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São Paulo, terça-feira, 22 de setembro de 2015
Especial
Fotos: Divulgação
Práticas corporais são
eficientes para a saúde coletiva
Pacientes que procuram as Unidades
Básicas de Saúde (UBS) podem
contar com mais um aliado para
o cuidado com a saúde. Bastante
difundidas em países asiáticos, as
práticas corporais (massagem, yoga,
alongamento, dança, lian gong,
tai-chi, meditação, acupuntura,
entre outras) têm se mostrado
eficientes no enfrentamento do
sofrimento e da dor
Ivanir Ferreira/Agência USP de Notícias
E
ssa é a conclusão de uma pesquisa coordenada pela
professora Yara Carvalho, do Departamento de Pedagogia do Movimento do Corpo Humano, da Escola de
Educação Física e Esporte (EEFE) da USP em Unidades
Básicas de Saúde do Butantã – zona oeste de São Paulo. Os
resultados apresentados mostram que houve diminuição
nas dores do corpo, redução na ingestão de remédios e
na frequência de procura por consultas médicas, além de
melhora na qualidade de vida das pessoas, sobretudo no
aspecto social, porque elas passaram a estabelecer mais
vínculos sociais inter e extra grupo.
Durante cinco anos – entre 2010 e 2014, estudantes de
Educação Física acompanharam um grupo de pessoas de
diferentes faixas etárias, gêneros e níveis socioeconômicos
que faziam práticas corporais em seis UBSs do bairro do
Butantã, no Centro de Saúde Escola Samuel Pessoa e no
Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza. A ideia era
conhecer os benefícios das práticas corporais e, ao mesmo
tempo, descobrir como o profissional de educação física
poderia ser inserido na equipe de saúde, a exemplo do que
já ocorria na interação de outros profissionais como enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos e fisioterapeutas.
Nas rotinas das UBSs, foi possível observar que o usuário
que procurava o atendimento médico por causa de uma
queixa pontual (uma dor de cabeça, por exemplo) trazia
também consigo outras carências que iam além do atendimento médico convencional. O paciente queria ser ouvido,
sofria de solidão parental e tinha necessidade de convívio
com outras pessoas.
Conjuntamente com a avaliação médica, entrava a atuação
do profissional de educação física que, depois de checagem
dos determinantes sociais de saúde (condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais) desse paciente,
propunha algum tipo de atividade: era sugerido que a pessoa
fizesse parte de algum grupo de cuidado com o corpo/prá-
ticas corporais como medida
associativa para amenizar
dores e, algumas vezes, resolver o problema apresentado
na consulta. Dessa forma,
uma dor de cabeça causada
por problemas circulatórios,
posturais, neuromusculares,
dependendo de sua origem,
poderiam ser indicadas práticas corporais como caminhada, dança ou massagens,
explica Yara.
Modo de viver privilegiado
Há uma recomendação da Organização Mundial da Saúde
(OMS) para que os indivíduos façam com regularidade
atividade física e práticas corporais a fim de manter a saúde. Porém, existe uma diferença no entendimento entre
os conceitos: a atividade
física está vinculada à física
newtoniana e associada ao
gasto energético e à ideia
de ingestão calórica; as
práticas corporais, por sua
vez, privilegiam o modo de
viver das pessoas e levam
em consideração o ser humano em movimento e sua
gestualidade. Tais atividades
promovem o despertar da
consciência e do cuidado de
si e com o outro, levando as
pessoas praticantes a uma
maior sociabilização, explica
Yara.
Quando uma pessoa decide
fazer dança, por exemplo,
ela não o faz simplesmente
porque quer perder peso.
Há outras motivações que
são determinantes da saúde, como as relações que se
constituem a partir daquela
ação, o encontro de pessoas para um bate papo e o sair
de casa. Ao todo, existem mais de trezentas práticas em
modalidades orientais e ocidentais: capoeira, danças, tai
chi chuan, shiatsu, yoga, massagem, caminhada, jogos,
brincadeiras, alongamento, lian gong e ginástica.
De acordo com a pesquisadora, o trabalho feito nas UBSs
trouxe uma maior conscientização sobre a importância da
participação de profissionais de educação física como forma
de intervir no processo do adoecimento. A associação de
práticas corporais com o atendimento clínico médico pode
ser uma estratégia de cuidado para ampliar os níveis de
saúde da população. “Os resultados foram satisfatórios
para todos”, observa.
Mas além desta questão,
considerada relevante, Yara
queria problematizar as políticas de formação voltadas
para a capacitação e sensibilização de estudantes de
educação física na atuação
em saúde pública. Segundo
ela, nos últimos anos, houve
uma preocupação dos Ministérios da Saúde e Educação
quanto à formação de equipes multiprofissionais para
atuar na saúde pública. “E
foi neste contexto que a
pesquisa se desenvolveu”,
conclui.
O projeto de pesquisa
Políticas de Formação em
Educação Física e Saúde
Coletiva: atividade física/práticas corporais no SUS foi
financiado pela Capes e foi realizado simultaneamente em
três estados brasileiros: São Paulo, pela USP, Rio Grande
do Sul, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRS), e Espirito Santo, pela Universidade Federal do
Espírito Santo (Ufes).
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