SOCIEDADE DO VALE DO IPOJUCA MANTENEDORA DA FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA – FAVIP COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO CARUARU 2010 MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à FAVIP – Faculdade do Vale do Ipojuca, como requisito para conclusão do curso de Bacharelado em Psicologia, sob a orientação da Profª Anna Carvalheira Chaves. CARUARU 2010 B238b Barbosa, Maraisa Eslandy de Sousa. O brincar na psicanálise: do objeto transicional a constituição do sujeito / Maraisa Eslandy de Sousa Barbosa. -- Caruaru : FAVIP, 2010. 42 f. Orientador(a) : Anna Carvalheira Chaves. Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade do Vale do Ipojuca. 1. Bricar (Psicanálise). 2. Sujeito. I.Título. CDU 159.9(10.2) Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367 MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO Trabalho de Conclusão de Curso defendido e aprovado no Curso de Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca, pela banca examinadora: _____________________________________________ Prof ª Anna Carvalheira Chaves Orientador _____________________________________________ Getúlio Amaral Júnior Faculdade do Vale do Ipojuca ______________________________________________ José Daniel da Silva Faculdade do Vale do Ipojuca Dedico este trabalho primeiramente a Deus, pois sem ele nada seria possível. E a minha família pelo amor, dedicação e incentivo a tudo que realizo. AGRADECIMENTOS Neste momento de alegria, na qual celebro o final e o começo de uma nova etapa, gostaria de agradecer primeiramente a Deus, pelas oportunidades que me foram dadas na vida e por ter me iluminado durante esse tempo, me fazendo superar as dificuldades encontradas no caminho. À minha grande família que tanto amo. Agradeço em especialmente a minha mãe Marliete pelo amor incondicional, pelo apoio e por ter acreditado em mim. Ao meu pai Eronides, pela presença e proteção. Ao meu esposo Edvan pelo companheirismo e incentivo e a minha filha Marielly pela compreensão. À minha orientadora Anna Carvalheira Chaves, por me ajudar na construção do presente trabalho, pela paciência, apoio e atenção que recebi durante este tempo. Aos meus professores e colegas da turma 0501, pela grande troca de conhecimentos e discussões que tivemos ao longo do curso. Em especial as minhas amigas Alexandra Cintra, Débora Aragão e Sandra Ferraz, pela amizade e carinho que compartilhamos durante nosso caminhar. Agradeço com muito carinho a todas as pessoas, que de alguma forma, me ajudaram e contribuíram para a realização desse trabalho. “A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias” (Lya Luft) Resumo O presente trabalho tem por objetivo discorrer sobre a importância do brincar e como se dá a sua aplicação na clínica psicanalítica infantil, analisando e verificando a sua importância, à luz de alguns teóricos como Freud, Lacan, Melaine Klein, Donald Winnicott e Ricardo Rodulfo, os quais viram que o brincar além de ser um meio pelo qual se acessa o inconsciente, é importante para a constituição da criança, enquanto sujeito. Este tema é de suma importância, pois o brincar funciona como uma metáfora dos conflitos psíquicos e seu ato é repleto de simbolismo, na qual os desejos e conflitos inconscientes irão adquirir representação. Através do processo lúdico o psicanalista poderá ter acesso ao mundo simbólico, uma vez que este equivale à associação livre do adulto. Como o brincar se encontra no espaço potencial, que é um espaço de possibilidades, onde ocorre à atividade lúdica, a criança poderá transitar entre o real e o imaginário, e elaborar suas angústias que são geradas pelas fantasias infantis, de forma que haja a reconfiguração do sofrimento psíquico. No brincar ela busca alternativas para transformar sua realidade, criando e recriando situações na qual haja uma satisfação imediata de seus desejos, saindo da posição de passividade para tornarem-se sujeitos ativos. O brincar da criança faz com que ela se aproprie do corpo e se constitua enquanto ser desejante. Palavras- Chave: Brincar. Psicanálise. Sujeito. ABSTRACT This paper aims to discuss the importance of play and how is its application in clinical psychotherapy, analyzing and verifying their importance in light of some theorists to Freud, Lacan, Melaine Klein, Donald Winnicott and Ricardo Rodulfo, which saw the play in addition to being a means by which to enter the unconscious, it is important for the formation of the child as subject. This theme is of paramount importance, because the play functions as a metaphor of psychic conflicts and their act is replete with symbolism, in which the desires and unconscious conflicts will gain representation. Through the process play the psychoanalyst could have access to the symbolic world, since this is equivalent to free association in adults. As the play lies in the potential space, which is a space of possibilities, where is the play activity, children can move between the real and imaginary, and develop his anxieties that are generated by childhood fantasies, so there is a reconfiguration of psychological distress. In the play it seeks alternatives to transform your reality, creating and recreating situations in which there is immediate gratification of their desires. Leaving the position of passivity to become active subjects. A child‟s play makes it to appropriate body and is constituted as desiring. Key Words: Playing. Psychoanalysis. Subject Sumário Introdução...................................................................................................................10 As interfaces do brincar com o inconsciente..............................................................16 O brincar como constituição do Sujeito......................................................................25 Considerações Finais.................................................................................................40 Referências.................................................................................................................I Introdução O presente trabalho tem por objetivo discorrer sobre o brincar e como se dá sua aplicação na clínica psicanalítica infantil. Mas antes de adentrarmos nesta temática, iremos ver o significado da palavra brincar. Segundo Bueno, brincar significa: divertir-se; distrair-se; dizer algo engraçado. Os chistes, termo este utilizado pela psicanálise, é análogo a uma piada, é dizer algo engraçado para a obtenção de prazer que está relacionado ao objetivo de arrancar gargalhadas de quem as escuta. Os trocadilhos utilizados em muitas das piadas, são uma forma de falar algo sarcástico. É usar uma palavra, mas com a intenção de dizer outra. Para a psicanálise, o brincar é envolto de significações, uma vez que é através das fantasias de seus desejos, que seus conflitos serão elaborados. Estas fantasias ajudam a suportar a realidade externa, uma vez que esta foi reconfigurada. Por este motivo, no brincar das crianças se vê com freqüência a inversão dos papéis, já que no mundo real, a criança é apenas um sujeito passivo a mercê do desejo do Outro. O brincar está ligado também às representações sociais. É possível ver claramente nas brincadeiras infantis, meninas brincando de bonecas e fazendo de conta que essas são suas filhas. Muitas vezes no brincar se aprende a seguir regras e a distinguir o certo e o errado. Ao transcorrer sobre estas questões vê que este tema é de suma importância, pois o brincar funciona como uma metáfora dos conflitos psíquicos. Através do processo lúdico o psicanalista poderá ter acesso ao mundo simbólico da criança, uma vez que ela estará mostrando de forma metafórica seus conflitos internos existentes. O brincar é uma ponte que liga o real ao imaginário. De forma inconsciente a criança irá projetar para o mundo externo conteúdos do seu mundo interno. Os sonhos foram para Freud (1900) um caminho para a descoberta do inconsciente, uma vez que através dos sonhos há também uma realização dos desejos, assim como no brincar. O inconsciente é expresso através dos atos falhos, dos chistes, dos sonhos e porque não, do brincar? Uma vez que é através deste que o psicanalista se aproxima da realidade psíquica da criança. Esta instância não se manifesta diretamente à consciência, mas se consegue de forma indireta através do brincar, como substituição dos conteúdos recalcados, ou seja, o brincar é um substituto dos objetos de desejo. O brincar é uma atividade na qual a criança utiliza a imaginação e a criatividade, criando e recriando situações de seu cotidiano, como uma forma de elaboração de seus conflitos. Os conflitos psíquicos são gerados pela fantasia, quanto mais elaborados na brincadeira estes terão uma nova reconfiguração. Como este ato é repleto de simbolismos e metáforas o psicanalista chegará mais próximo do mundo simbólico da criança. Existem indícios de que desde a vida intra-uterina o bebê já possui a capacidade de brincar, uma vez que o bebê ainda no útero materno brinca com suas mãos, passando a sugar seu polegar por exemplo. Após seu nascimento, a capacidade de brincar irá depender da capacidade de brincar do Outro, ou seja, é necessário que haja um ambiente “suficientemente bom”, para que através da capacidade de brincar, suas angústias sejam amenizadas. O brincar é uma função importante para o desenvolvimento psíquico da criança, uma vez que funciona como uma defesa contra a ansiedade. Este serve como uma descarga emocional na qual são possibilitadas as liberações dos conflitos internos infantis. No processo lúdico tais conflitos se repetem, visto que a criança expressa simbolicamente as fantasias e desejos inconscientes. Winnicott (1975) nos fala da importância de que haja uma “mãe suficientemente boa” e dos objetos e fenômenos transicionais, para que a criança passe a utilizar a capacidade imaginativa. A mãe suficientemente boa é a responsável de criar um ambiente suficientemente bom. Isto ocorre por meio dos jogos utilizados entre mãe e bebê. É nessa dependência absoluta que o bebê tem a ilusão de que a mãe é uma extensão de si, ocorrendo assim o fenômeno de ilusão. O bebê ao nascer encontra-se num estado de dependência absoluta, isto quer dizer que mãe e bebê estão fusionados, não são dois sujeitos, mas um é extensão do outro. Com o passar do tempo o bebê irá entrar em um estado de dependência relativa, na qual começa a separação da relação dual. Este é o processo de desilusão, no qual a mãe passa a ser vista pelo bebê como objeto externo a si, havendo dessa forma a possessão do não-eu, que ocorre no espaço potencial. O espaço potencial é um espaço de possibilidades, no qual o bebê para suportar a ausência materna, utiliza da capacidade imaginativa. Este espaço está entre o objeto transicional e o fenômeno transicional. O objeto transicional seria o deslocamento da relação com a mãe para um objeto externo. E o fenômeno transicional é a relação do bebê com esse objeto. O apego do bebê ao objeto pode revelar a negação de uma ameaça inconsciente, sendo este apego uma defesa contra a ansiedade. O brincar ocorre nesse espaço transicional, pois este se dá entre o real e o imaginário. As realidades internas e externas se entrelaçam, não havendo nem dentro, nem fora. Por este motivo o brincar é de suma importância para o desenvolvimento saudável da criança, pois é através deste que haverá a expressão e elaboração dos conflitos. Melanie Klein (1996) foi à pioneira na psicanálise infantil e diz que o brincar se assemelha a associação livre do adulto, uma vez que é no momento lúdico que há a expressão do inconsciente da criança. É através do brincar que a criança irá expressar o que o adulto faz através da associação livre. Sendo difícil manter uma comunicação verbal através da associação livre, a inserção do brincar na clínica psicanalítica infantil se faz necessária. Segundo Klein os personagens ou personificações nos jogos das crianças se originam de imagos internas. Na brincadeira a criança irá utilizar as imagens que já estão formadas internamente, as quais irão ser projetadas para seu mundo externo. Lacan diz que a criança nasce atravessada pela linguagem, ou seja, é a fala do Outro primordial que irá inserir os primeiros significantes do sujeito aos quais retornarão aos mesmos lugares. A este retorno Lacan o denominou de elos associativos de significante. Segundo Lacan o bebê está assujeitado ao Outro, uma vez que ele é objeto desejo da mãe, estando alienado a ela. Para que haja o processo de desalienação é necessária a entrada de um terceiro na relação, que insira a lei para haver o corte da simbiose com relação à mãe, para que a criança seja inserida no campo da linguagem. Freud, do ponto de vista histórico, foi o primeiro a aplicar a técnica psicanalítica no caso Hans e observou o jogo do Fort/da, como sendo uma atividade lúdica. No for/da foi observado que o aparecimento e desaparecimento do carretel tornou-se um jogo repetitivo, pois este era uma representação simbólica da ausência materna, na qual Ernest projetava para o real a experiência desagradável, tornandoa prazerosa. No caso de Hans os conflitos sugiram a partir da fantasia de ser mordido por um cavalo, ao qual desencadeou sua fobia. Isso ocorreu por que Hans deslocava para os cavalos a sua destrutividade e temores em relação a seu pai. Esta era uma relação de ambigüidade, pois ao mesmo tempo Hans amava e odiava seu pai, uma vez que este estava ocupando o lugar ao lado da sua mãe, que na sua fantasia, lhe pertencia, e que através do brincar houve uma redução da angústia vivida por ele. Vemos que em ambos os casos o entrelace entre o imaginário e o real fez com que as crianças deixassem a posição de sujeitos passivos para tornarem-se sujeitos ativos no ato do brincar. Rodulfo (1990) que é um leitor de Lacan nos fala que existem funções do brincar mais arcaicas que o fort/da que estão relacionadas com a edificação do próprio corpo. Estas se dividem em três, na qual a primeira o bebê arranca materiais do corpo do Outro para construir o seu. Na segunda ele ainda arranca materiais do corpo do Outro, porém não os toma como parte seu corpo. A terceira e ultima função é quando começam os jogos de esconde-esconde e que tem relação com o jogo do fort/da de Freud. No brincar a criança cria um mundo particular no qual o imaginário e real se entrelaçam. Na atividade lúdica ela busca alternativas para transformar sua realidade, para que haja uma satisfação imediata de seus desejos. Como se observa, este trabalho terá como norte alguns teóricos que na clínica psicanalítica infantil, viram a importância do brincar como método de investigação do inconsciente, e o brincar como modo de constituição do sujeito. Desta forma dispomos de várias bases psicanalíticas para nortear esse trabalho. O trabalho está dividido em dois tópicos. O primeiro tem por título: As interfaces do brincar com o inconsciente. Neste tópico será abordado o tema referente à psicanálise. Este foi um método desenvolvido por Freud para a investigação do inconsciente. Este é atemporal, e por isso os conteúdos que foram antes recalcados, irão ser revividos com a mesma força e intensidade. Esta instância não aparece de forma direta, e sim de modo disfarçado, através de suas formações. Desta forma, o inconsciente irá se tornar disponível através dos atos falhos, que são deslizes na fala e que través destes há a realização de um desejo inconsciente recalcado; Dos sonhos, foi através desta formação que Freud descobriu a existência do inconsciente. Uma vez que por meio dos sonhos há a realização dos desejos encobertos. Ao realizar os desejos através dos sonhos haverá a elaboração dos conflitos; E dos chistes como já foi dito anteriormente, que é em si um jogo de palavras, na qual também há uma obtenção de prazer. Diante dessas formações do inconsciente, na qual a função que todos desenvolvem é a obtenção de prazer através da realização de um desejo inconsciente, surge à questão: quais são as interfaces do brincar com o inconsciente? Pois bem, assim como no sonho, o brincar irá revelar seus conflitos, pois a criança pode dar representação a um desejo. Desta forma o acesso ao mundo interno se dará por meio da simbolização dos conteúdos recalcados. É nesta atividade que a criança irá canalizar suas angústias, uma vez que os brinquedos são representantes externos de seu mundo interno. E é na transferência com o analista que irá haver a reedição desses conflitos, deslocando para a figura do analista sentimento que é relacionado ao Outro. A partir da capacidade de brincar do outro e com o Outro que haverá a constituição do bebê enquanto sujeito. Desta forma surge o segundo tópico desse trabalho: O brincar como constituição do sujeito. Neste tópico será vista a importância do brincar e do Outro nesse processo lúdico. Segundo Lacan o bebê já nasce atravessado pela linguagem, ou seja, é a partir do desejo materno (Grande outro) que o bebê é inserido no campo da linguagem, ele vem ocupar o lugar que é marcado pelo desejo materno. Ele se torna o objeto de desejo do Outro. Com a entrada do Nome-do- pai, de um terceiro na relação, irá haver uma quebra dessa simbiose. Através da castração, o bebê passará pelo processo de desalienação, fazendo com que, o universo de significações se estenda para o universo social. Com a inserção da lei a criança entrará na ordem da linguagem, saindo da posição de objeto do Outro para se tornar ser desejante. 1 As interfaces do brincar com o inconsciente A psicanálise foi desenvolvida por Freud como método de investigação do inconsciente, ou seja, buscar o que está oculto por meio das palavras (associação livre) e produções imaginárias (sonhos e o brincar). O vocabulário de Laplanche nos diz que a psicanálise é: Um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este método baseiase principalmente nas associações livres do sujeito, que são garantia da validade da interpretação. A interpretação psicanalítica pode estender-se a produções humanas para as quais se dispõe de associação livre. (LAPLANCHE E PONTALIS. 2004, p.384/385). O inconsciente é atemporal, por este motivo é que, conteúdos que foram recalcados durante a infância voltam com a mesma força e vivacidade no momento em que foi vivido. São esses conflitos que irão marcar a vida do sujeito e a psicanálise se utiliza das mensagens do inconsciente que é enviado para a consciência através de suas formações. O objetivo da psicanálise é fazer com que o sujeito descubra e resolva seus conflitos internos que são geradores de angústia. As formações do inconsciente são expressas através dos atos falhos, dos chistes, dos sonhos. Como se observa, o inconsciente não está disponível a consciência, ele irá aparecer de modo camuflado, se apresentando de forma indireta através dos sonhos, dos chistes e no caso de crianças no brincar. O sonho foi para Freud (1990) o caminho para a descoberta do inconsciente, uma vez que através dos sonhos há a realização dos desejos. Através do sonho os desejos encobertos são realizados e revelados. [...] a elaboração onírica resulta de uma mediação necessária para suportar o real, inscrevendo um traço separador entre a percepção e o lugar do sujeito. Sonhar é a possibilidade de inserir um diferencial entre um lugar de sujeito e a posição de objeto no mundo e nas relações. Por essa razão, os sonhos sempre nos provocam a impressão de enigmas, na medida em que transformam o que foi vivido. (COSTA, 2006, p.37). É através do sonho que haverá a elaboração dos conflitos internos fazendo com que a realidade psíquica satisfaça a proposta do sonho que é realizar os desejos inconscientes. O sonhar toma o lugar da ação, assim como no brincar. Os chistes1 por sua vez, também são utilizados como uma forma de brincar, uma vez que o mesmo é em si um jogo de palavras, na qual o sujeito se utiliza das palavras como uma fonte de obtenção de prazer, como por exemplo, dizer o que quer sob um disfarce, tem relação com a realização de um desejo. Diante disso aparece a seguinte questão: Se os sonhos e os chistes são uma forma de realização dos desejos inconscientes, por que o brincar não seria também uma forma criativa da realização de um desejo encoberto? O brincar é uma função importante para o desenvolvimento psíquico da criança, uma vez que funciona como uma defesa contra a angústia. Este serve como uma descarga emocional na qual são possibilitadas as liberações dos seus conflitos internos infantis. No processo lúdico tais conflitos se repetem, visto que a criança expressa simbolicamente as fantasias e desejos inconscientes. É brincando que se aprende a transformar e a usar os objetos do mundo para nele realizar-se e inscrever os próprios gestos, sem perder contato com a própria subjetividade. Por meio do brincar podemos manipular e colorir fenômenos externos com significado e sentimentos oníricos, além de podermos dominar a angústia, controlar idéias ou impulsos e, assim, dar escoamento ao ódio à agressão. Brincar envolve uma atitude positiva diante da vida. Por meio do brincar, podemos fazer coisas, não simplesmente pensar ou desejar, pois brincar é fazer. (PARENTE, 2007, p. 418). Desta forma o sonho, assim como o brincar irá revelar seus conflitos. Em ambos a criança pode dar representação a um desejo, que no real dificilmente poderá ser realizado. Nestas atividades a criança canaliza suas angústias, modificando sua realidade externa. Os sonhos, assim como o brincar, resultam de uma tentativa de elaboração e são uma demonstração da realidade interna do sujeito. Em ambas, o acesso ao mundo interno se dá por meio da simbolização dos conteúdos recalcados. Freud em A interpretação dos sonhos nos diz: Os sonhos das crianças pequenas são freqüentemente pura realização de desejos e são, neste caso, muito desinteressantes se comparados com os sonhos dos adultos. Não levantam problemas a serem solucionados, mas, por outro lado, são de inestimável importância para provar que, em sua natureza essencial, os sonhos representam realizações de desejos. (FREUD. 1900, p.119). 1 Termo utilizado por Freud que análogo a uma piada, gracejos. Os chistes são utilizados como uma forma de satisfazer um desejo inconsciente, ou seja, dizer sob forma de disfarce algo que geralmente não é aceito socialmente. Por este motivo os chistes é em si um jogo de palavras. Observamos que ao sonhar as crianças de forma inconsciente realizam seus desejos, por exemplo, se os pais de uma criança prometem que vai levá-la a um determinado lugar, mas que por algum motivo este passeio não venha acontecer. A criança por sua vez já criou uma expectativa com relação a este passeio. Digamos então que no mesmo dia, a criança tenha um sonho com o tal lugar que ela tanto almejava ir; Neste exemplo, vemos que no real o passeio não se concretizou, porém através do sonho ela realizou seu desejo como forma de compensação. Desta forma vemos que só é possível chegar aos conteúdos inconscientes através dessas instâncias. No caso das crianças chegaremos o mais próximo de sua realidade interna através do brincar. Os sonhos, os jogos e brincadeiras, as encenações dramáticas, os objetos transicionais e as narrativas fazem parte da cadeia de transformação, e cada uma destas formas e modalidades simbolizantes tem a sua eficácia subjetivante e terapêutica: ao permitir que as phantasias inconscientes se expressem se articulem e sejam simbolizadas, confere-se ao sujeito uma ampliação na capacidade de fazer contato, processar e comunicar-se em um nível mais profundo. (FIGUEIREDO. 2009, p. 34). É no jogo que ela irá se utilizar de imagos internas, na qual a criança cria personagens para dissociar as identificações contraditórias que ela ainda não é capaz de integrar. A criança projeta para seu mundo externo as imagos criadas como função defensiva contra as angústias. A projeção é um mecanismo de defesa utilizado para atribuir ao outro um desejo que lhe é próprio; Sendo assim a criança passa a lidar melhor com as contradições, culpas e fantasias, nas situações lúdicas através da simbolização, uma vez que os brinquedos são representantes externos de seu mundo interno. O sonho coloca em ato não somente o signo do objeto que move o desejo, mas, fundamentalmente, um mais-além que aponta nossa falta mais radical. Essa falta, experienciada nas relações primárias, é resultante da nossa referência mais direta a ciclos naturais. Como seres de linguagem, nos distanciamos irrevogavelmente da natureza. Corriqueiramente, na construção de nossa realidade, essa falta precisa ser encoberta. O encobrimento permite uma certa constância de nossa percepção das coisas. Quando essa constância não acontece é que se produz o “encontro” do sonho, que Lacan designou como encontro do real. (COSTA. 2006, p.21). O aforismo lacaniano fala que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Isto quer dizer que o inconsciente é formado por cadeias de significantes, que se articulam com a metáfora e a metonímia. O inconsciente se manifesta através dos jogos de linguagem A transferência é muito importante para o trabalho psicanalítico, pois através deste o psicanalista também terá acesso a conteúdos que não seriam capazes de ser acessados de outra forma. O vocabulário de psicanálise define transferência como: Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada. (LAPLANCHE E PONTALIS. 2004, p.514). É na transferência com o analista que vai haver a reedição dos conflitos, ou seja, a transferência é o deslocamento de sentimentos em relação ao analista que na realidade, está relacionado com o Outro. No caso do brincar, o psicanalista deve estar atento a posição ao qual a criança o colocou, que papel está desempenhando no momento lúdico, pois o brincar é uma ação que expressa simbolicamente suas ansiedades e fantasias inconscientes e é através dessas fantasias que o psicanalista entrará em contato com sua realidade psíquica. Na mediada em que o analista se prontifica a abrir mão da sua identidade, por algum tempo e em parte, e receber os conteúdos internos da criança, pode perceber o jogo dinâmico de relações que estão sendo expressas, as fantasias, defesas e ansiedades subjacentes. Isso o instrumenta para, a seguir, interpretar a situação, com vistas a esclarecê-la à criança na transferência e, assim, propiciar um melhor contato com a realidade. (SUSEMIHL. 2008, p.250). A criança projeta para a figura do analista as imagos que estão formadas internamente. O mundo interno da criança é formado pelos primeiros objetos que foram introjetado do mundo externo. Imagos é a forma como a criança irá perceber o analista e que tem haver com as relações do meio familiar, sejam elas reais ou imaginárias. É através das fantasias que se acessa o mundo inconsciente. Durante o processo analítico o que importa não é identificar se o que a criança expressa é real ou fantasia. O psicanalista irá trabalhar com o que surge neste ato lúdico e ver os conteúdos conflituosos, causadores de angústia que surgem para serem trabalhados. É comum ver que as crianças muitas vezes colocam o analista na posição de sujeito passivo. Isto ocorre porque no brincar ela pode se tornar o personagem que “ordena”; A criança neste momento torna-se o ser desejante e o psicanalista irá apenas ocupar o lugar de assujeitado. Entretanto, na psicanálise com crianças é preciso a convocação da fala de seus genitores. Isto se dá por meio das entrevistas preliminares, e tem como objetivo averiguar qual o lugar que a criança ocupa no desejo dos pais. Por este motivo esse primeiro contato se faz necessário para fazer a distinção entre o que os pais dizem e o que a criança leva para a análise. É sabido que os pais têm uma função importante sobre o sintoma da criança, pois ela está no lugar determinado pelo desejo e fantasia dos pais, cabendo ao analista separar a demanda que é trazida pelos genitores e o sintoma da criança. A criança é escutada enquanto sujeito singular. ...a escuta analítica deve ser estendida para além do sintoma que a criança apresenta: estendida até seu meio familiar e social, enfatizando, assim, a dimensão histórica de cada sujeito, pois, se as respostas (sobre seu desejo) lhe forem vedadas, a criança terá dificuldades em introduzir sua questão de outro modo que não pelas desordens, sejam corporais, funcionais ou comportamentais. (SOARES; ONO. 2008, p.38). O que importa na análise não é o brinquedo e sim o brincar. Porém através da escolha do brinquedo, a criança irá mostrar de forma metafórica os conteúdos, mas só vai ser possível uma interpretação a partir do ato de brincar. Através do brinquedo irá haver a projeção das fantasias. Por este motivo a associação livre da criança se dará por meio do brincar, uma vez que a comunicação verbal através da associação livre é muito reduzida na criança. O brincar, assim como o sonho, é para Klein uma atividade com sentido psíquico que aponta para o inconsciente, e ambas as atividades são por ela consideradas como uma associação livre numa sessão de análise, como elos de uma cadeia associativa que comporta verbalizações, atitudes, gestos corporais, expressões e manifestações de todos os tipos. Todos os elementos sempre são compreendidos no seu movimento e no seu momento dentro da sessão, é isso o que lhe dá o seu sentido específico na relação transferencial com o analista. (SUSEMIHL. 2008, p.75) No setting2 terapêutico o brincar não é o único meio de acesso ao inconsciente. Suas expressões, as histórias infantis e os desenhos são também uma forma de acessar o mundo interno da criança. Os desenhos feitos durante a análise revelam o que está encoberto: suas fantasias, seus medos e suas angústias. Segundo Souza (2008) “Os brinquedos não são o único requisito para a análise através do brincar; todas as atividades da criança na situação são tomadas como 2 Espaço utilizado nas sessões de análise, que permite que a criança (ou adulto) possa tornar-se sujeito no ato do brincar, uma vez que este é um espaço potencial É o local na qual se estabelecem os vínculos entre psicanalista e a criança. comunicação: seus desenhos, recortes, atividades com água, modelagem, suas dramatizações etc.” Os desenhos são muito utilizados nos casos em que as crianças vítimas de violência sexual têm dificuldades para falar sobre o ocorrido. E através dos desenhos as crianças (especialmente as pequenas) podem dar representação ao que aconteceu e também servem como uma forma de alaboração de uma situação considerada traumática. Em outros casos as crianças podem expressar por meio dos desenhos sua dinâmica familiar ou o meio social ao qual estão inseridos. É comum encontrar nos desenhos da criança que vive num contexto social de violência, figuras que mostram sua realidade externa, como por exemplo, desenhos de pessoas armadas, brigando e até mesmo utilizam figuras de seu mundo interno para mostrar os conflitos que estão relacionados ao mesmo tempo com seu meio social e familiar. Como se pode observar existem várias formas de se acessar o inconsciente infantil. Mas para que haja uma boa transferência o analista deve ter a capacidade de brincar, de está aberto para os conteúdos que a criança irá projetar nele. Portanto: O analisa pode realizar brincadeiras com seu paciente, na tentativa de (como já aconteceu um dia entre o bebê e sua mãe) comunicar afetos e novos tipos de sensações inerentes àquela dupla, o que por vezes pode ser vivido dentro de uma relação com um outro (analista como objeto objetivamente percebido) ou em situações de regressão à dependência absoluta (analista como objeto subjetivo. (CALLIA. .2008, p.149). Com a capacidade de brincar do analista vai se produzir a área do jogo, na qual haverá o espaço de encontros e acontecimentos. O brinquedo metaforiza a realidade interna. A metáfora como meio de comunicação é que irá gerar um espaço de representação simbólica. Metaforizando, a criança ocupa outro lugar na própria história. São próprios dos significantes a ambigüidade semântica, o deslocamento, a possibilidade de girar, de armar diferentes circuitos e de montar roteiros que, quando criados pela criança, podem produzir efeitos de significação diferentes. Por isso, a mesma palavra não terá o mesmo significado, se usada num contexto diferente. (GUELLER. 2008, p. 88). Figueiredo (2008) relata que a posição que o analista deve ter é uma presença reservada. Isto quer dizer que o analista deve está no espaço de possibilidades, sendo este um campo rico de simbolizações que vai fazer com que o sujeito (no caso, a criança) possa dar representação à suas fantasias e angústias. Esta presença preservada do analista irá propiciar para que se estabeleça a transferência. O termo “presença reservada” indica, em primeiro lugar, uma presença côncava do analista, ou seja, um modo de estar presente em que se constitui e mantém uma reserva de espaço potencial no qual o paciente pode vir a ser. Indo além: será nesse espaço vazio, mas garantido pela presença reservada do analista que se poderão instalar os jogos transferenciais e contratransferenciais e as demais modalidades e dimensões da relação terapêutica indispensáveis para que a análise progrida e propicie transformações. (FIGUEIREDO. 2008, p.112). No setting analítico, o psicanalista ocupa o lugar do Outro para a criança, transferindo para ele sentimentos que são uma repetição do que não foi bem resolvido na relação com as figuras parentais para a relação com o analista, uma vez que na transferência ocorre a mesma conjuntura de ambivalência de sentimentos, assim como as dirigidas ao seu Outro primordial. O analista é tanto um objeto subjetivo quanto um suporte do princípio de realidade, convertendo-se em uma espécie de objeto transicional. Nessa medida, se entrelaçam sem grandes dificuldades para nossa compreensão, as experiências de transferências, o brincar, o ato criativo e o relato do sonho, pois todos transitam nesse espaço [...] em que o subjetivo e o objetivo se acoplam sem coincidir, gerando uma realidade de nova espécie. Nessa realidade, os objetos são ao mesmo tempo inventados e descobertos, e esse é justamente o estatuto do analista na transferência. (FIGUEIREDO. 2008, p.137). Como se observa existem vários outros que fazem parte da existência da criança, que tem como eixo fundamental a relação da criança com o Outro primordial, que é a mãe. Esta é quem vai inserir a criança no campo da linguagem através de seu desejo. São suas palavras fundadoras que irão dar significação às manifestações do bebê, antecipando-o enquanto sujeito. A capacidade de brincar do bebê irá depender da capacidade de brincar desse Outro. Na relação mãe bebê existem brincadeiras que são possíveis de serem observadas. Os balbucios do bebê e a fala infantilizada que a mãe utiliza para manter uma comunicação com seu filho, são exemplos, que mostram como essa interação se faz necessária para que haja a constituição do bebê enquanto sujeito. O “manhês- tipo de fala dirigida à criança pequena [...] muitos foram os nomes atribuídos a ela: baby talk ou fala infantilizada, manhês; mas o termo “fala dirigida à criança” pretende recuperar o papel da criança como sujeito ativo nesse processo interativo. (PRAZERES; CALVACANTE. 2009, p.242). Não é a mãe falar pela criança, mas é se utilizar do manhês para haver essa interação, na qual possibilite a criança tornar-se ativo enquanto sujeito. Assumindo a posição de sujeito falante na relação. (PRAZERES; CALVACANTE. Pág.244). Esta fala dirigida a criança é importante, pois através desta haverá a inserção da criança no campo simbólico. É na relação com seus cuidadores, que representam uma e outra dessas funções, que a criança vai constituir seu psiquismo- necessita de um outro que lhe transmita palavras, significações, para montar sua identidade, sua imagem corporal e constituir-se como um sujeito, com um corpo e uma história própria. (BERNARDINO. 2009, p. 38). É a partir da linguagem que a criança irá se descolar da simbiose materna, para se inserir no campo simbólico. Contudo essa simbiose como condição primeira se faz necessária, pois é este outro que irá lhe transmitir palavras carregadas de significações. E estas palavras fundadoras irão imprimir marcas no corpo. Desta forma o brincar tem um papel fundamental na constituição do sujeito, pois através deste há a busca da satisfação dos desejos. No brincar a criança se utiliza da imaginação do “faz-de-conta” e cria seu mundo ideal, ou seja, o simbólico é utilizado como representação do seu mundo interno. Bernardino (2009. p.57) nos diz que “[...] é preciso também que o cuidador do bebê crie momentos de presença significativos, para que em seus momentos de ausência possa ser lembrado, dando origem às representações, pela vivência da falta.” São esses momentos de ausência que irá possibilitar ao bebê dar representação a falta. Esta falta podendo ser simbolizada através do brincar irá dar condições para que haja a estruturação subjetiva da criança. A estruturação subjetiva de uma criança não depende apenas da biologia. Esta facilita as condições, mas há que encontrar também as condições estruturais simbólicas, transmitidas por seus cuidadores principais [...] Para que este processo ocorra [...] é necessário o cumprimento de duas funções básicas: a função materna- encarregada da introdução da criança no mundo simbólico, através dos cuidados e de palavras básicas; e a função paternaencarregada da passagem da criança do universo de significações maternas e familiares para o universo social mais amplo, através da transmissão da Lei. (BERNARDINO. 2009. p.57). É a partir da relação com a mãe que será o fundamento para as outras relações que a criança terá ao longo de sua vida. Por esse motivo, é importante que a mãe cuide de seu bebê, se adaptando as suas necessidades. É preciso ser uma mãe “ma-terna”, ou seja, uma mãe suficientemente boa. Aquela que ao mesmo tempo desenvolva estas duas funções a de ser “má” e “terna”. Já a função paterna está relacionada ao limite. Com a inserção a Lei irá proporcionar ao bebê a ter novas relações, havendo assim a castração simbólica. 2 O brincar como constituição do sujeito Desde a vida intra-uterina existem indícios de que o ser humano já possui a capacidade de brincar, uma vez que a criança ainda no ventre de sua mãe brinca com suas mãos, passando a sugar seu polegar; Porém a criança ainda se encontra em um estado de imaturidade simbólica, ou seja, a criança ainda não tem a capacidade de dar representação a algo. Uma vez que é através da interação mãebebê que irá surgir a capacidade de brincar. Após o nascimento a capacidade de brincar do bebê irá depender da relação e da capacidade de brincar do Outro e com o outro. Desta forma, o brincar é inerente ao ser humano. O jogo nasce da relação com a mãe que cuida e que estabelece com a criança profundos intercâmbios comunicativos através de jogos caracterizados por sons, balbucios e verbalizações que seriam acompanhadas psiquicamente por identificações projetivas recíprocas que propiciam o trânsito, o reconhecimento e a transformação desses estados emocionais. (SOUZA apud FERRO. 2008, p.129). Segundo Winnicott (1975) antes mesmo do nascimento propriamente dito, o bebê já nasce historicamente e psiquicamente, dentro do seu contexto familiar e social, ou seja, o bebê nasce atravessado pelas questões ambientais. Ao nascer, o bebê se encontra em um estado de não- integração, sendo necessário um ambiente “suficientemente bom” para ajudá-lo com suas angústias. Neste estado de dependência absoluta, ele não pode ser tomado como sujeito separado, pois, neste momento não existe bebê sem a mãe, uma vez que ambos encontram-se fusionados. Ele é atemporal, por este motivo ele se encontra em um estado de não-eu. É na dependência relativa que mãe e bebê começam a se diferenciar, saindo do estado de fusão que antes se encontravam, para dar espaço para o surgimento do sentido do eu. Desta forma o surgimento do sentido do eu surge dentro do Espaço Potencial3. Winnicott fala que entre o objeto transicional e o fenômeno transicional existe o Espaço Potencial, este seria o espaço onde ocorre o processo de Ilusão e Desilusão. Porém para que aconteça o fenômeno da ilusão originária é necessário que haja uma “mãe suficientemente boa” que se adaptará as necessidades de seu 3 Este é um espaço de possibilidades na qual a criança pode transitar entre o real e o imaginário, uma vez que o simbolismo já se encontra empregado. bebê, fazendo com que este tenha a ilusão de que a criou. Segundo Winnicott o estado na qual a mãe deve se encontrar para propiciar o fenômeno da ilusão é denominado de preocupação materna primária. Esse estado da mãe desenvolve-se no início da gravidez estendendo-se até as primeiras semanas após o nascimento do bebê e se caracteriza por uma sensibilidade aguçada. Desta forma o bebê tem a ilusão de que a mãe é uma extensão de si, uma vez que mãe e bebê se encontram fusionados. É nessa fase de dependência absoluta que ocorre o fenômeno da ilusão. No estado de confiança [...], que cresce quando a mãe pode fazer esta coisa difícil [brincar de ser encontrada quando e onde a onipotência infantil a “cria” e, ao mesmo tempo, ser ela mesma à espera deste encontro], [...], o bebê desfruta das experiências baseadas no “casamento” da onipotência dos processos intrapsíquicos com o controle infantil da realidade. A confiança [...] na mãe constituí-se aqui em um playground intermediário, onde se origina a idéia mágica, já que o bebê em certa medida experimente a onipotência... Chamo isto de playground porque o brincar começa aqui. (FIGUEIREDO apud WINNICOTT. 2009, p. 84). No processo da desilusão a dependência do bebê é relativa, é quando começa o processo de individuação, na qual a mãe passa a ser vista como objeto percebido, ou seja, como objeto externo a si. Nesta fase começam a surgir as falhas inerentes a maternagem produzindo frustrações para o bebê. Estas são importantes e necessárias para a noção da realidade externa. O processo de desilusão proposto por Winnicott tem alguma relação ao conceito de desalienação postulado por Lacan. Ambos estão relacionados ao processo de individuação do bebê. É necessário que o bebê passe pelo processo de desalienação, para que a mãe possa ser vista como outra pessoa que não seja ele. A mãe suficientemente boa começa com uma adaptação quase completa as necessidades de seu bebê, e, à medida que o tempo passa, adapta-se cada vez menos completamente, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade do bebê em lidar com o fracasso dela. (CALLIA apud WINNICOTT. 2008, p.140). A mãe nesta etapa não é mais vista como extensão de si. O bebê vive a primeira possessão não-eu, surgindo assim os objetos e fenômenos transicionais que ocorrem no espaço potencial. Este é um espaço de possibilidades, na qual o bebê para suportar a ausência materna, utiliza-se da capacidade imaginativa. Ele passa a transitar nesse espaço de possibilidades, que é a área intermediária, uma vez que está entre a realidade interna e externa; Mas para que isto ocorra é necessário que se tenha passado pelo fenômeno da ilusão. Segundo Winnicott (1975) “antes mesmo dos bebês se apegarem a um determinado objeto especial, existe uma seqüência de eventos que vão desde atividades do punho na boca até a ligação ao brinquedo”. A essa área intermediária entre o polegar e o brinquedo Winnicott denominou de Objetos transicionais e Fenômenos transicionais. Os objetos transicionais seriam então um deslocamento da relação com a mãe para um objeto exterior. Essa relação entre o bebê e o objeto é denominada fenômeno transicional. No brincar a criança irá vivenciar seu mundo interno explorando suas fantasias com sua realidade. Esta por sua vez é uma relação paradoxal, pois o brincar é ao mesmo tempo real e não real. “Objeto paradoxal [...] na realidade, é o próprio sujeito em sua corporalidade libidinal. Por isso, sua perda traumática provoca desde uma ruptura narcisista até uma devastação de tipo psicótico.” (Rodulfo apud Winnicott. 1990, p.101). Fenômenos e objetos transicionais [...] exercem funções de mediação e podem modular o sofrimento excessivo evitando a interrupção do processo e dando sustentação às operações de desligar e ligar, separar e articular, possibilitando formas moderadas de separação e de reunião capazes de evitar as grandes ansiedades que podem ser evocadas em situações extremas. (FIGUEIREDO apud WINNICOTT. 2009, p. 118). O apego do bebê ao objeto pode revelar a negação de uma ameaça inconsciente, sendo este apego uma defesa contra a ansiedade. A relação do bebê com o objeto transicional é uma relação paradoxal, pois este é ao mesmo tempo amado e odiado. Esse objeto faz com que os bebês tolerem a ausência materna. Desta forma o objeto não deverá ser substituído a não ser que seja o próprio bebê que faça essa substituição, pois ao se retirar esse objeto haverá uma ruptura da continuidade do ser, destruindo assim o significado do objeto para o bebê. “Esse objeto vai se localizar na zona intermediária, na separação entre a mãe e o bebê, e vai permitir que o próprio processo de separação seja tolerado, uma vez que esse objeto é ao mesmo tempo parte da mãe e parte do bebê.” (NETO. 2007, p.411). Para Winnicott quando o bebê se encontra na terceira área de experiência, ou seja, no espaço potencial, na qual se encontra entre o psíquico e o real, o simbolismo já se encontra empregado, por este motivo ele pode transitar pelo espaço de ilusão e desilusão, ou seja, realidade interna e externa. O simbolismo está na área transicional, onde um determinado objeto é substituído por outro. Esse objeto transicional é a primeira possessão do não-eu da criança. É nesse espaço transicional onde ocorrerão as fantasias inconscientes, que é uma forma de realização de um desejo. Com relação a isto Figueiredo nos fala que: [...] conceito de phantasia inconsciente se dá entre o “mundo interno” e o “mundo externo” (o „dentro‟ e o „fora‟), estejam eles funcionando em paralelo ou interação. Embora as phantasias inconscientes sejam os próprios conteúdos básicos do mundo interno, não há, como vimos, contato, não há percepção, não há aprendizagem, não há experiência com os objetos externos que não sejam antecipadas e enquadradas pelo fantasiar. (FIGUEIREDO. 2009, p.32). A atividade lúdica ocorre em um espaço transicional, pois a brincadeira se dá entre o real e o imaginário, ou seja, as suas realidades internas e externas se entrelaçam, não havendo nem dentro nem fora, pois a realidade é constituída por ambas. Winnicott também relata que o brincar está interligado com a cultura, pois este é um campo rico de simbolizações. A experiência cultural é uma continuidade das primeiras experiências do bebê. Mediante esse contexto é importante salientar que: O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros (WINNICOTT. 1975, p. 63). O brincar é de suma importância para o desenvolvimento saudável da criança, pois é através deste que haverá a expressão e a elaboração dos conflitos. É nesta atividade lúdica que o psicanalista poderá ter acesso ao seu mundo simbólico. A criança recalca acontecimentos desprazerosos como uma forma de amenizar suas angústias. Desta forma o recalque funciona como um mecanismo de defesa e é no brincar que irá haver uma substituição dos conteúdos recalcados. Segundo Melaine Klein (1921-1945) “os personagens ou personificações nos jogos das crianças se originam de imagos internas através da cisão e da projeção”. Na brincadeira a criança irá utilizar as imagens que já estão formadas internamente, as quais irão ser projetadas para seu mundo externo. A atitude da criança irá se revelar através da brincadeira no campo da realidade. Para Klein, o brincar constitui- se em via régia para o inconsciente da criança. Isto se dá porque é no brincar que o analista chegará o mais próximo do inconsciente da criança. [...] esses objetos internos representantes do mundo externo, associados a moções pulsionais (agressivos, amorosos) se organizam em núcleos e vão constituir uma espécie de teatro interno onde os significados para as experiências vividas são gerados e passam a dar sentido às ações, crenças e percepções, assim como a uma totalidade afetiva que colore suas relações com o mundo externo e interno. Esses „ climas‟ emocionais são expressos e evocados através das fantasias inconscientes. (BARROS, ELIAS; BARROS, ELIZABETH. 2007, p. 223). Klein traz o conceito de posição para descrever o modo de funcionamento do psiquismo, que é similar as fases do desenvolvimento postulado por Freud. Porém este conceito de Klein dividiu-se em duas posições. A posição esquizoparanóide e a posição depressiva. As duas coexistem de forma dialética. Na primeira posição a criança apreende a mãe como objeto parcial, uma vez que as impressões de amor e ódio são sentidas de modo fragmentado. O primeiro objeto que o bebê enxerga é o seio da mãe, este por sua vez traz frustração e gratificação, ocorrendo à clivagem entre “seio bom” e “seio mau”. Já na segunda posição, a criança apreende a mãe de forma total, uma vez que já percebe os objetos como um todo e passa a perceber a ambivalência de sentimento com relação à mãe, surgindo assim, a depressão pela destruição real e imaginária do objeto. Percebe-se aqui que as posições descritas por Klein é parecido com as funções do brincar postuladas por Rodulfo. Estas estão ligadas à edificação do corpo. Na qual a primeira função o bebê não consegue diferenciar-se de sua mãe, esta sendo vista como um objeto parcial. Isto se dá pelo fato de que o bebê é constituído por uma espécie de “collage” 4, não havendo interno e externo. Depois o bebê começa o processo de “descolamento” desse Outro primordial. Passando a ver a mãe como sujeito externo a si. Conforme a segunda função do brincar de Rodulfo. É difícil para o analista manter com a criança uma comunicação verbal através da associação livre, por este motivo a inserção do brincar durante a análise com crianças se faz necessária, na qual a finalidade da análise seria entrar em contato com a fantasia da criança. A associação livre foi um método desenvolvido 4 Termo utilizado por Rodulfo que está relacionado ao estado de fusão que mãe e bebê se encontram, ou seja, a princípio mãe e bebê se encontram interligados, não havendo dois sujeitos, um vez que um é a extensão do outro. por Freud para chegar o mais próximo do inconsciente. Neste método de investigação o sujeito expressa de forma indiscriminada tudo o que lhe vier em pensamento. No trabalho com crianças o brincar irá se assemelhar a associação livre, pois é no momento lúdico que haverá a expressão do seu inconsciente, ou seja, é através do brincar que a criança irá expressar o que o adulto faz através da associação livre. Melaine Klein observou que o brincar da criança poderia representar simbolicamente suas ansiedades e fantasias e, visto que não se pode exigir de uma criança pequena que faça associações livres, tratou o brincar como equivalente a expressões verbais, isto é, como expressão simbólica de seus conflitos inconscientes. (MELLO. 2007, p.256). Crianças que apresentam dificuldades para brincar não conseguem deslocar as angústias vividas com relação a seus objetos primordiais. O brincar serve como um objeto substitutivo, no qual a criança através de uma representação simbólica irá amenizar sua angústia. É através desses objetos substitutivos que haverá a expressão e elaboração de seus conflitos, permitindo-lhes crescer psiquicamente. O brincar não deve estar preso apenas aos seus simbolismos, embora essa seja uma parte importante da análise, mas também deve ser observado durante o brincar o modo como a criança brinca, suas expressões, sua fala, as repetições, os papéis que a criança atribui a figura do analista e a si mesmo. Enfim o analista deve estar atento aos fenômenos que ocorrem no brincar. Embora Lacan não tenha estudado crianças, ele diz que o bebê antes de nascer, já está atravessado pelo mundo da linguagem, no qual a mãe é quem fala pelo bebê. A criança está inserida na linguagem a partir do desejo materno. “Ressaltamos a importância da ligação da palavra aqui. É esta que cria o corpo do bebê: palavras fundadoras-palavras de mãe, dando significação às manifestações do bebê, antecipando-o como sujeito, são as que se inscrevem no corpo do bebê.” (MOTTA. 2009, p. 38). São a partir dessas primeiras palavras que irá se inscrever no corpo do bebê os primeiros significantes. Para Lacan o infans vem ocupar um lugar marcado primordialmente pelo desejo materno, se alienando na imagem de um outro. Instaura-se aí uma relação dual, imaginária, e o bebê, fascinado, vive uma dependência quase total na demanda pelo desejo narcísico. Sua demanda passa a “ser desejado pelo Outro” ou “ ter o desejo do Outro como desejo seu”. (MORGENSTERN. 2008, p.110). A isto Lacan denominou de alienação, o bebê é a imagem do Outro (mãe). Sendo assim se faz necessário que o bebê se “aliene” para que se constitua o sujeito. O bebê nesta fase está assujeitado ao Outro. Pois antes de tornar-se sujeito, o bebê é objeto de desejo do Outro. Para que se possa introduzir o “Eu” como sujeito, é necessário que se passe pelo processo de desalienação. Para que isto ocorra é indispensável que haja a entrada de um terceiro (o pai) para que faça a separação dessa relação dual (mãebebê). O outro não necessariamente é o pai, mais é a sua dimensão simbólica, ou seja, a função que esse Outro primordial irá desempenhar. Mas para que a constituição do sujeito se efetive, é necessária a segunda operação constituinte: a separação. É preciso que o Nome- do- Pai barre, interdite o desejante materno, para que o bebê não fique eternamente aprisionado a ter que responder como objeto de desejo da mãe. (MOTTA. 2009, p.43). A entrada desse terceiro, denominado por Lacan como o Nome-do-Pai, se faz necessário para que haja a inserção da lei nessa relação, para haver o corte do bebê com a mãe e da mãe com seu bebê. É com o corte inserido pela lei que o bebê sairá da alienação, ou seja, da simbiose com relação à mãe, para que seja inserido no campo da linguagem. Havendo assim a castração dessa relação dual, para que o universo de significações se estenda para o universo social. Desta forma é o corte feito com a inserção da lei que irá possibilitar que a criança entre na ordem da linguagem. Portanto, para se constituir como sujeito desejante, a criança precisa separar-se do efeito mortífero do desejo materno, isto é, deixar de ficar no lugar de ser para sempre o desejo da mãe, de ser objeto da mãe. É nesse processo que a criança rompe com a fascinação e „se dá conta‟ de que o Outro não é tão absoluto, tão perfeito, mas que algo lhe falta. Interessante notar que Lacan não faz da falta do objeto a origem da privação, mas a da criação significante. (MORGENSTERN. 2008, p.110). Para Lacan o inconsciente é formado por elos associativos de significantes que sempre retornam aos mesmos lugares. Os elos associativos do brincar funcionam como uma metáfora, ou seja, como uma substituição do significante. Como o brincar é uma maneira pelas quais as fantasias inconscientes se expressam só é possível apreendê-la a partir de seu simbolismo. Na brincadeira a criança é capaz de significar algo ausente, é uma maneira onde os conflitos inconscientes adquirem uma representação. [...] Lacan propõe pensar o inconsciente como um conjunto de cadeias significantes em que cada uma [...] se articula com outras, como um anel, se articula com outra cadeia de significante, formando assim anéis dentro de um colar, que se articula com outro anel de um outro colar [...]. (QUINET. 2003, p.41). O brincar repetitivo da criança faz com que ela volte à mesma situação de uma outra maneira.Vale salientar que o brincar se transforma, vai se ressignificando à medida que se processa a estruturação subjetiva, ou seja, as brincadeiras não são abandonadas, apenas retornam com novos significados. No brincar a criança cria um mundo particular no qual o imaginário e real se entrelaçam. Na atividade lúdica ela busca alternativas para transformar sua realidade, criando e recriando situações na qual há uma satisfação imediata de seus desejos, que são realizados facilmente. A criança traz para dentro dessa área da brincadeira objetos ou fenômenos oriundos da realidade externa, usando-os a serviço de alguma amostra derivada da realidade interna ou pessoal. Sem alucinar, a criança põe para fora uma amostra do potencial onírico e vive com essa amostra num ambiente escolhido de fragmentos oriundos da realidade externa. (WINNICOTT. 1975, p.76). É no entrelace entre o imaginário e o real que a criança deixa a posição de sujeito passivo para tornar-se sujeito ativo no ato do brincar. Isto quer dizer que no ato lúdico a criança repete de modo metafórico situações desprazerosas. Estas ganhando um novo significante. Em Além do princípio do prazer, Freud descreveu um caso de uma criança, na qual é possível ver com maior riqueza de detalhes o brincar como forma de representação simbólica. Foi no caso de Ernest, que se observaram pela primeira vez distintas atividades lúdicas com o jogo do carretel, com a observação do fort/da. 5 A filha de Freud pediu para que seu pai tomasse conta de seu filho, pois ela precisava se ausentar por um curto período de tempo. Com o passar do tempo Freud percebeu que seu neto não esboçou nenhum tipo de reação esperada, tipo o choro, que é a reação mais freqüente de crianças que ficam por um período longe de suas mães. Ao invés disto Ernest passou a utilizar-se de uma brincadeira. Ele brincava com um carretel preso a um fio. 5 Descrito por Freud em: Além do princípio do prazer. Vol. 18. O termo fort/ da surgiu a partir da observação que Freud fez de seu neto, onde nas ocasiões em que sua mãe não se encontrava, Ernest utilizava de uma brincadeira na qual arremessava e trazia o carretel novamente para perto de si. Junto com esse ato Ernest pronunciava ao jogar o carretel a palavra fort (fora) e ao trazer para perto dizia a palavra da (aqui). Desta forma Freud percebeu que ao brincar seu neto estava simbolizando a ausência materna. Ao brincar, Ernest jogava o carretel de dentro do berço para fora, fazendo com que este desaparecesse sob a cama. Ao jogar o carretel Ernest pronunciava o som: ó...ó...ó, e quando o puxava recuperando-o, pronunciava o som: dá...dá...dá. O brincar se transformou em substituto simbólico de sua mãe, na qual o carretel se tornou o objeto que Ernest deslocava seu amor e sua destrutividade, havendo uma relação de ambivalência. Pois o mesmo objeto que lhe era causador de angústia, era também o objeto ao qual seu amor era dirigido. Na teoria da psicanálise não hesitamos em supor que o curso tomado pelos eventos mentais está automaticamente regulado pelo princípio de prazer, ou seja, acreditamos que o curso desses eventos é invariavelmente colocado em movimento por uma tensão desagradável e que toma uma direção tal, que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer. (FREUD. 19251926, p.17). Neste jogo o aparecimento e desaparecimento do carretel era uma representação simbólica da ausência materna. Nesta brincadeira Ernest inconscientemente simulava através do carretel o desaparecimento e o retorno de sua mãe. Esse ato era repetitivo como uma forma de compensação, fazendo com que ele mesmo fizesse o desaparecimento e aparecimento do carretel. Projetando para o real a experiência desagradável, tornando-a prazerosa. O carretel era para Ernest o objeto transicional, uma vez que este objeto era o deslocamento da relação com a mãe. No caso de Ernest observamos que no brincar ele se tornou o sujeito ativo da situação. Uma vez que o carretel sendo um substituto simbólico de sua mãe, e ao jogá-lo para longe, é como se ele próprio fizesse a sua mãe desaparecer e aparecer, tornando-se o “senhor” da situação. O brincar é uma atividade na qual a criança utiliza da imaginação e a criatividade. Criando e recriando situações de seu cotidiano, como uma forma de elaboração de seus conflitos. Os conflitos psíquicos são gerados pela fantasia, quanto mais elaborado na brincadeira haverá uma reconfiguração do sofrimento psíquico. Freud desenvolveu a psicanálise para a investigação do inconsciente. Esta instância só pode se revelar de forma indireta, através dos atos falhos, dos chistes, dos sonhos, ou seja, o inconsciente se manifesta de modo camuflado. Em outro caso descrito por Freud é possível observar o brincar como forma de elaboração dos conflitos psíquicos. No caso de Hans os conflitos sugiram a partir da fantasia de ser mordido por um cavalo, ao qual desencadeou sua fobia. E que através do brincar houve uma redução da angústia vivida por ele. O caso Hans foi escrito por Freud em 1909. Esta foi à primeira aplicação de uma técnica psicanalítica em uma criança. O tratamento foi efetuado pelo pai de Hans sob orientação de Freud. Os primeiros relatos do caso Hans datam de um período em que ele estava para completar três anos de idade, na qual mostrava interesse pelo seu órgão genital ao qual chamava de “pipi”. Certo dia sua mãe ao vêlo tocar seu pênis lhe disse que iria chamar o doutor para cortar seu pipi fora. Aos três anos e meio a irmã de Hans nasce, e seu nascimento é envolto de uma fantasia criada por seus pais, na qual uma cegonha era quem iria trazer sua irmã. Porém Hans percebe toda a movimentação que antecedeu o nascimento dela. Primeiramente foi a maleta do médico, depois a bacia de água com sangue, e crença de que a cegonha trouxe sua irmã começa a ser abalada. Tudo o que ele disse mostra que ele relaciona aquilo que é estranho na situação com a chegada da cegonha. Olha para tudo que vê, com olhar de desconfiança e atento, e não se pode questionar o fato de que suas primeiras dúvidas sobre a cegonha criaram raízes. (FREUD. 1909, p. 19). É possível notar que a história da cegonha caiu por terra, quando em uma de suas brincadeiras Hans introduz por entre as pernas de uma boneca um canivete e depois as abre, simulando desta forma a maneira pela qual ele inconscientemente acreditava de como teria sido o nascimento de Hanna. Hans de forma inconsciente já demonstrava para seus pais através do brincar, que ele não acreditava na história da cegonha ao fazer a boneca “expulsar” o canivete. Desta forma ele simbolizava como era o nascimento dos bebês. Porém para que Hans chegasse a suas conclusões de como seria o nascimento de um bebê, ele passou por vários episódios que corroboraram para que ele formulasse suas teorias. Isto de deu da seguinte forma: 1)Durante o nascimento de Hanna, ele observou uma movimentação diferente, com o médico, o barulho que sua mãe fazia e o sangue na bacia. 2) Logo após o nascimento, Hans brinca com uma boneca, na qual simbolizava de como seria um nascimento. 3) Ele sempre acompanhava sua mãe ao banheiro, assim surgindo à história dos “lunfs”. 4) e por fim o medo que ele sentia das carroças carregadas quando saiam dos portões que ficavam em frente a sua casa. Estas hipóteses se deram através dos elos associativos de significantes proposto por Lacan, na qual estão sempre retornando aos mesmos lugares. Os elos associativos giram em torno da “expulsão”, quem vem fazer uma analogia com o nascimento de sua irmã. Depois do nascimento de sua irmã, Hans está ocupado com problemas da origem de crianças, ele agora passa a brincar de que também tem filhos, chama suas amigas de filhas, dizendo que também foi à cegonha quem as trouxe. Como podemos observar o brincar serve como uma válvula de escape contra a ansiedade vivenciada por Hans, pois o nascimento de sua irmã foi um evento potencialmente traumático. E é por meio da representação simbólica que sua ansiedade será amenizada. Ao brincar de ter filhas, Hans está projetando para o mundo real situações ao qual inconscientemente ele não consegue suportar. Uma vez que para ele é “impossível” suportar a perda desse lugar que ele tanto almejava, que era estar junto de sua mãe. Aos quatro anos e nove meses Hans despertou em lágrimas pensando que sua mãe tinha ido embora e que não iria mais “mimar” com ela. Após alguns dias Hans foi passear com a babá e começou a chorar com medo de que um cavalo o mordesse. A partir desse momento tem início a fobia de cavalo. O que na época era impossível não se deparar com um cavalo uma vez que este era o meio de transporte de pessoas e objetos. Quando Hans via as carruagens entrava em pânico, pois imaginava que os cavalos iriam cair e isto lhe causava ansiedade. Em frente a sua casa tinha um galpão onde freqüentemente entravam e saiam carroças carregadas de caixas. Hans manifestou o desejo de ir “brincar no galpão de carregar e descarregar as caixas, e de ficar trepando e brincando pelas caixas que ficam por lá”. Seu desejo de ir brincar em cima das caixas, estaria ligado ao complexo de Édipo, com relação ao desejo de apossar-se dessa mãe e de ter filho com ela, assim como seu pai. Hans [...] esteve o dia todo brincando de carregar e descarregar caixotes; ele disse que desejaria poder ter um vagão de brinquedo e caixas desse tipo para brincar. O que mais costumava interessá-lo no pátio da Alfândega em frente era o carregamento e descarregamento das carroças. E ele costumava assustar-se mais quando uma carroça tinha sido completamente carregada e estava no ponto de partir. “os cavalos vão cair” [...]. Costumava também chamar as portas do alpendre da Agência Central da Alfândega de “buracos” [...]. Mas agora em vez de “buraco”, ele diz “atrás do buraco”. (FREUD. 1909, p.90). Tanto as carroças, quanto as caixas sempre carregam algo dentro delas, o que simbolicamente se assemelha ao útero materno. Observamos que a angústia de Hans estava voltada as “carroças carregadas”. De outra forma poderíamos dizer que, o que Hans temia era uma nova gravidez de sua mãe e que esse novo bebê o afastasse ainda mais de seu objeto de amor. Ao dizer “os cavalos vão cair” seria a expulsão do bebê através do parto. Desta forma, os bebês, os “lunfs” e as carroças saem por um tipo de “buraco”. Neste ponto vemos que o medo de que o cavalo caísse não está apenas relacionado com a destrutividade dirigida ao seu pai. Como também o medo de que sua mãe tivesse outro bebê. Ao conversar com seu pai sobre os cavalos disse que um dia o cavalo caiu do ônibus e ele tinha morrido e o pai pergunta: “como você sabe disso?” Hans riu e disse que o cavalo não estava morto, era apenas uma brincadeira. “Durante algum tempo, Hans tem brincado de cavalo, no quarto; ele trota, deixa-se cair, esperneia os pés e relincha”. Hans deslocava para os cavalos a sua destrutividade e temores em relação a seu pai. Os cavalos seriam o substituto simbólico dele. É no brincar que a criança utiliza de imagos internas, na qual a criança cria personagens para dissociar as identificações contraditórias que ela ainda não é capaz de integrar. Ao mesmo tempo em que Hans se identifica com seu pai ele o quer “morto” como o cavalo para ocupar seu lugar ao lado de sua mãe. A fobia estava relacionada com o medo que Hans tinha de ser castrado pelo pai por causa do amor que sentia pela sua mãe. Ao brincar de cavalo ouve uma troca de papéis, onde Hans era o cavalo que mordia seu pai. Por este motivo Hans projetou para o cavalo à figura de seu pai, este era o animal causador de sua angústia. Em outro momento Hans relata que em Gmunden ele gostava de chicotear os cavalos. Isto na realidade seria o desejo de punir seu pai por estar “ocupando” a posição que deveria ser dele. O seu amor como conteúdo manifesto e, o ódio como conteúdo latente. Em outro momento Hans conta para seus pais uma história sobre a girafa grande, e a girafa amarrotada, na qual ele tirava a girafa amarrotada de perto da girafa grande e que esta por sua vez gritava e que depois ele sentava em cima da girafa amarrotada. Esta história contada por Hans nos mostra que mais uma vez em suas fantasias, ele tenta ocupar o lugar do pai ao lado de sua mãe. Uma vez que a girafa grande seria um substituto simbólico do pênis do pai e ao sentar-se em cima da girafa amarrotada seria o desejo de apossar-se da mãe. Com relação ao complexo de castração Hans relata que pensou que: “o bombeiro tinha vindo e desparafusado a banheira e golpeado seu estômago com uma broca”. Em outro momento diz: “o bombeiro veio retirou meu traseiro com um par de pinças, e depois me deu outro, e depois fez o mesmo com o meu pipi.” Este medo da castração se dá ao fato de que para Hans não havia distinção entre homens e mulheres, ou seja, ele atribuía à posse do pênis para todos, não vendo o órgão feminino, mas a falta do órgão masculino. Desta forma se alguém não possuísse o órgão masculino era castrado. Aparecem novamente aqui os elos associativos de significante, onde as cadeias estão sempre se conectando umas as outras, estão sempre retornando aos mesmos lugares. Na qual o mesmo bombeiro em primeiro momento lhe retirou algo surge novamente, mas desta vez não lhe retira algo, mas o substitui, ou seja, através da repetição houve uma ressignificação. Freud diz que em fases bem precoces do desenvolvimento, o bebê brinca de comer e cuspir que na linguagem das pulsões orais, equivale a “dentro de mim” e “fora de mim”. Porém segundo Rodulfo existem funções do brincar mais arcaicas que o fort/da, na qual a primeira função do brincar está ligada à edificação do próprio corpo, em que a criança tem a necessidade de arrancar materiais do corpo do Outro para construir seu próprio corpo. Isso acontece por que em crianças muito pequenas não possuem ainda a capacidade de distinguir interno e externo, e desta forma acaba havendo uma junção do corpo e espaço, onde o objeto é parte integrante da criança. Já a segunda função do brincar é um segundo momento da estruturação do corpo, em que a criança passa a perceber a relação de continente/ externo e conteúdo/ interno. Ela ainda extrai elementos, mas não os toma como parte de seu próprio corpo, uma vez que nesta etapa já houve um processo de individuação. A terceira função do brincar se dá através de práticas de aparecimento e desaparecimento como nos jogos de esconde – esconde, visto como uma forma de obtenção do gozo através do desaparecimento agora com o olhar transcendental do Outro. Ernest utilizou dessa brincadeira de esconde-esconde ao jogar o carretel. Sendo possível observar que no ato repetitivo havia a obtenção de gozo, pois ele agora era agente ativo da ação. Era ele que inconscientemente mandava sua mãe ir embora. É por isso [...] que o brincar representa uma função tão especial, no exercício da qual a criança vai se curando por si mesma em relação a uma série de pontos potencialmente traumáticos. Ali onde as fraturas, as interferências do mundo familiar deslocam as simbolizações incipientes, atacando o processo do brincar. (RODULFO. 1990, p.113.) Rodulfo fala que o corpo do bebê é constituído por uma espécie de collage, onde não há interno e externo, mas é uma superfície contínua. Já Lacan denominou a este processo de Banda de Moebius. A banda de moebius é uma superfície unidimensional sem dentro e fora, sem interior e exterior, que servirá para representar a unidade que nesse momento constituem o bebê e o Outro primordial (a mãe). Através do brincar como atividade criadora, a criança expressa simbolicamente seus conflitos e dificuldades. O brincar por estar entre o real e o imaginário acaba funcionando como uma metáfora dos conflitos psíquicos que envolvem a história da criança. É nesta atividade lúdica que a criança torna situações de conflitos em situações que podem obter um melhor equilíbrio entre realidade e fantasia. No caso da brincadeira, parece que percebemos que as crianças repetem experiências desagradáveis pela razão adicional de poderem dominar uma impressão poderosa muito mais completamente de modo ativo do que poderiam fazê-lo simplesmente experimentando-a de modo passivo. Cada nova repetição parece fortalecer a supremacia que buscam. (FREUD. 1920, p.46). A criança expressa seus conflitos inconscientes no brincar, uma vez que esta ação é repleta de simbolismos e metáforas. Ela passa a representar simbolicamente suas fantasias e desejos inconscientes. No brincar, a criança elabora situações conflituosas, passando a simbolizar seus sentimentos. É através deste ato lúdico que elas deixam a posição passiva e passam a ser sujeitos ativos, na qual tem a possibilidade de transformar situações desprazerosas em prazerosas. Considerações Finais O presente trabalho teve por objetivo mostrar a importância do brincar para a clínica psicanalítica infantil como forma de acessar o inconsciente da criança. O inconsciente como se apresenta de modo camuflado só pode ser acessado através de seus simbolismos. A criança nesta atividade lúdica expressa suas angústias e fantasias de modo ativo. Como se pode observar o brincar é inerente ao ser humano, ele está presente desde a vida intra- uterina na qual o bebê brinca com suas mãos, como por exemplo, sugando seu polegar e tocando seu nariz. Estas são atividades que o bebê desenvolve no ambiente em que vive, mostrando que após o nascimento ele precisa de um ambiente suficientemente bom, que seja facilitado por uma mãe suficientemente boa, ou seu representante, para que se adaptem às necessidades de seu bebê, havendo assim a interação mãe- bebê. Esta interação é importante para a constituição do bebê enquanto sujeito, pois a priori ele está alienado à sua mãe, em um estado de dependência absoluta, ou seja, o bebê não existe sem a sua mãe, uma vez que ambos se encontram fusionados. E aos poucos essa dependência vai tornado-se relativa, no momento em que o bebê passa a enxergar a mãe como objeto externo e não mais como sua extensão, havendo assim o surgimento do Eu. Nesta etapa a mãe passe a adaptar- se menos às necessidades de seu bebê. Nesta fase ocorre o processo de desilusão, surgindo às falhas inerentes a maternagem, causando frustrações no bebê. Estas são importantes, pois é através delas que haverá o processo de individuação do bebê, através da noção da realidade externa. Desta forma, com a possessão do não Eu e o surgimento noção da realidade externa o bebê começará a se apegar a um determinado objeto. Surgindo os objetos e fenômenos transicionais. Na qual esse objeto é um substituto simbólico materno. Assim como fez Ernest no seu jogo do Fort/da. Os objetos e os fenômenos transicionais como o próprio nome já diz é transição da relação com a mãe para um objeto que a represente em sua ausência. Estes têm por objetivo uma função mediadora capaz de fazer com que a separação da mãe com o bebê não seja um gera-dor de ansiedade. Sendo este apego uma defesa contra ansiedade. A percepção da existência da mãe como objeto independente, da ambivalência de seus sentimentos, da culpa e da urgência de cuidar e reparar o objeto amado impulsionam a criança a desviar seus impulsos hostis e encontrar objetos substitutivos para a expressão, o conhecimento e a elaboração de suas vivências. Está aberto, assim, o caminho para a simbolização e para o jogo simbólico que tanta utilidade tem para a criança. (SOUZA. 2008, p.126). Para que o bebê suporte a ausência materna ele se utiliza da capacidade imaginativa. O brincar irá ocorrer no espaço potencial, que está entre a realidade interna e realidade externa, o psíquico e o real. É nesta interação entre mundo interno e externo que irão ocorrer às fantasias inconscientes, como forma de realização dos desejos. A criança como mecanismo de defesa recalca acontecimentos que foram desprazerosos como uma forma de amenizar a angústia vivida. E é através do brincar que haverá a expressão e elaboração de tais conflitos. No brincar haverá a substituição dos conteúdos recalcados. A criança irá criar personagens que serão projetados para o mundo externo. Estas imagos foram criadas a partir da apreensão do seu mundo externo. Antes de se tornar sujeito o bebê é objeto de desejo do Outro, pois a criança está inserida na linguagem a partir do desejo materno. Para que haja a quebra da relação dual e fazer com que o bebê saia dessa condição alienante é necessário a entrada de um terceiro que irá fazer a inserção da lei para que o Eu da criança possa ser introduzido. Esta breve retrospectiva serviu para que se possa de forma mais sucinta mostrar a importância do brincar para a clínica psicanalítica infantil, que tem por finalidade entrar em contato com a fantasia da criança. Neste momento lúdico a criança cria um mundo particular na qual o imaginário e real se entrelaçam. O brincar funciona como uma metáfora dos conflitos psíquicos. Estes são gerados pela fantasias inconscientes e que quanto mais elaborados no brincar haverá uma nova reconfiguração dos conflitos. Pois é por meio da representação simbólica que sua ansiedade será amenizada, obtendo-se um equilíbrio entre fantasia e realidade. Desde modo o brincar em um primeiro momento serve como estruturação do corpo. Na qual há a necessidade do bebê arrancar materiais do Outro como sendo parte estruturante do seu corpo. Em segundo momento e não menos importante que o primeiro, o brincar irá servir como constituição do sujeito. O brincar serve como expressão, realização e constituição subjetiva. É na capacidade de brincar do outro e com o Outro que haverá a constituição do bebê enquanto sujeito. Neste processo lúdico a criança apropria-se do corpo e se constitui como ser desejante, saindo da posição de assujeitado para ser sujeito. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS E TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação: referências – elaboração. Rio de Janeiro, 2002. BARROS, Elias; BARROS, Elizabeth. In: Significado de Melaine Klein. : O livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. BERNARDINO, Leda. O trabalho interdisciplinar com bebês e a psicanálise. In: As interfaces da Clínica com Bebês. Recife: NINAR, Núcleo de Estudos Psicanalíticos, 2009. P.51-69. BUENO, Silveira. 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