DIGNIDADE HUMANA Antropologia Teológica B O acesso a capacidades básicas Introdução Dificuldade hoje: Fazer valer no plano social e em amplitude universal, o reconhecimento pleno da dignidade universal de todos os seres humanos. A crise do conceito de dignidade humana. O colapso dos socialismos “reais”: O equívoco antropológico. A escassa atenção dada à dinâmica dos desejos humanos: valorização pessoal, liberdade de iniciativa e livre fluxo da vontade humana de sonhos e devaneios. Conceber a dignidade humana somente a partir da satisfação de poucas necessidades humanas básicas: alimentação, saúde, educação, moradia. A crise desde o neoliberalismo As teses neoliberais. A maximização da rentabilidade do capital toma cada vez mais distância das urgências sociais e do processo produtivo. O comando do mercado globalizado fica sob o comando do capital financeiro e especulativo. O descaso com o ser humano. O capital financeiro mostrou-se cada vez menos preocupado com os seres humanos concretos. “O fosso da desigualdade virou abismo. Os mecanismos do mercado, distanciaram-se de urgências sociais geograficamente localizáveis. Uma tese ainda soberana: o mito do crescimento econômico. A crise da ortodoxia neoliberal Questiona-se... ...a idéia de mercado mundial fundamentada no domínio do econômico sobre o social. ...o domínio do capital financeiro, entendido como rentabilidade autoacumulativa, que tende a se distanciar da idéia clássica de economia: produção, circulação e consumo de bens e serviços. Uma nova idéia de mercado... ...Diferente do atual conceito neoliberal de mercado, exige: Uma re-vinculação da lucratividade do capital à dinâmica do sistema produtivo. A priorização de critérios de produtividade social: geração de empregos e valorização de todas as formas de atividade humana. Significa ainda: Controlar as diversas formas de rentabilidade. Possibilita o reingresso dos excluídos sociais no todo social. Os limites da questão sobre a dignidade humana. Historicamente, a tese de que há vidas humanas inúteis e socialmente nocivas. Na organização pré-moderna dos países europeus existiam formas brutais de discriminação social, muitas vezes com o uso de recursos religiosos (guerras religiosas, caça a bruxas, etc.). Ainda do ponto de vista histórico... No interior da frágil unidade desse sistema social pré-moderno havia um mínimo de atenção para com os deficientes físicos e psíquicos, bem como para com os velhos e enfermos. A industrialização e os mecanismos de mercado. Provocaram uma abrupta ruptura entre o sistema produtivo e os aspectos sociais. Desaparece o mínimo cuidado e atenção que se tinha com os seres humanos improdutivos do ponto de vista econômico. Esse contingente de seres improdutivos e inúteis... ...Sofrem um brutal esvaziamento de sua dignidade humana. Motivo principal: não podia oferecer nenhuma força de trabalho significativa em uma nova ordem econômica, produtiva. O trabalho humano transforma-se em mercadoria. “Vidas que não merecem viver”. Tratam-se de seres humanos produtivamente inúteis. Seu estado psíquico ou mental torna-se um peso excessivo. Isto significou uma profunda transformação na percepção da dignidade humana: elimina-se aqueles que economicamente são um peso social. “A insensibilidade normalizada” Uma realidade inerente à concepção neoliberal de mercado. Uma assustadora combinação hoje: exclusão social e insensibilidade crescentes. A dignidade humana universal pode ser uma ilusão, fonte de hipocrisia e mecanismo ideológico, se estiver descolada da realidade. A tese ontológica da dignidade humana. “A proteção do indivíduo com respeito às implicações da pesquisa em biologia e genética é destinada a salvaguardar a integridade da espécie humana como um valor em si mesmo, e como o respeito da dignidade, e liberdade e dos direitos de cada um de seus membros”. (Comissão Internacional de Bioética – Unesco 1993) Uma dupla questão: A dignidade humana é de fato uma dimensão constitutiva de todos os seres humanos simplesmente pelo fato de pertencerem à espécie humana? Quais critérios ou referências biossociais e históricas que devem ser levados em conta para afirmar a dignidade universal de todos os seres humanos? A bioética e as biociências. Nesse campo, exige-se um conceito mais prático e operacional da dignidade humana, a fim de verificar o alcance das pesquisas. A dignidade humana como: Princípio ontológico. Princípio socioeconômico. Princípio biológico. A Igreja católica e a dignidade humana A necessidade de uma conexão entre a concepção ontológica da dignidade humana e um referencial orgânicobiológico. Defende uma definição espaçotemporal da dignidade humana ligada aos momentos da concepção e da morte da vida humana. Algumas limitações... Uma visão meramente biologicista não consegue de apreender a complexidade do processo que envolve a definição de dignidade humana. Mesmo a argumentação religiosa pode ter um alcance limitado: para alguns cristão todos somos criaturas de Deus, mas somente aqueles que confessam a fé em Jesus Cristo podem ser considerados filhos de Deus. Um exemplo: “Não matarás!” Para muitos estudiosos, esse mandamento inicialmente se restringia ao âmbito interno do povo judaico. Era “normal” a possibilidade de aniquilar os adversários em nome de Javé. Mais um exemplo... Durante séculos, o tema da indignidade humana sobressaía no contexto religioso ocidental: o pecado era tido como a marca primeira da condição humana. A contrapartida histórica... O antropocentrismo moderno colocado em marcha pelo humanismo renascentista, pela razão iluminista, pelo mito do progresso,... No século XX temos o questionamento radical dessa petulância antropocêntrica. O universalismo da dignidade humana. Duas tradições bem distintas A tradição política. Nela se inscrevem as lutas pela liberdade, igualdade, direitos humanos e democracia como valores universais. A tradição econômica. O pensamento econômico burguês só atribui direitos a quem toma iniciativa, sabe competir, chega a ser um agente econômico produtivo. Uma certa perspectiva darwinista perpassa o pensamento econômico burguês: somente os mais fortes sobrevivem, evoluem. A necessidade de linguagens operacionais. Postulado em torno da dignidade humana: “expandir ao máximo possível o direito concreto dos indivíduos e grupos sociais a terem acesso às mesmas regras do jogo daqueles que melhor conhecem e às regras do jogo da sociedade em que vivem”. Por meio da educação. Uma condição necessária. “A defesa da dignidade humana pressupõe que uma sociedade não queira continuar a mentir constantemente a si mesma”. Na prática, os níveis de sensibilidade solidária estão muito aquém do necessário para promover a inclusão social. Além disso, é preciso elaborar linguagens sobre a dignidade humana que possam encaminhar consensos e atitudes concretas com relação a melhorias de vida. A pobreza, por exemplo, deve ser vista como privação de capacidades básicas e não apenas como baixo nível de renda. “A corporeidade viva”. Uma dimensão fortemente ligada à solidariedade. Diz respeito a necessidades e desejos humanos (algo ignorado pelos socialismos “reais”). Nos possibilita ir além de critérios filosóficos e religiosos tidos como absolutos e consequentemente indiscutíveis.