SOCIEDADE DO VALE DO IPOJUCA
MANTENEDORA DA FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA – FAVIP
COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA
MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA
O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A
CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
CARUARU
2010
MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA
O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A
CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado à FAVIP – Faculdade do
Vale do Ipojuca, como requisito para
conclusão do curso de Bacharelado em
Psicologia, sob a orientação da Profª
Anna Carvalheira Chaves.
CARUARU
2010
B238b
Barbosa, Maraisa Eslandy de Sousa.
O brincar na psicanálise: do objeto transicional a constituição
do sujeito / Maraisa Eslandy de Sousa Barbosa. -- Caruaru : FAVIP,
2010.
42 f.
Orientador(a) : Anna Carvalheira Chaves.
Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade do
Vale do Ipojuca.
1. Bricar (Psicanálise). 2. Sujeito. I.Título.
CDU 159.9(10.2)
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367
MARAISA ESLANDY DE SOUSA BARBOSA
O BRINCAR NA PSICANÁLISE: DO OBJETO TRANSICIONAL A
CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
Trabalho de Conclusão de Curso defendido e aprovado no Curso de Psicologia da
Faculdade do Vale do Ipojuca, pela banca examinadora:
_____________________________________________
Prof ª Anna Carvalheira Chaves
Orientador
_____________________________________________
Getúlio Amaral Júnior
Faculdade do Vale do Ipojuca
______________________________________________
José Daniel da Silva
Faculdade do Vale do Ipojuca
Dedico este trabalho primeiramente a Deus, pois
sem ele nada seria possível. E a minha família pelo
amor, dedicação e incentivo a tudo que realizo.
AGRADECIMENTOS
Neste momento de alegria, na qual celebro o final e o começo de uma nova
etapa, gostaria de agradecer primeiramente a Deus, pelas oportunidades que me
foram dadas na vida e por ter me iluminado durante esse tempo, me fazendo
superar as dificuldades encontradas no caminho.
À minha grande família que tanto amo. Agradeço em especialmente a minha
mãe Marliete pelo amor incondicional, pelo apoio e por ter acreditado em mim. Ao
meu pai Eronides, pela presença e proteção. Ao meu esposo Edvan pelo
companheirismo e incentivo e a minha filha Marielly pela compreensão.
À minha orientadora Anna Carvalheira Chaves, por me ajudar na construção
do presente trabalho, pela paciência, apoio e atenção que recebi durante este
tempo.
Aos meus professores e colegas da turma 0501, pela grande troca de
conhecimentos e discussões que tivemos ao longo do curso. Em especial as minhas
amigas Alexandra Cintra, Débora Aragão e Sandra Ferraz, pela amizade e carinho
que compartilhamos durante nosso caminhar.
Agradeço com muito carinho a todas as pessoas, que de alguma forma, me
ajudaram e contribuíram para a realização desse trabalho.
“A infância é o chão sobre o qual caminharemos o
resto de nossos dias” (Lya Luft)
Resumo
O presente trabalho tem por objetivo discorrer sobre a importância do brincar e como
se dá a sua aplicação na clínica psicanalítica infantil, analisando e verificando a sua
importância, à luz de alguns teóricos como Freud, Lacan, Melaine Klein, Donald
Winnicott e Ricardo Rodulfo, os quais viram que o brincar além de ser um meio pelo
qual se acessa o inconsciente, é importante para a constituição da criança, enquanto
sujeito. Este tema é de suma importância, pois o brincar funciona como uma
metáfora dos conflitos psíquicos e seu ato é repleto de simbolismo, na qual os
desejos e conflitos inconscientes irão adquirir representação. Através do processo
lúdico o psicanalista poderá ter acesso ao mundo simbólico, uma vez que este
equivale à associação livre do adulto. Como o brincar se encontra no espaço
potencial, que é um espaço de possibilidades, onde ocorre à atividade lúdica, a
criança poderá transitar entre o real e o imaginário, e elaborar suas angústias que
são geradas pelas fantasias infantis, de forma que haja a reconfiguração do
sofrimento psíquico. No brincar ela busca alternativas para transformar sua
realidade, criando e recriando situações na qual haja uma satisfação imediata de
seus desejos, saindo da posição de passividade para tornarem-se sujeitos ativos. O
brincar da criança faz com que ela se aproprie do corpo e se constitua enquanto ser
desejante.
Palavras- Chave: Brincar. Psicanálise. Sujeito.
ABSTRACT
This paper aims to discuss the importance of play and how is its application in clinical
psychotherapy, analyzing and verifying their importance in light of some theorists to
Freud, Lacan, Melaine Klein, Donald Winnicott and Ricardo Rodulfo, which saw the
play in addition to being a means by which to enter the unconscious, it is important
for the formation of the child as subject. This theme is of paramount importance,
because the play functions as a metaphor of psychic conflicts and their act is replete
with symbolism, in which the desires and unconscious conflicts will gain
representation. Through the process play the psychoanalyst could have access to
the symbolic world, since this is equivalent to free association in adults. As the play
lies in the potential space, which is a space of possibilities, where is the play activity,
children can move between the real and imaginary, and develop his anxieties that
are generated by childhood fantasies, so there is a reconfiguration of psychological
distress. In the play it seeks alternatives to transform your reality, creating and
recreating situations in which there is immediate gratification of their desires. Leaving
the position of passivity to become active subjects. A child‟s play makes it to
appropriate body and is constituted as desiring.
Key Words: Playing. Psychoanalysis. Subject
Sumário
Introdução...................................................................................................................10
As interfaces do brincar com o inconsciente..............................................................16
O brincar como constituição do Sujeito......................................................................25
Considerações Finais.................................................................................................40
Referências.................................................................................................................I
Introdução
O presente trabalho tem por objetivo discorrer sobre o brincar e como se dá
sua aplicação na clínica psicanalítica infantil. Mas antes de adentrarmos nesta
temática, iremos ver o significado da palavra brincar. Segundo Bueno, brincar
significa: divertir-se; distrair-se; dizer algo engraçado.
Os chistes, termo este utilizado pela psicanálise, é análogo a uma piada, é
dizer algo engraçado para a obtenção de prazer que está relacionado ao objetivo de
arrancar gargalhadas de quem as escuta. Os trocadilhos utilizados em muitas das
piadas, são uma forma de falar algo sarcástico. É usar uma palavra, mas com a
intenção de dizer outra.
Para a psicanálise, o brincar é envolto de significações, uma vez que é
através das fantasias de seus desejos, que seus conflitos serão elaborados. Estas
fantasias ajudam a suportar a realidade externa, uma vez que esta foi reconfigurada.
Por este motivo, no brincar das crianças se vê com freqüência a inversão dos
papéis, já que no mundo real, a criança é apenas um sujeito passivo a mercê do
desejo do Outro.
O brincar está ligado também às representações sociais. É possível ver
claramente nas brincadeiras infantis, meninas brincando de bonecas e fazendo de
conta que essas são suas filhas. Muitas vezes no brincar se aprende a seguir regras
e a distinguir o certo e o errado.
Ao transcorrer sobre estas questões vê que este tema é de suma importância,
pois o brincar funciona como uma metáfora dos conflitos psíquicos. Através do
processo lúdico o psicanalista poderá ter acesso ao mundo simbólico da criança,
uma vez que ela estará mostrando de forma metafórica seus conflitos internos
existentes. O brincar é uma ponte que liga o real ao imaginário. De forma
inconsciente a criança irá projetar para o mundo externo conteúdos do seu mundo
interno.
Os sonhos foram para Freud (1900) um caminho para a descoberta do
inconsciente, uma vez que através dos sonhos há também uma realização dos
desejos, assim como no brincar. O inconsciente é expresso através dos atos falhos,
dos chistes, dos sonhos e porque não, do brincar? Uma vez que é através deste que
o psicanalista se aproxima da realidade psíquica da criança. Esta instância não se
manifesta diretamente à consciência, mas se consegue de forma indireta através do
brincar, como substituição dos conteúdos recalcados, ou seja, o brincar é um
substituto dos objetos de desejo.
O brincar é uma atividade na qual a criança utiliza a imaginação e a
criatividade, criando e recriando situações de seu cotidiano, como uma forma de
elaboração de seus conflitos. Os conflitos psíquicos são gerados pela fantasia,
quanto mais elaborados na brincadeira estes terão uma nova reconfiguração. Como
este ato é repleto de simbolismos e metáforas o psicanalista chegará mais próximo
do mundo simbólico da criança.
Existem indícios de que desde a vida intra-uterina o bebê já possui a
capacidade de brincar, uma vez que o bebê ainda no útero materno brinca com suas
mãos, passando a sugar seu polegar por exemplo. Após seu nascimento, a
capacidade de brincar irá depender da capacidade de brincar do Outro, ou seja, é
necessário que haja um ambiente “suficientemente bom”, para que através da
capacidade de brincar, suas angústias sejam amenizadas.
O brincar é uma função importante para o desenvolvimento psíquico da
criança, uma vez que funciona como uma defesa contra a ansiedade. Este serve
como uma descarga emocional na qual são possibilitadas as liberações dos conflitos
internos infantis. No processo lúdico tais conflitos se repetem, visto que a criança
expressa simbolicamente as fantasias e desejos inconscientes.
Winnicott (1975) nos fala da importância de que haja uma “mãe
suficientemente boa” e dos objetos e fenômenos transicionais, para que a criança
passe a utilizar a capacidade imaginativa. A mãe suficientemente boa é a
responsável de criar um ambiente suficientemente bom. Isto ocorre por meio dos
jogos utilizados entre mãe e bebê. É nessa dependência absoluta que o bebê tem a
ilusão de que a mãe é uma extensão de si, ocorrendo assim o fenômeno de ilusão.
O bebê ao nascer encontra-se num estado de dependência absoluta, isto
quer dizer que mãe e bebê estão fusionados, não são dois sujeitos, mas um é
extensão do outro. Com o passar do tempo o bebê irá entrar em um estado de
dependência relativa, na qual começa a separação da relação dual. Este é o
processo de desilusão, no qual a mãe passa a ser vista pelo bebê como objeto
externo a si, havendo dessa forma a possessão do não-eu, que ocorre no espaço
potencial.
O espaço potencial é um espaço de possibilidades, no qual o bebê para
suportar a ausência materna, utiliza da capacidade imaginativa. Este espaço está
entre o objeto transicional e o fenômeno transicional. O objeto transicional seria o
deslocamento da relação com a mãe para um objeto externo. E o fenômeno
transicional é a relação do bebê com esse objeto. O apego do bebê ao objeto pode
revelar a negação de uma ameaça inconsciente, sendo este apego uma defesa
contra a ansiedade.
O brincar ocorre nesse espaço transicional, pois este se dá entre o real e o
imaginário. As realidades internas e externas se entrelaçam, não havendo nem
dentro, nem fora. Por este motivo o brincar é de suma importância para o
desenvolvimento saudável da criança, pois é através deste que haverá a expressão
e elaboração dos conflitos.
Melanie Klein (1996) foi à pioneira na psicanálise infantil e diz que o brincar se
assemelha a associação livre do adulto, uma vez que é no momento lúdico que há a
expressão do inconsciente da criança. É através do brincar que a criança irá
expressar o que o adulto faz através da associação livre. Sendo difícil manter uma
comunicação verbal através da associação livre, a inserção do brincar na clínica
psicanalítica infantil se faz necessária.
Segundo Klein os personagens ou
personificações nos jogos das crianças se originam de imagos internas. Na
brincadeira a criança irá utilizar as imagens que já estão formadas internamente, as
quais irão ser projetadas para seu mundo externo.
Lacan diz que a criança nasce atravessada pela linguagem, ou seja, é a fala
do Outro primordial que irá inserir os primeiros significantes do sujeito aos quais
retornarão aos mesmos lugares. A este retorno Lacan o denominou de elos
associativos de significante.
Segundo Lacan o bebê está assujeitado ao Outro, uma vez que ele é objeto
desejo da mãe, estando alienado a ela. Para que haja o processo de desalienação é
necessária a entrada de um terceiro na relação, que insira a lei para haver o corte da
simbiose com relação à mãe, para que a criança seja inserida no campo da
linguagem.
Freud, do ponto de vista histórico, foi o primeiro a aplicar a técnica
psicanalítica no caso Hans e observou o jogo do Fort/da, como sendo uma atividade
lúdica. No for/da foi observado que o aparecimento e desaparecimento do carretel
tornou-se um jogo repetitivo, pois este era uma representação simbólica da ausência
materna, na qual Ernest projetava para o real a experiência desagradável, tornandoa prazerosa.
No caso de Hans os conflitos sugiram a partir da fantasia de ser mordido por
um cavalo, ao qual desencadeou sua fobia. Isso ocorreu por que Hans deslocava
para os cavalos a sua destrutividade e temores em relação a seu pai. Esta era uma
relação de ambigüidade, pois ao mesmo tempo Hans amava e odiava seu pai, uma
vez que este estava ocupando o lugar ao lado da sua mãe, que na sua fantasia, lhe
pertencia, e que através do brincar houve uma redução da angústia vivida por ele.
Vemos que em ambos os casos o entrelace entre o imaginário e o real fez com que
as crianças deixassem a posição de sujeitos passivos para tornarem-se sujeitos
ativos no ato do brincar.
Rodulfo (1990) que é um leitor de Lacan nos fala que existem funções do
brincar mais arcaicas que o fort/da que estão relacionadas com a edificação do
próprio corpo. Estas se dividem em três, na qual a primeira o bebê arranca materiais
do corpo do Outro para construir o seu. Na segunda ele ainda arranca materiais do
corpo do Outro, porém não os toma como parte seu corpo. A terceira e ultima função
é quando começam os jogos de esconde-esconde e que tem relação com o jogo do
fort/da de Freud.
No brincar a criança cria um mundo particular no qual o imaginário e real se
entrelaçam. Na atividade lúdica ela busca alternativas para transformar sua
realidade, para que haja uma satisfação imediata de seus desejos.
Como se observa, este trabalho terá como norte alguns teóricos que na
clínica psicanalítica infantil, viram a importância do brincar como método de
investigação do inconsciente, e o brincar como modo de constituição do sujeito.
Desta forma dispomos de várias bases psicanalíticas para nortear esse trabalho.
O trabalho está dividido em dois tópicos. O primeiro tem por título: As
interfaces do brincar com o inconsciente. Neste tópico será abordado o tema
referente à psicanálise. Este foi um método desenvolvido por Freud para a
investigação do inconsciente. Este é atemporal, e por isso os conteúdos que foram
antes recalcados, irão ser revividos com a mesma força e intensidade.
Esta instância não aparece de forma direta, e sim de modo disfarçado,
através de suas formações. Desta forma, o inconsciente irá se tornar disponível
através dos atos falhos, que são deslizes na fala e que través destes há a realização
de um desejo inconsciente recalcado; Dos sonhos, foi através desta formação que
Freud descobriu a existência do inconsciente. Uma vez que por meio dos sonhos há
a realização dos desejos encobertos. Ao realizar os desejos através dos sonhos
haverá a elaboração dos conflitos; E dos chistes como já foi dito anteriormente, que
é em si um jogo de palavras, na qual também há uma obtenção de prazer.
Diante dessas formações do inconsciente, na qual a função que todos
desenvolvem é a obtenção de prazer através da realização de um desejo
inconsciente, surge à questão: quais são as interfaces do brincar com o
inconsciente? Pois bem, assim como no sonho, o brincar irá revelar seus conflitos,
pois a criança pode dar representação a um desejo. Desta forma o acesso ao
mundo interno se dará por meio da simbolização dos conteúdos recalcados.
É nesta atividade que a criança irá canalizar suas angústias, uma vez que os
brinquedos são representantes externos de seu mundo interno. E é na transferência
com o analista que irá haver a reedição desses conflitos, deslocando para a figura
do analista sentimento que é relacionado ao Outro.
A partir da capacidade de brincar do outro e com o Outro que haverá a
constituição do bebê enquanto sujeito. Desta forma surge o segundo tópico desse
trabalho: O brincar como constituição do sujeito. Neste tópico será vista a
importância do brincar e do Outro nesse processo lúdico. Segundo Lacan o bebê já
nasce atravessado pela linguagem, ou seja, é a partir do desejo materno (Grande
outro) que o bebê é inserido no campo da linguagem, ele vem ocupar o lugar que é
marcado pelo desejo materno. Ele se torna o objeto de desejo do Outro.
Com a entrada do Nome-do- pai, de um terceiro na relação, irá haver uma
quebra dessa simbiose. Através da castração, o bebê passará pelo processo de
desalienação, fazendo com que, o universo de significações se estenda para o
universo social. Com a inserção da lei a criança entrará na ordem da linguagem,
saindo da posição de objeto do Outro para se tornar ser desejante.
1 As interfaces do brincar com o inconsciente
A psicanálise foi desenvolvida por Freud como método de investigação do
inconsciente, ou seja, buscar o que está oculto por meio das palavras (associação
livre) e produções imaginárias (sonhos e o brincar). O vocabulário de Laplanche nos
diz que a psicanálise é:
Um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o
significado inconsciente das palavras, das ações, das produções
imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este método baseiase principalmente nas associações livres do sujeito, que são garantia da
validade da interpretação. A interpretação psicanalítica pode estender-se a
produções humanas para as quais se dispõe de associação livre.
(LAPLANCHE E PONTALIS. 2004, p.384/385).
O inconsciente é atemporal, por este motivo é que, conteúdos que foram
recalcados durante a infância voltam com a mesma força e vivacidade no momento
em que foi vivido. São esses conflitos que irão marcar a vida do sujeito e a
psicanálise se utiliza das mensagens do inconsciente que é enviado para a
consciência através de suas formações. O objetivo da psicanálise é fazer com que o
sujeito descubra e resolva seus conflitos internos que são geradores de angústia.
As formações do inconsciente são expressas através dos atos falhos, dos
chistes, dos sonhos. Como se observa, o inconsciente não está disponível a
consciência, ele irá aparecer de modo camuflado, se apresentando de forma indireta
através dos sonhos, dos chistes e no caso de crianças no brincar.
O sonho foi para Freud (1990) o caminho para a descoberta do inconsciente,
uma vez que através dos sonhos há a realização dos desejos. Através do sonho os
desejos encobertos são realizados e revelados.
[...] a elaboração onírica resulta de uma mediação necessária para suportar
o real, inscrevendo um traço separador entre a percepção e o lugar do
sujeito. Sonhar é a possibilidade de inserir um diferencial entre um lugar de
sujeito e a posição de objeto no mundo e nas relações. Por essa razão, os
sonhos sempre nos provocam a impressão de enigmas, na medida em que
transformam o que foi vivido. (COSTA, 2006, p.37).
É através do sonho que haverá a elaboração dos conflitos internos fazendo
com que a realidade psíquica satisfaça a proposta do sonho que é realizar os
desejos inconscientes. O sonhar toma o lugar da ação, assim como no brincar.
Os chistes1 por sua vez, também são utilizados como uma forma de brincar,
uma vez que o mesmo é em si um jogo de palavras, na qual o sujeito se utiliza das
palavras como uma fonte de obtenção de prazer, como por exemplo, dizer o que
quer sob um disfarce, tem relação com a realização de um desejo.
Diante disso aparece a seguinte questão: Se os sonhos e os chistes são uma
forma de realização dos desejos inconscientes, por que o brincar não seria também
uma forma criativa da realização de um desejo encoberto?
O brincar é uma função importante para o desenvolvimento psíquico da
criança, uma vez que funciona como uma defesa contra a angústia. Este serve como
uma descarga emocional na qual são possibilitadas as liberações dos seus conflitos
internos infantis. No processo lúdico tais conflitos se repetem, visto que a criança
expressa simbolicamente as fantasias e desejos inconscientes.
É brincando que se aprende a transformar e a usar os objetos do mundo
para nele realizar-se e inscrever os próprios gestos, sem perder contato
com a própria subjetividade. Por meio do brincar podemos manipular e
colorir fenômenos externos com significado e sentimentos oníricos, além de
podermos dominar a angústia, controlar idéias ou impulsos e, assim, dar
escoamento ao ódio à agressão. Brincar envolve uma atitude positiva diante
da vida. Por meio do brincar, podemos fazer coisas, não simplesmente
pensar ou desejar, pois brincar é fazer. (PARENTE, 2007, p. 418).
Desta forma o sonho, assim como o brincar irá revelar seus conflitos. Em
ambos a criança pode dar representação a um desejo, que no real dificilmente
poderá ser realizado. Nestas atividades a criança canaliza suas angústias,
modificando sua realidade externa. Os sonhos, assim como o brincar, resultam de
uma tentativa de elaboração e são uma demonstração da realidade interna do
sujeito. Em ambas, o acesso ao mundo interno se dá por meio da simbolização dos
conteúdos recalcados. Freud em A interpretação dos sonhos nos diz:
Os sonhos das crianças pequenas são freqüentemente pura realização de
desejos e são, neste caso, muito desinteressantes se comparados com os
sonhos dos adultos. Não levantam problemas a serem solucionados, mas,
por outro lado, são de inestimável importância para provar que, em sua
natureza essencial, os sonhos representam realizações de desejos.
(FREUD. 1900, p.119).
1
Termo utilizado por Freud que análogo a uma piada, gracejos. Os chistes são utilizados como uma
forma de satisfazer um desejo inconsciente, ou seja, dizer sob forma de disfarce algo que geralmente não é aceito
socialmente. Por este motivo os chistes é em si um jogo de palavras.
Observamos que ao sonhar as crianças de forma inconsciente realizam seus
desejos, por exemplo, se os pais de uma criança prometem que vai levá-la a um
determinado lugar, mas que por algum motivo este passeio não venha acontecer. A
criança por sua vez já criou uma expectativa com relação a este passeio. Digamos
então que no mesmo dia, a criança tenha um sonho com o tal lugar que ela tanto
almejava ir; Neste exemplo, vemos que no real o passeio não se concretizou, porém
através do sonho ela realizou seu desejo como forma de compensação.
Desta forma vemos que só é possível chegar aos conteúdos inconscientes
através dessas instâncias. No caso das crianças chegaremos o mais próximo de sua
realidade interna através do brincar.
Os sonhos, os jogos e brincadeiras, as encenações dramáticas, os objetos
transicionais e as narrativas fazem parte da cadeia de transformação, e
cada uma destas formas e modalidades simbolizantes tem a sua eficácia
subjetivante e terapêutica: ao permitir que as phantasias inconscientes se
expressem se articulem e sejam simbolizadas, confere-se ao sujeito uma
ampliação na capacidade de fazer contato, processar e comunicar-se em
um nível mais profundo. (FIGUEIREDO. 2009, p. 34).
É no jogo que ela irá se utilizar de imagos internas, na qual a criança cria
personagens para dissociar as identificações contraditórias que ela ainda não é
capaz de integrar. A criança projeta para seu mundo externo as imagos criadas
como função defensiva contra as angústias. A projeção é um mecanismo de defesa
utilizado para atribuir ao outro um desejo que lhe é próprio; Sendo assim a criança
passa a lidar melhor com as contradições, culpas e fantasias, nas situações lúdicas
através da simbolização, uma vez que os brinquedos são representantes externos
de seu mundo interno.
O sonho coloca em ato não somente o signo do objeto que move o desejo,
mas, fundamentalmente, um mais-além que aponta nossa falta mais radical.
Essa falta, experienciada nas relações primárias, é resultante da nossa
referência mais direta a ciclos naturais. Como seres de linguagem, nos
distanciamos irrevogavelmente da natureza. Corriqueiramente, na
construção de nossa realidade, essa falta precisa ser encoberta. O
encobrimento permite uma certa constância de nossa percepção das
coisas. Quando essa constância não acontece é que se produz o “encontro”
do sonho, que Lacan designou como encontro do real. (COSTA. 2006,
p.21).
O aforismo lacaniano fala que o inconsciente é estruturado como uma
linguagem. Isto quer dizer que o inconsciente é formado por cadeias de
significantes, que se articulam com a metáfora e a metonímia. O inconsciente se
manifesta através dos jogos de linguagem
A transferência é muito importante para o trabalho psicanalítico, pois através
deste o psicanalista também terá acesso a conteúdos que não seriam capazes de
ser acessados de outra forma. O vocabulário de psicanálise define transferência
como:
Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se
atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de
relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação
analítica. Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com
um sentimento de atualidade acentuada. (LAPLANCHE E PONTALIS. 2004,
p.514).
É na transferência com o analista que vai haver a reedição dos conflitos, ou
seja, a transferência é o deslocamento de sentimentos em relação ao analista que
na realidade, está relacionado com o Outro. No caso do brincar, o psicanalista deve
estar atento a posição ao qual a criança o colocou, que papel está desempenhando
no momento lúdico, pois o brincar é uma ação que expressa simbolicamente suas
ansiedades e fantasias inconscientes e é através dessas fantasias que o
psicanalista entrará em contato com sua realidade psíquica.
Na mediada em que o analista se prontifica a abrir mão da sua identidade,
por algum tempo e em parte, e receber os conteúdos internos da criança,
pode perceber o jogo dinâmico de relações que estão sendo expressas, as
fantasias, defesas e ansiedades subjacentes. Isso o instrumenta para, a
seguir, interpretar a situação, com vistas a esclarecê-la à criança na
transferência e, assim, propiciar um melhor contato com a realidade.
(SUSEMIHL. 2008, p.250).
A criança projeta para a figura do analista as imagos que estão formadas
internamente. O mundo interno da criança é formado pelos primeiros objetos que
foram introjetado do mundo externo. Imagos é a forma como a criança irá perceber o
analista e que tem haver com as relações do meio familiar, sejam elas reais ou
imaginárias. É através das fantasias que se acessa o mundo inconsciente.
Durante o processo analítico o que importa não é identificar se o que a
criança expressa é real ou fantasia. O psicanalista irá trabalhar com o que surge
neste ato lúdico e ver os conteúdos conflituosos, causadores de angústia que
surgem para serem trabalhados. É comum ver que as crianças muitas vezes
colocam o analista na posição de sujeito passivo. Isto ocorre porque no brincar ela
pode se tornar o personagem que “ordena”; A criança neste momento torna-se o ser
desejante e o psicanalista irá apenas ocupar o lugar de assujeitado.
Entretanto, na psicanálise com crianças é preciso a convocação da fala de
seus genitores. Isto se dá por meio das entrevistas preliminares, e tem como
objetivo averiguar qual o lugar que a criança ocupa no desejo dos pais. Por este
motivo esse primeiro contato se faz necessário para fazer a distinção entre o que os
pais dizem e o que a criança leva para a análise. É sabido que os pais têm uma
função importante sobre o sintoma da criança, pois ela está no lugar determinado
pelo desejo e fantasia dos pais, cabendo ao analista separar a demanda que é
trazida pelos genitores e o sintoma da criança. A criança é escutada enquanto
sujeito singular.
...a escuta analítica deve ser estendida para além do sintoma que a criança
apresenta: estendida até seu meio familiar e social, enfatizando, assim, a
dimensão histórica de cada sujeito, pois, se as respostas (sobre seu desejo)
lhe forem vedadas, a criança terá dificuldades em introduzir sua questão de
outro modo que não pelas desordens, sejam corporais, funcionais ou
comportamentais. (SOARES; ONO. 2008, p.38).
O que importa na análise não é o brinquedo e sim o brincar. Porém através da
escolha do brinquedo, a criança irá mostrar de forma metafórica os conteúdos, mas
só vai ser possível uma interpretação a partir do ato de brincar. Através do
brinquedo irá haver a projeção das fantasias. Por este motivo a associação livre da
criança se dará por meio do brincar, uma vez que a comunicação verbal através da
associação livre é muito reduzida na criança.
O brincar, assim como o sonho, é para Klein uma atividade com sentido
psíquico que aponta para o inconsciente, e ambas as atividades são por ela
consideradas como uma associação livre numa sessão de análise, como
elos de uma cadeia associativa que comporta verbalizações, atitudes,
gestos corporais, expressões e manifestações de todos os tipos. Todos os
elementos sempre são compreendidos no seu movimento e no seu
momento dentro da sessão, é isso o que lhe dá o seu sentido específico na
relação transferencial com o analista. (SUSEMIHL. 2008, p.75)
No setting2 terapêutico o brincar não é o único meio de acesso ao
inconsciente. Suas expressões, as histórias infantis e os desenhos são também uma
forma de acessar o mundo interno da criança. Os desenhos feitos durante a análise
revelam o que está encoberto: suas fantasias, seus medos e suas angústias.
Segundo Souza (2008) “Os brinquedos não são o único requisito para a análise
através do brincar; todas as atividades da criança na situação são tomadas como
2
Espaço utilizado nas sessões de análise, que permite que a criança (ou adulto) possa tornar-se sujeito
no ato do brincar, uma vez que este é um espaço potencial É o local na qual se estabelecem os vínculos entre
psicanalista e a criança.
comunicação: seus desenhos, recortes, atividades com água, modelagem, suas
dramatizações etc.”
Os desenhos são muito utilizados nos casos em que as crianças vítimas de
violência sexual têm dificuldades para falar sobre o ocorrido. E através dos
desenhos as crianças (especialmente as pequenas) podem dar representação ao
que aconteceu e também servem como uma forma de alaboração de uma situação
considerada traumática.
Em outros casos as crianças podem expressar por meio dos desenhos sua
dinâmica familiar ou o meio social ao qual estão inseridos. É comum encontrar nos
desenhos da criança que vive num contexto social de violência, figuras que mostram
sua realidade externa, como por exemplo, desenhos de pessoas armadas, brigando
e até mesmo utilizam figuras de seu mundo interno para mostrar os conflitos que
estão relacionados ao mesmo tempo com seu meio social e familiar.
Como se pode observar existem várias formas de se acessar o inconsciente
infantil. Mas para que haja uma boa transferência o analista deve ter a capacidade
de brincar, de está aberto para os conteúdos que a criança irá projetar nele.
Portanto:
O analisa pode realizar brincadeiras com seu paciente, na tentativa de
(como já aconteceu um dia entre o bebê e sua mãe) comunicar afetos e
novos tipos de sensações inerentes àquela dupla, o que por vezes pode ser
vivido dentro de uma relação com um outro (analista como objeto
objetivamente percebido) ou em situações de regressão à dependência
absoluta (analista como objeto subjetivo. (CALLIA. .2008, p.149).
Com a capacidade de brincar do analista vai se produzir a área do jogo, na
qual haverá o espaço de encontros e acontecimentos. O brinquedo metaforiza a
realidade interna. A metáfora como meio de comunicação é que irá gerar um espaço
de representação simbólica. Metaforizando, a criança ocupa outro lugar na própria
história.
São próprios dos significantes a ambigüidade semântica, o deslocamento, a
possibilidade de girar, de armar diferentes circuitos e de montar roteiros
que, quando criados pela criança, podem produzir efeitos de significação
diferentes. Por isso, a mesma palavra não terá o mesmo significado, se
usada num contexto diferente. (GUELLER. 2008, p. 88).
Figueiredo (2008) relata que a posição que o analista deve ter é uma
presença reservada. Isto quer dizer que o analista deve está no espaço de
possibilidades, sendo este um campo rico de simbolizações que vai fazer com que o
sujeito (no caso, a criança) possa dar representação à suas fantasias e angústias.
Esta presença preservada do analista irá propiciar para que se estabeleça a
transferência.
O termo “presença reservada” indica, em primeiro lugar, uma presença
côncava do analista, ou seja, um modo de estar presente em que se
constitui e mantém uma reserva de espaço potencial no qual o paciente
pode vir a ser. Indo além: será nesse espaço vazio, mas garantido pela
presença reservada do analista que se poderão instalar os jogos
transferenciais e contratransferenciais e as demais modalidades e
dimensões da relação terapêutica indispensáveis para que a análise
progrida e propicie transformações. (FIGUEIREDO. 2008, p.112).
No setting analítico, o psicanalista ocupa o lugar do Outro para a criança,
transferindo para ele sentimentos que são uma repetição do que não foi bem
resolvido na relação com as figuras parentais para a relação com o analista, uma
vez que na transferência ocorre a mesma conjuntura de ambivalência de
sentimentos, assim como as dirigidas ao seu Outro primordial.
O analista é tanto um objeto subjetivo quanto um suporte do princípio de
realidade, convertendo-se em uma espécie de objeto transicional. Nessa
medida, se entrelaçam sem grandes dificuldades para nossa compreensão,
as experiências de transferências, o brincar, o ato criativo e o relato do
sonho, pois todos transitam nesse espaço [...] em que o subjetivo e o
objetivo se acoplam sem coincidir, gerando uma realidade de nova espécie.
Nessa realidade, os objetos são ao mesmo tempo inventados e
descobertos, e esse é justamente o estatuto do analista na transferência.
(FIGUEIREDO. 2008, p.137).
Como se observa existem vários outros que fazem parte da existência da
criança, que tem como eixo fundamental a relação da criança com o Outro
primordial, que é a mãe. Esta é quem vai inserir a criança no campo da linguagem
através de seu desejo. São suas palavras fundadoras que irão dar significação às
manifestações do bebê, antecipando-o enquanto sujeito.
A capacidade de brincar do bebê irá depender da capacidade de brincar
desse Outro. Na relação mãe bebê existem brincadeiras que são possíveis de serem
observadas. Os balbucios do bebê e a fala infantilizada que a mãe utiliza para
manter uma comunicação com seu filho, são exemplos, que mostram como essa
interação se faz necessária para que haja a constituição do bebê enquanto sujeito.
O “manhês- tipo de fala dirigida à criança pequena [...] muitos foram os
nomes atribuídos a ela: baby talk ou fala infantilizada, manhês; mas o termo
“fala dirigida à criança” pretende recuperar o papel da criança como sujeito
ativo nesse processo interativo. (PRAZERES; CALVACANTE. 2009, p.242).
Não é a mãe falar pela criança, mas é se utilizar do manhês para haver essa
interação, na qual possibilite a criança tornar-se ativo enquanto sujeito. Assumindo a
posição de sujeito falante na relação. (PRAZERES; CALVACANTE. Pág.244). Esta fala
dirigida a criança é importante, pois através desta haverá a inserção da criança no
campo simbólico.
É na relação com seus cuidadores, que representam uma e outra dessas
funções, que a criança vai constituir seu psiquismo- necessita de um outro
que lhe transmita palavras, significações, para montar sua identidade, sua
imagem corporal e constituir-se como um sujeito, com um corpo e uma
história própria. (BERNARDINO. 2009, p. 38).
É a partir da linguagem que a criança irá se descolar da simbiose materna,
para se inserir no campo simbólico. Contudo essa simbiose como condição primeira
se faz necessária, pois é este outro que irá lhe transmitir palavras carregadas de
significações. E estas palavras fundadoras irão imprimir marcas no corpo.
Desta forma o brincar tem um papel fundamental na constituição do sujeito,
pois através deste há a busca da satisfação dos desejos. No brincar a criança se
utiliza da imaginação do “faz-de-conta” e cria seu mundo ideal, ou seja, o simbólico é
utilizado como representação do seu mundo interno.
Bernardino (2009. p.57) nos diz que “[...] é preciso também que o cuidador do
bebê crie momentos de presença significativos, para que em seus momentos de
ausência possa ser lembrado, dando origem às representações, pela vivência da
falta.” São esses momentos de ausência que irá possibilitar ao bebê dar
representação a falta. Esta falta podendo ser simbolizada através do brincar irá dar
condições para que haja a estruturação subjetiva da criança.
A estruturação subjetiva de uma criança não depende apenas da biologia.
Esta facilita as condições, mas há que encontrar também as condições
estruturais simbólicas, transmitidas por seus cuidadores principais [...] Para
que este processo ocorra [...] é necessário o cumprimento de duas funções
básicas: a função materna- encarregada da introdução da criança no mundo
simbólico, através dos cuidados e de palavras básicas; e a função paternaencarregada da passagem da criança do universo de significações
maternas e familiares para o universo social mais amplo, através da
transmissão da Lei. (BERNARDINO. 2009. p.57).
É a partir da relação com a mãe que será o fundamento para as outras
relações que a criança terá ao longo de sua vida. Por esse motivo, é importante que
a mãe cuide de seu bebê, se adaptando as suas necessidades. É preciso ser uma
mãe “ma-terna”, ou seja, uma mãe suficientemente boa. Aquela que ao mesmo
tempo desenvolva estas duas funções a de ser “má” e “terna”. Já a função paterna
está relacionada ao limite. Com a inserção a Lei irá proporcionar ao bebê a ter novas
relações, havendo assim a castração simbólica.
2 O brincar como constituição do sujeito
Desde a vida intra-uterina existem indícios de que o ser humano já possui a
capacidade de brincar, uma vez que a criança ainda no ventre de sua mãe brinca
com suas mãos, passando a sugar seu polegar; Porém a criança ainda se encontra
em um estado de imaturidade simbólica, ou seja, a criança ainda não tem a
capacidade de dar representação a algo. Uma vez que é através da interação mãebebê que irá surgir a capacidade de brincar. Após o nascimento a capacidade de
brincar do bebê irá depender da relação e da capacidade de brincar do Outro e com
o outro. Desta forma, o brincar é inerente ao ser humano.
O jogo nasce da relação com a mãe que cuida e que estabelece com a
criança profundos intercâmbios comunicativos através de jogos
caracterizados por sons, balbucios e verbalizações que seriam
acompanhadas psiquicamente por identificações projetivas recíprocas que
propiciam o trânsito, o reconhecimento e a transformação desses estados
emocionais. (SOUZA apud FERRO. 2008, p.129).
Segundo Winnicott (1975) antes mesmo do nascimento propriamente dito, o
bebê já nasce historicamente e psiquicamente, dentro do seu contexto familiar e
social, ou seja, o bebê nasce atravessado pelas questões ambientais. Ao nascer, o
bebê se encontra em um estado de não- integração, sendo necessário um ambiente
“suficientemente bom” para ajudá-lo com suas angústias.
Neste estado de dependência absoluta, ele não pode ser tomado como
sujeito separado, pois, neste momento não existe bebê sem a mãe, uma vez que
ambos encontram-se fusionados. Ele é atemporal, por este motivo ele se encontra
em um estado de não-eu. É na dependência relativa que mãe e bebê começam a se
diferenciar, saindo do estado de fusão que antes se encontravam, para dar espaço
para o surgimento do sentido do eu. Desta forma o surgimento do sentido do eu
surge dentro do Espaço Potencial3.
Winnicott fala que entre o objeto transicional e o fenômeno transicional existe
o Espaço Potencial, este seria o espaço onde ocorre o processo de Ilusão e
Desilusão. Porém para que aconteça o fenômeno da ilusão originária é necessário
que haja uma “mãe suficientemente boa” que se adaptará as necessidades de seu
3
Este é um espaço de possibilidades na qual a criança pode transitar entre o real e o imaginário, uma
vez que o simbolismo já se encontra empregado.
bebê, fazendo com que este tenha a ilusão de que a criou. Segundo Winnicott o
estado na qual a mãe deve se encontrar para propiciar o fenômeno da ilusão é
denominado de preocupação materna primária.
Esse estado da mãe desenvolve-se no início da gravidez estendendo-se até
as primeiras semanas após o nascimento do bebê e se caracteriza por uma
sensibilidade aguçada. Desta forma o bebê tem a ilusão de que a mãe é uma
extensão de si, uma vez que mãe e bebê se encontram fusionados. É nessa fase de
dependência absoluta que ocorre o fenômeno da ilusão.
No estado de confiança [...], que cresce quando a mãe pode fazer esta
coisa difícil [brincar de ser encontrada quando e onde a onipotência infantil
a “cria” e, ao mesmo tempo, ser ela mesma à espera deste encontro], [...], o
bebê desfruta das experiências baseadas no “casamento” da onipotência
dos processos intrapsíquicos com o controle infantil da realidade. A
confiança [...] na mãe constituí-se aqui em um playground intermediário,
onde se origina a idéia mágica, já que o bebê em certa medida experimente
a onipotência... Chamo isto de playground porque o brincar começa aqui.
(FIGUEIREDO apud WINNICOTT. 2009, p. 84).
No processo da desilusão a dependência do bebê é relativa, é quando
começa o processo de individuação, na qual a mãe passa a ser vista como objeto
percebido, ou seja, como objeto externo a si. Nesta fase começam a surgir as falhas
inerentes a maternagem produzindo frustrações para o bebê. Estas são importantes
e necessárias para a noção da realidade externa.
O processo de desilusão proposto por Winnicott tem alguma relação ao
conceito de desalienação postulado por Lacan. Ambos estão relacionados ao
processo de individuação do bebê. É necessário que o bebê passe pelo processo de
desalienação, para que a mãe possa ser vista como outra pessoa que não seja ele.
A mãe suficientemente boa começa com uma adaptação quase completa as
necessidades de seu bebê, e, à medida que o tempo passa, adapta-se cada
vez menos completamente, de modo gradativo, segundo a crescente
capacidade do bebê em lidar com o fracasso dela. (CALLIA apud
WINNICOTT. 2008, p.140).
A mãe nesta etapa não é mais vista como extensão de si. O bebê vive a
primeira possessão não-eu, surgindo assim os objetos e fenômenos transicionais
que ocorrem no espaço potencial. Este é um espaço de possibilidades, na qual o
bebê para suportar a ausência materna, utiliza-se da capacidade imaginativa. Ele
passa a transitar nesse espaço de possibilidades, que é a área intermediária, uma
vez que está entre a realidade interna e externa; Mas para que isto ocorra é
necessário que se tenha passado pelo fenômeno da ilusão.
Segundo Winnicott (1975) “antes mesmo dos bebês se apegarem a um
determinado objeto especial, existe uma seqüência de eventos que vão desde
atividades do punho na boca até a ligação ao brinquedo”. A essa área intermediária
entre o polegar e o brinquedo Winnicott denominou de Objetos transicionais e
Fenômenos transicionais. Os objetos transicionais seriam então um deslocamento
da relação com a mãe para um objeto exterior. Essa relação entre o bebê e o objeto
é denominada fenômeno transicional.
No brincar a criança irá vivenciar seu mundo interno explorando suas
fantasias com sua realidade. Esta por sua vez é uma relação paradoxal, pois o
brincar é ao mesmo tempo real e não real. “Objeto paradoxal [...] na realidade, é o
próprio sujeito em sua corporalidade libidinal. Por isso, sua perda traumática provoca
desde uma ruptura narcisista até uma devastação de tipo psicótico.” (Rodulfo apud
Winnicott. 1990, p.101).
Fenômenos e objetos transicionais [...] exercem funções de mediação e
podem modular o sofrimento excessivo evitando a interrupção do processo
e dando sustentação às operações de desligar e ligar, separar e articular,
possibilitando formas moderadas de separação e de reunião capazes de
evitar as grandes ansiedades que podem ser evocadas em situações
extremas. (FIGUEIREDO apud WINNICOTT. 2009, p. 118).
O apego do bebê ao objeto pode revelar a negação de uma ameaça
inconsciente, sendo este apego uma defesa contra a ansiedade. A relação do bebê
com o objeto transicional é uma relação paradoxal, pois este é ao mesmo tempo
amado e odiado. Esse objeto faz com que os bebês tolerem a ausência materna.
Desta forma o objeto não deverá ser substituído a não ser que seja o próprio bebê
que faça essa substituição, pois ao se retirar esse objeto haverá uma ruptura da
continuidade do ser, destruindo assim o significado do objeto para o bebê. “Esse
objeto vai se localizar na zona intermediária, na separação entre a mãe e o bebê, e
vai permitir que o próprio processo de separação seja tolerado, uma vez que esse
objeto é ao mesmo tempo parte da mãe e parte do bebê.” (NETO. 2007, p.411).
Para Winnicott quando o bebê se encontra na terceira área de experiência, ou
seja, no espaço potencial, na qual se encontra entre o psíquico e o real, o
simbolismo já se encontra empregado, por este motivo ele pode transitar pelo
espaço de ilusão e desilusão, ou seja, realidade interna e externa. O simbolismo
está na área transicional, onde um determinado objeto é substituído por outro. Esse
objeto transicional é a primeira possessão do não-eu da criança. É nesse espaço
transicional onde ocorrerão as fantasias inconscientes, que é uma forma de
realização de um desejo. Com relação a isto Figueiredo nos fala que:
[...] conceito de phantasia inconsciente se dá entre o “mundo interno” e o
“mundo externo” (o „dentro‟ e o „fora‟), estejam eles funcionando em paralelo
ou interação. Embora as phantasias inconscientes sejam os próprios
conteúdos básicos do mundo interno, não há, como vimos, contato, não há
percepção, não há aprendizagem, não há experiência com os objetos
externos que não sejam antecipadas e enquadradas pelo fantasiar.
(FIGUEIREDO. 2009, p.32).
A atividade lúdica ocorre em um espaço transicional, pois a brincadeira se dá
entre o real e o imaginário, ou seja, as suas realidades internas e externas se
entrelaçam, não havendo nem dentro nem fora, pois a realidade é constituída por
ambas. Winnicott também relata que o brincar está interligado com a cultura, pois
este é um campo rico de simbolizações. A experiência cultural é uma continuidade
das primeiras experiências do bebê.
Mediante esse contexto é importante salientar que:
O brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos
relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na
psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma
altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo
mesmo e com os outros (WINNICOTT. 1975, p. 63).
O brincar é de suma importância para o desenvolvimento saudável da
criança, pois é através deste que haverá a expressão e a elaboração dos conflitos. É
nesta atividade lúdica que o psicanalista poderá ter acesso ao seu mundo simbólico.
A criança recalca acontecimentos desprazerosos como uma forma de amenizar suas
angústias. Desta forma o recalque funciona como um mecanismo de defesa e é no
brincar que irá haver uma substituição dos conteúdos recalcados.
Segundo Melaine Klein (1921-1945) “os personagens ou personificações nos
jogos das crianças se originam de imagos internas através da cisão e da projeção”.
Na brincadeira a criança irá utilizar as imagens que já estão formadas internamente,
as quais irão ser projetadas para seu mundo externo. A atitude da criança irá se
revelar através da brincadeira no campo da realidade. Para Klein, o brincar constitui-
se em via régia para o inconsciente da criança. Isto se dá porque é no brincar que o
analista chegará o mais próximo do inconsciente da criança.
[...] esses objetos internos representantes do mundo externo, associados a
moções pulsionais (agressivos, amorosos) se organizam em núcleos e vão
constituir uma espécie de teatro interno onde os significados para as
experiências vividas são gerados e passam a dar sentido às ações, crenças
e percepções, assim como a uma totalidade afetiva que colore suas
relações com o mundo externo e interno. Esses „ climas‟ emocionais são
expressos e evocados através das fantasias inconscientes. (BARROS,
ELIAS; BARROS, ELIZABETH. 2007, p. 223).
Klein traz o conceito de posição para descrever o modo de funcionamento do
psiquismo, que é similar as fases do desenvolvimento postulado por Freud. Porém
este conceito de Klein dividiu-se em duas posições. A posição esquizoparanóide e a
posição depressiva. As duas coexistem de forma dialética.
Na primeira posição a criança apreende a mãe como objeto parcial, uma vez
que as impressões de amor e ódio são sentidas de modo fragmentado. O primeiro
objeto que o bebê enxerga é o seio da mãe, este por sua vez traz frustração e
gratificação, ocorrendo à clivagem entre “seio bom” e “seio mau”. Já na segunda
posição, a criança apreende a mãe de forma total, uma vez que já percebe os
objetos como um todo e passa a perceber a ambivalência de sentimento com
relação à mãe, surgindo assim, a depressão pela destruição real e imaginária do
objeto.
Percebe-se aqui que as posições descritas por Klein é parecido com as
funções do brincar postuladas por Rodulfo. Estas estão ligadas à edificação do
corpo. Na qual a primeira função o bebê não consegue diferenciar-se de sua mãe,
esta sendo vista como um objeto parcial. Isto se dá pelo fato de que o bebê é
constituído por uma espécie de “collage” 4, não havendo interno e externo. Depois o
bebê começa o processo de “descolamento” desse Outro primordial. Passando a ver
a mãe como sujeito externo a si. Conforme a segunda função do brincar de Rodulfo.
É difícil para o analista manter com a criança uma comunicação verbal
através da associação livre, por este motivo a inserção do brincar durante a análise
com crianças se faz necessária, na qual a finalidade da análise seria entrar em
contato com a fantasia da criança. A associação livre foi um método desenvolvido
4
Termo utilizado por Rodulfo que está relacionado ao estado de fusão que mãe e bebê se encontram, ou
seja, a princípio mãe e bebê se encontram interligados, não havendo dois sujeitos, um vez que um é a extensão
do outro.
por Freud para chegar o mais próximo do inconsciente. Neste método de
investigação o sujeito expressa de forma indiscriminada tudo o que lhe vier em
pensamento. No trabalho com crianças o brincar irá se assemelhar a associação
livre, pois é no momento lúdico que haverá a expressão do seu inconsciente, ou
seja, é através do brincar que a criança irá expressar o que o adulto faz através da
associação livre.
Melaine Klein observou que o brincar da criança poderia representar
simbolicamente suas ansiedades e fantasias e, visto que não se pode exigir
de uma criança pequena que faça associações livres, tratou o brincar como
equivalente a expressões verbais, isto é, como expressão simbólica de seus
conflitos inconscientes. (MELLO. 2007, p.256).
Crianças que apresentam dificuldades para brincar não conseguem deslocar
as angústias vividas com relação a seus objetos primordiais. O brincar serve como
um objeto substitutivo, no qual a criança através de uma representação simbólica irá
amenizar sua angústia. É através desses objetos substitutivos que haverá a
expressão e elaboração de seus conflitos, permitindo-lhes crescer psiquicamente.
O brincar não deve estar preso apenas aos seus simbolismos, embora essa
seja uma parte importante da análise, mas também deve ser observado durante o
brincar o modo como a criança brinca, suas expressões, sua fala, as repetições, os
papéis que a criança atribui a figura do analista e a si mesmo. Enfim o analista deve
estar atento aos fenômenos que ocorrem no brincar.
Embora Lacan não tenha estudado crianças, ele diz que o bebê antes de
nascer, já está atravessado pelo mundo da linguagem, no qual a mãe é quem fala
pelo bebê. A criança está inserida na linguagem a partir do desejo materno.
“Ressaltamos a importância da ligação da palavra aqui. É esta que cria o corpo do
bebê: palavras fundadoras-palavras de mãe, dando significação às manifestações
do bebê, antecipando-o como sujeito, são as que se inscrevem no corpo do bebê.”
(MOTTA. 2009, p. 38). São a partir dessas primeiras palavras que irá se inscrever no
corpo do bebê os primeiros significantes.
Para Lacan o infans vem ocupar um lugar marcado primordialmente pelo
desejo materno, se alienando na imagem de um outro. Instaura-se aí uma
relação dual, imaginária, e o bebê, fascinado, vive uma dependência quase
total na demanda pelo desejo narcísico. Sua demanda passa a “ser
desejado pelo Outro” ou “ ter o desejo do Outro como desejo seu”.
(MORGENSTERN. 2008, p.110).
A isto Lacan denominou de alienação, o bebê é a imagem do Outro (mãe).
Sendo assim se faz necessário que o bebê se “aliene” para que se constitua o
sujeito. O bebê nesta fase está assujeitado ao Outro. Pois antes de tornar-se sujeito,
o bebê é objeto de desejo do Outro.
Para que se possa introduzir o “Eu” como sujeito, é necessário que se passe
pelo processo de desalienação. Para que isto ocorra é indispensável que haja a
entrada de um terceiro (o pai) para que faça a separação dessa relação dual (mãebebê). O outro não necessariamente é o pai, mais é a sua dimensão simbólica, ou
seja, a função que esse Outro primordial irá desempenhar.
Mas para que a constituição do sujeito se efetive, é necessária a segunda
operação constituinte: a separação. É preciso que o Nome- do- Pai barre,
interdite o desejante materno, para que o bebê não fique eternamente
aprisionado a ter que responder como objeto de desejo da mãe. (MOTTA.
2009, p.43).
A entrada desse terceiro, denominado por Lacan como o Nome-do-Pai, se faz
necessário para que haja a inserção da lei nessa relação, para haver o corte do
bebê com a mãe e da mãe com seu bebê. É com o corte inserido pela lei que o bebê
sairá da alienação, ou seja, da simbiose com relação à mãe, para que seja inserido
no campo da linguagem. Havendo assim a castração dessa relação dual, para que o
universo de significações se estenda para o universo social. Desta forma é o corte
feito com a inserção da lei que irá possibilitar que a criança entre na ordem da
linguagem.
Portanto, para se constituir como sujeito desejante, a criança precisa
separar-se do efeito mortífero do desejo materno, isto é, deixar de ficar no
lugar de ser para sempre o desejo da mãe, de ser objeto da mãe. É nesse
processo que a criança rompe com a fascinação e „se dá conta‟ de que o
Outro não é tão absoluto, tão perfeito, mas que algo lhe falta. Interessante
notar que Lacan não faz da falta do objeto a origem da privação, mas a da
criação significante. (MORGENSTERN. 2008, p.110).
Para Lacan o inconsciente é formado por elos associativos de significantes
que sempre retornam aos mesmos lugares. Os elos associativos do brincar
funcionam como uma metáfora, ou seja, como uma substituição do significante.
Como o brincar é uma maneira pelas quais as fantasias inconscientes se expressam
só é possível apreendê-la a partir de seu simbolismo. Na brincadeira a criança é
capaz de significar algo ausente, é uma maneira onde os conflitos inconscientes
adquirem uma representação.
[...] Lacan propõe pensar o inconsciente como um conjunto de cadeias
significantes em que cada uma [...] se articula com outras, como um anel,
se articula com outra cadeia de significante, formando assim anéis dentro
de um colar, que se articula com outro anel de um outro colar [...].
(QUINET. 2003, p.41).
O brincar repetitivo da criança faz com que ela volte à mesma situação de
uma outra maneira.Vale salientar que o brincar se transforma, vai se ressignificando
à medida que se processa a estruturação subjetiva, ou seja, as brincadeiras não são
abandonadas, apenas retornam com novos significados.
No brincar a criança cria um mundo particular no qual o imaginário e real se
entrelaçam. Na atividade lúdica ela busca alternativas para transformar sua
realidade, criando e recriando situações na qual há uma satisfação imediata de seus
desejos, que são realizados facilmente.
A criança traz para dentro dessa área da brincadeira objetos ou fenômenos
oriundos da realidade externa, usando-os a serviço de alguma amostra
derivada da realidade interna ou pessoal. Sem alucinar, a criança põe para
fora uma amostra do potencial onírico e vive com essa amostra num
ambiente escolhido de fragmentos oriundos da realidade externa.
(WINNICOTT. 1975, p.76).
É no entrelace entre o imaginário e o real que a criança deixa a posição de
sujeito passivo para tornar-se sujeito ativo no ato do brincar. Isto quer dizer que no
ato lúdico a criança repete de modo metafórico situações desprazerosas. Estas
ganhando um novo significante. Em Além do princípio do prazer, Freud descreveu
um caso de uma criança, na qual é possível ver com maior riqueza de detalhes o
brincar como forma de representação simbólica.
Foi no caso de Ernest, que se observaram pela primeira vez distintas
atividades lúdicas com o jogo do carretel, com a observação do fort/da. 5 A filha de
Freud pediu para que seu pai tomasse conta de seu filho, pois ela precisava se
ausentar por um curto período de tempo. Com o passar do tempo Freud percebeu
que seu neto não esboçou nenhum tipo de reação esperada, tipo o choro, que é a
reação mais freqüente de crianças que ficam por um período longe de suas mães.
Ao invés disto Ernest passou a utilizar-se de uma brincadeira. Ele brincava com um
carretel preso a um fio.
5
Descrito por Freud em: Além do princípio do prazer. Vol. 18. O termo fort/ da surgiu a partir
da observação que Freud fez de seu neto, onde nas ocasiões em que sua mãe não se encontrava,
Ernest utilizava de uma brincadeira na qual arremessava e trazia o carretel novamente para perto de
si. Junto com esse ato Ernest pronunciava ao jogar o carretel a palavra fort (fora) e ao trazer para
perto dizia a palavra da (aqui). Desta forma Freud percebeu que ao brincar seu neto estava
simbolizando a ausência materna.
Ao brincar, Ernest jogava o carretel de dentro do berço para fora, fazendo
com que este desaparecesse sob a cama. Ao jogar o carretel Ernest pronunciava o
som: ó...ó...ó, e quando o puxava recuperando-o, pronunciava o som: dá...dá...dá. O
brincar se transformou em substituto simbólico de sua mãe, na qual o carretel se
tornou o objeto que Ernest deslocava seu amor e sua destrutividade, havendo uma
relação de ambivalência. Pois o mesmo objeto que lhe era causador de angústia,
era também o objeto ao qual seu amor era dirigido.
Na teoria da psicanálise não hesitamos em supor que o curso tomado pelos
eventos mentais está automaticamente regulado pelo princípio de prazer, ou
seja, acreditamos que o curso desses eventos é invariavelmente colocado
em movimento por uma tensão desagradável e que toma uma direção tal,
que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com
uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer. (FREUD. 19251926, p.17).
Neste jogo o aparecimento e desaparecimento do carretel era uma
representação
simbólica
da
ausência
materna.
Nesta
brincadeira
Ernest
inconscientemente simulava através do carretel o desaparecimento e o retorno de
sua mãe. Esse ato era repetitivo como uma forma de compensação, fazendo com
que ele mesmo fizesse o desaparecimento e aparecimento do carretel. Projetando
para o real a experiência desagradável, tornando-a prazerosa. O carretel era para
Ernest o objeto transicional, uma vez que este objeto era o deslocamento da relação
com a mãe.
No caso de Ernest observamos que no brincar ele se tornou o sujeito ativo da
situação. Uma vez que o carretel sendo um substituto simbólico de sua mãe, e ao
jogá-lo para longe, é como se ele próprio fizesse a sua mãe desaparecer e aparecer,
tornando-se o “senhor” da situação.
O brincar é uma atividade na qual a criança utiliza da imaginação e a
criatividade. Criando e recriando situações de seu cotidiano, como uma forma de
elaboração de seus conflitos. Os conflitos psíquicos são gerados pela fantasia,
quanto mais elaborado na brincadeira haverá uma reconfiguração do sofrimento
psíquico. Freud desenvolveu a psicanálise para a investigação do inconsciente. Esta
instância só pode se revelar de forma indireta, através dos atos falhos, dos chistes,
dos sonhos, ou seja, o inconsciente se manifesta de modo camuflado.
Em outro caso descrito por Freud é possível observar o brincar como forma
de elaboração dos conflitos psíquicos. No caso de Hans os conflitos sugiram a partir
da fantasia de ser mordido por um cavalo, ao qual desencadeou sua fobia. E que
através do brincar houve uma redução da angústia vivida por ele.
O caso Hans foi escrito por Freud em 1909. Esta foi à primeira aplicação de
uma técnica psicanalítica em uma criança. O tratamento foi efetuado pelo pai de
Hans sob orientação de Freud. Os primeiros relatos do caso Hans datam de um
período em que ele estava para completar três anos de idade, na qual mostrava
interesse pelo seu órgão genital ao qual chamava de “pipi”. Certo dia sua mãe ao vêlo tocar seu pênis lhe disse que iria chamar o doutor para cortar seu pipi fora.
Aos três anos e meio a irmã de Hans nasce, e seu nascimento é envolto de
uma fantasia criada por seus pais, na qual uma cegonha era quem iria trazer sua
irmã. Porém Hans percebe toda a movimentação que antecedeu o nascimento dela.
Primeiramente foi a maleta do médico, depois a bacia de água com sangue, e
crença de que a cegonha trouxe sua irmã começa a ser abalada.
Tudo o que ele disse mostra que ele relaciona aquilo que é estranho na
situação com a chegada da cegonha. Olha para tudo que vê, com olhar de
desconfiança e atento, e não se pode questionar o fato de que suas
primeiras dúvidas sobre a cegonha criaram raízes. (FREUD. 1909, p. 19).
É possível notar que a história da cegonha caiu por terra, quando em uma de
suas brincadeiras Hans introduz por entre as pernas de uma boneca um canivete e
depois as abre, simulando desta forma a maneira pela qual ele inconscientemente
acreditava de como teria sido o nascimento de Hanna. Hans de forma inconsciente
já demonstrava para seus pais através do brincar, que ele não acreditava na história
da cegonha ao fazer a boneca “expulsar” o canivete. Desta forma ele simbolizava
como era o nascimento dos bebês.
Porém para que Hans chegasse a suas conclusões de como seria o
nascimento de um bebê, ele passou por vários episódios que corroboraram para que
ele formulasse suas teorias. Isto de deu da seguinte forma: 1)Durante o nascimento
de Hanna, ele observou uma movimentação diferente, com o médico, o barulho que
sua mãe fazia e o sangue na bacia. 2) Logo após o nascimento, Hans brinca com
uma boneca, na qual simbolizava de como seria um nascimento. 3) Ele sempre
acompanhava sua mãe ao banheiro, assim surgindo à história dos “lunfs”. 4) e por
fim o medo que ele sentia das carroças carregadas quando saiam dos portões que
ficavam em frente a sua casa. Estas hipóteses se deram através dos elos
associativos de significantes proposto por Lacan, na qual estão sempre retornando
aos mesmos lugares. Os elos associativos giram em torno da “expulsão”, quem vem
fazer uma analogia com o nascimento de sua irmã.
Depois do nascimento de sua irmã, Hans está ocupado com problemas da
origem de crianças, ele agora passa a brincar de que também tem filhos, chama
suas amigas de filhas, dizendo que também foi à cegonha quem as trouxe. Como
podemos observar o brincar serve como uma válvula de escape contra a ansiedade
vivenciada por Hans, pois o nascimento de sua irmã foi um evento potencialmente
traumático. E é por meio da representação simbólica que sua ansiedade será
amenizada. Ao brincar de ter filhas, Hans está projetando para o mundo real
situações ao qual inconscientemente ele não consegue suportar. Uma vez que para
ele é “impossível” suportar a perda desse lugar que ele tanto almejava, que era estar
junto de sua mãe.
Aos quatro anos e nove meses Hans despertou em lágrimas pensando que
sua mãe tinha ido embora e que não iria mais “mimar” com ela. Após alguns dias
Hans foi passear com a babá e começou a chorar com medo de que um cavalo o
mordesse. A partir desse momento tem início a fobia de cavalo. O que na época era
impossível não se deparar com um cavalo uma vez que este era o meio de
transporte de pessoas e objetos.
Quando Hans via as carruagens entrava em pânico, pois imaginava que os
cavalos iriam cair e isto lhe causava ansiedade. Em frente a sua casa tinha um
galpão onde freqüentemente entravam e saiam carroças carregadas de caixas.
Hans manifestou o desejo de ir “brincar no galpão de carregar e descarregar as
caixas, e de ficar trepando e brincando pelas caixas que ficam por lá”. Seu desejo de
ir brincar em cima das caixas, estaria ligado ao complexo de Édipo, com relação ao
desejo de apossar-se dessa mãe e de ter filho com ela, assim como seu pai.
Hans [...] esteve o dia todo brincando de carregar e descarregar caixotes;
ele disse que desejaria poder ter um vagão de brinquedo e caixas desse
tipo para brincar. O que mais costumava interessá-lo no pátio da Alfândega
em frente era o carregamento e descarregamento das carroças. E ele
costumava assustar-se mais quando uma carroça tinha sido completamente
carregada e estava no ponto de partir. “os cavalos vão cair” [...]. Costumava
também chamar as portas do alpendre da Agência Central da Alfândega de
“buracos” [...]. Mas agora em vez de “buraco”, ele diz “atrás do buraco”.
(FREUD. 1909, p.90).
Tanto as carroças, quanto as caixas sempre carregam algo dentro delas, o
que simbolicamente se assemelha ao útero materno. Observamos que a angústia de
Hans estava voltada as “carroças carregadas”. De outra forma poderíamos dizer
que, o que Hans temia era uma nova gravidez de sua mãe e que esse novo bebê o
afastasse ainda mais de seu objeto de amor. Ao dizer “os cavalos vão cair” seria a
expulsão do bebê através do parto. Desta forma, os bebês, os “lunfs” e as carroças
saem por um tipo de “buraco”. Neste ponto vemos que o medo de que o cavalo
caísse não está apenas relacionado com a destrutividade dirigida ao seu pai. Como
também o medo de que sua mãe tivesse outro bebê.
Ao conversar com seu pai sobre os cavalos disse que um dia o cavalo caiu do
ônibus e ele tinha morrido e o pai pergunta: “como você sabe disso?” Hans riu e
disse que o cavalo não estava morto, era apenas uma brincadeira. “Durante algum
tempo, Hans tem brincado de cavalo, no quarto; ele trota, deixa-se cair, esperneia os
pés e relincha”.
Hans deslocava para os cavalos a sua destrutividade e temores em relação a
seu pai. Os cavalos seriam o substituto simbólico dele. É no brincar que a criança
utiliza de imagos internas, na qual a criança cria personagens para dissociar as
identificações contraditórias que ela ainda não é capaz de integrar. Ao mesmo
tempo em que Hans se identifica com seu pai ele o quer “morto” como o cavalo para
ocupar seu lugar ao lado de sua mãe.
A fobia estava relacionada com o medo que Hans tinha de ser castrado pelo
pai por causa do amor que sentia pela sua mãe. Ao brincar de cavalo ouve uma
troca de papéis, onde Hans era o cavalo que mordia seu pai. Por este motivo Hans
projetou para o cavalo à figura de seu pai, este era o animal causador de sua
angústia. Em outro momento Hans relata que em Gmunden ele gostava de chicotear
os cavalos. Isto na realidade seria o desejo de punir seu pai por estar “ocupando” a
posição que deveria ser dele. O seu amor como conteúdo manifesto e, o ódio como
conteúdo latente.
Em outro momento Hans conta para seus pais uma história sobre a girafa
grande, e a girafa amarrotada, na qual ele tirava a girafa amarrotada de perto da
girafa grande e que esta por sua vez gritava e que depois ele sentava em cima da
girafa amarrotada. Esta história contada por Hans nos mostra que mais uma vez em
suas fantasias, ele tenta ocupar o lugar do pai ao lado de sua mãe. Uma vez que a
girafa grande seria um substituto simbólico do pênis do pai e ao sentar-se em cima
da girafa amarrotada seria o desejo de apossar-se da mãe.
Com relação ao complexo de castração Hans relata que pensou que: “o
bombeiro tinha vindo e desparafusado a banheira e golpeado seu estômago com
uma broca”. Em outro momento diz: “o bombeiro veio retirou meu traseiro com um
par de pinças, e depois me deu outro, e depois fez o mesmo com o meu pipi.” Este
medo da castração se dá ao fato de que para Hans não havia distinção entre
homens e mulheres, ou seja, ele atribuía à posse do pênis para todos, não vendo o
órgão feminino, mas a falta do órgão masculino. Desta forma se alguém não
possuísse o órgão masculino era castrado.
Aparecem novamente aqui os elos associativos de significante, onde as
cadeias estão sempre se conectando umas as outras, estão sempre retornando aos
mesmos lugares. Na qual o mesmo bombeiro em primeiro momento lhe retirou algo
surge novamente, mas desta vez não lhe retira algo, mas o substitui, ou seja,
através da repetição houve uma ressignificação.
Freud diz que em fases bem precoces do desenvolvimento, o bebê brinca de
comer e cuspir que na linguagem das pulsões orais, equivale a “dentro de mim” e
“fora de mim”. Porém segundo Rodulfo existem funções do brincar mais arcaicas
que o fort/da, na qual a primeira função do brincar está ligada à edificação do próprio
corpo, em que a criança tem a necessidade de arrancar materiais do corpo do Outro
para construir seu próprio corpo. Isso acontece por que em crianças muito pequenas
não possuem ainda a capacidade de distinguir interno e externo, e desta forma
acaba havendo uma junção do corpo e espaço, onde o objeto é parte integrante da
criança.
Já a segunda função do brincar é um segundo momento da estruturação do
corpo, em que a criança passa a perceber a relação de continente/ externo e
conteúdo/ interno. Ela ainda extrai elementos, mas não os toma como parte de seu
próprio corpo, uma vez que nesta etapa já houve um processo de individuação.
A terceira função do brincar se dá através de práticas de aparecimento e
desaparecimento como nos jogos de esconde – esconde, visto como uma forma de
obtenção do gozo através do desaparecimento agora com o olhar transcendental do
Outro. Ernest utilizou dessa brincadeira de esconde-esconde ao jogar o carretel.
Sendo possível observar que no ato repetitivo havia a obtenção de gozo, pois ele
agora era agente ativo da ação. Era ele que inconscientemente mandava sua mãe ir
embora.
É por isso [...] que o brincar representa uma função tão especial, no
exercício da qual a criança vai se curando por si mesma em relação a uma
série de pontos potencialmente traumáticos. Ali onde as fraturas, as
interferências do mundo familiar deslocam as simbolizações incipientes,
atacando o processo do brincar. (RODULFO. 1990, p.113.)
Rodulfo fala que o corpo do bebê é constituído por uma espécie de collage,
onde não há interno e externo, mas é uma superfície contínua. Já Lacan denominou a
este processo de Banda de Moebius. A banda de moebius é uma superfície
unidimensional sem dentro e fora, sem interior e exterior, que servirá para representar
a unidade que nesse momento constituem o bebê e o Outro primordial (a mãe).
Através
do
brincar
como
atividade
criadora,
a
criança
expressa
simbolicamente seus conflitos e dificuldades. O brincar por estar entre o real e o
imaginário acaba funcionando como uma metáfora dos conflitos psíquicos que
envolvem a história da criança. É nesta atividade lúdica que a criança torna situações
de conflitos em situações que podem obter um melhor equilíbrio entre realidade e
fantasia.
No caso da brincadeira, parece que percebemos que as crianças repetem
experiências desagradáveis pela razão adicional de poderem dominar uma
impressão poderosa muito mais completamente de modo ativo do que
poderiam fazê-lo simplesmente experimentando-a de modo passivo. Cada
nova repetição parece fortalecer a supremacia que buscam. (FREUD. 1920,
p.46).
A criança expressa seus conflitos inconscientes no brincar, uma vez que esta
ação é repleta de simbolismos e metáforas. Ela passa a representar
simbolicamente suas fantasias e desejos inconscientes. No brincar, a criança
elabora situações conflituosas, passando a simbolizar seus sentimentos. É através
deste ato lúdico que elas deixam a posição passiva e passam a ser sujeitos ativos,
na qual tem a possibilidade de transformar situações desprazerosas em
prazerosas.
Considerações Finais
O presente trabalho teve por objetivo mostrar a importância do brincar para a
clínica psicanalítica infantil como forma de acessar o inconsciente da criança. O
inconsciente como se apresenta de modo camuflado só pode ser acessado através
de seus simbolismos. A criança nesta atividade lúdica expressa suas angústias e
fantasias de modo ativo.
Como se pode observar o brincar é inerente ao ser humano, ele está presente
desde a vida intra- uterina na qual o bebê brinca com suas mãos, como por
exemplo, sugando seu polegar e tocando seu nariz. Estas são atividades que o bebê
desenvolve no ambiente em que vive, mostrando que após o nascimento ele precisa
de um ambiente suficientemente bom, que seja facilitado por uma mãe
suficientemente boa, ou seu representante, para que se adaptem às necessidades
de seu bebê, havendo assim a interação mãe- bebê.
Esta interação é importante para a constituição do bebê enquanto sujeito, pois
a priori ele está alienado à sua mãe, em um estado de dependência absoluta, ou
seja, o bebê não existe sem a sua mãe, uma vez que ambos se encontram
fusionados. E aos poucos essa dependência vai tornado-se relativa, no momento em
que o bebê passa a enxergar a mãe como objeto externo e não mais como sua
extensão, havendo assim o surgimento do Eu.
Nesta etapa a mãe passe a adaptar- se menos às necessidades de seu bebê.
Nesta fase ocorre o processo de desilusão, surgindo às falhas inerentes a
maternagem, causando frustrações no bebê. Estas são importantes, pois é através
delas que haverá o processo de individuação do bebê, através da noção da
realidade externa.
Desta forma, com a possessão do não Eu e o surgimento noção da realidade
externa o bebê começará a se apegar a um determinado objeto. Surgindo os objetos
e fenômenos transicionais. Na qual esse objeto é um substituto simbólico materno.
Assim como fez Ernest no seu jogo do Fort/da.
Os objetos e os fenômenos transicionais como o próprio nome já diz é
transição da relação com a mãe para um objeto que a represente em sua ausência.
Estes têm por objetivo uma função mediadora capaz de fazer com que a separação
da mãe com o bebê não seja um gera-dor de ansiedade. Sendo este apego uma
defesa contra ansiedade.
A percepção da existência da mãe como objeto independente, da
ambivalência de seus sentimentos, da culpa e da urgência de cuidar e
reparar o objeto amado impulsionam a criança a desviar seus impulsos
hostis e encontrar objetos substitutivos para a expressão, o conhecimento e
a elaboração de suas vivências. Está aberto, assim, o caminho para a
simbolização e para o jogo simbólico que tanta utilidade tem para a criança.
(SOUZA. 2008, p.126).
Para que o bebê suporte a ausência materna ele se utiliza da capacidade
imaginativa. O brincar irá ocorrer no espaço potencial, que está entre a realidade
interna e realidade externa, o psíquico e o real. É nesta interação entre mundo
interno e externo que irão ocorrer às fantasias inconscientes, como forma de
realização dos desejos.
A criança como mecanismo de defesa recalca acontecimentos que foram
desprazerosos como uma forma de amenizar a angústia vivida. E é através do
brincar que haverá a expressão e elaboração de tais conflitos. No brincar haverá a
substituição dos conteúdos recalcados. A criança irá criar personagens que serão
projetados para o mundo externo. Estas imagos foram criadas a partir da apreensão
do seu mundo externo.
Antes de se tornar sujeito o bebê é objeto de desejo do Outro, pois a criança
está inserida na linguagem a partir do desejo materno. Para que haja a quebra da
relação dual e fazer com que o bebê saia dessa condição alienante é necessário a
entrada de um terceiro que irá fazer a inserção da lei para que o Eu da criança
possa ser introduzido.
Esta breve retrospectiva serviu para que se possa de forma mais sucinta
mostrar a importância do brincar para a clínica psicanalítica infantil, que tem por
finalidade entrar em contato com a fantasia da criança. Neste momento lúdico a
criança cria um mundo particular na qual o imaginário e real se entrelaçam.
O brincar funciona como uma metáfora dos conflitos psíquicos. Estes são
gerados pela fantasias inconscientes e que quanto mais elaborados no brincar
haverá uma nova reconfiguração dos conflitos. Pois é por meio da representação
simbólica que sua ansiedade será amenizada, obtendo-se um equilíbrio entre
fantasia e realidade.
Desde modo o brincar em um primeiro momento serve como estruturação do
corpo. Na qual há a necessidade do bebê arrancar materiais do Outro como sendo
parte estruturante do seu corpo. Em segundo momento e não menos importante que
o primeiro, o brincar irá servir como constituição do sujeito. O brincar serve como
expressão, realização e constituição subjetiva.
É na capacidade de brincar do outro e com o Outro que haverá a constituição
do bebê enquanto sujeito. Neste processo lúdico a criança apropria-se do corpo e se
constitui como ser desejante, saindo da posição de assujeitado para ser sujeito.
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