UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE SANDRA REGINA PAES PADULA DOCÊNCIA NA UNIVERSIDADE: APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR São Paulo 2014 SANDRA REGINA PAES PADULA DOCÊNCIA NA UNIVERSIDADE: APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR Dissertação apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Orientadora: Profª. Dra. Maria da Graça Nicoletti Mizukami São Paulo 2014 P125d Padula, Sandra Regina Paes. Docência na universidade : aprendizagem e desenvolvimento profissional docente no ensino superior / Sandra Regina Paes Padula. – 2014. 108 f. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014. Referências bibliográficas: f. 96-106. 1. Aprendizagem. 2. Desenvolvimento profissional. 3. Docência. 4. Ensino superior. 5. Formação de professores. I. Título. CDD 378.125 SANDRA REGINA PAES PADULA DOCÊNCIA NA UNIVERSIDADE: APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR Dissertação apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Aprovada em 20/05/2014. BANCA EXAMINADORA Profª. Dra. Maria da Graça Nicoletti Mizukami Universidade Presbiteriana Mackenzie Profª. Dra. Maria Dalva Silva Pagotto Universidade Estadual Paulista- UNESP Profª. Dra. Regina Maria Simões Puccinelli Tancredi Universidade Presbiteriana Mackenzie Dedico este trabalho aos meus pais Fátima e Gilberto, e filhos Gabriela e Gustavo, com todo o meu amor. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, a Deus por me fortalecer e me conduzir nesta caminhada. A minha família que em muitos momentos soube compreender a minha ausência para que eu pudesse levar adiante meu projeto profissional. A minha querida filha Gabriela que esteve o tempo todo ao meu lado, ajudando com toda paciência do mundo e ao Gustavo pela compreensão das minhas “faltas” durante os meus momentos de trabalho. À minha orientadora, Prof.ª Drª Maria da Graça Mizukami, por sua orientação e sugestões indispensáveis auxiliando no direcionamento do trabalho. Ao Fundo Mackenzie de Pesquisa – MACKPESQUISA, pelo apoio. Às professoras Dra. Maria Dalva Silva Pagotto e Dra. Regina Maria Simões Puccinelli Tancredi pelas importantes sugestões no momento da qualificação. Aos professores do Programa, pelo aprendizado proporcionado durante o curso. Um agradecimento especial aos professores que participaram da pesquisa, sem os quais este trabalho não teria sido possível. Terei oportunidade de mencioná-los no contexto do trabalho. A todos (as) aqueles (as) que, de alguma forma, estiveram e estão próximos de mim, pelo carinho e amizade. RESUMO O foco deste trabalho é sobre a aprendizagem e desenvolvimento profissional docente no ensino superior. A pesquisa e de cunho qualitativo e se desenvolveu em torno do seguinte problema: como professores do ensino superior egressos do PPG - EAHC – UPM de diferentes áreas do conhecimento caracterizam suas trajetórias de aprendizagem da docência? O objetivo geral foi como professores do ensino superior egressos do PPG - EAHC – UPM de diferentes áreas do conhecimento caracterizam suas trajetórias de aprendizagem da docência. Para isso, recorremos de um estudo exploratório-descritivo, com professores egressos do PPG-EAHC que estão exercendo a docência em instituições no ensino superior, por meio de entrevistas. A discussão e análise dos aspectos relevantes dos dados pelo método descritivo-analítico revelam que o início da docência possui experiências próprias e merece atenção na constituição da formação docente. Os professores sentem falta de uma formação pedagógica específica para o ensino superior e reconhecem a necessidade de continuar os estudos na pós-graduação, relatam a importância da formação em serviço uma vez que o docente nunca encerra sua formação. Além disso, indicam as dificuldades encontradas no ensino superior: vencer a insegurança que a falta de experiência gera; aprender e encontrar soluções com a heterogeneidade e diversidade dos alunos que chegam hoje aos bancos escolares com defasagens nos conteúdos, e com salas de aula numerosas; e ainda, a importância de dialogar com os pares para compartilhar experiências e aprendizagens. O estudo realizado enfatizou que a autonomia e a constituição da profissão docente é um processo em construção e se desenvolve com a experiência adquirida no exercício da própria docência. Confirmou também que a formação pedagógica do docente do ensino superior também se apoia informalmente nas suas aprendizagens como aluno universitário, em especial, nas suas memórias dos bons professores, um profissional que adquire e desenvolve conhecimentos a partir da prática e no confronto com as condições da profissão ao longo de sua trajetória profissional. E a necessidade de uma profissionalização dos professores e, sobre a necessidade de tornar se reflexivos sobre e que sua aprendizagem. Palavras-chave: Aprendizagem e Desenvolvimento profissional da docência, Docência do Ensino Superior, Formação de professores do Ensino Superior. ABSTRACT The focus of this work is on learning and teacher professional development in higher education. The survey and qualitative nature and developed around the following problem: how teachers of higher education graduates PPG - EAHC - UPM different areas of knowledge characterize their learning trajectories of teaching? The overall objective was to graduates as teachers of higher education PPG - EAHC - UPM different areas of knowledge characterize their learning trajectories of teaching. For this, we used an exploratory descriptive study with graduates of the PPG-EAHC teachers who are serving as teaching in higher education institutions, through interviews. The discussion and analysis of relevant data aspects by descriptiveanalytical method reveal that the early teaching experiences and has its own merits attention in the constitution of teacher education. Teachers feel the lack of a specific teacher training for higher education and recognize the need to continue their studies in graduate school, report the importance of in-service training once the teacher never finishes his training. Also, indicate the difficulties found in higher education: overcoming the insecurity that lack of experience generates; learn and find solutions with heterogeneity and diversity of students who come to school today with banks lags in the contents, and numerous lecture halls; and also the importance of dialogue with peers to share experiences and learning. The study emphasized that the autonomy and constitution the teaching profession is an ongoing process and develops with experience in the teaching profession itself. Also confirmed that the pedagogical training of teachers in higher education also relies informally in their learning as a university student, in particular, on their memories of the good teachers, a professional who acquires and develops knowledge from practice and in comparison with the conditions of profession throughout his professional career. And the need for professionalization of teachers and on the need of becoming reflective about their learning and that. Keywords: Higher Education Teachers, Learning in Teaching, Professional development of teaching, teacher education. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Número de professores que participaram do estudo ............................... 18 Tabela 2 - Anos de atuação dos participantes no Ensino Superior ........................... 19 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Distribuição da escolaridade e titulação de funções / 2009 ..................... 47 Gráfico 2 - Funções docentes em exercício por titulação nas IES públicas .............. 48 Gráfico 3 - Funções docentes em exercício por titulação nas IES privadas .............. 48 Gráfico 4 - Formação e ao preparo para o exercício da docênciaErro! Indicador não definido. Gráfico 5 - Saberes dos docentes ................................ Erro! Indicador não definido. Gráfico 6 - Material e fonte de Apoio ........................... Erro! Indicador não definido. Gráfico 7 - Contribuições do Programa EAHC-UPM .... Erro! Indicador não definido. Gráfico 8 - Especificidade da docência do Ensino SuperiorErro! Indicador não definido. Gráfico 9 - Primeiras experiências no Ensino Superior Erro! Indicador não definido. Gráfico 10 - Principiantes no Ensino Superior .............. Erro! Indicador não definido. Gráfico 11 - Dificuldades encontradas pelos docentes no Ensino Supeiror ......... Erro! Indicador não definido. Gráfico 12 - Atividades solicitadas pela instituição em que o professor trabalha, além de ensinar..................................................................... Erro! Indicador não definido. LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS ANPED Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação CAPES Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior CAPES Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior CES Conselho de Educação Superior CFE Conselho Federal de Educação CNE Conselho Nacional de Educação CNPq Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico ENDIPE Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo FORGRAD Fórum Brasileiro de Pró-Reitores de Graduação IES Instituição de Ensino Superior IFES Instituição Federais de Ensino Superior INEP Instituto nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais LDB Lei de diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC Ministério da Educação e Cultura SESU Secretaria da Educação Superior UNESCO Cultura Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 10 CAPÍTULO 1 - A PESQUISA .................................................................................... 15 CAPÍTULO 2 - APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DA DOCÊNCIA ............................................................................................................... 20 2.1 OS CICLOS DE VIDA DOCENTE .................................................................... 36 2.2 A CONSTITUIÇÃO DO PROFESSOR E O PROFISSIONALISMO DOCENTE ............................................................................................................................... 38 2.3 DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR ............................................................. 45 CAPÍTULO 3 - A DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR SOB A ÓTICA DOS ALUNOS EGRESSOS DO PPG- AEHC ................................................................... 55 3.1 FORMAÇÃO DOCENTE E CONTEXTO DA ATUAÇÃO ................................. 55 3.2 PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS COMO PROFESSOR NO ENSINO SUPERIOR ............................................................................................................................... 71 3.3 ESPECIFICIDADES DA INSTUIÇÃO DO ENSINO SUPERIOR E DIFICULDADES ENCONTRADAS NA AÇÃO DOCENTE ..................................... 79 3.4 AS INCONSISTÊNCIAS DAS FALAS, OS ANSEIOS... ................................... 85 CAPÍTULO 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................. 89 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 95 APÊNDICE (A) ........................................................................................................ 104 10 INTRODUÇÃO O interesse em pesquisar o processo de aprendizagem e desenvolvimento profissional da docência e a formação para a docência no ensino superior do professor universitário, como se apresenta nesta pesquisa que desenvolvi para a dissertação de mestrado, surgiu a partir da minha longa experiência de 22 anos na área da educação da rede pública municipal do município de Mauá – na região da Grande São Paulo. Comecei a trabalhar na Prefeitura Municipal de Mauá no início de 1992, como professora de Educação Infantil. Em 1999, assumi a direção de uma escola municipal na qual funcionava a Educação Infantil durante o dia e a noite a EJA – Educação de Jovens e Adultos. Nesta época o diretor exercia função administrativa e pedagógica da escola. Em 2001 tive o convite para compor a equipe de Supervisão Técnica de Ensino da Secretaria de Educação, onde permaneci por quatro anos. Uma das responsabilidades dessa equipe foi promover a formação continuada dos professores da rede municipal. Tínhamos a assessoria da empresa “Espaço Pedagógico” – do pesquisador Paulo Freire com a administração de sua filha Madalena Freire. Para o grupo de supervisores a formação acontecia semanalmente e a discussão principal nos nossos encontros referia-se à reflexão sobre as práticas pedagógicas realizadas na rede municipal. Com a mudança da gestão política no município voltei para a função de diretora de escola na qual atuo até hoje. Diferente do cenário anterior, atualmente as escolas do município de Mauá são administradas por uma equipe gestora, composta pelo diretor de escola, vice-diretor e professor coordenador pedagógico, com funções bem específicas. O diretor de escola tem seu trabalho direcionado para as questões administrativas, financeiras e de supervisão do trabalho pedagógico exercido pelo PCP (Professor Coordenador Pedagógico). O interesse em focalizar a temática do profissionalismo docente e suas interfaces no exercício da docência do Ensino Superior está relacionado à vontade de oxigenar e aprender novos conhecimentos na área da educação. 11 Revisito minha trajetória profissional e está inserida na educação básica desde o início da minha carreira, por isso a necessidade de mudar. Dentro desse contexto direcionei minha pesquisa para a formação do professor do ensino superior e seus processos de aprendizagem e desenvolvimento profissional. É interessante destacar que esse percurso desafiou-me a refletir sobre a formação do professor e seu processo constitutivo. Poderá a aprendizagem dos docentes que atuam em diferentes níveis de ensino ocorrer do mesmo modo ao longo de sua trajetória profissional? Será que o professor que tem sua formação inicial como bacharel obtém conhecimentos didático-pedagógicos como os professores que têm sua formação inicial em licenciatura? Como a formação continuada pode contribuir em seu processo formativo como docente? Assim, iniciou o ciclo de motivações investigadoras sobre a prática e a aprendizagem docente no ensino superior. Considero que a formação dos professores deve ser objeto de preocupação, que a aprendizagem docente é condição para o desenvolvimento e concretização do fazer-se professor ao longo da trajetória pessoal e profissional. Por isso realizei com os professores do ensino superior, egressos do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie a pesquisa, envolvendo a aprendizagem e a formação docente. Justificando-se, esta pesquisa, pela demanda crescente por uma formação pedagógica do docente do ensino superior baseada na reflexão sobre a prática/teoria e na “construção” do professor reflexivo, uma vez que sua prática pedagógica contribui para mudanças na universidade, no currículo, no ensinar e aprender dos alunos e dos próprios docentes. Como a PósGraduação stricto sensu é exigência para os docentes lecionarem no ensino superior a expectativa desta pesquisa é analisar o lugar da formação dos professores desse nível de ensino e como os processos de aprendizagem da docência estão ocorrendo, uma vez que os saberes necessários para a docência exigem uma preparação acadêmica numa perspectiva teórica e prática. A importância dessa pesquisa também se justifica pela pouca clareza da função que os Programas de Pós-Graduação representam na formação de 12 uma “pedagogia universitária”, constituindo-se num lugar de formação dos professores da educação superior. Para Mizukami (2005), “A docência no ensino superior é ainda território que apresenta iniciativas tímidas – comparativamente às demais -, embora mais recentemente também tenha passado a fazer parte do debate da área de forma mais sistemática”. Espaços de discussão como ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa e ultimamente a CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior, que a partir de 2005, estabelece à obrigatoriedade de estágio de docência no ensino superior para pós-graduandos (atuais ou potenciais professores do ensino superior) bolsistas (e, mais recentemente, possibilidades de bolsistas virem a se tornar professores substitutos em universidades). A maioria das iniciativas, no entanto, tem permanecido no âmbito das políticas institucionais de cada universidade; essas iniciativas, por sua vez, não têm formalmente explicitado um currículo direcionado à formação professor do ensino superior, envolvendo o que ele deve saber. Vejamos, neste caso a afirmação de Cunha (2008, p. 186), [...] precisamos assumir que a docência é uma atividade complexa, que exige tanto uma preparação cuidadosa, como singulares condições de exercício, o que pode distingui-la de algumas outras profissões. Ou seja, ser professor não é tarefa para neófitos, pois a multiplicidade de saberes e conhecimentos que estão em jogo na sua formação, exige uma dimensão de totalidade, que se distancia da lógica das especialidades, tão cara a muitas outras profissões na organização taylorista do mundo do trabalho. É importante fazer-se uma reflexão mais rigorosa sobre a formação do professor universitário. Geralmente os programas de pós-graduação em educação recebem profissionais de diferentes áreas do conhecimento. Algumas vezes professores do ensino superior e formadores de professores. Mesmo com constantes reivindicações desses professores quanto a espaços 13 destinados para a realização da prática pedagógica e a vivência de situações de aprendizagem e desenvolvimento profissional da docência, não se tem espaço para tal, bem como para a discussão de aspectos específicos dessa prática, de forma mais sistemática. Pode-se dizer que não há uma preparação formal para os professores do ensino superior. Muitos são contratados em Instituições de Ensino Superior pela linha de pesquisa e não pela docência. A formação desse professor não surge como prioridade nas políticas públicas, pois os processos de aprendizagem da docência e o desenvolvimento profissional ficam na dependência das IES, segundo suas concepções e respectivos planos de desenvolvimento profissional. Devemos desta maneira, reforçar a necessidade de se estudar a formação dos professores do ensino superior para contemplar as exigências do mundo moderno. O exercício docente no ensino superior exige capacitação própria e específica, “que não se restringe a ter um diploma de bacharel, ou mesmo mestre ou doutor, ou ainda, apenas o exercício de uma profissão” (Masetto 2012, p.11). Assim, exige o domínio de base de conhecimentos a serem transmitidos por um professor como também “um profissionalismo semelhante aquele exigido para o exercício de qualquer profissão” (Masetto 2012, p.13); esse relatório de pesquisa encontra-se estruturado em quatro capítulos, como se segue. No primeiro capítulo, apresentamos a pesquisa, o problema de pesquisa, os objetivos, a metodologia e os procedimentos. No segundo capítulo, buscamos a fundamentação teórica que serve de base a esta pesquisa sobre a aprendizagem e desenvolvimento profissional da docência. No terceiro capítulo apresentamos a análise dos dados das entrevistas realizadas e os resultados. Finalmente no quarto capítulo apresentamos as considerações finais da pesquisa. 14 Com esse trabalho pretendemos estudar, conhecer e investigar a aprendizagem na docência e desenvolvimento profissional do professor do ensino superior, bem como a formação do docente analisando questões teórico-metodológicas que permeiam os processos de formação inicial e continuada de professores e a investigação de tais processos. 15 CAPÍTULO 1 - A PESQUISA Apresentamos a pesquisa: o problema, objetivo geral e objetivos específicos, fonte de coleta de dados e tratamento da coleta de dados. Caracteriza-se como um estudo descritivo e analítico, de natureza qualitativa. Foi desenvolvido com egressos do Programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte de um projeto mais amplo intitulado Processos de Aprendizagem e Desenvolvimento Profissional da Docência: Egressos do PPGEAHC-UPM, financiado pelo Mackpesquisa durante o período de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014. Os alunos participantes do Programa de Pós-graduação tem sua preparação básica em diferentes áreas do conhecimento, envolvendo as grandes áreas das ciências exatas e das ciências humanas. O programa forma pesquisadores e docentes através da interdisciplinaridade a partir de três áreas do saber: educação, Arte e História da Cultura com ênfase na contemporaneidade. Tendo as seguintes linhas de pesquisa: - Formação de Educador para a interdisciplinaridade Investiga-se processos de ensino e aprendizagem a partir de dimensões cognitivas, técnicas, políticas, histórico-culturais e artísticas, tendo como eixo questões postas pela tecnologia e contemporaneidade. - Culturas e artes na contemporaneidade Tendo como cenário referencial as sociedades contemporâneas, esta linha de pesquisa se compromete a investigar as artes em suas expressões eruditas, populares e folclóricas em diálogo com as mais diversas expressões. - Linguagens e Tecnologias 16 Desenvolvem pesquisas de cunho histórico-crítico das linguagens e das tecnologias nos processos de comunicação humana, seus impactos nas áreas das artes, da história e da educação, tendo como eixo as expressões das novas mídias. A Questão da pesquisa dessa investigação é explicitada como segue: Como professores do ensino superior egressos do PPG - EAHC – UPM de diferentes áreas do conhecimento caracterizam suas trajetórias de aprendizagem da docência? Em decorrência desta questão, tem-se, como objetivo geral: Como professores do ensino superior egressos do PPG - EAHC – UPM de diferentes áreas do conhecimento caracterizam suas trajetórias de aprendizagem da docência com relação aos objetivos específicos, proponho analisar: a) Analisar aprendizagens ocorridas durante os percursos profissionais no ensino superior; b) Compreender concepções manifestas em relação à profissão docente; c) Compreender desafios atuais postos pela profissão docente; d) Identificar os espaços que são por eles considerados como de formação e de desenvolvimento profissional da docência; Considerando a dimensão qualitativa desse estudo, é importante referirse a Minayo (2005, p.82) que ressalta que “a abordagem qualitativa levando em conta a compreensão, a inteligibilidade de fenômenos sociais e o significado e a intencionalidade que lhe atribuem os atores”. Nesse sentido, o estudo está focado em uma realidade próxima, ou seja, o local de atuação docente, uma vez que investigar a trajetória da docência dos professores que atuam no ensino superior é o nosso objetivo maior. A abordagem qualitativa nos permite compreender o espaço em que as ações e as relações humanas não se exprimem em dados estatísticos. Podese acrescentar o que afirma Chizzotti (1998, p.78): “[...] a complexidade 17 criadora das relações interpessoais e sociais”. A escolha pela abordagem qualitativa foi essencial porque podemos explorar o subjetivo e o pessoal do entrevistado na sua experiência vivida. O pesquisador participa, compreende e interpreta. O caminho da pesquisa qualitativa, segundo Minayo (2003, p.22-23) [...] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos, dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. O foco principal na pesquisa qualitativa é a interpretação dos dados obtidos através dos sujeitos. Em uma pesquisa qualitativa os pesquisados são sujeitos que possuem experiências e percepção própria acerca do mundo que os cerca, é extremamente importante que esta visão de mundo e as atitudes possam ser consideradas como dados relevantes. A opção pelo método descritivo-analítico se explica também pela necessidade de compreendermos como os docentes analisam suas trajetórias de aprendizagem da docência. Tendo como base essas orientações a pesquisa foi desenvolvida por meio de entrevista com roteiro semiestruturado, buscamos obter as informações necessárias para responder a questão. A escolha pelas entrevistas explica-se por se tratar de uma técnica que possibilita desenvolver uma relação pessoal entre pesquisador e pesquisados. Os docentes entrevistados se disponibilizaram a colaborar a partir de um convite endereçado via e-mail para agendar a entrevista. O estudo foi realizado em duas etapas. A primeira delas foi a de identificar os participantes e estabelecer os critérios para participação da pesquisa. Os participantes entrevistados foram professores do ensino superior egressos do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação, Arte e História da Cultura dos cursos de mestrado ou doutorado da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 18 O critério utilizado para a seleção dos participantes foi: está no exercício na docência no ensino superior e ser egressos do Programa de participação na pesquisa. O grupo escolhido é composto por doze professores, dentre os participantes havia aqueles que eram oriundos em cursos de licenciatura como formação básica e os que haviam frequentado apenas bacharelado, sem acesso formal em termos de formação profissional para a docência a cursos que contemplassem conhecimentos pedagógicos de forma mais sistemática, o grupo foi dividido em dois, de forma que a quantidade fosse párea: 6 professores com formação em Licenciatura e 6 professores com formação em Bacharelado. Tabela 1 - Número de professores que participaram do estudo Formação – Licenciatura Matemática Pedagogia Filosofia Formação - Bacharelado Administração Nº de professores 1 4 1 N° de professores 1 Interpretação Teatral 1 Relações Internacionais 1 Publicidade e Propaganda Medicina Designer Gráfico 1 1 1 Quanto ao gênero, 6 (50%) eram do gênero feminino e 6 (50%) do gênero masculino. Esses dados refletem uma realidade nacional, conforme ilustra a tabela 1, em que no magistério do nível superior há certo equilíbrio entre a atuação masculina e feminina, o que já não ocorre, por exemplo, no Ensino Fundamental, onde a maioria dos professores é a figura feminina. No que se refere à titulação, 5 (42%) estão cursando o doutorado, 3 (25%) são mestres e 4 (33%) estão cursando o mestrado. 19 Tabela 2 - Anos de atuação dos participantes no Ensino Superior Nº de anos 01 até 05 Nº de professores 5 06 até 10 3 11 até 15 2 16 até 20 0 21 até 25 1 26 até 30 1 Pode-se constatar através da tabela 2 que os professores entrevistados possuem diferentes anos de docência, mas a maioria dos professores entrevistados têm de 1 a 5 anos na docência do ensino superior. A coleta de dados foi realizada através das entrevistas semiestruturada, conduzidas por mim, em dia e horário agendados previamente com cada um dos participantes do estudo. O principal instrumento de coleta de dados do presente trabalho é a entrevista com roteiro semiestruturado (Apêndice A); tal roteiro considerou os seguintes focos: formação inicial e atual; experiências anteriores e atuais profissionais no magistério; experiência na Educação Superior; como e quando aprenderam a ensinar no ensino superior; de que forma o Programa EAHCUPM contribuiu para sua aprendizagem como professor; quais espaços e processos voltados são considerados pelos participantes como propícios para a formação continuada; experiências em “ser” ou “estar” professor; dificuldades no exercício da docência. Esses focos aglutinaram as narrativas dos participantes quando se empreendeu a análise dos dados. As entrevistas foram gravadas e transcritas posteriormente para garantir autenticidade do material e maior fidedignidade em relação aos dados obtidos. 20 CAPÍTULO 2 APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DA DOCÊNCIA É amplo o universo teórico de pesquisa para o presente trabalho. De forma a fundamentar essa investigação, o capítulo presente é constituído por três eixos inter-relacionados: Os ciclos de vida docente; A Constituição do Professor e o Profissionalismo Docente e Docência no Ensino Superior. A escola considerada um espaço para desenvolvimento profissional docente e espaço de formação continuada do professor são referências para a compreensão da questão sob investigação, quanto ao contorno metodológico da pesquisa e análise dos dados. Considerando-se, essa perspectiva, é dado um grande valor à experiência como fonte de conhecimento sobre o ensino e o aprender a ensinar. Zeichner (apud Marcelo Garcia et al., 1999 p.40) “as experiências práticas em escolas contribuem necessariamente para formar melhores professores. Acredita-se que algum tempo de prática é melhor que nenhum, e que quanto mais tempo se dedicar às experiências práticas melhor será”, A esse respeito, Feiman (apud Marcelo Garcia et al., 1999 p.31) afirma que “esta visão do ensino mostra que se aprende a ensinar através de uma combinação de experiências diretas e interações com colegas e mentores sobre situações problemáticas. Através destas experiências são iniciados numa comunidade de práticos e no mundo da prática”. É fundamental pensar, nesse contexto, uma concepção de formação em que o professor e as instituições ensino superior construam um espaço de conhecimento orientado para a compreensão dos processos de aprendizagem da docência, com base na consideração de sua relação com o contexto e com sua trajetória de formação. O docente deixa de ser um transmissor de conteúdos e torna-se um mediador que busca proporcionar o significado da informação e possibilita a interação entre os diferentes campos do conhecimento; assim, assumindo a função de conectar os conteúdos curriculares com os conhecimentos que vêm de fora dos espaços escolares 21 auxiliando os alunos a relacionar o aprendizado com o mundo das instituições de ensino. Assumindo tal ideia, o trabalho do professor deve estar baseado na reflexão sobre a ação pedagógica considerada uma estratégia poderosa e formativa para professores do ensino superior, em uma perspectiva de formação continuada no espaço da universidade. Nas últimas décadas alguns autores como Schön (1983, 1987, 1988), Schulman (1986, 1987, 1996), Nóvoa (1992), Vasconcelos (1995), Perrenoud (2002), Masetto (2003), Mizukami (2003), Cunha (2004), discutem sobre a profissionalização do professor e mostram a necessidade de superação de um paradigma de reprodução e repetição, tanto da prática docente como os processos de formação dos mesmos. Segundo Schoenfeld, (1997), não se pode considerar que as múltiplas variáveis podem configurar ou co-determinar o que os professores fazem na sala de aula e no desenvolvimento do processo instrucional, mas a literatura atual apresenta algumas indicações sobre modelos descritivos de processos de ensino, de base de conhecimento para o ensino e de processos de raciocínio pedagógico, descrições de crenças e tipos de conhecimentos dos professores, histórias construídas e narradas pelos docentes. As pesquisas realizadas pelos autores citados acima divergem quanto às orientações teóricas e nos referenciais em que se apoiam, porém, não se pode deixar de analisar as contribuições de Schön (1983, 1987), ao tentar construir uma epistemologia da prática, abrindo espaço para a investigação até então não pensada, uma revisão dos paradigmas existentes e a preocupação com o modelo processo/produto. Aprender a ensinar e a se tornar professor são [...] processos e não eventos (Cole & Knowles, apud Mizukami, Tancredi et al., 2002, p.47) Com base nesta afirmação de Cole & Knowles, podemos dizer que os processos de aprendizagem dos professores estão pautados nas experiências diversas e modos de conhecimento, que iniciam antes mesmo da formação 22 inicial, que prosseguem ao longo da carreira docente permeando a prática profissional vivenciada. A concepção de aprendizagem da docência bem com a formação dos professores deve estar associada com o desafio da utilidade social do conhecimento que é transmitido e construído, isso significa uma nova imposição nos papéis para os professores. A palavra mudança aparece cada vez no discurso pedagógico devido à necessidade de uma nova postura, de um novo olhar para a aprendizagem do professor do ensino superior e sua formação. Para Fullan (apud Marcelo Garcia et al., 1999 p.47) reconhecia que qualquer tipo de mudança no ensino, no currículo, depende em grande parte dos professores. Cabe aqui ressaltar que existem múltiplas dimensões inerentes aos processos de mudança do professor, em especial à dimensão pessoal, se realmente pretende-se que algo mude. Cada vez mais se assume que o professor é um construtivista (Clark e Peterson, apud Marcelo Garcia et al., 1999 p. 196) que processa informações, toma decisões, gera conhecimento prático, possui crenças, rotinas, etc., que influenciam a sua atividade profissional. Portanto, e o professor que determina as situações, seu comportamento é pessoal e particular, assim as teorias da prática constituem o conhecimento profissional. Os professores desenvolvem, nessa direção, em sua experiência docente, teorias implícitas e concepções pedagógicas (Marcelo, 1999) que contribuem para dar um “contexto de estabilidade” ao professor, de tal modo que muitas vezes aparecem como explicações interiorizadas, embora tácitas, da prática docente; assim, essas teorias muitas vezes estão enraizadas no pensamento do professor, ao longo dos seus anos de estudante e a sua mudança implica um processo de autoconsciência e autorreflexão. Para Schön (1987), “[...] que deve ser considerado por aqueles que planejam as atividades de desenvolvimento profissional”. Pesquisadores como Schön (1983) e Dewey (1989), têm investigado o pensamento e o conhecimento profissional do professor enfatizando como esse se desenvolve e se relaciona com o processo ensino-aprendizagem. 23 A Aprendizagem é compreendida como um processo vital de crescimento e desenvolvimento, ao longo da vida (life long learning), com uma dimensão significativa que explicita o significado e a importância do que se aprende em tempo e espaços escolares, aprendizagem em qualquer idade. (Mazetto 2009, p.8). Na produção do conhecimento no ensino o ato dos professores de descrever, analisar, fazer inferências sobre eventos de sala de aula e estabelecer princípios pedagógicos os tornam em professores práticos reflexivos. O conceito de professor como prático reflexivo reconhece a importância da experiência que reside na prática dos bons professores. “Reflexão significa o reconhecimento de que o processo de aprender a ensinar se prolonga durante toda a carreira do professor” (Zeichner, 1993, p.17). Atualmente, o conceito de ensino reflexivo está fundido com as preocupações e a experiência pessoal e com a prática na formação e no desenvolvimento profissional de docentes. A premissa básica do ensino reflexivo considera que as crenças, os valores, as hipóteses que os professores têm sobre o ensino, a matéria que lecionam o conteúdo curricular, os alunos, e a aprendizagem estão na base de sua prática de sala de aula (Mizukami, 2002, p.49). A ação reflexiva possibilita a oportunidade dos professores de avaliar constantemente sua prática, transformando-os em sujeitos conscientes de suas crenças e participativos, discutindo e refletindo sobre suas próprias ações. A reflexão práticas/implícitas, oportuniza através da o professor auto avaliação objetivar de suas teorias crenças e práticas pedagógicas cotidianas, mudanças de postura percebidas em suas histórias, em suas interações com os diferentes campos do conhecimento, em situações de problematização no ato de ensinar. Quando se trata de teorias práticas estas frequentemente são implícitas, havendo conflito entre elas e as práticas profissionais existentes. Alguns professores mesmo antes de sua formação formal conduzem suas aulas com base em várias teorias da prática, muitas vezes não conhece tais teorias, tomam decisões, avaliam estratégias de ensino e aprendizagem, baseando-se 24 em seus pensamentos, valores e assim comprometendo o trabalho educativo. Zabalza (1988) “salienta que o valor da experiência não pode ser tornar um mito e fazer que os professores acreditem que são as experiências de campo as que realmente formam o professor, não pode haver separação entre a formação teórica e prática no currículo da formação inicial”. Ao se discutir sobre o desafio da formação é preciso expor a necessidade que essa seja centrada nas práticas e na análise das práticas (Nóvoa 2007, p.14). Quando relacionamos os diversos conceitos como ‘processo reflexivo’, o ‘pensamento reflexivo’, o ‘ensino reflexivo’, a ‘prática reflexiva’, não existe um consenso entre os pesquisadores porque consideram diferentes aspectos, como fatores pessoais, organizacionais, éticos e políticos. Para Ciriello et al. (1992), esse vê a reflexão como um processo deliberativo relacionado às considerações de valores implícitos em práticas alternativas, envolve questões éticas, morais e políticas nas decisões em sua prática cotidiana. McCaleb et al. (1992), considera o ensino reflexivo como utilização de uma base de conhecimento profissional. “componente básico para se tornar Mizukami (2002, p.51), o professor reflexivo consiste no desenvolvimento de uma linguagem que podem ser adquiridas por meio do exame crítico de pesquisas/estudos empíricos”. Ross et al. (1992), o professor que tem uma filosofia pessoal sobre o ensino é considerado um professor reflexivo. Segundo Dewey, cada professor vê a realidade de modo diferente o que serve de barreira, impedindo-o de reconhecer e experimentar pontos de vista alternativos, a primeira atitude é permitir novas possibilidades, alternativas. [...] a ausência de preconceitos, de parcialidades e de qualquer hábito que limite a mente e a impeça de considerar novos problemas e de assumir novas ideias e que integra um desejo ativo de escutar mais do que um lado, de acolher os fatos independentemente da sua fonte, de prestar atenção sem melindres a todas as alternativas, de reconhecer o erro mesmo relativamente àquilo em que mais acreditamos (1989, p. 43). 25 Finalmente, Calderhead (1989, p.44-45, apud Zeichner, 1993, p.31) ao analisar os diferentes conceitos de ‘ensino reflexivo’, esse considera cinco dimensões. [...] variam na forma como consideram o processo de reflexão (por exemplo, reflexão na ação, deliberação curricular), no conteúdo da reflexão (por exemplo, os valores próprios dos professores, o contexto social, a teoria educacional), nas condições prévias à reflexão (por exemplo, as atitudes em relação à reflexão, o contexto de orientação no qual ocorre a reflexão) e no produto da reflexão (por exemplo, a eficiência do ensino, a emancipação, a compreensão da relação entre valores e prática). Há ainda uma variação considerável na forma como os conceitos têm sido justificados, defendidos e relacionados no contexto da formação profissional. O ensino reflexivo tem sido justificado em campos que se situam desde a responsabilidade moral até a eficiência técnica, e a reflexão tem sido incorporada em cursos de formação de professores bem divergentes, desde aqueles que recorrem à abordagem comportamentalista, segundo a qual a reflexão é considerada como uma forma de realização das práticas prescritas, até os que recorrem à abordagem crítica, na qual a reflexão é considerada como um meio em direção à emancipação e à autonomia profissional. Quando se refere à prática reflexiva, os conceitos de reflexão na ação, para a ação e sobre a ação, é necessário que o professor desenvolva à importante atitude de analisar e interpretar o que ocorre em sala de aula enquanto os alunos executam as atividades propostas. Assim, a prática enquanto objeto de reflexão, constitui numa fonte de desenvolvimento de processos de ensinar e aprender no decorrer do desenvolvimento profissional dos professores. Para Marcelo (1999, p.29) a formação do professor deve ser baseada na reflexão epistemológica da prática, de modo que aprender e ensinar seja realizado através de um processo em que o conhecimento prático e o conhecimento teórico possam integrar-se em um currículo orientado para ação. 26 Como estabelece Pérez Gómez, (1988, apud Marcelo et al., 1999, p.29) “a prática é concebida como espaço curricular especialmente delineado para aprender a construir pensamento prático do professor em todas as suas dimensões”. Para esse autor os processos de reflexão sobre a ação, supõem um conhecimento-na-ação e uma análise sobre a reflexão-na-ação, constituem “o pensamento prático do profissional (nesse caso o professor), que se depara com situações que divergem da prática” (grifo do autor). Vale ressaltar que os três processos são interdependentes e se completam para garantir uma efetiva intervenção. A prática se torna repetitiva e rotineira com o tempo e, por isso, [...] o conhecimento-na-ação é cada vez mais tácito, inconscientes e mecânico, o profissional corre o risco de reproduzir automaticamente a sua aparente competência prática, e de perder valiosas oportunidades de aprendizagem pela reflexão na e sobre a ação. Desta forma, o seu conhecimento prático vai-se fossilizando e repetindo, aplicando indiferentemente os mesmos esquemas a situações cada vez menos semelhantes (Pérez Gómes, 1997, p. 105). Para o autor, o professor não consegue conciliar um diálogo criativo numa situação de sala de aula (complexa e real). Passa a desperceber as características que fogem aos padrões do seu pensamento prático sem elenco e não percebe os erros cometidos. A prática não pode ser concebida como uma atividade assistemática, mecânica, apenas seguindo os princípios teóricos, mas deve ser entendida como uma oportunidade para se adquirir conhecimento. Como refere Pérez Gómez (1992, apud Marcelo et al., 1999, p.39) “o ensino como uma atividade complexa, que se desenvolve em cenários singulares claramente determinada pelo contexto, com resultados em grande parte sempre imprevisíveis e carregada de conflitos de valor que exigem opções éticas e políticas”. Com isso, pretendemos dizer que o professor não aprende a ensinar de forma mecânica, rotineira e previsível. [...] aprendizagem e desenvolvimento profissional da docência constituem processos que se desenvolvem ao longo da vida. A 27 formação inicial do professor, sob essa ótica, deve ser destacada como um momento formal em que os processos de aprender a ensinar e aprender a ser professor começam a ser construídos de forma mais sistemática, fundamentada e contextualizada”. (Mizukami, 2013, p.27). Atualmente o conceito de desenvolvimento profissional de professores, tem uma conotação de evolução e continuidade, pressupõe uma abordagem na formação de professores que valoriza o seu caráter contextual, organizacional e orientado para a mudança. Apresenta uma concepção onde o professor é um profissional do ensino, que pesquisa, questiona e busca soluções. Um processo concebido para o desenvolvimento pessoal e profissional dos indivíduos num clima organizacional de respeito, positivo e de apoio, que tem como finalidade última melhorar a aprendizagem dos alunos e a auto renovação contínua e responsável dos educadores e das escolas” (Dillon-Peterson, 1981 apud Marcelo et al, 1999 p.137) O desenvolvimento de professores está para além de uma etapa informativa; implica a adaptação às mudanças com o propósito de modificar as atividades instrucionais, a mudança de atitudes dos professores e melhorar o rendimento dos alunos. O desenvolvimento de professores preocupa-se com as necessidades pessoais, profissionais e organizacionais” (Heidman, 1990 apud Marcelo et al, 1999 p.138) Define-se como o processo que melhora o conhecimento, competências ou atitudes dos professores.” (Sparks e Loucks-Horsley, 1990 apud Marcelo et al, 1999 p.138) Diante desse cenário a pedagogia deve ser reinventada na sociedade contemporânea para que consiga responder não apenas as necessidades dos alunos, das instituições escolares, das novas tecnologias, em especial da aprendizagem. “A pedagogia precisa respirar. Os professores precisam se apropriar de um conjunto de novas áreas científicas que são muito mais estimulantes das que serviram de base e fundamento para a pedagogia moderna. Como, por exemplo, todas as descobertas das neurociências, sobre 28 o funcionamento do cérebro, as questões dos sentimentos e da aprendizagem, sobre maneira de produzir a memória, sobre as questões da consciência” (Nóvoa, 2007, p.7). No início do século XXI, “os professores reaparecem elementos insubstituíveis na só na promoção da aprendizagem, mas também no desenvolvimento de processos de integração que respondam aos desafios da diversidade e de métodos apropriados de utilização das novas tecnologias” (Nóvoa, 2007 p. 2). Diante dessa citação é indispensável uma valorização do conhecimento docente. Precisamos entender o ensino como atividade de criação, e não como uma atividade de transmissão de um conhecimento preexistente como matériaprima, que no próprio ato pedagógico elabora um novo conhecimento. Nesse sentido Nóvoa (2009, p.202), diz: “então faz sentido conceber modelos universitários de formação de professores. A procura de um conhecimento profissional, que não é mera aplicação prática de qualquer teoria, mas que exige um esforço próprio de elaboração e reelaboração está no âmago do trabalho docente”. As oportunidades adequadas de aprendizagem profissional, onde os professores possam ter chances de investigar, experimentar, consultar, avaliar, devem estar garantidas na organização de seu trabalho diário. Estudos mostram que para a construção do conhecimento profissional, para o desenvolvimento profissional ao longo da trajetória docente e para a construção pessoal desse tipo de conhecimento é necessário considerar alguns elementos como o ensino reflexivo, sobre a base de conhecimentos para o ensino, sobre as teorias implícitas/tácitas etc., referenciais teóricos e metodológicos diversos; outro fator relevante é que os conhecimentos, as crenças e as metas dos professores são elementos fundamentais para a determinação do que eles fazem em sala de aula e por que fazem. Aprender a ensinar é um processo que requer tempo e recursos para que os docentes modifiquem suas práticas. É preciso rever conceitos dos processos educacionais, instrumental e da prática docente, são necessárias mudanças que contemplem as novas exigências sociais e de políticas públicas. São de 29 extrema importância que o professor determine a estrutura e o conteúdo de processos de desenvolvimento profissional, os programas de formação sejam adaptados para a realidade das escolas das quais os professores estão inseridos, reconhecer a necessidade de estudar o processo de aprendizagem docente enquanto pessoas adultas, e não esquecer que as necessidades dos alunos ocupam a preocupação central nas propostas educacionais atuais (Torres, 1998, 1999; Darling-Hammond, 1994; Marcelo, 1998; Calderhead, 1996; Schoenfeld, 1997). Nas referências acima vimos à importância do ensino reflexivo, a reflexão sobre a prática do professor. A seguir explanaremos outros elementos fundamentais para a construção do conhecimento e desenvolvimento profissional do docente. Base de conhecimento Alguns docentes acreditam que o professor nasce feito, para ser docente basta ser um bom profissional em sua área, essa afirmação é uma argumentação da qual é inaceitável quando pensamos no papel de ser professor. A prática, por si só não fornece subsídios para o domínio dos conteúdos específicos e não propicia, de forma sistematizada e articulada, a base se conhecimento que o professor necessita para ensinar, bem como continuar seu processo de aprendizagem e desenvolvimento profissional. É importante um repertório de diferentes tipos de conhecimentos para que o professor desempenhe suas funções ao exercício da docência. [...] o conhecimento é um recurso flexível, fluído, em processo de expansão e mudança incessante. Na economia do conhecimento, as pessoas não apenas evocam e utilizam o conhecimento “especializado” externo, das universidades e de outras fontes, mas conhecimento, criatividade e inventividade são intrínsecos a tido o que elas fazem” (Hargreaves, 2004 apud Masetto et al, 2012, p.17). O que diz Hargreaves (2004, apud Masetto et al, 2012, p.17) como sociedade do conhecimento, Manuel Castells a chama de ‘sociedade 30 informacional’ centrada e orientada para o conhecimento e para a aprendizagem, onde a expressão utilizada é ‘learning society’. O tipo de conhecimento hoje exigido e esperado pelos professores é aquele que ultrapassa os limites de uma especialidade, é necessário que se abra para outras áreas e formas de conhecimento com integração, diálogo, compreensão do que está acontecendo no mundo e com a humanidade. Portanto, uma das novas dimensões que o professor do ensino superior precisa é trabalhar com a interdisciplinaridade na área do conhecimento, assumindo uma nova visão da realidade e dos paradigmas que ultrapassam o modelo tradicional, onde a produção de um novo conhecimento científico parte de diferentes áreas de conhecimento. Uma base de conhecimento para o ensino consiste de um corpo de compreensões, conhecimentos, habilidades e disposições que são necessários para que o professor possa propiciar processos de ensinar e aprender, em diferentes áreas de conhecimento, níveis, contextos e modalidades de ensino. (Shulman, 1986, 1987 apud Mizukami, et al., 2004), o autor explicita várias categorias dessa base de conhecimento; conhecimento do conteúdo específico, conhecimento dos contextos formativos escolares, conhecimento de processos de aprendizagem da docência, conhecimento historicamente contextualizado e fundamentado de políticas públicas educacionais e das teorias que as embasam e o conhecimento pedagógico do conteúdo. Cada conhecimento deverá envolver: Conhecimento do conteúdo específico - compreendido como eixo articulador da base de conhecimento para a docência e para a promoção de processos de raciocínio pedagógicos ricos e flexíveis, possibilita a compreensão das inter-relações entre os conteúdos dos diferentes componentes curriculares e os contextos de aprendizagem dos alunos e dos professores, das especificidades de cada série e níveis de escolarização; 31 Professores bem sucedidos não podem, simplesmente, ter uma compreensão intuitiva ou pessoal de um conceito, princípio ou teoria particular. De forma a fomentar compreensão, eles devem compreender formas de representar o conceito para os alunos. Eles devem ter conhecimento das formas de transformar o conteúdo considerando os propósitos de ensino [...] que inclua compreensão pessoal do conteúdo específico, assim como conhecimento das formas de comunicar tal compreensão, a propiciar desenvolvimento do conhecimento da matéria na mente dos alunos” (Wilson; Shulman; Richert, 1987, apud Mizukami et al, 2004 vol. 29 n2). Conhecimento dos contextos formativos escolares - como as escolas funcionam (espaços, tempos, dinâmicas, condições, objetivos e organizações de trabalho do docente, alunos etc.); Os professores devem ser adaptar o seu conhecimento geral da matéria às condições particulares da escola e dos alunos que a frequentam (Leinhardt, 1992, apud García et al, 1999). Conhecimento de processos de aprendizagem da docência – implica em reconhecer e explorar concepções, teorias pessoais do professor, seja no sentido de reafirmar tais concepções ou alterá-las; [...] aprendizagem não é descobrir o que os outros já sabem, mas solucionar nossos próprios problemas de acordo com nossos próprios propósitos, pelo questionamento, pensamento e testagem da solução até que esta faça parte de nossa vida. (Handy, 1989, apud Mizukami et al, 2002, p. 83 ). Conhecimento historicamente contextualizado e fundamentado de políticas públicas educacionais e das teorias que embasam – para 32 assegurar que os professores não levem distorções e ou simplificações indevidas levadas para a sala de aula, por exemplo, a exploração equivocada de erros, contribuições, concepções prévias em nome de referências teóricas compreendidas de forma simplista e fragmentadas; “A experiência pode conduzir a lições erradas e a cristalização de práticas inadequadas e discriminadoras” (Kennedy, 1989, p.3, apud Mizukami et al, 2002, p. ). Conhecimento pedagógico do conteúdo – professor é o único que o detém, abrange o conhecimento sobre a promoção de processos de aprendizagem da docência e o conhecimento sobre a prática profissional como eixo do processo formativo; Influenciado tanto pelo conteúdo específico da disciplina quanto pelo conteúdo pedagógico, o conhecimento de conteúdo pedagógico emerge e cresce quando os professores transformam seu conhecimento de conteúdo específico, tendo em vista os propósitos do ensino. Como essas espécies de conhecimento se relacionam umas às outras constitui, ainda, um mistério para nós (Wilson et al., 1987, apud Mizukami et al, 2002, p. 68 ). Instituição educativa (comunidades de aprendizagem) O conceito de desenvolvimento profissional está fundamentado no fato de que a aprendizagem dos professores se estabelece de forma individual e coletiva inserida num contexto das instituições educativas. Um dos grandes desafios que as instituições de ensino têm, é o de promover a construção e manutenção de uma comunidade de aprendizagem no local de trabalho, que estabeleça relações entre processos de formação vivenciados durante a formação inicial do e os vivenciados na escola. 33 McDiarmid (1995, apud Mizukami et al, 2002, p. 80), “a escola como local de trabalho, assume importância considerável na promoção de desenvolvimento profissional de seus participantes (professores, corpo técnico-administrativo, alunos, famílias, comunidade), o que pode reverter em benefícios para a escola e para os processos de ensino-aprendizagem nela realizados”. O desenvolvimento profissional deve ser planejado e desenvolvido não no vazio, e sim no contexto escolar, assim entendido como unidade básica para aprender, mudar e melhorar o ensino. Os processos de desenvolvimento profissional também devem ser determinados pelos próprios professores, onde os professores possam tomar decisões sobre o ensino, sobre as questões organizacional e profissional. Rosenholtz (1989, apud Hargreaves & Fullan, 2000) fala sobre escolas “em movimento”, os professores trabalham em conjunto, reconhecem que ensinar é difícil e que dar e receber ajuda não implica incompetência: faz parte da busca de aperfeiçoamento contínuo. Ter seus pares como colaboradores e comunicar-se mais com eles traz maior confiança e a certeza de que se conseguirá atingir um objetivo. Compartilhar e valorizar conhecimento, buscar conselhos, oferecer e pedir ajudam dentro ou fora da instituição escolar faz com que o docente se torne cada vez melhor em sua profissão. Hargreaves & Fullan destacam: As culturas cooperativas em termos de se sentir parte de um grupo de trabalho em equipe possibilitam que a diversidade seja valorizada e esteja acessível, ao mesmo tempo em que a interdependência entre as pessoas seja estimulada, uma vez que elas aprendem umas com as outras, identificam preocupações comuns e trabalham em conjunto na solução de problemas (2000, p.69). A instituição educativa deve garantir espaço e tempo para a construção do processo de desenvolvimento profissional, num trabalho coletivo e participativo, que inclua comunidades de aprendizagem que se organizem de forma sistemática, sendo um lugar de vida relacional. Na literatura há vários termos relacionados a tais comunidades: ‘comunidade de aprendizagem’, 34 ‘comunidade escolar’, ‘comunidade de aprendizes’, ‘comunidade de discurso’, ‘comunidade da prática’, Grossman, Wineburg e Woolworth (2001), os mesmos utilizam referenciais teóricos que abordam como uma comunidade deve funcionar em ambientes escolares. Quando se fala em teoria sobre comunidades de aprendizagem, há cinco temas comuns: interdependência, interação/participação, interesses partilhados, preocupação em relação às diferentes visões das pessoas e os relacionamentos significativos entre os participantes; assim, os docentes podem construir juntos, uma história a se constituir de fato, uma ‘comunidade de memória’ através das narrativas dos membros do grupo. [...] Métodos de casos, assim, se tornam estratégias para ajudar professores a ‘agrupar’ suas experiências em unidades que podem se tornar o foco para prática reflexiva. Podem se tornar a base para aprendizagem individual do professor, assim como uma forma com a qual comunidades de professores, tanto local como mais ampliada,... podem armazenar trocar e organizar experiências (Shulman, 199 apud Mizukami et al, 2004 vol.29 n2). Em uma comunidade de professores dois focos devem ser considerados: a melhoria da prática profissional, focalizando a melhoria da aprendizagem do aluno e a crença de que os docentes são estudantes de sua área de conhecimento específico ao longo de sua trajetória profissional. Segundo Nóvoa (1992), o trabalho coletivo e compartilhado abre perspectivas de emancipação profissional. A consolidação da profissão docente está assentada na autonomia e no profissionalismo exercido pelos professores em sua atuação em sala de aula e com seus pares na escola. Atitude investigativa A imagem do professor como investigador está ligada ao movimento de investigação-ação, é o eixo articulador da formação do professor. Do ponto de vista da investigação-ação, o professor é concebido como uma pessoa capaz de refletir sobre sua própria atividade docente, que pode 35 identificar e diagnosticar problemas da sua própria prática, capaz de realizar a reflexão-na-ação (Schön, 1987). Ao refletir sobre sua própria prática, ao identificar e diagnosticar problemas que nela ocorre, ao se colocar intencionalmente a possibilidade de intervir em tal situação utilizando metodologias apropriadas, o professor converte-se em investigador da sua própria prática, desenvolve o seu profissionalismo e competência epistemológica (GIMENO, 1983). O professor como investigador assume um novo papel, para que o professor desempenhe com eficácia este papel, é necessário que a formação do professor contemple no seu currículo o objetivo de formar professores que reflitam sobre sua própria prática, dotados de conhecimentos e competências que permitam concretizar esta função de indagação (GIMENO, 1983). A atitude investigativa surge como objeto de construção da profissionalização do professor, através de um aprofundamento da sua capacidade de análise crítica das condições que desenvolve seu trabalho com os alunos, e com os outros professores, assim como das estruturas educacionais. Para Zabalza (1987, p.294) “[...] consiste em desenvolver a capacidade de autoanálise de autorreflexão, porque na ação profissional coexistem a ação e o discurso sobre a ação. Sabe-se que os professores podem conseguir serem melhores profissionais refletindo sobre o que fazem”. Desde que surgiu o conceito de atitude investigativa se comprometeu com o desenvolvimento profissional dos professores, na medida em que seu foco é formar um professor autoconsciente. A formação do professor é conceptualizada (Cochran-Smith, 2003) como processo contínuo e sistemático de investigação, na qual os docentes questionam suas suposições a de seus pares e constroem conhecimento local e público apropriado para contextos em mudança. Para Cochran-Smith (2003, apud Mizukami, 2005-2006, v1, n1) a atitude investigativa do professor é considerada como ferramenta formativa por excelência, envolvendo suposições e valores, conhecimentos profissionais e práticas, contextos educacionais e de diferentes instituições de ensino. Segundo o autor “a atitude investigativa é uma atividade intelectual, uma forma 36 de questionar, dar sentido e relacionar o trabalho diário ao trabalho de outros e a contextos sociais, históricos, culturais e políticos mais amplos”. Pode-se dizer que os elementos fundamentais para elaborar processos formativos do professor com relação à aprendizagem e desenvolvimento profissional docente em políticas públicas de educação, devem focalizar o desenvolvimento da atitude investigativa como eixo de formação, a construção de uma base de conhecimento tendo como especificidade a aprendizagem na docência, construção de estratégias de desenvolvimento profissional que permitam objetivação de crenças, valores, teorias pessoais, assim como a necessidade de construção de comunidades de aprendizagem. 2.1 OS CICLOS DE VIDA DOCENTE Para complementar a compreensão do processo de aprendizagem e reflexão do professor, não se pode deixar de citar os estudos realizados por Huberman (1986), através de uma ampla pesquisa realizada durante cinco anos, por meio de entrevistas com mais de 160 professores, que estabelece relações entre as idades e ciclos de vida vitais dos professores e as suas características pessoais e profissionais. As investigações realizadas por Huberman sobre o ciclo de vida dos professores defendem que existem diferentes etapas da vida pessoal e profissional que influenciam o professor como pessoa, portanto, o processo de reflexão dos professores é de cunho pessoal, individual que perpassa pelas diferentes fases da vida do docente ao longo de sua trajetória profissional. Existem situações pessoais, profissionais e contextuais que influenciam os docentes na sua profissionalidade. Partindo da afirmação de Jennifer Nias (1991, apud Candau et al., 2007, p.148), “o professor é a pessoa, e uma parte importante da pessoa é o professor”. Do ponto de vista pessoal os fatores que mais influenciam os professores são: as relações familiares, as crises pessoais, etc. E com relação à vida profissional são: a valorização profissional, gestão da instituição no qual o docente trabalha e as expectativas sociais, etc. 37 [...] o desenvolvimento de uma carreira é, pois, um processo, não uma série de acontecimentos. Para alguns, este processo pode parecer linear, mas para outros há oscilações, regressões, becos sem saída, declives, descontinuidades. O fato de se encontrar sequências-tipo não nega que existem pessoas que não deixam nunca de explorar, ou que jamais chegam a estabilizar, ou que se desestabilizam por razões psicológicas (tomada de consciência, mudança de interesses, mudança de valores) ou externas (acidentes, mudanças políticas, crises econômicas. (Huberman, apud Marcelo et al., 1999, p. 63). Em seus estudos, o autor identifica cinco etapas básicas que não são estáticas nem lineares, identificadas como; a entrada na carreira, tempo de sobrevivência e descobertas; a fase de estabilização, etapa de identificação profissional; a fase de diversificação, momento de buscas plurais e experimentações; a etapa de distância afetiva, lugar de serenidade e lamentação; e finalmente, o momento de desinvestimento, próprio do final de carreira profissional. Diante dessas considerações, podemos compreender que o ciclo da vida profissional é complexo, sofrendo de interferências de múltiplas variáveis, portanto o desempenho da profissão muitas vezes, é comprometido pelas mudanças e o pelo aspecto psicossocial do docente. Contribuições como essas são de grande valia para a discussão sobre a aprendizagem do professor, visto que é imprescindível o conhecimento das necessidades dos interesses e das dificuldades enfrentadas pelo docente ao longo de sua trajetória. Essa compreensão nos permite pensar em programas de formação que não padronizem os docentes, considerando a heterogeneidade do processo que permitam aos docentes explorar e trabalhar os diferentes momentos de seu desenvolvimento profissional. Isaía (2008, p.619) cita a investigação de Huberman (1998), ao dar-se voz e vez aos professores, possibilita-se a retomada de suas vidas profissionais, convertendo em objeto de autorreflexão, assim podendo significálas e transformá-las possibilitando a organização dos movimentos construtivos de ser professor e sua aprendizagem docente. 38 Dentro dessa nova busca para compreender como a aprendizagem do docente ocorre e para pensar em uma renovação da formação seja ela inicial ou continuada é preciso considerar algumas questões: a escola como espaço fundamental de formação continuada, valorizar o saber docente e reconhecer o ciclo de vida profissional dos professores. Torna-se urgente “devolver à experiência o lugar que merece na aprendizagem dos conhecimentos necessários à existência (pessoal, social e profissional)”. DOMINICÉ (1990, apud Candau et al., 2007, p.150). 2.2 A CONSTITUIÇÃO DO PROFESSOR E O PROFISSIONALISMO DOCENTE Devido às rápidas transformações que estão ocorrendo na atualidade e que, de certo modo, trazem implicações no modo de ser professor (Mizukami, 1996; Carrolo, 1997; Silva, 1997; Gonçalves, 2000; Marchesi, 2008). Os estudos sobre o processo de constituição e desenvolvimento dos professores enquanto profissionais têm se tornado cada vez mais relevante. Marchesi (2008, p. 26) enfatiza O aumento das exigências que pesam sobre o professor vem acompanhado de uma ruptura do consenso social sobre a educação e do crescimento das contradições no seio da docência, ao mesmo tempo em que permanecem inalteradas a forma como o ensino está organizado e a distribuição do tempo de trabalho dos docentes, como s e não houvesse ocorrido mudança alguma, o que sobrecarrega e causa inquietação nos professores. Considerando que vivemos na sociedade da informação e do conhecimento, torna-se urgente a necessidade de (re) discutimos quem é esse profissional e qual o seu papel nessa sociedade. O profissional de hoje não pode ter mais o mesmo perfil de épocas passadas, em que o domínio de um conjunto de conhecimentos e de determinadas técnicas era o suficiente para exercer o ofício de professor. 39 Carrolo (1997, p.30) salienta que: Ao contrário do que vulgarmente se pensa que ser professor é fácil e qualquer um o pode fazer, nós sustentamos que esta profissão é altamente complexa e especializada, não só quanto ao seu saber profissional específico e à forma como é avaliada a sua legitimação, como quanto ao seu processo de formação/socialização inicial. Para Gonçalves (2000, p. 145) o percurso do professor pode ser discutido a partir de dois eixos de análise com especificidades próprias, mas que de certo modo, encontram-se inter-relacionadas. Sob o ponto de vista do desenvolvimento profissional encontra-se o primeiro eixo, esse focaliza o percurso profissional e o segundo busca analisar o processo de construção da identidade profissional. No percurso profissional do professor, são consideradas as seguintes perspectivas: [...] a do desenvolvimento pessoal, que concebe o desenvolvimento profissional como resultado de um processo de crescimento individual; [...] a da profissionalização, segundo a qual o desenvolvimento profissional é o resultado de um processo de aquisição de competências, tanto de eficácia no ensino como de organização do processo de ensino e aprendizagem; [...] a da socialização, também chamada de socialização ou socialização do professor, que se centra na adaptação do professor ao seu meio profissional, tanto em termos normativos como interativos (GONÇALVES, 2000, p. 145 (grifo do autor)). O desenvolvimento pessoal, com olhar de uma perspectiva integral da pessoa do professor, resgate e rompe, com a dicotomia entre as dimensões pessoal e profissional. Ou seja, os docentes não se constituem apenas com conhecimentos teóricos e metodológicos, mas também nesse processo constitutivo os conteúdos que viabilizam e promovem uma formação pessoal são fundamentais (ISAIA, 2000; NÓVOA, 1999, 2000). 40 Para Cunha (1998, p. 53), “o conjunto de valores e crenças que dão escopo à performance dos docentes são fruto de sua história e suas experiências de vida dão contornos ao seu desempenho”. Reforçando essa questão, Pimenta e Anastasiou (2002, p. 259), referindo-se ao processo de docência do ensino superior, dizem que: O avançar no processo de docência e do desenvolvimento profissional mediante a preparação pedagógica não se dará em separado de processos de desenvolvimento pessoal e Institucional: este é o desafio a ser hoje, considerado na construção da docência no ensino superior. Silva (1997, p. 171) salienta que o professor precisa construir um saber que é específico de sua profissão, ou seja, [...] um saber profissional próprio. Os professores entendem-no como uma necessidade, sobretudo para que o professor seja capaz de ajustar o seu magistério às características, projetos, interesses e necessidade educativas dos alunos. E tem de ter, como já se afirmou um modo particular de ser e de estar ou, dito de outro modo, põe-se em relevo o requisito de que para se exercer a docência se exige daquele que a exerce que possua qualidades pessoais, isto é: não é um qualquer que está em condições de a exercer – tem de se sentir chamado a fazê-lo. Quanto à profissionalização docente, Libâneo (2004, p.75-76) explicita que o professor precisa ter a consciência de ele ter um: [...] desempenho competente compromissado dos deveres e responsabilidades que constituem a especificidade de ser professor e ao comportamento ético e político expresso nas atitudes relacionadas à prática profissional. Na prática, isso significa ter o domínio da matéria e dos métodos de ensino, a dedicação ao trabalho, à participação na construção coletiva do projeto-curricular, o respeito à cultura de origem dos alunos, a assiduidade, o rigor no preparo e na condução das aulas, o compromisso com um projeto político democrático. 41 O docente necessita ter desenvolvido determinadas habilidades e competências, tais como: capacidade de mobilizar recursos cognitivos, atitudes para enfrentar situações problemáticas, imaginar, refletir e articular as condições que possibilitem a aprendizagem dos alunos da melhor forma. Além disso, para oportunizar ao seu aluno diferentes formas de aprendizagem, o docente competente deve utilizar estratégias em suas ações educativas (Libâneo, 2004). Outro componente fundamental para a profissionalização do ofício do professor se constituir num constante inovador e pesquisador do seu fazer pedagógico. Para ser realizável o surgimento de práticas educativas inovadoras, é necessário que o docente possua acesso a novos conhecimentos, a troca de experiência, à reflexão sobre sua prática e a articulação entre os múltiplos saberes e fazeres, pois o cotidiano escolar é permeado por situações diversas. A Instituição de Ensino Superior, enquanto espaço privilegiado de formação de docentes, precisa ser entendida como um espaço renovável com a possibilidade de vivenciar a dinâmica e complexa atividade de elaborações de projetos e de tomada de decisões. A terceira perspectiva, a da socialização, diz respeito às influências que a inserção e atuação do docente no contexto educativo exercem sobre a sua constituição profissional. O professor, fazendo parte de uma coletividade juntamente com seus pares que “[...] são diferentes entre si, e carregam para esse espaço de interação tais diferenças. Para a instituição convergem os diferentes interesses profissionais, as habilidades individuais, os posicionamentos políticos, entre tantas outras diferenças” (Archangelo, 2004, p.12). Portanto, sua socialização pressupõe uma adaptação ao contexto profissional, abrangendo desde as relações com o corpo administrativo, professores, alunos, pais, ambiente educativo; trazendo diversidade na convivência reproduzindo para o campo pessoal e profissional. No eixo dois, o interesse incide sobre o processo de construção da identidade profissional. A construção da identidade do professor é entendida como “[...] relação que o professor estabelece com a sua profissão e o seu 42 grupo de pares e, ao mesmo tempo, da construção simbólica, pessoal e interpessoal, que ela implica”. (Gonçalves, 2000, p. 145). Assim, nesse contexto, o docente tem a oportunidade de refletir sobre as situações que ajudam no seu desenvolvimento profissional e pessoal, utilizando esse espaço de construção da sua identidade com outros professores, pois é desse processo de socialização e reflexão crítica que se forma sua identidade docente. A individualidade e a individualização podem ser positivas, já que o (a) professor (a) precisa de momentos para repensar seu “projeto de vida”. Pode ser bom realizar práticas individuais e isso pode comportar certo isolamento. Toda prática profissional e pessoal necessita, em algum momento, de uma situação de análise e reflexão que deve ou pode se realizar de forma solitária (IMBERNÓN, 2009, p. 58-59), (grifo do autor). Nóvoa (1995, p. 34-35) expõe que no processo identitário do professor é preciso levar em conta o que ele denomina como sendo “os três As” (adesão, ação e autoconsciência): A de Adesão, porque ser professor implica sempre a adesão a princípios e valores, a adoção de projetos, um investimento positivo nas potencialidades das crianças e dos jovens. A de Ação, porque também aqui, na escolha das melhores maneiras de agir, jogam-se decisões do foro profissional e do foro pessoal. Todos sabem que certas técnicas e certos métodos “colam” melhor com a nossa maneira de ser do que outros. Temos conhecimento, também, que o sucesso ou o insucesso de certas experiências “marcam” a nossa postura de trabalhar na sala de aula. A de Autoconsciência, porque em última análise tudo se decide no processo de reflexão que o professor leva a cabo sobre a sua própria ação. É uma dimensão decisiva da profissão docente, sob pena deste “trabalho de pensar o trabalho” ser assumido por outros atores sociais, transformando o ensino numa atividade proletarizada do ponto de vista 43 de suas funções. A mudança e a inovação pedagógica estão intimamente dependentes desse pensamento reflexivo. A identidade não é um ato adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e de conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por isso, é mais adequado falar em processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se diz professor; E vice-versa. (grifo do autor). Para Nóvoa (2000, p. 17), “o processo identitário passa também pela capacidade de exercemos com autonomia a nossa atividade, pelo sentimento de controlamos o nosso trabalho”. O autor continua: A maneira como cada um de nós ensina está diretamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino. [...] E as opções que cada um de nós tem de fazer como professor, as quais cruzam a nossa maneira de ser com a nossa maneira de ensinar e desvendam na nossa maneira de ensinar a nossa maneira de ser. É impossível separar o eu profissional do eu pessoal. (Idem, p. 17). Imbernón (2009, p. 76-77), ao problematizar o conceito de identidade docente, refere que: O atual conceito de identidade docente permite questionar muitas coisas, como por exemplo, que já não existe uma etapa determinada na qual o professorado se forma e outra na qual está na prática educativa, como indica a tradição dos itinerários formativos (embora haja diferenças de identidade, visto que a identidade é mutante, pois é a amálgama de representações, sentimentos, experiências, biografia, influências, valores etc., que vão mudando). A consciência da subjetividade docente que leva em conta a identidade coletiva permitirá detectar as mais significativas necessidades tanto como do contexto, favorecendo que a situação da formação do professorado seja parte intrínseca da profissão ao longo de toda sua carreira docente. É o apoderamento da formação passando a ser parte intrínseca da profissão se o professorado quer ser protagonista de sua formação e desenvolvimento profissional. 44 Mizukami (1996, p. 60) sinaliza para a amplitude do processo constante e permanente para aprender a ser professor. Para autora, várias dessas aprendizagens ocorrem, na maioria das vezes, no fazer pedagógico da sala de aula. Portanto, segundo a autora, é fundamental conhecer o professor e o seu modo de ser professor, pois ele: [...] é o principal mediador entre os conhecimentos socialmente construídos e os alunos. É ele, igualmente, fonte de modelos, crenças, valores, conceitos e pré-conceitos, atitudes que constituem, ao lado do conteúdo específico da disciplina ensinada, outros tipos de conteúdos por ele mediados. Conhecer quem é esse profissional, sua trajetória escolar, sua formação básica, como ele se desenvolve ao longo de sua trajetória profissional é, sob essa perspectiva, de fundamental importância quando se pensa em oferecer um ensino de qualidade [...]. A autora apresenta a ideia de processualidade remetendo ao pensamento de Freire (2005, p. 23), o autor cita que o educador não nasce pronto, pois vai se construindo gradativamente num processo formativo constante. A formação, na sua concepção, deve contemplar a formação de ser humano em sua totalidade. O docente deve ser sentir um sujeito ativo nesse processo, sabendo que: [...] quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É nesse sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos apesar das diferenças quer os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender (grifo do autor). Para finalizar, nessa perspectiva, vale lembrar a posição de Perrenoud (2002, p. 64) quando o autor enfatiza; 45 No ofício de professor, a partir da perspectiva da profissionalização, encontramos uma capacidade de capitalizar a experiência, de refletir sobre a sua prática para reestruturá-la. Esta é a importância da construção deliberada, na fase de formação inicial, de um habitus profissional capaz de suscitar uma autotransformação contínua. A transformação de alguém em profissional reflexivo não pode ser improvisada. Uma cultura teórica não é suficiente, ainda que seja uma condição necessária (grifo do autor). 2.3 DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Paulo Freire (1997) A docência universitária tem provocado discussões, exige se qualidade do ensino, porém não se têm claro a questão do ensinar e a formação didáticopedagógica do docente. Os próprios professores buscam dar continuidade à sua formação, ou cada instituição de ensino organiza essa formação. Para Veiga (2006), as políticas públicas não fixam um plano diretor para a formação didático-pedagógica de magistério superior, pois, para a autora: O governo (MEC/Sesu/Capes/Inep) determina os parâmetros de qualidade institucional de educação superior, e muitas instituições de educação superior organizam e desenvolvem um programa de preparação para seus docentes, orientadas por tais parâmetros. Nesse bojo ainda devemos considerar as transformações institucionais ocasionadas pelas políticas econômicas e sociais e seus contextos históricos (VEIGA, 2006, p. 89) (grifo da autora). Considerando que ao docente não basta dominar os conteúdos específicos para o exercício da docência, a ausência ou a precariedade de uma formação didático-pedagógica pode trazer consequências para o exercício da docência. A Declaração Mundial sobre Educação superior no Século XXI (UNESCO, 1998) trata que: 46 Devem ser tomadas providências adequadas para pesquisar, atualizar e melhorar as habilidades pedagógicas, por meio de programas apropriados de desenvolvimento de pessoal, estimulando a inovação constante dos currículos e dos métodos de ensino e aprendizagem, que assegurem as condições profissionais e financeiras apropriadas ao profissional, garantindo assim a excelência em pesquisa e ensino, de acordo com as provisões da Recomendação referente ao Estado do Pessoal Docente da Educação Superior aprovado pela Conferência Geral da UNESCO em novembro de 1997. Mudanças são fundamentais, bem como novos paradigmas e articulação com encaminhamentos nessa direção para a qualidade do ensino superior, pois as políticas públicas estabelecem parâmetros de qualidade, mas não deixa claro como deve ser a formação pedagógica dos professores. A legislação para a docência no ensino superior se restringe ao que é tratado No Art. 66 da LDB 9394/96: “A preparação para o exercício da docência superior, far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado” (BRASIL, 1996). Portanto, não há a exigência de formação específica para atuar nesse nível de ensino. Apenas a titulação não basta. O título concede ao professor o conhecimento científico dentro de um determinado campo. “[...] o exercício do magistério de educação superior deve ser desempenhado por doutores e mestres, com evidente prioridade para os primeiros” (FORGRAD, 2004, p.242). Nesse aspecto Veiga (2006, p.91) ressalta que a formação requer pósgraduação “stricto sensu”, preferencialmente no nível do doutorado, com permanente atualização, além da titulação da sua área de conhecimento. De acordo com o Censo da Educação Superior, a distribuição da escolaridade e das titulações das funções docentes no Brasil está representada no gráfico abaixo: 47 Gráfico 1 - Distribuição da escolaridade e titulação de funções / 2009 Fonte: MEC. Sinopse Estatística da Educação Superior, 2009. As Instituições de Ensino Superior precisam buscar continuadamente a qualidade do trabalho pedagógico e oferecer à sociedade, seja por sua visão filosófica, pelas práticas de mercado ou por determinação da lei. A qualidade do ensino superior será consolidada a partir de uma política de formação continuada para os docentes universitários. No entanto, é necessário ter presente, conforme Imbernón (2009, p.35), que: Atualmente, programa-se e se oferece muita formação, mas também é evidente que há pouca inovação ou, ao menos, a inovação não é proporcional à formação que existe. Talvez um dos motivos seja que ainda predomina a formação de caráter transmissora, com a supremacia de uma teoria ministrada de forma descontextualizada, distante dos problemas práticos do professorado e de seu contexto, baseada num professorado médio, que tem uma problemática sempre comum, mesmo ciente de que nenhuma dessas coisas existe. Segundo Masetto (2009,) refletir hoje sobre a formação pedagógica do docente do ensino superior nos remete a pensar a formação de professores que atuam em uma Sociedade do Conhecimento. Com a tecnologia da informação e da comunicação, a produção de conhecimentos e a socialização das pesquisas que antes era privilégio apenas das universidades, passaram a 48 serem compartilhadas por espaços como a internet, laboratórios, ONGs, empresas, institutos de pesquisa nem sempre vinculado à universidade. É possível através de uma simples pesquisa no computador obter informações do mundo todo. De acordo com o Censo da Educação superior Brasileira, a evolução do número de funções docentes em exercício, por titulação, segundo Categoria Administrativa, está representada nos gráficos abaixo: Gráfico 2 - Funções docentes em exercício por titulação nas IES públicas Fonte: MEC. Sinopse Estatística da Educação Superior, 2009. Gráfico 3 - Funções docentes em exercício por titulação nas IES privadas Fonte: MEC. Sinopse Estatística da Educação Superior, 2009. 49 Diante desse cenário, é fundamental que as IES sustentem não só os programas de pós-graduação, mas ofereçam a seus professores espaços e tempo para formação a fim de suprir as carências dos docentes, “a fim de garantir a síntese entre a titulação e bom desempenho”. Autores como Morosini (2001; 2006), Zabalza (2004) e Masetto (2000; 2003) ressaltam que as instituições sabem que os professores são os formadores dos futuros profissionais e mesmo assim a maioria das IES e as políticas voltadas para a educação superior não valorizam a formação desses docentes. Para Morosini (2006), o descaso se comprova devido aos critérios adotados para a seleção e progressão funcional, que estão centradas nos títulos e na produção cientificoacadêmica. Isso, não é uma indicação de uma educação de qualidade. A pedagogia universitária no Brasil é exercida por professores que não têm identidade única. A cultura da instituição e a política que ela desenvolve é que exercem influência na atuação do professor universitário (MOROSINI, 2001). Além disso, com exceção daqueles professores das áreas de educação ou Licenciaturas que abordaram questões referentes ao ensino e aprendizagem de crianças e adolescentes, uma grande parte dos docentes que atuam na educação universitária não teve em seu processo formativo conteúdos didático-pedagógicos no âmbito da graduação ou da pós-graduação, geralmente prosseguem seus estudos na área de formação inicial. Podemos afirmar que ainda prevalece o mito de que os profissionais, os técnicos que dominam sua área de conhecimento, são competentes para ensinar; nesse sentido é oportuno mencionar o que aponta Isaía (2006, p. 65): Chama atenção a ausência de compreensão de professores e de instituição sobre a necessidade de preparação específica para exercer a docência. Assim, os docentes, mesmo estando cientes de sua função formativa, não consideram a necessidade de uma preparação específica para exercê-la. Como se o conhecimento específico desenvolvido nos anos de formação inicial e/ou ao longo da carreira e também o exercício profissional bastassem para assegurar um bom desempenho docente. Essa constatação vai ao encontro de outras pesquisas como as de Zabalza (2004); Marcelo Garcia (1999); Mizukami et al.(2002); Behrens (1996). 50 Ter o domínio dos conteúdos é importante para o docente, porém não garante que o professor seja eficiente em seu trabalho. A educação formal tende a valorizar o conteúdo, tanto qualitativo como quantitativo. Geralmente no ensino superior, o conhecimento chega ao aluno por meio de aulas expositivas. Dessa maneira, o aluno não tem a possibilidade de pensar, questionar, de estabelecer uma relação com o real, pois o conhecimento é apenas transmitido. Anastasiou (2006) explica esse modelo, com aulas expositivas, com o conhecimento formatado para o aluno, como jesuítico, uma vez que o conteúdo chega pronto e acabado. Essa transmissão passiva, descontextualizada, não garante uma aprendizagem significativa. Em suas pesquisas, a autora fala em “insuficiência pedagógica acerca dos saberes docentes” (p. 147). Completa que o ensino torna-se repetitivo, assim, os professores acabam repetindo o que vivenciaram como alunos. A literatura sobre o ensino superior nos revela que desde a expansão quantitativa das IES no final da década de 1960, a questão da formação do professor acompanhou as discussões sobre a qualidade do ensino. As IES “se multiplicaram”, mas os professores ingressaram no magistério superior despreparados e sem políticas públicas direcionadas para essa formação. Segundo Vasconcelos, (1996, p. 3), a subestimação do trabalho pedagógico “emana tanto das instituições como do próprio professor”. Os docentes contratados no final da década de 1960 não possuíam experiência e não eram preparados para trabalhar no ensino superior. Quando o professor inicia no ensino superior, sem estar preparado ou em formação para atuar. Acreditamos que os professores comprometidos com a educação desejam sanar as deficiências e lacunas, uma vez conscientes dos seus déficits, se organizam no sentido da mudança. É o que defende Vasconcellos (2005) quando expõe que os próprios professores devem colaborar nas propostas de formação. “Sem olhar para si mesmo e para sua própria prática não é possível receber um treinamento, como supõem muitos docentes” (VASCONCELLOS, 2005, p. 230) (grifo da autora). 51 Em pesquisas realizadas por Vasconcellos (2005), vários docentes pesquisados compartilham a ideia de que o docente do ensino superior competente ensina o aluno a pensar, a indagar, a buscar soluções para solucionar um problema. O aluno se torna ativo no processo ensinoaprendizagem. Para a autora, o professor competente deve obter algumas características técnicas como ter o domínio escolar e administrar este saber de forma de que o aluno aprenda. Contudo, para se tratar em competência é importante considerar as dimensões: técnica, estética, política e em especial a ética, uma vez que outras competências são guiadas pelos princípios éticos. Constata-se dentro desse panorama a necessidade de mudanças para o ensino superior. Masetto (2003, p. 19) destaca quatro pontos de mudança no ensino superior; “[...] no processo de ensino, no incentivo à pesquisa, na parceria e coparticipação entre professor e aluno no processo de aprendizagem e no perfil docente”. No que se refere ao processo de aprendizagem, não é mais possível conceber o professor como mero transmissor de conhecimentos. Não cabe mais a seguinte expressão “quem sabe, sabe ensinar” (Masetto 2003, p.11). Desse modo, a abordagem metodológica adotada no ensino superior precisa ter como eixo condutor a problematização, a reflexão, a criticidade, a investigação dentre outros. A sociedade atual cuja característica principal é a constante transformação, essa requer um perfil de egresso da Educação Superior com competências e habilidades para agir e tomar decisões. Para tanto, a pesquisa é imprescindível para os processos de produção, divulgação e socialização de conhecimento. Masetto (2003, p. 22) questiona: [...] será que este incentivo à pesquisa faz sentir seus efeitos nos cursos de graduação? Não de forma tão extensa, nem há tanto tempo como na pós-graduação, mas mais recentemente, os cursos de graduação vêm-se dedicando a valorizar a pesquisa mediante, principalmente, três caminhos: o desenvolvimento do ensino por projetos e da introdução das tecnologias de informação e comunicação (informática e telemática) como formas de estudo e aprendizagem e não apenas como meio de se modernizar a transmissão de informações. 52 Outro fator a ser discutido é a corresponsabilidade nos processos de ensino-aprendizagem. Um objetivo a ser trilhado na educação superior é a autonomia cognitiva do discente, com base na ideia que o aluno é construtor e protagonista de sua formação. Assim, no entender de Masetto (2003, p. 23): [...] se entendemos que, no ensino superior, a ênfase deva ser dada ás ações do aluno para que ele possa aprender o que se propõe; que aprendizagem desejada engloba, além dos conhecimentos necessários, habilidades, competências e análise e desenvolvimento de valores, não há como se promover essa aprendizagem sem a participação e a parceria dos próprios aprendizes. Aliás, só eles poderão “aprender” (grifo do autor). O exercício da profissão docente exige uma sólida formação e contínua, não apenas nos conteúdos específicos, como também nos aspectos correspondentes a sua didática e ao encaminhamento das diversas variáveis que caracterizam a carreira do professor, esses elementos trazem implicações no perfil do professor que exerce à docência no Ensino Superior, ou seja, incidem sobre “[...] as competências básicas e necessárias para se realizar a docência” (MASETTO, 2003, p. 25). Em termos gerais, o autor refere às seguintes competências básicas para a docência: conhecimentos e práticas profissionais atualizadas; produção científica decorrente de estudos e reflexões críticas sobre temas teóricos ou experiências pessoais; domínio na área pedagógica, contemplando saberes pertencentes ao processo de ensinoaprendizagem, à gestão do currículo, à compreensão sobre a relação professor-aluno e teoria prática da tecnologia educacional e ao exercício da dimensão política. A docência no Ensino Superior inevitavelmente nos traz a importância da reflexão e a discussão acerca da formação do professor e as condições pelas quais esses profissionais atuam no contexto acadêmico. Assim, a formação: [...] deveria apoiar-se, criar, cenários e potencializar uma reflexão real examinar suas teorias implícitas, seus esquemas de funcionamento, suas atitudes etc., potencializando um processo constante de auto 53 avaliação do que se faz e analisando o porquê se faz (IMBERNÓN, 2009, p.47). É reconhecido que os professores do ensino superior precisam deter diferentes conhecimentos (do sistema, conteúdo, desenvolvimento de currículo, estratégias de ensino, pedagógica, avaliação da aprendizagem, etc.). Ou seja, a docência universitária é uma atividade complexa que requer uma multiplicidade de saberes, por isso é importante promover uma formação para o exercício da docência e realizar investigações sobre sua natureza e o seu caráter. Para Perrenoud (2002a, p.75): Na formação profissional, deparamo-nos com um problema muito mais difícil. Com certeza, existem saberes em questão – acadêmicos científicos e técnicos-, mas também há saberes próprios de cada profissão, os quais não derivam da ciência nem da técnica, mas que não deixam de ser indispensáveis. Uma formação universitária apurada não impede que um profissional também tenha de mobilizar saberes profissionais constituídos, os quais não são acadêmicos no sentido clássico do termo, ainda que tenham sido codificados. Ele também tem de recorrer a saberes provenientes de sua experiência pessoal os quais são ainda menos organizados, formalizados e verbalizados que os saberes profissionais. Os “saberes pedagógico-didáticos” muitas vezes são provenientes da experiência, da memória como aluno ou do exercício da profissão não apoiado nos conhecimentos da educação (teorias, concepções), e sim, a saberes práticos sem a reflexão sobre o que fazem. Os professores, quando chegam à docência universitária, trazem consigo inúmeras e variadas experiências do que é ser professor. Experiências que adquiriram como alunos de diferentes professores ao longo de sua vida escolar. [...] O desafio, então, que se impõe é o de colaborar no processo de passagem de professores que se percebem como ex-alunos da universidade para ver-se como professores nessa instituição. Isto é, o desafio de construir a sua identidade de professor universitário, para o que os saberes da experiência não bastam. (Pimenta e Anastasiou 2002, p.79). 54 Por isso, para ensinar o professor do ensino superior necessita de conhecimentos e práticas que ultrapassem sua especialidade, além disso, precisa construir sua identidade. Sua prática não deve ser baseada na racionalidade técnica, mas sim na sua consciência de ampliar seus conhecimentos em especial os pedagógicos, que facilitam o confronto de suas práticas cotidianas com as produções teóricas, contextualizando-as com um saber significativo. Nossa identidade profissional ou nosso saber não se constrói em torno do grupo que atendemos ou da disciplina que lecionamos, mas em torno do projeto formativo de que fazemos parte (Zabalza, 2004, p. 126). É desejado, nessa perspectiva, que através da formação os professores adquirissem a consciência que é preciso uma nova atitude como grupo de profissionais da educação, discutam e planejam juntamente, dialoguem, troquem ideias, apoiando uns aos outros, que os encaminhamentos de sua ação sejam avaliados e juntos buscam novas saídas. [...] formar professores universitários implica compreender a importância do papel da docência, propiciando uma profundidade científico-pedagógica que os capacite a enfrentar questões fundamentais da universidade como instituição social, uma prática social que reflete as ideias de formação, reflexão, crítica (VEIGA, 2006, p.88). O docente do Ensino Superior, enquanto profissional da educação, precisa instrumentalizar-se revendo, redimensionando e agregando elementos significativos na constituição da sua profissionalidade, pois somente com a intersecção dos conhecimentos específicos da área, com os conhecimentos pedagógicos e com o amadurecimento das relações humanas, é que se constrói uma prática eficiente, capaz de formar profissionais e cidadãos, críticos e conscientes, exigência hoje da sociedade contemporânea. 55 CAPÍTULO 3 A DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR SOB A ÓTICA DOS ALUNOS EGRESSOS DO PPG- AEHC A análise dos dados das entrevistas foi sistematizada nos seguintes eixos. São eles: 3.1. Formação docente e contextos da atuação; 3.2. Primeiras experiências como professor do ensino superior; 3.3. Especificidades da Instituição do Ensino Superior e as dificuldades encontradas na ação docente; 3.4. As inconsistências das falas, os anseios... 3.1 FORMAÇÃO DOCENTE E CONTEXTO DA ATUAÇÃO Conforme (NÓVOA, 1999, p. 26), “a formação de professores é, provavelmente, a área mais sensível das mudanças em curso no sector educativo: aqui não se formam apenas profissionais; aqui se produz uma profissão”. Os doze professores participantes da pesquisa já lecionavam antes de ingressar no programa. Oito dos doze docentes lecionavam no ensino superior. Portanto a inserção dos professores na docência no ensino superior iniciou antes do curso de Pós-Graduação Stricto Sensu. No que se refere à formação e ao preparo para o exercício da docência, foi perguntado a professores como aprenderam/estavam aprendendo a ensinar. Obtiveram-se as respostas que podem ser visualizados no Gráfico 4. 56 8 7 6 5 reflexão sobre a prática 4 estudos / pesquisas 3 outros colegas no exercício da profissão 2 1 0 reflexão sobre a prática estudos / pesquisas outros colegas no exercício da profissão Gráfico 4: Formação e preparo para o exercício da docência P4 – Eu entrei no magistério por acaso, trabalhava em teatro, iniciando a dar aulas artes cênicas, fazia faculdades de letras e fui chamado para o magistério. A experiência do teatro me ajudou na sala de aula como presença de palco, diálogo com o aluno a partir do que o aluno sabe fazer. P5 – Percebo que tenho aprendido por teoria e reflexão sobre a prática, observando colegas e professores atuais e os que já tive. P9 – Experiência diária, estudos e pesquisas. P6 – Aprendo estudando, com colegas trabalho, com os professores do doutorado, na sala de aula como aluna e na sala de aula com os alunos. P10 – Sempre trabalhei na Universidade exercendo função técnica, como acompanhava as aulas dos professores no estúdio de fotografia, observava as aulas dos professores, foi assim que aprendi. Quando eles faltavam, nós técnicos que ensinávamos os alunos. 57 Percebe-se nos relatos dos professores entrevistados que o desenvolvimento profissional do professor é um processo de aprendizagem que se realiza antes da formação formal com antigos professores, com docentes na família, durante a formação acadêmica, na troca com outros professores e ao longo de sua trajetória profissional. Os dados apresentados antes remetem à posição de Cunha (1998, p. 35), quando a autora menciona: [...] o valor que os professores dão à prática docente enquanto a sua grande inspiração para a mudança e ao saber que constroem a partir daí. Nela localizam a possibilidade de aprenderem com colegas de trabalho, com alunos e de, refletindo sobre sua própria docência, reformularem sua forma de pensar e de agir. Há confirmação de que a prática é um elemento importante na aprendizagem e que a experiência que o indivíduo vive é insubstituível no seu significado educativo. O fazer e o refletir sobre este fazer têm sido no dizer dos bons professores, um mecanismo fundamental para delinearem seu desempenho docente. Alguns docentes sinalizam para a fragilidade de sua formação para o exercício da docência, seja em nível de graduação e/ou pós-graduação. Fica evidente na fala dos docentes: P3 - Apesar de ter feito curso de licenciatura, eu acredito que só aprendemos ensinando, mesmo a faculdade dando o suporte, você precisa saber conduzir as aulas. Hoje o aluno vem para sala de aula mais crítico e com influência da mídia, a internet ajuda muito, mas uma minoria. A maioria vem te desafiar sem conhecimento, mas esse jogo de cintura é somente por experiência na sala de aula. P7 - esta pergunta é sempre muito difícil de responder, devido ter apenas o bacharelado. Eu não fiz nenhuma matéria que me colocasse em contato com a educação, acredito que fui aprendendo a ter contato com a sala de aula e com os professores com mais experiência, 58 pegando algumas dicas e toques, mas você só aprende mesmo no dia a dia, na sala de aula. No entender dos professores P8 e P11 os cursos de graduação, principalmente de bacharelado, não preparam o professor para a prática da sala de aula “[...] no início considerava muito que aprendi no cotidiano da prática clínica, o curso em si não me ajudou nas dificuldades no exercício da medicina para a sala de aula (P 11)”, “[...] meu aprendizado se deu no primeiro dia de aula (P 8)”. Tais discursos remetem ao que defende Enricone (2009, p. 123-124), quando enfatiza que “o professor precisa aprender para ensinar, caminho sem fim a percorrer, indispensável, que demanda esforço e atitude de busca, de criatividade, de reflexão, de articulação entre teoria e prática e de transformação de pensamentos em ação”. Quando questionados sobre o que um professor precisa saber para ensinar os participantes ofereceram várias respostas e o gráfico foi construído a partir do total de respostas e não sobre o total de participantes como pode ser visualizado pelo Gráfico 5. 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 domínio do conteúdo refletir sobre a prática conhecimento da área em que atuam técnica para saber transmitir conhecimentos estudar, pesquisar e atualizar ouvir os alunos Gráfico 5: O que um professor precisa saber para ensinar 59 Estudar muito, pesquisar, refletir sobre suas práticas, ouvir seus alunos e colegas (P 1). Precisa ter conhecimento do conteúdo, técnica, conhecimento do saber fazer na prática (P 5). Temos que saber o que ensinar, temos que saber o conteúdo, mas também é preciso saber como transmiti-lo, isso foi o programa quem me ensinou (P7). Acredito que o professor deve ter uma base sólida na área do conhecimento em que pretende ministrar aulas, sem essa base acho difícil organizar as ideias e transmitir o conhecimento sem distorções (P 10). Atualização em tecnologia, conhecer a realidade da sua profissão incluindo as exigências do mercado, e saber que todo conhecimento é mutável (P11). O professor P3, que revelou “ter domínio do conteúdo, caso contrário você fica muito limitado”. A preocupação do professor citado é conhecer profundamente a matéria que ministra, porém isso não é garantia de uma boa aula. Nesse sentido Mizukami (2000) adverte: Aprender a ensinar pode ser considerado um processo complexo – pautado em divergências, experiências e modos de conhecimentos – que se prolonga por toda a vida profissional do professor, envolvendo entre outros, fatores afetivos, cognitivos, éticos e de desempenho (MIZUKAMI, 2000, p. 140). Através das experiências relatadas pelos professores pode-se verificar a importância dos saberes pedagógicos para a docência e a necessidade de uma formação ao longo da trajetória profissional. 60 Tardif (2009 p. 51) refere que: Em educação, quando se fala de um professor experiente, é, normalmente, dessa concepção que se trata: ele conhece as manhas da profissão, ele sabe controlar os alunos, porque desenvolveu com o tempo e o costume, certas estratégias e rotinas que ajudam a resolver os problemas típicos. Resumindo, um pouco como um artesão, diante dos diversos problemas concretos, ele possui um repertório eficaz de soluções adquiridas durante uma longa prática do ofício. A partir das respostas apresentadas pelos professores, é possível concluir que a constituição docente, assim como o aprimoramento da docência, ocorre também no exercício da profissão, através do aprendizado contínuo da reflexão da teoria sobre a prática e da prática com a teoria reformulando seus conhecimentos e contribui para um delineamento das suas competências profissionais. Quando se fala em competência, pode-se citar a definição apresentada por Perrenoud (1997). O autor considera que os dois aspectos da competência são: o conhecimento e a capacidade de mobilização do conhecimento. Competência significa ter um saber aprofundado de um determinado conhecimento e a capacidade de mobilização do conhecimento frente uma situação problema, pois: [...] um especialista é competente porque simultaneamente: (a) domina, com muita rapidez e segurança, as situações mais comuns, por ter à sua disposição esquemas complexos que podem entrar imediatamente e automaticamente em ação, sem vacilação ou reflexão real; (b) é capaz de, com um esforço razoável de reflexão, coordenar e diferenciar rapidamente seus esquemas de ação e seus conhecimentos para enfrentar situações inéditas (p. 27). O domínio do conhecimento agregado ao saber fazer é, portanto, aspecto fundamental para o projeto de formação continuada dos docentes e deve ser compreendido como um objeto essencial para seu crescimento pessoal e profissional. 61 Na questão oito foi perguntado aos professores em que materiais e fontes eles se apoiam para ensinar. As respostas obtidas estão no Gráfico 6. 12 10 8 6 utilizam materiais teóricos (livros, apostilas) 4 utilizam vídeos / internet 2 utilizam jornais e revistas 0 utilizam pesquisas acadêmicas troca de experiências com colegas de trabalho Gráfico 6: Qual material e fonte os professores se apoiam para ensinar Do universo dos 12 participantes, 11 docentes utilizam materiais teóricos (livros, apostilas), 7 docentes utilizam vídeos/ internet, 4 docentes utilizam pesquisas acadêmicas, 2 docentes troca de experiências com colegas de trabalho, 03 docentes jornais e revistas. Eu me apoio em materiais teóricos, livros, internet e também nas experiências que eu vejo e discuto com outros colegas (P1). Nos teóricos, nos livros (P2). Cada vez mais o mundo educativo parece chamar por materiais eletrônicos, eu particularmente não gosto, acho necessário, mas não me identifico, uso filmes, internet, mas a melhor fonte e o livro físico mesmo (P7). 62 É possível perceber no gráfico 6 a ênfase dada pelos professores ao organizar seus estudos para os materiais de referência teórica como autores, livros, apostilas. É importante aqui salientar a integração dos saberes para que o docente possa agregar qualidade metodológica na sua tarefa de ensinar, passando pelo desenvolvimento de valores, saber técnico e habilidades e competências, como elementos constitutivos de uma prática educativa de excelência. Pimenta e Anastasiou (2002) salientam a importância de considerarmos os saberes pedagógicos, os didáticos e os da experiência. Segundo as autoras: [...] é preciso considerar a importância dos saberes das áreas de conhecimentos (ninguém ensina o que não sabe), dos saberes pedagógicos (pois o ensinar é uma prática educativa que tem diferentes e diversas direções de sentido na formação do humano), dos saberes didáticos (que tratam da articulação da teoria da educação e da teoria de ensino para ensinar nas situações contextualizadas), dos saberes da experiência do sujeito professor (que dizem respeito ao modo como nos apropriamos do ser professor na nossa vida), Esses saberes dirigem-se às situações de ensinar e com elas dialogam, revendo-se, redirecionando-se, ampliando-se, e criando [...] são as demandas da prática que vão dar a configuração desses saberes (PIMENTA E ANASTASIOU, 2002, o. 71 (grifo das autoras)). Em entrevista foi perguntado de que forma o programa EAHC-UPM contribuiu para sua aprendizagem como responderam como visualizado pelo Gráfico 7. professor. Os participantes 63 7 6 5 4 3 2 1 0 6 3 1 1 1 novos ferramenta para conhecimento conhecimentos sala de aula teórico, de outras areas academico e de formação pedagógico não contribuiu momento para estudo novos conhecimentos de outras areas de formação ferramenta para sala de aula conhecimento teórico, academico e pedagógico não contribuiu momento para estudo Gráfico 7: Como o programa EAHC-UPM contribuiu para sua aprendizagem como professor Conforme relatos de sete professores pode-se perceber o quanto o programa contribuiu de forma significativa para sua atuação profissional. Como professor contribuiu em ferramentas que uso em sala de aula, com recursos de outras áreas, contribuiu para refletir sobre a forma de agir e pensar (P 2). Contribuiu muito, porque é um programa interdisciplinar, onde a discussão em sala de aula é rica, e aborda olhares sobre os demais assuntos tão diferentes (P 4). Contribuiu bastante, tanto para os conhecimentos técnicos como teóricos, acadêmicos e pedagógicos (P 5). A contribuição foi por dois motivos, pelo conteúdo do curso e também pela possibilidade de refletir sobre a educação (P 7). Apresentando e instigando a busca de novos conhecimentos em uma área desconhecida para mim (educação) (P 9). 64 Verificando por intermédio dos textos discutidos nas disciplinas, as questões dos problemas e das práticas docentes (P 10). Está sendo bom, trouxe-me o conhecimento pedagógico que às vezes falta quando não se tem na formação inicial (P 11). As narrativas acima evidenciam o significado da Pós-Graduação stricto sensu na construção da carreira docente, demonstrando a grande contribuição no preparo na Educação Superior, seja através das aulas, da pesquisa ou da produção acadêmica exigida no curso. Dessa maneira, para Ribeiro Gonçalves (2000, p. 27-28), a formação dos professores apresenta-se como: [...] um novo desafio que é o de estarmos conscientes de que o papel das instituições de ensino superior na formação dos seus docentes não pode (nem deve) parar na sua formação inicial, mas encarar a nova sociedade emergente e que nos obriga a admitir que aqueles (em nome do seu desenvolvimento pessoal e profissional) devem assumir a sua carreira como algo cuja qualidade depende de sistemas de formação permanente (ou, mais especificamente, formação ao longo da vida). Na opinião da professora 12: “No Mackenzie fiz um curso de metodologia do ensino superior que não ajudou muito, aprendi dando aula”, podemos afirmar que o distanciamento entre a formação acadêmica e os processos formativos no Ensino Superior, é ressaltado nessa fala. Com relação à questão: como você aprimora seus conhecimentos sobre o ato de ensinar, escola, sua matéria etc., não teve resposta unânime, cada professor aprimora seus conhecimentos de um jeito bem particular. A fala do professor 3 remete à importância de um processo contínuo de aprendizagem: “[...] apesar de ter feito o curso de licenciatura, eu acredito que só aprendemos ensinando, mesmo com o suporte da faculdade é preciso saber conduzir as aulas, ter jogo de cintura e, além disso, continuar fazendo alguns cursos de formação para atualização”; “Com formação constante, estudando as teorias, fazendo cursos, refletindo como posso melhorar minha prática em sala 65 de aula” (P 4); “Não tive preparação para ser professor no curso de teatro, fui aprendendo aos poucos no exercício da docência, por isso sinto falta de me especializar na profissão de docente” (P8). O relato dos docentes revela, ao mesmo tempo, uma preocupação e uma mudança de postura para exercer a docência. Quando o docente declara que deseja melhorar sua prática educativa percebemos a preocupação com os alunos. Pimenta e Anastasiou (2002, p. 196) “enfatizam o fato de o professor pesquisar a própria prática porque está realizando uma ação intencional, o que revela a profissionalidade do docente: rever a própria prática, debruçar-se e refletir sobre ela é necessário a toda profissão”. No relato do professor 1 fica evidente sua preocupação com a aprendizagem aos seus alunos: “Tenho a preocupação de saber se o que estou fazendo está certo, se ele está aprendendo? O que tenho que fazer para o aluno aprender? ”. Na entrevista essa professora verbalizou que ao término de suas orientações sempre pergunta a seus alunos se conseguiram entender sua proposta, pois seu objetivo é se certificar de que o aluno aprendeu o que ela se propôs a ensinar “Eu sempre pergunto no final da orientação: - Você entendeu? ”. Corroborando, neste aspecto, Freire (2007) afirma que: [...] quanto mais me assumo como estou e percebo a ou as razões de ser de porque eu estou sendo assim, mais me torno capaz de mudar, de promover-me [...]. Para mudar e de cujo processo de faz necessariamente sujeito também (p. 39). Quando questionados sobre as especificidades da docência do Ensino Superior os participantes manifestaram-se como pode ser visualizado pelo Gráfico 8. 66 9 8 8 7 6 5 4 3 2 2 1 1 1 0 complexidade/ construção crítica conhecimento objetivo da específico (área instituição complexidade/ construção crítica profissional) não respondeu a questão conhecimento específico (área profissional) objetivo da instituição não respondeu a questão Gráfico 8: Quais as especificidades da docência do Ensino Superior Alguns relatos apresentados: Ela é complexa, onde tem muitas fraquezas, porque dependendo do que você está ensinando para quem está ensinando (P1). Tem uma grande diferença, você aprenda ter uma percepção diferente, o aluno do ensino médio está ali para decorar a matéria para passar de ano, no ensino superior o aluno tem outro olhar, para a formação profissional. Tenho outra postura na sala de aula com o ensino superior. Caso o professor cometa um erro os alunos percebem principalmente se ele não domina o conteúdo. O aluno é mais responsável que no ensino médio, te respeita mais, mas a qualquer momento ele pode “te passar para trás", você tem que ter moral sobre os alunos (P2). 67 Existe uma complexidade que não tem em outros níveis de ensino. No ensino médio o aluno quer passar de ano. Na faculdade principalmente quando você trabalha com alunos mais velhos, o desejo é se formar em uma profissão para trabalhar depois (P6). Hoje no ensino superior o professor não necessariamente precisa ter o domínio na forma de lecionar e sim no conteúdo, por esse motivo, acredito que deveria ter avaliações, um professor do ensino superior não saberia trabalhar “flex”, quero dizer com alunos com dificuldades. No ensino superior o aluno tem que correr atrás, caso um aluno tenha dislexia esse aluno vai ter dificuldade do conteúdo que é passado para ele, acho que todos os professores do ensino superior deveriam ter uma formação pedagógica, orientado com carinho e atenção, entender as particularidades do aluno, e tornar o ensino acessível para todas as pessoas, sem ser um professor preocupado apenas com o conteúdo, até mesmo para acabar com a insegurança que nós professores carregamos (P7). O conteúdo a forma de lidar com os alunos, o clima da universidade. O próprio objetivo do ensino superior faz que todos tenham uma postura diferente (P11). A questão abordada perpassa pela questão da profissionalidade docente, o saber ensinar. Ao observar as falas dos professores percebe-se que novamente a grande preocupação é “dominar, conhecer profundamente o conteúdo”. Estamos diante de um tema atual e com o qual nos defrontaremos por diversas vezes. Roldão (2005) discute que, para saber ensinar, não basta ter o domínio de um conhecimento científico e de procedimentos didático-pedagógicos. É preciso ter competência para transformar esse conhecimento em material e processos de aprendizagem. É esse saber científico que distingue a atuação do professor e ao qual hoje atribuímos o conceito de profissionalidade docente. 68 Para Masetto (2013, p. 106) a especificidade de ser professor no ensino superior, vai além de ministrar aulas para que os alunos aprendam, também inclui: a. a gestão das atividades educacionais que pratica na interface com a legislação e a organização do sistema educativo em que está inserido (diretrizes curriculares, projeto pedagógico, autonomia do professor, etc.); b. a adaptação às condições de trabalho que lhe são oferecidas (características educativas da instituição, nível intelectual dos alunos, instalações físicas, material didático, etc.); c. a interação com a comunidade educacional (em seu papel de professor) e com o mercado profissional de sua área de atuação (como especialista em determinado assunto). Supõe-se, portanto, que o perfil do docente do ensino superior deva ser um profissional com capacidade de docência, investigação e gestão, que analise, compreenda e interprete o contexto no qual está inserido, de modo a poder partilhar com os discentes a possibilidade de intervenção nessa realidade. Segundo Perrenoud (2002 p. 106), a profissionalização é uma “transformação estrutural, por isso não se decreta [...] é uma aventura coletiva, mas que se desenrola também por meio de opções pessoais dos professores, de seus projetos, de suas estratégias de formação”. A questão que abordou a formação em serviço. Quando questionados sobre os momentos de formação para os professores possibilitados pela instituição os participantes manifestaram-se da seguinte forma. Dos 12 docentes entrevistados 11 disseram que sim: 7 docentes disseram que a instituição possibilita bolsas de estudo, 4 disseram participação em congressos, seminários e cursos 2 docentes reuniões formativo/pedagógicas, apenas 1 docente afirmou que a instituição onde trabalha não possibilita momentos de formação e isso ocorreu nas quatro instituições por qual passou. 69 Sim, em cursos para eu abater nas aulas na minha carga horária, e bolsas de estudo para cursos que a própria universidade oferece (P3). Sim, cursos oferecidos pela instituição como especialização, reuniões formativas e pedagógicas (P6). Treinamentos, apoio à pesquisa, apoio financeiro para participação de eventos, seminários. Estímulo à formação de grupo de estudo (P9). Na minha carreira acadêmica estive em quatro instituições como docente, em nenhuma delas foi oferecido tal complemento (P12). Quanto à formação docente, a condição da sociedade atual cada vez mais exige um novo perfil do professor universitário, o remete à necessidade de formação permanente para enfrentar novos desafios. O êxito da formação docente depende do envolvimento da instituição para a efetiva produção do conhecimento, as iniciativas isoladas correm o risco de não terem sucesso. Segundo Nóvoa (1997, p. 26), “A troca de experiências e a partilha de saberes consolidam espaços de formação mútua, nos quais cada professor é chamado a desempenhar, simultaneamente, o papel de formador e formando”. O autor explica: A formação de professores deve ser concebida como um dos componentes de mudança, em conexão estreita com outros setores e áreas de intervenção, e não como uma espécie de condição prévia de mudança. A formação não se faz antes da mudança, faz-se durante, produz-se nesse esforço de inovação e de procura dos melhores percursos para a transformação da escola (NÓVOA, 1997, p. 28) (grifos do autor). 70 Para a qualidade do exercício docente ações como compartilhar experiências, refletir sobre a própria prática, entre outras, contribuem para o aprendizado e desenvolvimento da docência. Cada situação é singular, não existem receitas ou modelos para o trabalho cotidiano docente, mas o professor pode se fortalecer para o seu desenvolvimento profissional. Nóvoa (1997, p. 27) explica que “As situações que os professores são obrigados a enfrentar (e a resolver) apresentam características únicas, exigindo, portanto, respostas únicas [...]”. Como aponta Freire (2007, p. 136), “O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história”. Ao refletir sobre o significado da fala de Freire (2007), verifica-se que quando o autor fala em “inconclusão permanente”, remetendo-se ao sentido do inacabado, no sentido da formação permanente. A educação é assim, exigente com aqueles que lidam com ela. Foi perguntado aos professores se além da docência, realizam outro trabalho educativo em escolas regulares ou outras instituições1. Dos doze docentes entrevistados oito realizam outro trabalho educativo, porém desses oito, três trabalham como educadora na igreja que frequentam, cinco trabalham dentro da área da educação como, educador em recursos humanos, elaborador de questões do ENEM para Editora Abril, orientador no curso de especialização na ECA, docentes ministrando cursos da sua área de atuação (dois), quatro docentes não realizam nenhum tipo de trabalho educativo em outras instituições. Através desses dados percebe-se que a maioria dos docentes realiza outro trabalho educativo, seja dentro de uma instituição religiosa ou dentro de uma instituição com foco educacional. Isso corrobora a visão de autores, como Nóvoa (2000) e Gonçalves (2000) que salientam as inter-relações entre as dimensões pessoal no caso de docentes que trabalham de forma voluntária e a 1 Literatura predominantemente da educação básica foi utilizada no estudo 71 dimensão profissional na trajetória de vida do educador exercendo atividades educacionais fora da instituição educativa trajetória de vida do educador. A reflexão de Nóvoa (2000, p. 65) quando se refere que “grande parte das nossas vidas transcorre em locais de trabalho, gastamos horas desenvolvendo tarefas que, aparentemente, não possuem um relacionamento estreito com a nossa própria pessoa”. Quando refletimos para o aspecto do ambiente de trabalho, considerando que a maioria dos docentes permanece mais tempo em seu local de trabalho do que em sua casa, esse espaço, de certa forma, influencia na constituição desse profissional/ pessoa. Pode-se afirmar que a interação do desenvolvimento profissional e ao crescimento pessoal, pois se pode compreender a dinâmica de caráter interior: a motivação para o seu fazer. 3.2 PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS COMO PROFESSOR NO ENSINO SUPERIOR O início de carreira docente, segundo a literatura, é caracterizado por algumas particularidades, a saber: muitos professores ingressam na docência do ensino superior sem ter claro o que é esperado deles e do seu ensino. Com relação ao professor iniciante a pesquisa bibliográfica revelou algumas teorias interessantes. Para Marcelo Garcia (1999), o início de carreira docente possui características próprias. Vários autores concordam que os primeiros anos são determinantes no processo de desenvolvimento docente, apenas divergem quanto ao tempo de duração. Tardif (2000), o período em que o docente é considerado iniciante se estende até os sete anos. Huberman (1992) reduz esse período para apenas três anos. O início de carreira docente, segundo os autores Tardif (2000) e Marcelo Garcia (1999), provoca nos docentes a sensação de insegurança, ocasionando uma falta de confiança em si mesmos. 72 É comum o professor iniciante, enfrentar problemas e desafios na maioria das vezes por conta da não formação pedagógica ou de outras deficiências. Para análise do início da carreira docente, foi questionado aos docentes como foram seus primeiros dias no ensino superior. Como pode ser visualizado pelo Gráfico 9 os professores se manifestaram da seguinte maneira: 8 7 7 6 5 5 4 3 2 1 0 positivo/ sem dificuldade ansiedade, insegurança, medo e tensão positivo/ sem dificuldade ansiedade, insegurança, medo e tensão Gráfico 9- Os primeiros dias no ensino superior Para 5 docentes foi uma experiência tranquila, para 7 docentes foi um tempo de dúvidas, insegurança, angústia e medo; dos 5 docentes que tiveram uma experiência tranquila nas primeiras experiências como professor de ensino superior, 4 docentes fizeram licenciatura. Dos 7 docentes que tiveram suas experiências carregadas de sentimento de insegurança, 5 cursaram bacharelado. Citação da fala dos professores 3, 6, 7 e 8: Dei aula para uns 60 alunos e para o coordenador do curso sem saber que ele era o coordenador (P3 – licenciatura). Nossa que medo! Insegurança de não saber ensinar e também achava que o eu sabia era pouco (P6 – licenciatura). 73 Foi difícil pela minha insegurança, não de conhecimento, mas de atitude mesmo, como o grupo vai me receber (P7 – bacharelado). Foi fluindo com uma conversa sobre a história do teatro (P8 – bacharelado). Os dados mostram que os docentes que fizeram o curso de licenciatura tiveram menos dificuldade nas primeiras experiências. Vale aqui ressaltar que os cursos de licenciaturas visam o ensino/aprendizagem da criança e do adolescente. Como explica Vasconcelos (1996), “a formação pedagógica, se destina aos professores que cursam as licenciaturas visando o ensino/aprendizagem da criança e do adolescente. Para atuar na graduação, isto é, com o adulto, os professores não recebem nenhuma formação pedagógica”. O professor 4 afirma que sua facilidade no início de carreira como professor do ensino superior se justifica por ter cursado a licenciatura e ter experiência com adolescentes. Vejamos: Eu ia completar 15 anos de Estado, minha formação inicial é letras, quando eu recebi o convite para trabalhar na Uninove. Não tive dificuldades em dar aula para 60 alunos, isso já acontecia no Estado (P4 – licenciatura). O docente cuja fala se pauta na experiência profissional como condição para uma boa prática docente, no entender de Pimenta e Anastasiou (2002, p. 211) referem-se à questão do paradigma tradicional. O paradigma tradicional do professor palestrante e aluno ouvinte foinos ensinado pela nossa vivência de aluno, sendo, portanto, o que sabemos fazer, por experiência ou hábito, em contraposição a uma crescente necessidade da construção de um paradigma atual, em que o enfrentamento do conhecimento científico utilize um processo diferenciado, no qual a construção e a parcela sejam elementos fundamentais da relação. 74 Apesar de um número elevado de bacharéis se referir em sua experiência inicial no ensino superior como “assustadora”, não podemos afirmar que esse fato se dá pela sua formação inicial, há professores relatam que não tiveram problemas nesse aspecto, pois gerenciaram uma forma de trabalhar em sala de aula. Pimenta e Anastasiou (2002) explicam que os professores quando iniciam o exercício da docência trazem uma bagagem com várias experiências do que é a profissão docente, o que isso se deve aos modelos de professores que foram significativos enquanto eram alunos. Nóvoa (2009, p. 32) explica que existe um efeito cumulativo e seletivo das experiências anteriores em relação às experiências subsequentes. Assim, o que foi retido das experiências familiares ou escolares dimensiona ou, pelo menos, orienta os investimentos e as ações durante a formação inicial. No entender do professor 3 o que o auxiliou nesse início de carreira foi estabelecer um diálogo com seus pares. Segue o relato do professor: Muita ansiedade antes de entrar em sala, apesar da experiência em treinamentos corporativos. Não tinha ideia de como seria a receptividade e se conseguiria comunicar-me adequadamente com os alunos. Tive muito apoio de minha coordenação e ajuda dos colegas experientes que mostraram modelos, atitudes e ações diversas para eu enfrentar o momento (P3). A questão de buscar modelos ou auxílio junto aos professores mais experientes é uma prática recorrente citada na literatura. Entre os docentes iniciantes a falta de experiência é um dos condicionantes para essa prática. Nóvoa (1997, p. 26) aponta que “o diálogo entre professores é fundamental para consolidar saberes emergentes da prática profissional”. É necessária uma mudança de postura para que os docentes interajam entre si, possibilitando adquirir confiança em si mesmo. Compartilhar experiências e saberes do processo ensino/aprendizagem através do diálogo entre os pares e assumir a responsabilidade e o comprometimento de sua formação. 75 Conforme Garcia (1999, p. 23), a formação inicial do professor universitário deveria correr através do desenvolvimento de programas de iniciação na profissão docente para aqueles professores universitários que iniciam na docência, pois a sua organização pode ser mais flexível e prolongada. De acordo com Huberman (1995), os professores podem trilhar novos caminhos, diferentes dos apresentados, e o período de permanência em cada uma das fases pode variar. O ciclo de desenvolvimento profissional que a maioria dos professores percorre durante sua carreira, Huberman (2000) afirma que esses ciclos não são formados por uma sequência linear de acontecimentos, mas por um processo que pode ser percorrido de forma diferente pelos professores, devido à sua individualidade e à sua subjetividade, que perpassam suas experiências e suas histórias de vida, as quais, por sua vez, influenciam a maneira como cada um vivencia essas etapas. Outra questão importante para a pesquisa era saber dos docentes as dificuldades encontradas nas primeiras experiências no ensino superior como docente e como essas dificuldades foram superadas os participantes manifestaram-se como pode ser visualizado pelo Gráfico 10. 3,5 3 2,5 2 1,5 insegurança de ministrar aulas como ensinar 1 0,5 domínio do conteúdo 0 questões burocráticas sem dificuldades Gráfico 10 – Dificuldades encontradas nas primeiras experiências no ensino superior 76 Dos 12 docentes entrevistados, 03 docentes disseram que foi a insegurança para ministrar aulas, 02 como ensinar, 02 dominar o conteúdo, 1 entender as questões burocráticas do ensino superior e 2 docentes não encontraram dificuldades. As respostas dos docentes foram semelhantes às questões 10 e 16 do questionário. O professor 1 fez o seguinte relato: “Tive dificuldade sobre o conteúdo, onde adquirir mais conhecimento, o que pesquisar como pesquisar, meu medo era o aluno perguntar e eu não saber responder, mas deu tudo certo com os alunos, correu tudo bem”. Para reforçar essa ideia, Cavaco (apud Marcelo Garcia et al., 1999 p. 112) destaca que: [...] a complexidade e as contradições vividas nos primeiros anos de trabalho, quando há que enfrentar dia-a-dia, no cenário da profissão, situações novas e imprevisíveis, obstáculo frequentes a exigir respostas rápidas, adequadas, convincentes. É o tempo da instabilidade, da insegurança, da sobrevivência, mas também da aceitação dos desafios, da criação de novas relações profissionais e da redefinição das amizades e de amor, da construção de uniões familiares, da construção do sonho de vida. Segue algumas falas semelhantes dos docentes: No ensino superior, encontrei sérias dificuldades porque o aluno entra cada vez menos preparado, de responder, de raciocinar. Existe uma diferença da universidade pública e privada. Na particular já cheguei pegar alunos analfabetos. A falta de comprometimento do aluno atrapalha o caminhar da aula (P2). Em geral, sou bem prevenida, jamais entro em uma sala de aula sem conhecer profundamente o conteúdo. A minha maior dificuldade foi chegar à sala de aula e encontrar aluno que não sabe fazer uma equação (P3). 77 Sentia-me muito insegura, como ensinar, o que ensinar. Você chega à faculdade e ninguém explica nada. Você é quem tem que perguntar para um para outro como as coisas funcionam (P6). Como é um curso de Medicina, os alunos entram com bastante conhecimento. No início da minha carreira a dificuldade era minha uma vez que nunca tive na minha formação a questão pedagógica. Então fazia como os meus professores faziam (P11). Nas falas citadas acima dos professores existem elementos importantes referentes à sua formação e sua atuação profissional. Desse modo, ressalta a ideia de que o processo de formação inicia desde a opção inicial por um curso superior. Tardif (2010, p. 53) ressalta que: A prática cotidiana da profissão não favorece apenas o desenvolvimento de certezas “experienciais”, mas permite também uma avaliação dos outros saberes, através da sua retradução em funções das condições limitadoras da experiência. Os professores não rejeitam os outros saberes totalmente, pelo contrário, eles incorporam à sua prática, retraduzindo-os, porém em categorias de seu próprio discurso. O exercício da docência exige alguns saberes que devem ser construídos e experienciados de forma reflexiva, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento e o crescimento profissional. Segundo Nóvoa (1995), a carreira docente passa por algumas etapas, sendo uma delas a estabilização, em que o profissional domina bem sua área de trabalho, seus papéis e suas responsabilidades. Para muitos professores a profissão docente, no decorrer da sua linha de tempo, possibilita a maturidade e o discernimento para desenvolver a capacidade de interagir com o outro e aprender com ele. Para conhecermos como se dá à reflexão sobre a prática do docente do ensino superior. Foi solicitado ao professor que pensasse em uma aula que ele 78 deu como foi elaborado o planejamento, a execução e análise e o que se aprendeu com ela. Através da fala do professor 3 pode-se observar o amadurecimento de sua profissionalidade ao longo de sua trajetória profissional no ensino superior, seu envolvimento com a aprendizagem dos alunos. Em uma aula de matemática, eu precisava fazer uma apresentação gráfica, depois introduzir o conceito. Eu resolvi fazer o inverso, foi mais produtivo. Estar ensinando um conteúdo muito clássico, e eu inverti o caminho do estudo que passava para meus alunos. Aquilo foi para mim muito gratificante. Eu percebi que posso ensinar o conteúdo de diversas maneiras, desde que eu domine o conteúdo e a forma de ensiná-lo (P3). Masetto (2013, p. 108) afirma que, A busca pela profissionalidade valoriza a ação docente, pois é fonte de saber que permite ao professor libertar-se das práticas rotineiras, avalia-las e implantar, sempre fundamentos no diálogo com a teoria, os processos e os ajustes que forem convenientes. É uma reflexão que ajuda a recompor o equilíbrio entre as práticas dominantes e a teoria que as sustenta”. Partindo do relato do professor 4, percebo que a opção pelo magistério do ensino superior é a oportunidade que ele encontrou para desfrutar de uma profissão gratificante, que lhe permite reconhecimento e um envolvimento tal que a docência, é uma profissão capaz de proporcionar realização profissional e pessoal. Segue o relato do professor: Todas as aulas eu levo um aprendizado, onde o ser humano é imprevisível, que levanta dúvidas diferentes, onde as respostas são totalmente opostas do que eu havia pensado a relação que a sala tem de um determinado assunto, iniciamos com um assunto e acabamos em outro. Eu constantemente reformulo meus conceitos, todo dia tenho um aprendizado novo, tanto para mim e para o aluno. Obviamente 79 pontuo algumas questões, mas o caminho que o grupo percorre e diferente do outro grupo (P4). Para a professora 12, um aspecto importante no exercício docente é a complexidade e a confiança em si mesma: Fui abordar um tema de publicidade, de repente o assunto mudou completamente. Entendi que a sala de aula tem uma dinâmica, um movimento que muitas vezes nos pega de surpresa e temos que dar conta, então começar a tirar informações do fundo do baú. Concordo com a posição de Imbernón (2009, p. 92), quando o autor conclui que: Reconhecer a complexidade do pensamento e da prática docente significa reconhecer que a educação como fenômeno social é uma rede aberta e que essa abertura faz com que às vezes se tomem decisões sem refletir (ou intuitivas); ao promover uma formação que facilite a reflexão e a intuição, é possível fazer com que os professores se tornam melhores planejadores e gestores do ensino-aprendizagem e, por que não, agentes sociais, capazes de intervir também nos complexos sistemas éticos e políticos que compõem a estrutura social e de trabalho. 3.3 ESPECIFICIDADES DA INSTUIÇÃO DO ENSINO SUPERIOR E DIFICULDADES ENCONTRADAS NA AÇÃO DOCENTE Exercer a docência é uma atividade complexa que vai além de chegar à sala de aula e dar aulas. É necessário avaliar todo o contexto, que nem sempre revela alunos ideais, mas alunos reais, com dificuldades e deficiências em seu aprendizado, para os quais muitas vezes o professor não está preparado. Os professores ao serem questionados sobre as dificuldades enfrentadas por eles atualmente, manifestaram-se como pode ser visualizado pelo Gráfico 11. 80 8 7 6 5 alunos sem conhecimentos 4 falta de interesse dos alunos 3 falta de experiência 2 1 0 alunos sem conhecimentos falta de interesse falta de experiência dos alunos Gráfico 4 - Dificuldades encontradas pelos docentes no Ensino Superior Nas respostas dos docentes surgiram várias dificuldades que os incomodam no seu trabalho pedagógico, porém dos 12 professores entrevistados a dificuldade que 7 docentes indicaram como um dos problemas para atuar no ensino superior, foi “não saber lidar com alunos que chegam à sala de aula sem base para aprofundar os conhecimentos”, Todos docente expuseram a falta de conhecimento que o aluno chega ao ensino superior e 2 docentes a falta de interesse por parte dos alunos. Seguem relatos: Os alunos decoram para prova e não para adquirir o conhecimento necessário, assim vão passando de um ano para outro sem bagagem necessária, sem contar com o número elevados de alunos por sala 90, 100 alunos (P3). Eu não vejo uma dificuldade minha, mas vejo uma dificuldade no ensino superior, o aluno vem sem preparo acadêmico (P4). Encontro dificuldades em sala de aula. Os conhecimentos que os alunos chegam até a faculdade é muito deficitário. Deveria ter um ensino paralelo para ajuda-los (P6). 81 Os alunos com quem trabalho chegam cansados, não tão animados para algumas coisas, eles são cansados para outras, sem motivação (P9). A dificuldade enfrentada por mim hoje é a falta de interesse dos alunos e de alguns docentes. E a falta de conhecimento prévio, os alunos não conseguem fazer inferências dos conteúdos ministrados em outras áreas, prejudicando assim o aprendizado (P 10). As declarações dos professores retratam como os alunos chegam aos bancos da educação superior. Para entender os problemas e desafios enfrentados hoje pelos professores, se faz necessário explicar quem são os alunos que frequentam as instituições ensino superior. As políticas públicas para o ensino superior facilitaram o acesso a esse nível de ensino. Na década de 1990 duas situações marcaram e mudaram o cenário do ensino superior: o Estado diminuiu o investimento para o ensino público superior e a privatização tomou espaço, com a mercantilização da educação superior; dessa forma, foi instituído pelo governo o FIES – Programa de Financiamento Estudantil e o PROUNI – Programa Universidade para Todos, para que as classes menos favorecidas pudessem frequentar a educação superior, em instituições privadas. (Pimenta e Anastasiou, 2002, p.27). Muitos alunos provenientes do ensino médio de escolas públicas chegam sem o domínio dos conteúdos básicos necessários para cursar o ensino superior, por isso essa dificuldade em massa. Para Imbernón (2009, p. 51-52): É evidente já há tempo que na realidade do professorado não há tantos problemas genéricas, e sim muitas situações problemáticas que se dão em contextos sociais e educativos determinados e, ultimamente, essas situações problemáticas e esses contextos tornaram-se ainda mais complexos. Na formação, o contexto no qual se dão as práticas educativas, ou seja, a própria instituição educativa e a comunidade que esta envolve, assume assim uma importância decisiva. 82 Ao pensar sobre essa questão que não é tão simples, mas existem possibilidades de solução, desde que assumidas em suas especificidades, o caminho a ser percorrido envolve a participação da instituição e o envolvimento do grupo de professores. Pimenta e Anastasiou (2002, p. 39) explicam que, Não se trata de ignorar as dificuldades constatadas; ao contrário, tratase de conhecê-las e programar, o mais coletivamente possível, ações entre docentes e discentes a fim de superarem as dificuldades constatadas. Esse projeto pode ser até escalonado conforme as diversas fases do curso em questão. Quanto mais cedo forem percebidas as dificuldades e traçadas as linhas de ação, maiores serão as possibilidades de superação dos problemas no decurso dos anos, semestres ou fases do curso. As autoras alertam que para o aluno cursar a graduação alguns requisitos são essenciais, como o domínio da leitura, da interpretação, redação. Para a superação das dificuldades dos alunos é preciso realizar um diagnóstico para desenvolver ações em conjunto entre professores e alunos. Pimenta e Anastasiou (2002) sugerem a aplicação de atividades e correção das mesmas na própria sala de aula, para que os alunos reconheçam suas dificuldades e assumam coletivamente o caminho a ser trilhado. “Adiar o conteúdo programático estabelecido por uma ou duas semanas para retomada de itens essenciais, tem sido prática adotada com sucesso, envolvendo professores e alunos em torno de ações conjuntas e necessárias” (PIMENTA; ANASTASIOU, 2002, p. 234). Exercer a profissão docente, desse modo, implica unir seus conhecimentos e suas experiências e desenvolvê-los em contextos educativos. A formação é fundamental desde o início do trabalho docente, efetivando o ensino com qualidade na prática social. Nóvoa (1997, p. 28) faz o seguinte questionamento: 83 Formar um professor é possível? Formar não, formar-se! O professor forma a si mesmo através das suas inúmeras interações, não apenas com o conhecimento e as teorias aprendidas nas escolas, mas com a prática didática de todos os seus antigos mestres e outras pessoas, coisas e situações com os quais em situações de ensino durante toda a sua vida. Ao serem questionados sobre as atividades solicitadas pela instituição onde trabalham, além de ensinar, os professores são unânimes em afirmar que elas são de cunho burocrático, como preenchimento de documentos, relatórios, protocolos etc. Os participantes manifestaram-se como pode ser visualizado pelo Gráfico 12. 14 12 10 8 solicitações burocráticas 6 orientação aos alunos 4 publicações 2 reunões pedagógicas 0 atualizações e pesquisas Gráfico 5 - Atividades solicitadas pela instituição em que o professor trabalha, além de ensinar. Tarefas como essas são colocadas como uma dificuldade encontrada pelos docentes, uma vez que não encontram tempo para dedicar-se à pesquisa e a produção. Todos os docentes entrevistados, disseram que a instituição exige preenchimento de documentos e relatórios; 6 citaram orientação a alunos (iniciação científica ou estágios), 4 docentes publicações, 3 docentes atualização pedagógicas. e pesquisas, 2 docentes em participação em reuniões 84 Os professores 2, 6, 11 expuseram a exigência de publicações, orientações a alunos “a instituição exige periodicamente publicações, relatórios e orientações a alunos (P2)”, “participar de reuniões pedagógicas, relatórios, publicações e orientação para alunos (P 6)”, “A universidade solicita muitas publicações, pesquisas e algumas orientações para os alunos (11)”. O envolvimento dos docentes em pesquisas, produções tanto dos docentes como dos discentes, artigos, reuniões pedagógicas, orientações a alunos, necessita do compromisso dos professores, podendo assim ser traduzido em ações favoráveis para a qualidade do ensino superior. Autoras como Pimenta e Anastasiou (2002, p. 126) argumentam que, Ao participar legalmente de um colegiado, o docente da IES teria maior suporte institucional para sua profissionalização continuada. O trabalho individualizado e solitário a que é habitualmente submetido em nossa cultura institucional, fica dessa forma mais próximo a “uma venda de horas/trabalho”, acentuando a possibilidade do aumento do magistério superior como atividade de complementação salarial ou bico, como é vulgarmente chamado o respectivo aumento numérico do profissional dador de aulas, absolutamente o oposto do que é necessário hoje (grifos das autoras). A pesquisa, para Demo (2001, pag.42), “é a forma de o docente ter sua própria elaboração, ser um profissional pesquisador, mas é preciso que veja a pesquisa como aprendizagem e atualização permanente”. Não devemos esquecer que sem a pesquisa o ensino poder ser uma mera reprodução. No ensino superior um docente que ministra boas aulas não tem a devida valorização caso não escreva, produza. Não tenho a pretensão de diminuir o valor da pesquisa, uma vez que deve fazer parte da formação do professor/aluno; por outro lado, a produção traz notoriedade à instituição que desenvolve a pesquisa. A educação superior deve estar alicerçada no tripé ensino, pesquisa e extensão. O projeto pedagógico das IES deve contemplar este tripé. Para os pesquisadores que discutem a formação no ensino superior, é consenso que uma formação acadêmica sólida, ideal e de qualidade deve se primar pela indissocialidade do ensino, pesquisa e extensão. 85 No entender do professor 12, “No final de semestre o trabalho burocrático se multiplica. Colocar notas em sistema, fazer provas substitutivas para outras matérias que não a sua. Corrigir materiais online. Muito trabalho que não tem nada a ver com lecionar”. “Estou na Universidade São Judas há 20 anos, fora a docência o que me exigem é o trabalho administrativo, esse sim me consome (P3)”. A instituição de ensino superior particular, segundo Pimenta e Anastasiou (2002), é grande empregadora dos docentes. Através dessa pesquisa podemos confirmar a afirmação das autoras, os 12 docentes que fizeram parte desse estudo, lecionam em instituição privada, sendo que 2 docentes participam de projetos também na instituição pública. Geralmente as IES privadas solicita aos docentes um grande número de trabalhos administrativos não pertinentes à docência. Na maioria das vezes são as instituições públicas que acabam se envolvendo com a pesquisa. Freire (2007, p. 29), ressalta a importância da pesquisa para a formação do professor: “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. [...]. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar novidade”. 3.4 AS INCONSISTÊNCIAS DAS FALAS, OS ANSEIOS... É preciso considerar a própria realidade, e nela atuar, construindo um campo profícuo para desenvolver ações que contribua para a qualidade do ensino superior. Os autores pesquisados revelam possibilidades e soluções, mas só serão exitosos se as IES, os docentes e as políticas públicas atuarem em conjunto. Para viabilizar a pesquisa nos aproximamos dos docentes por meio de uma entrevista. As respostas obtidas, acreditamos, foram de certa forma de encontro do problema proposto: como professores do ensino superior analisam suas trajetórias de aprendizagem da docência? Obtivemos nos relatos e depoimentos dos docentes, situações vivenciadas e situações que os afligiam, bem como seu posicionamento com sugestões para lidar com essas questões. 86 Podemos considerar que alcançamos nosso objetivo maior que foi de analisar o processo de aprendizagem e desenvolvimento profissional do docente no ensino superior, identificando problemas e desafios vivenciados, com vistas ao aprimoramento da atuação docente neste nível de ensino. Observamos que a escolha pelo ofício de ser professor trouxe implicações na vida desses docentes, porque propiciaram novos valores, crenças, atitudes e ideias, no âmbito profissional e pessoal. Apoiados na literatura citada ao longo da pesquisa, as questões que emergiram com a pesquisa mostraram que as situações que acometem os docentes do ensino superior não acontecem exclusivamente no Brasil. O estudo revelou que os problemas, as deficiências, as carências do início da docência na educação superior existem e, por isso, é imprescindível uma atenção nesse sentido. Masetto (2013, p. 9) relata, Esse início pode ocorrer de diversas maneiras, envolvendo desde profissionais que exercem determinada atividade no mercado de trabalho e depois de alguns anos decidem enveredar pelo caminho da docência, até mestre e doutores, muitas vezes ainda bem jovens e quase sem experiência profissional ou de magistério, que se candidatam a lecionar no ensino superior. A fala de Masetto vem ao encontro dos dados obtidos no estudo. Foi possível constatar que todos os professores entrevistados estão preocupados com sua formação, e que há um comprometimento por parte deles em continuar sua formação formal. Com relação à insegurança pontuada pelos professores deste estudo, ela se se refere à falta de experiência como docente uma vez que não tiveram uma formação pedagógica para atuar no ensino superior. Outros docentes alegam que exercem à docência com qualidade, devido suas experiências profissionais anteriores. As opiniões sobre o papel da experiência profissional foram contraditórias, pois, para alguns professores, a minoria, essa experiência é que lhes possibilita ser um bom docente. 87 Pode-se verificar as preocupações que os docentes têm com os alunos que chegam ao ensino superior desprovidos dos conhecimentos básicos para cursar uma graduação. Como sugestão para resolver o problema, esses alunos deveriam ter aulas paralelas para diminuir a defasagem e acompanhar os conteúdos acadêmicos. Os docentes verbalizam as dificuldades para lidar com alunos desinteressados em sala de aula, bem como trabalhar com turmas numerosas. Alguns docentes revelam que sentem falta de uma formação pedagógica específica. A questão do domínio de conteúdo é um aspecto significativo para os professores, pois acreditam que dominar os conteúdos é fundamental para realização do trabalho em sala de aula. O conteúdo tem sua importância, porém é o modo que esse conteúdo é desenvolvido com os discentes é que qualifica o trabalho do docente, por isso apontam a questão da formação pedagógica. No grupo de docentes entrevistados é unânime a importância de se atualizar, porém apenas um docente cita a necessidade do uso da tecnologia a serviço do ensino e usufruir dos benefícios dessa ferramenta. Atualmente a IES privada é uma grande empregadora dos docentes do ensino superior. Geralmente são as instituições de ensino são as que oferecem a oportunidade de contratar docentes inexperientes para a docência universitária. Com relação à autonomia docente, predominou o conceito de que é um processo, é uma construção e se desenvolve ao longo da trajetória profissional. À medida que o professor sabe resolver conflitos, toma decisões no cotidiano educacional irá, conquistando sua autonomia. Freire (2007) enfatiza que as experiências nos possibilitam tornamo-nos autônomos. A reflexão se faz necessária nas ações docentes, individual e coletivamente. Percebe-se a preocupação por parte dos docentes em reformularem suas práticas educativas em função do que consideram que poderiam melhorar em sala de aula, mas não é suficiente, é preciso ter a consciência do que mudar e porque mudar. 88 Os professores relatam que uma das formas em manter-se aprimorados dos conhecimentos necessário para a docência do ensino superior é o diálogo, a troca de experiências com os colegas de trabalho. É o que defende Nóvoa (1997). Esse é o caminho para o êxito na qualidade da docência, pois o trabalho coletivo ganha força. Ressalte-se ainda que os participantes da pesquisa se mostraram interessados pelo o estudo e, manifestaram desejo de ter acesso aos resultados da pesquisa como forma de obterem respostas para suas demandas. Para o aprimoramento das práticas pedagógicas no ensino superior e a superação dos problemas/desafios, há a necessidade de uma conscientização geral e de um compromisso por parte de todos os envolvidos com este nível de ensino. Na análise dos dados coletados por meio das entrevistas foi possível constatar, ao mesmo tempo aspectos comuns nas respostas obtidas, algumas especificidades, porém, as diferenças são representativas em cada caso. Os resultados também apontam que não ocorrem diferenças significativas entre os professores de bacharelado e de licenciatura. 89 CAPÍTULO 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao se realizar a pesquisa com professores do ensino superior, com alunos egressos do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, estabeleceu-se como foco: aprendizagem ocorrida durante o percurso profissional no ensino superior; os espaços que são considerados de formação; os desafios atuais postos pela profissão docente; concepções relacionadas à profissão docente. Revendo um pouco da história do ensino superior no país percebemos que não se pensou nos docentes que ingressaram no magistério superior sem a formação para esse nível de ensino. Os cursos stricto sensu nem sempre se ocupam da formação pedagógica, havendo prioridade para a pesquisa. Vale lembrar que nem sempre uma titulação é suficiente para trabalhar com a sala de aula do ensino superior. Na sociedade contemporânea em que vivemos, com a velocidade da informação influenciando os vários setores do conhecimento é fundamental uma formação acadêmica. As salas de aula das IES passam a ser ocupados por alunos das camadas populares, com diferentes interesses, de diferentes idades e com defasagens no conteúdo básico para acompanhar um ensino superior. Para contemplar as demandas dessa sociedade, é fundamental uma continuidade na formação docente, que deve ser sólida e possibilitar reflexão sobre a prática ressignificando-a, dentro e fora da sala de aula universitária, pois, somente assim o professor terá condições de lidar com a diversidade e a heterogeneidade dos alunos. Considero que a formação acadêmica não se deve pautar apenas nos conteúdos, mas valorizar os aspectos éticos e humanos na formação do aluno. A educação como prática social, só se concretiza na medida em as IES promover um ensino de qualidade, que reproduza no profissional que se está formando. 90 Os docentes pesquisados valorizam a formação stricto sensu e a consideram necessária para a docência no ensino superior. O contexto revela uma estrutura no qual os docentes, por conta própria não medem esforços para investir no desenvolvimento profissional e na sua formação. Ao concluir o percurso dessa investigação, acredito que trouxe elementos para a discussão e possibilitamos aos docentes uma oportunidade de reflexão sobre sua própria prática pedagógica, pois, ao responderem sobre duas dificuldades, desafios, necessidades e aprendizagem ao longo de sua trajetória profissional, inevitavelmente precisaram refletir. Afirmo, também, que consegui identificar e analisar com a pesquisa as necessidades, os problemas, as carências e os desafios vivenciados pelos docentes no início de carreira. Considero relevante no estudo a questão da formação docente, que permeia os dilemas e desafios que enfrentam os docentes iniciantes ou não. Porém, a formação docente que privilegie a reflexão da prática, a base do conhecimento, as comunidades de aprendizagens e as atitudes investigativas seria um único caminho possível para responder aos anseios dos docentes participantes da pesquisa, que a apontam como deficiente. Para pontuar alternativas, ou possíveis caminhos incluímos no trabalho, a contribuição de especialistas e estudiosos do ensino superior, que buscam maneiras de tratar a questão. Buscar alternativas para solucionar a questão da formação do professor revela fundamental para a qualidade desse nível de ensino. A intenção, ao iniciar e ao concluir o trabalho, foi trazer elementos para contribuir com os estudos a respeito da aprendizagem dos docentes do ensino superior ao longo de sua carreira profissional, mas nesse espaço reconheço que a presente pesquisa repercutiu muito em proveito pessoal, uma vez que o aprendizado foi grande. Com este estudo, foi possível evidenciar muitos aspectos da profissão docente e o que fica evidente é a questão da formação, da preparação para a docência, que grande parcela dos professores aponta como imprescindível 91 para o trabalho efetivo na sala de aula do ensino superior. Por isso, buscamos na literatura suporte para discutir a formação docente, que tem sido tema de muitos estudos atualmente. O conhecimento para atuar na docência no ensino superior envolve múltiplos olhares. O início da docência universitária merece uma atenção das políticas públicas e de todos os envolvidos com o ensino superior – alunos, professores, IES e a própria sociedade. É preciso avançar e muito nas investigações que abordem aspectos relevantes da docência na educação superior. Esse trabalho será mais uma semente que lançamos no campo fértil da pesquisa acadêmica, que poderá frutificar com mais estudos nessa mesma perspectiva, pois o contexto é dinâmico, assim como a prática docente. É fundamental que novos estudos a respeito do mesmo tema apareçam, a possibilidade de buscar outros elementos que contribuam para a qualidade do ensino na educação superior, uma vez que especificamente a aprendizagem docente há muito que investigar e analisar. A pesquisa foi realizada em universidade particular de grande porte. Seria interessante um estudo semelhante em uma universidade pública, com possibilidades de trazer novos elementos para os estudos. Espera-se que o trabalho contribua para despertar interesse sobre a aprendizagem do docente no ensino superior, como os espaços de formação e a concepção da educação nesse nível de ensino, sinalizando que esses aspectos são fundamentais para a profissionalidade docente. A profissão docente no ensino superior exige muito mais que uma formação acadêmica, ou experiência na área do conhecimento, pois se trata de uma profissão dinâmica na qual os docentes se deparam cada dia com novos desafios, para os quais não existem receitas ou modelos, pois cada momento da sala de aula é único. Sabe-se que a literatura mostra que os anos iniciais da docência são fundamentais, para aprendizagem da docência, pois definirão a prática docente futura. Com o passar dos anos na atividade docente os professores passa por 92 fases com características singulares e o início da profissão é um importante momento de intensas aprendizagens e desafios. Acredita-se que a formação inicial e continuada dos professores do ensino superior no Brasil não é satisfatória, não recebe a atenção devida. As IES públicas realizam menos matrículas da graduação do que nas IES particulares. Assim, a grande empregadora são as IES particulares, sendo a maior parte dos alunos matriculados dos cursos noturnos oferecidos em instituições não universitárias. Os professores pesquisados relataram aspectos relativos à deficiência de conteúdos da educação básica desses alunos e disseram que encontram dificuldades para lidar com essa questão. É preciso pensar também na formação deficiente que algumas IES privadas propiciam aos alunos. A formação docente deve contemplar à complexidade das situações existentes no ensino superior. Alguns professores que participaram da entrevista manifestou a necessidade de uma formação docente para o magistério superior. O processo de ensino/aprendizagem ainda não é compreendido por muito professores. O fato do ensino não ter recebido a valorização devida e por ser confundido coma mera transmissão de conhecimentos, prevalecendo por muito tempo o modelo jesuítico que exige a memorização do conteúdo transmitido. Esse modelo de ensino não se enquadra mais aos alunos nos dias atuais, por isso ainda herdamos uma educação básica precária. Muitas IES privadas conseguiram driblar problemas dessa natureza, investindo na formação docente e realizando um trabalho pedagógico paralelo com os alunos. Investir na formação docente e estruturar um Projeto Pedagógico (PP) compatível com as deficiências e dificuldades de cada realidade com propostas para resolver tais dificuldades, somente se obterá êxito com a participação efetiva dos docentes, numa reflexão compartilhada. A docência no ensino superior tem se constituído com base na experiência da própria formação do professor como aluno e no confronto da 93 sala de aula. A prática docente vai se estruturando nos erros e acertos cotidianos. No entanto as políticas públicas responsabilizam as IES pela formação dos docentes. Na prática isso não vem ocorrendo. As IES perdem uma ótima oportunidade de se sobressaírem nesse aspecto, porque ao se pensar sobre a formação docente se investe na qualidade da educação oferecida. O fato é que um docente nunca termina sua formação, e que sua aprendizagem ocorre ao longo de sua trajetória profissional, por isso deve se formar continuamente. A formação a que se refere deve levar em conta além das questões didáticas e metodológicas os aspectos éticos e políticos já citados por diferentes autores. Conhecer profundamente a área de estudo não é suficiente para ser um bom professor, é preciso modificar essa ideia. O desenvolvimento pessoal e profissional se promove através da formação pedagógica e também de conhecimentos, de valores, atitudes e crenças. É necessário, neste sentido, um esforço coletivo para superar as dificultadas com relação a formação de qualidade, o que tem sido foco de muitas discussões. O trabalho coletivo reforça as iniciativas, mas é preciso que os professores realizem uma leitura de sua realidade e da própria formação numa reflexão compartilhada através das comunidades de aprendizagens. A formação dos docentes nos cursos de Mestrado e Doutorado qualificando e ampliando os conhecimentos dos professores. Para uma mudança e transformação é imprescindível pensar essa formação como um ato político. Almeja-se que os resultados obtidos nesta investigação possam contribuir significativamente para reflexões que levam em consideração uma proposta de excelência para o ensino superior. Além disso, espero que contribua para a melhoria de processos de aprendizagem docente, com resultados nos alunos, pois sinaliza questões de reflexão e o aprimoramento de processos e de práticas de formação continuada dos docentes, em direção a um melhor conhecimento, pessoal e profissional. Dentre as possibilidades de continuidade da pesquisa, percebo a possibilidade de interligar o papel da formação continuada na constituição do 94 profissionalismo docente e as interfaces com o exercício da docência no ensino superior. 95 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTET, Marguerite. As competências do professor profissional: entre conhecimentos, esquemas de ação e adaptação, saber analisar. IN: PAQUAY, Léopold (Org.). Formando professores profissionais: quais estratégias? Quais competências? Porto Alegre: Artmed, 2001. ANASTASIOU, Lea das G. C. Docência na educação superior. In: RISTOFF, Dilvo; SEVEGNANI, Palmira (Org.). Docência na educação superior: Brasília, 1º e 2º de dez. 2005. 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Se sim, quais? 5. Como você aprendeu/ ou tem aprendido a ensinar? 6. Em sua opinião o que um professor precisa saber para ensinar? 7. Além de ensinar, que outros tipos de atividades sua instituição solicita de você? 8. Em que materiais e fontes você apoia para ensinar? 9. Quais as dificuldades encontradas por você nas suas primeiras experiências como professor do ensino superior? Como foram superadas? 10. Atualmente, quais as dificuldades enfrentadas por você? Como pretende enfrentá-las? 11. Como você aprimora seus conhecimentos sobre o ato de ensinar, escola, sua matéria etc.? Qual o tempo destinado a isso? 105 12. De que forma o Programa de Pós-Graduação EAHC-UPM contribuiu para sua aprendizagem como professor? 13. A partir das respostas que você deu, quais seriam as especificidades da docência do Ensino Superior? 14. A instituição em que você trabalha possibilita momentos de formação para o professor? Quais? Como? 15. Como foram seus primeiros dias no ensino superior? Cite exemplo 16. Pense em uma aula que você deu. Como planejou? Executou e Analisou? O que você aprendeu com ela?