Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 OS IDEAIS ASCÉTICOS: A FIGURA DO SACERDOTE E O SIGNIFICADO DA RELIGIÃO EM NIETZSCHE Rimar César Diniz Faculdade de Filosofia CCHSA [email protected] Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros Ética, política e religião: questões de fundamentação CCHSA – Faculdade de Filosofia [email protected] RESUMO encontro do que o grupo “Ética, política e religião: questões de fundamentação” se propõe investigar, que é justamente o problema da fundamentação da ética e da moral. As religiões, sobretudo o judaísmo e o cristianismo, buscaram, por diversos séculos, fundamentar a existência de uma “ordem moral” que regesse as ações humanas no mundo. Entende-se, nesse sentido, que a moral não é aí concebida como um produto da interpretação humana, mas consolidada enquanto princípios existentes independentes da presença humana. Nesse sentido, durante a modernidade, bem como em toda a história do pensamento humano no ocidente, pode-se entender que o papel da filosofia e da religião foi procurar os fundamentos da moral. No entanto, no século XIX, Friedrich Nietzsche se opôs à ideia da tradição de uma moral determinada, “como coisa dada”. A seu ver, a moral é um produto da capacidade interpretativa do ser humano, que se vincula a um determinado tempo e espaço. Portanto, ele se pergunta sobre as condições primeiras em que se estabeleceram os valores defendidos pela tradição ocidental. Sua grande saga centra-se na questão sobre o valor do valor e, se existindo um valor, ele se questiona sobre o porquê e para quem o valor é valor. Para o filósofo alemão, o estabelecimento de uma moral determinada com princípios absolutos tem como objetivo mascarar a hostilidade para com a vida que, a seu ver, se concretiza por meio do poder do sacerdote ascético. Por trás de tais princípios, podem se esconder as mais terríveis formas de dominação sobre a vida. Para tanto, o presente trabalho objetiva analisar e explicar fragmentos das obras O Anticristo e Para a Genealogia da Moral, no intuito de compreender alguns aspectos do percurso que Nietzsche se utiliza para realizar a sua análise dos ideais ascéticos em relação religião. A presente pesquisa pretende analisar, a partir das obras Para a Genealogia da Moral e O Anticristo, como, para Nietzsche, o ideal ascético manifesta-se como um instinto não satisfeito, um instinto que vem em contradição à vontade de vida, já que tem sua origem em uma vida que se degenera e que vê nesse ideal a única maneira de se conservar. As condições fisiológicas são determinantes na avaliação da vida, visto que a afirmação ou a negação passam necessariamente pelas condições do existente e, inclusive, expressam a sua condição. Daí serem tomadas como sintoma de ascendência ou degenerescência da vida mesma. Todavia, a negação da vida configura-se, de fato, como possibilidade efetiva de sua preservação, pois a negação implica a manutenção do que é negado. Assim, faz-se da negação da vida um meio de combate não contra a vida, mas contra a morte e, portanto, faz-se dela a preservação da vida. Esse ideal, para o filósofo alemão, constitui o cerne do cristianismo, bem como sua alavanca de poder. Palavras-chave: Ideal ascético. Religião. Poder Área do conhecimento: Ética, política e religião: questões de fundamentação – Fenômeno Religioso: dimensões epistemológicas – FAPIC/Reitoria 1. INTRODUÇÃO Os ideais ascéticos são, para Nietzsche, o fundamento de uma moral que pretende se tornar absoluta. Desse modo, a ideia de verdades absolutas imutáveis assume a posição central do pensamento do filósofo, o que o leva a denunciar um tipo de poder dominante da vida preconizado pela religião, em especial, seu representante primeiro, o sacerdote ascético. Nesse sentido, o presente trabalho vai ao Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 2. ASPECTOS BIBLIOGRÁFICOS FRIEDRICH NIETZSCHE DE Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 no seio de uma família de tradição cristã, na pequena cidade de Rochen, Alemanha. Sua infância foi marcada por fortes turbulências, a destacar, a morte de seu pai em 1849, decorrente de uma doença degenerativa da massa encefálica. Embora marcado pela fragilidade, o jovem Nietzsche logo se destacou entre seus colegas por conta de sua capacidade intelectual. De 1858 a 1864 ele realizou seus estudos secundários no colégio de Pforta, onde recebeu sólida formação da cultura clássica. Em sequência, realizou seus estudos superiores de filologia na universidade de Bonn sob orientação do professor Ritschl. Esse período mostra-se significativo em sua vida, dado seu contato com os grandes mestres da história do pensamento ocidental, a destacar, a figura de Schopenhauer, cujo pensamento o influenciará, e muito, em sua análise da cultura. Em 1869, por indicação de Ritschl, tornou-se professor na Universidade de Basileia. Data-se, nesse momento, sua inserção ao universo intelectual, cuja resultante são as diversas obras, redigidas em forma de aforismos, de caráter crítico aos valores mais sublimes da cultura ocidental. A fase produtiva do pensador alemão findou em 1889, por conta de um colapso mental que, posteriormente, levou-o à morte em 25 de agosto de 1900. Um dos aspectos primordiais do pensamento desse filósofo é seu caráter afirmativo da vida que se opõe aos ideais ascéticos e ao ressentimento. 3. PRINCIPAIS CONSIDERAÇÕES 3.1. Os ideais ascéticos: da proveniência ao significado O tema dos ideais ascéticos, embora já diluído em toda obra nietzschiana, aparece enfaticamente na terceira dissertação de Para a genealogia da moral. Segundo Azeredo, Nietzsche o apresenta “[...] como suporte metafísico da religião, da moral, da filosofia e da ciência. A sua significação está diretamente relacionada com a busca de sentido e a salvaguarda da vontade de potência” (AZEREDO, 2003, p. 171). Com esse pressuposto, torna-se impossível compreender os ideais ascéticos sem antes descrever o que o pensador alemão redige ser a “vontade de potência”, uma vez que esse conceito abre perspectiva sobre a sua proveniência, seu significado e seu procedimento. A “vontade de potência” exerce, no pensamento nietzschiano, uma relação intrínseca com o conceito de “vida” e de “existência”. Em Assim falou Zaratustra lê-se: “onde encontrei seres vivos, encontrei vontade de potência” (ZA II p. 109). Outra obra de 1886, intitulada Para além de bem e mal se afirma: “[...] vida é ‘vontade de potência’” (BM IX §259). Na língua alemã, a palavra “machen”, ao ser traduzida para o português, aproxima-se do verbo “fazer” e não do termo “poder”, comumente traduzido. Por sua vez, “poder” significa “konnen” em alemão. Para tanto, ambos os termos devem ser interpretados enquanto expressão de “impulso, tendência e disposição” a algo. Nietzsche entende que, ao viver, o ser humano se apresenta como ser lançado em múltiplas possibilidades da existência. Ao estar na multiplicidade possível do existente, o homem revela a sua capacidade potencial. No entanto, sua existência depende a priori da potência, mas não somente dela. Segundo Safranski, “[...] podemos querer ou rejeitar muito bem a circunstância de estarmos na existência. Podemos sumir da existência por ato próprio, mas também podemos nos deixar apanhar pela vontade de existir e permanecer existindo. Já estamos aí, mas precisamos da vontade de existir para continuarmos aí” (SAFRANSKI, 2012, p. 258). Já a vontade revela-se como complemento da potência. Ao se manifestar como ser potencial, o homem depende da vontade que, por sua vez, desdobra enquanto condição necessária para a efetivação do seu caráter potencial. Desse modo, a vida permite-se enquanto projeto possível mediante ao excesso da vontade em “querer viver”. A afirmação da vida se dá ante a mediação da “vontade” em querer permanecer na existência enquanto vida. O filósofo inicia a terceira dissertação de Para a genealogia da moral afirmando que o “[...] fato de o ideal ascético haver significado tanto para o homem se expressa o dado fundamental da vontade humana, o seu horror vacui [horror ao vácuo]: ele precisa de um objetivo – e preferirá ainda querer o nada a nada querer” (GM III §1). A afirmação da vida tem, em seu estágio de efetivação, o pressuposto de um sentido para a existência humana. Toda vida requer para si um sentido, ou seja, um objetivo que mostre a sua eficácia e a sua finalidade enquanto projeto a ser desenvolvido na existência. A ausência desses pressupostos pode incorrer na negação da vida, levando o indivíduo a “sumir” da existência por ato próprio. Outro aspecto fundamental do pensamento nietzschiano é sua compreensão do mundo e da vida Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 como resultante do devir. Tudo o que está na natureza está em constante transformação, o que implica na mutabilidade do homem enquanto ser finito. Desse modo, Nietzsche entende que a degeneração da existência e a finitude do homem foi o grande abismo de toda história da humanidade. Qual o sentido de uma existência em contínuo processo degenerativo, concluso com a morte? Ao se deparar com essa questão, o autor entende que o ser humano viu-se ante o sem sentido. A finitude humana se apresenta como o grande montante que desvela a ausência de sentido. As dores decorrentes das transformações temporais demonstra que o destino do homem é a morte que, por sua vez, significa o fim de toda possibilidade existencial. Sendo assim, os ideais ascéticos originaram-se da ausência de sentido de uma vida mórbida que se degenera e se conclui com a morte. Para Nietzsche, “o ideal ascético significa precisamente isto: que algo faltava, que uma monstruosa lacuna circundava o homem – ele não sabia justificar, afirmar a si mesmo, ele sofria do problema do seu sentido” (GM III §28). Ante essa ausência de sentido, diversas culturas procuram, ao longo da história, desenvolver uma “cura” para a degeneração e a finitude da existência humana, de modo que, com isso, fosse dado um sentido para a sua existência. Na perspectiva de Nietzsche, os judeus se destacaram na história universal pelo fato de que, quando “[...] colocados ante a questão de ser e não ser, preferiram o ser a todo custo” (AC §24). A opção pelo ser revela a necessidade humana de estabelecer um meio que impeça ou justifique o movimento transformador do devir. Não obstante desse objetivo, o filósofo alemão entende que os judeus realizaram a transvaloração de todos os valores. Uma das primeiras características desse ato, decorrente do anseio de afastar-se das transformações e da morte, foi a (re) interpreção desse povo do seu conceito de Deus. Javé, antes conceituado como o Deus da unidade, da autoafirmação e da consciência de poder, deu espaço para um Deus metafísico que transcende toda imanência. Ao prescrever a transcendência sobre a imanência, Nietzsche compreende que os judeus desenvolveram uma dualidade existencial. De um lado, encontra-se o mundo-em-si, imanente à história, marcado pelo devir e a finitude e, de outro, o além-mundo, onde se encontra a soberania de Deus que, por sua independência do tempo, destina-se à eternidade. Desse modo, todo sentido da existência humana transfere-se para o além-mundo. O mundo-em-si passou a ser interpretado como um caminho ascético necessário para uma vida que se efetiva verda- deiramente depois da morte. Com isso, o ideal ascético desvela-se como ideal que transcende os limites da existência. O além-da-vida é o ideal que se deve buscar durante toda a caminhada do humano no mundo-em-si. O sofrimento e a dor, decorrentes desse processo de busca, são interpretados como condição necessária para a ascensão do homem no além-da-vida. A vida eterna é vista como prêmio àqueles que aceitaram sua condição frágil e deteriorada. Por sua vez, a morte não significa mais o fim da existência, mas a “ponte” que interliga o mundo-em-si ao além-mundo. Diante da ausência de autoafirmação e de sentido, os instintos saudáveis do indivíduo procuram, por todos os meios, sobreviver e estancar o processo degenerativo de modo a projetar um sentido para preencher o vazio da vontade. Desse modo, Nietzsche entende que “[...] o ideal ascético nasce do instinto de cura e proteção de uma vida que degenera, a qual busca manter-se por todos os meios, e luta por sua existência” (GM III §13). O instinto criador do ideal ascético exerce a força de preservação de uma vida em franco processo degenerativo, de modo que se torna necessário negar a vida-em-si, vista pelo prisma da dogmática judaico-cristã, como reflexo da realidade verdadeira. Para o pensador alemão, “[...] uma vida ascética é uma autocontradição” (GM III §11), pois o asceta aceita a dor decorrente da degeneração da vida e até mesmo a aceita como via para a preservação da vida. Todavia, a negação da vida configura-se, de fato, como possibilidade efetiva de sua preservação, pois a negação implica necessariamente a preservação do que é negado. Ao desenvolver a reflexão sobre o ideal ascético, sobretudo de modo a estabelecer sua relação com a religião, Nietzsche visa, nesse feito, expor as relações de poder decorrentes desse modo de interpretar moralmente a existência. Os ideais ascéticos, quando relacionados com a religião, assumem, no pensamento nietzschiano, as dinâmicas de uma política que tem, no pretexto moral, o objetivo de tornar-se uma instituição provedora da dinamicidade social, a partir da efusão de sentido para a existência humana. Nesse sentido, o sacerdote ascético, principal representante dos ideais ascéticos, tornase a figura eminente das relações de poder na medida em que ele atribui sentido, inverte valores e se apresenta como mediador entre o homem e Deus. Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 3.2. A FIGURA DO SACERDOTE ASCÉTICO E OS CONCEITOS DE RESSENTIMENTO, PARALOGISMO DA FORÇA E CULPA A elevação do conceito do deus judaico ao âmbito metafísico, atribuindo-lhe os predicados de onisciência, onipresença e onipotência representa a elucidação de um estágio moralizante da vida e dos fenômenos do mundo. Nesse sentido, é premente compreender que o pensador alemão “não entra diretamente a avaliar as provas da existência de Deus, mas expõe as raízes psicológicas e experimentais de que surge a necessidade de Deus” (ESTRADA, 2003, p. 185). Nesse contexto, o ato de crer em Deus não chega a significar um problema para Nietzsche. Sua preocupação primeira centrase no modo pelo qual se efetiva a fé e nos movimentos institucionais que se apresentam como dirigentes do sagrado. Desse modo, o sacerdote ascético, representante dos ideais ascéticos, torna-se o alvo de suas críticas. No entanto, a figura do sacerdote não deve ser vista somente relacionada à religião, mas, também, a representantes de núcleos ideológicos que visam o poder por intermédio de parâmetros universais inquestionáveis. Ao conceber a dualidade existencial, Nietzsche entende que se estabeleceu, no seio da cultura judaica, uma suposta “ordem moral do mundo”. “Que significa ‘ordem moral do mundo?’ Que existe, de uma vez por todas, uma vontade de Deus quanto ao que o homem tem e não tem de fazer; que o valor de um povo, de um indivíduo, mede-se pelo tanto que a vontade de Deus é obedecida” (AC §26). Com essa concepção, toda felicidade, fartura, sucesso e bem-estar passaram a ser interpretados como recompensa e, por outro lado, toda infelicidade, desgraça e castigo por desobediência a vontade de Deus. Nietzsche entende, portanto, que a fonte de poder da casta nobre-sacerdotal deriva da manipulação do conceito de Deus, porque, uma vez que os sacerdotes tornaram-se representantes da vontade divina, suas palavras passaram a ser temidas. Sendo assim, “[...] o sacerdote, abusa do nome de Deus” (AC §26) de modo que ele [o sacerdote] passa a ser a medida de todas as coisas e, também, indispensável em toda parte. Não obstante, “[...] é preciso um poder conferidor de valor, que nisso nega a natureza, que somente assim cria um valor... O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a natureza: é a esse custo que ele existe. – A desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à ‘Lei’ recebe então o nome de ‘pecado’; os meios de ‘reconciliar-se com Deus’ são, como é de se esperar, meios com os quais a sujeição ao sacerdote é garantida ainda mais solidamente: apenas o sacerdote ‘redime’ (AC §26). A relação do sacerdote ascético com o poder remete imediatamente à problemática da afirmação da vida. Para o autor, a afirmação existencial é o princípio resultante da “vontade de potência” no que concerne ser a projeção de um sentido para a existência. Ao estabelecer um sentido, o indivíduo se afirma como ser existencial. No entanto, a afirmação existencial pode segundo Nietzsche, ser interpretada como a efetivação resultante de dois estágios psicológicos: o primeiro é a autoafirmação, a qual o indivíduo se autoafirma. Nesse caso, o sentido da vida encontra-se na própria vida, de modo que as transformações temporais não são interpretadas como um problema, mas enquanto condição necessária de uma vida que se dá em um tempo e espaços próprios. O segundo é a afirmação resultante do ressentimento. Para o filósofo alemão, o ressentimento é um estágio psicológico que, em sua intensificação, pode se opor a vontade de vida. Quando o homem começa a sofrer com o problema de seu sentido, ou seja, o sem sentido, há nessa expressão de dor a presença do ressentimento. Se o homem sofre, qual é a causa desse sofrimento? Quem é o responsável pela sua dor? Desse modo, ao buscar um culpado pelo seu estado de degeneração, o ressentido inibe sua força vital para o novo, tornadose incapaz de suplantar as impressões passadas, o que o leva a um estado de impotência para a autoafirmação. Todo tempo termina gasto na procura de um responsável ao qual se pode atribuir à culpa da dor sentida e re-sentida. Nietzsche entende, portanto, que o sacerdote ascético, ao prescrever o projeto da transcendência sobre o da imanência assume, nesse ato, o controle do ressentimento. Ao perceber que o homem sofre do seu sentido, o sacerdote se dispõe como “médico” que “receita” um sentido para a sua existência degenerada. O além-mundo se apresenta como a grande “cura” para uma existência mórbida e finita. Nesse sentido, origina-se a moral escrava quando, segundo Nietzsche, “[...] o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtém reparação. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um outro, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador” (GM I §10). O modo de valorar do ressentimento começa com a negação do outro, com o seu “dizer Não a um fora”, Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 o que se opõe ao estado psicológico da autoafirmação, na qual o homem diz Sim a própria vida, de modo que sua potencialidade desvela-se como força criativa. O valor “bom” se efetiva por esse espírito como resultante de sua autoafirmação, ao passo que o valor “mau” se atribui aos fracos sem nenhum preceito moral. Por sua vez, a valoração do ressentimento tende, em primeira instância, negar o que está fora para depois se afirmar. Paradoxalmente é um modo afirmativo que incute sua origem na negação. Nesse sentido, a valoração do ressentimento assume o cunho moral, uma vez que, ao designar o seu externo como mau, há, nesse ato, uma predicancia de valor moral. No entanto, os bons, do ponto de vista da valoração do ressentimento, são aqueles que negam em si a força criativa, dado que somente os fracos são os amados de Deus. Nesse sentido, o sacerdote ascético afirma: “[...] bom é todo aquele que não ultraja, que a ninguém fere, que não ataca, que não acerta contas, que remete a Deus a vingança, que se mantém na sombra como nós, que foge de toda maldade, e exige pouco da vida, como nós, os pacientes, humildes, justos” (GM I §13). O discurso do sacerdote ascético revela que a fonte da força do ressentido está no contentamento de sua qualidade impotente dada como vontade divina. Desse modo, o homem torna-se passivo frente à vida, pois sua força se sintetiza na própria negação da força. Simultaneamente, seu olhar se volta para a figura de um Deus que se circunscreve como potência absoluta e que, nesse modo de ser, protege o impotente punindo os causadores de seu sofrimento. O conceito de um Deus que pune o responsável pela dor humana desvela-se, segundo Nietzsche, como a fonte do poder sacerdotal. Ao mesmo tempo, esse conceito cumpre duplamente a função de atribuir um sentido à dor do sofredor e de controlá-lo em favor do sacerdote ascético. Para tanto, “[...] o sacerdote ascético é aquele que muda a direção do ressentimento”. Ao buscar um culpado pela sua existência degenerada e finita, o sacerdote ascético se dispõe ante o sofredor e afirma: “isso mesmo, minha ovelha! Alguém deve ser culpado: mas você mesma é esse alguém – somente você é culpada de si! (GM III §15). Ao agir desse modo, o sacerdote muda a direção do ressentimento. O sofredor não necessita buscar uma causa que justifique a sua dor no exterior de seu ser, mas em seu próprio interior. Ele mesmo é a causa, isto é, se o homem sofre foi porque, em algum instante de seu passado, alguma de suas ações estava em desarmonia com a “ordem moral do mundo”, e a dor seria uma consequência disso, um castigo pela falta cometida por conta da desobediência a vontade de Deus. Mas o que é a vontade de Deus nesses termos? É a vontade do sacerdote! A leitura nietzschiana das relações entre os ideais ascéticos e a religião revela o perigo de um poder monopolizador que tem, na universalização e na inquestionabilidade de conceitos religiosos, a subestimação e a dominação da vida. Ao ver do pensador alemão, o cristianismo desvelou-se no ocidente como consequência necessária do judaísmo, assumindo para si o objetivo da dominação. Nesse sentido, Nietzsche compreende que o cristianismo se desenvolveu como o oposto do que ensinou Jesus de Nazaré. De um lado há o anuncio da boa nova que destitui qualquer pressuposto de ressentimento e, de outro, o cristianismo enquanto instituição fundada pelo apóstolo Paulo em sua reinvindicância de poder. Nesses termos, Martin Heidegger, interpreta que “o cristianismo é para Nietzsche o fenômeno histórico e político-mundial da igreja é da sua reinvindicação de poder dentro da configuração da humanidade ocidental e da sua cultura moderna. O cristianismo, nesse sentido, e a cristandade da fé do Novo Testamento não são o mesmo. Também uma vida não-cristã pode firmar o cristianismo, e usá-lo como factor de poder, tal como, ao contrário, uma vida cristã não precisa necessariamente do cristianismo. Daí que uma confrontação com o cristianismo não seja de modo nenhum e necessariamente um combate contra o que é cristão, da mesma maneira que uma crítica da teologia não é ainda uma crítica da fé, de que a teologia deveria ser a interpretação” (HEIDEGGER, 2002, p. 254). 4. CONSIDERAÇÕES FINAS Como já foi exposto no início desta pesquisa, os ideais ascéticos se apresentam, na concepção nietzschiana, enquanto suporte metafísico da moral, da filosofia, da religião e da ciência, no que concerne ser a atribuição de um sentido para a existência humana. No entanto, assim como se propôs esse estudo em analisar os ideais ascéticos quando relacionados com a religião, o breve exame do corpus nietzschiano revelou a subjacência de um poder que tem, em uma forma interpretação moral absoluta, a dominação. Tomando esses pressupostos, pode-se entender que uma interpretação possível da reflexão nietzschiana sobre os ideais ascéticos é o problema do poder sacerdotal. Desse modo, a moral cristã, herdeira de múltiplos atributos da cultura judaica, medi- Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 23 e 24 de setembro de 2014 ada pela ação do sacerdote ascético, visa, pretensiosamente, o absoluto. Com a centralização do poder moral em uma única interpretação possível da vida, Nietzsche denuncia a tentativa de insurreição da casta sacerdotal ao poder para dominar, não sobre algum aspecto da vida, mas sobre a vida mesma. Nesse sentido, o autor entende “[...] a “natureza pecaminosa” do homem não é um fato, mas apenas a interpretação de um fato, ou seja, uma má disposição fisiológica” (GM III §16). Com a pretensão da conquista do poder, o conceito de Deus nas mãos da casta sacerdotal deixa de ser um modo de exteriorizar a potencialidade de vida reduzindo-o, enfim, a um manípulo de dominação, pelo qual se apropria da fraqueza e da debilidade para inferir, com isso, a opressão e, possivelmente, uma justificativa para as misérias humanas. Por fim, pode-se considerar que há quem diga que a reflexão nietzschiana está vinculada a um período histórico com suas características próprias, a saber, o fim da modernidade e que, por esse motivo, tal reflexão não corresponda mais à atual conjuntura social resultante das diversas evoluções, sobretudo das religiões. Pensar desse modo tende a reduzir a tônica do pensamento crítico de Nietzsche, o que não resultaria em uma infâmia contra o pensador. No entanto, a filosofia nietzschiana se vivifica na história à medida que ela contribui para pensar a atualidade, em especial, denunciar as novas formas de dominação religiosa, política, moral e ideológica que, por vezes se renovam ou se revestem de novas máscaras. 5. AGRADECIMENTOS Agradeço a FAPIC/Reitoria pela concessão da bolsa de Iniciação Científica e fomento. À Dra. Vânia Dutra de Azeredo pelo incentivo no início dessa pesquisa. Ao Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros que assumiu, com grande motivação e disponibilidade, a orientação da pesquisa no início do ano. A todos os integrantes do Grupo de Pesquisa “Ética, política e religião: questões de fundamentação” pelo apoio e motivação. À PUC-Campinas pela disponibilidade e eficiência na impressão dos pôsteres. Aos avaliadores, pela motivação e confiança. Aos meus amigos, Ir. Cláudio, Jonas e Diego, companheiros de caminhada, pela paciência e solidariedade. Em especial, efetivo meu eterno agradecimento à Congregação do Santíssimo Redentor pela motivação, pela confiança, pelo apoio e pela dedicação para com minha formação. Por fim, a todos que, direta ou indireta- mente, possibilitaram a execução desse Projeto de Iniciação Científica concluído com êxito. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] AZEREDO, Vânia Dutra. Nietzsche e a dissolução da moral. São Paulo: Discurso Editorial & Unijuí, 2000. [2] ESTRADA, Juan Antonio. Deus nas Tradições Filosóficas: Da morte de Deus à crise do sujeito. Trad. Maria A. Diaz, São Paulo: Paulus, 2003. [3] FINK, Eugen. La filosofía de Nietzsche. Trad. Andrés Sánches Pascual, Madrid: Aliaza Editorial Presença, 1996. [4] HEIDEGGER, Martin. A palavra de Nietzsche "Deus morreu". In: Caminhos de Floresta. Trad. André Sá. Lisboa: Calouste Gulbekian, 2002. [5] LEFRANC, Jean. Compreender Nietzsche. Trad. Lúcia M. Endlich Orth. Ed. 4. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. [6] NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra. Trad. Paulo César Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2011. [7] _________________. Genealogia da moral. Trad. Paulo César Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2008. [8] __________________. Além do Bem e do Mal. Trad. Mário Ferreira dos Santos, São Paulo: Editora Vozes, 2009. [9] _________________. O Anticristo. Trad. Paulo César Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2009. [10] SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche: biografia de uma tragédia. Trad. Lya Luft, São Paulo: Geração, 2001.