURG Distribuição das professoras por faixa etária - particular 1% 1% 11% 10% menos de 20 entre 21 e 30 entre 31 e 40 18% entre 41 e 45 mais de 45 NÃO INF 59% Fonte: NEPE/DECC/FURG Distribuição das professoras por faixa etária - Município 3% 6% 3% 10% menos de 20 entre 21 e 30 31% entre 31 e 40 entre 41 e 45 mais de 45 NÃO INF 47% Fonte: NEPE/DECC/FURG Gráfico 03- Tempo de serviço das professoras de Educação Infantil – Rio Grande/RS, 1998 Tempo de serviço das professoras 80 70 60 ESTADUAL 50 40 MUNICIAL 30 20 NÃOGOVERNAMENTAL 10 Fonte: NEPE/DECC/FURG NÃO INFORMOU MAIS DE 20 ANOS DE 10 A 20 ANOS PARTICULAR MENOS DE 1 ATÉ 10 ANOS 0 15 Gráfico 04- Formação das professoras de Educação Infantil – Rio Grande/RS, 1998 MUNICÍPIO 2º GRAU MAGISTÉRIO 29% 3º GRAU PRÉESCOLA COMPLETO 48% 3º GRAU OUTROS 9% OUTROS 14% Fonte: NEPE/DECC/FURG ESTADO 13% 2º GRAU MAGISTÉRIO 13% 47% 3º GRAU PRÉESCOLA COMPLETO 3º GRAU OUTROS 27% OUTROS Fonte: NEPE/DECC/FURG PARTICULAR 27% 2º GRAU MAGISTÉRIO 3º GRAU PRÉESCOLA COMPLETO 55% 3º GRAU OUTROS 11% OUTROS 7% Fonte: NEPE/DECC/FURG 16 NÃO GOVERNAMENTAL 2º GRAU MAGISTÉRIO 33% 3º GRAU PRÉESCOLA COMPLETO 3º GRAU OUTROS 57% 5% OUTROS 5% Fonte: NEPE/DECC/FURG Gráfico 05 – Vínculo enpregatício das professoras de Educação Infantil – Rio Grande/RS, 1998 Vínculo empregatício das professoras das instituições não-governamentais - Rio Grande/RS, 1998 14% 5% 5% 0% 47% 29% CLT ESTATUTO MUNICIPAL VOLUNTÁRIA ESTÁGIO CONTRATO NÃO ESPECIFICADO NÃO INFORMOU Fonte: NEPE/DECC/FURG 17 Vínculo empregatício das professoras das instituições particulares - Rio Grande/RS, 1998 19% 29% 4% 11% 1% 11% 1% 24% CLT ESTATUTO MUNICIPAL TERCEIRIZADO CONTRATO NÃO ESPECIFICADO CARTEIRA ASSINADA CIEE PROPRIETÁRIA NÃO INFORMOU Fonte: NEPE/DECC/FURG Gráfico 06 – Distribuição de salários das professoras de Educação Infantil – Rio Grande/RS, 1998 Distribuição dos salários das professoras Rio Grande/RS, 1998 não informou acima de 4 S. M. entre 2 e 3 S. M. entre 1 e 2 S. M. menos de 1 S. M. 0 ESTADO MUNICIPIO Fonte: NEPE/DECC/FURG 20 40 NÃO-GOVERNAMENTAL 60 PARTICULAR 18