A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NOS TEXTOS QUE TRATAM SOBRE A MULHER NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO: MARCAS E IMPLÍCITOS Zeneide Resende de Sousa CARVALHO1 (Universidade Estadual do Piauí – UESPI) RESUMO: A linguagem é um dos artefatos principais na comunicabilidade da sociedade que abrange vários aspectos teóricos, o escolhido neste caso, é a Variação linguística e discute várias temáticas, uma delas é a mulher. Partindo deste pressuposto, este trabalho tem como objetivos: Fazer uma leitura dos textos que tratam sobre a mulher nos Livros Didáticos de Língua Portuguesa, 2º volume, do Ensino médio, para verificar como a presença da variação linguística aparece nos referidos textos; observar, sobretudo, se a linguagem da mulher sofre algum tipo de preconceito, se, por exemplo, há um registro específico para a mulher, que diferencia da fala do homem: podendo indagar os seguintes aspectos: a mulher fala diferente do homem? A escolha vocabular apresentada pela mulher é diferente da do homem? Como a mulher se impõe na sociedade através da linguagem? Sendo a linguagem uma forma de imposição e ascensão social, a mulher deve revelar isso, para ser aceita e ocupar o seu espaço? Analisar: como o Livro Didático trata essas questões?Para fundamentar esta pesquisa, recorremos aos teóricos das áreas da Linguagem, Linguística e Sociolinguística tais como: Saussure (1919), Weedwood (1995), Alkmin (2001), Bakhtin (1979) e Fiorin (2007, dentre outros. Palavras chave: Variação linguística. Mulher. Linguagem. ABSTRACT: Language is one of the key artifacts in communicability of society encompassing various theoretical aspects, the choice here is linguistic variation and discusses several topics, one of them is a woman. Under this assumption, this paper aims to: Make a reading of texts that deal with the woman in Portuguese Language Textbook, 2nd volume, middle school, to see how the presence of linguistic variation appears in these texts; observe, especially if the language of women suffer some sort of bias, if there is, for example, a particular record for women, what differentiates the speech of man: being able to ask the following aspects: the woman speaks different man? The lexical choice presented by the woman is different from man? As the woman imposes on society through language? Language being a form of taxation and 1 Professora Mestre em Linguística pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. Atualmente, desempenha suas atividades docentes no Curso de Letras/Português, no Centro de Ciências Humanas e Letras- CCHL, da Universidade Estadual do Piauí – UESPI. 2 social mobility, the woman must reveal it to be accepted and occupy your space? Examine: how the Textbook treats these issues? To support this research, we used the theoretical areas of Language, Linguistics and Sociolinguistics such as Saussure (1919), Weedwood (1995), Alkmin (2001), Bakhtin (1979) and Fiorin (2007), among others. Keywords: Linguistic Variation. Woman. Language. INTRODUÇÃO A linguagem é um dos artefatos principais na comunicabilidade da sociedade que abrange vários aspectos teóricos, o escolhido neste caso, é a Variação linguística. Essa mesma linguagem discute várias temáticas, desta feita, discutiremos sobre a mulher. O trabalho "A variação linguística nos textos que tratam sobre a mulher nos Livros Didáticos de Língua Portuguesa do Ensino médio: marcas e implícitos." é um desafio que nos leva a investigar que conteúdos e como estes são veiculados nos Livros didáticos de Português. Partindo desse princípio, propomo-nos fazer uma leitura dos textos que tratam sobre a mulher nos Livros Didáticos de Língua Portuguesa, 2º volume, do Ensino médio, para verificar como a presença da variação linguística aparece nos referidos textos; observar, sobretudo, se a linguagem utilizada pela mulher sofre algum tipo de preconceito, se, por exemplo, há um registro específico para a mulher, que diferencia da fala do homem: podendo indagar os seguintes aspectos: a mulher fala diferente do homem? A escolha vocabular apresentada pela mulher é diferente da do homem? Como a mulher se impõe na sociedade através da linguagem? Sendo a linguagem uma forma de imposição e ascensão social, a mulher deve revelar isso, para ser aceita e ocupar o seu espaço? Enfim, analisar: como o Livro Didático trata essas questões? Aos teóricos das áreas da Linguagem, Linguística e Sociolinguística tais como: Saussure (1919), Weedwood (1995), Alkmin (2001), Bakhtin (1979), Fiorin (2007), Bortoni-Ricardo(2002), dentre outrosrecorreremos para a fundamentação desta pesquisa. O corpus é constituído de 09 (nove) textos retirados dos livros didáticos de Português do volume 2, de autoria dos seguintes autores: 1) BARRETO, Ricardo Gonçalves. Ser Protagonista Português, editora SM, 2010. 2) CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português Linguagem, 2012 e 3) AMARAL, Emília et al. Língua Portuguesa: novas palavras, 2010. Deste universo, analisaremos três, dos quais retiraremos fragmentos. A perspectiva é contribuir com as leituras dos livros didáticos, no tocante a 3 Variação Linguística em relação à fala da mulher pela comunidade universitária e demais pessoas. 1 LINGUÍSTICA: UMA CIÊNCIA A Linguística,a partir dosmeados do séc. XIX é definida como o estudo científico da linguagemHoje, a Linguística é definida como uma ciência autônoma, dotada de princípios teóricos e metodologias investigativas consistentes.Nesta perspectiva, a área da Linguística abrange três pontos denominados de dicotomias: a) Sincronia versus Diacronia; Linguística Teórica versus Linguística aplicada; Microlinguística versus Macrolinguística. Sobre esta última dicotomia abordaremos algumas noções, a seguir. Microlinguística remete a uma visão mais restrita; línguas analisadas em si mesmas, sem referência a sua função social e a Macrolinguística remete a uma visão mais ampliada do escopo da linguística. Na primeira, os conteúdos são chamados “núcleo duro” e correspondem a Fonética, Fonologia, Sintaxe, Morfologia, Semântica, Lexicologia. Já a segunda, os conteúdos são considerados de “núcleo mole” e correspondem aos seguintes ramos da ciência linguística: Pragmática, Análise do Discurso, Linguística histórica, Análise da Conversação. Neurolinguística, Linguística de Texto, Psicolinguística, Sociolinguística. Eis aí o lugar da Sociolinguística, sobre a qual teceremos algumas considerações. 2. SOCIOLINGUÍSTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Partindo da relação entre linguagem e sociedade, a Sociolinguística é um ramo da ciência Linguística que trata especialmente desta relação, tema que discorremos a partir da abordagem de Alkmim, (2001). Considerando a relação entre linguagem e sociedade, vem à tona o enfoque que se encontra diretamente ligada à questão de determinação do objeto de estudo da Linguística. Olhando por esse prisma, a Linguística do século XX teve uma contribuição marcante quanto à consideração da relação linguagem-sociedade, pois esta tem uma postura de exclusão de toda consideração de natureza social, histórica, e cultural na observação, descrição, análise e interpretação do fenômeno linguístico. O ponto forte de referência é o trabalho de Ferdinand de Saussure com seu livro O Curso de Linguística Geral, em 1916, a partir do qual se organizou a teoria estruturalista, quando o autor define língua, sem considerar a fala, como 4 objeto central de estudo da Linguística. Língua, segundo o autor, é o sistema subjacente à atividade da fala, mais claramente, é o sistema rígido, que não varia o qual pode ser capturado das múltiplas variações percebíveis da fala. Fica claro, então que a tarefa da Linguística é descrever o sistema formal, a língua. Com essa postura, a abordagem imanente da língua é inaugurada, que quer dizer, distanciar “tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema” SAUSSURE (1919). Por outro lado, o autor define a língua como um fato social, uma vez que é um sistema convencional adquirido pelos indivíduos em meio social.Com isso, o autor claramente, apregoa que a linguagem é uma faculdade natural que permite ao homem adquirir uma língua. Assim, a língua é caracterizada por ser “um produto social da faculdade da linguagem”. SAUSSURE (1919, p. 17), fato que permite se visualizar que já é preconizado um valor social da língua pelo próprio Saussure. Mesmo assim, Saussure valoriza o caráter formal e estrutural do fenômeno linguístico, ainda que não deixe de reconhecer a importância de considerações de natureza etnológica, histórica e política. Para ele, “o estudo dos fenômenos linguísticos externos é muito frutuoso; mas é falso dizer que sem estes não seria possível conhecer o organismo linguístico interno”. SAUSSURE (Idem, p. 31). Percebemos que o autor não dá importância aos fenômenos externos da língua. Sua visão é voltada para a língua como essência. Com essa postura, Saussure finca o marco divisório entre uma Linguística Interna, denominada por Weedwood de “núcleo duro”, em contraposição a uma Linguística Externa, dividindo, assim, a área dos estudos linguísticos contemporâneos em: orientações formais e orientações contextuais, estas fragmentadas e constituindo as muitas interdisciplinas: Sociolinguística, Etnolinguística, Psicolinguística, etc. ALKMIN (Idem, p. 24). Eis aí o porquê em dizer que Saussure faz vistas grossas aos estudos que considerem a relação linguagem-sociedade, mas por outro lado, esse fato constitui um legado para a atuação da Sociolinguística e de outras disciplinas sobre a questão social da linguagem. No tocante à questão do social no campo dos estudos linguísticos, há referências teóricas, que não podem ficar de fora do cenário das discussões, exemplo Mikhail Bakhtin e Émile Benveniste. Aqui mencionamos Bakhtin(1929), estudioso que trouxe fortes contribuições quanto à questão da relação linguagem-sociedade, o qual se lança com uma crítica basicamente contrária à concepção saussuriana, apregoando a noção de comunicação social. Com essa perspectiva, ele afirma que “A verdadeira substância da língua é constituída pelo fenômeno social da interação verbal realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua”BAKHTIN (1929, p. 5 109). Percebemos que para Bakhtin a noção de comunicação é o pilar principal para a fundamentação da língua e não um sistema abstrato de formas linguística como nos assegura Saussure (1919). Observamos a respeito destas poucas colocações é que a relação entre linguagem e sociedade é por demais visível, mesmo que o movimento que há do social ao linguístico e vice-versa seja feito de maneira um tanto ríspida. Por exemplo, quando Bakhtin desconsidera o enfoque dado à língua feito por Saussure. Mesmo assim, essas discussões representem um grande avanço quanto às reflexões sobre a Linguística contemporânea. 2.1Objeto de Estudo da Sociolinguística O Termo Sociolinguística surgiu desde 1964, com os trabalhos de William Bright, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e com os de William Labovsobre a Dialectologia social e Del Hymessobre a Antropologia linguística. A partir de Bright, com seu texto inicial “As dimensões da Sociolinguística” da obra Sociolinguistics (1966) é definido o objeto de estudo da Sociolinguística como a diversidade linguística, ainda é identificado um conjunto de fatores definidos socialmente com os quais a diversidade linguística esteja relacionada supostamente, os quais são: a) identidade social do emissor ou falante – relevante em caso como o estudo dos dialetos de classes sociais e das diferenças entre falas femininas e masculinas;b) identidade social do receptor ou ouvinte; c) contexto social; d) julgamento social distinto que os falantes fazem do próprio comportamento linguístico, segundo ALKMIN (Idem, p. 30). A contribuição de Hymes é marcada a partir do seu trabalho “Etnografia da Comunicação” (1964), quando são discutidas questões como “Qual o comportamento linguístico para homens, mulheres, e crianças na comunidade?” “Que momentos são adequados para o exercício da fala na comunidade?”, típicas da pesquisa em Etnografia da Comunicação”. Labov, em 1963 traz sua contribuição ao cenário de discussão sobre a questão da relação entre a linguagem e sociedade, quando publica seu célebre trabalho sobre a comunidade da ilha de Martha’s Vineyard, no litoral de Masschusetts. Nesta obra está configurado o papel decisivo dos fatores sociais na explicação da variação linguística, os quais são: idade, sexo, ocupação, origem étnica e atitude ao comportamento linguístico dos habitantes da ilha, mais especificamente referente à pronúncia de determinados fones do 6 inglês. Há também o trabalho de LABOV conhecido por Sociolinguística Variacionista qual descreve e interpreta o fenômeno linguístico no contexto social de comunidades urbanas.ALKMIN(2001, p. 30). Com isso, podemos ver por onde e como se iniciam as pesquisas em Sociolinguística, por pesquisadores como os dois citados acima em que seus trabalhos procuraram descrever e interpretar o comportamento linguísticos na sociedade norte-americana. Considerando as experiências dos teóricos Hymes e Labov, vimos que eles se ocupam em investigar as falas de comunidades, do ponto de vista da natureza social da língua, fato que nos permite observar em que consiste o verdadeiro o objeto de estudo da Sociolinguística, que conforme Alkmim (2001, p. 31), é a língua falada, observada, descrita e analisada em seu contexto social, de uso. Por falar em uso, Alkmim (2001), apresenta exemplo de uso do verbo no modo imperativo em português, o qual para os falantes do português, denota ordem, exortação, conselho, solicitação, de acordo com significado do verbo e tom de voz empregado. Ex.” Vaite embora”, “Desce daí!” A autora apresenta um fator que modera, enfraquece o tom rude da ordem, a Atenuação, citada por Cunha e Cintra através do emprego de fórmulas de polidez ou de civilização, como: por favor, por gentileza, etc. Ex. -Fale mais alto, por favor! (F. Botelho, X, 171) (13) Neste apanhado de exemplos, percebemos uma variação entre o tom rude da ordem e tom polido da solicitação, ambos empregando o mesmo modo verbal o imperativo, como em “Desça” e “Fale” nos exemplos acima. 2.2 Variedade Linguística A variação é percebida dependendo dos objetivos e dos objetos que configurem um estudo de cunho sociolinguístico, o que pode ocorrer a partir do trabalho que visa selecionar e descrever comunidades de fala diferente. Essas diferenças no modo de falar que caracterizam certas comunidades linguísticas recebem o nome de variedades linguísticas, de acordo com a Sociolinguística, segundo ALKMIM (Idem, p. 32). Variação linguística consiste nas diferenças entre os falares de uma região para outra, sem prejudicar a comunicação. É o falar de uma mesma língua com diferenças detectáveis entre o que se considera mais comum num e noutro lugar. Ex. O termo “jerimum” muito usado na Bahia corresponde ao termo “abóbora” muito mais comum nos estados do sul e sudeste do Brasil. É um fenômeno representado pelas variações no léxico, como no exemplo acima, na fonética e na morfologia, dentro dos limites da palavra e ainda no limite da frase, a 7 variação sintática,Ex. a) “Ele não vai sair agora.” e b) “Ele não vai sair agora não.” Ambas as situações têm o mesmo significado, mostrando que na sintaxe de negação tem duas variantes.cf. FIORIN, (2007 p. 121, 122 e 124). É a possibilidade de variação encontrada numa dada língua. Na aquisição das variedades linguísticas pelos falantes, dois fatores são considerados, a sua própria região e a sua classe social. As variedades linguísticas são descritas a partir dos parâmetros básicos, a variação geográfica (diatópica) e a variação social ou (diastrática). Sobre os quais apresentaremos algumas considerações. A variação geográfica é a que diz respeito às diferenças que ocorrem no espaço físico, registradas por falantes de regiões geográficas distintas, vindo acontecer em vários aspectos: lexical, fonético e gramatical, caracterizando a diferença na fala de pessoas de origem de países e estados diferentes. Ex. Para o léxico “combóio” em Portugal, temos no Brasil a variação linguística “trem” ALKMIN (Idem, p. 34). A variação social ou diastrática é a que se relaciona a um conjunto de fatores que caracteriza a identidade do falante, os quais são: a) classe social, b) idade, c) sexo, d) situação ou contexto social, sobre os quais discorreremos a seguir: a) Classe social – Esse fator é marcado pela presença de exemplos que indicam ser pertencentes à fala de grupos situados abaixo da escala social, como o uso de dupla negação, como em “ninguém não viu”; a presença do “r” no lugar do “l”, como em “pranta” por planta. b) Idade – Um dos maiores fenômenos identificatórios da idade é a gíria, quando há o uso de expressões como “maneiro” indica que o falante é jovem, já quando há o uso de “O desconfiado ainda hoje é vivo”, indica ser um falante já idoso; além disso, o uso do “tu” significa situação de fala entre pessoas iguais, no Rio de Janeiro: c) Sexo – Este fator é marcado por emprego da duração de vogais com em “maravilhoso”, “gostoso”, costuma ser presente na fala das mulheres e ainda o uso dos diminutivos: “gostosinho”, “fofinho”. Há também a expressão “Obrigado” para os homens e “obrigada” para as mulheres, em Português no Brasil. d) Situação ou contexto social – é o fato de mudar a fala de acordo com o interlocutor, dependendo da situação, se é uma pessoa mais velha, ou hierarquicamente superior, o pronome de tratamento pode variar; dependendo do lugar onde se encontra, se na praia ou na sala de aula, haverá o uso da formalidade ou a informalidade. 8 Diante do exposto, observamos que a descrição quanto aos aspectos da linguagem em que podem ocorrer as variedades linguísticas dos falantes como lexical, fonética e morfológica é comum entre os dois autores citados Alkmim (2001) e Fiorin (2007), vindo variar somente a exemplificação, porém a abordagem dos dois teóricos se difere quando tratam da variação social em que Fiorin a cita brevemente, vindo se deter mais quanto à variação sintática, enquanto que Alkmim se aprofunda mais quanto àquele tipo,fato que contribui com o poder de discussão sobre o assunto, sendo que em nossa pesquisa podemos recorrer mais diretamente à variedade linguística do falante do ponto de vista social, uma vez que serão analisadas falas por escrita em textos do livro didático. 3 GÊNERO A fala da mulher é diferente da fala do homem, vejamos o porquê. Homens e mulheres não falam do mesmo modo. A mulher tem seu falar caracterizado pelo uso de diminutivos, como “Oh, que gatinho fofinho”. “Vou comprar umas lembrancinhas para minhas amigas.” É muito comum, também, na fala da mulher o uso mais frequente de partículas como “né”, “tá?”, “tá certo.” Estas partículas são denominadas de marcadores conversacionais, que tem funções de equiciência e concordância do interlocutor, BORTONIRICARDO (2004, p. 47). Os homens, por sua vez, têm a linguagem marcada pelo que conhecemos por palavrões e por gírias de baixo escalão e pejorativas. Esse fato marca as variações de repertório feminino e masculino relacionados aos papéis sociais que os interlocutores assumem por força da cultura. Outro meio de ver a diferença entre repertórios masculino e feminino é quando podemos verificar no comportamento comunicativo não-verbal situações como a direção do olhar, a postura do tórax e da cabeça, os gestos, a aproximação dos interlocutores, etc., conforme BORTONI-RICARDO (idem p. 48.). 4 ANÁLISES DOS TEXTOS – RESULTADOS O foco da pesquisa é a Variação Linguística nos textos, escritos nos Livros Didáticos de Português do ensino médio, volume 2: 1) Ser Protagonista Português, 2) Português Linguagem e 3) Língua Portuguesa: novas palavras, os quais servirão de base para a execução desta análise. Os pontos de investigação tanto estão citados na introdução como estão diluídos durante esta análise. 9 Texto (01) Lucíola - fragmento, de ALENCAR, José de, do Livro 1: Identificação da mulher: Nome: Lúcia; Local: cidade; Ação: passeia pela cidade, encontra-se com dois homens, Sá e Paulo, fala com eles e depois entra na igreja; Tempo: início da noite; Situação ou contexto social: Lúcia é uma mulher de boas condições, pelas características descritas no texto, quanto ao vestir-se: “O vestido que moldava era cinzento com orlas de veludo castanho ...” e pelo gesto de distribuir “algumas pequenas moedas de prata à multidão de pobres que a cercava.” Falas presentes no texto: a) Paulo:1. “- Já vi esta moça! disse comigo. Mas onde? a)Paulo: 2. “- Quem é esta senhora? Perguntei a Sá. b) Narrador: 1. “A resposta foi um sorriso inexprimível, mistura de sar- casmo, de bonomia e fatuidade, que desperta nos elegantes da corte a ignorância de um amigo, profano na difícil ciência das banalidades sociais.” c) Sá: 1. “- Não é uma senhora, Paulo! É uma mulher bonita. Queres co- nhecê-la?...”;c) Sá: 2. “- Lúcia!”; d) Lúcia: 1. “Não há modos de livrar-se uma pessoa desta gente! ...”; c) Sá: 3. “-Vieste só?”;d) Lúcia: 2. “- Em corpo e alma.”; c) Sá: 4. “- Não tens companhia para a volta?” b) Narrador: 2. “Ela fez um gesto negativo”; c) Sá: 5. “- Neste caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa.” d) Lúcia: 3. “-Em qualquer outra ocasião aceitaria com muito prazer; hoje não posso.” c) Sá: 6. “Deixa-te disso; vem conosco.”; d) Lúcia: 4. “O senhor sabe que não é preciso rogar-me quando se trata de me divertir. ...Esta noite não.” c) Sá: 7. “- Já vejo que não foste franca!”d) Lúcia: 5. “- Não acredita?...” b) Paulo: 3. “- A senhora veio talvez por devoção? disse eu.”; c) Sá: 8. “A Lúcia devota!... Bem se vê que a não conheces.”; Uma de nossas pistas investigatórias é saber se a linguagem da mulher sofre algum tipo de preconceito, se por exemplo, há um registro específico para a mulher, que diferencia da fala do homem, apontando para o alvo: a mulher fala diferente do homem? Este texto é um reduto de falas, ele traz falas de dois homens e de uma mulher, e ainda a do narrador, no qual verificamos a diferença entre o falar masculino e o falar 10 feminino, como cita Bortoni-Ricardo (2004) que os repertórios de fala masculino e feminino são diferentes. Podemos dizer que neste texto há marca de preconceito, quando a mulher, Lúcia responde com um gesto negativo, como mostra a fala b) Narrador: 2. “Ela fez um gesto negativo”. Perguntaríamos: por que ela não respondeu com palavras em alto e bom tom? Para se livrar de certo preconceito em relação a outras pessoas que pudessem ficar sabendo de suas intenções. A fim de não revelar o seu comportamento a outrem. Com esse fato podemos constatar no episódio de fala gestual, no qual, vemos a linguagem descrevendo um comportamento não linguístico da mulher, menear a cabeça para dizer não. Com esse gesto, fica implícito, isto é, essa fala dá uma pista que há um certo preconceito com a linguagem da mulher, se caso ela falasse alto, seria inadequado, ela poderia ter enfrentado muito mais de um pretendente querendo ser sua companhia, como verificamos na fala c) Sá: 5. “Neste caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa.” Uma outra pista investigatória é: a escolha vocabular apresentada pela mulher é diferente da do homem? Percebemos claramente essa diferença da fala da mulher em relação à do homem, através da escolha vocabular, quando analisamos a forma como Sá se refere à Lúcia e vice versa, fato presente nas falas: c) Sá: 1. “- Não é uma senhora, Paulo! É uma mulher bonita. Queres conhecê-la?...”; c) Sá 2. “- Lúcia!”; c) Sá: 3. “-Vieste só?” nas quais constatamos: a escolha vocabular do homem em afirmar “mulher” em vez de “senhora”; a ausência de marca de polidez no trato do homem para com a mulher em “ Não é uma senhora... é uma mulher..” e com a presença do pronome “TU” na situação de interação entre o homem, Sá e a mulher, Lúcia implícito no verbo “Vieste” indica igualdade entre os interlocutores e superioridade por parte do homem, como nos mostra Alkmim (2001) e ainda revelando uma certa intimidade e uma conotação de ausência de respeito. Já na fala de Lúcia, como em: d) Lúcia: 4. “O senhor sabe que não é preciso rogarme quando se trata de me divertir. ...Esta noite não.” Neste turno de fala, percebemos o contrário, há um tratamento de respeito e uma formalidade, em “O senhor”, indicando uma posição hierarquicamente inferior da mulher em relação ao homem e vice versa, marcando a diferença na escolha vocabular no falar da mulher em relação ao do homem. Essa diferença de fala não é em linha geral, pois há fala masculina com tratamento formal, na situação de fala entre Paulo e Lúcia, como em b) Paulo: 3. “- A senhora veio talvez por devoção? disse eu.” Nesta fala fica implícito a polidez, a formalidade no falar do homem em relação à mulher. Sendo que a diferença negativa em relação à mulher ocorre em 11 proporção maior pela forte ocorrência de falas de Sá. De acordo com a teoria da variedade linguística citada por Alkmim, temos a variação social ou diastrática marcada pelos fatores sexo, idade e situação ou contexto social: a fala realizada por pessoas de sexo e em situação social diferentes. Neste caso, há uma tendência em haver diferença. Texto (2) Biruta, TELES. Lígia Fagundes. Venha ver o por do sol e outros contos. São Paulo: Ática, 2007, do Livro 1. Identificação da mulher: Nome: Leduína; Local em que ela fica – Na janela da cozinha;Tempo: por volta das 18 horas, pois ela diz: “Está escurecendo, tenho que sair”;Situação ou contexto social Condição social é marcada pela profissão: empregada doméstica.Neste texto Biruta, as falas da mulher, Leduína são, às vezes, entendidas como gritos: “Alonso, anda ligeiro com essa louça!”; “Alonso, ...deixa de falar sozinho e traga ....já está quase noite.” ; Fazendo uma referência à teoria de Hymes (1964) que apresenta questões tais como: “Qual o comportamento linguístico para homens, mulheres e crianças na comunidade?” “Que momentos são adequados para o exercício da fala na comunidade?”, as quais servem para pesquisa em “Etnografia da Comunicação”, verificamos se o conteúdo destas questões ocorre nos textos didáticos que analisaremos. Constatamos que o comportamento linguístico da mulher no texto “Biruta” é de coerção em relação ao menino, Alonso, trabalhador na casa, para que ele termine sua atividade de lavar as louças em menor espaço de tempo, quando diz: “Alonso, anda ligeiro com essa louça!”E o momento adequado para o exercício da fala é marcado pela situação de encerramento do expediente da mulher, ao referir-se ao menino, dizendo: “Alonso, ...deixa de falar sozinho e traga ....já está quase noite.” Aplicando as questões chave de análise ao texto Biruta, percebemos que há variação e que esta ocorre na fala da empregada, Leduína em relação ao menino, Alonso: a fala da mulher é caracterizada pela ausência de “atenuação”, como nos adverte Cunha e Cyntra, (apud Alkmim, 2001), isto é, realiza-se no tom de autoridade, expressando-se com a rudeza de uma ordem sobre o menino, evidenciada pelos verbos “deixa” e “traga”, quando diz: “Alonso, ...deixa de falar sozinho e traga ....já.....”, marcando uma posição um certo privilegiada em relação a ele. Marcas e implícitos: Há marcas representadas pelos verbos “deixa” e “traga”, quando Leduína diz: “Alonso, ...deixa de falar sozinho e traga ....já.....”, indicando uma mulher que ocupa uma função um tanto desprestigiada na sociedade, mas de acordo com as falas que 12 comprovam a situação, fica implícito que os patrões não estão naquele momento, então a mulher assume uma posição de poder e autoridade sobre o menino. Texto (03) A Noiva-cadáver, de Henrique Provinzano Amaral, p. 442,do Livro 3. AMARAL, Emília et all. Língua Portuguesa: novas palavras, 2010. Neste texto, as falas são especificamente do narrador, mas se referem à mulher e ao homem, deixando implícito que a linguagem é uma forma para que a mulher, representada pela noiva-cadáver se imponha na sociedade e mostre a sua inteligência e sua generosidade através dos planos e ações desenvolvidos pela mulher, no texto do filme quando diz: “Trava uma batalha entre o jovem van Dort e o arrogante lorde, mas este bebe por acidente o veneno destinado ao sacrifício do outro.(...) Emily sente-se liberta e num ato de generosidade, oferece a mão do seu noivo à outra jovem. Apaixonados, casam-se Victor e Victória” (AMARAL, 2010,p. 442). CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base em análise feitas aplicando as questões chave, percebemos que há variedade linguística levando em consideração o parâmetro básico variação social ou diastrática, mas, precisamente, relacionado com os fatores: idade, sexo e situação ou contexto social nos textos Lucíola e Biruta, conferindo a presença de preconceito no texto Lucíola e a mudança de fala de acordo com a posição do interlocutor quando hierarquicamente superior nos textos Lucíola e Birutavisível na interação entre os falantes, quando fica implícito o comportamento tradicional do homem ser superior à mulher, na situação de fala do personagem Sá em relação à Lúcia, no texto Lucíola e do adulto ser superior à criança, na situação de fala da empregada em relação ao menino, no texto Biruta. Por outro lado, por meio da linguagem percebemos um esvaziamento de preconceito à mulher e uma mudança quanto ao comportamento da mulher em relação ao homem, no texto Noiva-cadáver, pois esta impõe o seu valor vingando o seu assassinato. Constatamos que o Livro didático é uma fonte de circulação da linguagem em que aparece a Variação Linguística em proporção maior quanto à variação social ou (diastrática), havendo somente um caso de variação geográfica ou(diatópica), nos três textos analisados, uma vez que a natureza dos textos é de cunho didático, retirados dos clássicos: José de Alencar, Lígia Fagundes e Camilo Castelo Branco, dentre outros, os quais representam as 13 falas de uma comunidade de falantes não reais, cujo material retrata a postura dos autores do livro didático preocupados com questões tradicionais do currículo escolar, deixando o espaço voltado para a Variação Linguística sem marca de propósito de estudo, sendo, então, de forma muito sutil. REFERÊNCIAS ALKMIM, Tânia M. Sociolinguística. In: MUSSALIM, F. e BENTES, A. Christina. (orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras, vol. 01, 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. AMARAL, E. et al. Língua Portuguesa: novas palavras, nova edição. São Paulo: FTD, 2010. BAKHTIN. M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979, p. 109. BARRETO, Ricardo Gonçalves. Ser Protagonista Português, vol. 2, São Paulo: SM, 2010. BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em Língua Materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português Linguagem, 2012. FIORIN,J. L. Introdução à Linguística: objetos teóricos. 5 ed.São Paulo: Contexto, 2007. SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1919. TELES, L. F. Venha ver o por do sol .... São Paulo: Ática, 200&. In: BARRETO, Ricardo G. Ser Protagonista Português, ensino médio, v.2, São Paulo: Ed.SM, 2010. p. 210. WEEDWOOD, B. História Concisa da Linguística. Trad. de M. Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2002. 1995.