6978_Impulso_26.book Page 1 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM IMPULSO ISSN 0103-7676 • PIRACICABA/SP • Volume 11 • Número 26 • P 1-217 • 1999 impulso 1 nº 25 6978_Impulso_26.book Page 2 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Universidade Metodista de Piracicaba Reitor ALMIR DE SOUZA MAIA Vice-reitor Acadêmico ELY ESER BARRETO CÉSAR Vice-reitor Administrativo GUSTAVO JACQUES DIAS ALVIM EDITORA UNIMEP Conselho de Política Editorial ALMIR DE SOUZA MAIA (PRESIDENTE) ANTÔNIO ROQUE DECHEN CASIMIRO CABRERA PERALTA CLÁUDIA REGINA CAVAGLIERI FELIPPE ELIAS BOAVENTURA ELY ESER BARRETO CÉSAR (VICE-PRESIDENTE) FRANCISCO COCK FONTANELLA GISLENE GARCIA FRANCO DO NASCIMENTO NIVALDO LEMOS COPPINI Comissão Editorial AMÓS NASCIMENTO ELIAS BOAVENTURA (PRESIDENTE) ANTONIO LUIS CHAVES CAMARGO JOSIANE MARIA DE SOUZA TÂNIA MARA VIEIRA SAMPAIO Editor executivo HEITOR AMÍLCAR DA SILVEIRA NETO (MTB 13.787) Equipe técnica Edição de texto: Milena de Castro Revisão: Alexandre Bragion e Sabrina R. Bologna Revisão em inglês: Margaret Ann Griesse Secretária: Ivonete Savino Apoio administrativo: Altair Alves da Silva Supervisão gráfica: Carlos Terra DTP e produção: Gráfica UNIMEP Capa: Genival Cardoso Foto: Firo • reprodução arquivo • História do Pensamento, vol. 4, Ed. Nova Cultura Impressão: Santa Edwiges Artes Gráficas Impressa em Duplicadora Digital Xerox Docutech 135 Produzida em dezembro/1999 A revista IMPULSO é uma publicação quadrimestral da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (São Paulo, Brasil). Aceitam-se artigos acadêmicos, estudos analíticos e resenhas, nas áreas das ciências humanas e sociais, e de cultura em geral. Os textos são selecionados por processo anônimo de avaliação por pares (peer review). Veja as normas para publicação no final da revista. IMPULSO is a quarterly journal published by the Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (São Paulo, Brazil). The submission of scholarly articles, analytical studies and book reviews on the humanities, society and culture in general is welcome. Manuscripts are selected through a blind peer review process. See editorial norms for submission of articles in the back of this journal. Impulso é indexada por: Impulso is indexed by: Base de Dados do IBGE; Bibliografia Bíblica LatinoAmericana; Índice Bibliográfico Clase (UNAM); e Sumários Correntes em Educação. Administração, redação e assinaturas: Editora UNIMEP www.unimep.br/~editora Rodovia do Açúcar, km 156 Tel./fax: 55 (19) 3124-1620 / 3124-1621 13.400-911 – Piracicaba, São Paulo/Brasil E-mail: [email protected] Revista de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba dezembro 2 99 V. 1 • Nº 1 • 1987 Quadrimestral/Quarterly ISNN 0103-7676 1- Ciências Sociais – periódicos CDU – 3 (05) 6978_Impulso_26.book Page 3 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM EDITORIAL Sonhos – entre o passado e o futuro Ao retratarem nossos desejos como realizados, os sonhos decerto nos transportam para o futuro. Mas esse futuro, que o sonhador representa como presente, foi moldado por seu desejo indestrutível à imagem e semelhança do passado. S. Freud e Em novembro de 1899, Sigmund Freud tinha em mãos o que viria a ser sua obra-prima: A Interpretação dos Sonhos (Traumdeutung). Publicada simultaneamente na Áustria e na Alemanha, em sua primeira página vinha impresso o ano de 1900, anunciando o descortinar de um século novo, no qual as marcas da tese sustentada por aquela publicação iriam traçar uma revolucionária forma de subjetivação na história do pensamento da humanidade. É dela que extraímos as palavras de Freud que encabeçam o presente Editorial. Elas podem nos ajudar a definir temas e discussões relevantes para um novo tempo que, neste início de ano 2000, também vislumbramos: desvela-se o descortinar de um novo milênio, uma nova era, que provoca a reflexão sobre o passado e o futuro, e nos leva precisamente à ousadia de sonhar o novo. Quem estaria, porém, habilitado hoje em dia a falar de tal modo sobre a atividade onírica, que por definição não pode ser reduzida à ob- impulso 3 nº 25 6978_Impulso_26.book Page 4 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM jetividade e ao realismo? Que corrente, cientistas ou autores teriam condições de escapar da notoriedade efêmera e determinar de modo marcante esse campo? Caberia essa responsabilidade à metafísica, à fisiologia, à psicologia ou à neurologia? Eis as perguntas levantadas nesta edição da IMPULSO. A mais importante delas é colocada, logo de início, por Georges Canguilhem. Sucessor de Gaston Bachelard e orientador de Michel Foucault, ele dedicou sua vida acadêmica ao estudo das ciências da vida. A partir de uma ampla perspectiva histórica por ele resgatada com erudição, apresenta a provocativa questão, todavia atual, e que viria a marcar todas as críticas dirigidas à cientificidade da psicologia na década de 60: o que é psicologia? Osmyr Gabbi Jr., tradutor desse texto clássico, aponta em seu artigo a profunda relevância da palestra proferida por Canguilhem em 18 de dezembro de 1956, demonstrando suas incidências sobre a psicanálise de Freud e de Lacan. Maria Teresa Gimenez amplia ainda mais esse movimento retroativo, resgatando a infância de Freud para submeter o pai da psicanálise ao seu próprio crivo, mostrando como A Interpretação dos Sonhos reflete o luto e o processo criativo de seu autor. Márcio Mariguela aprofunda tal questão, voltando a correspondências entre Freud e Fliess, que se iniciam em 1887 e vão até 1904, revelando o processo de escrita de sua obra-prima. Mas esse centenário livro não é somente a obra-prima freudiana. O médico austríaco chegou a expressar que seu livro deveria ser considerado um registro histórico. De fato, como documento histórico a obra fundadora da psicanálise anunciava os avatares da cultura ocidental no século XX. Com sua original abordagem do fenômeno onírico, ele instaurou uma discursividade que ainda nos dias de hoje não cessa de produzir efeitos polissêmicos na crítica contemporânea. Atravessando diferentes zonas da produção do saber, a teoria psicanalítica potencializou a ciência, a filosofia, a produção literária, entre outros aspectos de nossa cultura, e definitivamente mudou a maneira como pensamos sobre nós mesmos. Indubitavelmente, esse desenvolvimento leva também a Lacan, objeto central dos artigos de Regina Puglia e Franklin Goldgrub. O primeiro apresenta, em uma visão lacaniana, algumas transformações ocorridas com conceitos psicanalíticos, a partir de Freud, relacionados ao processo analítico e à interpretação, enquanto o segundo desenvolve uma detalhada reflexão sobre a diferença entre interpretação e conteúdo, com o fim de resgatar a dimensão metafórica, muitas vezes banida do âmbito discursivo. dezembro 4 99 6978_Impulso_26.book Page 5 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Erro, porém, seria pensar que Freud e Lacan são o alfa e ômega da psicanálise. Se o texto de Canguilhem nos faz voltar a milênios na história, outros artigos da IMPULSO nos remetem a novas perspectivas, decididamente atuais e mais próximas de questões concretas de nossa realidade cotidiana. Maurício Lourenção Garcia argumenta que a psicanálise se presta a tais atualizações, pois é obra aberta, e dedica-se a avaliar o modo como a psicoterapia institucional de Félix Guattari acolheu as contribuições do marxismo, do existencialismo e da fenomenologia para repensar a subjetividade em termos sociais. Edson Olivari de Castro dialoga com a filosofia, abordando o questionamento a respeito da noção de consciência vigente na virada do século, que recebeu da fenomenologia diferentes respostas. Márcia Maesso oferece um estudo teórico-clínico sobre a criança especial, mostrando, por meio de estudos de caso, que a linguagem infantil espelha condicionamentos familiares e sociais, os quais devem ser objeto de uma psicanálise contextualizada. A IMPULSO traz, ainda, dois artigos gerais. O primeiro, de Ana Maria Carrão, apresenta-nos tema de relevância global, que trata do Fordismo e do Toyotismo. Ela demonstra como ambos levaram a mudanças radicais no mundo do trabalho, ao estabelecerem novos paradigmas de organização, produção e competitividade, e indica como tais sistemas alteraram as relações de emprego e empregabilidade durante o século XX. O segundo, de Nádia Kassouf Pizzinatto, tem uma dimensão mais local: refere-se ao modo como o Curso de Administração da UNIMEP tem dialogado com o contexto nacional e como responde ao desafio de se adaptar ao sempre mutante perfil dos profissionais desta área. Complementando este número, incluem-se Resenhas e Comunicações. A primeira destas seções apresenta dois livros: Crítica dos Fundamentos da Psicologia – a psicologia e a psicanálise, de Georges Politzer, e A Inocência e o Vício – estudos sobre o homoerotismo, de J. Freire Costa. A seção Comunicações, especialmente criada para receber textos de ocasião, mais breves e mais livres em sua abordagem, bem como críticas, comentários e discussões de interesse geral, em sua estréia conta com César Cesarotto, psicanalista e professor de comunicação e semiótica em São Paulo, notório por seus artigos em revistas especializadas e aqui nos traz o texto “A realidade onírica”, também referente à efeméride neste número celebrada. E, encerrando esta edição, o advogado e jornalista Hernán Maldonado Borda, boliviano radicado nos EUA, trata, com sua experiência de quase meio século na imprensa latino-americana, estadunidense e européia, a honestidade jornalística e outros aspectos da ética no considerado “quarto poder” do Estado. impulso 5 nº 25 6978_Impulso_26.book Page 6 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Por fim, cabe expressar nossos agradecimentos ao psicanalista e filósofo Márcio Mariguela, do curso de Filosofia da UNIMEP, por sua inestimável assessoria editorial neste número 26 da revista. Foi dele a sugestão de pauta para o registro da vitalidade secular da teoria psicanalítica feita nesta edição, dando continuidade a uma série de textos publicados anteriormente na IMPULSO e na série “Filosofia & Psicanálise”, da Editora UNIMEP. Isso nos leva de volta a Freud e ao seu A Interpretação dos Sonhos. Ao longo dos últimos cem anos, leitores e leitoras das mais variadas matizes voltaram-se para a psicanálise apontando sua relevância e a cientificidade de seus pressupostos, mas também suas incongruências e os impasses que produziu, aflorando incontáveis discussões acirradas, que marcam todo início de um novo ramo do saber. Este número da IMPULSO se lança nessa mesma direção, sem pretender antecipar o que se dirá em cem anos. Constitui-se, assim, contribuição útil e oportuna a qualquer tentativa de entendimento de nossa época, que em muito pouco se assemelha ao que, um dia, possamos ter sonhado. COMISSÃO EDITORIAL dezembro 6 99 ............................... Artigos Temáticos Que é a Psicologia? What is Psychology? GEORGES CANGUILHEM Pequenas Notas a “Que é a Psicologia?” Small Notes to “What is Psychology?” OSMYR FARIA GABBI JR. A Escrita do Capítulo I do “Livro dos Sonhos”: Freud, leitor de seu tempo The Writing of Chapter I of the Book on Dreams: Freud, a reader of his Time MÁRCIO MARIGUELA A Interpretação na Psicanálise Lacaniana Interpretation in Lacanian Psychoanalysis REGINA CLÁUDIA MELGES PUGLIA Um Método sobre o Discurso, ou a Metáfora Opaca A Method on Discourse or the Opaque Metaphor FRANKLIN WINSTON GOLDGRUB Luto e Criação em A Interpretação de Sonhos Mourning and Creativeness in The Interpretation of Dreams MARIA TERESA GIMENEZ A Psicanálise como Obra Aberta Psychoanalysis as an Open Work Sumário 6978_Impulso_26.book Page 7 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM 11 27 35 47 59 97 MAURÍCIO LOURENÇÃO GARCIA 111 Existo, Penso. A filosofia e a questão do inconsciente: algumas indicações I am, I Think. Philosophy and the Unconscious: some indications EDSON OLIVARI DE CASTRO A Criança Especial na Psicanálise The Special Child in Psychoanalysis MÁRCIA CRISTINA MAESSO impulso 7 nº 25 129 139 6978_Impulso_26.book Page 8 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Sumário ............................... Artigos Gerais Fordismo e Toyotismo: mudanças no mundo do trabalho Ford and Toyota Systems: changes in the world of work ANA MARIA ROMANO CARRÃO 153 Ensino de Administração e o Perfil do Administrador: contexto nacional e o curso de administração da UNIMEP The Teaching of Administration and the Manager’s Profile: national context and the Administration Course at UNIMEP NÁDIA KASSOUF PIZZINATTO 173 ............................... Resenhas Crítica dos Fundamentos da Psicologia – A psicologia e a psicanálise, de Georges Politzer FRANKLIN WINSTON GOLDGRUB 193 A Inocência e o Vício – Estudos sobre o homoerotismo, de J. Freire Costa DANIELA MAULE BALBUENO 197 ............................... Comunicações dezembro 8 99 A Realidade Onírica Dream Reality OSCAR CESAROTTO 205 Periodismo Honesto Honest Journalism HERNÁN MALDONADO BORDA 209 6978_Impulso_26.book Page 9 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM impulso 9 dezembro 99 6978_Impulso_26.book Page 10 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM impulso 10 dezembro 99 6978_Impulso_26.book Page 11 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Que é a Psicologia?*1 What is Psychology? RESUMO – Neste texto, originado de uma conferência apresentada em 18 de dezembro de 1956 no Collège Philosophique (Paris) e publicado dois anos mais tarde, Georges Canguilhem propõem-se a discutir a psicologia, investigando a existência (ou não) de uma unidade de projeto que pudesse conferir sua unidade eventual aos diferentes tipos de disciplinas tidas então como psicológicas. Para responder à questão “Que é a psicologia?”, considera necessário esboçar uma história da psicologia. Mas enfatiza: “uma história considerada apenas nas suas orientações e relacionada com a história da filosofia e das ciências, uma história necessariamente teleológica, uma vez que destinada a transferir, para a interrogação proposta, o sentido originário suposto nas diversas disciplinas, métodos ou empreendimentos, cuja disparidade atual legitima essa pergunta”. Palavras-chave: psicologia – epistemologia da psicologia – história da psicologia. ABSTRACT – In this article, originally presented at a conference on December 18, 1956 at the Collège Philosophique (Paris) and published two years later, Georges Canguilhem discusses psychology by investigating the existence (or not) of a project unity that could confer its eventual unity to the different types of disciplines considered as psychological. In responding to the question “What is psychology?”, it is necessary to make a sketch of the history of psychology. But he emphasizes: “a history considered only in its orientations and relations with the history of philosophy and of sciences, a history which is necessarily teleological, since once destined to transfer, for the proposed question, the supposed original meaning of the diverse disciplines, methods or attempts, whose current disparity legitimates this question.” Keywords: psychology – epistemology of psychology – history of psychology. *1 Nota do Editor (N.E.): texto publicado originalmente na Revue de Métaphysique et de Morale (Paris, 1: 12-25, 1958), a partir de palestra proferida em 18 de dezembro de 1956, no Collège Philosophique de Paris. **N.E.: formado em medicina, o francês Georges Canguilhem (1904-1995) tornou-se um incomparável professor de filosofia; dedicado à instituição acadêmica, foi professor da Universidade de Strasbourg e da Sorbonne, na qual dirigiu o Instituto de História das Ciências. Deixou trabalhos profundamente originais em filosofia das ciências da vida. impulso 11 nº26 GEORGES CANGUILHEM** Trad. Osmyr Faria Gabbi Jr. 6978_Impulso_26.book Page 12 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A questão “Que é a psicologia?” aparenta ser mais incômoda para o psicólogo do que a questão “Que é a filosofia?” para o filósofo. Porque para a filosofia a interrogação sobre o seu sentido e a sua essência serve mais para constituí-la do que a define uma resposta a esta pergunta. O fato de a questão renascer incessantemente, por falta de uma resposta satisfatória, é, para aquele que gostaria de poder se dizer filósofo, uma situação de humildade e não de humilhação. Mas, para a psicologia, a questão sobre sua essência, ou, mais modestamente, sobre seu conceito, questiona ao mesmo tempo a existência do psicólogo, na medida em que sua incapacidade de responder exatamente sobre o que ela é torna-lhe bem mais difícil responder sobre o que ele faz. Só lhe resta, então, procurar em uma eficácia sempre discutível a justificativa de sua importância enquanto especialista, importância que ele não deploraria de nenhuma maneira com este ou aquele se ela engendrasse no filósofo um complexo de inferioridade. Quando se diz que a eficácia do psicólogo é discutível não se pretende dizer que ela seja ilusória; mas simplesmente assinalar que essa eficácia está sem dúvida mal fundamentada enquanto não se provar que ela resulta realmente da aplicação de uma ciência, ou seja, enquanto o estatuto da psicologia for fixado de maneira tal que se deve avaliá-lo mais como um empirismo heterogêneo que está codificado literariamente com vistas a ser transmitido. De fato, muitos dos trabalhos de psicologia dão a impressão de misturar uma filosofia sem rigor – porque eclética sob o pretexto de objetiva –, uma ética sem exigências – porque associa experiências etológicas sem criticá-las, a do confessor, a do educador, a do chefe, a do juiz etc. –, e uma medicina sem controle – porque dos três tipos de doenças menos inteligíveis e menos curáveis, doenças da pele, doenças nervosas e doenças mentais, o estudo e o tratamento das duas últimas sempre forneceram hipóteses e observações à psicologia. Portanto, parece que ao perguntar “Que é a psicologia?” coloca-se uma questão que não é nem impertinente nem fútil. Durante muito tempo procurou-se a unidade característica do conceito de ciência na direção de seu objeto. Este ditaria o método a ser utilizado no estudo de suas propriedades. Mas, no fundo, isso era limitar a ciência à investigação de um dado, à exploração de um domínio. Quando se tornou patente que toda ciência dá mais ou menos a si mesma seu dado e por essa razão apropria-se do que se chama seu domínio, o conceito de ciência progressivamente se deslocou de seu dezembro 12 99 6978_Impulso_26.book Page 13 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM objeto para seu método. Ou mais exatamente, a expressão “objeto de uma ciência” recebeu um sentido novo. O objeto da ciência não é mais somente o domínio específico de problemas, de obstáculos a resolver, é também a intenção e a visada do sujeito da ciência, é um projeto específico que constitui uma consciência teórica como tal. Pode-se responder à questão “Que é a psicologia?” ao ressaltar a unidade de seu domínio, apesar da multiplicidade de projetos metodológicos. É desse tipo a resposta brilhante dada pelo professor Daniel Lagache, em 1947, à questão formulada, em 1936, por Edouard Claparède2. A unidade da psicologia é procurada aqui em sua possível definição enquanto teoria geral da conduta: síntese da psicologia experimental, da psicologia clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia. Entretanto, quando se olha de perto, talvez se diga que essa unidade se assemelha mais a um pacto de coexistência pacífica acordado entre profissionais do que a uma essência lógica, obtida pela descoberta de uma constante numa variedade de casos. Das duas tendências entre as quais o professor Lagache procura um acordo sólido – a naturalista (psicologia experimental) e a humanista (psicologia clínica) –, tem-se a impressão que a segunda parece ter preponderância para ele. O que explica sem dúvida a ausência da psicologia animal nesse inventário das partes em litígio. Sem dúvida, vê-se claramente que ela está incluída na psicologia experimental – em grande parte uma psicologia de animais –, mas aquela a contém como material ao qual aplica seu método. Com efeito, uma psicologia só pode ser dita experimental em razão de seu método e não de seu objeto. Enquanto, a despeito das aparências, é mais pelo objeto do que por seu método que uma psicologia é dita clínica, psicanalítica, social, etnológica. Todos esses adjetivos são indicativos de um único e mesmo objeto: o homem, ser loquaz ou taciturno, ser social ou insocial. Assim sendo, pode-se rigorosamente falar de uma teoria geral da conduta enquanto não se resolver a questão de saber se há continuidade ou ruptura entre linguagem humana e linguagem animal, sociedade humana e sociedade animal? É possível que sobre esse ponto não caiba à filosofia decidir, mas à ciência, de fato, a numerosas ciências, incluindo a psicologia. Porém, nesse caso, a psicologia não pode, para definir-se, prejulgar o que ela é chamada a julgar. Sem o que, é inevitável que a psicologia, ao propor a si mesma como teoria geral da conduta, tome como sua alguma idéia sobre o homem. Então é preciso permitir à filosofia interrogar a psicologia de que lugar ela retira essa idéia e se não seria, no fundo, de alguma filosofia. 2 L’Unité de la Psychologie. Paris: PUF, 1949. impulso 13 nº26 6978_Impulso_26.book Page 14 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Desejamos abordar a questão fundamental apresentada por uma via oposta – uma vez que não somos psicólogo –, ou seja, investigar se há ou não uma unidade de projeto que poderia conferir sua unidade eventual aos diferentes tipos de disciplinas ditas psicológicas. Mas nosso procedimento de investigação exige um retorno temporal. Para investigar em relação ao que se sobrepõem os domínios, pode-se fazer sua exploração separada e sua comparação na atualidade (uma dezena de anos no caso do professor Lagache). Investigar se os projetos se interceptam exige que se explicite o sentido de cada um deles, não quando ele se perdeu no automatismo de sua execução, mas quando surge a partir da situação que o suscitou. Procurar responder à questão “Que é a psicologia?” torna-se para nós a obrigação de esboçar uma história da psicologia, mas, é preciso enfatizar, uma história considerada apenas nas suas orientações e relacionada com a história da filosofia e das ciências, uma história necessariamente teleológica, uma vez que destinada a transferir, para a interrogação proposta, o sentido originário suposto nas diversas disciplinas, métodos ou empreendimentos, cuja disparidade atual legitima essa pergunta. I – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA NATURAL Embora psicologia signifique do ponto de vista etimológico ciência da alma, é notável que uma psicologia independente esteja ausente, tanto como idéia quanto de fato, dos sistemas filosóficos da Antiguidade; nos quais, entretanto, a psique, a alma, é considerada um ser natural. Os estudos relativos à alma encontram-se divididos entre a metafísica, a lógica e a física. O tratado aristotélico Da Alma é na realidade um tratado de biologia geral, um dos escritos consagrados à física. Segundo Aristóteles, e de acordo com a tradição da escolástica, os cursos de filosofia do início do século XVII ainda tratam da alma num capítulo da física.3 O objeto desta é o corpo natural e organizado que contém a vida como potencialidade; logo, a física trata da alma como forma do corpo vivo, e não como substância separada da matéria. Desse ponto de vista, um estudo dos órgãos do conhecimento, ou seja, dos sentidos exteriores (os cinco usuais) e dos sentidos interiores (senso comum, fantasia, memória), não difere em nada do estudo dos órgãos da respiração ou da digestão. A alma é um objeto natural de estudo, uma forma na hierarquia das formas, ainda que sua função essencial seja o conhecimento das for3 Cf. Scipion Du Pleix. Corps de Philosophie contenant la Logique, la Physique, la Métaphysique el l’Ethique. Genève, 1636 (1éd, Paris, 1607). dezembro 14 99 6978_Impulso_26.book Page 15 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mas. A ciência da alma é um domínio da fisiologia no seu sentido original e universal de teoria da natureza. É dessa concepção antiga que se origina sem ruptura um aspecto da psicologia moderna: a psicofisiologia – considerada durante muito tempo exclusivamente psiconeurologia (mas atualmente também como psico-endocrinologia) – e a psicopatologia como disciplina médica. Dada essa relação, não parece ser supérfluo recordar que antes das duas revoluções que permitiram o aparecimento da fisiologia moderna, a de Harvey e a da Lavoisier, é devida a Galeno uma revolução de não menos importância que a teoria da circulação ou da respiração, quando ele estabelece, clínica e experimentalmente de acordo com os médicos da Escola de Alexandria, Herôfilos e Erasístratos, e contra a doutrina aristotélica, mas conforme as antecipações de Alcmêon, Hipócrates e Platão, que o cérebro, e não o coração, é o órgão das sensações e do movimento, o lugar da alma. Galeno funda verdadeiramente, durante séculos, uma filiação ininterrupta de pesquisas de pneumatologia empírica, cujo elemento fundamental é a teoria dos espíritos animais, destronada e substituída no fim do século XVIII pela eletroneurologia. Ainda que decididamente pluralista em sua concepção das relações entre funções psíquicas e órgãos encefálicos, Gall procede diretamente de Galeno e domina, apesar de suas extravagâncias, todas as pesquisas sobre localizações cerebrais durante os sessenta primeiros anos do século XIX, até o próprio Broca. Em suma, enquanto psicofisiologia e psicopatologia, a psicologia atual sempre recua até o século II. II – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA DA SUBJETIVIDADE O declínio da física aristotélica, no século XVII, assinala o fim da psicologia como parafísica, como ciência de um objeto natural, e correlativamente o nascimento da psicologia como ciência da subjetividade. Os físicos mecanicistas do século XVII são os verdadeiros responsáveis pelo aparecimento da psicologia moderna como ciência do sujeito pensante.4 Se a realidade do mundo não é mais confundida com o conteúdo da percepção, se a realidade é obtida e exposta pela redução das ilusões da experiência sensível usual, o resto qualitativo desta experiência, dado que é possível enquanto falsificação do real, envolve a responsabilidade própria do espírito, ou seja, do sujeito da experiência, 4 Cf. Aron Gurwitsch. Développement Historique de la Gestalt-Psychologie, in Thalès, IIe année, 1935, pp. 167-175. impulso 15 nº26 6978_Impulso_26.book Page 16 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tendo em vista que ele não se identifica com a razão matemática e mecanicista, instrumento da verdade e medida da realidade. Mas essa responsabilidade é censurável aos olhos do físico. Portanto, a psicologia é constituída como um empreendimento de remissão do espírito. Seu projeto é de uma ciência que, face à física, explique o motivo do espírito, à primeira vista, ser coagido, devido a sua natureza, a enganar a razão em relação à realidade. A psicologia faz-se física do sentido externo para dar conta dos contra-sensos que a física mecanicista imputa ao exercício dos sentidos na função cognitiva. A. A física do sentido externo Portanto a psicologia, ciência da subjetividade, começa como psicofísica por duas razões. Em primeiro lugar porque não pode ser menos do que uma física para ser levada a sério pelos físicos. Em segundo, porque deve procurar em uma natureza, ou seja, na estrutura do corpo humano, a razão da existência de resíduos irreais na experiência humana. Mas, entretanto, essas razões não implicam um retorno à concepção antiga de uma ciência da alma, ramo da física. A nova física é um cálculo. A psicologia tende a imitá-la. Ela procurará determinar as constantes qualitativas da sensação e as relações entre essas constantes. Aqui Descartes e Malebranche são os corifeus. Nas Regras para Direção do Espírito (XII), Descartes propõe a redução das diferenças qualitativas entre dados sensórios a uma diferença de figuras geométricas. Trata-se aqui de dados sensórios na medida em que são, no sentido próprio do termo, as informações de um corpo por um outro corpo; os sentidos externos informam um sentido interno, “a fantasia, que nada mais é que um corpo real e figurado”. Na Regra XIV, Descartes trata expressamente do que Kant chamará da grandeza intensiva das sensações (Crítica da Razão Pura, analítica transcendental, antecipação da percepção): as comparações entre luzes, entre sons etc., só podem ser convertidas em relações exatas por analogia com a extensão do corpo figurado. Se se acrescenta que Descartes, que não é exatamente nem o inventor do termo nem do conceito de reflexo, afirmou, no entanto, a constância de ligação entre a excitação e a reação, vê-se que uma psicologia, entendida enquanto física matemática do sentido externo, começa com ele para chegar em Fechner, graças ao apoio de fisiólogos como Hermann Helmholtz, apesar e contra as reservas kantianas, criticadas por sua vez por Herbart. Essa variedade de psicologia é ampliada por Wundt às dimensões de uma psicologia experimental, apoiada em seus trabalhos pela esperança de fazer aparecer, nas leis dos “fatos de consciência”, um deter- dezembro 16 99 6978_Impulso_26.book Page 17 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM minismo analítico do mesmo tipo daquele que a mecânica e a física permitem esperar de toda ciência de validade universal. Fechner morreu em 1887, dois anos da tese de Bergson, Ensaios sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889). Wundt faleceu em 1920, tendo formado muitos discípulos, dos quais alguns ainda estão vivos, e não sem ter assistido aos primeiros ataques dos psicólogos da Forma contra a física analítica do sentido externo, simultaneamente experimental e matemática, conforme as observações de Ehrenfels sobre as qualidades da forma (Über Gestaltqualitäten, 1890), observações aparentadas às análises de Bergson sobre as totalidades percebidas enquanto formas orgânicas que prevalecem sobre as partes supostas (Ensaio, cap. II). B. A ciência do sentido interno Mas a ciência da subjetividade não se reduz à elaboração de uma física do sentido externo; ela se propõe e se apresenta como a ciência da consciência de si ou a ciência do sentido interno. Data do século XVIII o termo psicologia no sentido de ciência do eu (Wolff). Toda a história dessa psicologia pode ser escrita como aquela dos contra-sensos, na qual as Meditações de Descartes, sem serem responsáveis, deram o motivo. Quando Descartes, no início da Terceira Meditação, considera seu “interior” para procurar torná-lo o mais conhecido e o mais familiar para si mesmo, essa consideração visa o pensamento. O interior cartesiano, consciência do Ego cogito, é o conhecimento direto que a alma tem de si mesma enquanto entendimento puro. As Meditações são chamadas por Descartes de metafísicas porque elas pretendem atingir diretamente a natureza e a essência do Eu penso na apreensão imediata de sua existência. A meditação cartesiana não é uma confidência pessoal. A reflexão que dá ao conhecimento do Eu o rigor e a impessoalidade das matemáticas não é aquela observação de si que os espiritualistas, no início do século XIX, tiveram a ousadia de tomar Sócrates como patrono, a fim de que o sr. Pierre-Paul Royer-Collard pudesse dar a Napoleão I a garantia de que o Conhece a ti mesmo, o cogito e a introspeção forneciam seu fundamento inexpugnável ao trono e ao altar. O interior cartesiano não tem nada em comum com o sentido interno dos aristotélicos “que concebem seus objetos interiormente e dentro da cabeça”5 e que, como se viu, Descartes considera como um aspecto do corpo (Regra XIII). Por essa razão Descartes diz que se co5 Scipion Du Pleix, op. cit., Physique, p. 439. impulso 17 nº26 6978_Impulso_26.book Page 18 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM nhece a alma direta e mais facilmente que o corpo. É uma afirmação acerca da qual se ignora muito freqüentemente a intenção explicitamente polêmica, uma vez que para os aristotélicos não se conhece a alma diretamente: “O conhecimento da alma não é de nenhuma maneira direto, mas apenas por reflexão; dado que a alma é semelhante a um olho que tudo vê e que só pode ver a si mesmo por reflexão como em um espelho (…) e a alma de modo semelhante não se vê e só se conhece por reflexão e pelo reconhecimento de seus efeitos”.6 Tese que suscita a indignação de Descartes quando Gassendi a retoma nas suas objeções contra a Terceira Meditação, e contra as quais ele responde: “Não é de nenhuma maneira nem o olho que vê a si próprio nem o espelho, mas o espírito, o único que conhece o espelho, o olho e a si próprio”. Ora, essa réplica decisiva não derrota esse argumento escolástico. Maine de Biran, mais de uma vez, utiliza-o contra Descartes em Memorial sobre a Decomposição do Pensamento. A. Comte invoca-o contra a possibilidade de introspeção, ou seja, contra esse método de conhecimento de si mesmo que Pierre-Paul Royer-Collard emprestou de Reid para fazer da psicologia a propedêutica científica da metafísica, ao justificar pela via experimental suas teses tradicionais, próprias do substancialismo espiritualista7. Mesmo Cournot, na sua sagacidade, não desdenha o argumento quando o retoma para apoiar a idéia de que a observação psicológica se refere mais à conduta do outro que à do eu do observador, de que a psicologia se aparenta mais à sabedoria do que à ciência e de que “é da natureza dos fatos psicológicos serem melhor traduzidos em aforismos que em teoremas”.8 Conheceu-se de forma equívoca o argumento de Descartes quando simultaneamente se constitui contra ele uma psicologia empírica como história natural do eu – de Locke a Ribot, passando por Condillac, os ideólogos franceses e os utilitaristas ingleses – e, segundo se acreditou, de acordo com ele, uma psicologia racional fundada sobre a intuição do Eu substancial. Kant tem ainda hoje a glória de ter estabelecido que, se Wolff pôde batizar esses recém-nascidos pós-cartesianos (Psicologia Empírica, 1732; Psicologia Racional, 1734), no entanto não conseguiu fundamentar suas pretensões de legitimidade. Kant mostra, de um lado, que o sentido interno fenomenal é apenas uma forma da intuição empírica, que tende a confundir-se com o tempo, e, de outro, que o eu, sujeito de todo juízo 6 Ibid., p. 353. 7 Cours de Philosophie positive. 1ère Leçon. 8 Essai sur les Fondements d enos Connaissances, 1851, §§ 371-376. dezembro 18 99 6978_Impulso_26.book Page 19 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM de apercepção, é uma função de organização da experiência, mas do qual não se poderia fazer ciência, dado que é a condição transcendental de toda ciência. Os Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza (1786) contestam que a psicologia possa ser uma ciência, seja à imagem das matemáticas, seja à imagem da física. Não há psicologia matemática possível no sentido em que há uma física matemática. Mesmo que se aplique às modificações do sentido interno, em virtude da antecipação da percepção relativa às grandezas intensivas, as matemáticas do contínuo, não se obterá nada de mais importante do que seria uma geometria limitada ao estudo das propriedades da linha reta. Também não há psicologia experimental no sentido em que a química se constitui através do uso da análise e da síntese. Não podemos realizar experiências nem sobre nós mesmos nem sobre o outro. Além do que, a observação interna altera seu objeto. Querer surpreender a si mesmo ao se observar conduziria à alienação. A psicologia só pode ser descritiva. Seu lugar verdadeiro é em uma Antropologia, como propedêutica a uma teoria da aptidão e da prudência, coroada por uma teoria da sabedoria. C. A ciência do sentido íntimo Se se chama psicologia clássica aquela que se pretende refutar, é preciso dizer que em psicologia há sempre clássicos disponíveis para qualquer um. Os ideólogos, herdeiros dos sensualistas, tomaram como clássica a psicologia escocesa que pregava, como eles, um método indutivo para poder melhor afirmar, contra eles, a substancialidade do espírito. Mas a psicologia atomista e analítica dos sensualistas e dos ideólogos, antes de ser rejeitada como psicologia clássica pelos teóricos da psicologia da Gestalt, já era tida como tal por um psicólogo romântico como Maine de Biran. Para ele, a psicologia torna-se a técnica do diário íntimo e a ciência do sentido íntimo. A solidão de Descartes é a ascese de um matemático; a de Maine de Biran, a ociosidade de um delegado. O Eu penso cartesiano fundamenta o pensamento em si; o Eu quero de Biran, a consciência para si contra a exterioridade. Em seu escritório calafetado, Maine de Biran descobre que a análise psicológica não consiste em simplificar, mas em complicar; que o fato psicológico primitivo não é elementar, porém uma relação, relação vivida em um esforço. Ele chega a duas conclusões, inesperadas em um homem cujas funções são de autoridade, ou seja, de comando: a consciência requer o conflito entre um poder e uma resistência; o homem não é, como pensou Bonald, uma inteligência servida por órgãos, mas uma organização viva servida por uma inteligência. É necessário que a alma es- impulso 19 nº26 6978_Impulso_26.book Page 20 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM teja encarnada, portanto, não há psicologia sem biologia. A observação de si mesmo não dispensa nem o recurso à fisiologia do movimento voluntário nem à patologia da afetividade. A situação de Maine de Biran é única entre os dois Royer-Collard: dialogou com o doutrinário e foi julgado pelo psiquiatra. Temos de Maine de Biran um Passeio com o sr. Royer-Collard nos Jardins de Luxemburgo e de Antoine-Athanase Royer-Collard, irmão caçula do primeiro, um Exame da Doutrina de Maine de Biran.9 Se Maine de Biran não tivesse lido e discutido Cabanis (Relações entre o Físico e o Moral no Homem, 1798) e Bichat (Pesquisas sobre a Vida e a Morte, 1800), a história da psicologia patológica tê-lo-ia ignorado, o que ela não pode. O segundo RoyerCollard é, depois de Pinel e junto com Esquirol, um dos fundadores da escola francesa de psiquiatria. Pinel havia defendido a idéia de que os alienados são simultaneamente doentes como os outros – nem possuídos nem criminosos – e diferentes dos outros, devendo, portanto, ser tratados separadamente dos outros e, de acordo com os casos, em serviços hospitalares especializados. Pinel fundou a medicina mental como disciplina autônoma a partir do isolamento terapêutico de alienados em Bicêtre e em Salpêtrière. Royer-Collard imita Pinel na Maison Nationale de Charenton, onde se tornou chefe dos médicos em 1805, o mesmo ano em que Esquirol defendeu sua tese de medicina sobre as “Paixões consideradas como causas, sintomas e meios de cura da alienação mental”. Em 1816, Royer-Collard torna-se professor de medicina legal na Faculdade de Medicina de Paris, depois, em 1821, primeiro titular da cadeira de medicina mental. Royer-Collard e Esquirol tiveram como aluno Calmeil, que estudou a paralisia entre os alienados, Bayle, que reconheceu e isolou a paralisia geral, e Félix Voisin, que iniciou o estudo do retardo mental em crianças. É em Salpêtrière que, depois de Pinel, Esquirol, Lelut, Baillarger e Falret, entre outros, Charcot torna-se em 1862 chefe de um serviço, cujos trabalhos serão continuados por Théodule Ribot, Pierre Janet, o cardeal Mercier e Sigmund Freud. Vimos que a psicopatologia começou de forma positiva com Galeno, vemos que ela conduz até Freud, criador em 1896 do termo psicanálise. A psicopatologia não se desenvolveu isolada de outras disciplinas psicológicas. Com base nas pesquisas de Biran, ela coage a filosofia a interrogar-se, há mais de um século, em qual dos dois RoyerCollard ela deve procurar a idéia que é preciso ter da psicologia. Assim, a psicopatologia é ao mesmo tempo juiz e parte do debate inin9 Publicado pelo seu filho Hyacinthe Royer-Collard (em Annales Médico-Psychologiques, 1843, tomo II, p.1). dezembro 20 99 6978_Impulso_26.book Page 21 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM terrupto que a metafísica legou à direção da psicologia, sem ter, aliás, renunciado a dizer sua palavra sobre as relações entre o físico e o psíquico. Essa relação foi formulada durante muito tempo como somatopsíquica antes de tornar-se psicossomática. Aliás, essa inversão é a mesma que operou na significação dada ao inconsciente. Se se identifica psiquismo e consciência – recorrendo de forma errada ou acertada à autoridade de Descartes –, o inconsciente é de ordem física. Se se pensa que o psiquismo possa ser inconsciente, a psicologia não se reduz à ciência da consciência. O psíquico não é tão-somente o que está escondido, mas o que se esconde, o que escondemos, o que não é mais apenas o íntimo, mas também – de acordo com um termo retirado por Bossuet dos místicos – o abissal. A psicologia não é apenas a ciência da intimidade, mas a ciência das profundezas da alma. III – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA DAS REAÇÕES E DO COMPORTAMENTO Maine de Biran, ao propor que se defina o homem como organização viva servida por uma inteligência, demarca de antemão – melhor, aparentemente, do que Gall, segundo o qual, de acordo com Lelut, “o homem não é mais uma inteligência, porém uma vontade servida por órgãos”10 – o terreno sobre o qual se constituirá no século XIX uma nova psicologia. Mas, ao mesmo tempo, ele assinala seus limites, visto que, na sua Antropologia, ele situa a vida humana entre a vida animal e a vida espiritual. O século XIX assiste à constituição – ao lado da psicologia como patologia nervosa e mental, como física do sentido externo, como ciência do sentido interno e do sentido íntimo – de uma biologia do comportamento humano. As razões desse evento nos parecem ser as seguintes. Inicialmente, razões científicas, a saber, a constituição de uma biologia como teoria geral das relações entre os organismos e os meios, o que marca o fim da crença na existência de um reino humano separado; em seguida, razões técnicas e econômicas, ou seja, o desenvolvimento de um regime industrial que dirige a atenção para o caráter industrioso da espécie humana, o que marca o fim da crença na dignidade do pensamento especulativo; por fim, razões políticas que se resumem no fim da crença em valores de privilégio social e na difusão do igualitarismo: o alistamento e a instrução pública tornam-se questão de Estado, a reivindicação de igualdade em relação às tarefas mi10 Qu’est-ce que la Phrénologie? ou Essai sur la signification et la valeur des systèmes de psychologie en général et de celui de Gall en particulier. Paris, 1836, p. 401. impulso 21 nº26 6978_Impulso_26.book Page 22 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM litares e às funções civis (a cada um de acordo com seu trabalho, suas obras ou seus méritos) é o fundamento real, ainda que freqüentemente despercebido, de um fenômeno próprio das sociedades modernas: a prática generalizada da especialização, entendida em sentido amplo enquanto determinação da competência e revelação da simulação. Ora, o que caracteriza, para nós, essa psicologia dos comportamentos em relação aos outros tipos de estudos psicológicos é sua incapacidade constitutiva de apreender e exibir com clareza seu projeto instaurador. Se, entre os projetos instauradores de alguns tipos anteriores de psicologia, uns podem passar por contra-sensos filosóficos, aqui, ao contrário, uma vez que se recusa toda relação com uma teoria filosófica, coloca-se a questão de saber de onde essa pesquisa psicológica pode retirar seu sentido. Ao aceitar-se que ela se torne, de acordo com o padrão da biologia, uma ciência objetiva das aptidões, das reações e do comportamento, essa psicologia e seus psicólogos esquecem totalmente de situar seu comportamento específico em relação às circunstâncias históricas e aos meios sociais nos quais foram levados a propor seus métodos ou técnicas e a tornar aceitáveis seus serviços. Nietzsche, ao esboçar a psicologia do psicólogo do século XIX, escreve: “Nós, psicólogos do futuro (…) consideramos quase como um signo de degeneração o instrumento que procura conhecer a si mesmo: somos os instrumentos do conhecimento e precisamos ter toda ingenuidade e precisão de um instrumento; conseqüentemente não temos o direito de analisar a nós mesmos, de nos conhecer”.11 Um mal-entendido espantoso, mas como é revelador! O psicólogo quer ser apenas um instrumento, sem procurar saber de quem ou do que é instrumento. Nietzsche parecia melhor inspirado quando se inclina, no início da Genealogia da Moral, sobre o enigma que os psicólogos ingleses representam, ou seja, os utilitaristas, preocupados com a gênese dos sentimentos morais. Ele se interrogou na ocasião sobre o que teria levado os psicólogos na direção do cinismo, isto é, na explicação das condutas humanas pelo interesse, utilidade e esquecimento dessas motivações morais. E eis que, diante da conduta dos psicólogos do século XIX, Nietzsche renuncia provisoriamente a todo cinismo, ou seja, a toda lucidez! A idéia de utilidade, como princípio de uma psicologia, resultava da tomada de consciência filosófica da natureza humana enquanto potência de artifício (Hume, Burke), mais prosaicamente, enquanto fabricante de ferramentas (os enciclopedistas, Adam Smith, Franklin). 11 La Volonté de Puissance. Trad. Blanquis, livro III, § 355. dezembro 22 99 6978_Impulso_26.book Page 23 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Mas o princípio da psicologia biológica do comportamento não parece ter sido desprendido, da mesma maneira, de uma tomada de consciência filosófica explícita; sem dúvida, porque só pôde ser posto em prática sob a condição de permanecer sem ser formulado. Esse princípio é a definição do próprio homem enquanto ferramenta. O utilitarismo, que implica a idéia de utilidade para o homem, a idéia do homem enquanto juiz da utilidade, foi sucedido pelo instrumentalismo, que implica a idéia da utilidade do homem, a idéia do homem como meio da utilidade. A inteligência não é mais aquilo que fez os órgãos e serve-se deles, porém o que serve aos órgãos. Não é impunemente que as origens históricas da psicologia das reações devem ser procuradas nos trabalhos suscitados pela descoberta da equação pessoal própria aos astrônomos que utilizam o telescópio (Maskelyne, 1796). O homem foi inicialmente estudado enquanto instrumento do instrumento científico antes de o ser enquanto instrumento de todo instrumento. As pesquisas sobre as leis de adaptação e da aprendizagem, sobre a relação entre aprendizagem e as aptidões, sobre a detecção e a mensuração de aptidões, sobre as condições de rendimento e de produtividade (quer se trate de indivíduos, quer de grupos) – pesquisas inseparáveis de suas aplicações em seleção ou orientação – admitem todas um postulado comum e implícito: a natureza do homem é ser um instrumento, sua vocação é ser colocado em seu lugar, em sua tarefa. Nietzsche, sem dúvida, tem razão quando diz que os psicólogos querem ser os “instrumentos ingênuos e precisos” desse estudo do homem. Eles se esforçaram para chegar a um conhecimento objetivo, mesmo se o determinismo que procuram nos comportamentos não seja mais hoje em dia o determinismo de tipo newtoniano, familiar aos primeiros físicos do século XIX, mas um determinismo estatístico, progressivamente baseado nos resultados da biometria. Mas qual é, enfim, o sentido desse instrumentalismo de segunda potência? O que leva ou inclina os psicólogos a tornar-se, entre os homens, os instrumentos da ambição de tratar o homem como instrumento? Nos outros tipos de psicologia, a alma ou o sujeito, forma natural ou consciência de interioridade, é o princípio que se dá para justificar enquanto valor uma certa idéia de homem em relação à verdade das coisas. Todavia para uma psicologia na qual a palavra ‘alma’ faz fugir e a palavra ‘consciência’ faz rir, a verdade do homem está dada pelo fato de que não há mais nenhuma idéia de homem enquanto valor diferente daquela de um instrumento. Ora, deve-se reconhecer que é impulso 23 nº26 6978_Impulso_26.book Page 24 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM preciso, para que se possa questionar a idéia de um instrumento, que nem todas as idéias sejam da ordem de um instrumento, e que é preciso exatamente, para que se possa atribuir algum valor a um instrumento, que nem todos os valores sejam o de um instrumento, cujo valor subordinado consiste em encontrar um outro. Por conseguinte, se o psicólogo não esgota o seu projeto de psicologia em uma idéia de homem, acredita ele que possa legitimá-lo através de seu comportamento de utilização do homem? Nós dizemos claramente: através de seu comportamento de utilização, apesar de duas objeções possíveis. Com efeito, podemos ser advertidos, de um lado, que esse tipo de psicologia não ignora a distinção entre teoria e aplicação; de outro, que a utilização não é feita pelo psicólogo, mas por aquele ou aqueles que lhe pedem relatórios ou diagnósticos. Responderemos que, a não ser que se confunda o teórico da psicologia com o professor de psicologia, é preciso reconhecer que o psicólogo contemporâneo é, na maior parte das vezes, um praticante profissional cuja “ciência” é na sua inteireza inspirada pela pesquisa de “leis” de adaptação a um meio sócio-técnico – e não a um meio natural –, o que sempre confere a suas operações de “medida” um significado de avaliação e uma importância de especialista. De modo que o comportamento do psicólogo do comportamento humano encerra, de forma quase obrigatória, uma convicção de superioridade, uma boa consciência diretora, uma mentalidade de dirigente das relações entre os homens. Por essa razão, é preciso colocar a questão cínica: quem designa os psicólogos como instrumentos do instrumentalismo? Como se reconhecem os homens dignos de atribuir ao homem instrumental seu papel e sua função? Quem orienta os orientadores? Evidentemente não nos colocaremos no terreno das capacidades e da técnica. A questão não é saber se há bons ou maus psicólogos, ou seja, técnicos hábeis que aprenderam ou incapazes que fazem tolices não previstas pela lei. A questão é que uma ciência ou uma técnica científica não contém por si só qualquer idéia que lhe confira seu sentido. Na sua Introdução à Psicologia, Paul Guillaume fez a psicologia do homem submetido a um teste. O testado defende-se contra essa investigação, teme que se exerça sobre ele uma ação. Guillaume vê nesse estado de espírito um reconhecimento explícito de um reconhecimento implícito da eficácia do teste. Mas também se poderia ver aí um embrião da psicologia do testador. A defesa do testado é a repugnância em se ver tratado como um inseto por um homem a quem ele não reconhece nenhuma autori- dezembro 24 99 6978_Impulso_26.book Page 25 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dade para lhe dizer o que é e o que deve fazer. “Tratar como um inseto”, a palavra é de Stendhal, que a tomou emprestada de Cuvier.12 E se nós tratarmos o psicólogo como um inseto; se nós aplicarmos, por exemplo, a recomendação de Stendhal ao morno e insípido relatório Kinsey? Dito de outra maneira, a psicologia da reação e do comportamento, nos séculos XIX e XX, acreditou que se tornaria independente ao separar-se de toda filosofia, ou seja, da especulação que pesquisa uma idéia de homem para além do horizonte dos dados biológicos e sociológicos. Mas essa psicologia não pode evitar a recorrência de seus resultados sobre o comportamento daqueles que os obtêm. A questão “Que é a psicologia?”, na medida em que se interdita a psicologia de procurar sua resposta, torna-se “Onde querem chegar os psicólogos fazendo o que fazem? Em nome de quem se declaram psicólogos?”. Quando Gedeão recrutou o comando dos israelitas e chefiando-os repele os madianitas para além do Jordão, ele utiliza um teste em duas etapas que lhe permite, inicialmente, escolher dez mil homens entre trinta e dois mil, e depois trezentos entre os dez mil. Mas este teste é devedor do Eterno, tanto em relação ao objetivo de sua utilização quanto ao procedimento de seleção usado. Para selecionar um selecionador, é preciso normalmente transcender o plano dos procedimentos técnicos de seleção. Dada a imanência da psicologia científica, permanece a questão: quem tem, não a competência, mas a missão de ser psicólogo? A psicologia repousa realmente sobre um desdobramento – que não é mais aquele da consciência de acordo com os fatos e as normas que a idéia de homem comporta –, uma massa de “sujeitos” e uma elite corporativa de especialistas que investem a si mesmos de sua própria missão. Em Kant e em Maine de Biran, a psicologia está situada em uma antropologia, ou seja, apesar da ambigüidade, atualmente muito em voga desse termo, em uma filosofia. Em Kant, a teoria geral da habilidade humana permanece relacionada a uma teoria da sabedoria. A psicologia instrumentalista apresenta-se como uma teoria geral da habilidade, fora de qualquer referência à sabedoria. Se não podemos definir essa psicologia por uma idéia de homem, ou seja, situá-la dentro da filosofia, certamente não temos o poder de interditar a quem quer que seja de se dizer psicólogo e de chamar psicologia ao que faz. Mas ninguém pode mais interditar a filosofia de continuar a interrogar-se 12 “Ao invés de odiar o pequeno livreiro da cidade vizinha que vende o Almanaque Popular, dizia eu ao meu amigo Senhor de Ranvelle, aplique-lhe o velho remédio indicado pelo célebre Cuvier; trate-o como inseto. Investigue seus meios de subsistência, procure adivinhar suas formas de acasalamento” (Mémorires d’un Touriste, ed. Calmann-Lévy, tomo II, p. 23). impulso 25 nº26 6978_Impulso_26.book Page 26 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sobre o estatuto mal definido da psicologia, tanto do lado das ciências como do lado das técnicas. A filosofia, quando procede assim, conduz-se de acordo com sua ingenuidade constitutiva, tão pouco assemelhada ao simplismo que não exclui um cinismo provisório, o que a leva a voltar-se mais uma vez para o lado popular, ou seja, para o lado natural dos não-especialistas. Por conseguinte, é de forma muito vulgar que a filosofia interroga a psicologia e diz: para aonde ides, para que eu saiba quem sois? Mas o filósofo também pode dirigir-se ao psicólogo sob a forma de um conselho – uma única vez não cria o hábito – e dizer: quando se sai da Sorbonne pela rua Saint-Jacques pode-se subi-la ou descê-la; quando se sobe, chega-se ao Panteão, o Conservatoire de alguns grandes homens, mas quando se desce, certamente se chega à delegacia de polícia. dezembro 26 99 6978_Impulso_26.book Page 27 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Pequenas Notas a “Que é a Psicologia?” Small Notes to “What is Psychology?” RESUMO – A séria crítica de Canguilhem à psicologia também pode ser estendida tanto à psicanálise de Freud quanto a de Lacan. Apontamos algumas das questões que deveriam ser elucidadas antes de realizar essa tarefa. Palavras-chave: psicologismo – epistemologia da psicanálise – inconsciente. ABSTRACT – The serious critique of psychology by Canguilhem can be extended also to Freud and Lacan’s psychoanalysis. We designate some of the problems that should be elucidated before undertaking such a task. Keywords: psychologism – epistemology of psychoanalysis – unconscious. impulso 27 nº26 OSMYR FARIA GABBI JR. Departamento de Filosofia da Unicamp [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 28 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Kant tem ainda hoje a glória de ter estabelecido que, se Wolff pôde batizar estes recém-nascidos pós-cartesianos (Psicologia Empírica, 1732; Psicologia Racional, 1734), no entanto não conseguiu fundamentar suas pretensões de legitimidade.1 E ssa conferência de Georges Canguilhem que apresentamos pela primeira vez para o público brasileiro é um marco para a epistemologia da psicologia. Enquanto as objeções que ela coloca à possibilidade da psicologia não forem adequadamente respondidas, pesa contra todo e qualquer projeto psicológico a tríplice objeção: medicina sem controle, ética sem exigências, filosofia sem rigor. Todas nascem de uma mesma suspeita e apresentam uma mesma origem. Para entendê-la, é preciso atentar para o fato de o horizonte da crítica esboçada por Canguilhem ser delineado pela tese kantiana sobre a impossibilidade de fundamentar de modo científico qualquer psicologia, seja ela assemelhada à psicologia racional, seja à psicologia empírica. No primeiro caso confunde-se a condição da experiência com a própria experiência, e assim tenta-se fazer ciência da coisa de si.2 No segundo, não se leva em conta que as categorias da psicologia são históricas e assim não podem ser nem universais, nem necessárias, condição básica para todo projeto que se pretenda científico.3 Se a psicologia fosse uma ciência, ela não seria de forma intrínseca uma ética, uma vez que para Kant a questão do conhecimento e a questão ética estão em esferas distintas e envolvem usos distintos da Razão. Canguilhem, sem duvidar de que a psicologia seja eficaz – mas visto que, de maneira minimamente consensual, ela não é ciência de fato –, interroga-se sobre a origem dessa eficiência. Acreditamos que a conferência pretenda mostrar, entre outros pontos,4 que essa eficácia reside na operação que transforma normas éticas derivadas de certas Que é a Psicologia?, p. 18, desta revista. Algo semelhante a confundir estudos sobre fundamentos da matemática com pesquisas sobre a forma pela qual as crianças aprendem a tabuada. 3 A psicologia, no melhor dos mundos possíveis, pode dizer-nos algo sobre como os homens em uma certa sociedade, em um tempo histórico preciso, em uma determinada classe social compreendiam a si mesmos e aos outros. Toda tentativa de tornar esses ensinamentos universais é enganosa. Ela opera a famosa substituição sublinhada pelos marxistas: substitui a história pela psicologia. Nesse sentido, não faz mais do que os desenhos americanos que encontram a mesma família americana de classe média tanto no futuro longínquo como na pré-história. 4 Um dos outros pontos é exibir a natureza antifilosófica da psicologia como ciência das reações e do comportamento. 1 2 dezembro 28 99 6978_Impulso_26.book Page 29 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM práticas antropológicas inerentes à psicologia em enunciados científicos fictícios.5 Assim, a mutação do “deve ser”, presente na norma, em um “é” descritivo que teria o aval de ciência – porém não tem – leva toda concepção psicológica a ser uma ética sem exigências, justamente porque se ignora enquanto tal, ou seja, sua eficácia decorreria de ser uma ética transfigurada em saber efetivo. Na tentativa inglória de obter esse aval de efetividade, a psicologia recorre, sem se dar conta, a fragmentos de diferentes filosofias, recolhidos de tal maneira que perdem sua história e especificidade, e conseqüentemente ela desemboca em numerosos contra-sensos filosóficos, no seu reconhecido ecletismo filosófico, ou seja, em filosofia sem rigor. Passados cem anos da publicação de Traumdeutung, podemos encontrar as mesmas dificuldades na psicanálise de Freud? A resposta, como indicaremos adiante, parece ser afirmativa. Entretanto, para alguns simpatizantes da psicanálise de Lacan, elas não parecem existir.6 A razão para tanto otimismo pode estar na tentativa de Lacan de pensar uma psicanálise liberada de quaisquer traços de psicologismo. Esta doutrina perniciosa pode ser definida provisoriamente como toda tentativa de reduzir as entidades psicanalíticas, tais como, por exemplo, o inconsciente, a estados ou atividades mentais. Portanto, entendemos os esforços de Lacan de conceituar o inconsciente enquanto discurso do Outro, entre tantos outros, como uma forma de remover o psicologismo, patente em Freud. Mas realmente basta removê-lo para que uma psicanálise assim depurada esteja livre das críticas formuladas por Canguilhem? Se nos voltarmos para Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse,7 encontramos como obstáculos a uma teoria psicanalítica fundamentada na função da palavra a pedagogia maternal, a ajuda samaritana e a mestria dialética.8 No entanto, mesmo que aceitemos que a psicanálise de Lacan não vise promover a cura, que ela reconheça a dimensão ética em que se move, que, no limite, seja entendida qua teoria ética, e que ela, de alguma maneira – supondo que pos5 A psicologia é considerada uma ética sem exigências “porque associa experiências etológicas sem criticálas, a do confessor, a do educador, a do chefe, a do juiz etc.”, Ibid, p. 12. Em outras palavras, essas experiências não aparecem como são, elas são descritas de tal maneira que se tornam inerentes ao desempenho profissional do psicólogo, desempenho esse que seria justificado pelo fato de a psicologia ser uma “ciência”. Assim, por exemplo, na psicologia clínica, se o “paciente, cliente ou analisando” vê a relação entre ele e o “o clínico, o conselheiro ou o analista” como ela é realmente, ou seja, como assimétrica, essa visão é decodificada “cientificamente” como sintoma. 6 A conferência de Canguilhem, proferida em 18 de dezembro de 1956 e publicada em 1958 na Revue de Métaphysique et de Morale em 1958, foi reeditada em 1966 pelo Cahiers pour l’Analyse. 7 O chamado Discurso de Roma, proferido na Universidade de Roma nos dias 26 e 27 de setembro de 1953 por Lacan, é um divisor de águas na tentativa de conceber uma psicanálise com inconsciente, porém sem psicologismo (LACAN, J. Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse. In Écrits, Paris: Seuil, 1966, pp. 237-322). impulso 29 nº26 6978_Impulso_26.book Page 30 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sa ser lida dessa forma apropriada –, possa ter seu horizonte filosófico perfeitamente equacionado, escaparemos, assim, às críticas de Kant em relação à possibilidade de uma psicologia científica? Afinal, está aqui o nó da questão. Não pretendemos desatá-lo, mas apenas ressaltar alguns dos nós prévios que precisam ser desfeitos para quem se dê a esta tarefa hercúlea e temerária. AS REFERÊNCIAS DE CANGUILHEM À PSICANÁLISE A psicanálise presente na descrição de Canguilhem sobre os projetos filosóficos é inequivocamente a de Freud. Segundo ele, essa teoria estaria localizada na interseção de dois projetos bastante distintos: enquanto psicopatologia, remontaria ao século II, a Galeno; ou seja, estaria ligada ao projeto de constituição de uma psicologia enquanto ciência natural. Mas também teria como origem a tentativa de fundar uma psicologia como ciência da subjetividade. Nessa última derivação, a psicanálise teria operado a passagem de um inconsciente físico para um inconsciente psicológico,9 de modo a pensar que “O psíquico não é tãosomente o que está escondido, mas o que se esconde, o que escondemos, o que não é mais apenas o íntimo, mas também – de acordo com um termo retirado por Bossuet dos místicos – o abissal. A psicologia não é apenas a ciência da intimidade, mas a ciência das profundezas da alma”.10 Na medida em que a psicologia como ciência da subjetividade nasce da tentativa de explicar o motivo de a razão enganar-se em relação à realidade,11 a teoria psicanalítica pode ser entendida como aquela que encontra esse motivo na oposição entre a consciência cognitiva e a consciência moral.12 Essa dupla inserção da psicanálise é problemática. Sem examinar a questão prévia de saber se as condições epistemológicas a serem satisfeitas para que ambos os projetos sejam considerados científicos são as mesmas, pode-se entender, sem muito esforço, que no primeiro 8 Não é um exercício inútil tentar articular esses três obstáculos com três dos quatro discursos que Lacan distinguiu mais tarde (ver LACAN, J. Le Seminaire, Livre xx: Encore. Paris: Seuil, 1975): o da universidade, o da histérica e o do mestre. Ou seja, é interessante procurar mostrar como esses três discursos, presentes nas práticas analíticas que Lacan critica, impedem o único discurso que seria produtor da verdade no registro do simbólico: o discurso do analista. 9 Pode-se apreender essa passagem no significado de inconsciente em Entwurf einer Psychologie (FREUD, S. GW, Nachtragsband, pp. 373-477). Aliás, a grande novidade de Freud é considerar que sintomas psicológicos podem ter causas psicológicas – mesmo sabendo que, em última análise, elas são fisiológicas – e tratálos como se tivessem efetivamente causas psicológicas. O preço a ser pago para tanto é romper com a identidade entre o psíquico e a consciência. 10 CANGUILHEM, op. cit., p. 20. 11 Ibid., pp. 15-16. 12 A psicanálise de Freud até 1920 compreende o sintoma como uma má representação construída a partir da oposição entre essas duas consciências. Em outras palavras, a questão cognitiva é mediada pela questão ética. No entanto, os limites da ética freudiana são os limites de toda concepção naturalista da moral. dezembro 30 99 6978_Impulso_26.book Page 31 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM caso estamos tratando com causas e no segundo com motivos. Não há sentido em falar em causas inconscientes, mas sem dúvida é razoável expressar-se em termos de motivos inconscientes.13 Muitos comentadores referem-se a essa característica problemática da psicanálise de Freud: uma contínua passagem de um vocabulário causal para um vocabulário intencional, e vice-versa.14 Essa passagem já está presente em Studien über Hysterie, de 1895. Nesta obra podemos constatar uma diferença marcante entre o caso de Emmy von N. e todos os outros casos clínicos descritos. No primeiro, é possível ater-se a um modelo causal e patológico para que o caso se torne inteligível. A história da paciente só é relevante para apresentação dos seus sintomas e para a descrição dos procedimentos utilizados. Nos outros casos, a história das pacientes é essencial para a compreensão da gênese dos próprios sintomas. Em outras palavras, passa-se de uma dimensão causal para uma dimensão intencional.15 Por conseguinte, quem desejar submeter a psicanálise de Freud às mesmas críticas formuladas por Canguilhem – seja para rejeitá-las, seja para aceitá-las – deve inicialmente se interrogar se é viável manter as duas dimensões ou se é preciso optar entre elas. Para os que se inclinarem pela hipótese de que é vital contemplar as duas dimensões, a tarefa será mostrar a possibilidade de construir, sem gerar paradoxos, uma máquina intencional.16 Caso tenham sucesso, o nó seguinte a ser desatado é apontar como essa teoria seria capaz de fazer predições – esta é a característica marcante de uma ciência sem adjetivos – apesar do seu caráter intencional.17 A opção pela dimensão causal parece ser a menos interessante, pois, além de não poder assimilar uma parte relevante da teoria freudiana, também fracassa na tentativa de mostrar 13 Podemos ter a pretensão de estender a nossa responsabilidade ao inconsciente, mas não a eventos naturais. Uma das premissas da ciência moderna é o abandono de qualquer teleologia no plano da natureza, ou seja, já faz algum tempo que não atribuímos intenções aos eventos naturais. 14 Ver, por exemplo, BOUVERESSE, J. Philosophie, Mythologie et Pseudo-Science: Wittgenstein lecteur de Freud. Combas: Éditions de L’Éclat, 1991, em especial o quarto capítulo, pp. 82-96. 15 O próprio Freud assinala que os seus casos se assemelham mais a contos do que a casos clínicos: “Nem sempre fui um psicoterapeuta (…) e ainda me impressiona de forma peculiar que os históricos de caso que escrevo são para ser lidos como contos e que lhes falta, por assim dizer, a estampa séria do que é científico.” GW, I. Frankfurt: S.Fischer, 1977, p. 227. 16 Acreditamos que, pelo menos até 1920, a psicanálise de Freud possa ser reconstruída como a tentativa de formular de modo consistente uma teoria do aparelho psíquico enquanto máquina intencional. Essa máquina também padece desse mesmo engano assinalado por Canguilhem em relação à psicologia como ciência da subjetividade: transforma a teoria da conhecimento que se origina em Descartes em teoria empírica quando constitui uma história natural do eu (Ich). 17 A psicanálise parece ser construída de forma a fazer retrodições e não predições, ou seja, a teoria não seria capaz de prever, mas apenas de justificar as ações de um agente. Se houver acordo sobre este ponto, a tarefa desloca-se para mostrar que teorias desse tipo podem ser científicas; demonstração que não é de nenhuma maneira trivial. Se, por outro lado, a teoria fosse capaz de prever, ela não poderia conter numa dimensão intencional sem gerar paradoxos, pois ou a teoria preveria intenções e estas não seriam mais intenções ou a teoria não seria capaz de prever intenções e, por conseguinte, não preveria. impulso 31 nº26 6978_Impulso_26.book Page 32 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sua adequação a padrões reconhecidos de cientificidade. Resta priorizar a dimensão intencional, como ocorre por exemplo com Lacan. A PSICANÁLISE DE LACAN Estamos supondo que, se não for possível provar sua cientificidade, a psicanálise é passível de cair sob a tríplice objeção formulada por Canguilhem. Assim, para que se revele isenta de tal crítica – como querem alguns simpatizantes da psicanálise lacaniana –, é preciso indicar os motivos pelos quais o afastamento do psicologismo, por parte de Lacan, estariam ligados ao projeto de uma psicanálise realmente científica. Para entendê-los, basta recordar as críticas de Politzer contra a psicologia clássica.18 Essa crítica – igualmente inspirada em Kant –, pode ser resumida em poucas palavras: a psicologia padece de um profundo engano, pois ela resulta da transformação indevida da teoria do conhecimento que nasce com Descartes em teoria empírica.19 Assim, a psicologia teria abandonado o estudo dos atos de homens concretos para consagrar-se à análise de processos abstratos, ela tentaria ser a impossível ciência da coisa em si. No caso de Freud, Politzer acredita que seria justamente a teoria sobre o inconsciente que levaria a psicanálise para o caminho da psicologia clássica, o que contraria a sua tendência, presente na clínica, de ser uma psicologia concreta no sentido de privilegiar a dimensão intencional. O psicologismo de Freud estaria presente na sua metapsicologia, na sua teoria do aparelho psíquico que, pelo menos até 1920, é uma teoria da representação. Por conseguinte, um dos nós a desatar consiste em estudar as relações entre Politzer e Lacan, de modo a mostrar que a crítica do segundo ao modelo representativo da psicanálise clássica seria feita no sentido da crítica do primeiro a Freud. Em outras palavras, Lacan teria suposto que a remoção do psicologismo da teoria psicanalítica abriria o caminho para uma psicanálise científica. Removê-lo significaria afastar as cinco teses da psicologia clássica sobre o fato psicológico: a tese de que a forma última do psicológico seria atomista (T1); de que o psicológico é apreendido de forma imediata pela percepção (T2); de que o psicológico é de natureza representativa (T3); de que o psicológico é o que resulta de processos, e não de atos concretos de agentes (T4); e finalmente de que a função da palavra é denotar o psicológico (T5). Assim, outro nó para ser desatado é certificar-se se é possível mostrar que a psicanálise lacaniana pode ser concebida enquanto crítica a essas cinco teses da psiPOLITZER, G. [1928] Crítica dos Fundamentos da Psicologia. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1998. Como bem observa Canguilhem, “A meditação cartesiana não é uma confidência pessoal”, ou seja, ela não é de natureza empírica, mas metafísica. Op. cit., p. 17. 18 19 dezembro 32 99 6978_Impulso_26.book Page 33 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM cologia clássica. Um outro ainda, talvez mais árduo, consiste em verificar se a remoção dessas teses é suficiente para garantir a possibilidade de uma psicanálise realmente científica. CONCLUSÃO Como qualquer leitor atento de “Que é a Psicologia?” pode constatar, essa conferência é plena de pistas e sugestões para pensar a psicologia nas suas mais diversas formas. No nosso caso, foi a oportunidade para apresentar algumas reflexões epistemológicas sobre a psicanálise de Freud e de Lacan. impulso 33 nº26 6978_Impulso_26.book Page 34 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 34 99 6978_Impulso_26.book Page 35 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Escrita do Capítulo I do “Livro dos Sonhos”: Freud, Leitor de seu Tempo The writing of Chapter I of the Book on Dreams: Freud, a Reader of his Time RESUMO – A correspondência de Sigmund Freud com Wilhelm Fliess é um vasto arquivo para investigação do processo de escrita do livro A Interpretação dos Sonhos. Através do registro epistolar, com freqüência cotidiana, Freud narra as dificuldades que enfrentou na edificação da teoria psicanalítica: o processo de deslindar a estrutura das neuroses conduziu-o aos problemas relativos à formação onírica. O presente ensaio tem como objetivo acompanhar pelas cartas, a escrita do capítulo I “A Literatura Científica que trata dos Problemas dos Sonhos”. Por exigência de Fliess, Freud assumiu a árdua tarefa de preparar esse capítulo, que, ao final, revelou-se um entrave para os leitores. Nossa posição é demonstrar que o capítulo I é apropriado para revelar o leitor Freud na demarcação de seu campo teórico pelos embates com a literatura científica e filosófica de seu tempo. Palavras-chave: cartas de Freud a Fliess – psicanálise – sonhos – sintomas. ABSTRACT – Sigmund Freud’s correspondence with Wilhelm Fliess is a vast file for investigating the process of writing the book The Interpretation of Dreams. Through this registered epistle, Freud narrated daily the difficulties that he faced in the construction of psychoanalytic theory: the process of discovering the structure of neuroses drove him to the problems related to dream formation. The present article aims to follow the letters he wrote while writing chapter I “The Scientific Literature About the Problems of Dreams”. Because of Fliess’ demands, Freud assumed the arduous task of preparing this chapter that, ultimately, has revealed itself as a problem for readers. Our position is to demonstrate that chapter I is appropriate in revealing Freud as a reader in the demarcation of its theoretical field through the debates with the scientific and philosophical literature of his time. Keywords: letters from Freud to Fliess – psychoanalysis – dreams – symptoms. impulso 35 nº26 MÁRCIO MARIGUELA Doutorando em Filosofia (Unicamp), analista praticante, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Campinas e professor da Faculdade de Filosofia História e Letras (UNIMEP) [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 36 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A INTRODUÇÃO correspondência de Sigmund Freud com Wilhelm Fliess transcorreu no período de 1887 a 1904. O histórico da relação entre ambos é marcado por avatares que atravessam a esfera das afinidades eletivas, do âmbito familiar de descrição cotidiana, alojando-se no cenário da construção da psicanálise. Dois aspectos na escrita do livro A Interpretação dos Sonhos podem ser verificados com propriedade no conjunto das cartas: os problemas relativos à montagem do aparelho psíquico, como apresentado no capítulo VII, “A Psicologia dos Processos Oníricos”, e as dificuldades que Freud enfrentou na pesquisa bibliográfica para a definição do capítulo I, “A Literatura Científica que trata dos Problemas dos Sonhos”. O propósito deste ensaio limita-se a acompanhar o segundo aspecto. A primeira versão das cartas que Freud enviou a seu amigo foi publicada em 1950. As informações biográficas atestam que Freud destruiu as cartas que Fliess enviou-lhe. Em 1928, após a morte de Fliess, sua esposa decide vender o material, juntamente com toda a biblioteca, a Reinhold Stahl, escritor e negociante de obras de arte de Berlim. Ao todo, a coleção era composta por 284 cartas, mais os rascunhos de trabalhos que Freud desenvolvia no período. Por sua condição judaica, Stahl refugia-se em Paris em decorrência do regime nazista. Lá procura Marie Bonaparte para negociar a venda das cartas, com a estrita condição de que não fossem parar nas mãos de Freud, que certamente iria destruí-las. Numa carta à Freud de 30/12/1936, ela comunica a compra do lote por 12 mil francos, impedindo assim que esse material fosse parar na América do Norte: “Para que permaneçam na Europa e em minhas mãos, ele chegou até a conceder-me um preço mais baixo (...) Estou contentíssima por ter podido fazer isso, pois lamentaria ver tudo exposto ao mundo em geral. Não há dúvida de que o material é seu. Afinal, conheço sua letra!”.1 Freud respondeu: “Nossa correspondência foi a mais íntima que você possa imaginar. Seria altamente embaraçoso que viesse a cair nas mãos de estranhos. Assim, é uma extraordinária obra de amor que você as tenha conseguido e livrado do perigo (...). Não quero que nenhuma delas seja conhecida pela chamada posteridade”.2 Marie Bonaparte convence Freud que as cartas e os rascunhos são um valioso arquivo para estudos sobre as origens da psicanálise. Ele insistia na necessidade de destruir o material pois, “considerando 1 2 Apud MASSON, 1986, p. 7. MASSON, 1986, p. 7. dezembro 36 99 6978_Impulso_26.book Page 37 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM a natureza íntima de nosso relacionamento, é claro que essas cartas versam sobre tudo e nada, sobre questões factuais e pessoais. As questões factuais dizem respeito a todos os palpites e pistas falsas ligadas ao nascimento da análise, e desse modo são também bastante pessoais”.3 Por que Freud afirma serem falsas as pistas que conduzem aos problemas centrais no processo histórico de construção da psicanálise? Certamente, as “questões factuais” referem-se ao percurso de Freud na montagem de sua psicologia dos processos oníricos em toda sua ramificação, desde o manuscrito Projeto de uma Psicologia, enviado à Fliess em 1895, até a publicação de A Interpretação dos Sonhos, em novembro de 1899. No entanto, o caráter íntimo dos escritos é a grande preocupação de Freud, daí seu desejo de impedir que viesse a público. Na célebre biografia de Freud, Ernet Jones narra o percurso das cartas adquiridas por Marie Bonaparte. Afirma que ela “teve a coragem de desafiar seu analista e mestre e as depositou no Banco Rothschild, em Viena, durante o inverno de 1937-1938, com a intenção de estudá-las melhor quando retornasse no verão seguinte”.4 A saga do material é contada pelos percalços da expansão nazista pela Europa: de banco em banco, as cartas chegaram intactas em Londres. Anna Freud e Ernest Kris fizeram uma rigorosa seleção e publicaram 168 delas. Definiram o seguinte critério: “A seleção foi feita com base no princípio de tornar público tudo aquilo que se relaciona com a obra e com os interesses científicos do autor, bem como tudo o que se refere às condições sociais e políticas em que se originou a psicanálise, e de omitir ou abreviar tudo aquilo cuja publicação pudesse ser incompatível com o sigilo profissional e pessoal”.5 No fim da década de 70, Masson procura Anna Freud para convencê-la a publicar as cartas restantes. Todos os originais delas, bem como todos os manuscritos de Freud, encontram-se guardados na Biblioteca do Congresso Americano, em Washington.6 O SONHO NO PROJETO DE 1895 A intenção de escrever A Interpretação dos Sonhos aparece, pela primeira vez, na carta de 15/05/1897: Carta a Marie Bonaparte de 10/01/1937, apud MASSON, p. 9. JONES, 1970, p. 291. 5 Apud MASSON, 1986, p. 12. 6 Em 1980, Anna Freud doou os originais das cartas, bem como os manuscritos de Freud, para a Biblioteca do Congresso Americano, em Washington. O público brasileiro poderá conhecer parte desse arquivo na exposição “Sigmund Freud: cultura e conflito”, agendada para o período de 26 de setembro a 28 de novembro de 2000, no Museu de Arte de São Paulo. 3 4 impulso 37 nº26 6978_Impulso_26.book Page 38 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM (...) não importa onde comece, estou sempre voltando às neuroses e ao aparelho psíquico. Com certeza, não é por uma indiferença pessoal nem objetiva que não consigo fazer com que minha pena escreva nada além disso. As coisas estão fermentando, borbulhando dentro de mim; só estou à espera de um novo ímpeto (...) estou novamente pensando no livro sobre o sonho. Tenho examinado a literatura e me sinto como o diabinho celta: “Ah, como estou contente porque ninguém sabe!”. Ninguém sequer suspeita de que o sonho não é nenhum absurdo, e sim uma realização de desejo.7 A elaboração do “livro sobre o sonho” constitui a matriz da teoria psicanalítica, isso porque nele encontramos o delineamento da estrutura e do funcionamento do aparelho psíquico. A tese de que o sonho realiza desejos permitiu a montagem dessa estrutura. É possível averiguar que as premissas centrais, que definem o campo da argumentação de Freud, podem ser remetidas ao manuscrito Projeto de uma Psicologia. Nos últimos itens que compõem a parte I do manuscrito, encontra-se a afirmação de que os sonhos são processos primários que irrompem todos os dias durante o sono. O que é o sono? A condição essencial do sono claramente se reconhece na criança. A criança dorme enquanto não é atormentada por nenhum carecimento ou estímulo externo (fome e frio devido à umidade). Dorme com satisfação (no seio). Também o adulto dorme facilmente post coenam et coitum. Condição do sono é, assim, o abaixamento da carga endógena no núcleo de psi, que torna supérflua a função secundária.8 Se o sono implica um abaixamento da energia psíquica, por que sonhamos? Qual a fonte de estimulação das imagens oníricas que às vezes podemos recordar ao despertar? No mesmo Projeto, Freud enumera as seguintes características do sonho: 1. Os sonhos carecem de eliminação motora, assim como, na sua maior parte, de elementos motores. No sonho está-se paralisado. (...) 2. As ligações do sonho são em parte contra-sensos, em parte imbecis, ou também 7 8 MASSON, 1986, p. 244. FREUD, 1995, p. 49. dezembro 38 99 6978_Impulso_26.book Page 39 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sem sentido, raramente insensatas. O último caráter explica-se pelo fato de que no sonho domina a compulsão associativa, como primariamente na vida psíquica em geral (...) 3. As representações do sonho são do tipo alucinatório, despertam a consciência e encontram crença (...) 4. O objetivo e o sentido dos sonhos (pelo menos, dos normais) pode-se determinar com certeza. Eles são realizações de desejo, portanto processos primários segundo as vivências de satisfação e só não são reconhecidos como tais porque neles a liberação de prazer (reprodução de traços de eliminação de prazer) é pequena, porque decorrem em geral quase sem afeto (sem liberação motora) (...) 5. É notável a má memória e o prejuízo dos sonhos em comparação com outros processos primários (...) 6. Ademais, é interessante que a consciência no sonho forneça a qualidade de forma tão imperturbável quanto na vigília (...).9 Temos assim estabelecidos os itens que irão compor a estrutura argumentativa de A Interpretação dos Sonhos. As características definidas demarcam o território da investigação de Freud: a gramática dos sonhos e dos sintomas. O funcionamento do aparelho psíquico obedece às mesmas coordenadas, estejamos dormindo ou acordados. Ou seja, sonho e sintoma são atos psíquicos portadores de sentido. A LITERATURA CIENTÍFICA SOBRE OS SONHOS No que tange ao capítulo I, “A Literatura Científica que trata dos Problemas dos Sonhos”, podemos observar o modo de organização do material oriundo da pesquisa bibliográfica empreendida por Freud. A composição desse capítulo ocorreu após a escrita dos demais que compõem A Interpretação dos Sonhos. Através da correspondência com Fliess, vemos o quanto a montagem desse capítulo tornou-se problemática para Freud. Na carta de 09/02/1898, encontramos: “Estou profundamente imerso no livro dos sonhos, escrevendo-o com fluência, e gosto da idéia de todas as ‘cabeças balançando’ por causa das indiscrições e ousadias que contém. Se ao menos não fosse necessário ler tanto! Já estou farto da escassa literatura que existe”.10 No fim de fevereiro afirma 9 FREUD, 1995, pp. 51-53. Vale ressaltar que a matriz da interpretação do clássico sonho da injeção de propil em Irma é apresentada nos parágrafos finais da parte I do Projeto. Freud define esse sonho como modelo para demonstrar a tese de que o sonho realiza desejos. O capítulo II de A Interpretação dos Sonhos é construído a partir da distinção entre o método de interpretação simbólica e o método de interpretação por decifração. A escolha de Freud recai sobre o segundo. 10 MASSON, 1986, p. 299. impulso 39 nº26 6978_Impulso_26.book Page 40 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM que diversos capítulos do livro já estavam completos: “ele está saindo primorosamente e me leva muito mais a fundo na psicologia do que eu havia imaginado”.11 No dia 15/03 escreve para dizer que estava sentindo-se embotado, desorientado quanto ao problema da histeria e que o primeiro capítulo ainda não foi escrito. Nessa carta apresenta um esquema previsto para a composição do livro dos sonhos. No dia 01/05, envia o capítulo III, “O material onírico” – que na publicação recebe o título da tese fundadora da obra, “O sonho é Realização de um Desejo” –, solicitando apreciação de Fliess. Freud considera que, apesar de seu empenho na escrita do livro, sente-se “completamente estúpido no que diz respeito a ele”. A parte sobre a psicologia do processo onírico achava-se em estado primário de escrituração. Alguns dias depois, reconhece que a elucidação do processo psíquico do sonho é a tarefa mais difícil a ser realizada. Em 24/05 afirma que o capítulo sobre a formação dos sonhos foi concluído, e, no dia 09 do mês seguinte, novamente volta a mencionar seu estado emocional: É terrivelmente difícil expor a nova psicologia no que tange ao sonho; ela é necessariamente fragmentada, e todas as partes obscuras que, num estado de inércia, fui adiando até o momento, reclamam elucidação. Preciso de muita paciência, de um estado de espírito elevado e de algumas boas idéias. Estou emperrado na relação entre os dois sistemas de pensamento; preciso abordá-los com afinco. Mais uma vez, durante algum tempo, não terei serventia para ninguém. A tensão da incerteza responde por um estado abominavelmente desagradável, que se chega a sentir quase fisicamente.12 Nos meses seguintes, o ânimo de Freud permanece inalterado. Afirma que se perdeu do caminho traçado, que o livro está inerte, faltando-lhe incentivo para terminá-lo para publicação. Abatido em sua luta para elucidação da relação entre “os dois sistemas de pensamento”, dedica-se ao estudo da literatura científica procurando depreender os elementos de sua metapsicologia. Na carta de 26/08, por exemplo, afirma: Que ando fazendo por aqui? Ficando um tanto entediado em Aussee, onde conheço bastante bem todas as trilhas. Não consigo ficar totalmente desprovido de 11 12 Ibid., p. 301. Ibid., p. 316. dezembro 40 99 6978_Impulso_26.book Page 41 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM material. Outorguei a mim mesmo a tarefa de construir uma ponte entre a minha metapsicologia embrionária e a que está contida na literatura especializada e, por conseguinte, mergulhei no estudo de Lipps, que suspeito ter a mente mais lúcida entre os escritores filosóficos da atualidade. Até aqui, as coisas vão indo muito bem no tocante à compreensão e à aplicação a minhas próprias hipóteses. Naturalmente, este é um período de poucas explicações. Estou ficando cada vez mais inseguro quanto ao trabalho sobre a histeria; seu valor me parece menor, como se eu tivesse deixado de fora diversos fatores fundamentais, e abomino realmente a idéia de ter que retomá-lo.13 Quais os diversos fatores fundamentais para o deslindamento do sintoma histérico que Freud deixou de fora? Por que abomina a possibilidade de retomá-los? Na carta de 23/10 expressa o desejo de reencontrar o caminho “para a verdade, saindo de erros graves”. Até então, o capítulo I e o capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos não estavam escritos. No entanto, disse que aprendeu uma lição que fez de si um velho: “Se a discriminação dos poucos aspectos necessários à explicação das neuroses implica tanto trabalho, tempo e erro, como posso ter esperança de obter, um dia, a compreensão de toda atividade mental, que foi em certa época minha orgulhosa expectativa?”.14 A referência ao Projeto de 1895 é clara. Freud procura representar os processos psíquicos patológicos e normais, abrangendo assim toda a atividade mental. Quanto à escrita do capítulo I, na carta de 05/12 vemos Freud lamentar sua tarefa: A literatura [sobre o sonho] que estou lendo no momento deixa-me completamente embotado. É uma punição terrível para aqueles que escrevem. Nesse processo, tudo o que se tem de próprio se esvai. Muitas vezes, não consigo lembrar-me o que foi que descobri de inédito, já que tudo nessa descoberta é inédito. A leitura vai-se estendendo para diante, sem que haja um fim à vista. Chega disso!15 Dois dias depois, volta a falar sobre o “tédio pavoroso da literatura sobre os sonhos, que, mesmo assim, precisa ser lida”.16 13 14 15 MASSON, 1986, p. 325. Ibid., p. 333. Ibid., p. 336. impulso 41 nº26 6978_Impulso_26.book Page 42 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Em 28/05/1899, após meses de intensa batalha na elucidação dos problemas relativos aos processos psíquicos nos sonhos e nos sintomas na escrita do capítulo VII, Freud retoma a tarefa de escrever o capítulo I. Mas agora sente-se vitorioso: “o livro do sonho está tomando forma, de repente, sem nenhuma motivação especial, só que, desta vez, tenho certeza dele. Decidi que não posso usar nenhum dos disfarces, nem dar-me o luxo de abrir mão de coisa alguma, pois não sou rico o bastante para guardar só para mim minha melhor descoberta e, provavelmente, a única duradoura”.17 Após a derradeira constatação, o problema da literatura científica sobre os sonhos é encarado de frente por Freud. Está convencido que não há motivo para emperrar nela: Infelizmente, só para assustar, os deuses puseram a literatura [sobre o sonho] antes da exposição. Na primeira vez, fiquei emperrado nela. Desta vez, abrirei caminho à força até o fim; de qualquer maneira, não há nada de importante ali. Nenhum outro de meus trabalhos foi tão completamente meu, meu próprio monte de esterco, meu arbusto e, ainda por cima, uma nova especies mihi.18 Em fins de junho, afirma que o capítulo I estava mais extenso do que fora previsto, “e não será agradável, nem frutífero. Contudo, é um dever prepará-lo. Nesse processo, não passei a gostar mais do assunto”.19 No dia 22 desse mês, Freud registra o término do trabalho sobre a literatura especializada e apresenta como Introdução ao livro do sonho: “Ela foi escrita, constituiu uma tarefa amarga para mim e não saiu muito satisfatória. A maioria dos leitores ficará retida nesse matagal espinhoso e jamais chegará a ver a Bela Adormecida por trás dele”.20 Dias depois, volta afirmar que “esse capítulo se revelará uma dura prova para o leitor”. Após ter enviado em 06 de agosto o capítulo para Fliess apreciar, partilham o seguinte: “(...) esse primeiro capítulo é capaz de impedir que uma porção de leitores prossiga para os capítulos subseqüentes”.21 Freud explicita que o capítulo sobre a literatura foi uma exigência de 16 17 18 19 20 21 MASSON, 1986, p. 337. Ibid., p. 354. Ibid., p. 354. Ibid., p. 358. Ibid., p. 363. Ibid., p. 366. dezembro 42 99 6978_Impulso_26.book Page 43 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Fliess e que o realizou a contragosto. Ao final, ambos não gostaram nem um pouco do resultado. Freud apresenta uma metáfora bem apropriada para o leitor de seu livro: A coisa foi planejada segundo o modelo de um passeio imaginário. No começo, a floresta escura dos autores (que não enxergam as árvores), irremediavelmente perdido nas trilhas erradas. Depois, uma trilha oculta pela qual conduzo o leitor – meu sonho exemplar, com suas peculiaridades, pormenores, indiscrições e piadas de mau gosto – e então, de repente, o planalto com seu panorama e a pergunta: em que direção você quer ir agora?22 Afinal, o que há de tão pantanoso no capítulo I, capaz de afastar o leitor? Se a literatura especializada não fornece elementos sobre os aspectos essenciais dos sonhos, por que Freud decidiu realizar um extenso trabalho de pesquisa bibliográfica? O que Freud pôde depreender da leitura que realiza das obras selecionadas? O capítulo é apresentado “à guisa de prefácio, uma revisão do trabalho empreendido por autores anteriores sobre o assunto, bem como a posição atual dos problemas dos sonhos no mundo da ciência, visto que, no curso de meu exame, não terei muitas ocasiões de voltar a esses tópicos”.23 Quais são os tópicos que Freud recorta do que leu? Após demarcar a visão pré-científica dos sonhos na Antiguiade Clássica, apresenta as idéias dos especialistas que publicaram sobre os sonhos no decorrer do século XIX. Agrupa os autores em torno de oito tópicos, na seqüência: a relação dos sonhos com a vida de vigília; o material dos sonhos – memória nos sonhos; os estímulos e as fontes dos sonhos; por que nos esquecemos dos sonhos após o despertar?; as características psicológicas distintivas dos sonhos; o sentido moral nos sonhos; teorias do sonhar e de sua função; e as relações entre os sonhos e as doenças mentais. Estabelecidos os tópicos, Freud nomeia um a um os autores que contribuíram para esclarecer o que está em questão. Há uma extensa bibliografia, que foi revista a cada nova edição do livro. A seleção desses tópicos demarca o campo da problemática identificada no Projeto de 1895. A conclusão do percurso na literatura é enunciada desde o segundo parágrafo: 22 23 MASSON, 1986, p. 366. FREUD, 1987, p. 39. impulso 43 nº26 6978_Impulso_26.book Page 44 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM (...) apesar de muitos milhares de anos de esforço, a compreensão científica dos sonhos progrediu muito pouco (...). Nesses escritos, dos quais consta uma relação ao final de minha obra, encontram-se muitas observações estimulantes e uma boa quantidade de material interessante relacionado ao nosso tema, porém pouco ou nada que aborde a natureza essencial dos sonhos ou ofereça uma solução final para qualquer de seus enigmas.24 São mais de 70 páginas dedicadas à literatura que, segundo o autor, em nada contribuem para estabelecer a natureza essencial dos sonhos: realização de desejos. Nelas podemos depreender o Freud leitor e incansável decifrador de enigmas, que cumpriu a tarefa de um recenseamento bibliográfico, transformando-se em exigência para qualquer interessado no tema. CONCLUSÃO Na Conferência V, “Dificuldades e Abordagens Iniciais”, de 1916, Freud situa com precisão os problemas relativos à literatura científica sobre os sonhos. Estabelecendo a premissa que sustenta A Interpretação dos sonhos, pergunta: “qual deve ser a verdadeira origem do desprezo no qual são mantidos os sonhos nos círculos científicos? Acredito que se trata de uma reação contra a supervalorização dos sonhos em épocas antigas”.25 A posição científica sobre os sonhos é marcada pelas teorias fisiológicas, que não consideram os sonhos como atos psíquicos, mas sim como expressão de estímulos somáticos. Freud admite que “os estímulos incidem sobre a mente e ela deve reagir a eles. Um sonho, pois, é a maneira como a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono”.26 Isso prova que a vida psíquica não consegue dormir, isto é, está em atividade ininterrupta. Por outro lado, a linguagem predominante nos sonhos é composta de imagens visuais, e isso os distingue da atividade de vigília, ou seja, dos processos de pensamento por meio de palavras. Aqui ficam estabelecidos os dois processos psíquicos constitutivos: o primário e o secundário. Os sonhos são representantes dos processos primários, ao passo que os pensamentos de vigília são secundários. Eis o argumento decisivo para sustentar a analogia entre os sonhos e os sintomas: 24 25 26 FREUD, 1987, p. 39. Idem, 1976, p. 108. Ibid., p. 112. dezembro 44 99 6978_Impulso_26.book Page 45 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM (...) os sonhos, por si mesmos, são um sintoma neurótico que nos oferece, ademais, a inestimável vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias. Na verdade, supondo-se que todos os seres humanos fossem normais contanto que sonhassem, nós, partindo de seus sonhos, poderíamos chegar a quase todas as descobertas a que nos levou a investigação das neuroses.27 A relação entre os sonhos e os sintomas neuróticos é estabelecida como objetivo central do “Livro dos Sonhos” e as citações que fez de Kant e Schopenhauer atestam que “o louco é um sonhador acordado” e “os sonhos são uma loucura breve, e a loucura um sonho longo”. No Prefácio à primeira edição de A Interpretação dos Sonhos, declara que suas investigações mostram ser o sonho o primeiro membro de uma classe de fenômenos psíquicos anormais, e faz a seguinte advertência: “(...) quem quer que tenha falhado em explicar a origem das imagens oníricas dificilmente poderá esperar compreender as fobias, obsessões ou delírios, ou fazer com que uma influência terapêutica se faça sentir sobre eles”.28 Convém pôr em cena a advertência de Freud no festim das comemorações do centenário da obra fundadora da psicanálise, e retomar, assim, as rupturas que a psicanálise realiza nos discursos científicos de seu tempo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. [1895] Projeto de uma Psicologia. Trad. Osmyr Faria Gabbi Jr. Rio de Janeiro: Imago, 1995. FREUD, S. L’Interprétation des Rêves. Traduit en français par I. Meyerson, nouvelle édition augmentée et entièrement révisée par Denise Berger, 7ª tirage, Press Universitaires de France: Paris, 1993. FREUD, S. [1900] A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987, v. 4-5. FREUD, S. [1916-1917]. Conferências Introdutórias sobre Psicanálise Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 15. JONES, E. Vida e Obra de Sigmund Freud. Trad. Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970, v. 1. MASSON, J.M. [1887- 1904] Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1986. 27 28 FREUD, 1976, p. 105. Idem, 1987, p. 29. impulso 45 nº26 6978_Impulso_26.book Page 46 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 46 99 6978_Impulso_26.book Page 47 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Interpretação na Psicanálise Lacaniana Interpretation in Lacanian Psychoanalysis RESUMO – O artigo apresenta, em uma visão lacaniana, as transformações ocorridas com alguns conceitos psicanalíticos, a partir de Freud, relacionados ao processo analítico e à interpretação. Discute a função do analista enquanto intérprete. Faz distinção entre psicoterapia e psicanálise, apontando algumas de suas diferenças. Palavras-chave: Lacan – psicanálise – interpretação – processo analítico. ABSTRACT – This article presents a Lacanian perspective on the changes that have occurred since Freud’s statement of principles in some psychoanalytical concepts related to both the analytical process and interpretation. It also discusses the function of the analyst as an interpreter, distinguishing psychotherapy from psychoanalysis. Keywords: Lacan – psychoanalysis – interpretation – analytical process. impulso 47 nº26 REGINA CLÁUDIA MELGES PUGLIA Psicóloga formada pelo Instituto de Psicologia (USP). Psicanalista, membro-correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise-SP [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 48 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A INTRODUÇÃO psicanálise hoje em dia é bem diferente daquela que Freud exercia em seu tempo. Tanto a prática como o contexto mudaram. Lacan, porém, nunca deixou de recorrer a Freud e a seus ensinamentos, sempre deles partindo para então propor algo novo. Atualmente, nós, analistas, temos de fazer movimentos duplos e até triplos para que a psicanálise se mantenha e seja eficaz, isto é, precisamos recorrer a Freud, a Lacan, a teóricos e a psicanalistas de nossa época, para daí propormos alguma modificação em nossa prática analítica, que os tempos presentes exigem. O que se percebe com freqüência é que os sujeitos que sofrem procuram encontrar um Outro que lhes dê respostas para o seu sofrimento. Em nossa sociedade não faltam alternativas e práticas que se propõem a fornecer respostas prontas. Para Lacan, entretanto, o analista é o único que tem a oportunidade de “responder”. E aqui se vê como Lacan é cauteloso: “não é certeza, não é garantido, mas o analista é o único que tem a chance de ser intérprete”. Mas o que é ser intérprete, como o analista interpreta, a partir do quê? ENTREVISTAS PRELIMINARES E ANÁLISE Um sujeito dirige-se ao consultório do analista numa posição demandante e espera, num primeiro momento, que este lhe dê soluções imediatas, que eliminem seu mal-estar. Chega numa posição de questionamento por estar chocado com algo do Real com que se defrontou, quer se trate de um acontecimento quer da insistência de um sintoma. Deseja saber o que a psicanálise pode oferecer contra aquilo que está lhe ocorrendo, contra o seu sofrimento. Pergunta ao analista: “Você sabe o que eu tenho?”; ao que o analista responde: “Sim”. De alguma forma existe aí uma promessa, e o analista só “promete” por saber que a resposta é anterior à pergunta. Ele propõe ao analisando a regra fundamental da psicanálise: “diga o que lhe vier à mente, fale sem restrições”. E essa regra é fundamental porque é daí que a resposta emergirá. O que se busca nas entrevistas preliminares, com a introdução da regra fundamental, é identificar a consistência da demanda e qual a estrutura do sujeito. O texto do analisando não traz a resposta completa, de modo linear, mas, os elementos da resposta que o analista saberá pescar. O analista escuta na fala do sujeito o que ele não pede e nem pode pedir, o que ele deseja, o peso de seu gozo, o peso pulsional que dezembro 48 99 6978_Impulso_26.book Page 49 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM está em jogo, e visa deslocar o sujeito da posição na qual tinha certeza sobre o objeto. O diagnóstico estrutural é fundamental, nesse momento, e só será possível estabelecê-lo na relação transferencial. As considerações que faço neste texto são aplicáveis apenas à neurose. Tanto a psicose quanto a perversão requerem que manejos na transferência sejam feitos, com modificações importantes, para que as análises de sujeitos com essas estruturas se tornem possíveis. Todos os atos do analista levarão em conta a singularidade de cada caso. Os casos de depressão, toxicomania, anorexia, bulimia e alcoolismo serão considerados a partir da estrutura do sujeito em questão. O sujeito, ao ocupar uma nova posição inconsciente ao mesmo tempo vinculada à verdade e ao gozo, promove a retificação subjetiva, e se implica em seu dizer, assumindo a responsabilidade por suas escolhas. Suas queixas se transformam em sintoma analítico e então a análise, efetivamente, tem início. O sujeito, estando implicado no discurso analítico, defronta-se com a verdade na qual acreditava até então, e a põe em jogo nas relações que estabelece com a ordem simbólica. A associação livre, que não é da ordem da asserção, supõe e confirma, durante este século de prática, que a resposta está escrita no inconsciente. Nos equívocos da língua surge a denúncia de um gozo instalado. Nos lapsos, nos chistes,1 nos sonhos, no sintoma, se evidencia a dimensão da verdade e do gozo e, a partir deles, a série de significantes primordiais, o desenvolvimento da cadeia significante, tão particular a cada sujeito, a relação do sujeito com o vazio, com o Real, com o objeto-causa mais além das identificações. Para o sujeito, que se dirige ao analista – sujeito suposto saber – e que com ele estabelece uma relação transferencial, esse analista transmite uma mensagem: “É você quem detém o texto e as respostas que procura, mas sou eu que o dirigirei a elas, pois encontra-se aqui o seu analista”. Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan afirma: “(...) é pelo que o sujeito imputa de ser (ser que está em outro lugar) para o analista que é possível o alcance da interpretação”.2 FANTASIA E SINTOMA Freud observou como o sujeito não podia dizer nada sobre sua fantasia, uma vez que falar sobre ela lhe causa vergonha e vai contra seus valores ideais. Dificuldade esta que só poderia ser resolvida atra1 2 Ver também alguns comentários sobre a construção de chistes em FREUD, 1969c, p. 280s. LACAN, 1998a, p. 591. impulso 49 nº26 6978_Impulso_26.book Page 50 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM vés de uma nova abordagem, que será proposta por Lacan, abordagem fundada na diferenciação dos três registros: o Real, o Simbólico e o Imaginário. Com a conceituação dos três registros, a fantasia se transformou também num conceito fundamental para o avanço da psicanálise. Freud, em seus últimos textos, e em particular em Análise Terminável e Interminável, se perguntava o que fazer com a inércia frente ao trabalho analítico. A questão da fantasia comprometia a psicanálise quanto a seu fim e quanto a seu estatuto em relação a outras disciplinas. Lacan elaborará para a fantasia um matema fundamental. Este matema aparece como um dos elementos que estruturam a direção do tratamento no discurso analítico. Ao introduzir o objeto Real (a) na fantasia ($<>a)[articulação do sujeito barrado com o objeto causa do desejo (para sempre perdido)], Lacan dá à fantasia uma causalidade sobre o sintoma. Lacan, durante seu ensino, fez inúmeras modificações na sua forma de pensar o funcionamento psíquico. Num primeiro momento, pensou que a imagem, e não o significante, atraía a libido. Haveria uma inércia da libido articulada à imagem bloqueando o funcionamento da cadeia significante. Foi o momento da predominância do Imaginário em seu ensino. Num segundo momento, Lacan abordou o aspecto do gozo, vendo que havia uma conexão direta entre significante e libido. O que atraía a libido, então, seria uma imagem significantizada, a qual chamou de identificação fálica. Existiria um significante especial, que no Simbólico, atrairia o investimento libidinal. Lacan fez do falo esse significante investido pelo fator quantitativo da libido. A terceira maneira que Lacan pensou essa relação significante/libido trouxe a fantasia como o lugar onde estes se juntam, pois a fantasia é uma articulação significante na qual, de um lado, está presente o sujeito dividido ($) e, de outro, a quantidade libidinal (a), sendo a pulsão o articulador deles ($<>a). A única forma de fazer com que o sujeito se desembarace desse gozo presentificado na imagem, no significante e na fantasia, é dar condições para que, em sua análise, ele ultrapasse o Imaginário, deixando cair as identificações idealizadas, e atravesse a fantasia que construiu. É justamente na fantasia que incide o destino do investimento libidinal, e o final da análise depende do desinvestimento libidinal da fantasia. Lacan, no Seminário 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, não inclui a fantasia entre os quatro conceitos fundamen- dezembro 50 99 6978_Impulso_26.book Page 51 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tais da psicanálise. Paradoxalmente, é um termo muito utilizado por ele. A fantasia se opõe às formações inconscientes. As fantasias não são decifradas da mesma maneira: não constituem um texto organizado pelas leis de codificação do inconsciente. A oposição entre o sonho (via régia do inconsciente) e as fantasias conscientes permitiu a Lacan criar esse novo conceito, ao qual deu ênfase durante todo seu ensino. Fantasia e sintonia, entretanto, têm algo em comum: ambos surgem a partir do enigma. Freud nos ensina que ao longo da infância o sexual faz enigma para a criança. O enigma surge a partir de um gozo pulsional, vivido no corpo e impossível de dizer. O enigma leva as crianças a construírem teorias sexuais que têm um lugar capital na construção das fantasias e no surgimento de sintomas. É no deciframento dos sintomas e na construção das fantasias, na análise, que encontramos restos destas teorias infantis, construídas a partir de um postulado de gozo, ainda ativas no inconsciente. A trajetória desenvolvida por Lacan para a fantasia ilustra, de modo exemplar, o movimento que animou seu ensino, conduzido pela via do matema. O matema foi um artifício inventado por Lacan bastante eficiente, pois permite que se vá do universal ao particular, do mito à estrutura. Desse modo, do mito freudiano organizador da fantasia fundamental a partir da repressão originária, Lacan passa a uma lógica da fantasia cujo esforço se centra em articular a castração com o objeto-causa do desejo: objeto este necessário ao sujeito para ser – apesar da falta-a-ser que o constitui – e a partir do qual se faz possível um gozo para sempre parcial e a-sexual. Na análise se pode aspirar a desmontar a fantasia, mas não a interpretá-la. A fantasia não está submetida às leis da interpretação. Não é interpretável, mas é pivô da interpretação, não na vertente dialética que descansa na repetição significante, mas a partir do amor de transferência, em sua vertente de enigma, portanto, que reaviva a falta no Outro. A fantasia fornece ao analista a chave do lugar que ele ocupa para o sujeito, o lugar do Real. A intervenção do analista no discurso do sujeito deve responder à necessidade de atualizar na transferência a pergunta relativa ao desejo do sujeito. Porém, essa resposta não é do significante, pois o significante leva consigo apenas a falta-a-ser, mas do Real: é a fantasia que responde à pergunta do desejo. O sujeito não se satisfaz com o que é. Por outro lado, sem dúvida, o que é, o que vive, seus sintomas mesmos, lhe dão satisfação. Freud não dizia menos do que isso. Lacan o recorda dizendo: “(...) os pacientes não se satisfazem, como se diz, com o que são. E, no entanto, sabe-se que tudo o que eles são, tudo o que vivem, mesmo seus sin- impulso 51 nº26 6978_Impulso_26.book Page 52 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tomas, depende da satisfação. (…) eles dão satisfação a alguma coisa. Eles não se contentam com seu estado, mas, estando esse estado tão pouco contentador, eles se contentam assim mesmo”.3 Sendo tão pouco contentáveis, se contentam. Lacan introduz nessa satisfação paradoxal a categoria do impossível e, opondo o Real ao possível, define precisamente o Real como esse impossível. Para Freud o Real aparecia como obstáculo ao princípio do prazer: o Real estava ali, mas as coisas não se ajustavam de imediato, mesmo tendo-as à mão. Lacan considera demasiado restritiva essa concepção de Real e, indo além do princípio do prazer, insiste na separação do conceito de Real do campo desse princípio: por sua dessexualização, pelo fato de que sua economia admite algo novo que é da ordem do impossível, que concerne também à relação sexual. De acordo com o aforismo lacaniano “não há relação sexual”, isto é, não há, no inconsciente, a inscrição de significantes capazes de fazer uma elaboração de saber sobre a relação entre um homem e uma mulher. Isso quer dizer que não há complementariedade, falta um significante no Outro. O Outro como lugar da sincronia significante é um lugar com uma fenda, um vazio, uma incompletude. Não se pode representá-lo por um círculo que se fecha, pois haverá sempre um espaço aberto, um buraco. Disso, aliás, Freud já falava em relação ao recalque original. Portanto, um significante falta no Outro. Lacan o disse de muitas maneiras. É o que ele escreve com o seu S(A/), é o que ele diz com sua fórmula “não há Outro do Outro”, é o que ele expressa com sua proposição “a mulher não existe”. Falta pois um significante (e o significante é o que representa o sujeito para outro significante) que permitiria fundar uma relação entre dois significantes. Não há gozo senão do um, gozo fálico. O sintoma aparece como a tentativa realizada para invalidar a proposição: “não há relação sexual”. O sintoma indica que há algo que não funciona no Real, tanto que o neurótico encontra seu gozo no sintoma, por pouca satisfação que exista nele. Para Freud, somente poder-se-ia formar uma idéia da importância da descoberta que a interpretação dos sonhos teria para o funcionamento da vida mental ao se perceber que a construção onírica é “o modelo segundo o qual os sintomas neuróticos se formam”.4 Num primeiro tempo para Lacan, a concepção do sintoma como formação inconsciente – num estatuto comparável ao do sonho, o lapsus ou o chiste (em que o deciframento interpretaria a realização do desejo) –, é 3 4 LACAN, 1988, p. 158. FREUD, 1976, p. 138. dezembro 52 99 6978_Impulso_26.book Page 53 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM contemporânea às suas elaborações sobre a constituição do Eu através do estádio do espelho. O sintoma se fazia palavra de uma verdade, de um sentido reprimido (uma forma desviada de satisfação sexual). Em 1953, em Função e Campo da Palavra e da Linguagem, Lacan já assenta o inconsciente do lado da linguagem (ele já havia desenvolvido o conceito de inconsciente estruturado como uma linguagem) e a palavra ali articulada já não se sustenta no Imaginário, mas sobre um sistema Simbólico. Lacan não reduzirá o sintoma exclusivamente ao campo Simbólico. O laço mantido pelo sintoma com o Imaginário, pelo menos através do corpo, e com o Real, enquanto impossível de dizer, continuará sendo considerado, mas existirá uma supremacia do Simbólico na abordagem do sintoma. Em RSI, Lacan define sintoma como “a maneira como cada um goza do inconsciente”5 e afirma que o sintoma surge como resposta a um gozo que o princípio do prazer não conseguiu assimilar. O gozo, termo conceituado por Lacan, está do lado do objeto e se distingue do desejo. Para Lacan os sintomas têm constância, estabilidade e resistência, e alguma relação com as funções do corpo. Ressalta que, em Freud, Simbólico, Imaginário e Real são independentes e que justamente o sintoma seria capaz de atar em nó essas três estruturas. Nos três registros encontram-se: ex-sistência, consistência e buraco. O sintoma, como o quarto elemento, seria responsável pela amarração e diferenciação dos três registros. O sintoma é a forma que o sujeito encontra para “lidar” com a incompletude do significante, com o não poder dizer tudo. A questão que se coloca na conclusão da análise é: como o sujeito pode se haver com o fator pulsional? E o que está em questão é ainda a pergunta formulada por Lacan desde 1964, sobre o destino da pulsão no final da análise: “como o sujeito, que atravessou a fantasia radical, pode viver a pulsão?”.6 O sintoma, para Lacan dos anos 70, toma o lugar da pulsão (em Freud o sintoma está entre o psíquico e o somático), aparecendo como uma fixação significante da pulsão. No sintoma, a pulsão aparece como cativa e aí apreende sua função simbólica de falo. O sintoma vai além da fantasia e se refere ao corpo vivificado pelo significante. O sintoma, após a travessia da fantasia, coloca-se como resto irredutível de gozo. Porém, não basta dizer que ao sujeito resta seu modo de gozo. O que importa é a economia libidinal 5 6 LACAN, aula de 17/12/74. Idem, p. 174. impulso 53 nº26 6978_Impulso_26.book Page 54 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM do sujeito, ou seja, a melhor maneira que o sujeito encontra para se haver com esse resto irredutível de gozo – é o que Lacan chamou de identificação ao sintoma, o “saber fazer” com o sintoma, o Synthome, do qual o sujeito não pode se livrar, e com o qual ele terá de conviver. No final da análise ocorrerá a destituição subjetiva e o sujeito passará a ocupar uma nova posição em relação ao Outro, haverá o desvanecimento do Outro, desvanecimento da demanda: não há Outro que possa satisfazer a demanda, há uma falta originária que jamais será suprida. O sujeito viverá com responsabilidade, encarregando-se do que produz. A pulsão não cessará jamais de dividir o sujeito: é impossível separar-se disso, mas é perfeitamente possível viver como sujeito desidealizado, porém responsável pelo seu modo de gozo. A INTERPRETAÇÃO Freud, no início de suas descobertas, concebia a interpretação dos sonhos e das formações inconscientes como a busca de um significado, obtido apenas pelo próprio sonhador através das associações que fizesse, que proporcionariam acesso a algum conteúdo recalcado, oculto. O sujeito, com certeza, estabeleceria essas associações com o que originasse diretamente de sua vida mental, de fontes que lhe eram desconhecidas, derivadas provavelmente de algum complexo. Todo trabalho interpretativo considerava que as lembranças que acometidas ao sujeito a partir do sonho trazido para a análise eram dependentes de idéias e de emoções inconscientes. O trabalho interpretativo visava tornar consciente o inconsciente. Para Freud, a elaboração onírica7 é o trabalho que o sujeito faz para transformar o sonho latente em sonho manifesto. Para tanto, lança mão de condensações, deslocamentos e transformações regressivas de pensamentos em imagens. O trabalho que opera em sentido oposto e que é realizado numa sessão de análise, em que a transferência está instalada, é o trabalho interpretativo. Freud nos alerta, entretanto, que, “quanto mais o sujeito adquire conhecimento neste campo, tanto mais obscuros serão seus sonhos”.8 A censura leva em conta o saber adquirido com a interpretação dos sonhos. O trabalho de elaboração do sonho incorpora esse saber, o que provoca um fechamento do inconsciente, ou uma alienação do sujeito no significante. Lacan, em “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise”, retoma uma afirmação feita por Freud na Traumdeutung: “o A totalidade do cap. VI de A Interpretação dos Sonhos (mais de um terço de todo o livro) dedica-se ao estudo da elaboração onírica (FREUD, 1969a, p. 297s). 8 FREUD, 1969b. 7 dezembro 54 99 6978_Impulso_26.book Page 55 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sonho tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra, de um rébus (enigma)”.9 Esse enigma está instalado no inconsciente e o inconsciente precisa de tempo para se manifestar, necessitando, para tanto, ser provocado. Ele não tem hora marcada. O inconsciente nem sempre fala, às vezes também descansa. Lacan considera que ocorre um processo de abertura e fechamento do inconsciente. Assim, não há de se trabalhar com o tempo cronológico nas sessões de análise, e sim com o tempo lógico do sujeito, que leva em conta momentos fecundos do inconsciente desse sujeito. Ao analista cabe o ato analítico, desvinculado do tempo standartizado, definido a priori. A interpretação, numa visão lacaniana, pode visar três pontos: o significado; fazer aparecer significantes que estavam ocultos; e a interpretação do “dizer”, e não dos “ditos”. Lacan acaba considerando que a interpretação fundamental, aquela que incide, provocando efeitos na estrutura do sujeito, só deve ocorrer no nível “do dizer”. Com Lacan fica evidente que a interpretação deve ir além “do que se diz”. O que cabe ser interpretado não são os ditos do sujeito, mas “o dizer”. Para que fique bem claro a qual interpretação se está aqui referindo, talvez seja preciso diferenciar psicanálise de psicoterapia. Podese até afirmar que com a psicanálise se consegue efeitos terapêuticos, mas com finalidades bem distintas. A psicoterapia tem como meta restaurar a “base abalada” do sujeito, restaurar seu ego. Se um sujeito busca uma psicoterapia ou uma análise é porque sua divisão subjetiva está afetada, e o psicanalista precisa estar advertido disso. Com a psicoterapia o sujeito conseguirá apenas que sua fantasia seja substituída por outra, o que permitirá que sua divisão e castração sejam acobertadas por novas fantasias carregadas de significações. Para Lacan, assim como para Freud, a clínica é soberana e sempre antecede a teoria. Se assim não fosse, a psicanálise estaria estagnada. Se a teoria fosse anterior à clínica, a psicanálise se orientaria pelo logos, pelo conhecimento teórico inferido a priori. A psicanálise lacaniana se orienta pelo Real em jogo na posição que cada sujeito, a seu modo, ocupa. No texto L’Étourdit Lacan afirma que a psicanálise tem meta oposta à da psicoterapia. O objetivo da psicanálise não é eliminar a angústia, nem fortalecer o ego do sujeito, tampouco adaptar o sujeito à realidade. A psicanálise visa, justamente, que o sujeito se separe do 9 LACAN, 1998b, p. 238. impulso 55 nº26 6978_Impulso_26.book Page 56 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM objeto que sustentava sua “verdade” e com o qual tamponava a falta. A análise busca que o sujeito investigue, no atravessamento ou na desconstrução de sua fantasia, o gozo e a inconsistência do Outro, distanciando-se da fantasia por ele construída, e que passe a conviver com o seu modo de gozo, conquistando, no final de sua análise, um saber sobre a verdade. Durante este século de existência, a psicanálise ficou, e ainda está, à mercê das respostas que os psicanalistas possam dar. Os psicanalistas são responsáveis não apenas pela posição do inconsciente, mas sobretudo pela existência e pela manutenção do discurso analítico. O analisando não é responsável pelo discurso analítico. Evidentemente ele tem um trabalho a fazer: manter a existência mesma desse discurso. Porém, cabe ao analista sustentar o laço analítico (suportando a transferência) e a função da análise (fazer o sujeito se defrontar com a castração, com sua divisão subjetiva e com a posição estrutural que ocupa em seu inconsciente). O analista só consegue realizar essa tarefa levando em conta sua análise pessoal e seu desejo decidido, onde a Ética do bem-dizer da psicanálise está evidenciada. Se formos rigorosos com as definições de Lacan, a interpretação é do dizer sem dito, em que não se faz o uso da palavra, e sim da letra, e esse dizer se conecta ao próprio dizer do analisando. Para Lacan o analista se auto-elimina, se subtrai em seu discurso, apesar de pagar com seu ser. Em L’Étourdit, Lacan chegou a expressar que a interpretação deveria ser exclusivamente um equívoco, mantendo essa tese até o final de seu ensino. Com a interpretação como equívoco, conseguese que uma via fique aberta para diversos sentidos. O equívoco é um instrumento não sugestivo, que deixa aberta a escolha do sentido que o analisando queira dar. No nível da prática psicanalítica, pode-se considerar que essa forma de interpretar evitaria o discurso do mestre e que a maneira de ver do analista não seria imposta. A afirmação que Lacan faz é: “nada opera [no inconsciente] a não ser o equívoco significante”.10 É possivel enumerar três tipos de equívocos: equívoco por homofonia, equívoco gramatical e equívoco dos paradoxos. Colette Soler cita diferentes maneiras de interpretar no decorrer de uma análise.11 Remete a Lacan, que fala em interpretação despercebida e também em interpretação involuntária, uma vez que o analista pode interpretar até com o seu humor, com sua expressão, com a cara que tem, com a maneira como se veste etc. 10 11 LACAN, 1973, pp. 11-12. SOLER, 1995, p. 28. dezembro 56 99 6978_Impulso_26.book Page 57 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM O que faz com que uma intervenção seja interpretação? Toda interpretação provoca efeitos, é operante. Mas somente “no depois” (après-coup) se saberá quais serão esses efeitos. Lacan não é diretamente contra a interpretação significativa. Apenas afirma não ser ela capaz de resolver de modo algum o enigma do sujeito: ela apenas o desloca. O que não quer dizer que seja proibida ou de todo descartada. Ela pode ser útil. Para Lacan (Seminário 11), o que uma interpretação como significação possui de mais interessante não é a significação por ela produzida, mas os significantes pelos quais é formulada. Sua conclusão é a seguinte: “o interesse da interpretação significativa é o decifrar, fazer aparecer um significante que estava faltando ao sujeito, mas que se encontrava latente em seu discurso”.12 Lacan evoca a pontuação como um modo de interpretação. A pontuação garante a significação, marcando uma enunciação do sujeito em particular. O corte da sessão, como oposto à pontuação, recorta as significações, entalha-as, esculpe-as. Interromper o sujeito no meio de uma frase impedindo que as significações, que as explicações proliferem, causa um efeito de perplexidade e até de desagrado. Para lançar mão desse modo de interpretação é preciso levar em conta as diferenças individuais. Num sujeito que tem dificuldade em falar ou naquele que está muito aderido à significação, pode não provocar os efeitos desejados. O intuito é provocar um efeito non sense. O não-senso possui a sua fecundidade. Outra maneira de intervir é por alusão, um enunciado que participa do silêncio, que deixa a entender sem formular, que designa, que mostra. Lacan também fala em recorrer à polissemia, à pluralidade de sentidos. Em seu Seminário 17: o avesso da psicanálise, Lacan fala em citação, que consiste em sublinhar algo enunciado pelo sujeito, como se se colocasse aspas em seu dizer; e também em enigma: um enunciado sem mensagem, um dizer sem proposição. O que esses modos de interpretar têm em comum é um “dizer nada”. O que não significa que eles nada profiram. O dizer do analista, na interpretação, deve ser esquecido na medida em que é silencioso. Lacan afirma que o discurso do analista é um discurso sem palavras. Pela interpretação, conduz-se o sujeito, no percurso da experiência 12 LACAN, 1988, p. 231. impulso 57 nº26 6978_Impulso_26.book Page 58 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM analítica, em direção ao limite da palavra, ao impossível de dizer. A interpretação aponta para a divisão do sujeito, para sua falta-a-ser. Se quiséssemos inventar uma fórmula para o dizer da interpretação, segundo Collete Soler, ela seria: “Você fala sozinho, você está só com seu gozo; portanto, exatamente o contrário de uma promessa de diálogo”.13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1969a, v. 5. _________. Análise Terminável e Interminável. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1969b, v. 23. _________. Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1969c, v. 8. _________. O Uso da Interpretação dos Sonhos na Psicanálise. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1969d, v. 5. _________. Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, Sonhos. Livro 21, Pequena Coleção das Obras de Freud (extraída da edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago, 1976. LACAN, J. O Seminário, Livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. _________. A direção do tratamento e os princípios de seu Poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a. _________. Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b. _________. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. _________. L’Etourdit. Scilicet, nº 4. Paris: Seuil, 1973. _________. RSI (Real, Simbólico e Imaginário). Aula de 17/12/74. Paris. [Seminário inédito] SOLER, C. Interpretação: as respostas do analista. Opção Lacaniana, São Paulo, (13), 1995. 13 SOLER, 1995, p. 34. dezembro 58 99 6978_Impulso_26.book Page 59 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Um Método Sobre o Discurso, ou a Metáfora Opaca A Method on Discourse or the Opaque Metaphor RESUMO – O presente texto propõe uma reflexão sobre o método psicanalítico, primeiramente a partir da distinção entre dois procedimentos geralmente indiferenciados, a análise de conteúdo e a interpretação, que visam respectivamente a causa (do sintoma) e o sentido (do discurso). Na seqüência, a interpretação é definida como “procedimento de desmetaforização”; para tanto, são desenvolvidos os conceitos de metáfora transparente e de metáfora opaca, ou discursiva. A respectiva argumentação se baseia numa releitura da teorização freudiana acerca do sonho e na crítica à concepção de metáfora elaborada por Jacques Lacan. Palavras-chave: método – interpretação – metáfora. ABSTRACT – This article proposes a discussion on the psychoanalytical method, starting from the distinction between two generally undistinguished procedures, content analysis and interpretation, that seek causation (of symptom) and sense (of speech) respectively. Next, interpretation is defined by means of “demetaphorization” which leads to the development of the concepts of transparent and opaque (or discursive) metaphor. The respective argumentation is based both upon a new reading of Freudian theorization on dreams and a critic of the Lacanian concept of metaphor. Keywords: method – interpretation – metaphor. impulso 59 nº26 FRANKLIN WINSTON GOLDGRUB Mestre em Filosofia e doutor em Lingüística pela PUC-SP. Professor da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. Área de atuação: Psicanálise. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 60 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM INTRODUÇÃO E, no entanto, a interpretação é o ato pelo qual se reconhece o analista; podemos mesmo nos perguntar o que mais ele poderia fazer. Não obstante, essa questão é particularmente negligenciada. Ela só foi aprofundada a propósito dos sonhos, e isso também pode colocar muitos problemas curiosos...1 E ntre as várias reflexões a que convida a efeméride centenária d’A Interpretação dos Sonhos, há uma que parece imprescindível. Trata-se da questão do método psicanalítico. Efetivamente, quanto à teoria, a teoria do sujeito, o seu prosseguimento se deu sem interrupção, tanto sob a pena de Freud quanto na obra de seus contemporâneos e sucessores. Basta mencionar os nomes de Abraham, Ferenczi, Reich, Klein, Winnicot, Bion, Lacan, Laplanche, os Mannoni, Dolto e Aulagnier para ter uma idéia do quanto as primeiras descobertas foram estendidas e aprofundadas, sobretudo (mas não apenas) nos territórios da infância e da psicose. Tudo leva a crer que há um descompasso, uma defasagem enorme entre o desenvolvimento da teoria do sujeito e o da teoria do método; razão que talvez explique a constante invasão da prática psicanalítica por intervenções fundadas em hipóteses teóricas. Com referência à epistemologia e à ética, Lacan encarregou-se da difícil empresa de desvencilhar a psicanálise das amarras que a prendiam ao enfoque darwiniano, responsável, entre outros efeitos, pela tendência ao adaptacionismo presente em certas abordagens, como a do culturalismo em voga nos Estados Unidos. A aproximação com a revolução promovida por Saussure em lingüística, que levou à redefinição do inconsciente como linguagem, operou profunda transformação na teoria do sujeito e repercutiu igualmente nas diretrizes da formação do analista. Conseqüentemente, a pauta da reformulação lacaniana não poderia deixar de incluir a questão metodológica. Entretanto, com relação a esse último aspecto, cabe afirmar que a contribuição da escola francesa não cumpriu a promessa de fazer avançar a compreensão do que o termo interpretação sempre conservou de enigmático, desde o seu aparecimento no próprio título daquele que talvez seja o livro mais impactante de Freud. Lacan passou 1 MANNONI, 1982, p. 82. dezembro 60 99 6978_Impulso_26.book Page 61 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sem escalas da crítica à alarmante precariedade da literatura psicanalítica dedicada ao tema, crítica consubstanciada num texto apimentado que deplorava a notável fragilidade das definições propostas,2 para a desautorização, década e meia depois, do próprio procedimento interpretativo, como é possível depreendê-lo da prática freudiana. Sem escalas: no artigo de 1958 a interpretação é valorizada e se lamenta seu abandono ou secundarização com relação à transferência;3 quatorze anos depois, em L’Etourdit, ela é redefinida pelos procedimentos da pontuação, da escansão e do corte, operações que desde então tipificam o modo de intervenção lacaniana. Quer aceitemos ou questionemos tal emprego do termo – Lacan é notoriamente conhecido pela torção que imprime aos conceitos dos quais se apropria –, é inegável que esse termo difere totalmente do procedimento descrito n’A Interpretação dos Sonhos. Nessa trajetória, fica patente uma lacuna: Lacan não explicita, em nenhum momento, o que entende por concepção freudiana do procedimento interpretativo. Pode-se estender tal afirmação à literatura psicanalítica como um todo. Isso não ocorre por acaso. Se o livro cujo centenário comemoramos é pródigo em exemplos que descrevem como o enigmático conteúdo onírico se transmuta no mais compreensível dos relatos, graças aos efeitos não menos enigmáticos resultantes da associação livre e da atenção flutuante, é preciso reconhecer que nas páginas do clássico freudiano se encontra tudo, menos uma teoria do método interpretativo. Que tal afirmação possa parecer surpreendente se deve a pelo menos dois motivos. O primeiro decorre de uma confusão habitual, a de tomar as regras técnicas estipuladas para interpretar o sonho por uma teoria que dê conta dessa ainda inexplicável propriedade da linguagem, a saber, a simultaneidade de seus níveis manifesto e latente. O segundo está ligado à suposição de que a descrição das operações denominadas pela locução “elaboração onírica” constitua implicitamente uma teorização do método interpretativo. Discordaremos dessa suposição assinalando que, se de fato a regra fundamental cria as condições para que a impressão de absurdo produzida pelos efeitos do deslocamento, da condensação e da figurabilidade4 seja revogada pela decifração, é precisamente o ato interpretativo, ou seja, a passagem da significação ao sentido graças a certo tipo de escuta, que permanece inexplicado e misterioso. A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder (1958). “A transferência, nessa perspectiva, torna-se a segurança do analista e a relação com o real o terreno em que se decide o combate. A interpretação, adiada até a consolidação da transferência, fica desde então subordinada à consolidação desta” (LACAN, 1998, p. 602). 4 A elaboração secundária, quarta operação, visa precisamente racionalizar o conteúdo onírico. 2 3 impulso 61 nº26 6978_Impulso_26.book Page 62 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Uma das principais conseqüências dessa lacuna se revela nas diferentes diretrizes estipuladas pelas correntes psicanalíticas com referência ao processo de formação do psicanalista, que refletem, por outro lado, concepções divergentes acerca do que seja o ‘tratamento’, tanto em termos de procedimento, como de critérios de avaliação ou de finalidade. Mesmo assim, e paradoxalmente, todas concordam em impor ao candidato a regra da obrigatoriedade da análise. Acentua-se, assim, a importância da vivência por assim dizer “iniciática” (cf. crítica de Lévi-Strauss, aproximando a psicanálise do xamanismo), do proselitismo e da filiação corporativista às expensas do método; estratégia prudente, aliás, já que deitar num divã é algo tão certo como a maternidade, enquanto o domínio do método por parte do candidato, como a paternidade, permanece inafiançavelmente incerto. Situação que atribuiremos igualmente à inexistência de uma teoria da interpretação.5 O movimento lacaniano chega a uma espécie de demonstração por absurdo dos abusos embutidos nesse requisito ao propor, como critério de uma boa análise, a passagem da condição de analisando para a de analista. Lembremos que Freud, quando se manifestou a respeito, afirmou que quem fosse capaz de interpretar os próprios sonhos poderia ser considerado apto a ocupar a poltrona auscultante, acrescentando a exigência “de que todos que desejem efetuar análises em outras pessoas terão primeiramente de ser analisados por alguém com conhecimento técnico”.6 A primeira estipulação enfatiza a importância do método, exigência que comparece algo atenuadamente na segunda, através da locução “conhecimento técnico”; infelizmente, Freud não nos diz em que consiste ou de que maneira podemos ter acesso a ele. A partir dessa lacuna, a condição necessária concernente à superação dos próprios recalques começa a usurpar o lugar da condição suficiente referente à proficiência metodológica. De qualquer maneira, e retomando o fio da meada, o método interpretativo se apresenta como uma descoberta de facto à qual falta a dimensão de jure, ou seja, a legitimação teórica. Como aconteceu tantas vezes na história do conhecimento, a experiência auspiciou uma prática antes da compreensão de suas condições de possibilidade. O problema não é tanto a ausência de uma teoria da interpretação mas a não-percepção do que isso significa. Ainda que se pretenda esquecer a questão, a radical diferença que separa as correntes psicanalíticas a respeito da prática clínica tem o condão de lembrar incomodamente sua persistência. Uma das conseqüências desse estado de coisas se ex5 Nada parece ter mudado desde que Lacan escreveu A Direção do Tratamento... “Pois é no seio da pretensão deles se bastarem com a eficácia que se eleva uma afirmação como esta: a de que o analista cura menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é” (LACAN, 1998, p. 593). 6 FREUD [1912], 1969, v. XII, p. 155. dezembro 62 99 6978_Impulso_26.book Page 63 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM pressa pela babelização do discurso psicanalítico, dividido em dialetos votados à incomunicabilidade. O confronto de idéias, necessário ao desenvolvimento de qualquer ciência, é assim inviabilizado. Em suma, se cada corrente psicanalítica formulou ciosamente a sua teoria do sujeito, torna-se inevitável reconhecer que, em relação ao método, não há nada semelhante. A esse respeito, o pesquisador encontrará conceitos, descrições, recomendações, estipulações de regras, históricos de casos, mas não uma teoria do método, ausente igualmente em Freud, Lacan e Klein. Ela permanece informulada desde o momento inaugural, isto é, a descoberta da associação livre, e nada se modifica a partir do emprego ‘heurístico’ da contra-transferência ou na esteira da respectiva crítica. Tampouco as propostas metodológicas lacanianas formuladas nos anos 70 comparecem no âmbito de uma teorização do método. Salvo engano, toda a literatura psicanalítica dedicada ao tema ilustra a vigência do problema; estratégias como a de elidir a interrogação acerca da interpretação, substituindo-a pela análise da transferência ou a indigitação do significante, constituem tudo, menos uma solução ou um encaminhamento da questão. Voltando a Lacan: em A direção do tratamento..., as críticas à impropriedade das concepções vigentes são tão precisas que parecem conduzir por si sós à iminência do momento em que o nó górdio será finalmente desatado. Tal expectativa é frustrada quando o leitor depara com as seguintes linhas: “Poupar-nos-emos de fornecer as regras da interpretação. Não que elas não possam ser formuladas, mas suas fórmulas pressupõem desenvolvimentos que não podemos tomar como conhecidos, na impossibilidade de condensá-los aqui”.7 As duas frases prenunciam o que aconteceria nos anos 70, quando Lacan fará uso da mesma espada com que Alexandre Magno se desvencilhou do incômodo desafio..., fazendo pensar que o termo corte, tão típico do lacanismo, seja menos uma analogia do que uma confissão de impotência diante dos problemas colocados pelo ato interpretativo. Em poucos textos é possível surpreender tão próximos o talento demolidor e a dificuldade de construir igualmente característicos do modus operandi lacaniano. (Quem sabe se explique dessa maneira a peculiaridade das preconizações metodológicas lacanianas como o meio dizer, o “oraculismo” e a mimetização com o non-sense do mestre zen). Resumamos enfim os raciocínios que subjazem à premissa em torno da qual se perfila a discussão proposta neste texto: se o método psicanalítico se define pela interpretação, se o texto principal para interrogar a interpretação é A interpretação dos sonhos, se em 1899 são 7 LACAN [1966], 1998, p. 601. impulso 63 nº26 6978_Impulso_26.book Page 64 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM estipulados os conceitos fundantes do referido método mas não sua teorização, se a tentativa mais rigorosa de inquirir a questão renuncia no meio do caminho à tarefa de elucidar a concepção freudiana e envereda pelo atalho do descompromisso, forçoso se faz reconhecer que esse ponto tão crucial permanece em aberto. (E não por acaso: tratase de um vespeiro, cuidadosamente evitado). Admitiremos de bom grado que a caracterização do método psicanalítico pela conjugação da associação livre com a atenção flutuante, bem como a descrição das operações oníricas (cuja generalização para a compreensão da estruturação do discurso é incipientemente empreendida por Lacan em 1957), constituem efetivamente marcos fundamentais; contudo, é preciso lembrar que não passam de alicerces. Se soubermos distinguir entre condições necessárias e suficientes, evitaremos tomar a pedra fundamental pela edificação propriamente dita. A via real permanecendo intransitável, proliferam os atalhos. Às constantes proclamações, proferidas por autores lacanianos, acerca da obsolescência da interpretação, descrevendo-a como procedimento superado, resquício meramente pedagógico da pré-história psicanalítica, artifício que alimenta o desejo de saber do analisando com o cardápio da teoria etc., pode-se responder citando o próprio Lacan clássico, o Lacan de 1958: Nem por isso estamos denunciando o que a psicanálise tem hoje de antifreudiano. Pois, nesse aspecto, deve-se reconhecer que tirou a máscara, uma vez que ela se vangloria de ultrapassar aquilo que aliás ignora, guardando da doutrina de Freud apenas o suficiente para sentir o quanto lhe é dissonante o que ela acabou de enunciar de sua experiência.8 Assim, partimos da suposição de que o programa de um “retorno a Freud”, bandeira da subversiva renovação lacaniana, ficou incompleto na medida em que deixou de abranger as importantes embora incipientes estipulações metodológicas presentes n’A Interpretação dos Sonhos. Tal afirmação, porém, exige a seguinte ressalva: um outro artigo, escrito na mesma década de 50,9 fase em que Lacan deu mostras de uma fecundidade ainda não devidamente reconhecida,10 disponibiliza instrumentos de um valor heurístico inegável para o acometimento dessa difícil empreitada. 8 LACAN [1966], 1998, p. 592. “A instância da letra no inconsciente ou a Razão desde Freud” (LACAN, 1998, pp. 496-533), publicado originalmente em 1957 e incluído na primeira edição dos Escritos (1966). 10 Os lacanianos, como os testamenteiros, preferem as disposições derradeiras. 9 dezembro 64 99 6978_Impulso_26.book Page 65 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM METODOLOGIA, TEORIA E EPISTEMOLOGIA Há uma outra forma de defesa que aquela que provoca uma tendência ou uma significação proibida. É a defesa que consiste em não se aproximar do lugar em que não há resposta à questão. Fica-se mais tranqüilo assim e, no fim das contas, é essa a característica das pessoas normais. Não nos coloquemos questões – ensinaram-nos, e é por isso que estamos aqui.11 O encaminhamento da discussão proposta na introdução deste texto será empreendido a partir da teorização da metáfora e da indagação acerca de seu papel na interpretação psicanalítica – enquanto objeto da interpretação. O procedimento adotado para proceder a essa interrogação é o de pensar, mediante um questionamento, a concepção lacaniana de metáfora. As razões dessa escolha são as seguintes: há poucos motivos para duvidar que, mais do que qualquer outro autor, Lacan foi quem aferiu, proclamou e teorizou a metáfora enquanto fenômeno de importância fundamental para a psicanálise, produzindo, sob mais de um aspecto, conceituações sobre essa figura de linguagem. Por outro lado, é igualmente notório o seu papel em relação à (fecunda) aproximação entre psicanálise e lingüística. Diríamos que tal aproximação constitui a condição sine qua non tanto para a reflexão psicanalítica sobre a metáfora como em relação a outras elaborações similares. Tais estudos e seus resultados refletem a importância fundamental da linguagem para o campo psicanalítico. Sem eles, a epistemologia, a teoria e a metodologia da disciplina fundada por Freud permaneceriam muito aquém das exigências mínimas que se impõem a uma ciência – ou a um campo de estudos que pretenda alcançar um conhecimento minimamente sólido de seu objeto. A aceitação da pertinência dessas diretrizes12 – cujas dimensões epistemológicas, teóricas e metodológicas são portanto reivindicadas – não impede que se discorde da solução que Lacan deu à questão da metáfora, discordância que se estende à crítica lacaniana do procedimento interpretativo freudiano.13 Visto a predominância de uma atitude do tipo “tudo ou nada” no que se refere ao posicionamento dos psicanalistas face à obra 11 LACAN, 1985, p. 229. Na medida em que foram mantidas pelo próprio Lacan. O que significa que nos distanciamos do Lacan que, a pretexto das diferenças entre lingüística e psicanálise (como se não soubesse dessas diferenças antes, ou pior, como se entre duas ciências diferentes pudessem não existir diferenças...), enfatiza sobretudo as barreiras entre as duas disciplinas para justificar uma guinada em direção à lógico-matemática e à topologia. De qualquer maneira, é o “Lacan da lingüística” que protagoniza o presente texto. 13 Crítica que, salvo engano, nunca é expressa inequivocamente, e cujos argumentos tampouco foram sistematizados. 12 impulso 65 nº26 6978_Impulso_26.book Page 66 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM lacaniana,14 não será inútil insistir em que o questionamento da respectiva concepção da metáfora não afeta a concordância com as diretrizes expressas na fórmula segundo a qual o inconsciente está estruturado como linguagem,15 que nos parece de fato recuperar, como afirma o próprio Lacan, o cerne da inspiração freudiana. Tal fórmula, muito pelo contrário, constitui um dos pressupostos desta reflexão. Por outro lado, o presente texto constitui evidentemente uma crítica à metodologia lacaniana, visto que ela está em grande medida fundada na concepção de metáfora (e de metonímia) do referido autor. Em outras palavras, assumimos sem ressalvas a posição de que a prática clínica lacaniana não representa uma derivação conseqüente, coerente ou adequada da respectiva posição epistemológica. A intenção principal desta reflexão é a de abordar o aspecto teórico da relação entre metáfora, discurso e interpretação, mas as respectivas implicações, no que se refere à metodologia, não deixarão de ser indicadas. No transcorrer do texto serão apresentados os argumentos relativos à importância da metáfora (enquanto objeto) para a teoria da interpretação psicanalítica, questão que, como já dito, entendemos não ter sido desenvolvida por Freud nem por seus sucessores, a não ser de maneira indireta e incipiente.16 ANÁLISE VS. INTERPRETAÇÃO, OU CAUSA VS. SENTIDO Temos incluído duas coisas como “sentido” de um sintoma: o seu “de onde” e seu “para quê” ou sua “finalidade” – ou seja, as impressões e experiências das quais surgiu e as intenções a que serve (...) não é de grande importância se a amnésia influenciou também o “de onde” – as experiências em que o sintoma se baseia – como acontece na histeria; é no “para quê”, no propósito do sintoma, que pode ter sido inconsciente desde o início, que se baseia sua dependência do inconsciente – e não menos firmemente na neurose obsessiva do que na histeria.17 Na obra freudiana o termo interpretação surge precisamente a propósito dos sonhos. Se ele se impôs, e tanto que participa do grupo seleto de “palavras-chave” evocadas automaticamente pela referência à psicanálise (como trauma, complexo de Édipo, libido, sexualidade), 14 De um lado a adoração e o sectarismo, de outro a indiferença e o desconforto. Propomos retirar da célebre fórmula o artigo definido “uma”. 16 Bem mais comum na literatura psicanalítica é a idéia, simetricamente oposta à defendida neste texto, de que a interpretação é que teria um caráter metafórico. 17 FREUD [1912], 1969, v. XVI, p. 335. 15 dezembro 66 99 6978_Impulso_26.book Page 67 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM seria preciso não esquecer que a prática clínica está longe de conformar-se a seu modelo. Na contramão da interpretação, e apresentando uma adesão bem mais intensa, apresenta-se um outro procedimento, que poderia ser designado pelo qualificativo “conteudístico”. A grande maioria dos autores faz da interpretação e da análise conteudística procedimentos complementares; ao longo deste texto pretende-se demonstrar sua incompatibilidade. Enquanto a análise tem por objeto qualquer conteúdo do discurso que se entenda privilegiar, a interpretação tem por único objeto o próprio discurso. Como habitualmente acontece, a hesitação e também o conseqüente ecletismo procedem do próprio Freud. A preconização freudiana de que o psicanalista corresponda com “atenção flutuante” à “associação livre” constitui uma indicação clara de que o objeto da escuta é o discurso, e não determinado aspecto do seu conteúdo. Por outro lado, a própria denominação “psicanalista” poderia ser vista como um indicativo em sentido contrário..., para não falar da ênfase concedida à análise das recordações da infância, das fantasias derivadas do complexo de Édipo, das modalidades de defesa, da resistência e da transferência em diferentes momentos da teorização freudiana. Pela expressão análise conteudística designar-se-á o privilégio concedido a tal ou qual tema nas diferentes etapas que marcaram a elaboração do método psicanalítico, dando a entender qual seria o seu objeto – o seu objeto por excelência ou o seu objeto preferencial. Assim, de acordo com os diferentes momentos da “história da técnica psicanalítica” e da “linha” ou das preferências pessoais do analista, privilegiou-se (exclusivamente ou não) a análise de: recordações infantis, sintomas, fantasias, “conteúdos” edipianos, resistências, transferências, incongruências entre o conteúdo e a forma da fala, acting outs, e quem sabe ainda outros aspectos, pois nessa perspectiva procede-se por exaustão e é difícil saber onde se deve parar – se é que se deve. (Tratase, aliás, de um enfoque cumulativo, que costuma aceitar ou propor inovações, as quais serão por sua vez somadas ao acervo existente). A palavra análise merece especial atenção; sua função talvez seja a de prover o psicanalista de um “objeto concreto”, que poderia ser “examinado”, e que faria as vezes dessas outras análises costumeiramente pedidas pelo médico: sangue, urina, fezes... Há bons motivos para suspeitar que a conhecida influência do modelo médico sobre a psicanálise seja ainda maior do que se tem reconhecido. Não nos dedicaremos, contudo, a indagar pelas raízes teóricas do enfoque conteudístico. O interesse reside em argumentar convincentemente acerca do que impulso 67 nº26 6978_Impulso_26.book Page 68 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM nos parece constituir uma oposição irredutível entre os conceitos de interpretação e análise. A conseqüência mais deplorável da análise conteudística é a de promover a interferência da teoria na prática clínica. Correspondentemente, ela rastreia a causa – muito compreensivelmente, pois a teoria tem um compromisso, variável segundo a posição epistemológica adotada, mas mesmo assim um compromisso – com a etiologia. A busca da causa situa o discurso do analisando no registro da informação, procedimento que julgamos incompatível com a aferição do sentido. Essa última frase exige a explicitação do seu pressuposto, que é o seguinte: A análise, cujo objeto é tal ou qual conteúdo do discurso, tem por finalidade estabelecer a etiologia do sintoma, ou, expressando a idéia menos nosograficamente, da queixa, enquanto a interpretação, cujo objeto é o discurso, visa unicamente o sentido. Postular a incompatibilidade entre análise de conteúdo e interpretação implica fazer outro tanto no que se refere à relação entre causa e sentido, atitudes que o presente enfoque estima resultarem em práticas clínicas opostas. Eis a argumentação. O rastreamento da causa permanece orientado pela preocupação teórica, mesmo quando a causa hipostasiada apresenta alguma novidade em relação à teoria existente; tratar-se-á, então, de uma contribuição ao desenvolvimento da teoria. Inversamente, a busca de sentido renuncia a tudo o que não seja a singularidade considerada absoluta, não apenas do sujeito em questão, mas sobretudo do discurso de tal ou qual sessão. Apesar da evidente implicação entre as noções de discurso e “pessoa” (“paciente”, “analisando”), é importante distingui-las, operação que julgamos imprescindível do ponto de vista da prática clínica. Nessa perspectiva, o discurso deve ser diferenciado daquele que o profere (“personalidade”), tendo em vista que a interpretação somente pode ter por objeto o sentido do discurso e nunca as “características” de fulano de tal, a respeito de quem o psicanalista não teria como manifestar-se sem assumir uma atitude diagnosticante (conotando avaliação e julgamento), estranha à postura interpretativa. Assim, o trabalho de cada sessão se circunscreve e se define pela interpretação dos respectivos enunciados; os das sessões prévias – salvo se retomados pelo analisando, e somente nessa medida – tampouco se integram à interpretação atual; se tal recurso fosse adotado, a interpretação ficaria novamente subordinada, dessa vez a um outro tipo de teoria, aquela que o psicanalista teria elaborado sobre seu “analisando” a partir das sessões anteriores. A injunção de recordar o trauma seria o exemplo por excelência do procedimento conteudístico. Se o elemento causalista e a subordina- dezembro 68 99 6978_Impulso_26.book Page 69 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM ção do método à respectiva hipótese teórica (trauma infantil como causa do sintoma manifesto após a puberdade) são absolutamente evidentes no referido procedimento, é preciso assinalar que, mesmo se de maneira menos nítida, essa abordagem continua governando a prática clínica após a descoberta da sexualidade infantil e ainda permanece ativa nos bastidores quando o Édipo entra em cena. A substituição da busca do trauma (primeiramente pelo interesse em recuperar as lembranças relativas a uma educação repressiva e posteriormente pela exumação das fantasias ligadas ao arcabouço edipiano) não liberta Freud de um duplo recurso aos elementos referenciais do discurso do paciente: os dados biográficos, de um lado, e, de outro, a própria teoria (a teoria que situa nas fases da sexualidade infantil a fons et origo do sintoma). Certamente a importância auferida pela fantasia promove um distanciamento em relação aos elementos referenciais citados, tanto os teóricos como os biográficos, que são de certa forma substituídos por uma nova modalidade de referencialidade, a da própria fantasia, consubstanciada na teorização do Édipo. As mudanças metodológicas resultantes detêm-se, porém, no hibridismo entre detecção da causa e exegese do sentido, hibridismo claramente denotativo da não-consolidação da teoria da interpretação incipientemente formulada n´A Interpretação dos Sonhos. Combinando uma postura médica resquicial – causalista e subordinada a um saber prévio – com a concepção oposta, consistente em ater-se às associações do paciente, a abordagem clínica freudiana paga tributo a essa indefinição epistemológica18 que a condena ao ecletismo metodológico. Nesse quadro, a descoberta da transferência representa a tentativa – quase desesperada – de encontrar o chão da realidade, depois que a fantasia, ou, mais precisamente, a compreensão de suas implicações, volatizou a verossimilhança das experiências infantis relatadas nas sessões. O psicanalista passa a apoiar-se na prova testemunhal, fornecida pelas emoções, do que o paciente sente a seu respeito, o que lhe permitiria deduzir a relação que ele mantinha com seus pais ou substitutos..., relação que simultaneamente teria funcionado como causa de suas dificuldades atuais e cuja revelação, efetuada através da inserção dos conflitos do paciente no quadro teórico pertinente, teria valor terapêutico. Outra vantagem das emoções para um tal enfoque: elas ostentam uma ruidosa autenticidade, em contraposição à palavra, sempre 18 Indefinição epistemológica e conseqüente ecletismo, que em última análise se referem à pergunta pelo estatuto (biológico e/ou ambiental e/ou lingüístico?) do inconsciente. impulso 69 nº26 6978_Impulso_26.book Page 70 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tida por enganosa, lacunar, omissa, dissimulada... Segundo a abordagem em questão, não se emocionar abundantemente é cometer o pecado capital de recusar envolvimento com a análise e seu representante. De acordo com essa valorização das secreções de alto teor afetivo (como a lágrima e a coriza), os consultórios passam a incorporar um novo tipo de equipamento obrigatório: os lenços de papel. Concebida dessa forma, a transferência visa dar acesso ao passado da maneira mais fidedigna possível. Objeto por excelência da teoria, a infância finalmente poderia ser exumada de maneira confiável, desde que porte o selo de garantia da relação transferencial. O resultado – paradoxal – é que para recuperar a “causa” dos conflitos o ocupante do divã é submetido a um notável processo de infantilização. Sentado em seu posto de observação, o psicanalista permanece à espreita de qualquer indício que possa justificar a análise transferencial e tende a referir toda fala que revele certa intensidade emocional à própria situação analítica. O passo seguinte é a dedução da natureza das relações primordiais (ou primárias) do paciente. Quando isso não ocorre (ou seja, quando falta a intensidade emocional do lado do divã), os sentimentos próprios (acionados freqüentemente por essa decepção) são utilizados pelo psicanalista para propiciar a referida operação dedutiva (“identificação projetiva”). Não é necessário acrescentar que tais procedimentos são característicos da abordagem kleiniana. Desse ponto de vista, dá-se por certo que, com a aferição das imagos materna e paterna do paciente graças ao decalque transferencial, ter-se-ia chegado à “causa” dos seus conflitos e dificuldades. Em outras palavras, há bons motivos para suspeitar que a promoção da transferência a principal conteúdo da análise – operação teórico-metodológica que mereceria o nome de “hipertrofia da transferência” – tem por finalidade amenizar a insegurança gerada no psicanalista pela areia movediça da fantasia. A constatação da sua subordinação ao desejo retira da memória qualquer resquício de confiabilidade e faz da psicanálise uma prática puramente conjetural em termos factuais. Tratase de uma situação difícil para uma abordagem medicalizante. A fantasia “transferencializada” passa a ter uma função específica: a de revelar as características das primeiras relações, concebidas como um tipo de condicionamento emocional. Situação “real” que teria gerado os atuais conflitos, os dados biográficos são referidos por sua vez quer à teoria edipiana concebida em termos genéricos (ortodoxia freudiana), quer à teoria das relações estabelecidas no primeiro ano de vida (doutrina kleiniana). De qualquer maneira, recupera-se, retroagindo à “causa” da fantasia, um dezembro 70 99 6978_Impulso_26.book Page 71 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM “real”, teórico ou biográfico. Em ambos os casos ter-se-ia alcançado, mesmo se com a respiração arfante, a ardorosamente perseguida origem (dos conflitos, inibições, sintomas, inadequações, dificuldades etc.). O SONHO Eu lhes digo o que Freud fez. Digo-lhes como procede seu método. E, na verdade, basta abrir em qualquer página o volume da Traumdeutung para encontrar o equivalente.19 Mas se a fantasia pode ser “recapturada” após alguns esperneios, o sonho parece invulnerável enquanto baluarte do sentido. É importante compreender a razão dessa inexpugnabilidade. Antes de mais nada, o sonho é referenciado primeiramente às respectivas associações..., e, se estas costumam remeter aos restos diurnos, tais elementos da “realidade” (ou seja, da vivência do sonhador) são, por sua vez, solenemente desconsiderados por Freud como “causa”, pois constituem apenas um material apropriado de que o sonho se serve para veicular sua “mensagem”, esta sim fundamental..., e exclusivamente discursiva. No sonho, a predominância do sentido sobre a causa é uma evidência, e não será demais insistir em que, por essa razão, o termo interpretação surge a propósito do sonho e é com relação a ele que mantém a sua principal referência. Em nenhuma outra parte de sua teoria Freud trata o “real”20 (a experiência, a vivência) de maneira tão despiciente. A mesma atitude prevalece em relação ao orgânico. A vontade de urinar, uma dor de dentes ou o som estridente do despertador são outros tantos estímulos que o sonho, enquanto cumpre sua tarefa de proteger o sono, configura de acordo com os interesses do “capitalista” do sonho, isto é, o desejo inconsciente. Como se não bastasse, na contramão do senso comum que vê na fadiga a via de ingresso ao reino de Morfeu, Freud atribui o próprio ato de dormir à frustração que a vida de vigília impõe ao princípio do prazer; tal seria a razão da proteção exercida pelo sonho em relação ao sono. Com essa afirmação, ele reitera a subordinação do fisiológico ao inconsciente, gesto que em sua teorização anterior só tem paralelo no que se refere à sexualidade. 19 LACAN, 1985, p. 270. O real “antes de Lacan”, que o redefinirá como desejo. A “experiência”, a “vivência”, constituirão, para o teórico francês, o cerne do imaginário. 20 impulso 71 nº26 6978_Impulso_26.book Page 72 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Por outro lado, se a teoria do sonho recupera compreensivelmente a noção de causa assinalando o caráter arcaico do desejo responsável pelo onirismo (os “imorredouros desejos infantis”), não é menos verdade que tais desejos já não são os “desejos concretos”, que aliás Lacan proporá designar pelo vocábulo demanda; estão muito mais próximos do “estrutural” e, nesse sentido, sem dúvida, sua matriz é a situação edipiana. Assim, se a teoria do sonho supõe uma causalidade, por outro lado a define por subordinação à noção de estrutura – ou seja, a estrutura desejante, cujas possibilidades (diferentes modalidades de conflito e sublimação) obedecem às regras da gramática edipiana ao mesmo tempo em que se manifestam no dialeto da singularidade. O sonho representa assim um raro – ou mesmo único – caso de limite imposto à etiologia na obra freudiana. Julgamos que tal restrição à noção de causalidade deve-se precisamente ao procedimento interpretativo formulado para dar conta do sentido do sonho. A própria interpretação tem por implicação o abandono da preocupação com a origem (do sintoma, do conflito), já que sua referência é o discurso, e para além do discurso só há esse vazio ao qual Freud aludiu mediante a afirmação de que o umbigo do sonho está ligado ao desconhecido. Subentende-se igualmente que o acesso à causa seja totalmente irrelevante para a finalidade terapêutica – embora estejamos ainda muito longe de saber “como” a interpretação produz seus efeitos. Quando Freud define o discurso como objeto e a interpretação como método, cessa a possibilidade de aferir a etiologia de sintomas ou conflitos. A afirmação de que o sonho está umbilicalmente ligado ao desconhecido conduz ao abandono da idéia de causalidade. Poderíamos propor a seguinte leitura para essa atitude metodológica: “Para além do sentido, cerne do discurso, nada é possível saber – e nem é necessário”. De forma que a célebre asserção “o sonho é a via real para o inconsciente” poderia perfeitamente significar: “Já que o sonho, tal como comparece na clínica, não é senão o relato verbal do sonho, já que o que interessa em relação ao sonho é unicamente o seu sentido, já que somente a interpretação pode alcançar o sentido, é precisamente em relação ao sonho que o método psicanalítico – a interpretação – alcança plena e legítima expressão”. Caso em que a expressão via real referiria menos o próprio sonho e mais o método formulado para interpretá-lo. No capítulo “Terceira lição de psicanálise” de Cinco Conferências sobre Psicanálise (1909),21 Freud escreve: “(...) análise de 21 FREUD [1912], 1969, v. XI. dezembro 72 99 6978_Impulso_26.book Page 73 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM sonhos, cuja técnica se confunde com a da própria psicanálise”. Freud emprega aqui o termo análise (seria necessário consultar o original em alemão) e não interpretação, o que pode tanto indicar que ele privilegia a interpretação como procedimento por excelência da psicanálise quanto, inversamente, demonstrar sua condescendência com essa indiferenciação entre análise e interpretação que supomos subjacente ao impasse metodológico ora examinado. De qualquer maneira, na prática freudiana a “teoria” é outra... (e isso literalmente, na medida em que a teoria invade o terreno metodológico). Nos dois sonhos de Dora (Fragmento da Análise de um Caso de Histeria, 190522) encontramos a mais clara expressão do conflito entre as duas tendências, a interpretativa e a analítica. Esta última se ocupa, como sempre, do rastreamento da causa, manifestando-se através de um verdadeiro interrogatório a que Dora é submetida, especialmente sobre acontecimentos de sua infância mas também com relação à origem de seus conhecimentos acerca da sexualidade. Apesar da inquirição, sobram algumas lacunas, que são preenchidas pelas associações do próprio Freud... Inversamente, quando ele se atém à prática interpretativa, emergem os elementos que fornecem finalmente os índices mais rigorosos do sentido. Exemplifiquemos com o segundo sonho: Dora, a duras penas (a dificuldade em alcançar a estação onde tomará o trem de volta para Viena), renuncia ao senhor K. (deixando a cidade desconhecida que metaforiza “casamento”), e troca a sexualidade “prática” (bosque, lago, sr. K) pela “teórica”... (sobe as escadas [= negação de gravidez], entra em seu quarto e abre um grande livro). O sentido do sonho é pois o retorno de Dora à condição de filha, à qual é sacrificada – mesmo se penosamente – a de mulher. Escapa talvez a Freud o caráter metafórico da “morte do pai”, informação que, comunicada pela carta da mãe, constitui o elemento decisivo para que a moça volte.23 22 FREUD [1912], 1969, v. VII. A carta contém, após a informação sobre a morte do pai, a expressão “Se você quiser?”, escrita no meio de uma frase com um ponto de interrogação, expressão idêntica à usada pela sra. K. na carta em que convidava Dora a L., o que pode ser interpretado como o “oferecimento”, por parte da mãe de Dora, do marido à filha. Correspondentemente, através das demais associações fornecidas por Dora, cabe interpretar a morte do seu pai, no sonho, como “ele aceitou separar-se da senhora K”, enquanto outras associações acrescentariam a explicação “para não perder sua filha”. As associações mais importantes para sustentar essa hipótese são: o pai só consegue dormir, estando longe da sra. K., se beber. Dora perguntou à mãe “cem vezes” pela chave do aparador onde estavam as bebidas (para oferecer uma ao pai). No sonho, ela pergunta “cem vezes” pela estação. Assim, o retorno de Dora está ligado ao seu papel de ministradora do soporífero que substitui, para o seu pai, a mulher amada. Além disso, se “dormir” significa “separação transitória da mulher amada”, “morte” bem poderia significar “separação definitiva”. E Dora, sempre nas associações, refere-se a um brinde à saúde do pai, descrevendo sua fisionomia abatida e perguntando-se quanto tempo ele teria de vida (significando provavelmente nesse âmbito = “quanto duraria sua relação com a sra. K.”). 23 impulso 73 nº26 6978_Impulso_26.book Page 74 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Ainda que o sonho também permita, se considerado enquanto “conteúdo” da sessão, a prática da análise, isso ocorre apenas num segundo momento, quando Freud se empenha em buscar os “índices de realidade” associados ao que para ele constitui uma exigência teórica: Mas havia ainda uma dúvida, em cuja solução eu devia insistir. Estou convencido de que um sintoma desta espécie24 só aparece quando tem um protótipo infantil. Até aqui, minha experiência levou-me a afirmar com convicção que as lembranças originadas das impressões de anos posteriores não possuem força suficiente para fazê-las estabelecerem-se como sintomas. Eu mal ousava esperar que Dora me fornecesse o material que desejava de sua infância, pois a verdade é que ainda não me encontro em posição de afirmar a validade total desta regra, embora desejasse profundamente poder fazê-lo. Mas, neste caso, surgiu uma confirmação imediata. Sim, disse Dora, quando criança ela torcera aquele mesmo pé; escorregara em um dos degraus quando descia as escadas”.25 Assim, Freud impõe-se o dever de buscar o respaldo teórico para sua interpretação, e se o sintoma é lido como literalização da metáfora “dar um mau passo”, esta por sua vez exige um evento real como origem. Mais uma vez é invocado o apoio dos fatos para sustentar a incômoda diafanidade do discurso. O procedimento interpretativo, contudo, dispensaria perfeitamente a chancela da teoria que teria tornado obrigatória a recordação do acidente da infância. Para aferir o sentido de “subir escadas com facilidade”, bastaria que Dora fornecesse – o que de fato ocorreu – “material” para que esse elemento do sonho fosse desmetaforizado enquanto negação da gravidez, visto que esta se associava por sua vez à pseudo-apendicite (manifesta pela dificuldade de subir escadas). A expressão “dar um mau passo” deve-se a uma associação do próprio Freud e, apesar de sua plausibilidade, é desnecessária para a interpretação – além de representar, do ponto de vista da “técnica”, um procedimento totalmente incorreto. (Freud forneceu a metáfora em vez de limitar-se a interpretar aquela criada pela própria Dora). Em suma, trata-se de saber se em psicanálise a pesquisa teórica “direta” é de fato compatível com a metodologia interpretativa. Por tudo quanto já foi argumentado, pesquisar a origem de um sintoma que só aparece (como só pode aparecer) no discurso, é desconsiderar o discurso enquanto objeto e colocar em seu lugar a respectiva referência. Em outros termos, a pergunta pela etiologia caracteriza a preva24 Freud refere-se aqui à fantasia de parto, representada por uma crise de apendicite que, entre suas conseqüências, fazia Dora arrastar uma perna e ter dificuldade em subir escadas. 25 FREUD [1912], 1969, v. 8, p. 100. dezembro 74 99 6978_Impulso_26.book Page 75 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM lência da significação (isto é, do caráter referencial do discurso) sobre o seu sentido; insistamos: este último não poderia ser captado senão pelo procedimento interpretativo, que é, por definição, totalmente “agnóstico” em relação à existência da causa.26 Aqui se faz necessário mencionar uma questão bastante espinhosa, a da relação entre prática e teoria. Esse ponto, extremamente importante, não poderá, contudo, ser abordado neste trabalho. Admitiremos de bom grado que a análise de conteúdo se presta realmente bem melhor ao desenvolvimento da teoria do sujeito inerente à psicanálise do que o procedimento interpretativo e que, sob esse aspecto, a “primeira técnica” freudiana teria constituído, se privilegiarmos a perspectiva teórica, um “erro” de conseqüências favoráveis. Erro vai entre aspas porque, evidentemente, a notável descoberta do próprio procedimento interpretativo não poderia deixar de ser tributária dos passos anteriores associados ao que temos designado por “análise de conteúdo”. O sonho, por exemplo, “sede” do procedimento interpretativo, advém, a princípio, como mais um “conteúdo”, antes de exigir a elaboração do método que subverteria o modelo médico causalista predominante até então. De qualquer forma, é possível duvidar do teor da conhecida afirmação freudiana relativa à feliz coincidência que faria do tratamento psicanalítico uma afortunada conciliação entre o objetivo do pesquisador (conhecimento teórico) e o objetivo do paciente (a “cura”). Poderíamos dizer que durante muito tempo a teoria se desenvolveu “à custa” do método (portanto da “cura”) e que, se de um lado esse procedimento trouxe beneficios fundamentais (no que se refere ao estabelecimento da nosografia psicanalítica, por exemplo), ele não se justifica mais atualmente. Supondo a plausibilidade dos comentários anteriores sobre Dora, seremos obrigados a reconhecer que o sonho, tampouco ele, escaparia totalmente de uma “recaptura” pela análise conteudística. Cabe assinalar, porém, que a recaída em questão só acontece após a interpretação ter sido efetuada, e obedece claramente à intenção de dar um lastro factual/etiológico ao sentido encontrado. Os dois procedimentos utilizados por Freud ao abordar o sonho permitem ilustrar, portanto, o contraste entre as práticas interpretativa e analítica. Enquanto a dimensão do presente e a inquirição do sentido conferem ao discurso o papel de objeto do método psicanalítico, a dimensão do passado e a preocupação etiológica reafirmam a primazia teórica da causalidade. Mas, e isto é decisivo, é preciso levar em conta que, quando o Édipo se transforma graças à teorização das fantasias originárias e das teorias sexuais infantis, a noção de estrutura (oposta à de causalidade e cor26 Aliás, Alexandre Koyré, em seus estudos sobre história da ciência, já assinalava a correlação entre as noções de “Deus” e “causa”. impulso 75 nº26 6978_Impulso_26.book Page 76 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM respondentemente próxima à de sentido) se institui também em relação ao “passado”. Embora Freud pareça não perceber tais modificações e nem o caráter contraditório dos respectivos procedimentos, utilizando todo o seu arsenal metodológico e teórico simultaneamente, a distinção entre interpretação e análise de conteúdo parece-nos imprescindível para compreender a indefinição entre método e teoria em sua prática. LACAN E AS OPERAÇÕES ONÍRICAS FREUDIANAS Aquella noche corrí, el mejor de los caminos, montado en potra de nácar, sin bridas y sin estribos27 Sabe-se que a teorização freudiana acerca da elaboração onírica foi objeto de uma releitura por parte de Lacan, orientada de acordo com a clave lingüística. Das quatro operações descritas por Freud, Lacan priorizou a condensação e o deslocamento, definindo-as a partir das figuras de linguagem (ou tropos), conhecidas como metáfora e metonímia. As outras duas noções propostas por Freud, “consideração de figurabilidade” (Rücksicht auf Darstellbarkeit) e elaboração secundária, não foram objeto do interesse lacaniano. O questionamento das correspondências acima mencionadas (metáfora e condensação, metonímia e deslocamento), postuladas por Lacan, envolve uma preliminar, a de entender como condensação e deslocamento são definidos por Freud. Em princípio, Freud designa pelo termo “condensação” a compactação dos pensamentos latentes numa determinada imagem onírica. O “sonho do tio José”, em que um rosto emoldurado por uma barba loura representa simultaneamente um amigo do sonhador, “R.” (que, como o próprio Freud, esperava uma nomeação para um cargo universitário), e o aludido parente, é um exemplo de condensação.28 As associações de Freud conduzem ao seguinte: se o professor em questão fosse como o referido tio (a quem se atribuía um deslize financeiro), haveria razões suficien27 GARCIA-LORCA, F. “La casada infiel”. Dificilmente poder-se-ia achar melhor metáfora para a metáfora. A palavra (o discurso) como esposa do significado e amante do sentido. 28 Freud apresenta esse sonho como um exemplo de condensação pela convergência, na mesma imagem (significante), de dois “significados”. Entretanto, o conceito de condensação não repousa necessariamente nessa característica, que seria eventual. Mais estruturalmente, condensação designa o fato de ser possível extrair, de cada elemento do sonho, uma (ou várias) linha(s) associativa(s), muito mais ampla(s). Nesse sentido, a condensação consiste na operação pela qual a elaboração onírica isola e separa um significante pertencente a determinada cadeia de “pensamentos latentes”, justapondo-o a outros significantes submetidos à mesma operação. Essa concatenação seqüenciada de fragmentos ou excertos (merecendo um neologismo, como frankensteinização) provoca o efeito de estranhamento e ininteligibilidade típicos do sonho. dezembro 76 99 6978_Impulso_26.book Page 77 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tes para que o primeiro não fosse nomeado, caso em que Freud poderia continuar alimentando esperanças nesse sentido, já que sobre ele não pesaria qualquer imputação semelhante. A “grande afeição” pelo tio, sentimento integrante do sonho, constitui para Freud um exemplo de deslocamento, tendo em vista que disfarça uma das idéias centrais, ou seja, a “calúnia” endossada pelo sonhador contra R. e N. (um outro amigo de Freud, igualmente interessado num cargo universitário, e que por esse motivo aparece nas respectivas associações). Poder-se-ia dizer que Freud usa o termo condensação para referir uma operação que seria revertida com certa facilidade, desde que a recordação dos “restos diurnos” responsáveis pelas imagens oníricas não fosse bloqueada pela resistência. De fato, com referência a esse mesmo sonho, ele confessa uma “má vontade” inicial em associar, atitude mais apropriada, comenta, num paciente; uma vez superada a barreira, os pensamentos latentes acorrem com relativa fluência. Assim, o sonhador percebe sem grande dificuldade, mesmo se com certo desagrado, que a associação entre R. (e N.) e o tio José obedece possivelmente a um “desejo” de manter as esperanças de nomeação. A condensação em questão, portanto, tem certamente um caráter metafórico, instituindo uma semelhança obtida por comparação, cujo teor, aqui, seria semelhante ao de uma difamação. Mas outro tanto ocorre com o que Freud chama de deslocamento. “Sinto uma grande afeição por ele(s)”, metaforiza o não querer saber da “calúnia” veiculada pelo sonho. Esse procedimento de despistamento poderia representar uma operação onipresente nos processos de elaboração onírica, escreve Freud, e nesse caso seria “uma descoberta de validade geral” para a teoria dos sonhos.29 A partir dessas formulações iniciais, diríamos que a condensação colabora com a censura, subsumindo uma vasta cadeia discursiva (“pensamentos latentes pré-conscientes”) em elementos mínimos, perfazendo uma miniaturização ocultante, enquanto o deslocamento chama a atenção para os “elementos mínimos” menos importantes ou mesmo intercala imagens despistadoras em relação ao sentido do enunciado onírico (no presente sonho, através de uma estratégia de maximizar um sentimento e omitir outro). Mais importante, porém, é considerar que as regras propostas por Freud dão a entender que a condensação e o deslocamento somente poderiam ser superados por intermédio de associações. Essas cadeias verbais progressivamente deixariam de se restringir aos restos diurnos responsáveis pelas imagens oníricas, 29 FREUD [1912], 1969, v. 4, p. 151. impulso 77 nº26 6978_Impulso_26.book Page 78 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mergulhando decididamente no âmbito discursivo. Se a condensação é “desfeita” quando as imagens oníricas (significantes) são relacionadas com os respectivos restos diurnos, o deslocamento apenas seria superado através do exercício da discursividade não limitada a qualquer temática. Nesse caso, “sinto uma grande afeição por ele(s)”, apesar de manifestar-se no sonho como uma emoção (ou um “pensamento”), permanece funcionando como imagem (conteúdo manifesto) e, portanto, como condensação. Freud dá-lhe porém o nome de deslocamento porque seu poder de ocultação (de mascaramento) parece bem maior do que o da imagem que representava simultaneamente o tio e o amigo. Diríamos, não obstante, que em ambos os casos se trata de metáforas, uma mais “transparente” e outra mais “opaca”. Entende-se então porque Freud compara o sonho ao delírio; as imagens oníricas são, como as do delírio, significantes separados das respectivas cadeias discursivas em que se encontram simultaneamente sua significação, restrita (metáfora transparente) e o seu sentido, abrangente (metáfora opaca). A diferença reside em que o relato (a recordação) do sonho permite eventualmente restituir essa relação, na medida em que a atitude do sonhador para com sua “alucinação noturna” se distingue da de uma pessoa em surto psicótico com referência ao delírio. Portanto, tanto em relação à condensação como ao deslocamento, cabe a hipótese de que se trata de uma substituição por metaforização, substituição essa que ocorre no âmbito discursivo (e não morfemático ou sintagmático). Assim, a segunda metáfora (que Freud designa por “deslocamento”) – e cuja possível tradução seria “Eu não gostaria de saber que estou interessado em difamar meus amigos para manter minhas esperanças de nomeação” – para ser compreendida, tal qual a primeira metáfora (“meu amigo R. [N.], como meu tio José, cometeu um deslize, logo não merece o cargo”), precisaria ser reinserida no discurso ao qual pertence. De fato, apenas após essa reinserção é que Freud poderá notar o contraste entre o que sente “realmente” pelo tio (nenhuma afeição) e o apreço constante do conteúdo manifesto do sonho, bem como o exagero da afeição onírica pelos amigos, que tampouco tem correspondência com o relacionamento mantido com eles. Algumas páginas após os primeiros comentários sobre o sonho do tio José, Freud propõe uma interpretação diferente, ao mesmo tempo em que critica a anterior. Segundo a nova hipótese, o sonho expressaria um anseio, que remonta aos tempos de adolescência, de ser ministro. (De fato, o sonho confere a Freud o direito de julgar despi- dezembro 78 99 6978_Impulso_26.book Page 79 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM cientemente seus amigos, como quem tem o poder de decidir sobre a nomeação dos mesmos). Essa associação, por sua vez, promove uma recordação de infância, em que um adivinho teria predito o futuro de “um grande homem” para o menino de onze anos que almoçava com seus pais num restaurante às margens do Präter. As novas associações conduzem à constatação de que o anseio de obter o cargo de professor não constitui o elemento principal do sonho (é “apenas” uma metáfora transparente); mais importante seriam as condições de obtenção do cargo, isto é, que R. (e também N.) sejam excluídos. (Cabe lembrar, aliás, que Freud, R. e N. não estão disputando o mesmo cargo). Nesse caso, trata-se menos de calúnia a serviço da manutenção de uma esperança (metáfora transparente), e mais da reivindicação do privilégio, única razão para que a exclusão dos rivais se torne imprescindível (metáfora opaca). Percebe-se, então, que a primeira interpretação (a da calúnia) é obtida com relativa facilidade (de fato, os “pensamentos latentes” lhe dão acesso), enquanto a segunda seria obscurecida pela primeira – ainda que não a contradiga como pretende Freud.30 A oposição entre ambas se restringe ao fato de que a interpretação inicial se afigura como perfeitamente satisfatória, impedindo, assim, o acesso ao sentido mais “profundo”. Efetivamente, a primeira tradução propunha a seguinte enunciação: “Preciso excluir (caluniar) R. e N. para aceder ao cargo, mas tenho vergonha de fazê-lo”. E a segunda: “Desejo aceder ao cargo para excluir R. e N., mas tenho vergonha de fazê-lo”. A primeira interpretação constitui um passo em direção à segunda, à qual poderia ainda acrescentar-se uma enunciação paralela de modo a incluir a explicação do sonhador para seus sentimentos, ou seja, o desejo de cumprir as expectativas parentais: “o meu anseio de ser superior a todos para satisfazer meus pais faz com que eu entre em choque com meus pares”. Portanto, levando em consideração não apenas o sonho, mas todos os comentários de Freud, inclusive e notadamente suas duas hipóteses interpretativas, obter-se-ia um enunciado ainda mais abrangente. Trata-se afinal de uma oposição entre necessidade e desejo, isto é, entre justificar por uma situação externa certo sentimento desagradável, de um lado, ou admitir que ele é intrínseco ao sonhador, de outro... Assim, o sonho do tio José apontaria para uma interpretação em que o sentido parece emergir do contraste entre duas atitudes: a de atribuir os próprios sentimentos às circunstâncias ou, em oposição, ad30 FREUD [1912], 1969, v. 4, pp. 203-204. impulso 79 nº26 6978_Impulso_26.book Page 80 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mitir que o sonhador é responsável por eles. Seria, digamos, um sonho de ressonâncias teóricas ou mesmo epistemológicas... METÁFORA TRANSPARENTE E METÁFORA OPACA A metáfora não é a coisa no mundo das mais fáceis de falar.31 Em outro texto,32 mediante as noções de “metáfora transparente” e “metáfora opaca”, procuramos estabelecer uma distinção entre a metáfora “manifesta” ou evidente (o melhor exemplo seria o da metáfora coloquial: “cada macaco em seu galho”, “a vaca foi pro brejo”, “não dar ponto sem nó” etc.) e a metáfora discursiva, em princípio totalmente indiscernível enquanto tal. A metáfora transparente é diretamente aferível, sendo facilmente identificada, tendo em vista que se expressa através de uma palavra ou expressão cujo caráter incompreensível, do ponto de vista literal, exige a decifração por parte do destinatário. De fato, este substitui a palavra ou expressão figurada por aquela que constituiria seu sentido apropriado – desfazendo, assim, a operação metafórica mediante um procedimento análogo ao de uma interpretação, mas que deveria ser designado mais apropriadamente por tradução.33 Desse modo, “não (se deve) invadir o espaço alheio”, “o problema tornou-se insolúvel”, “ser precavido” seriam as significações atribuídas às metáforas coloquiais ou transparentes supra. Esse enfoque, aliás, coincide com a definição de metáfora adotada por Lacan: “uma palavra por outra”.34 O contexto seria necessário – apenas – para a aludida operação. Entretanto, uma tal definição, certamente bastante comum, confina a metáfora à dimensão do que é plenamente explícito. Uma palavra ou expressão explicitamente metafórica, quer seja enigmática,35 poética, chistosa ou coloquial, pede também explicitamente a atitude interpretativa, ou melhor, a tradução, por parte do destinatário. É a partir de Freud que sintomas, sonhos e atos falhos ingressam no território anteriormente circunscrito aos discursos poético e cômico, na exata medida em que a respectiva leitura de sentido toma o lugar do rastreamento etiológico. Mas apesar disso, e mesmo em Lacan – que a 31 LACAN, 1985, p. 248. “Fenomenologia da Metáfora”, publicado em Psicologia Revista (PUC/SP), número I, setembro de 1995. 33 A diferença entre interpretação e tradução reside em que no segundo caso a substituição tem por contexto a língua (universal), enquanto no primeiro incide sobre o discurso (singular). 34 Em “A instância da letra no inconsciente ou a Razão desde Freud” (texto de 1957, publicado em Escritos), em que propõe também as fórmulas da metáfora e a metonímia, procedimento aliás muito semelhante ao de Lévi-Strauss em “A estrutura dos mitos” (1955, in Antropologia Estrutural I). 35 Como o sintoma, por exemplo, ou as imagens oníricas. 32 dezembro 80 99 6978_Impulso_26.book Page 81 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM recuperou para a psicanálise, dando-lhe estatuto epistemológico –, a dimensão lingüística “esquecida” na era pós-freudiana, o sentido, definido enquanto efeito eminentemente metafórico,36 é, não obstante, referido a uma transposição de palavra por palavra ou expressão por expressão, ou seja, é confinado à substituição explícita – e, portanto, a um âmbito não discursivo. Um exemplo à mão é o da releitura do “caso Dora” por Lacan, que propõe como mola propulsora do conflito o amor inconfesso da moça pela sra. K. O enfoque lacaniano difere do de Freud uma vez que este identifica na paixão recalcada de Dora pelo sr. K. o fator elucidativo das atitudes “defensivas” da sua paciente.37 Mas, na contramão tanto da análise de Freud como da análise (insistamos: análise, e não interpretação) de Lacan, é possível “desmetaforizar”, não os sentimentos de Dora por quem quer que seja, mas (apenas e tão-somente) o próprio relato de Freud, enquanto indicativo da dificuldade da protagonista de passar da condição de filha para a de mulher, uma vez que a posição de esposa, representada tanto pela mãe como pela sra. K., afigura-se para Dora como equivalente a não ser amada, ao menos pelo próprio marido. Seria, portanto, justamente por acreditar que K. queria desposá-la (indício da “seriedade” de que K. teria dado mostras, como afirmava Freud) que Dora sentiu-se ameaçada... e interrompeu tanto o romance, que corria o risco de tornar-se casamento, como a própria análise com um Freud casamenteiro que pretendia convencêla das delícias e conveniências do himeneu...38 O relato no qual Dora corta com um tapa a frase em que K. destituía a própria esposa do seu amor (“Ela não significa nada para mim...”) talvez aponte para o que a sra. K. significava para Dora: a possibilidade de conjugar os atributos de “ser mulher (‘mulher’ significando ‘não-filha’)” e “ser amada” (visto que era amante do pai, de um pai impotente, o que não é um dado insignificante). Dora se indigna não por estar apaixonada pela sra. K. – não há nenhum indício disso no relato39 –, mas porque a sra. K. lhe permitia conjugar feminilidade com valorização afetiva, construção que desmorona quando K., em sua declaração de amor, menospreza a esposa. (Não se trata, porém, de conceber esse acontecimento como 36 O que foi estabelecido primeiramente pelo próprio Lacan (ver “A instância da letra no inconsciente...”). Numa nota de rodapé posterior ao trabalho clínico, Freud aventa a possibilidade de não ter percebido a natureza dos sentimentos amorosos de Dora pela sra. K., o que poderia parecer um bom argumento a favor da reinterpretação lacaniana. 38 Há poucas dúvidas de que, junto a Dora, Freud se incumbiu do papel de schatche, ou seja, do agente casamenteiro das pequenas comunidades judaicas da Europa Oriental, personagem que protagoniza algumas piadas do livro sobre o chiste. 39 O que constitui mais uma razão para julgar que a releitura de Lacan é orientada pela teoria, no caso a teoria da histeria. 37 impulso 81 nº26 6978_Impulso_26.book Page 82 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM decisivo; Dora poderia estar perfeitamente à espreita de qualquer justificativa para “retornar” ao pai). Assim, a tentativa de convencer Dora de seu amor por K. e da viabilidade de um casamento com ele é o que teria afastado Dora da análise. Tudo leva a crer que, para a paciente, o próprio Freud, preconizando o casamento, faria parte do complô masculino tendente a colocá-la no papel de esposa, ou seja, de mulher não amada...40 É nesse sentido que julgamos lícito afirmar que as duas leituras, tanto a de Freud como a de Lacan, na medida em que focalizam os “sentimentos”, “as reações”, o “desejo”, “o conflito”, ou “a histeria” de Dora de preferência ao seu discurso como aparece no relato das sessões, se inscreveriam muito mais no âmbito de uma análise de conteúdo do que de uma interpretação. Diferentemente, a metodologia proposta por Freud para interpretar o sonho, ao deter-se por um tempo considerável nos limites do próprio discurso – condição sine qua non para a aferição do respectivo sentido –, suspende momentaneamente a referência à pessoa do analisando, para poder percorrer a via real para o (seu) inconsciente... Momentaneamente, mas por um tempo suficiente para que se possa isolar o enunciado/enunciação da voz que o profere. O sonho provê, assim, a diferença fundamental entre as noções de discurso e personalidade, distinção absolutamente imprescindível para o exercício do método interpretativo. Resta estender o mesmo enfoque a todo e qualquer “tipo” de discurso, deixando de confinar o procedimento interpretativo ao próprio sonho. Assim, cabe afirmar que o “material” das sessões pertence de direito à jurisdição da interpretação desmetaforizante. O que significa entender como manifestação metafórica também o que Freud designou por deslocamento, ou seja, o discurso como um todo. Nessa perspectiva, toda sessão seria tratada como sonho e todo sonho, como sessão – em outros termos, ambos seriam considerados sempre e invariavelmente na perspectiva discursiva, única capaz de justificar a intervenção psicanalítica. De fato, se aceitarmos considerar as imagens oníricas como metáforas (metáforas transparentes singulares41), segue-se que elas estruturam um discurso específico e restrito, o onírico, que por sua vez se integra a outro discurso (chamado por Freud de “pensamentos latentes”, relacionados primeiramente aos “restos diurnos” e posteriormen40 Insistamos: essa interpretação tem por referência apenas e tão-somente o próprio texto de Freud e não pretende apontar para as “verdadeiras razões” da interrupção da análise por parte de “Dora”. 41 “Metáforas transparentes singulares” ou pertencentes ao sujeito, isto é, discursivas, que se diferenciam das metáforas transparentes “universais” pertencentes à língua, caso em que já se encontram codificadas (“puxar o tapete”, “pegar o boi pelo chifre”, “fazer das tripas coração” etc.), e são sintagmáticas. dezembro 82 99 6978_Impulso_26.book Page 83 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM te às suas derivações). Esse “outro discurso” não é senão o discurso propriamente dito que, entendido em sua totalidade (jamais plenamente acessível), coincidiria com a pessoa (“paciente”, “analisando”). Segundo o enfoque adotado neste texto, a palavra analisando (paciente) refere, portanto, a totalidade do discurso, totalidade que permanece inacessível, embora representada parcialmente pelo discurso de cada sessão. Esse é o sentido que poderia ser dado ao termo metonímia quando aplicado a deslocamento (Lacan), ou seja, o de que o discurso manifesto é sempre parcial em relação ao “discurso total” (ou seja, à pessoa), parcialidade oculta pela sua lógica (ou “elaboração secundária”, como dizia Freud), que lhe confere a aparência de completude e coerência. O discurso seria metonímico por não possuir a autonomia e abrangência às quais aspira (não há primazia da consciência, como também dizia Freud), e seria metafórico porque aponta para um discurso subjacente, não necessariamente oposto mas, de todo modo, diferente, o discurso metaforizado, este mais próximo da “lógica inconsciente”. Sendo o discurso metonímico, entendemos que apenas interpretamos o fragmento acessível em cada sessão; por ser metafórico, interpretar é o mesmo que desmetaforizar, operação pela qual se acede ao sentido. Não ao sentido “total” – apenas ao dos enunciados de determinada sessão. (Seria o caso de ilustrar essa situação com a anedota dos alfaiates. Conta-se que em certa cidade do interior um surto de desenvolvimento acelerado atraiu grande número de profissionais requisitados pelo enriquecimento dos fazendeiros da região. Um número crescente de alfaiatarias foi-se enfileirando na rua principal, que permanecia a única asfaltada do lugar. O último alfaiate a chegar deparou com os slogans de seus concorrentes: “A melhor alfaiataria da cidade”, “a melhor do Estado”, “a melhor do país”, “a melhor do mundo”. Só lhe restou escrever em seu cartaz: “A melhor da rua”.). METÁFORA, METONÍMIA, CONDENSAÇÃO E DESLOCAMENTO É preciso insistir nessa questão, pois trata-se de um ponto fundamental: se o conteúdo manifesto do sonho declara sem rodeios sua dimensão enigmática e exige assim uma “tradução” (como o chiste, o sintoma, o ato falho), o conteúdo latente (ou seja, o sonho em conjunto com as suas associações), “esconde” ou não manifesta sua estruturação decididamente metafórica. Essa diferença tem uma importância crucial em termos metodológicos. O conteúdo manifesto, claramente metafórico, condensa o universo discursivo subjacente, mas simultaneamente e, ao contrário do que propõe Lacan, também impulso 83 nº26 6978_Impulso_26.book Page 84 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM pode ser pensado em relação à metonímia, visto ser uma “parte” que representa o “todo” das associações. Diríamos então que, do ponto de vista das considerações de figurabilidade (Rücksicht auf Darstellbarkeit), ou seja, do caráter imagético do sonho, a condensação seria de fato metafórica, mas em relação ao conteúdo latente (associações), relação essa caracterizada pela oposição “parte/todo” e prefigurada, aliás, pela elaboração secundária, a condensação evocaria muito mais a metonímia, por constituir um discurso dentro de um discurso. Em oposição, o termo deslocamento parece aplicar-se muito melhor à operação de mascaramento ou disfarce, conforme ilustrado pelo sonho do tio José. (Um bom exemplo de deslocamento seria o da operação “desfeita” por Freud quando passou da primeira para a segunda interpretação, procedimento que exigiu um novo conjunto de associações, ou seja, a inserção das metáforas transparentes singulares do sonho no âmbito discursivo). Na terminologia ora proposta e apresentada acima, o deslocamento se expressa através da metáfora discursiva ou opaca, em contraposição à metáfora sintagmática ou transparente, mecanismo por excelência da condensação. O aspecto metonímico assinalado por Lacan designaria, de acordo com nosso ponto de vista, o fato de que toda sessão (todo discurso de uma sessão) seria “parte” de um conjunto virtual, jamais plenamente aferível, embora certamente “representado” pelo fragmento ouvido e interpretado, ou seja, o mesmo tipo de relação que Freud descreveu entre os conteúdos manifesto e latente do sonho. Diríamos, portanto, que tanto a condensação como o deslocamento são metafóricos (diferenciando-se respectivamente pela transparência e pela opacidade), na medida em que exigem a interpretação para que seu sentido seja explicitado, embora também sejam metonímicos, porquanto a mencionada explicitação de sentido permaneceria assintótica – ou seja, jamais equivaleria à totalidade do discurso do sujeito. Em relação às duas interpretações de Freud acerca do sonho do tio José, caberia supor, de acordo com a conceituação anterior, que a primeira se inscreve no âmbito da metáfora transparente singular (tendo correspondência com a noção lacaniana de demanda), enquanto a segunda se manifesta no nível discursivo (metáfora opaca, apontando para o que Lacan define como desejo). A primeira desmetaforização (interpretação da metáfora transparente, ou seja, a expectativa da nãonomeação dos amigos, por serem semelhantes ao tio, traduzida por “calúnia” e, conseqüentemente, por “rivalidade”) é seguida de uma segunda, que representa, por sua vez, algo de caráter mais genérico e abstrato: desejo de exclusividade (ser o único ministro judeu), meta- dezembro 84 99 6978_Impulso_26.book Page 85 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM forizado “opacamente” pelo anseio da nomeação em questão. Assim, do circunstancial (disputa de um cargo) passa-se ao estrutural (busca de primazia em toda e qualquer situação). Considerar que o conteúdo latente está estruturado tão metaforicamente como o conteúdo manifesto do sonho significa que todo discurso, não importa qual seja o seu conteúdo, está estruturado metaforicamente; implica igualmente considerar que por essa razão o procedimento interpretativo constitui o próprio método psicanalítico, definido como busca de sentido (isto é, desmetaforização) e não de causa. Tal procedimento atribui ao sentido do discurso pronunciado no momento da sessão o papel de testemunhar o que se revela nesse momento.42 Essa atribuição de uma função determinante ao sentido do discurso se estenderia, por sua vez, a toda e qualquer manifestação discursiva, definindo a interpretação como desmetaforização, analogamente ao que foi estabelecido pela metodologia instituída para a interpretação de sonhos, embora Freud tenha geralmente limitado a aplicação dessa prática à relação entre o conteúdo manifesto e suas associações imediatas. Tal abordagem implica igualmente não considerar qualquer conteúdo como privilegiado em relação ao próprio discurso. O próprio sonho perderia tal privilégio.43 Assim, não haveria interpretação “de sonho”, mas apenas interpretação de sessão (ou seja, do discurso de tal ou qual sessão, cujo conteúdo pode ou não ser um sonho). Se tais raciocínios forem plausíveis, a conseqüência é que não só as correspondências entre condensação e metáfora, deslocamento e metonímia, ficam questionadas, mas também a própria conceituação de metáfora por parte de Lacan, visto que ela se apóia numa definição de metáfora explícita (ou seja, a metáfora, como se manifesta na poesia, no chiste, na fala coloquial, na proverbialização, na parábola, nos contos com “moral”) e numa concepção de substituição restrita (termo a termo ou sintagma a sintagma). Ou seja, por definir o discurso unicamente pela metonímia e limitar o papel da metáfora à produção das imagens oníricas44 (condensação), restringindo assim a metáfora à sua manifestação mais elementar (metáfora transparente45), entende-se que a concepção metodológica lacaniana acabe por desconsiderar o 42 Ao analisando caberia a “outra parte” do trabalho, isto é, relacionar a interpretação, sempre parcial e relativa ao discurso de uma sessão, a ele como “pessoa”. 43 O sonho permanece em posição fundamental apenas no que se refere ao papel que desempenhou em relação ao desenvolvimento do método psicanalítico. E não é pouco. 44 As palavras, faladas ou escritas, que porventura compareçam no conteúdo manifesto do sonho, devem ser tratadas igualmente como imagens, ou seja, como significantes separados de seu significado referencial habitual para cumprir a função de porta-vozes da mensagem onírica. 45 Quer lingüística singular em registro comunicativo (exemplos da poesia e do chiste), quer discursiva singular em registro enigmático (condensação onírica). impulso 85 nº26 6978_Impulso_26.book Page 86 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM procedimento interpretativo freudiano, confundindo-o presumivelmente com análise de conteúdo. Mas a noção de “metáfora paterna” permite reconhecer que em Lacan também há uma outra conceituação de metáfora, dessa vez formulada no âmbito da teoria – a teoria do processo de constituição do sujeito. É possível discernir nessa noção lacaniana uma das características mais importantes da metáfora, a saber, a substituição do abstrato pelo concreto ou, em termos freudianos, a representação da lógica (ou da estrutura – inconsciente) pela vivência (consciente), ou ainda, na própria terminologia lacaniana (referida a outro aspecto teórico), a relação de correspondência/substituição/representação entre o grande outro (“A” – simbólico) e o objeto “a” (imaginário). Uma das implicações mais fundamentais desse conceito (metáfora paterna) refere-se ao fato de que tanto a condição de infans (não falante, bebê) como a posse do pênis, em momentos lógicos diferentes, metaforizariam o falo (a completude). Isto é, seriam metáforas do desejo de não desejar, a primeira concretizando a condição de “ser” o falo (ou seja, posição de objeto absoluto) e a segunda, a condição de “ter” o falo (ou seja, posição de sujeito absoluto). Por outro lado, e talvez esse seja seu aspecto mais evidente, “metáfora paterna” designa a concretização do abstrato da lei (interdição do incesto pela cultura/linguagem) através do empírico (proibição efetuada pelo “pai” ou outro agente da função paterna). Essa representação/substituição/deslocamento e ao mesmo tempo indício (“sintoma”) de deslocamento, que em termos lingüísticos se expressa através da oposição abstrato/concreto, em termos freudianos, pela oposição inconsciente/consciência (latente/manifesto) e em termos lacanianos, pela oposição simbólico/imaginário, assume, no discurso, a forma da oposição entre sentido e significação. A passagem da segunda ao primeiro dar-se-ia mediante a desmetaforização – operação efetuada sobre a metáfora discursiva ou opaca. ESCANSÃO, PONTUAÇÃO, INTERPRETAÇÃO (...) a mensagem não se reduz a uma sucessão de unidades que devem ser identificadas separadamente; não é uma adição de signos que produz o sentido, é, ao contrário, o sentido (o “intencionado”), concebido globalmente, que se realiza e se divide em “signos” particulares que são as palavras.46 46 BENVENISTE, 1989, p. 65. dezembro 86 99 6978_Impulso_26.book Page 87 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM (...) eles reclamam algo mais do que uma escansão, um matema ou um cronômetro.47 A redefinição de condensação como metáfora transparente (desde que inserida nas associações do sonhador, o que acarreta sua transformação em algo semelhante a uma metáfora coloquial singular), e de deslocamento como metáfora discursiva (pelo que se entende que todo discurso “manifesto” metaforiza um discurso “latente”), permite enfim precisar melhor nossa crítica à posição metodológica lacaniana. A hipótese de que o discurso seja metafórico tem por implicação que, uma vez adquirida a linguagem, significante e significado entrem em correspondência – com todas as ambigüidades, mal-entendidos, efeitos poéticos e cômicos, sintomas etc., que se quiser. Em outros termos, a aquisição de linguagem se funda justamente no estabelecimento dessa correspondência, decerto mais plurívoca e equívoca do que unívoca, mas enfim correspondência, tanto em nível semântico como discursivo. Efetivamente, apenas na origem (isto é, no momento que precede a aquisição da linguagem, ou seja, no estado de paralelismo entre algaravia e palavra especular, ocasião em que a rede fonológica [o futuro significante] e o comportamento comunicativo [o futuro significado] coexistem separados48) poder-se-ia pensar em algo semelhante a um significante puro. Além disso, unicamente em estados de “desestruturação” psicótica (perda de sintaxe) e de afasia49 ter-se-ia um quadro eventualmente parecido. A referida desestruturação parece restaurar a situação “originária” (ou seja, a separação entre o que precede as futuras cadeias do significante e do significado), ou pelo menos produz um efeito similar. Entretanto, uma vez constituído o discurso (e enquanto continua estruturado), significante e significado permanecem intrinsecamente ligados, e é com esse amálgama instável mas sempre refeito que o psicanalista se depara. Pretender desfazê-lo não leva a nada que não seja seu pleno restabelecimento e ignorá-lo conduziria a algo tão vão como tentar cortar uma folha no anverso sem atingir o verso (metáfora saussuriana, aliás, relativa a essa mesma soldagem significante/significado). O significante é, sem dúvida, condição da linguagem, logo, do discurso. Mas, uma vez instituído, o discurso se subdivide em manifesto e latente (e este, por sua vez, em pré-consciente/inconsciente); o seu ní47 ROUDINESCO, 1994, p. 439. Cf. GOLDGRUB, 1997, cujo tema central é precisamente a relação entre a aquisição da língua materna e o processo de constituição do sujeito. 49 O que não significa evidentemente propor qualquer relação de similaridade estrutural entre psicose e afasia; nesta última a perda seria orgânica e, portanto, instrumental. 48 impulso 87 nº26 6978_Impulso_26.book Page 88 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM vel inconsciente não jaz no significante.50 Se este (significante) produz seus efeitos a partir do recalque primário (pura diferença do infans em relação aos seus desejantes), é preciso não esquecer que ele fica subsumido no discurso por ocasião da aquisição de linguagem (passagem de infans a sujeito como identidade desejante = discurso). Desde então, torna-se (o significante) inacessível. Não assim a relação entre os discursos; ela se institui em virtude das articulações produzidas pela metaforização transparente (conteúdo manifesto/discurso pré-consciente) e pela metaforização opaca (conteúdo manifesto-discurso pré-consciente/discurso inconsciente). Se intervir sobre o significante com “exclusão” do significado parece-nos mais impossível do que improvável, reconheceremos por outro lado de bom grado que nem por isso a intervenção psicanalítica concebida como interpretação é menos enigmática, tanto em suas condições como em seus efeitos, reconhecimento pelo qual se admite que a questão é extremamente complexa e se furta a soluções simplistas. Esse é, precisamente, um dos problemas fundamentais com que se depara a psicanálise desde sempre, e agora mais do que nunca. Assim, supondo que a estratégia clínica lacaniana possa ser definida como uma intervenção sobre o significante através da pontuação e da escansão, que descontroem a palavra (morfema) em seus fonemas constitutivos e suspendem o significado “manifesto” da frase (enunciado) ao suprimir a indicação de sua forma (afirmativa, exclamativa, negativa, interrogativa), pode-se objetar que tais procedimentos não fazem senão relançar o discurso/fala do analisando, promovendo outra cadeia de enunciações/enunciados em que significante/significado permanecem na sua habitual relação de independência/dependência, ou seja, ambigüidade/correspondência, como habitualmente. Não é diferente do que acontece numa postura freudiana ortodoxa, em que o psicanalista costuma sugerir, implícita ou explicitamente, o procedimento associativo com base numa palavra ou frase (algo muito comum com referência à “análise” de sonhos). O que separa claramente a clínica lacaniana da prática ortodoxa é a sua recusa da análise de conteúdo, que ambas, aliás, confundem com interpretação; equívoco indicativo, aliás, de que a distinção entre análise de conteúdo e interpretação não foi efetuada nem por uns nem por outros. Conseqüentemente, a criança do procedimento inter50 A relação “figura/fundo” entre elemento e sistema (a parte e o todo), como proposta por Saussure, tem por implicação tanto a homogeneidade (todo fonema evoca o sistema fonológico do qual faz parte, qualquer morfema denuncia o conjunto de morfemas-lexemas que o contém) como a hierarquização (pirâmide fono-morfo-sintático-semântica da língua), em que o nível precedente é englobado pelo seguinte. Por esse duplo motivo – regras da homogeneidade e da hierarquia – o discurso manifesto não poderia reportar-se ao significante puro (fonema, letra) senão, pelo contrário, integrar-se a um sistema discursivo. dezembro 88 99 6978_Impulso_26.book Page 89 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM pretativo é jogada fora juntamente com a água usada do banho conteudístico. As críticas lacanianas à interpretação parecem depender dessa sinonímia, que julgamos totalmente indevida. Salvo engano, Lacan não aborda a questão e nem em seus seguidores é possível encontrar uma discussão sobre a metodologia freudiana, com os argumentos que, seria de se esperar, justificassem as críticas dirigidas ao procedimento interpretativo. Uma ilustração da forma quase distraída com que uma questão desse porte tem sido tratada na literatura lacaniana consta de um livro sob outros aspectos bastante sério. Em Introdução à Leitura de Lacan (1˚ v.), e após citar a passagem em que Freud utiliza a metáfora da comunicação telefônica – transformação de ondas sonoras em vibrações e vice-versa – para descrever a maneira pela qual o psicanalista recebe o material verbal, Joël Dor escreve: Tal processo induz, inevitavelmente, a uma questão mais ampla: no exercício da atenção flutuante, como pode o analista desvencilhar-se da influência de suas próprias motivações inconscientes?51 Outro problema que decorre do precedente: a partir de que elementos específicos o analista intervirá, se nenhum dos materiais é a priori privilegiado em sua escuta?52 A descrição do “primeiro problema” supõe a constatação – que Dor não faz – de que o ato interpretativo ou o tipo de escuta a que Freud se refere denota uma relação entre dois discursos, e não duas pessoas, idéia que transparece tanto nos conceitos associação livre e atenção flutuante, como na própria metáfora telefônica mencionada. Já o comentário relativo ao segundo problema parece mostrar que de fato Dor pensa na prática clínica a partir da análise de conteúdo e que, sem essa bússola, não vê como estipular critérios para escolher os “materiais específicos” sobre os quais se fará a intervenção. Admite assim – na verdade proclama – que a intervenção de inspiração lacaniana supõe uma escolha de material e que não é de natureza discursiva. Na seqüência do mesmo texto – e após reconhecer que “Se as concepções metapsicológicas elaboradas por Lacan não permitem solucionar profundamente esses diferentes problemas”, concessão atenuada pela observação de que “pelo menos introduzem um ponto de vista técnico original a esse respeito” –, ele afirma que a “atenção flutuante apa51 52 É interessante que não tenha ocorrido a Dor fazer-se essa mesma pergunta. DOR, 1992, p. 119. impulso 89 nº26 6978_Impulso_26.book Page 90 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM rece sobretudo no nível do enunciado e de seu sujeito”, sem maiores explicações... Em oposição, a postura clínica lacaniana consistiria em (...) estar receptivo aos significantes que advêm, através do dizer, para além dos significados que se organizam no dito (...) A intervenção analítica isola-se, nesta medida, tanto da problemática de uma compreensão que se deveria incentivar no paciente como de uma construção a ser elaborada a partir do material que ele traz. Nesta perspectiva, a intervenção do analista, que se subtrai igualmente à esterilidade da interpretação explicativa, ater-se-á, ao contrário, exclusivamente a pontuar o dizer do paciente por meio de uma escansão que fará surgir, no próprio lugar da enunciação, a abertura significante que ali se faz ouvir, quando está destinada a se fechar novamente na conclusão do enunciado.53 A correspondência suposta entre escuta de enunciado e sujeito da consciência vai contra a mais elementar das concepções do ato interpretativo, que visa notoriamente atingir o que quer que seja da ordem do inconsciente... Se Dor considera que a interpretação freudiana contradiz seu próprio objetivo, ele fica devendo uma demonstração, em vez de apresentar, nos limites de uma única frase, essa hipótese como uma obviedade, um truísmo ou um ponto pacífico. A partir d’A Interpretação dos Sonhos sabe-se que o procedimento interpretativo, independentemente de todos os problemas inerentes às suas condições e ao respectivo rigor, parte do manifesto para atingir o latente. Defender o oposto requer um arrazoado minimamente consistente. A inexistência de uma reflexão prévia sobre a interpretação freudiana e a história da técnica psicanalítica prejudicam bastante a referida argumentação de Dor, conferindo-lhe uma superficialidade deplorável. Descrever a interpretação como “explicativa” e atribuir-lhe um papel “esterilizante”, sem qualquer explicitação que auxilie o leitor a julgar a validade dessas afirmações é, no mínimo, correr seriamente o risco da gratuidade... Se deixarmos de lado o aspecto crítico da argumentação, passando à preconização, a situação tampouco melhora. Procurando elucidar melhor a postura lacaniana a respeito, ele cita o Discurso de Roma:54 “Para liberar a palavra do sujeito, o introduzi53 DOR, 1992, pp. 119-120. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, LACAN, 1953, in: DOR, 1992. Na tradução brasileira do texto de Dor, fala (parole) aparece como palavra. A melhor tradução seria (em termos do sentido do título lacaniano) discurso. 54 dezembro 90 99 6978_Impulso_26.book Page 91 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mos à linguagem de seu desejo, ou seja, a linguagem primeira, na qual, para além do que ele nos diz de si, desde já ele nos fala sem que o saiba e antes de mais nada nos símbolos do sintoma”.55 A expressão linguagem primeira constitui obviamente uma metáfora,56 o que não teria nada de mais se (Lacan? Dor?) não pretendesse(m) fazê-la passar por explicação... Por outro lado, símbolos do sintoma é uma expressão precária para o que conviria designar por discurso. Quanto à dificuldade de aceder ao puro significante, sobre a qual temos insistido, pelo menos numa ocasião Lacan parece tê-la reconhecido com todas as letras: O significante deve ser concebido em primeiro lugar como distinto da significação. O que o distingue é o fato de ser em si mesmo sem significação própria. Tentem imaginar em conseqüência o que pode ser a aparição de um puro significante. Naturalmente, nem mesmo podemos imaginá-lo, por definição. E no entanto, pois que nos colocamos questões de origem, é preciso ainda assim tentar se aproximar do que isso pode representar.57 A releitura do caso Dora por Lacan, porém, parece mostrar que a análise de conteúdo permanece vigente em sua metodologia (“na prática a teoria é outra”). Se, por outro lado, forem levadas em conta apenas as críticas e as preconizações, considerando-se a escansão e a pontuação como modalidades de intervenção por excelência, enquanto práticas que incidem sobre o significante e se distinguem do que no lacanismo se entende como interpretação (mas que, conforme argumentação supra, não seria senão análise de conteúdo ou aplicação da teoria ao discurso), resta que essa metodologia não faz senão escolher, com base numa escuta que visa isolar o significante do significado e a partir do que o psicanalista considera chamativo desse ponto de vista, um outro desencadeante para as associações do analisando. Daí os procedimentos de, por exemplo, “anagramização” (inversão dos fonemas de uma palavra: pata/tapa, barro/rabo, trapo/parto), “segmentação” ou “trocadilho” (ali-viado, amar-ela, pica-pau, de-monstro), “poLACAN, 1953, in: DOR, 1992, p. 157. E uma metáfora que aponta, nada mais nada menos, para o objetivo de atingir o “âmago” do inconsciente. Neste mesmo texto, na seção precedente, explicitamos as razões pelas quais julgamos irrealizável essa finalidade. Conceber o inconsciente como linguagem implica restringir o sujeito ao discurso. O inconsciente, desse ponto de vista, se manifestaria enquanto sentido presente numa determinada relação discursiva, precisamente na relação entre significação (manifesta) e sentido (latente). Com o que torna-se possível prescindir da noção de um “inconsciente metafísico”, a cujo “âmago” recôndito a análise deveria aceder. 57 LACAN, 1985, p. 227. 55 56 impulso 91 nº26 6978_Impulso_26.book Page 92 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM lissemização” (doninha [animal e mulher, pejorativamente], sardinha [peixe e pequena sarda], gamada [apaixonada, símbolo do nazismo]), que não deixam ser tributários de uma atitude interpretativa ou conteudística (ambas inconfessas), conforme o caso. Alguns exemplos fazem mesmo pensar numa espécie de extensão da noção de ato falho (ou de equívoco) à totalidade do discurso, através do apontamento incessante da ambigüidade das palavras e expressões que se prestam a esse procedimento. Assim como é possível dizer que Freud eventualmente associava por seus pacientes (cf. caso Dora), e constatar que na abordagem kleiniana o conceito de identificação projetiva legitima a utilização das próprias emoções por parte do psicanalista para captar movimentos transferenciais de outra forma indetectáveis, não é descabido supor que a técnica lacaniana autoriza e incentiva seus praticantes a perceber argutamente o ato falho ou o equívoco que o pérfido analisando (incorrigível, pelo visto) deixou de cometer. Tudo leva a crer que, da mesma forma que o conceito de transferência e seu papel na prática clínica passaram por um processo de hipertrofia na abordagem kleiniana, outro tanto aconteceu com a noção de significante na prática lacaniana. Essas exorbitações têm lá suas razões. De fato, é inegável que da existência de um estado transferencial prévio depende o próprio estabelecimento do contrato psicanalítico, do mesmo modo que desde Saussure se conhece o papel estruturante desempenhado pelo significante na linguagem, descoberta enfatizada por Lacan e transposta heuristicamente por ele para o âmbito da teoria e da epistemologia psicanalíticas. Assim, ambas as condições “originárias” (a da própria situação psicanalítica e a do seu solo epistemológico), dependeriam respectivamente da transferência e do significante. De acordo, mas é preciso não esquecer que tais fenômenos condicionantes perdem totalmente o seu caráter privilegiado quando a “análise” se põe em marcha. A transferência se integra, então, ao discurso, que a abrange, como acontece com qualquer outro conteúdo, da mesma forma que o nível significante – constitutivo da linguagem – só poderá manifestar-se pela conjunção enunciação/enunciado, ou seja, será soldado discursivamente ao significado, convergência cujo resultado é o discurso organizado metaforicamente, objeto por sua vez do procedimento interpretativo desmetaforizante. As práticas clínicas dessas vertentes tão contrastantes da psicanálise constituídas pelo kleinismo e pelo lacanismo aproximam-se assim de uma maneira paradoxal, na medida em que ambas “arcaízam” a situação analítica. Na abordagem kleiniana, isso se dá pela priorização dezembro 92 99 6978_Impulso_26.book Page 93 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM (ou mesmo absolutização) do primeiro momento do processo de constituição do sujeito (ou seja, quando ele se encontra em posição de objeto), etapa considerada como fundamental para entender seu estado atual, com o correspondente desprezo por todas as decorrências resultantes da construção da posição desejante,58 em especial a aquisição de linguagem. Tal aliás é a razão conceitual do privilégio concedido pelo kleinismo à emoção. Assim, o sentido do discurso é reduzido (e nessa medida empobrecido até a indigência) ao código maniqueísta59 das “emoções básicas”, referidas por sua vez a um estado de dependência absoluta (a do bebê), estado cuja repetição é postulada constituir o cerne da situação psicanalítica. O personagem do psicanalista como “mãe continente” encontra sua raison d’être precisamente nesse quadro. Na abordagem lacaniana, a arcaização incide sobre a própria linguagem. A dimensão do enunciado/significado é confiscada do discurso do analisando mediante uma escuta depurada que se proclama serva exclusiva do significante puro. Conseqüentemente, o analisando é reconduzido à condição de infans pela decomposição da argamassa de que é feita sua produção discursiva. A lâmina que pretende cortar sagitalmente a cadeia do significante separando-a da do significado suscitaria uma espécie de “desaquisição” da língua materna.60 A atmosfera “zen” da asséptica sessão lacaniana proveria assim a condição necessária para superar o conflito (“atravessar a fantasia”), eliminando o significado vigente, tão imprescindível ao imaginário como o ar a um incêndio. A relação enunciação/enunciado existente seria dessa forma dissolvida em benefício de uma outra (“melhor” ou menos conflitiva), possibilidade dependente por sua vez da intervenção em estilo oracular. Pois, tendo confundido o discurso com a pessoa (ou seja, com o moi, o “eu da consciência”), só resta ao praticante evitar qualquer contato com o enunciado, do qual foge como o diabo da cruz – ou o inverso. O analista lacaniano encarnaria dessa maneira o “pai castrado” (autodestituído do instrumento discursivo), que efetua o corte cirúrgico do falo envergando o manto de sumo sacerdote do significante e oficiante de seus mistérios. Ou seja, o momento em que o infans passa efetivamente à condição de sujeito (primeiro absoluto, depois ‘castrado’); na terminologia kleiniana, o momento posterior (day after) às posições esquizo-paranoide e depressiva. 59 Seio bom/seio mau, idealização/projeção. 60 Essa primazia concedida ao significante em detrimento do discurso parece não conhecer limites, e caminha lado a lado com uma desenvoltura e uma precisão desconcertantes no campo do diagnóstico. A propósito da aprendizagem de um segundo idioma, um autor lacaniano escreve: “Pode-se mesmo mudar de neurose passando de uma língua à (a) outra. Por exemplo, de obsessivo em origem, tornar-se histérico com traços fóbicos” (MELMAN, 1992, p. 33). 58 impulso 93 nº26 6978_Impulso_26.book Page 94 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Que tais práticas impliquem uma concepção particularmente regressiva e infantilizada do protagonista da situação psicanalítica está longe de ser mera coincidência... Pois há bons motivos para crer que as notáveis inovações teóricas do kleinismo e do lacanismo (neste último acrescidas de uma reformulação epistemológica tão radical como heurística) não puderam deter-se no limite da teoria e invadiram o campo metodológico.61 Os conceitos elaborados a partir dos estudos sobre o processo de constituição do sujeito, cenário por excelência da notável contribuição dessas duas obras, foram transpostos para o terreno clínico mediante o esquecimento (ou a desconsideração) de que o “paciente” ou o “analisando” – alguém plenamente capaz de celebrar o contrato psicanalítico – se define como sujeito já constituído, isto é, “alguém” dotado de um discurso,62 discurso que é, no enfoque interpretativo freudiano, o objeto da intervenção. Do ponto de vista freudiano, não há como (e nem seria necessário) remontar a um estado prévio ao discurso – ou seja, a um estado prévio à condição de sujeito. Talvez as metodologias kleiniana e lacaniana constituam o embrião de uma vertente do método psicanalítico dedicada ao tratamento da psicose – especialmente da psicose infantil em que, comparativamente à psicose do adulto, as possibilidades de transformação são presumivelmente maiores. Se essa hipótese for plausível, tratar-se-á de uma inovação metodológica verdadeiramente crucial. Mas no que se refere à situação psicanalítica “clássica”, as referidas práticas clínicas do kleinismo e do lacanismo catapultam o ocupante do divã à sua pré-história, assumindo e supondo que seria possível “começar tudo de novo” mediante a erradicação dos fatores causais vigentes (etiologia). A essa desconstrução da relação originária com as figuras parentais (não importa se concebidas como “reais”, “imagos”, “modelos” ou “suportes lingüísticos”, pois sob o aspecto ora examinado a distinção é irrelevante), tidas como responsáveis pelo conflito, seria atribuída a possibilidade de transformação. A “mãe” kleiniana e o “pai” lacaniano, modelos cujas falhas teriam conduzido o paciente/analisando ao divã, seriam assim substituídos pelo respectivo analista para que o processo de reconstituição do sujeito possa ser efetuado. Nessa perspectiva, a psicanálise é retratada como uma “máquina do tempo”, concepção cuja semelhança com a da teoria do trauma não precisa ser ressaltada – a única diferença é que o acontecimento único e decisivo fica substituído aqui pela idéia de “processo”. 61 Talvez devido à ausência de distinção entre teoria e prática, ou entre teoria do sujeito e teoria do método. Seria talvez mais exato dizer um discurso dotado de “alguém”, reconhecendo o papel da linguagem no estabelecimento da identidade. 62 dezembro 94 99 6978_Impulso_26.book Page 95 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM De nossa parte, consideramos que as propostas metodológicas kleiniana e lacaniana se devem à suposição de que os conceitos formulados a respeito da teoria do sujeito, na medida em que explicam como se estrutura a “personalidade” ou o “discurso”, seriam igualmente válidos para a prática clínica. O resultado dessa suposição se expressa coincidentemente pela desvalorização do discurso enquanto objeto da intervenção e pela correspondente desautorização do procedimento interpretativo, atitude comum ao kleinismo e ao lacanismo. As metodologias kleiniana e lacaniana visam um pré-sujeito e, portanto, não podem ter por objeto o discurso – equívoco ao qual pelo menos não falta coerência, pois discurso equivale a sujeito. A fecunda investigação acerca desse momento da vida marcado pela dependência irrestrita em relação ao Outro acarretou uma série de avanços teóricos fundamentais, mas parece ter cobrado um preço exorbitante em termos metodológicos, até porque sua transposição para a prática clínica investiu o psicanalista de um poder que, evocando a famosa afirmação de Freud, faz da psicanálise uma profissão impossível. (Boutade, aliás, das mais fecundas. Poucas frases de Freud motivaram tantos comentários. A eles acrescentaremos o seguinte, inspirado em Camões, e pelo qual propomos seu entendimento ao pé da letra: interpretar é possível, psicanalisar não é possível). Trata-se, contudo, de algo desnecessário. Já é hora de desfazer a convivência incestuosa entre teoria e método, herdada do modelo médico, terreno no qual essa relação é legítima.63 Em se tratando de psicanálise, o método exige uma teoria específica – a teoria do método, a ser claramente distinguida da teoria do sujeito. É possível afirmar que tanto Klein como Lacan, que enfatizaram – e com toda justiça – a dolorosa necessidade da separação para a construção da identidade, mantiveram unidos em conflitiva simbiose tanto a teoria e a prática clínica psicanalíticas como, correspondentemente, o modelo psicanalítico e sua matriz médica. Resta reconhecer mais uma vez que a análise de conteúdo, notadamente no que se refere ao papel que teve no estabelecimento da nosografia psicanalítica, foi extremamente valiosa, do ponto de vista histórico, para a teoria do sujeito, sobre cuja importância não há necessidade de insistir. Uma metodologia interpretativa não teria permitido o contato direto com a “realidade” (isto é, a referência) dos sintomas, impedindo a correspondente teorização. Entretanto, uma das peculiaridades marcantes da psicanálise é a de que sua prática conduz 63 Mesmo assim, pense-se na homeopatia e nas suas semelhanças com a psicanálise. impulso 95 nº26 6978_Impulso_26.book Page 96 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM à constatação da singularidade absoluta do discurso, confinando assim a nosografia à teoria do sujeito, necessariamente genérica e universal, e exigindo, em contrapartida, uma metodologia voltada exclusivamente para a busca desse sentido absolutamente singular presente em cada manifestação discursiva específica (“sessão”), cuja teoria – a teoria do método – resta a ser feita.64 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENVENISTE, E. [1969] Problemas de Lingüística Geral II. Campinas: Pontes Editores, 1989. DOR, J. Introdução à Leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. FREUD, S. [1912]. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. GARCIA-LORCA, F. Antologia Poética. Buenos Aires: Losada, 1957. GOLDGRUB, F. Fenomenologia da metáfora. Psicologia Revista, (1): 19-31, 1995. ________. A máquina do fantasma. PUC-SP: LAEL, 1997. [Dissertação de doutorado] LACAN, J. [1955/56]. O Seminário, Livro III: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. ________. [1966] Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1978. ________. [1966] Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. MANNONI, O. Isso não Impede de Existir. Campinas: Papirus, 1982. MELMAN, C. Imigrantes. São Paulo: Escuta, 1992. POLITZER, G. [1928] Crítica dos Fundamentos da Psicologia. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1998. ROUDINESCO, J. Lacan, Esboço de uma Vida, História de um Sistema de Pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 64 A “dobradiça” articulando a teoria do sujeito e a teoria do método poderia ser enunciada aproximadamente assim: se o inconsciente se estrutura como linguagem, o sujeito se manifesta como discurso. Em decorrência, se a teoria das leis gerais da linguagem (isto é, do inconsciente) requer a perspectiva do universal, a pesquisa do sentido presente no discurso (isto é, no sujeito) requer o reconhecimento da singularidade de suas manifestações. dezembro 96 99 6978_Impulso_26.book Page 97 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Luto e Criação em A Interpretação de Sonhos* Mourning and Creativeness in The Interpretation of Dreams RESUMO – Em 23 de outubro de 1896, o professor Sigmund Freud vivenciou a experiência da morte de seu pai. O propósito do presente trabalho é trazer à superfície alguns movimentos psíquicos do mundo interno do pai de A Interpretação de Sonhos, em especial aqueles que se referem ao doloroso processo de elaboração do luto normal. Percorrendo as cartas de Freud a Fliess no período de 1896 a 1900, foram seguidas as pegadas das etapas do luto de Freud pela morte do pai, desde a idealização inicial do objeto perdido, a culpa do(s) sobrevivente(s), os sentimentos de ódio que transtornam a idealização, o triunfo sobre o morto e a culpa. Abraçando o aporte teórico de Klein sobre o luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos, destacam-se os passos do luto de Freud, desembocando nos movimentos de reparação, sublimação e criação. Foi pela análise dos próprios sonhos e sob a força da elaboração do luto que nasceu a obra que lançou a psicanálise no mundo. Palavras-chave: luto – reparação – sublimação – criação. ABSTRACT – On October 23rd, 1896, Professor Sigmund Freud lived through the experience of the death of his father. This paper intends to uncover some psychic movements within the inner world of the father of The Interpretation of Dreams, especially those relating to the painful process involved in normal mourning. By investigating his letters to Fliess from 1896 to 1900, the stages of Freud’s mourning process for his father’s death are followed, from the initial idealization of the lost object to the guilt felt by the survivor(s), the feelings of hate that disturbs idealization, the triumph over the deceased and guilt. Applying Klein’s theoretical approach to mourning and its relationship to maniac-depressive states, the stages of Freud’s mourning are thrown into relief, culminating in movements of reparation, sublimation and creativeness. It was through the analysis of his own dreams and under the stress of mourning that Freud prepared the book that brought psychoanalysis into the world. Keywords: mourning – reparation – sublimation – creativeness.1 1 * Nota do editor (N.E.): a autora deste artigo opta pelo título original da obra, A Interpretação de Sonhos, seguindo as primeiras traduções para o português e guardando fidelidade à versão inglesa, The Interpretation of Dreams, bem como ao original alemão Die Traumdeutung. impulso 97 nº26 MARIA TERESA GIMENEZ Professora da Faculdade de Psicologia da UNIMEP, supervisora de Estágio e mestre em Psicologia Clínica. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 98 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Num final de tarde do inverno de 1898, o professor Sigmund Freud entrou no cemitério de Viena para colocar um ramo de flores na sepultura de seu pai Jacob. Encontrou casualmente um ex-amigo, encaminhou-se para o túmulo paterno e confidenciou, amargurado: “Meu pai morreu. Meus pais espirituais estão enterrados. Estou sozinho diante de mim e não odeio mais ninguém. Agora o pai sou eu”. Talvez a cena de Freud decifrando o mistério da paternidade não tenha sido exatamente esta, mas foi assim que Jean-Paul Sartre decidiu terminar o roteiro cinematográfico que fez em 1959, um gigantesco trabalho, publicado em 1984, em Paris, com o título Le Scenario Freud. Q O CENÁRIO uando Jacob Freud desposou Amalia Nathansohn, sua terceira mulher, em 1855, ele estava com quarenta anos, vinte a mais que sua esposa. Tinha dois filhos do primeiro casamento – o mais velho, Emanuel, casado e com filhos, e Philipp, solteiro. Moravam vizinhos. Emanuel era mais velho do que a jovem e atraente madrasta que o pai trouxera de Viena, ao passo que Philipp tinha apenas um ano menos do que ela. Igualmente intrigante era o fato de que um dos filhos de Emanuel fosse um ano mais velho que o próprio Sigismund, nome original que se alteraria mais tarde na vida do pai de A Interpretação de Sonhos. Portanto, ao nascer, Freud já era tio de John, que se tornaria amigo inseparável, companheiro de brincadeiras e também seu principal inimigo de infância.2 Em 6 de maio de 1856, na pequena vila de Freiberg, nasceu o primogênito dessa união – Sigismund. Sendo o pai, Jacob, comerciante de lãs, pobre, os Freud moravam numa casa simples, de dois andares, acima dos aposentos do proprietário do imóvel, um ferreiro. Ali, sobre uma ferraria, nasceu Freud. Os Freud não ficaram muito tempo em Freiberg. Em 1859 mudaram-se para Leipzig e, no ano seguinte, para Viena. As dificuldades 2 “Um amigo íntimo e um inimigo odiado sempre foram requisitos necessários de minha vida emocional”, confessou Freud em A Interpretação dos Sonhos. “Eu sempre soube me prover constantemente de ambos” (FREUD [1899], 1980b, p. 516). Na sua primeira infância este duplo papel foi desempenhado pelo sobrinho. Mais tarde, durante a década de suas descobertas iniciais, Freud converteu Wilhelm Fliess nesse necessário amigo e, depois, inimigo. dezembro 98 99 6978_Impulso_26.book Page 99 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM financeiras da família eram presentes. Numa passagem autobiográfica que inseriu em um artigo de 1899, ele descreveu a si mesmo como “filho de pais originalmente abastados que, creio eu, viviam naquele buraco de província com bastante conforto”.3 O uso dessa hipérbole é um prenúncio do que Freud viria a chamar mais tarde “romance familiar”, essa disposição generalizada entre as pessoas de achar seus pais mais prósperos ou mais famosos do que na realidade são. Escreveu ele: depois de uma “catástrofe no ramo industrial em que meu pai estava empregado, ele perdeu sua fortuna”.4 Na verdade, não se poderia dizer do pai que fosse alguém que tivera e não conseguira conservar. Por outro lado, a fertilidade procriadora da mãe – Amalia Freud – não contribuía para aliviar a precária situação financeira da família. Por ocasião da mudança para Viena, havia dois filhos – Sigismund e Anna. Um outro filho, Julius, morrera aos sete meses. Então, numa seqüência rápida, entre 1860 e 1866, Freud foi presenteado com quatro irmãs – Rosa, Marie, Adolfine e Pauline – e com o caçula, Alexander.5 Seguiu-se uma catástrofe familiar, com a prisão do tio paterno, indiciado por negociar com rublos falsos. Esse tio não benquisto por Freud, que invadia seus sonhos, foi lembrado em A Interpretação de Sonhos, numa passagem na qual menciona que os cabelos de seu pai embranqueceram de desgosto em poucos dias. Além do desgosto, provavelmente se somava a angústia, porque, ao que tudo indica, Jacob e seus filhos mais velhos teriam alguma participação nos negócios desse tio. O PAI Os sentimentos dúbios de Freud em relação ao pai foram alcançando cada vez mais a superfície. Conta ele: “Devia contar dez ou doze anos, quando meu pai começou a levar-me em seus passeios e a revelar-me em suas conversas seus pontos de vista sobre as coisas do mundo em que vivemos”.6 Um dia, para mostrar como a vida havia melhorado para os judeus da Áustria, Jacob Freud contou esse caso para o filho: “Quando eu era jovem, fui dar um passeio, certo sábado, pelas ruas do seu lugar de nascimento; estava bem vestido e usava um novo gorro de pele. Um cristão dirigiu-se a mim e, com um só golpe, jogou meu gorro na lama e gritou: ‘Judeu, fora da calçada!’” Com ávida curiosidade, Freud perguntou ao pai: “E que fez o senhor?”. E ob3 FREUD [1899], 1980a, p. 343. Ibid., p. 343. 5 O nome Alexander foi escolhido pelo menino Freud, então com dez anos, baseado na lembrança da magnanimidade de Alexandre e sua bravura como líder militar macedônio. 6 FREUD [1899], 1980b, p. 208. 4 impulso 99 nº26 6978_Impulso_26.book Page 100 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM teve a calma resposta: “Desci da calçada e apanhei meu gorro”. A reação do pai, diria ele, “não me pareceu heróica”.7 Veio a dúvida: então, o pai não era “um homem grande e forte?” Estabeleci um contraste entre essa situação e outra que se ajustava melhor aos meus sentimentos: a cena em que o pai de Aníbal, Amílcar Barca, fez seu filho jurar perante o altar do lar em tirar vingança dos romanos. Desde aquela época, Aníbal ocupara um lugar em minhas fantasias.8 Alfinetado pelo espetáculo de um judeu covarde rebaixando-se frente a um cristão, Freud parece ter buscado um líder corajoso com quem se identificar – o magnífico e intrépido semita Aníbal, que jurou vingar Cartago, por mais poderosos que fossem os romanos. Fantasias de vingança desenvolveram-se no seu íntimo. Nunca veriam a ele, Freud, apanhando seu gorro da sarjeta imunda. A escolha do imortal comandante como seu herói favorito traz como razão básica ter Aníbal, contra todas as possibilidades, quase conquistado a odiada e odiosa Roma. Ao dar nome de Alexander ao seu irmão mais novo, ele estava também reverenciando um conquistador cuja fama tornara-se maior do que a de seu pai, Felipe da Macedônia; da mesma forma, com Aníbal ele poderia identificar-se imaginariamente com outra poderosa figura cuja fama sobrepujara a de seu pai, Amílcar. Ambos os heróis suplantaram os feitos dos próprios pais. Em A Interpretação de Sonhos, Freud incorreu num lapso curioso, ao chamar o pai de Aníbal de Asdrúbal, em vez de Amílcar, e ele próprio julgou mais tarde que tal lapso se relacionava com sua insatisfação pela conduta de Jacob Freud frente aos anti-semitas.9 Mas, muito provavelmente, havia ainda um elemento edipiano intenso nas escolhas de seus heróis: ele poderia se mostrar superior a seu pai – quer dizer, vencer a luta edipiana – sem precisar rebaixá-lo demais. Com isso, no âmbito familiar, Freud seria vitorioso, ao mesmo tempo respeitando seu “inimigo”. Para se alcançar uma noção mais abrangente da dimensão da luta edipiana de Freud, é interessante seguir um dos mais tocantes indícios, disperso em A Interpretação de Sonhos: o tema de Roma. Era uma cidade que ele queria avidamente conhecer, mas seu desejo acabava sub7 FREUD [1899], 1980a, p. 209. 8 9 Ibid. Vide a compreensão integral do lapso em FREUD [1901], 1980c, p. 266. dezembro 100 99 6978_Impulso_26.book Page 101 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM vertido por uma espécie de proibição fóbica. Mais de uma vez passou férias na Itália mas, paradoxalmente, o lugar mais próximo da capital italiana a que chegara fora o lago Trasimeno, a setenta e cinco quilômetros de Roma. Era o lugar em que Aníbal também se detivera. No fim de 1897, sonhou que ele e Fliess poderiam organizar um de seus “congressos” em Roma. E, no início de 1899, sugeriu de lá se encontrarem na Páscoa. Roma aparece na temática freudiana como a recompensa máxima, mas também como a incompreensível ameaça. “A propósito”, disse a Fliess, “meu anseio por Roma é profundamente neurótico. Ele está ligado ao meu entusiasmo dos tempo de escola pelo herói semita Aníbal”.10 Na verdade, conquistar Roma era triunfar no próprio quartel-general. Freud interpretava sua ambivalência por Roma como o contraste entre a tenacidade do povo judeu e a organização da Igreja Católica. Porém, sugere algo mais: conquistar Roma seria triunfar na sede, dominar o pai, subjugá-lo, castrar ou ser castrado. Um sério conflito, uma séria batalha! Freud mesmo sugeriu que sua fobia tinha uma natureza edipiana quando evocou o antigo vaticínio apresentado aos Tarquínios, de o primeiro a beijar a mãe se tornar o governante de Roma. A implicação psicanalítica desse beijo, embora Freud não o diga explicitamente, é a vitória sobre o pai. Roma representava os mais fortes desejos eróticos e também os mais intensos impulsos agressivos – estes apenas menos ocultos do que aqueles. Ao publicar A Interpretação de Sonhos, Freud ainda não chegara a conhecer Roma. Numa metáfora, não “conquistara” Roma.11 A MORTE DO PAI Na primavera e no verão de 1896 seu pai esteve à morte, e isso foi muito mais absorvente para Freud do que seus afazeres neurológicos e até mesmo do que as neuroses. Informou a Fliess no fim de junho de 1896: “Meu velho pai (81 anos) está em Baden”, uma estância a meia hora de Viena, “no mais frágil estado, com insuficiência cardíaca, paralisia da bexiga e coisas semelhantes”.12 Pouco mais adiante, escreveu: “realmente creio que são seus últimos dias”. A perspectiva, quase certeza, da morte do pai não o de10 MASSON, 1986, carta de 3 de dezembro de 1897, p. 286. A natureza edipiana das fobias foi amplamente descrita por Freud ([1909] 1980d), postulando que o ponto de fixação delas localiza-se nos conflitos em torno da situação triangular da fase fálica do desenvolvimento libidinal. Igualmente, Gimenez (1983) aponta esse fator psicodinâmico predominando em uma das quatro classes de fobia escolar em estudo. Ir à escola ou... “ir a Roma”, ambas podem evocar profunda conflitiva emocional de caráter edípico, com resultados semelhantes. 12 MASSON, 1986, carta de 30 de junho de 1896, p. 194. 11 impulso 101 nº26 6978_Impulso_26.book Page 102 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM primiu a princípio. Expressou que não relutava em admitir seu merecido descanso. Disse dele “Ele era um ser humano interessante, interiormente muito feliz”,13 num lúgubre pretérito, enquanto Jacob Freud ainda respirava. Mas, em 23 de outubro de 1896, Jacob Freud morreu, “sustentando-se corajosamente até o fim, pois, de modo geral, era um ser humano fora do comum”.14 Não era o momento para apreciações críticas equilibradas; o homem que apanhara seu gorro da sarjeta e não conseguira se sair bem em Viena foi afetuosamente esquecido. Por algum tempo, Freud sentiu apenas orgulho pelo pai. O LUTO Um fenômeno que Freud observou em si mesmo durante esses primeiros dias de pesar foi a culpa do sobrevivente. Na carta a Fliess de 2 de novembro de 1896, escreveu sobre “a auto-recriminação que regularmente surge entre os sobreviventes”.15 Klein16 estabelece ligações entre o luto normal e a posição depressiva infantil. Aponta que, na aflição do indivíduo em luto, a pena pela perda real da pessoa querida é em grande parte aumentada pelas fantasias inconscientes de ter perdido também os objetos bons internos. Surge o sentimento de que predominam seus objetos internos maus e seu mundo interno está em perigo de romper-se. A perda da pessoa amada leva o indivíduo enlutado a reinstalar no ego esse objeto amado perdido. Não só o objeto perdido, mas junto com ele outros objetos bons interiorizados, os quais são sentidos como destruídos. Então, a posição depressiva mais primitiva, e com ela as ansiedades, os sentimentos de culpa, de perda e aflição, da situação edipiana e de outras fontes – tudo isso é reativado. Como sabemos, a pessoa enlutada consola-se recordando a bondade e as qualidades do morto, devido à tranqüilidade que experimenta ao conservar idealizado o seu objeto amado. As fases passageiras de elação são devidas ao sentimento de possuir dentro de si o perfeito objeto amado, porém idealizado. Entretanto, a qualquer momento os sentimentos de ódio podem irromper e transtornar o processo de idealização. Então, a inevitável reação se manifestou. Freud sentiu dificuldades até em escrever cartas. Agradecendo as condolências de Fliess, afirma que “a morte do velho me comoveu muitíssimo. Eu o estimava profundamente, entendia-o muito bem e ele teve grande efeito na mi13 MASSON, 1986, carta de 15 de julho de 1896, p. 196. Nessa tradução para o português, o tempo de verbo utilizado por Freud teria sido o passado, “ele foi”; na tradução de GAY (1989, p. 96), a ênfase repousa no tempo pretérito. De qualquer forma, Freud já contava com o pai morto. 14 Ibid., carta de 26 de outubro de 1896, p. 202. 15 Ibid., carta de 2 de novembro de 1896, p. 203. 16 KLEIN [1940], 1981. dezembro 102 99 6978_Impulso_26.book Page 103 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM nha vida, com sua típica mescla de profunda sabedoria e sua fantástica despreocupação”.17 Subseqüente à morte do pai, Freud experimentou um intenso bloqueio no processo que vinha empreendendo de sua auto-análise. Em maio de 1897, escreve a Fliess que “algo está fermentando e fervilhando em mim”.18 Em meados de junho, confessou estar preguiçoso, intelectualmente estagnado. Logo mais, comunica: “estou num casulo, e sabe Deus que tipo de bicho vai sair dele”.19 Ainda a Fliess: “Algo proveniente das mais recônditas profundezas de minha neurose opõe resistência contra qualquer progresso na compreensão das neuroses (...)”.20 O grande risco na elaboração do luto provém do reverso contra si mesmo, do ódio pela pessoa amada. Uma das formas como se expressa o ódio é através do triunfo sobre a pessoa morta. A morte, embora acabrunhadora, é sentida como uma vitória, originando triunfo, mas também culpa. Klein21 observa que os sentimentos de triunfo têm o efeito de retardar a superação do luto e contribuem ainda mais para as dificuldades e penas do enlutado. Isso não só torna o ente querido perseguidor mas também abala a crença nos objetos bons. Perturba simultaneamente o processo de idealização, necessário para se salvaguardar dos objetos maus e vingativos. A morte de seu pai tinha redespertado todo o passado em seu íntimo. “Agora sinto-me totalmente desenraizado”.22 Klein23 afirma que, durante o luto normal, reativam-se as primeiras ansiedades psicóticas. Observa que o indivíduo de luto atravessa um estado maníaco-depressivo modificado e transitório, e consegue sobrepujá-lo, repetindo assim os processos que a criança atravessa normalmente em seu desenvolvimento. Alternam-se os estados de perseguição, em que o objeto odiado pode infligir as mais terríveis penas ao sujeito, e os estados de idealização, através dos quais o sujeito exalta maniacamente as qualidades do objeto perdido. Essas duas espécies de estados mentais correm paralelas e dissociadas. Dificilmente seria essa a reação comum de um filho de meia-idade diante do fim de um pai idoso. A tristeza de Freud foi excepcionalmente intensa. E foi excepcional também pela forma como ele a empregou para uso científico, distanciando-se um tanto de sua perda 17 18 19 20 21 22 23 MASSON, 1986, carta de 2 de novembro de 1896, p. 203. Ibid., carta de 16 de maio de 1897, p. 244. Ibid., carta de 22 de junho de 1897, p. 255. Ibid., carta de 7 de julho de 1897, p. 256. KLEIN [1940], 1981. MASSON, 1986, carta de 2 de novembro de 1896, p. 203. KLEIN [1940], 1981. impulso 103 nº26 6978_Impulso_26.book Page 104 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM e, ao mesmo tempo, reunindo material para suas teorias. Se por um lado contava com seus quarenta anos de idade, de outro estava sob as pressões dos ataques contra seus lances teóricos sobre a etiologia da histeria, as chacotas e zombarias de seus pares, inclusive do mestre Charcot e de Krafft-Ebbing, com seus comentários de que “parece um conto de fadas científico”, referindo-se ao que Freud apresentara na Associação de Psiquiatria e Neurologia, em abril de 1896. Além disso, a instabilidade financeira e a escassez de sua clientela particular representavam não só privações econômicas, mas sobretudo um golpe à sua auto-estima. GUINADAS NAS FORMULAÇÕES TEÓRICAS Antes que pudesse extrair benefícios de sua dolorosa perda, Freud foi encurralado a duvidar, questionar e, por fim, abandonar a sua teoria da sedução. Se até meados de 1890 a asserção de que todas as neuroses seriam resultantes do abuso sexual de uma criança, praticado por um adulto, geralmente o pai, a clínica dos casos de histeria, um sonho erótico que ele mesmo teve com uma de suas filhas, além dos casos de histeria existentes dentro da própria família Freud, conduziram-no a absolver o pai. Se as investidas paternas eram as únicas fontes de histeria, precisaria que tal conduta fosse praticamente universal. Tal perversão generalizada contra as crianças é pouco provável, raciocina Freud. Além disso, atina que não estava claro distinguir entre a verdade de um lado e, de outro, a ficção carregada pela emoção. Estava pronto para adotar o ceticismo de método que a experiência clínica lhe ensinava. Portanto, concluiu que as “revelações” dos pacientes eram, pelo menos em parte, produtos da imaginação deles. Em outubro de 1897, abriu-se o caminho para uma mescla de autoconhecimento e clareza teórica. “Há quatro dias”, informou a Fliess, “minha auto-análise, que considero indispensável para o esclarecimento de todo o problema, tem continuado em sonhos e me oferecido as mais valiosas explicações e pistas”.24 Foi quando ele lembrou a respeito da babá católica de sua infância, o vislumbre de sua mãe nua, seus desejos de morte contra o irmão mais novo e outras lembranças infantis reprimidas. Quem já passou pelo doloroso processo de elaboração de um luto sabe do que se está falando. Segredos muito tristes da vida remontam até suas primeiras raízes; muitos orgulhos e privilégios são remetidos às suas origens mais modestas. 24 MASSON, 1986, carta de 3 de outubro de 1897, p. 269. dezembro 104 99 6978_Impulso_26.book Page 105 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Após os dias em que se arrastava à toa por não conseguir entender o sentido de um sonho ou uma fantasia, vieram “os dias em que o clarão de um relâmpago iluminou as ligações e me permite entender o que se passara antes como um preparativo do presente”.25 Como num jogo de quebra-cabeças, ele reconhecia que sua lembrança da paixão pela mãe e ciúmes do pai era mais do que uma idiossincrasia pessoal. Pelo contrário, afirmou que a relação edipiana da criança com os pais era “um acontecimento generalizado na primeira infância”.26 Paralelamente, identificava com clareza esse complexo amoroso na situação triangular de Édipo e Hamlet. Outras descobertas surpreendentes povoavam seus dias. O sentimento inconsciente de culpa, as fases do desenvolvimento sexual, o elo causal entre mitos gerados internamente e a crença religiosa, o romance familiar em que tantas crianças desencadeiam fantasias grandiosas sobre seus pais, a natureza reveladora dos lapsos e das ações descuidadas, o poder dos sentimentos agressivos reprimidos e, last but not least, os intrincados mecanismos de produção do sonho. E foi pelos sonhos, via régia do inconsciente, que Freud iniciou o complexo percurso da elaboração do luto pela morte do pai; e pela via da sublimação, fez sua (mais importante) criação. LUTO, SUBLIMAÇÃO E CRIAÇÃO Com a morte do pai, com o avanço da auto-análise e o ritmo mais acelerado de sua teorização psicanalítica, Freud parece ter revivido seus conflitos edipianos com singular intensidade. Ao escrever A Interpretação de Sonhos, ele desafiava seus pais substitutos – os professores e colegas que o haviam adotado, mas que agora ele deixava para trás.27 Acerca desse movimento no processo de elaboração do luto, Klein28 sugere que gradualmente, ganhando confiança nos objetos externos e em valores de várias espécies, é possível fortalecer a confiança na pessoa amada e perdida. Daí, então, o enlutado pode aceitar a imperfeição do objeto, conservar a fé nele e não temer sua vingança. Quando isso se realiza, é sinal de que foi dado um passo importante no trabalho do luto e na sua superação. 25 MASSON, 1986, carta de 27 de outubro de 1897, p. 275. Ibid., carta de 15 de outubro de 1897, p. 273. 27 Freud havia elevado seus mentores a uma posição inatacável e estabelecera um vínculo de dependência com eles para com isso dominar os sentimentos de inferioridade que o assolavam. Ele idealizou seis figuras que desempenharam importante papel em sua vida: Brücke, Meynert, Fleisch-Marxow, Charcot, Breuer e Fliess. 28 KLEIN [1940], 1981. 26 impulso 105 nº26 6978_Impulso_26.book Page 106 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Ao mesmo tempo que fica intensa a dor e o desespero frente à prova da realidade de que o objeto não mais existe, surge a crença de que o objeto pode ser conservado internamente. Nesse estágio do luto, o sofrimento pode tornar-se produtivo. As experiências dolorosas de toda espécie estimulam a reparação e a sublimação, conduzindo a criações artísticas, literárias, científicas, a partir de frustrações e pesares. A aquisição de maior segurança no mundo interno e a permissão de que os sentimentos e os objetos internos bons voltem a surgir fazem com que se estabeleçam os processos de criação. Quando a perseguição diminui, a dependência hostil e o ódio também decrescem e as defesas maníacas relaxam. Então, o anseio pelo objeto amado e perdido serve de incentivo para a reparação e a criatividade. O anseio é recriar o objeto perdido pelo amor a ele. Cada avanço no processo do luto tem por resultado um aprofundamento da relação do indivíduo com seus objetos internos, tangencia a felicidade de reconquistá-los depois de haver sentido sua perda. As fases no trabalho do luto, quando as defesas maníacas se distendem e uma renovação interna se estabelece, promovem maior independência tanto dos objetos externos como dos internos. Assumindo os riscos, Freud estava seguindo seu próprio caminho. Rompia com seus pais substitutos, mergulhava nos recônditos de sua mente, expunha seus desejos, conflitos e fantasias mais ocultos, devassava-se publicando seus próprios sonhos. Pudera criar profunda intimidade com a agressividade e o poder que ela encerra. Afinal, foi ele quem revelou seu funcionamento em si mesmo: em suas cartas a Fliess, no âmbito privado, e publicamente em A Interpretação de Sonhos. Se não tivesse publicado suas confissões, os desejos de morte contra seu irmãozinho, seus sentimentos edipianos hostis contra seu pai, ou a necessidade de um inimigo em sua vida, todo esse universo poderia continuar para sempre conhecido apenas por ele mesmo. Em setembro de 1901 aconteceu, então, a primeira visita de Freud a Roma. Foi o selo de sua independência. Ao mesmo tempo, seu estado emocional tangenciava a derrota. O livro dos sonhos não alcançara a acolhida desejada. A ira, a decepção e o tédio predominavam no seu interior. Em 1901, escreveu A Psicopatologia da Vida Cotidiana, fez a redação do caso Dora, só publicado em 1905, e estava alinhavando as idéias sobre os chistes. O trabalho era-lhe uma forma de enfrentar o luto. Quando em 191529 escreve sobre a natureza da melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto, Freud já estava a longa dis29 FREUD [1917], 1980e. dezembro 106 99 6978_Impulso_26.book Page 107 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tância do que percorrera intimamente naquele fim de século. Guardando visível distanciamento é que ele se põe a afirmar que “o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido (...)”.30 Tecendo considerações sobre a melancolia, como seus traços distintos aponta: desânimo profundo e penoso, cessação de interesse pelo mundo, perda da capacidade de amar, inibição de toda e qualquer atividade e diminuição dos sentimentos de auto-estima, culminando numa expectativa delirante de punição. Prossegue afirmando que o luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo, a mesma perda da capacidade de adotar novo objeto de amor e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. Continuando suas teorizações, ele se autoriza a afirmar que o trabalho do luto se calca na necessidade de retirar a libido das relações com o objeto perdido. “As desvinculações do objeto só podem ser executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial. O objeto perdido fica presente ainda neste meio de tempo. Várias das lembranças, expectativas, através das quais a libido está vinculada ao objeto são evocadas e hipercatexizadas.”31 Sobre o processo de elaboração do luto, Freud postula que “as lembranças e expectativas se defrontam com o veredicto da realidade de que o objeto não mais existe; e o ego é persuadido pela soma das satisfações narcisistas que deriva da constatação de estar vivo, a romper sua ligação com o objeto perdido”.32 E propõe que o trabalho de rompimento é bastante lento e gradual, a ponto de, quando concluído, o dispêndio de energia necessária para tal também ter se dissipado. Conclui que “o luto compele o ego a desistir do objeto, declarandoo morto e incentivando o próprio ego a viver”.33 Ao escrever sobre o luto, salta aos olhos o cunho teórico e o emblema da prática clínica que Freud imprime às suas proposições. Indiscutivelmente estava muito distanciado de suas próprias vivências pregressas. Entretanto, algumas passagens biográficas trazem à luz aquele Freud do ano de 1900. Quando em 1920 Freud apresentou suas condolências a Ernest Jones pela morte de seu pai, ao mesmo FREUD [1917], 1980e, p. 275. O termo alemão Trauer bem como o inglês mourning podem significar tanto o afeto da dor como sua manifestação externa. 31 Ibid., p. 277. 32 Ibid., p. 288. 33 Ibid., p. 290. 30 impulso 107 nº26 6978_Impulso_26.book Page 108 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tempo advertiu-o delicadamente sobre os duros momentos que estavam por vir. “O senhor logo vai descobrir o que isso significa para si”. O acontecimento relembrou-lhe a tristeza que sentira por seu pai, quase vinte e cinco anos antes. “Eu tinha mais ou menos a sua idade quando meu pai morreu e isso revolucionou minha alma”.34 A morte do pai foi uma profunda experiência pessoal da qual Freud extraiu implicações universais; ela funcionou como um seixo atirado a um lago tranqüilo, provocando sucessivos círculos de amplos raios. Ao refletir sobre o acontecimento em 1908, no prefácio à segunda edição de A Interpretação de Sonhos, ele comentou que, para si, o livro tinha um forte significado “subjetivo”, o qual havia “conseguido entender após sua conclusão”. Ele passara a vê-lo como “um fragmento da minha auto-análise, minha reação à morte de meu pai – isto é, ao evento mais importante, à perda mais pungente da vida de um homem”.35 Aquela morte em outubro de 1896 proporcionou a Freud um vigoroso impulso para edificar a estrutura que começava a se transformar na obra de sua vida. Como diria ele mais tarde, em 1931, no prefácio à terceira edição inglesa: “Ela encerra, mesmo segundo meu atual juízo, a mais valiosa de todas as descobertas que tive a felicidade de fazer. Compreensão (insight) dessa espécie ocorre no destino de alguém apenas uma vez na vida”.36 O orgulho de Freud não era descabido. Todas as suas descobertas dos anos 80 e 90 do século passado confluíram para A Interpretação de Sonhos. E mais. A obra prenuncia tudo o que seria escrito depois. Constitui uma fonte ímpar para se compreender o autor. O livro resume tudo o que Freud aprendera – na verdade, tudo o que ele era –, recuando diretamente até o labirinto de sua complexa infância. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. [1899] Lembranças Encobridoras. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980a, v. 3. _________. [1899] A Interpretação de Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980b, v. 4-5. 34 35 36 Apud. GAY, 1989, p. 358. FREUD [1899], 1980b, p. XXXiV. Ibid., p. XLi. dezembro 108 99 6978_Impulso_26.book Page 109 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM FREUD, S. [1901] A Psicopatologia da Vida Cotidiana. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980c, v. 6. ________. [1909] Análise de uma Fobia em um Menino de cinco anos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980d, v. 10. ________. [1917] Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980e, v. 14. GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. GIMENEZ, M.T. Estudo clínico da fobia escolar. Instituto de Psicologia PUCCamp. Campinas, 1983. [Tese de mestrado] KLEIN, M. [1940] O luto e sua relação com os estados maníaco-depressivos. In: Contribuições à Psicanálise. São Paulo: Mestre Jou, 1981. MASSON, J.F. A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Jeffrey Moussaieff Masson. Rio de Janeiro: Imago, 1986. impulso 109 nº26 6978_Impulso_26.book Page 110 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 110 99 6978_Impulso_26.book Page 111 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Psicanálise como Obra Aberta Psychoanalysis as an Open Work RESUMO – Este artigo traz algumas reflexões acerca da contemporaneidade da teoria e da prática psicanalíticas. Para tanto, são utilizados alguns dispositivos conceituais e teóricos advindos da psicoterapia institucional. Esses dispositivos, que posteriormente foram traduzidos, incorporados e ampliados ao institucionalismo, trouxeram contribuições importantes às rupturas já produzidas pela psicanálise. Tomando-se como referência a idéia de descentramento do sujeito produzido pela teoria freudiana, a própria noção de sujeito do inconsciente e a primazia da palavra no trabalho psicanalítico, pretende-se esboçar elementos que ofereçam condições de se continuar problematizando o alcance, os avanços e as estagnações da obra freudiana. Ao percorrer-se algumas brechas do universo psicanalítico, é possível apropriar-se das críticas e das contribuições necessárias para que se possa continuar pensando e praticando a psicanálise de forma crítica. Palavras-chave: psicanálise – inconsciente – subjetividade – institucionalismo. ABSTRACT – This article brings some reflections to bear upon the current relevance of psychoanalytic theory and practice, using concepts and theories derived from institutional psychotherapy. These concepts, originally developed under the rubric of institutionalism, led to both important contributions and ruptures within psychoanalysis. Taking as references the idea of the decentralization of the subject as proposed by Freudian theory, concepts of the unconscious subject, and the importance of the word in clinical practice, the goal of this paper is to draft elements which will facilitate our continued questioning into the achievements, advancements, and stagnations of Freudian work. By bridging some of the gaps in the psychoanalytic universe, it is possible to incorporate the necessary criticisms and contributions, enabling us to continue thinking about and practicing psychoanalysis in a critical fashion. Keywords: psychoanalysis – unconscious – subjectivity – institutionalism. impulso 111 nº26 MAURÍCIO LOURENÇÃO GARCIA Mestre (PUC-SP) e doutorando em Psicologia Clínica (PUC-SP). Docente da Faculdade de Psicologia da UNIMEP. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 112 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM E INTRODUÇÃO ste artigo procura refletir sobre algumas questões da psicanálise, tomando como referência as indagações geralmente empreendidas ao se buscar uma reavaliação do percurso freudiano. O interesse por esse tipo de questionamento – que tenta potencializar as brechas do pensamento psicanalítico até forçá-lo a ser revisto na contemporaneidade – parece ser uma potência da própria psicanálise, na medida em que não cessa de ser revisitada. A questão dos desafios teóricos e/ou clínicos que se colocam hoje em dia – ou ainda hoje em dia – à psicanálise remete-me a uma afirmação de André Green, por ocasião de uma conferência proferida no Rio de Janeiro. Ele inicia dizendo: “Se me perguntassem (...) o que há de novo na psicanálise, eu lhes responderia: Freud”.1 Trata-se da possibilidade, sempre em aberto, que a obra de Freud oferece de se fazer trabalhar o discurso psicanalítico. Lembremos os numerosos textos em que Freud retoma as bases de sua doutrina para ressaltar os seus aspectos essenciais, como fez, por exemplo, no seu último escrito, em 1938, “Esboço de psicanálise”.2 O que ocorreu então? Ao escrevê-lo, Freud inventou ainda novos conceitos, mostrando aos seus leitores que a volta aos fundamentos comporta muitas vezes a gestação inesperada do novo, que o ensino se transforma em pesquisa e o saber antigo, em verdade nova. O conceito de inconsciente está completando um século de existência. Não é uma idade excessivamente avançada para um conceito, embora cem anos não sejam pouco tempo: mostram que o conceito sobreviveu e que essa sobrevivência está indissociavelmente ligada à sobrevivência da teoria à qual pertence, em que pese as transformações sofridas por ele, conceito, ou por ela, teoria. Já foi dito que os verdadeiros conceitos trazem a assinatura do seu autor;3 e poucos são aqueles que portam uma assinatura tão nítida quanto o conceito de inconsciente de Freud. Por não serem puras abstrações formais produzidas artificialmente, por responderem a problemas reais, os conceitos estão sujeitos a transformações e mutações, a renovações, que caracterizam a história do saber. Houve uma sensível mudança no conceito de inconsciente, como historicamente introduzido por Freud em 1900, no capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos,4 até os textos finais da chamada “se1 2 3 4 GREEN, 1990, p. 13. FREUD, 1981b, tomo III. DELEUZE & GUATTARI, 1992, p. 16. FREUD, 1981b, tomo I. dezembro 112 99 6978_Impulso_26.book Page 113 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM gunda tópica”. O modo como ele é pensado atualmente, após as contribuições da lingüística, da lógica e da etnologia, sobretudo a partir da leitura feita da obra de Freud por Jacques Lacan, também nos mostra visíveis modificações. E, de qualquer forma, um século passou e os processos de indagações continuam a ser empreendidos em múltiplas direções, fundamentalmente naquelas colocadas a partir dos momentos de rupturas decisivas na psicanálise teórica e institucional, nos levando a uma reavaliação do percurso freudiano. Numa outra perspectiva, essa potência da obra freudiana dá-se também pelo fato de que, segundo Rolnik, (...) a vocação mesma do dispositivo psicanalítico é (...) a de constituir condições de escuta das diferenças que se produzem no tempo, cujo surgimento desestabiliza as coordenadas vigentes do pensamento e da existência, o que se faz sentir na subjetividade através de um mal-estar.5 Partindo-se dessas perspectivas, torna-se atribuição necessária dos que pretendem continuar veiculando a teoria inaugurada por Freud, situar a psicanálise no terreno histórico-conceitual em que ela emerge. Essa tarefa exige um mapeamento das condições em que a psicanálise surge e das peculiaridades que reivindica. Em outras palavras, significa entender em que medida a psicanálise está implicada no seu tempo e o quanto ela significa ruptura, descontinuidade, inovação. A abrangência de uma abordagem como essa é evidente. No presente artigo, o que se pretende é fazer um recorte, percorrer um fio desse vasto tecido de questões. Para tanto, serão abordados alguns aspectos do chamado descentramento do sujeito produzido pela psicanálise, tomando para tanto algumas considerações acerca do conceito de inconsciente na obra freudiana, a primazia da palavra no dispositivo psicanalítico e as contribuições do institucionalismo que, através da corrente esquizoanalítica, oferece elementos para se ampliar o campo da subjetividade. CONSIDERAÇÕES SOBRE A REVOLUÇÃO NA CONCEPÇÃO DE HOMEM PRODUZIDA PELA PSICANÁLISE Se admitimos que a psicanálise envolve idéias, instituições, práticas e agentes que existem e se movimentam num mundo atravessado 5 ROLNIK, 1994, p. 1. impulso 113 nº26 6978_Impulso_26.book Page 114 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM por complexas redes de determinação, não podemos nos furtar a acolher a crítica externa, a pensar sua pertinência e a fazê-la render em nosso proveito tanto quanto possível. Uma das proposições polêmicas com as quais a psicanálise vem se defrontando é aquela que a descreve como uma das técnicas de análise do psiquismo tributárias da formação do “homo psychologicus” moderno. Nascida no momento de consolidação do individualismo como ideologia hegemônica no Ocidente, ela seria a versão mais sofisticada das práticas que, durante séculos, foram moldando certa experiência subjetiva compartilhada pelos sujeitos humanos. Essa experiência se funda numa consciência de si enquanto universo único, dotado de uma dimensão interior insondável e articulada por uma imbricação entre subjetividade, sexualidade e verdade interior. Conseqüência desse formidável processo de construção do homem moderno, a psicanálise, vista por esse prisma, estaria longe de ser a inovação surpreendente, a peste subversiva.6 Retirado o brilho de uma originalidade indevidamente reivindicada, restaria a ela apenas o papel da prática sofisticada de auto-exame, técnica de autoconhecimento que afirma e corrobora certa modalidade histórica de viver a subjetividade. Para discutir a validade dessa proposição, seria necessário, primeiramente, retomar a perspectiva histórica e acompanhar a construção da concepção de homem que se tornou característica nas sociedades ocidentais modernas. O tema é evidentemente extensíssimo e por razões óbvias não me debruçarei sobre ele. Salientarei, outrossim, o aspecto da noção de sujeito da psicanálise, que nos remete imediatamente ao pensamento cartesiano. Como observa Garcia-Roza, Desde Descartes, a representação é o lugar da morada da verdade, sendo o problema central o de saber se chegamos a ela pela via da razão ou pela via da experiência. Racionalistas e empiristas diferem sobretudo quanto ao caminho a tomar, mas ambos já sabem onde querem ir: ao reino da verdade, da universalidade, da identidade.7 Com essa afirmação, o autor segue argumentando ser assim que a filosofia moderna constrói uma subjetividade-representação no inte6 Alusão à psicanálise como uma das três “feridas narcísicas”, imagem criada por Freud, às quais associa os efeitos de sua teoria àqueles produzidos pelas idéias de Copérnico e de Darwin. 7 GARCIA-ROZA, 1991, p. 9. dezembro 114 99 6978_Impulso_26.book Page 115 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM rior da qual mantém as mesmas exigências e os mesmos objetivos do discurso platônico. Uma das questões internas a esse modo de pensar do platonismo é a ênfase na subjetividade, embora sua emergência só tenha se dado com Descartes, no século XVII. Foi esse filósofo que formulou a noção de sujeito contida no racionalismo, que supõe um agente pensante segundo uma razão consciente, ou seja, o cogito. Se a psicanálise produziu uma derrubada da razão e da consciência do lugar sagrado em que se encontravam – ao fazer da consciência um mero efeito de superfície do inconsciente –, podemos afirmar que Freud operou uma inversão do cartesianismo que dificilmente pode ser negada. Cabe-nos, no entanto, concordar com a afirmação de Garcia-Roza: (...) depois de tanto tempo e de tanta revolução prometida, aprendemos a ser cautelosos. Em primeiro lugar, aprendemos que inversão não é diferença; em segundo lugar, aprendemos também que revolução não é guerra. Enquanto a primeira é disfarçadamente cartesiana, implicando promessas, planos, programas e realizações futuras, a guerra é realmente produtora de ruptura.8 Epistemologicamente – tal qual nos mostrou Foucault –, a psicanálise não se encontra em continuidade com saber algum, apesar de arqueologicamente estar ligada a todo um conjunto de saberes sobre o homem. Produz um jeito de entender a subjetividade, não mais identificada com a consciência e a racionalidade, mas como uma realidade dividida em dois grandes sistemas e dominada por uma luta interna em relação à qual a razão é apenas um efeito de superfície. Diante do saber dos séculos XVII e XVIII, a psicanálise se apresenta como uma teoria e uma prática que pretendem falar do homem enquanto ser singular.9 A mudança significativa operada pela psicanálise foi o descentramento do sujeito. É o sujeito do conhecimento que a psicanálise vai desqualificar como referencial privilegiado a partir do qual a verdade aparece. Melhor dizendo: a psicanálise não vai pôr em questão qual seria o sujeito da verdade; pelo contrário, questionará sobre a verdade 8 GARCIA-ROZA, 1991, p. 20. Assim é que, por exemplo, na história da psiquiatria, se no fim do século XVIII Pinel desacorrenta o corpo dos loucos, no começo do século XX, Freud desacorrenta seu discurso. 9 impulso 115 nº26 6978_Impulso_26.book Page 116 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM de cada sujeito. Irá perguntar exatamente por esse sujeito do desejo que o racionalismo recusou. Mas esse mesmo descentramento, que marca um importante passo dado na direção de se constituir como uma outra teoria da subjetividade, convoca a outras questões igualmente reveladoras e instigantes. Mesmo surgindo como opositora à soberania da razão, a psicanálise, diversas vezes, deixa-se levar por um desvio iluminista: colocando-se como a criação última e definitiva sobre a subjetividade, pretende ser a teoria que detém e esgota tudo o que possa ser dito a respeito do sujeito. FREUD: OBSERVAÇÕES SOBRE O INCONSCIENTE E A CONSTITUIÇÃO DAS INSTÂNCIAS PSÍQUICAS Uma das contribuições fundamentais da psicanálise foi demonstrar que o ser humano se constitui como ser psíquico numa relação interpessoal. No texto “Projeto para uma psicologia científica”,10 escrito em 1895, mas só publicado postumamente, já encontramos Freud atento a essa questão, ao enfatizar as conseqüências psíquicas decorrentes do estado de desamparo da criança. Com isso ele pretende demonstrar que para a supressão da tensão provinda do interior do organismo (p. ex., a fome) é necessária uma ação específica no mundo externo. Observa que a criança não é capaz de executá-la, dependendo para isso da assistência alheia. Quando o adulto efetua a ação específica no mundo externo (p. ex., fornecendo-lhe o alimento), a criança pode ter uma vivência de satisfação. Essa experiência estabelece o registro de toda uma seqüência de eventos, iniciada no estado de necessidade e que se finda com a gratificação propiciada pelo objeto; ela dá origem ao desejo e ao lugar privilegiado que nele tem o objeto. A relação interpessoal, como elemento fundamental na constituição do sujeito, aparece em várias outras concepções de Freud. Para relembrar, basta lembrar complexo de Édipo e seu papel na estruturação da personalidade e na orientação do desejo, bem como a gênese do ego e do superego, que a partir dos trabalhos de 1914/15 são concebidos como resultantes das identificações. Freud percebeu, através do estudo dos sonhos, dos sintomas e dos atos falhos, que o fenômeno psíquico não poderia ser identificado exclusivamente por sua existência consciente. Descobre a eficácia do inconsciente e organiza a primeira tópica, definindo o aparelho psíquico como formado por dois grandes sistemas, ou instâncias. Mas 10 FREUD, 1981a, tomo I. dezembro 116 99 6978_Impulso_26.book Page 117 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM identifica que o inconsciente tem outras implicações, além disso, para a pessoa, o que se passa é desconhecido. Refere-se a um tipo de funcionamento mental, sobre o qual, em seu texto de 1915 (“O inconsciente”11), afirma: nos processos mentais pertencentes ao sistema inconsciente, encontramos as características de falta de contradição, o processo primário, a independência do tempo e a substituição da realidade exterior pela psíquica; essa última, regulada exclusivamente pelo “princípio do prazer”. No quadro da segunda tópica, as características do sistema inconsciente são atribuídas ao id, embora também reconheça no ego e no superego uma origem e uma parte inconscientes. O id é concebido como pólo pulsional. Ao procurar explicar a gênese do ego, Freud oscila: de um lado, toma-o como diferenciação adaptativa, a partir do id, por influência da realidade externa; de outro, como produto das identificações. Nesse caso, com a introjeção do objeto na realidade, toda uma relação é interiorizada. Para o desenvolvimento desse ponto, vejamos “Luto e Melancolia” (1915).12 Nesse texto, também o superego, parte clivada do ego, é personificado e se opõe ao ego, julgandoo, criticando-o, aprovando-o, ou seja, tomando-o como objeto. Essas breves considerações acerca de alguns aspectos da metapsicologia freudiana indicam-nos um caminho para perceber características claras da prática freudiana na clínica psicanalítica: o próprio de uma prática freudiana é pensar que a verdade do sujeito, a sua verdade inconsciente, é suscetível de ser convertida em um saber, e que esse saber pode ser evidentemente formulado e devolvido ao sujeito, que não sabia ou que sabia sem saber. O essencial é a idéia de que a verdade possa vir a ser um saber (ou o saber que já era). É certo que essas questões em Freud são bem mais complexas do que isso; é certo também que, a partir dos escritos sobre a técnica, Freud volta sobre essa questão e sua prática muda: torna-se mais silenciosa e ele pára de comunicar aos pacientes o saber psicanalítico. A partir desse ponto de vista, existe uma oposição da prática freudiana com a prática lacaniana, pois esta última parte justamente do contrário: separar verdade e saber, por a verdade não ser suscetível de transformar-se em um saber. Não parar de tentar transformar-se em um saber é um efeito da neurose, na medida em que a constituição edípica, então neurótica do sujeito, implica ele apostar num pai como sujeito de um saber. A idéia mesma de que a sua verdade possa ser um 11 12 FREUD, 1981a, tomo II. Idem, 1981b, tomo II. impulso 117 nº26 6978_Impulso_26.book Page 118 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM saber é uma idéia sustentada pela função paterna. Trata-se de um ponto extremamente importante, pois se a prática freudiana é fundada nessa idéia – que a verdade pode converter-se num saber – isso nos explica a constatação decepcionada de Freud ao fim de sua vida, quando no texto “Análise terminável e interminável”,13 de 1937, ele constata que a psicanálise, de certa forma, irremediavelmente, não consegue levar um sujeito além da confrontação com a “rocha da castração”. É dessa concepção que surge a aposta lacaniana a partir dos anos 60, quando Lacan começa a pensar um além da rocha da castração, que separe as noções de verdade e de saber. Por que tal necessidade? Se na prática é sustentada a idéia de a verdade poder se converter num saber, a prática analítica só pode fortalecer a função paterna que justifica a suposição de a verdade ser um saber passível de ser conhecido. A PRIMAZIA DA PALAVRA Constituindo parte do material que um analisando apresenta para ser analisado, encontramos alguns elementos privilegiados, como sonhos, atos falhos, lapsos de memória, entre outros. Esses fenômenos designam o que a psicanálise classicamente concebeu como derivados do inconsciente ou formações do inconsciente. São fenômenos resultantes de uma combinação, da articulação de uma transição/transação entre as instâncias do id, do ego e do superego. Em psicanálise esses efeitos têm por característica, pelo menos fenomênica ou técnica, exprimir exclusivamente a problemática de um indivíduo, manifestá-la, denunciá-la. Na aparência desses fenômenos, na materialidade fenomênica, privilegiam-se, fundamentalmente, os efeitos verbais. Sem querer adentrar no mérito das várias interpretações e definições que se fazem da linguagem e de sua importância na clínica psicanalítica, salientarei apenas que essa ênfase ao verbal está referida à idéia de que as relações da psicanálise com a linguagem e o discurso são fundamentais. Tendo em vista que a fala constitui a matéria-prima da experiência psicanalítica, não se pode representar o ato psicanalítico na exterioridade do campo do discurso. Tais relações, no entanto, são múltiplas e implicam diferentes ordens de problemas, já que não se trata apenas de constatar o óbvio – isto é, que o processo analítico se realiza pelo discurso –, mas também de indagar sobre o modo de se ordenar a estrutura do psiquismo para que o ato psicanalítico fundado na palavra seja uma experiência possível. 13 FREUD, 1981a, tomo III. dezembro 118 99 6978_Impulso_26.book Page 119 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A psicanálise, como uma experiência entre alguém que fala e um outro que escuta, constitui um espaço intersubjetivo fundado na transferência, na qual a linguagem é a condição de possibilidade, pois funda a regra fundamental dessa experiência. O espaço analítico é constituído por um eixo básico que se funda na oposição entre crença e verdade, pois, se existe a exigência da livre associação sem censura para a figura do analisando, é para que ele possa enunciar verdades sobre o seu desejo que lhe surpreendam, já que estão além de suas crenças. A atenção flutuante, porém, é a contrapartida disso no lugar do analista, pois a exigência de deslizamento pela escuta impossibilita que este se fixe num sistema de crenças, teórico ou pessoal, que seria um obstáculo epistemológico para que a verdade singular do analisando pudesse se articular pela escuta na cena analítica. Depois dos trabalhos de Lacan, a importância da linguagem na reinterpretação de noções como inconsciente, sujeito, desejo, sexualidade e outros tornou-se evidente. Relendo Freud de maneira original, Lacan mostrou como a psicanálise pode ser bem mais interessante quando dispensa o velho equipamento cientificista e positivista de produção de teorias. Após essa releitura, a interpretação, a técnica, a clínica e o próprio processo psicanalítico passaram a ser vistos de modo radicalmente diverso.14 Como observa Naffah Neto, na psicanálise francesa vamos encontrar exemplos de como a noção de significante funciona como princípio transcendente, herança da tradição platônica. Digo princípio transcendente porque, na medida em que é posto como inconsciente, ele será em si mesmo até mais inacessível do que a Idéia platônica: não será nem mesmo evocável; funcionará na sua inacessibilidade, simplesmente como princípio ordenador e doador de sentido. É o caso, por exemplo, do papel outorgado ao significante falo em certas formulações lacanianas.15 Percorrendo o pensamento nietzscheano, Naffah Neto nos adverte para “o quanto há de enganoso na crença de que os signos verbais possam dar conta de qualquer realidade”.16 Nessa perspectiva, a 14 Retomadas de um outro ponto de vista, mas ainda como produto da virada lingüística em psicanálise, a questão da linguagem é abordada por Jurandir Freire Costa e outros, naquilo que denominam de pragmática da linguagem. À luz da pragmática, criticam temas como a “concepção representacional da linguagem, a imagem realista-essencialista da mente ou do psiquismo, a idéia de uma substância universal e a história do sujeito”. Partem da idéia de que a linguagem nada mais é do que uma habilidade particular dos organismos humanos, desenvolvida na interação com o ambiente. Cf. FREIRE COSTA et al., 1995. 15 NAFFAH NETO, 1991, pp. 17-18. 16 Ibid., p. 22. impulso 119 nº26 6978_Impulso_26.book Page 120 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM linguagem só se presta à comunicação de objetos socializados, enquanto palavras úteis nas relações sociais. Vista por esse ângulo, à linguagem liga-se a consciência.17 Mas o que nos interessa de imediato é a relação existente entre a análise do material inconsciente e a linguagem. Ao recorrer a Nietzsche, através de algumas leituras de Naffah Neto, o faço somente para evidenciar que, embora no quadro do pensamento nietzscheano o inconsciente enquanto conceito não exista, ele seria justamente essa região que não se expressa em palavras, o domínio que escapa à linguagem, domínio, pois, do indizível. Apoiado no conceito de inconsciente primordial, Naffah Neto nos dirá que esse (...) será, pois, a experiência do devir, como um sim, um deixar-se inicial, antes que a linguagem ordinária e a consciência abstraiam e fixem os fluxos em representações e as recalquem, formando um sistema secundário. Será, após isso, a indivisão do sentir que subsiste, num domínio marginal às representações da consciência. Buscar contato com esse domínio não implica, entretanto, um trabalho de desvelar o oculto. O psicanalista que se ocupa dessa tarefa detetivesca não sai do domínio da consciência, das suas representações, dos seus códigos morais; (...) Há um inconsciente (...) que designa antes aquelas dimensões do sentir que resistem aos processos de representação, que não cabem nos códigos, que permanecem marginais a eles (...) [Esse inconsciente] designa um universo indizível e invisível, marginal à consciência (...), porque é fluxo, devir sem forma ou representação definida, campo de forças móveis e vibráteis.18 Essa forma de abordar o inconsciente, desgrudado das amarras do significante, produz, necessariamente, muitas ressonâncias na clínica. Na medida em que todos os demais analisadores – que na prática clínica habitual ficam rechaçados – possam porventura instaurar-se, o 17 Reproduzo aqui a citação que Naffah Neto faz de Nietzsche: “O homem como toda criatura viva, pensa sem cessar, mas o ignora; o pensamento que torna consciente é somente a ínfima parte, digamos: o mais superficial, o mais medíocre: pois somente esse pensamento consciente se produz em palavras, quer dizer em signos de comunicação pelos quais se revela, por si mesma, a origem da consciência. Em suma, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (mas não da razão) caminham lado a lado. (...) A consciência, em geral, só pôde se desenvolver sob a pressão da necessidade de comunicação – desde o começo, era somente nas relações de homem a homem, particularmente entre o que comanda e o que obedece, que a consciência era necessária, útil, e foi em função do grau dessa utilidade que ela chegou a se desenvolver.” Cf. NAFFAH NETO, op. cit, p. 25. 18 Ibid., pp. 33-34. dezembro 120 99 6978_Impulso_26.book Page 121 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM “material selvagem” apresentado pelo analisando desencadeia um processo gerador da diferença, da invenção, da criação, avesso a uma determinada forma instituída, historicamente localizada. REPENSANDO A SUBJETIVIDADE: ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES DO INSTITUCIONALISMO Nos itens anteriores, foram abordados de forma sintética alguns elementos que compõem o tecido da teoria e da prática psicanalítica. Para que seja possível conduzir o texto a uma ampliação das questões inerentes ao saber psicanalítico, vai-se apontar aqui de que forma o institucionalismo oferece elementos preciosos para potencializar a psicanálise como uma obra aberta. Essa opção dá-se pelo fato de que o institucionalismo é movido pela vontade de produzir novos problemas, pela necessidade de criação; sendo originalmente um dispositivo de desnaturalização e de desarticulação das totalizações instituídas e reconhecidas, o institucionalismo dedica-se a fazer uma genealogia das formas históricas de produção, para expor manifestamente os poderes que estas envolvem, ao invés de orientar-se por uma visão epistemológica, ou seja, por critérios de verdade, sejam estes revelados, especulativos ou experimentais. O institucionalismo pode ser considerado um conjunto aberto e internamente diversificado de correntes que mostram certos valores em comum, assim como marcadas diferenças. Trata-se de um universo não totalizável, sem limites precisos, que compreende inúmeros saberes e fazeres que tomam por objetivo os coletivos sociais no que se referem à lógicas que os regem, às subjetividades que produzem e/ou reproduzem, às formas concretas em que estas se materializam, às finalidades que perseguem, assim como aos expedientes que se dão para obtê-las.19 Muito sumariamente mencionada, a gênese social mais circunscrita do institucionalismo fala de uma passagem que ocorreu no campo da saúde mental no início da década de 40: o impacto recebido pela psiquiatria tradicional, positivista e classificatória, proveniente sobretudo da psicanálise, da pedagogia libertária e da antipsiquiatria. A partir daí houve um questionamento de todos os aparatos da psiquiatria e apareceram tentativas de operar eficiência terapêutica, utilizando as próprias organizações da psiquiatria; deu-se o questionamento da ins19 Baseado no ideário da análise institucional, desenvolvi em minha dissertação de mestrado o conceito de clínica ampliada, clínica essa comprometida com a crítica, construção e produção de uma subjetividade heterogenética, aliançada com a escuta daquilo que propicia a criação e potencializa os processos de transformação do cotidiano. Cf. GARCIA, 1996. impulso 121 nº26 6978_Impulso_26.book Page 122 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tituição psiquiátrica e a utilização dos hospitais como instrumento de ressocialização e cura. O objetivo primordial naquele momento de questionamento era transformar o hospital, que funcionava como uma organização carcerária, e convertê-lo em um instrumento terapêutico. Era preciso reorganizar a vida hospitalar de modo tal que se pudesse formar aí dispositivos institucionais que favorecessem a desalienação. Algumas práticas detonaram esse movimento de mudança do hospital psiquiátrico, denominado, em 1952, psicoterapia institucional. Teoricamente a psicoterapia institucional recolhe, de maneira bastante eclética, contribuições do marxismo, do existencialismo, da fenomenologia etc. Um momento decisivo, no que diz respeito aos novos caminhos da psicoterapia institucional, é a sua relação com a psicanálise, cuja contribuição opera deslocamentos importantes na forma de se conceber o “não dito e o não sabido institucional”. A dimensão inconsciente da organização passa a ser evidenciada a partir do momento em que se começa a perceber que o âmbito microssocial não tem um poder autônomo de cura. Um grupo de profissionais na França – do qual fazia parte Félix Guattari – dá início a uma rearticulação da prática hospitalar com o pensamento psicanalítico, na qual, segundo Rolnik – que traduziu, organizou, prefaciou e comentou o livro Revolução Molecular, de Félix Guattari –, é feita toda uma crítica à utilização da psicanálise, (...) que a reduz a mero apoio externo, análise de um especialista, psiquiatra, pedagogo, ou mesmo de um grupo analítico constituindo uma formação de poder. A análise passa a ser vista como uma dimensão de toda experimentação social, tendo como objeto o conjunto de um complexo de processos sociais. Nessa perspectiva a análise não pode ser mais considerada uma especialidade da Saúde Mental, correndo o risco de ser reificada como uma técnica da psicoterapia institucional. É no seio dessa problemática que Guattari sugere o termo “análise institucional” (...) pela exigência de um trabalho interdisciplinar entre a psicoterapia institucional e as práticas similares em outros campos: a pedagogia, o urbanismo, o militantismo, o movimento estudantil.20 Nesse desdobramento da psicoterapia institucional, identificamos o momento em que esta concebe o efeito terapêutico como efeito 20 GUATTARI, 1987, p. 103. dezembro 122 99 6978_Impulso_26.book Page 123 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM institucional, e não como ato (médico ou psicanalítico). Ao abandonar o isolamento técnico do analista tradicional pela convivência com os loucos numa organização psiquiátrica, os psicoterapeutas tiveram que se defrontar com as realidades do político e da política, abrindo dessa forma um rico campo para a pesquisa e experimentação sobre as relações entre inconsciente e instituição, desejo e história. Numa coletânea de artigos redigidos entre 1955 e 1970, Guattari21 conforma as bases de uma nova disciplina, a análise institucional, que visaria precisamente estudar e intervir nas relações reais que os grupos mantêm com as instituições. Com a perspectiva assim aberta, a análise institucional consiste em ver que, por trás da hierarquia indivíduo/grupo/sociedade e suas várias modalidades sociológicas, movem-se interminavelmente constelações fluidas e instáveis de forças ativas e de forças inertes, que se organizam e desorganizam ao sabor das crises, dos desejos e dos comprometimentos sempre provisórios. Essa posição tem como conseqüência uma não-separação das esferas do político, econômico, psíquico. Essas esferas, assim isoladas entre si, referem-se às formas molares, nas quais, diferentemente do nível molecular,22 a produção e o desejo são uma e mesma coisa; equivale dizer que a substância ou a matéria última de todo real (social, psíquico, natural etc.) é a produção, é o produzir. É praticamente impossível não reconhecer o fato de que a invenção do inconsciente, tal qual Freud o descreveu no decorrer de sua obra, contém uma riqueza efervescente e inquietante que não cessa de produzir efeitos. Mas, ao mesmo tempo, faz-se mister reconhecer que, segundo Guattari, (...) atualmente não se podem dissociar as teorias do inconsciente das práticas psicanalíticas, psicoterapêuticas, institucionais, literárias etc, que a elas se referem. O inconsciente se tornou uma instituição, um equipamento coletivo compreendido em um sentido mais amplo.23 21 GUATTARI, 1976. Molar: ordem de realização do real em que as entidades características são os extratos e os grandes blocos representativos dos territórios constituídos. É o lugar dos códigos, da “forma sujeitos e objetos” definidos. É o campo da regularidade, da estabilidade, da conservação e da reprodução. É o mundo do macro. Molecular: caracteriza os elementos que compõem a superfície da produção. É o lugar das matérias não formadas e das energias não vetorizadas, em que as máquinas se formam ao mesmo tempo em que funcionam. 23 GUATTARI, 1992, p. 21. 22 impulso 123 nº26 6978_Impulso_26.book Page 124 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Esse mesmo inconsciente que deixou-se esfriar, recentrando-se na análise do eu, na adaptação à sociedade ou na conformidade a uma ordem significante, em sua versão estruturalista, passa a ser visto como (...) um inconsciente que superpõe múltiplos estratos de subjetivações, estratos heterogêneos de extensão e de consciência maiores ou menores. Inconsciente, então, mais “esquizo”, liberado dos grilhões familiaristas, mais voltado para práxis atuais do que para fixações e regressões em relação ao passado. Inconsciente de fluxo e de máquinas abstratas, mais do que inconsciente de estrutura e de linguagem.24 Se a psicanálise, como Freud a concebeu, já operou um descentramento do sujeito, rompendo com a tradição racionalista, observamos que numa perspectiva esquizoanalítica esse descentramento atinge maior extensão porque remete a um alargamento da noção de subjetividade. Esta é considerada como “produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais (...), plural, ‘polifônica’ (...) que não reconhece nenhuma instâncias dominante de determinação que guie as outras instâncias segundo uma causalidade unívoca”.25 Do ponto de vista da esquizoanálise, é possível pensar a subjetividade no marco de uma “produção desejante”. Para descrever essa produção, Deleuze e Guattari26 irão circunscrevê-la segundo uma teoria que considera o desejo como pertencendo a sistemas maquínicos altamente complexos. Um desejo, cuja natureza é implacavelmente disruptiva e que precisa estar sempre sendo favorecida, liberada de suas constrições. Um desejo que pode ter infinitas possibilidades de montagem, uma “máquina-desejante” ou uma “produção-desejante”. Sinteticamente dizendo, a atividade esquizoanalítica – naquilo que contribui para o alargamento dos sentidos dados ao conceito de inconsciente – consistiria, então, em revelar “o pólo revolucionário, esquizóide, criativo”, em detrimento “do pólo paranóico reacionário incluso no investimento libidinal” e, por conseguinte, em todos os investimentos do social. CONSIDERAÇÕES FINAIS O que o institucionalismo nos mostra – em especial na vertente esquizoanalítica que o compõe – é que sempre é possível buscar outros 24 25 26 GUATTARI, 1992, p. 23. Ibid., p. 11. DELEUZE & GUATTARI, 1976. dezembro 124 99 6978_Impulso_26.book Page 125 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM movimentos que impeçam as cristalizações e as ortopedias do pensamento. Como um caldeirão efervescente, a lógica do pensamento psicanalítico aponta para a possibilidade de um desvencilhamento das amarras de uma suposta acomodação histórica. Com isso, quero afirmar que pode ser desde a psicanálise, também, que se abra a possibilidade de um casamento entre a psique inconsciente e o indivíduo socialmente fabricado, entre a organização psíquica e a instituição da sociedade. Romper-se-ia, assim, a antinomia e a exclusão mútua que no campo da subjetividade separa o indivíduo e o social, o público e o privado, e que posssibilitaria, a partir daí, pensar a subjetividade “desvinculada de qualquer instância dominante que guie as outras instâncias segundo uma característica unívoca”.27 Nesse sentido, se podemos considerar a teoria psicanalítica como um modo de produção de subjetividade entre outros, podemos igualmente reconhecer que esta contribuiu (e continua contribuindo) para que a humanidade possa continuar pensando sobre a vida. Através da psicanálise o homem pôde refletir sobre si e sobre os sentidos do vivido. Separar esse aspecto, digamos, subjetivo das circunstâncias políticas, econômicas e sociais é o que constitui erro de investigação, equívoco de interpretação, deformação técnica e científica. Embora Freud considere enfaticamente as peculiaridades individuais do homem, o que ele não desconsidera é que esta individualidade compõe e é composta pelo conjunto das suas relações com o mundo. Apesar do pessimismo do seu criador, a psicanálise nos ofereceu um modelo científico de entendimento do humano que habilita o homem, enquanto tal, à percepção de uma vida coletiva humanizada. Ou seja, uma vida que se abre na perspectiva de um trabalho interno (porque tem o desejo como aquilo que anima o inconsciente) na busca da construção do coletivo. Freud fez a psicanálise para o homem, não para uma determinada categoria social de homens. Atualizá-la, contemplá-la e problematizá-la com elementos históricos, políticos, sociais e institucionais tem sido tarefa de seus seguidores. Utilizando a figura de linguagem do livro de Vidermam,28 podemos afirmar que a psicanálise sempre está por se construir e nunca por se assentar como uma obra pronta e acabada. É próprio à psicanálise basear-se nos modos e nos meios de construir e não de solidificar a construção acabada. Possuindo um estatuto não totalmente definido 27 28 GUATTARI, 1992, p. 11. VIDERMAN, 1990. impulso 125 nº26 6978_Impulso_26.book Page 126 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM e determinado, a psicanálise prossegue seu caminho como uma disciplina indisciplinada, na qual, mais do que responder, ela nos ensina a perguntar, e com isso novos campos de referência tendem a constituirse. O que sustenta as perguntas que a cada momento aparecem não é a rigidez das possíveis respostas, mas sim um horizonte inesgotável de possíveis caminhos para respondê-las. 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Palavras-chave: inconsciente – filosofia – fenomenologia – psicanálise. ABSTRACT – This article indicates the relationships between philosophy and psychoanalysis. The questions about the notion of the conscience present at the turn of the century when the notion of the unconscious was formulated by Freud, received from phenomenology different answers that are shown in the works of Husserl, Heidegger, Sartre and Merleau-Ponty. Dialogue with these authors allows the demarcation of the epistemological field of Freudian discovery. Keywords: unconscious – philosophy – phenomenology – psychoanalysis.1 1 * Originalmente escrito para participação da mesa-redonda “Sou onde não me penso – A destituição do Cogito”, da 7ª Semana de Estudos Filosóficos da UNIMEP, que teve como mote Razão e Existência, este artigo foi ligeiramente adaptado para a presente publicação. impulso 129 nº26 EDSON OLIVARI DE CASTRO Psicanalista, professor em regime de dedicação da Faculdade de Psicologia (UNIMEP), doutorando em Psicologia Clínica (PUC-SP), sócio-titular do Centro de Estudos Fenomenológicos de São Paulo e sócio-fundador da Associação Livre – Instituto de Cultura e Psicanálise – Piracicaba/SP. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 130 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Brincava a criança com carro de bois. Sentiu-se brincando e disse: eu sou dois! CARNEIRO LEÃO D elimitemos, primeiro, os marcos deste artigo: opto por não escrever a partir da clínica, mas provocar (no sentido etimológico do termo: pro-vocare) um diálogo entre a filosofia e a psicanálise, ensejado pelo centenário das publicações de dois mestres, ex-alunos de Franz Brentano2: A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, em que o fundador da psicanálise formula a dinâmica do inconsciente, e Investigações Lógicas, de Edmund Husserl, na qual o filósofo postula a intencionalidade da consciência – a destituição do cogito cartesiano estava “na ordem do dia” naquela virada do século. Destaco, então, dois pontos: um deles refere-se ao fato de minhas indicações, para produzir contrapontos, serem feitas a partir da fenomenologia, uma certa filosofia decorrente das obras de Husserl, que em sua constituição mesma, enquanto método, depara-se com a condição à qual se atribuiu, ou na qual se ancorou, a noção de inconsciente; o outro: convém também situar o leitor em relação à concepção de filosofia que me orienta, a saber: em O Metafísico no Homem, Merleau-Ponty afirma que Não se deve dizer que a filosofia é compatível com a ciência, mas sim que lhe é necessária, como lembrança contínua de suas tarefas (...). A filosofia não é um certo saber, é a vigilância que não deixa esquecer a fonte de todo saber. (...) A metafísica não é uma construção de conceitos, por cujo intermédio tentaríamos tornar nossos paradoxos menos sensíveis (...) é uma interrogação que não comporta respostas que a anulem, mas somente ações resolutas que a transportam para mais longe. Não é um conhecimento que viria terminar o edifício dos conhecimentos; é o saber lúcido daquilo que os ameaça e a consciência aguda de seu preço.3 Nesse sentido, se há um inconsciente, penso que o problema para os filósofos poderia colocar-se assim: Que é o inconsciente? Um 2 Professor de Filosofia da Universidade de Viena, autor de A Psicologia do Ponto de Vista Empírico, 1874. 3 MERLEAU-PONTY, 1984a, p. 190. dezembro 130 99 6978_Impulso_26.book Page 131 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM postulado científico? Um mito? Uma desculpa para nossa falibilidade? Um reflexo de nossa consciência errante? Uma armadilha da linguagem?4 Há alguma realidade filosófica que o funda? Que lugar ocupa na trama social? Qual o seu estatuto ontológico? E por fim, mas não menos importante, quais as implicações desse conceito para a epistemologia e as ciências humanas de modo geral? Qual seria o rigor possível ao conhecimento científico? Não é sem propósito que citei Merleau-Ponty, contemporâneo de Lacan – autor do aforismo: sou onde não me penso –, e que, assim como ele, se empolgou com as obras de Husserl e Heidegger, filósofos que, entre outros e cada um a seu modo, destituíram o cogito cartesiano, embora não tenham considerado necessário postular um inconsciente.5 I Mesmo com todos os problemas que um resumo nos traz, digamos que, em Husserl, o cogito (o pensar) é irredutível a um pensar racional e não é confundido com a cogitatio (o pensado), pois se funda num compromisso com o pré-temático vivido, por ele denominado de “mundo da vida”, em que uma intencionalidade operante age e é agida, e em que só por um esforço de retomada deste vivido o sentido se esclarece em diferentes níveis de constituição. Um desses níveis é o pensar reflexivo, de uma consciência transcendental, não tética de si (ou seja, que não supõe a si mesma em seu próprio ato), sempre parcial e provisória, e que só se encontra nos matizes noemáticos dos objetos que se lhe apresentam.6 Podemos, então, dizer que a descrição fenomenológica de Edmund Husserl – contanto que não a forcem a um sentido idealista com o qual não concordo7 – pode fornecer-nos elementos para as questões sobre o que se convencionou chamar de inconsciente, pois sua epochê 4 Essa questão, especificamente, se coloca porque a descoberta de que, quando falamos, sempre dizemos algo a mais do que queremos explicitamente dizer não é um troféu da psicanálise. Com certeza desde Platão, e talvez mesmo antes dele, sabe-se que todo discurso é acompanhado por uma franja marginal de significações, que pode ser mais ou menos densa, embora na comunicação cotidiana exista uma convenção tácita no sentido de suspender a atenção a essa franja conotativa, para concentrar o foco sobre o conteúdo manifesto ou denotativo daquilo que é dito. Como sabemos, apenas na situação analítica, e por autorização explícita dada pelo paciente ao analista, é que o chamado argumento ad hominem tem direito de cidadania. A interpretação legitima-se pela referência do discurso ao seu emissor e não ao seu objeto designado. 5 Cf. ROUDINESCO, 1994. 6 Cf. BEIRÃO, 1984, pp. 27-34. 7 Acompanho a compreensão que Merleau-Ponty manifesta em O Filósofo e sua Sombra (1960): a partir dos Inéditos (quando se dedica à elucidação do Lebenswelt – ou mundo-da-vida) há, em Husserl, um impensado que é muito seu e que, no entanto, abre para uma outra coisa, uma nova abordagem que indica que nem o Espírito nem a Natureza são fundantes, mas que ambos são manifestações de uma “terceira dimensão”, abaixo deles, anterior à objetividade e à subjetividade e que os constitui. Indico a leitura aos que só conhecem os objetos de pensamento de Husserl e insistem em mantê-lo exclusivamente limitado ao eixo cartesiano de uma filosofia da consciência. impulso 131 nº26 6978_Impulso_26.book Page 132 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM nos leva a saber que na experiência humana, o sentido é, sempre, constituído do implícito, do referencial, do alusivo, do virtual etc., e que a consciência é sempre uma tarefa, e não uma aquisição.8 Assim, se a consciência se separa da ordem natural pela intencionalidade, poder-se-ia pensar que o inconsciente se caracterizará por um modo particular e original de intencionalidade, ou seja, por uma instituição de sentido do tipo sui generis; maneira de ver, aliás, que coincide exatamente com a de Freud, que não percebeu os serviços que a noção de intencionalidade (já insinuada nas aulas de Brentano) lhe prestaria – embora também não fosse essa sua tarefa, pois o criador de um novo saber não tem de averiguar segundo que tipo de ontologia se integrará esse saber à antropologia filosófica. II Também podemos realizar aproximações desde a analítica existencial de Martin Heidegger.9 Sem tratar de resumir suas proposições essenciais, gostaria de destacar especialmente aquelas sobre a inautenticidade – situação inicial, espontânea e ineludível do Dasein (Estar-aí): como ser-para-a-morte, vivemos em evidências que consideramos naturais, resultando de nossa incessante e ante-predicativa interpretação; cremos que a fisionomia afetiva dos outros e do mundo dependem deles, enquanto de outro lado, não adquirimos dos outros e do mundo mais do que um conhecimento universal, público, baseado no “falatório” (Gerede), que não nos desprende de nosso modo de ser “a gente” (Das man) – ao contrário, disfarça nossa finitude. Apenas na angústia – que nos arranca da inautenticidade para um ser-si-mesmo, autêntico – e, por um triz, subjetivamos a morte, singularizando-nos. Mas, imediatamente, mergulhamos de novo na situação (dimensão) anterior, pois no modo de ser autêntico também nos damos conta do quão inarredável é nossa pertença ao mundo comum.10 Não estou equiparando o que Heidegger chama de inautenticidade ao que Freud ou Lacan chamaram de inconsciente, porém, mais uma vez, tentando posicionar o problema nos termos da filosofia: as indicações acima nos mostram que o homem não pode viver sem disCf. LYOTARD, 1986. Ver também BEIRÃO, in CASTRO & BEIRÃO, 1992, pp. 135-48. Na perspectiva da ontologia fenomenológica, a novidade de Heidegger, em relação ao seu mestre Husserl, é ter tentado resolver o problema do fundamento sem recorrer à consciência, mesmo transcendental, o que seria sem dúvida idealista demais, mesmo subjetivista, pois Heidegger recusa partir de intuições, mas parte da compreensão da vida concreta: do contrário, passar-se-ia ao lado da vida na sua realidade e no complexo dos significados do mundo – Heidegger parte da vida na sua facticidade no mundo, da vida que é em última análise histórica e se compreende historicamente. 10 Cf. HEIDEGGER, 1968, § 26. Sobre Heidegger e Freud, ver LOPARIC, 1990 e LOPARIC, In KNOBLOCH, 1991, pp. 43-58. 8 9 dezembro 132 99 6978_Impulso_26.book Page 133 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM farçar o que é, ou melhor, que ele não existe se não se apreende a si mesmo em sua exterioridade e sem saber que é a si mesmo a quem apreende desse modo. Além desses pontos, toda reflexão heideggeriana sobre a linguagem (e em seu horizonte, sobre a temporalidade, da qual é inseparável), desvelada como a compreensão do ser do existente que caracteriza o Estar-aí, poderia certamente fecundar o diálogo entre a psicanálise e a fenomenologia. Afora a condição existencial de estar-lançado para o futuro que a noção psicanalítica de desejo implica, o caráter absolutamente desrealizante da linguagem (porque a encontramos já aí e jamais chegamos a dominá-la) apontado por Heidegger parece-me bastante próximo à afirmação de Lacan de que “o inconsciente é essa parte do discurso concreto, enquanto transindividual, que falta na disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente”. III Cabe, ainda, fazer referência a dois outros fenomenólogos que, embora discordantes entre si, aclaram alguns pontos que dizem respeito à noção de inconsciente: Jean-Paul Sartre e Maurice MerleauPonty. Ao interrogar-se descritivamente sobre o ser do homem, Sartre nos mostra que através da reflexão não podemos alcançar o modo do ser para-si – ou uma qualificação própria que nos seja interior –, pois é através do outro, e, mais particularmente, mediante o olhar do outro, que o homem se dá conta de que tem um ser (que escapa à liberdade absoluta) e que este não se lhe é revelado de outra maneira, nem pode recusá-lo. É isso que assegura a possibilidade do que Sartre denominou máfé: negando seu ser a pretexto de que o recebe de outrem, de que não pode aceitar um ser que não receba de si mesmo, tenta negar o fato em si e não só tal ou qual qualificação, escondendo-se de toda especificação de seu ser. Porém, a única forma de provar o “erro” de uma qualificação recebida (por exemplo: “Tal pai, tal filho!”) seria “trabalhar” para impor ao outro uma modificação, o que implica, finalmente, restituir-lhe o lugar de atribuidor. É certo que as teses de Sartre exigiriam uma discussão mais aprofundada, não apenas para verificarmos se realmente haveria, e como, uma destituição do cogito, mas também no sentido de elucidar as relações entre a ambigüidade do ser do homem e nossos diagnósticos, que são uma maneira de atribuir certa qualificação ao ser de nossos pa- impulso 133 nº26 6978_Impulso_26.book Page 134 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM cientes. Todavia, a tese de que o homem para si mesmo não é nada e que seu ser lhe é atribuído por outrem não é absolutamente estranha à questão do inconsciente (vide as formulações de Jacques Lacan sobre o estádio do espelho) e mereceria ser fertilizada no interior mesmo da filosofia.11 Pode-se, ainda, via Paul Ricoeur – outro filósofo que realiza uma reflexão no sentido do que tratamos aqui –, indicar o caminho aberto por Merleau-Ponty. Em História e Verdade, afirma Ricouer: O mundo não é mais a unidade de um objetivo abstrato, de uma forma da razão, mas o horizonte mais concreto de nossa existência. Pode-se tornar isto sensível de maneira muito elementar: é ao nível da percepção que se destaca esse horizonte único de nossa vida de homem. A percepção é a matriz comum de todas as atitudes. É no mundo percebido, no mundo que envolve minha existência carnal, que se erguem os laboratórios e se realizam os cálculos do sábio, as casas, as bibliotecas, os museus e as igrejas. Os “objetos” da ciência estão nas “coisas” do mundo (...). Mas que significa isso? Essa unidade também não a posso apreender, dominar, entendê-la e exprimi-la em discurso coerente. Pois essa camada primordial de toda experiência é a realidade prévia de todas as circunstâncias; ela é sempre-já-antes e chego tarde demais para exprimir. O mundo é a palavra que tenho na ponta da língua e que jamais pronunciarei; está presente, mas apenas começo a proferi-la, já se tornou mundo do cientista, mundo do artista e mundo de tal artista: mundo de Van Gogh, de Cézanne (...). A unidade do mundo é por demais preliminar para poder ser possuída, por demais vivida para ser sabida. Desaparece mal é reconhecida. É talvez por isso que uma fenomenologia da percepção, que aspirasse a dar-nos a filosofia de nossoestar-no-mundo, é algo tão difícil quanto a busca do paraíso. A unidade do mundo a partir da qual se desdobram todas as atitudes é apenas o horizonte de todas essas atitudes.12 Como se sabe, a fenomenologia da percepção foi o caminho aberto por Merleau-Ponty para começar a explorar aquilo que, segunSobre o estádio do espelho, Cf. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan, 1996, pp. 157-61, e sobre a má fé, SARTRE & FERREIRA, 1978. 12 Apud. VON ZUBEN, in BEIRÃO, 1984, pp. 55-68 (grifo acrescentado). 11 dezembro 134 99 6978_Impulso_26.book Page 135 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM do seu entendimento, ficou à sombra do pensamento husserliano:13 o inconsciente seria o sentir mesmo, já que o sentir (o sensível) não é a possessão intelectual “daquilo” que é sentido, mas, sim, despossessão de nós mesmos em seu proveito, abertura àquilo que em nós não é necessário pensar para compreender. Merleau-Ponty não chegou a formular uma conceituação clara do inconsciente, embora em suas notas de trabalho, publicadas postumamente por Claude Lefort – O Visível e o Invisível – denomine o inconsciente de pivô existencial (o que retira a noção de inconsciente do plano do psíquico, do mental, de ser o inverso da consciência, para situá-lo no mundo, quase como uma atmosfera, “instalado” para além ou aquém de qualquer subjetividade, presente na articulação dos corpos entre si, no entre o psíquico e o físico) e apareçam indicações de como pretendia fundá-lo na experiência sensível – ontologicamente primordial –, já que para ele o sentido e o não-sentido estão inextrincavelmente imbricados, e surgem de nossa relação com o mundo e com os outros, tendo como berço a percepção: somos feitos da mesma carne (chair) do mundo, dizia ele, compreendendo-a como elemento, no mesmo sentido em que o termo era empregado para se falar do fogo, da terra, da água e do ar, isto é, como uma coisa geral, meio caminho entre o indivíduo espaço-temporal e a idéia...14 Por fim, é oportuno assinalar nesse diálogo a posição de MerleauPonty, ressaltada no prefácio ao livro A Obra de Freud, de A. Hesnard: A concordância da fenomenologia e da psicanálise não deve ser compreendida como se “fenômeno” dissesse de forma clara o que a psicanálise o disse de forma confusa. É, ao contrário, pelo que ela subentende ou desvela até seu limite – por seu conteúdo latente ou seu inconsciente – que a fenomenologia está em consonância com a psicanálise.15 13 O filósofo procura mostrar, nesse momento de sua reflexão, que a consciência não se define inicialmente como cogito e faculdade intelectual da representação, mas como percepção, que não seria sequer um ato, mas o fundo sobre o qual se destacam todos os atos e é pressuposto por eles. Merleau-Ponty foi, nessa obra, obrigado a retomar a problemática husserliana para fundar sua fenomenologia da percepção como recusa, justamente, de uma filosofia da consciência. 14 Cf. MERLEAU-PONTY, 1984b. Sobre o inconsciente em Merleau-Ponty, vide COELHO JR. in KNOBLOCH, op. cit., pp. 123-145. De qualquer modo, vale assinalar que, para o filósofo, a ciência e a filosofia da consciência nunca foram capazes de dar conta da peculiaridade e da ambigüidade da relação corpomundo (pois sempre manteve como apanágios exclusivos da consciência e do objeto, respectivamente, a reflexividade e a visibilidade), nem da intersubjetividade (pois para a primeira cada um é um autômato igual a uma coisa ou à matéria inerte, enquanto, para a segunda, é um “eu penso” único e total, não havendo como sair de si e encontrar o outro), nem sequer da linguagem (já que para a primeira ela sempre foi um sistema convencional e econômico de sinais e, para a Segunda, uma tradução imperfeita do pensamento), o que o levou à critica do “pensamento de sobrevôo” tanto numa como noutra. 15 Cf. MERLEAU-PONTY, 1960, p. 9. impulso 135 nº26 6978_Impulso_26.book Page 136 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM IV Sem dúvida, há outros caminhos na própria fenomenologia e na filosofia contemporânea que concorrem para a destituição do cogito.16 Penso, porém, que já estão indicadas questões suficientes para se iniciar, notadamente no nosso meio acadêmico (já que em outros ele não é nada novo), um diálogo profícuo entre filosofia e psicanálise que, por vezes, tem sido incentivado a deixar de lado os debates fundados nos clássicos e voltar sua atenção para querelas corporativistas, motivadas por razões mercadológicas; ou ainda, o que é pior, se reduz a filosofia ao desejo do filósofo de um lado e, de outro, a psicanálise a uma pseudociência ou a um saber em-si que não se permite ser interrogado pela filosofia, quer pelo viés epistemológico, quer pelo viés ético-político ou ontológico. Que a comemoração do centenário dessas obras nos enseje a busca de respostas a questões como as que Paul Ricoeur formulava há trinta anos: como devemos repensar e re-fundamentar o conceito de consciência, de maneira tal que o inconsciente possa ser seu outro? Como conduzir uma crítica – no sentido kantiano – referente aos modelos que a psicanálise constrói, necessariamente, para dar conta do inconsciente? E, para além da revisão do conceito de consciência imposta pela ciência do inconsciente: em que visão de mundo e de homem são possíveis essas coisas? O que deve ser o homem para ser, de uma só vez, responsável por um pensar razoável e capaz da loucura? Ser obrigado por sua humanidade a uma maior consciência e capaz de depender de uma tópica e economia, porquanto o “isso fala n’ele”? Que nova visão sobre a fragilidade humana – e, ainda mais radicalmente, sobre o paradoxo da responsabilidade e da fragilidade – é exigida por um pensamento que aceita ser descentrado da consciência por uma reflexão sobre o inconsciente?17 E, uma questão, ou é tomada como própria, ou se faz de conta que a responde! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEIRÃO, M.F. et al. Temas Fundamentais de Fenomenologia. Editado pelo Centro de Estudos Fenomenológicos de São Paulo, São Paulo: Moraes, 1984. Confira, por exemplo, os trabalhos sobre linguagem do fenomenólogo e psicanalista de WAELHENS, in EY, 1970, pp. 401-16, e, de outro lado, os trabalhos, por exemplo, de DELLEUZE & GUATTARI, 1976. Para o iniciante, podem ser esclarecedoras as leituras de NAFFAH NETO, 1985 e 1991. 17 Cf. RICOUER, in EY, 1970, pp. 440-454. 16 dezembro 136 99 6978_Impulso_26.book Page 137 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM CASTRO, E.O. & BEIRÃO, M.F. (org.) et al. Vida, Morte e Destino. Editado pelo Centro de Estudos Fenomenológicos de São Paulo. São Paulo: Cia. Ilimitada, 1992. DELLEUZE, G. & GUATTARI, F. O Anti-Édipo. Rio de Janeiro: Imago, 1976. DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE PSICANÁLISE: O Legado de Freud e Lacan. Editado por Pierre Kaufmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. EY, H. El Inconsciente – Coloquio de Bonneval. México: Siglo XXI, 1970. HEIDEGGER, M. Ser y Tiempo. México: Fondo de Cultura Econômica, 1968. KNOBLOCH, F. (org.) et al. O Inconsciente: várias leituras. São Paulo: Escuta, 1991. LOPARIC, Z. Heidegger Réu: um ensaio sobre a periculosidade da filosofia. Campinas: Papirus, 1990. LYOTARD, J.F. A Fenomenologia. Lisboa: Ed. 70, 1986. MERLEAU-PONTY, M. O Metafísico no Homem. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1984a. ________________. O Visível e o Invisível. São Paulo: Perspectiva, 1984b. ________________. Prefácio. In: L’Ouvre de Freud. HESNARD, A. Paris: Payot, 1960. NAFFAH NETO, A. O Inconsciente: um estudo crítico. São Paulo: Ática, 1985. ________________. O Inconsciente como Potência Subversiva. São Paulo: Escuta, 1991. ROUDINESCO, E. J. Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. SARTRE, J.P. & FERREIRA V. O Existencialismo é um Humanismo. Lisboa: Presença, 1978. impulso 137 nº26 6978_Impulso_26.book Page 138 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 138 99 6978_Impulso_26.book Page 139 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Criança Especial na Psicanálise The Special Child in Psychoanalysis RESUMO – Esta pesquisa fez-se necessária pelas questões surgidas a partir de atendimentos clínicos psicológicos realizados no CEPAC, em Jacareí-SP, instituição que recebe crianças especiais, submetidas a diversos tipos de comprometimentos físicos e ou mentais, sobretudo algumas síndromes e paralisia cerebral. Trata-se de um estudo teórico-clínico segundo o referencial psicanalítico, envolvendo a problemática do déficit orgânico sobre a constituição psíquica da criança. Resultou de uma pesquisa que teve como ponto de partida a seguinte questão: como uma insuficiência orgânica sobrevém nas condições de constituição da subjetividade? Na tentativa de respondê-la, tomamos como referência teórica Freud, Lacan e outros psicanalistas contemporâneos, articulada a três resenhas de casos. Palavras-chave: criança especial – constituição psíquica – clínica psicanalítica. ABSTRACT – The need for the present research came from the questions that arose in the clinical psychological treatments at CEPAC in Jacareí-SP, Brazil, an institution which assists special children with physical and mental disabilities, syndromes and cerebral paralysis. This is a clinical theoretical study based on psychoanalysis, involving the problem of organic disabilities and the child’s psychic constitution. The article resulted from research based on the question of how an organic insufficiency affects the conditions of subject formation. In our attempt to respond, we used as our theoretical framework the works of Freud, Lacan and other contemporary psychoanalysts which were articulated in the discussion of three case studies. Keywords: special children – psychic constitution – psychoanalytical clinic. impulso 139 nº26 MÁRCIA CRISTINA MAESSO Psicanalista, especialista em Psicanálise e Linguagem (PUC-SP). [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 140 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A INTRODUÇÃO o ser convidada a prestar serviço de atendimento clínico numa instituição que recebia crianças chamadas especiais, devido aos comprometimentos físicos e ou mentais, comecei a me fazer uma série de questionamentos. Já havia anteriormente trabalhado com crianças em consultório, mas diante da possibilidade de encontrar na clínica uma marca real tão evidente quanto o déficit orgânico, perguntei-me sobre a viabilidade do tratamento psicanalítico com crianças nessas condições. Na mesma época, estava por concluir a especialização em psicanálise, portanto, cabia-me a tarefa de realizar um trabalho de pesquisa, que resultou em um estudo teórico-clínico envolvendo a problemática da incidência do déficit real sobre a constituição psíquica da criança. O conteúdo que examinaremos a seguir está diretamente relacionado ao entrecruzamento de dois movimentos: Questionamento pelo impasse clínico e pesquisa teórica. Aprendemos com Lacan a discernir, ao afirmamos que a criança é um sujeito em constituição, que não estamos nos referindo apenas à realidade de sua imaturidade orgânica em desenvolvimento, mas especialmente ao “sujeito do desejo”, aquele descoberto por Freud nos sonhos, chistes e atos falhos, e por Lacan, na linguagem, através dos significantes surgidos pela operação da castração. Para ascender à posição de desejante, independentemente das condições deficitárias reais às quais alguém possa estar submetido, sem que haja adestramento privilegiando apenas a adaptação social, a relação com o outro deve-se fazer propiciadora das condições necessárias ao devir de sujeito na criança, a partir de uma suposição de sua existência. É o que de costume as mães, ou quem se ocupa dessa função, fazem com os bebês, ou seja, em algum momento resolvem entender uma manifestação qualquer da criança, que por vezes ainda não fala, como um apelo de sua própria autoria, e podem endereçar a eles uma pergunta fundamental: “O que você quer?”. Entretanto, é notável que na maioria das vezes as crianças, sob condições especiais de comprometimento orgânico, estão comprometidas também em sua subjetividade, como se houvesse uma predisposição à insanidade psíquica, relacionada à própria insuficiência orgânica. É notável também que esta tão constitutiva pergunta formada com poucas palavras (“O que você quer?”) muitas vezes não é feita pelos pais às crianças com déficit orgânico, como se a elas não fosse possível saber, enquanto saber que se diferencia do que esperam seus pais, dada sua condição orgânica. A observação dessa recorrência me per- dezembro 140 99 6978_Impulso_26.book Page 141 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mitiu formular a seguinte questão: Como uma insuficiência orgânica sobrevém nas condições de constituição da subjetividade? Ocorre que nem sempre o contexto que envolve a chegada de uma criança ao mundo é passível de uma oferta favorável ao seu pleno surgimento como sujeito desejante. Esse contexto ao qual nos referimos está condensado de significantes que antecedem o nascimento do bebê e do que o bebê real oferece, correspondendo ou não ao bebê esperado pelos pais. A observação de Freud em “Sobre o narcisismo: uma introdução” é precisa: Se prestarmos atenção à atitude dos pais afetuosos para com seus filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram. [...] Assim eles se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho – o que uma observação sóbria não permitiria – e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele. [...] A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram...1 Mas, se há o impacto pela incidência de uma condição real que trai imediatamente essa expectativa, pode ocorrer que a criança nem seja imaginarizada como tal. A possibilidade de perpetuação de si e da realização de sonhos através de um filho pode ser prejudicada quando o bebê real é impossibilitado de corresponder aos ideais parentais por uma insuficiência orgânica. Usando uma metáfora bem simples, seria como a primeira roupinha preparada com esmero, para vestir o filho esperado, mas que não serve ao corpinho do bebê que nasceu com defeito. Que efeitos são produzidos sobre a criança e seus pais quando a roupinha-significante, que deveria ser preenchida pelo corpo da criança, por circunstâncias especiais, não lhe cabe? A resposta pode parecer óbvia, mas não é sem fundamento: ou outra roupa lhe é dada para vestir, ou a criança fica nua. Tanto em um quanto em outro há desvio da rede significante primordial. Freud, no mesmo texto, declara: (...) uma pessoa atormentada por dor e mal-estar orgânico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida em que não dizem respeito ao seu sofrimento. Uma observação mais detida nos ensina que ela também retira seu interesse libidinal de seus objetos amorosos: enquanto sofre deixa de amar.2 1 2 FREUD [1914], 1990, pp. 107-108. Ibid., p. 98. impulso 141 nº26 6978_Impulso_26.book Page 142 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM É claro que, ao fazer essa afirmação, Freud refere-se a uma pessoa em relação à sua própria doença, mas não deve ser menos verdade quando a doença localiza-se em uma pessoa amada, um filho (mesmo porque a idéia central desse texto de Freud é o investimento narcísico dos pais sobre o filho, que revela a extensão da própria imagem, projetada no filho). O que pretende-se inferir é que, ao nascer uma criança com um déficit orgânico ou este se fazer precocemente presente, o olhar dos pais se desloca da criança para a doença da criança, sua deficiência, ou sua má formação, que torna-se uma metonímia da totalidade de seu ser. A peregrinação dos pais pelos médicos e especialistas, com vistas à melhora da insuficiência da criança, nos dá mostra desse desvio do olhar, pois, na maior parte dos casos, é com base nas orientações recebidas pelos profissionais ou nos manuais de ensinamentos específicos que os pais irão estabelecer suas relações com o filho doente, ou com a parte doente do filho que lhes cabe habilitar. É bastante comum escutar no discurso desses pais palavras técnicas usadas pelos especialistas, para dizerem de seus filhos. Veremos, através de três resenhas de casos, alguns efeitos produzidos a partir do real, que sobrevém inapreensível no corpo da criança, provocando a suspensão da estrutura significante parental, concernente à sua constituição enquanto sujeito do desejo. CASO I Lucas, menino de cinco anos, que sofreu AVC (derrame cerebral) com um ano e oito meses de idade, apresenta um quadro de hemiparesia e de constantes convulsões. Em algumas entrevistas sua mãe declara que, pelo fato de Lucas ter convulsões diárias, ela teme deixá-lo sozinho; sua presença é constante para o caso de ter de socorrê-lo. Quando é convocada a dizer como é sua relação com o filho, nota-se que é através das convulsões que ela se faz. O menino não pode ficar sozinho; quando quer jogar bola com o irmão e os amigos (que ela diz serem do irmão), a mãe tem medo; só pode brincar na rua quando ela tem condições de olhá-lo; além disso, sente-se penalizada pelo fato das outras crianças notarem e comentarem que Lucas não sabe brincar direito. Entretanto, mesmo com tantos cuidados e a presença da mãe, Lucas teve uma crise convulsiva e caiu da escada. Ao relatar o fato, a mãe se explica dizendo que estava perto do filho, mas a proximidade não foi suficiente para alcançá-lo a tempo. Essa “necessidade” de segurá-lo configura-se em outra situação: quando estão na rua a mãe segura bem forte a mão de Lucas; se soltar, ele sai correndo e ela teme que algo ruim possa acontecer. dezembro 142 99 6978_Impulso_26.book Page 143 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Nota-se que o olhar da mãe está dirigido à doença; em nenhum momento ela se refere ao que seu filho sabe ou gosta de fazer. Ao falar da escola do filho (uma sala de estimulação criada para atender crianças com dificuldades semelhantes), ela apenas diz: “Lá ele é muito tímido, como conta a doutora, isto é, a professora”. Esse ato falho remete à ênfase que a doença tem sobre a criança, já que doente precisa de médico, não de professora. Podemos supor que na linguagem materna, bem como em seus atos, há um saber que remete à doença e que, a partir deste saber, o filho é mantido mesmo com seus esforços de separação. A antecipação feita pela mãe à criança está relacionada à insuficiência de sua condição orgânica, provocando, através do temor de sua independência, a manutenção de seu lugar de doente, pelo qual a mãe conserva-se exercendo a função do filho, conduzindo-o na rua, assistindo suas brincadeiras e, sobretudo, sofrendo por ele quando suas inabilidades são notadas e comentadas por outra criança. O modo como o laço dessa criança é estabelecido com a mãe permite supor que há uma adjacência, uma contigüidade da criança à doença, pela qual é tomada metonimicamente. A supervalorização da doença sobre a criança delimita o campo de articulação significante que a circunscreve no discurso, definindo sua posição na rede significante, posição esta que lhe atualiza a parcela deficitária e a faz permanecer na condição que lhe é dada desde o real de sua insuficiência, culminando na destituição de suas outras possíveis capacidades, como, por exemplo, a de promover sua independência, sua separação da mãe. CASO II Uma mulher grávida tropeça e bate a barriga; sua filha Jhullya nasce normalmente e, aos seis meses de idade, a mãe nota que a criança não consegue sentar-se, mantendo-se em movimentos descoordenados, sacudindo o corpo. A criança é levada ao pediatra, que a encaminha ao neurologista; através de exames é diagnosticado que a criança tem síndrome de West criptogênica, com prognóstico de não andar e não falar. Entretanto, Jhullya anda aos três anos e fala aos cinco anos, idade com a qual é levada a freqüentar uma pré-escola pública convencional, mas na qual não lhe é dado continuar, devido ao seu comportamento “hiperativo” e mau aproveitamento. Jhullya começa, então, a ser assistida por mim, aos seis anos e meio; suas manifestações resumem-se na criação de palavras inexistentes (glossolalia) e em jogos que desenvolvem-se em deslocamentos metonímicos: um animal chama o outro impulso 143 nº26 6978_Impulso_26.book Page 144 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM para falar, que por sua vez chama outro animal, que chamará outro, e assim por diante. Às vezes falava imperativamente consigo, como se fosse um outro e respondia com um ato. Através das conversas com a mãe, soube-se que, a seu ver, o fato de ter batido a barriga durante a gestação ao correr de um homem por ela considerado louco poderia ter causado o problema de Jhullya. E, a respeito do exame genético, ela considerava o “gen” do pai o responsável, já que o pai não podia ter filhos. Depois de Jhullya ouvir esses relatos da mãe, começou a estender seus jogos, produzir desenhos, desdobrar significantes e pedir que eu desenhasse seu pai levando-a à escola. Notamos nesse curto relato que Jhullya ficou sem um lugar definido: a batida durante a gestação talvez tivesse contribuído para que o bebê real não fosse identificado como o bebê esperado; o bebê sofreu um acidente e deste esperava-se algum efeito, mas que não se sabia qual. O nome escolhido para a criança durante a gravidez, Tânia, não lhe foi dado; outro nome (Jhullya) surgiu quando a mãe folheava uma revista no hospital. Jhullya refere-se a si própria como Tânia (o nome que teria e que sua prima recebeu) e à sua irmã como Marcos, o nome de seu primo. Além de apontar o ideal de filha em sua prima por parte de mãe, através de sua tentativa de nomeação, Jhullya aponta a insatisfação que representa. Para a mãe, Jhullya é um nome que “não se escreve, ninguém sabe escrevê-lo”, nem mesmo ela. Estamos tratando da alienação fundamental proposta por Lacan, que se faz necessária à estruturação da realidade, bem como constitui a imagem refletida de si, na relação com o outro, na forma de eu-ideal.3 No caso dessa menina, a roupa tecida durante a gestação – seu nome, entre outras coisas – não lhe coube; talvez a mãe já não soubesse como lhe chamar, por não saber “como” a criança nasceria a partir do acidente. Recorrendo a uma revista no hospital e ao médico, pôde oferecer uma suplência ao significante que ficara suspenso. O nome da síndrome, dado pela ciência, alude à incidência paterna como responsável geneticamente pelo comprometimento da filha. Podemos supor que essa revelação médica tenha permitido à mãe reconhecer a filiação da criança a partir do referencial paterno, e à criança a possibilidade de ocupar um lugar na cadeia significante, identificando-se à sua insuficiência herdada da insuficiência do pai. Entretanto, a referência ao significante paterno possibilita à criança avançar sobre sua doença, não correspondendo ao prognóstico de não andar e não falar, estabelecido pela medicina, na 3 Cf. LACAN, 1979, p. 148. dezembro 144 99 6978_Impulso_26.book Page 145 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mesma medida em que seu pai supera o mandato de sua esterilidade. É possível supor que o desejo de Jhullya ir à escola esteja diretamente relacionado à lei que lhe outorga o pai: a da superação em nome do desejo. CASO III O atraso no nascimento de David tem como conseqüência anóxia neonatal, que o leva à internação imediata por alguns dias; assim, passa a ter cuidados especiais, pelo receio dos pais de que algo lhe acontecesse. Aos dois anos, a mãe começa a notar o atraso no seu desenvolvimento motor e cognitivo; é encaminhado a vários médicos e especialistas para se saber a causa de seu problema. Aos três anos começa a falar; a primeira palavra que pronuncia é caminhão, quando tem início sua primeira fixação – quer saber o que contêm os caminhões que vê na rua. Até os cinco anos não fala eu, referindo-se a si usando seu nome próprio, e manifesta-se basicamente através de perguntas. Os pais permaneceram na busca de especialistas que justificassem as manifestações de David, sem contudo aceitar nenhuma delas, declarando a insuficiência dos profissionais, ao mesmo tempo que não sabiam o que fazer com seu filho. David chega para tratar-se comigo aos onze anos e meio. Sua fala resume-se a perguntar se é amado, sobre cenas de filmes e sobre fitas de vídeo, as quais coleciona. Mas não pode contar sequer uma cena de algum filme que tenha assistido, tampouco relacioná-los de acordo com sua preferência, pois parece não possuir nenhuma. A mãe relata que ele mal acaba de ganhar uma fita, já começa a pedir outra e que não fica satisfeito quando ganha a fita que pediu. O contexto permite considerar a hipótese de que não há para David uma articulação significante que lhe confira um lugar. As condições especiais de seu nascimento talvez tenham contribuído para o modo como o laço com os pais fora estabelecido. A declaração dos pais de “não saber” o que se passa com o filho na procura incessante por diversos especialistas, sem contudo reconhecer ou autorizar o conhecimento científico desses especialistas, leva-nos a supor que a função que deveria ser ocupada pelos pais – a de saber sobre o filho, antecipando-lhe, através do período especular, a crença de que ele “é” – não lhes foi instituída, e que talvez a busca pelo saber científico estivesse muito mais relacionada à possibilidade de encontrar alguém que lhes instituísse esse saber, do que a saber sobre o déficit do filho. Manifestando-se, da mesma maneira que os pais, a partir unicamente de perguntas, David atualiza as perguntas dos pais, que não sabem quem impulso 145 nº26 6978_Impulso_26.book Page 146 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM é seu filho nem o que ele contém; possivelmente as perguntas de David denotam a intenção pelo saber que lhe concerniria um lugar na articulação significante parental, pela busca de uma afirmação passível de aliená-lo ao significante “você é...”, ao trazerem a pergunta “Quem é você?”. Nota-se que, nesse caso, a interferência do Real sobre o significante primordial implica que nenhum lugar seja oferecido à criança na rede significante, impossibilitando a alienação fundamental e conseqüente construção do eu. MARCAS DE PREJUÍZO SUBJETIVO Ao serem essas crianças muito precocemente atravessadas em suas vidas por algo inesperado que chamamos de Real – seja esse Real uma síndrome, uma paralisia cerebral, nascimento prematuro ou com atraso, ou qualquer outro acidente de percurso –, os modos específicos de laço entre dessas crianças e os seus pais constituíram também marcas de prejuízo subjetivo. Pode-se observar através dessas resenhas que, além das particularidades de cada um, há algo em comum entre eles, ou seja, a suspensão da cadeia significante, que é composta pelo que os pais idealizaram para seus filhos, a partir de seu próprio narcisismo. O esforço de distinguir os modos de incidência do déficit orgânico na estruturação subjetiva indicaram algumas possibilidades de posicionamento da criança na articulação significante, por meio do Outro primordial. Deparamo-nos, através dos casos, com modos específicos de circunscrição da criança frente à alteridade; sinteticamente consistem em: • no primeiro caso, localizou-se a indistinção entre criança e doença, pela supervalorização da doença sobre a criança, que não é tomada em sua totalidade, tornando a doença o deslocamento metonímico de seu ser; em outras palavras, a criança passa a ser considerada a partir de seu déficit real, quando o laço com o outro se faz em torno deste; • no segundo, a criança identifica-se ao significante que surge em suplência ao significante primordial – ou seja, o significante de sua insuficiência real – que lhe é conferido, geralmente pelos diagnósticos dos especialistas; • e, no terceiro, depara-se com a impossibilidade de identificação da criança ao significante primordial, pela suspensão da cadeia significante do Outro materno, que não se institui em sua função, pelo não-reconhecimento narcísico ao filho submetido ao déficit real. dezembro 146 99 6978_Impulso_26.book Page 147 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Na esfera dessas considerações, a relação de “saber” referente à criança constitui-se em relação ao déficit real. O “saber” ao qual nos referimos não condiz ao cognitivo, mas ao saber inconsciente, que não se sabe a priori. Verificou-se que o modo como o Outro materno institui o saber sobre a criança é condição essencial para o devir ou o impedimento de sua subjetividade. Ao instituir-se no lugar do saber, é a mãe quem determina o lugar que o filho deverá ocupar, o que ocorre no início de toda relação entre mãe e filho; mas na situação particular de uma criança com lesão real esse domínio se estende, dificultando a separação da criança de sua mãe, quando não há suposição de um saber próprio da criança e a incidência do terceiro – o pai. No caso de Lucas, enquanto a mãe configura-se como detentora do saber que concerne à sua doença, ele é mantido no lugar – de doente –, que surge pela suposta correspondência ao saber materno de seu comprometimento real. A consideração de Maud Mannoni a respeito de crianças com diagnóstico de debilidade mental esclarece o que seria essa posição da criança conectada ao saber da mãe: Nem todos dão tão nitidamente a chave da sua debilidade. Mas todos eles indicam, de modo mais ou menos confuso, a sua maneira de se situar diante do Outro. É raro que eles se oponham a este Outro: procuram de preferência se moldar no seu desejo. Todo confronto é recusado, e a provação de castração é a pedra na qual tropeçam todos os débeis. Esta provação, o débil vive-a na sua realidade corporal, porque é um sujeito diminuído, mas não pode vivê-la no nível do simbólico. Com efeito, não pode dar testemunho dela e menos ainda, a partir daí, lançar um apelo ao Outro.4 Por outro lado, é possível delegar o saber do Outro primordial em relação ao filho à terceira instância – o pai –, quando se faz através da ciência, que de certa maneira atribui à criança um lugar significante pela revelação do nome da sua doença. Esse saber, ainda que não se constitua como próprio dos pais, ao ser autorizado e reconhecido por eles pode imputar à criança uma delimitação significante que permita a identificação ao significante de sua doença. Desse modo a função paterna, se não é excluída, é tornada anônima, quando o saber reconhecido é equivalente ao conhecimento médico. É o que ocorre com Jhullya: ao não poder lhe ser dado o nome escolhido durante a gesta4 MANNONI, 1995, p. 101. impulso 147 nº26 6978_Impulso_26.book Page 148 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM ção, outro nome veio substituí-lo, entretanto, preenchido pelo significante de sua síndrome, supostamente originária do gen paterno. No caso de David, a mãe não se institui em sua função, de modo a não saber nada sobre o filho, e tampouco delega o saber a outra instância, nem ao pai ou ao que poderíamos considerar como uma lei paterna anônima, dada pelos especialistas; portanto a criança torna-se detentora do saber, ao qual ninguém tem acesso. Sem antecipação especular, que deveria ser conferida pelo saber dos pais, a criança tornase um enigma. Talvez o real interrompa tão abruptamente a cadeia significante do Outro primordial que não permita uma suplência a ponto de ofertar um lugar de identificação à criança, que se mantém como “coisa” obscura. Nas palavras de Mannoni, A irrupção na realidade de uma imagem de corpo enfermo produz um choque na mãe: no momento em que, no plano fantasmático, o vazio era preenchido por um filho imaginário, eis que aparece o ser real que, pela sua enfermidade, vai não só renovar os traumatismos e as insatisfações anteriores, como também impedir posteriormente, no plano simbólico, a resolução para a mãe do seu próprio problema de castração.5 O real da insuficiência da criança atualiza para a mãe a própria castração, privilegiando que a criança seja reencontrada na posição de insuficiente, determinada pela mãe (mesmo sem saber) através do próprio esvaziamento simbólico, que não opera recobrindo o real. O que a mãe pode saber de seu filho limita-se ao real imposto pelo déficit orgânico. Essas mães diriam: “Sei que meu filho tem algo, mas não sei o que tem”. CONCLUSÃO É importante considerar que mesmo o infans (que não fala, cuja fala não tem estatuto) está submetido a uma linguagem que vem da alteridade, linguagem esta que reside na pré-história familiar e dos antepassados, e que constitui mitos e antecipações à criança mesmo antes de nascer.6 Na concepção de Lacan, a criança só pode aceder à linguagem através do desejo do Outro, que lhe confere uma posição no discurso por meio do significante, tornando-lhe possível a identificação a essa posição, a de eu-ideal. Para poder contextualizar enquanto articulação significante as manifestações infantis, é imprescindível a es5 6 MANNONI, 1995, p. 101. Cf. RODULFO, 1990. dezembro 148 99 6978_Impulso_26.book Page 149 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM cuta do discurso parental, bem como as transposições de registro que se repetem na estrutura dos jogos da criança, evitando dessa maneira a objetivação ou adestramento da criança através de procedimentos de vê-la, treiná-la a partir da compreensão do que é observável. O relato de Elza Coriat demonstra a possibilidade de um trabalho psicanalítico com crianças submetidas ao déficit orgânico, considerando sua subjetividade: Nossas intervenções com os pais almejam a possibilidade de realização da criança como sujeito do desejo. (...) com seus próprios desejos e com uma construção própria do caminho para atingi-los, mesmo que seu nível de inteligência não lhe permita resolver determinadas operações matemáticas ou que sua afecção motora congênita lhe faça requerer certo tipo de ajuda alheia para mobilizar-se.7 As hipóteses levantadas no decorrer deste estudo, fizeram-se necessárias a partir dos componentes colocados pela clínica, permitindo operar minimamente na intervenção clínica, com vistas a criar condições de circulação da criança na ordem simbólica, conferindo pertinência à transposição de registro que ela faz ou tenta fazer, sustentando o campo para a incidência da linguagem, permitindo-lhe sair da condição de infans à de sujeito. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CORIAT, E. Psicanálise e Clínica de Bebês. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997. FELDSTEIN, R. et al. Para Ler o Seminário 11 de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. FREUD, S. [1900] A Interpretação dos Sonhos. 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Duas notas sobre a criança. Ornicar?. Revista do Campo Freudiano, (37), abr./jun., 1986. LERUDE, M. Coleção Psicanálise da Criança: o sujeito, o real do corpo e o casal parental. Salvador: Álgama, 1998. MANNONI, M. A Criança Retardada e a Mãe. São Paulo: Martins Fontes, 1995. RODULFO, R. O Brincar e o Significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição precoce. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. VALLEJO, A. & MAGALHÃES, L. Lacan: operadores da leitura. São Paulo: Perspectiva, 1991. VORCARO, A.M.R. A Criança na Clínica Psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1997. dezembro 150 99 6978_Impulso_26.book Page 151 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM impulso 151 nº26 6978_Impulso_26.book Page 152 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 152 99 6978_Impulso_26.book Page 153 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Fordismo e Toyotismo: Mudanças no Mundo do Trabalho Ford and Toyota Systems: changes in the world of work RESUMO – As mudanças introduzidas no mundo do trabalho pelos modelos fordista e toyotista de produção geraram situações em que se alternaram a rigidez e a flexibilidade. Ao primeiro associa-se o pleno emprego e, ao segundo, a redução de postos de trabalho. A tecnologia, atuando tanto a favor como contra a sociedade, gerou um clima de instabilidade geral que, embora não poupe os países centrais, é mais acentuada nos periféricos. Nesse contexto, em que a responsabilidade maior compete às empresas, o discurso controvertido da empregabilidade, apresenta-se como alternativa para a recuperação dos empregos perdidos. Enquanto para alguns tornar-se empregável é responsabilidade do próprio trabalhador, outros vêem como única saída o preparo da força de trabalho através de uma ação conjunta das partes interessadas: empresas, governo e sindicatos. O crescimento da economia informal e a precarização das condições de trabalho são um alerta do esgotamento do sistema vigente. Palavras-chave: fordismo – toyotismo – empregabilidade – desemprego. ABSTRACT – The changes introduced by the Ford and Toyota systems of production created alternating situations of rigidity and flexibility. The first is associated with full employment and the second with the reduction of job posts. Technology, working both for and against society, produced a climate of general instability, which although present in wealthy nations, is more accentuated in the peripheral countries. In a context in which the main responsibility belongs to the firms, the controversial discourse of employability is presented as an alternative for the recuperation of lost jobs. Although some consider employment the responsibility of the worker, others consider the preparation of the work force through the joint action of interested parties (firms, government and unions) as the best solution to the problem. The growth of the informal economy and the precarious working conditions are proof of the fragility of the present system. Keywords: Ford system – Toyota system – employability – unemployment. impulso 153 nº26 ANA MARIA ROMANO CARRÃO Mestre em Administração pela PUC-SP e doutoranda em Ciências Sociais (PUC-SP). Professora da Faculdade de Gestão e Negócios e coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisa em Administração-CEPA, ambos da UNIMEP. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 154 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A INTRODUÇÃO s mutações impostas ao mundo do trabalho são reflexo de alterações que Toffler1 denomina mudanças nas bases do poder. Ao longo dos dois últimos séculos as transformações econômicas produziram períodos cíclicos em que se alternaram momentos de conquistas e de perdas para os trabalhadores. Com o advento do capitalismo, o trabalho, necessidade natural do homem, deslocou-se do ambiente familiar para ser realizado quase que totalmente dentro das empresas. O desenvolvimento industrial atingiu o seu auge ainda neste século, mais precisamente nas três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, proporcionando as mais elevadas taxas de emprego já conhecidas. Entretanto, na última década do século XX houve uma reversão desse quadro, que passou de fartura para a escassez de emprego, sem que a redução dos postos de trabalho tivesse afetado a capacidade produtiva das empresas, configurando um período de crise social. Em um mesmo século, portanto, acompanhamos, num primeiro momento, um processo de profundas transformações sociais, econômicas, institucionais e tecnológicas, desenvolvido paralelamente a um mercado de trabalho em ampla expansão; num segundo instante, o início da crise, quando as curvas do crescimento da produção industrial e da geração de empregos passaram a se distanciar. A primeira curva mantendo sempre a tendência ascendente, enquanto a segunda, a de queda. Com a introdução da informática e da microeletrônica nas empresas, a queda da segunda curva continua se acentuando, gerando um elevado contingente de desempregados, desfazendo a relação direta existente em outros tempos entre o volume de produção e a força de trabalho em atividade. A automação da produção, fruto das inovações tecnológicas, tornou a indústria cada vez mais independente da mão-de-obra direta que, liberada, aos poucos foi sendo absorvida pelo setor de serviços. A expressão sociedade pós-industrial, empregada para designar a realidade de nossos dias, decorre da crescente proporção de empregos no setor de serviços paralelamente à redução dos postos de trabalho no setor industrial. Para alguns autores, como Antunes,2 essa terminologia não está correta, se considerarmos que o setor de serviços é um prolongamento do setor industrial, isto é, não só está apenas a ele atrelado, mas dele depende. 1 2 TOFFLER, 1998. ANTUNES, 1998. dezembro 154 99 6978_Impulso_26.book Page 155 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Este artigo procura levantar algumas questões no sentido de contribuir para a compreensão da situação atual do mundo do trabalho, destacando para isso o compromisso das organizações – públicas, privadas ou sem fins lucrativos – nesse contexto. Dadas as proporções assumidas pelo problema, o debate sobre o tema ultrapassou os limites do campo das ciências sociais e econômicas, envolvendo outras categorias profissionais. Antes, porém, para que se possa compreender a passagem de situações antagônicas em um mesmo século, faz-se necessária a recuperação, ainda que superficialmente, de alguns aspectos que se encontram na origem dessas mudanças. Nas três décadas imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, como havia garantia de emprego, era possível escolher uma profissão, educar-se para ela e a ela dedicar-se durante toda a vida. As pessoas eram admitidas por uma empresa, nela faziam carreira e permaneciam até a aposentadoria. Era natural os funcionários se aposentarem e serem substituídos por familiares. São muitos os registros de gerações de uma família de empregados que se sucederam em uma mesma empresa. Nessa época, era igualmente possível trocar de empregos mantendo a mesma faixa salarial. Os empresários eram um sinônimo de criadores de empregos e oportunidades. No decorrer deste século, o mercado de trabalho sofreu transformações profundas, de forma que, cotejadas as conquistas e as perdas, o saldo social pende mais para o negativo. Novas tecnologias foram incorporadas aos processos produtivos determinando cortes sem precedentes dos postos de trabalho. Nesse novo contexto, os empresários, de criadores de emprego e oportunidades, passaram à posição de destruidores de postos de trabalho e oportunidades. Impulsionadas pelas forças de um mercado altamente competitivo, as empresas desenvolveram métodos de trabalho cada vez mais sofisticados de modo a garantir ganhos crescentes de produtividade, que provocaram mudanças na estrutura do mercado de trabalho, do que decorre, mais do que escassez progressiva de empregos, uma mudança radical da natureza do trabalho e de suas fontes.3 É necessário, portanto, analisar as origens do período áureo de geração de empregos, acompanhando a sua evolução, que culmina na atual escassez de postos de trabalho. O presente estudo confere um tratamento sociológico ao tema, que vem igualmente despertando o interesse dos estudiosos de administração, em especial pelo envolvi3 VAZ MUSA, 1997. impulso 155 nº26 6978_Impulso_26.book Page 156 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM mento direto das empresas nas duas extremidades da curva evolutiva do mercado de trabalho. As empresas estão diretamente envolvidas com o problema, tanto do seu ponto de vista quantitativo como do qualitativo, ou seja, no referente aos postos de trabalho criados/eliminados assim como à qualidade daqueles mantidos. Na raiz da evolução do mundo do trabalho estão os modelos fordista/taylorista e o toyotista como paradigmas da produção capitalista, cujas características são apresentadas a seguir. FORDISMO, DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL E GERAÇÃO DE EMPREGOS O fordismo firmou-se como um modelo baseado no conceito de produção de massa, concebido e adotado por Ford em sua fábrica de veículos no início deste século. Perseguia a obtenção de ganhos crescentes de produtividade através de economia de escala, de forma a reduzir os custos unitários de produção e permitir a definição de preços de venda sempre mais atraentes. Ford incorporou ao seu trabalho as idéias desenvolvidas por Taylor, conhecidas como administração científica, baseadas na divisão do trabalho, especialização do operário, separação entre as atividades de planejamento e de produção, em busca de padronização de produção. A metodologia de Ford transformou-se em um modelo amplamente difundido, cujas características básicas são: produtos mais homogêneos gerados através de produção de massa e linhas de montagem; unidades fabris concentradas e verticalizadas; e constituição e consolidação do trabalhador coletivo fabril.4 Eliminando tempos ociosos, a linha de montagem indiretamente aumentava o tempo produtivo do operário e prolongava a duração da jornada efetiva do trabalho. Paralelamente, a complexidade do trabalho era reduzida mediante a fragmentação dos processos produtivos, resultado da subdivisão do trabalho.5 Esse sistema provocou mudanças na reprodução da força de trabalho, gerando nova política de controle e gerência do trabalho, nova estética e nova psicologia, caracterizando “um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada e populista”.6 Difundindo-se rapidamente, a produção de massa tornou-se a metodologia dominante na indústria manufatureira dos países desenvolvidos. Com a produção padronizada, a competitividade das empresas transferiu-se para os preços, o que exigia ganhos crescentes de 4 5 6 ANTUNES, 1998. VELAZQUEZ, s/d. HARVEY, 1992, p.121. dezembro 156 99 6978_Impulso_26.book Page 157 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM produtividade de modo a tornar possíveis novas reduções de custos. A padronização dos produtos exigia trabalhadores igualmente especializados em tarefas específicas, base para o desenvolvimento de um sistema rígido, com operários e máquinas especializados, comprometidos com índices de produtividade que dependiam de ganhos constantes de economia de escala. Entretanto, a produção em larga escala exigia, para seu escoamento, um consumo igualmente de massa, explicando-se assim as estratégias de estímulo ao consumo, implementadas a partir desse período. O abastecimento do mercado requeria da indústria a manutenção de estoques de reposição para evitar interrupções de abastecimento, imprimindo o mesmo ritmo aos fornecedores.7 Os resultados do modelo de produção de massa, positivos à primeira vista, manifestaram-se, inicialmente, na sociedade norte-americana. Nos anos 30, a produtividade das fábricas de automóveis de Ford era três vezes maior do que a de suas concorrentes inglesas, berço da Revolução Industrial. A linha de montagem do modelo T, por exemplo, o primeiro grande sucesso de Ford, com início em 1909, teve um salto de produção, nos primeiros cinco anos, de 17.771 carros para 202.667, atingindo 1,8 milhão de unidades no 11º ano. Simultaneamente, o preço final do produto, inicialmente de 950 dólares, caiu para 550 e, por fim, para 355 dólares.8 Com tal aumento no volume de produção, a Ford tornou-se grande empreendedora, de forma que, em 1914, empregava 14 mil operários,9 chegando a 200 mil nos anos 20.10 O aumento do salário de 2 para 5 dólares por dia concedido aos empregados da Ford representava uma estratégia da empresa com duplo propósito: estimular o consumo e reduzir o absenteísmo, que caiu em 85%, como meio de garantir o consumo e a produção de massa. Em contrapartida a esse aumento salarial, a empresa passou a estabelecer um nível de comportamento para os funcionários, que deveriam se enquadrar num modelo que Ford denominava de “hábitos saudáveis”. Estes contemplavam o uso adequado dos banheiros, a proibição do uso de bebidas alcoólicas, o estímulo à poupança e o cumprimento das responsabilidades com a família. De acordo com esse padrão de disciplina, os empregados eram enquadrados em categorias, cada qual com compromissos próprios. Por exemplo, os homens casados deveriam “viver em companhia de suas esposas e sustentá-las”; os solteiros, 7 TAPIA & VALENZUELA, 1995. COLEÇÃO DINHEIRO, 1998, p. 14. 9 Ibid., p. 19. 10 Ibid., p. 27. 8 impulso 157 nº26 6978_Impulso_26.book Page 158 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM maiores de 21 anos, deveriam “levar uma vida sã e decente”; e os rapazes e as moças mais jovens “deveriam ser o único arrimo de parente próximo”. Incluíam orientação moral aos empregados, para o que fora designado um padre.11 O automóvel, a maior inovação do período, imprimiu mudanças marcantes na vida norte-americana. Entre elas, a construção de rodovias, a abertura de avenidas largas e pavimentadas, a moderna sinalização de tráfego e a expansão do turismo.12 Um leque muito grande de oportunidades de negócio abriu-se, dando força ao capitalismo e expandindo o mercado de trabalho com uma vitalidade tal, que parecia interminável. Porém, a grande depressão dos anos 30 abalou o capitalismo. Na análise de Harvey,13 nela está a verdadeira razão do aumento salarial concedido por Ford, como um meio para estimular a demanda, fundamental para o escoamento da produção de sua fábrica. O clima de instabilidade, então instalado, perdurou até a primeira metade dos anos 40; após 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a indústria conheceu grande desenvolvimento nos seus vários setores – automobilístico, naval, de equipamentos de transporte, aço, petroquímica, borracha, eletrodomésticos e construção –, estimulando o crescimento econômico de vários países, notadamente Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, Japão e França. A reconstrução da Europa no pós-guerra, financiada em sua maior parte por capital norte-americano, deu início à expansão mantida a taxas elevadas até meados da década de 70, período em que teve início a reversão da curva, como mostram os dados expostos a seguir. Tabela 1. Taxas de crescimento econômico (1960-1985). PAÍSES 1960-1968 1968-1973 Japão Estados Unidos França Alemanha Ocidental 10,4% 4,4% 5,4% 4,1% 8,4% 3,2% 5,9% 4,9% 3,6% 2,4% 3,1% 2,3% 4,0% 2,5% 1,1% 1,3% 3,1% 3,2% 1,5% 1,2% Inglaterra 1973-1979 1979-1985 Fonte: Harvey (1992:126). Os dados da tabela constatam a pujança da economia japonesa nos quatro períodos analisados, acompanhada pela francesa, até o fim da década de 70. Os Estados Unidos, por sua vez, mantiveram taxas de 11 12 13 COLEÇÃO DINHEIRO, 1998, p. 19. Ibid., p. 21. HARVEY, 1992. dezembro 158 99 6978_Impulso_26.book Page 159 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM crescimento econômico moderadas se comparadas às do Japão, conservando a terceira colocação nos períodos 1960-1968 e 1973-1979. No qüinqüênio 1968-1973, perdeu uma posição quando sua taxa de crescimento econômico foi superada pela da Alemanha. No último dos períodos em análise, 1979-1985, os Estados Unidos assumiram a segunda colocação, perdendo apenas para o Japão, não por terem tido crescimento significativo, mas em função das baixas taxas de crescimento econômico dos demais países, pouco acima de 1%. A partir de 1973, a taxa média14 de crescimento desse conjunto de países, que atingira 5,5% no primeiro período e 5,1% no segundo, caiu para 2,6% e para 2,0% no terceiro e quarto, respectivamente. Houve retração de 64% nas taxas médias entre o primeiro e o último períodos. A maior queda nas taxas de crescimento15 foi registrada na França (80%), seguida pelas da Alemanha (68%), Japão (62%) e Inglaterra (61%). Os Estados Unidos apresentaram a menor queda na taxa de crescimento econômico (41%). Dessa forma, a relativa estabilidade das taxas de crescimento econômico dos Estados Unidos nos quatro períodos, embora projete o país no máximo em segundo lugar no período em análise, coloca-o em posição vantajosa com relação aos demais. O ano de 1973 aparece como o ponto de ruptura entre a fase de crescimento da economia mundial e a de instabilidade. Entre os fatores que mais concorreram para esse rompimento, foi o aumento dos preços do petróleo pela OPEP que, associado à decisão dos países árabes de embargar as exportações do petróleo para o Ocidente, provocou a conhecida crise energética e seus reflexos na economia mundial. As reações nos países ocidentais a essa alta de custos transformou a redução do consumo num propósito que desencadeou o desenvolvimento de inovações tecnológicas e a busca de fontes alternativas de energia. Nas organizacionais, o surto de mudanças instaurado desde então é igualmente fruto da mesma necessidade de redução de custos. Os investimentos passaram a ser revistos, pois o modelo de produção de massa que se apoiava na expectativa de manutenção de mercados estáveis e crescentes havia levado a uma imobilização maciça de capital. Igualmente, as relações de trabalho e os compromissos do Estado refletiam a estabilidade do sistema produtivo. Os contratos de trabalho por prazo indeterminado eram produto dessa estabilidade. Às tentativas de flexibilização introduzidas a partir da década de 70, os trabalhadores reagiram especialmente através dos movimentos 14 15 Média aritmética dos valores registrados em cada coluna. Resultado da diferença entre as taxas do último período (1979-1985) e do primeiro (1960-1968). impulso 159 nº26 6978_Impulso_26.book Page 160 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM grevistas. Da parte do Estado, a maior dificuldade consistia na manutenção dos programas sociais pelas vias normais, a não ser pela emissão de moeda, medida inflacionária que desencadeou um processo de destruição das próprias conquistas da força de trabalho obtidas no período de expansão pós-guerra.16 O fenômeno, entretanto, não se restringiu apenas aos aspectos econômicos. Outros fatores concorreram para a instabilidade do sistema. Igualmente importantes foram os movimentos sociais ocorridos no fim dos anos 60 e início dos anos 70, desencadeados pelos setores que se sentiram excluídos da esfera fordista e que passaram a reivindicar sua inserção no sistema. Esses grupos, chamados minoritários ou marginais, eram constituídos pelos grupos feministas, étnico-raciais e políticos. Entretanto, foram as variáveis econômicas que determinaram as mudanças nas organizações. Estas procuraram ajustar-se adotando estratégias baseadas na inovação tecnológica, na ampliação de mercados e em fusões de empresas, dando início, na história, a um período conturbado (anos 70 e 80) de reestruturação econômica e de reajustamento social e político. Em meio século, constatam-se no fordismo, que ascendera apoiado na expectativa de crescimento ininterrupto da produtividade do trabalhador, sinais de esgotamento. Novas metodologias passaram a ser desenvolvidas em substituição ao modelo taylorista/ fordista de produção. É no Japão que surge um novo modelo, a acumulação flexível,17 baseado em pressupostos que contrariam os do modelo fordista. AS DUAS FACES DO MODELO DE ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL O modelo de acumulação flexível, ou toyotismo, tem como princípio a flexibilidade, seja dos processos de trabalho, dos mercados, dos produtos ou dos padrões de consumo, originando padrões de desempenho e valores diferentes daqueles alimentados pelo modelo fordista. Nascido na Toyota, esse sistema originou-se da necessidade premente, no Japão, de produzir pequenas quantidades de produtos variados, como a única forma de enfrentar a situação caótica em que se encontrava o país recém-saído da Segunda Guerra Mundial. O toyotismo tornou-se referência de modelo de flexibilização por tratar-se de um sistema altamente competitivo baseado na diversificação, em con16 HARVEY, 1992. A acumulação flexível é um modelo de produção conhecido também como sistema Toyota, ou Ohnismo, em referência ao sobrenome do engenheiro que o desenvolveu, Ohno, ou ainda como produção enxuta. 17 dezembro 160 99 6978_Impulso_26.book Page 161 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM traposição ao fordismo, um modelo de produção em série, refratário a mudanças. Ao contrário do fordismo, gerador de unidades fabris concentradas e verticalizadas, o toyotismo idealizou uma nova metodologia de trabalho baseada na associação entre tecnologia e desconcentração produtiva, tomando como referência as pequenas e médias empresas.18 A indústria automobilística japonesa incorporou, assim, metodologias adotadas em outros setores. Comparando-se os dois modelos, o japonês e o norte-americano, tem-se que o segundo visa a redução de custos através da produção de grandes volumes de uma restrita variedade de itens, enquanto o modelo japonês visa bons preços para bens fabricados em pequenas quantidades de produtos diferentes. Sem se utilizar dos recursos de economia de escala e de padronização de produtos, os japoneses obtiveram ganhos expressivos a partir da introdução do conceito de investimento mínimo em estoques, materiais, equipamentos, espaço e em força de trabalho. Apóia-se também na flexibilização do trabalho, na organização do processo produtivo, de modo a obter um fluxo contínuo e coerente com a demanda. Para o modelo japonês, o mercado passa a ter um mecanismo de auto-regulação que reduz a possibilidade de superprodução.19 A origem da flexibilização dos processos produtivos está relacionada à introdução, na Toyota, da experiência desenvolvida no ramo têxtil japonês, em que o trabalhador operava duas máquinas simultaneamente, obtendo ganhos de produtividade significativos para aquele momento de crise financeira do pós-guerra. Paralelamente às mudanças no processo produtivo, o modelo incorporou técnicas de gestão utilizadas em supermercados norte-americanos, o que deu origem ao kanban,20 modelo em que a produção é determinada pela necessidade de reposição dos estoques. O emprego de tal modelo de produção visava a flexibilização da produção, tornando a empresa apta a atender ao mercado japonês que, em condições limitadas do pós-guerra, caracterizava-se por pedidos pequenos e diferenciados.21 Em resumo, toyotismo e fordismo diferenciam-se quanto a seus respectivos graus de flexibilização. Enquanto o primeiro tem em vista as exigências de um mercado instável e mais exigente quanto à qualidade, 18 ANTUNES, 1998. TAPIA & VALENZUELA, 1995. 20 A palavra japonesa kanban significa cartão, ficha. Como sistema de controle produção, o kanban prevê a eliminação dos estoques de produtos acabados ou de componentes utilizados no processo do produto ou na montagem, com vistas a trabalhar com estoque zero (RIBEIRO, 1984). 21 ANTUNES, 1998. 19 impulso 161 nº26 6978_Impulso_26.book Page 162 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM o segundo pressupõe a estabilidade do mercado e a padronização. O toyotismo rompe com a relação fordista de um homem para cada máquina, substitui o trabalhador especialista pelo multifuncional, polivalente, capaz de combinar as tarefas de acordo com as necessidades de cada pedido, ao passo que no fordismo a especialização do trabalhador decorre do desmembramento do trabalho em tarefas conforme orientações da administração científica. Contrapondo-se a essa rigidez, o toyotismo flexibiliza a organização do trabalho ao propor a atuação em equipes, formadas por pessoal polivalente, menos especializado, porém mais capacitado. O toyotismo define o homem como ponto central, de cujas habilidades depende a produtividade, enquanto no fordismo a ênfase é dada à máquina. Os modelos organizacionais decorrentes dos dois sistemas mostram-se, portanto, antagônicos. O fordismo, baseado na auto-suficiência, gerou empresas complexas e verticalizadas, já o toyotismo, rompendo com esse modelo, transferiu parte das tarefas produtivas para empresas subcontratadas, originando o outsourcing, processo que no Brasil recebeu o nome de terceirização. As empresas subcontratadas, por sua vez, para atender às exigências de manutenção de qualidade da empresa-cliente, foram forçadas a seguir os mesmos métodos de trabalho, difundindo o modelo para além da Toyota, isso porque técnicas como just-in-time, para darem os resultados esperados, dependem de colaboração em cadeia. Na origem dos avanços tecnológicos introduzidos pelo sistema Toyota nos processos produtivos está a necessidade de ajuste das máquinas objetivando torná-las adaptáveis a diferentes usos, projeto viabilizado pelo desenvolvimento da microeletrônica. O modelo de acumulação flexível apóia-se, portanto, na revolução tecnológica, caracterizada pela utilização do microprocessador e das interfaces eletrônicas do próprio processo produtivo.22 As máquinas-ferramentas de controle numérico são um exemplo da multifuncionalidade de que dispõem as indústrias atualmente. O sistema Toyota também introduziu modificações radicais nas relações no ambiente de trabalho. Os operários tomam parte nas decisões sobre a produção, o que pressupõe um outro nível de competência profissional, que vai além das habilidades rotineiras exigidas pelo sistema fordista. A flexibilidade exige profissionais polivalentes, aptos a identificar qualquer anormalidade durante o processo de fabricação e a interromper o fluxo produtivo para que o problema seja 22 VELAZQUEZ, s/d. dezembro 162 99 6978_Impulso_26.book Page 163 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM imediatamente resolvido. Essa é a base conceitual de controle de qualidade do toyotismo: identificar o problema no momento em que este surge, evitando perdas maiores. No modelo fordista, o controle de qualidade é realizado através da análise de amostras de produtos acabados, o que gera desperdícios de material e de horas trabalhadas. A liberdade de ação promovida pelo sistema de acumulação flexível pode ser interpretada como um meio de reintegração do homem ao ambiente de trabalho, recuperando parte das perdas impostas pela divisão do trabalho no modelo fordista/taylorista. Entretanto, o novo modelo, ao depender do aprimoramento contínuo do trabalhador, impõe à força de trabalho novas responsabilidades, das quais passa a depender seu emprego. Ao ser adotado pelas empresas ocidentais, o sistema japonês sofreu adaptações, transformando-se em um modelo híbrido que gerou efeitos negativos em função das novas condições de trabalho, da intensificação do ritmo de produção, dos horários de serviço prolongados, do enfraquecimento dos sindicatos e do clima de tensão criado entre empregados e empregadores. Na maioria dos casos, as empresas ocidentais não implantaram o modelo japonês em sua totalidade, descaracterizando a proposta original.23 Do ponto de vista dos ganhos empresariais, os resultados da adoção do sistema Toyota podem ser considerados positivos; entretanto, o modelo de “produção enxuta”, como é também conhecido no Ocidente, resultou em perdas significativas para a força de trabalho. No Japão, o sistema de acumulação flexível mostrou-se um modelo que permitiu a redução das diferenças entre os níveis hierárquicos, como afirma Velazques: “Tudo indica que não há divisão de trabalho entre operários e engenheiros, o que se observa nas pequenas diferenças salariais entre eles e nas possibilidades de promoção a longo prazo oferecidas aos operários”.24 Ao que tudo indica, a versão ocidental do modelo concentrou-se em um dos aspectos da proposta de flexibilização, a redução de custos. A análise a seguir focaliza os efeitos da produção enxuta no Ocidente e seus reflexos sociais. OS EFEITOS DA “PRODUÇÃO ENXUTA” NAS RELAÇÕES DE TRABALHO A onda de inovação tecnológica desencadeada pela necessidade de se buscar formas alternativas de redução de custos, aliada à capa23 24 VELAZQUEZ, s/d. Ibid., p. 5. impulso 163 nº26 6978_Impulso_26.book Page 164 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM cidade de auto-regulação do mercado, vem sendo apontada como causa dos elevados índices de desemprego na última década. A flexibilização da unidade fabril afetou profundamente as condições do mercado de trabalho que, desregulamentado e reestruturado, provocou o enfraquecimento dos organismos de representação: os sindicatos e os partidos. Aos poucos, os sindicatos foram substituindo sua posição ofensiva, característica da era fordista, por outra mais defensiva, em função das limitações em sua capacidade de ação impostas por um contexto que priorizou o direito ao trabalho. O sindicalismo de participação tomou o lugar do sindicalismo de classe, dada a impossibilidade de lutar pelo controle social da produção, como ocorrera nos anos 60 e 70. Os sindicatos passaram a assumir papel conciliador nas negociações entre as partes interessadas, empregador e empregados.25 Isso se deu porque as características do mercado de trabalho mudaram significativamente. Paralelamente ao desaparecimento dos postos de trabalho, multiplicou-se o número de vagas para trabalho parcial, temporário ou subcontratado. A segmentação do mercado de trabalho passou, então, a ser composta por três categorias, cujas características originaram-se da dinâmica imposta pelo modelo de acumulação flexível no Ocidente. A primeira delas corresponde ao “grupo central”, composta pelos trabalhadores formais, de número cada vez mais reduzido, mas que ainda conserva vínculo empregatício e goza de maior segurança no emprego, oportunidades de promoção e acesso a benefícios. Em contrapartida a essa aparente segurança, esses trabalhadores devem dispor de grande capacidade de adaptação e assimilação das mudanças exigidas pelo trabalho. A segunda categoria, mais periférica, é constituída por empregados igualmente dedicados a trabalho em tempo integral, portadores, porém, de habilidades facilmente disponíveis no mercado. São pessoas que desempenham trabalho rotineiro ou manual e menos especializado, com poucas possibilidades de ascensão na escala hierárquica organizacional. Finalmente, a terceira categoria é formada por trabalhadores em tempo parcial, contratados por prazo determinado ou ainda subcontratados. Das três categorias, essa é a que vem apresentando maior crescimento.26 No entanto, as perdas não estão restritas ao mercado de trabalho ocidental. Apesar das diferenças culturais entre as sociedades ocidental e oriental e da influência dessas culturas nos estilos de administração das empresas, a força de trabalho japonesa vem igualmente acumulan25 26 ANTUNES, 1998. HARVEY, 1992. dezembro 164 99 6978_Impulso_26.book Page 165 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM do perdas. O emprego vitalício, por exemplo, foi instituído no início dos anos 60, nas grandes corporações, com o objetivo de garantir a permanência dos trabalhadores na empresa para que a qualidade dos produtos e a produtividade pudessem ser mantidas. Esse instituto, na prática, beneficia atualmente apenas 30% dos trabalhadores japoneses, além de estar sendo revisto pela Organização Nacional das Empresas, devido à recessão que atingiu a economia japonesa a partir da segunda metade dos anos 90, com possibilidade de ser definitivamente abolido.27 A precarização das condições de trabalho é, portanto, de âmbito mundial. Além da difusão dos regimes de trabalho parcial e temporário, contribuíram para essa situação as reestruturações das organizações. O outsourcing, ou terceirização,28 é um exemplo de metodologia largamente adotada pelas empresas brasileiras a partir dos anos 80, cujo efeito maior foi a redução da média salarial,29 uma vez que a mão-de-obra, liberada no processo, ao ser absorvida pela empresa que passaria a assumir a prestação do serviço terceirizado via de regra recebe salários mais baixos. Na maior parte dos casos, os “terceiros”, como são chamados os novos fornecedores, são empresas menores, muitas vezes do setor de serviços, sem condições de manter os salários no nível pago pela empresa contratante.30 Por essas razões, o toyotismo passou a ser interpretado como um instrumento de intensificação da exploração do trabalho, uma vez que a responsabilidade do trabalhador foi aumentada sem uma contrapartida aos aumentos de produtividade obtidos, ao imprimir maior velocidade à produção e colocar mais que uma máquina sob o controle de um mesmo operário; ao incorporar técnicas de controle de qualidade que permitem a identificação e a imediata solução dos problemas durante o processo produtivo, reduzindo perdas e a necessidade de retrabalho; ao eliminar paradas desnecessárias na produção, promovendo a intensificação do ritmo de trabalho dos operários e do controle da direção fabril sobre os operários.31 Os efeitos negativos da flexibilização dos processos produtivos sobre o mercado de trabalho podem ser quantitativamente dimensionados pelos índices crescentes de desemprego na última década deste 27 ANTUNES, 1998. A expressão terceirização é tipicamente brasileira. 29 ANTUNES, 1998. 30 No Brasil, os processos de terceirização também sofreram adaptações que distorceram a proposta original, pela qual os novos fornecedores, os terceiros, deveriam ser encarados como parceiros da empresa contratante e por ela assessorados, de forma a manter o mesmo nível de qualidade dos produtos ou serviços prestados como condições de trabalho. 31 GOUNET, apud. ANTUNES, 1998. 28 impulso 165 nº26 6978_Impulso_26.book Page 166 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM século. No início dos anos 90, a revista Time já denunciava a onda de desemprego que surpreendia os Estados Unidos, fragilizava o mercado de trabalho e impunha perdas significativas aos trabalhadores norteamericanos. Estimava-se, na época, perdas financeiras aos trabalhadores da ordem de 47% por ocasião de recolocação, correspondentes a reduções salariais, perdas de benefícios e outras garantias. No mesmo período, aproximadamente 50% das grandes empresas norte-americanas estavam passando por processos de reestruturação, eliminando níveis hierárquicos, procurando moldar-se às exigências do mercado. As empresas haviam descoberto ganhos em substituir produção própria por aquisição de bens e serviços de empresas menores (outsourcing). Delineava-se, assim, um novo cenário para a iniciativa privada, com a predominância de pequenos negócios operando como fornecedores de empresas praticamente virtuais. No que se refere à mão-deobra, a expectativa era de tendência de transformação em força de trabalho temporária. Vislumbrava-se o fim do emprego “tipo casamento”,32 prognósticos que se confirmaram ao longo da década. Além dos prejuízos financeiros, os analistas apontavam os danos psicológicos causados pelas mudanças. Alertavam para o choque a que se submeteriam os profissionais egressos das grandes corporações, obrigados a adaptar-se às novas condições do mercado de trabalho e a ajustar-se às novas situações oferecidas pelas pequenas e médias empresas. Acostumados a estruturas sofisticadas, deveriam agora executar serviços operacionais com os quais não estavam familiarizados e que não dominavam, já que não podiam contar com o suporte de secretárias, equipes de vendedores e outros recursos disponíveis nas grandes empresas.33 Para uma força de trabalho que havia conhecido os benefícios do pleno emprego, como a norte-americana, era difícil admitir a perda até mesmo da liberdade de escolher o empregador. Nesse período, empresas japonesas como a Toyota, a Honda e a Nissan instalavam-se nos Estados Unidos, transformando-se em grandes empregadoras, exigindo do trabalhador norte-americano um duplo ajuste: ao novo sistema de produção e ao cultural. Entre as décadas de 70 e 80, o número de pessoas vinculadas a empregos em tempo integral já havia reduzido significativamente. Nas 500 maiores empresas elencadas pela revista Fortune, a participação dos trabalhadores full-time era de 10% da força de trabalho norte32 33 CHURCH, 1993. Ibid. dezembro 166 99 6978_Impulso_26.book Page 167 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM americana dos anos 80, ao passo que, na década anterior, atingira 19%. O emprego de trabalhadores temporários tornou-se uma estratégia lucrativa, pois permitia à empresa manter a capacidade competitiva sem necessidade de cumprir exigências trabalhistas nem gastos com planos de saúde e de pensão. No início dos anos 90, a maior empregadora norte-americana possuía 560.000 funcionários. Tratava-se de uma agência de trabalhadores temporários.34 A força de trabalho havia, então, se transformado em sinônimo de custos para as empresas e, dada a difusão dessa nova modalidade de contratação, estima-se que até o fim deste século a parcela dos trabalhadores em regime parcial deva ultrapassar a dos trabalhadores em regime integral. Para a maioria dos empresários, essa é uma tendência irreversível, e ao mesmo tempo fundamental, para a sobrevivência das empresas, que, para tal, necessitam de autonomia para expandir e retrair sua força de trabalho de acordo com as necessidades dos negócios. Há dúvidas, porém, quanto à eficácia de tal modelo a longo prazo, considerando que o esforço para livrar-se do trabalhador full-time pode ser tão negativo para o empregador quanto para o empregado. O aprofundamento do movimento de globalização econômica tem mostrado que tanto o capital como a produção são realmente “portáteis” e, não havendo fixação de capital, as nações se tornam vulneráveis a expectativas alheias e sua capacidade de superação passa a depender em grande parte das habilidades e da capacidade intelectual de seu povo. É nesse ponto que se inserem os programas de atualização e treinamento como instrumentos de desenvolvimento intelectual, fundamental para o fortalecimento da força de trabalho dos países menos desenvolvidos. O DISCURSO DA EMPREGABILIDADE A crise do mercado de trabalho no Brasil pode ser medida pela participação da economia na absorção da força de trabalho, que, segundo Pastore,35 retém 57% da PEA. Uma grande parcela desses trabalhadores é fruto da reestruturação do mercado de trabalho que provocou o deslocamento dessa massa de trabalhadores do setor formal para a economia informal. Se a recolocação no mercado formal é difícil, dentro do mesmo setor é uma luta ainda mais árdua. Apesar da indisponibilidade de dados sobre a recolocação dos desempregados no mesmo setor de onde saíram, sabe-se que esse índice é muito baixo, 34 35 CASTRO, 1993, p. 40. PASTORE, 1998, p. 251. impulso 167 nº26 6978_Impulso_26.book Page 168 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM motivo pelo qual o trabalhador se sente forçado a aceitar qualquer tipo de atividade que lhe seja oferecido. No setor de bebidas, por exemplo, a recolocação é de apenas 26% e, no referente às montadoras de veículos, o índice é de 7%.36 O baixo nível da educação básica no Brasil e o avanço tecnológico contribuem em parte para essa situação, uma vez que o conhecimento é componente básico da capacidade de adaptação do profissional a um novo setor. Caso contrário, o trabalhador é forçado a procurar algum tipo de ocupação na economia informal. A medir pelo nível médio de escolaridade do brasileiro – em torno de quatro anos –, a tendência é de agravamento dessa situação, mormente porque as indústrias em expansão no momento são as tecnologicamente mais avançadas, cujas exigências, em matéria de educação, são cada vez maiores. É nesse contexto que se insere o debate sobre a empregabilidade, expressão aqui utilizada com o sentido de capacidade intelectual desenvolvida e necessária para que a pessoa consiga manter-se profissionalmente preparada para enfrentar novos desafios, aprendendo e desaprendendo a velocidades cada vez maiores.37 O termo empregabilidade pode ser também equiparado à “estrutura de competências que irá permitir a qualquer indivíduo assalariado manter-se no emprego, qualquer que seja a empresa na qual tal emprego encontre expressão”.38 Nesse sentido, pode ser também desenvolvida dentro do próprio ambiente de trabalho, ainda que sem garantia de manter o emprego. A empresa, pressionada pelas mudanças do ambiente externo globalizado, introduz modificações estratégicas, interrompe programas de treinamento e dispensa trabalhadores nos quais haviam investido. Como ao longo do tempo os vínculos entre empresas e trabalhadores tornaram-se cada vez mais sutis, desenvolveu-se um outro conceito de empregabilidade baseado na concepção de autogerenciamento profissional,39 e é nesse ponto que algumas opiniões divergem. Para uma corrente, com cujas idéias comunga Vaz Musa,40 cabe à empresa a responsabilidade pelo treinamento dos empregados por tratarse de preparação profissional para o exercício de tarefas na própria organização, enquanto compete ao Estado garantir educação básica de boa qualidade, base para um bom desenvolvimento profissional. 36 37 38 39 40 PASTORE, 1998, p. 15. GRUBISICH, in CASALI, 1997. MINVIELLE, in CASALI, 1997, p. 179. Ibid. VAZ MUSA, in CASALI, 1997. dezembro 168 99 6978_Impulso_26.book Page 169 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Ocorre, porém, que o discurso da empregabilidade vem sendo empregado com um tom que transfere ao desempregado a culpa pela perda do emprego. A empregabilidade não deve, pois, ser acatada passivamente como alternativa única ao desemprego sem que se tenha claro a competência necessária, para que e para quem, em particular se for levada em consideração a baixa expectativa de se conseguir emprego num mercado em que predomina a tendência de redução dos postos de trabalho, de empregos em tempo parcial e do trabalho sem vínculo empregatício. Uma outra barreira ao discurso da empregabilidade, ainda que no sentido de preparo real da força de trabalho, reside no nível do ensino brasileiro. Entre as críticas ao sistema de ensino nacional destacase a posição de Izquierdo,41 que chama a atenção para a defasagem entre o que se ensina na escola e a realidade vivenciada pelo aluno. O ensino deve contemplar as habilidades exigidas para que o aluno se torne um profissional em potencial. Frigotto,42 por sua vez, classifica essa visão de utilitarista por reforçar a influência fordista/taylorista, produzindo um ensino destinado à formação de valores, atitudes e desenvolvimento de habilidades e conhecimentos necessários ao “capital humano”. Uma proposta alternativa é apresentada por Casali,43 segundo a qual o projeto de empregabilidade não pode ficar restrito a um simples treinamento voltado às necessidades da empresa, mas sim assumir características de construção coletiva, envolvendo o governo, os sindicatos e instituições da sociedade civil. CONCLUSÃO O papel das empresas está diretamente ligado ao desenvolvimento da sociedade; deve-se admitir, entretanto, que nas últimas décadas elas vêm abandonando um dos pilares de sustentação de seu compromisso social (a geração de empregos), em defesa de interesses próprios, em detrimento dos legítimos direitos da sociedade. Ao condicionarem os empregos à qualificação dos trabalhadores, as empresas demonstram uma posição contraditória, visto que a redução das oportunidades de trabalho resulta de suas próprias estratégias. Desenvolveram modelos de produção ao longo deste século que evoluíram da rigidez para a flexibilidade. 41 42 43 IZQUIERDO, in CASALI, 1997. FRIGOTTO, in CASALI, 1997. CASALI, 1997. impulso 169 nº26 6978_Impulso_26.book Page 170 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Acompanhando essa evolução, o mundo do trabalho, que chegou a conhecer período de pleno emprego nos países industrializados, convive hoje em dia com precarização das condições de trabalho. Igualmente, a mesma força de trabalho, que na primeira metade do século mobilizou-se e conquistou benefícios trabalhistas, atualmente, tendo perdido seu poder de barganha, fragilizada, luta apenas pela manutenção dos empregos. Nesse novo cenário, entre as alternativas de solução para os problemas do desemprego, aponta-se para um projeto no qual as empresas aparecem não apenas como usuárias da força de trabalho, mas também como agentes ativas do processo de formação de mão-deobra. A proposta trabalha com a idéia de uma participação conjunta, envolvendo empresas, governo, sindicatos e trabalhadores, partindo do pressuposto que a empregabilidade somente será possível com o envolvimento de todas as partes interessadas. Trabalha com uma concepção de empregabilidade no sentido de preparo das pessoas para o mercado de trabalho dentro de uma concepção de cidadania. Compete às empresas contribuir para a elevação da qualificação da força de trabalho e, ao mesmo tempo, adotar estratégias voltadas para a manutenção dos postos de trabalho. Do governo espera-se o desenvolvimento de políticas públicas voltadas tanto para a melhoria da qualidade do ensino, ao qual todos devem ter acesso, como para o incentivo a investimentos geradores de oportunidades de trabalho. Aos sindicatos compete o papel de mediadores do diálogo entre a força de trabalho, as empresas e o governo, procurando desenvolver uma relação que não necessariamente resulte no enfraquecimento de sua posição e em perdas para os seus representados. Nesse sentido, aponta-se no horizonte a compreensão de que o envolvimento de todos no sentido de promover o aprimoramento do conhecimento da força de trabalho e a garantia de oportunidades de trabalho, qualquer que seja a forma assumida, deve ser interpretado como investimento, e não como custo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, R. Adeus ao Trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 5ª ed. São Paulo/Campinas: Cortez/Editora da Unicamp, 1998. CASALI, A. et al. 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Nesse contexto histórico, expõe a evolução do Curso de Administração da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), apresentando a interação de seus agentes, em particular lideranças acadêmicas, alunos e professores, no processo de atualização do curso, e adaptação do perfil do futuro profissional às exigências da sociedade, em conformidade com a política acadêmica da UNIMEP. Tratando a realidade presente, analisa ainda as alterações na atual estrutura do curso e o acúmulo de discussão que se tem até esse momento com relação ao papel do administrador e de seu perfil para atuação diante das inovações históricas nacionais. Palavras-chave: administração – ensino – curso – perfil profissional – currículo. ABSTRACT – What is the ideal profile of a manager? How are the course objectives defined in order to reflect the Academic Policy of its Institution? Primarily, how can this be done while still guaranteeing the formation of a competent professional? This essay first discusses the history of the teaching of Administration in Brazil, from the beginning to the most recent innovations promoted by the Education Ministry, such the National Examination of Courses (ENC), in an attempt to identify the manager’s profile. In this historical context, the evolution of the course impulso 173 nº26 NÁDIA KASSOUF PIZZINATTO Doutora em Administração, área de Marketing, professora da UNIMEP e consultora do Ministério da Educação na área de Administração. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 174 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM taught at the Methodist University of Piracicaba (UNIMEP) is presented, showing the interaction among its agents, principally academic leaders, students and professors in the course modernization process and the adaptation of the professional profile to societal requirements. Dealing with the present reality, the changes in the actual structure of the course are analyzed along with the discussions that have taken place up to this time about the manager’s role and profile for work within the national and historical innovations. Keywords: administration – teaching (instruction, education) – course – professional profile – curriculum. A INTRODUÇÃO formação universitária é um processo complexo que exige pesquisas constantes para definir, primeiramente, as características ideais do perfil de um profissional e, em seguida, a composição curricular adequada a essa formação. Nesse processo, interagem – ou pelo menos deveriam interagir – lideranças acadêmicas institucionais, representações estudantis, docentes do mercado de trabalho e associações de classe, tendo como referências as definições legais mínimas do curso em questão, a visão e a missão da instituição superior de ensino, refletidas em sua política acadêmica. Todos esses fatores levam à formulação dos objetivos do curso, concretizados em sua grade curricular e demais atividades extra-curriculares de seu projeto pedagógico. No caso específico do curso de administração, no Brasil, a discussão sobre o perfil do profissional passou por várias etapas, exigindo das instituições de ensino superior adaptações constantes, em especial porque o egresso desse curso atua em cenários em constantes mutações. Este estudo relata a inserção do curso de administração no cenário brasileiro diante das diversas definições do perfil do administrador historicamente definidas, e analisa a questão do Curso de Administação da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) nesse processo, apresentando a interação de suas lideranças acadêmicas na discussão sobre o perfil do administrador desejado e as alterações curriculares realizadas. HISTORICIDADE DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL E O PERFIL DO ADMINISTRADOR Pode-se apontar a Fundação Getúlio Vargas, criada em 1954, como a pioneira, enquanto instituição de ensino superior, na criação dezembro 174 99 6978_Impulso_26.book Page 175 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM do primeiro currículo especializado em administração, tanto pública – através da Escola de Administração Pública (EBAP/FGV- 1952) – quanto de empresas: Escola de Administração de Empresas de São Paulo (eaESP/FGV, 1954). Antes disso, “estudos sistemáticos de administração no Brasil” ocorriam desde 1930, com a fundação do Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) e do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), em 1931.1 O governo prestigiou a administração pública ao criar, em 1938, o Departamento Administrativo do Serviço Público (dasp), com sua Escola de Serviço Público formando técnicos de administração, que eram enviados para a busca do aperfeiçoamento no exterior.2 A FEA/USP (Faculdades de Economia e Administração) surgiu em 1946, com o objetivo de “formar funcionários para os grandes estabelecimentos de administração pública e privada”.3 Desde essa época, até a década de 40, com o processo de industrialização, iniciou-se o delineamento do perfil do administrador profissional no Brasil. Segundo Martins, o desenvolvimento de uma sociedade, até então basicamente agrária que passava gradativamente a ter seu pólo dinâmico na industrialização, colocou como problema a formação de pessoal especializado para analisar e planificar as mudanças econômicas que estavam ocorrendo, assim como incentivar a criação de centros de investigação vinculados à análise de temas econômicos e administrativos.4 O pioneiro curso da Fundação Getúlio Vargas nos anos 50 teve sua primeira turma formada em 1958. Esse currículo especializado em administração tinha forte influência americana, dado que a FGV firmara, para concretizar a criação dos cursos, convênio com a USAID (Desenvolvimento Internacional do Governo dos Estados Unidos) e a Universidade Estadual de Michigan.5 A ampliação dos cursos de graduação em administração está vinculada a uma idéia de desenvolvimento econômico pertinente àquele contexto histórico que se insere na contradição entre um projeto nacional e a formação monopolista do capital.6 1 2 3 4 5 6 HENRIQUE, 1993. DOCUMENTA, 1993, p. 289. ANDRADE, 1997, pp. 19-20. MARTINS, in ANDRADE, 1997, p. 16. ANDRADE, 1997, p. 19. COVRE, 1990, p. 65. impulso 175 nº26 6978_Impulso_26.book Page 176 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM O perfil do profissional da administração, bem como a definição legal dos seus direitos, prerrogativas e deveres, foram especificados no artigo 3º da Lei 4.769, de 09/09/65, como compreendendo: a) elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, arbitragens e laudos, em que se exija a explicação de conhecimentos inerentes às técnicas da organização; b) pesquisas, estudos, análises, interpretação, planejamento, implantação, coordenação e controle dos trabalhos nos campos de administração e seleção de pessoal, organização, análise, métodos e programas de trabalho, orçamento, administração de materiais e financeira, relações públicas, administração mercadológica, administração da produção, relações industriais, bem como outros campos em que estes se desdobrem ou com os quais sejam conexos; c) exercício de funções e cargos de Técnicos de Administração do Serviço Público Federal, Estadual, Municipal, Autárquico, Sociedades de Economia Mista, empresa estatal, paraestatal e privada, em que fique expresso e declarado o título do cargo abrangido; d) o exercício de funções de chefia ou direção, intermediária ou superior, assessoramento e consultoria em órgãos, ou seus compartimentos, da Administração Pública ou de entidades privadas, cujas atribuições envolvam principalmente a aplicação de conhecimentos inerentes às técnicas de administração; e) o magistério em matérias técnicas do campo de administração e organização.7 A fixação do currículo mínimo do curso de graduação em administração pelo Conselho Federal da Educação (CFE) ocorreu mediante Parecer 307/66. Por ele foi definido o núcleo de matérias considerado o mínimo indispensável para uma adequada formação profissional: matemática, estatítica, contabilidade, teoria econômica, economia brasileira, psicologia aplicada à administração, sociologia aplicada à administração, instituições de direito público e privado (incluindo noções de ética administrativa), legislação social, legislação tributária, teoria geral da administração, administração financeira e orçamento, administração de pessoal, administração de material.8 Na época, o aluno poderia também optar entre direito administrativo, administração da produção e administração de vendas, sendo7 8 PIZZINATTO, 1986, pp. 5-6. CONSELHO FEDERAL DE ADMINISTRAÇÃO, 1993, p. 289. dezembro 176 99 6978_Impulso_26.book Page 177 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM lhe, ainda, exigido um estágio supervisionado de seis meses.9 Na visão de Andrade, “o surto de ensino superior, e em especial o de administração, é fruto da relação que existe, de forma orgânica, entre esta expansão, e o tipo de desenvolvimento econômico adotado após 1964, calcado na tendência para a grande empresa”.10 A década de 70 pautou-se pela expansão dos cursos do ensino superior, e a administração ocupou lugar especial em tal processo, pois se caracteriza como um dos cursos que mais cresceu na época. “No período de 1969/74, enquanto as matrículas totais nos cursos superiores cresceram de 162%, as do curso de Administração, Economia e Ciências afins, no Estado de São Paulo aumentavam em 372%.”11 Por ocasião da fixação do currículo mínimo do curso, a carga horária mínima estabelecida era de 2.700 horas e o formando na área denominava-se técnico em administração. Havia muita prevenção de todos os que atuavam na área com relação ao título que o diploma de graduação outorgava. O Conselho Federal de Administração iniciou movimento no sentido de obter sua substituição pelo título de “administrador “, o que ocorreu em 13/06/85, através da Lei 7.321, a qual, entretanto, não alterou seu “campo e a atividade profissional”. O modelo de desenvolvimento do período de 1969/74 apontava para a necessidade do administrador enquanto profissional gestor do capital. Para a autora, o crescimento das matrículas, nessa época, manteve-se de forma contínua em virtude de um mercado de trabalho em expansão, caracterizado pela necessidade de profissionais que pudessem enfrentar a realidade da expansão das empresas e seu conseqüente processo de centralização e burocratização. (...) o destaque do administrador, como tecnólogo solicitado por excelência, que se realizaria não só pelas oportunidades reais de emprego, mas também pelas necessidades específicas que são colocadas no contexto sócio-econômico-político do Capitalismo Monopolista, requerendo técnicos que lidem com áreas fundamentais do mecanismo de sua manutenção, tais como finanças e marketing.12 Ciente de que a administração é implementada em uma realidade social abrangente e em permanente mutação, a Secretaria de Educação Superior (SESU), do MEC, constituiu em 1982 um grupo de tra9 ANDRADE, 1997, p. 22. Ibid., p. 17. 11 COVRE, 1990, p. 82. 12 Ibid., p. 84. 10 impulso 177 nº26 6978_Impulso_26.book Page 178 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM balho “com o propósito de produzir um anteprojeto de Reformulação Curricular dos Cursos de Administração e submetê-lo à avaliação crítica de universidades, faculdades, associações de profissionais e segmentos outros da área de Administração”.13 Nesse processo, houve a participação do Conselho Federal de Administração, que realizou seminário nacional de 28 a 31 de outubro de 1991, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o objetivo não somente de definir novo currículo mínimo para o curso, mas sobretudo de difundir, entre as instituições de ensino superior, a importância do currículo pleno, tanto no atendimento às necessidades do mercado de trabalho, como também para “mudar seu enfoque de solucionador de problemas, reprodutor das forças produtivas e das relações sociais, para promotor de novas relações produtivas e sociais.”14 Mesmo do ponto de vista da história dos cursos de administração revelaram-se concepções múltiplas sobre a atuação do profissional de administração. As posições, expostas em reportagens e entrevistas, variavam desde os que afirmavam que, “ao se interessar mais por Durkheim que por Morita, as escolas do ramo se esquecem de que devem formar não sociólogos, mas gerentes”, até aqueles que defendiam a carga horária de ensino de disciplinas da área de humanas (como o prof. Marcos Cintra, então diretor da EAESP/FGV), com larga utilização de textos de teóricos como Marx, Weber e Keynes, justificando: “um bom administrador tem de estar aberto e conhecer todas as correntes de pensamento” para “gerenciar conflitos dentro de sua empresa e entender o que acontece na sociedade”. Com outras preocupações, o prof. Alexander Berndt (então chefe do Departamento de Administração da FEA-USP), conclamava ao combate “à visão utilitária”, completando: “não nos interessa criar executivos tipo Charles Chaplin, mas sim gente que pense”.15 A preocupação com a qualidade mobilizou diversas instituições: “a ANGRAD – Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração – e o CFA – Conselho Federal de Administração/ENC – trabalharam conjuntamente para a aprovação do novo currículo mínimo de Administração”.16 A Resolução 02/93 sintetizou o resultado de todo o debate, definindo cargas horárias para categorias de conhecimentos: a) formação básica e instrumental – 720 horas, ou 24% do currículo; 13 14 15 16 CONSELHO FEDERAL DE ADMINISTRAÇÃO, 1993, p. 290. Ibid., p. 291. REVISTA EXAME, 1990. ANDRADE, 1997, p. 25. dezembro 178 99 6978_Impulso_26.book Page 179 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM b) formação profissional – 1.020 horas, ou 34% da duração integral do curso; c) complementares – 960 horas, ou 32% da duração total do curso; d) atividades de estágio supervisionado – 300 horas, ou 10% da duração do curso, que deverá integraliza 3 mil horas. A proposta teve como maior mérito a disponibilização de espaço para adequações curriculares às necessidades regionais, através da formação complementar e do estágio supervisionado, estimulando as instituições à “proposição de novas habilitações, algumas delas, talvez, já reclamadas hoje pela fecunda área de Administração”.17 As instituições de ensino de graduação tiveram até janeiro de 1995 para adequarem a oferta das disciplinas de seus cursos, efetuando, assim, a implantação do perfil do novo currículo, aprovado pela Resolução 02/93. Hoje em dia as universidades têm maior autonomia na definição de seus currículos, o que lhes coloca o desafio de definir o perfil do profissional que, ao mesmo tempo, atenda aos anseios da utopia institucional e encontre colocação no mercado de trabalho. A pesquisa “Perfil e habilidades do administrador” (PHAD), realizada pela ANGRAD em 1996, ouviu cem coordenadores de cursos, entre os vinculados à Associação. Os conceitos mais citados foram os ligados a: a) visão global e humanística: para tomar decisões num mundo diversificado e interdependente; b) formação técnica: em administração, tanto de aspecto técnico quanto científico e prático; c) ética: internalizando valores de responsabilidade social, justiça e ética profissional; d) empreendedorismo: no sentido de antecipar e promover transformações; e) aperfeiçoamento profissional: necessidade de estudo contínuo; f) interdisciplinariedade: visão abrangente na formação do profissional, dado o amplo mercado de atuação. Para atingir esse perfil, os coordenadores ouvidos na Pesquisa PHAD/96 ANGRAD identificaram algumas habilidades, tidas como necessárias ao profissional, tais como: a) compreensão do todo: visão sistêmica e holística; 17 CONSELHO FEDERAL DE ADMINISTRAÇÃO, 1993, p. 294. impulso 179 nº26 6978_Impulso_26.book Page 180 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM b) espírito crítico: uso de raciocínio lógico e analítico na análise de problemas e tomada de decisões; c) comunicação: interpessoal, tanto escrita quanto verbal; f) flexibilidade: para adaptação a situações inesperadas; g) estratégias adequadas: habilidade de seleção das estratégias que mais atendam a interesses interpessoais e institucionais; h) capacidade de decisão: saber decidir entre estratégias alternativas, através da identificação e dimensionamento de riscos; i) inovação: para proposição de modelos de gestão inovadores, o que aponta para outra habilidade necessária, a criatividade; l) interação: buscando formas de atuação em prol de objetivos comuns, o que também leva a outra habilidade, capacidade de trabalho em equipe. A última influência ambiental de peso que atingiu as instituições de ensino de administração foi a inclusão dessa área de saber entre aquelas cujos formandos deveriam ser submetidos ao Exame Nacional de Cursos (ENC) – popularmente denominado Provão –, em 1996, como parte do processo de avaliação do ensino superior no Brasil. Fonte de controvérsias, o ENC foi criado em 24 de novembro de 1995, pela Lei 9.131, aprovada no Congresso Nacional e regulamentada pela Portaria 249, de 18 de março de 1996. O Provão, entretanto, não é o único sistema para avaliar as instituições de ensino superior: desde dezembro de 1993, foi lançado também pela SESU o Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (PAIUB), sistema de avaliação interna e externa para desenvolver uma “cultura de avaliação” a partir de um processo contínuo e sistemático de aprimoramento da qualidade de ensino.18 Assim, o ENC ainda é um instrumento de avaliação do processo do ensino-aprendizagem ligado ao aluno, em fase de aperfeiçoamento, complementado por verificações das condições de oferta dos cursos, pelas instituições de ensino de graduação em administração, realizadas por comissões de especialistas designadas pelo Ministério da Educação especificamente para esse fim. A primeira experiência do ENC ocorreu em 10 de novembro de 1996, prestando o exame alunos de administração, direito e engenharia civil que se formaram no segundo semestre desse ano. A prova realizou-se novamente em 1997 e 1998, em nível nacional, avaliando todos os formandos dos cursos de graduação em administração do país. 18 MEC, 1996. dezembro 180 99 6978_Impulso_26.book Page 181 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM O CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIMEP Enfocando agora a realidade específica do Curso de Administração da UNIMEP implantado em 1964, em plena efervescência política: “(...) foi exatamente a 1º de abril de 1964, quando as interrogações começavam a ser lançadas sobre o que representaria a movimentação dos militares do país, que teve início a história da primeira turma dos cursos superiores do Instituto Educacional Piracicabano”.19 O curso recebeu autorização formal pelo Decreto 66.054 do CFE, de 13/01/70; entretanto, o reconhecimento final do CFE somente viria em 04/12/72, publicado na Documenta do MEC como processo 265/72. O curso funcionou inicialmente vinculado à Faculdade de Economia, Contabilidade e Administração de Empresas (ECA) do Instituto Educacional Piracicabano. Os três primeiros anos do currículo eram comuns, havendo a diferenciação apenas no último ano. A experiência prática do alunado junto às organizações ocorria sem a interferência da instituição, bastando que o aluno trouxesse um documento declarando haver realizado estágio em determinada organização. O estágio foi regulamentado como disciplina constante de currículo apenas em 27 de novembro de 1979. Inicialmente com um único professor responsável pela orientação a todos os discentes (prof. Dorgival Henrique), a atividade foi sofrendo diversos aperfeiçoamentos com a definição de áreas: marketing, recursos humanos, finanças, produção e materiais, com professores orientadores em cada uma delas e a função de supervisão assumida pela profª. Dalila Alves Correia, dando os rumos da atividade. O Curso de Administração passou por algumas alterações curriculares, no intuito de dar-lhe características próprias, já que, antes do primeiro reajuste curricular, ocorrido em 1981, a área de administração propriamente dita participava com apenas 20,2% de sua carga horária.20 As intervenções curriculares efetuadas na oferta de disciplinas do Curso foram reflexo não apenas de imposições legais do Ministério da Educação, como também fruto de debates internos sobre o perfil do profissional que se pretendia formar na Universidade, gerados em primeiro lugar no Colegiado do Departamento de Administração, em seguida pelo Colegiado de Curso (cujo regulamento foi aprovado pelo Conselho de Coordenação do Ensino, Pesquisa e Extensão em 30/11/ 19 20 ACONTECE, 1994. PIZZINATTO, 1986. impulso 181 nº26 6978_Impulso_26.book Page 182 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM 81) e, por fim, norteados pela Política Acadêmica da Universidade Metodista de Piracicaba, em 1992. O plano da primeira Reforma Curricular do Curso, aprovada pelo Conselho de Coordenação do Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) em 1986, discutia o perfil do profissional que se deveria atingir com a proposta curricular encaminhada aos órgãos colegiados, e considerava: a) o Ofício Circular do Ministério da Educação e Cultura e do Conselho Federal da Educação de número 001.783/84, através do qual se buscava “coletar posições das Instituições a respeito da Reforma Curricular em Estudos” pelo Grupo de Trabalho instituído pelo MEC em 1982; b) as posições do prof. Moura Castro: o técnico, o assessor, de um lado, e, de outro, o tomador de decisões (decision maker); c) as habilidades propostas por Katz & Khan para o administrador – humana, conceitual, técnica. O documento finalizava sugerindo o perfil do profissional de administração da, já então, Universidade Metodista de Piracicaba como: O Administrador é um profissional comprometido com as mudanças sociais, em função do que deve ter uma formação humana que lhe dê capacidade de dirigir, motivar, coordenar seus colaboradores, enfim, de trabalhar em equipe, na tarefa de adaptar a empresa às exigências de uma sociedade em constante mutação. Nesse trabalho de adaptação necessita utilizar conhecimentos técnicos diversificados em Administração, encarando a empresa sob uma visão sistêmica, isto é, reconhecendo a interdependência estrutural dos seus vários departamentos, bem como agindo no inter-relacionamento empresa X meio ambiente, o que exige capacidade estratégica de enfrentar situações complexas e tomar decisões adequadas.21 Os debates não se encerraram com a aprovação da Reforma Curricular. Em 1988, o coordenador do curso (prof. Roberto Tayar) propunha a discussão do processo de ensino-aprendizagem considerando: a filosofia do curso, o perfil profissional do administrador, os reflexos da filosofia e do perfil nas disciplinas e no relacionamento docente/discente, bem como o quadro curricular do curso. Lembrava, então, o perfil aprovado em 1986, acrescentando que “o administrador é um profissional que age para mudar. Não existe administração e nem administrador para manter as coisas como estão”. Afirmava que 21 PIZZINATTO, 1986. dezembro 182 99 6978_Impulso_26.book Page 183 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM essa mudança deveria ocorrer “no sentido do seu compromisso com os interesses comunitários”.22 Foram realizadas reuniões com Conselhos de Classe e identificados vários pontos como influentes na qualidade do processo de ensino: o grande número de alunos em sala, o autoritarismo por parte de alguns professores, a conceituação destoante, por parte de professores e alunos, do “entendimento do que seja teoria e prática”, a metodologia utilizada, enfatizando o monólogo docente e impedindo o diálogo com o discente, reforçando, por fim, o posicionamento de 1988: Os alunos em sua maioria não entendem que a realidade para o trabalho administrativo é um referencial e não um modelo a ser seguido. A postura do Administrador deve partir da realidade para mudá-la e não para dar continuidade a ela.23 Criticava “toda uma visão corporativa e por isso mesmo fragmentada e embasada em conhecimentos especializados”, em que “seu charme era a eficiência”.24 Desde então podia-se perceber que as lideranças acadêmicas e docentes do Curso de Administração da UNIMEP já constatavam a necessidade de se aprofundar o debate sobre a função do administrador e o tipo de profissional que a Universidade poderia formar, tanto no sentido de sua contribuição para a sociedade, como também no que concerne à sua competência para sobrevivência no mercado. Inicialmente o curso era oferecido apenas no período noturno; entretanto, em julho de 1992, foi oferecida a primeira turma no período matutino, o que ampliou o potencial do curso e, em conseqüência, sua complexidade. Nesse mesmo ano, em 9 de setembro, o Curso de Administração requereu sua filiação junto à ANGRAD, entidade sediada em São Paulo, com a missão de contribuir para a melhoria da qualidade do ensino da administração no país. A divulgação externa do Curso de Administração da UNIMEP passou a acontecer não só pela representação docente nos encontros nacionais e regionais da ANGRAD – identificados, respectivamente, pelas siglas ENANGRAD e EPANGRAD –, como também pela apresentação de trabalhos de docentes do curso nesses eventos e pela organização, na UNIMEP, de tais encontros. Em 1993, ocorreu o III EPANGRAD – Encontro Paulista dos Cursos de Graduação em Adminis22 23 24 TAYAR, 1988. Ibid., 1990a. Ibid., 1990. impulso 183 nº26 6978_Impulso_26.book Page 184 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tração – e, em setembro de 1994, o V ENANGRAD (Encontro Nacional dos Cursos de Graduação em Administração), congregando 175 participantes, representando instituições de todas as partes do país. Em trabalho preparado para apresentação no II EPANGRAD, na PUC-Campinas, o prof. Dorgival Henrique alertava para a necessidade de se “construir um Projeto Pedagógico” que levasse as disciplinas do curso a trabalhar “com dupla competência: a profissional propriamente dita (docente especializado numa área de saber, nas exigências do mercado etc.) e a “competência crítica”, que ultrapassasse o paradigma funcionalista e a idolatria do mercado”. Começava a repercussão externa da preocupação com a dupla competência, tão discutida no âmbito da comunidade universitária unimepiana.25 O perfil do estágio supervisionado também foi divulgado em nível nacional, no III ENANGRAD, ocorrido em Belo Horizonte (29/08/92), quando as profas. Nadia K. Pizzinatto e Dalila A. Correa apresentaram trabalhos a respeito. Da mesma forma, estratégias de ensino-aprendizagem utilizadas no curso, na disciplina Administração Mercadológica, foram apresentadas e debatidas no VI ENANGRAD, em Natal.26 A POLÍTICA ACADÊMICA DA UNIMEP E SEUS REFLEXOS NO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO No âmbito da UNIMEP, ocorriam os debates culminando com a aprovação pelo Conselho Universitário, em 24/04/92, da Política Acadêmica da instituição, definindo diretrizes para as atividades unimepianas: a construção da cidadania enquanto patrimônio coletivo da sociedade civil, a indissociabilidade do processo de ensino-pesquisa-extensão, o direcionamento das atividades acadêmicas para os aspectos regionais, os estágios dos cursos como a oportunidade de contato teoria/prática e, por fim, os Projetos Pedagógicos como “a concretização da Política Acadêmica”.27 A Reitoria assumia como uma das propostas básicas de seu Plano de Trabalho 95/98: Prosseguir, tendo como eixo a Política Acadêmica, no processo de institucionalização da Universidade, priorizando a definição dos projetos pedagógicos de todos os cursos, departamentos e centros, de modo a se aprimorar a qualidade da formação científica, política e profissional do corpo discente, na base dos parâmetros 25 26 27 HENRIQUE, 1993. PIZZINATTO, 1995. UNIMEP, 1992. dezembro 184 99 6978_Impulso_26.book Page 185 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM do Processo de Ensino que baliza os programas e ações relacionados.28 As lideranças acadêmicas do Curso de Administração tinham o primeiro semestre de 1995 como prazo para implantação da reforma curricular aprovada em 05/08/93 no CFE (MEC). Mas a Universidade definia seus próprios caminhos, não estando somente a reboque das pressões ambientais. Assim, as lideranças acadêmicas assumiam seu papel na construção do Projeto Pedagógico do curso, definido como proposta básica do Plano de Trabalho da Reitoria. No documento aprovado em junho de 1994 pelo CEPE, que apontava a Inovação Curricular como metodologia para orientar os cursos em suas práticas acadêmicas, alertava-se que, na construção dos Projetos Pedagógicos dos cursos, deveriam ser consideradas quatro dimensões: a) universidade e sociedade – para dar sentido social e político à ação educativa; b) ética – para que a formação profissional, alicerçada em parâmetros sociais, políticos, técnicos e científicos, possibilitasse aos indivíduos fazerem escolhas sob a égide de uma ética cidadã; c) historicidade da instituição – ou seja, o Projeto Pedagógico deveria refletir as expectativas futuras e o passado Institucional; d) o processo de conhecimento – em que se definissem quais conhecimentos deveriam ser socializados e por quais métodos. Assim, a “Proposta de Reformulação Curricular” do Curso de Administração que cumpriu as determinações da Resolução 02/93, levando à implantação, em 1995, do currículo reformulado, foi elaborada considerando não apenas as definições legais do Ministério da Educação, como também os pressupostos da Política Acadêmica da UNIMEP, a priorização do Projeto Pedagógico como meta da Universidade e as orientações do CEPE para seu delineamento. Desse modo foi aprovada pelo CEPE em 24/10/94, como processo 068-04/94. Reconhecia que “a função administrativa de alto nível envolve capacitações voltadas para estratégia, processo decisório, racionalidade administrativa, liderança e habilidades interpessoais”, ao mesmo tempo em que também assumia a dificuldade de se “transformar o processo de ensino em ‘laboratórios de estratégias e de decisões simuladas’, considerando que um ‘curso de graduação em administração 28 UNIMEP, 1995, pp. 56-57. impulso 185 nº26 6978_Impulso_26.book Page 186 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM competente pode, no máximo, trabalhar com fundamentos de habilidades de gestão’”.29 No bojo da Reforma Curricular, as atividades do estágio supervisionado foram revistas, com a designação, pelo Departamento de Administração, de um grupo de trabalho autodenominado GTESA, em abril de 1996, para construção das novas diretrizes, encaminhadas aos órgãos colegiados em 1997. O documento definiu tipologias de projetos monográficos para a atividade, previu a constituição do Núcleo do Estágio Supervisionado em Administração (Nuclesa), instância catalisadora de discussão das problemáticas do ESA, descentralizando o processo decisório; ampliou a carga horária do ESA, discutiu a formação de assessorias para o estágio e outros aperfeiçoamentos, com vistas a melhorar a qualidade do estágio supervisionado em administração, e contribuir para a formação do administrador previsto na reforma curricular implantada em 1995. OS OBJETIVOS DO CURSO E O PERFIL PROFISSIOGRÁFICO DO ADMINISTRADOR DA UNIMEP O Projeto Pedagógico do Curso de Administração, que definiu seus objetivos bem como o perfil profissiográfico do profissional de administração a ser formado, considerou princípios da Política Acadêmica, em particular os ligados à ética que rege o projeto pedagógico da UNIMEP – a construção da cidadania enquanto patrimônio coletivo da sociedade civil.30 Assim, os objetivos do curso, embora implícitos nos debates e considerados na reforma curricular, foram, enfim, definidos concretamente no Projeto Pedagógico aprovado em 1998, refletindo todos os pressupostos legais e teóricos já resgatados, mas também, e especialmente, as diretrizes da Política Acadêmica da UNIMEP, aprovada em 1992. Definiu-se, assim, que todo o esforço do Curso de Administração estaria voltado a estabelecer, com os discentes, o desenvolvimento de habilidades de gestão, tanto as ligadas às técnicas administrativas quanto às ligados à postura do profissional: empreendedorismo, competência contextual (compreensão do meio social, político, econômico, cultural em que o administrador está inserido), conceitual (integração da teoria à prática), ética, postura para educação continuada, comunicação interpessoal, atuação multidisciplinar e em equipe. A preocupação com a responsabilidade social também transpareceu como objetivo do curso, em reflexo aos princípios da Política 29 30 HENRIQUE, 1994. Projeto Pedagógico do Curso de Administração, 1998, p. 68. dezembro 186 99 6978_Impulso_26.book Page 187 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Acadêmica institucional, bem como a articulação do ensino com a pesquisa e a extensão, comprometidos com a realidade brasileira.31 O perfil profissiográfico também é reflexo da ética unimepiana, que busca a formação de um profissional que se atenha não somente aos “objetivos organizacionais”, porém que nesse esforço, aja com ética, seja promotor de novas relações produtivas e sociais, que levem à melhoria da qualidade de vida e que reflita um administrador com responsabilidade social.32 CONCLUSÕES Toda a evolução ocorrida no ensino da administração no país mostra as preocupações com a necessidade de um aperfeiçoamento constante, na busca de uma adequação a uma sociedade em contínua mutação, devendo, ainda, envolver-se com a ideologia e filosofia de educação da IES que oferece o curso. O currículo deve não só adequarse às necessidades do mercado de trabalho, mas também constituir-se em “agente transformador” e “promotor de novas relações produtivas e sociais”.33 Refletidas no Curso de Administração da UNIMEP, tais preocupações materializaram-se com apoio nas diretrizes da Política Acadêmica da instituição, que definiu sua preocupação em dar ao formando a dupla competência: a técnica e a do administrador enquanto cidadão e agente de mudanças para uma sociedade mais justa. Tais diretrizes nortearam as discussões sobre perfil do profissional pretendido, a reforma curricular realizada e o projeto pedagógico definido. Na reforma curricular implantada em 1995, novas disciplinas foram incluídas no sentido de atender a tais preocupações. Refletem também algumas das características do perfil do administrador e de suas habilidades, identificadas na pesquisa PHAD/96. Dessa forma, entre outras alterações curriculares, foram incluídas: a) criação de novos negócios: buscando desenvolver no aluno o espírito empreendedor; b) ética profissional: contemplando não só as diretrizes da Política Acadêmica da UNIMEP, como também as características do perfil citado na pesquisa PHAD; c) seminários em administração: nessa disciplina, uma ementa flexível permite a atualização permanente do currículo, condizente com as alterações nos cenários nacional e internacio31 32 33 UNIMEP, 1992, pp. 75-76. Ibid., p. 77. ANDRADE, 1997, p. 25 impulso 187 nº26 6978_Impulso_26.book Page 188 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM nal. Em 1999, por exemplo, o conteúdo abordado está vinculado aos estudos ligados ao comércio exterior. As alterações do estágio supervisionado, convalidando a elaboração da monografia de conclusão de curso, a partir da redação de um projeto de pesquisa inicial, ligado a uma situação prática de uma organização, reforçaram o esforço em oferecer ao aluno algumas das habilidades identificadas na pesquisa PHAD: espírito crítico, capacidade de comunicação, decisão, entre outras. Resumindo, o ensino da administração no Brasil evoluiu de um sistema pragmático, pré-definido, estático, praticamente padronizado em nível nacional, através da definição inicial do currículo mínimo, para um ensino voltado às necessidades regionais, na medida em que a Resolução 02/93 flexibilizou o conceito do currículo mínimo, ampliando a carga horária à disposição das instituições de ensino para a adequação ao perfil pleiteado pela sociedade em que elas se inserem. Nessa abertura, as discussões sobre o perfil do profissional levaram ao surgimento de uma maior preocupação com o organismo social das organizações e a formação mais humanística – leia-se cidadã – do profissional da área. O processo de avaliação iniciado pelo Ministério da Educação, embora não seja prerrogativa unicamente do curso, constituiu-se numa alavanca que impulsiona as lideranças acadêmicas na busca de uma melhoria permanente na qualidade do ensino, englobando todo o sistema social envolvido na formação de profissionais – professores, dirigentes, alunos, funcionários e organizações –, numa dinâmica de atuação conjunta e co-responsável pela formação de profissionais de administração dos quais a sociedade possa se orgulhar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANGRAD – Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração – Pesquisa PHAD/96. ANDRADE, R.O.B. História e perspectivas dos Cursos de Administração do Brasil. Anais do II Seminário Nacional sobre Qualidade e Avaliação dos Cursos de Administração. Vitória: 27-29/08/97, pp. 10-49. CONSELHO DE COORDENAÇÃO DO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃOUNIMEP. A Inovação Curricular como uma Metodologia para Orientar os Cursos e suas Práticas Acadêmicas. Jun./94, p. 14. CONSELHO FEDERAL DE ADMINISTRAÇÃO. Parecer 433/93. Documenta (391) Brasília, ago./93, p. 289. CORREA, D.A. Proposta de Revisão do Estágio Supervisionado do Curso de Administração de Empresas da UNIMEP. Anais do III ENANGRAD, 1992, pp. 111-118. dezembro 188 99 6978_Impulso_26.book Page 189 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM ____________. et al. Projeto do Estágio Supervisionado do Curso de Administração. Piracicaba: UNIMEP, 1997. [Documento interno] ____________. Regulamento do Estágio Supervisionado do Curso de Administação. Piracicaba: UNIMEP, 1997. [Documento interno] COVRE, M.L.M. A Fala dos Homens. São Paulo: Brasiliense, 1990. HENRIQUE, D. Proposta de reformulação curricular para o Curso de Administração. UNIMEP, 1994. [Documento interno] ___________. Reflexões sobre o curso de administração diante da proposta do CRA. UNIMEP, 14/jun./93. [Documento interno] MEC. Depto. de Apoio Técnico à Avaliação dos Cursos de Graduação. Revista do Provão, Brasília, 1 (1): 12-13, 1996. PIZZINATTO, N.K. Plano de Reformulação Curricular do Curso de Administração. UNIMEP, ago./86. [Documento interno] ____________. Prática empresarial dentro de uma universidade para o curso de administração de empresas. Anais do III ENANGRAD, 1992, pp. 111-118. ____________. Estratégias de ensino-aprendizagem: uma experiência em administração mercadológica. Anais do VI ENANGRAD, 1995, pp. 242-244. REVISTA EXAME. As notas baixas do curso de administração, 08/ago./1990, pp. 38-45. TAYAR, R. Reflexões sobre o Curso de Administração. UNIMEP, 26/abr./88 [Documento interno] ____________. Relatório das Reuniões dos Conselhos de Classe. UNIMEP, 19/abr./ 90. [Documento interno] ____________. Reformulação curricular do Curso de Administração de Empresas. UNIMEP, 19/11/96. [Documento interno] Trinta anos atrás começava um sonho chamado UNIMEP. Acontece, boletim informativo da UNIMEP. Ano X, nº 163, 10-23/mar./94, encarte p. 1. UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. Diretrizes para o Plano de Trabalho 1995/98. Piracicaba: Editora UNIMEP,1995. ____________. Política Acadêmica da Universidade Metodista de Piracicaba. Piracicaba: Editora UNIMEP, 1992. ____________.Projeto Pedagógico do Curso de Administração da UNIMEP, 1998. [Documento interno] impulso 189 nº26 6978_Impulso_26.book Page 190 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 190 99 6978_Impulso_26.book Page 191 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Resenhas impulso 191 nº26 6978_Impulso_26.book Page 192 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 192 99 6978_Impulso_26.book Page 193 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Crítica dos Fundamentos da Psicologia – A Psicologia e a Psicanálise GEORGES POLITZER Editora UNIMEP: Piracicaba, 1998. Trad. Marcos Marcionilo e Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva; rev. téc. Márcio Mariguela; e prefácio de Osmyr Gabbi Faria Jr., 194p., ISBN 85-85541-08-3 Título original: Critique des Fondements de la Psychologie – La psychologie et la psychanalyse (PUF, 1994 [Rieder 1928]). Q uer no original francês ou bem mais freqüentemente na tradução em espanhol, o clássico de Politzer constituiu talvez o principal texto de natureza epistemológica a que os professores de filosofia dos cursos de psicologia da década de 60 recorriam para propor aos alunos a discussão ineludível acerca dos fundamentos de sua ciência. A referência politzeriana foi-se perdendo lenta e lamentavelmente ao longo dos anos, caindo num esquecimento cujas razões são de natureza variada. Talvez Politzer tenha sido relegado ao limbo dos autores tão mencionados quanto ignorados em virtude da profundidade de sua análise, que exigia uma atitude diferente da habitual leitura dinâmica predominante em nossos dias (não apenas no meio universitário), ou quem sabe por tomar a psicanálise como tema privilegiado de sua reflexão, ou eventualmente pelo tom aberta e acerbamente crítico com que denunciava os simulacros de ciência fornecidos pelas teorias psicológicas em voga. Tais alternativas certamente não são excludentes entre si nem em relação a outras explicações possíveis. Entretanto, e contra toda expectativa, o exílio pode ser benéfico. Borges dizia que os clássicos devem sua condição a uma espécie de reconhecimento tão inexplicável como infalível, cujo efeito mais constante é a sensação de que certos livros não poderiam absolutamente impulso 193 nº26 FRANKLIN WINSTON GOLDGRUB Mestre em Filosofia e doutor em Lingüística (PUC-SP). Professor da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. Área de atuação: Psicanálise. [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 194 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM não ter sido escritos. Seja tal descrição aplicável ou não à Crítica..., o certo é que sua publicação em português se reveste de um valor inestimável. O primeiro argumento para justificar a afirmação anterior é o de que, no que se refere à questão epistemológica, a psicologia permanece na mesma posição descrita por Politzer em 1928, ou seja, sob tutela. Quer seduzida pela eficácia das ciências naturais no plano metodológico, quer engajada eticamente à atitude crítica das ciências sociais face a uma realidade socioeconômica caótica, ela continua incapaz de “estudar fatos irredutíveis aos objetos de outras ciências” (Crítica..., p. 182). Poder-se-ia mesmo dizer que a situação se agravou, na medida em que a revolução farmacológica tem oferecido novos argumentos ao reducionismo orgânico enquanto a globalização da economia, com suas seqüelas, realimenta a crença de que o consultório do psicólogo não passa de uma “ilha da fantasia” escapista em meio ao turbulento mar dos conflitos sociais. Por outro lado, se a inquirição preconizada por Politzer encontrou eco na subversão lacaniana que na década de 50 pôs de manifesto as insuficiências epistemológicas da psicanálise, propondo uma discussão extremamente fecunda, a partir dos anos 70 as teses revolucionárias foram adquirindo progressivamente um caráter dogmático ao mesmo tempo em que a aliança com a lingüística e a antropologia estrutural era abandonada em detrimento de uma aproximação com a lógica, a matemática e a topologia. Esse movimento teórico derivou numa espécie de sistema filosófico (que já foi chamado de “teologia negativa”), cuja relação com a psicanálise é sobretudo enigmática, permanecendo eventualmente caucionada pela trajetória anterior de Lacan. A Crítica... já propunha a discussão epistemológica no fim da década de 20 e concretizava essa preconização pela análise de um outro clássico, A Interpretação dos Sonhos, publicado no penúltimo mês do último ano do século xix. Salvo engano, Politzer inaugura um tipo de leitura crítica em relação à obra de Freud caracterizada pelo exame da coerência interna do texto freudiano, enfatizando como inovação fundamental do fundador da psicanálise o que podemos chamar hoje em dia de teoria do sujeito. A releitura do livro em seu septuagésimo ano mostra-o absolutamente atual. Como assinala Osmyr Gabbi Faria Jr. no prefácio da edição brasileira, boa parte da temática e das propostas lacanianas encontra aí a sua fonte. Para dar alguns exemplos, lembremos as invectivas dirigidas ao pseudocientificismo das correntes psicológicas (p. 38), a denúncia da redução da psicanálise ao campo da afetividade (p. 50), a crítica ao organicismo (p. 59), a distinção entre o je e o moi (p. 68), o assinalamento da dilaceração imposta ao pensamen- dezembro 194 99 6978_Impulso_26.book Page 195 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM to de Freud pelo contraste entre as descobertas devidas à experiência clínica e o arcabouço teórico-epistemológico positivista em que elas não poderiam deixar de ser veiculadas na época (pp. 51-78), o questionamento da noção de inconsciente enquanto designação de algo “interiormente separado” do sujeito (capítulo IV), impasse que Lacan efetivamente reconheceu e trabalhou via argumentação metaforizada pela banda de Moebius, e a insistência em prover a psicanálise de uma teoria do sujeito definida pelo sentido (p. 68), em cujo horizonte se divisa a questão da linguagem. Como o prefácio assinala e já se tornou notório, Lacan é pouquíssimo propenso a aceitar questionamentos (característica igualmente presente no kleinismo) e revela uma dificuldade incomensurável em reconhecer dívidas teóricas. A leitura de Politzer dificulta as coisas para os hagiógrafos que vêem no teórico francês um gênio causa sui; com referência ao dogmatismo, a Crítica... proporciona, com sua atitude indagadora e insubmissa, um excelente antídoto à subserviência intelectual. De fato, é chamativa a distância que separa as correntes psicanalíticas contemporâneas, cujos chefes de escola se arrogam o dom da infalibilidade, da atitude freudiana, fundamentalmente autocrítica. A atual divisão da psicanálise em seitas incomunicáveis, cujo vernáculo se assemelha mais a uma litania recitada com o corpo inclinado na direção de Paris ou Londres, constitui talvez o indício mais evidente do esprit de corps e da atitude de veneração perante o mestre de ocasião. O estilo de Politzer lembra o Lacan dos anos 50 quanto à ironia demolidora e à irreverência; por outro lado, e na contramão do hermetismo que recomenda o turvamento das águas para simular profundidade, o livro alia a transparência estilística à solidez argumentativa e à originalidade. Com o que fica demonstrado que a inteligibilidade de um texto não é refém da complexidade de seus temas. Bem traduzido e editado de maneira atraente, o volume é valorizado por um prefácio instigante de Osmar Gabbi Faria Jr, que ressalta com inteira propriedade a dívida politzeriana do autor dos Escritos e cujos aspectos polêmicos não é possível comentar nesta resenha, na medida em que se referem à complexa questão da relação entre inconsciente e linguagem, objeto de um célebre debate entre Laplanche e Lacan. A contracapa, a “orelha” e as notas da revisão técnica, a cargo de Márcio Mariguela, situam o leitor, dando-lhe a referência adequada tanto em termos biográficos como conceituais. Conforme mencionado na “orelha”, a publicação da Crítica dos Fundamentos da Psicologia no ano em que se comemora a efeméride centenária d’A Interpretação dos Sonhos é extremamente oportuna, já que alimenta e enriquece a reflexão suscitada pela obra-prima freudiana. impulso 195 nº26 6978_Impulso_26.book Page 196 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 196 99 6978_Impulso_26.book Page 197 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Inocência e o Vício: Estudos Sobre o Homoerotismo J. FREIRE COSTA Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2ª ed., 1992, 195p., ISBN: 85-85427-17-5 A exemplo de seus trabalhos anteriores,1 Jurandir Freire Costa não se revela um psicanalista que se acomodou na repetição dos postulados freudianos, em vista de situar a psicanálise como mais uma produção cultural. A preocupação do autor em elucidar por quais vias perpassa o discurso psicanalítico; verifica-se em suas obras, pelo exemplo da noção freudiana de perversão. Na elaboração desse conceito, Freud teria se contaminado com o preconceito psiquiátrico do século XIV. Apoiando-se em uma visão psicanalítica na qual as idéias, funcionando como instrumentos de ação, só têm validade se produzem efeitos práticos, Costa considera que a noção de homossexualidade como perversão é indefensável. Indefensável pela impossibilidade da existência de uma estrutura homossexual definida. O autor demonstra que, ao utilizarmos o termo homossexualismo, nos vemos implicados no constructo histórico-ideológico-políticoeconômico-libidinal burguês do século XIX, o qual caracteriza a humanidade como dividida em hetero e homossexuais, correlativo à normal/ patológico, que transforma as vivências da experiência sexual desses sujeitos em desvio de personalidade. Remete à construção histórica a figura imaginária do homossexual como uma modalidade do humano (ou desumano) com perfil psicológico único. Falar de homossexualidade é falar de uma personagem imaginária que teve historicamente a função de ser a antinorma do ideal de masculinidade burguês. Ordem Médica e Norma Familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1979; Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1984; Psicanálise e Contexto Cultural. Rio de Janeiro: Campus, 1989; entre outros. 1 impulso 197 nº26 DANIELA MAULE BALBUENO Psicóloga pela UNIMEP [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 198 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Costa faz um adendo sobre a produção de subjetividade e a linguagem em uma explanação sobre a carga significativa do vocabulário deste século enquanto prática lingüística que engendra a produção de subjetividade. Aponta que a tarefa da linguagem não é a de representar, como defende a psicanálise, mas criar laços discursivos que produzam subjetividades, o que justifica a escolha do termo homoerotismo ao se referir a indivíduos homoeroticamente inclinados, em contraposição ao corrente termo homossexualismo. Analisa qual a ligação da homossexualidade com o problema da Aids: o preconceito sexual que advém da associação da doença aos homoeroticamente inclinados contém significados históricos criados pela linguagem, que passam por diversas conotações. Podemos visualizá-las no discurso médico como anomalia; no psiquiátrico como neurose; no psicanalítico como perversão; no senso comum como indecência. Esses discursos incidem na moral desses sujeitos e refletem na maneira como lidam com o contágio da Aids. Essas etiquetas, atreladas aos sujeitos, garantem o direito da maioria (heterossexuais) sobre a minoria no que tange às regras e normas estabelecidas no imaginário social de felicidade (ou satisfação) sexual e afetiva. O homoerotismo é, portanto, uma questão de prática lingüística: não existe objeto sexual instintivamente adequado. Não há como medir ou classificar quem é, ou não, mais ou menos homossexual. No primeiro capítulo, Costa demonstra que, após a primazia dada à composição da família e a divisão e expansão dos bens, aquilo outrora tido como um vício que não tinha nome, transformou-se em um amor que não ousa dizer seu nome pelo medo da exclusão, da condenação de Deus ou dos homens. Ao iniciar o estudo histórico na literatura do século XIX sobre o erotismo, o autor sinaliza que o homossexual era instrumento de denúncia social: por exemplo, a obra de Balzac revela o homossexual marginal na luta contra o preconceito, figura que, ao servir de apoio ao contemporâneo movimento gay corre o risco de universalizar a identidade dos homoeroticamente inclinados, não idêntica a que conhecemos em qualquer tempo ou espaço. No segundo capítulo, Costa se atém aos impasses da ética naturalista de Gide na fundamentação da vida moral: o imoral é anti-natural. Se a natureza segue sempre seu curso natural, fugir a essa tendência é vício e doença, o que em outros tempos significava crime. A ideologia que atravessa o pensamento de Gide é a de afirmar a superioridade do liberalismo burguês; o homossexual é o parasita, dispensável lugar fantasmagórico de outro do homem normal. O autor continua sua exposição apontando que o ideal moral associado às práticas sexuais nem sempre esteve ligado à relação conju- dezembro 198 99 6978_Impulso_26.book Page 199 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM gal, como na Grécia Clássica na qual imperava moralmente as relações pederásticas como modelo de satisfação sexual. Após a expansão da moral cristã no emburguesamento das relações, a ética sexual se consolidou, no imaginário social, na conjugalidade, o que é patente na fala dos homens adultos que procuraram análise com a queixa de homossexualismo. Como clínico, Costa observa a teoria psicanalítica de perversão nos pontos em que se contradiz. Atenta que a concepção da perversão ligada às inclinações homoeróticas está sujeita a uma dupla crença: a da existência de um homossexualismo definido e a de que todo tipo de homossexualismo é perversão. Para o autor, Freud se “contaminou” com a idéia psiquiátrica e preconceituosa de seu momento histórico e não defende a conceituação por não haver uma teoria sobre o fenômeno que seja coerente: nem o efeito da autonomia das pulsões parciais frente ao primado genital, nem uma falha identificatória na travessia do Édipo, nem tampouco a posição subjetiva de desafio e transgressão à lei da castração, ou ainda a recusa em aceitar a diferença dos sexos são elementos específicos da chamada perversão: podemos encontrá-los em outras estruturas clínicas como neuroses e psicoses. No capítulo que se segue, Costa afirma que Gide e Proust em seus textos confirmam a idéia de que a humanidade se divide em heteros e homossexuais. O autor comenta nas obras de Proust a linguagem da inocência e do vício. No seu capítulo último, parte de um olhar de perceber como os indivíduos se rotulam. Explicita que a identidade sexual dos sujeitos da pesquisa são apreensões da cultura. Distingue, a partir de outros autores, os quatro estágios de aquisição dessa identidade, ressaltando que nem todo indivíduo obrigatoriamente chega ao último. Resumidamente os estágios são os seguintes: sentir-se diferente; dar sentido (significado) a essa diferença; reconhecer-se pelo outro e postumamente ter aceitação de si mesmo. Nas entrevistas o autor constata que independente da educação dos sujeitos, estes sempre se confrontam com a desaprovação da inclinação sexual. Se a educação é liberal, a desaprovação é de ordem natural. Segundo ele, na parceria homoerótica pesquisada não se encontrou um vocabulário de expressão amorosa comum aos heterossexuais. O indivíduo homoeroticamente inclinado acata a interdição da maioria se sentindo “sujo” e usurpador ao apropriar-se do vocabulário dessa maioria. Assim, o homoerótico está fadado a não poder se candidatar ao ideal do amor romântico e conjugal. Nota também que a prática sexual masculina por si já carrega a identidade do sujeito de aspectos afeminados. Não há relação entre impulso 199 nº26 6978_Impulso_26.book Page 200 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM homens na qual estes possam ser identificados como tais. A desvalorização da relação homoerótica se encontra na incapacidade de reprodução. Constata ainda que a diversidade de práticas, conduta e desejos homoeróticos revela que não há homogeneidade de respostas frente à Aids. A diversidade de realidades afetivas e sexuais declara que o termo homossexual estigmatiza condutas e desejos por tais realidades se afastarem do código moral dominante. A identidade gay, que promove ao indivíduo rotulação positiva de sua conduta, permite respostas diante do risco da Aids. Aqueles que se identificarem com a ideologia do agressor não estão habilitados a perceber que não fazem fronteira com a normalidade da conduta sexual. O autor separa os indivíduos que, identificados com as regras morais oitocentistas, apresentaram preconceito como proteção contra o risco de contágio, pois o risco da Aids seria a revelação de suas identidades. Aqui o próprio preconceito é aliado na resguarda contra a Aids. O outro grupo seria aquele que se protege contra o preconceito e se inclui na identidade gay como modelo de identidade estratégica de resistência, que, apesar de reforçar a idéia de existência de uma identidade homossexual, ao combater a Aids se protegendo do risco está ao mesmo tempo lutando a favor do direito de livre expressão social do homoerotismo. Nos outros indivíduos, a realização do projeto do eu ideal está afastada. O uso da proteção contra a Aids é um estorvo ou não faz sentido. Ao contrário, o incluído na identidade gay utiliza de recursos aos quais a preservação da vida é aliada pela luta na possibilidade de expressão e satisfação sexual. Aos psicoterapeutas e analistas sugere-se que observem os sujeitos que procuram análise, queixando-se de homossexualismo, como indivíduos inseridos em um determinado contexto histórico-econômico-político-libidinal e/ou quantas ordens mais estiverem atravessadas em suas queixas. Ou a atuação clínica pode tornar-se dispositivo de controle do status quo, na medida em que se torna sistema reprodutor de ideologia colocando o inconsciente enquanto fator individual, como isentor dos problemas socioeconômicos, podendo ser agente docilizador dos sujeitos. Sabendo que a subjetividade é um efeito das práticas lingüísticas e do sujeito pertencente a essa rede lingüística, torna-se inconcebível ao terapeuta uma prática que pretenda encaixar o paciente sob um modelo ou estrutura de personalidade. Dessa maneira, avaliar de modo maniqueísta se o sujeito é perverso ou não, dentro das possibi- dezembro 200 99 6978_Impulso_26.book Page 201 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM lidades de satisfação sexual, é utilizar de psicanalismo, descontextualisando a vivência de cada sujeito como se este apresentasse uma estrutura comum a todos. impulso 201 nº26 6978_Impulso_26.book Page 202 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 202 99 6978_Impulso_26.book Page 203 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM impulso 203 nº26 6978_Impulso_26.book Page 204 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM dezembro 204 99 6978_Impulso_26.book Page 205 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM A Realidade Onírica Dream Reality O s sonhos nunca mais seriam os mesmos... depois de Freud. Nos estertores de uma centúria que acaba junto com um milênio, apenas cem anos nos separam do início daquilo que deve ser considerada uma das mais importantes odisséias do espírito, agora tão familiar como outrora surpreendente. Atualmente pode-se dizer que o novecento foi, sem dúvida, uma época freudiana; ontem, porém, não havia certeza alguma que permitisse prever até que ponto o século XX seria permeado, moldado e transfigurado pela descoberta do inconsciente. Numa cama imperial num quarto burguês da belle époque vienense, o Dr. Sigmund Freud dormia e, para além de roncos, bocejos e poluções noturnas, também sonhava, igual ao mais comum dos mortais. No dia seguinte, talvez lembrasse alguma coisa da vivência noturna; em todo caso, o pouco que conseguia rememorar não lhe resultava indiferente nem o deixava impassível. Como tantos outros, antes e depois, tinha a intuição de que, mesmo sem entender muito, algo nele – durante o sono – lhe dizia respeito, ainda que de forma misteriosa e insensata. Naqueles tempos, o discurso competente dos saberes positivos, científicos e universitários, consideravam o fenômeno do sonho como um subproduto da atividade cerebral no estado de repouso. Um paradoxo era formulado, mas sem que lhe fosse outorgado quase nenhum relevo: o corpo, sedente, precisando de descanso, permaneceria imobilizado por algumas horas; enquanto isso, a mente continuaria funcionando por inércia. Sem o controle racional da volição, porém, acabava provocando imagens e sensações sem lógica nem coerência, carentes de qualquer nexo. Ideologicamente, tanto a Medicina quanto a incipiente Psicologia de então eram coincidentes na depreciação da atividade onírica. Mas a discussão seria bem outra, de suma importância epistemológica, desdobrada ao longo de duas perspectivas convergen- impulso 205 nº26 OSCAR CESAROTTO Psicanalista, doutor em Comunicação & Semiótica (PUC-SP). Autor de Um Affair Freudiano e No Olho do Outro, ambos pela Editora Iluminuras. 6978_Impulso_26.book Page 206 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tes. Em primeiro lugar, existia, para o Dr. Freud, um desafio clínico. Desde os começos da sua prática, defrontou-se com a histeria, entidade patológica que não apenas o confrontou com uma freqüente impotência profissional, como também o obrigou a apurar uma terapêutica inédita para evitar contínuos fracassos. Tratava-se dos primórdios da análise; o marco inaugural, tanto de uma escuta inaudita quanto de uma procura etiológica insólita, tendo a sexualidade na mira, como hipotética causa das neuroses. Momentos heróicos, nos quais tudo estava em questão, a começar pelas insuficiências dos tratamentos tradicionais. As figuras de Charcot, Breuer e Fliess eram os vultos com os quais Freud dialogava transferencialmente, na persistência dos seus esforços. A certa altura dos acontecimentos, suspeitava que os sintomas eram efeitos de traumas; estes, quase sempre vividos na infância, e ainda por cima, de nítido conteúdo erótico. Mais: adultos mal-intencionados seriam os responsáveis pelas marcas do sexo na alma dos futuros sujeitos histéricos. A teoria da sedução, rapidamente formulada, presto foi abandonada, quando ficou evidente que nem sempre os relatos dos pacientes poderiam ser confiáveis e/ou verossímeis. Assim, as noções de realidade psíquica e de fantasia foram os saldos a favor a partir do abandono das idéias prévias. Contudo, Freud não deixou de ouvir o que as histéricas lhe contavam, em especial seus sonhos. Considerando tal material significativo para a resolução do enigma neurótico, o que antes seria desprezado foi elevado à categoria de imprescindível para a direção da cura. Seria possível apontar, aqui, um deslizamento significante que ilustraria, de maneira concisa, esse período da gesta freudiana: do trauma ao traum (sonho, em alemão), na busca ininterrupta da etiologia das neuroses. ______ Em segundo lugar, estava em jogo o próprio Freud, sua verdade e seu destino. Por isso, assim como prestava atenção aos sonhos dos outros, ficou também particularmente atento aos seus. Esse capítulo, tanto da sua história, quanto do movimento psicanalítico, convencionou-se chamar de auto-análise. A soma de todos essas tentativas, conjecturas, constatações e inferências desembocou, no fim do século XIX, na redação, e posterior publicação, de A Interpretação dos Sonhos, obra-prima de uma nova e específica disciplina de aplicação prática e cunho científico, a Psicanálise. dezembro 206 99 6978_Impulso_26.book Page 207 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Naquele livro, Freud postulou inúmeros assuntos, todos de relevante envergadura: os sonhos não são produtos desprezíveis do psiquismo; podem parecer ininteligíveis, mas têm um sentido; o simbolismo pelo qual são construídos é o mesmo da poesia e dos hieróglifos, ou seja, retórica da melhor qualidade; há uma lógica, tanto na feitura do conteúdo manifesto quanto na ocultação do conteúdo latente; de fato, teriam uma utilidade, que é preservar o dormir; para tanto realizam desejos, e essa seria sua função primordial. A resultante disso tem uma denominação – inconsciente –, conceito fundamental e nome próprio da outra cena. Nesse ponto, convém fazer um rápido recenseamento da coisa freudiana. A realização de desejos é o âmago de tudo, o que poderá ser compreendido desde que seja definido o que entender por desejo e, obviamente também, por realização. No texto de Freud, em que a quase totalidade dos exemplos é constituída pelos sonhos do próprio autor, nem sempre é possível achar uma absoluta uniformidade a respeito. Às vezes o desejo que um sonho realiza tem a ver com o conforto do sonhante; outras vezes, estaria em pauta uma vontade antiga, para nada contemporânea, apesar de atualizada pelos restos diurnos; ainda, pode se tratar de um voto (wunsch), uma expressão desiderativa que em algum momento foi formulada, mas nunca concretizada. Também entrariam na mesma alçada aquele tipo de intenções desde sempre e para sempre inviáveis, como seria o caso das tendências edipianas. O campo freudiano do desejo dista muito de ser homogêneo, e a teoria psicanalítica precisou esperar algumas décadas até que outro praticante, Jacques Lacan, a incrementasse com um panorama bem mais completo, abrangente e minucioso. Deve-se a Lacan, nesse particular, uma citação que serve como referência, não só primeva como derradeira, do filósofo Spinoza: O desejo é a essência do homem. Para concluir de maneira apropriada a homenagem que a centúria que acaba deve a Freud, à interpretação dos sonhos e ao inconsciente, lembremos mais uma vez um exemplo clássico. O sonhante – Herr Sigmund – deitou na cama já sentindo sede, a ponto de beber antes de dormir o copo d’água costumeiramente localizado no seu criado-mudo. Ainda sedento durante a noite, sonhou que beberia do copo da sua esposa, que estaria do lado dela. Mas Frau Martha lhe oferece um vaso cinerário etrusco, trazido por ele da última viagem à Itália, e dado de presente. Ali, então, o líquido contido estava tão salgado que, mais do que aplacar a sede, acabou por acordá-lo. impulso 207 nº26 6978_Impulso_26.book Page 208 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Muito bem: este sonho parece ser o paradigma da categoria dos chamados “de comodidade”, na qual interessa que a realização onírica de uma necessidade faça o sonhante não precisar acordar para resolver sua urgência. Entretanto, seria apenas isso, sede tão-só, sem nenhuma conotação outra? Como Freud nunca deitou num divã, nunca saberemos. Qualquer analista abelhudo, porém, desconfiaria daquele gosto salgado do recipiente feminino oferecido à boca do sedento... Porque, no fim das contas, mesmo que toda realização seja mediada pela significação, portanto deslocada e metaforizada, a realidade do inconsciente é sempre sexual. Freud teria dormido no ponto? dezembro 208 99 6978_Impulso_26.book Page 209 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM Periodismo Honesto Honest Journalism U n domingo en la tarde de la primavera paceña de 1955, Jorge Carrasco Villalobos, uno de los dueños de El Diario, el decano de la prensa boliviana, se asomó por la sección deportes del periódico mostrando en el rostro su enfado. Su equipo de fútbol favorito, el de la familia, había perdido un encuentro del torneo local. El que en 10 años más sería el director-propietario indiscutido del periódico, siguiendo una tradición familiar que se remonta a principios de siglo, se apoyó con un brazo en el marco de la puerta como para impedir que nadie saliera o entrara.* ¿Cómo andas Jorge?, le tuteó el jefe de la sección deportes, don Julio Borelli Viteritto, mientras los otros dos periodistas de la sección, Horacio Corro Geldrez y Carlos Carrasco Ballivián, doblaban sus espaldas sobre sus máquinas Hermes en un tecleteo feroz. Sentado en la oficina en mi condición de aprendiz de periodismo, casi pude palpar la tensión del momento. Parecía que situaciones similares se habían vivido ya anteriormente. Carrasco Villalobos dijo: “Don Julio, quiero ver mañana en grandes letras que Always Ready perdió por culpa del árbitro”. – Discúlpame Jorge, pero yo no puedo escribir nada de eso, porque no corresponde a la verdad – le dijo don Julio. Carrasco Villalobos no respondió. Se dio media vuelta furioso y apresuró el paso hacia su vivienda, ubicada en el mismo edificio. Don Julio, sereno, se quedó sentado en su escritorio con la cabeza gacha entre las palmas de las manos. Nadie se atrevía a interrumpir sus pensamientos, cualesquiera que fueran. Yo pensé que quizás estaba reconsiderando la situación. Talvez había un ángulo desde el que podría satisfacerse a Carrrasco Villalobos. Recordé que, con don Julio como entrenador, Always Ready ha* Nasceu em La Paz, Bolívia, onde trabalhou nos jornais El Diario, Presencia e La Tarde e nas rádios Amauta e Fides. Por quase um quarto de século foi correspondente das agências Ansa, EFE e United Press International em diversas cidades de América Latina e nos Estados Unidos, país em que reside atualmente. Sua página na Internet é http://members.tripod.com/˜Bolivia_TL/ impulso 209 nº26 HERNÁN MALDONADO BORDA* Jornalista e advogado, licenciado em Ciências Políticas e Sociais [email protected] 6978_Impulso_26.book Page 210 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM bía conquistado su único título en el fútbol boliviano. Quizás el noble uruguayo amaba también a Always Ready. Pensé también en los años en que estaba en el cargo; que El Diario era su única fuente de ingresos... De pronto don Julio se incorporó para dar el mensaje que me ha inspirado en este casi medio siglo de trajinar periodístico: – Jamás venderé mi opinión al vil precio de la necesidad – proclamó. Don Julio perdió el cargo y yo, casi un chiquillo, me uní a él en una relación de maestro-amigo-alumno que duraría 15 años o, lo que es lo mismo, una década y media de formación en la escuela de la honestidad periodística. A la luz de esta anécdota me pregunto: ¿actualmente cuántos periodistas podrían decir lo mismo que don Julio Borelli? Porque en los umbrales del nuevo siglo una de las grandes interrogantes es saber si la ética periodística sobrevivirá a los peligros que la acechan. En la mayor parte de los países latinoamericanos, el llamado “cuarto poder” del Estado es todavía uno de los más confiables para nuestras sociedades, pero el periodismo honesto es bombardeado todos los días por los intereses políticos, económicos, la tenaz competencia etc. La sobrevivencia periodística misma está en juego. Ya han desaparecido los diarios vespertinos y la fuente que los nutría de noticias allende los mares cerró sus puertas este primero de julio al cancelar la United Press International sus operaciones en América Latina tras casi un siglo de existencia. El avance de la tecnología es brutal y el Internet con su prodigio contribuye al cierre de más diarios. Hace rato que ya han desaparecido fuentes de trabajo y hasta profesiones completas, como la de los antiguos cajistas, teletipistas, tituladores, correctores de prueba, de galera, fundidores de plomo, linotipistas etc. Los periódicos, tal como hoy los conocemos, parecen ser una especie en extinción y para sobrevivir se aferran a medicinas de dudosa legalidad, como aquellos seropositivos y asmáticos que hallan alivio a su mal en la marihuana. Por eso cabe preguntarse, ¿hasta dónde esa presión por la sobrevivencia no afectará la ética? ¿Hasta dónde el periodista mantendrá incólume su moral? Al entrar a un nuevo siglo vemos ya una mayor predisposición a hipotecar lo que conocemos como periodismo independiente a los grandes intereses económicos, basada en la premisa de los expertos de mercadeo según la cual al público hay que darle lo que le gusta, o hacerle escuchar o ver lo que quiere, especialmente en el terreno depor- dezembro 210 99 6978_Impulso_26.book Page 211 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM tivo, el filón que hace vender más a los periódicos y que tiene mayores patrocinadores en radio y televisión. Por eso asistimos al florecimiento de los equipos periodísticos al servicio de clubs con dudoso apego a la imparcialidad. El mercado, según aquellos expertos, demuestra que el hincha enfrenta diariamente sus propias tragedias como para restregarle también en las narices el más reciente fracaso de su equipo favorito. Entonces lo que hay que hacer, según esos mismos expertos, es sembrar nuevas ilusiones, abrir nuevas esperanzas. La derrota del último domingo es apenas un traspié. Hay otro encuentro a la vista, una nueva Copa Libertadores, Mercosur, Comebol, Supercopa etc. Está ocurriendo que esos “periodistas” toman tan a pecho su trabajo para satisfacer al “marketing” que de pronto ni ellos mismos se dan cuenta que se han puesto la camiseta del club al que representan. Y ni qué decir cuando en los compromisos internacionales se envuelven con la bandera de su país exacerbando ese nacionalismo malsano que ha traido consigo a lo largo y ancho del mundo esa cadena de muertos y heridos. En Estados Unidos es común que los equipos de football, baloncesto, béisbol y fútbol tengan sus propios equipos de radio y televisión sin que, en términos generales, la imparcialidad haya sufrido menoscabo, algo que no está ocurriendo en América Latina donde se extiende cada vez más la moda. En casos extremos se está llegando al “periodismo taurino” en la que empresarios inescrupulosos quieren que “su” periodista hable “sólo” lo que conviene a sus intereses. Anecdótico es el caso del empresario Rafito Cedeño que en los años 70 manejaba casi todo el negocio boxístico en Venezuela. Según Cedeño, el venezolano Luis “Lumumba” Estaba debía reinar entre los campeones mundiales del peso minimosca por siempre jamás y por tanto “sus” periodistas debían ensalzar los grandes merecimientos del púgil, a pesar de las limitaciones que le imponían sus 38 años a cuestas. Tan ridículo resultó todo esto que una noche en que Estaba exponía su cetro ante el mexicano Miguel Canto, sonaba a risa que el relator de Cedeño se esforzara en hacernos ver una pelea que no se daba en la realidad: “Izquierda de Lumumba, derecha de Lumumba. Lumumba está entero. Lumumba domina la pelea... ¡Epa!; ¿Qué pasó? ¡Se cayó Lumumba! Noqueado Lumumba...” terminó el hombre su relato. Y no solamente los empresarios están contratanto cada vez más a “sus” periodistas, sino los dirigentes en lo que parece una onda epi- impulso 211 nº26 6978_Impulso_26.book Page 212 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM démica. Con motivo de la última Copa América, la Federación Boliviana de Fútbol admitió haber pagado pasajes, viaticos y estadia a dos periodistas. Obviamente estos periodistas no advirtieron que la delegación oficial de 35 personas fue abusivamente abultada a 65 y tampoco se enteraron de algunos asuntillos como el de los tres jugadores que se recogieron bastante entrada la madrugada tras el empate sin goles contra Paraguay. En materia política, la “imparcialidad periodística” está haciéndose más rara. Muchos de los “imparciales” de hoy son los que aparecen más tarde como funcionarios públicos. En otros casos la imparcialidad se ha desvirtuado por el denominado periodismo militante en tanto y cuanto se apoya una causa que, a juicio del periodista, es la correcta. Se sostiene con cierta lógica, como afirmaba el argentino Jorge R. Massetti, fundador de Prensa Latina que: “somos objetivos, pero no imparciales. Consideramos que es una cobardía ser imparcial, porque no se puede ser imparcial entre el bien y el mal”. Digo cierta lógica, porque si bien no se puede ser imparcial entre el bien y el mal, tampoco es el periodista quien debe imponer a su lector, su radio-oyente o televidente, una manera de pensar, y una manera de actuar. Esto es tan aborrecible, como la pretensión del empresario, del promotor, o el dirigente de contratar periodistas que escriban sólo lo que les interesa, con un gran perdedor: el periodismo honesto. Miami, julio 1999 dezembro 212 99 6978_Impulso_26.book Page 213 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM REVISTA IMPULSO Normas para Publicação PRINCÍPIOS GERAIS 1 A Revista IMPULSO publica artigos de pesquisa e reflexão acadêmicas, estudos analíticos e resenhas nas áreas de ciências sociais e humanas, e cultura em geral, dedicando parte central do espaço de cada edição a um tema principal. 2 Os temas podem ser desenvolvidos através dos seguintes tipos de artigo: • ENSAIO (12 a 30 laudas) – reflexão a partir de pesquisa bibliográfica ou de campo sobre determinado tema; • COMUNICAÇÃO (10 a 18) – relato de pesquisa de campo, concluída ou em andamento; • REVISÃO DE LITERATURA (8 a 12 laudas) – levantamento crítico de um tema, a partir da bibliografia disponível; • COMENTÁRIO (4 a 6 laudas) – nota sobre determinado tópico; • RESENHA (2 a 4 laudas) – comentário crítico de livros e/ou teses. 3 Os artigos devem ser inéditos, vedado o seu encaminhamento simultâneo a outras revistas. 4 Na análise para a aceitação de um artigo serão observados os seguintes critérios, sendo o autor informado do andamento do processo de seleção: • adequação ao escopo da revista; • qualidade científica, atestada pela Comissão Editorial e por processo anônimo de avaliação por pares (peer review), com consultores não remunerados, especialmente convidados, cujos nomes são divulgados anualmente, como forma de reconhecimento; • cumprimento das presentes Normas para Publicação. 5 Uma vez aprovado e aceito o artigo, cabe à revista a exclusividade em sua publicação. 6 Os artigos podem sofrer alterações editoriais não substanciais (reparagrafações, correções gramaticais, adequações estilísticas e editoriais). 7 Não há remuneração pelos trabalhos. O autor de cada artigo recebe gratuitamente 03 (três) exemplares da revista; no caso de artigo assinado por mais de um autor, são entregues 05 (cinco) exemplares. O(s) autor(es) pode(m) ainda comprar outros exemplares com desconto de 30% sobre o preço de capa. Para a publicação de separatas, o autor deve procurar diretamente a Editora UNIMEP. 8 Os artigos devem ser encaminhados ao editor da Impulso, acompanhados de ofício, do qual constem: • cessão dos direitos autorais para publicação na revista; • concordância com as presentes normatizações; impulso 213 nº26 6978_Impulso_26.book Page 214 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM • informações sobre o autor: titulação acadêmica, unidade e instituição em que atua, endereço para correspondência, telefone e e-mail. ESTRUTURA 9 Cada artigo deve conter os seguintes elementos, em folhas separadas: a) IDENTIFICAÇÃO • TÍTULO (e subtítulo, se for o caso), em português e inglês: conciso e indicando claramente o conteúdo do texto; • nome do AUTOR, titulação, área acadêmica em que atua e e-mail; • SUBVENÇÃO: menção de apoio e financiamento recebidos; • AGRADECIMENTO, se absolutamente indispensável. b) RESUMO E PALAVRAS-CHAVE • Resumo indicativo e informativo, em português (intitulado RESUMO) e inglês (denominado ABSTRACT), com cerca de 150 palavras cada um; • para fins de indexação, o autor deve indicar os termos-chave (mínimo de três e máximo de seis) do artigo, em português (palavras-chave) e inglês (keywords). c) TEXTO • texto deve ter uma INTRODUÇÃO, um DESENVOLVIMENTO e uma CONCLUSÃO. Cabe ao autor criar os entretítulos para o seu trabalho. Esses entretítulos, em letras maiúsculas, não são numerados; • no caso de RESENHAS, o texto deve conter todas as informações para a identificação do livro comentado (autor; título; tradutor, se houver; edição, se não for a primeira; local, editora; ano; total de páginas; título original, se houver). No caso de TESES, segue-se o mesmo princípio, no que for aplicável, acrescido de informações sobre a instituição na qual foi produzida. d) ANEXOS • Ilustrações (tabelas, gráficos, desenhos, mapas e fotografias). e) DOCUMENTAÇÃO NOTAS EXPLICATIVAS:1 serão dispostas no rodapé, remetidas por números sobrescritos no corpo do texto. CITAÇÃO com até três linhas: deve vir no bojo do parágrafo, destacada por aspas (e não em itálico), após as quais um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé com as indicações do SOBRENOME do autor, ano da publicação e página em que se encontra a citação.2 CITAÇÃO igual ou maior a quatro linhas: destacada em parágrafo próprio com recuo de quatro centímetros da margem esquerda do texto (sem aspas) e separado dos parágrafos anterior e 1 Essa numeração será disposta após a pontuação, quando esta ocorrer, sem que se deixe espaço entre ela e o número sobrescrito da nota. Como o empregado nas Referências Bibliográficas, nas notas de rodapé o SOBRENOME dos autores, caso necessário, deve ser grafado em maiúscula, seguido do ano da publicação da obra correspondente a esta citação. Ex.: CASTRO, 1989. 2 FARACO & GIL, 1997, pp. 74-75. dezembro 214 99 6978_Impulso_26.book Page 215 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM posterior por uma linha a mais. Ao fim da citação, um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé, indicando o SOBRENOME do autor, ano da publicação e a página em que se encontra esta citação.3 Os demais complementos (nome completo do autor, nome da obra, cidade, editora, ano de publicação etc.) constarão das REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, ao fim de cada artigo, seguindo o padrão abaixo. A lista de fontes (livros, artigos etc.) que compõe as Referências Bibliográficas deve aparecer no fim do artigo, em ordem alfabética pelo sobrenome do autor e sem numeração, aplicando-se o seguinte padrão: LIVROS SOBRENOME, N.A. (nomes do autor abreviados, sem espaçamento entre eles; nomes de até dois autores, separar por “&”, quando houver mais de dois, registrar o primeiro deles seguido da expressão “et al.”). Título: subtítulo. Cidade: Editora, ano completo, volume (ex.: v. 2). [Não deve constar o número total de páginas]. Ex.: FARACO, C.E. & MOURA, F.M. Língua Portuguesa e Literatura. São Paulo: Ática, 1997, v. 3. FARIA, J. A Tragédia da Consciência: ética, psicologia, identidade humana. Piracicaba: Editora Unimep, 1996. GARCIA, E.E.C. et al. Embalagens Plásticas: propriedades de barreira. Campinas: CETES/ ITAL, 1984. GIL, A.C. Técnicas de Pesquisa em Economia. São Paulo: Atlas, 1991. • MAIS DE UMA CITAÇÃO DE UM MESMO AUTOR: após a primeira citação completa, introduzir a nova obra da seguinte forma: • _________. Empregabilidade e Educação. São Paulo: Educ, 1997. • OBRAS SEM AUTOR DEFINIDO: • Manual Geral de Redação. Folha de S.Paulo, 2ª ed. São Paulo, 1987. PERIÓDICOS NOME DO PERIÓDICO. Cidade. Órgão publicador. Entidade de apoio (se houver). Data. Ex.: REFLEXÃO. Campinas. Instituto de Filosofia e Teologia. PUC, 1975. • ARTIGOS DE REVISTA: SOBRENOME, N.A. Título do artigo. Título da revista, Cidade, volume (número/fascículo): páginas incursivas, ano. Ex.: FERRAZ, T.S. Curva de demanda, tautologia e lógica da ciência. Ciências Econômicas e Sociais, Osasco, 6 (1): 97-105, 1971. 3 FARIA, 1996, p. 102. impulso 215 nº26 6978_Impulso_26.book Page 216 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM • ARTIGOS DE JORNAL: SOBRENOME, N.A. Título do artigo, Título do jornal, Cidade, data, seção, páginas, coluna. Ex.: PINTO, J.N. Programa explora tema raro na TV, O Estado de S.Paulo, 08/02/1975, p. 7, c. 2. 10 Os artigos devem ser escritos em português, podendo, contudo, a critério da Comissão Editorial, serem aceitos trabalhos escritos em outros idiomas. 11 Os artigos devem ser digitados no EDITOR DE TEXTO WORD, em espaço dois, em papel branco, não transparente e de um lado só da folha, com 30 linhas de 70 toques cada lauda (2.100 toques). 12 As ILUSTRAÇÕES (tabelas, gráficos, desenhos, mapas e fotografias) necessárias à compreensão do texto devem ser numeradas seqüencialmente com algarismos arábicos e apresentadas de modo a garantir uma boa qualidade de impressão. Precisam ter título conciso, grafados em letras minúsculas. As tabelas devem ser editadas na versão Word.6 ou 7, com formatação necessariamente de acordo com as dimensões da revista. Devem vir inseridas nos pontos exatos de suas apresentações ao longo do texto. As TABELAS não devem ser muito grandes e nem ter fios verticais para separar colunas. As FOTOGRAFIAS devem ser em preto e branco, sobre papel brilhante, oferecendo bom contraste e foco bem nítido. GRÁFICOS e DESENHOS devem ser incluídos nos locais exatos do texto. No caso de aprovação para publicação, eles precisarão ser enviados em disquete, e necessariamente em seus arquivos originais (p. ex., em Excel, CorelDraw, PhotoShop, PaintBrush etc.) em separado. As figuras, gráficos e mapas, caso sejam enviados para digitalização, devem ser preparados em tinta nanquim preta. As convenções precisam aparecer em sua área interna. 13 ETAPAS de encaminhamento dos artigos: ETAPA 1. Apresentação de três cópias impressas para submissão à Comissão Editorial da Revista e aos consultores. Os pareceres, sigilosos, são encaminhados aos autores para as eventuais mudanças; ETAPA 2. Se aprovado para publicação, o artigo deve ser reapresentado à Editora, já com as devidas alterações eventualmente sugeridas pela Comissão Editorial, em uma via em papel e outra em disquete, com arquivo gravado no formato Word. Devem acompanhar eventuais gráficos e desenhos suas respectivas cópias eletrônicas em linguagem original. Após a editoração final, o autor recebe uma prova para análise e autorização de impressão. dezembro 216 99 6978_Impulso_26.book Page 217 Wednesday, October 1, 2003 1:07 PM CONSULTORES DA IMPULSO EM 1999 ADEMIR GEBARA JÚLIO ROMERO FERREIRA AMÓS NASCIMENTO MÁRCIO DANELON ANTÔNIO LUÍS CHAVES CAMARGO MÁRCIO MARIGUELA BRUNO PUCCI MARCOS CASSIN CLÉIA M. DA LUZ RIVERO MARIA BEATRIZ BIANCHINI BILAC DAGMAR CASTRO MARIA CECÍLIA C. FERREIRA DOMINGOS ALVES DE LIMA NETO MARIA CECÍLIA RAFAEL DE GOES DOROTHEE SUSANNE RUDIGER MAURÍCIO LOURENÇÃO GARCIA EDSON DE CASTRO OLIVARI NABOR NUNES FILHO EDUARDO ISMAEL MURGUIA MARANON OSMYR FARIA GABBI JR. EDIVALDO JOSÉ BORTOLETO RINALVA CASSIANO SILVA ELIAS BOAVENTURA ROSA GITANA KROB MENEGHETTI ELISA P. GONSALVES ROSANA DO CARMO NOVAES PINTO EVERALDO TADEU QUILICI GONZALEZ ROSELI SCHNETZLER FRANCISCO COCK FONTANELLA RUBENS MURÍLLIO TREVISAN FRANKLIN WINSTON GOLDGRUB RUTH ADELE DAFOE HEITOR AMÍLCAR DA SILVEIRA NETO SEBASTIÃO NETO R. GUEDES HEITOR GAUDENCI JR. SÍLVIO DONIZETTI O. GALLO HUGO ASSMANN SUELI MAZZILLI JOÃO DOS REIS SILVA JR. TÂNIA MARIA VIEIRA SAMPAIO JOSÉ LIMA JR. VALDEMIR A. PIRES JOSIANE MARIA DE SOUZA ZULEICA DE CASTRO COIMBRA MESQUITA dezembro 217 99