ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS - AMB ANO XV NÚMERO 73 BRASÍLIA, MARÇO A ABRIL DE 2004 J MAGISTRADO O R N A L D O O golpe visto por dentro Depoimentos de quem viveu o 31 de março em Brasília CORREIOS Prezados colegas: SCN Quadra 02, bloco D, torre B, sala 1302 Shopping center Liberty Mall Brasília – DF CEP 70712-903 Tel.: 61 328 0166 Fax: 61 328 9790 Internet: http://www.amb.com.br e-mail: [email protected] Presidente Cláudio Baldino Maciel – Ajuris (RS) Secretário-geral Guinther Spode – Ajuris (RS) Secretário-geral adjunto Alexandre Aronne de Abreu Diretor-tesoureiro Ronaldo Adi Castro da Silva – Ajuris (RS) Assessores: Nelo Ricardo Presser – Ajuris (RS) Ricardo Gehling – Amatra IV (RS) Vice-presidentes Cláudio Augusto Montalvão das Neves – Amepa (PA) Douglas Alencar Rodrigues – Amatra X (DF) Guilherme Newton do Monte Pinto – Amam (RN) Gustavo Tadeu Alkmim – Amatra I (RJ) Heraldo de Oliveira Silva – Apamagis (MG) Joaquim Herculano Rodrigues – Amagis (MG) Jorge Wagih Massad – Amapar (PR) Luiz Gonzaga Mendes Marques – Amamsul (MS) Roberto Lemos dos Santos Filho – Ajufesp (SP) Sônia Maria Amaral Fernandes Ribeiro – Amma (MA) Thiago Ribas Filho – Amaerj (RJ) O golpe militar de 1964 é um dos mais nefastos episódios da história recente de nosso País. As instituições democráticas do povo brasileiro foram covardemente violadas para que se instaurasse o inferno. O autoritarismo, a violência, as perseguições, o desmando, a tortura passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Agora, é nosso dever manter viva esta memória, como maneira de contribuir para afastar de vez a mais mínima possibilidade de que voltemos a viver sob o regime de exceção. Nesta edição, o Jornal do Magistrado revela os bastidores daqueles dias, há 40 anos, em que o poder foi usurpado. A partir de depoimentos exclusivos de quem viveu por dentro aqueles dramáticos momentos, reconstituímos as últimas horas do governo de João Goulart e a passagem do poder para os conspiradores. Por sorte, a realidade hoje é outra, embora alguns de nossos políticos carreguem ainda a marca do autoritarismo e do despotismo. Logo eles, que sofreram na carne esse veneno. Era durante a ditadura, aliás, que se discutia o controle externo do Judiciário e arbitrariedades como a demissão ou a remoção de juízes pela vontade dos militares. Era uma época em que dava cadeia falar em Democracia ou Direitos Humanos. Acobertadas por anos e anos, práticas como o uso de mão-de-obra escrava sobrevivem até hoje e não parece haver a disposição necessária para a sua erradicação, ainda que o discurso seja bonito. Chegar aos rincões mais remotos do País para levar Justiça e Cidadania não parece ser algo tão difícil assim, como mostra a juíza Sueli Pini, do Amapá, acostumada a dormir em rede e a passar dias tendo uma rudimentar embarcação como casa e local de trabalho com a única intenção de levar o Estado Democrático e de Direito às comunidades perdidas na Floresta Amazônica. A juíza Sueli Pini é um exemplo de aproximação do Judiciário com a sociedade. A distância entre nós e a população à qual servimos só contribui para que o Judiciário seja visto como algo distante e inacessível, como conta a diretora do Ibope, Márcia Cavallari, nossa entrevistada desta edição. Os dados trazidos por Márcia estão em pesquisa qualitativa encomendada ao instituto pela AMB. As informações ainda estão sendo compiladas e logo teremos um relatório completo, que nos ajudará a aprimorar nossa estratégia de comunicação. Boa leitura e até breve. Coordenador da Justiça Estadual Rodrigo Tolentino de Carvalho Collaço – AMC (SC) Cláudio Baldino Maciel Coordenador da Justiça Federal José Paulo Baltazar Júnior – Justiça Federal (RS) Coordenador da Justiça do Trabalho Hugo Cavalcanti. - (Amatra VI) Coordenador da Justiça Militar Carlos Augusto C. de Moraes Rego – Amajum (DF) Especiais Coordenador dos Aposentados Cássio Gonçalves – Amatra III (RJ) Conselho Fiscal João Pinheiro de Souza – Amab (BA) Jomar Ricardo Saunders Fernandes – Amazon (AM) Wellington da Costa Citty – Amages (ES) J O R N A L D O MAGISTRADO É uma publicação da Diretoria de Comunicação Social da AMB Edição Warner Bento Filho – Assessoria de Comunicação da AMB Tel: 61 328 0247 e-mail: [email protected] Colaboraram nesta edição Letícia Capobianco, Lourenço Flores, Davi Brasil Simões Pires, Gisele Teixeira, Ronaldo Brasiliense, Francisco Reis e Danilo Chaib Diagramação TDA Desenho & Arte . www.tdabrasil.com.br Capa Nerione Nunes Cardoso e Paulo Affonso Martins de Oliveira, que ocupavam postos estratégicos no Congresso Nacional em 1964, fotografados por Cacalos Garrastazu Tiragem 16 mil As matérias assinadas são de responsabilidade dos seus autores. A reprodução é permitida desde que citada a fonte. Falta orçamento para combater trabalho escravo Página 8 Argumentos que enfraquecem o controle externo Página 22 Seções Entrevista: Márcia Cavallari Página 4 Perfil: Sueli Pini Página 6 Estante: Yossel Rakover dirige-se a Deus, de Zvi Kolitz Página 13 Memória: Os 40 anos do golpe militar Página 14 Sessão Especial: A vidad de David Gale Página 21 Artes: Heitor Villa-Lobos Página 24 Artigo: Joaquim Falcão Página 26 JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 3 Entrevista Márcia Cavallari Pesquisa recente encomendada pela AMB ao Ibope revelou, entre outras coisas, uma grande desinformação da sociedade a respeito do trabalho dos juízes e do poder Judiciário. O estudo, ainda em fase de conclusão, foi apresentado pela diretora do instituto, Márcia Cavallari, em seminário realizado em Brasília, na sede da AMB. Já é possível saber, por exemplo, que os magistrados precisam se comunicar melhor com a comunidade: “Qualquer ação que o juiz fizer no sentido de se aproximar da sociedade é positiva”, aconselha a diretora. À frente do Ibope Opinião desde 1991, Márcia Cavallari é doutora em Estatística pela Universidade de São Paulo e mestre em Ciências Políticas, com concentração em pesquisa de opinião pública, pela Universidade de Connecticut (EUA). Ela conversou com o Jornal do Magistrado em sua passagem por Brasília. Jornal do Magistrado - Chama a atenção o fato de que a imagem do juiz é melhor que a do Judiciário. Como se explica isso? Márcia Cavallari – O Judiciário é uma instituição, uma coisa distante, um poder. As pessoas não têm acesso. Elas têm acesso à instituição via um juiz. Quando você faz a personificação do poder Judiciário na figura do juiz, ele acaba tendo uma imagem mais favorável que a do poder Judiciário. Mas isso não acontece sempre em todas as esferas de governo. Hoje, por exemplo, você vê numa pesquisa quantitativa que o Congresso Nacional tem mais credibilidade do que quando se pergunta a credibilidade de deputados e senadores. O Congresso como instituição tem credibilidade melhor. No Poder Judiciário se dá o inverso. A imagem é formada a partir das opiniões que as pessoas ouvem, do que elas vêem na televisão, nos jornais, ouvem nos rádios, do que se comenta. Ela vai formando a imagem e a imagem do juiz é a de uma pessoa que estudou, é uma pessoa culta, que sabe das coisas, que tem visão. Então ela acaba tendo uma visão muito mais positiva do juiz. Por outro lado, a imagem que a instituição poder Judiciário passa é que os processos demoram, que tem uma burocracia muito grande, que as coisas não andam, ficam emperradas. Esta imagem do Judiciário pode estar ligada à falta de comunicação ou à falta de transparência de alguma maneira? – Na verdade, o que acontece é que a opinião pública forma as imagens com as informações que ela recebe. Se não tem informação, de uma maneira sistemática, organizada, estratégica, a imagem vai sendo formada com as informações que são colocadas seja na mídia, seja no dia-a-dia das pessoas, na experiência pessoal de cada um, das maneiras 4 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO Foto: Cacalos Garrastazu “Quanto mais comunicação, melhor” mais díspares possíveis. Ela vai montando com fatos isolados, com experiências isoladas e, com o pouco desses fatos e dessas experiências que ela tem, ela acaba formando uma imagem. Para fazer um trabalho de reversão da imagem, é preciso fazer uma comunicação mais sistemática, fazer uma comunicação mais estratégica, passar mais informação, dar mais transparência. Tendo mais informação, ela consegue discernir um fato isolado. Se ela tem uma informação sólida, consistente, não é qualquer fato isolado que aconteça que vai abalar a imagem que ela tem da instituição. Então, quanto mais comunicação tiver, de uma maneira direta, clara, com uma linguagem acessível, que permita às pessoas entender e saber como funcionam as coisas dentro do judiciário, melhor será para a imagem. O juiz tem mais credibilidade que categorias como advogados, policiais, políticos. É possível comparar também a imagem do judiciário com os outros poderes? – Não, esta não é uma pesquisa quantitativa, que represente a opinião pública como um todo. Ela levanta elementos. No momento das discussões dos grupos de pesquisa, eles diziam que a corrupção existe em todas as atividades e esferas no Brasil. Ela está disseminada no país como um todo. Então, o que a gente descobriu é que no juiz também existe essa percepção. Apesar de ele ter uma imagem melhor que a do judiciário, também existe uma percepção de que ele é subornável, que ele sentencia de acordo com subornos, com os interesses pessoais e particulares. O que a gente quis saber ali naquele momento é se os juízes teriam imagem de ser mais ou menos corruptos que outras atividades que foram identificadas com corrupção, que foram políticos, advogados, fiscais, delegados. Estas atividades foram levantadas como as que têm mais corrupção. E o juiz, em relação a essas O cidadão nunca conversa com um juiz. Ele só conversa com o juiz via um advogado. Existe um distanciamento natural. Nos outros poderes, ele conversa diretamente com o deputado, com o vereador, com o prefeito da sua cidade conversa diretamente com o deputado, com o vereador, com o prefeito da sua cidade. E outra coisa: no Legislativo e no Executivo eles votam nas pessoas. Eles sabem quem é quem. No Judiciário não. Quais são os nomes que estão no Judiciário? Não são pessoas que foram eleitas por eles. Então nem de nome sequer eles conhecem. É um distanciamento muito grande. E os que têm a experiência de ter participado de um processo, de algum julgamento, também sentem que o juiz é um ser acima de todos, que tem uma maior cultura, maior educação, melhor nível. E a pessoa se sente inferiorizada, já que a grande maioria da população brasileira é de instrução mais baixa. Isso também já impõe uma certa distância pela própria diferença da condição. É possível um juiz lá do interior fazer algo para melhorar esta imagem? Que ferramentas ele poderia usar? atividades, é mais, menos ou igualmente corrupto? Nessa comparação, o nível de corrupção dos juízes ficou menor do que nas outras atividades. A sociedade sente falta de mais informações sobre o trabalho dos juízes e do Judiciário? – De uma maneira geral, há uma desinformação muito grande sobre como funciona o poder Judiciário, como é sua estrutura, como é sua organização, quem manda em quem, como é operado o dia-a-dia dessa hierarquia. Falta muita informação. Sabe-se, por exemplo, que o desembargador é o cargo mais alto dentro do poder Judiciário. Mas ninguém sabe muito bem o que ele faz. Alguns atribuem ao desembargador apenas atividades administrativas. Acham que ele só administra o tribunal. Eles percebem o poder Judiciário como uma caixa preta que ninguém sabe direito o que acontece lá dentro, como funciona, quantos processos existem, quantos juízes são para julgar. Sabem que o número de processos é infinito, mas não conhecem o número de juízes. Falta informação sobre a estruturação do poder Judiciário. Faltaria uma aproximação do Judiciário com a sociedade? – Primeiro falta informação de como entender. Num segundo momento, falta essa aproximação, porque o Judiciário também é visto como uma instância à qual o cidadão pode recorrer quando tem necessidade, mas ao mesmo tempo ele se sente muito distante dessa instância. Por uma série de razões: o cidadão nunca conversa com um juiz. Ele só conversa com o juiz via um advogado. Existe um distanciamento natural. Nos outros poderes, ele – Esta pesquisa qualitativa nós fizemos em São Paulo, Rio, Recife e Porto Alegre – grandes centros. Nestes grandes centros a distância na relação cidadão-juiz é maior ainda. Imagina-se que numa cidade menor a relação seja mais próxima. Numa cidadezinha sabese que o juiz mora ali, é o fulano de tal. É mais próximo. Agora, de toda forma, qualquer ação que o juiz faça no sentido de se aproximar da sociedade é positiva. E as pessoas ficam mesmo querendo saber como é, o que fazem, como funciona. Quanto mais proximidade tiver, mais conhecimento tiver sobre isso, melhor ainda. O rádio é um meio de comunicação bastante utilizado no interior. Principalmente nas camadas mais baixas. É um veículo bastante utilizado para conduzir informação e poderia sim ser usado para a melhorar a comunicação com a população, talvez com programas em que o juiz se dispõe a responder às dúvidas da população. Ações assim aproximariam o juiz da sociedade, assim como ajudariam a entender melhor como é o sistema do poder Judiciário, como funciona esta instituição. Esse distanciamento aparece em todos os grupos, em todas as classes. Até faz parte, porque o poder Judiciário decide. As classes mais baixas revelam também uma sensação de medo. Nas mais altas sentem uma sensação de distância mesmo. Acaba virando uma insegurança na população em relação ao poder Judiciário. É aquele confiar desconfiando. Pela sua experiência, como você avaliaria a situação? – O mais recomendável seria fazer uma pesquisa quantitativa. Nas discussões em grupo, o que se percebe são opiniões difusas. Não há um consenso. Numa próxima etapa, poderíamos aplicar uma pesquisa quantitativa na população como um todo e daí fazermos perguntas específicas e verificar o grau de concordância ou não com cada uma delas. O Brasil passa por uma crise de instituições, de uma maneira geral, com exceção da Igreja Católica e das Forças Armadas, que são as com maior credibilidade. Em geral, uma acaba contaminando a outra. Como o clima da opinião está de baixa, seria difícil avaliar. Numa pesquisa quantitativa talvez a gente conseguisse hierarquizar essa percepção. Será um trabalho para mais adiante. JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 5 Perfil Sueli Pini A Justiça vai aonde o povo está A juíza Sueli Pini não vê obstáculos para levar Justiça aos lugares mais inacessíveis da Floresta Amazônica do Amapá. “Já me acostumei a dormir em rede”, conta a magistrada, que uma vez a cada dois meses desce de barco os rios da região para dar continuidade ao trabalho que vem servindo de exemplo até no exterior. Sueli Pini: barco vira sala de audiências e aproxima a Justiça da população Ronaldo Brasiliense* R ecém-formada em Direito, foi com um diploma na mão e uma idéia na cabeça – a Justiça tem de ir onde o povo está – que a advogada Sueli Pereira Pini, 42 anos, iniciou uma carreira no Poder Judiciário que vem servindo de exemplo em todas as regiões do Brasil e, até mesmo, no exterior. Hoje juíza de Direito, coordenadora do Juizado Especial Central Cível e Criminal da Comarca de Macapá, no Amapá, Sueli Pini tem conseguido levar Justiça aos mais distantes rincões do território amapaense, um dos mais pobres da Federação. Há alguns dias, ela despachava em uma modesta sala de aula num dos bairros mais pobres de Macapá, sentada à mesa da professora e atendendo a todos os que clamavam por Justiça sem burocracia. “Criamos um sistema que não existe em nenhum lugar do mundo”, afirma a magistrada. Com efeito, não há nada parecido ao que vem sendo executado pelo juizado comandado por Sueli Pini. Em alguns casos, a Justiça segue de barco, singrando o gigantesco rio Amazonas e seus afluentes, atendendo as populações ribeirinhas do Amapá, onde por muitos anos o Poder Judiciário não se fez presente. Um dos portos onde a Justiça Itinerante implantada com sucesso pela juíza Sueli Pini mais tem se instalado, nos últimos anos, fica no distante arquipélago do Bailique, um conjunto de ilhas localizado a oito horas de barco de Macapá. “No Bailique, criamos novos meios de acesso do cidadão à Justiça”, recorda Sueli Pini. Na primeira vez que visitou o arquipélago, um dos mais pobres da região, constatou que a maioria da população não tinha acesso aos mais básicos direitos de todo cidadão. “Muitos moradores do Bailique não tinham sequer certidão de nascimento”, lembra. “Era como se estivéssemos na idade média”, compara. O barco da Justiça Itinerante implantada pela juíza Sueli Pini hoje é referência em todo o território amapaense. Comandando o trabalho de uma equipe de cinco juízes, Sueli Pini implantou um sistema rápido e eficiente para resolver os problemas legais dos moradores da cidade e das comunidades ribeirinhas. “Consolidamos um modelo de Justiça que está servindo de exemplo para todos os juizados do País”, comemora, destacando o fato de que a experiência dos juizados itinerantes já mereceu referência em publicações do Japão, da Alemanha e até mesmo na Austrália. O sistema foi criado em 1996, logo após a edição da Lei 9699, regulamentando o 6 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO artigo da Constituição Federal que criou os juizados especiais cíveis e criminais. O sistema amapaense idealizado e posto em prática por Sueli Pini e sua equipe é constituído do Juizado Especial Criminal, que atua na solução de pequenos casos de furtos e roubos; do Juizado Especial Cível, expedindo registros de nascimento, de casamento, o reconhecimento de paternidade, etc; o Juizado Itinerante Fluvial, que age no atendimento às populações ribeirinhas que vivem às margens do rio Amazonas e seus afluentes; além do Juizado Itinerante Terrestre, atuando nos bairros da periferia de Macapá, a capital, e do Juizado Volante, que resolves questões relacionadas a danos em acidentes de automóvel. Os bairros da periferia de Macapá, onde predomina a pobreza, hoje são atendidos pelo Juizado Itinerante Terrestre montado pela juíza Sueli Pini. Três vezes por semana, um ônibus equipado com ar refrigerado e computador, encomendado especialmente para servir de sala de audiência móvel, atende à população de baixa renda que de outra forma dificilmente teria acesso ao Judiciário. O ônibus se instala na vizinhança de um ponto de referência do bairro visitado - geralmente uma escola pública ou igreja - e, numa primeira viagem, os funcionários do juizado recolhem os pedidos e os registros de queixa da comunidade. Numa visita posterior, o juiz promove, dentro do ônibus, as sessões de conciliação. Um sistema semelhante ocorre no atendimento às comunidades ribeirinhas de Macapá, com a criação, pela juíza Sueli Pini, do Juizado Itinerante Fluvial, implantado num barco - batizado de “Tribuna”- adquirido graças ao apoio financeiro da Fundação Banco do Fotos: Arquivo pessoal Brasil. Segundo a magistrada, o juizado fluvial navega em média 200 quilômetros pelo rio Amazonas durante uma semana a cada dois meses. “Já me acostumei a dormir em rede e adoro a comida regional amazônica, como o pato no tucupi e a maniçoba”, afirma Sueli Pini, revelando que a Justiça amapaense conseguiu ao longo dos últimos nove anos levar a essas comunidades carentes outros serviços públicos e até organizações não governamentais e entidades ligadas à Igreja Católica, como a Pastoral da Criança, que tem sido de fundamental importância na redução da mortalidade infantil nas regiões mais carentes do Brasil. Além da juíza, o barco da Justiça Itinerante leva a bordo um escrivão – que faz o registro das crianças - e um policial militar, caso seja preciso levar alguém preso para Macapá. O juiz tem competência para efetuar casamentos, divórcios, decidir pela guarda de menores, estabelecer pensão de alimentos e resolver problemas de vizinhança, além de atuar na cobrança de pequenas dívidas. Sueli Pini também fala com entusiasmo do Juizado Volante, outra cria sua. Com investimentos próprios, o Judiciário amapaense equipou uma perua Besta, onde foi instalada uma pequena mesa equipada com um moderno notebook. O veículo é acionado toda vez que acontece um acidente de trânsito em Macapá sem feridos ou vítimas fatais. O juiz que atua no Juizado Volante intercede junto às partes no próprio local do acidente na busca de um acordo sobre os danos materiais. “Pelo menos 90% dos casos terminam em conciliação, deixando de se transformar em ações com custos para o Estado”, garante Sueli Pini, que também introduziu um sistema de prestação de serviço na comunidade para cumprimento de penas. Hoje, seis condenados por delitos de trânsito trabalham no juizado. Outros são enviados para ajudar em escolas, instituições beneficentes e hospitais. Um convênio recente com o Centro de Estudos Superiores do Amapá criou o Juizado Especial Cível Descentralizado, que funciona na faculdade de Direito e conta com a participação dos estudantes como mediadores das ações. A marcante atuação da juíza Sueli Pini no Amapá lhe valeu reconhecimento nacional, com sua eleição para a presidência do Fórum Nacional dos Juizados Especiais. A magistrada também inovou com a introdução da “audiência única”, onde o Juizado Especial do Amapá reúne, em um só evento, conciliação, orientação e julgamento. Para que isso ocorra sem maiores atropelos, as partes envolvidas nas pendências judiciais são avisadas antecipadamente, por meio de cartas ou de telefonemas, de que devem comparecer em determinado horário, levando as testemunhas e apresentando contraprova. Em sua curta, mas vitoriosa existência, o Juizado Especial de Macapá, comandado pela juíza Sueli Pini, recebeu 27 mil processos (uma média de 1.300 por mês) e atendeu 280 pessoas por dia em busca de orientação para seus problemas. Quase 23 mil desses processos foram resolvidos. Em 1997, o Juizado Especial de Macapá realizou 13.136 audiências, mais que o dobro de audiências de todas as treze outras varas da Justiça Comum que funcionam na cidade. O juizado proferiu 10.367 sentenças enquanto, juntas, as demais varas proferiram 6.460. Nenhuma causa cível do juizado coordenado por Sueli Pini leva mais Foto: Divulgação Trabalho da magistrada no Juizado Especial foi premiado pela revista Cláudia em 1998 do que trinta dias para chegar à primeira audiência com o juiz. As primeiras audiências das causas criminais não ultrapassam o prazo de quinze dias contados a partir da data da entrada da ação. O Juizado Especial de Campinas, SP, considerado como um dos mais rápidos do país, leva cerca de três meses para realizar a primeira audiência com os envolvidos. Paranaense de Sertanópolis, Sueli Pereira Pini cresceu em Londrina, no Paraná, onde iniciou seus estudos. Filha de um operário e de uma dona de casa, já aos 11 anos de idade trabalhou como faxineira. Formou-se em Direito, em 1982, pela Universidade Estadual de Londrina e, com o diploma na mão, iniciou uma carreira repleta de êxitos. Em 1983 foi aprovada em concurso público que prestou para a Procuradoria do Estado de Rondônia. Oito anos depois, em novo concurso, credenciou-se a uma vaga de juíza no recém-criado Estado do Amapá. Em 1996, participou da equipe que elaborou o atual formato do Juizado Especial Central Cível Criminal de Macapá. “Sueli e sua equipe têm conseguido resolver problemas que antes não eram solucionados por falta de tempo e pela distância imposta entre as autoridades e as partes envolvidas”, afirma. “O projeto só tem sucesso em razão do trabalho da Sueli. Ela enfrenta as dificuldades com garra”, diz o desembargador Luis Carlos Gomes dos Santos, que supervisiona o trabalho de Sueli Pini. Além de coordenar o Juizado Especial, Sueli faz parte da Comissão de Adoção Internacional. Com dois filhos pré-adolescentes, frutos de seu casamento, nos últimos dois anos adotou dois bebês. *Ronaldo Brasiliense é jornalista JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 7 Especial Escravos da miséria e do descaso Foto: Jorge Cardoso/CB Press Governo federal, que tem plano para erradicação do trabalho escravo em quatro anos, não dá condições para a atuação das equipes de fiscalização. Falta gente, equipamentos, veículos e até diárias. Até hoje, só um fazendeiro foi punido no país por utilizar mão-de-obra escrava Francisco Reis* Um outro país convive com o Brasil industrializado: especialmente nas regiões Norte, Nordeste e CentroOeste, legislação e Estado são ignorados e trabalhadores continuam recebendo tratamento indigno. assassinato a tiros, na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, de três fiscais do Ministério do Trabalho e um motorista, no município de Unaí, em Minas Gerais, a apenas 180 quilômetros de Brasília, fez retornar ao noticiário uma velha mancha no currículo do Brasil, a exploração de trabalho escravo. A chacina provou que o Brasil industrializado ainda convive, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com outro país situado a séculos de distância no tempo, no qual a legislação e o Estado são ignorados e seres humanos continuam sendo escravizados. Mas a repercussão dos crimes – considerados pelo governo federal um “atentado contra o Estado” – aparentemente em nada contribuiu para que as investigações fossem aceleradas e os culpados, presos, pois até hoje seus autores são desconhecidos. Tampouco parece ter despertado as autoridades para a necessidade de destinar maiores recursos às equipes que, em áreas rurais às vezes de difícil acesso correm risco de vida ao identificar exploradores de mão-de-obra que mantêm trabalhadores em condições subumanas. As equipes do Grupo de Fiscalização Móvel, órgão do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), criado em 1995, a que pertenciam os fiscais e o motorista assassinados, passam semanas na mata, em lugares hostis, sempre sujeitas à violência. Os perigos a que estão expostas não diminuem com a presença a seu lado de policiais federais, pois estes muitas vezes não dispõem de equipamento adequado, como armamento, coletes à prova de balas e veículos em condições de trafegar na zona rural. Além disso, recebem diárias insuficientes. O 8 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO Ajuda de custo Fiscais que pedem que seus nomes não sejam revelados afirmam que a ajuda de custo, congelada em 68 reais e 94 centavos, mal dá para pagar a diária de um hotel no Sul do Pará – região onde é maior a incidência de trabalho escravo – de R$ 50 em média, sem refeições. Informantes que podem facilitar o acesso às fazendas têm que ser recompensados com dinheiro do próprio bolso dos fiscais. O chefe da Coordenadoria Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, do Ministério Público do Trabalho, Luís Antonio Camargo de Melo, confirma: – Não temos equipamentos, não temos computadores portáteis, não temos veículos e nossos parceiros, como é o caso do MTE, enfrentam dificuldades também. As diárias que os auditores fiscais recebem não são suficientes sequer para pagar os hotéis, os policiais federais não têm diárias, que são fornecidas pelo MTE. Há poucos dias, para uma diligência que fazia parte das investigações sobre os crimes de Unaí, a Polícia Federal teve que usar três ou quatro veículos do Ministério do Trabalho. O mesmo governo que congelou as diárias dos fiscais diretamente expostos ao perigo exibe um conjunto de metas ambiciosas, condensadas no Plano Nacional Para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado com fanfarra em março do ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Resultado de uma ação coordenada de que participaram, além de órgãos governamentais, entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o plano prevê uma série de objetivos a serem concretizados em curto prazo, entre as quais a melhoria da estrutura administrativa, logística e de comunicação do Grupo de Fiscalização Móvel, a realização de concurso para a carreira de auditor fiscal do trabalho e a designação, em caráter permanente, de agentes da Polícia Federal para o combate ao trabalho escravo. Confrontado com a realidade, o plano pode até parecer destinado a repousar, entre outros tantos, no panteão das boas intenções, onde dormem o sono eterno projetos governamentais anunciados com estardalhaço e logo depois esquecidos, por falta do que hoje em dia se convencionou chamar de “vontade política” de realizá-los – ou, em bom português, por má vontade mesmo. Mas não é bem assim. Embora, de suas 76 metas, algumas tenham fortes possibilidades de se incorporarem ao acervo de incontáveis fantasias que os governantes brasileiros alimentaram e, por motivos diversos, julgaram conveniente sepultar com discrição, o fato é que, mesmo aos trancos, o combate ao trabalho escravo vem avançando no Brasil. Vontade A coordenadora nacional do Projeto de Combate ao Trabalho Forçado da OIT, Patricia Audi, lembra que o Brasil “é um dos poucos países a reconhecer a existência de trabalho escravo em seu território e, mesmo atuando de forma tímida na sua repressão, demonstrou vontade de resolvê-lo”. Por conta disso, a OIT aprovou em 2001 um projeto OIT identifica municípios exportadores de escravos Políticos usam mão-de-obra escrava No mesmo Congresso que debate punições mais rigorosas para os exploradores de mão-de-obra escrava, há três parlamentares acusados de submeter trabalhadores à escravidão. São alvo de denúncias o senador João Ribeiro (PFL-TO), o ex-presidente da Câmara Inocêncio Oliveira (PFL-PE) e o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ). Na fazenda de Ribeiro, em Piçarra, no sul do Pará, fiscais do Ministério do Trabalho, acompanhados do procurador do Trabalho Marcelo José Fernandes da Silva, libertaram em fevereiro deste ano 32 trabalhadores. Na fazenda Caraíbas, do deputado Inocêncio Oliveira, localizada no município de Gonçalves Dias, sudeste do Maranhão, 58 trabalhadores, de acordo com o relatório dos fiscais que a vistoriaram em 2002, comiam no chão, bebiam água diretamente do rio, moravam em casebres sem higiene e disseram que foram impedidos de deixar o lugar antes de pagarem as dívidas que contraíam no armazém da própria fazenda. Também são acusados de exploração de trabalhadores o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB-RJ), pai do deputado federal Leonardo Picciani, e o prefeito de Unaí – cidade onde ocorreu a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho –, José Braz da Silva (PTB). Dono da fazenda Boa Esperança, em Canaã dos Carajás, no sul do Pará, Silva teve a quebra do sigilo bancário e fiscal e o bloqueio dos bens decretados por uma liminar em maio do ano passado, depois que fiscais encontraram indícios de trabalho degradante em suas terras. de cooperação técnica com o País, no valor de 1,7 milhão de dólares, cuja execução começou em abril de 2002. A OIT deu o pontapé inicial na fase atual da repressão ao trabalho escravo, ao organizar, no final de 2002, uma jornada de debates sobre o problema, com a participação do Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal, Ministério do Trabalho, Justiça Federal e Justiça do Trabalho. Depois desse encontro, diz Patricia, “as Foto: Cacalos Garrastazu De acordo com levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem no Brasil 159 municípios exportadores de trabalhadores escravos, localizados em cinco estados. O campeão em geração de trabalhadores explorados é o Maranhão, com 43 cidades, seguido do Piauí, com 40, Pará, com 32, Mato Grosso, com 25, e Tocantins, com 19. A coordenadora nacional do Projeto de Combate ao Trabalho Forçado da OIT, Patrícia Audi, diz que a mão-de-obra, recrutada em cidades miseráveis pelos “gatos”, como são chamados os intermediários dos fazendeiros, é levada para os estados do Pará, Bahia, Mato Grosso, Tocantins e Rondônia: “São homens adultos, com poucos anos de estudos, muitos deles analfabetos, cujo único capital é a força física”. Os trabalhadores escravos são utilizados na devastação de florestas para projetos de pecuária (em quase 50% dos casos), no comércio ilegal de madeiras (em 25% dos casos) e em atividades agrícolas (cerca de 15% dos casos). Patrícia Audi, da OIT: “Brasil é um dos poucos países a reconhecer a existência de trabalho escravo em seu território” JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 9 Especial decisões judiciais começaram a ser mais efetivas”, pois os fazendeiros que cometem o crime passaram a responder a processos criminais, trabalhistas e por danos morais. “Pela primeira vez”, afirma ela, “o emprego de mão-de-obra escrava deixou de compensar financeiramente”. Para Patrícia, o Plano Nacional Para a Erradicação do Trabalho Escravo é mais que uma carta de intenções: “São ações concretas que devem ser empreendidas não só pelo Estado, mas por toda a sociedade, pois só algo coordenado pode mudar a situação”. Como exemplos de avanços, ela cita a lista, divulgada em 18 de novembro do ano passado, de 54 pessoas físicas e jurídicas que utilizam mão-de-obra escrava, agora proibidas de receber qualquer tipo de financiamento público. E a criação do Conselho Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), para acompanhar a execução do Plano. Camargo de Melo concorda: “O governo brasileiro admite desde 1992 que há trabalho escravo no País. Não parece, mas reconhecer a existência de trabalho escravo é um passo gigantesco”. Se houver um pouco mais de sensibilidade, acrescenta, “será possível erradicá-lo”. Por sensibilidade, entenda-se disposição para liberar verbas: – Nós estamos sempre solicitando uma estrutura adequada, condizente com a nossa responsabilidade e com as necessidades da sociedade, que quer ver o trabalho escravo erradicado, mas o governo federal e o Congresso não são muito sensíveis quando se trata de discutir verbas. É muito difícil para nós, do Ministério Público do Trabalho, conseguir recursos para dotar a nossa instituição de condições de operação Foto: Eugênio Novaes De nada adianta multar fazendeiros se o valor que são obrigados a pagar é irrisório, assim como as penas a que estão sujeitos. Quanto aos trabalhadores, se não receberem assistência e orientação, logo estarão retornando à mesma condição de que os fiscais os libertaram. Camargo de Melo, do Ministério Público do Trabalho: sem equipamentos, sem computadores portáteis e sem veículos para o trabalho das equipes de fiscalização. Os recordistas exploração Os fazendeiros recordistas em reincidência na utilização de trabalho escravo são Miguel de Souza Resende, do Maranhão, e Jeferson de Lima Araújo Filho, alagoano e fazendeiro no Pará. Entre 1996 e 2003, as fazendas de Resende foram fiscalizadas seis vezes pelo Ministério do Trabalho, que encontrou, no total, 210 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. O maior número de trabalhadores escravos foi encontrado na fazenda de Ernesto Dias Filho, em São Desidério, a 907 quilômetros de Salvador (BA), onde os fiscais libertaram 745 pessoas, no ano passado. Também na Bahia, na fazenda Tabuleiro, em Luís Eduardo Magalhães, a 1.106 quilômetros de Salvador, a fiscalização encontrou 259 trabalhadores escravos. 10 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO razoáveis – e estou falando em condições razoáveis porque não atingimos sequer este patamar. Tanto ele quanto Patricia Audi coincidem em ressaltar que não basta apenas reprimir o trabalho escravo: o governo deve promover campanhas de prevenção e informação e adotar medidas que reintegrem os resgatados ao mercado de trabalho. Faltam ações preventivas, embora já tenhamos identificado os principais municípios fornecedores de mão-de-obra escrava. Se o trabalhador não tiver meios de subsistência, estará sempre vulnerável à ação dos “gatos”, os intermediários encarregados de arregimentar para o trabalho escravo. Caso houvesse nesses municípios uma política séria de qualificação, de geração de empregos, a incidência de mão-de-obra barata diminuiria sensivelmente. Mas ainda não saímos do papel neste aspecto, apesar da unificação das políticas sociais em um ministério e do decantado aumento das verbas federais para projetos sociais. O governo federal está pecando pela reticência neste aspecto – diz Camargo de Melo. Congresso Para o deputado federal Tarcísio Zimmermann (PT-RS), o Congresso está fazendo sua parte. Ele é o relator, na Câmara, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 438/01, de autoria do ex-senador Ademir Andrade, que determina o confisco de terras de proprietários rurais que mantenham empregados em regime de trabalho escravo e a utilização das áreas para programas de assentamento de colonos. A proposta dá nova redação ao artigo 243 da Constituição Federal, que atualmente prevê apenas a expropriação de glebas em que se localizem culturas ilegais de plantas psicotrópicas. Embora reconheça que, mesmo se aprovada a proposta, muito ainda precisará ser feito, do aperfeiçoamento da legislação penal à melhoria das condições de trabalho das equipes de fiscalização, Zimmermann acredita que a alteração criará um “instrumento efetivo” de combate ao trabalho escravo no Brasil. Ele lembra que há ainda um projeto em tramitação no Senado estabelecendo penas de prisão que vão de um mínimo de cinco anos a um máximo de dez anos, e que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado avalia projeto do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) que aumenta de 250 reais para 2,5 mil reais o valor da multa por trabalhador encontrado em regime equivalente à escravidão: – Hoje, as penas são na verdade administrativas. Sempre existe a possibilidade de enquadrar a prática de trabalho escravo em crimes de outras categorias, como o de sonegação ou o de cárcere privado, mas o enquadramento penal é tortuoso, pois é preciso lançar mão de legislações não específicas. Já houve uma mudança no Código Penal em dezembro do ano passado, aumentando as penas para quem explora trabalho escravo, mas precisamos melhorar a legislação. As dificuldades enfrentadas pelos fiscais do Grupo Móvel não devem, na opinião do deputado, ser encaradas como sintoma de que o combate ao trabalho escravo vem sendo feito de maneira ineficiente: Trabalhadores Libertados no Brasil Por Ano Por Estado (1995-2003) ����� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� ���� � �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� Medido em números, o combate ao trabalho escravo no Brasil parece ter experimentado progresso significativo nos últimos anos. Segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1995 e 2003 foram libertados, em 10 Estados, 9.498 trabalhadores mantidos em condições análogas à escravidão, mais da metade deles (4.970) no ano passado. O problema é que ninguém sabe dizer se o crescente número de libertações deve-se a uma fiscalização mais intensa ou se há mais fazendeiros utilizando mão-de-obra escrava. Para o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, os dados (seu Ministério contabiliza um total ligeiramente maior de trabalhadores libertados em 2003, 4.995) refletem a intensificação do combate ao trabalho escravo. Tais cifras não deixam de ser importantes, mas o problema, afirmam especialistas, precisa ser atacado em outras frentes, não apenas com operações de fiscalização. De nada adianta multar fazendeiros se o valor que são obrigados a pagar é irrisório, assim como as penas a que estão sujeitos (atualmente, o Código Penal estabelece pena variando entre dois e 8 anos de prisão para o explorador). Quanto aos trabalhadores, se não receberem assistência e orientação, logo estarão retornando à mesma condição de que os fiscais os libertaram. A lista de tarefas que aguardam a ação das autoridades, diz o procurador Camargo de Melo, é longa e complexa: – A erradicação do trabalho escravo passa pela solução de problemas de ordem social. Problemas graves, que demandam recursos e competência técnica para resolvêlos. É fundamental tirar o trabalhador do ciclo de exploração. O Ministério do Trabalho e Emprego e a Polícia Federal têm que ter a estrutura adequada para cumprir suas obrigações. É preciso sensibilizar os juízes da Justiça Federal e da Justiça do Trabalho, especialmente da Justiça Federal, e os ministros dos tribunais superiores. Em todo o País, houve apenas um caso de condenação de fazendeiro por uso de mão-de-obra escrava, o de Antônio Barbosa, do Pará. Como a pena estabelecida pelo Código Penal dá direito a sursis, o juiz a transformou em doação de 30 cestas básicas. Algum tempo depois, em 2001, fiscais encontraram novamente trabalhadores escravos na fazenda de Barbosa. Para acabar com o que Camargo de Melo qualifica de “sensação de impunidade”, a Procuradoria Geral do Trabalho adotou uma postura mais ousada, propondo ações civis públicas em que o valor da indenização por danos morais está diretamente relacionado com o valor da propriedade e dos bens nela contidos. Tramita na Justiça do Trabalho de Marabá, no Pará, uma ação em que a Procuradoria pede uma indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 85 milhões, contra o fazendeiro Jeferson de Lima Araújo Filho. � �� �� �� �� �� �� �� �� �� �� Fonte CPT Governo federal estima que existam 25 mil escravos no país No início de março, durante reunião do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial das Nações Unidas, em Genebra, Suíça, o governo brasileiro admitiu que ainda existem no País “situações semelhantes à escravidão, que afetam 25 mil pessoas adultas”. – Apesar de termos eliminado a escravidão em 1888, calculamos em 25 mil o número das pessoas que estão atualmente submetidas a formas contemporâneas de escravidão – disse o embaixador Tadeu Valadares. Os escravos do novo milênio trabalham até 20 horas por dia, sem folga nos fins de semana, dividem a água que bebem com vacas e bezerros, moram em senzalas de lona no meio da floresta, são obrigados a pagar pelo transporte até o local de trabalho, pelas enxadas e foices que utilizam e também pelo que comem. Muitas vezes vigiados por jagunços armados que os impedem de se movimentar livremente, têm que comprar tudo de que precisam em armazéns pertencentes ao próprio empregador, que cobra preços extorsivos. O salário, sempre irrisório, acaba sendo utilizado apenas para amortizar uma dívida que não pára de crescer e nunca poderá ser quitada. A estimativa do governo federal sobre o número de trabalhadores escravos coincide com a da Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada há mais de 25 anos pela igreja Católica, e que estuda o problema desde sua fundação. A CPT calcula que o contingente de mão-de-obra explorada já foi muito maior: entre 1973, época em que começou a expansão da fronteira agrícola na região amazônica, incentivada pelo governo militar, e o início dos anos 80, estima-se que cerca de 100 mil trabalhadores foram escravizados anualmente no Brasil. JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 11 Foto: Cacalos Garrastazu Especial Grijalbo Coutinho, presidente da Anamatra: “É indispensável que o pessoal que reprime esta prática receba algum tipo de proteção” As sugestões de um especialista Autor do livro “Disposable People: New Slavery in the Global Economy” (“Gente Descartável: A Nova Escravidão na Economia Global”), o sociólogo norteamericano Kevin Bales, considerado um dos maiores especialistas mundiais em escravidão contemporânea, pesquisou o tema durante oito anos em vários países, inclusive o Brasil. Ele sugere ao governo federal seis medidas para combater o trabalho escravo no País: 1) Formar uma força-tarefa nacional contra a escravidão e o tráfico humano, liderada por alguém enérgico, com poder e com recursos. 2) Reformar a lei para permitir, em nível federal, processar traficantes e donos de escravos. 3) Reformar a lei de forma a permitir que a investigação “siga o dinheiro”, para encontrar quem se beneficia das fazendas, minas e carvoarias que se utilizam do trabalho escravo. 4) Aumentar o número de equipes especiais de combate ao trabalho forçado para, pelo menos, 20. 5) Punir severamente a corrupção policial e de funcionários públicos. 6) Deslocar recursos significativos para erradicar a escravidão e preveni-la por meio de educação pública. – Há coisas por resolver, como a questão das diárias, o pagamento das despesas, as condições de deslocamento. Não apenas há pouca fiscalização como também são poucos os fiscais do trabalho em todo o País. Precisaríamos de muitos mais. Mas, como a questão é prioritária para o atual governo – e foi também para a administração passada – a situação melhora a cada ano. Prova é que o número de trabalhadores escravos libertados tem aumentado de maneira consistente. Penas mais duras O otimismo de Zimmermann não é compartilhado pelo juiz Grijalbo Coutinho, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), que representa 3.168 juízes de todo o País. Coutinho é cético quanto à possibilidade de o governo federal cumprir sua meta de erradicar o trabalho escravo no Brasil em quatro anos. Para ele, além de superar as dificuldades orçamentárias seria necessário reformular a legislação penal, com a adoção de penas mais duras para os exploradores de mão-de-obra, e transferir para a Justiça do Trabalho a competência para julgar tal crime: – Nossas instituições são fracas, não conseguem oferecer segurança alguma às pessoas diretamente envolvidas no combate ao trabalho escravo. É indispensável que, nas regiões em que há escravidão de trabalhadores, o pessoal que reprime esta prática, como juízes do trabalho, auditores fiscais, integrantes da Comissão Pastoral da Terra e de outras entidades não-governamentais, receba algum tipo de proteção. Além disso, as ameaças que eles sofrem devem ser investigadas. Coutinho aponta algumas medidas que deveriam ser tomadas com urgência pelo governo, como a contratação de auditores fiscais do trabalho (atualmente são cerca de 5 mil fiscais em todo o País), o fornecimento de estrutura material às equipes móveis de fiscalização, que, para ele, deveriam funcionar de forma permanente, e à Polícia Federal, “visivelmente sucateada”. Também defende a criação de um sistema de informações para investigar com profundidade os interessados na existência do trabalho escravo e para fiscalizar a ação dos intermediários. * Francisco Reis é jornalista 12 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO Estante As últimas palavras de Yossel Lourenço Flores* Acaba de ser editado no Brasil, pela primeira vez, um texto inesquecível. “Yossel Rakover dirige-se a Deus” é aquele tipo de obra no limite da perfeição: alia dor e fé, força e desespero, razão e transcendência. O personagem-título é um judeu confinado em uma das últimas casas ainda em pé no gueto de Varsóvia, em julho de 1943, durante o auge do massacre dos pobres-diabos abandonados à sanha da ocupação nazista. Yossel sabe que vai morrer. Está entrincheirado na casa à espera da morte – inevitável naquelas circunstâncias. Decide, então, escrever uma espécie de testamento, o relato lancinante de um morto-vivo em uma conversa com seu Deus. A exemplo da célebre passagem bíblica de Jó, Yossel Rakover decide não renunciar à fé que o alimentou pela vida inteira, mesmo tendo motivos para críticas amargas em relação ao abandono divino. A conversa entre Yossel e seu Deus é muito, muito forte. O conto foi escrito por um judeu lituano chamado Zvi Kolitz, em 1946, para um jornal da comunidade judaica alemã de Buenos Aires, o “Idiche Zeitung”. O livro começa com a informação de que o texto havia sido achado sob os escombros do gueto devastado. Isso acabou provocando uma enorme – e fascinante – confusão em relação à sua autoria. Kolitz, que estava em um congresso na capital argentina e escreveu o texto em uma noite, voltou a Nova Iorque depois do encontro sem qualquer outra pretensão em relação ao conto. Só que, como acontece apenas com obras destinadas a serem historicamente marcantes, o texto ganhou vida própria. Não se sabe quem foi o “descobridor” daquela jóia conhecida por muito poucos felizardos, mas alguém, profundamente emocionado com a força visceral daquelas palavras, resolveu traduzi-lo para o alemão. Nessa transposição, entretanto, o texto foi reproduzido como um documento autêntico – não como a ficção que é. Em determinado momento, Kolitz soube que aquele trabalho de anos antes estava sendo publicado em diversos países e vinha obtendo manifestações ardentes de aprovação. Resolveu, então, esclarecer que era ele o autor da obra. Por uma dessas ironias do destino, foi tachado de “aproveitador” para baixo. Ninguém acreditava que aquele relato tão pungente pudesse ter sido uma criação puramente intelectual de um sujeito que vinha do nada. Na seqüência do livro, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva (R$ 10, nas melhores livrarias), há a reprodução de uma reportagem interessantíssima de um jornalista alemão sobre a verdadeira saga do texto e de seu autor em busca de reconhecimento. Outro apêndice impressionante é o ensaio sobre “Yossel” elaborado pelo filósofo judeu Emannuel Levinas, uma verdadeira declaração de amor ao livro. *Lourenço Flores é jornalista e livreiro A COMPANHIA – UM ROMANCE SOBRE A CIA Robert Littell Editora Record R$ 70 PODER E CONHECIMENTO NA ECONOMIA GLOBAL Marisa Gandelman Editora Civilização Brasileira R$38 O 13o romance de Robert Littel mostra uma saga de múltiplas gerações, maligna e O significado e o conteúdo do termo “propriedade intelectual”, tão em evidência nostálgica sobre a CIA, conhecida pelos funcionários como “A Companhia”. O autor desde o início das negociações comerciais que deram origem à Organização Mundial tenta, por meio da criação de personagens fictícios e históricos, revelar muito dos quase do Comércio, são apresentados na obra. A autora procurou delinear o termo em seus 50 anos dessa organização e dos serviços de inteligência norte-americanos. Robert Littel aspectos sociais, econômicos e políticos, ao mesmo tempo em que traçou uma análise estreou na literatura em 1973. crítica do assunto, diretamente ligado a discussões políticas, de poder e de conhecimento. Marisa Gandelman é professora do Departamento de Direito da PUC-Rio. OS NOVOS SENHORES DO MUNDO John Pilger Editora Record R$ 35 A SANGUE FRIO Truman Capote Companhia das Letras R$ 39,50 A obra, composta por quatro ensaios, revela as engrenagens do moderno imperialismo, Clássico do jornalismo literário, A Sangue Frio conta a história do assassinato do conectando governos, serviços secretos e diplomáticos, organizações humanitárias, casal Clutter e seus dois filhos, em 1959, na cidade de Holcomb, no Kansas (EUA). multinacionais, barões da mídia e seus interesses em relação às benfeitorias da Para escrever a obra, o jornalista Truman Capote passou mais de um ano na região globalização econômica. Jornalista e documentarista australiano, John Pilger foi entrevistando os moradores e investigando as circunstâncias do crime. O autor tornou- reconhecido como o Repórter san Frontiéres, na França, e recebeu duas vezes o se amigo dos criminosos Perry Smith e Dick Hickcock, o que possibilitou a narração da Journalist of the Year, o mais importante prêmio de jornalismo britânico. trajetória dos assassinos, revolucionando o gênero de reportagem policial na literatura. Capote escreveu dez livros, falecendo em 1984 após uma parada cardíaca. A VENDETA Lisa Scottoline Editora Record R$ 40 AS DUAS FACES DE JANEIRO Patrícia Highsmith Editora A Girafa R$ 45 Juddy Carrier é uma advogada com um caso difícil: seu cliente, Tony Pombo, confessa A semelhança do estelionatário Chester MacFarland com seu pai e da sedutora Colette ter assassinado um antigo inimigo, Ângelo Coluzzi. O que ele fez não foi assassinato, com sua prima, fez com que Rydal Keener se envolvesse em uma trama bastante arriscada mas justiça. Pelo menos segundo o código da vendeta italiana. A vítima, um octogenário e instigante. Keener se vê, de repente, ajudando Chester a esconder o corpo de uma ex-membro do Partido Fascista, matou a esposa de Tony durante a Segunda Guerra. pessoa que acabara de matar e, auxiliados por Colette, iniciam uma fuga incansável por Lisa Scottoline é romancista e advogada na Filadélfia. Atenas. A história, contada ora sob a ótica do mocinho, ora sob a do bandido, é um dos romances mais simbólicos da notória romancista texana Patrícia Highsmith. JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 13 Memória P assava um pouco da meia-noite daquele primeiro de abril de 1964. A rigor, já era o dia dois, uma quinta-feira. Mas o dia primeiro não havia terminado. As luzes continuavam acesas no Congresso Nacional, revelando a presença de deputados e senadores em horário inusual. Da mesma maneira, ainda havia movimento nos prédios que dividem com o Parlamento a vizinhança da Praça dos Três Poderes: o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. O deputado Doutel de Andrade, líder do PTB, partido do presidente João Goulart, chega esbaforido ao quarto andar do Palácio do Planalto – onde se encontrava um grupo de colaboradores de Jango - com notícias da sessão no Congresso. - Eles vão pretender o golpe completo! Estão dizendo que o presidente da República abandonou o País e querem declarar vaga a Presidência! Ao ouvir a notícia, o então consultor geral da República, Waldir Pires, colocou rapidamente o papel na máquina de escrever. “Pega Darcy ali”, pediu ao deputado, referindo-se ao chefe do Gabinete Civil, Darcy Ribeiro. E escreveu o que viria a ser a última comunicação oficial do governo: “Excelentíssimo senhor presidente do Congresso Nacional, senador Auro Moura Andrade: o presidente da República, senhor João Goulart, me incumbiu de comunicar ao Congresso Nacional que, no exercício de sua competência constitucional, ele se deslocou da sede do governo em direção ao território nacional, na capital do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, para assumir o comando das forças que resistirão ao golpe contra as instituições e lutar pela legalidade e pela Constituição Brasileira, pelo juramento de fidelidade ao nosso povo. Atenciosamente, Darcy Ribeiro, chefe do Gabinete Civil”. Quando o deputado voltou trazendo Darcy, que estava na sala ao lado, o texto já estava pronto. - Assina aqui rápido – pediu o consultor, arrancando o documento da máquina de escrever. Assinado, o papel passou para as mãos de Doutel, que voltou correndo ao Congresso. 31 de março de 1964, Há 40 anos, o dia primeiro de abril custou a passar. Resgatar essa memória contribui para afastar do horizonte Cardoso, que à época era chefe de gabinete de Moura Andrade. “Os dias 30, 31 e primeiro foram um inferno no gabinete”, conta. As comunicações em Brasília eram complicadas. “Era o tempo do mimeógrafo a álcool. Não havia esta facilidade de telefone, fax, e-mail”, lembra Nerione. Para conseguir completar as ligações na velocidade e na quantidade exigidas por Moura Andrade, o funcionário forçou a amizade com a operadora-chefe da companhia telefônica. Como chefe de gabinete, Nerione recebia quem chegava para as audiências, entrava e saía da sala do presidente, levando e trazendo papéis, recados, documentos. Nos dias que antecederam o 1º de abril, viu passarem por lá figuras fundamentais na preparação do terreno para a passagem do rolo compressor. Moura Andrade chamou para audiências, entre outros, o arcebispo de Brasília, D. José Newton de Almeida Batista, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Álvaro Ribeiro da Costa, e o comandante da região militar, general Nicolau Fico. Testava o apoio que teria isolando o governo e aliando-se aos golpistas. Foto: Agência Globo / Arquivo O texto, embora lido em Plenário, não foi suficiente para conter a participação do parlamento no golpe. O presidente do Congresso, Auro Moura Andrade, numa tumultuada sessão, em que não faltaram palavrões – excluídos das anotações das taquigrafas por ordem da mesa - e agressões físicas, declarou vaga a Presidência da República, convocou imediatamente o presidente da Câmara a assumir a chefia do Poder Executivo e encerrou a sessão. Era o desfecho de um movimento que começara vários dias antes. Moura Andrade havia pensado nos detalhes da operação e tomado vários cuidados. Chegou a pedir a um órgão da administração de Brasília, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), a Novacap, as plantas de arquitetura do Palácio do Planalto. Queria saber a exata localização das salas e conhecer como funcionava o fluxo por dentro do edifício. “Comecei a perceber que a coisa estava preta lá pelo dia 20 de março, porque prefeitos e governadores de todo o País ligavam sem parar e havia uma grande movimentação de visitas, ofícios, telegramas convocações”, conta o funcionário aposentado Nerione Nunes 4, dia primeiro de abril onte, de uma vez por todas, o fantasma do regime de exceção e da manipulação das instituições democráticas. Warner Bento Filho* Memória Manda brasa, presidente! Foto: Agência Globo / Arquivo O líder da oposição, senador João Agripino, fazia ameaças abertamente: “não imagine sua excelência (o presidente da República) que poderá ficar no poder impunemente, sem O clima no País ficava cada vez mais tenso desde o dia 13 de março, depois da derramamento de sangue. Se sua excelência alimentava esperanças de desmoralizar as participação do presidente João Goulart no comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Forças Armadas e o Congresso, humilhar a quantos quisesse, grandes ou pequenos, para Segundo os jornais da época, a manifestação reuniu entre 150 mil e 200 mil pessoas. Era depois se plantar no poder ditatorialmente, enganou-se redondamente. É característica da uma manifestação de apoio às reformas de base que o governo queria implementar e que sua personalidade recuar ou saber recuar. Pois lhe resta ainda isto, senhor presidente: que sofriam resistências no Congresso e nos setores conservadores da sociedade. saiba recuar e que poupe ao Brasil o sangue de muitos brasileiros. Não estamos dispostos a Anunciou-se no comício que o presidente acabara de assinar, no Palácio das capitular sem luta. Se sua excelência entende de seu dever comandar a luta, nós, democratas, Laranjeiras, residência oficial no Rio de Janeiro, decreto desapropriando, para fins de entendemos de nosso dever nos postarmos do outro lado e toparmos a luta. Veremos se reforma agrária, terras às margens das rodovias este Brasil estará dominado pelos fascistas e ferrovias. Outro decreto determinava a ou pelos comunistas sequiosos de ditadura, encampação das refinarias particulares de ou pelos democratas amantes da liberdade”. petróleo, o que contrariava interesses das A autoridade do presidente desfazia-se multinacionais norte-americanas. como a madeira atacada por cupins. Em seu discurso, o presidente disse Mas recuar não estava nos planos que “a hora é das reformas, pois as atuais de João Goulart naquela noite. O jornalista estruturas ultrapassadas não mais poderão Elio Gaspari conta no livro “A Ditadura realizar o milagre da salvação nacional Envergonhada” que horas antes de falar aos de milhões de brasileiros”. E ainda: “Só suboficiais e sargentos, Jango ouviu apelos conquistaremos a paz social através da do líder do governo na Câmara, deputado justiça social. A maioria dos brasileiros não Tancredo Neves, e do secretário de se conforma com a ordem social vigente, Imprensa da Presidência, Raul Ryff, para que imperfeita, injusta e desumana”. As faixas não fosse à reunião, para não agravar a crise que o povo levou para a praça davam uma militar. Aborreceu-se com os colaboradores idéia do clima: “Jango em 65 – presidente e foi. Levou um discurso escrito. Leu-o e da República: trabalhadores querem armas continuou falando de improviso, auxiliado para defender o seu governo”, “Jango, por apoiadores, como Darcy Ribeiro, que defenderemos as reformas a bala”. lhe assopravam informações no ouvido. “A Ao comício seguiu-se a rebelião dos crise que se manifesta no país foi provocada marinheiros, dia 25 de março, ocasião pela minoria de privilegiados que vive de em que o governo impôs humilhações à olhos voltados para o passado e teme Jango no Automóvel Clube: discurso contra “minoria que teme enfrentar o luminoso futuro que se abrirá à democracia pela integração de milhões de patrícios nossos” oficialidade na negociação com os amotinados enfrentar o luminoso futuro que se abrirá a ponto de o ministro da Marinha pedir demissão. à democracia pela integração de milhões de patrícios nossos”, disse o presidente. “Se os A situação azedou de vez na noite de 30 de março, com a presença do presidente sargentos me perguntassem – estas são as minhas últimas palavras – donde surgiram tantos em outro comício, desta vez para suboficiais e sargentos reunidos no Automóvel Clube, recursos para campanha tão poderosa, para mobilização tão violenta contra o governo, eu ainda no Rio de Janeiro. Em Brasília, a insegurança em relação à ordem pública já era diria, simplesmente, sargentos brasileiros, que tudo isto vem do dinheiro dos profissionais da visível naquele dia. À tarde, o senador Aurélio Viana, do PSB, discursava na tribuna: “Os remessa ilícita de lucros que recentemente regulamentei através de uma lei. É do dinheiro acontecimentos do Rio de Janeiro tomam vulto, a crise militar agrava-se. De tal modo maculado pelo interesse enorme do petróleo internacional”, discursou, enquanto ouvia o isto é reconhecido que está havendo uma verdadeira corrida nas agências bancárias que povo gritar “manda brasa, presidente!”. Naquela mesma madrugada, o general Mourão funcionam no edifício do Congresso Nacional”. Filho deflagraria o movimento que jogou o país em 20 anos de ditadura militar. Um velho calção de banho, uma nuvem negra no ar Na noite do 1º de abril de 1964, depois de uma tentativa frustrada de deixar Brasília por “vias normais”, a partir da Base Aérea, caíram na clandestinidade o ministro Waldir Pires, à época consultor geral da República, e o então chefe do gabinete civil da Presidência, Darcy Ribeiro. A idéia era que se juntassem a Jango em Porto Alegre para resistir ao golpe de estado. Eles não sabiam, mas começavam ali a viagem rumo ao exílio. Aos 76 anos e com invejável memória, é com prazer que o ministro conta a história dos dias que se sucederam ao golpe. “Eu sinto uma obstinação em ajudar as novas gerações a não ter jamais um problema assim”, explica. O fantasma do estado de exceção, segundo ele, não está definitivamente afastado. “Quando restaurou-se a democracia no País, no período do pós-guerra, imaginávamos, como agora, que não havia espaço para um golpe de estado. A diferença é que agora a tensão não parte dos quartéis, mas das forças do mercado internacional”, diz. Os momentos que se sucederam desde a derrubada de Jango até o momento em que ele e Darcy Ribeiro pediram asilo no Uruguai são narrados aqui pelo ministro, baiano de Acajutiba, em depoimento exclusivo ao Jornal do Magistrado: Outono em Brasília “Saímos do aeroporto de Brasília na madrugada do dia primeiro para o dia dois e fomos eu e Darcy cada um para casas de amigos. Já estávamos na clandestinidade. Só saíamos de casa à noite. Uma terceira pessoa faria o meio de campo, para nos dizer onde é que estava um e outro. Fizemos uma reunião no dia seguinte e Ranieri Mazzilli assume a presidência da República: “Tenho a satisfação de anu reina a paz em todo o território nacional” Foto: Cacalos Garrastazu O dia 31 de março amanheceu em aparente normalidade no Planalto Central. Além de mal provida de serviços de telefonia, a incipiente Brasília de 1964 não oferecia muitas opções de lazer. Deputados, senadores e outras autoridades se misturavam a gente não tão importante na boate Tendinha, que funcionava no Hotel Nacional, e era um dos únicos lugares para relaxar depois de um dia de trabalho. A preferência dos parlamentares pelo local também se justificava porque o hotel hospedava boa parte deles. Havia escassez de imóveis na cidade recém-inaugurada. Jolimar Corrêa Pinto trabalhava na Secretaria da Câmara dos Deputados, onde ingressou por concurso público em 1962. Entre suas funções estava administrar a distribuição de apartamentos aos deputados. Mas ele mesmo não tinha onde morar, como tanta gente que veio para Brasília a trabalho naquela época. Havia prédios inteiros concluídos e desocupados, à espera dos servidores que demoravam a trocar o Rio de Janeiro pela nova capital. “A solução era invadir os apartamentos”, conta Jolimar. Ele mesmo tornou-se o ocupante de um imóvel na superquadra 306 sul, uma das primeiras a serem construídas em Brasília. Naquele 31 de março, o ônibus da Câmara que recolhia os funcionários para levá-los ao trabalho passou como de costume pelo endereço de Jolimar. Natural de Juiz de Fora, em Minas, onde serviu como sargento no Quartel-general, ele acabara de cumprir 28 anos - curiosamente no dia 13 de março. Morava há dois anos em Brasília e estava cheio de esperanças com os novos tempos, a nova cidade e, mais que nada, entusiasmado com as reformas prometidas pelo presidente. “Assim como toda a classe média politicamente mais consciente, eu estava empolgado com o governo”, conta. A empolgação corria também pelo Campus da Universidade de Brasília, que funcionava havia menos de dois anos, desde o dia 9 de abril de 1962. Idealizada pelo professor Darcy Ribeiro, que foi seu primeiro reitor, a UnB tinha como objetivo dar vazão aos novos ares de liberdade e modernidade que o país vivia. Naquela manhã do dia 31, o professor Waldir Pires chegou ao campus antes das 7h para suas aulas na Faculdade de Direito. Lecionava de sete às nove. Depois, ainda gastava mais algum tempo no campus, envolvido em trabalhos burocráticos, pois respondia também pela coordenação do curso. Saindo de lá, assumia suas funções de consultor geral da República, por volta das dez e meia da manhã. Um pouco antes disso, o aeroporto de Brasília havia sido fechado para pousos e decolagens. Já era parte das medidas tomadas pelo general Argemiro de Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar, para conter as movimentações golpistas. A Consultoria Geral da República tinha um conjunto de salas no terceiro andar do Palácio do Planalto, perto do gabinete do presidente. Mas este espaço era usado pelo consultor só para audiências e funções protocolares. O trabalho duro era realizado num edifício comercial, fora da Esplanada dos Ministérios, onde a Consultoria alugou um andar inteiro. Lá, Waldir Pires, seus assessores e assistentes jurídicos trabalhavam em pareceres, O aposentado jolimar Corrêa Pinto, funcionário da Câmara em 1964: “Como toda a clsse média politicamente mais consciente, eu estava empolgado com o governo” reuniões internas, minutas. Em geral, o consultor ficava por lá até perto das cinco da tarde, quando então se dirigia para o Palácio do Planalto. Naquele dia, porém, ele saiu um pouco mais cedo, no começo da tarde. Já havia um zunzum no ar, que ele confirmou na chegada ao palácio de governo. “Lá, tivemos a notícia de que tinha sido deflagrado o início da operação do golpe, pelo Mourão Filho”, conta. A essa hora, enquanto a notícia ricochetava no Palácio do Planalto, em Juiz de Fora o general mineiro deixou o quartel e foi almoçar em casa. Conta Elio Gaspari que, depois de comer, “mantendo seus hábitos, dormiu”. A “revolução” deflagrada por Mourão Filho se resumia, até aqui, a uma série de telefonemas dele a aliados, com a notícia de que a operação havia sido deflagrada. Até o começo da tarde, apenas um pequeno grupo de reconhecimento da tropa mineira havia avançado alguns quilômetros desde Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro. A rebelião fazia a sesta e gestava um pesadelo. Entre o muro e a espada No Palácio do Planalto havia muita boataria na tarde do dia 31. As informações eram desencontradas. “Não sabíamos ainda qual era a gravidade da situação”, conta Waldir Pires. No Congresso, a repercussão do discurso de Jango na noite anterior foi a pior possível. outra no dia 3, esta um pouco mais ampla. Estava Rubens Paiva (deputado federal pelo PTB) e outras quinze pessoas mais ou menos, no apartamento de uma moça baiana. Lá acertamos nossa saída de Brasília. Rubens Paiva se ofereceu para assumir a operação, ver a logística, avião, tudo. Quem tinha mandato parlamentar ficaria em Brasília, para tentar fazer o possível. Ainda não tinha havido ato institucional e ninguém sabia em que ia dar tudo. O Mazilli (Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados) era uma figura absolutamente secundária nisso tudo, salvo para representar o papel de agente do golpe militar. Foto: Cacalos Garrastazu Memória O secretário da mesa Paulo Affonso Martins de Oliveira: no Palácio do Planalto até as 4h da madrugada ajudando Mazzilli a nomear ministros O deputado Dias Mendes classificou a participação do presidente no encontro como “o espetáculo mais melancólico para uma nação que se tem na conta de país livre”. O discurso de Jango incomodou ao orador. “O próprio chefe simbólico das forças armadas brasileiras, o presidente da República, em reunião do Automóvel Clube do Brasil, perante uma corporação de sargentos, que se reunia para uma comemoração, proferiu um discurso que contém em cada parágrafo, pelo menos para quem sabe ler nas entrelinhas, uma verdadeira agressão às instituições e ao Congresso”, disse. O deputado Peracchi Barcelos considerou a reunião do Automóvel Clube “a mais subversiva das manifestações”. E também fez ameaças: “quero dizer aqui, sob minha palavra de honra, que somente depois que puderem passar sobre todos os cadáveres dos democratas se implantará neste país o comunismo”. Começava a ficar claro que o PTB de Jango ficava isolado e os parlamentares estendiam o tapete vermelho para os militares. O clima ficava a cada momento mais difícil. Por diversas vezes o presidente da sessão pediu aos parlamentares que mantivessem o decoro. As notícias de Minas Gerais, dando conta não só da movimentação de Mourão Filho, mas da adesão ativa do governador Magalhães Pinto, se espalharam como um rastilho de pólvora pelo Congresso. O deputado João Herculino pedia providências ao presidente Ranieri Mazzilli: “é com pesar, profundo pesar, que comunico a esta casa que a Constituição começou a ser rasgada em meu Estado. O deputado Silval Bambirra foi preso. O Jornal Última Hora foi fechado; seu diretor foi preso, os ônibus foram requisitados, a gasolina foi requisitada, as casas de comércio e os bancos estão fechados”, reclamava. Na madrugada de quatro para cinco saímos num teco-teco de lona que o Rubens armou. Armou inclusive com a alternativa de decolar da Esplanada. Mas afinal conseguimos voar do aeroporto. Entre três e meia e quatro horas da manhã o Rubens nos pegou em casa. Fomos até o aeroporto, abrimos a cerca da pista, entramos e ficamos escondidos num lugar que o Rubens já tinha examinado, uma moita. Foi contratado um piloto, que não sabia de Mazzilli mal conseguia manter controle sobre a sessão: “peço que os nobres colegas ocupem seus lugares para que fique o orador em condições de pode entender-se com a presidência, peço-lhes a colaboração para que a presidência tenha condições de dirigir sem tumulto os trabalhos”, gritava. A notícia de que o aeroporto fora fechado e rumores sobre bloqueio nas rodovias de acesso a Brasília animaram os deputados a cogitar a transferência do Congresso para Goiânia. Os parlamentares se sentiam ilhados e temiam que forças leais ao presidente tomassem o edifício impedindo os trabalhos. Colaborava para a sensação de isolamento outra medida adotada pelo dispositivo de Assis Brasil: o controle das comunicações. “Temos informação, através da bancada de imprensa da casa, que todo o serviço de teletipo, telex, bem como as ligações interurbanas estão cortadas”, informava da tribuna o deputado Laerte Vieira. O deputado Amaral Neto desafiava abertamente a autoridade do presidente João Goulart: “indigno será aquele que hoje concordasse com a submissão, com a transformação em boi de canga de um Congresso que não pode acocorar-se diante de um poder já agora ilegítimo, ilegal, desordeiro e patrocinador da desordem neste país”. Depois de vários alarmes falsos dados por deputados no Plenário, no final da noite confirmou-se a notícia de que o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, de São Paulo, aderira ao levante. A resistência começava a desabar. João Goulart continuava hospedado no Palácio das Laranjeiras, ouvindo as mais diferentes sugestões sobre como contornar a situação. Brizola e os radicais propunham bombardear as tropas de Mourão, fechar o Congresso, prender governadores e outros políticos. A turma do deixa disso tentava convencer o presidente a jogar Brizola e a esquerda ao mar, demitir ministros e negociar com os golpistas. Jango não fez nem uma coisa nem outra. Primeiro de abril Na manhã do dia primeiro, uma quarta-feira, o golpe já não era segredo. O confronto estava na rua. Em Brasília, logo de manhã, grupos ligados ao brizolismo organizaram a montagem de uma milícia popular. O cadastramento, que funcionava no teatro Nacional, recebeu cerca de mil pessoas, que preencheram ficha com nome, endereço e profissão. Supostamente, como informa Elio Gaspari, receberiam instruções e armas no dia seguinte. Waldir Pires e seu grupo ajudavam a estruturar a milícia. Organizaram inclusive um esquema para a distribuição de sopa aos voluntários reunidos nos gramados do teatro, para evitar que voltassem para casa e, assim, se dispersassem. No começo da tarde, o presidente resolveu trocar o Rio de Janeiro por Brasília. Chegando à capital, sequer passou pelo Palácio do Planalto. Da Base Aérea, foi direto para a Granja do Torto, onde morava com a família. E lá gastou a tarde e o começo da noite em intermináveis reuniões com ministros e assessores, buscando desesperadamente uma maneira de sair da crise. Mas as notícias não eram boas. Os militares, mesmo os mais leais, trocavam de trincheira. O presidente do Senado preparava o terreno para juntar o Congresso à caravana golpista. No final do dia, Jango acertou a estratégia de resistência em Brasília: sua base no parlamento tentaria de todas as formas evitar a votação do impeachment do presidente. “A ordem era de que o pessoal dentro do Congresso resistisse o tanto possível, usando o regimento em todas as formas”, lembra Waldir Pires. O general Fico foi chamado e recebeu coisa nenhuma, um rapaz admirável que entrou numa aventura completa, o Almir. Ele tinha autorização de vôo para Anápolis, em Goiás. Às seis e pouco o avião veio se aproximando e nos pegou. Voamos em direção à fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Descemos em uma fazenda do Jango. Rubens tinha acertado que outro avião iria até lá levando gasolina para dar continuidade à viagem até São Borja. De lá iríamos a Porto Alegre. Este avião não chegou. No final do dia, decolamos para não ficarmos expostos na fazenda. Tínhamos a suposição de que piloto do avião com o combustível tivesse sido preso e, torturado, poderia ter confessado as coisas. Então fomos para um prado, onde eu e Darcy passamos a noite, o Darcy fumando como um maluco. O avião foi para outro canto. O Darcy tinha levado um radinho de pilha e minha mulher tinha me dado uma caixa de chocolate e um litro de uísque Old Parr. Foi a salvação. Nesta noite ouvimos o noticiário dizendo que o presidente João Goulart, no dia anterior, 4 de abril, tinha descido em Montevidéu e pedido asilo político. Vimos, então, que não havia mais como irmos para Porto Alegre. O piloto voltou no dia seguinte, mais ou menos seis e meia da manhã. Ele disse eu já viajei com gasolina de caminhão, mas não sei se vocês topam. Irritado, Darcy Ribeiro personificou, entre ele e o general, a radicalização daqueles dias: - Ah, mas já estou vendo! É um gorila. Já vejo lhe crescerem os pelos! O general Fico se retirou do Palácio. O grupo continuou lá monitorando as informações do Congresso e da viagem de Jango a Porto Alegre. Pouco tempo depois, chega Doutel com a notícia de que Moura Andrade pretendia declarar vaga a presidência. A presidência pela porta dos fundos No Congresso, a confusão era total. A bancada do PTB tentava de todas as formas barrar o impedimento do presidente João Goulart. O documento redigido por Waldir Pires e assinado por Darcy Ribeiro foi lido, mas o jogo já estava jogado. Moura Andrade já tinha traçado seu plano. Convocou a sessão e limitou-se a dizer que, “baseado nos fatos e no regimento”, declarava vaga a Presidência da República e convocava o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, para assumir o posto. E encerrou a sessão. O tumulto generalizou-se. No plenário, lotado de parlamentares, funcionários e jornalistas, era difícil caminhar. Os deputados da base de apoio de Jango tentavam barrar a saída de Moura Andrade. Queriam reabrir a sessão em meio à gritaria e o empurraempurra. Moura Andrade levantou-se da mesa cercado de seguranças, assessores e parlamentares aliados. Alguém no Plenário jogou um microfone, daqueles antigos, pesados, na direção do presidente do Senado, que só não foi atingido porque o fio era curto demais. Os deputados do PTB tentavam subir os degraus que dão acesso à mesa e eram contidos pelos correligionários de Moura Andrade. Este tentava avançar sobre a massa para sair do Foto: Cacalos Garrastazu instruções para manter suas tropas de prontidão nos quartéis. E ficou combinado que, se Brasília caísse, permaneceriam na cidade apenas os companheiros que tinham mandato parlamentar. Os outros se juntariam a Jango em Porto Alegre, para tentar resistir ao lado das únicas tropas que permaneciam leais ao governo, comandadas pelo general Ladário Pereira Teles. Perto das dez da noite, o presidente deixou a Granja do Torto para voar em direção ao Rio Grande do Sul. Na Base Aérea, esperava o presidente um Coronado, da Varig - um dos poucos aviões a jato em uso no país à época. As tentativas de acionar as turbinas da aeronave deram em nada. Para Waldir Pires tratou-se claramente de uma sabotagem. Em vista disso, o presidente abandonou o Coronado e embarcou no Avro da Presidência, que o havia trazido para Brasília. O plenário da Câmara dos Deputados era um pandemônio. “Nunca vi o plenário tão cheio”, lembra Jolimar, o funcionário da Secretaria. “Estava repleto de funcionários de todos os setores. Ninguém queria ir embora. Alguns pediam aos familiares que levassem comida. Eu, em função do meu trabalho, não podia sair enquanto houvesse sessão, mas nem queria ir embora para não perder nada. Ouvíamos discussões acaloradíssimas e quase vimos agressões físicas”, conta. Moura Andrade chamou o general Fico mais uma vez a seu gabinete. Disse-lhe que a “revolução” já era vitoriosa e informou-lhe que declararia vaga a presidência da República. Ordenou ao militar que garantisse a segurança do Congresso e o funcionamento de bancos e do comércio na cidade. - O presidente está alhures – disse Moura Andrade ao general, para justificar o que pretendia fazer – e o Brasil não pode ficar sem presidente – completou. Moura Andrade disse ainda a Fico que a sessão estava convocada para as duas horas. O general disse que tomaria as providências e chegaria ao congresso uma hora antes do começo da sessão. - Para chegar uma hora antes o senhor só tem meia hora – informou-lhe Moura Andrade. Quando a comitiva que acompanhara Jango à Base Aérea voltava para o Palácio do Planalto, os prédios do Congresso Nacional estavam iluminados e cercados pelos soldados do general Fico. As luzes não surpreenderam ninguém. Mas as tropas na rua chocaram o grupo. O general não cumprira o combinado horas antes com o presidente. A comitiva continuou até o Palácio do Planalto e subiu até o quarto andar. Perderam alguns minutos limpando as gavetas no terceiro andar, onde ficava o gabinete da presidência. Daí a pouco chega o general Fico. Foi interpelado por Waldir Pires: - Mas general, como isso? O senhor não cumpriu a promessa ao presidente da República, que era de não ensejar o arbítrio do Parlamento. Era preciso que ele ficasse livre e não cercado pelas forças militares! Fico disse que cumpria ordens. E mostrou um telegrama ao consultor-geral da República. “Estava assinado por general Costa e Silva, que se dizia ministro da Guerra”, conta Pires. - Mas ministro da Guerra de quem? – perguntou Waldir Pires Darcy Ribeiro se aproximava e também interpelou o militar: - General, como o senhor faz um ato destes contra o país, contra a democracia? Informado do tal telegrama, o chefe do Gabinete Civil não se conformou: - Mas, general, ele não é seu chefe! Nerione Nunes Cardoso, chefe de gabinete de Moura Andrade: “tentaram acertar um soco no senador, mas pegou foi em mim” Você já viajou? E está aqui vivo? Então vamos embora, dissemos. Tínhamos duzentos ou trezentos cruzeiros para pequenas despesas quando chegássemos a Porto Alegre. Demos o dinheiro ao piloto para ele comprar gasolina nas fazendas da região. Ele voltou e decolamos em direção ao Uruguai. O dia estava lindo, ele era um navegador extraordinário. A gasolina ia em tambores no nosso colo, o Darcy querendo fumar. Quando estávamos sobre a fronteira com o Uruguai o piloto disse até aqui fizemos tudo muito bem, mas essa tempestade aí na Memória Foto: Agência Globo / Arquivo Congresso e dar posse a Mazzilli no Palácio do Planalto. O chefe de gabinete do presidente esvaziando. Antes de o dia amanhecer, restavam poucas pessoas no prédio envidraçado. do Senado vinha ao lado dele. Propôs a Moura Andrade que saíssem do plenário por uma Nerione, também tomado pelo receio de que os manifestantes afinal aparecessem, resolveu porta oculta que havia atrás da mesa, mas levou uma carraspana: voltar pra casa. “Se o povo resolvesse atacar o Congresso, ia sobrar é para nós”, conta. - Seu Nerione, um presidente não foge pela porta dos fundos! Encararam a massa, entre empurrões e insultos. Alguém tentou acertar um soco em Ninguém sai Moura Andrade, em meio ao bolo humano que o acompanhava, mas o atingido foi só seu chefe de gabinete. A muito custo, venceram a massa, saíram do prédio e embarcaram em Enquanto Mazzilli tomava posse, Waldir Pires e Darcy Ribeiro tentavam embarcar dois automóveis Bel Air. para Porto Alegre na Base Aérea. Ao ver o consultor geral, que chegou minutos antes de Nesse momento, vem chegando o presidente do Supremo Tribunal Federal, Álvaro Darcy, um major da Aeronáutica assustou-se: Ribeiro da Costa. Nerione, que acompanhava - Doutor Waldir, o que o senhor está Moura Andrade num dos carros, cedeu seu lugar fazendo aqui? O senhor está maluco? Isso aqui ao ministro. E foi à pé, correndo, até o Palácio, tudo já aderiu, o senhor vai ser preso! distante cerca de 400 metros. - Estou esperando Darcy. Nós vamos para Com a notícia de que o assunto havia o Rio Grande agora. se consumado no Congresso, o grupo leal a - Não, agora ninguém sai mais. Jango que ainda ocupava o Palácio do Planalto A dupla ainda tentou convencer, por abandonou rapidamente o local. “Já não se podia telefone, um coronel da Aeronáutica, piloto da evitar mais nada, inclusive porque a guarda do presidência da República, que estava em casa. Palácio já estava obedecendo a Fico”, conta O coronel informou que, por orientação do Waldir Pires. Ele e Darcy começaram a se ministro da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo preparar para embarcar rumo a Porto Alegre, Gomes, nenhum “próprio nacional” poderia conforme o combinado horas antes na Granja levantar vôo senão com ordens expressas dele. do Torto. O poder tinha passado de mãos. Saindo dali, os O secretário da mesa da Câmara dos dois caíram na clandestinidade. Não voltaram Deputados, Paulo Affonso Martins de Oliveira, para suas casas. Esconderam-se, cada um, em fora encarregado, momentos antes, de convocar casa de amigos. os deputados para se juntarem a Ranieri Mazzilli Waldir Pires vira sua mulher, Yolanda, e Moura Andrade para o ato de posse no Palácio antes de ir para a Base Aérea, quando passou do Planalto. rapidamente pelo apartamento onde moravam. O pequeno grupo chegou ao Palácio e Os filhos já estavam dormindo. Sem muito entrou sem qualquer resistência. Foi direto para tempo para explicar nada, pegou algumas coisas o gabinete da Presidência, no terceiro andar. e deu um beijo em Yolanda. “Minha filha, estou Era uma sala pequena, onde se apertava um indo. Vou para o Rio Grande. Deus nos proteja. grupo de não mais de 20 pessoas. Assumindo Tome conta dos meninos”, disse. o cargo de presidente da República pela porta Voltou a vê-la dois meses depois, dia 31 Ranieri Mazzilli assume a presidência da República: “Tenho a satisfação de anunciar que dos fundos, Mazzilli fez um pequeno discurso e de maio, quando já era um exilado brasileiro no reina a paz em todo o território nacional” arrematou: Uruguai. A data era – e continua sendo - especial - Tenho a satisfação de anunciar que reina a paz em todo o território nacional! para os dois: seu aniversário de casamento, que o casal se orgulha de jamais ter passado Nerione custou a acreditar no que ouvira. Sabia que o País vivia momentos de grande separado. Os cinco filhos, numa escadinha de dois a onze anos, juntaram-se aos pais alguns confusão. Na frente do teatro Nacional, o povo continuava aglomerado, ameaçando fazer meses depois, não sem dificuldades. O consulado brasileiro em Montevidéu não autorizava e acontecer. O clima era, na verdade, de pânico generalizado. Tanto que Moura Andrade, a viagem das crianças. Waldir Pires tentava ser recebido no escritório diplomático para assustado com os acontecimentos que protagonizara, retirou-se rapidamente do Palácio e explicar a situação, mas sequer conseguia passar da porta de entrada. A transferência dos evitou voltar para casa. Escondeu-se em algum lugar depois de passar pelo Senado. filhos só se deu quando um amigo da família conseguiu, no Brasil, uma autorização judicial Mazzilli continuou no Planalto por algumas horas, acompanhado de Paulo Affonso e garantindo que as crianças pudessem finalmente viajar para encontrá-los. um grupo de colaboradores. Ficaram até perto das 4h da madrugada, nomeando auxiliares e tomando demais providências. *Warner Bento Filho é jornalista, editor do Jornal do Magistrado Nerione e outros funcionários voltaram para o Congresso, que aos poucos foi se Colaborou Letícia Capobianco nossa frente, se a gente entrar não sai mais. Vamos ter que descer logo aqui. Então descemos num pasto. Já estávamos acostumados com esse negócio de descer em pasto. Estávamos pertinho da estação hidromineral de Arapei, no norte do Uruguai, perto da cidade de Salto. A população toda soube que desceu um avião e as pessoas vieram se encontrar conosco. Dissemos que éramos membros do governo brasileiro de João Goulart. Eles foram extremamente gentis. Nos levaram para um hotelzinho que tinha uma piscina de águas termais. Nos emprestaram lá dois calções. Estávamos havia tantos dias naquela pressão gigantesca e então entramos naquela piscina e ficamos lá. Chegou o comandante do destacamento local, um cabo da polícia uruguaia. Eu, de calção mesmo me levantei e disse ao Darcy que pediria asilo político. O cabo bateu continência e eu lhe disse quero requerer, por intermédio do senhor, asilo político, que resulta do tratado de Havana, assinado pelo governo da República Oriental do Uruguai e pela República do Brasil. E aí começou nosso exílio”. Sessão Especial A vida de David Gale Alan Parker encara a pena de morte Davi Brasil Simões Pires* Sob o pretexto da investigação jornalística dos fatos que envolvem a morte de Constance, o espectador é conduzido ao questionamento do sistema judicial e dos caminhos que levam a condenação à morte. A mais recente obra do diretor Alan Parker deve ser vista sem a ilusão de reencontrar a crueza dramática de “O Expresso da Meia Noite” (1978), o delírio musical de Pink Floyd – The Wall (1982), o sombrio suspense de Coração Satânico (1987) ou a agilidade do roteiro de Mississipi em Chamas (1988). Isso não significa que o realizador inglês perdeu a velha forma. Neste filme todas estas características estão presentes, porém com menor impacto. Aos sessenta anos, Parker conserva a mesma obstinação em defender suas idéias, disposto, até mesmo, a correr riscos. Em todo o filme fica muito claro que o autor defende uma idéia (a sua, naturalmente). Nestes tempos de exageros do “politicamente correto” – o risco de ser apontado como panfletário parece não tirar o sono do diretor. O tema é a pena de morte – um debate sempre tenso e apaixonado, especialmente nos Estados Unidos, onde a maioria da população a defende. A falta de originalidade do tema – os últimos dias de um condenado à morte – é mais um desafio que interessa ao velho Alan Parker. As bilheterias norte-americanas não perdoaram tal ousadia (ou proselitismo), de usar a própria obra para defender convicções políticas. No Brasil, talvez por mimetismo, o filme também não obteve muito espaço nos cinemas. Lançado neste mês de março, em cassete e DVD, A Vida de David Gale é um filme apto a cair no gosto dos comodistas amantes da sétima arte. David Gale, vivido por Kevin Spacey (de Beleza Americana) é um professor de filosofia na Universidade do Texas (e também um ativista em favor da extinção da pena de morte), condenado por estupro e assassinato de sua colega de trabalho Constance Harraway, vivida por Laura Linney (de Sobre Meninos e Lobos). A ambiência, não ao acaso, é o Texas, o estado recordista absoluto em execuções da pena máxima. A ação se passa nos quatro dias que antecedem ao dia da execução, quando o condenado David conta, em entrevista exclusiva, a sua versão dos fatos à jornalista Bitsey Bloom (Kate Winslet, de Titanic), com o declarado intuito de limpar a sua imagem perante a família e a sociedade. Bitsey é uma jornalista investigativa que preserva suas fontes a qualquer custo. Sob o pretexto da investigação jornalística dos fatos que envolvem a morte de Constance, o espectador é conduzido ao questionamento do sistema judicial e dos caminhos que levam a condenação à morte. A busca da jornalista se torna uma corrida contra o tempo que transforma o drama num thriller de suspense e mantém, até o final, a atenção do espectador. O clima tenso se completa com a trilha sonora – uma mistura de rock, ópera e góspel – de responsabilidade de Alex e Jake Parker, filhos do diretor, enquanto a produção é do próprio Alan e de seu sobrinho (o ator), Nicolas Cage. Nepotismo à parte, o filme é um ótimo programa que mesmo com um tema tão polêmico, com boas soluções de roteiro, reserva surpresas até o último minuto. *Davi Brasil Simões Pires é advogado e cinéfilo Especial Descontrole A proposta do Executivo de criar um controle externo para o Judiciário traz à tona a discussão sobre a independência dos poderes Gisele Teixeira* A possibilidade de votação da Reforma do Judiciário pelo Congresso Nacional, ainda este ano, voltou a acirrar as discussões em torno de um dos pontos mais polêmicos do projeto – a criação do Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle externo do Poder Judiciário. A idéia consta do Projeto de Emenda Constitucional nº 29/00, aprovado na Câmara dos Deputados em 2000 e que aguarda apreciação do Senado Federal. A falta de consenso reside, principalmente, em dois pontos. O primeiro deles é a composição do conselho. Pelo projeto, este órgão seria formado por 15 membros: nove magistrados, dois membros do Ministério Público, dois advogados e duas outras pessoas escolhidas uma pela Câmara e outra pelo Senado. A inspeção do poder por elementos estranhos à Magistratura é defendida pelo Executivo e rechaçada por parte do Judiciário, em especial pelas cortes superiores, que entendem que este conselho causaria uma interferência excessiva na atividade jurisdicional, o que comprometeria a independência e livre convicção dos juízes, fundamental nos julgamentos. Esta é a posição da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). A segunda polêmica versa sobre as atribuições deste conselho. Pelo texto aprovado na Câmara, o órgão teria uma série de poderes. Entre eles, o de exercer controle sobre os desvios funcionais dos juízes, determinando inclusive a perda do cargo. Novamente, Executivo e parte da Magistratura estão em lados opostos. “A vitaliciedade do cargo está ancorada em sentença judicial transitada em julgado. Não se pode admitir que um juiz seja demitido por decisão administrativa”, destaca o presidente da AMB, desembargador Cláudio Baldino Maciel. Para o jurista Ives Gandra Martins, se o governo federal conseguir aprovar o controle externo, inclusive com o direito de demitir magistrados antes do trânsito em julgado das ações que presidem, reduzirá a independência do Judiciário. “A sociedade corre o risco de ficar à mercê de um Legislativo e de uma burocracia cada vez menos profissionalizada, esvaziando-se o direito de defesa do cidadão”, afirma. Ele destaca que a proposta pode ser considerada, inclusive, inconstitucional, violando a independência dos poderes. Segundo o advogado, “o controle externo de um poder sobre o outro violaria o artigo 60, § 4º, inciso III da Constituição Federal”. De acordo com Gandra Martins, a separação dos poderes não permite que um deles tenha interferência em outro. E muito menos o controle. “Por esta razão, a presença de um deputado ou de um senador no controle externo provocaria uma fratura na separação dos poderes e a norma que o consagrasse estaria revestida de inconstitucionalidade”, completa. O presidente da AMB afirma que a idéia de um conselho externo foi vendida com eficiência para a opinião pública, pela mídia e pelo Executivo, como a cura para todos os males que afligem a Justiça e sua sustentação está baseada na tese de que não há órgão de fiscalização do Judiciário. “Isto é uma falácia, um canto de sereia”, diz Maciel. “Todas as decisões da Justiça são públicas e todos os gastos do Poder são submetidos ao crivo dos tribunais de contas”, acrescenta. Segundo ele, eventuais desvios de conduta também são punidos pela categoria. “A história mostra que o Judiciário pode combater suas próprias mazelas”, reforça o coordenador da Comissão de Reforma do Judiciário da AMB, juiz Airton Mozart Valadares Pires, acrescentando que, em número de suspeitos de atos ilícitos, tanto Executivo como Legislativo mereceriam também ser controlados, muito mais que o Judiciário. 22 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO Foto: AMB Independência Cláudio Maciel, presidente da AMB: “Não se pode admitir que um juiz seja demitido por decisão administrativa” Maciel acrescenta que, por trás deste discurso de moralização, está o interesse de redimensionar os poderes. “O Executivo nunca governou de forma tão autoritária e a Justiça é sua única pedra no sapato”, diz. Segundo ele, é para o Judiciário que o povo delegou a função de dizer não aos governantes quando eles excedem às suas funções. “Para alterar este quadro, ou se muda a Constituição e as leis, ou se enfraquece o Judiciário”, afirma. “A segunda opção é o que se quer agora”, completa. Gandra Martins reforça esta tese. “Falar em controle externo da magistratura sem falar em controle externo do Ministério Público ou da Polícia Federal, por exemplo, é dar uma conotação ideológica ao pretendido controle, mais do que transparência. É uma tentativa de acuar a Justiça”, afirma. O presidente da Associação dos Juízes Federais de São Paulo (Ajufesp), José Marcos Lunardelli, tem três restrições ao controle externo do Judiciário. Ele afirma que não é “refratário” à indicação de membros de fora da magistratura para composição do órgão, desde que estes sejam profissionais reconhecidos e de conduta ilibada. “O conselho não pode ser um cabide pêra um deputado que não se elegeu, por exemplo”, diz. Lunardelli também ressalta que é preciso definir com mais clareza as atribuições do órgão. “A PEC deixa brechas para que a Lei Orgânica da Magistratura atribua novas funções ao conselho, o que é perigoso”, destaca. Por fim, afirma que um corpo formado para administração e planejamento não pode determinar a perda de cargo de juízes. Crise Waldomiro Foto: AMB A discussão sobre o tema, que parecia uma batalha vencida pelos que são a favor da iniciativa, pode ter virado definitivamente segundo Gandra Martins. Ele afirma que a crise política que se instalou no coração do Governo Federal após o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, ex-assessor do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, tende a respingar na Reforma do Judiciário. O jurista acredita que, com as denúncias, o Executivo perde a autoridade de reivindicar um controle externo para o Poder. “Esta posição fica, no mínimo enfraquecida. Se a transparência é fundamental, ela deve ser exigida dos demais Poderes”, acrescenta. A idéia de que o controle externo é eficaz na gestão do Judiciário de diversos países europeus é outro argumento que vem sendo refutado por diversas autoridades. Para o presidente da AMB, a tese não se aplica ao caso brasileiro. Segundo ele, na Itália, França, Portugal e Espanha, por exemplo, o regime é parlamentarista e os Judiciários carecem de autonomia administrativa e financeira, sendo vinculados aos ministérios da justiça. “Nestes países, o Judiciário não é um poder. Não é o caso do Brasil”, completa. E nem nestes países há consenso. De acordo com Gandra Martins, na Itália, o controle da Magistratura tem sido criticado. Na Espanha, pouco aplicado. “E na França é apontado como o maior culpado da péssima imagem do Judiciário naquele país”, acrescenta. Entre as autoridades que já se manifestaram publicamente contra a iniciativa está o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Maurício Correia. Ele afirma que a criação de um órgão deste gênero não vai responder à expectativa da sociedade brasileira, que deseja mais presteza e eficiência do Poder Judiciário. “A sua adoção transformaria o Judiciário no único poder da República que passaria a ter um órgão específico de fiscalização externa de suas atividades administrativas e financeiras”, destaca. Ele ressalta que no Judiciário já existe o controle interno e a fiscalização pelos Tribunais de Contas. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) também é contra a idéia. Em fevereiro passado, dos 27 ministros apenas seis votaram a favor de pessoas estranhas à Magistratura no conselho. O presidente do STJ, ministro Nilson Naves, é um dos que mais defende, publicamente, um Judiciário soberano. “A proposta de controle externo é incoerente e afronta a cláusula pétrea da independência dos três poderes”, diz. Nilson Naves reclama que “o Judiciário é sempre o patinho feio” e que se o governo quer instituir um conselho externo para o Poder, “então seria necessário ter um conselho para controlar o Legislativo, um outro para controlar o Executivo, e um outro poder para controlar outras instituições da República e um controlador para fiscalizar os controladores”, diz. O STJ defende a criação de um conselho composto exclusivamente de membros da magistratura. No Tribunal Superior do Trabalho (TST), a proposta tampouco encontra eco. O presidente do TST, ministro Francisco Fausto, se diz contra a adoção do controle externo por entender que o Judiciário é um Poder de Estado, assim como o Executivo, não podendo ser controlado externamente sob pena de quebra do princípio de harmonia dos poderes. “Trata-se de uma cláusula pétrea, logo, somente o constituinte originário poderia propor uma mudança como essa. Não pode ser feita por meio de emenda”, explicou o ministro. No Brasil, o poder Judiciário esteve sujeito ao controle do Conselho Nacional de Justiça de 1977 a 1987. O fato de o órgão ter estado em funcionamento em pleno regime militar, no entanto, foi um forte argumento utilizado pelos juízes para pressionar os constituintes a não mantê-lo na Constituição de 1988. Com os novos tempos, nem os militares defendem mais esta idéia. O presidente do Superior Tribunal Militar (STM), almirante de esquadra José Júlio Pedroso, que assumiu o comando do tribunal recentemente, aprova apenas um modelo de controle interno. “Se a reforma do Judiciário não for feita dos moldes propostos pelos tribunais superiores, irá se transformar em uma grande frustração para o povo brasileiro” afirmou Pedroso em seu discurso de posse. *Gisele Teixeira é jornalista Mozart Valadares: “A história mostra que o Judiciário pode combater suas próprias mazelas” JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 23 Artes O Brasil popular de Heitor Villa-Lobos O compositor recebe uma série de homenagens, inclusive no exterior, por ocasião da passagem de seu aniversário de nascimento, em 5 de março de 1887 Danilo Chaib* No carnaval de 1887, em Laranjeiras, Rio de Janeiro, Dona Noêmia foi ver a banda passar cantando coisas de amor, de mãos dadas com seu Raúl, na noite de sábado, dia 19 de fevereiro. Seu Raúl de vez em quando acariciava o ventre de sua amada, sentindo o bebê se agitar, como se sentisse a energia irradiada daquela festa. Dizem que os primeiros sons que ouvimos antes de nascer são as batidas do coração de nossa mãe. Mas os pais de Villa-Lobos proporcionaram ao bebê um prazer a mais: ele, além disso, ouviu todo os sons do carnaval duas semanas antes de nascer, no dia 5 de março. Agora, a passagem do seu aniversário de 117 anos motivou uma série de homenagens, inclusive no exterior. O compositor morreu no Rio de Janeiro, dia 17 de novembro de 1959. Encantado com o universo sonoro que o cercava, o menino, antes de falar, já repetia sons do seu cotidiano, como os cantos dos bem-te-vis e o apito do trem: “Tu-hú!... Tuhú!...” Esse som, que o menino não parava de variar nas diversas formas e movimentos (inclusive mais tarde num movimento sinfônico que recebeu o nome de “O Trenzinho do Caipira”), rendeu-lhe o apelido “Tu-hú”. O apelido era um incentivo carinhoso de seus amados para que Heitor continuasse em sua pesquisa sonora. Quando o moleque tinha quatro anos, o pai reformou uma viola (aquela hoje conhecida como viola clássica, um pouco maior que o violino) para transformá-la no menor violoncelo de que se tem notícia. E passou a dar ao pequeno aulas daquele instrumento que Villa-Lobos homenageou em sua Primeira Bachiana Brasileira, escrita para orquestra de violoncelos. A infância do músico foi a mais brasileira possível, cheia de pipas, brincadeiras e muita música. Tendo nascido poucos dias depois do carnaval, Heitor Villa-Lobos veio ao mundo já com saudade de ver a festa. Se esperava com ansiedade o carnaval de 1888, surpreendeuse quando a festa chegou no dia 13 de maio, só três meses depois de seu nascimento, em comemoração à proclamação da Lei Áurea. Heitor testemunhou todos os sons da comemoração, batuques, rodas de samba, choros, pontos de macumba, danças africanas (resgatadas pelo maestro numa série apresentada na Semana da Arte Moderna de 1922, onde foi o único representante musical). Em 1889, outro ano com dois carnavais: o extra aconteceu em novembro, com a proclamação da República. Essa ligação de Villa-Lobos com as festas populares e com os sambistas do morro – Cartola, Pixinguinha e demais chorões, negros, brancos, mulatos - está retratada no livro “Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira –Uma visão sem preconceito” de Ermelinda Paz, lançado no último dia 5 de março, no Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, como parte das comemorações do aniversário de nascimento do maestro. Amor e ódio Fotos: Agência Estado Villa-Lobos tinha personalidade forte. Era daquelas pessoas sobre quem não há meio termo: ou o amavam, ou o odiavam. O pianista Arthur Rubinstein podia odiá-lo, com certeza, pois seu primeiro encontro com o compositor foi um tanto grosseiro. Mas logo depois conseguiram ser tão bons amigos que Villa-Lobos carregava o virtuose para pular carnaval. Ele teve uma história parecida com o violonista espanhol André Segovia – a quem Villa-Lobos dedicou quase toda sua obra de violão - que virou seu grande amigo a partir de uma briga. A frase “O folclore sou eu!” atribuída a Villa-Lobos, irritou muita gente. Mas se observarmos outras frases, como “O Brasil precisa de educação, de uma educação que não seja de pássaros empalhados em museus, mas de vôos amplos no céu da arte”, vemos talvez a preocupação em dizer que o folclore não deve ser encarado como algo 24 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO de museu, ultrapassado: o folclore deve estar vivo, em você, em mim. Deve persistir e lutar contra toda uma massificação que condena a cultura regional, autêntica, popular. Talvez por esta consciência, em 1929 Heitor abre mão de um convite de residir em Paris e aceita gerenciar, em 1930, a Superintendência de Educação Musical e Artística (Sema), em parceria com o visionário Anísio Teixera. Como fruto deste trabalho, um decreto no ano seguinte, referendado por Getúlio Vargas, tornou-se obrigatório o ensino do canto orfeônico nas escolas. Villa-Lobos dizia: “Pode parecer ridícula a frase: ‘Todo o Brasil deve cantar’. No entanto, o Brasil inteiro canta no Carnaval, essa festa rica de ritmos e alucinante. Festa de doidos, pretexto para desabafo de uma subconsciente loucura coletiva. Por que não há de cantar nos outros momentos da vida nacional, nos grandes momentos de protesto, de alegria, de entusiasmo?” Assim como Beethoven era chamado de egocêntrico enquanto declarava amor à humanidade compondo completamente surdo a Nona Sinfonia, Villa-Lobos declarava seu amor ao povo brasileiro: “O Canto Orfeônico é o elemento propulsor da elevação do gosto e da cultura das artes, é um fator poderoso no despertar dos sentimentos humanos, não apenas os de ordem estética, mas ainda os de ordem moral, sobretudo os de natureza cívica”. E ainda: “(...) Dá-lhes (aos estudantes) a compreensão da solidariedade entre os homens, da importância da cooperação, da anulação das vaidades individuais e dos propósitos exclusivistas, de vez que o resultado só se encontra no esforço coordenado de todos, sem o deslize de qualquer, numa demonstração vigorosa de coesão de ânimos e sentimentos. O êxito está na comunhão”. vida, Mindinha, sabia disso, criando e gerenciando o Museu Villa-Lobos por 25 anos, de 1960 a 1985. Em 1987, a Associação de Amigos do Museu Villa-Lobos surge para dar gás à chama que serve de inspiração a todas as nossas futuras gerações de músicos amantes da arte, o povo brasileiro. Inscreva-se, participe, ouça, não deixe a música se extinguir (posto que é chama): acesse a página: www.museuvillalobos.org.br/mvl4.htm *Violoncelista, professor da Escola de Música de Brasília, escritor e filósofo Legado Talvez essa institucionalização da música tenha gerado os movimentos musicais da década de sessenta (e os que foram silenciados pela ditadura na década de setenta). Já o fim da obrigatoriedade do ensino de música nas escolas pode ter relação com o hiato musical a partir do fim dos anos 1980. Mas há quem persista no sonho, e hoje temos vários regentes de coros que lutam em expandir o legado de Villa-Lobos (quem quiser saber se em sua cidade existe um coral pode consultar a página da Associação Brasileira de Regentes de Coros na Internet: www.abrc.com.br) Na década de 1950, os Estados Unidos começaram a assediar o compositor, que relutava constantemente em visitar ou colaborar com os Estados Unidos. Mas acabou cedendo e foi apresentado à nata dos produtores de Hollywood, pelo maestro preferido de Walt Disney, Leopold Stokovsky (que interpretou as obras de “Fantasia”). Como resultado deste contato, Villa-Lobos compôs uma trilha sonora para o filme “A Flor que não Morreu” (“Green Mansions”, 1959), de Mel Ferrer, protagonizado por Audrey Hepburn e Anthony Perkins (que despertaria mais atenção em Psicose de Hitchcock). Esta trilha foi completamente picotada pelos produtores, que incluíram um segundo compositor para “editar” a obra. Villa-Lobos, para manter sua integridade, resgatou a música e a transformou em quatro canções com o título “A Floresta do Amazonas”, para soprano, coro masculino e orquestra. Existe uma versão da “Floresta do Amazonas” interpretada por Ney Matogrosso e Wagner Tiso, que se pode atualmente adquirir pelo selo Kuarup (www.kuarup.com.br), que possui um acervo enorme de Villa-Lobos, junto com as gravadoras Naxos e EMI. Heitor Villa-Lobos está vivo. Deixou um recado neste planeta, que o perpetuou, fazendo com que seu amor em forma de som nunca fosse calado. Seu grande amor em JORNAL DO MAGISTRADO MARÇO A ABRIL DE 2004 25 Artigo O Judiciário e a Inovação Joaquim Falcão* O colégio entrou com uma ação na vara cível, pois o pai do aluno não pagava as mensalidades. O juiz designou, logo no início, uma audiência de conciliação. As partes compareceram não diante do juiz, mas de um conciliador capacitado, jovem advogado ou mesmo estudante de Direito. Voluntários. O pai propôs uma parcela menor, o que foi aceito e o aluno foi rematriculado. A participação de conciliadores voluntária nos juizados cível reduz em até 30% o número de processos do juiz. O acordo foi homologado e a decisão que demoraria anos ocorreu em menos de três meses do início da ação. Justiça ágil reduz os custos para as partes, para o Judiciário, para o orçamento público, para o contribuinte. Este fato não ocorreu nos Tribunais dos Estados Unidos ou Europa. Mas ocorre no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Trata-se ainda de uma exceção, felizmente cada dia mais comum. O fato é que algumas justiças já estão mudando. A partir daí o desafio: como tornar a exceção, regra? Como tornar a regra local em experiência nacional? Como construir uma Justiça ágil, rápida e eficiente? Centenas de inovações já estão ocorrendo nos diversos tribunais do Brasil. Iniciativas locais e internas, gerados pelo próprio Judiciário. De pouca visibilidade e algum isolamento. Está em curso uma reforma silenciosa da justiça. O desafio é identificar, sistematizar e multiplicar as inovações bem sucedidas. Dar-lhes escala. Escala nacional. Não é tarefa fácil. O Poder Judiciário é muito segmentado. Na verdade, não existe um Poder Judiciário, mas vários. Tantas e tão autônomos são os tribunais. É a Justiça Federal e as Justiças Estaduais. É a justiça cível, inclusive, criminal. É a Justiça Eleitoral, do Trabalho e Militar. Cada uma dotada de grande autonomia administrativa e financeira, constitucionalmente assegurada. Com procedimentos próprios. Como fazer com que um tribunal do Norte, por exemplo, se beneficie do esforço e da invenção de um juiz ou tribunal do Sudeste? E vice-versa? Este é o problema central. O prêmio Innovare, o Judiciário do Século XXI, enfrenta este desafio. Pretende dar uma pequena colaboração. É um prêmio dividido em duas etapas. Na primeira, as experiências de sucesso em curso nos próprios tribunais serão identificadas, conhecidas, avaliadas e premiadas. Numa segunda, a experiência será sistematizada não só do ponto de vista jurídico, mas também do ponto de vista econômico e administrativo. Em seguida, será colocada à disposição do juiz, do juizado, do tribunal que dela quiser se beneficiar; que queira implantá-lo na sua jurisdição, na sua órbita de competência. Autonomamente. As experiências bem sucedidas já são centenas. Desde a justiça fluvial, a justiça sobre rodas, levando Justiça, bem de primeira necessidade, em lugares inacessíveis, aos juizados especiais plenamente informatizados, alguns atendendo a centenas de casos por dia, aos grupos de auxílio mútuo, às centrais de penas alternativas, a urna eleitoral eletrônica, inovação judicial tipo exportação, para muitas das melhores democracias do mundo. Sem falar no crescente uso de voluntários e conciliadores, seja nos juizados especiais, seja na própria justiça comum. O Prêmio Innovare faz convergir os esforços da Associação dos Magistrados Brasileiros, do Ministério da Justiça, da Companhia Vale do Rio Doce, do Instituto Hélio Beltrão e da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas. A modernização do Judiciário é um objetivo de convergências, somatório, e não eliminatório. Ao contrário do que se pensa, a Constituição de 1988 não foi o coroamento da luta pela democracia. Não foi o final. Foi apenas o começo. O caminho é longo e pressupõe um Judiciário com agilidade para decidir. Agilidade para exercer o poder de ditar a palavra final na solução pacífica dos conflitos em que nos envolvemos todos: governo e sociedade, empresas e trabalhadores, homens e mulheres, jovens e adultos. Pressupõe um Judiciário socialmente igualitário, administrativamente eficiente e politi-camente democrático. Construir a democracia é ajudar a construir este Judiciário. Entre outras, por uma simples razão. A alternativa a um Judiciário que tarda a decidir é a violência que logo decide. A rapidez da violência infelizmente é uma das contrapartidas da lentidão judicial. É a Lei do mais forte que se sobrepõe ao estado de direito. Lei do mais forte, tanto física, quanto economicamente. Lei da selva. O ano de 2003 foi um ano decisivo que deixa um saldo altamente positivo: a entrada da opinião pública no debate sobre a modernização do Judiciário. Fica cada dia mais claro para o cidadão comum que esta modernização é indispensável para a vida de todos e de cada um. Fica cada dia mais claro que uma das maiores fomes do brasileiro é a fome de Justiça. O Brasil precisa de mais judiciário. “O fato é que algumas justiças já estão mudando. A partir daí, o desafio: como tornar a exceção, regra? Como tornar a regra local em experiência nacional? Como construir uma Justiça ágil, rápida e eficiente?” * Diretor da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas 26 MARÇO A ABRIL DE 2004 JORNAL DO MAGISTRADO