Uni v ersidade: projetos e historicidade As chamadas políticas afirmativas são, por um lado, a expressão de grupos sociais até hoje, em grande medida, desprovidos de condições materiais de acesso aos bens e equipamentos sociais. São, por outro lado, a manifestação de vontades partidárias e governamentais que as transformam em boa medida em políticas de construção da sua “governabilidade”. Os movimentos sociais atuam neste campo minado que é, também, um grande laboratório para a prática social. Na sua forma mais vistosa as políticas afirmativas surgiram do imenso e valoroso movimento de defesa dos direitos sociais dos negros americanos, como forma privilegiada de luta contra o racismo e todas as demais formas de exclusão da imensa Movimento em Debate é uma revista que pretende trabalhar questões candentes não só para a Unicamp, mas para a Universidade e para a sociedade brasileira. Ela não é, e nem deveria ser, uma espécie de Diário Oficial da AdunicampSeção Sindical do ANDESSindicato Nacional. Ela se abre ao debate, ao contraditório, ao posicionamento daqueles que vêm na Universidade um espaço livre e crítico de elaboração de projetos nacionais. Neste número estamos trabalhando uma questão prá lá de polêmica: a questão do acesso à universidade por um sistema de cotas. A ADUNICAMP não tem posição fechada sobre o assunto. Não por uma falsa neutralidade (impossível, de fato), mas por entender que devemos amadurecer o debate. 1 crenças políticas. Vivemos – e esperamos ter aprendido – que qualquer forma que fale de uma superioridade fora da história – é a condenação da liberdade ao exílio e à morte. As políticas afirmativas, se querem escapar ao canto de sereia dos poderes, devem afirmar suas identidades históricas, nacionais, culturais. Ninguém é superior por direito divino. Falamos em canto de sereia e pensamos apenas no poder da sedução sem lembrarmos que quando elas cantavam – na bela tradição grega – levavam marinheiros e navios ao naufrágio, à destruição. A ADUNICAMP ao trazer este debate para nossa reflexão pretende tornar públicos esses olhares, vozes, subjetividades e historicidades. Não cremos que uma igualdade formal a partir de decisões governamentais, parlamentares ou de outros tipos e que não correspondam ao debate vivo da sociedade poderá responder aos grandes desafios colocados para todos nós. Participemos deste debate com toda nossa inteligência e capacidade de compreender o(s) outro(s). maioria pobre daquela nação. Lutas sangrentas, lutas contra formas fascistóides como as da Ku-Klux-Klan. Lutas que objetivaram garantir direitos sociais básicos, mas que logo extrapolaram seu âmbito inicial para redefinirem políticas de educação, de saúde, de acesso ao trabalho, etc. Os textos que ora são publicados tem muitos olhares, muitas subjetividades e historicidades. Tentamos ao máximo o contraditório porque à categoria e à sociedade cabe a resposta. Está nos nossos propósitos fazer sobre esse conjunto de questões um amplo debate no ano que vem. Não tratamos apenas das mal denominadas cotas raciais, mas, também, da inclusão das classes sociais nesse debate. A geração que viveu sua juventude nos anos do póssegunda guerra mundial lutou contra toda uma ideologia racista (em especial, a nazi-fascista, mas não somente esta). Viveu as conseqüências da eliminação física do outro. E sabe que a questão racial travestiu muitas outras formas de intolerância: da suposta superioridade racial à eliminação de nações e povos, de religiões e Boa leitura! 2 P articipe A revista Movimento em Debate será publicada semestralmente e preferencialmente nos meses de abril e setembro de cada ano. Para que seja cumprido este período os temas de cada edição serão divulgados dois meses antes da publicação (em fevereiro e julho) através da página da Adunicamp na internet (www.adunicamp.org.br) e da lista de e-mails. currículo do autor(a) e informações para contato como telefone e endereço de e-mail. 4. Os títulos devem ser breves e elucidativos. Carta do Leitor: Esta seção destina-se a sugestões, comentários e críticas dos leitores. Os textos devem ser breves e serão publicados na íntegra somente se não contiverem conteúdo racista, preconceituoso ou que possa ofender qualquer um dos participantes ou mesmo os leitores. Artigos : Devem ser escritos por professores ou por convidados. Um Conselho Editorial ficará encarregado de ler e escolher os textos que serão publicados em cada edição, mesmo que as opiniões contidas neles sejam divergentes das opiniões da diretoria vigente. Os artigos serão publicados na íntegra - sendo a responsabilidade por suas informações de total responsabilidade do autor desde que se enquadre nas seguintes normas: 1. 14 000 caracteres (10 laudas), digitado em Word, fonte Times New Roman, tamanho 12, com espaçamento de 1,5 sem cabeçalhos ou rodapés. 2. As notas, bem como as referências bibliográficas, devem ser colocadas no final do texto seguindo as normas da ABNT. 3. Junto ao texto deve constar um resumo do artigo com 2000 caracteres, no máximo e destaque para as palavras-chave, além de um mini- Arte do Leitor: Destinada a expor as diferentes manifestações artísticas, nesta seção podem ser publicadas fotos, charges, caricaturas, desenhos ou textos. Aqui também o conteúdo é de total responsabilidade do autor e deve ser encaminhado para o departamento de imprensa junto com uma declaração na qual o autor autoriza a publicação de sua obra. Os autores(as) dos artigos ou arte publicados na revista terão direito a receber 5 (cinco) exemplares da mesma. Todos os arquivos destinados à revista deverão ser encaminhados ao departamento de imprensa através do e-mail: [email protected] 3 01 03 Editorial Participe Eqüidade ou igualdade? 06 Diferenças entre o critério igualitarista das cotas e o meritocrático dos vestibulares - por Valério Arcary Educação superior e ações afirmativas estratégia de “inclusão/exclusão” 12 Asubordinada à sociedade de classes - por Érika S. A.. de Figueiredo Política de Cotas 31 A eleição de Obama e seu significado para uma política de ações afirmativas no Brasil - por Raul Vinhas Ribeiro Í N D I C 4 56 Arte do leitor Expediente Racismo, raça e escravidão 37 Um contexto histórico - por Coordenação Nacional do Movimento Negro Socialista Esta revista é uma publicação de: Adunicamp – Associação dos Docentes da Unicamp/ Seção Sindical Rua Érico Veríssimo, 1.479 CEP 13083-851, Cidade Universitária, Campinas - SP (19) 3521-2470 Internet: http://www.adunicamp.org.br [email protected] [email protected] Coordenação: PAAIS 49 A experiência de um programa de ação afirmativa na Unicamp - por Leandro Tessler e Renato Pedrosa I C E 5 Adolpho Hengeltraub, Edmundo Fernandes Dias, Mauro A. P. Dias da Silva e Vicente Rodriguez Diagramação, Projeto Gráfico: Moema Joffily Dias e Fernando Piva Capa e imagens internas: Luciane Gardesani Conselho Editorial: O Conselho Editorial da Revista está em fase de constituição e seus membros serão apresentados aos leitores a partir do próximo número. Gráfica: SRGráfica e Editora LTDA Tiragem: 3.000 exemplares Periodicidade: semestral Ano 1 número 2 - Dezembro/2008 Equidade ou igualdade? Diferenças entre o critério igualitarista das cotas e o meritocrático dos vestibulares Valerio Arcary, professor do CEFET/SP, doutor em História pela USP, é membro do conselho da revista Outubro O limite político do liberalismo foi a igualdade jurídica dos cidadãos. Os cidadãos seriam iguais diante da lei. A igualdade possível seria a eqüidade. O ponto de partida do marxismo foi a crítica do capital, portanto, do direito à propriedade privada. A liberdade não seria possível entre desiguais. Os marxistas lutam pela eqüidade, mas, seu projeto é a igualdade social. A discussão das cotas abriu uma polêmica, alguns defendendo o princípio meritocrático, e outros defendendo as políticas afirmativas. As cotas sociais e raciais no ensino superior ou nos concursos públicos são pequenas reformas que, sob o capitalismo, não poderão mudar o destino de milhões de jovens negros e mulatos. Mas, como o aumento dos salários ou a estabilidade no emprego, a reforma agrária ou a vinculação de verbas no orçamento do Estado para a educação e a saúde pública, as cotas de acesso à universidade e aos empregos públicos são uma reforma progressiva, ou seja, uma conquista parcial da juventude afrodescendente. Iguais e diversos Remetendo as formas econômicas da organização social contemporânea às características de uma natureza humana invariável – o homem como lobo do homem o liberalismo 6 fundamentava a justificação do capitalismo na desigualdade natural. Em contraposição, o marxismo nunca defendeu que os homens seriam iguais uns aos outros. O marxismo percebia que os homens eram, ao mesmo tempo, iguais e desiguais. Reconhecia que a humanidade era diversa, os seres humanos possuindo capacidades e talentos variáveis. Uns eram mais enérgicos e outros mais reflexivos, uns mais imaginativos, outros mais corajosos, uns mais virtuosos, outros mais perseverantes. Os limites, defeitos e vícios humanos eram percebidos, também, como variados. O marxismo procurou desnaturalizar a desigualdade social, compreendendo a condição humana no contexto das transformações históricas das relações sociais. Não obstante, o marxismo destacava, sobretudo, que as necessidades mais intensamente sentidas eram iguais. Mais ou menos capazes, todos os seres humanos compartilharam uma experiência comum: a necessidade de alimentação, vestimenta, abrigo, aprendizagem, segurança e diversão foram iguais para todos. O programa socialista inscreveu na História a necessidade da luta contra a propriedade privada para defender o direito à vida. A universalização dos direitos sociais remete ao cerne do projeto socialista: a luta pela liberdade humana, em que o trabalho deixe de ser um castigo para os explorados, e passe a ser a plena realização do potencial criativo de busca de conhecimento, beleza e solidariedade. Essa deve ser a missão fundamental da vida civilizada, e é o sentido da história pelo qual vale a pena lutar. A luta contra as opressões é indivisível da luta contra a exploração Os marxistas insistem na centralidade da luta contra a exploração, mas não ignoram o racismo e o machismo. Reconhecem a legitimidade de todas as lutas contra as diferentes formas de opressão. O argumento dos que defendem a igualdade de oportunidades contra as cotas aceita o limite da igualdade burguesa. A eqüidade é o limite do liberalismo. O socialismo quer igualitarismo. A sociedade burguesa histórica nunca pôde, evidentemente, realizar a igualdade jurídica. Em país algum, em nenhum momento da história, os cidadãos foram iguais diante da lei, porque os donos do capital podem mais. Mas, a desigualdade de condições sociais não se restringiu às diferenças de classe. Ser branco pobre no Brasil nunca foi, também, o mesmo que ser negro pobre. A igualdade de oportunidades, ou seja, a equidade, não é suficiente para corrigir 7 estas desigualdades. Apresentar aos trabalhadores negros o mesmo programa que se apresenta aos trabalhadores brancos significa ignorar sua condição específica, como o setor mais explorado do proletariado. O marxismo defendeu que a passagem a uma sociedade socialista deveria ser compreendida pelo critério de distribuição de “cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades” , construído pela socialização da propriedade. Seu objetivo é a gratuidade da alimentação, da educação, da saúde, dos transportes ou do lazer. A distribuição segundo a satisfação das necessidades exigirá, portanto, ir além do regime do trabalho assalariado. Os marxistas nunca se iludiram, todavia, que este princípio organizador da distribuição pudesse ser implantado imediatamente, ou à escala de um só país. Mas, a desigualdade de condições sociais não se restringiu às diferenças de classe. Ser branco pobre no Brasil nunca foi, também, o mesmo que ser negro pobre A diminuição da desigualdade social impulsionada pelo princípio de distribuição meritocrático (...) não garantiria ainda a igualdade social, porque estaríamos diante de um tratamento igual para os desiguais Marx compreendeu o socialismo como um processo de passagem ao comunismo, e a experiência histórica do século XX foi mais do que suficiente para reforçar a hipótese de Lenin e Trotsky, no alvorecer da experiência soviética na Rússia, que seria necessário, nos países atrasados, em função da terrível herança de atraso herdada, e da imprevisível desigualdade de ritmos da revolução mundial, uma etapa de transição ao socialismo. Tratar os desiguais como iguais perpetua a desigualdade No capitalismo a distribuição é regulada pela propriedade privada e pelo mercado. Em situações de crise, o Estado intervém para socializar os prejuízos e salvar os capitalistas. O marxismo propôs como princípio de distribuição para uma sociedade de transição “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo o trabalho realizado”. Não defendeu salários iguais para trabalhos desiguais. Trabalhos mais penosos ou mais perigosos deveriam ser recompensados com salários mais elevados. Trabalhos que exigissem muitas décadas de instrução deveriam receber salários maiores. Ao reconhecer que a distribuição da riqueza seria regulada segundo o trabalho realizado, os marxistas estavam eliminando a apropriação de maisvalia pelo capital – ou seja, expropriando os expropriadores - mas admitindo uma distribuição desigual, transitoriamente, o que é o mesmo que aceitar algum critério de racionamento. Os socialistas reconheceram que a diminuição da desigualdade social impulsionada pelo princípio de distribuição meritocrático – a tirania do esforço ou do talento – não garantiria ainda a igualdade social, porque estaríamos diante de um tratamento igual para os desiguais, perpetuando-a. Trabalhos diferentes, 8 pela complexidade da educação exigida, ou pela intensidade do desgaste, não poderiam e não deveriam ter salários iguais. Aceitaram a necessidade de seleção para o acesso às melhores oportunidades. Descartaram o sorteio porque seria ainda pior, premiando o acaso. Mas, a eqüidade é ainda uma igualdade formal. Nas palavras de Marx: “Este direito igual continua levando implícita uma limitação burguesa. O direito dos produtores é proporcional ao trabalho que produziram; a igualdade aqui consiste em que se mede pela mesma medida: pelo trabalho. Mas, uns indivíduos são superiores física e intelectualmente a outros e produzem no mesmo tempo mais trabalho, ou podem trabalhar mais tempo (...). Este direito igual, é um direito desigual para trabalho desigual (...). Para evitar estes inconvenientes, o direito teria que ser não igual, 1 mas desigual” . A igualdade social é, portanto, um objetivo superior à igualdade de oportunidades. A meritocracia considera de forma igual os desiguais. Os socialistas defendem que, em uma sociedade desigual, para que se diminuam as diferenças sociais, não bastaria a eqüidade: seria necessário tratar de forma desigual os desiguais. Essa é a defesa de Lênin: “Mas isto não é, todavia, o comunismo, não suprime ainda o direito burguês, que dá uma quantidade igual de produtos a homens que não são iguais, e por uma quantidade 2 desigual de trabalho” . Os marxistas admitiram a introdução de fatores de correção social e, culturalmente, progressivos. Essa discussão surgiu a propósito das reivindicações das mulheres e das nações oprimidas, mas o critério é o mesmo quando discutimos o racismo. Cotas são justas, porém, insuficientes As cotas do Governo Lula são um bombom em um bolo envenenado: a reforma universitária que legaliza a transferência de verbas públicas para o ensino privado, através do Prouni, anistiando as dívidas fiscais de um setor que vem faturando dezenas de bilhões todos os anos. Ninguém ignora que os inscritos no vestibular de acesso às universidades públicas têm somente igualdade de condições formais, portanto, abstratas, porque a seleção será decidida favorecendo os que tiveram melhores condições de preparação. Entre os mais desfavorecidos estão os negros. As políticas afirmativas de cotas de acesso para afro-descendentes corrigem, parcialmente, um obstáculo que só é invisível para os que diminuem, ingenuamente, o peso do racismo no Brasil. Contrapor às cotas a bandeira do acesso livre para todos é um argumento que impressiona, mas é estéril. É maximalismo. Nos últimos trinta anos, o movimento estudantil 9 não realizou mobilizações de massas por Vagas para todos. Não deve haver dúvidas que Vagas para todos, já! é um programa justo. Mas, é um programa máximo. A luta pelas cotas é uma luta por uma reforma que já é capaz de convocar para o movimento estudantil muitos milhares de jovens negros que até então não estavam politicamente ativos. Os custos econômicos de um sistema de ensino superior gratuito de qualidade são muito elevados, e maioria do povo, intuitivamente, não o desconhece. Estas despesas exigem investimentos em tal escala, especialmente altos por um longo período de implantação, que são incontornáveis decisões políticas que são incompatíveis com a preservação do capitalismo. Desmercantilização completa da educação superior é uma bandeira socialista, porque exige a expropriação de toda a rede de centenas de universidades particulares. Elevar o nível cultural da Contrapor às cotas a bandeira do acesso livre para todos é um argumento que impressiona, mas é estéril. É maximalismo O ensino de qualidade significa a desmercantilização de uma das necessidades humanas mais sentidas, mas muito mais cara que erradicar a fome, ou subsidiar as passagens de transportes públicos urbanos sociedade através de um aumento qualitativo dos anos de escolaridade média é uma tarefa histórica colossal, o cerne de uma verdadeira revolução cultural, que exige, no mínimo, o intervalo de uma geração, e uma inversão de recursos tão gigantesca, que esteve muito além do que o esforço individual dos estudantes, ou de suas famílias, poderia custear. Toda a experiência histórica o confirma. Educação superior é cara Os países em que o percentual da população em idade escolar com acesso ao ensino superior foi além dos 50% - mas ainda muito aquém dos 100% como os EUA (onde sempre se cobraram mensalidades) ou a França nos anos noventa (que passou a cobrar, ainda que, proporcionalmente, menos) tiveram que subsidiar as universidades. O ensino de qualidade significa a desmercantilização de uma das necessidades humanas mais sentidas, mas muito mais cara que erradicar a fome, ou subsidiar as passagens de transportes públicos urbanos. Em nenhum dos processos revolucionários do século XX foi possível garantir acesso irrestrito ao ensino superior para todos. Muito menos liberar o acesso livre em qualquer curso. Não foi possível na Rússia. Na China tampouco. Cuba nunca esteve sequer próxima da universalização do ensino superior. Nem sequer na Alemanha Oriental ou na Tchecoslováquia, que foram as sociedades econômica e culturalmente menos atrasadas em que o capitalismo foi derrotado. Meritocracia contra igualitarismo é um argumento reacionário O argumento de que, ao invés das cotas, dever-se-ia garantir educação de qualidade universal desde a escola primária pode parecer um argumento razoável, mas não é. É uma meiaverdade, e como todas as meias verdades é uma meia mentira. É, 10 também, reacionário. A verdade em abstrato é um argumento demagógico. A busca da verdade exige olhar de frente o mundo como ele é. Não se pode pedir justiça ao futuro, sacrificando a esperança no presente: por que a juventude negra deveria aguardar que os seus filhos, talvez, daqui a vinte anos - se agora se começar a garantir educação primária de qualidade para todos, o que todos sabemos, é implausível - possam ter acesso ao ensino superior gratuito? Essa posição afasta o movimento negro da causa socialista. O que se está defendendo contra as cotas não é, portanto, o acesso universal, mas um critério de seleção, o meritocrático. A meritocracia, ou seja, a equidade, é mais justa do que o racionamento pelo preço das mensalidades – a seleção determinada pelas diferenças de classe – mas, isso não faz dela um critério justo, porque não é igualitarista. Igualitarista é tratar de forma desigual os desiguais, favorecendo os mais explorados ou oprimidos. Os defensores da meritocracia estrita propõem à juventude operária e negra que estudem mais, e tentem o vestibular outra vez. Em outras palavras, pedem que os jovens negros se conformem com sua condição. Os socialistas não querem que os jovens negros se conformem. Querem que eles se rebelem, agora e já, para ter acesso às melhores universidades públicas e gratuitas. A meritocracia sempre foi, socialmente, regressiva. Por isso, é indefensável. Que os mais reacionários já tenham descoberto que atacar a gratuidade das universidades públicas tem repercussão, especialmente, entre os trabalhadores, não nos deveria surpreender. O resultado da permanência da equidade meritocrática será o isolamento político-social dos que defendem as Universidades públicas, como a USP/: UNICAMP/ UNESP, as Federais e os CEFET’s, beneficiando a campanha pela cobrança de mensalidades e, finalmente, a privatização. O último argumento: o perigo da divisão do povo brasileiro, em particular entre os brancos pobres e os negros. A possibilidade de divisão do proletariado é um problema real. Não obstante, ignorar a condição oprimida específica da população negra, em nome de um programa comum de todos os trabalhadores 11 contra o capital, não vai construir a unidade da classe trabalhadora, mas a sua divisão. O racismo no Brasil não é uma invenção dos líderes dos movimentos negros. As políticas de cotas são insuficientes, porque não podem mudar, substancialmente, a condição do negro sob o capitalismo. A juventude negra só terá um futuro melhor se unir sua luta com toda a juventude trabalhadora. A libertação dos negros só será possível com a libertação do povo brasileiro. Notas 1. MARX, Karl. Crítica do programa de Gotha. Lisboa, Nosso Tempo, 1971, p.31-32. 2. LENIN, Vladimir. El Estado y la revolución, in Obras Escojidas en tres tomos. Moscou, Progresso, 1960,. p.371. Tradução nossa. O racismo no Brasil não é uma invenção dos líderes dos movimentos negros. As políticas de cotas são insuficientes, porque não podem mudar, substancialmente, a condição do negro sob o capitalismo EDUCAÇÃO SUPERIOR E AÇÕES AFIRMATIVAS ESTRATÉGIA DE “INCLUSÃO/EXCLUSÃO” SUBORDINADA À SOCIEDADE DE CLASSES Erika Suruagy Assis de Figueiredo Professora Licenciada em Educação Física pela Universidade de Pernambuco, Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense e membro do grupo LEPEL/FACED/UFBA. A educação superior, assim com a escola, é vista, como um dos motores do desenvolvimento econômico. Essa idéia foi/é amplamente disseminada, como “panacéia” para resolver as desigualdades entre os países e entre os indivíduos, “mediante os organismos internacionais (BID, Bird, OIT, Unesco, FMI, Usaid, Unicef) e regionais (Cepal e Cintefor), que representam dominantemente a visão e os interesses do capitalismo integrado ao grande capital” (FRIGOTTO, 2000, p. 41). Em relação à escola, Gentili (2002) afirma que sua expansão veio articulada à difusão da “promessa da escola como entidade integradora”, vista como um poderoso instrumento de integração social, inclusive do ponto de vista econômico, baseada nas idéias de Marshall (1970). A ênfase no suposto impacto da educação na economia, contribuindo para o desenvolvimento social e das pessoas, foi tão grande que criou uma disciplina e uma teoria: a economia da educação e a teoria do capital humano. de capacidade de produção. Ou seja, a idéia de capital humano é uma “quantidade” ou um grau de educação e de qualificação, tomado como indicativo de um determinado volume de conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridas, que funcionam como potencializadoras da capacidade de trabalho e de produção. Desta suposição deriva-se que o investimento em capital humano é um dos mais rentáveis, tanto no plano geral do desenvolvimento das nações, quanto no plano da mobilidade individual” (FRIGOTTO, 2000, p.41). “A idéia-chave é de que a um acréscimo marginal de introdução, treinamento e educação, corresponde um acréscimo marginal Ainda, segundo Gentili (2002, p. 84), essa promessa era alimentada pela possibilidade de expandir e universalizar 12 direitos econômicos e sociais, na época da chamada “Era de Ouro” do capitalismo. A promessa podia até ser entendida como uma necessidade: a) do mercado de trabalho – por precisar de trabalhadores qualificados; b) do Estado – por ser o grande empregador e pela educação estar relacionada ao crescimento econômico, a partir de metas definidas com base nos seus próprios critérios; c) das empresas – em função das inovações tecnológicas; d) das instituições escolares – pela sua vinculação com o sistema produtivo que fazia parte das metas educacionais; e) dos sindicatos – para responder às demandas dos trabalhadores e por ser uma importante nos processos de negociação e gestão; e f) das pessoas – por considerar que o investimento em capital humano levaria a um aumento da renda individual a médio e longo prazo. Tem sido cada vez mais difícil sustentar essa promessa diante da realidade no modo de produção capitalista, cuja manutenção tem sido perversa, com o aumento de guerras, fome, miséria, exploração, desigualdades de todos os tipos (econômicas, sociais, raciais, gênero), entre outros fatores. Segundo dados do IBGE (2007), referentes ao ano de 2006, no Brasil, a população era constituída por 187,2 milhões de habitantes, entre eles 14,4 milhões de analfabetos, representando 10,5% da população, ressaltamos que este número aumenta para 22,2% do total da população, acima de 15 anos, quando consideramos os analfabetos funcionais1. Nesse sentido, vale citar Melo (2005) que nos alerta para o discurso falacioso de integração harmoniosa para todos através da globalização e da mundialização do capital. A autora afirma que esse processo de mundialização do capital é “[...] como uma nova fase no processo de internacionalização do 13 capital, aprofunda e consolida, de novas maneiras, a desigualdade social, a superexploração do trabalho, as práticas de extermínio e a exclusão social tanto entre classes sociais quanto entre países e regiões de nosso planeta. O discurso da globalização como forma integrada e harmoniosa de desenvolvimento e crescimento capitalista, associado à realização do projeto neoliberal de sociedade e de educação, conduziu o processo excludente da mundialização do capital desde a década de 1980” (ibid., p. 406). Tendo em vista o grau de putrefação do sistema capital e do desemprego estrutural, a crítica apresentada à promessa integradora da escolarização, já realizada na década anterior, deve ser, ainda mais, contundente, já que o Estado hoje não é mais o grande empregador. A chamada necessidade de educar para o emprego, agora se transformou na necessidade de educar para o desemprego. A chamada necessidade de educar para o emprego, agora se transformou na necessidade de educar para o desemprego As políticas educacionais não precisam mais pensar em como inserir os trabalhadores no mercado, já que é sabido que não existe espaço para todos “A desintegração da promessa integradora implicou a construção de uma nova esperança, só que desta vez muito mais arriscada para os indivíduos e com um custo social cuja evidência não expressa outra coisa senão a natureza estruturalmente excludente dos novos tempos: a empregabilidade. Mais do que pensar a integração dos trabalhadores ao mercado de trabalho, o desenho das políticas educacionais deveria orientar-se para garantir a transmissão diferenciada de competências flexíveis que habilitem os indivíduos a lutar nos exigentes mercados laborais pelos poucos empregos disponíveis” (GENTILI, 1998, p. 89). “A natureza estruturalmente excludente dos novos tempos” pode ser entendida também pela necessidade de naturalização da estrutura excludente, que, para isso, precisa incluir os indivíduos nessa “esperança” arriscada da empregabilidade. As políticas educacionais não precisam mais pensar em como inserir os trabalhadores no mercado, já que é sabido que não existe espaço para todos. Portanto, se desintegra junto com a escola a garantia do emprego enquanto um direito social. A destruição e esvaziamento da escola pública e o fomento à busca individual por “qualificação”, principalmente por cursos superiores, contribuem para a desresponsabilização do Estado dos diretos sociais: educação e emprego. A promessa que se transformou numa “necessidade” não poderá ser concretizada nos marcos da sociedade capitalista, que tem como um dos seus cernes a necessidade da exploração do trabalho e que, na sua fase imperialista, para manter as taxas de lucros, destrói as forças produtivas, reduz ao máximo o custo da força de trabalho, seja pelo arrocho salarial, pela destruição de direitos, pela precarização, pela desqualificação do trabalhador, etc. 14 Ainda no que diz respeito à relação trabalho-educação, percebemos uma importante questão que “o regime de acumulação “ que tem sido chamado de acumulação flexível “ ao aprofundar as diferenças de classe, aprofunda a dualidade estrutural como expressão cada vez mais contemporânea, da polarização das competências” (KUENZER, 2004, p.77). Ou seja, as mudanças no mundo do trabalho demandadas pelas novas condições de acumulação, que redefinem o processo de produção (que determina o que se produz, como, quem, para quem, onde, quanto e quando) exigem cada vez mais um distanciamento entre o trabalho intelectual e o trabalho instrumental; entre os que mandam e os que obedecem. E que do ponto de vista do mercado, existe um processo de “exclusão includente”, estratégia de exclusão do mercado formal de trabalho e a inclusão em trabalhos precarizados. Ainda segundo Kuenzer, já no ponto de vista da educação, existe uma “inclusão excludente”, estratégias de inclusão nas mais diversas modalidades de ensino, no caso deste estudo, na educação superior, porém com um padrão de qualidade2 que não possibilita uma formação capaz de atender e superar a exigência do capitalismo. Para tanto, existe a necessidade de formação de um trabalhador/homem com um novo perfil, em termos de habilidades, competências cognitivas e atitudes de comportamento adaptáveis às exigências do capital. Para tal, são necessários desdobramentos na intervenção do Estado, o que ocorreu pelos ajustes estruturais e reforma, para garantir o processo de produção e reprodução do capital. O que desencadeou uma série de ações no âmbito da educação, nas áreas de ciência e tecnologia, formação de professores e pesquisadores, etc. Entre estas ações, a política de ações afirmativas, em particular a reserva de vagas/cotas nas universidades públicas brasileiras, ganha centralidade e aparece no bojo das políticas de democratização da educação superior do país. Nesse sentido nos questionamos: tais políticas estão contribuindo para a democratização do acesso e permanência dos estudantes na educação superior no Brasil? Partimos da hipótese que as políticas de ações afirmativas, em particular a reserva de vagas/cotas nas universidades públicas, estão fundamentadas na compreensão de “inclusão excludente”, encontram-se articuladas as políticas para conciliação de classe necessárias ao processo de mundialização do capital e da educação, contribuindo, através da integração das reivindicações e da educação do trabalhador, para a colaboração e não mais para o confronto entre as classes. Não contribuindo nem no sentido do aumento de recursos públicos para 15 as universidades públicas, do número de vagas e da garantia de permanência com qualidade nas universidades. Neste sentido, entendemos que a denominação “políticas de ações afirmativas” é um substitutivo semântico para “políticas compensatórias”, que encontraram em décadas anteriores na América Latina uma grande resistência dos movimentos sociais para serem aceitas e adotadas. Atualmente, tais políticas aparecem travestidas de ações afirmativas, defendidas fortemente pelo Estado e por boa parte dos movimentos sociais organizados. Mesmo cientes da adoção de políticas semelhantes antes da década de 1960 em outros países “ conforme pudemos constatar na investigação realizada, fruto da análise bibliográfica e do banco de dados (teses e dissertações da Capes)“, optamos por utilizar como referência analítica a política estadunidense. Esta ganha destaque, como A denominação “políticas de ações afirmativas” é um substitutivo semântico para “políticas compensatórias”, que encontraram em décadas anteriores na América Latina uma grande resistência dos movimentos sociais verificamos nos argumentos do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)3, a seguir: O termo ação afirmativa é utilizado com diferentes significados, mas a sua origem vem dos EUA, na década de 1960, e relaciona-se à luta pelos direitos civis e pela extensão da igualdade de oportunidades a todos “Universidades nos Estados Unidos – como a da Califórnia e a do Texas, em Austin – redefiniram sua concepção de mérito, tornando-a mais inclusiva, à medida que a avaliação de candidatos (as) levou em conta a capacidade de superar dificuldades e obstáculos que encontraram na vida, como ter que trabalhar e estudar ao mesmo tempo, o que teria exigido de tais candidatos(as) um esforço maior do que aquele dispensado por outros(as) que experimentaram condições mais favoráveis como poder se dedicar só aos estudos” (Ibase, 2005, p. 26-27). Essa citação demonstra como é grande a influência dos Estados Unidos da América (EUA) no que diz respeito às ações afirmativas no âmbito da educação. Segundo Brandão (2005), estas ações surgem também nos EUA no contexto das lutas dos negros contra o racismo, mais expressivamente a partir da década de 1960, estendendo-se posteriormente a outros seguimentos, como indígenas, etc. Consideramos, portanto, a experiência estadunidense especial, por explicitar a relação trabalho-educação, sobre a qual buscaremos refletir a seguir, por ter o seu significado incorporado na pauta das reformas de ajustes estruturais, estimuladas, inclusive, pelos organismos internacionais, por empresas, como, também, pela sua adesão pragmática por parte dos movimentos sociais organizados no Brasil4, cuja produção intelectual também enfatiza esta referência aos EUA. Trabalho, educação superior e ações afirmativas A relação trabalho e educação superior pode ser evidenciada também nas ações afirmativas, utilizadas como estratégia de “inclusão” de grupos 16 sociais discriminados. O termo ação afirmativa é utilizado com diferentes significados, mas a sua origem vem dos EUA, na década de 1960, e relaciona-se à luta pelos direitos civis e pela extensão da igualdade de oportunidades a todos, apoiada por liberais e progressistas. As primeiras ações estavam relacionadas à inserção dos “excluídos”, principalmente no mercado de trabalho, depois no sistema educacional e na representação política. Este tipo de política não ficou restrita aos Estados Unidos, sendo adotada pela Comunidade Econômica Européia em 1982, através do “Programa de Ação para Igualdade de Oportunidades”, e em outros países, como Índia, Malásia, África do Sul, Canadá, abrindo um arco cada vez mais amplo de países. As ações afirmativas assumiram as seguintes formas de implementação: via “ações voluntárias, de caráter obrigatório, ou uma estratégia mista; programas governamentais ou privados; leis e orientações, a partir de decisões jurídicas ou agências de fomento e regulação” (MOEHLECKE, 2002, p. 199). Vale destacar que, segundo a autora, na grande maioria dos casos, a sua adoção fica a cargo da sociedade civil. Moehlecke (ibid.) apresenta no artigo algumas definições de ação afirmativa; destacarei duas. A primeira explicita que “Ação afirmativa é planejar e atuar no sentido de promover a representação de certos tipos de pessoas “ aquelas pertencentes a grupos que têm sido subordinados ou excluídos “ em determinados empregos ou escolas. É uma companhia de seguros tomando decisões para romper com sua tradição de promover a posições executivas unicamente homens brancos. É a comissão de admissão da Universidade da Califórnia em Berkeley buscando elevar o número de negros nas classes iniciais [...]. Ações Afirmativas podem ser um programa formal e escrito, um plano envolvendo múltiplas partes e com funcionários dele encarregados, ou pode ser a atividade de um empresário que consultou sua consciência e decidiu fazer as coisas de uma maneira diferente” (BERGMANN apud MOEHLECKE, 2002, p. 199). E a da própria autora que, num esforço de sintetizar e incorporar as diferentes definições considera “as ações afirmativas como uma ação reparatória/ compensatória e/ou preventiva, que busca corrigir uma situação de discriminação e desigualdade infringida a certos grupos no passado, presente ou futuro, através da valorização social, econômica, política e/ou cultura desses grupos, durante um período limitado. A ênfase em um ou mais desses aspectos dependerá do grupo visado e do contexto histórico e social” (MOEHLECKE, 2002, p. 203). Contudo, apresenta uma definição tão 17 ampla que possibilita a incorporação de inúmeras ações já desenvolvidas. Para Moehlecke o que pode ser considerado incomum nas definições sobre ação afirmativa é “a idéia da necessidade de promover a representação de grupos inferiorizados na sociedade e conferir-lhe uma preferência, a fim de assegurar seu acesso a determinados bens, econômicos ou não” (ibid., p.2002). Neste sentido, as ações afirmativas não estão voltadas para o “grupo social” inferiorizado como um todo, mas para garantir uma representação desse grupo, sendo apenas alguns poucos que terão assegurado o direito a “seu acesso a determinados bens, econômicos ou não”. A mesma autora, utilizando Guimarães (1997), argumenta a defesa da adoção das ações afirmativas a partir do ponto de vista jurídico e normativo, para afirmar que tratar pessoas desiguais de maneira igual só amplia a desigualdade entre elas. Defende ainda que essas ações afirmativas O que pode ser considerado incomum nas definições sobre ação afirmativa é “a idéia da necessidade de promover a representação de grupos inferiorizados na sociedade e conferir-lhe uma preferência” Só podemos falar de combate ao racismo, desigualdade racial, porque existem os movimentos negros; de reforma agrária, por causa da luta dos movimentos dos sem terras, assim por diante estariam relacionadas às sociedades democráticas, que têm como seus principais valores o mérito individual e a igualdade de oportunidades para competir no mercado. Dessa forma, a aceitação dessa política está em consonância com os princípios ideológicos liberais, o que no nosso entendimento está de acordo com o modo de produção capitalista. Entendemos que é necessária, sim, a luta pela igualdade, mesmo que seja a igualdade de condições numa sociedade de classes. Porém, sem perder de vista a contribuição que Lenin (2007, p.117) nos traz: “Democracia implica em igualdade. Compreende-se a luta do proletariado pela igualdade e pelo próprio princípio de igualdade, contanto que sejam compreendidos como convém, no sentido da superação das classes”. E não só para favorecer interesses de grupos, parcelas da classe. É perfeitamente compreensível, e necessário, que existam ações que levem em consideração a especificidade de determinadas parcelas da classe, no caso dos negros, mulheres, entre outros. Já que só a organização desses setores irá possibilitar o atendimento das suas reivindicações específicas, como, por exemplo: só podemos falar de combate ao racismo, desigualdade racial, porque existem os movimentos negros; de reforma agrária, por causa da luta dos movimentos dos sem terras, assim por diante. Porém, no nosso entendimento, esses movimentos, ao levantarem suas reivindicações, precisam considerar: a) a questão da unidade da classe na diversidade; b) a relação capital-trabalho e c) a questão do Estado. Para que, em conjunto com os demais movimentos, seja possível contribuir no avanço da conquista de direitos da organização da classe, na elevação da consciência das massas e na tomada de poder pelos trabalhadores, condições necessárias para a democracia de fato servir aos explorados. 18 Ações afirmativas na educação superior e organismos internacionais Na introdução de um dos principais documentos para educação superior do Banco Mundial “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia”, publicado em 1994, mas traduzido para o português só no ano seguinte, a universidade é entendida como a formadora de dirigentes e quadros que seriam a base do desenvolvimento econômico. Tal tese baseia-se na teoria do capital humano, que já foi profundamente debatida e questionada por diversos autores no âmbito da educação, principalmente da educação básica, como por Frigotto (2000 e 2002) e Gentili (2002), que demonstram sua improcedência5. Passados mais de 30 anos de sua formulação as desigualdades não apenas permanecem como também se agravam. No Brasil, na década de 1980 e 1990, esta teoria ganha uma expressão significativa no âmbito da educação superior, relacionada com a necessidade de expansão do mercado de serviços educacionais nos países “em desenvolvimento”. Tal expansão parte das diretrizes do BM para a “democratização” da educação superior via aumento do número de matrículas nas instituições privadas, destruição da universidade pública enquanto modelo de formação superior6, diversificando as fontes de financiamento e diferenciando os tipos de instituições formadoras (centros universitários, faculdades, institutos, etc.) e oferta de educação à distância. Essas diretrizes também se expressam através das ações afirmativas, com destaque para o Prouni7 e para a política de reserva de vagas/cotas nas universidades públicas. O documento do BM (1995) aponta que este nível de educação, póssecundária, aumenta a produtividade e gera crescimento econômico, considerados elementos fundamentais para o alívio à pobreza. Porém, afirma que este setor educacional está em crise, numa época de necessária restrição de recursos com educação e principalmente dos gastos com os estudantes, em especial com a assistência estudantil8. As questões a ser enfrentadas são: como podemos ampliar o número de matrículas, mantendo a “qualidade”, sem aumentar os recursos? Seria possível, no marco do capitalismo, essa ampliação mantendo as universidades públicas, com pesquisa, ensino e extensão, como lócus privilegiado para a formação? Que qualidade pode ser defendida sem aumento de recursos? É possível democratizar o acesso e a permanência com política a “custo zero”, sem a garantia de assistência estudantil e sem enfrentar o problema da relação com o Estado? Poderíamos até aceitar a tese de má utilização dos recursos, mas o enfrentamento desta questão estaria ligada à necessária tomada do Estado e do poder dos meios de produção, inclusive 19 educacionais, pelos trabalhadores. Portanto, não é cabível aceitar a proposição de repassar recursos públicos para a iniciativa privada, por ser considerado mais eficiente, nem mesmo jogar a culpa do fracasso da educação primária pública na educação superior, por esta supostamente retirar recursos do primeiro segmento. Ainda menos, aceitar os ajustes estruturais que desobrigam o Estado da garantia dos direitos sociais, incluído o direito à educação superior pública, laica, de qualidade, com indissiociabilidade entre ensino-pesquisaextensão. Mais do que nunca é necessário enfrentar a questão de que, apesar das mudanças ocorridas no papel do Estado, nos marcos do capitalismo, desde o estado liberal, passando pelo de bemestar social e agora neoliberal, a essência não mudou; é a de estar a serviço da classe dominante. Outra crítica realizada no documento do BM (ibid.) é de que a educação póssecundária é elitista, pois Não é cabível aceitar a proposição de repassar recursos públicos para a iniciativa privada, por ser considerado mais eficiente, nem mesmo jogar a culpa do fracasso da educação primária pública na educação superior Não queremos negar a elitização de determinados cursos (...) nos quais o poder aquisitivo das famílias dos estudantes é mais alto e, conseqüentemente, a participação dos negros é menor a maioria dos estudantes seria de famílias de boa condição financeira. Os autores do referido documento questionam a gratuidade do ensino, bem como a necessidade de assistência estudantil para tais estudantes. Consideram ainda que destinar recursos à permanência dos estudantes nas universidades não constitui gastos em educação, portanto seriam recursos mal empregados. A defesa do Banco é que o aumento das matrículas deve ser para os grupos tradicionalmente menos privilegiados, para as ditas “minorias” (mulheres, negros, etc.). Com base nesses argumentos, a política de reserva de vagas/ cotas se fortalece, ficando o Estado a serviço “só” dos mais pobres. Vale esclarecer que não estamos avaliando as pessoas que defendem esta política, mas analisando os nexos que as diretrizes do BM estabelecem com as ações afirmativas. Nesse sentido, em hipótese alguma, consideramos os adeptos desta iniciativa, como um todo, contra a gratuidade do ensino público e a assistência estudantil pública. No que se refere à “elitização” da educação superior pública, que justificaria para o BM a sua privatização, a Universidade Federal da Bahia pode servir de exemplo para explicitar essa contradição. Com base nos dados coletados pela pesquisa “A cor da Bahia” (Queiroz, 1998) para subsidiar o próprio “Programa de Ações Afirmativas”, em que se estabelece a reserva de vagas/cotas, o reitor, Naomar de Almeida Filho, afirma que tal pesquisa possibilitou “[...] refutar o mito de que a UFBA é uma universidade que em geral discrimina os pobres, afrodescendentes e indiodescendentes nos seus processos seletivos. Os dados indicam que, nos anos de 2001 e 2002, pouco mais de 55% dos candidatos ao vestibular se autodesignaram Pretos e Pardos e apenas 1% dos que 20 postulam ingressar na UFBA declaram etnia ameríndia. Cerca de 40% dos candidatos cursaram o ensino médio exclusivamente em escolas públicas. Mais de 51% dos aprovados eram afrodescendentes, cerca de 2% eram indíodescendentes e quase 38% dos ingressantes eram provenientes de escola públicas (ALMEIDA FILHO, 2003)9. Ou seja, pelos dados apresentados, a UFBA pode ser caracterizada como uma universidade elitista e racista? Apesar de apenas 38% dos ingressantes serem provenientes de escola pública, não quer dizer que os demais estudantes egressos da escola particular tenham todas as condições necessárias para se manter na universidade sem assistência estudantil. Com isso, não queremos negar a elitização de determinados cursos, como medicina, direito, odontologia e fonoaudiologia, nos quais o poder aquisitivo das famílias dos estudantes é mais alto e, conseqüentemente, a participação dos negros é menor10. Também não queremos negar a existência do racismo, inclusive, institucional11. Podemos até caracterizar a UFBA como elitista, mas vendo a partir do número de candidatos que ficam de fora dela, mesmo sendo classificados no vestibular. Neste sentido uma questão se levanta: como manter na universidade o estudante não-cotista ou cotista, em grande proporção pobre e negro, sem assistência estudantil? Que educação de qualidade pode se efetivar nessas condições? Aqui se encontra uma contradição, como incluir, excluindo? Os dados da Universidade Federal da Bahia, que foram coletados pela pesquisa realizada pela Fundação Universitária Mendes Pimentel12 e disponibilizados pela Pró-reitoria de Assistência Estudantil da UFBA, demonstram que, para os 39.657 estudantes, incluindo todas as modalidades, são oferecidas apenas 298 bolsas13 residência, 40 bolsas moradia, 150 bolsas alimentação, 76 bolsas creche, 61 bolsas hospedagem e 1.200 beneficiados com isenção de taxas. Perfazendo um total de 625 bolsas; excluídas as isenções, desse número apenas 41 bolsas são para cotistas, num universo de 20 mil estudantes matriculados no ano de 2006. O BM utiliza o Chile como exemplo, país que teve as reformas iniciadas no final da década de 1970, sendo o projeto piloto para a América Latina e para o mundo na implementação das políticas neoliberais privatistas e de ajustes estruturais. A questão dos empréstimos aos estudantes para financiar seus estudos ganhou destaque. Segundo Siqueira (2004, p. 119), “o foco principal dessa reforma parece ter sido o direcionamento dos recursos públicos das universidades tradicionais para o setor privado”. No mesmo artigo, Siqueira (ibid.) analisa um relatório confidencial do BM de 1991 sobre a reforma do ensino superior no Brasil que 21 aponta a variedade de instituições públicas e privadas como um ponto forte do sistema, mas que existia um gasto excessivo com as instituições federais. Indicando ser necessária a cobrança de mensalidades nas instituições públicas brasileiras, assim como o estabelecimento de programas de crédito estudantil para atender os estudantes carentes, e que só deveriam cobrir o pagamento das mensalidades (BANCO MUNDIAL, 1991, P. 46). Além disso, todos os subsídios aos alunos deveriam ser eliminados, e estes deveriam arcar com o custo integral de alimentação ou pagar “uma taxa adicional de [R] $ 31 por ano” (BANCO MUNDIAL, 1991, p. 47 apud SIQUEIRA, 2004, p. 134). Seguindo a análise do documento de 1994, identificamos a afirmação do Banco de que é possível nos países em desenvolvimento haver o aumento da qualidade e das matrículas na educação superior sem Como manter na universidade o estudante não-cotista ou cotista, em grande proporção pobre e negro, sem assistência estudantil? Que educação de qualidade pode se efetivar nessas condições? Um dos aspectos no Brasil que mais contribui para polarizar, dividir o movimento estudantil, é a reserva de vagas/cotas para ingresso nas universidades públicas, inviabilizando em alguns momentos o debate sobre outras questões que afetam a própria existência da universidade investimentos públicos, com a adoção das seguintes medidas: ·Aumentar as diferenças das instituições, incluindo o desenvolvimento das instituições privadas; ·Proporcionar incentivos para que as instituições públicas diversifiquem suas fontes de financiamento, com a participação dos estudantes nos gastos e a vinculação direta entre financiamento e resultados obtidos14; ·Redefinir a função do governo na educação superior; ·Adotar políticas destinadas a priorizar os objetivos de qualidade e equidade (BANCO MUNDIAL, 1995, p.4). O BM ao apresentar esta estratégia sabe que encontrará resistência à sua implementação e trata de preparar as condições de mitigar a resistência dos estudantes “ressentidos”, que perderam seus privilégios, o que pode causar instabilidade política. Estes “privilegiados” na visão do Banco, que, no nosso entendimento, são jovens que têm o direito à educação pública, gratuita e de qualidade, precisam ter a sua resistência e rebeldia combatidas. Para tanto, são necessários o enfraquecimento e a divisão dos movimentos de resistência e das suas organizações. Um dos aspectos no Brasil que mais contribui para polarizar, dividir o movimento estudantil, é a reserva de vagas/ cotas para ingresso nas universidades públicas, inviabilizando em alguns momentos o debate sobre outras questões que afetam a própria existência da universidade, como por exemplo, financiamento, autonomia, assistência estudantil, sendo esta última questão um dos fatores inspiradores desta pesquisa e merecedora de desdobramentos em novas pesquisas. As diretrizes do BM ainda apontam para a ampliação da educação superior via a expansão de instituições não universitárias, privadas e mais sensíveis às necessidades do mercado. Nessas instituições, a formação deve ser oferecida em cursos de dois anos e em programas de educação à distância15, 22 que, segundo o Banco, são mais atrativos para os estudantes e empresários (BM, 1995, p.5). Retomamos aqui uma questão: que educação está sendo gestada para as “ditas” minorias, os “excluídos”, os filhos da classe trabalhadora? Identificamos que a sugerida pelo BM é um mecanismo de incluir excluindo através do aligeiramento e da desqualificação da formação no próprio processo de qualificação. Mais uma vez questionamos: que qualidade é esta? A qualidade de ensino para uma formação humana omnilateral16, com acesso a uma consistente base teórica, que desenvolva o ser humano nas suas diversas dimensões ou a qualidade total17, eficiência e flexibilidade para atender ao mercado de trabalho, cada vez mais precário, para a redução do custo da força de trabalho? O apelo ideológico é: quem sobreviver à competição e à concorrência no mercado é que demonstrará a melhor qualidade e eficiência. Só os “melhores” “ instituições e pessoas “ sobrevivem. Dessa forma, perpetua-se uma visão dualista18 de educação, fenômeno que ocorre agora no processo de “democratização” da educação superior, mas extremamente semelhante, apesar de diferente, ao que ocorreu com a educação básica no período de industrialização do país. A defesa da equiparação entre as instituições públicas e privadas serve de argumento para o fortalecimento das instituições privadas com recursos públicos através do Programa Universidade para Todos (Prouni) 19, Fies20, isenção fiscal, concorrência para captação de recurso para desenvolvimento de projetos, parcerias - e a busca da qualidade para o mercado, para que ambas, públicas e privadas, possam competir em pé de igualdade. Para o desenvolvimento das universidades públicas, o Banco sugere: a) mobilizar mais fundos privados, b) apoiar apenas os estudantes pobres qualificados21 e c) melhorar a utilização dos recursos. O Banco enfatiza a participação dos estudantes, com pagamento de mensalidades, anuidades, taxas, suprimindo a assistência estudantil, oferecendo isenção fiscal para que os empresários invistam na educação superior22, atraindo mais estudantes, ou melhor, clientes; fomento aos organismos de crédito educativo (empréstimo aos estudantes), venda de serviço, pesquisa, consultorias para a indústria e a iniciativa privada. A meta do Banco é que só com a cobrança de mensalidade dos alunos se cubram 30% dos gastos. Para isso, postula que é preciso administrar a educação, as instituições públicas como se fossem empresas, vinculando-as diretamente ao mercado, gerando a perda total da autonomia das instituições públicas. Desta forma se perde completamente a compreensão de público como o que é 23 de direito de todos e dever do Estado, que, segundo Leher (2005), se forja a partir das lutas sociais. O Banco, ao se referir ao conceito de público, defende a concepção do público como não-estatal23, podendo não ser gratuito, nem universal, sendo compatível com o discurso de “santificação” da sociedade civil e do privado e “satanização” do Estado. Com o que nos alerta Leher (ibid.) “A defesa de que é na sociedade civil que se realiza a democracia, a liberdade e a satisfação plena dos anseios dos indivíduos. Em contrapartida, o Estado é compreendido como o espaço do autoritarismo e da burocracia. Assim, os termos envolvidos – privado versus Estatal – terminam por excluir do debate a esfera pública, e, portanto, as políticas universais e as lutas em defesa de uma esfera pública no Estado. Em outros termos, o par em conflito afasta do campo de análise a tese de que o público (publicus, poblicus), os direitos de todo o povo, resultam [O Banco Mundial] postula que é preciso administrar a educação, as instituições públicas como se fossem empresas, vinculando-as diretamente ao mercado, gerando a perda total da autonomia das instituições públicas da luta de classes (LEHER, 2005, p.2). Para a Unesco, a crise social está articulada a uma crise moral que gera a violência e a criminalidade, expressa pelo aumento dos conflitos interétnicos (...). Nesse contexto (...) a educação aparece como possibilidade integradora Ainda, neste artigo, Leher (2005, p. 4) aponta que, no plano ideológico, o embate não é menor, pois a necessidade de luta pela esfera pública dentro do Estado para que seja combatido o seu caráter particular, que entendemos de defesa dos interesses da classe dominante, vem sendo secundarizada e/ ou substituída pela esquerda “pósmoderna”, pela luta por direitos para setores que se organizam por gênero, etnia, etc. Um outro indicativo de privatização do público, sob a forma “democrática” de equidade entre as universidades públicas e privadas, é o atrelamento do repasse de recursos ao cumprimento de metas estabelecidas entre o governo e as instituições. A adoção de políticas para as “ditas” minorias, como é o caso, por exemplo, da política de reserva de vagas/cotas nas universidades públicas, se inclui dentro dessas medidas, para que seja possível organizar “uma educação à prova da crise das relações sociais”, de acordo com o que está expresso no relatório da Unesco24, intitulado “Educação um tesouro a descobrir” (DELORS, 2006, p.52 - 54). Ou seja, quem adotar este tipo de política terá mais chances de conseguir recursos públicos. Neste tópico do documento da Unesco existe o reconhecimento do agravamento das desigualdades, aumento da pobreza e exclusão, o que gerou “fraturas profundas” tanto nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre grupos sociais25 (este é o termo utilizado e nunca classes sociais), o que pôs em perigo a coesão das sociedades e que foi expresso como um quadro alarmante pela Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, realizada de 6 a 12 de março de 1995 em Copenhague. Porém, a base de tamanha desigualdade é atribuída ao crescimento populacional, ao êxodo rural, às migrações, ao desmantelamento das famílias, entre outras 24 questões, mas nunca a explicação vai à raiz da problemática que é o modo de produção capitalista; a propriedade privada dos meios de produção. Para a Unesco, a crise social está articulada a uma crise moral que gera a violência e a criminalidade, expressa pelo aumento dos conflitos interétnicos, que aparecem como característica do final do século XX. Nesse contexto, para a Unesco, a educação aparece como possibilidade integradora, porém este seu papel está sendo questionado, o que é grave, a partir de dois conceitos fundamentais, o de nação e de democracia. Como exemplo: a União Européia. Ainda, no documento referente ao conceito de nação, a Unesco questiona a referência ao Estado-nação, do modelo europeu, em detrimento ao desenvolvimento do mundo das regiões e das comunidades transnacionais. Neste aspecto torna-se evidente a defesa das multinacionais ou transnacionais e dos tratados de livre comércio (Alca, Mercosul etc.), o que está articulado ao processo em curso de destruição das conquistas de direitos (trabalhistas, sindicais, previdenciários, etc.) no âmbito das nações para favorecimento das grandes corporações. No que se refere ao conceito de democracia, em função do objeto da pesquisa e para que fique clara a concepção da Unesco, reproduzimos o trecho do documento que versa sobre a questão. “O conceito de democracia é, também, questionado de um modo que parece paradoxal. De fato, na medida em que corresponde a um sistema político que procura assegurar, através do contrato social, a compatibilidade entre liberdades individuais e uma organização comum da sociedade, ele ganha, sem dúvida, cada vez mais terreno e corresponde, plenamente, a uma reivindicação de autonomia individual que se observa por todo o mundo. Contudo, a sua aplicação nos países, que começaram por serem os seus produtores – sob a forma de democracia representativa“ não deixa de ter, ao mesmo tempo, grandes dificuldades. O sistema de representação política e o modelo de exercício do poder que caracterizam entram, muitas vezes, em crise: a distância entre governantes e governados, a excessiva emergência nos meios de comunicação social de reações emocionais efêmeras e oportunistas, a “política-espetáculo”, tornada possível pela mediatização dos debates, até mesmo a imagem de corrupção do mundo político, fazem com que alguns países corram o risco de ter um “governo de juízes” e do desencanto dos cidadãos pela coisa pública. Por outro lado, muitos países atravessam, também, uma crise nas políticas sociais que ataca os próprios fundamentos de um regime de solidariedade, que parecia poder reconciliar, democraticamente, o 25 econômico, o político e o social, sob a égide do Estado-providência” (DELORS, 2006, p. 53-54). A ênfase que se dá à política - no seu aspecto positivo, de solução, e negativo, de causa dos problemas - é elemento central no documento e que deve ser regida por um contrato social. Porém, o documento não explica que a política, a forma de organização do Estado e a democracia se erguem sob o modo de produção vigente, e que o Estado, pela sua própria natureza de classe, é incapaz de reconciliar a economia, a política e o social. No que se refere à democracia enquanto sistema político de organização do Estado que busca a garantia de liberdades individuais, estamos de acordo com as palavras de Lenin (2007, p.113) “enquanto existir Estado, não haverá liberdade; quando reinar a liberdade, não haverá mais Estado”. A crise aparece no documento como uma crise social, moral e política, mas nunca é associada à crise A forma de organização do Estado e a democracia se erguem sob o modo de produção vigente, e que o Estado, pela sua própria natureza de classe, é incapaz de reconciliar a economia, a política e o social A democracia que interessa é aquela que contribui para a colaboração entre as classes; como se a estrutura de poder estivesse acima dos interesses econômicos das classes em disputa econômica, a crise do imperialismo, uma crise sem precedentes na história da humanidade. Segundo Mészáros (2002) existe uma crise estrutural, e não só conjuntural, da “forma capital”, na qual se encontram esgotadas todas as suas possibilidades civilizatórias, operando de maneira apenas destrutiva, necessitando atacar cada vez mais duramente as conquistas históricas dos trabalhadores. O que antes parecia possível de ser conquistado nos marcos do capitalismo, da democracia burguesa, do “Estadoprovidência”, como o pleno emprego, alguns direitos trabalhistas, previdenciários e serviços públicos de qualidade, torna-se cada vez mais difícil. A democracia aparece como um modo de organização política insubstituível, assim como a tese do “fim da história” (FUKUYAMA, 1992), uma democracia que para existir apela para a colaboração de todos; “para capacidade de cada um se comportar como verdadeiro cidadão”, com a individualização do problema e a “culpabilização das vítimas”. A questão da democracia deve ser considerada inserida numa sociedade de classe, pois a democracia em que vivemos é uma democracia burguesa, limitada, sustentada pelo Estado burguês; a expressão política dos interesses do capital. Como está expresso no documento da Unesco, não com estes termos, a democracia que interessa é aquela que contribui para a colaboração entre as classes; como se a estrutura de poder estivesse acima dos interesses econômicos das classes em disputa, com o intuito de que a classe trabalhadora saia da perspectiva do confronto para a colaboração26, abrindo mão dos seus interesses de classe, das suas organizações independentes, passando a integrar o Estado, auxiliando na “governança” e na “governabilidade”27, assumindo suas responsabilidades, 26 diluindo, dividindo e enfraquecendo a sua luta, a sua resistência, o confronto necessário para tomada do poder, para a destruição do projeto capitalista e para a construção do projeto histórico socialista pelos trabalhadores. É exemplar a intenção de aproximar governantes e governados, defendendo o discurso de que o Estado esteja mais próximo do povo28. Como versa o relatório do BM (1997), onde destacamos que, para melhorar a capacidade estatal, é preciso: 1) ganhar credibilidade para governar; b) circular informações para solucionar “problemas” e reduzir o custo das transações e c) fortalecer e aumentar as alternativas privadas e ONGs para oferecer serviços que o povo está disposto a pagar. Mas a democracia nunca é associada à necessidade de superar a relação entre opressores e oprimidos; a dominação de uma classe sobre a outra; o próprio Estado, que serve para manter esta relação. Ainda para a Unesco, o desafio de inculcar a democracia como “modo de organização insubstituível” para a manutenção do status quo, passa pelos políticos, mas também pelos sistemas educativos, cujo papel deve ser de um fator de coesão e paz, que se dará pelo respeito à diversidade e especificidade dos indivíduos, fazendo uma crítica aos sistemas educativos formais que priorizam “o desenvolvimento do conhecimento abstrato em detrimento de outras qualidades humanas como a imaginação, a aptidão para comunicar, o gosto pela animação do trabalho em equipe, o sentido do belo, a dimensão espiritual ou a habilidade manual” (ibidem., p. 55). O documento enfatiza ainda que é pela educação intercultural, que se valoriza o pluralismo cultural e lingüístico. O argumento do “respeito à diversidade” também é introduzido enquanto dimensão das ações afirmativas por Bergmann (1996 apud Moehlecke 2002) com o objetivo de buscar a “integração dos diferentes grupos sociais29 existentes, por meio da valorização da diversidade cultural que formariam”. A individualização do processo educativo na proposta é clara30, aparecendo como uma forma de se contrapor à exclusão, provocada pelo insucesso escolar, que freqüentemente dá origem à marginalização e à exclusão social, sendo ainda, em muitos casos, a “origem de certas formas de violência e de desvios individuais”. A luta contra o insucesso escolar apresenta-se com um imperativo e justifica-se, também, em função do prolongamento da escolaridade, que, de maneira paradoxal, não melhora, mas piora a situação dos jovens menos favorecidos, já que “os não diplomados se apresentam aos recrutadores das empresas com uma desvantagem quase insuperável” (ibid., p.56). Esse é um bom argumento para justificar o aligeiramento e esvaziamento da formação. O documento 27 apresenta uma contradição: a escola, por gerar esta situação, é acusada de ser um fator de exclusão social e, ao mesmo tempo, é uma instituição-chave para a integração e reintegração. Explicamos, porém, que a origem desta contradição não se encontra no processo educativo como sugere a Unesco, principalmente pelo insucesso escolar, mas na relação entre trabalho – educação, como o próprio documento dá indícios, especificamente neste estudo, na relação trabalho – educação superior. Notas 1. Segundo o IBGE (2007) é “falta de domínio de habilidades em leitura, escrita, cálculos e ciências, em correspondência a uma escolaridade de até três séries completas do ensino fundamental ou antigo primário”. 2. Aos estudantes de maneira geral, e em especial aos que entram pela reserva de vagas, principalmente nos cursos mais caros, lhes são negadas as condições para um melhor aproveitamento, por falta de assistência estudantil, de livros, de instrumentos e de apoio A luta contra o insucesso escolar apresenta-se com um imperativo e justifica-se, também, em função do prolongamento da escolaridade, que, de maneira paradoxal, não melhora, mas piora a situação dos jovens menos favorecidos pedagógico adequado. As pesquisas já demonstram que o rendimento dos cotistas é compatível com os demais estudantes (QUEIROZ E SANTOS, 2006). Portanto, não se trata de uma questão de mérito, argumento conservador bastante utilizado. Do ponto de vista mais geral, destacamos o processo em curso de destruição do modelo universitário, que tenta articular ensino-pesquisa-extensão no Brasil e dá acesso às camadas mais pobres da população à educação superior por via da educação à distância (ênfase em licenciaturas) e com o Programa Universidade para Todos (Prouni) nas instituições de ensino superior privadas. 3. Instituição não-governamental criada em 1981 e que tem como missão “a construção da democracia, combatendo desigualdades e estimulando a participação-cidadã”. Extraído do site: www.ibase.org.br acesso em 13 de fevereiro de 2008. 4. Entre vários setores. Até o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) na Bahia e nacionalmente como é possível constatar na matéria publicada na revista “Sem Terra” de dezembro de 2006 que apresenta a positividade dessas ações. E, principalmente, nos movimentos negros, onde encontramos, inclusive, várias referências nos estudos de alguns intelectuais ao modelo estadunidense. 5. O Brasil é um dos grandes exemplos da não correlação mecânica entre educação e desenvolvimento econômico. Foi uma das economias mais dinâmicas do mundo na segunda metade do século XX, com grande crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), mas convivendo com uma grande concentração de riqueza nas mãos de uma minoria, ao lado de miséria e pobreza para grande maioria dos brasileiros (GENTILI, 2004, p. 56). 6. Inclusive utilizando o termo de educação pós-secundária e não universitária. 7. Programa instituído pela Medida Provisória 213, de 10 de setembro de 2004, que prevê a destinação de recursos públicos para a iniciativa privada, através de isenção fiscal para “compra de vagas”. 8. Vale salientar que o problema da permanência dos estudantes nas universidades não é algo recente. 9. Pronunciamento feito na Câmara dos Vereadores de Salvador, em sessão solene para discutir as Ações Afirmativas para Afro-descendentes, proposta pela vereadora Olívia Santana (PC do B), em 13 de junho de 2003. Este pronunciamento é a base completa do documento aprovado em 2004 nos conselhos superiores da UFBA, mas que foi apresentado como proposta do Grupo de Trabalho, constituído pelo Consepe, composto por representação de professores, servidores e estudantes, além da “sociedade civil”, representada pelo Comitê Pró-cotas e pela União Nacional dos Índiosdescendentes (Unid). 10. Segundo o documento da UFBA sobre o “Perfil sócio-econômico dos candidatos inscritos e classificados no concurso vestibular da UFBA 2001-2004”, o percentual de negros e pardos em 28 medicina são 36,6%%, direito 37, 6%, odontologia 35,6% e fonoaudiologia 37,8%. 11. A incapacidade uma instituição lidar com as diferenças raciais, étnicas, inclusive na própria assistência aos cotistas, como trataremos no próximo capítulo. 12. Foi disponibilizado na coleta dos dados pela Pró-reitoria de Assistência Estudantil um questionário que este órgão tinha respondido para a Fundação Universitária Mendes Pimentel, que reunia os números sobre a assistência estudantil na UFBA. 13. Este número também aparece no mesmo documento, como sendo 289 bolsas. 14. Dentre as medidas adotadas pelos governos FHC e Lula, vinculando financiamento a resultados, podemos mencionar a avaliação por desempenho. O Contrato de Gestão de FHC, que reaparece no governo Lula como Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e mais recentemente no Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). 15. Diretriz seguida pelo governo Lula, analisada por Lima (2006) no artigo “Educação à distância na reformulação da educação superior brasileira”. 16. Conceito desenvolvido por Marx e retomado em Manar corda (1991). Entendemos que a práxis educativa revolucionária deve possibilitar a reintegração das diversas esferas da vida humana que o capitalismo prima por separar. Portanto, uma educação que vise a omnilateralidade deve opor-se à educação unilateral que só se preocupa com uma dimensão do ser humano de cada vez. Por exemplo: separando o trabalho manual do trabalho intelectual, a dimensão política da dimensão artística, econômica, etc . 17. Aprofundar em Gentili e Silva (org.) Neoliberalismo, Qualidade Total e Educação: visões críticas, 1999. 18. Ensino de baixa qualidade, aligeirado, sem pesquisa, pobre para os filhos dos trabalhadores e uma educação de qualidade, com pesquisa, aprofundada, para a classe dominante. 19. Esse programa é um mecanismo de manutenção da dualidade do ensino, os “excluídos” passam à condição de “incluídos”, mas, nas instituições privadas, muitas de qualidade duvidosa, como o próprio “Provão”, avaliação institucional da época de FHC, e o “Sinaes”, do governo Lula, vêm comprovando. 20. Programa de Financiamento Estudantil que destina recursos para os estudantes pagarem as mensalidades nas faculdades privadas. Programa semelhante ao antigo Crédito Educativo (Creduc) da época do governo FHC. “publicização”, adotado por Bresser Pereira (2007). Público por servir ao público, mas de natureza privada. 24. Documento de 1996 que segue a linha do que está expresso no documento do Banco Mundial de 1994 analisado inicialmente neste capítulo. 25. Termo muito utilizado na academia pelos defensores das políticas de ações afirmativas. 26. Seguindo orientações do documento do BM intitulado “Do Confronto à Colaboração: relações entre a Sociedade Civil, o Governo e o Banco Mundial no Brasil”, que apresenta com ênfase o papel das ONGs para tal. 27. Conceitos apresentados por Bresser Pereira, no caderno 1 do Mare “A Reforma do Estado nos anos 90: Lógica e Mecanismos de controle” já mencionados. 28. Como pode ser constatado no Relatório do Banco Mundial de 1997 “O Estado num mundo em transformação”, há uma ênfase no fomento às organizações não-governamentais. A descentralização do “poder” político e a representação dos grupos étnicos se efetivariam via ONG, para auxiliar na co-gestão do Estado e para aliviar as pressões. 22. Quem paga a educação vai querer dizer que tipo de educação, formação ele deseja financiar. 29. O tema da educação intercultural, da diversidade de grupos, deve ser mais bem explorado em outros estudos. Ainda, vale destacar que Bergmann, a Unesco e boa parte dos estudos que defendem as ações afirmativas utilizam o termo “grupos sociais”, em detrimento de “classes sociais”. 23. Que se vincula ao conceito 30. Propõe o ensino personali- 21. Que critérios serão utilizados para definir que estudante terá direito a este apoio? Mais uma vez que qualidade vai ser exigida? 29 zado, criticando os sistemas educativos formais que não levam em conta a realização pessoal, o desenvolvimento dos talentos individuais. Referências Bibliográficas ALMEIDA FILHO, Naomar de A. Universidade Nova: textos críticos e esperançosos. Salvador: EDUFBA, 2007. BANCO MUNDIAL.. Do Confronto à Colaboração: relações entre a Sociedade Civil, o Governo e o Banco Mundial no Brasil. Brasília, 2000. ________ O Estado num mundo em transformação. Washington, D.C., 1997. ________ La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia. Washington, D.C., 1995. BENTO, M. A. S. Igualdade e diversidade no trabalho. 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Política de Cotas A eleição de OBAMA e seu significado para uma política de ações afirmativas no Brasil Raul Vinhas Ribeiro, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da UNICAMP desde 1974, foi diretor da ADUNICAMP, representante docente no Conselho Universitário por algumas vezes, inclusive neste último biênio de junho de 2007/maio 2009 e Chefe de Gabinete da Reitoria no mandato do Prof. Hermano Tavares O significado da eleição de Obama é importante menos, talvez, pela atuação futura do próximo presidente e mais por explicitar as mudanças profundas que aconteceram nos EUA nos últimos 50 anos. Obama não é de esquerda, é um liberal no sentido dado pelos americanos ao termo. Mas sua eleição, assim como a de Lula no Brasil, de Evo Morales na Bolívia ou Hugo Chavez na Venezuela, tem um simbolismo fantástico em cada um de seus países em particular e para o mundo em geral. Para mim, que tinha 12 anos em 1960, a mudança é extremamente significativa e ocorreu no espaço de uma geração. Ainda me lembro de uma época em que aos negros americanos eram reservados os bancos traseiros dos ônibus, haviam banheiros públicos separados para brancos e para negros, no sul dos EUA negros podiam ser linchados por olhares um pouco mais prolongados às mulheres brancas, etc., etc. Me lembro da década de sessenta marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnam, com o exército americano composto por um grande contingente de soldados 31 negros, e pela luta duríssima dos negros americanos pelos direitos civis, liderados por Martin Luther King. Foi uma época marcada, entre outras, pelas políticas de ações afirmativas, como a criação de cotas em escolas primárias até cotas em Universidades e em locais de trabalho. Com isso, nestes 50 anos uma mudança profunda ocorreu e tem agora seqüência com a eleição para presidente de um negro, antecipada talvez, com relação a uma data antevista como possível, pela política policialesca e neoliberal de Bush e pela crise financeira dos últimos meses. O racismo nos EUA continua, mas tem forma, em geral, mais atenuada e “muito porque muitos brancos foram Esta eleição de Obama certamente não implicará em mudanças profundas na política americana, embora possa implicar em uma ação mais dosada e menos policialesca por parte do Estado americano atendidos por médicos negros formados graças às políticas de ação afirmativa. Juízes negros cumpriram corretamente suas funções, etc. Ou seja, funções nobres foram ocupadas por negros (diretores, gerentes, professores de universidades, etc.). Tudo graças a uma política de formação de “recursos humanos” que garantiu espaço e condições para estes negros se desenvolverem em um ambiente hostil ao seu progresso e ascensão social e profissional.”1 A luta dos negros americanos contou com o apoio de amplos setores, mesmo daqueles preocupados com a implantação do império americano, que começava a se afirmar, e que sabiam que esta “vocação imperial”, para ser eficaz, precisava contar mais com instrumentos ideológicos do que com a força das armas. Um país que defende a “liberdade” no mundo não pode ter telhados de vidro, mesmo porque os negros americanos participaram como soldados de todas as guerras americanas do século XX em proporção maior que o de sua presença na população americana. Como sempre a luta pelo avanço dos direitos muitas vezes também é eficaz e dá alento ao próprio “Capital”. Esta visão ideológica, mais complexa de como conduzir seu império, certamente está sendo desconsiderada pelo Partido Republicano, no governo Bush, tomado por forças antiintelectuais que tem peso desde sempre na sociedade americana, mas nunca antes tão perto do controle da máquina de Estado, o que antecipou a vitória de Obama nas eleições americanas. Esta eleição de Obama certamente não implicará em mudanças profundas na política americana, embora possa implicar em uma ação mais dosada e menos policialesca por parte do Estado americano, por um distanciamento das políticas fundamentalistas de cristãos americanos, por 32 uma política de reconquista das classes populares e médias para seu projeto imperial, por uma atuação mais distendida na política internacional e, certamente, significará um “crédito ideológico” que o “Império” certamente saberá usar. Vejamos as palavras de vitória do próprio Obama: “If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible, who still wonders if the dream of our founders is alive in our time, who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.” Mas o que importa aqui é o que podemos aprender com os outros. E a eleição de Obama é uma demonstração magnífica de que políticas de ações afirmativas podem dar certo e, além disso, como diz Arcary: “(...) ignorar a condição oprimida específica da população negra, em nome de um programa comum de todos os trabalhadores contra o capital, não vai construir a unidade da classe trabalhadora, mas a sua divisão”.2 Contudo isto não interessa só às classes populares como dissemos acima. Vale a pena lembrar que setores importantes do “establishment ” americano apoiaram a política de ações afirmativas, que incluía a política de cotas. Eles sabiam o que interessava ao seu país e de alguma forma estavam comprometidos com seu futuro. O que me parece não ser verdadeiro com parcela significativa da elite brasileira, fortemente contra a política de ações afirmativas, como as cotas, p.ex.. No caso brasileiro, a distribuição de rendas é extremamente perversa para as classes populares e altamente concentrada no extrato superior, constituído por uma pequena porcentagem da população. Mas a situação é ainda pior para negros e índios, em condições de exploração tão ou mais agudas que os brancos e pardos. As classes populares brasileiras, coisa que é reconhecido por todos, vivem em condições muito difíceis e que só recentemente começaram a melhorar. Por isso, a proposta de cota para escola pública, freqüentada principalmente pela imensa maioria de pobres e de classe média baixa, e de cotas para negro e índio, é importante para o processo de autonomização e tomada de consciência das classes mais populares, ao mesmo tempo que deveria ser, obrigatoriamente, bandeira dos movimentos sociais e de esquerda. Neste momento é fundamental chamar a atenção para a questão de políticas de ações afirmativas como parte do elenco de propostas a serem defendidas pelo movimento social e sindicatos e outros, num momento em que este tipo de política nos EUA mostra seus efeitos através da eleição do primeiro presidente negro americano. E 33 chamo a atenção novamente para uma frase do artigo acima mencionado: “Contrapor às cotas a bandeira do acesso livre para todos é um argumento que impressiona, mas é estéril. É maximalismo. Em nenhum dos processos revolucionários do século XX foi possível garantir acesso irrestrito ao ensino superior para todos” 3. O que não significa, para aqueles que lêem para além do que está escrito, que não se deva lutar por aumentos de vagas. Este é um reconhecimento importante, por parte de alguém ligado a um partido mais a esquerda, no caso o PSTU, que a educação superior é cara, muito cara. E complementando, além de não ter sido universalizada em nenhum dos lugares onde ocorreram processos revolucionários, uma educação superior para parcelas expressivas de jovens na idade de 18 a Eles [establishment americano] sabiam o que interessava ao seu país e de alguma forma estavam comprometidos com seu futuro. O que me parece não ser verdadeiro com parcela significativa da elite brasileira Outro argumento (...) seria o de que cotas iriam exacerbar o racismo mais mitigado, e até mais “democrático” no Brasil que nos EUA, pois criaria uma diferença entre os que entram na universidade por “mérito” e os que entram por cota 23 anos ainda não ocorre em todos os países centrais e desenvolvidos. Outro argumento comumente divulgado é o de que, ao invés de instituir cotas para o ensino superior seria preciso melhorar primeiro o ensino médio assim admitir alunos mais qualificados. Isto significa uma promessa de justiça para o futuro, uma promessa quase escatológica, pois não se encaminha a questão do ensino médio e não se concede as cotas pedidas. É preciso começar a melhorar a escola média já, mas a justiça não pode ser postergada. Lembramos que as escolas privadas, freqüentadas pela elite e pela classe média alta não são tão qualificadas e o que faz a diferença são os famigerados cursinhos. É impossível acreditar que dos 400 e poucos mil secundaristas que se formam na escola pública paulista por ano, não haja 15 mil (50% das vagas universitárias públicas anuais de São Paulo e algo em torno de menos de 4% dos 400 mil acima mencionados) que possa cursar nossas universidade públicas, mesmo que para isso seja preciso alguma atividade de reforço, que substituiria os tais “cursinhos” que estes alunos das escolas públicas não puderam freqüentar. Outro argumento, freqüentemente citado, principalmente na seara da Rede Globo, seria o de que cotas iriam exacerbar o racismo mais mitigado, e até mais “democrático” no Brasil que nos EUA, pois criaria uma diferença entre os que entram na universidade por “mérito” e os que entram por cota. A experiência mostra que isto não ocorre, a não ser em alguns segmentos de classe média mais embrutecidos pela lavagem constante da mídia através de seus vários veículos, os Holmer Simpsons de William Bonner. Pesquisas recentes da imprensa, p.ex. Folha de S. Paulo mostram que quase 70% dos brasileiros são favoráveis às cotas. 34 A Câmara Federal aprovou cota racial e social nas escolas federais. O projeto aprovado prevê cota de 50% das vagas em universidades federais para quem tenha cursado o ensino médio em escolas públicas, com reservas para negros, pardos e indígenas na proporção populacional de cada estado. Metade das vagas da cota é reservada para alunos de família com renda igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita. Talvez hajam melhorias a serem feitas na proposta, mas é inegável que a aprovação do projeto significa um avanço considerável e um marco histórico para democracia brasileira. Esperamos que sua aprovação no Senado e a conseqüente sanção do presidente ocorram tranqüila e rapidamente. Além disso, no Rio de Janeiro, “a lei que determina o sistema de cotas raciais em cargos de confiança na administração municipal do Rio já está em vigor após sua publicação na quartafeira no Diário Oficial do Município. A Câmara Municipal do Rio derrubou o veto do prefeito Cesar Maia ao Projeto de Lei 1. 268/ 2007, que determina que 20% dos cargos comissionados em todos os órgãos da Prefeitura sejam destinados a afrodescendentes, pardos ou descendentes de índios. A lei também vale para as empresas vencedoras das disputas dos contratos para prestação de serviço com o município. O texto especifica que 10% das vagas sejam para negras e outros 10% para negros nas nomeações e contratações.”4 No Mato Grosso do Sul, “a Assembléia Legislativa aprovou na sessão de hoje o projeto que cria cotas para negros no serviço público estadual. O projeto, de autoria do deputado Amarildo Cruz (PT), recebeu quatro emendas e agora vai para a sanção do governador André Puccinelli.” (...) “De acordo com a lei, 10% das vagas nos concursos públicos realizados pelo governo do Estado têm de ser reservadas para pessoas negras. A proposta foi apresentada em agosto e, durante o tramite, algumas modificações no texto foram feitas, o que prolongou sua ida para votação em plenário.” (...) “Em outras cidades do país já existem leis semelhantes. Como em Porto Alegre, onde o percentual é de 12%; e em Vitória, de 30%. Caso seja sancionada, a proposta do deputado Amarildo Cruz (PT) será a primeira do país em âmbito estadual.”5 Estas medidas acima, e não me refiro apenas às universidades, apontam que o Brasil amadurece mesmo com a contrariedade das elites e de parcelas de docentes e alunos das universidades, como pode ser visto na reação da ANDIFES à primeira noticia acima: “A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais 35 de Ensino Superior (Andifes) é contra o projeto que reserva metade das vagas em universidades federais para alunos que fizeram o ensino médio na rede pública, aprovado nesta quinta-feira (20) na Câmara dos Deputados. Nós somos favoráveis às cotas, mas não por meio de uma imposição legal. Não acho que seja razoável. A autonomia das universidades deve ser preservada”, afirmou Amaro Henrique Pessoa Lins, presidente da Andifes e reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)” 6 Não é preciso dizer que a autonomia universitária deve ser defendida, principalmente porque, ao se garantir autonomia financeira, econômica, e de organização à universidade, se garante um valor fundamental, o direito a liberdade de pensamento e de investigação, sem o qual nenhuma organização merece o nome de universidade. Contudo a Universidade não é uma torre de marfim, imune Não é preciso dizer que a autonomia universitária deve ser defendida (...). Contudo a Universidade não é uma torre de marfim, imune aos preconceitos e véus ideológicos que atravessam toda a sociedade Uma política de ações afirmativas, popular e anti-racista, (...) se coloca por cima e para além das universidades, para toda a sociedade aos preconceitos e véus ideológicos que atravessam toda a sociedade. Lembremos o comportamento de vários segmentos universitários durante a ditadura, embora devamos reconhecer que muito cedo, dentro dela, também surgiram vozes críticas e corajosas e movimentos de contestação. Uma política de ações afirmativas, popular e anti-racista, como resultado da pressão do movimento social e da opinião pública, deve ser ampla e geral, de caráter nacional, e que se coloca por cima e para além das universidades, para toda a sociedade. Parece-me claro que em nada contesta o valor fundamental da universidade e, como já foi discutido a exaustão, autonomia não é independência. Além disso, por este caráter nacional deveria ser Política de Estado a ser implementada por todas as universidades públicas, mas também por todo o setor público, pelas universidades privadas e pelas empresas privadas. semente-virou-rvore-valeu-lutados.html> Data de acesso: 23/11/2008 ARCARY, Valério. Equidade ou igualdade? Diferenças entre o critério igualitarista das cotas e o meritocrático dos vestibulares. A ser publicado em: Revista Movimento em Debate, ano I, número 2 de Dezembro de 2008. Notas 1. Blog do Chicão 2. Valerio Arcary. DANTAS, Pedro. Câmara do Rio aprova cotas raciais para cargos de confiança . Disponível em: <http://www.estadao.com.br/ nacional/not_nac281044,0.htm> Data de acesso: 22/11/2008 3. Idem 4. Câmara do Rio aprova cotas raciais para cargos de confiança 5. Assembléia aprova lei de cotas no serviço público 6. Associação de reitores de federais critica projeto de cotas Referências Bibliográficas Blog do Chicão. A semente virou árvore: valeu a luta dos movimentos sociais. Disponível em: <http://chicaodoispassos. blogspot.com/2008/11/ 36 portalms.com.br - Assembléia aprova lei de cotas no serviço público. Disponível em: <http:// www.portalms.com.br/noticias/ Assembleia-aprova-lei-decotas-no-servico-publico/ Campo-Grande/Justica/ 26770.html> Data de acesso: 23/11/2008 CALGARO, Fernanda. Associação de reitores de federais critica projeto de cotas. Disponível em: <http://g1.globo. com/Noticias/Vestibular/ 0,,MUL869950-5604,00ASSOCIACAO+DE+REITORES+DE+ FEDERAIS+CRITICA+PROJETO+DE+ COTAS.html> Data de acesso: 22/11/2008 Racismo, r aças e escr avidão Um contexto histórico1 Com o objetivo de situar historicamente as origens do racismo no dia 20 de novembro a Coordenação Nacional do MNS – Movimento Negro Socialista elaborou este pequeno texto. Justamente neste dia da consciência negra, deputados aprovam na câmara em Brasília as cotas sociais e raciais para acesso à universidade. Mas qual o real significado disso? Coordenação Nacional do Movimento Negro Socialista De Spartacus a Zumbi: A revolta dos gladiadores Um dos primeiros sistemas econômicos que levou a humanidade a sair da barbárie foi a escravidão. Entendamos: ao invés de se matar os prisioneiros de uma guerra ou consumi-los (antropofagia, canibalismo), passa-se a escravizá-los e utilizar a sua força de trabalho para aumentar a produção. Foi desta forma que a humanidade começou a romper com seu passado (barbárie) e passou a produzir maravilhas que até hoje encantam os olhos e a imaginação da humanidade – os templos gregos, as pirâmides egípcias, os monumentos romanos. Este sistema (escravagismo) encontrou o seu apogeu no Império Romano, 37 provavelmente o maior império escravista que a humanidade conheceu. Roma derrotou os outros povos e estabeleceu um império que atingia praticamente toda a Europa, o norte da África, o Oriente Médio. “Todos os caminhos levam a Roma”, dizia o ditado. O que se esquece normalmente é que todas estas maravilhas, a ciência, a literatura, os poetas, as estradas e aquedutos, tudo era feito pelos escravos. A filosofia grega, a matemática, só Marx explicou que um sistema só deixa o mundo quando ele não pode mais desenvolver suas forças produtivas. Mas também que ele não deixa o mundo de boa vontade puderam se desenvolver porque existiam os escravos para fazer o trabalho braçal. Comentando um dia os “saudosistas” do passado, o escritor de ficção cientifica Isaac Azimov relembrava que ele nunca seria um saudosista. Os bons velhos tempos eram muito bons para os donos de escravos e ele, Azimov, descente de camponeses e estes por sua vez de escravos, nunca teria se sentido bem como escravo no passado. Por volta do ano 100 antes de Cristo, Roma já era a potência imperial que dominava todo este mundo. E começava a sua desagregação social. Marx explicou que um sistema só deixa o mundo quando ele não pode mais desenvolver suas forças produtivas. Mas também que ele não deixa o mundo de boa vontade: é necessário enterrá-lo revolucionariamente. Em Roma, as condições de desenvolvimento tinham chegado ao seu limite. Os senadores engordavam (representantes das tribos originais) e a maioria do povo (os “plebeus” – sem contar os escravos) não tinha propriedades agrícolas com que pudessem sobreviver em tempos de paz. A luta entre patrícios e plebeus fora vencida pelos patrícios e nada levava crer em mudanças. É neste contexto que é feita a revolta de Spartacus. O império sobrevivia a “pão e circo”. Doavase pão (trigo) e montava-se o circo para que os pobres (plebeus) pudessem se divertir e não se revoltar. Uma das maiores diversões era a luta de gladiadores, onde os homens combatiam até a morte. Se um bom lutador perdia, às vezes era perdoado pela multidão ou pelo imperador. Mas a regra geral era matar ou morrer. Um dos melhores gladiadores, Spartacus, lidera uma rebelião e foge seguido por 30 outros. O que era uma pequena ocorrência se torna uma rebelião em pouco tempo. Milhares de escravos fogem das propriedades agrícolas e se juntam à rebelião. As primeiras tropas romanas enviadas para combater a rebelião são derrotadas e aí aumentam os adeptos. 38 Mais de 30 mil escravos se revoltam em toda a Itália. O Senado, de início paralisado, ordena a um dos cônsules para combater a rebelião. Os escravos se separam. Uma parte tenta atravessar os Alpes e retornar às terras do norte, onde poderiam ser livres. Esta parte é encurralada e derrotada, sendo totalmente massacrada pelos romanos. Outra parte continua na Itália, inclusive cogitando em assaltar Roma. Nos acampamentos escravos, promovem-se luta de gladiadores – entre romanos escravizados pelos exescravos. Não existia uma perspectiva política de outra forma de funcionamento econômico da sociedade. Finalmente, os romanos trazem legiões de fora do país e encurralam os escravos no sul da Itália. Eles tentam negociar com piratas da região para serem transportados para fora da Itália, mas os piratas são comprados pelos romanos. Spartacus tenta negociar uma rendição, mas o cônsul nega. Os escravos são massacrados e mais de 6.000 deles que sobreviveram são crucificados. A via Apia, principal estrada romana, enche-se de cruzes para mostrar a todos os escravos o seu destino caso se rebelem. Roma também sofre – a república dá lugar ao império, numa série de episódios históricos que não cabe analisar neste artigo. A escravidão moderna Desde esta rebelião até a escravidão moderna, usada como forma de acumulação primitiva para o capitalismo nascente, existiram diversas revoltas de escravos. A única que foi vitoriosa foi a revolta do Haiti. Mas uma das mais famosas foi sem dúvida a do Quilombo de Palmares, que incendeia até hoje a imaginação dos brasileiros. A escravidão moderna era, em certo sentido, muito mais cruel e selvagem que a escravidão antiga. Enquanto que na antiguidade a escravidão era o mais comum, onde não importava a “raça” (um dos imperadores romanos foi negro, uma das dinastias egípcias era negra), o capitalismo tinha que justificar o injustificável, justificar a escravidão quando esta já não cabia no sistema econômico e foi utilizada apenas para o acúmulo inicial de riquezas do próprio capitalismo, dos capitalistas que se construíam enquanto tal. Qual a justificativa? Inicialmente, o negro e o índio não tinham “alma”, não eram “pessoas”, eram “sub-raças”, “macacos” ou quase, animais que também falavam. A igreja católica deu o seu selo a esta classificação. Apesar da Europa estar chegando ao capitalismo, o resto do mundo encontrava-se em estágio de desenvolvimento bastante diferente. Os indígenas do Brasil, em sua maioria, encontravam-se em um estágio de “pedra polida”, sem conhecer os metais. Incas, Maias e índios da América do Norte encontravam-se em estágio mais avançado. A maioria dos negros constituíam reinos e estados com desenvolvimento comparável aos antigos impérios escravagistas. O comércio de 39 escravos com a África nasce então do seu maior desenvolvimento que os povos indígenas existentes na América. Aonde os capitalistas puderam – como nos Andes ou no México, escravizaram os indígenas e utilizaram a sua mão de obra para extrair minérios ou para a plantação. Aonde esta facilidade não existia, aonde os indígenas eram muito atrasados (Brasil), tinham espaço para fuga (EUA), introduziu-se a escravidão negra. Os povos europeus, particularmente os portugueses, ingleses e franceses colonizavam as fronteiras marítimas e comerciavam com os reinos negros – fornecendo mercadorias e armas para estes e recebendo escravos. Estes escravos eram então embarcados e utilizados nas plantações e minas da América do Norte, Antilhas e Brasil. A condição econômica para tal era a existência de colônias africanas e americanas, simultaneamente. Tanto é que Portugal e Inglaterra foram os maiores utilizadores desta prática. Mas a África morreria A escravidão moderna era, em certo sentido, muito mais cruel e selvagem que a escravidão antiga. Enquanto que na antiguidade a escravidão era o mais comum, onde não importava a “raça” (...), o capitalismo tinha que justificar o injustificável Quando o sistema de escravidão já não produzia os lucros necessários, era necessário modificar a forma de exploração muito mais que as “mil mortes” de que falava Lênin sobre o camponês russo transformado à força em operário. Quando o sistema de escravidão já não produzia os lucros necessários, era necessário modificar a forma de exploração, diretamente ao mercado e produção capitalistas. Enquanto a escravidão negra sob a batuta dos estados europeus inicia-se nos século XVI de forma sistemática, ampliandose nos séculos XVII e XVIII, ela entra em declínio no inicio do século XIX e termina no seu final. Centralmente, o modo de produção capitalista torna-se dominante na Europa, a produção atinge o nível industrial (através da acumulação primitiva, da pilhagem da África e da América em beneficio da burguesia nascente européia) e o que o capitalismo precisa é de mercado – mercado para suas mercadorias, mercado onde exista a mão de obra livre para trabalhar em suas fábricas. E a África morre de novo. Após ter suas forças exauridas pela pilhagem sistemática e organização da população em forma de escravidão, agora quando a escravidão é proibida, invadem-se os reinos africanos sob a desculpa de “acabar com a escravidão”, de levar a civilização aos povos incultos. E então os negros que eram escravizados e vendidos, agora passam a viver e morrer nas minas e plantações como “assalariados”, o “moderno escravo”. Palmares “efeito colateral que o seu sistema fez” Racionais MCs Já no século XVI, os negros no Brasil eram empregados na produção de ouro e também nas plantações de cana-de-açúcar e nos engenhos da produção de açúcar. É nesta época que um dos principais países onde o capitalismo se desenvolvia (Holanda) resolveu afrontar a potência colonial de Portugal, então unida à Espanha (cujo desenvolvimento econômico era pífio, totalmente dependente das colônias e com uma estrutura totalmente 40 feudal no país europeu, apesar de uma grande burguesia comercial estar em desenvolvimento). Isto se traduziu nas invasões holandesas do Brasil. A principal delas se deu em Pernambuco, onde Maurício de Nassau organiza a ocupação. Nesta época, como em todas as épocas da escravidão no Brasil, existiam fugas de escravos e, quando bem sucedidas, a fundação de aldeias aos moldes africanos, livres da escravidão portuguesa. A maioria destas aldeias era chamada de “quilombos”. Entretanto, a existência de uma ou várias destas aldeias durante a invasão holandesa permitiu uma condição sui-generis, que não se repetiria depois: as aldeias cresceram, começaram a defender-se contra os portugueses, não somente com fugas – é constante nos livros de história de Palmares se contar às vezes em que populações inteiras de aldeias fugiam para lugares mais remotos, inclusive queimando tudo que tinha sobrado – mas também com incursões para invadir engenhos, libertar escravos e “adquirir” mercadorias necessárias (para os que pensam ser este um método de pilhagem, de roubo, só justificável porque eles estavam lutando contra a escravidão, é preciso lembrar que na história da humanidade o comércio sempre esteve ligado à pirataria, às invasões e aos roubos). Palmares fazia o que fazia qualquer comerciante (os gregos eram descritos como um povo mercador, piratas quando possível), comerciavam quando necessário, roubavam quando possível. Tradicionalmente, a maioria do comércio se fazia com tropeiros e com criadores de gado, que não empregavam mão de obra escrava e os roubos com os fazendeiros, onde a libertação de escravos coincidia com a pilhagem de bens e armas. As primeiras referências a Palmares, como um quilombo maior, datam do final do século XVI. A partir de 1630, com a invasão holandesa no nordeste o quilombo cresce de forma acelerada, inclusive porque os engenhos desorganizam-se e a guerra entre as duas potências favorece as fugas dos escravos. Durante a ocupação holandesa, Palmares podia e utilizava-se da divisão existente entre as duas potências em guerra para aumentar a pilhagem. É dessa época, provavelmente, a construção de um verdadeiro reino (ou república, segundo alguns historiadores) com autoridade constituída sobre as diferentes aldeias da região da serra. Alguns historiadores chegam a dizer que os negros eram mais “nobres” que os índios, que se aliavam aos portugueses. Em defesa dos índios, devemos lembrar que os que não eram “aliados” ou tinham fugido para o interior ou tinham sido simplesmente massacrados. Os sobreviventes naquela região eram então inevitavelmente os “aliados”. Um comentário – como nem os índios nem os negros deixaram qualquer história escrita, o que conhecemos é a tradução do que foi 41 escrito pelos (vencedores portugueses holandeses). lado, há um importante: capitalistas e vencidos, e Por outro elemento “Vale lembrar que era comum encontrar capitães-de-mato (encarregados de recapturar escravos fugidos) negros. Ou seja, nem sempre a cor da pele determinava de que lado a pessoa estava, pois, se havia brancos morando nos quilombos, também havia negros que lutavam contra os quilombolas. As relações com os índios também variavam: conforme a situação, os quilombolas tanto podiam ser aliados quanto adversários das comunidades indígenas que habitavam a região.” (Tulio Vilela) A partir da expulsão dos holandeses (1654), o Quilombo de Palmares volta a atrair a atenção dos senhores de engenho. A esta época o quilombo crescia de importância, provavelmente já tinha um comando militar centralizado, tinha povoações com 800 ou mais habitações. Estimase que em 1670 o quilombo tinha por volta Como nem os índios nem os negros deixaram qualquer história escrita, o que conhecemos é a tradução do que foi escrito pelos capitalistas (vencedores e vencidos, portugueses e holandeses) Estima-se que em 1670 o quilombo tinha por volta de 20 mil pessoas. (...) a maioria dos negros não tinha opção: ou continuava como escravo ou fugia, geralmente na direção de Palmares de 20 mil pessoas. Apesar da observação de Tulio Vilela, a maioria dos negros não tinha opção: ou continuava como escravo ou fugia, geralmente na direção de Palmares. Lembremos que como quem fez a história foram os vencedores, ou seja, não existiram documentos escritos dos próprios negros contando a sua historia, os seus governantes e heróis, a maioria das observações sobre o “reino” ou a “república” de Palmares são de difícil comprovação. Dizer que lá existiam escravos porque este era o modo de produção dominante na África ou dizer que lá conviviam em harmonia negros, brancos e índios, que não existia discriminação e que lá era o reino da liberdade, são especulações. É muito provável que as condições sejam assemelhadas às aldeias africanas de onde provinha a sua cultura. É pouco provável que existissem escravos, pois isso destruiria a sua principal fonte de riqueza, a fuga de escravos que vinham se fixar em Palmares. Harmonia com brancos e índios? Difícil de dizer. É preciso lembrar que existiam poucas negras e é provável que os negros, superiores aos índios em cultura e organização, fizessem expedições para capturar mulheres (como os romanos “raptaram” as sabinas, tais coisas eram normais durante os primeiros períodos da humanidade). O mais certo, entretanto, é que as informações são distorcidas pelo espelho dos colonizadores, espelho inclusive bastante inculto e que só tinha um olhar – como capturar os escravos de volta. O único testemunho convincente é o espanto dos moradores de Recife quando da embaixada que veio negociar a paz por Ganga Zumba2 – descritos como negros altivos, bem vestidos com peles, bem armados, nada parecidos com os índios andrajosos ou os escravos que estavam acostumados a tratar. As expedições contra Palmares revelavam a superioridade da cultura dos povos negros em relação aos indígenas – era mais fácil combater os indígenas que os 42 negros. Devido a recusa dos “combatentes” da época de lutar contra Palmares (principalmente os bandeirantes), inicia-se um período de negociação. Ganga Zumba aceita então um acordo que atendia a principal reivindicação dos senhores de engenho – a devolução dos escravos fugidos. Isto leva a uma divisão em Palmares, em que uma pequena minoria separa-se e forma uma aldeia sem escravos fugidos. As dissensões internas levam ao assassinato de Zumba e a destruição da aldeia pelos portugueses (1677-78). A resistência de Palmares continuou até 1695, quando uma ação maior – a expedição do bandeirante Domingos Jorge Velho, que contou até com canhões e milhares de homens – destruiu as principais vilas. Zumbi foi perseguido e morto. O quilombo, enquanto uma organização social que atraia escravos de todas as propriedades rurais, foi destruído. Os remanescentes e outros quilombos nunca mais atingiram o tamanho de Palmares. 200 anos se passariam até o fim oficial da escravidão. Da “falta de alma” ao racismo científico O século XIX abriu-se com a revolução burguesa na França (no final do sec. XVIII). No Brasil nós assistimos à revolta de Felipe dos Santos e posteriormente a Inconfidência Mineira. Nos EUA, a independência. As descobertas de Newton, os filósofos franceses, os trabalhos de Adam Smith, abriam um novo caminho em que a filosofia da igreja já não era a dominante. Era um progresso geral. Mas, esse que era o progresso, que era o mundo da “igualdade e fraternidade”, era o mundo burguês, onde a “liberdade” era, em ultima análise, a liberdade de comerciar, de vender e de comprar, onde a burguesia liberta os servos (e depois os escravos que ela mesmo tinha escravizado) para poder comerciar, comprar o seu trabalho “livre”. Na Inglaterra, na Europa, a burguesia “liberta” o homem da terra expulsando-o de suas aldeias e jogando-o em condições totalmente insalubres nas grandes cidades industriais que se abriam. Na África, para “libertar” os escravos e explorar as minas e as plantações, destroem-se os reinos negros existentes e tal qual os indígenas tinham sido massacrados na América, os negros são massacrados na África. E os que sobram passam de escravos e camponeses para as minas e as plantações, como assalariados, proletários, “escravos modernos”. Marx escreve que a burguesia produz seus próprios coveiros, os proletários. E a burguesia depressa percebe isso. Nasce então toda uma ideologia que visa impedir a unificação do proletariado como classe, que visa impedir que o proletariado tome o poder. Qual a melhor forma de se fazer isso? Dividindo, seja religiosamente, seja em “raças”. E nasce o racismo cientifico. Refletindo o tom vigente da época, em que se buscava “características” que identificassem os criminosos, Conan Doile, por exemplo, faz o seu famoso detetive 43 Sherloke Holmes medir o crânio de criminosos, o seu jeito, o seu andar para poder decidir quem tinha ou não cometido um crime. Já que os homens são também animais, animais “racionais”, podemos distinguir suas “raças” como distinguimos as raças caninas, de gatos ou de cavalos. “Determinadas raças são mais inteligentes” (e constróise uma serie de características para mostrar isso) e outras menos (e ai busca-se mostrar que o negro é superior fisicamente ao branco, ele tem uma característica animal superior, enquanto o branco tem o intelecto superior). Nos EUA, durante a construção das estradas de ferro “importa-se” a mão de obra da China, os “amarelos sujos” que trabalham como escravos. No mundo inteiro, o racismo é agora explicado cientificamente. Todos temos alma, todos viemos de Deus, apenas alguns foram mais dotados de cérebro, outros de músculos e outros de obediência (amarelos). Tudo bem explicado, agora é jogar Todos temos alma, (...) apenas alguns foram mais dotados de cérebro, outros de músculos e outros de obediência (...) agora é jogar brancos contra negros, negros contra amarelos e estamos todos conversados brancos contra negros, negros contra amarelos e estamos todos conversados. A lei áurea foi conquista e não dádiva A lei foi então o resultado da conquista dos negros, dos que fugiram, dos que construíram quilombos, da campanha abolicionista, das várias revoltas no período precedente No Brasil do Sec. XIX, quando a família real volta à Europa e a independência torna-se não uma guerra, como aconteceu em todos os países da América, mas uma dádiva – “façamos antes que outros a façam” – a transição para a libertação de escravos se faz de forma homeopática, sob pressão da Inglaterra segundo os livros de história e sob a guerra sem quartel que se abre nos campos, com as fugas e construção de quilombos se tornando a norma geral. Nas cidades, uma parcela dos negros que conquistaram a alforria junta-se a uma pequena-burguesia nascente e fazem a campanha abolicionista. Enquanto alguns são “legalistas” querendo e tentando mudar a lei ou aplicar leis parciais (lei do sexagenário, lei do ventre-livre) outros partem para a ação, ajudando as fugas e a construção de quilombos. A lei das terras vem justamente para expropriar estes quilombos e para impedir que os escravos tomassem as terras. Finalmente, quando a manutenção da escravatura se torna impossível, quando muitos dos escravos já estavam forros ou foragidos, o governo é forçado a decretar a lei áurea, a libertação de todos os escravos. A lei foi então o resultado da conquista dos negros, dos que fugiram, dos que construíram quilombos, da campanha abolicionista, das várias revoltas no período precedente (sabinada, cabanagem, revolta dos jangadeiros do Ceará etc). E tal qual passou para a história oficial que “quem derrubou Collor foi a rede globo que mudou de lado”, enquanto que foi resultado do povo nas ruas que derrubou o governo, também passou na história que foi a pressão da Inglaterra, da burguesia industrial nascente, a princesa boazinha que acabou com a escravatura. Elas existiram, mas quem se 44 libertou foram os próprios negros. O racismo no Brasil O fim legal da escravatura abriu um novo capitulo na exploração capitalista no Brasil. No campo, os negros eram expulsos ou transformados em colonos. Aonde podiam, tratavam de sair das fazendas e dirigir-se às cidades, que não tinham condições de transformá-los todos em proletários e passavam a constituir o “exercito industrial de reserva” que rebaixava o custo do trabalho. Daí surgem as concentrações de negros (ex-escravos) em bolsões de pobreza ao redor das grandes cidades, dando origem às favelas de hoje. A crise econômica que grassava no capitalismo mundial no final do sec. XIX abriu uma nova oportunidade: a imigração. Era justificada “cientificamente” pela necessidade de “embranquecimento da raça”, mas na verdade tratava-se de trazer para o Brasil o refugo que o capitalismo não conseguia absorver principalmente na Itália. Proletários e camponeses, estes expulsos de suas terras, eram atraídos com a promessa de terras que nunca receberam. Depois o conto foi repetido para os japoneses, quando as histórias de horrores dos imigrantes italianos fez secar o fluxo do final do sec. XIX e inicio do Sec. XX. Por outro lado, esta imigração trouxe algumas modernidades que marcaram o movimento operário e a própria burguesia. Do lado do movimento operário, trouxeram o anarquismo que se torna dominante no movimento. Do lado da burguesia, um ou outro, como Matarazzo, se tornaram ricos explorando seus compatriotas. O capital fincava seus pés no Brasil, importado da Europa e dos EUA e transforma o Brasil numa nação dominada, atrasada, em que o capital não nasceu do seu movimento próprio, mas da importação, do domínio do capital estrangeiro, imperialista, sobre a sociedade, gerando os capitalistas e os burgueses “nacionais”. No movimento operário, para se contrapor às ideologias “estrangeiras”, primeiro os anarquistas depois os “comunistas”, promulgam-se as leis que dizem que sindicatos só podem ser formados por “nacionais”, discriminase os italianos e japoneses em detrimento dos nacionais, majoritariamente negros. E, de outro lado, a cantilena de sempre que os negros eram inferiores, que os brancos devem dominar, etc. Apesar disso, o racismo não conseguiu penetrar profundamente na classe operária. Os líderes de greves e de grandes sindicatos eram e são negros. Ninguém se espantou quando um mulato se tornou o Presidente do PT ou quando um negro se tornou presidente da CUT. Mas é claro que o mulato se tornando Presidente do Brasil, todos querem esquecer que ele é mulato. Um negro na presidência do Brasil não teria tanta repercussão quanto um negro na presidência dos EUA, onde o racismo 45 foi e é parte da sociedade legal (somente em 1964, quando do movimento dos direitos civis, é que foi proibida que a investigação policial podia tomar como “indicio” e “prova” a raça da pessoa. Quarenta anos depois, sob a desculpa de combater o terrorismo, uma negra – Condolezza Rice oriunda das “cotas raciais” nas universidades, derruba esta conquista e restabelece esta regra odiosa). Mas, ao contrário dos EUA, da África do Sul, da Alemanha nazista, de Israel, onde o racismo era legal (e ainda é sob determinados aspectos nos EUA e totalmente em Israel e na Índia) o racismo nunca foi legal no Brasil, depois da abolição da escravidão. Então, como se manifesta o racismo, como combatê-lo? Imperialismo e racismo No século XX, o racismo científico aprimorou suas raízes. Elevado à categoria de sistema, foi a base do Nazismo, do fascismo dirigido contra os judeus, mas também contra os ciganos, os negros e os Ninguém se espantou quando um mulato se tornou o Presidente do PT (...). Mas é claro que o mulato se tornando Presidente do Brasil, todos querem esquecer que ele é mulato Mas, em qualquer batida policial, (...) se a cor de sua pele é mais escura, você é imediatamente tratado de forma mais brutal ou mais descuidada que um “branco” árabes. Estudos da origem do homem, de DNA, procuravam mostrar que os negros eram inferiores, que os árabes eram inferiores. E a derrota do nazismo, ao contrário de terminar com estes “estudos”, os fez aumentar. Nos EUA toda uma literatura, toda uma ideologia, toda uma coleção de estudos e pesquisas foi feito para mostrar que a raça branca é superior, que negros, latinos, amarelos, são raças “inferiores”, menos “qualificadas”, menos “desenvolvidas”. No Brasil estes estudos não fizeram tanto furor, mas o racismo se desenvolvia de formas bem mais “amenas”: “negro é sujo”, “negro fede”, “negro de alma branca”, “negros são legais, mas eu não casaria meu (minha) filho (a) com um”. Isto no trato social, buscando separar negros e brancos. Um escritor como Machado de Assis nunca se assume enquanto negro e nunca é celebrado como negro. Se um negro sobe de vida, vamos esquecer que ele é negro e tratá-lo como branco. O resultado social deste tipo de racismo é a desigualdade econômica, é o fato de impedir os negros de terem acesso a melhores empregos ou a postos de comando ou, quando isso acontece, pelo fato de não se declararem como negros, como mulatos, são classificados como “brancos”. Em termos gerais, a maioria da população brasileira é mestiça, de negros e brancos majoritariamente e minoritariamente (mas com uma forte presença) de índios. Os estudos genéticos feitos sobre a ascendência da população mostram que mesmo nos “negros” existem ancestrais “brancos” e “índios” e nos “loiros” existem ancestrais “negros” e “índios”. Mas, em qualquer batida policial, em qualquer hotel ou restaurante, se você é mais “moreninho”, se a cor de sua pele é mais escura, você é imediatamente tratado de forma mais brutal ou mais descuidada que um “branco”. Nas batidas policias se matam mais negros pobres que brancos 46 pobres. Então, o racismo, assim como o “sexicismo”, o tratamento diferenciado para mulheres, existe e se nota em cada ação e em cada momento do dia a dia. Um componente importante da revolução de 68 nos EUA, componente que já vinha do movimento contra a guerra do Vietnã, era a luta dos negros por direitos iguais. Essa luta foi vitoriosa, mas a condição social ainda era e é totalmente diferente. Negros são mais pobres. Quando o furacão Katrina atingiu New Orleans, mostrou-se a diferença – os brancos foram salvos primeiro e a TV mostrava os negros morrendo ou vagando desamparados pelas ruas inundadas. No Brasil, a maioria dos pobres é negra ou mulata. “Dividir para melhor dominar” O imperialismo inventou uma forma de evitar a revolta negra. De destruir os movimentos negros que tomavam o caminho em direção ao socialismo e poderiam com isso servir de vanguarda para toda a classe operária. A partir de uma das grandes empresas mundiais, de seu instrumento de pesquisa (a fundação Ford) inventou a “reparação”. Observemos que isso já é um segundo movimento da burguesia americana. Primeiro tentaram a construção da Libéria (devolver os negros para a África). Depois, durante os anos 50, a mítica África continuava a incendiar a imaginação dos negros. Quando eles assumiram a luta, quando se construiu o Partido dos Panteras Negras, então o imperialismo introduziu as drogas e a política de “reparação”. Os brancos, condoídos por terem escravizado e explorado os negros, dão aos pobres negros uma “outra chance”: cotas para universidades, cotas para melhores empregos, cotas para o serviço público. Em todos os locais, os negros continuavam discriminados, mas agora existia uma indústria e uma forma de “promovê-los”. Revistas para negros, shampoo para negros, cosméticos especiais para negros, remédios especiais para negros, pois existem doenças que são só de negros (derivação “boazinha” da raça científica negra). E como vamos reconhecer que alguém é negro ou não para ter acesso a tudo isso? Nos EUA é fácil – basta que você tenha uma característica negra e você é negro. Mas sempre sobram outras formas. O mulato que se tornou presidente (Lula) declara num debate sobre como reconhecer um negro: “critérios científicos”. Sim, o racismo científico tem mais raízes do que sonha a nossa vã filosofia. Na UnB, torna-se também fácil – pega uma foto e vê se é negro. O caso dos dois irmãos gêmeos, um declarado negro e outro branco, destrói este critério. Sobra a autodeclaração. E, para tal, inventa-se a carteira de identificação das raças, é elaborado um “estatuto da igualdade racial” que caracteriza todo mundo desde a infância se é branco ou negro, que exige que toda criança em escola seja branca ou negra, 47 que “inocentemente” reproduz a mesma forma de classificação e identificação do nazismo. E se alguém se recusar? Não pode se recusar, a lei o obrigará, é a institucionalização das raças. E todos os que dizem que isto é tampar o sol com a peneira, é criar a divisão no proletariado, são taxados de aliados dos racistas. Ironia! Os que aceitam os conceitos racistas de raça, são os “puros”, os “abnegados”, os que “batalham pela nossa raça”. E os que continuam combatendo os racistas são chamados de traidores. A única saída é aquela que os “senhores brancos”, o capital imperialista descobriu: “as cotas”. A única saída é dividir o proletariado e se juntar à burguesia imperialista, é se juntar à Fundação Ford. E existiria outra saída? Poderíamos talvez sugerir algumas: • Que tal proibir a policia de invadir casas na favela, metendo o pé na porta sem mandato judicial? • Que tal prender por racismo o governador que defende esta ação da polícia, que “polícia Os brancos (...) dão aos pobres negros (...) cotas (...). Em todos os locais, os negros continuavam discriminados, mas agora existia uma indústria e uma forma de “promovê-los” Que tal em vez de dar 150 bilhões para banqueiros e especuladores como foi feito agora, investir estes 150 bilhões na educação básica e no segundo grau? tem é que confrontar, que mulher de favela quando engravida produz bandido e deveria abortar”? • Que tal em vez de dar 150 bilhões para banqueiros e especuladores como foi feito agora, investir estes 150 bilhões na educação básica e no segundo grau? • Que tal pegar os 150 bilhões e construir casas decentes, ruas decentes, serviço público e de saúde para a maioria da população pobre que, “coincidentemente” é negra? Estas 4 coisas acabarão com o racismo? Não! Mas melhorarão a vida dos negros e negras pobres muito mais que qualquer cota em universidade! Claro está que deputados, os mesmos que aprovaram todos os pacotes que garantiram os 150 bilhões para especuladores e banqueiros, estes deputados preferiram aprovar a lei das cotas. Vejamos os benefícios que isso traz para a burguesia: • Nenhum centavo gasto, nenhum centavo da burguesia para os pobres, para os negros, para as negras. • Novos conflitos entre os explorados, entre brancos e negros pobres. • Cooptação de toda uma parte do movimento negro que deixa de defender “direitos iguais para todos” e passa a defender que alguns autodeclarados negros tenham acesso, enquanto a maioria continua a morrer na favela! Resolver os verdadeiros problemas, salvar os irmãos negros e negras que morrem a cada dia nas favelas, nada disso será feito. Mas a propaganda, a divisão, isto terá sido 48 feito. E não se gastou um centavo sequer. Isto sim é o remédio ideal para aqueles que querem manter a situação burguesia. E como para alguns, a cavalo dado não se olha os dentes, tudo está muito bom no quartel de Abrantes. A nós, aos negros pobres, aos proletários, sobra o combate pelo socialismo, o combate contra o racismo, a outra face desta moeda perversa que se chama capitalismo. Notas 1. Texto elaborado pela Coordenação Nacional do MNS em preparação á 4ª Reunião Nacional a ser realizada em 10 de maio de 2009. 2. Ganga Zumba e Zumbi, por analogia, provavelmente eram títulos da hierarquia da aldeia. Em varias línguas africanas existiam títulos semelhantes, para o chefe espiritual da aldeia e para o chefe militar. PAAIS A experiência de um programa de ação afirmativa na Unicamp Leandro Tessler, coordenador executivo da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) e professor associado do Departamento de Física Aplicada do IFGW e Renato Pedrosa, coordenador adjunto da Comvest e professor do Departamento de Matemática do IMECC A Constituição Federal estabelece, no artigo 207, o instituto da autonomia universitária: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.” Em seguida, no artigo 208, menciona o papel do Estado como ator fundamental para garantir o acesso à educação: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de (...) acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”. Esses dispositivos constitucionais colocam as seguintes questões para as universidades, principalmente para as públicas: 1) Como garantir que estão tendo acesso ao ensino superior candidatos segundo sua capacidade? 2) O que significa capacidade, nesse contexto? A resposta que a sociedade brasileira vem dando historicamente a essas demandas envolve um rito de passagem peculiar e único: o vestibular. Capacidade passou a ser sinônimo de (melhor) desempenho em baterias de provas elaboradas a partir dos conteúdos ministrados no ensino médio. Capacidade, assim construída, seria, então, aquela demonstrada pelo sucesso em avaliações elaboradas sobre aqueles conteúdos. Uma solução simples e objetiva, de fácil 49 aplicação e compreensão por parte da sociedade, das estruturas governamentais e das instituições de ensino em todos os níveis. De fato, essas características, associadas imediatamente aos conceitos de justiça e transparência (que alguns diriam são conceitos republicanos), constituem as principais razões para a perenidade e credibilidade dos vestibulares, em especial nas universidades públicas. Mesmo assim, havia, desde sempre, alguma desconfiança em relação à eficácia desse tipo de instrumento, uma vez que o principal objetivo do processo de seleção do corpo discente de uma universidade não deveria ser dar um prêmio pelo bom desempenho na vida estudantil pregressa, mas buscar os candidatos com melhores chances de se desenvolverem plenamente na vida É curioso que, até então, nenhuma IES brasileira tinha colocado em discussão como deveria ser seu processo seletivo, confiando cegamente na seleção através de provas que avaliavam conhecimento enciclopédico acumulado acadêmica universitária, que apresenta desafios e características muito diversos daqueles encontrados pelos jovens até aquele momento. Seria esse objetivo alcançado, direta e exclusivamente, pela via da aferição do conhecimento acumulado pelo candidato nos vestibulares? Mais recentemente, ao longo da última década, a partir da promulgação da LDB em 1996 e da evolução do conceito de conteúdo para incluir habilidades e competências, algumas novas experiências marcam o contexto nacional dos processos seletivos nas universidades. A Unicamp foi precursora desse processo quando passou a elaborar seu próprio vestibular a partir de 1987. Nesse momento, foram adotados princípios que incluem, de forma pioneira, a avaliação das habilidades e competências essenciais para o bom desenvolvimento de estudos universitários, indo muito além da mera verificação da aprendizagem acumulada. Isso ocorreu uma década antes da aprovação da LDB e foi o fruto de intensas discussões internas sobre o perfil do estudante desejado. É curioso que, até então, nenhuma IES brasileira tinha colocado em discussão como deveria ser seu processo seletivo, confiando cegamente na seleção através de provas que avaliavam conhecimento enciclopédico acumulado. Com a formulação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e de seus sucessores (PCN+ e Orientações Curriculares, disponíveis na página eletrônica do MEC) vários vestibulares passaram a incluir essa visão mais abrangente da avaliação dos candidatos em seus processos seletivos. Neste universo vale a pena mencionar a UnB, a UFRJ, a UERJ, a UFMG e mais recentemente a USP. Além dessas questões essencialmente acadêmicas, iniciou-se, ao final da década de 1990, a discussão sobre equidade no acesso ao ensino superior no país. Estudos e conseqüentes questionamentos 50 surgiram, propondo que o sistema de seleção adotado pelas universidades brasileiras seria excludente, no sentido de que privilegiaria o extrato social com maior acesso a formas de treinamento para os vestibulares, inacessíveis aos candidatos oriundos de famílias em desvantagem sócioeconômica. Essa constatação, verdadeira em seu sentido estrito, levou muitos comentaristas a extrapolar e dizer que “os ricos vão para as melhores universidades públicas, os pobres têm que pagar para estudar em instituições privadas de pior qualidade”. Esse mito se perpetuou após ser repetido constantemente na imprensa, escrita e falada. De fato, se há pobres no ensino superior no Brasil, eles estão nas instituições públicas. Mas também é fato que, principalmente em cursos com grande demanda social, a seleção mediante o vestibular apresenta uma forte correlação com as condições sócioeconômicas dos candidatos. No início da presente década, no rastro da conferência de Durban contra o racismo em 2001, surgiram propostas visando ampliar a participação de segmentos desfavorecidos na educação superior. As primeiras propostas foram fortemente apoiadas por setores do movimento negro e criavam cotas (reservas de vagas) para candidatos que estudaram nas redes públicas de educação básica, incluindo, em geral, recortes étnicos/ raciais/cor de pele. (Utilizamos aqui essas expressões, mesmo considerando a polêmica em torno da existência de raças, de acordo com a genética e a antropologia). Foi muito citado nessa época o caso dos Estados Unidos, onde supostamente uma política de cotas trouxe grandes benefícios sociais para a população negra. O equívoco ainda hoje propalado pela imprensa é que os Estados Unidos têm até hoje programas de cotas não só no acesso à universidade, mas também a postos no setor produtivo. Ledo engano. Se, por um lado os Estados Unidos têm programas de ação afirmativa bastante agressivos, por outro, cotas para o ingresso na universidade foram declaradas inconstitucionais em um julgamento pela Suprema Corte em 1976. Atualmente raça/cor pode ser um dos parâmetros considerados nas admissões, mas não pode haver uma reserva de vagas para qualquer grupo que seja. Outra decisão em 2003 determinou que bônus para qualquer grupo não podem ser utilizados de forma indiscriminada em processos seletivos, mas o quesito raça/cor continua podendo ser usado entre os critérios de seleção. A lógica por trás das propostas de cotas é simples: a formação superior é uma condição importante para o sucesso no mercado de trabalho, portanto, para a ascensão socioeconômica dos que dela se beneficiam. Garantir a admissão de representantes de grupos socialmente desfavorecidos à universidade seria uma forma de atacar a crônica desigualdade 51 social no país. Um olhar um pouco mais cuidadoso sobre a educação superior no Brasil indica que, se esse nível de formação é realmente impactante para o desenvolvimento pessoal (e do país), então o sistema de cotas é apenas um sistema de soma zero: trocamos as pessoas que terão acesso a esse bem social, uma vez que a abrangência da educação superior no Brasil era (no início da década), e ainda é, bastante restrita. Apenas 9% da população adulta completaram um curso superior e apenas 13% dos jovens adultos (18 a 24 anos) estão matriculados em cursos superiores no país (PNAD, IBGE, 2007). Destes, apenas 25% estão cursando IES públicas. Ora, trocar 10 ou 20% dos participantes do processo por outros 10 ou 20% (essencialmente o efeito das cotas, se 50% das vagas fossem reservadas para estudantes da rede pública nas IES públicas) não é algo que tenha um significado social muito grande, ainda mais se 80% dos jovens continuam fora do Garantir a admissão de representantes de grupos socialmente desfavorecidos à universidade seria uma forma de atacar a crônica desigualdade social no país Desde que o quesito raça/cor foi introduzido no questionário socioeconômico em 2003, a proporção de (autodeclarados) pretos e pardos mantinha-se praticamente igual sistema, certamente os mais carentes entre eles. Cumpre observar que a única forma real de ampliação do acesso da população à educação superior é o desenvolvimento de um sistema público amplo, diferenciado, seguindo os moldes de países que já atingiram taxas de participação acima de 30% da população na faixa etária apropriada (incluindo alguns considerados “emergentes”, como o Brasil). Alguns passos importantes vêm sendo dados tanto na esfera estadual (ampliação das FATECs) quanto na federal (ampliação da rede de IFETs), mas isso é assunto (polêmico) para outro artigo. As primeiras IES brasileiras com processos de ação afirmativa adotaram cotas para escola pública e cotas étnicas por força de leis estaduais. Foram elas a UEMS, a UERJ e a UENF. A imposição de um sistema de cotas por via de legislação estadual ou federal encontra oposição por parte da comunidade acadêmica. Não se pode esquecer que a autonomia universitária está garantida na Constituição e inclui o processo de seleção de estudantes. A grande maioria das IES com ação afirmativa em seus processos seletivos os adotou por decisão autônoma de seus conselhos superiores. No período de 2003 a 2004 o Conselho Universitário da Unicamp nomeou uma comissão para estudar formas de ação afirmativa para o Vestibular Nacional. Essa comissão trabalhou norteada por três valores fundamentais: a inclusão social, o mérito acadêmico e a autonomia universitária. Note-se que o Vestibular Nacional já era um processo não excludente, no sentido em que preservava grosso modo a proporção de inscritos oriundos de escolas públicas entre os matriculados. Historicamente cerca de 30% dos inscritos são oriundos de escolas públicas. Essa proporção é em geral a mesma entre os matriculados. Mas em vários programas, a participação desse segmento era baixa, em particular nos mais concorridos. Da mesma forma, 52 desde que o quesito raça/cor foi introduzido no questionário socioeconômico em 2003, a proporção de (autodeclarados) pretos e pardos mantinha-se praticamente igual. A questão que se colocava na época era se seria possível melhorar a qualificação dos estudantes da Unicamp através de um processo da ação afirmativa. Para isso foram levados em conta os seguintes aspectos importantes: 1. O Vestibular Nacional, assim como qualquer processo de mensuração, não tem precisão infinita. Podemos dizer que um candidato com 501 pontos tem mais mérito que um com 500 pontos? E que um com 450 pontos? Assim, uma vez determinada a faixa em que todos têm desempenho semelhante, podemos selecionar aqueles que têm um potencial maior (se for possível determinar esse grupo). 2. Um estudo estatístico1 do desempenho de 4 gerações de estudantes da Unicamp (ingressantes entre 1994 e 1997) mostrou que ter estudado em escola pública é um fator que influencia positivamente o desempenho acadêmico. Se dois candidatos têm a mesma pontuação no vestibular, um oriundo de escola pública e um de escola particular, o que veio de escola pública terá tido, em média, um desempenho acadêmico melhor que seu colega ao se formar. 3. Estudar em um meio com diversidade, cultural, social e étnica, proporciona a oportunidade de uma formação mais completa de todos os estudantes, para a vida num planeta cada vez mais interligado e integrado. Ao incentivar a inclusão social e étnica de seu corpo discente, toda a universidade se beneficia do processo. 4. O sistema foi amplamente debatido e finalmente aprovado no interior da própria universidade. Assim o sistema tem uma legitimidade importante para os corpos docente, discente e de funcionários. Isso é fundamental do ponto de vista de autonomia universitária e para que todos estejam engajados para garantir seu sucesso. O resultado disso foi o Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (PAAIS) da Unicamp. O programa consiste em um conjunto de iniciativas, sendo a mais importante a adição de 30 pontos aos candidatos oriundos de escolas públicas e mais 10 para aqueles, desse grupo, que se declararem pretos, pardos ou indígenas. A proposta aprovada ainda dobrou o programa de isenção da taxa de inscrição e expandiu fortemente o processo de assistência estudantil para garantir a permanência dos beneficiados. O PAAIS foi aplicado pela primeira vez no Vestibular Nacional de 2005. Desde então ele vem apresentando resultados sociais e acadêmicos acima do esperado inicialmente. No primeiro ano de aplicação o percentual de egressos de escola pública matriculados na Unicamp bateu seu recorde histórico, 34,1%. Em Medicina, o curso mais concorrido da Unicamp foram 30,4%, comparado com a média histórica de 10%. Estudantes que se declararam pretos e pardos chegaram a 15,1% na Unicamp, 14,5% na Medicina. Note que os 53 números de pretos e pardos já estão acima dos preconizados pelo projeto de lei de cotas que tramita agora no Senado. Os beneficiados pelo PAAIS não apenas melhoraram seu desempenho em relação ao Vestibular. Na maior parte dos cursos da Unicamp eles apresentam desempenho acadêmico (medido pelo coeficiente de rendimento) superior aos demais estudantes. Eles também têm menor taxa de abandono de disciplinas. Depois do PAAIS, a Unicamp tornou-se uma instituição mais diversa, mais plural e mais inclusiva. Também, confirmando o estudo mencionado acima sobre os estudantes na década de 1990, aprimorou-se o processo de seleção do corpo discente no sentido de que aqueles com verdadeiro potencial para a formação universitária, mas com desvantagem na formação básica, agora teriam sua chance. A Unicamp mostrou que é possível aliar inclusão social e desempenho acadêmico dentro de um projeto que tem Estudar em um meio com diversidade, cultural, social e étnica, proporciona a oportunidade de uma formação mais completa de todos os estudantes, para a vida num planeta cada vez mais interligado e integrado Estabelecer um modelo único de ação afirmativa por cotas por meio de legislação(...) é um equívoco tão primário quanto acreditar que é possível prover educação superior a toda população com um modelo único de universidade legitimidade perante a comunidade. Depois do PAAIS várias IES adotaram processos de ação afirmativa sem cotas. Citamos aqui a UFRN, UFF, a UFPE/UFRPE, a USP e a UFMG entre outras. Em todas essas instituições, o programa de ação afirmativa resultou de longas discussões internas. Estabelecer um modelo único de ação afirmativa por cotas por meio de legislação, como foi aprovado na Câmara dos Deputados e será agora discutido no Senado, é um equívoco tão primário quanto acreditar que é possível prover educação superior a toda população com um modelo único de universidade. Mais grave é o número proposto, de 50% para escola pública, independentemente da demanda. O princípio que rege o Artigo 208 da Constituição Federal não condiz com a meta de atingir 50% dos matriculados para uma demanda de 30% de candidatos oriundos da rede pública. Em alguns cursos, pois a lei especifica cursos, não a matrícula geral, estaríamos falando de demandas em torno de 10%, 15% ou 20%. Acreditamos que propor metas e objetivos de inclusão e incentivar, de diversas maneiras, as universidades a atingi-los condiz mais claramente com a autonomia e com o papel fundamental que as universidades públicas desempenham para o país. Com o PAAIS a Unicamp mais uma vez mostrou que, quando se aborda um problema com seriedade e criatividade, é possível encontrar soluções mais adequadas do que se imaginava inicialmente. Ao longo da nossa história, várias leis foram promulgadas para acabar com as desigualdades sociais, sempre com os objetivos mais nobres. Poucas 54 tiveram resultados práticos. Instituir, por via legal, um sistema de reserva de vagas - as cotas - parece-nos uma solução fácil e distorcida para buscar resolver o grave problema da desigualdade educacional brasileira, cuja principal origem está no atraso da educação básica e na restrita abrangência do sistema público de ensino superior. Perversamente, a imprensa brasileira passou a confundir cotas com ação afirmativa. É preciso deixar claro que há outras formas de se atingir os mesmo objetivos, preservando a autonomia e a excelência acadêmica das universidades públicas brasileiras. Notas 1. “Academic performance, students’ background and affirmative action at a Brazilian university”, R.H.L. Pedrosa et al, Higher Education Management and Policy, Paris, OECD/IMHE, vol. 19, n. 3, 2007. ARTE DO LEITOR Família Por: Luciane Gardesani 55 56