8 | DESTAQUE | PÚBLICO, SEG 5 MAR 2012 O QUE NÃO SABEMOS SOBRE NÓS JUSTIÇA Enquanto não se tomar em conta a necessidade de saber a resposta a algumas destas perguntas não teremos nunca uma ideia justa, ou aproximadamente justa, do que é a justiça e de como funciona a justiça em Portugal. As médias estatísticas que nos são fornecidas escondem a realidade. Por exemplo, o crime de pedofilia: há um tabu e esse tabu vem de um disfuncionamento, senão de uma doença congénita de um certo tipo de poder. Toda a gente sabe que, em múltiplos países, inúmeros detentores do poder (de toda a ordem) estão implicados em práticas de pedofilia, sem que seja possível prová-lo. Como se houvesse uma tendência estrutural (quer dizer, pulsional) entre o acto de pedofilia e o exercício do poder (como sucede com a violência doméstica). E não é possível prová-lo pela conivência da justiça com o poder. Mas estas perguntas são uma gota de água num oceano de perguntas a fazer. Suponhamos que há inquéritos sobre quantos portugueses estariam disponíveis para pagar um suborno. A questão é: qual é a credibilidade das respostas dadas a esses inquéritos? Com que sinceridade as pessoas respondem? E qual a percentagem de políticos condenáveis por corrupção que chegam a ser condenados? É impossível saber porque há um tabu intransponível, inquebrável — sabemos que há muito mais políticos corruptos do que aqueles que são condenados porque há efeitos muito mais longínquos de que é impossível encontrar a fonte e isso indica esse tabu. Se conhecéssemos a resposta a esta pergunta virávamos a justiça do avesso. Mas não a conhecemos o que hipoteca toda e qualquer possibilidade de reforma radical da justiça.” O modo como o Ministério da Justiça trabalha a informação estatística não permite obter informação com o grau de desagregação pretendido. Mas sabe-se quanto tempo demoram a ser julgados pequenos delitos, como o de furto simples ou a injúria (12 meses e 8 meses, respectivamente); não é possível é saber quanto custa ao Estado um processo destes. No que respeita aos políticos condenados em crimes de corrupção e peculato a informação está “protegida pelo segredo estatístico”. Quanto às mulheres vítimas de abusos, há um inquérito do Observatório Nacional de Violência de Género da FCSH/ Universidade Nova que revela que 1,1% de mil inquiridas afirmaram que já tinham sido coagidas a ter relações sexuais SAÚDE SAÚDE MENTAL Quanto é que os portugueses gastam em saúde? Gasto por habitante com saúde Euros por ano Roménia 353,39 Hungria 765,57 Portugal 1627,41 Espanha 2139,44 Japão 2207,13 Alemanha 3221,36 Suécia 3335,71 França 3370,66 EUA 5227,29 Luxemburgo 5438,46 Fonte: Fonte: Eurostat. Gastos de prestadores de saúde em milhões de euros por habitante. Comparativamente a outros países, estes dados de 2008 são os mais recentes. Sem resposta Quantas pessoas vão morrer até ao fim deste ano por não terem acesso aos tratamentos adequados? 10.000 5000 0 Mar Jun Set Dez Há dados na saúde aos quais é possível ter acesso, e há questões que jamais serão respondidas mas que têm que contar nas políticas de saúde. Quando se diz que as listas de espera diminuíram, não se conta com as pessoas que morreram entretanto porque não foram atendidas. Há aqui uma negatividade que tem de ser tomada em conta. Os mortos têm que entrar nas estatísticas. Nas políticas actuais de cortes de serviços, de instituições, de eliminação de hospitais e de maternidades não se tem em conta a eventual degradação dos cuidados de saúde e as mortes que essas políticas podem trazer. Faz parte daquilo que não se sabe.” O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge não tem nenhum estudo feito ou a decorrer sobre os temas levantados por estas perguntas, segundo o gabinete de imprensa. Já para os erros de prescrição médica, o Infarmed não recolhe esses dados. Mas uma estimativa feita em 2004 por Luís Martins e José Fragata a partir de estudos conduzidos nos Estados Unidos dizia que 20 a 30 por cento das mortes nos hospitais portugueses se devia a erros de prescrição médica. Segundo Francisco George, director da Direcção-Geral da Saúde, “as respostas a algumas das perguntas” formuladas “implicariam tempo e estudos de cariz académico” e “outras não podem, de todo, ser respondidas (“Quantas pessoas vão morrer até ao fim deste ano por não terem acesso aos tratamentos adequados?”).” Quanto à variação das taxas de mortalidade, apesar de não haver dados oficiais, um estudo do sociólogo Ricardo Antunes, do ISCTE, em Lisboa, mostra que os profissionais técnicos e de enquadramento estudados viveram, em média, 82 anos, e os operários apenas 68,8 anos. Quantos sofrem de depressão e outras perturbações mentais? Percentagem da população portuguesa Pertubações da ansiedade Perturbações depressivas 16,5% 7,9% 6,8% 1,1% Pertubação bipolar Depressão major Fonte: De acordo com dados preliminares do primeiro estudo epidemiológico nacional, divulgados em 2010, da responsabilidade de Caldas de Almeida, antigo coordenador nacional da Saúde Mental. Segundo o actual coordenador Álvaro Carvalho este é o único estudo fiável sobre depressão em Portugal. Sem resposta Quantas pessoas vivem mal por ignorarem que o seu problema é do foro psiquiátrico? 3 milhões de casos 2 1 2003 2006 2010 Quantos portugueses morrem por não serem atendidos a tempo? Quantos portugueses tomam antidepressivos e ansiolíticos? Quantos os tomam sem necessidade? Quantas pessoas morrem por ano devido a erros de prescrição médica? Quantas mortes por suicídio se devem a depressão? Até que ponto em Portugal as taxas de mortalidade variam em função das diferenças sociais? As doenças psíquicas que hoje atingem mais os portugueses são diferentes das doenças psíquicas mais comuns antes de 2004? Temos ideia que a situação mental dos portugueses está dependente da crise. A situação mental é reveladora de uma situação socioeconómica mas, ao mesmo tempo, é impossível justificar objectivamente essa relação de causalidade. Haverá uma evolução no tipo de patologia dos portugueses entre 2004 e 2011? Estou convencido de que há cada vez menos neuroses e cada vez mais patologias do tipo psicótico. Porque qualquer coisa rebentou. Os neuróticos protegem-se fechando-se e qualquer coisa que tem a ver com a crise quebrou a muralha da família, atravessou o espaço privado e buliu com as pessoas. É o que veio de fora, é a própria troika. Isto faz com que a patologia mude. A depressão já não é da ordem neurótica mas psicótica. A dificuldade em definir um malestar psíquico como um sintoma de uma doença precisa, a impossibilidade de relacionar esse mal-estar com todos os factores (sociais, familiares, económicos, psicológicos) que para ele contribuem, impedem que se tenha uma ideia precisa da “saúde” colectiva do país. Portugal está doente, a ficar doente, ou em vias de adquirir uma saúde estonteante? Entramos aqui no zero ou quase zero do saber.” Cálculos cruzados por Ricardo Gusmão, coordenador português da Aliança Europeia Contra a Depressão, mostram que 600.000 portugueses tomariam antidepressivos e 750.000 ansiolíticos e hipnóticos. Mas estes dados não são fiáveis, pois são feitos a partir de número de medicamentos vendidos, o que pode dar valores inflacionados porque muitos doentes tomam mais do que uma dose diária e “não há nunca adesão de 100%”, diz Gusmão. Porém, dados do Eurobarómetro (2010) mostram que em Portugal a prescrição de antidepressivos é cinco vezes superior à média da União Europeia. Segundo o vice-presidente da Sociedade de Suicidologia, Pedro Frazão, os últimos dados de 2010 mostram que a taxa de suicídio é de 10.3 por 100.000 habitantes e não é “muito elevada” (por exemplo, o país onde actualmente existem mais suicídios é a Lituânia com uma taxa global de 42.1 por 100.000 habitantes), mas os dados da relação directa entre suicídios e a depressão não estão trabalhados.