Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino,
na Pesquisa e na Extensão – Região Sul
Interdisciplinaridade em sala de aula: reflexões e práticas
Andreza Regina Lopes da Silva
Universidade Federal de Santa Catarina – [email protected]
Araci Hack Catapan
Universidade Federal de Santa Catarina – [email protected]
Viviane Sartori
Universidade Federal de Santa Catarina – [email protected]
Eixo temático: Teoria e Prática da Interdisciplinaridade
Resumo
Um dos desafios atuais no campo da educação é a necessidade de ressignificar as práticas e os conceitos de
ensino. Neste sentido, uma das proposições é superar os modelos convencionais disciplinares para um
modelo interdisciplinar. Porém, pensar uma ação pedagógica interdisciplinar requer romper com o modelo
cultural instalado na prática disciplinar de ensino e operar na intersecção de diferentes saberes. O objetivo
deste estudo é perceber como e quando uma construção interdisciplinar ocorre em uma determinada
mediação pedagógica. Inicialmente fez-se uma revisão de literatura na área do tema, seguida de observações
diretas e entrevistas com os envolvidos. Esta análise, ainda que inicial, permite identificar que princípios de
interdisciplinaridade integram a uma outra filosofia, uma outra abordagem pedagógica, na qual a construção
do conhecimento é potencializada pela intensidade das discussões a partir de postulados de diferentes áreas
focadas em torno de um objeto de conhecimento. Esta prática pressupõe não só um grupo heterogêneo em
sua formação básica, mas com uma visão multidimensional. Uma prática interdisciplinar não se reduz à
justaposição de áreas ou de pontos de vistas, mas compreende um novo constructo que emerge da interação
entre diferentes abordagens. Elegeu-se para esta observação uma disciplina de um curso de doutorado. Este
é um estudo pontual, segundo a metodologia de pesquisa-ação, aplicado temporalmente em um caso. Este
estudo demonstra que a interdisciplinaridade é uma prática que responde às necessidades da sociedade do
conhecimento, que baseia-se em um processo de interação de múltiplos, tanto no âmbito discente quanto no
âmbito docente e ainda rompe as fronteiras da disciplinaridade, transcende os saberes individuais, lineares e
únicos.
Palavras chaves: Interdisciplinaridade. Conhecimento. Programa de Pós-Graduação.
1. Introdução
Ao analisar as discussões em torno do tema educação, percebe-se que as novas estruturas
socioeconômicas e culturais que vem se instalando na sociedade, a chamada Sociedade do Conhecimento e
tem implicado nas práticas docentes e nas estruturas de currículo e do ensino. Assim, hoje, falar em
educação é um grande desafio que requer abertura e despojamento de paradigmas. Atualmente, evidencia-se
a necessidade de ressignificação de práticas e conceitos, pois a educação é um processo social que permeia a
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evolução do ser humano, da sociedade. A educação vai além da prática didática mediada na sala de aula,
inclui prática da vida familiar, social, cultural do indivíduo.
A partir desta reflexão, a sociedade atual estrutura-se baseada no conhecimento convergindo para a
disseminação, construção e compartilhamento do conhecimento em uma proposta de formação continuada.
E é neste sentido que práticas pedagógicas tem transcendido para além da disciplinaridade. Percebe-se que,
como espaço de formação, o planejamento educacional tem sido levado a pensar novas formas, modelos,
didáticas e metodologias de se fazer educação. O processo de ensino-aprendizagem deve vislumbrar a
potencialização do processo de construção do conhecimento bem como a formação crítica do indivíduo em
sua potencialidade ampla e não individualizada em áreas estanques.
Morin (2007) afirma que educação deve mostrar que não existe conhecimento que não esteja
ameaçado, pois o conhecimento não é um simples “espelho” do que se vê do mundo externo. São releituras
cognitivas com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos. Diante de reflexões como
estas percebe-se que, hoje a educação caminha a passos largos, imersa em questionamentos que exigem
condições novas e singulares do planejamento a práticas do ensino. Fala-se hoje em reforma do ensino, aqui
adentrados na perspectiva do ensino superior, de modo a se formar cidadãos críticos, preparados para a vida
em seus diversos desafios, sejam eles individuais ou coletivos. Desafios no contexto das construções
coletivas em nível social e conceitual. Portanto não se pode trabalhar com imitação ou reprodução de
saberes, mas sim com o conhecimento no sentido de relação e aproximação do modo de trabalhar com este
rizoma, que oferece várias possibilidades e caminhos sem estar estreitamente relacionado a um início ou
fim, mas que pode ser acessado e retomado conforme a necessidade do indivíduo (DELEUZE; GUATTARI,
1996). Como afirmam os autores “Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer e também
retomado segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas.” (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p.
18). Ou seja, o conhecimento ganha o significado de rede sem um ponto exato de ordem, sem decalque
possível de ser conectado em díspares dimensões.
Uma rede hipertextual que se move por entre as
diferentes áreas do saber possibilitando atender populações heterogêneas, bem como construir novos
conhecimentos pertinentes ao contexto socioeducativo e profissional de cada estudante.
Este estudo de caso realizado à luz de uma investigação-ação, tem como objeto uma disciplina
denominada Design Instrucional, oferecida pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do
Conhecimento (PPEGC). O objetivo deste estudo é perceber como e quando uma construção interdisciplinar
ocorre em uma determinada mediação pedagógica. Utiliza-se das etapas do estudo de caso para fazer este
ensaio de pesquisa-ação. Os sujeitos da pesquisa são a professora e seus estudantes. A delimitação temporal
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compreende um trimestre no período de 2012. A contribuição deste artigo concerne a uma reflexão ainda
que inicial a respeito do princípio da interdisciplinaridade e suas implicações nos contexto de um ato
pedagógico que tem como objeto um tema necessariamente interdisciplinar – o Design Instrucional. Neste
sentido, o artigo apresenta ações de planejamento e prática para a interdisciplinaridade à luz do objeto de
estudo.
2. Aporte teórico: para além da disciplinaridade
A evolução da sociedade, hoje tida como centrada no conhecimento, aponta para a necessidade de se
repensar alguns paradigmas educacionais. O processo ensino-aprendizagem requer elementos fundamentais
de base teórico-metodológica dos quais emanam os postulados fundamentais necessários para se direcionar e
organizar-se o fazer pedagógico. Todavia a multiplicidade de saberes para uma mesma prática tem apontado
para equipes multidisciplinares de trabalho com ações interdisciplinares para um objetivo entre outras
condições em tempos e espaços diversos – potencializada pela evolução e disseminação do uso das
tecnologias de informação e comunicação.
Um sistema educacional disciplinar que não vislumbre a prática de questionar do estudante e apenas
expõe conteúdos pré-determinados no plano de ensino pelo professor e uma educação em que o estudante
não é protagonista no seu processo de aprendizagem, não atendem mais as necessidades atuais. Portanto, a
mediação construída com base em situações reais a partir de uma prática contextualizada potencializa a
integração de diferentes saberes e experiências.
Neste sentido, observa-se que a prática interdisciplinar emerge na composição da nova sociedade
baseada no conhecimento de modo a quebrar o modelo cultural instalado na prática disciplinar de ensino e
operar de modo a buscar uma aproximação do saber como elo entre as diferentes áreas do conhecimento em
seus diferentes campos do saber (KOCHHANN, OMELLI, PINTO, 2007). Uma nova prática que deve
pautar-se na ação do ensino e da aprendizagem que transcenda a proposta da disciplinaridade no intuito de
buscar atender e articular soluções educacionais em um projeto voltado para a construção do conhecimento.
A ciência e a tecnologia, ou em outros termos a tecnociência, interagem estreitamente com a filosofia
e a cultura, e evidentemente com nosso modo de conhecimento e de reconhecimento da realidade, do sujeito.
Nesse sentido incide em questões como nos relacionamos com a ciência, a cultura, a sociedade e conosco
mesmo. Os limites e fronteiras que são continuamente questionados tem a ver com o caráter, cada vez mais
visível de um mundo de totalidades, de complexidades, cada vez mais implicadas e horizontalizadas. A
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fragmentação, a divisão a especificação das coisas, dos fenômenos, dos fatos, da matéria, ou mesmo da
energia, que circula e que compõe os corpos, levou a própria física a explodir sua imanência na
nanotecnologia. Porém, é difícil romper com os hábitos intelectuais. As categorias Newtonianas de tempo,
de espaço, matéria e causalidade impregnaram nossa percepção de tal forma que prestam cor, sentido, em
todos os aspectos de nossas ações. O pensamento científico mais difundido é aquele que divide o mundo, os
fenômenos e os fatos em partes para melhor entendê-los. Esta é a premissa da disciplinaridade. O mundo das
ciências e especialmente o mundo da educação ancoram-se nesses princípios, e superá-los requer um
exercício desafiador. O desafio cada vez mais contundente do movimento do real externaliza na tecnociência
a totalidade, a complexidade, a implicação e não mais faz sentido os pensamentos dualistas maniqueístas.
Ou seja, como diz David Bohn o mundo é uma totalidade implicada. Se por um lado, se faz necessário
reconhecer que as disciplinas existem, em seus conceitos em seus métodos, é preciso reconhecer que se
evidenciam cada vez mais as pontes e as elaborações que ocorrem na intersecção entres essas disciplinas. E
não são meras justaposições de disciplinas ou de profissionais, como em algumas situações se acredita
ocorrer. A interlocução entre diversas áreas, de diversas disciplinas, constitui um novo postulado, um
tertiun, como diz Deleuze “um inteiramente outro” uma metade desigual ímpar.
Nessa perspectiva, vislumbrar a interdisciplinaridade, significa sair da zona do conforto das certezas
e operar nas fronteiras, considerar como relevantes os entres (RAYNAUT, 2011).
Thiesen (2008, p. 545) afirma que:
A necessidade da interdisciplinaridade na produção e na socialização do conhecimento no campo
educativo vem sendo discutida por vários autores, principalmente por aqueles que pesquisam as
teorias curriculares e as epistemologias pedagógicas.
Para Piaget (1973) a interdisciplinaridade esta relacionada à interação entre diferentes disciplinas que
conduz a interação real potencializando o enriquecimento mútuo do saber à luz de um conhecimento mais
abrangente que nos tira da visão excludente do pensamento funcional. Neste sentido, estudos consideram a
interdisciplinaridade como prática educacional do futuro, pois apesar desta apresentar elementos
semelhantes, em seus fundamentos e postulados, a prática educacional disciplinar tende a viabilizar uma
educação mais ampla e interconectada nos diferentes saberes e não mais centrada na “minha” singularidade.
Segundo Ribas et al. (2012) a interdisciplinaridade vem sendo discutida por diferentes autores e
pesquisadores haja vista a necessidade de construção e socialização do conhecimento na finalidade de
disseminar e compartilhar o conhecimento. Pautando-se nesta discussão faz-se relevante analisar a
epistemologia da palavra interdisciplinaridade. Se partir de uma análise da palavra, tem-se o termo composto
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do prefixo “inter” (de origem latina que significa posição intermediária, combinação) seguido do substantivo
feminino - disciplina (relativo ramo do saber, componente curricular ou conjunto de regras) e do sufixo
“dade” (forma substantivos que expressam estado, situação ou quantidade). Houaiss (2009) complementa a
reflexão trazendo o termo interdisciplinar como o que estabelece relações entre duas ou mais disciplinas ou
área do conhecimento. Considera-se assim que a interdisciplinaridade permite a troca rica de saberes e,
consequentemente, a ampliação do conhecimento em rede.
Num contínuo, Pombo (2004) traz o conceito pluridisciplinaridade ou multidisciplinaridade
(relacionando à coordenação); interdisciplinaridade (relacionado à combinação) e transdisciplinaridade
(relacionado com fusão). Para a autora, a ideia é que estas palavras, todas da mesma família, às vezes tidas
como cacofônicas, não é verdade. Resultado este que pode ser atribuído, como aponta Pombo (2004), por ser
interdisciplinar uma palavra ampla em sua demasia.
A interdisciplinaridade parte da proposta de que nenhuma forma de conhecimento em si mesma é
racional, como reflete Morin (2007) e Fazenda (2001). Não se ensina, nem se aprende, vive-se, exerce-se
[...]” (FAZENDA, 2001, p. 17). Ou seja, a interdisciplinaridade faz referência a qualquer coisa de ordem da
fusão unificadora variando conforme as circunstancias concretas e os diferentes campos de aplicação
(POMBO, 2004). Para Souza (2010) a interdisciplinaridade constitui-se na perspectiva de transcender a
fragmentação do saber comumente praticada no sistema de ensino tradicional.
O grande desafio centra-se no ponto de vista epistemológico que implica identificar características no
âmbito de atuação de cada uma destas propostas. A multidisciplinaridade pressupõe uma abordagem sob
diferentes perspectivas teóricas-metodológicas agregando diferentes áreas do conhecimento para a discussão
de um ou mais temas. Já a interdisciplinaridade, pressupõe uma forma de construção do conhecimento
decorrente da convergência de duas ou mais áreas do saber. Isso contribui para o avanço das fronteiras da
ciência e tecnologia e, consequentemente, para o surgimento de um novo profissional (CAPES, 2009).
Demo (2001) ressalta que a construção do conhecimento se firma na originalidade e especificidade
de cada área do saber e requer pesquisa e aprofundamento, mas este processo acontece simultaneamente
com a interação e compartilhamento de diferentes áreas, pois cada uma delas é parte distinta em movimento
de interação formando a totalidade do conhecimento.
Contudo, Chou e Chin (2009) enfatizam que, num cenário de inovação educacional, é o professor
quem assume posição de destaque frente a uma nova prática de ensino que forme indivíduos pensantes,
capazes de olhar o mundo de forma diferente, indivíduos completos, orientado por princípios da ética, da
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sustentabilidade, da flexibilidade, da responsabilidade social e dos domínios do saber-fazer, do saber-ser, do
saber-saber e do saber-conviver (DELORS, 1998). Mas como pode-se perceber falar de interdisciplinaridade
é uma tarefa desafiadora e difícil (POMBO, 2004) que nos leva a pensar e repensar em práticas e princípios
fundamentais para uma educação integral do ser humano dentro de uma abordagem pedagógica que
considere conceitos significativos e inovadores para estes estudantes.
Considera-se, segundo a Capes (2009) que a relevância da prática interdisciplinar decorre da
necessidade de se contemplar novas e diversificadas situações que surgem dia a dia no século XXI com
níveis de complexidades diversos e desafiadores muitas vezes decorrentes do próprio avanço do
conhecimento científico e tecnológico baseado numa proposta disciplinar de construção do saber. A natureza
complexa e diversificada destes novos desafios do mundo contemporâneo impulsiona a necessidade da troca
de diálogo não só entre e além de olhares disciplinares. De acordo com a Capes (2009) as novas formas de
construção do conhecimento permitem ricos e amplos desdobramentos no campo da ciência moderna que
excede um olhar estreitamente disciplinar. Para tanto Kochhann, Omelli e Pinto (2007) apontam para a
necessidade de se inserir a prática interdisciplinar começando pela universidade. É neste sentido que
discorre a seção a seguir no intuito de ampliar a reflexão proposta pelo artigo.
3. Aporte prático: relato de experiência com a interdisciplinaridade
Com a necessidade de ressignificação das práticas e conceitos educacionais com o intuito de superar
os modelos educacionais disciplinares para um modelo interdisciplinar, observou-se na literatura a
necessidade de rompimento de paradigmas visando construir uma intersecção de diferentes saberes.
A presente pesquisa traz a empiria para explicitar, na prática, os conceitos e princípios da
interdisciplinaridade num curso de pós-graduação, visando proporcionar uma percepção de como e quando
uma construção interdisciplinar ocorre em uma determinada mediação pedagógica.
Diante desses propósitos utilizou-se como estratégia de pesquisa à luz de uma investigação-ação, as
seis fases propostas por Yin (2001) para um estudo de caso, a saber: formulação do problema, definição da
unidade de análise, elaboração do protocolo de pesquisa, coleta de dados, análise dos dados e a elaboração
do relatório com os resultados revelados pela pesquisa. Os sujeitos da pesquisa foram a professora de Design
Instrucional e seus estudantes. A delimitação temporal foi o terceiro trimestre no período de 2012.
3.1 Cenário de estudo
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As considerações levantadas e analisadas no estudo teórico sobre interdisciplinaridade tornou
possível identificar na disciplina de Design Instrucional, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e
Gestão do Conhecimento (PPEGC), da Universidade Federal de Santa Catarina, um exemplo de empiria
significativo.
O PPEGC originou-se do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção (PPGEP) da
mesma instituição que adotou como ferramenta gerencial planejamento estratégico ampliando suas áreas de
concentração e suas linhas de pesquisa originando um novo domínio de conhecimento de natureza
interdisciplinar que culminou na proposta do PPGEGC.
O PPGEGC/UFSC que teve suas atividades iniciadas efetivamente em 2004 hoje está inserido na área
interdisciplinar, nova denominação desde 2008, substituindo a chamada área multidisciplinar que foi criada pela
Capes em 1999, passando a compor a grande área multidisciplinar (CAPES, 2009). De conceito inicial igual a
cinco, numa escala que compreende de 1 a 7, atualmente o programa tem conceito nos níveis de mestrado e
doutorado. O objeto de pesquisa do PPGEGC é o processo de criação, codificação, gestão e disseminação do
conhecimento. Ou seja, é o conhecimento seu principal objeto de estudo e o capital humano o elemento chave
neste processo o que vai ao encontro da preocupação da Capes (2009) que destaque que, numa proposta de
Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar (PPGI), o produto final deve ser a geração de novos conhecimentos
e qualidade de recursos humanos, pois tem-se a soma de contribuições individuais das partes envolvidas neste
processo de construção. Metaforicamente, a soma do todo é maior do que a individualidade das partes.
O programa busca exercer tanto a multi quanto a interdisciplinadidade por meio da ação transversal
atuando em colaboração com os demais departamentos e centros de ensino da UFSC. Contudo o EGC
entende que seu objeto de pesquisa e formação é essencialmente interdisciplinar, ainda que admita
abordagens multidisciplinares (PACHECO; FREIRE; TOSTA, 2011). A importância da introdução de uma
área multidisciplinar no contexto da pós-graduação, segundo a Capes (2009), decorre da complexidade
crescente, que emergem no mundo contemporâneo, muitas vezes decorrentes do próprio avanço dos
conhecimentos científicos e tecnológicos, baseados construção do conhecimento do saber notadamente
disciplinar.
O PPGEGC tem como missão promover o ensino, a pesquisa e a extensão, de forma interdisciplinar,
sobre o conhecimento como elemento agregador de valor para a sociedade e é nesta perspectiva que as
disciplinas do programa são planejadas e trabalhadas por seu corpo docente (EGC, 2013). Neste cenário a
interdisciplinaridade ocupa posição de destaque na ação e prática de sala de aula no programa em
decorrência de sua natureza intermediada, como indica o prefixo de formação da palavra, que permite
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avançar fronteiras do saber disciplinar articulando, transpondo e construindo conceitos, métodos, teorias nos
diferentes níveis de realidade, de percepção numa turma de indivíduos que estão no programa inspirados nos
fundamentos e postulados da prática interdisciplinar.
Pautada nesta discussão, o item a seguir discorre sobre a prática da disciplina de Design Instrucional
do PPGEGC, disciplina esta que por sua proposta já é interdisciplinar. A ementa da disciplina, geralmente
ministrada anualmente no terceiro trimestre, tem como ementa: teorias de aprendizagem e princípios de
design multimídia para a criação de unidades curriculares. Introdução a ferramentas de desenvolvimento
instrucional. Aplicação de ferramentas à criação de produtos educacionais. Estudos de caso. Oferecida em
nível de mestrado e doutorado, a disciplina é de caráter eletivo e da área de concentração de mídia e
conhecimento no programa (EGC, 2013).
Neste ambiente, o objetivo principal da disciplina e das demais existentes no programa consiste em
pesquisar, conceber, desenvolver e aplicar modelos, métodos, técnicas e instrumentos no ciclo de atividades
caracterizadas pelos objetos de pesquisa de cada uma das disciplinas na perspectiva das diferentes áreas do
conhecimento articuladas nas três diferentes áreas do programa, a saber: engenharia do conhecimento,
gestão do conhecimento e mídia e conhecimento avançando o diálogo não só entre as disciplinas próximas,
mas entre diferentes áreas, como sugere a área interdisciplinar, segundo a Capes (2009).
Para esta pesquisa trabalhou-se inicialmente com um levantamento bibliográfico e com a
metodologia pesquisa-ação que se ancorou numa observação participante das autoras como estudantes
egressas da disciplina, bem como uma entrevista semi-estruturada aberta com a professora titular, efetivando
assim, a análise aprofundada de uma situação real.
A partir da observação participante foi possível identificar potencialidades, limitações e desafios no
cerne da discussão, momento essencial e necessário para reavaliar constantemente as práticas e
planejamento, buscando assim, potencializar a prática interdisciplinar de modo a se potencializar o processo
de construção do conhecimento.
3.2.1 Potencialidades
Na atual sociedade onde o conhecimento tornou-se o elemento de principal valor, atentar-se para o
processo de ensino aprendizagem tem sido pauta ao considerar este como potencializador do
desenvolvimento humano. Assim, é preciso estimular uma reflexão pedagógica aderente à realidade atual e
em todos os níveis. Fatores essenciais para essa reflexão e que não podem faltar estão o reconhecimento do
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perfil do estudante, bem como as suas expectativas, com a inserção de desafios significativos nas propostas
de estudo, promover intenções verdadeiras e expressivas, respeitando e incluindo as manifestações dos
participantes. Conta ainda, a importância de não se perder o foco do tema em questão, mesmo que seja para
negá-lo caso avalie-se que não há interesse ou contribuição para o grupo de aprendizes e professores.
Ao trabalhar com a prática interdisciplinar, é necessário considerar a diversidade de ideias e de
saberes para gerar um novo saber. Na interdisciplinaridade é imprescindível que este princípio seja
considerado na sua base epistemológica e não apenas como técnica ou método, pois esta é uma concepção
de conhecimento que está no limiar da superação da disciplinaridade. As abordagens multidimensionais,
complexas e em rede atendem melhor os desafios dos avanços tecnocientíficos do momento. A
interdisciplinaridade não é a justaposição das áreas, mas sim, uma construção inédita dentre as áreas. Um
terceiro fundamento substancial.
Para que esta prática ocorra positivamente e de fato, é imperativo ter um ambiente que proporcione a
colaboração permitindo que todos os envolvidos atuem como autores e coautores. O professor precisa estar
aberto, ser flexível e ter uma visão múltipla.
O trabalho no viés interdisciplinar proporciona uma relação ímpar entre teoria e prática em diferentes
cenários. Possibilita a construção em conjunto do conhecimento com diferentes áreas de modo que se possa
estabelecer relações pertinentes entre si. Enaltece a necessidade de se estabelecer os elos entre a teoria e o
método para investigar diferentes pontos de vista e ainda, permite transformar a estrutura mental do
indivíduo sob outras óticas.
Portanto, o trabalho realizado interdisciplinarmente tem condição sine qua non a abertura para o
novo, o não linear e as infinitas possibilidades de se chegar, ou não, a solução de um problema.
3.2.2 Limitações
As contenções que permeiam a prática interdisciplinar envolvem questões como a possibilidade de
cair em generalidades. Existe preocupação de perder a direção da intenção, de estabelecer relações entre as
áreas de modo equivocado, ou seja, o receio maior está pautado em perder o domínio, a certeza.
Observa-se que o medo e a resistência em utilizar esta prática advêm, principalmente, por parte dos
docentes, por insegurança de perder o controle didático por falta de procedimentos uniformes entre as áreas
em diferentes instancias. Ou seja, advém da cultura disciplinar da comunidade científica e acadêmica. Em
síntese, um processo reconhecido, mas ainda limitador, pois é uma área que se encontra em construção. É
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uma área inovadora e inovar é correr riscos. Requer boa vontade e coragem para trabalhar com inovação. O
Brasil destaca-se quando o tema é inovação, contudo o desafio está em consolidar a ideia inovadora.
3.2.1 Desafio
Os desafios que circundam essa prática educativa são pautados nas diferenças. A ação do professor
precisa estar pautada em fazer escolhas, em arriscar-se e, ainda é preciso que esteja disponível para o novo,
com espírito aberto, flexível, curioso e persistente.
Diante das potencialidades, limitações e desafios observados, com base na prática docente da
disciplina de Design Instrucional do PPGEGC, a interdisciplinaridade se objetiva, pois diversos atores com
olhar de diversos pontos diferentes, com subsurçores diferentes, olhando para um mesmo objeto ou
fenômeno e analisando este objeto ou fenômeno sob os diferentes pontos de vista.
A potencialidade da discussão seria empobrecida se os olhares estivessem todos sob o mesmo
ângulo, pois os desafios do trabalho interdisciplinar proporcionam o olhar sob diferentes pontos de vista e
permite a construção de um terceiro ponto de vista, que não é mais linear, nem vertical arbitrário. Tem-se
nesse cenário a convergência da convergência onde não se está limitado a olhar de um ponto de vista único,
mas sim desafiado a ele numa multidimensionalidade infinita, de forma inusitada e inédita cada vez que
acontecer. Essa discussão proporciona insegurança e desconforto, mas ao mesmo tempo é gratificante em
sua essência e resultados.
Sendo assim, a prática interdisciplinar aponta a potencialidades, limitações e desafios dentro de seu
grande objetivo que é gerar discussão, dúvidas e não pontos finais. Considera-se que, nesta prática, criam-se
então novos espaços de construção do conhecimento que nos levam a repensar o papel do professor e do
estudante.
Neste sentido, observa-se a relevância, no mundo contemporâneo, do conhecimento se colocar à luz
da prática e além das fronteiras da disciplinaridade. Exige-se hoje uma visão complexa para além das
disciplinas na geração e construção de novos conhecimentos. É nesta proposta que a disciplina de Design
Instrucional, oferecida pelo PPGEGC, em sua essência é considerada interdisciplinar, característica também
do profissional da área, que atua de maneira interdisciplinar com discussão focada em diferentes áreas do
saber de modo a se criar um tertiun – e não simplesmente justapor os conhecimentos existentes.
A prática interdisciplinar difere-se da proposta disciplinar que em sua composição considera apenas
um conjunto específico de conhecimento com características próprias apresentadas no plano de ensino. Já a
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proposta interdisciplinar, aqui exemplificada pela disciplina de Design Instrucional que sugere diferentes
níveis de cooperação, tem como desafio e também potencialidade a convergência entre as diferentes áreas do
saber, entre as disciplinas.
No âmago desta discussão da interdisciplinaridade como ação e prática em sala de aula, grandes
desafios fazem-se presentes e daí o papel do professor e instituições de ensino em promover e estabelecer
relações entre as diferentes áreas do conhecimento de modo a permitir um encontro de indivíduos em suas
diferentes formações teóricas e vivências práticas. Um encontro entre o filosófico e o científico. Um
encontro entre a ciência e a tecnologia de modo a responder a singularidade, complexidade e desafio desta
sociedade baseada no conhecimento.
Considera-se que, ao apontar as potencialidades e limitações permite que a equipe multidisciplinar de
discentes e pesquisadores da área, possam melhor aproveitar a discussão teórica científica diante de um
cenário real e de interesse, bem como, considerar o conhecimento pré-existente do indivíduo.
Escrevendo, a partir desta experimentação, observamos o que os princípios da interdisciplinaridade e
seus atributos vão além de uma disciplina e para tanto é necessário que professor e estudantes dispam-se de
"sua" disciplina. Uma prática interdisciplinar não se reduz à justaposição de áreas ou de pontos de vistas,
mas compreende um novo constructo que emerge da interação entre diferentes abordagens.
4. Considerações finais
Hoje a educação vislumbra uma reforma curricular, um modelo híbrido de ensino e nesta linha a
prática interdisciplinar vem ganhando espaço, a medida que os pensamentos vão além da disciplinaridade,
perpassando as questões multi, inter ou ainda transdisciplinar com a proposta de construção do
conhecimento. Onde a formação pessoal decorre da qualidade e contribuição para além das contribuições
individuais do ser ou de vários seres dentro de uma visão centrada numa mesma área do saber. Dessa forma,
remete-se a um aprofundamento reflexivo quanto ao papel do docente e do discente no processo de pesquisa,
ensino e aprendizagem.
Evidenciou-se que, para se fazer uma prática interdisciplinar, é necessário perceber o que esta
abordagem nos traz. É preciso romper, muitas vezes, barreiras entre o corpo docente e até mesmo discente.
É integrar-se a essa “nova” filosofia onde a construção do conhecimento é potencializada pela reunião e
discussão entre diferentes áreas. Contudo, hoje é uma prática que aponta para a necessidade da sociedade do
conhecimento baseada em múltiplos saberes. Identificou-se ainda nesta presente pesquisa, que a prática
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interdisciplinar permite um amplo diálogo em diferentes saberes, tanto no âmbito discente quanto no âmbito
docente.
A pesquisa permitiu ainda identificar que a prática interdisciplinar rompe barreiras que a
disciplinaridade desconhece, transcende os saberes individuais, lineares e únicos. Propicia ainda a discussão
em diferentes ângulos, levando a mais questionamentos do que respostas seguras e exatas o que traz uma
reflexão ampla para a construção de novos conhecimentos. A interdisciplinaridade não é a justaposição das
áreas, mas sim uma construção inédita entre diferentes áreas do conhecimento. É a construção de um
terceiro fundamento substancial ao aprendizado do estudante e ao seu crescimento enquanto indivíduo.
Sendo assim, considera-se que a prática interdisciplinar existe, é possível de ser trabalhada e
contribui para uma formação mais ampla em suas reflexões. Uma educação que aponte para práticas de
ensino e aprendizado numa proposta colaborativa capaz de superar o ensino fragmentado, hierarquizado e
superado que está instituído nas práticas disciplinares.
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Interdisciplinaridade em sala de aula: reflexões e práticas