UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ FRANCISCO HERCULANO CAMPOS NETO CUIDADO À MÃE ADOLESCENTE NAS FASES DE PARTURIÇÃO E PÓS-PARTO: OLHAR DAS USUÁRIAS E DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE FORTALEZA – CE 2012 1 2 FRANCISCO HERCULANO CAMPOS NETO CUIDADO CLÍNICO À MÃE ADOLESCENTE EM UNIDADE HOSPITALAR: OLHAR DAS USUÁRIAS E DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre. Orientadora: Profª. Drª. Maria Veraci Oliveira Queiroz Linha de Pesquisa - Maternidade na adolescência: cuidado clínico à mãe e ao recém-nascido e o acompanhamento em unidade hospitalar. FORTALEZA – CE 2012 3 FRANCISCO HERCULANO CAMPOS NETO CUIDADO CLÍNICO À MÃE ADOLESCENTE EM UNIDADE HOSPITALAR: OLHAR DAS USUÁRIAS E DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre. Dissertação aprovada em: 18 de dezembro de 2012 BANCA EXAMINADORA Profª Drª Maria Veraci Oliveira Queiroz (Orientaddora) Universidade Estadual do Ceará Profª Drª Ana Karina Bezerra Pinheiro (1ª avaliadora) Universidade Federal do Ceará Profª Drª Dafne Paiva Rodrigues (2ª avaliadora) Universidade Estadual do Ceará 4 Dedico este trabalho, em especial, aos meus pais Antonio e Alice, que me educaram e me apresentaram os caminhos que a vida nos possibilita. E, mais importante me ensinaram a fazer escolhas. 5 AGRADECIMENTOS A Deus, pelo objetivo alcançado, e por ter colocado em meu caminho: minha família, minha noiva, meus amigos, e todas as pessoas que fazem parte deste trabalho. À professora Doutora Maria Veraci Oliveira Queiroz, pela oportunidade de compartilhamento de saberes e aquisição de novos horizontes; pela orientação dedicada; pelo incentivo e por sempre ter acreditado em mim, principalmente nos momentos em que fui omisso em minha trajetória acadêmica. Aos meus irmãos, Judson Lima, Lívia Maria e Dara Luiza, que torcem por mim e compreenderam minhas ausências em reuniões ou confraternizações familiares. A minha Noiva, Carla de Alencar, muito em breve, Minha Esposa que sempre me deu apoio, carinho e amor. Obrigado por fazer parte da minha vida, pela convivência harmoniosa, pelo aprendizado, pelo amadurecimento. Agradeço por compreender os fins de semanas dedicados exclusivamente à feitura da Dissertação. Agradeço por poder acordar, admirando a beleza dos teus olhos. À professora Edna Guerra, minha tutora, amiga, coordenadora, e agora, madrinha de casamento, que sempre me teve como filho, aconselhando, apoiando e alertando dos caminhos acadêmicos e da vida. Obrigado por existir em minha vida e pela oportunidade. A todo o corpo docente, discente e técnico-administrativo da FAMETRO que de forma direta ou indireta contribuíram para a concretização deste trabalho. Aos meus amigos pelo apoio e incentivo em sempre seguir em frente para alcançar novos patamares na vida profissional e pessoal. Agradeço em especial, aos amigos Márcio, Elane e Fabiano que sempre acreditaram e torceram por mim e compreenderam o fato de ter que recusar convites para grandes festas. À psicóloga do HGF Jane Eyre, pela participação na execução da oficina de elaboração do Fluxograma e pela disponibilidade em sempre querer ajudar o próximo. A todos os amigos da inesquecível 7ª turma de Mestrado The Best of The Best. Às gestantes entrevistadas, assim como à equipe de profissionais do Setor de Obstetrícia do HGF que possibilitaram os dados para as discussões do trabalho. Muito Obrigado. 6 RESUMO Este estudo aborda o cuidado clínico às adolescentes em situação de parturição e pósparto, tendo como eixo norteador o princípio da integralidade. A adolescente precisa ser assistida de forma singular pelos profissionais de saúde, pois essas jovens, com frequência, experimentam maior sensação de insegurança perante o momento obstétrico e o próprio futuro. A pesquisa objetivou analisar o cuidado clínico dispensado à mãe nas condições de maternidade na adolescência, destacando as ações de enfermagem na perspectiva da integralidade e compreender os caminhos percorridos pelas mães adolescentes no processo de parturição e pós-parto e sua interface com o cuidado. Estudo de abordagem qualitativa desenvolvido no Setor de Obstetrícia de um hospital terciário da rede pública na cidade de Fortaleza. A pesquisa foi delineada em três etapas: observação sistemática do cuidado nas unidades do referido setor, entrevista com doze mães adolescentes internadas na obstetrícia e por fim elaboração de uma oficina com seis profissionais para a feitura do fluxograma descritor relativo aos caminhos percorridos pelas adolescentes no processo de parturição e sua interface com o cuidado. Seguindo os passos da análise, foram construídas as seguintes categorias: Acesso da mãe adolescente à unidade hospitalar; Acolhimento da mãe adolescente na emergência obstétrica; Abordagem dos profissionais de saúde e do enfermeiro à parturiente no centro obstétrico e Cuidado clínico à mãe adolescente na fase do pósparto. Quanto à caracterização das mães adolescentes a idade variou entre 15 e 19 anos, com uma média de 16,9 anos; a maior parte delas morava com os pais, considerava-se solteira seguida de união consensual. Tinham um significativo atraso nos estudos, pois nenhuma conseguiu concluir o ensino médio. As jovens conseguiram adentrar ao serviço na primeira procura, e por vezes enfrentaram dificuldades como longo tempo de espera e lotação. Na visão das mães adolescentes o acolhimento se deu de maneira satisfatória e a formação do vínculo com os profissionais do serviço também foi percebida de forma natural pelo convívio anterior e no período de parturição. Sobre as relações interpessoais com os profissionais de Enfermagem notou-se que muitos realizaram um cuidado afetivo e humanizado às jovens e seus bebês, aproximando-se e interagindo de modo a perceber os sentimentos destas mães e as necessidades de cuidado. Entende-se que o acolhimento e como consequência o vínculo se processa em todas as etapas na produção do cuidado, pois quando a paciente se depara com os profissionais e trabalhadores da saúde pode haver alguma situação em que se fortaleça o estabelecimento de vínculo ou mesmo o contrário. Dentre os principais ruídos relatados pelos profissionais se referem à forma como a gestante dá entrada na emergência obstétrica e à dificuldade da alta hospitalar às mães adolescentes que ainda continuam com o recém-nascido internado. As reflexões suscitaram nos profissionais pensamentos que podem instigar a busca de melhorar o cuidado por meio de interações e articulações dos profissionais e serviços, para que possam se aproximar da integralidade no cuidado às adolescentes na fase de parturição. Este trabalho provocou momentos de reflexões que sugerem a produção de serviços e ações profissionais mais criativos e integrados com a causa da adolescente em parturição, de modo que sua socialização poderá ensejar mudanças na micropolítica do trabalho, um esforço conjunto para buscarem solução para os conflitos e rupturas no cuidado. Descritores: Adolescência. Maternidade. Enfermagem. Profissionais de Saúde. Cuidado. 7 ABSTRACT 8 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CID-10 - 10ª REVISÃO DA CLASSIFICAÇÃO ESTATÍSTICA INTERNACIONAL DE DOENÇAS E PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE DATASUS – DEPARTAMENTO DE INFORMÁTICA DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE MS - MINISTÉRIO DA SAÚDE OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE PAISM – POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE DA MULHER PNHAH - PROGRAMA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA HOSPITALAR PROSAD – POLÍTICA DE ATENÇÃO À SAÚDE DO ADOLESCENTE 9 SUMÁRIO 1- INTRODUÇÃO.......................................................................................... 11 1.1 Contextualização e Problemática do Estudo................................................ 2- OBJETIVOS ............................................................................................. 24 3- QUADRO TEÓRICO ............................................................................... 25 3.1 O Cuidado de Enfermagem e os Caminhos da Integralidade ........................ 25 3.2 Políticas de Atenção à Saúde da Mulher e do Adolescente e as Perspectivas da Integralidade ............................................................................................ 31 4- PERCURSO METODOLÓGICO ............................................................. 37 4.1 Tipo de Pesquisa ......................................................................................... 37 4.2 Local do Estudo .......................................................................................... 38 4.3 Sujeitos da Pesquisa ................................................................................... 40 4.4 Período e Coleta de Dados ...................................................................... 41 4.5 Análise dos Dados..................................................................................... 44 4.6 Aspectos Éticos e Legais ............................................................................ 46 5- RESULTADOS E DISCUSSÃO............................................................... 47 5.1 CUIDADO À MÃE ADOLESCENTE NA FASE DE PARTURIÇÃO E PRODUÇÃO SUBJETIVA NOS ENCONTROS COM OS TRABALHADORES DE SAÚDE................................................................... 47 5.1.1 Breve caracterização das mães adolescentes.............................................. 47 5.1.2 Acesso da mãe adolescente à unidade hospitalar ......................................... 48 5.1.3 Acolhimento da mãe adolescente na emergência obstétrica ........................ 55 5.1.4 Cuidado clínico à parturiente no centro obstétrico....................................... 65 5.1.5 Cuidado clínico à mãe adolescente na fase do pós-parto ............................. 73 5.2 FLUXOGRAMA DESCRITOR REFERENTE À PRODUÇÃO DO CUIDADO À ADOLESCENTE EM PARTURIÇÃO NO SETOR DE OBSTETRÍCIA ................ 78 10 6- CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................... 90 6.1 Limitações do estudo ....................................................................................... 93 REFERÊNCIAS................................................................................................. 94 GLOSSÁRIO..................................................................................................... 102 APÊNCIDE A - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO 108 (mães adolescentes)................................................................................................ APÊNDICE B - ROTEIRO DA OBSERVAÇÃO SISTEMÁTICA..................... 109 APÊNDICE C – ROTEIRO DA ENTREVISTA.............................................. 111 APÊNDICE D – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO 113 (profissionais).................................................................................................................. APÊNDICE E - MATERIAL UTILIZADO PARA PROJEÇÃO EXPLICAÇÃO DA OFICINA.......................................................................... APÊNDICE F - FOTOS DA ELABORAÇÃO DO FLUXOGRAMA.................. E 114 120 ANEXO A – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DO 122 HOSPITAL GERAL DE FORTALEZA........................................................... 11 1 INTRODUÇÃO 1.1 Contextualização e Problemática do Estudo Define-se adolescência de modos diversos, seja temporal, social, fisiologicamente e psicologicamente. Dentre esses podemos destacar a definição do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como a fase da vida entre 12 e 18 anos de idade (Brasil, 1990). Para efeito desse estudo, será considerada a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) que entende a adolescência compreendendo o período entre 10 e 19 anos de idade, subdividido em adolescentes menores (de 10 a 14 anos) e adolescentes maiores (de 15 a 19 anos) (OMS, 1995). Complementando os significados da adolescência, podemos usufruir das contribuições de Ferreira, et. al. (2007) que definem como sendo uma fase em que múltiplas mudanças acontecem e se refletem no corpo físico, pois o crescimento somático e o desenvolvimento em termos de habilidades psico-motoras se intensificam e os hormônios atuam vigorosamente levando a mudanças radicais de forma e expressão. Portanto, a delimitação da adolescência como uma das fases da vida apoiase em uma perspectiva diacrônica, linear. Segundo ela, o processo de desenvolvimento é entendido a partir da passagem do indivíduo por etapas ordenadas da vida: nascimento, infância, adolescência, vida adulta ao envelhecimento (OLIVEIRA, 2008). Percebe-se essa fase da vida, também em virtude do convívio diário, como uma fase repleta de questionamentos e instabilidade, caracterizando-se por uma intensa busca de si mesmo e da própria identidade. Muitos dos padrões estabelecidos e reproduzidos pelos pais são questionados nessa fase, portanto não se trata somente de uma simples fase de transformações corporais, mas como importante período do ciclo existencial da pessoa. No Brasil, temos atualmente, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância - UNICEF (2011), 30% da população composta por adolescentes de um total de 191 milhões de habitantes. Isso nos remete a ter uma atenção específica voltada para os adolescentes, uma vez que caberá uma responsabilidade social junto a essa geração na busca de soluções para muitos dos desafios da contemporaneidade, como a crise financeira mundial, o desemprego estrutural, a mudança climática que gera degradação ambiental, a urbanização e migração, o envelhecimento das sociedades e a pandemia do HIV/AIDS, dentre outros. Com efeito, investir no desenvolvimento dos adolescentes é disponibilizar ferramentas para que encarem os desafios do seu tempo e haja um esforço coletivo para 12 melhoria de sua vida, assim como a de seus pares, sua família, sua comunidade e seu país (UNICEF, 2011). Não podemos deixar de elucidar, nesse contexto do ser adolescente, os determinantes sociais que têm impacto direto na população jovem. Dentre os de maior representatividade, podemos elencar alguns, quais sejam, os acidentes e homicídios, sobretudo relacionados ao tráfico de drogas e uso abusivo de álcool e as intercorrências relacionadas à gravidez e maternidade (BORGES; FUJIMORI, 2009). Iniciamos a exposição desses determinantes, considerando a mortalidade por causas externas, que conforme dados obtidos no portal DATASUS, foi responsável por mais de 16 mil mortes no Brasil em 2010, entre os adolescentes, sendo que 78,3%, estavam relacionadas à violência urbana (acidentes de trânsito e agressões físicas). (BRASIL, 2012). Outra causa de morte bem expressiva, principalmente por ser um indicador de qualidade de vida é a mortalidade materna que finalizou o ano de 2010, conforme dados oriundos do portal DATASUS, com 273 mortes, entre as adolescentes, no Brasil. Considerando que no mesmo período nasceram 552630 crianças de mães na mesma faixa etária, tem-se uma razão de mortalidade materna de 49,4 por 100.000 nascidos vivos. A OMS estabelece como aceitável um valor de até 20 óbitos por cem mil nascidos vivos. A mortalidade materna é um indicador da qualidade de vida de uma população, mediante a evidência de que mortes precoces poderiam ser evitadas pelo acesso em tempo oportuno a serviços qualificados de saúde (CEARÁ, 2011). A mortalidade materna é definida pela 10ª Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) como a morte de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gestação, independentemente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas em relação a ela, porém não devida a causas acidentais ou incidentais (OMS, 1998). Isso chama atenção, em virtude dos riscos atribuídos à gravidez em faixas etárias extremas, como a adolescência menor (10 a 14 anos) e a fase adulta com mais de 45 anos. “A idade materna tem sido apontada como importante fator de identificação do risco de morte materna, sendo maior nas faixas etárias extremas de 10 a 14 anos (121,9 por 100.000 nv) e de 45 a 49 anos, (564,9 por 100.000nv)” (CEARÁ, 2011). Diante da predominância das causas obstétricas diretas evitáveis, faz-se necessário 13 intensificar as ações direcionadas para os serviços de saúde no que se refere à assistência à mulher no ciclo gravídico-puerperal. Considerando as ocorrências relatadas acima, nos remete a responsabilidade e esforços para investir cada vez mais na saúde da mãe adolescente, no intuito de minimizar os danos à saúde ao binômio mãe-filho atendendo aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) destacando o princípio a integralidade a envolver vários dispositivos na atenção e no cuidado à saúde. Neste estudo destacaremos vários dispositivos que se articulam para promover alguns aspectos da integralidade tais como o acesso, o vínculo e a responsabilização, pois sem a integração destes não haverá um cuidado efetivo e de qualidade que atenda as necessidades de saúde da população. Desta forma, integralidade existe em ato e pode ser demandada na organização de serviços e renovação das práticas de saúde, sendo reconhecida nas ações do cuidado que têm em suas concepções a idéia força de considerar o usuário como sujeito a ser atendido e respeitado em suas demandas e necessidades (PINHEIRO, 2001). Assim, integralidade está presente no encontro, na conversa, na atitude do profissional que busca prudentemente reconhecer, para além das demandas explícitas, as necessidades dos cidadãos no que diz respeito à sua saúde (GOMES E PINHEIRO, 2005). Portanto, o acolhimento surge como a possibilidade viável de promover uma nova modelagem na organização da assistência em saúde (COELHO, et. al., 2009). Esse princípio do SUS torna-se um conjunto de ações em rede que dão o devido suporte para as práticas do cuidado centrado no individuo, tornando importante e valorizado em suas necessidades. Reportando-se aos dispositivos da integralidade, trazemos conceitos de Mehry (1997) sobre acolhimento, vínculo e responsabilização. Entende-se por acolhimento uma relação humanizada em que os trabalhadores, como um todo, têm de estabelecer com os usuários, alterando a impessoalidade dominante no trato cotidiano dos serviços de saúde. No tocante ao vínculo, segundo o autor, o profissional de saúde deve ter relações claras e próximas com os usuários, integrando-se com a comunidade em seu território, tornando-se referência para suas ações. Sobre a responsabilização, o pesquisador assim se pronuncia: o profissional assume a indicação e garantia dos caminhos a serem percorridos para resolução do problema, não cabendo a transferência burocrática para outra instância decisória ou nível de atenção. 14 Considerando que o Brasil tem uma política de atenção integral e humanizada ao parto e nascimento, além de outras ações inovadoras para qualificar o cuidado à mãe e à criança, é preciso investir na melhoria dos serviços de saúde e no compromisso profissional, pois ainda se acompanha alguns (des)casos na assistência hospitalar que comprometem o cuidado à mãe adolescente e de seu filho. Em relação à prestação de uma assistência hospitalar não condizente com a qualidade almejada pelos usuários, citamos o estudo de Rodrigues (2007) que apresenta resultados sobre a satisfação do cuidado ofertado pela enfermagem a partir da ótica das puérperas, o qual conclui que a maioria referiu insatisfação com o cuidado dispensado pela equipe de enfermagem durante a hospitalização dessas e de sua permanência na Unidade de Alojamento Conjunto. A partir de um estudo realizado por Queiroz, Ribeiro e Pennafort (2010) em um hospital terciário na cidade de Fortaleza, com adolescentes que procuravam cuidados de saúde, mostrou que a dificuldade de acesso acontece na porta de entrada, lugar onde é realizada a “triagem”, sejam elas oriundas de uma demanda espontânea ou referenciada por outros serviços. No entanto em relação ao cuidado na unidade de internação muitos adolescentes relataram satisfação com o serviço prestado pelos profissionais de saúde no atendimento de suas demandas. Retomando a questão dos determinantes sociais vinculados diretamente aos jovens, citamos a maternidade na adolescência que tem sido um tema polêmico e controverso nos debates sobre saúde sexual e reprodutiva deste segmento. Para Gama et. al (2001), algumas jovens visualizam esse fenômeno como algo muito prejudicial, porém alguns estudos como Soares e Lopes (2011), Andrade, Ribeiro e Ohara (2009) e Almeida (2003) contextualizam essa como sendo uma etapa natural da vida, a de reprodução e como uma busca da autonomia. Concordando com as idéias de Borges e Fujimori (2009), que relatam ser equivocado atribuir à gravidez na adolescência três adjetivos os quais nem sempre correspondem à realidade. O primeiro de que é sempre precoce; em segundo lugar, considera-se a gravidez na adolescência como simultaneamente causa e consequência da pobreza e como terceiro aspecto ter sido concebida como necessariamente não desejada. Durante as leituras acerca da temática em estudo, percebe-se que alguns autores direcionam as pesquisas para o cunho social, avaliando o impacto na vida dessa mãe adolescente, suas adaptações, suas dificuldades enfrentadas após o nascimento, as redes de apoio, principalmente familiar, o perfil sócio-demográfico dessas adolescentes 15 (GIGANTE, 2008; OLIVIERA, 2008; SANTOS, 2003; SOARES e LOPES, 2011; BERRETA, 2011). Outros estudos (Gama et al, 2001; Barros, Araújo e Lins, 2008; Magalhães et al, 2006) abordam as questões relativas ao cuidado prestado durante o ciclo gravídico-puerperal, envolvendo as demandas e necessidades subjetivas dessas mães, que assumem a maternidade precocemente no tocante aos ambientes de cuidado hospitalar. Portanto, conforme se percebe e vislumbra a maternidade na adolescência, pode vir a determinar ou influenciar na forma como se processa o cuidado. A partir de dados do portal DATASUS referente a partos entre adolescentes no Brasil, percebe-se uma redução significativa. Na última década houve um decréscimo da ordem de 34,6%, considerando os partos realizados na rede SUS. O Ministério da Saúde atribui essa queda às campanhas de educação em saúde destinadas aos adolescentes e à ampliação do acesso ao planejamento familiar. (BRASIL, 2011b). No ano de 2009 foram investidos mais de 3,3 milhões de reais nas ações de educação sexual e reforço na oferta de preservativos aos jovens brasileiros (BRASIL, 2011a). Todavia, percebe-se, na mídia, uma maior atenção, somente nos períodos do carnaval, e ainda questionamos como são feitas às abordagens a estes jovens; como é de fato esta educação sexual. Em pesquisa realizada por integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisa em Saúde da Criança e do Adolescente – GEPCCA, no mesmo ambiente onde foi desenvolvida esta pesquisa, verificou-se que a taxa de gravidez/maternidade na adolescência corresponde a 22%, com faixa etária mais predominante entre 15 e 19 anos, portanto a adolescência maior. E, ao serem indagadas sobre o atendimento do hospital, por parte dos profissionais de saúde, as mães adolescentes relatam estarem satisfeitas, pois são bem atendidas na hora do parto e depois são estimuladas aos primeiros cuidados com o bebê (GALENO, 2010). É importante ressaltar que as pesquisas nessa área de gravidez e maternidade na adolescência envolvendo riscos e a melhoria da assistência não é algo novo, mas continuam sendo motivos de investigações, principalmente os aspectos subjetivos, o uso das tecnologias para qualificar o cuidado. A enfermagem busca em seu cotidiano aperfeiçoar esse cuidado e para o alcance desse objetivo deve apropriar-se dos conhecimentos específicos da sua área e daqueles construídos em áreas afins para fortalecer e efetivar as políticas públicas no campo da saúde, tornando o seu fazer uma 16 prática social relevante e reconhecida no meio em que está inserida - a equipe multidisciplinar. Para Merhy (1997) o trabalho em saúde é um processo relacional, produzido através do trabalho vivo em ato, ou seja, a partir do encontro entre duas pessoas onde se estabelece um jogo de expectativas e produções criando espaços de escutas, falas, empatias e interpretações. Utiliza para sua realização as tecnologias de saúde tipificadas como: tecnologias duras, que têm em sua estrutura uma característica dada a priori; leve-duras apresentam uma parte estruturada, o conhecimento, e outra leve relacionada ao modo de agir singular de cada trabalhador, dizem respeito aos aspectos interrelacionais. Dessa forma, o cuidado promovido pela equipe de saúde é etapa fundamental do processo de trabalho, pois é a partir deste que as ações se articulam e deve ter inovações em sua organização. Com efeito, uma equipe implicada na produção do cuidado organiza seu processo de trabalho com base na interação entre trabalhadores, opera em rede articulando o cuidado através de uma rede de conversas entre si, e com os demais serviços. Ela produz um mapa sobre o qual caminham os processos de cuidado (ANDRADE E FRANCO, 2009). Para perceber como se dá esse processo de cuidado podemos nos apropriar de uma ferramenta de trabalho denominada fluxograma descritor. Sob essa ótica, tal fluxograma na perspectiva da maternidade adolescente em um cenário hospitalar, tem o propósito de descrever os caminhos percorridos por essa população em busca de atender suas necessidades, sejam elas biológicas, sociais ou subjetivas. Dessa forma teremos a possibilidade de conhecer mais apropriadamente as nuances da atenção à parturiente adolescente e de que maneira se configura o cuidado para a mesma. Nesse sentido, a usuária, ao procurar um serviço de saúde, necessita ser acolhida para que possa expressar suas necessidades e se envolver numa dinâmica que possibilite a vinculação com os trabalhadores, a partir de uma relação de respeito mútuo aos saberes que ambos possuem (SANTOS, 2009). Ainda, o autor, acrescenta que é preciso superar mais uma das modalidades de fragmentação no campo da saúde, referente ao monopólio do diagnóstico de necessidades por parte dos trabalhadores da saúde, pois se percebe uma hierarquização na definição do plano de cuidados em saúde, a partir do modelo centrado no profissional médico. Torna-se pertinente que os processos de reorganização dos serviços que visam o desenvolvimento de práticas integrais, incorporem o acolhimento e o 17 estabelecimento de vínculo enquanto diretrizes prioritárias para a construção de relações efetivamente cuidadoras, a envolver predominantemente, as tecnologias leves. No entanto, não se trata de descartar o uso das tecnologias duras como os equipamentos de exames e fichários nem as leve-duras como os saberes profissionais estruturados, mas de associá-las sob o comando das tecnologias leves. Isso se torna relevante, pois na medida em que a organização do cuidado predomina em torno das tecnologias duras e leve-duras, surge uma nova possibilidade de reorganização da ações em saúde, principalmente de enfermagem. Os objetivos deste estudo vão ao encontro das contribuições do estudo de Gomes, Fonseca e Roballo (2011), pois compreender o momento do parto pela perspectiva das adolescentes é de fundamental importância para que o(a) enfermeiro(a) planeje e execute uma adequada assistência durante todo o ciclo gravídico-puerperal, reduzindo o impacto das representações negativas associadas a esse processo. Soma-se a essa visão, as contribuições dos profissionais de saúde envolvidos na produção do cuidado, os quais expressam o fluxo do atendimento, assim como os problemas advindos dessa trajetória. Em se tratando da produção do cuidado, focaremos as ações de Enfermagem nesse contexto à adolescente para analisar como o enfermeiro se insere na atenção à saúde da mãe adolescente, uma vez que esse profissional é um dos que mais mantém contato durante as 24 horas do dia na assistência à saúde e este tema, atualmente, é prioridade na política brasileira. O cuidado encontra-se fundamentado em conhecimento científico e na autonomia profissional. Partindo dessa concepção, a Enfermagem é reconhecida como ciência e arte, uma vez que os avanços na área da saúde foram provocando mudanças significativas, principalmente na assistência. Destarte, “o cuidado como caridade e amor por si só não são mais suficientes para colaborar com a saúde do enfermo. O cuidado de enfermagem passou a depender de dois fatores: habilidade/experiência e conhecimento” (NÓBREGA; SILVA, 2008 p.93). A noção de cuidado vem reafirmar as práticas de saúde como estratégias que implicam um produção humana, sendo, portanto, o cuidado em saúde uma ação integral que configura a saúde como direito de ser, por meio de seus significados, mas, sobretudo, de seus sentidos (PINHEIRO; GUIZARDI, 2006). Outra compreensão de cuidado, quando relacionado à integralidade, afirma ser este entendido como vínculo, responsabilização, acolhimento e uma escuta mais humanizada e mais comprometida 18 com os aspectos individuais e coletivos, que transversaliza qualquer ato de saúde, numa rede de complexidade (GUAZINA, 2009). Colocando-nos nessa perspectiva de contribuir para ampliar as discussões sobre a temática da Saúde do Adolescente, desenvolveremos esse estudo que faz parte de um projeto na área de maternidade na adolescência abordando o cuidado clínico dispensado à mãe adolescente, desenvolvido no Grupo de Pesquisa e Estudos na Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Estadual do Ceará. A partir das contribuições dos estudiosos sobre tecnologias do cuidado e associando aos princípios da integralidade, o cuidado clínico de enfermagem poderá ser construído junto à mãe adolescente com ferramentas mais efetivas e com mais qualidade. Temos como uma das ferramentas para a efetivação desse cuidado, as tecnologias leves-duras e leves, que tratam respectivamente do conhecimento técnico e das relações humanas. Investir nas relações interpessoais pode ser um primeiro passo para um reconhecimento da enfermagem, principalmente por parte do usuário do serviço de saúde. Sabe-se que na saúde tem-se avançado muito no quesito tecnologia sofisticada, de ponta que auxiliam, ou muitas vezes, são fundamentais no diagnóstico/tratamento das doenças. Porém, a essência fundamental para cuidar, a subjetividade do ser cuidado, algumas vezes tem ficado em segundo plano. No setor saúde, a impessoalidade com que os profissionais atuam, a despersonalização dos usuários e a substituição de uma relação dialógica por exames e procedimentos transformam esse setor em produtor de violência contra as pessoas. Nessa perspectiva, o(a) enfermeiro(a), além de proporcionar um ambiente tranquilo, acolhedor e saudável, precisa minimizar os sentimentos negativos e suas possíveis consequências, problematizando temores, tabus e preconceitos, pois o cuidado prestado por esse profissional tem um “impacto considerável no âmbito do pré-natal, do parto e do puerpério (GOMES, FONSECA e ROBALLO, 2011). Indubitavelmente, a gestante adolescente assistida em um serviço de alta complexidade requer atenção e cuidados diferenciados por parte dos profissionais observando as peculiaridades da fase, pois essas jovens, com frequência, experimentam maior sensação de insegurança no decurso do momento obstétrico e em relação ao próprio futuro. Na prática, entretanto, se observa pouca ou nenhuma especificidade no cuidado dispensado à adolescente parturiente. Um cuidado prudente à saúde da gestante, associado a uma adequada assistência ao parto contribuem para a promoção da saúde da 19 mulher e do recém-nascido. O período da gestação e a chegada do parto são experiências definitivas para a vida reprodutiva do ser humano, sendo que as mudanças enfrentadas pela mulher são de enorme significado para a sua vida pessoal e no relacionamento familiar. Concepções e práticas no cuidado ao adolescente devem ser constituídas com base em necessidades detectadas pelos agentes produtores de saúde. A atenção ao adolescente configura-se como espaço essencial nos âmbitos da assistência e da formação acadêmica, em ambientes de produção de cuidados, que buscam transformações focalizadas nos aspectos da humanização e da formação do sujeito e de sua cidadania (QUEIROZ, RIBEIRO e PENNAFORT, 2010). Temos observado que, não basta a existência de um hospital moderno, repleto de equipamentos sofisticados, com oferta de exames e procedimentos, dispensação de medicamentos de alto custo, além de outras intervenções consideradas de ponta e de alta tecnologia. Torna-se extremamente importante em uma equipe de saúde capacitada também a manter a relação efetiva no intuito de promover e comprometida com a situação da maternidade na adolescência, possibilitando um olhar diferenciado para essa população. No entanto, a disponibilização de recursos humanos na área da saúde do adolescente nem sempre atende as necessidades específicas. Para reduzir estas dificuldades e obter resultados que permitam realizar o cuidado com qualidade, é preciso conjunção de várias dimensões do saber e do fazer, voltadas para as necessidades e demandas desta população. O cuidado às adolescentes na fase de gravidez e parturição recebe uma atenção diferenciada, em razão do compromisso de seguir as prerrogativas do Sistema Único de Saúde e pelo próprio desafio em atender as necessidades específicas desta população que procura os serviços de saúde. Neste caso, é preciso reconhecer que se encontra em uma fase transitória entre a infância e a fase adulta. A atenção à saúde deve levar em consideração as necessidades específicas de pessoas ou grupo de pessoas, ainda que minoritários em relação ao total da população. As práticas de cuidado à adolescente são constituídas com base em necessidades detectadas pelos agentes produtores de saúde. Dessa maneira, para garantir o acesso aos serviços de saúde, implementam-se políticas públicas e programas do Governo em suas esferas federal, distrital, estadual e municipal, no intuito de estruturar as redes de apoio de maneira hierarquizada, com níveis crescentes de complexidade dos serviços. Para tanto, as ações de baixa, média e alta complexidade buscam se articular 20 para racionalizar o sistema, a fim de aumentar o seu nível de resolubilidade e capacidade de atendimento das demandas (BRASIL, 2001). Os processos de trabalho concretos, vivenciados nos serviços de saúde, são focos de atenção especial para a gestão da mudança. Existem "efeitos" do processo de trabalho, que se expressam no dia a dia dos serviços, e que devem ser divisados como lugares estratégicos-alvo para operações, que podem disparar potencializações vitais, na direção de novos processos de produção de saúde (FRANCO, 2006). Torna-se evidente que a consecução da integralidade se direciona para a humanização dos serviços prestados e das ações realizadas no âmbito do SUS. Para sua concretização, os dispositivos são comuns e os resultados também, pois trazem além da satisfação dos usuários, bem-estar e conforto. Com efeito, as práticas interativas, mais holísticas, devem estar disponíveis como opções de cuidado à saúde, porquanto é sempre de forma coletiva que se deve realizar o trabalho em saúde. Quanto mais flexíveis e versáteis os profissionais, quanto mais diversificadas e pouco ritualizadas suas ações, quanto mais misturadas e trabalhando juntas as pessoas, quanto mais aberto e acessível o serviço a todos os tipos de demanda, maior é a possibilidade de a equipe imergir no mundo sociocultural de sua área de abrangência, de trocar saberes pessoais e profissionais, de realizar melhor o acolhimento e garantir o acesso (CAVALCANTE FILHO et al., 2009). Hoje, a ausência de uma rede de atenção primária resolutiva e de um sistema de saúde integrado pressiona os hospitais por meio de uma demanda excessiva em relação à sua capacidade de resposta, ensejando filas e mau atendimento (BONFADA et al., 2012). A operacionalização do princípio da integralidade não é, contudo, matéria simples. Nesse âmbito, fazem-se necessários estudos que possam evidenciar e relacionar como se processa o cuidado clínico no Setor de Obstetrícia, tendo como foco o princípio da integralidade e seus dispositivos - acesso, acolhimento, resolubilidade e vínculo. Para atingir estes objetivos fazem-se necessárias modificações na estrutura organizacional dos serviços de saúde de modo a oferecer um cuidado a essa população com peculiaridades próprias desta passagem, na perspectiva da integralidade. Isto porque a forma como são cotados esses sujeitos tem repercussão direta na estruturação das ações que os envolvem (HORTA E SENNA, 2010). Nesta pesquisa buscou-se responder aos seguintes questionamentos: como se processa o cuidado às mães adolescentes em um hospital terciário, nas fases de pré- 21 parto, parto e pós-parto, ou seja, desde a admissão à alta hospitalar? Como ocorre o fluxo no atendimento à gestante adolescente em processo de parturição? Quais ruídos/problemas são detectados e expressos pelos profissionais de saúde das unidades em estudo? Para tanto será observado a micropolítica do processo de trabalho em saúde e destacado o cuidado de enfermagem às mães adolescentes. Dessa forma, será fundamental a escuta dos diversos sujeitos/atores envolvidos no modo como se produz o cuidado, partindo da investigação dos caminhos percorridos pelas mães adolescentes na busca de resolução do seu problema; promovendo uma leitura crítica da realidade e enfocando as necessidades emergentes para, possivelmente, poder orientar propostas de mudanças e reorganização na assistência à saúde das adolescentes em situação de maternidade. Minha aproximação com essa temática se deu a partir do ingresso no Mestrado Acadêmico em Cuidados Clínicos de Saúde da Universidade Estadual do Ceará, após ter sido apresentado a minha orientadora, que atualmente está desenvolvendo estudos na área de maternidade na adolescência. Nas reuniões do grupo de pesquisa GEPCCA/UECE também nos foi oportunizado a aproximação com esse saber específico. O projeto abriga outros estudantes de mestrado e de graduação, que exploram diversas vertentes dessa temática. Recentemente enviamos para apreciação de revista científica artigos, um que compilou o perfil sócio demográfico e das ocorrências clínico-obstétricas de mães adolescentes e de seus recém-nascidos em um hospital de nível terciário de Fortaleza - CE. E, outro que abrange os caminhos percorridos pela gestante no atendimento no hospital em estudo. Estamos na fase final de um outro artigo que analisa o cuidado de enfermagem dispensado a essas mães adolescentes a partir da percepção das próprias puérperas. Dessa forma, pretendemos engrandecer as discussões pertinentes na área temática de saúde do adolescente, tendo em vista também que dispomos de incentivos científicos e de compromisso com a sociedade e com a profissão, no intuito de aprimorar o conhecimento na ciência da enfermagem. Acreditamos que a pesquisa venha possibilitar novas propostas para promover o cuidado às mães adolescentes em condição de maternidade no âmbito hospitalar. A partir de tal compreensão, observou-se novos horizontes e possibilidades para tornar o setor de obstetrícia, cada vez mais referência no atendimento a esta população-alvo; Assim, contribuir com reflexões acerca da temática, maternidade na adolescência e o processo de trabalho com base na integralidade. 22 Portanto, esse estudo torna-se relevante, pois pretendemos contribuir em melhorias das ações de enfermagem implementadas nos serviços em que as adolescentes são atendidas na situação de maternidade. Esta temática encontra-se na agenda de prioridades de pesquisa do Ministério da Saúde em virtude da importância de se investigar dados consubstanciais para o provimento de políticas públicas e intervenções diretas. Em virtudes dos índices de maternidade na adolescência ainda serem considerados altos e as demandas de cuidados para o enfermeiro e a equipe de saúde são elevadas faz-se necessário entender como se dá a assistência no nível terciário, uma vez que muitos partos nesta faixa etária são considerados de riscos, as demandas não são somente intervenções obstétricas em si, o aspecto biológico, mas as dimensões que envolvem relações profissionais para um cuidado integral capaz de reduzir danos e promover a saúde do binômio mãe-criança. Percebe-se, pela literatura consultada, a dificuldade de vislumbrar a concretização desse princípio no âmbito hospitalar, sendo mais facilmente perceptível na atenção primária e secundária. Para tanto, o estudo se torna relevante, na medida em que serão possibilitadas reflexões entre os membros da equipe de saúde, com vistas a provocar mudanças na ação e possibilitar à gestante um cuidado mais centrado em suas necessidades e demandas; para a instituição, locus do estudo, que, ao conhecer os caminhos percorridos pelas gestantes na produção do cuidado, perceberá em que aspectos serão propostas melhorias e mudanças na concepção do trabalho centrado na gestante. Acredita-se que um trabalho fundamentado sob o enfoque integral, baseado em uma metodologia inovadora, agrega revisitação e reflexões do cotidiano, apropriação e reconstituição da realidade, tanto na produção dos atos de saúde como nas relações profissionais e usuárias. Dessa forma, a gestação em uma adolescente implica assistência integral, pois, além das modificações da própria gravidez, coexistem as transformações da adolescência, as quais podem potencializar os riscos para ela mesma e/ou para o bebê, uma vez que a produção do cuidado envolve momentos relacionais e uma série de situações resultantes, como acesso, acolhimento, vínculo, responsabilização e outras ações que conduzem a resolubilidade e respostas das necessidades das usuárias (FRANCO E MERHY, 2004). Com efeito, e ante as peculiaridades das adolescentes em situação de parturição, impõe-se analisar o processo de trabalho da equipe multiprofissional no atendimento à gestante adolescente no Setor de Obstetrícia, focando as ações de 23 Enfermagem. Com este estudo será possibilitado uma análise crítica-reflexiva dos achados, para construirmos referenciais teóricos para o cuidado. Com isso, poderíamos, ao final sugerir aos profissionais maneiras diferentes de cuidado, fazendo-os perceber novas possibilidades para o cuidar enaltecendo o sujeito mãe adolescente. 24 2 OBJETIVOS Analisar o cuidado clínico dispensado à mãe nas condições de maternidade na adolescência, destacando as ações de enfermagem na perspectiva da integralidade. Compreender os caminhos percorridos pelas mães adolescentes no processo de parturição e pós-parto e sua interface com o cuidado. 25 3 QUADRO TEÓRICO 3.1 O cuidado de enfermagem e os caminhos da integralidade Neste capitulo destacaremos os referenciais teóricos que fundamentará o estudo, assim iniciaremos discutindo o cuidado e sua interface com um dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), a integralidade. Cuidado é um processo, um modo de se relacionar com alguém que envolve desenvolvimento e cresce em confiança mútua, provocando uma profunda e qualitativa transformação no relacionamento, é, um de ajudar o outro a crescer e se realizar (WALDOW, 2004). O Cuidar se constitui uma ação que percorre a natureza humana desde o princípio dos tempos, no qual por um determinado período, envolvia a prática pela prática, com caráter empírico transmitido entre gerações. O momento em que Florence Nightingale cria a profissão de enfermagem na Inglaterra coincide com as transformações evidenciadas por Michel Foucault no ambiente hospitalar, estabelecendo o vínculo entre o saber de enfermagem e o saber médico, numa situação de subordinação, considerando que até o século XVIII quem dominava o espaço hospitalar eram as irmãs de caridade. Florence Nightingale com seus conhecimentos e crença de que a enfermagem poderia ser uma profissão reconhecida, valorizada e exercida por mulheres de várias classes sociais, propõe a retomada deste espaço no sentido de coletivizá-lo (PADILHA, MANCIA, 2005). A enfermagem, no interregno de alguns anos, tem buscado sua consolidação como profissão autônoma e científica, através das teorias de enfermagem. No entanto, a construção de um arsenal de conhecimento próprio, no qual permeia o cuidado, essência da enfermagem, por vezes não se solidifica. Com o advento das teorias de enfermagem, a prática adquire um novo status e uma nova conduta. O processo de enfermagem parece ser a solução para que a prática de enfermagem consiga o desejado status e reconhecimento, além de supostamente integralizar o cuidado do paciente (WALDOW, 2004). Desde o início dos tempos, fica evidente que o papel de cuidar faz parte da existência humana e está ligado à imagem da mulher. Esse caráter feminino foi 26 desenvolvido por meio da maternidade, no cuidar dos recém-nascidos, no cuidar das crianças, dos idosos ou dos enfermos. (ZEFERINO et al. 2008) Historicamente, a partir das leituras de Oguisso (2005), a ação de cuidar, constitui-se em uma atitude que nasce junto ao ser humano, cuja finalidade, encontravase relacionada à manutenção da vida, segundo o que se conhece dos primórdios da história do cuidado. E, por um longo período, o cuidado se limitava apenas ao âmbito familiar, com caráter feminino e empírico das ações, no qual era transmitido entre gerações. Com a difusão do cristianismo, o cuidado passou a ser realizado por religioso ou por voluntários, que tinham o ideal à caridade aos pobres ou enfermos, trabalhando a integridade do espírito e do corpo. Entendia-se que as mulheres consagradas, por vezes, irmãs de caridade, exerciam a sua prática doando-se ao cuidado, ou seja, dedicando-se, totalmente, a sua vida aos outros que sofriam (ZEFERINO et al, 2008). Por seguinte, nesse interregno histórico do cuidado, percebe-se a origem da profissão de enfermagem. É notório, após a Revolução Capitalista, no século XIX, na Inglaterra, a enfermagem se institucionalizou como profissão, frente à necessidade de organizar os hospitais como instrumento de cura e cuidado do corpo, desenvolvendo atividades de organização do espaço do doente (LIMA e ALMEIDA, 1998) . Contudo, em 1816, Florence Nightingale prepara as primeiras técnicas para o cuidado de enfermagem. O cuidado de enfermagem representa uma vertente expressiva e profissionalizada do cuidado humano, feito por humanos e destinado a humanos, contendo, então, raízes que o confirmam como modo de ser e de existir. (SHCAURICH; CROSSETTI, 2008). Destarte, o cuidado diferentemente da cura é direcionado a assistir ao indivíduo ou grupo na melhoria da condição humana (POTTER; PERRY, 2004). Deste modo, ser enfermeiro é professar o cuidado inter-relacionado com pessoas, com a ciência e a arte de cuidar em enfermagem. O cuidado de enfermagem consiste na essência da profissão tendo um aspecto objetivo, no qual decorrer do desenvolvimento de técnicas e procedimentos, e uma subjetiva, que se baseia em sensibilidade, criatividade e intuição para cuidar de outro ser. (SOUZA et al, 2005). 27 O termo essência designa o que é o ser, a qüididade de um ente, considerado, por vezes, independentemente da sua existência ou precedente da mesma. (HESSEN, 2003) Dizer o que é uma coisa é declarar a sua essência. Já afirmava Tómas de Aquino apud Keller (2009) “essentia es id quo per definitionem significatur”, ou seja, a essência é o que declara-se na sua definição. Platão e Aristóteles empregam o termo ousia para definir essência. No entanto, em decorrência ser uma expressão plurivalente, a filosofia medieval precisou traduzir em duas expressões: substantia e essentia. Nessa tradição, compreende-se essência, como: enquanto ser-assim, oposto a Dasein (ser-aí), essencialidade. Deste modo emprega-se existência como contraposto à essencialidade (KELLER, 2009). A enfermagem se constitui uma profissão mutável, evoluindo com a dinamicidade da histórica, da política e do contexto social. Esta tem como escopo direcionar ações do cuidado, holística (de holos que significa todo) ao ser humano, em sua complexidade, promovendo, prevenindo e restaurando a saúde e os aspectos que a permeia. Deste modo, o cuidado de enfermagem é compreendido ora como arte, apresentando traços estéticos e intersubjetivos, sendo inerente ao vivido pelo ser humano e compartilhado com o outro e com mundo, ora como ciência, ou seja, como constructo fundamentado em disciplinas e áreas do conhecimento (SHCAURICH; CROSSETTI, 2008). Destarte, aspectos referentes a locais, técnicas e embasamento teórico para o cuidado de enfermagem se transforma no decorrer de sua construção como arte e ciência. No entanto, de forma pura e profunda, é inerente ao cuidado de enfermagem o estar com e para o outro, a essencialidade. (WLADOW, 2004). Compreende-se que o cuidado é uma atitude com complexidade e extensão ampla, sendo uma forma de estar-com, de perceber, relacionar-se e preocupar-se com outro ser humano em dado tempo e espaço compartilhados na relação face-a-face (SHCAURICH; CROSSETTI, 2008). Desta forma, é por meio da interação, supracitada, que pode haver a compreensão genuína entre os sujeitos, havendo a percepção do nós com a consciência da presença do outro no cuidado de enfermagem. O cuidar, percebido como processo relacional, dinâmico, criativo, humano, é parte importante do ser/fazer da Enfermagem. Ele baseia-se em conhecimentos particulares, em tecnologia que depende em grande parte da ação humana, ou seja, de um trabalho realizado por seres humanos, cujos instrumentos centram-se nas 28 habilidades, atitudes, modos de ser, e estruturas cognitivas do ser enfermeiro, como uma relevante prática social para o melhor viver humano (ERDMANN et al, 2005). No entanto, desde o século XX há o desenvolvimento de um abismo entre as concepções e ações base do cuidado de enfermagem e o tecnicismo advindo de ideais biomédicos. Com isso, a enfermagem afastou-se de sua arte, do foco no ser humano e do conhecimento específico, facultando uma falsa idéia de detentor de si e das ações (TERRA et al, 2006). Deste modo, ao ancorar-se no modelo biomédico a enfermagem dissipa sua essência e sua identidade em construção. Na contemporaneidade, busca-se superar o ser simples, construído através da fragmentação de saberes, do positivismo, que deu origem ao paradigma da simplicidade do cuidado tendo como princípio a disjunção e a redução do homem, das relações, da subjetividade. Morin (1995), explica que a simplicidade vê o Uno, o Múltiplo, mas não pode ver que o Uno pode ser ao mesmo tempo Múltiplo. Deste modo, tornou-se mister o resgate de reflexões acerca da complexidade do ser humano e do cuidado exercido por e para ele. “É preciso reconhecer que ao observar o outro e a si mesmo, tem-se a possibilidade de criar um ambiente simbólico de cuidado, onde melhor expresse a sua complexidade” (TERRA et al. 2006). As ações de enfermagem numa concepção da complexidade nos remetem ao encontro com as múltiplas dimensões que constituem o cuidar ao ser humano e sua relação com a realidade. Neste sentido, a postura e o fazer do profissional são quesitos fundamentais para a efetivação de um acolhimento do ser cuidado, colocando assim, em prática uma das ferramentas para que a integralidade se processe. A Integralidade, um dos princípios do Sistema Único de Saúde – SUS, entendido como o conjunto de ações de promoção, proteção, assistência e recuperação da saúde, executadas nos diferentes níveis de atenção à saúde. (BRASIL, 1990) Concordando com as ideias de Mattos (2001) que discute a integralidade e aponta alguns elementos necessários para sua efetivação, que se estruturam sob três óticas: compreensão das necessidades das ações e dos serviços; organização dos mesmos a partir necessidades e por último a implementação de políticas públicas e respostas governamentais aos serviços de saúde. Não se trata, portanto, de desconsiderar o valor da tecnologia científica e os avanços da medicina, mas de perceber o limite do conhecimento racional e abrir espaço para o processo relacional que se estabelece entre os profissionais de saúde e usuários, intrínseco ao ato de cuidar. 29 A integralidade no atendimento à mulher numa perspectiva ampla de seu contexto de vida, do momento em que apresenta determinada demanda relacionada à parturição, aspectos de sua singularidade e de suas condições enquanto sujeito capaz e responsável por suas escolhas (BRASIL, 2007). Correlacionado com as ideias de Queiroz, Ribeiro e Pennafort (2010), as concepções e práticas no cuidado ao adolescente são constituídas com base em necessidades detectadas pelos agentes produtores de saúde. A atenção ao adolescente configura-se como espaço essencial nos âmbitos da assistência e da formação acadêmica, em ambientes de produção de cuidados, que buscam transformações focalizadas nos aspectos da humanização e da formação do sujeito e de sua cidadania. É válido salientar que puerpério configura-se como um momento de adaptações no qual a mulher se depara com a necessidade de conciliar o papel de mãe com os demais que desempenhava anteriormente: filha, mulher, esposa, trabalhadora, dentre outros. Portanto, As nuanças específicas de determinados fenômenos, muitas vezes, não podem ser percebidas quando nos atemos à prisão que a racionalidade incute nos modos enrijecidos de fazer e, consequentemente, de cuidar. (SANTOS, 2009). Optamos em considerar um dos eixos teóricos do estudo a Integralidade. Nota-se, a partir da vivência profissional uma dificuldade de estruturação dos serviços de saúde sob essa perspectiva. Concordando com as ideias de Franco (2003), poderíamos elencar alguns fatores adversos para essa nova postura: a influência do modelo biomédico – os profissionais têm sua formação muito embasada nesse modelo de saúde, deixando como foco principal a reprodução, não dando ênfase às demandas sociais, espirituais, psicológicas, culturais e de sexualidade. Os serviços de saúde são caracterizados por uma multidisciplinariedade, representada pelos diversos saberes inerentes ao cuidado. No entanto para a reconstrução da lógica dos serviços de saúde, pressupõe-se, portanto, a integração dos diversos conhecimentos que cada categoria profissional detém em seu “núcleo profissional específico” que, no entanto, tem como base o “núcleo das atividades cuidadoras” que articulam esses saberes entre si em interface com os saberes dos usuários (SANTOS, 2009). Se pensarmos no fato de que ser mãe adolescente será um caos, como um problema social, estaremos deixando de perceber a subjetividade da adolescente e seus desejos. Gravidez nessa fase pode fazer parte de um projeto de vida, uma vez que em grupos populares, muitas adolescentes trazem em sua bagagem de experiências o 30 cuidado de crianças o que forma o desejo de ser mãe mais frequente (ALMEIDA, 2003). Portanto ao cultuar a visão estigmatizada da adolescência e do adolescente, considerando-o como pessoa imatura, instável, inconsequente, incapaz de projetar seu futuro com responsabilidade, esse olhar dos ‘especialistas’ impede a construção de relações comunicativas, que leve em consideração a intersubjetividade (MESQUITA E DESLANDES, 2008). Em pesquisa realizada em um ambulatório de enfermagem com oito mães adolescentes, revelou-se que um dos aspectos evidenciados foi o fato de que a adolescente, ao engravidar, pode estar realizando um sonho, decisão que contempla não apenas um ato biológico reprodutivo, mas, um processo social envolvendo interações com familiares, seu companheiro e, ainda, a vontade de vir a ser mãe e ingressar no mundo adulto que a faz ser reconhecida, além de reforçar sua condição feminina de ser mulher e mãe (ANDRADE, RIBEIRO, OHARA, 2009). Além disso, o respeito à decisão de ser mãe contribui para proporcionar uma outra postura em relação ao que é ser mãe adolescente, pois sendo esta uma opção dela, acertada ou não, devemos procurar entender as circunstâncias de vida que a levaram a querer ter um filho e estabelecer condições para que cuide dele com todas as suas potencialidades. É nesse contexto que se insere, também a integralidade, pois na atenção à saúde das mulheres, compreendemos como a concretização de práticas de atenção que garantam o acesso das mulheres a ações resolutivas construídas segundo as especificidades do ciclo vital feminino e do contexto em que as necessidades são geradas (COELHO, et. al., 2009). Nesse sentido o cuidado deve ser permeado pelo acolhimento com escuta sensível de suas demandas. Conforme Waldow (2004), o cuidado origina-se não somente do cumprimento de papéis profissionais ou de ciência médica e tecnológica, mas em um relacionamento de respeito, confiança, interesse, preocupação e apoio mútuos. No entanto, para que esse movimento interacional aconteça no processo do cuidar em saúde torna-se necessário reportar-se às tecnologias leves, intituladas por Mehry (1997), que levam em conta as subjetividades e singularidades dos sujeitos envolvidos nesse cuidado (SANTOS, 2009). Essa modalidade de cuidar requer uma equipe capacitada e sensível às especificidades desse grupo etário, com vistas a proporcionar às adolescentes gestantes um ciclo gravídico-puerperal humanizado, por meio da adoção incondicional de 31 princípios éticos, humanísticos e com a garantia de seus direitos legais (GOMES, FONSECA e ROBALLO, 2011). Os profissionais de saúde, ao cuidar do ser que necessita de seus conhecimentos e habilidades, devem exercitar a valorização primeira do lado humano, reunindo os valores e motivações fundamentais de cada indivíduo. (QUEIROZ, PINHEIRO e PENNAFORT, 2010). Em estudo realizado, pelos autores acima, sobre o acesso e o acolhimento dos adolescentes em um serviço de saúde de atenção terciária concluiu-se que a posição acolhedora do profissional de saúde ante o usuário, evidenciada principalmente na unidade de internação, mostrou, na maioria dos relatos, a satisfação do adolescente em momentos específicos da produção do cuidado. Para os adolescentes, a atitude receptiva, a escuta e a resolubilidade foram importantes. 3.2 Políticas de atenção à saúde da mulher e do adolescente e as perspectivas de integralidade Do ponto de vista das políticas públicas, temos duas principais relacionadas ao tema em questão: Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) e a Política de Saúde ao Adolescente – PROSAD. Em se tratando da primeira, em sua última edição – Princípios e Diretrizes (Brasil, 2011c), temos que esta incorpora, num enfoque de gênero, integralidade e a promoção da saúde como princípios norteadores e busca consolidar os avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, com ênfase na melhoria da atenção obstétrica, no planejamento familiar, na atenção ao abortamento inseguro e no combate à violência doméstica e sexual. No Brasil, a saúde da mulher foi incorporada às políticas nacionais de saúde nas primeiras décadas do século XX, sendo limitada, nesse período, às demandas relativas à gravidez e ao parto. Os programas materno-infantis, elaborados nas décadas de 30, 50 e 70, traduziam uma visão restrita sobre a mulher, baseada em sua especificidade biológica e no seu papel social de mãe e doméstica, responsável pela criação, pela educação e pelo cuidado com a saúde dos filhos e demais familiares (BRASIL, 2011c). Nas primeiras décadas do século XX, as políticas públicas relacionadas às mulheres, no Brasil, eram limitadas às demandas relativas à gravidez e ao parto. Em 1984, o Ministério da Saúde elaborou o Programa de Assistência Integral à Saúde 32 da Mulher (PAISM), marcando, sobretudo, uma ruptura conceitual com os princípios norteadores da política de saúde das mulheres e os critérios para eleição de prioridades neste campo (BRASIL, 2011c). O PAISM as propostas incorporou como princípios e diretrizes de descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços, bem como a integralidade e a equidade da atenção, num período em que, paralelamente, no âmbito do Movimento Sanitário, se concebia o arcabouço conceitual que embasaria a formulação do Sistema Único de Saúde – SUS (BRASIL, 2011c). O Ministério da Saúde vem desenvolvendo, por meio da Área Técnica de Saúde do Adolescente e do Jovem, em iniciativas integradas com a Área Técnica de Saúde da Mulher e intersetorialmente, ações para que a atenção à mulher adolescente ocorra segundo os parâmetros dos direitos sexuais e reprodutivos e da coresponsabilidade masculina na reprodução e na contracepção, como no planejamento familiar. (BRASIL, 2011c). O autor ainda acrescenta ser necessário que as estratégias de atenção à gravidez na adolescência contemplem, dentre outros, a heterogeneidade de adolescentes nos nichos culturais, sociais e familiares, privilegiando os grupos de maior vulnerabilidade e a atenção integral à saúde sexual e reprodutiva, apoiando essas famílias iniciantes com ações multisetoriais para o acesso igualitário a bens e serviços que promovam a qualidade de vida. Nesse sentido, referindo-se à saúde do adolescente, temos o PROSAD que em 1989 deu ênfase à atenção diferenciada a esse grupo populacional nos aspectos de crescimento e desenvolvimento, sexualidade, saúde oral, saúde mental, saúde reprodutiva, saúde do estudante e prevenção de acidentes, devendo as ações correspondentes serem viabilizadas nos serviços de saúde da rede básica e hospitalar (BRASIL, 1989). Outros programas do Ministério da Saúde lançados a partir de então, trazem o foco tradicional dos riscos e ameaças que repercutem na saúde pelo fato de os indivíduos serem adolescentes e jovens, como se fossem esses momentos diferentes dos demais momentos da vida: as DST/HIV, a gravidez, as drogas, entre outros, estruturados nos tradicionais “pacotes de saúde” ofertados à população de forma geral (BRASIL, 2006). Outros documentos oficiais trazem orientações para os profissionais de saúde como forma de divulgar aspectos legais de proteção aos adolescentes e jovens, 33 documento intitulado “Marco Legal”, e para a organização dos serviços de saúde com vistas à educação permanente em saúde, objetivando qualificar os profissionais para o trabalho com adolescentes e jovens (BRASIL, 2007) Com isso tem-se uma maior preocupação em manter a redução nos índices de gravidez não planejada, entre adolescentes a partir de ferramentas disponíveis e de fácil aplicabilidade como a educação em saúde, por meio do planejamento familiar e a educação sexual. É dessa forma que o Ministério da Saúde tem agido e planejado suas ações, com maior investimento nessas áreas. Cabendo, portanto aos gestores locais e profissionais de saúde articular-se para garantir projetos que tragam melhorias para os serviços e para os indicadores de saúde. Corroborando com Melo e Coelho (2011), a dissociação entre o modo de perceber a gravidez na adolescência e a prática concreta revela a manutenção da hegemonia do modelo biomédico e a dificuldade de profissionais inscreverem nos atos de cuidado a dimensão política transformadora dos processos relacionais na atenção à saúde. Horta, Lage e Sena (2009) afirmam que, apesar de considerações teóricas sobre a importância do jovem como copartícipe na construção de políticas públicas no setor saúde, o jovem ainda é objeto dessas políticas por uma ótica de riscos e vulnerabilidade. Considera-se que os programas destinados a essa população têm baixa capacidade de induzir mudanças, ainda se concentrando num campo de ações programáticas pontuais que não avançam para o delineamento de uma política voltada para a saúde dos jovens. Há necessidade de dispositivos que reconfigurem o processo de trabalho em saúde, no saber-fazer cotidiano de cada profissional, identificando os elementos que apontem uma nova lógica no agir desses e na forma como se produz o cuidado em saúde. Visto que no âmbito hospitalar, o cuidado possui natureza multidisciplinar sendo construído pelo somatório de umas diversidades de pequenos cuidados e saberes parciais, simultâneos e complementares através de entrelaçados de atos, procedimentos, fluxos, rotinas e saberes, num processo dialético de complementação, mas também de disputa (CECÍLIO e MERHY, 2003). Ainda que vislumbrasse a complexidade dos desafios, o Ministério da Saúde (MS) regulamentou, em maio de 2000, o Programa Nacional de Humanização da 34 Assistência Hospitalar (PNHAH), que tinha como meta a promoção de uma nova cultura de atendimento à saúde no Brasil. Ademais, a humanização em saúde emerge em uma realidade em que os usuários dos serviços de saúde se queixam dos maus tratos [...], a mídia denuncia aspectos negativos dos atendimentos [...] e as publicações científicas comprovam a veracidade de muitos destes fatos (HOGA, 2003). Posteriormente, com a mudança de gestão em 2003, o MS admitiu a humanização não mais como um programa aplicado aos serviços de saúde, porém a transformou em Política Nacional de Humanização (PNH) e da gestão do Sistema Único de Saúde – Humaniza SUS, detentora de uma característica singular (Ministério da Saúde, 2004): a transversalidade pelo SUS. Para a construção de uma política de qualificação do SUS, a humanização deve ser vista como uma das dimensões fundamentais, não podendo ser entendida como apenas um programa a mais a ser aplicado aos diversos serviços de saúde, mas como uma política que opere transversalmente em toda a rede SUS (BENEVIDES e PASSOS 2005). Essa característica é compreendida como um conjunto de ações realizadas com o intuito de quebrar os paradigmas do saber/poder, dificultando a promoção da qualidade da assistência e a produção de saúde, ou seja, o aumento significativo do grau de comunicação intra e intergrupos e a estratégia de transformação nas práticas de saúde (BRASIL, 2004). Reinventar as organizações pressupõe alterar o modo de produção e fluxos de poder. Em geral, as organizações de saúde (que são realidades hipercomplexas) têm uma disposição centralizadora do poder, fomentando processos de comunicação pouco transversais e colocando em relação apenas os iguais. Em outras palavras: o exercício da comunicação se dá entre os pares (chefes com chefes, médicos com médicos, enfermeiros com enfermeiros, e assim por diante), dificultando a emergência de processos instituintes. Dessa forma, a organização se reproduz, pois se mantém sustentada sobre linhas de forças que apenas reverberam aquilo que já está instituído (BRASIL, 2004). Referindo-se, agora, à saúde do adolescente, temos o PROSAD que em 1989 deu ênfase à atenção diferenciada a esse grupo populacional nos aspectos de crescimento e desenvolvimento, sexualidade, saúde oral, saúde mental, saúde reprodutiva, saúde do estudante e prevenção de acidentes, devendo as ações 35 correspondentes serem viabilizadas nos serviços de saúde da rede básica e hospitalar (BRASIL, 1989). Outros programas do Ministério da Saúde lançados a partir de então, trazem o foco tradicional dos riscos e ameaças que repercutem na saúde pelo fato de os indivíduos serem adolescentes e jovens, como se fossem esses momentos diferentes dos demais momentos da vida: as DST/HIV, a gravidez, as drogas, entre outros, estruturados nos tradicionais “pacotes de saúde” ofertados à população de forma geral (BRASIL, 2006). Outros documentos oficiais trazem orientações para os profissionais de saúde como forma de divulgar aspectos legais de proteção aos adolescentes e jovens, documento intitulado “Marco Legal”, e para a organização dos serviços de saúde com vistas à educação permanente em saúde, objetivando qualificar os profissionais para o trabalho com adolescentes e jovens (BRASIL, 2007) Com isso tem-se uma maior preocupação em manter a redução nos índices de gravidez não planejada, entre adolescentes a partir de ferramentas disponíveis e de fácil aplicabilidade como a educação em saúde, por meio do planejamento familiar e a educação sexual. É dessa forma que o Ministério da Saúde tem agido e planejado suas ações, com maior investimento nessas áreas. Cabendo, portanto aos gestores locais e profissionais de saúde articular-se para garantir projetos que tragam melhorias para os serviços e para os indicadores de saúde. Corroborando com Melo e Coelho (2011), a dissociação entre o modo de perceber a gravidez na adolescência e a prática concreta revela a manutenção da hegemonia do modelo biomédico e a dificuldade de profissionais inscreverem nos atos de cuidado a dimensão política transformadora dos processos relacionais na atenção à saúde. Horta, Lage e Sena (2009) afirmam que, apesar de considerações teóricas sobre a importância do jovem como copartícipe na construção de políticas públicas no setor saúde, o jovem ainda é objeto dessas políticas por uma ótica de riscos e vulnerabilidade. Considera-se que os programas destinados a essa população têm baixa capacidade de induzir mudanças, ainda se concentrando num campo de ações programáticas pontuais que não avançam para o delineamento de uma política voltada para a saúde dos jovens. 36 Há necessidade de dispositivos que reconfigurem o processo de trabalho em saúde, no saber-fazer cotidiano de cada profissional, identificando os elementos que apontem uma nova lógica no agir desses e na forma como se produz o cuidado em saúde. Visto que no âmbito hospitalar, o cuidado possui natureza multidisciplinar sendo construído pelo somatório de umas diversidades de pequenos cuidados e saberes parciais, simultâneos e complementares através de entrelaçados de atos, procedimentos, fluxos, rotinas e saberes, num processo dialético de complementação, mas também de disputa (CECÍLIO e MERHY, 2003). Viabilizar a humanização nos serviços de saúde pressupõe transcender a usual produção de saúde voltada apenas para a cura plena, direcionando a operacionalização de práticas que visam à satisfação do usuário por meio de um atendimento de qualidade, o acolhimento integral, permitindo a “escuta” das dificuldades dos usuários e sua resolubilidade, ou seja, praticando o cuidado integral. Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro (BOFF, 2000). A partir de tal premissa, humanizar sem o contato, a comunicação efetiva, a dialógica entre o profissional de saúde e o usuário é impraticável, pois é a partir do diálogo entre esses atores que buscamos maior conhecimento das reais necessidades expressas pelo ser cuidado e dos instrumentos para o atendimento, buscando as razões do sofrimento e procurando ir além da lógica biomecanicista, aproximando-se do cuidado integral. 37 4 PERCURSO METODOLÓGICO 4.1 Tipo de Pesquisa Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, uma aproximação crítica analítica da realidade, que se destina a apreender o universo de significados e sua relação com o contexto social. Nesta perspectiva Minayo (2010) descreve as características essenciais capazes de identificar uma pesquisa qualitativa e ao relacionar com esse estudo percebemos a aproximação na busca de captar a realidade social. A autora acrescenta que esta abordagem permite desvelar processos sociais ainda pouco conhecidos referentes a grupos particulares, propicia a construção de novas abordagens, revisão e criação de novos conceitos e categorias durante a investigação. Oferece a possibilidade de alcançar as respostas/análise para questões particulares que envolvem o cuidado e a assistência a saúde. (MERIGHI E PRAÇA, 2003). Corroboramos com o pensamento de Polit e Beck (2010), que descrevem características da pesquisa qualitativa, quando busca a compreensão do todo; exige o envolvimento intenso do pesquisador tornando-se o instrumento da pesquisa e necessita uma análise contínua dos dados para formular estratégias subsequentes além de determinar quando o trabalho de campo está terminado. Complementando tais características, a pesquisa qualitativa analisa experiências que podem estar relacionadas a histórias biográficas ou a práticas cotidianas ou profissionais que podem ser tratadas analisando-se comunicações entre esses indivíduos e grupos que pode ser baseado na observação e no registro de práticas (FLICK, 2009). Concordando com os pensamentos dos autores supracitados, a pesquisa apresenta tais características, uma vez que foi desenvolvida tendo como locus o ambiente de trabalho dos profissionais, no intuito de ao final do estudo sugerir modificações das práticas na atenção à gestante adolescente. Dessa maneira, a construção da realidade se torna um empreendimento em que todos, de maneira interativa e dinâmica revelam o sentido a partir do qual os sujeitos compreendem e lidam com as situações em volta. 38 4.2 Local do Estudo Utilizou-se como campo para o desenvolvimento da pesquisa a Unidade de Obstetrícia de um hospital terciário da rede pública do estado do Ceará. A referida instituição caracteriza-se como uma unidade hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS) de referência nos procedimentos de alta complexidade, incentivo ao ensino e à pesquisa no Estado do Ceará, e em algumas áreas, como transplante renal, pâncreas e fígado, além de outras especialidades para o norte e nordeste do País. O referido hospital é o maior da rede pública do Ceará, servindo à população do estado e, por sua referência e complexidade, também aos estados vizinhos, em diferentes áreas de saúde. É referência em diversas especialidades incluindo a gravidez e maternidade de riscos. Possui um ambulatório específico para o atendimento as gestantes de riscos dentre estas inclui as adolescentes no processo de gestação/parturição. A média de partos de adolescentes é de 21,6%, conforme dados estatísticos do próprio hospital, corroborando com os dados nacionais que apontam 22% de mães adolescentes. (BRASIL, 2011b). Configura-se também como um dos maiores centros de treinamento do País, certificado por Portaria Interministerial nº 3.070 de 20 de dezembro de 2011 (Ministérios da Saúde e Educação) como hospital de ensino, atuando na formação de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outras formações profissionais da saúde e áreas afins. Tem como missão: prestar assistência à saúde da população como hospital do Sistema Único de Saúde de referência em procedimentos de alta complexidade, ofertando serviços humanizados, seguros e de boa qualidade, contribuindo para a produção e transmissão de conhecimentos em sua área de atuação. A Unidade de Obstetrícia é constituída por diversos setores que vão desde a Emergência Obstétrica, Ambulatórios, Centro Obstétrico/Sala de Parto, Unidade de Internação/Alojamento Conjunto, dentre outros serviços de apoio diagnóstico e terapêutico. No que se refere à Emergência Obstétrica, reinaugurada em dezembro de 2010, localiza-se no térreo, ao lado da emergência geral do hospital. Possui entrada exclusiva para gestantes, o espaço conta com uma estrutura completa com duas recepções, dois consultórios funcionando 24 horas por dia, uma sala de ultrassonografia, um Posto de Enfermagem, além de quatro leitos de observação. O setor realiza cerca de mil e duzentos atendimentos por mês. Na sala de ultrassonografia, um aparelho de 39 última geração realiza exames 3D com Doppler, possibilitando diagnósticos mais precisos com imagens de alta resolução. O espaço mais amplo também tem contribuído para o conforto de pacientes. A equipe é composta, em cada turno, por dois médicos obstetras, uma enfermeira, quatro auxiliares ou técnicas de Enfermagem, além da equipe de apoio de duas atendentes, profissionais da limpeza, maqueiros e segurança. Em relação ao Centro Obstétrico, que fica localizado no 4º andar, compreende a Sala de Pré-Parto, com oito leitos e sala de cuidados ao recém-nascido, possui três profissionais de nível médio (auxiliares ou técnicos de Enfermagem), uma enfermeira e um médico, além de pessoal de apoio. Em geral os partos de bebês a termo ocorrem nesse setor. Já o Centro Cirúrgico Obstétrico, destinado para os partos cesáreos os de bebês prematuros, possui duas salas cirúrgicas, que não funcionam concomitante, pois não existe pessoal suficiente para supri-las, uma sala de parto, destinada ao partos prematuros, uma sala de recuperação com três leitos e uma sala de cuidados ao recémnascido. Após os partos realizados no Centro Cirúrgico Obstétrico, as mães permanecem em média por duas horas na sala de recuperação. A partir de informações colhidas diretamente com a chefia da unidade, identificamos em relatórios acerca da realização dos partos, que em 2011 foram 717 partos vaginais e 1260 cesáreos. O índice maior de partos cesáreos deve-se ao fato de que o hospital atende, preferencialmente, gestantes de alto risco. Dentre esses procedimentos, as adolescentes corresponderam a 29,2% entre as que realizaram partos no referido ano. E por fim, o Alojamento Conjunto que possui nove enfermarias, com um total de trinta e dois (32) leitos, sendo um específico para casos de isolamento. Dispõe, ainda, de uma sala para cuidados com recém-nascidos. Conta com a colaboração dos seguintes profissionais: quatro enfermeiras, sendo uma para a sala de recém-nascidos, duas assistenciais e uma na chefia; seis auxiliares/técnicas de Enfermagem, distribuídas da seguinte maneira – uma na sala de cuidados aos recém-nascidos, três nas enfermarias, uma responsável pelas orientações sobre aleitamento materno e uma para realizar o registro civil dos bebês; um médico que permanece na unidade no horário da manhã, pois no turno da tarde, o médico do Centro Obstétrico é quem supri a demanda necessária. Outras categorias profissionais também colaboram na unidade, como a assistente social, existe uma exclusiva para a obstetrícia; uma terapeuta ocupacional e uma psicóloga que presta seus cuidados nas 2ª e 5ª feiras pela manhã. 40 Conforme o tipo de parto, a permanência na unidade pode variar de vinte e quatro (24) a quarenta e oito (48) horas, respectivamente para parto normal e cesárea. 4.3 Sujeitos da Pesquisa Fizeram parte da pesquisa dois grupos de sujeitos, as mães adolescentes internadas no Centro Obstétrico ou Alojamento Conjunto que compõem a Unidade de Obstetrícia do hospital em estudo; os profissionais desta unidade que participaram da oficina de elaboração do fluxograma descritor, etapa que será descrita posteriormente. Na primeira etapa da pesquisa, momento com as mães adolescentes, a escolha dos sujeitos se deu de forma intencional, a partir do contato nos setores da Unidade de Obstetrícia. Seguiram-se alguns critérios de inclusão: a mãe adolescente com idade entre 10 e 19 anos, conforme a classificação da OMS; aceitaram livremente participar da pesquisa; não houve necessidade de anuência dos pais/responsável legal pela gestante durante a entrevista, pois se considera que a partir do momento em que se torna mãe adquire-se, condição para responder por si, uma vez que responderá por outrem, no caso a criança. A adolescente assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), (apêndice A). Como critérios de exclusão foram considerados aquelas que não tinham condições físicas e/ou mentais perceptíveis para responder aos questionamentos; aquelas que tiveram aborto ou natimorto da gestação presente e as gestantes que se internaram por outros motivos que não a parturição. Quanto à delimitação do número de sujeitos mães, foi determinada pelo critério de saturação teórica, que segundo os autores Fontanella et al. (2011), corresponde a uma ferramenta usada para estabelecer o tamanho final da amostra em estudo. Isto se deveu, pois, quando se percebeu que as informações fornecidas pelos novos participantes da pesquisa pouco acrescentavam ao material já obtido, não mais contribuindo significativamente para o aperfeiçoamento da reflexão teórica fundamentada nos dados que estavam sendo coletados. Foram entrevistadas 12 gestantes com o propósito de atingir os objetivos do estudo, inicialmente entrevistamos dez parturientes, depois retornamos ao campo para aprofundar algumas questões que não puderam ser contempladas nas primeiras, uma vez que percebemos que alguns sujeitos não puderam contemplar todas as questões propostas. Tais sujeitos de pesquisa foram identificados conforme a seguinte linguagem: letras MA para definir mãe adolescente, seguidas do numeral, que expõe a ordenação das mesmas. Assim, para 41 preservar o anonimato das participantes, elas foram identificadas como sendo (MA1, MA2, MA3, prosseguindo até ... MA12). Em relação aos profissionais da obstetrícia, foram escolhidos aqueles que estavam atuando na assistência direta à gestante e que aceitaram participar da feitura do fluxograma descritor, momento em que foram construídos mapas da cotidianidade do trabalho voltado ao cuidado da mãe adolescente. Possibilitou o encontro de seis profissionais da Unidade de, sendo duas médicas, duas enfermeiras, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional. No que se refere ao critério de inclusão, para estes sujeitos, foi o envolvimento do profissional no processo de cuidar e sua disponibilidade para participar do momento coletivo de elaboração do fluxograma descritor. Os profissionais foram identificados, quando se utilizou seu discurso pela categoria profissional. 4.4 Período e Coleta de dados A coleta de dados da pesquisa deu-se início no mês de março, sendo realizada em alguns dias da semana em horário diurno. No primeiro momento realizouse uma observação sistemática, aproximação com o ambiente da pesquisa, conversando com os profissionais de cada setor sobre o início da pesquisa e demonstração do parecer favorável do comitê de ética. Após esclarecimento aos mesmos acerca dos objetivos da pesquisa iniciou a realização da observação sistemática (apêndice B), a qual contempla um roteiro que permite registro de questões observadas e impressão do pesquisador. Esta técnica subsidiou os aspectos considerados relevantes na observação em diferentes espaços do cuidado à mãe adolescente na fase de parturição. Os locais de observação e contato com os sujeitos da pesquisa foram aqueles onde a mãe é atendida durante o processo de parturição: a Emergência Obstétrica, o Centro Obstétrico, e ainda o Alojamento Conjunto. Na segunda etapa da coleta de dados, foi realizada entrevistas com as mães adolescentes que estavam internadas no Centro Obstétrico ou no Alojamento Conjunto durante o período de coleta de dados. Utilizou-se um roteiro semi-estruturado (apêndice C), que possibilitou obter informações a partir das falas das gestantes/parturientes. Vale salientar que o referido roteiro passou por processo de avaliação de três juízes, com experiência científica-assistencial na área da Saúde da Mulher. Duas das avaliadoras tinham título de doutorado e a terceira, sendo que uma atua como enfermeira de uma 42 maternidade de nível federal. A terceira avaliadora possui título de mestrado e atua no setor, locus do estudo. Concordando com Minayo (2010), ao argumentar acerca dessa técnica de pesquisa que possibilita o apoio claro na sequência das questões, facilita a abordagem e assegura que os pressupostos do estudo sejam contemplados durante a conversa com as entrevistadas. Antes de iniciar a entrevista, foi lido em conjunto com as participantes o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (apêndice D) e, após a leitura, foram esclarecidos os objetivos do estudo para que assim obtivesse a autorização da mesma para o início entrevista, a qual foi gravada por meio de aparelho específico. As perguntas seguiram o roteiro já mencionado com as seguintes perguntas norteadoras: Como se deu o acesso ao hospital? Quem foi o profissional que te recebeu? Descreva como foi esse momento, falando sobre sua acolhida nesse setor. Fale das situações que mais lhe agradaram na emergência obstétrica. Quem foi o profissional que mais se dedicou a você durante sua permanência na emergência obstétrica? Comente sobre situações, vivenciadas nesse setor, que lhe deixaram insatisfeita ou que você gostaria que fossem diferentes. Com estes procedimentos e análise crítica-reflexiva dos achados, permitiu-nos construir e reconstruir a realidade através da interpretação e confronto de diversos pontos de vista dos sujeitos, estabelecendo uma articulação com o referencial teórico. Após a entrevista seguia-se com a observação sistemática na unidade para complementar questões pertinentes à pesquisa, principalmente acerca das relações interpessoais (profissional/usuária do serviço). A última etapa da pesquisa ocorreu com os profissionais, os quais foram convidados a fazer parte da realização do fluxograma descritor. Merhy (2002) afirma que o fluxograma descritor permite um olhar agudo sobre os fluxos existentes no momento da produção da assistência à saúde, e a detecção de seus problemas. A interação do grupo leva à compreensão dos processos que envolvem suas atividades, bem como sua implicação com uma dada realidade, o que lhe dá a possibilidade de intervir para provocar processos de mudanças nos espaços onde atua (FRANCO, 2003). Com este procedimento e análise crítica-reflexiva dos achados, foram construídos os referenciais teóricos para o cuidado. Com isso, possibilitou, ao final do estudo, sugerir aos profissionais maneiras diferentes de cuidado, fazendo-os perceber novas possibilidades para o cuidar enaltecendo o sujeito mãe adolescente. Na análise 43 das informações registradas para elaborar o fluxograma descritor, foram observados os seguintes passos: transcrição de todos os áudios gravados e revisitação da filmagem realizada, promovendo-se, assim, observação, leitura atenta das falas, dos significados expressos pelos participantes, que representaram o imaginário socialmente constituído do trabalho em saúde, especificamente no serviço analisado. Utilizou-se como critério de inclusão o fato de que os sujeitos das categorias profissionais fossem atuantes na Unidade de Obstetrícia e que tivessem experiências de cuidado à gestante adolescente. Contou-se com a participação de seis profissionais, sendo duas médicas, duas enfermeiras, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional que puderam comparecer no momento da oficina, ocorrida no dia 28 de setembro de 2012 de 09h às 11h30min, na sala de reuniões do Centro de Estudos do referido hospital, com agendamento prévio entre os profissionais que concordaram em participar. A realização dessa ferramenta analítica teve início com a recepção dos participantes programada em forma de oficina. Inicialmente, foram apresentados os objetivos da pesquisa, exibido e lido coletivamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, específico para os profissionais (apêndice D). Todos os sujeitos concordaram em participar, mostrando-se interessados em colaborar nas discussões, sem restrições ao método escolhido. Em seguida, foram feitas as orientações para a formulação do fluxograma mostrado e discutido sobre a simbologia, constituída de figuras geométricas aplicada em sua feitura conforme representação sinalizada por MERHY et. al. (1997): 44 Foram empregados equipamento de filmagem e gravador de voz para registrar esse momento. A psicóloga (uma das facilitadoras da oficina, mediava em alguns momentos), com sua experiência prévia, ratificou as explicações e fez indagações seguindo as questões norteadoras da pesquisa sobre como se configura o cuidado à gestante adolescente no hospital. Como se acontecia o acesso ao hospital? Qual a trajetória da mãe adolescente no referido setor? Quais os ruídos percebidos nessa trajetória que interferem na produção do cuidado? À medida que era relatado pelos profissionais, uma das participantes registrava em papel-madeira as ideias, ou seja, consolidava as informações mais relevantes e pertinentes. Assim, todos podiam visualizar e colaborar na realização do fluxograma acerca do atendimento à gestante/puérpera adolescente. 4.5 Análise dos Dados Para facilitar a intervenção na dimensão da micropolítica dos processos de trabalho, Merhy e Franco (2003) afirmam que a visualização do Fluxograma Descritor possibilita um olhar sobre os fluxos existentes no momento da produção da assistência à saúde, e desta forma permite, a detecção de problemas existentes. Então esta fase é processual – construção e análise reflexiva pelos sujeitos e em seguida pelo pesquisador abstrai as questões principais e interpreta os acontecimentos no processo de cuidar a partir do olhar dos sujeitos e pautado na literatura pertinente Nesta perspectiva, buscaremos compreender o olhar dos profissionais sobre o modo de agir no ato de cuidar da mãe adolescente em unidade especializada. Este material foi articulado com os achados das entrevistas com as usuárias – foco do estudo. Na exploração do material coletado das entrevistas com as mães, buscou-se uma aproximação do método de análise de conteúdo no campo da compreensão, uma vez que este método permite-nos construir e reconstruir a realidade através da interpretação e confronto de diversos pontos de vista dos sujeitos do estudo, estabelecendo uma articulação entre o referencial teórico e os dados empíricos obtidos nas entrevistas, observações e documentos possibilitando a conformação de categorias empíricas que forem formuladas. Para tanto, foram formuladas categorias analíticas, que segundo Minayo (2010), operacionalmente se desdobra em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação. 45 A autora acrescenta que para o alcance da primeira etapa – pré-análise, serão escolhidos os documentos que deverão ser analisados com o intuito de alcançar os objetivos da pesquisa. Para tanto, algumas ações deverão ser executadas, a leitura flutuante do material, a constituição do corpus, a fim de que seja representativo e formulação ou reformulação de novos objetivos. A etapa de exploração do material consiste essencialmente numa operação classificatória que visa o alcance do núcleo de compreensão do texto. Nesse momento, serão construídas as categorias, representando o conteúdo das falas dos sujeitos. E por fim, a etapa de tratamento dos resultados obtidos e sucessiva interpretação com base na literatura pertinente, inter-relacionando com o quadro teórico ou pode-se abrir novos caminhos e dimensões teóricas. Vale ressaltar que os registros das observações serão utilizados na análise ilustrando e complementando a compreensão do fenômeno em estudo. Durante a formulação das categorias analíticas, fomos realocando os discursos conforme a proximidade temática sugerida pela categoria. Após leituras acerca da temática, algumas dessas categorias foram reformuladas ou reconstruídas. Desse modo, findou-se a elaboração de quatro categorias, mencionadas e discutidas em capítulo posterior. Seguindo os passos da análise foram construídas as seguintes categorias: Acesso da mãe adolescente à unidade hospitalar; Acolhimento da mãe adolescente na emergência obstétrica; Cuidado clínico dos profissionais de saúde e do enfermeiro à parturiente no centro obstétrico; Cuidado clínico à mãe adolescente na fase do pós-parto. O conteúdo das falas emitidas na produção do fluxograma serviu de base para análise e interpretação dos processos vivenciados pelos profissionais, uma vez que é por meio do olhar do fluxograma e da discussão conjunta dos sujeitos que foi possibilitada a aproximação necessária com a realidade. Desse modo, a análise foi embasada nos autores que criaram o modelo de fluxograma descritor relacionado à análise da micropolítica do processo de trabalho, e outros referenciais teóricos: políticas de saúde, cuidado e tecnologias de produção do cuidado, auxiliado pelo método cartográfico. Na análise das informações registradas para elaborar o fluxograma descritor, foram observados os seguintes passos: transcrição de todos os áudios gravados e revisitação da filmagem realizada, promovendo-se, assim, observação, leitura atenta das 46 falas, dos significados expressos pelos participantes, que representaram o imaginário socialmente constituído do trabalho em saúde, especificamente no serviço analisado. Com estes procedimentos e análise reflexiva dos achados, foi possível cartografar a realidade, articulando-se os pontos de vista dos sujeitos com o referencial teórico referente à temática. A utilização do método da cartografia foi deveras pertinente para a imagem mapeada nos caminhos percorridos pela gestante adolescente por meio do olhar dos profissionais de saúde, assim como afirmam Catrib e Oliveira (2010) que a cartografia serve de instrumento para que se possa mapear o espaço onde estão presentes os sentimentos e as ideias de um grupo a partir das experiências vividas naquele mesmo espaço. Para facilitar a intervenção na dimensão da micropolítica dos processos de trabalho, Merhy e Franco (2003) ensinam que a visualização do fluxograma descritor possibilita um olhar sobre os fluxos existentes no momento da produção da assistência à saúde, e, desta forma, permite a detecção de problemas. 4.6 Aspectos Éticos e Legais O projeto de pesquisa foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital Geral de Fortaleza o qual foi apreciado e autorizado sob Processo nº 190505/10. Cumprimos os preceitos éticos através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi apresentado aos sujeitos da pesquisa, garantindo o anonimato e autonomia, informando os riscos e os benefícios, bem como outros procedimentos éticos. Assim, o estudo foi desenvolvido com a plena aceitação dos participantes cumprindo a proteção dos sujeitos constantes na Resolução nº 196/96, de 10 de outubro de 1996 (BRASIL, 1996). 47 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO 5.1 CUIDADO À MÃE ADOLESCENTE NA FASE DE PARTURIÇÃO E PRODUÇÃO SUBJETIVA NOS ENCONTROS COM OS TRABALHADORES DE SAÚDE 5.1.1 Breve caracterização das mães adolescentes Inicialmente apresentamos uma breve caracterização das mães adolescentes. Em relação a faixa etária das 12 parturientes, nove estavam na adolescência maior (15 a 19 anos); a maior parte vive com o pai da criança, não trabalha sendo procedente da própria capital. Em relação à situação escolar, somente uma delas estava estudando, as demais (09) pararam de estudar antes mesmo da gravidez e outras duas abandonaram os estudos após saberem que estavam grávidas. Ainda sobre os estudos, dez adolescentes frequentaram a escola sem ter concluído o ensino fundamental. Em relação aos aspectos da gravidez oito adolescentes era a primeira gestação, enquanto três estavam experienciando a gestação e o parto por duas vezes. Somente três gestantes passaram por situação de aborto. Acerca da realização do prénatal, todas realizaram seis consultas ou mais, conforme preconizadas pelo Ministério da Saúde, sendo que 05 delas realizaram os atendimentos na rede hospitalar. Essa caracterização corrobora com achados de outros estudos que descrevem o perfil das gestantes adolescentes. Os resultados de Caminha et al. (2012), mostraram que as adolescentes se concentravam na faixa etária de 15 a 19 anos (91%), com baixa escolaridade e que estavam unidas consensualmente ao parceiro. Em outro estudo de realizado em Novo Hamburgo, para identificar o perfil obstétrico de mães adolescentes nos anos de 2008 e 2009, encontrou que dos 3894 partos realizados em uma instituição pública da cidade 15,18% destes eram de adolescentes, sendo que 21% destas estavam com idade inferior a 16 anos (GERNHARDT, 2012). A gravidez na adolescência não é um fenômeno recente, ela já existia no passado. As jovens se casavam com idades entre 13 e 14 anos e, após a primeira menstruação, a gestação era um resultado esperado. Mas, nos dias de hoje, com a mudança dos costumes e a evolução do conhecimento científico, engravidar precocemente tornou-se um problema que vem assumindo grandes proporções, desencadeando o interesse em relação às repercussões da gestação na educação, na independência econômica e no relacionamento social destas mães (YAZLLE, et al, 2002). 48 Da análise das entrevistas apresenta-se um recorte da realidade sobre o cuidado hospitalar e mais especificamente sobre a configuração do cuidado clínico nesta fase de acompanhamento da mãe adolescente em um serviço especializado de obstetrícia inserido em um hospital público de alta complexidade. Um enfoque sobre o olhar destas mulheres que nem crianças, nem adultas, mas com a responsabilidade de olharem para si e para o filho a partir de um cuidado especializado desenvolvido por uma equipe de saúde que atuam em unidades interligadas: Emergência Obstétrica, Centro Obstétrico e Unidade de Internação. As categorias descritas a seguir retratam a realidade vivenciada pelas mães adolescentes nas fases de pré-parto e parto. 5.1.2 Acesso da mãe adolescente à unidade hospitalar A partir dos discursos apreendidos percebe-se que muitas adolescentes procuraram atendimento em outras unidades de saúde e de lá foram encaminhadas ao hospital do estudo por apresentarem intercorrências no ciclo gravídico ou outros problemas de base que dependiam de uma assistência diferenciada, com recursos mais avançados tendo em vista que, o hospital em estudo é de alta complexidade, com profissionais qualificados para prestar assistência especializada superior àquelas ofertadas no hospital pregresso. Assim, para adentrar ao serviço, muitas adolescentes foram encaminhadas de outros hospitais, enquanto outras procuraram o serviço por conta própria. Nas entrevistas com as mães o acesso foi um aspecto questionado que traz os caminhos percorridos dos hospitais secundários até a entrada nesta unidade hospitalar de alta complexidade. Duas mães adolescentes relataram que inicialmente, procuraram o serviço de saúde em suas localidades para realizarem o seu parto. No entanto, os serviços não dispunham de estrutura para garantir um parto com segurança, pois era previsto que o recém-nascido necessitaria de incubadora. No que se refere ao dispositivo da integralidade, acesso, considera-se importante que não haja barreiras ou que estas sejam minimizadas para garantir o acesso aos serviços de saúde. Este dispositivo pode ser entendido como “porta de entrada”, como local de acolhimento do usuário no momento da expressão de sua necessidade e, de certa forma como os caminhos por ele percorrido no sistema na busca da resolução dessa necessidade (ABREU e JESUS, 2006). Ainda sobre o sentido da palavra acesso, o qual traduz um conceito complexo, às vezes entendido de forma imprecisa, e pouco claro na sua relação com o 49 uso de serviços de saúde, que varia entre autores e muda conforme o contexto. Para Travassos e Martins (2012), acesso é apresentado como um dos elementos dos sistemas de saúde, dentre aqueles ligados à organização dos serviços, que se refere à entrada no serviço de saúde e à continuidade do tratamento. Abrange, nesse caso, a entrada nos serviços e o recebimento de cuidados subsequentes. Algumas dimensões são consideradas por Donabedian (1973) apud Travassos e Martins (2012) acerca do acesso como disponibilidade, acessibilidade, acolhimento e aceitabilidade. É preciso ter serviços a disposição da população para suprir a demanda desta e que os mesmos possam ser acessíveis aos usuários no que se refere à distribuição geográfica. E ao chegar a esse serviço é imprescindível que haja uma organização mínima para atender a demanda da população com atitude de responsabilização e compromisso com a necessidade apresentada pelos usuários. Eu fui transferida para cá. Vim do hospital X porque lá não tinha incubadora (MA7). Eles disseram que lá (em Canindé) não tinha incubadora, aí mandaram para cá (MA11). Uma dessas mães realizou seu pré-natal em um hospital da localidade, que também é referência no atendimento às gestantes. Neste período o hospital estava com carência de leitos neonatais, pois passava por reformas em algumas unidades, o que levou esta gestante a ser transferida para o hospital em estudo. Enquanto a outra entrevistada realizou o pré-natal em um posto de saúde no município de Canindé. Até então não sabia onde seria realizado seu parto e passou pela mesma situação - a falta de incubadora na unidade neonatal, findando por realizar o parto em Fortaleza. Em outro discurso, a parturiente mostra que foi transferida para o hospital, cenário do estudo, em virtude do risco de eclâmpsia. Sabe-se que uma das principais causas de mortalidade materna são as doenças relacionadas ao aparelho circulatório, dentre elas a hipertensão no período gestacional/parto. Como o município que referenciou a adolescente não dispunha de estrutura adequada para atender as gestantes de risco, finda por encaminhar ao serviço de referência a fim de evitar complicações, tanto para a gestante como para o recém-nascido. Observa-se em um discurso a demonstração desta realidade, embora outras tenham tido alguma ocorrência ou riscos na fase final da gravidez . Vim de Russas com a pressão alta acompanhada da minha mãe (MA12). 50 Me transferiram de outro hospital pra esse. Por causa que no outro hospital que eu tava não tinha suporte pra mim, por causa da minha doença (MA8). Fui encaminhada lá do hospital Y, aí me transferiram pra cá por causa do meu problema do coração. Porque lá eles não podiam fazer meu parto porque lá não tinha equipamento (MA10). Estes discursos anunciam a falta de estrutura física dos hospitais secundários da capital e do interior, e a necessidade de transferências ao hospital de maior complexidade. Acredita-se que tal situação vem ocasionando uma peregrinação das mulheres no trabalho de parto e consequente superlotação destes hospitais. Durante a observação e após conversas informais com os profissionais dos setores envolvidos na pesquisa, tanto da gerência como da assistência, estes relataram ser comum receber gestantes sem que tenham sido encaminhadas pelas centrais de leito ou sequer informadas pelos serviços em que a mãe adolescente teve o primeiro atendimento. Isso pode ocasionar alguns transtornos, seja para quem se destina o atendimento e almeja que este ocorra de maneira satisfatória, o nascimento de seu filho. Portanto, é notório o sentimento de angústia e ansiedade com o momento do parto. Já para o serviço que acolhe a gestante transferida, pode se deparar com uma não organização da logística para a efetivação da assistência à saúde, por não haver leitos disponíveis, provocando dessa forma, um efeito em série no atendimento das gestantes. Sabe-se que o hospital em estudo, por ser referência no atendimento de clínicas mais complexas e possuir Emergência Obstétrica, que funciona durante as 24 horas do dia, recebe pacientes de diversas localidades, seja da própria capital ou do interior do Estado. Para que tal acesso seja efetuado é primordial que as Centrais de Regulação de Leitos mantenham comunicação entre os serviços, a fim de garantir um atendimento sem transtornos ou idas e vindas desnecessárias. As centrais fazem o elo entre as demandas existentes e o recurso disponível, de modo a oferecer a melhor resposta assistencial, de forma organizada, equânime, com qualidade e em tempo oportuno (TRAVASSOS, 2004). Vale ressaltar, ainda que alguns serviços de saúde convivem com uma falta de material necessário à prestação da assistência à saúde, que muitas vezes inviabiliza o efetivo atendimento, cabendo-lhes demasiadamente as transferências para a capital, onde há uma maior oferta de hospitais terciários. Outras vezes os serviços são “reféns” por não possuírem estrutura física adequada para atendimento dos casos mais 51 complexos, pois não dispõem de serviços/unidades para tratamento dos riscos ou complicações. Corroborando com os achados de um estudo de Barbastefano, Girianelli e Vargens (2010) desenvolvido no estado do Rio de Janeiro em 2008, o qual discorre sobre o acesso à assistência ao parto com 328 gestantes adolescentes. Discutem que nem todas as maternidades têm disponível a unidade de alto risco neonatal, o que faz a gestante de risco sair à procura desse local, o qual, algumas vezes, nem está referenciado no pré-natal. Pois caso fosse, já poderia ter um acompanhamento mais adequado e com os riscos controlados. Nota-se também que essa problemática do acesso à Unidade de Obstetrícia do hospital em estudo é referida pelos profissionais de saúde que participaram da oficina de construção do fluxograma descritor, conforme ilustrado a seguir. O fato da paciente ter vindo transferida sem comunicação por parte do serviço que a encaminhou traz prejuízos apenas para o serviço hospitalar que está recebendo a usuária e para esta não há prejuízos na assistência. (MÉDICA) Normalmente as gestantes que vem de ambulância são atendidas prioritariamente, pois presumisse que estão mais graves do que as que vieram por demanda espontânea ou do ambulatório. Atende logo as da ambulância também porque precisa liberar a maca da ambulância (ENFERMEIRA). Uma enfermeira descreve que o percurso que a gestante realiza ao chegar à emergência obstétrica é o seguinte: encontra primeiramente o vigilante, depois a recepcionista que preenche a ficha de atendimento. A gestante, então, aguarda ser chamada para verificação dos sinais vitais, como pressão arterial e temperatura. Serviço, esse executado pelas auxiliares de enfermagem da unidade. Em seguida, a usuária do serviço é encaminhada para o consultório médico, no qual é feita a avaliação clínica e solicitação de possíveis exames complementares, principalmente ultrassonografia. Portanto, não ocorre a triagem na emergência obstétrica das gestantes em atendimento. Isso também foi visto durante a observação realizada no setor relacionado. Dessa forma, a assistência se dá por ordem de chegada e caso, alguma gestante apresente claramente sinais de gravidade, será atendida imediatamente. Há de se considerar, ainda, a quantidade de gestantes adolescentes que realizaram partos na capital, provindas do interior do Estado. Conforme dados do 52 Datasus (2012) no ano de 2010 em Fortaleza foram realizados 7959 partos em adolescentes, destes 6375 são de mães residentes na capital. Enquanto os demais 1346 foram dos municípios pertencentes à Rede Cegonha de Fortaleza-Cascavel. Outros 238 partos foram provindos de cidades que pertencem a outras Redes de Atenção à Saúde. O fato da gestante ser procedente do interior e não ter sua assistência plena em seu município faz com os hospitais da capital convivam constantemente com a superlotação. Isso reflete e demonstra alguns aspectos relacionados à falta de resolubilidade dos hospitais e maternidades presentes no interior do Estado. Normalmente a gente funciona sem vagas. E quando a gestante, transferida, chega à unidade acha que vai ser internada, porém pode ser informada de quem não há vagas. Ela vem achando que vai ficar no serviço, no entanto pode ser remanejada para outro hospital ou ficar em vagas extras, superlotando o hospital. (ENFERMEIRA) Os profissionais da saúde identificaram que o processo de transferência das gestantes para o hospital tem sido o maior problema (ruído) identificado na emergência obstétrica. Para a concretude da integralidade, conforme Hartz e Contandriopoulos (2004) é preciso que haja integração de serviços por meio de redes assistenciais, reconhecendo que nenhum ator/organização dispõe da totalidade de recursos e competências necessárias para a solução dos problemas de saúde. Ainda sobre as questões relativas ao acesso das gestantes à Unidade de Obstetrícia foi relatado em conversa com uma gerente do setor que existe um convênio estabelecido com algumas unidades básicas de saúde da família que se localizam nas proximidades do hospital no intuito de ofertar condições para que os exames de rotina do pré-natal possam ocorrer de forma mais rápida. Para tanto o hospital fornece 100 guias para ultrassonografia gestacional, pois caso seja diagnosticado alguma complicação ou situação de risco, a paciente é instruída a realizar o pré-natal no próprio hospital com vistas a um melhor acompanhamento das possíveis intercorrências. O SUS tem demonstrado muitos avanços desde sua implantação. Entretanto, o grande desafio que se coloca neste momento é a integralidade da atenção à saúde, considerando a necessidade de organização de rede hierarquizada e regionalizada de serviços. Um dos maiores objetivos é garantir a atenção à saúde da população de forma equitativa, integral, humanizada e de qualidade, por meio da formulação e implementação de políticas de saúde. (BRASIL, 2003). 53 Para viabilizar o acesso aos serviços de saúde com mais eficiência, tem-se implantado no SUS, conforme os indicadores de morbi-mortalidade, as redes de atenção à saúde (RASs). Para tanto, o Ministério da Saúde, com o intuito de restabelecer a coerência entre a situação de saúde e o SUS, inicia o processo de implantação (RASs), uma nova forma de organizar o sistema de atenção à saúde em sistemas integrados que permitam responder, com efetividade, eficiência, segurança, qualidade e equidade, às condições de saúde da população brasileira. (MENDES, 2011). No que concerne às redes de atenção à saúde, especificamente na área da saúde da mulher temos a Rede Cegonha que é uma estratégia do MS, operacionalizada pelo SUS, fundamentada nos princípios da humanização da assistência. A partir de suas premissas, as mulheres, recém-nascidos e crianças tem direito a ampliação do acesso, acolhimento e melhoria da qualidade do pré-natal; vinculação da gestante à unidade de referência para assistência ao parto a fim de evita a “gestante peregrina”. Foi discutido entre os profissionais que o hospital em estudo tem o compromisso de evitar, ao máximo, retornar as pacientes que procuram o serviço, respeitando os princípios estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde e atualmente da rede cegonha. Esta tem como uma das finalidades organizar uma rede de atenção à saúde materna e infantil garantindo acesso, acolhimento e resolutividade (BRASIL, 2012). Nesse contexto, percebe-se que nem sempre é possível a internação da gestante, entretanto os motivos são vários ou porque ela não possui uma situação clínica que justifique tal conduta ou porque de fato não há vaga e o hospital, então, providencia a transferência da adolescente com vaga assegurada para outro hospital. Essa ocorrência é confirmada na fala de uma médica: “Quem vai determinar a internação da paciente é a sua condição clínica”. Sabe-se pelo estabelecido nas diretrizes da Rede Cegonha, que a gestante ao iniciar o pré-natal já deve ser informada inclusive onde será o seu parto, evitando assim, que a mesma fica em peregrinação entre os hospitais e possa estabelecer um vínculo maior com o serviço (BRASIL, 2012). Após a consulta, dá-se continuidade no atendimento dessa adolescente que poderá realizar três caminhos diferentes a depender de sua condição clínica e do estado de lotação dos leitos: retornar para casa em virtude de sua condição clínica não necessitar de internamento; solicitar transferência com vaga assegurada para outro hospital e ser feito o internamento da gestante. 54 Independente do caminho que essa gestante adolescente realize, é primordial que os encontros estabelecidos com os trabalhadores proporcionem um acolhimento. Assim, todos os profissionais, desde a portaria na entrada da unidade, e prosseguindo por todo o caminhar do usuário na instituição, podem e devem acolher, escutar, interessar-se, contribuindo desta forma para a instalação de relações de confiança, conforto e consolidando a criação de vínculo e responsabilização. Oportunizando a essa gestante um atendimento humanizado, como estabelecido nas diretrizes de atenção à saúde da mulher pelo sistema único de saúde. Colaborando nas discussões sobre a humanização no atendimento como ferramenta de melhoria do cuidado, Santos (2008) afirma que para uma atenção à saúde de qualidade faz-se necessário um novo processo e condições de trabalho com ênfase na humanização da relação entre profissionais e usuários – cidadãos com sofrimento, riscos e direitos, que por sua vez humaniza os profissionais e demais trabalhadores de saúde, também cidadão com direitos. A humanização e a qualidade da atenção em saúde são condições essenciais para que as ações de saúde se traduzam na resolução dos problemas identificados, na satisfação das usuárias, no fortalecimento da capacidade das mulheres frente à identificação de suas demandas, no reconhecimento e reivindicação de seus direitos e na promoção do autocuidado (BRASIL, 2011). Compartilha-se da ideia que não basta ter um direcionamento por meio das políticas públicas para a concretização da humanização no atendimento ofertado pelos trabalhadores de saúde. Estes profissionais que lidam diretamente com o público devem trata-los de maneira a corroborar com a filosofia implantada nos documentos das políticas públicas de atenção integral à saúde. A humanização da atenção em saúde é um processo contínuo e demanda reflexão permanente sobre os atos, condutas e comportamentos de cada pessoa envolvida na relação (BRASIL, 2011). Desse modo entende-se que é fundamental a análise do processo de trabalho favorecendo reflexão sobre o agir individual e coletivo, suas repercussões no cuidado e na qualidade de vida das pessoas. No caso da atenção à adolescente em fase de parturição é promissor que se garanta um acesso para a concretude do seu maior intuito, 55 que no caso é ser mãe, de maneira a configurar o acesso como um encontro relacional do profissional com a usuária, favorecendo a possibilidade do acolhimento e do vínculo. 5.1.3 Acolhimento da mãe adolescente na emergência obstétrica Com relação ao acolhimento das gestantes, procurou-se extrair dos relatos das parturientes como foi esta condição na relação com os trabalhadores da saúde, pois aqui envolveu, principalmente, o momento de chegada essencialmente, com os profissionais da emergência. Assim, provocou-se uma reflexão com estes sujeitos, como protagonistas de seus problemas oportunizando enunciar suas necessidades, e como estas tem repercussões a partir das relações com os profissionais. Entende-se que o acolhimento deve acontecer em todas as etapas na produção do cuidado, pois quando a parturiente se depara na condição de hospitalização tem uma interação com vários trabalhadores de saúde que dão suporte para as ações de saúde (recepcionista, porteiro, vigilante, pessoal dos serviços gerais, maqueiro, pessoal da rouparia, os que entregam as refeições), além dos profissionais de saúde. Enfim, todos aqueles que contribuem durante o internamento ou passagem das mesmas nas unidades hospitalares, pode haver alguma situação em que se configure ou não a atitude de acolhimento. O acolhimento consiste na humanização das relações entre usuários e profissionais de saúde, pois contribui para criação de vínculos entre eles. O acolhimento destina-se a garantir a universalidade com escuta qualificada de todos os que chegam à unidade de saúde (CAVALCANTE FILHO et al., 2009). Observa-se nos discursos das gestantes que o atendimento na emergência obstétrica, em geral, foi satisfatório. O discurso de uma mãe adolescente destaca relações no atendimento, a forma como foram tratadas pelos profissionais. Dessa maneira, o acolhimento se configura como postura dos profissionais em demonstrar atitude de comprometimento em receber a gestante, escutá-la, e tratá-la, considerando suas necessidades. Gerando, assim, uma relação de interesse mútuo em prol da resolução do problema. Assim, retratam as mães adolescentes. O médico e a enfermeira eram muito educados, não eram ignorantes! A enfermeira brincava com a gente para deixar mais a vontade, e por ser nova, entendia o que eu falo ou deixo de falar. (MA7) 56 A médica, porque eu cheguei aqui 21horas e quando foi 01 hora eu não tinha comido nada ainda e ela mandou dar comida para mim. (MA8) Pelo discurso apresentado, provavelmente, essa adolescente vivenciou experiências anteriores de atendimento à saúde e deparou-se com profissionais que a trataram com rusticidade, pois ela enfatiza o fato do médico e da enfermeira não serem “ignorantes”. Esses discursos, também, trazem situações vividas pelas adolescentes que marcaram de forma positiva durante o atendimento. Essa adolescente menciona o fato da enfermeira ser “mais nova” insinuando possibilidade de compreender melhor suas necessidades. Outra parturiente salienta que a médica teve preocupação com a sua a alimentação, pois ainda não tinha se alimentado desde sua chegada ao hospital. As parturientes, ainda mencionaram ter gostado do atendimento em virtude de ter sido rápido. Duas gestantes comentaram ter chegado ao hospital em trabalho de parto, com bolsa rota, enfatizando ainda mais a necessidade da rapidez no atendimento, pois o que mais importava para ela, naquele momento era a realização do parto. O atendimento foi bom, as enfermeiras foram simpáticas comigo, mas não me lembro muito do que foi conversado. Quando cheguei aqui me atenderam logo. Aqui foi bem rápido. (MA10) A emergência obstétrica é o primeiro local de contato da gestante adolescente com o serviço e com os profissionais de saúde. É onde se inicia o acolhimento dessa jovem, ação esta que perpassa o ato de recepcionar ou selecionar e que envolve a interação para percepção e avaliação das necessidades de cuidado dessas usuárias (ANDRADE, ARTMANN e TRINDADE, 2011). Ao falarem sobre o acolhimento na emergência obstétrica, as adolescentes referiram que o contato inicial é com os profissionais de enfermagem, sendo em seguida, encaminhadas pra a avaliação médica. Quem me recebeu foi uma enfermeira (...) cuidou bem de mim. Falou que essa dor que eu tava sentindo era tudo normal, me deu remédio pra parar, me disse que ia passar rápido. (MA5) Foi a enfermeira, a outra, a auxiliar. Fui muito bem atendida por ela. Conversou comigo pra mim se acalmar, ter paciência que eu ia ser atendida e ia dar tudo certo. Pra mim relaxar (MA12). 57 Percebe-se o acolhimento da equipe de enfermagem como uma ação de interação entre profissional-cliente, sendo avaliada e trabalhada a condição emocional, feito orientações sobre a condição de saúde da jovem, além da intervenção técnica, propriamente dita, garantindo-se uma atenção integral. Nessa perspectiva, Melo e Coelho (2011) defendem que a integralidade não despreza o exercício da clínica, mas valoriza o seu uso prudente com a visão das necessidades outras dos sujeitos, com respostas aos problemas de saúde específicos ou que afligem certo grupo populacional, considerando os contextos socioculturais. Os profissionais médicos participam diretamente do cuidado, o qual está inserido o acolhimento dessas mulheres. Mantêm uma relação permeada de diálogo esclarecendo sobre a condição de saúde destas. A partir das entrevistas constatou-se que fica a cargo do profissional médico o exame clínico e a decisão pela internação da gestante. Fato também identificado durante as observações realizadas na emergência. Presenciou-se o momento da admissão de uma adolescente de 17 anos, que se encontrava em trabalho de parto. Esta estava acompanhada por uma tia, e ao chegar ao serviço foi direcionada por uma auxiliar de enfermagem para o consultório médico. No consultório estavam o médico plantonista, um interno de medicina e um residente de obstetrícia. Os profissionais que estavam na sala examinaram a adolescente e decidiram pela internação, enquanto a enfermeira resolvia questões administrativas da unidade e as auxiliares prestavam cuidado às outras mulheres internadas. Diante do exposto, percebeu-se que há pouca interação entre a equipe de enfermagem e médica durante a avaliação clínica da adolescente e da decisão pela internação, mostrando ser uma ação da equipe médica. A satisfação com o acolhimento também pode ter decorrido da forma como os profissionais se aproximaram da adolescente, ouvindo suas necessidades, minimizando suas tensões, orientando, dando apoio e de certa forma responsabilizandose pelo cuidado das gestantes. O discurso de duas das adolescentes elucida a satisfação no acolhimento em decorrência da forma como o profissional cuida. Eu gostei muito de quando eu entrei no hospital [emergência], quando eu fui recebida. A velhinha [técnica de enfermagem], ela foi bastante generosa comigo, ela foi mais cuidadosa. Ela conversou comigo, tentou me acalmar (MA5). (...) acho que ela é auxiliar de enfermagem (...) trata a pessoa assim como uma cliente particular. Que ia lá de instante em instante. Ela foi a pessoa que eu mais me 58 identifiquei, que mais me acolheu no que eu tava precisando, no que eu tava sentindo (MA8). A partir dos discursos notou-se que os técnicos de enfermagem foram os profissionais que acolheram essas adolescentes de maneira mais acolhedora, sendo os mais empenhados em se aproximar, estabelecer uma relação de confiança, perceber as necessidades além daquelas explícitas. Durante as observações percebeu-se que, por vezes, o enfermeiro não consegue manter uma relação mais acolhedora com a adolescente por ter de se responsabilizar pelo serviço burocrático da admissão e da transferência da jovem para o CO, que às vezes, acontecem quase que concomitantemente. Logo, acredita-se que seria relevante a presença de dois profissionais enfermeiros na unidade para que as atividades administrativas fossem divididas ou designadas para um deles, evitando o comprometimento das atividades assistenciais. Observou-se também situações em que a gestante durante um primeiro atendimento não sentiu satisfeita e em um segundo momento já mudou sua percepção em relação ao atendimento do serviço de saúde. O fato de a adolescente estar com riscos para o prosseguimento da gestação em virtude da pressão alta levou ao seu internamento. Possivelmente essa condição gerou na gestante a seguinte colocação: “Eu sou bem atendida quando tenho algum problema!” No entanto, essa nova situação vivenciada pela gestante fez com que ela tivesse prioridade no atendimento. Gostei do atendimento somente dessa vez que fiquei internada. A médica foi bem legalzinha, mandou eu entrar, fiz ultrassom. Só que ela disse que eu não estava em trabalho de parto, mas estava com pressão alta, é pré-eclâmpsia. Por isso me internou. (MA9) Reconhecemos que sem “acolher” e “vincular”, não há produção desta responsabilização e nem “otimização tecnológica” das resolutividades que efetivamente impactam os processos sociais de produção da saúde e da doença (FRANCO, BUENO e MERHY, 1999). Por outro lado, identificamos discursos que são divergentes e até contraditórios aos apresentados anteriormente, pois se relacionam com situações em que 59 as gestantes demonstram insatisfação no atendimento. Notou-se certo desconforto, desânimo ao ter que se reportar aos eventos dessa natureza, vivenciados pelas gestantes. Estes discursos trazem situações em que as adolescentes não se sentiram bem acolhidas no atendimento da emergência obstétrica. O atendimento foi muito bom! Só a enfermeira que era muito chata. Ela quis fazer como se eu soubesse de tudo. Era pra ela explicar as coisas. Era a minha primeira vez. (MA5) As enfermeiras da emergência são muito abusadas e nojentas. Elas ficam dizendo que essas meninas novas que entra no hospital vem só para passear, ai avisa para voltar para casa. (MA6) A médica que me atendeu, pela primeira vez era chata, chata, chata. Não gostei dessa médica que disse que eu estava com verme, detestei-a. (MA9) Os discursos relacionam-se ao fato de alguns profissionais não terem sido cordiais com as gestantes ou mesmo não terem escutado o chamado daquele momento tão especial para a jovem parturiente. Dentre estas que se manifestaram em relação ao acolhimento na emergência obstétrica, poucas realizaram o pré-natal no próprio hospital. Portanto, é observado que mesmo a gestante tendo um vínculo maior com o serviço, vivencia desencontros nas relações estabelecidas com os profissionais. Uma adolescente ressaltou o comentário da enfermeira “essas meninas novas adolescentes que vem para o hospital só querem saber de passear”. Era a mais nova entre os sujeitos entrevistados, com 13 anos e parecia sentir diferença no tratamento, talvez isso explique a sua fala. Corroborando com o posicionamento de Bonfada et al., (2012) ao indagar que compreender o indivíduo requer antes de tudo reportá-lo ao lócus de sua inserção social, sem que haja, no entanto, a massificação do todo e sem negar as particularidades que lhes são inerentes. Conforme Teixeira (2003), acolhimento não é necessariamente uma atividade em si, mas conteúdo de toda atividade assistencial, que consiste na busca constante de um reconhecimento cada vez maior das necessidades de saúde dos usuários e das formas possíveis de satisfazê-las. Tais formas podem ser entendidas como encaminhamento, deslocamento e trânsito pela rede assistencial. 60 Por meio desses discursos, percebe-se que as gestantes ao serem bem tratadas, compreendidas em suas indagações, sentimentos ou aspectos sociais passam a vislumbrar o atendimento mais acolhedor e de qualidade, ocasionando uma sensação de segurança e de que o seu parto será mais tranquilo. A seguir, um discurso, que demonstra uma situação vivenciada no dia a dia dos serviços de saúde no que se refere a alguns profissionais que não mencionam sua identificação profissional. Percebeu-se, durante a observação, que mesmo eles se identificando, não há preocupação em saber se a usuária compreendeu a mensagem, vislumbrando o reconhecimento de sua profissão e do seu fazer. Em outro trecho dos discursos, uma adolescente mostra não reconhecer quem são os profissionais que cuidam, considerando todos iguais. Fui atendida por uma enfermeira, acho que era. Não me lembro muito não. Eu não sei direito se era médico ou enfermeira. Se identificou, mas não me lembro direito (...) Todos os profissionais foram do mesmo jeito, igualzinho. Acho que todas foram iguais, do mesmo jeito. Tudo foi do mesmo jeito. (MA11). A partir da observação, percebeu-se que poucos profissionais se identificavam durante o primeiro contato com a gestante. Como na emergência obstétrica, todos os profissionais, médicos, enfermeiras e auxiliares de enfermagem usam o mesmo tipo de vestimenta, padronizada pelo hospital, tornando-se complicado para a gestante diferenciar ou fixar quem os são. Observou-se também o quanto é para as gestantes, difícil, identificar ou diferenciar, na enfermagem, quem é a enfermeira e quem é o profissional de nível médio. Em um dado momento perguntou-se a uma entrevistada, imediatamente após o atendimento na unidade de emergência: “quem é esse profissional que acabou de falar com você?” e constatou-se que a mesma não soube identificar, confirmando essa falta de identificação profissional. Portanto, quando a gestante precisa se reportar aos profissionais, acaba mencionando as características físicas em substituição à categoria profissional. Possivelmente por não ter tido maior oportunidade de interação, o momento do internamento deve também ser espaço para aprendizado e de reafirmação profissional para se ter o devido reconhecimento por parte da população usuário do serviço, assim como da sociedade. 61 É importante também considerar que na emergência obstétrica a gestante chega para ter o bebê, e muitas vezes, as relações estabelecidas, por mais adequada e sensível, a mulher está mais focada e preocupada em ter um bom parto e que seu filho possa nascer sem complicações. O Acolhimento propõe inverter a lógica de organização e funcionamento do serviço de saúde, partindo dos seguintes princípios: 1. Atender a todas as pessoas que procuram os serviços de saúde, garantindo a acessibilidade universal. 2. Reorganizar o processo de trabalho, de forma que este desloque seu eixo central do médico para uma equipe multiprofissional - “equipe de Acolhimento” - que se encarrega da escuta do usuário, se comprometendo a resolver seu problema de saúde. 3. Qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve se dar por parâmetros humanitários, de solidariedade e cidadania (FRANCO, BUENO e MERHY, 1999). Nota-se pelos discursos que as participantes da pesquisa são muito objetivas em suas colocações, no entanto algumas mostram sua satisfação no ato de comunicação em um momento especial – nascimento do filho. Gostei só na hora que ela estava escutando o coração do bebê. (MA11) A enfermeira me disse que o bebê estava bem. Eu ia ser atendida assim que o médico olhasse os exames. E quando eu fui fazer a ultrassom, o médico disse que o bebê estava bem e que ele não "tava nem ai" para a minha pressão. (MA12) Algumas adolescentes, pouco frequentaram o ambiente hospitalar. Estas, na fase de criança, são atendidos nos hospitais pediátricos, depois passam a serem atendidas em hospitais gerais, já na fase adulta. No entanto, na situação de gravidez/parto necessitam da assistência hospitalar, principalmente quando é uma gravidez de risco. Talvez isso explique o sentimento de vergonha durante a consulta, pois uma das parturientes relatou em sua fala este sentimento por ter sido atendida por um profissional do sexo oposto: Situação de insatisfação não! Acho que é mais por vergonha né, por causa da situação, minha gravidez na adolescência. Por timidez mesmo. Tinha homens no atendimento, né. 62 Diante destes relatos, observa-se a necessidade de um serviço com profissionais qualificados no atendimento a mães adolescentes favorecendo um atendimento humanizado sensível aos problemas que acompanham este seguimento populacional. Pois inexiste um momento de acolhimento ou triagem das gestantes na emergência obstétrica. Durante a realização do fluxograma descritor os profissionais relataram que seria importante a realização de tal conduta, uma vez que daria uma melhor organização no setor e possibilitaria uma reordenamento dos fluxos. Asseguram Santos et al, que apesar de a timidez atrapalhar a participação de algumas adolescentes durante as consultas, a posição passiva por elas assumida ocorre, sobretudo, em consequência do grau de assimetria instalado, modulado pelo maior ou menor espaço oferecido pelos profissionais da saúde para a conversa e a escuta. Silva Jr e Mascarenhas (2004), vislumbram o acolhimento como reformulador da produção do cuidado pontuando problemas e oferecendo soluções e respostas a partir da identificação das demandas dos usuários, rearticulando o serviço em torno destes. Ainda sobre essa questão, Bonfada et al. (2012) enfatizam que é preciso romper com a lógica do hospital como espaço exclusivo de e para cura e reconhecê-lo enquanto copartícipe e corresponsável pelo processo de mudança das condições de vida da população. Assim, dois instrumentos mostram-se como imprescindíveis. Portanto, a organização tecnológica do trabalho, orientada pelo princípio da integralidade, requer uma relação democrática entre quem produz e quem consome o serviço na perspectiva do atendimento às necessidades sociais. Porém, essa perspectiva apela para um trabalho de natureza interdisciplinar, portanto, coletivo e com trabalhadores de diversos saberes. Com a possibilidade do acolhimento, o profissional enseja uma relação de confiança, que por sua vez facilita a referência para estas usuárias, estabelecendo dessa forma o vínculo, aspecto importante no cuidado da mãe adolescente, que não terá dificuldades no acesso, caso apresente uma necessidade de saúde dela ou do filho. O discurso a seguir evidencia essa relação com o serviço possibilitando um atendimento mais rápido e eficaz, garantindo, portanto, a resolutividade proposta nas políticas públicas de atenção ao SUS. Eu vim para o meu pré-natal e quando cheguei me mandaram para a emergência porque minha pressão estava muito alta e de lá me mandaram para a sala de parto (MA10). 63 Criar vínculos implica ter relações tão próximas e tão claras, que nos sensibilizamos com todo o sofrimento daquele outro, sentindo-se responsável pela vida e morte do paciente, possibilitando uma intervenção nem burocrática e nem impessoal (Merhy, 1994). Concordando com o apresentado por Gomes e Sá (2009), a concepção de vínculo apresenta uma interface com outros grandes conceitos em saúde pública como da humanização, do acolhimento, da responsabilização, da integralidade e da cogestão. Para tanto é preciso ter conhecimento sobre o contexto da parturiente para que o atendimento seja o mais holístico possível, uma vez que as demandas para além dos aspectos biológicos serão considerados como importantes. O conhecimento da realidade e do contexto de vida do usuário é fundamental, considerando que o conceito de saúde envolve qualidade de vida, e que esta é determinada, entre outros aspectos, pelo bemestar biológico, psicológico e social (GOMES E SÁ, 2009). No contexto da gestação e maternidade estas relações vão implicar fortemente nos cuidados e proteção à saúde da mãe e do bebê. Ratificando essa ideia Coelho et al. (2009) afirma que as relações que se configuram entre os profissionais e gestantes as usuárias trazem consigo uma dimensão política que inclui sua visão de mundo incorporada nas subjetividades. Portanto, a escuta, a responsabilização e a criação de vínculos com a inserção da abordagem de gênero oferecem à mulher possibilidades de serem sujeitos e devem fazer parte de um projeto de reorganização das práticas direcionadas pela integralidade do cuidado. De todas as gestantes que foram entrevistadas apenas quatro delas realizavam o pré-natal no hospital em estudo, e a partir do discurso de uma delas, vislumbramos a possibilidade de um atendimento resolutivo de suas demandas, uma vez que ao ser identificada a sua necessidade, as intervenções procederam-se de maneira imediata com vistas à realização do parto, minimização de possíveis agravos. Essa premissa estabelecida na Rede Cegonha consta como direito da gestante de ampliação do acesso, acolhimento e melhoria da qualidade do pré-natal, além de realização de parto e nascimento seguros, através de boas práticas de atenção (BRASIL, 2011). Segundo Mehry (2005), um profissional da saúde, para atuar, necessita dispor de três tipos de “caixas de ferramentas tecnológicas”, as quais denominam: “valise de mão”, constituída pelas tecnologias duras, representadas por equipamentos e máquinas; “valise de cabeça”, composta por tecnologias leves-duras, referentes aos saberes profissionais bem estruturados; e por fim, “valise das relações”, contendo 64 tecnologias leves, implicadas na produção do “trabalho vivo em ato”, que só se realiza no espaço relacional entre os sujeitos. Ante a singularidade dos usuários, no caso as gestantes, os profissionais de saúde são levados a compreender as limitações de sua possibilidade de atuação e, consequentemente, rever as relações de poder que se estabelecem junto aos usuários. Alguns estudos como Caprara (1999) e Rossi (2006), pautados na integralidade e humanização e comprometidos com a melhoria da qualidade da assistência à saúde demonstram que os profissionais de saúde são tecnicamente eficientes, no entanto, indiferentes e distantes, quando não ríspidos e impacientes nas relações com o usuário. Há ainda de se questionar a importância da identificação profissional, por parte das gestantes e dos profissionais de saúde. A partir da observação percebemos que poucos profissionais se identificavam durante o primeiro contato com a gestante. Como na emergência obstétrica, todos os profissionais, médicos, enfermeiras e auxiliares de enfermagem usam o mesmo tipo de vestimenta, padronizada pelo hospital, sendo assim, torna-se mais complicado para a gestante diferenciar ou fixar quem os são. Observamos também o quanto é para as gestantes, difícil, identificar ou diferenciar, na enfermagem, quem é a enfermeira e quem é o profissional de nível médio. Importante lembrar que como profissionais de saúde , além de cuidadores, também somo educadores em saúde e muitas vezes, a partir de uma comunicação efetiva podemos esclarecer pontos importantes no cuidado em saúde. Parafraseando Paulo Freire (2005) ao falar sobre a educação como sendo um processo dialógicodialético em que todos ensinam e todos aprendem, as relações que se estabelecem entre os profissionais de saúde e usuários dos serviços, são relações pedagógicas. Portanto, coloca-se como desafio a ser assumido pelos profissionais de saúde, a valorização das relações interpessoais em suas práticas cotidianas. Isso possibilita um maior vínculo e fortalecimento das relações entre estes e os usuários, possibilitando em significativas transformações no pensar e agir em saúde. No entanto, esse desafio muitas vezes se torna complicado, em virtude de alguns profissionais perpetuarem fortemente o modelo médico-assistencial, visando apenas e como consequência, temos uma atenção à saúde limitada aos trâmites da queixa-conduta, que em pouco contribui para a transformação da realidade de saúde/doença individual e coletiva (BONFADA et al., 2012). 65 Para tanto, quando a gestante precisa se reportar aos profissionais, acaba mencionando as características físicas do que propriamente a categoria profissional. O momento do internamento deve também ser espaço para aprendizado e de reafirmação profissional para se ter o devido reconhecimento por parte da população usuário do serviço, assim como da sociedade. 5.1.4 Cuidado clínico à parturiente no centro obstétrico Nesta categoria está descrito como se configuram as relações dos profissionais da saúde com a gestante adolescente no Centro Obstétrico, destacando-se o cuidado do enfermeiro e como vivenciaram o “direito ao acompanhante”. Em relação à disponibilização da informação relacionada ao direito de ter o acompanhante, considerado como prática útil no atendimento à gestante durante o trabalho de parto e parto, observou-se que há uma certa desinformação, por parte das gestantes sobre esse direito. Algumas acham que só tem esse direito quando são menores de idade e somente quando o parto for vaginal, outras relataram que não sabiam de tal direito. Alguns discursos ilustram o pensamento das gestantes que desconheciam o direito que lhes é garantido – a presença de um acompanhante durante as etapas do parto. Não, ninguém disse nada não. A minha tia foi quem foi perguntar se meu marido podia ficar aqui. Ai lá dentro disseram que pode (MA9). Não foi falado sobre o direito do acompanhante na hora do parto. Também não sabia desse direito. Eu e minha mãe perguntamos se poderia entrar para acompanhar o parto, ai disseram que só poderia se fosse parto normal. (MA10) Eu sou “de menor”, né. Ai eu não podia ficar só. Quem me disse foi a enfermeira, eu acho, e a mulher lá de baixo. Eu já sabia desse direito sim. (MA11) Sobre o direito do acompanhante não foi mencionado. Só a assistente social que falou e disse também sobre a higienização. E disse que só poderia se fosse normal. (MA7) Conforme Busanello et al. (2011), em estudo realizado no centro obstétrico de um hospital universitário do Rio Grande do Sul, acerca da práticas desenvolvidas na assistência ao parto de adolescentes, concluíram que o direito a presença de um 66 acompanhante de escolha da parturiente durante o trabalho de parto e parto, segundo o relato dos trabalhadores, não e respeitado. Há também de se considerar que alguns profissionais perguntam se a gestante está com acompanhante, e caso esteja, mencionam que o mesmo pode permanecer. Percebe-se que os profissionais não explicam para a gestante de maneira adequada sobre essa questão. Em conversas informais e durante a observação realizada nas unidades, nota-se um pouco de receio em informar às gestantes, afora quando a mesma vai em busca de toda a informação. Segue alguns discursos das adolescentes que já sabiam acerca de tal direito. Eles explicaram isso ai não. Eles me ensinaram como fazer na hora do parto, mas eu já sabia do direito. (MA6) Fui informada sobre o direito ao acompanhante pela minha doutora que faz o prénatal. Aqui no hospital só perguntaram se eu tinha acompanhante, porque minha prima veio comigo. (MA2) Ah! Não falaram nada! Só perguntaram se eu estava com acompanhante. Eu sabia do direito, mas não sabia que marido podia ficar. Se eu soubesse, meu marido estava aqui comigo, com certeza! (MA5) A saúde como direito contempla tanto aspectos individuais, privilegiando a liberdade, quanto sociais, privilegiando a coletividade. Portanto, as determinações jurídicas a respeito de fechamento de estabelecimentos que ofereçam risco ao consumidor, criação de ambientes livres do fumo, fiscalização da ingestão de álcool ao volante, são limitações ao direito individual em favor do coletivo (BRITO-SILVA, BEZERRA E TANAKA, 2012). No que se tange a presença de um acompanhante de escolha da parturiente durante o trabalho de parto e parto, evidenciou-se, a partir de estudo realizado em um hospital universitário do Rio Grande do Sul que, assim como em outros desenvolvidos nesta área, o direito ao acompanhante não vem sendo respeitado pelos trabalhadores (BUSANELLO et al., 2012). Isso vem, de certa forma, desrespeitar e demonstrar fragilidade na assistência obstétrica, uma vez que um dos aspectos mais exaltados pelo processo da humanização da atenção na saúde da mulher é de fato a participação e envolvimento da família nesse processo. 67 Ainda sobre a discussão acerca dos direitos em saúde, especificamente na atenção à saúde da mulher, o Ministério da Saúde, instituiu em 2000 o Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento no intuito de tornar mais humanizado a assistência em saúde de todo o ciclo gravídico-puerperal. O mesmo atribui duas características marcantes: o olhar para a integralidade da assistência obstétrica e a afirmação dos direitos da mulher incorporados como diretrizes institucionais (BRASIL, 2001). A garantia do direito estabelecido vai ao encontro da concretude da integralidade uma vez que está se torna um qualificador daquele (PUCCINI E CECÍLIO, 2004). No que se refere às relações interpessoais dos profissionais de saúde com as adolescentes, percebe-se algumas situações como: a identificação profissional, os cuidados prestados pela equipe de saúde e a comunicação como aspectos destacados no discurso dos mesmos. Sobre a identificação profissional muitos profissionais se apresentam e mencionam a categoria profissional, no entanto, o momento da sala de parto, em virtude da atenção estar voltada para ter o bebê, as gestantes acabam nem lembrando de tais informações. Não, eles não se apresentavam se eram médico ou enfermeiro. Eles diziam o nome e que se precisasse podia chamar. Só isso. (MA5) Reconheço pela identificação no jaleco. Era enfermeira porque tinha escrito na roupa dela. Eles se apresentavam também. (MA1 e MA11) Eles se apresentavam e diziam o nome e se eram enfermeiro ou não (...) mas não lembro o nome deles, não dá para saber depois (...) nem decorar quem é quem, pois é muita gente, né? (MA1, MA6 e MA11) O preparo da gestante para o parto abrange a incorporação de um conjunto de cuidados, medidas e atividades que têm como objetivo oferecer à mulher a possibilidade de vivenciar a experiência do trabalho de parto e parto como processos fisiológicos, sentindo-se protagonista (BRASIL, 2001). Esta possibilidade deve ser estimulada, pois se fundamenta na comunicação entre os sujeitos envolvidos nas etapas do cuidar. Para tanto, torna primordial, que profissionais deem a devida significância desta participação ativa, pois ajuda na autoestima e cuidado de si e do filho. No que tange aos cuidados prestados pela equipe de saúde, percebe-se que de modo geral elas se processam de maneira satisfatória para este público pesquisado. Percebe-se pelos discursos a presença constante dos profissionais da enfermagem no 68 que tange aos cuidados com a parturiente no centro cirúrgico. Cuidados esses, mais voltados para os aspectos biológicos, no entanto, não menos importantes que outras dimensões psicossociais. A simples presença e o fato de perguntá-las se estão sentindo alguma coisa já confere a disponibilidade para o cuidado humanizado. Me examinaram e perguntaram se eu estava bem. A enfermeira ficava toda hora indo lá. Perguntando como é que eu estava. Se eu estava sentindo alguma coisa. Ficou me examinando. Eles me davam explicações sobre minha situação, colocavam o remédio. Sendo que as orientações sobre mim acho mais importante. (MA1) A enfermeira fica vindo aqui de vez em quando e pergunta como é que eu estou, se eu estou sentindo dor, olha o soro, conversa com a gente né, pergunta se está tudo bem, examina, troca o soro. É isso! Fez meu exame de HIV e depois me disse o resultado. Deu tudo certo no exame... Acho que o conforto de estar aqui já me deixa satisfeita (...) Acho que trocar o soro é mais importante, porque preocupa mais e pode entrar ar na veia também. (MA2) A enfermeira pergunta se eu estou sentindo dor, se estou bem, traz a medicação e explica para que serve, depois a gente vai para o asseio no banheiro. Ai teve uma auxiliar que veio me trazer o soro, mais tarde a gente almoçou e depois mais remédio e depois a auxiliar ficou conversando comigo, me explicando as coisas. (MA7) Acordei e merendei. Primeiro perguntaram seu eu podia comer, porque podia ser que eu não pudesse né. Ai perguntaram se eu ia tomar banho, mas depois disseram que era para eu esperar o médico para ele fazer logo os exames. Aí ele veio, perguntou tudo direitinho. (MA9) Em relação à assistência à saúde da mulher no período gravídico-puerperal, a OMS e o MS brasileiro recomendam maior participação da enfermeira obstétrica e da obstetriz, considerando a importância de acompanhar o trabalho de parto, aprimorar a assistência ao parto normal e diminuir as taxas de cesariana (CAUS, et al., 2012). Neste sentido, o enfermeiro tem sido reconhecido, também pelo MS brasileiro, como o profissional que possui formação holística e procura atuar de forma humanizada no cuidado a parturiente (BRASIL, 2001). Entretanto, uma gestante retrata uma situação desfavorável na relação, enquanto boa parte destacam encontros acolhedores, pois a trataram de maneira diferente dos demais profissionais. 69 Eles nem me deram boa noite! Nem me disseram olá! Nem tentaram me acalmar! Me deram as costas e pronto! É para tratar bem a gente, né?! Principalmente porque é o primeiro filho (...) Eu acho que era para ter mais carinho com a gente, principalmente primeira mãe, porque a gente não sabe de nada. Eu chegava e dizia que estava sentindo muita dor e elas me deixavam lá, sozinha na cama. Elas nem chegavam para me dizer que era assim mesmo ou que eu ficasse calma. Em termos de cuidados eu achei muito solto, agora quando ficava com a acompanhante elas tratavam muito bem. Teve só uma enfermeira que foi legal comigo. Ela dava muita atenção e me ajudava com muita coisa. Não “botava boneco” para fazer as coisas. (MA5) O discurso desta última gestante (MA5) traz uma experiência negativa na unidade de pré-parto por parte da equipe de saúde, pois não recebeu a atenção esperada. Ela demonstra a falta de acolhimento dos profissionais que não valorizaram suas necessidades, suas dúvidas, seus anseios. Nota-se pelo relato que a adolescente queria apenas um simples “boa noite”. E ainda, retrata o fato de a atenção está relacionada à presença do acompanhante. O ambiente estranho das salas de pré-parto e parto intensifica os sentimentos de solidão e o medo da dor. Em relação ao momento do parto vaginal ou cesárea, percebem-se duas situações distintas. Duas adolescentes que relatam terem sido muito bem tratadas, pois teve a devida atenção por parte da equipe de saúde. Os médicos foram legais comigo. O que dá anestesia foi legal comigo também. Todo mundo legal. Eles disseram que era para ficar relaxada. Porque eles tinham que dar a anestesia no osso da coluna. Mandaram eu abaixar a cabeça. Ai quando eles colocaram a agulha eu me "arribei" e eles mandaram eu baixar a cabeça de novo. Na hora do parto eu fiquei conversando normal com o médico. Ele disse que estava só tirando a criança e depois ia costurar o útero e depois as outras partes. Eu estava era achando graça na hora. Ai eles perguntaram: você está rindo porque está sentindo dor ou porque está feliz e eu respondi que era pelas duas coisas (....) Não teve momento ruim não. Tudo legal. O da anestesia ficou mais tempo comigo. Ficou todo tempo perguntando se eu estava bem. Tudo o que eu perguntava ele respondia. (MA12) Me receberam muito bem. Elas mandaram eu colocar uma forcinha na hora do parto. Explicaram mais coisas só que eu não me lembro. Eu estava com muitas dores. Só não gostei na hora que me disseram que meu bebê nasceu com cansaço. Ai eu fiquei mais 70 preocupada, só por causa disso. Na hora em que ela falou que ele (o bebê) estava cansado eu não entendi direito, ai ela explicou mais e fiquei mais tranquila. (MA11) Segundo estudo realizado em uma maternidade do Rio de Janeiro, as informações recebidas pelas mulheres durante o trabalho de parto e parto apresentaram uma clara associação com a satisfação em relação à assistência, ou seja, quanto mais completa e suficiente a orientação foi percebida pela parturiente, maior a satisfação em relação a assistência a parturição. Ademais, o grau de informação pode aumentar a percepção da mulher sobre o evoluir do parto e favorecer a sua participação nas decisões e escolhas sobre as condutas adotadas neste momento (DOMINGUES, SANTOS E LEAL, 2004). A partir do instante em que as relações interpessoais se configuram com clareza, geram a sensação de segurança e conforto. Essa é a questão central para a construção da integralidade: a relação trabalhador-usuária na qual o objetivo transcende a construção de vínculo e responsabilização, uma vez que requer mudança efetiva nas relações de poder (TEIXEIRA, 2003). Em outro discurso, nota-se uma vivência diferente, pois a gestante adolescente não foi bem orientada como deveria proceder durante o parto cesáreo e que no momento do parto cesáreo não teve a mesma atenção dispensada e que nenhum dos profissionais conversou com a referida parturiente. A médica informou para mim que seria parto cesáreo para eu não sofrer muito devido a posição do bebê. Não me falaram sobre como seria o parto, o que ia acontecer. Isso não. (...) E na cirurgia não teve nenhum profissional que eu gostei, não conversei com ninguém. (MA7) Nota-se no discurso que a gestante não participou da decisão sobre o tipo de parto, sendo apenas informada sobre tal conduta. A perda da autonomia da mulher no parto está relacionada, principalmente, com a intensa medicalização que o corpo feminino sofreu nas últimas décadas (BRASIL, 2001). Ainda sobre essa questão da decisão sobre o tipo de parto, a Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (ReHuNa) traz cinco principais objetivos. Um deles é incentivar as mulheres a aumentar sua autonomia e poder de decisão sobre seus corpos e partos (RATTNER, 2005). Nenhuma das gestantes se referiu, explicitamente, ao momento do pós-parto em que as adolescentes ficam aguardando retornar para a sala de pré-parto ou serem 71 transferidas para a unidade de internação. O MS recomenda que nestes espaços, os profissionais deveriam aproveitar o curto período em que a mulher permanece sob vigilância na unidade onde o parto ocorreu e constituir uma oportunidade para um cuidado individualizado no tocante às orientações sobre o período puerperal, cuidados e amamentação precoce (BRASIL, 2001). Acredita-se que seja um momento oportuno ma vez que as dores do trabalho de parto já cessaram e agora ela está mais acessível para conversas sobre os cuidados de si e do filho. É provável que no instante em que a mulher vai ganhando autonomia no processo de parturição e o profissional da saúde se comporta como um facilitador, a lógica do cuidado ofertado terá como centro das atenções esta mulher. Sendo assim, respeitados seus direitos e atendidas suas necessidades. Em relação a essa micropolítica do poder instituído entre os sujeitos foi percebido, durante a observação e oficina do fluxograma descritor que as usuárias não tem o poder de decisão sobre os procedimentos, condutas ou cuidados ofertados, cabendo essa tomada de decisão ao médico da unidade As relações que se estabelecem entre os profissionais e as usuárias trazem uma dimensão política que inclui sua visão de mundo incorporada nas subjetividades (COELHO et al., 2009). A resistência dos profissionais a uma atenção centrada na paciente ocorre frequentemente, por desconhecerem outra forma de atendimento, apontando para a necessidade de adequação ao modelo atual defendido pelo SUS, já que não foram preparados pelas universidades para atuar de forma diferenciada e respeitando a subjetividade e autonomia do cliente (QUEIROZ et al., 2007). Observou durante a realização das oficinas com os profissionais que há distanciamento de um trabalho integrado e inclusive com a participação ativa das mulheres em seu processo de parturição Eu acho assim. Talvez o plano terapêutico da usuária origina-se do plano terapêutico médico. Ela, a gestante, veio buscar um atendimento médico! As outras coisas são para agregar o tratamento médico. Ela não veio aqui para buscar um atendimento psicológico, digamos assim. (MÉDICA) A gente não tem essa prática realmente de trabalho em equipe, de formar rotineiramente (ENFERMEIRA) um atendimento integrado. Acaba sendo, se necessário. 72 Observa-se que as percepções, em sua maioria, limitam-se ao conceito sintoma, principalmente em momentos de impotência perante os sofrimentos decorrentes da dominância do social ou mesmo do tecnicismo da medicina (GARCIA, FERREIRA, FERRONATO, 2012). No centro obstétrico não se nota uma maior participação de outras categorias que não sejam a médica e de enfermagem. Esse não envolvimento das demais profissões, contribuindo e compartilhando seus saberes específicos findam por não terem a oportunidade de colocar seu conhecimento a serviço do bem-estar tanto da parturiente como do bebê ao reconhecer os momentos críticos e necessários em suas intervenções sejam importantes para assegurar a saúde de ambos. 5.1.5 Cuidado clínico à mãe adolescente na fase do pós-parto Nesta categoria serão enfatizadas as relações estabelecidas na produção do cuidado entre os profissionais, em especial da enfermeira com as mães adolescentes na fase de pós-parto que em geral ocorre no alojamento conjunto. De todas as unidades que compõem o Setor de Obstetrícia do hospital em estudo, imagina-se que o alojamento conjunto seja o local onde as relações entre os sujeitos da pesquisa pudessem ser desenvolvidas com mais intensidade, uma vez que ela passa mais tempo em relação aos outros setores, além da condição das mães, que nesse momento encontram-se mais relaxadas e com possibilidades de manifestarem suas necessidades e da criança . No entanto, o que se percebeu foi uma fragilidade nessas relações porquanto somente dois discursos relatam uma aproximação maior, ou seja, uma experiência positiva com a equipe e os demais exprimem uma situação de conformismo ou de insatisfação. O atendimento é bom, mas precisa melhorar na atenção ao paciente quando é a primeira gravidez, mas é melhor que em outros locais que a gente vai. (MA5) Quem me recebeu foi a médica. Ela perguntou se estava bem, se estava sentindo alguma coisa, se eu estava nervosa. Eu disse que estava normal. Ela disse que eu ia ficar internada uns dias para ver como ia ser a operação. Ela disse, também, que se em dois dias a pressão melhorasse eu já podia ter alta. Mas se a pressão não tiver normal, controlada, aí eu não ia ter alta. Todos se dedicaram a mim ... são todos legais aí não tenho o que dizer não. (MA12) 73 Acho que é a mesma coisa pra mim. Nem boa nem ruim. Mesmo jeito. Mas, seria melhor se eu estivesse em casa. Tá tudo normal aqui. (MA11) Só me botaram aqui na cama e disseram que eu tinha que ficar aqui alguns dias porque foi cesariana. Tinha que ficar 48h. (MA10) No discurso da MA5, traz a tona uma questão importante que é a atenção diferenciada para as gestantes adolescentes, principalmente quando estas são primigestas. Considera-se que há uma superposição de crises, onde os conflitos da adolescência somam-se às modificações trazidas pela gravidez (BERGAMASCHI & PRAÇA, 2008). Assim, torna-se relevante proporcionar uma escuta e atenção a todas as gestantes e à mãe adolescente deve-se ter uma relação constante e uma escuta cada mais direcionada às suas queixas, observações contínuas ao seu comportamento diante de sua fragilidade relacionada não somente ao parto, mas também pertinente à própria condição psicossocial da adolescência. Ser mãe pela primeira vez, independente da idade, é um momento novo que propicia modificações na vida em vários aspectos, quer sejam da continuidade dos estudos, da possibilidade de adiar as atividades de ocupação remunerada, da formação de um núcleo familiar e da responsabilidade, dentre outros. Em trabalho desenvolvido por Delatorre et al., (2011) sobre a vivência da gestação, parto e maternidade, por adolescentes, relataram que algumas das jovens entrevistadas, ao descobrirem a gravidez, se sentiram tristes ou apavoradas frente a esse evento. Relatam que foi necessário um tempo para se acostumarem ao novo momento. No ambiente onde o cuidado de saúde se processa, agora na unidade de internação, de fato esperava-se um atendimento mais próximo do integrado, entre os diversos profissionais, todavia essa realidade não foi visualizada nem relatada pelos trabalhadores de saúde. Constata-se isso a partir do discurso de uma profissional que participou da oficina de construção do fluxograma descritor. Como são muitas pacientes e as demais categorias profissionais não podem dar suporte todos os dias a todas as gestantes. Então como a enfermagem está mais em contato direto percebe as demandas e informa para a categoria profissional específica a necessidade de atendimento. (ENFERMEIRA) 74 O trabalho em equipe, ou seja, a experimentação no campo da organização do trabalho, possibilitando a articulação entre saberes e a produção de trocas entre os distintos trabalhadores da saúde, produzindo melhores respostas para casos singulares, em uma rede afetiva de trabalho partilhado, plural, criativo e eficaz (GARCIA, FERREIRA E FERRONATO, 2012). Acrescenta-se a isso o fato das preocupações estarem mais relacionadas ao fator biológico, como troca de curativos, evolução da cicatrização e controle da pressão arterial, por exemplo. Ficando em segundo plano ou nem mencionados os demais aspectos que compõem o ser humano. Percebe-se um despreparo dos serviços de saúde em relação às práticas de cuidado com adolescentes, de forma a atender as peculiaridades e complexidades das suas necessidades, faltando espaços e suporte apropriados às suas demandas, seja no campo da orientação, proteção ou recuperação da saúde (QUEIROZ, RIBEIRO E PENNAFORT, 2010). Tudo isso está relacionado com a humanização, e esta, pode ser assegurada ao mostrar-se indispensável aos bons resultados que o profissional deseja de si mesmo em seu trabalho, ou seja, na recuperação do desejo e do prazer de cuidar, quando a necessidade de bem cuidar for sentida como uma disposição que pode mover o desejo de aprender um outro jeito de ser e fazer o encontro clínico no campo intersubjetivo (RIOS, 2007). A importância das informações precisas e com sentido para as pessoas envolvidas no processo de comunicação são relevantes para a sensação de segurança, conforto e bem-estar. Isso se demonstra no estudo realizado em um hospital referência no cuidado materno-infantil na cidade de Fortaleza ao detectar que 20,5% das parturientes internadas, não demonstraram ter clareza nas informações concedidas pelos profissionais. Estas indagaram que os profissionais não esclarecem sobre a saúde do bebê; a linguagem que os profissionais utilizam, nem sempre, é clara para a paciente; são muitas informações ao mesmo tempo, o que torna a paciente confusa; às vezes ocorre desencontro de informações; os profissionais não têm paciência para dar informações, falam muito rápido e sem educação. Estas mulheres esclarecem ainda que a timidez delas atrapalha na hora de tirar as dúvidas (QUEIROZ, et al., 2007). Foi percebido a partir do último discurso da parturiente (MA11), um sentimento de passividade nas relações estabelecidas, bem como uma quebra de rotinas, uma vez que agora deve se habituar às rotinas hospitalares, quando em casa seria ela a autora de seu próprio ir e vir. Em relação ao ambiente hospitalar, com suas 75 características, estrutura física, rotinas para o adequado andamento do trabalho diário, interfere na rotina diária domiciliar de crianças e adolescentes. Dessa forma, as atividades como dormir, comer e higienizar-se são alteradas, assim como o contato do paciente com sua família, amigos e outros inseridos em sua rede de relações já não é mais o mesmo depois da hospitalização (GOMES, 2007). Além disso, esta enseja insegurança e uma peculiar ansiedade. O hospital é quase sempre um lugar de sofrimento e dor, de espera e angústia, quando não de desolação e desesperança (PESSINI E BERTACHINI, 2004). Há de se considerar ainda a falta de zelo constatado no discurso da parturiente (MA10), que informa ter sido colocada no leito e não ter recebido informações mais pertinentes nem tampouco cuidados com sua nova condição, o ser mãe adolescente. Esse (des)cuidado, finda por ser uma desconstrução no caminho da integralidade. Segundo Waldow (2004), o cuidado origina-se não somente do cumprimento de papéis profissionais ou da ciência médica e tecnológica, mas em um relacionamento de respeito, confiança, interesse, preocupação e apoio mútuos. A comunicação entre os trabalhadores de saúde e os usuários do serviço de saúde, assim como a maneira de se relacionarem podem gerar problemas ou soluções para uma atenção à saúde centrada no usuário. À medida em que essa comunicação é ineficiente, torna a assistência mais distante do alcance da integralidade. No que se refere aos cuidados de enfermagem, percebe-se que os mesmos são bem dirigidos aos aspectos físicos e por vezes há distanciamento de outras necessidades, ou seja, um olhar atento a outras demandas que possam estar incomodando e preocupando as mães adolescentes repercutindo na saúde e bem-estar do binômio mãe-filho. Assim que eu cheguei, elas ficavam me examinando. Dando orientações, perguntando como eu estou. Vinham tirar minha pressão um bocado de vezes e saber se estou com febre. Também me dava remédio. (MA1) Elas examinam a criança também. Dá a merenda. Se tiver medicamento elas colocam, tem também as dúvidas que elas tiram quando a gente pergunta. Falaram como é que é para botar o bebê para mamar. Agora, não ensinou como é que banha não. Eu ainda não sei. (MA5) 76 Houve explicação na sala do bebê como dar banho, trocar a fralda. Só me explicaram do bebê mesmo. De mim nada não. Daqui a pouco ele vem falar comigo porque eu vou sair de alta. (MA10) Eles me trataram bem, falou como era que cuidava do bebê, mais ou menos assim. Não me lembro muita coisa não. Falou como era pra tirar o leite. Explicaram como é que o meu bebê estava, conversou comigo. Mandou eu tirar o leite, porque meu bebê está no berçário. (MA11) As enfermeira vem, ai sei lá. Elas trocam o soro. Falaram que tem que dar massagem na mama para não endurecer. Pode ficar pedrado. Disseram que o meu filho estava no oxigênio, porque ele nasceu com cansaço. E que depois eu ia lá ver ele. O mais importante é quando eles vem trocar os curativos da cirurgia, porque elas dizem quando está bem, se não está sangrando. Elas trocam todo dia. (MA12) Nota-se, assim como nas demais unidades relatadas que o cuidado volta-se constantemente aos aspectos biológicos e na maioria das vezes relativos ao bebê, principalmente com atenção voltada para o aleitamento materno. Durante a observação na unidade de internação, percebeu-se que todas as manhãs, por volta das nove horas, é realizada uma palestra, sob a responsabilidade da enfermagem, com as mães internadas na unidade para explicar e dar orientações sobre a amamentação e os cuidados com o bebê de maneira geral. A promoção do aleitamento materno consta nas diretrizes da Rede Cegonha no que se refere à garantia da atenção à saúde das crianças de 0 a 24 meses com qualidade e resolutividade (BRASIL, 2012). Independente da idade, o ser mãe necessita de novas adaptações, reajustes interpessoais e intrapsíquicos. Conforme Camarotti et al. (2011), a adaptação à condição materna implica desenvolver capacidades para prestar cuidado ao filho frágil e dependente que, para a adolescente, pode se tornar um processo ainda mais complexo, quando não obtém de seu meio relacional um suporte apropriado. Dentre as capacidades para o cuidado com o filho, está a alimentação, o que inclui a amamentação. Dessa forma, o profissional da enfermagem deve estar sempre atento para a promoção da prática do aleitamento materno, dar orientações com clareza e acessíveis às gestantes, principalmente para aquelas que vivenciam a maternidade pela primeira vez, contribuindo assim para a manutenção dessa prática. Em relação às informações recebidas pelas mães adolescentes, percebe-se que de fato para algumas mães pode ser não atrativo, em virtude do excesso de 77 informações em um dado instante. Esse fato pode ocorrer pelo conteúdo diferenciado das conversas dos profissionais que, muitas vezes, não atentam para a necessidade de incluir ou respeitar a presença das mulheres durante as visitas ao leito, ou mesmo em conversas paralelas com outros profissionais (QUEIROZ, et al. 2007). Os autores ainda completam que com a Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), ampliam-se as estratégias de atendimento às necessidades da população feminina, enfatizando ações dirigidas ao controle das patologias mais prevalentes nesse grupo, exigindo atitudes diferenciadas dos trabalhadores de saúde a fim de atingir a integralidade do atendimento e propondo uma prática educativa de forma que esta clientela se aproprie de conhecimentos, tornando-a participante no controle de sua saúde. Em razão desse contexto, é imprescindível assinalar para cuidados multidisciplinares, tendo como foco, sempre a usuária, considerando suas demandas, suas necessidades. Para tanto, é preciso possibilitar espaços para uma discussão da assistência com a aplicação de tecnologias relacionais. Atualmente, o cuidado, eixo principal do processo de trabalho da enfermagem, comporta, em sua estrutura, o conhecimento técnico/operacional bem como a competência interpessoal, a fim de atender às necessidades humanas (SOARES, ZEITOUNE, 2012). A preocupação do profissional de enfermagem necessita abranger não apenas o biológico, mas a totalidade que permeia o cuidado biopsicossocial. O profissional de enfermagem não pode limitar a sua atenção ao atendimento daquilo que é visível no corpo (COSTERNARO, LACERDA, 2012). Espera-se que o espaço no qual há uma ação mais autônoma do profissional enfermeiro tivesse uma característica peculiar, o da educação em saúde mais fortalecido, que fosse estimulado, nas mães adolescentes o espírito da autonomia e do compartilhamento de saberes. Todavia, a realidade que se encontra, pelos discursos das usuárias do serviço, assim como pela percepção da observação, é bem diferente. Luta-se por um reconhecimento da profissão e pela não dependência das ações médicas para se iniciar uma conduta na assistência dessa mulher. 78 5.2 FLUXOGRAMA DESCRITOR REFERENTE À PRODUÇÃO DO CUIDADO À ADOLESCENTE EM PARTURIÇÃO NO SETOR DE OBSTETRÍCIA O fluxograma descritor expressa os caminhos percorridos pela gestante adolescente e a produção do cuidado dos profissionais de saúde, destacando-se as decisões, os conflitos e os ruídos relatados pelos profissionais na concretização do cuidado integral a essas usuárias. Figura 1 – Fluxograma descritor do cuidado à mãe adolescente no Setor de Obstetrícia – Hospital Geral de Fortaleza, Ceará, 2012 Observa-se que a gestante pode ser admitida ao Setor de Obstetrícia por três modos: demanda livre, encaminhamento de outro serviço de saúde ou pelo ambulatório de pré-natal do próprio hospital. Como o setor referido dispõe de emergência obstétrica, as gestantes procuram livremente por atendimento e não se torna problema, pois a característica desse tipo de unidade é receber usuárias a qualquer momento. Quando, no entanto, essa parturiente chega para ser atendida por transferência de outro hospital, pode haver transtornos para a unidade, pois, caso ela venha sem uma comunicação prévia, seja via Central de Leitos ou diretamente do serviço oriundo da gestante, 79 impacta no modo como os profissionais/serviço se organizam para possibilitar aquele atendimento, principalmente quando a unidade se encontra lotada. A responsabilidade das centrais de leitos é de, a todo momento, buscar a melhor opção assistencial; no entanto, os mecanismos formais, organizativos e pactuados, muitas vezes, são incapazes, isoladamente, de responder às necessidades impostas cotidianamente (GAWRYSZEWSKI; OLIVEIRA; GOMES, 2012). Soma-se a isso o fato de que, quanto mais distante, mais difícil o acesso aos serviços e, nestas condições, ocorre a “peregrinação” da gestante na busca de atendimento e, muitas vezes, o trabalho de parto em andamento se torna complicado e de alto risco (BARBASTEFANO; GIRIANELLI; VARGENS, 2010). Dessa maneira, diversos caminhos, distantes do preconizado da regulamentação, são utilizados com o intuito de permitir o acesso dos usuários ao sistema. É comum a unidade funcionar sem vagas, cabendo aos profissionais realizar ajustes para que o atendimento ocorra sem muitos problemas para a saúde da mãe e do recém-nascido. Os profissionais relataram que, por diversas vezes, “foi preciso colocar nas unidades de internação leitos extras ao ponto de dobrar a capacidade de leitos instalada sem a devida estrutura física para prestar o atendimento”. Isto enseja transtornos para a equipe, assim como para o bom funcionamento da produção do cuidado. Os profissionais de saúde ainda atribuem que o acesso da gestante ao hospital se faz bem mais resolutivo na medida em que vão sendo implantadas as redes de atenção à saúde. O Ministério da Saúde admite que o sistema de atenção à saúde, implantado e vigorante até hoje, não oferece respostas adequadas para o investimento feito, portanto há que se restabelecer a coerência entre a situação de saúde e o SUS, o que envolverá a implantação das redes de atenção à saúde (RASs), uma nova forma de organizar o sistema de atenção à saúde, integrando-os para permitir responder, com efetividade, eficiência, segurança, qualidade e equidade, às condições de saúde da população brasileira (MENDES, 2011). Em relação ao percurso que a gestante realiza ao chegar à emergência obstétrica é o seguinte: encontra inicialmente o vigilante, depois a recepcionista, que preenche a ficha de atendimento. A gestante, então, aguarda ser chamada para verificação dos sinais vitais. Esse serviço é executado pelas auxiliares de Enfermagem da unidade. Em seguida, a parturiente é encaminhada para o consultório médico, no qual é feita a avaliação clínica e procedida a solicitação de possíveis exames 80 complementares, principalmente ultrassonografia. Por conseguinte, não ocorre a triagem com classificação de risco na emergência obstétrica das gestantes em atendimento. De tal modo, a assistência sucede por ordem de chegada e, caso alguma gestante apresente claramente sinais de gravidade, será atendida imediatamente, senão aguarda o atendimento médico, haja vista que não há esta demanda nem superlotação na chegada. Sendo assim, o hospital não cumpre uma das diretrizes postas pela Rede Cegonha, que é a garantia do acolhimento com classificação de risco (BRASIL, 2012). Em relação à outra diretriz, que se refere à ampliação do acesso, o hospital tem disponibilizadas 100 requisições de ultrassonografia para as unidades básicas de saúde, no intuito de viabilizar a continuidade do atendimento nas consultas de pré-natal. O hospital em estudo tem o compromisso de evitar, ao máximo, retornar as pacientes que procuram o serviço, respeitando os princípios estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde e também as diretrizes da Rede Cegonha. Nesta perspectiva, esta política tem como uma das finalidades organizar uma rede de atenção à saúde materna e infantil, garantindo acesso, acolhimento e resolubilidade (BRASIL 2012). Na elaboração do fluxograma, foi comentado pelas enfermeiras que, após a consulta médica, dá-se continuidade ao atendimento dessa adolescente, que poderá realizar três caminhos diferentes, a depender de sua condição clínica e do estado de lotação dos leitos: retornar para casa em virtude de sua condição clínica não necessitar de internamento; solicitar transferência com vaga assegurada para outro hospital; ou ser feito o internamento da gestante. Para o internamento, a adolescente pode seguir outros três caminhos, dependendo, também, dos critérios clínicos e da capacidade de atendimento naquele instante da internação. Sendo assim, a gestante pode ir para o Centro Obstétrico (sala de parto ou Centro Cirúrgico Obstétrico), conforme sua evolução do trabalho de parto ou se este tem indicação para cesáreo ou parto vaginal. Pode ir para a unidade de internação, aguardar estabilização do quadro clínico-obstétrico, ou seja, o parto e depois ser encaminhada à sala de parto. A gestante pode, ainda, permanecer na emergência obstétrica, em virtude da não disponibilidade de leitos ou porque realizou o parto na própria emergência obstétrica quando chega em período expulsivo. Independentemente do caminho a ser percorrido pela adolescente, sempre a decisão parte do profissional médico. Este afirma que “quem vai determinar a internação da paciente é a sua condição clínica”, cabendo aos profissionais da Enfermagem gerenciar a execução das ações relativas a essa decisão. Em geral, as 81 gestantes encaminhadas de outros hospitais são internadas em virtude de seu quadro clínico que na maioria das vezes já possui indicação de internamento. Durante os relatos pelos profissionais, registrou-se o fato de que na emergência obstétrica, as ações se concentram no médico, que aguarda a chegada da gestante ao consultório e os caminhos percorridos por essa gestante não são de conhecimento de todos os profissionais. Certamente, seria importante esse conhecimento, pois, de posse de tal informação, se tornam mais compreensíveis as questões vivenciadas por essa gestante durante todo o decurso de parturição e as intervenções profissionais. As médicas, as enfermeiras e a terapeuta ocupacional, participantes da pesquisa, acentuam que conhecem o fluxo de atendimento. Já a psicóloga relata que não, “pois tinha apenas uma ideia”. Atos de saúde cuidadores são tarefas que devem ser compartilhadas dentro de uma unidade de saúde por todos os seus trabalhadores (MERHY; FEUERWERKER, 2009). Assim, todos os profissionais, desde a portaria na entrada da unidade, e prosseguindo por todo o caminhar da usuária na instituição, podem e devem acolher, escutar, interessar-se, contribuindo desta forma para a instalação de relações de confiança, conforto e consolidando a criação do vínculo e responsabilização. O percurso da gestante, mãe adolescente ou não, segue um fluxo já normatizado pelo setor. Em algumas situações, contudo, podem vir a desviar ou alterar esse percurso, a depender da capacidade momentânea de atendimento do hospital. Saindo da emergência obstétrica, a gestante segue para o Centro Obstétrico, acompanhada do maqueiro, de uma auxiliar de Enfermagem e, caso esteja com um acompanhante, esse também pode ir junto. Vale salientar que, antes de iniciar esse caminho, a enfermeira da emergência obstétrica entra em contato, via telefone, com a enfermeira do Centro Obstétrico, solicitando o recebimento da adolescente. Após essa confirmação, ela segue para a unidade referida. A adolescente ao ingressar no Centro Obstétrico, é recebida pela equipe de Enfermagem que a acomoda no leito reservado. Inicia, pois, a sistematização da assistência de Enfermagem, assim como a realização do exame de teste rápido de HIV. Em seguida, a equipe informa ao médico sobre a adolescente. Esse profissional realiza suas condutas e decide o que deve ser providenciado para a continuidade do atendimento. O profissional avalia e decide se o parto será vaginal ou cesáreo e se deve ocorrer no Pré-Parto ou no Centro Cirúrgico Obstétrico, conforme indicação clínica da 82 adolescente. Todos os partos realizados no Pré-Parto são obrigatoriamente vaginais, já no Centro Cirúrgico Obstétrico podem ser vaginais ou cesáreos. Foi relatado por um dos participantes da oficina (enfermeira), o fato de que a unidade passa por algumas dificuldades que ensejam problemas acerca do atendimento. Ela registra alguns ruídos do Centro Obstétrico, o que está diretamente relacionado com o dimensionamento de pessoal e a estrutura física. O primeiro deles é o fato de a estrutura da obstetrícia ter sido programada para um número maior de leitos do que o existente, ou seja, no momento, há oferta de menos leitos do que o número projetado. A enfermeira exemplificou essa realidade em duas unidades da obstetrícia: no Alojamento Conjunto, que teve o número de leitos reduzido pela necessidade de ocupação de outras clínicas do hospital; no Centro Cirúrgico Obstétrico, construído para funcionar duas salas ao mesmo tempo, no entanto não existem recursos humanos para atender nas duas unidades. Este fato inviabiliza o funcionamento previsto − a ocorrência de dois partos cirúrgicos, simultaneamente, o que provoca uma distorção no fluxo de atendimento das gestantes. Há, ainda, de se considerar a noção de que, em algumas situações, a mãe e/ou o bebê necessitam permanecer mais tempo internados no alojamento conjunto, resultando em menor rotatividade dos leitos. Outro ruído destacado pela enfermeira que colabora com a gestão da Enfermagem no setor relaciona-se à dificuldade de contratação de pessoal de nível médio na Enfermagem com experiência em instrumentação cirúrgica. Sobre isto ela evidencia que a direção do hospital já liberou a incorporação de dois profissionais, técnico de Enfermagem com experiência em instrumentação cirúrgica, no entanto, encontram-se dificuldades para efetivação por carência desta categoria com perfil adequado. E, por fim, o último ruído nesta unidade refere-se à carência de profissional anestesista. O Centro Cirúrgico Obstétrico dispõe de somente um profissional, sendo que, com a possibilidade de utilização das duas salas cirúrgicas, haverá a necessidade de pelo menos outro anestesista. O setor saúde caracteriza-se por situações e intervenções complexas, inerentes aos processos de promover a saúde, prevenir agravos, cuidar e recuperar pessoas, produzindo desafios constantes a gestores e trabalhadores. Os serviços públicos são alvo de debates com enfoque na qualidade da atenção, do acesso, do acolhimento e da resolução de problemas. A gestão de recursos humanos no setor público apropria-se dos princípios da gestão estratégica, entendendo as pessoas como recurso determinante para o sucesso organizacional (FERNANDES; MACHADO; ANSCHAU, 2009). A 83 competitividade imposta às organizações, em geral, refere-se à necessidade de contar com profissionais altamente capacitados, aptos a fazerem frente às ameaças e oportunidades. Valendo-se desta lógica, a avaliação serve como um dos mecanismos para transformações no âmbito funcional das instituições públicas, podendo ser usada no sentido de averiguar deficiências e proporcionar políticas de desenvolvimento profissional (PIERANTONI et al., 2011). Vale ressaltar que todos esses ruídos apresentados impactam diretamente na dinâmica e na organização dos setores que compõem a Obstetrícia, uma vez que, não ocorrendo os procedimentos de maneira mais ágil, o fluxo do atendimento pode ser objeto de certos transtornos, como a superlotação, por exemplo, trazendo desconforto tanto para a mãe como para a equipe de saúde. Foi discutido entre os participantes o fato de que, após serem realizados os procedimentos no Centro Obstétrico, o médico decide qual o caminho a ser realizado a partir daquele daquela unidade. A Enfermagem, então, aciona o maqueiro e uma auxiliar da internação obstétrica, intitulada por eles de “serviço de apoio”, para conduzir a gestante adolescente à enfermaria. Esta auxiliar confere todos os impressos, como prescrição médica, prontuário, solicitação de exames, dentre outros e também acompanha a mãe, juntamente com o acompanhante e o recém-nascido, caso este não tenha sido internado na unidade neonatal. Ainda em relação ao Centro Obstétrico, em especial o Centro Cirúrgico Obstétrico, foi mencionado pelos profissionais que é sempre informado à gestante, independentemente de sua idade, que ela tem direito a um acompanhante. Esse direito, entretanto, pode ser “impedido” mediante a lotação da unidade, pois, muitas vezes, é preciso dobrar a capacidade de atendimento do Centro Obstétrico, tornando inviável acomodar também o acompanhante. Unindo o trabalho de parto ao evento de parir, pode-se acentuar a atenção no momento do parto se mostra como um passo indispensável para garantir-lhe o exercício da maternidade com segurança e bem-estar, direito fundamental de toda mulher. A equipe de saúde deve estar preocupada em acolher a grávida, seu companheiro e a família, respeitando os significados desse momento (BRASIL, 2001). Outros profissionais, como terapeuta ocupacional e psicóloga, relataram que não têm uma participação mais direta nessa unidade, em virtude de a gestante estar vivenciando um momento em que suas maiores preocupações são as dores e os anseios relativos ao trabalho de parto. Assim, não há participação contínua desses profissionais. 84 Em algumas situações mais específicas, como no caso de gestantes usuárias de drogas, a psicóloga é solicitada a desenvolver sua intervenção. Prosseguindo a descrição do fluxograma, foi discutido e registrado o fato de que após serem realizados os procedimentos no Centro Obstétrico, o médico decide qual o percurso da gestante a partir daquele setor. A Enfermagem colabora na decisão diante das informações que detém sobre a lotação das unidades e a equipe de saúde, mas na maioria das vezes, a gestante que se encontra estável vai para o alojamento conjunto. Neste caso, solicita-se o maqueiro e uma auxiliar da internação obstétrica, como se adiantou, intitulada por eles de “serviço de apoio”, para conduzir a gestante adolescente ao Alojamento Conjunto. No Alojamento Conjunto, a Enfermagem acolhe a gestante e a acomoda no leito, realiza os procedimentos admissionais, como verificação dos sinais vitais, checagem das possíveis medicações, orientação quanto à rotina da unidade e seguimento da prescrição médica já trazida do Centro Obstétrico. Em relação ao bebê, ele é levado até a sala de cuidados do recém-nascido, é observada a sua identificação, por meio de uma pulseira que todos utilizam após o parto com dados relativos a data de nascimento e nome da mãe. Verifica-se também, se ele já está com boa sucção para ser amamentado e, caso não esteja, é feita a intervenção de estímulo e apoio à mãe para o aleitamento. Nessa unidade, a categoria profissional que mais atua junto à mãe adolescente e ao bebê é a da Enfermagem, pois permanece durante 24 horas na unidade. Os médicos estão na unidade de internação no período da manhã, prescrevendo as gestantes e seus recém-nascidos e, no turno da tarde só entram em ação conforme necessidade clínica da gestante ou do bebê; quem dá suporte a esta unidade no período vespertino são os médicos do Centro Obstétrico. As demais categorias profissionais comparecem à unidade mediante escala de trabalho e rodízio das unidades atendidas ou por solicitação dos profissionais nos caso mais específicos. A psicóloga passa em cada enfermaria todas as segundas e quintas-feiras, no período da manhã. A psicóloga informou que, ao conversar com a puérpera da enfermaria, vai percebendo as demandas individuais e, caso seja possível o atendimento no próprio leito, assim é feito. Do contrário, ela procura um espaço que possa garantir a privacidade da gestante. Ela expressa que há dificuldade em ter um ambiente mais adequado para realizar o atendimento de Psicologia, pois, muitas vezes, atende em um espaço aberto, de convivência de todos da unidade e visitantes. Ressalta, no entanto, que 85 após ajustes realizados na sala onde funciona o cartório de registro de nascimentos (somente no período da tarde), este ambiente ficará livre para ela realizar suas atividades no período da manhã com privacidade e conforto. No que se refere às ações da terapeuta ocupacional, ela relatou que o atendimento ocorre no período da manhã, após visita em cada enfermaria e convite das gestantes e acompanhantes para participar das atividades desenvolvidas por ela. A realização de suas ações ocorre no espaço de convivência comum aos usuários do serviço e visitantes, sendo que o local dispõe de uma mesa colorida com algumas cadeiras e televisor. Em geral, as mães que permanecem por mais tempo internadas, muitas vezes pelo fato de o bebê ainda estar internado, é o público que mais procura participar das atividades da Terapia Ocupacional. Em relação às ações de Enfermagem, foi relatado por uma das enfermeiras que, durante o internamento das mães, as auxiliares e as técnicas de Enfermagem se organizam em suas tarefas conforme o tipo de atividade ou por enfermarias. Fica uma na sala de cuidados ao recém-nascido, três nas enfermarias, uma responsável pelas orientações sobre o aleitamento materno e uma para encaminhar para o registro civil dos recém-nascidos. Durante as discussões, as duas enfermeiras dialogaram e destacaram os ruídos da unidade de internação: o atraso no horário de realização e solicitação de exames de VRDL e tipagem sanguínea, que só pode ser realizado em jejum e até no máximo às 9 horas da manhã, e esse exame é um fator considerado para a alta hospitalar da puérpera; outro ruído se refere ao fato de que alguns resultados de exames demoram para serem liberados e a gestante só fica sabendo do resultado quando retorna para a consulta no aleitamento materno e realização do teste do pezinho ou no ambulatório, respectivamente com sete ou 45 dias, a contar do parto. Por fim, outro ruído é relativo à alta da mãe procedente do interior, quando o bebê precisa permanecer internado por complicações após o parto. Nesse caso, o leito fica ocupado por ela, mesmo de alta hospitalar, pois muitas vezes não tem condições de ficar indo e vindo do interior para visitar o filho internado, mesmo porque precisa amamentá-lo ou ordenhar o leite materno constantemente. Relativamente à assistência à saúde da mulher no período gravídicopuerperal, a OMS e o MS brasileiro recomendam maior participação da enfermeira obstétrica e da obstetriz, considerando a importância de acompanhar o trabalho de parto, aprimorar a assistência à parturição e diminuir as taxas de cesariana (CAUS, et al., 2012). Atualmente, o cuidado, eixo principal do processo de trabalho da Enfermagem, 86 comporta em sua estrutura o conhecimento técnico/operacional bem como a competência interpessoal, a fim de atender às necessidades humanas (SOARES; ZEITOUNE, 2012). Os participantes relataram que esse ruído (relacionado à ocupação dos leitos) é o maior de todos, uma vez que este sim paralisa o fluxo de internação na unidade e pode inviabilizar um novo atendimento. Foi sugerido pelo grupo a criação de casas de apoio/casa da gestante do próprio hospital, no entanto isso pode também ensejar um desapego por parte da mãe para com o seu bebê, implicando a possibilidade de geração de um quadro depressivo pós-parto. A enfermeira informou que o hospital, realiza algumas reuniões e discute exatamente sobre o último ruído expresso acerca da permanência das puérperas nos leitos com bebês internados. Isso vem dar suporte para a concretude dos objetivos da Rede Cegonha à qual o hospital é credenciado, para dar melhores condições de atendimento com resolubilidade às mulheres e recém-nascidos. Em seguida, foi discutido sobre o plano terapêutico da gestante, quem coordena, quem dá início, quem conduz, enfim, como se processa na unidade. Os profissionais ficaram momentaneamente procurando entender melhor essa indagação e relataram que o projeto terapêutico ocorre de modo que cada categoria profissional estabelece suas condutas em prol da melhoria da gestante e que, quando necessária a atuação de outro profissional, este é solicitado para dar um parecer ou mesmo realizar suas condutas fora da rotina e programação da unidade. Portanto, não existe um plano terapêutico integrado em que todas as categorias profissionais se reúnem para discutir e decidir conjuntamente a situação e as demandas de cuidados da gestante. Uma das participantes justificou que a usuária, ao procurar o hospital, foi em busca de um atendimento médico, portanto, o plano terapêutico inicia a partir de ações médicas e as demais categorias vão agregando seus cuidados específicos mediante solicitação ou por percepção própria. A resistência dos profissionais a uma atenção centrada na paciente ocorre frequentemente, por desconhecerem outra forma de atendimento, apontando para a necessidade de adequação ao novo modelo, já que não foram preparados pelas universidades para atuar de forma diferenciada e respeitando a subjetividade e autonomia do cliente (QUEIROZ et al., 2007). Ao final da oficina, foi discutido sobre a preparação da puérpera no momento da alta. Uma das participantes mencionou que a mãe sai muito insegura ou despreparada para cuidar do bebê. Os demais também complementaram sobre a 87 importância de as orientações para as mães lidarem com as novas situações de cuidado com o recém-nascido serem reforçadas durante toda a internação. O grupo concluiu que não dispõe de uma prática de trabalho em equipe, de formar um atendimento integrado. Acaba sendo uma situação em que só ocorre, caso seja percebido um episódio específico. E se a paciente não apresentar nenhuma demanda para atendimento, que em geral é de ordem biológica, fica ainda mais sem articulação das categorias profissionais. Resta muitas vezes a cargo do médico essa sinalização para um atendimento de outro profissional. Portanto, não existe um plano terapêutico integrado em que todas as categorias profissionais se reúnem para discutir a situação e as demandas da gestante. Uma das participantes justificou que a usuária, ao procurar o hospital, foi em busca de um atendimento médico, portanto, o plano terapêutico inicia com ações médicas e as demais categorias vão agregando seus cuidados específicos mediante solicitação ou por percepção própria. Observou-se que a análise das práticas por meio do fluxograma descrito revelou um cuidado que reúne competências e esforços profissionais para atender as demandas seguindo algumas prerrogativas do SUS. Entretanto, há situações que podem ser melhoradas ante a um esforço conjunto incluindo o poder público em atender as carências estruturais e de recursos humanos. Ressalta-se, ainda, que a qualidade do cuidado, a estas mulheres, dependerá também de ações mais integradas e compartilhadas aproximando-se assim do cuidado integral. 5.3 VISÃO DAS PARTURIENTES ADOLESCENTES E SUA INTERFACE COM A DESCRIÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE O PROCESSO DE TRABALHO Fazendo uma comparação entre alguns pontos identificados como interseção entre as falas das parturientes adolescentes com a da equipe multiprofissional que participou da oficina de construção do fluxograma descritor. Percebeu-se, então, que os principais pontos em comum são: o acesso ao atendimento por parte da gestante e as informações relacionadas ao atendimento da emergência e o direito ao acompanhante no processo de parturição. No que se refere ao primeiro tema congruente, nota-se que algumas gestantes expressaram certa dificuldade para serem atendidas. Muito embora, na fala dos profissionais, ter sido relatado que o atendimento não é negado aos que procuram o 88 serviço. O que pode ocorrer é o fato de algumas vezes, a gestante, não necessitar de internamento, apenas avaliação do seu estado clínico. Muitas vezes a gestante vem com tanta certeza de que a hora do parto é chegada e quando recebe uma notícia contrária a sua expectativa, acaba se frustrando. É preciso, também, que a adolescente seja devidamente informada e esclarecida sobre o motivo pelo qual a internação não será necessária. Oliveira et al.,(2012) afirmam que um dos principais temores que surgem na gestante é o de não saber o momento certo do trabalho de parto associando ao período de ir à maternidade. Esse momento se torna tão importante para a futura mãe que caso os profissionais de saúde tivessem uma abordagem no sentido da educação em saúde acerca dos sinais claros sobre o trabalho de parto ou sobre sua saúde de modo geral, por exemplo, já amenizaria sua angústia e ansiedade. Há um distanciamento entre o profissional e a adolescente, no sentido de compreender o significado desse tipo de vivência, valorizando aspectos técnicos em detrimento da relação com o sujeito (ERDELE, et al. 2012). Acerca disso, verificamos uma concentração de ações médicas de cunho puramente biológico. Uma das participantes da oficina relatou que quando a gestante procura o Setor de Obstetrícia é apenas com um intuito: o de realizar o parto. Portanto, a necessidade dela volta-se para o parto em si. Acrescenta-se a isso o fato anunciado por uma das adolescentes que enfatiza a dificuldade da equipe de saúde em prestar assistência às nulíparas. Parte do pressuposto que, pelo fato de não terem vivenciado a experiência de ser mãe, trazem consigo muitas dúvidas, incertezas e informações desencontradas. Tudo isso poderia ser percebido no momento da consulta e ter o devido esclarecimento, contribuindo, dessa forma, para o ganho de conhecimento dessa mãe. Grande parte do conhecimento que as gestantes possuem sobre o parto é proveniente de leigos como a mãe, familiares, amigas e vizinhas, ou seja, basicamente através de experiências pessoais e isso reflete a situação de insegurança das gestantes o que permite a maioria delas procurarem a maternidade precocemente, sem está no período do trabalho de parto (ELYON E BARROS, 2004). Outro assunto mencionado foi em relação a ter direito ao acompanhante no momento do parto. Os profissionais de saúde afirmaram que no momento da consulta na emergência obstétrica, caso a gestante seja adolescente, é informado que ela tem o direito ao acompanhante no processo de parturição. No entanto, quando as condições de superlotação do hospital estão presentes, esse direito fica inviabilizado, em virtude da 89 capacidade física para acomodar adequadamente, tanto a gestante quanto o acompanhante, ser comprometida. Todavia, algumas gestantes informaram que não foram esclarecidas por nenhum dos profissionais de saúde que prestou atendimento acerca desse direito. Algumas gestantes até sabiam da possibilidade de ter o acompanhante, mas só foi mencionado, pelo hospital, após sua mãe ter ido até a sala da assistente social e consultar a possibilidade de usufruir de tal direito. Vale salientar que é garantido em legislação específica, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que assegura, embora não estejam previstos tópicos especiais sobre a saúde reprodutiva dos adolescentes, o direito ao acompanhante, identificado como responsável legal, durante a assistência ao ciclo gravídico puerperal (BRASIL, 1990). 90 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudos sobre a maternidade na adolescência é tema de interesse no contexto dos determinantes sociais de saúde, o enfoque de riscos e da promoção da saúde. O cuidado a saúde da mãe adolescente e o enfoque da integralidade foram focos deste estudo que atingiu os objetivos delineados inicialmente. Assim, os principais achados mostram que as adolescentes se caracterizam por estarem, em sua maioria, na faixa etária de 15 a 19 anos, moravam com o pai da criança sem, no entanto, serem casadas com os mesmos. Apenas uma adolescente exercia atividade profissional e também, somente uma continuou os estudos, mesmo estando grávida. As demais, ou pararam de estudar antes da gravidez ou abandonaram os estudos durante a gestação. a corroborar com os resultados de outros estudos que caracterizaram o perfil das gestantes adolescentes. Diante dos relatos das parturientes mães adolescentes observaram-se vários pontos críticos relacionados à estrutura física como falta de leitos e de pessoal para atender as demandas e oferecer uma assistência humanizada, sensível aos problemas que acompanham este seguimento populacional. Foi percebida a inexistência de um acolhimento ou triagem das gestantes na emergência obstétrica de modo a reduzir estresse, e outros riscos à saúde materna. Percebeu-se que as gestantes ao serem bem tratadas, compreendidas em suas indagações, sentimentos ou aspectos sociais passam a vislumbrar o atendimento mais acolhedor e de qualidade, ocasionando uma sensação de segurança e de que o seu parto seria mais tranquilo. Para tanto é preciso ter conhecimento sobre o contexto da parturiente para que o atendimento seja o mais holístico possível, uma vez que as demandas para além dos aspectos biológicos devem ser considerados como importantes. No que se refere aos caminhos percorridos pelas gestantes, encontramos que sua peregrinação pode ser minimizada na medida em que se implantam redes de atenção à saúde, ou seja, unidades de saúde integradas e resolutivas. Para tanto, é preciso a efetivação das políticas públicas e diretrizes com vistas a uma gestão voltada para as demandas e necessidades dos usuários. Considerando as relações entre os trabalhadores de saúde e as gestantes percebeu-se que é preciso uma atenção maior daqueles no sentido de intensificar a importância da identificação e reconhecimento profissionais, com vistas a criação de vínculos e ao mesmo fortalecendo a autonomia e co-responsabilidades das gestantes. 91 Neste sentido, considera-se que a organização tecnológica do trabalho, orientada pelo princípio da integralidade, requer uma relação democrática entre quem produz e quem consome o serviço na perspectiva do atendimento às necessidades sociais. Porém, essa perspectiva apela para um trabalho de natureza interdisciplinar, portanto, coletivo e com trabalhadores coletivos. Considerando o atendimento no Centro Obstétrico, em sua maioria, foi considerado satisfatório. E no que se refere às relações entre os profissionais e as adolescentes, percebeu-se uma certa desinformação, por parte das gestantes em relação ao direito do acompanhante durante o processo de parturição. Outro fator identificado a partir dos discursos das gestantes, se refere a identificação profissional, pois muitos profissionais se apresentam e mencionam a categoria profissional, no entanto, o momento da sala de parto, em virtude da atenção estar voltada para ter o bebê, as gestantes acabam nem lembrando de tais informações. Com efeito, a micropolítica do poder instituído entre os sujeitos foi percebido, durante a observação e oficina do fluxograma descritor que as usuárias não tem o poder de decisão sobre os procedimentos, condutas ou cuidados ofertados, cabendo essa tomada de decisão ao médico da unidade De todas as unidades que compõem o Setor de Obstetrícia do hospital em estudo, observou-se que o Alojamento Conjunto é o local onde as relações entre os sujeitos da pesquisa desenvolveram-se de forma mais duradoura, uma vez que a adolescente permanece por mais tempo em comparação com outros setores. Todavia, o que se percebeu foi uma fragilidade nessas relações porquanto somente dois discursos relataram uma aproximação maior, ou seja, uma experiência positiva com a equipe e os demais exprimiram uma situação de conformismo ou de insatisfação. A comunicação entre os trabalhadores de saúde e os usuários do serviço de saúde, assim como a maneira de se relacionarem podem gerar problemas ou soluções para uma atenção à saúde centrada no usuário. À medida em que essa comunicação é ineficiente, torna a assistência mais distante do alcance da integralidade. No que se refere aos cuidados de enfermagem, percebe-se que os mesmos são bem dirigidos aos aspectos físicos e por vezes há distanciamento de outras necessidades, ou seja, um olhar atento a outras demandas que possam estar incomodando e preocupando as mães adolescentes repercutindo na saúde e bem-estar do binômio mãe-filho. 92 A cartografia do Setor de Obstetrícia, elaborada conjuntamente, envolvendo profissionais do cuidado e pesquisadores, mostra a micropolítica do trabalho com as adolescentes na trajetória de parturição. Retrata uma realidade permeada de decisões, conflitos e rupturas, com a finalidade de responder às demandas e necessidades das usuárias. Portanto, a descrição do fluxograma e o processo autoanalítico próprio do método permitiu a reflexão das práticas dos profissionais na interação gerenciar e cuidar. Assim, apreenderam-se o percurso das gestantes e, ao mesmo tempo, as ações e decisões para que o cuidado ocorresse, tendo como centro a usuária. As experiências dos profissionais sinalizaram os diversos ruídos e seus significados, os diferentes movimentos do setor e relações profissionais na produção do cuidado. Com efeito, expressaram que o principal ruído tem relação com a não disponibilização do leito quando a gestante se encontra em alta hospitalar e seu filho precisa permanecer internado na unidade neonatal, por apresentar alterações no quadro clínico. Também foi referido que o ruído referente ao dimensionamento de pessoal, tanto da Enfermagem como da Medicina, no Centro Obstétrico, compromete o fluxo da gestante, bem como a admissão de novas usuárias ao setor. A visualização do processo de trabalho, por uso do fluxograma descritor, foi possibilitando aos profissionais, individualmente e em grupo, com discussão das ações e do movimento do setor no percurso da mulher assistida em seu decurso de parturição. Assim, foi possível descrever como ocorre o trabalho, a finalidade das ações integradas, refletindo-se sobre a própria prática e exercício do outro. Esta reflexão traz possibilidades de contribuir na mudança dos modos como se percebe o trabalho multidisciplinar, despertando nos sujeitos a necessidade de agir diferentemente, tendo um plano terapêutico interdisciplinar. Esta perspectiva foi questionada e produziu certo desconforto, ao perceberem que cada um faz o seu trabalho e não se atenta para o fato de que a efetivação do cuidado depende do outro, pois as respostas foram contingentes, − “eu faço o meu trabalho e as ações integradas são realizadas quando necessário”. Assim há um distanciamento do trabalho integrado com característica interdisciplinar, o que também impossibilita a integralidade do cuidado a estas usuárias em circunstância de parturição. A organização do trabalho, orientada pelo princípio da integralidade, requer uma integração dos serviços e dos profissionais, envolvendo, ainda, uma relação horizontal entre quem oferece e quem utiliza o serviço na intenção de atendimento às 93 necessidades destes. Essa perspectiva, no entanto, apela para um trabalho de natureza interdisciplinar, portanto, coletivo, com finalidades em comum. Enfim, pode-se concluir que este trabalho provocou momentos de reflexões que sugerem a produção de serviços e ações profissionais mais criativos e integrados com a causa da adolescente em parturição, de modo que sua socialização poderá ensejar mudanças na micropolítica do trabalho, um esforço conjunto para buscarem solução para os conflitos e rupturas no cuidado. Os ruídos relacionados à estrutura física e o dimensionamento de pessoal, entretanto, representa uma dimensão que depende da gestão dos serviços de saúde, no nível da macropolitica, mas, certamente, se instigou a luta pela redução desta falta de estrutura que afeta a produção do cuidado e a eficácia das ações. 6.1 Limitações do Estudo Considera-se que a fala/discurso das mães adolescentes foi deveras pontual o que pode ter fragilizado um pouco a possibilidade de maiores discussões e reflexões acerca de como o cuidado se processa nos setores relativos ao estudo. Por mais que se instigasse durante as entrevistas para que as adolescentes se pronunciassem, fornecendo dados mais consubstanciais, não foi possibilitado discursos mais enriquecidos. Talvez a própria imaturidade do público e o grau de escolaridade tenham interferido no processo de comunicação. E em relação à terceira etapa da coleta de dados, a oficina do fluxograma descritor, se a participação de outras categorias profissionais, como a assistente social, membros da gerência das unidades, assim como outros médicos, em especial os do ambulatório de adolescentes e os profissionais de nível médio da enfermagem. Dessa forma, seria possibilitada uma sensibilização de mais pessoas em relação aos caminhos percorridos pelas mães adolescentes no processo de parturição, sendo de conhecimento de mais profissionais, os problemas/ruídos de cada unidade. Isso traria uma reflexão, no intuito de ofertar opções ao se deparar com as dificuldades vivenciadas. 94 REFERÊNCIAS ABREU A, JESUS WLA. Revisão sistemática sobre o conceito de acesso nos serviços de saúde: contribuições do planejamento. Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.12, p.654-658, 2006. ALBUQUERQUE N. 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Acessibilidade Conjunto de circunstâncias, de diversa natureza , que viabiliza a entrada de cada usuário ou paciente na rede de serviços, em seus diferentes níveis de complexidade e modalidades de atendimento. Representa a facilidade ou dificuldade em obter tratamento desejado. Acolhimento Recepção do usuário, desde sua chegada, responsabilizando-se integralmente por ele, ouvindo sua queixa, permitindo que ele expresse suas preocupações, angústias, e ao mesmo tempo, colocando os limites necessários, garantindo atenção resolutiva e a articulação com os outros serviços de saúde para a continuidade da assistência quando necessário. Autonomia No seu sentido etimológico, significa “produção de suas próprias leis” ou “faculdade de se reger por suas leis próprias”. Em oposição à heteronomia, designa todo sistema ou organismo dotado da capacidade de construir regras de funcionamento para si e para o coletivo. Pensar os indivíduos como sujeitos autônomos é considerá-los como protagonistas nos coletivos de que participam, co-responsáveis pela produção de si e do mundo em que vivem. Um dos valores norteadores da Política Nacional de Humanização é a produção de sujeitos autônomos, protagonistas e co-responsáveis pelo processo de produção de saúde. Capacidade de andar na vida com seus próprios recursos. Equipe de referência/equipe multiprofissional Grupo que se constitui por profissionais de diferentes áreas e saberes (interdisciplinar, transdisciplinar), organizados em função dos objetivos/missão de cada serviço de saúde, estabelecendo-se como referência para os usuários desse serviço (clientela que fica sob a responsabilidade desse grupo/equipe). Está inserido, num sentido vertical, em uma matriz organizacional. Em hospitais, por exemplo, a clientela internada tem sua equipe básica de referência, e especialistas e outros profissionais organizam uma rede de serviços matriciais de apoio às equipes de referência. As equipes de referência em vez de ser um espaço episódico de integração horizontal passam a ser a estrutura permanente e nuclear dos serviços de saúde Familiar participante Representante da rede social do usuário que garante a articulação entre a rede social/familiar e a equipe profissional dos serviços de saúde na elaboração de projetos de saúde. 1 Glossário do portal.saude.gov.br: HumanizaSUS – Documento Base para Gestores e Trabalhadores do SUS, 2004, com a realização de algumas adaptações tendo como base o trabalho de Franco CM, Franco TB. Linhas de Cuidado Integral: proposta de Organização da rede de saúde. 103 Fluxograma Descritor Constitui-se de uma representação gráfica do processo de trabalho, elaborado de forma usuário-centrado, com riqueza de detalhes para perceber os aspectos da micropolítica da organização do trabalho e da produção de serviços. Gestão Participativa Construção de espaços coletivos em que se dão a análise das informações e a tomada das decisões. Nestes espaços estão incluídos a sociedade civil, o usuário e seus familiares, os trabalhadores e gestores dos serviços de saúde. Grupalidade Experiência que não se reduz a um conjunto de indivíduos nem tampouco pode ser tomada como uma unidade ou identidade imutável. É um coletivo ou uma multiplicidade de termos (usuários, trabalhadores, gestores, familiares etc.) em agenciamento e transformação, compondo uma rede de conexão na qual o processo de produção de saúde e de subjetividade se realiza. Igualdade Segundo os preceitos do SUS e conforme o texto da Constituição brasileira, o acesso às ações e serviços, para promoção, proteção e recuperação da saúde, além de universal, deve basear-se na igualdade de resultados finais, garantida mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos. Integralidade Um dos princípios constitucionais do SUS garante ao cidadão o direito de acesso a todas as esferas de atenção em saúde, contemplando desde ações assistenciais em todos os níveis de complexidade (continuidade da assistência), até atividades inseridas nos âmbitos da prevenção de doenças e de promoção da saúde. Prevê-se, portanto, a cobertura de serviços em diferentes eixos, o que requer a constituição de uma rede de serviços (integração de ações), capaz de viabilizar uma atenção integral. Por outro lado, cabe ressaltar que por integralidade também se deve compreender a proposta de abordagem integral do ser humano, superando a fragmentação do olhar e intervenções sobre os sujeitos, que devem ser vistos em suas inseparáveis dimensões biopsicossociais. Intersetorialidade Integração dos serviços de saúde e outros órgãos públicos com a finalidade de articular políticas e programas de interesse para a saúde, cuja execução envolva áreas não compreendidas no âmbito do SUS, potencializando, assim, os recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos disponíveis e evitando duplicidade de meios para fins idênticos. Se os determinantes do processo saúde/doença, nos planos individual e coletivo, encontram-se localizados na maneira como as condições de vida são produzidas, isto é, na alimentação, na escolaridade, na habitação, no trabalho, na capacidade de consumo e no acesso a direitos garantidos pelo poder público, então é impossível conceber o planejamento e a gestão da saúde sem a integração das políticas sociais (educação, transporte, ação social), num primeiro momento, e das políticas econômicas (trabalho, emprego e renda), num segundo. A escolha do prefixo inter e não do trans é efetuada em respeito à autonomia administrativa e política dos setores públicos em articulação. 104 Linha do cuidado É a imagem pensada para expressar os fluxos assistenciais (itinerário) seguros e garantidos ao usuário, no sentido de atender às suas necessidades de saúde. A linha de cuidado é diferente dos processos de referência e contra-referência, apesar de incluí-los também. Ela difere pois não funciona apenas por protocolos estabelecidos, mas também pelo reconhecimento de que os gestores dos serviços, podem pactuar fluxos, reorganizando o processo de trabalho, a fim de facilitar o acesso do usuário às Unidades e Serviços aos quais necessita. Linha do cuidado integral Incorpora a ideia de integralidade na assistência á saúde (une ações preventivas, curativas e de reabilitação; proporciona acesso a todos os recursos tecnológicos necessários ao usuário; requer uma opção de política de saúde e boas práticas profissionais). O cuidado integral é pleno, feito com base no ato acolhedor do profissional de saúde, no estabelecimento do vínculo e na responsabilização diante do problema de saúde. O projeto Terapêutico é o fio condutor para o fluxo da linha do cuidado. Política Nacional de Humanização No campo da saúde, humanização diz respeito a uma aposta ético-estético-política: ética porque implica a atitude de usuários, gestores e trabalhadores de saúde comprometidos e co-responsáveis; estética porque relativa ao processo de produção da saúde e de subjetividades autônomas e protagonistas; política porque se refere à organização social e institucional das práticas de atenção e gestão na rede do SUS. O compromisso éticoestético-político da Humanização do SUS se assenta nos valores de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de co-responsabilidade entre eles, de solidariedade dos vínculos estabelecidos, dos direitos dos usuários e da participação coletiva no processo de gestão. Produção de Saúde e Produção de Subjetividade Em uma democracia institucional, diz respeito à constituição de sujeitos autônomos, protagonistas e implicados no processo de produção de sua própria saúde. Neste sentido, a produção das condições de uma vida saudável não pode ser pensada sem a implicação, neste processo, de sujeitos. Projeto Terapêutico de Saúde Projetos voltados para os sujeitos, individualmente, ou comunidades, contemplando ações de diferentes eixos, levando em conta as necessidades/demandas de saúde. Comportam planos de ação assentados na avaliação das condições bio-psico-sociais dos usuários. A sua construção deve incluir a co-responsabilidade de usuário, gestor e trabalhador/equipes de saúde, e devem ser considerados: a perspectiva de ações intersetoriais, a rede social de que o usuário faz parte, o vínculo usuário-equipamento de saúde e a avaliação de risco/vulnerabilidade. Conjunto de ações feitas para resolver o problema de saúde. É o conjunto de atos assistenciais pensados para resolver determinado problema de saúde do usuário, com base em uma avaliação de risco (clínico, social, econômico, ambiental e afetivo). Com base no risco é definido o Projeto Terapêutico e a partir dele o trabalhador de saúde vai orientar o usuário a buscar na rede de serviços recursos necessários ao atendimento à sua necessidade. 105 Protagonismo É a ideia de que a ação, a interlocução e a atitude dos sujeitos ocupam lugar central nos acontecimentos. No processo de produção da saúde, diz respeito ao papel de sujeitos autônomos, protagonistas e implicados no processo de produção de sua própria saúde. Responsabilização É o profissional assumir a responsabilidade pela condução da proposta terapêutica, dentro de uma dada possibilidade de intervenção, nem burocratizada nem impessoal. Serviço de Assistência Especializada Unidades ambulatoriais de referência, compostas por uma equipe multidisciplinar de médicos, clínicos ou infectologistas, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, odontólogos e/ou outras especialidades da área de saúde, que acompanha os pacientes, prestando atendimento integral a eles e a seus familiares. Sistemas de Referência e Contra-Referência Modo de organização dos serviços configurados em redes sustentadas por critérios, fluxos e mecanismos de pactuação de funcionamento, para assegurar a atenção integral aos usuários. Na compreensão de rede, deve-se reafirmar a perspectiva de seu desenho lógico, que prevê a hierarquização dos níveis de complexidade, viabilizando encaminhamentos resolutivos (dentre os diferentes equipamentos de saúde), porém reforçando a sua concepção central de fomentar e assegurar vínculos em diferentes dimensões: intra-equipes de saúde, inter-equipes/serviços, entre trabalhadores e gestores e entre usuários e serviços/equipes. Sujeito Identidade pessoal resultante de um processo de produção de subjetividade sempre coletivo, histórico e determinado por múltiplos vetores: familiares, políticos, econômicos, ambientais, midiáticos, etc. Transversalidade Nas experiências coletivas ou de grupalidade, diz respeito à possibilidade de conexão/confronto com outros grupos, inclusive no interior do próprio grupo, indicando um grau de abertura à alteridade e, portanto, o fomento de processos de diferenciação dos grupos e das subjetividades. Em um serviço de saúde, pode se dar pelo aumento de comunicação entre os diferentes membros de cada grupo e entre os diferentes grupos. A ideia de comunicação transversal em um grupo deve ser entendida não a partir do esquema bilateral emissor-receptor, mas como uma dinâmica multivetorializada, em rede e na qual se expressam os processos de produção de saúde e de subjetividade. Usuário, cliente, paciente Cliente é palavra usada para designar qualquer comprador de um bem ou serviço, incluindo quem confia a sua saúde a um trabalhador da saúde. O termo incorpora a ideia de poder contratual e de contrato terapêutico efetuado. Se, nos serviços de saúde, o paciente é aquele que sofre, conceito reformulado historicamente para aquele que se submete, passivamente, sem criticar o tratamento recomendado, prefere-se usar o termo cliente, pois implica em capacidade contratual, poder de decisão e equilíbrio de direitos. Usuário, isto é, aquele que usa, indica significado mais abrangente, capaz de envolver 106 tanto o cliente como o acompanhante do cliente, o familiar do cliente, o trabalhador da instituição, o gerente da instituição e o gestor do sistema. Vínculo Na rede psicossocial, compartilhamos experiências e estabelecemos relações mediadas por instâncias. No caso da instância instituição de saúde, a aproximação entre usuário e trabalhador de saúde promove um encontro: este "ficar em frente um do outro", um e outro sendo seres humanos, com suas intenções, interpretações, necessidades, razões e sentimentos, mas em situação de desequilíbrio, de habilidades e expectativas diferentes, onde um, o usuário, busca assistência, em estado físico e emocional fragilizado, junto ao outro, um profissional supostamente capacitado para atender e cuidar da causa de sua fragilidade. Deste modo, cria-se um vínculo, isto é, processo que ata ou liga, gerando uma ligação afetiva e moral entre ambos, numa convivência de ajuda e respeito mútuos. 107 APÊNDICES 108 APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARTURIENTES Estamos lhe convidando para participar do estudo intitulado O CUIDADO CLÍNICO À MÃE ADOLESCENTE: SUBSÍDIOS PARA A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DE ENFERMAGEM. Com o mesmo pretendemos atingir os seguintes objetivos: Analisar o cuidado dispensado pela equipe de saúde à mãe adolescente nos seguimentos da parturição e do puerpério, considerando o princípio da integralidade e identificar as relações dos profissionais de saúde com as mães adolescentes, destacando o envolvimento e as ações de enfermagem no âmbito da atenção terciária. Para desenvolver o estudo serão realizadas a observação no local da pesquisa e entrevistas com as mães adolescentes. Será aplicado um roteiro de entrevista semi-estruturada, que será gravada com a permissão de cada uma. Informamos que será garantido o anonimato, ou seja, não será divulgado o nome dos participantes. A sua participação neste estudo é voluntária. Você tem a liberdade de recusar participar, ou, se aceitar, ficará livre para desistir em qualquer momento da pesquisa e isso não lhe trará qualquer prejuízo na assistência. Acreditamos que os resultados deste estudo trarão benefícios na melhoria do serviço, uma vez que serão compartilhados com os profissionais e gestores do serviço para que juntos busquem mudanças favoráveis. Este termo será assinado em duas vias. Uma via ficará com você e outra com a pesquisadora. Caso necessite esclarecer dúvidas em qualquer etapa do estudo, poderá entrar em contato com a coordenadora da pesquisa, Maria Veraci Oliveira Queiroz no telefone 31019924 ou com Francisco Herculano Campos Neto no telefone 32066419. Consentimento pós-esclarecido (1ª via) Eu ______________________________________________, li o texto acima e compreendi a natureza e o objetivo do estudo do qual fui convidado a participar. Declaro que fui informada sobre as informações acima expostas e que tive respostas para minhas dúvidas. Desta forma, concordo em participar da pesquisa e entendo que tenho a liberdade de desistir em qualquer fase da mesma. Fortaleza, ____/____/____ _________________________________________ Assinatura da mãe adolescente ou responsável _________________________________________ Assinatura do pesquisador ............................................................................................................................................. Consentimento pós-esclarecido (2ª via) Eu _______________________________________________________________, li o texto acima e compreendi a natureza e o objetivo do estudo do qual fui convidado a participar. Declaro que fui informada sobre as informações acima expostas e que tive respostas para minhas dúvidas. Desta forma, concordo em participar da pesquisa e entendo que tenho a liberdade de desistir em qualquer fase da mesma. Fortaleza, ____/____/____ ________________________________________ Assinatura da mãe adolescente ou responsável _________________________________________ Assinatura do pesquisador 109 APÊNDICE B - ROTEIRO DA OBSERVAÇÃO SISTEMÁTICA Data ___/____/_____ Turno: __________ Observar situação de chegada/recepção da adolescente grávida – emergência obstétrica Quem recebe e como recebe – relações interpessoais (acolhimento) ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ É demonstrado interesse em resolver a situação da usuária S( ) N ( ) Houve resolubilidade dos problemas do momento S( ) N ( ) Observar o próximo local de encaminhamento da usuária / adolescente grávida Centro Obstétrico: Sala de pré-parto ( ) Sala de parto ( ) Quem recebe e como recebe – relações interpessoais (Acolhimento, Vínculo, Autonomia) ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ É demonstrado interesse em receber a usuária S ( ) N ( ) Qual a intervenção realizada no momento ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Impressão do pesquisador ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Alojamento Conjunto ( ) Quem recebe e como recebe – relações interpessoais (Acolhimento, Vínculo) ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Impressão do pesquisador sobre a recepção da usuária ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Quais os principais cuidados realizados ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Ao preparar a adolescente para alta (sua e do bebê) quais as principais orientações fornecidas e o modo como foram desenvolvidas (identificar o profissional) 110 ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Para qual serviço foi encaminhada a adolescente e/ou seu bebê para o primeiro retorno. ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ Observar a responsabilização - alguma forma de continuidade, seja por parte do atendimento pelo mesmo profissional, encaminhamento a serviços especializados. Indique as relações estabelecidas na ação de cuidar, ampliação do ato terapêutico, valorizando as singularidades da usuária - (STARFIELD, 2004; CAMPOS, 2003, Apud SSIS, et.al. 2010). Em relação à resolubilidade (resposta às demandas de cuidados nos diversos setores de atendimento). Impressão do pesquisador ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 111 APÊNDICE C – ROTEIRO DA ENTREVISTA DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS Número da entrevista: _________ Data: ____ /____ /_____ Motivo da internação: ______________________________________________________________ Idade: _____ Gestação:____ Parto:____ Aborto:____ Quantidade de consultas de pré-natal: _____ ( ) na rede hospitalar ( ) no posto de saúde Estado civil: ( ) Casada ( ) Solteira ( ) União consensual ( ) Outros _________ Mora com os pais: ( ) Sim ( ) Não Mora com o pai da criança: ( ) Sim ( ) Não Se não, com quem mora ______________________________ Ocupação: ( ) Sim Renda Familiar (em salário mínimo): ( ) Até 1 SM ( ) Não ( ) 2 SM Situação Escolar: ( ) estudo em andamento ( ) parou de estudar após a gravidez ( ) parou de estudar antes da gravidez ( ) nunca estudou ( ) 3 ou mais ( ( ( ( ( Escolaridade: ) Ens. Fund. Completo ) Ens. Fund. Incompleto ) Ens. Médio Completo ) Ens. Médio Incompleto ) Ens. Superior Incompleto CUIDADO CLÍNICO ÀS MÃES ADOLESCENTES 1 Emergência Obstétrica Sobre a chegada ao hospital Como foi o acesso ao hospital? Quem foi o profissional que te recebeu? Descreva como foi esse momento, falando sobre sua acolhida nesse setor. Fale das situações que mais lhe agradaram na emergência obstétrica. Quem foi o profissional que mais se dedicou a você durante sua permanência na emergência obstétrica? Comente sobre situações, vivenciadas nesse setor, que lhe deixaram insatisfeita ou que você gostaria que fossem diferentes. Deste setor, você foi encaminhada para qual? Quem foi o profissional que te conduziu até o setor encaminhado? Comente sobre esse momento e o vinculo formado com os profissionais 112 2 No Centro Obstétrico Comente como foi acolhida neste setor. Quem foi o profissional que recebeu você no Centro Obstétrico? Comente sobre esse momento. Você recebeu explicações como deveria proceder durante o trabalho de parto e o parto? (vaginal ou cesárea) Você foi esclarecida sobre o direito de ter um acompanhante durante o parto? Teve esse acompanhante durante o parto? Como se sentiu? Algum profissional se dedicou mais a você? Quem foi esse profissional? Comente sobre. Houve alguma situação que mais lhe agradou nesse setor? Comente. Da mesma forma, houve alguma situação que lhe deixou insatisfeita. Comente. Quais foram os cuidados recebidos por você nesse local (centro obstétrico)? Desses cuidados, qual você considerou como mais importante? Nesse atendimento você percebeu quem são os membros da equipe de enfermagem? E o enfermeiro? Como foi o vinculo com estes profissionais? 3 No Alojamento Conjunto Sobre sua acolhida neste setor. Quem foi o profissional que recebeu você no Alojamento Conjunto? Comente como você foi acolhida neste setor. Quais os cuidados foram recebidos por você? Desses cuidados, qual o mais importante para você? Qual o profissional que executou esse cuidado? Algum profissional teve mais dedicação a você? Nesse cuidado, você consegue diferenciar os membros da equipe de enfermagem? Comente sobre o vínculo estabelecido com os profissionais neste setor. Comente sobre situações vivenciadas que lhe deixaram insatisfeita ou que você gostaria que fossem diferentes. 113 APÊNDICE D – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – PROFISSIONAIS Estamos lhe convidando para participar do estudo intitulado O CUIDADO CLÍNICO À MÃE ADOLESCENTE: SUBSÍDIOS PARA A INTEGRALIDADE NAS AÇÕES DE ENFERMAGEM. Com o mesmo pretendemos atingir os seguintes objetivos: Descrever os caminhos percorridos pelas gestantes adolescentes durante o atendimento no Setor de Obstetrícia de um hospital terciário, por meio do fluxograma descritor. Para desenvolver o estudo será realizada uma oficina para elaboração do fluxograma descritor, a qual será gravada com a permissão dos profissionais participantes. Informamos que será garantido o anonimato, ou seja, não será divulgado o nome dos participantes. A sua participação neste estudo é voluntária. Você tem a liberdade de recusar participar, ou, se aceitar, ficará livre para desistir em qualquer momento da pesquisa e isso não lhe trará qualquer prejuízo na assistência. Acreditamos que os resultados deste estudo trarão benefícios na melhoria do serviço, uma vez que serão compartilhados com os demais profissionais e gestores do serviço para que juntos busquem mudanças favoráveis. Este termo será assinado em duas vias. Uma via ficará com você e outra com a pesquisadora. Caso necessite esclarecer dúvidas em qualquer etapa do estudo, poderá entrar em contato com a coordenadora da pesquisa, Maria Veraci Oliveira Queiroz no telefone 31019924 ou com Francisco Herculano Campos Neto no telefone 32066419. Consentimento pós-esclarecido (1ª via) Eu ______________________________________________, li o texto acima e compreendi a natureza e o objetivo do estudo do qual fui convidado a participar. Declaro que fui informada sobre as informações acima expostas e que tive respostas para minhas dúvidas. Desta forma, concordo em participar da pesquisa e entendo que tenho a liberdade de desistir em qualquer fase da mesma. Fortaleza, ____/____/____ _________________________________________ Assinatura da mãe adolescente ou responsável _________________________________________ Assinatura do pesquisador ............................................................................................................................................. Consentimento pós-esclarecido (2ª via) Eu _______________________________________________________________, li o texto acima e compreendi a natureza e o objetivo do estudo do qual fui convidado a participar. Declaro que fui informada sobre as informações acima expostas e que tive respostas para minhas dúvidas. Desta forma, concordo em participar da pesquisa e entendo que tenho a liberdade de desistir em qualquer fase da mesma. Fortaleza, ____/____/____ ________________________________________ Assinatura da mãe adolescente ou responsável _________________________________________ Assinatura do pesquisador 114 APÊNDICE E - MATERIAL UTILIZADO PARA PROJEÇÃO E EXPLICAÇÃO DA OFICINA 115 116 117 118 119 120 APÊNDICE F - FOTOS DA ELABORAÇÃO DO FLUXOGRAMA 121 122 ANEXO A – PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DO HOSPITAL GERAL DE FORTALEZA