UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA Bela Malvina Szajdenfisz O ADOLESCENTE E SUAS ESCOLHAS: CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A ESCOLHA PROFISSIONAL Rio de Janeiro 2008 Bela Malvina Szajdenfisz O ADOLESCENTE E SUAS ESCOLHAS: CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A ESCOLHA PROFISSIONAL Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da Universidade Veiga de Almeida como requisito parcial para obtenção do título de Mestre Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Orientadora: Profª Drª Maria da Gloria S. Sadala Rio de Janeiro 2008 S996a Szajdenfisz, Bela Malvina O adolescente e suas escolhas: contribuições da psicanálise para a escolha profissional / Bela Malvina Szajdenfisz, 2008. 118p. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Prática Psicanalítica, Rio de Janeiro, 2008. Orientação: Maria da Glória Sadala 1. Psicanálise do adolescente. 2. Orientação profissional. I. Sadala, Maria da Glória (orientador). II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, III. Título. CDD – 155.5 Bela Malvina Szajdenfisz O ADOLESCENTE E SUAS ESCOLHAS: CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A ESCOLHA PROFISSIONAL Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da Universidade Veiga de Almeida como requisito parcial para obtenção do título de Mestre Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Aprovada em 17 de outubro de 2008 BANCA EXAMINADORA __________________________________ Prof.ª Maria da Gloria S. Sadala - Doutora Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ __________________________________________ Prof.ª Sonia Xavier de Almeida Borges - Doutora Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC / SP ____________________________________________ Prof.ª Rosane Braga Melo - Doutora Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Dedico este estudo aos meus pais, David e Maria, com saudades. ao meu marido Samuel, companheiro fiel de todas as horas e meu grande incentivador. aos meus filhos Isaac e Carla, presenças fundamentais em minha vida. aos meus netos Guilherme, Leonardo, que, entrando na adolescência, me permitem compartilhar de seus processos de crescimento. à querida neta Letícia, minha grande paixão. aos meus irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhos netos, com amor. Meus agradecimentos aos meus alunos, com quem muito aprendi. aos meus pacientes, que me possibilitaram a realização deste trabalho. aos meus mestres e colegas, presenças fortes na minha vida acadêmica. ao Henry Courcy pela contribuição na revisão da digitação deste trabalho. à Gloria Sadala, pelo carinho, respeito e paciência com que acolheu meu escritos e pela orientação marcada por uma competência, objetividade e organização sem igual, o que me possibilitou integrar as minhas profissões de ontem no hoje. “[...] Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto à ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. [...] A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida [...].” Sigmund Freud RESUMO SZAJDENFISZ, Bela Malvina. O adolescente e suas escolhas : contribuições da psicanálise para a escolha profissional. 2008, Dissertação de Mestrado. Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro. A presente pesquisa analisa, na perspectiva psicanalítica, os processos de escolha na adolescência, considerando-se três aspectos: a importância dos pais e dos mestres para o adolescente nos processos de escolha, a relevância das operações de alienação e separação, e a posição do psicanalista frente às questões adolescentes. Trabalha o conceito de adolescência para a psicanálise, aponta para algumas dificuldades que se apresentam no processo de separação e busca valorizar, pelas vias da transferência e do laço social, a influência dos mestres no momento de elaboração da escolha da profissão. A relevância do tema se deve não só pela busca de melhor qualidade nas práticas profissionais com adolescentes, como também pela perspectiva em poder ampliar o conhecimento sobre a adolescência junto aos pais, aos mestres e junto às entidades que lidam com essa camada da população tão pouco escutada em suas dificuldades. Palavras-chave: adolescência; psicanálise; escolha. ABSTRACT SZAJDENFISZ, Bela Malvina. The adolescent and his choices: contributions of psychoanalysis as regards the professional choice. 2008, Master’s dissertation. Universidade Veiga de Almeida, RJ. Based on the psychoanalytical perspective, the present research analyses the processes of choice in the adolescence. In order to carry out this research we have taken into account three points: the importance of both the parents and the masters throughout the professional choice process, the relevance of alienation and separation operations and, finally, the position of the analyst before the questions which are brought up by the adolescents themselves. We work on the concept of adolescence from the psychoanalysis perspective so as to point out some of the difficulties which are brought up along the separation process. The research also tries to highlight the importance of the masters when it comes to choosing one’s career. We assume this is a relevant theme to be worked on not only because it aims at bettering the professional practice with adolescents but also because it aims at enhancing our expertise in dealing with them together with their parents and masters. Once we believe that adolescents are rarely listened to when it comes to their claims we find it important to touch this theme. Keywords: adolescence; psychoanalysis; choice. LISTA DE FIGURAS Figura 1 Fotomontagem – hcourcy 1: …………………………. 15 Figura 2 Quadro: Sexualidade em Freud................................. 38 Figura 3 Diagrama: Alienação................................................. 44 Figura 4 Diagrama:Separação................................................ 46 Figura 5 Fotomontagem – hcourcy2........................................ 48 Figura 6 Fotomontagem – hcourcy3.......................................... 83 Figura 7 Fotomontagem – hcourcy4.......................................... 102 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 1 2 ADOLESCÊNCIA, CULTURA E PSICANÁLISE................................................... 16 2.1 UM POUCO DE HISTÓRIA................................................................................. 16 2.2 ADOLESCÊNCIA: RITOS INICIÁTICOS E MARCAS CORPORAIS................... 21 2.3 PSICANÁLISE E ADOLESCÊNCIA.................................................................... 30 3 AS ESCOLHAS DO SUJEITO.............................................................................. 49 3.1 O SUJEITO E O OUTRO.................................................................................... 49 3.2 O SUJEITO E O ENCONTRO COM A PUBERDADE......................................... 52 3.3 O PROFESSOR E O ANALISTA......................................................................... 61 4 O ADOLESCENTE E A ESCOLHA PROFISSIONAL.......................................... 84 4.1 A ESCOLHA PROFISSIONAL E A ESCOLA...................................................... 84 4.2 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A ESCOLHA PROFISSIONAL.... 93 5 CONCLUSÃO...................................................................................................... 103 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 109 APÊNDICE A - OFICINA COM ADOLESCENTES: O MUNDO DO TRABALHO....116 APÊNDICE B - PROPOSTA DE ENCONTROS COM PAIS E PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, EM INSTITUIÇÕES DE ENSINO MÉDIO E TÉCNICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO...............................................................................117 11 1 INTRODUÇÃO O interesse por adolescentes manifesta-se na prática profissional da autora, há algum tempo, em função da experiência como professora em escolas públicas do Ensino Fundamental e Ensino Médio do Município do Rio de Janeiro, no período de 1965 a 1991. De 2002 até a presente data, atuando inicialmente como psicopedagoga e psicóloga e, mais recentemente, como psicanalista, em especial com sujeitos de 14 a 21 anos, pudemos recuar no tempo, e agora, de um outro lugar, tentar buscar uma melhor compreensão para a questão das escolhas na adolescência, em especial, a escolha profissional. O tema - O adolescente e suas escolhas: contribuições da psicanálise para a escolha profissional - é fruto da experiência em dois campos de atuação: a escola e a clínica. Esses jovens têm trazido em ambas as situações, conflitos como conseqüência das dificuldades de escolhas de turma, conforme as áreas que pretendem seguir, exigência das coordenações pedagógicas de Instituições de Ensino, ainda na primeira série do Ensino Médio. Em 1987, pudemos perceber o quanto um grupo de adolescentes de 8ª série do Ensino Fundamental conseguiu reverter o quadro de uma situação de conflito, pelo desejo de se fazer visível e atuante, na luta pelos seus direitos, adquiridos e exercidos progressivamente na escola, desde a 1ª série. Eis alguns fragmentos retirados de depoimentos da época, na luta da comunidade pelo seu direito de escolha: “[...] Sabe? Um sonho, como um amor deve ser guardado para sempre. Dizem que ‘sempre’ não existe. Mas existe sim. Quando se ama muito uma pessoa, a pessoa amada pode até estar em Marte, Vênus ou Plutão; não importa, não importa mesmo, porque tudo que essa pessoa fez, fica marcado para sempre [...] Obrigada por você durante algum tempo, ter sido nossa. Tchau!” (Fragmento de uma carta aberta de alunos de 8ª série do Ensino Fundamental no mural da escola em junho de 1987). “[...] Nossa comunidade almeja a formação de homens e mulheres responsáveis que saibam quais são os seus direitos, que os defendam e que respeitem o direito do próximo. É isto um sonho possível?” (fragmento do discurso de mãe de aluno em Assembléia realizada na escola junto à Secretaria de Educação em junho/1987). 12 No primeiro fragmento, a carta aberta de alunos da referida escola possibilitounos pensar na questão da transferência. O amor transferencial se faz presente na figura do professor, simulacro das figuras parentais e alvo de representações transferenciais. No segundo fragmento, a fala de uma mãe é reveladora de quanto se espera, com a ajuda dos representantes da escola, que os adolescentes dessa comunidade assumam a responsabilidade de seus atos e lutem por seus direitos. A longa trajetória profissional com adolescentes de classes sociais diferentes permitiu sentirmos suas inquietações frente a seus atos, dúvidas profissionais e incertezas nos seus projetos de vida, e também preocupações de familiares que se fazem presentes. Os adolescentes encantam-se com esse momento pubertário, momento de novas descobertas, de extrema ansiedade para tornarem-se “livres”, mas ao mesmo tempo impactados com esse mundo globalizado, conturbado e assustador da contemporaneidade. Como os pais se situam diante desse filho adolescente? Como exercem a função de possibilitarem ao filho assumir uma nova posição subjetiva em sua vida sem se despedaçarem? E a escola? Como seus profissionais lidam com a queda das certezas do sujeito, em que este não se reconhece no seu próprio corpo, em que precisa ser aceito pelo outro, em que tende a aglutinar-se em grupos, em que se vê impelido a transgredir, em que é convocado a amar e ser amado? Que efeitos são provocados no jovem, quando, diante desse vazio angustiante, se vê convocado, ainda numa primeira ou segunda série do Ensino Médio, com quinze anos aproximadamente, a fazer a escolha de uma profissão de uma forma impositiva e, por vezes, perversa, para ser “encaixado” na turma que lhe é, na opinião da escola, adequada? Como lidar com esses jovens em diferentes contextos, de modo a se sentirem livres, mas sem desampará-los? Alberti, ao se referir ao sujeito adolescente, diz: “[...] sujeito que escolhe sustentado na alienação ao Outro, mas inscrevendo na relação com o Outro, a vertente da separação. O trabalho da adolescência se inscreve na elaboração desse 13 binômio: alienação e separação.” (ALBERTI, 2004, p. 65). Não tendo mais seus pais como responsáveis pelas suas escolhas, que dificuldades podem surgir? Uma das conseqüências do difícil desligamento da autoridade dos pais, é o adolescente deparar-se com a responsabilidade de seus atos. As escolas e pais que lidam diretamente com esses jovens manifestam suas dificuldades com as escolhas profissionais dos filhos, quando esses precisam fazê-las antes de terem operado suficientemente o processo de separação, necessário para que suas escolhas se sustentem nos seus desejos. A presente pesquisa analisa, na perspectiva psicanalítica, os processos de escolha na adolescência, considerando-se três aspectos: a importância dos pais e dos mestres para o adolescente nos processos de escolha, a relevância das operações de alienação e separação, e a posição do psicanalista frente às questões adolescentes. Analisa o conceito de adolescência para a psicanálise, aponta para algumas dificuldades que se apresentam no processo de separação e busca valorizar, pelas vias da transferência e do laço social, a influência dos mestres no momento de fazer escolhas. Este trabalho comporta quatro capítulos sendo que o primeiro capítulo apresenta um breve percurso sobre a origem e evolução do conceito adolescência sob o aspecto cultural, dando ênfase aos ritos iniciáticos e marcas corporais em culturas do Ocidente e, sob o aspecto psicanalítico, dando ênfase à teoria da sexualidade infantil em Freud e aos conceitos de alienação e separação em Lacan. No segundo capítulo há uma preocupação em estudar as escolhas do sujeito, situando-o no campo do Outro e considerando seu encontro com a puberdade, assim como seu encontro com os mestres, o analista e a construção do sujeito adolescente no laço social. O terceiro capítulo trata da questão da escola, da inscrição das profissões na legislação brasileira do ensino, da orientação vocacional e da escolha profissional propriamente dita, nas visões educacional e psicanalítica. O quarto capítulo traz uma síntese do percurso realizado, ressalta a importância da família nesse processo de escolhas do adolescente. Faz uma breve análise sobre a transitoriedade e a imprevisibilidade do mundo atual, sinalizando o 14 perigo que representa, hoje, o discurso do capitalista para as escolas e para os sujeitos adolescentes, nos seus processos de escolha de profissão. A relevância do tema se deve não só pela busca de melhor qualidade nas práticas profissionais com adolescentes, como também pela perspectiva em poder ampliar o conhecimento sobre a adolescência junto aos pais, aos mestres e junto às entidades que lidam com essa camada da população tão pouco escutada em suas dificuldades. Como produto final, pretendemos, a partir dos resultados, fornecer subsídios para o processo de escolha profissional do sujeito adolescente a profissionais que atuam junto a esses jovens em Instituições de Ensino e de Saúde, através de dinâmicas em escolas e oferta de encontros com pais, sobre o tema da adolescência e escolha de profissão. 15 Fotomontagem - hcourcy01 16 2 ADOLESCÊNCIA, CULTURA E PSICANÁLISE 2.1 UM POUCO DE HISTÓRIA Desde a Grécia Antiga, no século V a.C., já se coloca o adolescente no centro do discurso, não se utilizando o termo adolescente, mas efebo, palavra de origem grega Εφηβος que significa homem moço, mancebo. Esses jovens eram iniciados na vida sexual por seus mestres, pela via da feminilidade, por uma questão cultural. Submetiam-se não só ao aprendizado de ginástica, caça, equitação, mas também a experiências eróticas com mais velhos que os raptavam para serem seus amantes, a exemplo do rapto de Crísipo retratado por Sófocles, no mito de Édipo. (Rudnytsky, 2002). Ainda que o termo de origem latina adolescens tenha sido utilizado, pela primeira vez, em escritos da literatura com Plauto, no século II a.C., somente no final do século XIII inicia sua circulação na sociedade, designando o período em que se instala a educação de jovens entre 14 e 21 anos, calcada numa ética política, que irá se estender, até o século XIV na Europa e no Oriente. A infância e a adolescência não são, no entanto, delimitadas como categorias específicas naquele momento. Philippe Ariès (1981) coloca a categoria adolescência como um momento de vida situado historicamente, nem sempre entendido e conduzido da mesma maneira através do tempo e das diferentes culturas. De acordo com esse historiador, na Idade Média havia uma ausência de reconhecimento da infância e da adolescência. Naquela época, aos seis anos, a criança saía da infância e, assim que tinha condições de viver sem o auxílio constante da mãe ou ama, passava a viver um mundo adulto como aprendiz de ofício. A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança, então, mal adquiria um desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude. (ARIÈS, 1981, p. 10). Somente com a entrada do século XVIII, uma preocupação com a criança é 17 viabilizada, com novas formas de pensar e entender a criança, em conseqüência a uma série de transformações sociais e econômicas que ocorrem na civilização. Dentre elas as grandes descobertas, as reformas religiosas, mudanças nas concepções do homem que possibilitaram a revolução industrial, marco fundamental para a alteração da visão das crianças. Com a entrada do mundo capitalista em substituição ao mundo feudal, falecimento da nobreza e aparecimento da burguesia, surge uma nova redistribuição social, derivada do grupo de artesãos. A substituição da antiga família extensa pela família nuclear moderna, entre os séculos XVIII e XIX, possibilita pensarmos uma infância centrada nas figuras parentais. As crianças passam a ser cuidadas, protegidas e educadas no espaço familiar restrito. Até o século XVIII não havia lugar para a adolescência, sendo a mesma confundida com a infância. Transitava-se da infância para a idade adulta, sem que houvesse essa passagem, a não ser através de ritos, cerimônias religiosas, com uma simbologia de um ritual específico e um poder misterioso de presentificar o laço entre os humanos e a divindade adorada. Sua eficácia dependia da repetição do rito, tal como foi praticado e consagrado pelo próprio Deus em sua forma inicial, abolindo, assim, a distância entre o passado e o presente. A partir da metade do século XVIII, a adolescência começa a consolidar-se como conceito, graças a fatores sociais, políticos, econômicos, educacionais e, em especial, aos avanços da pedagogia, da medicina e da filosofia. Nominé, ao se referir à adolescência, ressalta: O que depois irá conferir um estatuto à juventude, e é aí que encontraremos a adolescência, é o fato de as crianças serem separadas dos adultos por meio da escola. A juventude transformouse em faixa etária em razão de seu isolamento no interior das escolas. [...] isola-se assim um período de vida, que se alojará em um espaço cada vez maior entre a infância e o estado adulto. (NOMINÉ, 2001, p. 36). Rousseau, filósofo defensor da idéia de que o homem é um ser ativo que constrói o seu próprio saber na interação com o mundo, é um dos primeiros a definir 18 crise de identidade sexual na puberdade, no seu livro Emílio, ou da Educação, em 1762. Como preceptor, ao promover a entrada de Emílio na sociedade, relata: Introduzi um jovem de 20 anos no mundo; bem conduzido, será dentro de um ano mais amável, mais judiciosamente polido do que aquele que nele terá sido educado desde a infância [...] mas certas situações e certos espetáculos excitam no sangue da juventude, sem que ela saiba deslindar ela própria a causa dessa primeira inquietude, que não se acalma facilmente e não tarda em renascer [...] Atentai, portanto com cuidado para o jovem. Ele poderá defender-se de tudo, mas cabe a vós defendê-lo contra ele próprio. (ROUSSEAU [1762], 1979, p. 379-387). Ao introduzir o jovem no mundo adulto, Rousseau prenuncia a travessia que inquieta o jovem, e que torna a inquietá-lo a cada vez que se depara com uma situação inusitada. Como a criança, ao iniciar a andar, necessita de saber que alguém vai protegê-la se cair, assim também o jovem precisa de uma retaguarda que lhe dê sustentação diante de seus atos. No Brasil, no final do século XIX, com o início da industrialização, a categoria adolescente começa a ocupar seu lugar nos campos de trabalho, em espaços públicos e sua mão-de-obra passa a representar uma ajuda no orçamento doméstico. A vida social se vê, nesse momento, voltada para a família, mas há ainda uma precocidade da passagem da criança para a vida adulta devido à demanda de mãode-obra infantil na indústria têxtil. Del Priore (2007) refere-se à nuclearização da família e à preocupação com a escolarização da criança e do jovem como uma das faces do grande movimento de moralização da sociedade, o que irá conferir um estatuto à juventude pela entrada de seus filhos na escola, fenômeno iniciado pela burguesia que traz consigo o isolamento dos jovens da sociedade e, em conseqüência, epidemias de suicídio. São dessa época os relatos de primeira comunhão, aumento de escolarização, entrada no mundo do trabalho como aprendiz, mas tudo relacionado a rapazes. As moças tinham como única função preservar a virgindade. Numa sociedade cristã, seu destino foi, durante muito tempo, o casamento ou o convento. As mulheres não tinham a menor liberdade e o trabalho feminino associava-se à moral e à disciplina. Ao lado disso, 19 desenvolvia-se um horror ao corpo e à sexualidade, ambos sob um controle rígido da família, forma encontrada pelas famílias para velar a sexualidade. As transformações da criança para a jovem deveriam ser vividas ao abrigo dos olhares do sexo masculino. Os rapazes da época eram vistos como uma ameaça, uma desordem, um perigo a ser vigiado. Nessa época havia o predomínio dos valores autoritários e patriarcais na relação pais e filhos. Às moças cabia cuidarem da casa, aguardando o casamento para poderem procriar. A necessidade para o serviço agrícola, a falta de escolarização, a pobreza que as empurrava ao trabalho, tudo isso as tornava menos ingênuas. O recrutamento compulsório para as guerras tornava os rapazes soldados ou então, viam-se obrigados a ser lavradores, escravos e, mais tarde, operários. Não havia muita escolha. A adolescência, marcada então pela iniciação sexual, leva os jovens a práticas as mais originais possíveis. Os rapazes, por exemplo, principiavam suas atividades sexuais com frutas como a melancia, em que se fazia um furo para que eles introduzissem o pênis, ou mesmo a prática se dava em árvores ou com animais. O onanismo, que é a masturbação, era severamente condenado, pois havia a crença de que era prejudicial ao trabalho e aos estudos, por esgotar as energias. Tudo que pudesse despertar o sexo era proibido: leituras picantes, ingestão de chás, vinhos ou quaisquer estimulantes do sexo, encontros amorosos, principalmente em relação às meninas. As jovens que se afastavam da moralidade da época e perdiam sua virgindade, não raro eram expulsas de casa para não envergonhar a família. Com a chegada do século XX, ocorreram grandes transformações no mundo, mas a descoberta revolucionária de Freud foi um momento de ruptura epistemológica com a psiquiatria, a neurologia e a psicologia, momento em que a psicanálise se inscreve como ciência do inconsciente, com uma lógica a ser explicitada. A partir de 1905, com a publicação dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, a comunidade científica, que tomava a sexualidade como um fenômeno biológico, anatômico e genital, se surpreende mais uma vez. Freud desvela a sexualidade como uma disposição psíquica infantil e confere à criança um estatuto de sujeito sexual perverso-polimorfo. (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 704). Sob o ponto de vista social, no Brasil, a escola, que tinha como uma das 20 funções proteger o jovem da vida leiga, sofre uma transformação. Mudam-se os costumes. Os encontros amorosos passam a ser menos vigiados e inicia-se entre os jovens de classe média e das elites, o passeio pelas vitrines na cidade, possibilitando às moças uma exposição mais deliberada, ainda que de modo dissimulado, e saírem em busca de namorados, tendo como início muitas vezes um simples flirt, como era chamado na época. Uma vez iniciado o namoro, o rapaz tinha que mostrar suas reais intenções à família. Todo um dispositivo de controle era acionado em função da reputação da filha e os casamentos aconteciam muito cedo na vida dessas jovens. Nos anos 30 do século XX, outras contribuições provocaram novas rupturas no campo das humanidades: a chegada da fenomenologia, do estruturalismo e do marxismo. Este último nos permitiu compreender que os fatos humanos são instituições sociais e históricas, produzidas não pelo espírito ou pela vontade livre dos indivíduos, mas pelas relações humanas com a natureza e com o trabalho como meio de sobrevivência e de exploração. As guerras trouxeram uma nova leitura sobre os adolescentes. Esses jovens, no Brasil, passam a ser recrutados para os exércitos da Alemanha, da Itália e da Rússia, estimulados pelas próprias famílias e médicos locais, com promessa de cidadania, sendo considerados o orgulho dos pais que viviam sob tais regimes. As mulheres, por sua vez, começam lentamente um processo de liberalização que vai atingir o seu ápice nas décadas seguintes. Nos anos 1950/1960, o jovem classe média torna-se vítima do consumo mercadológico com modismos da época, como o uso de lambreta, cigarros, calças jeans. Surge a chamada juventude transviada, os Beatles, transformando-se esse jovem, no final do século, em um querer ser sempre jovem, o que ficou conhecido como período da maturescência. As mulheres, por sua vez, adquirem direito de voto e a igualdade entre os sexos ensaia tornar-se um costume. Na busca de igualdade entre o homem e a mulher, estas determinam o momento do desejo de procriar, a partir do uso do método Ogino, conhecido como o uso da tabelinha, impondo ao homem uma abstinência ao sexo que foge ao domínio masculino. (Garnot, 2003). Na década de 1970, ocorrem novas mudanças sociais, econômicas e políticas. A entrada da mulher no mercado de trabalho, o crescimento do movimento feminista e a legalização do divórcio trazem algumas conseqüências para a família nuclear, o que resulta num processo de transformação radical da sociedade. A autoridade 21 simbólica das figuras parentais inicia um processo de fragilização progressiva, modificando a condição dos adolescentes, enquanto o mundo do trabalho começa a estreitar-se. Hoje, século XXI, estamos presenciando transformações históricas e sociais na constituição da subjetividade. Adolescentes buscam as experiências que vão consagrá-los adultos e os adultos alimentam um ideal de eternidade na busca de uma juventude a todo custo. A imagem do ser jovem garante, desse modo, uma identidade ao sujeito junto ao grupo social da modernidade. Verificamos hoje, na sociedade pós-moderna, não raro, a falência de uma identificação simbólica que conduz a mudanças de valores, transgressões de regras, práticas de uma crueldade em um nível para além do humano, o que nos faz pensar na psicanálise como uma possibilidade de contribuir para reverter esse quadro de um retorno a um primitivismo que já atinge o sujeito adolescente da contemporaneidade. Em função de a natureza humana fazer parte da cultura e a cultura exprimir o grau de desenvolvimento da humanidade, priorizamos iniciar por alguns aspectos culturais considerados de relevância para o desenvolvimento do tema. 2.2 ADOLESCÊNCIA: RITOS INICIÁTICOS E MARCAS CORPORAIS Neste sub-capítulo, procuramos nos deter, basicamente, em dois aspectos culturais presentes no mundo contemporâneo e que já fazem parte da história do próprio homem: ritos iniciáticos e marcas corporais. Nas sociedades primitivas e nas modernas, o jovem, para alcançar a vida adulta e ser reconhecido como tal, se submete às exigências culturais que escapam a seu desejo, conhecida ao longo do tempo como ritos. Ainda hoje nos deparamos com algumas situações do cotidiano que podem ser pensadas como uma extensão dessa submissão do sujeito da cultura, como por exemplo, a entrada no serviço militar, o ingresso nas universidades em que o jovem se depara com o trote de calouros, por vezes de um primitivismo inaceitável, o que podemos considerar como um assujeitamento aos ideais da cultura. O antropólogo alemão Van Gennep popularizou, no início do século XX, a 22 expressão ritos de passagem através de sua obra, do mesmo nome, escrita em 1906 (EL FAR, 2007). Para esse estudioso, os ritos de passagem são cerimônias que acompanham a passagem de uma situação social ou religiosa a outra, o que diferencia de ritos iniciáticos, que o autor associa a uma iniciação sexual ou ao ingresso em sociedades secretas ou religiosas. Como em todos os ritos de passagem há uma iniciação, optamos por denominá-los ritos iniciáticos. A instituição da iniciação da puberdade é atestada em várias culturas e Van Gennep aponta, nesse momento, três fases bem definidas para a concretização dessa passagem: em primeiro lugar, o jovem abandona seu lugar de origem na estrutura social da comunidade, separando-se do seu convívio familiar; como segundo momento, o jovem é submetido a testes rigorosos que o habilitam a entrar no mundo adulto, fase em que se encontra desprovido de identidade, em um estado indefinido; e, finalmente, no terceiro momento, o jovem é reintegrado ao grupo, assumindo uma nova identidade, com novo status, obrigações e responsabilidades sociais. (EL FAR, 2007, p. 18). Na década de 1970, Turner, antropólogo inglês que viveu entre nativos da África Central, salienta a importância dessa etapa de transição na vida desses jovens que se preparam para adquirir um novo status social. Destaca o rito de passagem como um ritual de distanciamento do sujeito de sua estrutura social. É como se o jovem morresse ou deixasse de existir naquela posição que ocupava na sociedade. Desprovido de status, passa por um processo de submissão e humildade, necessário para um retorno mais maduro. (TURNER, 1974, p. 116-159). No passado, em algumas culturas, a primeira cerimônia de iniciação era uma apresentação do recém-nascido a seus antecedentes diretos e era reconhecido como sendo parte da linhagem ancestral. Essa cerimônia era praticada dentro do próprio ambiente familiar, logo após o nascimento da criança. Alguns anos mais tarde o jovem passava por outra cerimônia similar: a da adolescência. Vemos, ainda hoje, algumas culturas nas quais o jovem se insere numa ordem social, com todas as suas responsabilidades do novo ciclo de vida, através de um rito iniciático. Entre os indígenas do Brasil, nos ritos de puberdade, onde o índio deixa de ser considerado uma criança por seu grupo e passa a ser visto como adulto, ele é, de 23 uma forma impositiva, separado do convívio social por um período, para aprender o comportamento adulto e, por vezes, até com tabus alimentares, intensos sofrimentos, reclusão, testes de resistências, conforme as diversas etnias. Não existe uma idade clara sobre essa iniciação. Chegado o momento, os jovens são obrigados a submeter-se a esses ritos iniciáticos, suportando tudo que lhes é designado com o objetivo de exibir força, coragem, habilidade e maturidade perante a comunidade a que pertencem, que lhes garanta a entrada no mundo adulto. Hoje, em pleno século XXI, os índios brasileiros, em número muito reduzido, além de lutarem pela sobrevivência, resistindo à invasão de seus territórios, permanecem submissos a seus rituais de passagem para a vida adulta. Os índios Xavantes, por exemplo, que vivem no cerrado de Mato Grosso, realizam ritos de puberdade a cada cinco anos. É comum meninos saírem da casa de seus pais, com aproximadamente sete anos e passarem a viver em uma casa comunitária, até serem considerados adultos. Entre os índios Apinajés, do norte do Tocantins, a separação é feita quando o índio atinge aproximadamente quinze anos. É uma passagem que independe da vontade do jovem, marcada por dores física, moral e psíquica. O jovem permanece afastado da sociedade aprendendo com os mais velhos, o comportamento adequado junto aos adultos. Os preparativos para a festa de puberdade masculina têm uma durabilidade variável. Durante esse período, os homens aprendem os ritos de sua comunidade, as responsabilidades de um adulto e atividades de caça, pesca e da guerra. Quando são considerados aptos a assumirem a vida adulta, eles são recebidos de volta pela comunidade e cumprem um ritual de incorporação festivo, sendo que em muitas das etnias, são obrigados a passar por momentos de dor. Os índios Sateré-Mawé, que habitam a região entre os rios Madeira e Tapajós, na Floresta Amazônica, preparam uma luva cheia de grandes formigas e vestem os jovens para serem picados, sendo que não podem demonstrar dor ou serão considerados homens fracos. No caso das meninas, na maioria das vezes essa fase se dá na época da menarca. Por exemplo, as índias Tikuna, que vivem na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, nessa época, permanecem escondidas em suas casas três meses, com cuidados especiais, pois há uma crença de que se encontram fragilizadas e expostas a ataques de espíritos maus. Em fase posterior, participam da “Festa da Moça Nova”, 24 onde homens vestidos com fantasias representando diversos espíritos da floresta dançam e cantam por dias a fio e ao final da festa, as mulheres mais velhas arrancam os cabelos das mais novas. Entre os índios krahô, do norte do Tocantins, o ritual de passagem de menina para mulher se faz com adornos de penas de papagaio ou de outra ave de penas brancas, participando de ritos, para ser olhada, sendo que só após esse período é considerada pronta para o casamento. (RIBEIRO, 1970). Herdeiros que somos de distintas manifestações culturais, esses rituais podem ser apreendidos, hoje, em determinados grupos ou mesmo na trajetória individual de cada adolescente, como efeito pacificador. No judaísmo, por questões principalmente de tradição religiosa, há um primeiro momento com um ritual de entrega do menino ao social através da circuncisão, aos oito dias de nascido, como sinal de aliança entre Deus, Abraão e seus descendentes. Esse é um rito de inserção no judaísmo, prática obrigatória pelas leis dadas a Moisés como condição de pertencimento à cultura judaica. O termo circuncisão, derivado das palavras latinas circum e cisione, significa literalmente cortar ao redor, o que nos remete ao significante castração. Podemos, no entanto, pensar a circuncisão, no que se refere ao rito de inserção no mundo da cultura, como uma possibilidade de saída da criança da díade mãe-filho. Como uma segunda entrada na cultura judaica, o jovem, ao atingir a puberdade, perpetua o seu ingresso no mundo dos adultos, através de um ritual religioso obrigatório para os meninos. Ao submeter-se a essa cerimônia - o bar mitzvah -, o jovem é lançado na vida cultural e espiritual judaicas. Esse momento exige uma preparação intensa, de aproximadamente um ano, para a leitura e domínio da Torah, livro sagrado, e culmina com a participação do dito homem e seus familiares, em uma elaborada cerimônia religiosa, quase sempre realizadas no shabat, dia sagrado judaico. Ao recitarem textos da Bíblia, seguem-se prescrições feitas pelos rabinos e esses jovens se vêem, pela religião, reconhecidos como pessoas preparadas para a vida adulta. Pela interpretação talmúdica, os sinais externos de maturidade biológica deveriam servir de critérios para definir uma idade adulta tanto masculina quanto feminina, mas, na prática das comunidades judaicas, é a idade cronológica - 13 anos 25 - que determina a maioridade para a vida religiosa e para certas obrigações congregacionais e rituais. Como sinal dos tempos, as mulheres judaicas conquistaram, em época recente, seu espaço no mundo talmúdico e já podem optar pelo bath-mitzvá, cerimônia idêntica à realizada com o jovem adolescente, sendo que esta é optativa. Sua maioridade se vê inscrita na vida religiosa um ano a menos, ou seja, aos 12 anos de idade, por se supor que o amadurecimento, na menina, se dá mais precocemente. Na Igreja Católica temos a crisma como uma confirmação do batismo, que, assim como o próprio batismo e a eucaristia, constitui um dos sete sacramentos. Esse segundo momento, no entanto, é opcional, e deve ser realizado a partir dos 15 anos, quando se dá a entrada do jovem na maturidade. É uma cerimônia cuja preparação é feita em um ou dois anos, e que culmina com a bênção do padre ou bispo, em um ato religioso, em que há a unção com óleo sagrado, símbolo da purificação da alma, com vistas a prepará-los para maior compreensão dessa doutrina religiosa. Apesar de comungar uma idéia de uma confirmação da fé, o que a Igreja tem constatado é um esvaziamento na sua finalidade eclesiástica. O fato é que em muitas comunidades do mundo atual, a crisma tem sido considerada o sacramento de despedida da igreja, tornando-os fora do engajamento eclesial, por razões supostamente culturais. Podemos questionar o quanto uma força superior - a religião - de uma maneira geral, entra na vida pessoal do ser humano, afastando-o das parcelas indesejáveis da realidade e destituindo-o dos seus desejos. Nas situações ritualísticas apresentadas indígenas, judaicas e católicas - o sujeito, muitas vezes, não se faz presente. Em se tratando de sujeito do inconsciente, não é possível a adolescência ser marcada cronologicamente como nos ritos iniciáticos ou de passagem. Para Levisky (1995), os rituais têm a finalidade de marcar a ruptura com a vida familiar, impondo ao jovem a assunção de uma vida ativa social na qual está inserido. Segundo esse autor, através dos ritos, o sujeito se situaria no Outro para marcar seu lugar no campo das relações do grupo, entre cada um e todos os outros. Alberti (1996), ao tratar dos ritos iniciáticos, registra: 26 [...] são formas encontradas pelas diferentes culturas para dar conta do que, a priori, parece-lhes escapar. Ao mesmo tempo, aproveita-se esta crença para evitar que a criança que se torna homem creia em sua força real, que poderia suplantar seus semelhantes. [ ... ] o rito de iniciação tem por função principal sustentar, para o sujeito, o próprio recalque, o que permitiria, por sua vez, uma adolescência que prepara o indivíduo para participar do sistema social, comunitário, civilizatório, no qual deve exercer determinadas funções, de preferência produtivas. (ALBERTI, 1996, p. 195-197). A autora enfatiza a preparação para o sujeito participar do sistema vigente produtivo, assim como certo enfraquecimento do sujeito que se submete às leis sociais, provocando-lhe por vezes um mal-estar inclassificável. Além do esforço de simbolização que se dá por meio do complexo de castração, há também, nos ritos, uma especularização do sujeito em relação aos ideais da cultura. Esses ritos, geralmente organizados em grupo, se processam de forma semelhante em relação aos anteriores, com regras e etapas que se repetem e com uma eficácia simbólica que leva a uma nova identificação com um significante mestre. (ALBERTI, 1996, p. 198). Um segundo aspecto cultural que atravessa os tempos e que se inscreve no contemporâneo de uma forma contundente, a ponto de não podermos ignorá-lo, são as tatuagens. Constatamos, a cada dia, que o fenômeno global da inscrição no corpo do jovem está sendo apropriado pelos adultos no século XXI de uma maneira acelerada e que nos assusta, pois não raro encontramos sujeitos mapeados, cada um com suas histórias marcadas no corpo. Podemos pensar em uma transgressão, em um indício de provocação para um olhar que reconheça o sujeito da cultura na sua singularidade, quer seja adolescente, quer seja adulto? Ana Costa em seu livro Tatuagem e Marcas Corporais (2003), enuncia a necessidade de percebermos hoje, enquanto psicanalistas, que essas marcas e traços incrustados na derme se confundem entre nosso mundo interior e o exterior: O repertório de traços [...] nos produz a experiência de sermos olhados como um objeto diferente de outros, arrancados da planitude da imagem. Isto que se arranca onde estávamos entre outros, produz, ao mesmo tempo, dor e prazer. O vazio do lugar de nosso ser-objeto insiste em se fazer traçar de nossa pele, para que dele possamos constituir memórias, identidades, taxonomias, narrativas de fatos, ou mesmo geografias. (COSTA, 2003, p. 9). 27 Com um olhar voltado não só para a cultura, mas também para a psicanálise, a autora nos mostra o quanto a constatação de um vazio inexplicável impele o sujeito a buscar inscrever, através do traço na pele, sua subjetividade e a sua inclusão no grupo. De uma forma brilhante, coloca questões de relevância no que se refere ao significante tatuagem, tão presente no sujeito da contemporaneidade, razão porque optamos em desenvolver um pouco mais suas idéias. É fato que a origem dessas práticas encontra-se na pré-história. Acompanham os humanos em diferentes épocas, costumes e perdem-se em uma memória atemporal, fazendo sua aparição em todos os tempos e culturas. Na África, entre os negros, bijuterias, pinturas, escarificações ou mutilações não têm a função apenas ornamental, mas seus corpos nus precisam ser marcados para existirem e se fazerem menos frágeis, inscrevendo seus homens como pertencentes àquela cultura, em um reconhecimento não só social como também religioso. Na Idade Média, a prática cristã renegava todos os que poderiam quebrar a representação corporal à imagem e semelhança de Deus. O uso dessa prática de marcas corporais se dava como uma sacralização do corpo, colocando aqueles que eram considerados à margem, dentre eles os judeus, as prostitutas e hereges, como figuras estigmatizadas diante da comunidade de fé cristã. Assim, por exemplo, o uso de brinco de orelha marcava a mulher judia como à margem da comunidade da fé cristã. Costa identifica a tatuagem como uma marca definitiva produzida por um instrumento que fura a derme introduzindo uma pigmentação para inscrever algo no próprio corpo, com uma dupla função: coletivizar e singularizar. O uso dessas marcas vai constituir registros contraditórios servindo, ao longo da história, para o enobrecimento ou para a degradação. Nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, ao contrário dos nobres que utilizavam as tatuagens para fins estéticos, judeus foram marcados com números, como gado, pelos nazistas, tendo seus corpos deserotizados e coletivizados, fixados como dejetos “não representáveis pelo circuito civilizador.” (COSTA, 2003, p. 15-21). O uso de tatuagens e objetos incrustados no corpo está ligado, através dos tempos a algumas representações: status de identidade - para distinguir, por 28 exemplo, nobres de guerreiros, escravos, estrangeiros; como uso religioso - para distinguir os adeptos dos hereges; em ritos iniciáticos - com adolescentes. Nos últimos dez anos, tem-se observado uma mudança radical em relação a esses procedimentos. Podemos considerar que o uso ostensivo de incrustações e escrituras corpóreas no adolescente de hoje é um imperativo para que se olhe para ele, algo a ser significado como uma entrada efetiva no mundo adulto. Mas, como entender famílias inteiras, pais e filhos com exibições ousadas de tatuagens, não raro cobrindo grande parte do corpo? Costa (2003) chama-nos a atenção para o uso das tatuagens e dos piercings como condição não só de fazer orifício, mas também de acrescentar elementos estranhos ao organismo, uma composição no próprio corpo – um building - uma reconstrução da imagem corporal, o que nos dá uma direção para desenvolvermos as constituições de identificações nos sujeitos. Essas duas condições nos dão uma pista sobre a seguinte questão: a constituição do olhar – ou mesmo de um traço - do Outro como exterioridade, apóia-se também na inclusão de uma exterioridade – um elemento estrangeiro - no próprio funcionamento do corpo. No dizer de Costa (2003), na medida em que não há assimilação completa, permanecem heterogeneidades na constituição dos suportes do sujeito, que o signo do Outro pode ser impresso como intrusão, ou mesmo como violência. Essa marca é herdada das relações primárias. Como já colocamos, o que é exterior, que está contido no discurso social, fazse no corpo como um signo do Outro inscrito no sujeito da cultura: “[...] as bordas corporais são, por princípio, ‘bordas sociais’, tendo em vista que somos efeitos de nossa relação com a linguagem – lugar desse Outro primordial - que é, desde o início, produtora de laço social”. (COSTA, 2003, p. 23). Estaria essa posição de Costa na contramão à de Ruffino quando este diz que “adolescer é construir-se de modo a fazer, na ‘interioridade’ de sua história subjetiva, aquilo que faltou na ‘exterioridade‘ do social?” (RUFFINO, 1996, p. 93) Para esse psicanalista adolescer é uma instituição historicamente constituída que caracteriza a modernidade e se materializa na subjetividade de cada um ao final da infância, mas também é uma operação psíquica que se põe em marcha no interior da subjetividade de cada um, por faltar no espaço da sociabilidade, o trabalho que existia outrora na 29 sociedade. (RUFFINO, 1995, p. 42). Parece-nos que em ambos – Costa e Ruffino - há uma preocupação em demonstrar que a adolescência é uma operação que para se constituir, precisa estar identificada e dialetizada à cultura de seu tempo. Birman (2007) reforça essa idéia quando diz que na passagem adolescente, as marcas corporais trazem em si um pertencimento a um determinado grupo, uma busca de construção de uma identidade e ao mesmo tempo imprime um traço diferencial, uma confirmação de pertencimento ao próprio corpo. Os adolescentes e jovens adultos querem ser olhados de maneira ostensiva e eloqüente, impondo sua singularidade pelas assinaturas esculturais e pictóricas, como se tivessem sido esquecidos e impessoalizados em suas assinaturas corriqueiras, “no carrossel anárquico da contemporaneidade”. (BIRMAN, 2007, p. 48). Para esse autor, o adolescente impõe sua singularidade de forma até agressiva. Inscreve no corpo para inscrever-se no mundo contemporâneo, na busca de um olhar que os tire do anonimato. Afirma tratar-se de uma fragilidade identitária em virtude da precariedade do olhar do Outro e do desamparo contemporâneo de um mundo comandado pela força do capital. Nominé (2001) apresenta uma explicação menos voltada para a modernidade, mas voltada para um caráter essencialmente psíquico, ao dizer que ao abandonar a posição de criança e assumir a posição subjetiva de adulto, o adolescente desinveste nos objetos parentais, perde o valor de sua imagem no narcisismo dos pais e se volta ao seu narcisismo. O colocar piercing caracteriza um retorno ao primitivismo tribal ao que o autor conota a idéia de uma agressão à sua própria imagem como uma oposição violenta aos ideais dos pais, de quem precisam se liberar, numa busca de uma liberdade que, na realidade, é falsa: Quanto mais ele (adolescente) se libera da alienação aos ideais dos pais, mais ele porta as insígnias do escravo.[...] Nesse momento de abandono, o sujeito adolescente está pronto para tudo, principalmente para oferecer-se como o pior dos escravos, visando reviver o Outro sob a figura do mestre impiedoso que quer tudo. (NOMINÉ, 2001, p. 43). Não há liberdade individual, mas também não podemos ficar na condição de 30 escravo. A posição de Nominé nos remete aos ensinamentos de Lacan quando se refere ao conceito de alienação assim como ao discurso do mestre, que iremos desenvolver mais adiante. Lacan, no Seminário 11, tratando do sujeito e do Outro no capítulo 16, afirma que a sexualidade se representa no psiquismo por uma relação do sujeito que se deduz de outra coisa, ou seja, por uma via que é a da falta e traz como exemplo de materialização da libido, a tatuagem, como uma das formas mais antigas de encarnar, no corpo, esse órgão irreal: a libido. Diz então: “O entalhe [a tatuagem] tem muito bem a função de ser para o Outro, de lá situar o sujeito, marcando seu lugar no campo das relações do grupo, entre cada um e todos os outros. E, ao mesmo tempo, ela [a tatuagem] tem, de maneira evidente, uma função erótica [...]” (LACAN [1964], 1998, p. 195). Propomos, neste ponto, focalizar alguns operadores da psicanálise para analisar o mal estar dos adolescentes no que diz respeito às suas escolhas, em especial, a escolha profissional. 2.3 PSICANÁLISE E ADOLESCÊNCIA O termo adolescência, criado no final do século XVIII e reconhecido como uma nova categoria somente no final do século XIX e início do século XX, foi introduzido na psicanálise em 1923, por Ernest Jones como sendo “um período construído sobre o modelo dos estágios da primeira infância e cujo final feliz é marcado pelo estabelecimento de uma harmonia definitiva advinda da fusão dos diferentes objetivos pulsionais, em direção à genitalização”. (ALBERTI, 1996, p. 24). Ainda que a adolescência não seja um conceito estudado originalmente pela psicanálise, vem, a partir de 1930, sendo valorizada como uma categoria que exige uma atenção especial, diante das mudanças subjetivas que se colocam para o jovem por ocasião das transformações pubertárias em que se vê enredado. Pensar a adolescência, psicanaliticamente, significa pensar que todo sujeito adolescente é um sujeito suposto adolescente, assim como é preciso levar em conta que a adolescência comporta uma complexidade para além do sujeito. A primeira 31 afirmativa pauta-se no fato de que nem todos atingem a adolescência numa mesma época, assim como é possível não atingi-la, como no caso da psicose. A segunda afirmativa é que não podemos negar que a condição adolescente se tem estendido através dos tempos e espaços. Isto porque o processo de globalização da ordem econômica trouxe, no final do século XX, conseqüências desalentadoras para o adolescente na entrada do mundo do trabalho, contribuindo para uma adolescência mais prolongada. A contemporaneidade impõe ao adolescente, além das questões que lhe são características, questões próprias da época como preocupação excessiva com a própria imagem, consumo desenfreado e instigado pelo capitalismo e o imediatismo. Como entender o sujeito adolescente neste século XXI? Sigmund Freud, no final do século XIX e no início do século XX, descobre, através de seus estudos psicanalíticos, que as mudanças nas relações entre homens e mulheres se vêem determinadas pelo inconsciente e pela pulsão - dois eixos constitutivos da subjetividade do ser humano. Descobre, na evolução de seus estudos, que a sexualidade não tem seu início na puberdade: ela é e será sempre infantil. E mais, que a adolescência vai além de um momento genitalmente possível. A adolescência de qualquer época se vê numa travessia de identificações, de separações, de experimentações, tempo de escolhas, de buscas do amor, de descobertas. Segundo Freud, trata-se de um trabalho psíquico difícil e complexo que traz no desligamento dos pais uma passagem fundamental para a evolução da cultura. Tal travessia arrasta consigo perdas seguidas de elaborações de lutos com que se defrontam não só os adolescentes, mas também seus pais. Isto, evidentemente, traz, como conseqüências, conflitos, baixos desempenhos, desencontros. Freud, nos seus estudos sobre sexualidade, inscreve a puberdade - termo que preferiu à adolescência - em seguida ao período de latência, que, para a medicina, significa período de incubação ou período de tempo entre a penetração de um agente mórbido e seus primeiros efeitos. A latência é um período em que a força libidinal retém sua carga até eclodir na puberdade, esta tida como tenebrosa, uma fase que lembra o inconsciente como “um remexer nos infernos”. Lacan vai preferir o termo jovem, muito comum nas décadas de 1960 -1970 32 na França, momento histórico de intensas transformações políticas e culturais que marcam a segunda metade do século XX. Os jovens, numa demonstração de rebeldia e liberdade, promovem mudanças nas relações entre raças, sexos e gerações, com manifestações estudantis nas universidades francesas. Para Lacan (1969), esse período, marcado pelo sexo-esquerdismo, nada mais é do que uma falsa promessa de liberdade sexual, “uma maldição sobre o sexo”. Em O Projeto para uma Psicologia Científica (1895), Freud refere-se à puberdade como um período de histericização quase espontânea, universal, quando diz, ao estudar o caso Emma, que todo adolescente traz dentro de si o germe da histeria. Isto porque toda pessoa adolescente traz traços de memória que só podem ser compreendidos com a manifestação da excitabilidade sexual, com a liberação e o deslocamento de afetos. (FREUD [1895], 1977, p. 467- 469). Eis porque privilegiamos trabalhar, neste sub-capítulo, a teoria da sexualidade infantil em Freud (1905), as fontes primeiras das escolhas do sujeito através das teorias sexuais da infância (1908), os aspectos constitutivos do sujeito em Lacan (1957-1958) e as operações de alienação e separação (1964), conceitos fundamentais para se entender o processo de escolhas do adolescente. O tema sexualidade humana é preocupação de Freud desde 1893, momento em que o mestre se debruça sobre a etiologia das neuroses, com explicações a partir da diversidade de seus aspectos e da influência das diferentes culturas e estágios da civilização. Para além da visão de sua época, Freud descobre, em plena Viena do século XIX, que a função sexual existe desde o início da vida humana, embora no início esteja ligada a outras funções vitais, passando por um processo complicado de maturação, até chegar à vida sexual adulta. Se já vinha estudando a questão da sexualidade para compreender a histeria, em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, apresenta uma sistematização sobre o que é a sexualidade para a psicanálise, privilegiando como respaldo teórico sua tese da bissexualidade originária, o conceito de pulsão e a escolha de objeto na infância. No último ensaio desenvolve a segunda fase da sexualidade humana - a puberdade, momento próprio de um reforço pulsional edipiano e da instauração de uma escolha de objeto homem / mulher. A obra referida acima, dividida em três partes, traz, no seu primeiro ensaio 33 intitulado Aberrações Sexuais, uma indicação de um avesso do normal para explicar a sexualidade humana. A partir da observação dos desvios sexuais em relação aos objetos e alvos sexuais, Freud desenvolve a teoria da sexualidade infantil, quebrando as certezas que vigoravam até então de que a sexualidade estaria ausente na infância e que só adviria em conexão com o processo de maturação da puberdade através das atrações dos sexos. Ele parte do comportamento tido, pelo senso da época, como perverso e introduz uma nova configuração, a partir da ótica psicanalítica. Numa elaboração pioneira da teoria das pulsões, Freud aponta para um momento inicial numa função corporal e a probabilidade destas se tornarem logo independentes, o que produz uma significação mais ampla e de valor universal à questão do inconsciente, dissolvendo os conceitos de normalidade e patologia. Utiliza o termo pulsão com o objetivo de descrever e analisar a sexualidade. Enfatiza a variabilidade do objeto na constituição da pulsão sexual e confirma um polimorfismo próprio da natureza estrutural da sexualidade infantil o que, para a época, é considerado um escândalo. Nesse momento de contestação, Freud assegura que as pulsões não são inatas. Surgem como produto das primeiras interações pós-nascimento através da satisfação das necessidades da criança, junto à mãe ou substituta, proporcionando o emergir da sexualidade. Freud serve-se dos clientes adultos para reconstruir suas fantasias infantis, que vão permiti-lo reconhecer traços de erotismo anal, uretral, escópico e concluir que a sexualidade infantil é composta dessas pulsões parciais, demonstrando, ao longo do ensaio, que na realidade somos seres aberrantes, seres do desejo, da linguagem, altamente inventivos, não naturais. Este é um primeiro tempo em que Freud se preocupa em entender o funcionamento da mente humana. Ainda não apresenta, de forma bem sistematizada, os componentes e os destinos da pulsão, o que só acontece dez anos mais tarde em As Pulsões e Suas Vicissitudes (1915), em que define a natureza da pulsão como uma força constante, de origem somática que representa para o psíquico, como que uma excitação. Nesse momento vai defini-la como um fenômeno psíquico e físico estreitamente ligado com a fantasia e o desejo, expondo a sexualidade em toda a sua extensão, o que detalharemos mais adiante. 34 No segundo ensaio trata da organização da sexualidade infantil, a partir da disposição perverso-polimorfa. De início predominantemente autoeróticas, as chamadas pulsões parciais buscam satisfações no próprio corpo, desvinculadas e independentes, em escolhas objetais incompletas, que se dão inicialmente sob o domínio dos componentes orais, seguindo-se uma fase anal-sádica e posteriormente fálica, até alcançar a função sexual adulta propriamente dita. Freud anuncia, nesse ensaio, que a primeira manifestação da sexualidade infantil é observada no lactente, através do chuchar, que consiste na repetição rítmica de um contato prazeroso de sucção com a boca e que pode continuar na maturidade ou persistir por toda a vida. O sugar com deleite envolve completa absorção e leva ou ao sono ou mesmo a uma reação motora com o caráter de um orgasmo. Não raras vezes combina-se com a fricção de alguma parte sensível do corpo tais como os seios ou os órgãos genitais externos. Muitas crianças passam, por este caminho, do ato de sugar para a masturbação. (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 184-185). O mamar no seio da mãe ou em seus substitutos transporta a criança a repetir a satisfação sexual dissociada da necessidade alimentar e a mesma sai em busca no próprio corpo dessa sensação prazerosa primeira. Apoiada numa função somática vital, a criança tem como seu alvo sexual uma zona erógena, parte da pele ou mucosa que, estimulada em determinadas regiões do corpo, produz uma satisfação pulsional apaziguadora. Inicialmente esta se dá na zona labial, com o sugar, e na medida em que a criança vai se desenvolvendo, vão sendo substituídas, a partir de outras ações musculares por outras zonas como anal e genital. As crianças que se estimulam pela zona anal, algumas retém as fezes até que sua acumulação produza contrações musculares intensas e estas, ao passarem pelo ânus, produzam sensações intensas de prazer e dor. Em crianças mais velhas a estimulação masturbatória efetiva da zona anal se dá com a ajuda do dedo circulando essa área extremamente sensível. Se considerarmos toda esta gama de expedientes e tivermos em mente que tanto espalhar sujeira quanto tomar medidas de limpeza forçosamente atuam quase da mesma maneira, dificilmente será 35 possível evitar a conclusão de que os alicerces para a futura primazia exercida por esta zona erógena sobre a atividade sexual são estabelecidos pela masturbação na primeira infância, a que dificilmente algum indivíduo escapa. (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 193). Freud, ao se referir às atividades das zonas genitais, enfatiza que é na primeira infância que se instalam as atividades sexuais da zona erógena, através da manipulação dos órgãos genitais pelos cuidadores. Na fase da amamentação, essa estimulação já se faz sentir pela lavagem e fricção dos órgãos genitais, despertando nas crianças uma necessidade de se repetir a manobra e, mais tarde, a própria criança irá repetir a experiência para provocar satisfação por fricção manual ou pressão exercida com a mão ou unindo as coxas. Quanto à masturbação infantil, Freud distingue três fases: a primeira é própria do período de lactância, que parece desaparecer após curto prazo, mas que pode se estender até a puberdade, o que já caracteriza um desvio, prosseguindo ininterruptamente; a segunda fase, por volta dos quatro anos, caracteriza-se pelo retorno da atividade sexual por curto período, por influência de sedução de adultos ou outras crianças ou por questões individuais. A criança, em função da disposição perverso-polimorfa, poderá fixar as perversões e as reterá em sua atividade sexual, uma vez que é uma fase que deixa marcas inconscientes a ponto de determinar seu caráter; a terceira fase corresponde ao onanismo da puberdade, o único a ser levado em conta, embora esteja vinculado às anteriores no caso do surgimento de uma sintomatologia da neurose. Ao mostrar que as atividades infantis como sucção, brincadeiras com o corpo, masturbações são fontes de prazer e de autoerotismo, Freud revela que a criança, antes dos quatro anos, é um ser do gozo, que não conhece proibição nem lei e se entrega a toda sorte de experiência que vise a satisfação e que, em outro momento, vai sofrer a ação do recalcamento renunciando a esses atos. A entrada no período de latência provoca uma lentificação da sexualidade, em favor do recalcamento do complexo de Édipo e uma conseqüente dessexualização, que permite o aparecimento de aspirações morais e estéticas. O aparecimento dos sentimentos de vergonha, asco, exigências de ideais estéticos e morais, são responsáveis por alguns entraves no caminho da pulsão sexual. A energia pulsional 36 pode ser desviada do objeto sexual e voltada para outros fins, num processo a que Freud denomina sublimação, dando início ao período de latência. Pode, no entanto, irromper no período de latência um fragmento de manifestação sexual que se furta à sublimação, assim como pode haver alguma preservação da atividade sexual nesse período. Com o adiamento da maturação sexual ganhou-se tempo para que a criança construa, entre outras restrições à sexualidade, a barreira contra o incesto e possa assim incorporar em si os preceitos morais que expressamente excluem de sua escolha de objeto, com parentes consangüíneos, as pessoas que amou na infância. (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 232). Ao falar da barreira contra o incesto na puberdade, Freud nos mostra como a afeição dos pais pelo filho na infância pode ter efeitos neste, cabendo-lhes a recondução de seu desejo para outros objetos. O caminho que, para o filho seria o mais direto, é o caminho da escolha de uma pessoa amada na infância. Mas é na fase da latência que se ganha tempo para construir a barreira do incesto, de modo que o adolescente possa excluir expressamente da escolha objetal, as pessoas amadas da infância. Entretanto há os que não conseguem desligar-se dos pais ou o fazem de uma forma incompleta, persistindo em seu amor infantil muito além da puberdade e numa escolha objetal incestuosa. O respeito à barreira ao incesto é essencialmente uma exigência cultural feita pela sociedade, ao que acrescenta, em 1915, a luta do sujeito em vencer a tentação do incesto durante seu período de crescimento e a possibilidade não rara de transgredir a barreira nas fantasias e mesmo na realidade. No terceiro ensaio, em que Freud trabalha a puberdade, destaca questões relativas ao complexo de Édipo e à escolha de objeto, articulando essa fase às primeiras manifestações da sexualidade e ao período de latência. Considera ser esse um momento da configuração definitiva da vida sexual com a retomada do investimento libidinal, a renovação da escolha objetal infantil e a subordinação das zonas erógenas ao primado da zona genital. Em referência à configuração pubertária, diz: 37 O mais definido dos processos de puberdade foi escolhido como aquele que constitui sua essência: o crescimento manifesto dos órgãos genitais externos. [O período de latência da infância caracteriza-se, por outro lado, por uma relativa cessação de seu crescimento]. Entrementes, o desenvolvimento dos órgãos genitais externos avançou bastante para que eles possam descarregar os produtos sexuais ou, conforme o caso, provocar a formação de um novo organismo vivo. Assim, um aparelho altamente complicado já se preparou e aguarda o momento de entrar em funcionamento. (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 214). Vera Pollo, ao tratar da adolescência no capítulo Histeria e Adolescência?, em Mulheres Histéricas (2003) menciona a adolescência como sendo um período de histericização quase espontânea. A autora aponta, com o recalcamento dos desejos incestuosos, a substituição da pulsão sexual pela pulsão epistemofílica (do saber – Wissentrieb). Esta tem, como tarefas, resistir à tentação masturbatória e promover a elaboração de teorias sexuais infantis. É o momento da criação do supereu, em que barreiras éticas e estéticas vão sendo construídas e formações reativas de moralidade vão surgindo, como no crime parricida postulado no mito de Totem e Tabu. (FREUD [1913],1974) O esquema a seguir nos permite visualizar o percurso da sexualidade para Freud, retomado por Pollo, na obra mencionada acima, ao tratar da adolescência. 38 39 Em 1908, em seu artigo Sobre as Teorias Sexuais das Crianças, publicado alguns meses antes do caso clínico do pequeno Hans (1909), Freud revela sua dificuldade em delimitar um período específico para o interesse sobre o sexo, uma vez que esses momentos se mostram diferenciados. Mas revela: “Estou convicto de que nenhuma criança - pelo menos ainda as bem dotadas intelectualmente - pode evitar o interesse pelos problemas do sexo nos anos anteriores à puberdade.” (FREUD [1908], 1976, v. 9, p. 214). E o mestre prossegue: O desejo da criança por esse tipo de conhecimento não surge espontaneamente, em conseqüência talvez de alguma necessidade inata de causas estabelecidas; surge sob o aguilhão das pulsões egoístas que a dominam, quando é surpreendida, talvez ao fim do seu segundo ano – pela chegada de um novo bebê. Também a criança cuja família não aumentou pode colocar-se na mesma situação observando os outros lares. (FREUD [1908], 1976, v. 9, p. 215-216). Instigada pela chegada de um recém-nascido, sentimentos e preocupações em relação ao abandono dos pais levam a criança a investigar a origem dos bebês. No tudo querer ver e saber, a criança se depara com a necessidade de decifração do enigma “de onde vêm os bebês”, que se intensifica quando diante da chegada de um irmãozinho, responsável pela possível perda dos carinhos maternos. Torna-se pensativa, mas ao mesmo tempo perspicaz, a ponto de desejar saber sobre a sua origem. Decepciona-se com as respostas dos adultos por perceber estarem eles escondendo algo. Sai, então, em busca de respostas, enfrentando um primeiro conflito psíquico que vai desembocar no complexo nuclear da neurose. Esse artigo de Freud (1908) traz a primeira menção e estudo sobre o complexo de castração , referenciado de uma forma obscura em A Interpretação de Sonhos (1900). Fala de sua importância para a compreensão do estudo das neuroses, apresenta suas teorias sexuais infantis, sistematizadas nos Três Ensaios (1905), quando retorna ao conceito de pulsão de saber. A primeira teoria sexual infantil desenvolvida pela criança é a suposição de que todos os seres humanos têm uma genitália idêntica: a masculina. A descoberta de que nem todas as crianças são iguais nos seus sexos, que há aquelas que não têm 40 pênis, vai levar o menino a prosseguir em suas investigações solitárias, fazendo surgir uma tese de que originariamente as meninas também tinham pênis, mas que foram perdidos pela castração. A menina, ao reconhecer que não o tem, é tomada pela inveja de não tê-lo e manifesta seu desejo de ser também um menino. As crianças sabem que na barriga da mãe tem um bebê, mas o desconhecimento da existência da vagina as permite levantar hipóteses sobre como os bebês são expelidos: por diversas regiões do corpo como: seio, ventre, umbigo, intestino. O ato sexual, como terceira teoria, é visto por elas como uma agressão, “uma espécie de sevícia ou subjugação”; a gravidez, com uma desconfiança profunda em relação à fábula da cegonha. Seus esforços na investigação a partir desse ponto permanecem infrutíferos e acabam renunciando, o que, não raro, deixa como seqüela um prejuízo permanente para a pulsão de saber. Freud alerta-nos para o fato de que conflitos de ordem sexual da primeira infância, ocorrências traumáticas, pensamentos e desejos recalcados deixam marcas na estrutura da personalidade. Estes, reimpressos com a chegada da puberdade, refletem-se na pulsão de saber do jovem, o que pode vir a se traduzir em um sujeito passivo diante das escolhas que se lhe impõe a cultura. Em sua retomada da questão da sexualidade infantil, em A Organização Genital Infantil: Uma Interpolação na Teoria da Sexualidade (1923), Freud faz um acréscimo aos Três Ensaios, numa articulação do desejo com a estrutura edípica. Dá ênfase ao complexo de castração e destaca a questão da primazia do falo. Descobre que o sexo é resultado de um processo de subjetivação, responsável pela orientação sexual do sujeito. Assim sendo, percebe que a escolha do sexo existe para além da anatomia que, por si só, não é suficiente para determinar a constituição do ser sexuado. Eis o germe da lógica da sexuação em Lacan, quando, em 1973, o discípulo de Freud constrói suas fórmulas, buscando um para além do falicismo freudiano e estabelecendo sua própria concepção da sexualidade feminina e da diferença sexual, o que não será desenvolvido aqui nesta pesquisa. Falo foi um termo pouco utilizado por Freud, empregado a propósito do fetichismo ou da renegação. É Lacan quem vai reatualizar essa palavra, interessando-se pela perversão, pelo gozo, pelo desejo, pelo objeto a. 41 Em 1956 no Seminário 4, A Relação de Objeto, Lacan dá ao falo, um estatuto de significante do desejo, mostrando que o complexo de Édipo ou de castração consiste numa dialética hamletiana do ser ou não ser o falo, ter ou não ter o falo: “Trata-se do falo que a mulher não tem [...] trata-se de um falo simbólico [...] Mas não ter o falo, simbolicamente, é dele participar a título de ausência, logo, é tê-lo de alguma forma. O falo está sempre para além de toda relação entre o homem e a mulher.” (LACAN [1956-1957], 1995, p. 154-155). O complexo de Édipo está ligado à fase fálica da sexualidade infantil, em que o menino se vê apaixonado pela mãe e quer possuí-la, colocando-se como rival do pai, o que desaparece com o complexo de castração em que o menino reconhece na figura do pai, o obstáculo à realização de seus desejos. Lacan retoma a teoria freudiana da elaboração do complexo de Édipo e apresenta a metáfora paterna, conceito que vai construindo ao longo de seus seminários, buscando estabelecer as funções do pai na constituição do sujeito. A partir da estrutura do mito edípico, Lacan, no Seminário 5, As Formações do Inconsciente (1957-1958), discorre sobre o aspecto constitutivo do sujeito e nos fala dos três tempos lógicos do Édipo, importantes para entendermos os fatores psíquicos implicados na adolescência do sujeito, frente suas escolhas. No primeiro tempo Lacan introduz esse terceiro elemento na relação entre mãe-filho: o falo. Para ser introduzido no universo simbólico, a criança precisa ocupar esse lugar de objeto do desejo da mãe. A criança, em sendo tudo para a mãe, se crê o falo da mãe e, assim, constitui seu narcisismo. Essa primeira experiência de amor vai estruturar e organizar todos os conflitos que irão advir nos próximos tempos. O segundo tempo é marcado pela entrada de um elemento na tríade criança, mãe e falo: o pai. Este separa a tríade e entra como o agente de castração do filho. É o momento em que a criança se depara com a lei do pai, mediada pelo desejo da mãe. A função do pai, nesse tempo, se vê dupla: interditar o gozo da mãe e o desejo do filho. A mãe renuncia ao desejo de ter o filho como falo e o filho desiste de ser o falo da mãe, com medo da castração do pai. É o tempo da instauração da metáfora paterna, do registro do significante Nome-do-Pai. No terceiro tempo do Édipo, aquele que já desistiu de ser o falo, passa a querer tê-lo, uma vez que já se encontra marcado pela falta-a-ser. 42 No Projeto para Psicologia Científica (1895) Freud desenvolve a idéia da experiência primeira de satisfação da criança como uma urgência que se libera pela via motora, mas que não produz resultado de alívio porque a tensão psíquica se restabelece. O sujeito depende que o Outro se volte para ele. A estimulação só é capaz de ser abolida, se houver uma intervenção do mundo externo (comida e aproximação do objeto sexual). O organismo humano é incapaz de realizar essa ação específica. Ela se efetua por meio de assistência alheia, quando a atenção da mãe se volta para a criança. Através do grito, apelo a um Outro, a criança faz uma demanda imperiosa. É o ser humano em estado de desamparo inicial e, dessas idéias freudianas, podemos inferir algo do que mais tarde foi nomeado por Lacan de operação de alienação. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), ao comentar sobre a extrema solidão da criança ao fazer sua investigação sexual nos primeiros anos da infância, Freud utiliza o termo alienação (Entfremdung), que se apresenta em outro sentido. [...] os esforços do investigador infantil são habitualmente infrutíferos e terminam com uma renúncia que não raro deixa atrás de si um dano permanente à pulsão de saber. As pesquisas sexuais destes primeiros anos da infância são sempre realizadas na solidão. Constituem elas um primeiro passo no sentido de assumir uma atitude independente no mundo, e implicam um alto grau de alienação da criança em relação às pessoas a sua volta que anteriormente gozavam de toda a sua confiança. (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 202-203). Na citação acima, acompanhamos Freud tratando do desligamento da criança em relação à autoridade dos pais. O termo em alemão Entfremdung pode significar alienação, alheamento, distanciamento, estranhamento, desrealização (no sentido de sentimento de irrealidade ou sensação de estranhamento). Freud utiliza esse termo Entfremdung, basicamente, em dois sentidos: afastamento / separação e sensação de irrealidade e estranheza. Na primeira acepção o emprega com o sentido de descrever fenômenos da vida psíquica como um estremecimento de relações entre pessoas, um afastamento da criança frente às suas investigações sexuais ou mesmo sua reatualização frente à puberdade. Na segunda acepção é muito utilizado no contexto 43 dos sonhos para descrever o desfiguramento dos pensamentos manifestos até então latentes. (HANNS, 1996, p. 53). Lacan (1966) introduz os termos alienação e separação como operadores derivados da lógica formal que se ordenam por uma relação circular, mas nãorecíproca. Utiliza-se da teoria dos conjuntos para construir esses conceitos. Eis como surge a tese primeira de Lacan: o inconsciente é estruturado como uma linguagem. O sujeito é primariamente um efeito, não um agente e se constitui no campo do Outro. Esse Outro precede o sujeito e fala do sujeito antes de seu nascimento. Quando o sujeito nasce, depara-se com um limite imposto pela cultura. Surge no campo do Outro, no campo da linguagem, do simbólico. O Outro se apresenta ao sujeito como um impostor para suprir sua falta, mas na verdade, ele também tem esse furo. A criança ainda nem enfrentou a castração e potencialmente se relaciona com um conjunto completo de significantes. Quando entra no Édipo, vai se deparar com a castração, a partir do que pode ir ao encontro do seu desejo. Aceitar a castração é um reconhecimento de uma impossibilidade e possibilita sair em busca do desejo. Tomemos um fragmento clínico de uma jovem que se apresenta desinvestida libidinalmente. Cláudia, como a chamaremos, 17 anos, bonita, atraente, desde que completou 14 anos, dorme no quarto dos pais, no chão, segundo ela, por medo de seres sobrenaturais. Na escola, só tem amizades masculinas e não quer saber de estudar. Toda vez que sai com um garoto, vai logo para cama, mesmo não tendo o menor interesse. Os pais sabem disso e não se posicionam a respeito. Temem que Cláudia possa rebelar-se e sair de casa. Só se incomodam com a presença da jovem no quarto deles quando querem ter relações sexuais. Apesar de darem sempre um prazo para que saia do quarto, este é renovado a cada período esgotado e, ‘sem brigas’. Quando se pergunta a razão de insistir em lá ficar, a jovem reafirma ter medo de ficar sozinha e acha que no seu quarto tem espíritos (o pai é espírita). A irmã, mais nova, não quer que Cláudia durma no seu quarto. Quando o pai começa a querer brigar, a mãe encobre o problema e vai dormir no quarto com a filha, para acompanhá-la. Cursando a 3ª série do Ensino Médio, a jovem precisa fazer uma escolha profissional e está em dúvida sem saber a quem 44 agradar. Algo falha na constituição de seu desejo. Cláudia não consegue escolher. Encontra-se alienada ao desejo do Outro. O que está em jogo no sujeito do inconsciente é responder à questão do seu ser. Quem sou eu? O que querem de mim? Em 1998 encontramos em Lacan: “Pelo efeito da fala, o sujeito se realiza sempre no Outro, mas ele já não persegue, senão, uma metade de si mesmo.” (LACAN [1966] 1998, p. 917). O que quis Lacan dizer com isso? . O termo escolha tem sua origem no latim excolligere (ex- con- ligere), desligarse de. Fazer escolhas, nos mais diversos níveis, implica interessar-se por, desejar algo que lhe falta. Para escolher é preciso separar-se do Outro. E, na adolescência, essa separação simbólica está associada às escolhas da infância. As escolhas, portanto, nos remetem a uma escolha primordial fracassada, escolha que incide na divisão do sujeito, no sentimento de vazio, na alienação dos significantes do Outro. O objeto é escolhido em função de uma falta, para satisfazer a pulsão. No nível da alienação, temos o conjunto do Outro e o conjunto do ser, este transformado, pela linguagem do Outro, em sujeito. O sentido nos é dado pelo Outro, sendo que os dois termos de onde derivam o não-senso e o sentido são dois termos da cadeia significante, como podemos visualizar no diagrama, que se segue: O sujeito alienado é um sujeito do significante. Há que escolher entre identificação fixada por significante e sentido, ou seja, tem uma só escolha: petrificar- 45 se num significante ou deslizar no sentido. Tem-se sentido quando se tem um elo entre os significantes. O alienado é o sujeito que perdeu seu ser, que tudo aceita, não pergunta, não questiona, vive e age sem pensar sobre si mesmo, e mais, recusa-se a pensar sobre o que é, cujo destino é esse impasse: a petrificação por um significante ou a indeterminação no interior do deslizamento do sentido. (SOLER, 1997). Diante da guilhotina na Revolução Francesa, os ditos aos sujeitos a liberdade ou a morte, significaram a liberdade de morrer. A escolha fechada pode ser melhor entendida através da dialética do escravo. Para ele não há liberdade sem a vida, mas também não haverá vida com a liberdade. Na liberdade de escolha, perdem-se as duas; se se escolhe a vida, tem-se amputada a liberdade. Se se escolhe a liberdade, perde-se a vida. Diante do senhor, o homem entra na via da escravidão. Há, segundo Lacan, “um fator letal presente nesse jogo de significantes”. (LACAN [1964],1998, p. 202). Em 1966, nos Escritos, no texto Posição do Inconsciente, Lacan traz uma passagem belíssima sobre o sujeito alienado ao significante: Efeito de linguagem, por nascer dessa fenda original, o sujeito (do inconsciente) traduz uma sincronia significante nessa pulsação temporal primordial que é o fading constitutivo de sua identificação. Esse é o primeiro movimento. [...] havendo o desejo feito seu leito no corte significante em que se efetua a metonímia, a diacronia que se inscreveu no fading retorna à espécie de fixidez que Freud atribui ao voto inconsciente. Esse suborno secundário [...] o sela, recusando ao sujeito do desejo que ele se saiba efeito de fala, ou seja, que saiba o que ele é por não ser outra coisa senão o desejo do Outro. (LACAN [1966], 1998 p. 849-850). A alienação é o destino do sujeito. A separação não o é. A separação é algo que pode ou não estar presente e está relacionada a um querer (velle, do francês vouloir). Requer que o sujeito queira se separar da cadeia significante. Supõe uma vontade de sair, uma vontade de saber para além do que o Outro possa dizer, para além do que está inscrito no Outro, o que só pode ocorrer se houver o desejo do Outro, um Outro ao qual falta alguma coisa, um Outro barrado. Segundo Soler: “O Outro implicado na separação não é o Outro implicado na alienação. É um outro aspecto do Outro, não o Outro cheio de significantes, mas, ao 46 contrário, um Outro a que falta alguma coisa.” (SOLER,1997, p. 63). Essa falta que se encontra no Outro é o desejo. Aí se dá o encontro com a falta do desejo e o ser perdido do sujeito. O desejo é metonímico, algo que desliza nos significantes, algo que desliza na fala, impossível de capturar. Para além da fala do que o Outro diz existe sempre a pergunta constante: O que ele quer de mim? O sujeito encontra na falta do Outro o equivalente ao que ele é como sujeito do inconsciente, sujeito do significante. A interseção, que dentro da teoria dos conjuntos isola o que é comum a ambos, é por Lacan definida pelo que falta em ambos os conjuntos e não pelo que pertence aos dois . O furo aí é duplo. É na interseção entre o sujeito e o Outro que vai se constituir o desejo a partir da falta na fala. Nessa operação de separação, o Outro não fica excluído. Continua a ter uma função diferente, visto de um outro lugar. O desejo é parte do Outro sem ser um elemento do Outro. No Outro há apenas significantes e o vazio, portanto a resposta está no próprio sujeito, um sujeito para além do significante, ou seja, na pulsão que se satisfaz silenciosamente na ação. Quanto ao vazio, esclarece Soler (1997, p. 65): “[...] o intervalo, interseção ou vazio entre o sujeito e Outro não é tão vazio quanto parece, mas é uma lacuna onde alguma coisa entra: o objeto a.” O diagrama abaixo nos mostra, com mais visibilidade, essa operação fundamental, constitutiva do sujeito do desejo: 47 O sujeito toma o significante do campo do Outro para dele se separar. Aí se dá o término da circularidade da relação do sujeito ao Outro e é aí que se vai ver despontar o campo da transferência de investimentos libidinais. Nas palavras de Lacan: Na segunda operação se fecha a causação do sujeito, para nela constatar a estrutura de borda em sua função de limite, bem como na torção que motiva a invasão do inconsciente. [...] o sujeito reencontra no desejo do Outro sua equivalência ao que ele é como sujeito do inconsciente. Por essa via, o sujeito se realiza na perda em que surgiu como inconsciente, mediante a falta que produz no Outro, de acordo com o traçado que Freud descobriu como sendo a pulsão mais radical, e que ele denominou de pulsão de morte. [...] O vel (ou) retorna como velle (querer).” (LACAN [1966], 1998, p. 856-857). O sujeito passa necessariamente pelo Outro, pois a separação implica alienação, em primeira instância. Na separação há uma mudança subjetiva no campo da linguagem. É uma meia volta no campo da linguagem: de sujeito falado a sujeito falante. Ao se deparar com o furo, com um vazio, o sujeito vai ter que gerar a si mesmo. Esta é a via da separação. Tomemos um segundo fragmento clínico que nos mostra um sujeito adolescente querendo fazer essa manobra. Marília, 25 anos, procurou a análise, segundo ela, por dois motivos: a dificuldade de escolhas do namorado e da profissão: “Não agüento mais ser assim! Não quero ser igual à minha mãe, mas sinto-me completamente presa a ela. Não consigo me libertar. Fui atrás da conversa dela em ser advogada, mas não tem nada a ver comigo! Se abandonar o curso, vou me sentir uma traidora. Ela sempre quis que eu trabalhasse com ela no escritório! Até meus namorados ela escolhe de uma forma dissimulada e eu caio. Mas aí não consigo ser fiel, pois não consigo me fixar em um! O sujeito precisa elaborar suas próprias escolhas. Marília não conseguiu ainda realizar essa operação. A jovem está presa aos significantes do Outro. Toma o que vem do campo do Outro e a ele está identificada. Ela precisa se descolar dos significantes do campo do Outro. A fixação do gozo nas cenas familiares não permite que goze menos e deseje mais. Precisa fazer a escolha do desejo, a escolha de barrar o gozo que se desvela no seu sintoma. No seu contexto familiar se tece uma armadura simbólica, sintoma que vai exigir um novo arranjo entre o simbólico e o real. 48 Fotomontagem – hcourcy2 49 3 AS ESCOLHAS DO SUJEITO 3.1 O SUJEITO E O OUTRO A psicanálise provocou uma mudança paradigmática, ao tratar do sujeito do inconsciente, aquele que não detém o saber total sobre si e que só pode constituir-se como sujeito se entrar em uma ordem que é social, ou seja, na ordem da linguagem. Essa condição exige a intervenção de um adulto do campo da linguagem para proteger o ser humano no seu desamparo fundamental. No dizer de Freud, sem esse adulto próximo (Nebenmensch), o bebê humano não é capaz de se manter vivo. Ainda que não se refira explicitamente que a constituição do sujeito se dá no campo da linguagem, Freud, nas suas elaborações teóricas sobre o inconsciente, demonstra a necessidade de um suporte metodológico que o situe nesse plano conceitual. A partir de Freud, Lacan propõe a categoria de Outro para designar uma ordem significante que o adulto próximo encarna. Isto quer dizer que o que chega à criança é um conjunto de marcas introduzidas pelo Outro materno ou substituto através da linguagem. Esse significante primordial vai convocar o sujeito ao trabalho de lhe dar um sentido a partir desse campo do Outro. Mas, muito antes de nascer, esses elementos já se encontram no campo do Outro, com estatuto simbólico e que tem a ver com elementos da história de vida desse Outro. No entanto, eles só passam a existir concretamente, a partir do nascimento do bebê. Em outras palavras, antes do nascimento, o inconsciente é do Outro e a existência anterior desse inconsciente só vingará depois que houver sido constituído um sujeito. Elia, em seu livro O Conceito de Sujeito (2004) fala dessa lógica complexa em que o Outro cria um passado para o futuro que só será passado quando o futuro se tornar presente, desígnios prévios ao bebê: O encontro cria o “passado”, que não existia antes dele, mas que, uma vez criado, passa a existir e a operar inexoravelmente como passado, anterioridade determinante do encontro que, no entanto a criou. Trata-se de uma anterioridade anteriormente existente, porém que passa a existir como anterioridade no momento em que é criada [o encontro do sujeito com o Outro]. (ELIA, 2004, p. 43). 50 A mãe, este Outro primordial que atende aos apelos do bebê com o objeto que lhe é necessário − o leite − também traz consigo o objeto que entra no espaço perceptivo da criança, a partir da primeira experiência de satisfação da necessidade, fazendo com que o psiquismo procure reencontrar esse objeto registrado psiquicamente. Esse traço mnêmico, do alimento, ficará associado ao traço mnêmico da excitação da necessidade que será reinvestido pelo sujeito, provocando uma nova percepção. A criança passa a querer não só o objeto da necessidade, mas aquele que o trouxe, ou seja, o Outro como campo, para atender a sua necessidade de satisfação. Para que isso ocorra, faz-se necessário que esse Outro dê uma significação ao grito do ser que se agita excitado pela fome, grito que expressa uma demanda de satisfação, o que é diferente do desejo. Ao desdobramento introduzido por Freud da passagem da pura necessidade para o plano do desejo, Lacan acrescenta a instância da demanda. Esta se situa no apelo de trazer de volta a satisfação. É o pedido de satisfação do status quo ante, enquanto o desejo é a busca de um complemento que falta: “O desejo é justamente a busca, a procura daquele objeto suposto da primeira experiência fictícia de satisfação que nunca existiu mas é um postulado necessário a Freud para constituir o objeto como faltante e sua conseqüente busca da parte do sujeito.” (QUINET, 2003, p. 88). Ao estabelecer a diferença entre necessidade, demanda e desejo, Quinet traduz essa distinção mostrando-nos que a necessidade pertence ao registro da etologia, que é da ordem animal, o que difere da demanda, que é da ordem humana, pois apresenta a dimensão do Outro da fala. Ele nos diz: Em primeiro lugar, o simples fato de tomar a palavra faz surgir o Outro da fala, pois nunca há concordância total entre o que se intenciona dizer e o que se diz. A fala faz surgir a alteridade e o descentramento do sujeito. Ao tomar a palavra, é o sujeito que é tomado por ela na medida em que sofre sua incidência ao se escutar falando. Há um Outro que fala através de mim fazendo-me tropeçar nas palavras e dizer coisas que não tinha a intenção de dizer. Em segundo lugar, por ser a fala sempre dirigida ao Outro (mesmo quando se fala sozinho). Quando se escuta alguém dizendo ‘preciso de ar’, não é necessário ser analista para se perceber que há nesse enunciado uma demanda implícita, que pode ser de cuidados médicos, de que se ventile o ambiente ou demanda de atenção. (QUINET, 2003, p. 89). 51 Isto significa que no nível da demanda o sujeito se dirige ao Outro, demandando sua presença, o seu amor, numa relação que se dá por meio da linguagem através do sistema de significantes. Mas, ao mesmo tempo em que é um apelo ao Outro, o sujeito é movido por uma força a um objeto faltante: o objeto a. Este é o objeto causa do desejo que, por incidir como faltoso na experiência, causa o desejo do sujeito, o que já não é mais demanda, mas desejo. A demanda é a própria cadeia de significantes. O analisante, ao dirigir sua fala ao analista, apresenta uma fala que, em si, demanda sentido. Em sua verdadeira estrutura, a demanda de saída já é habitada pelo desejo, que a marca com a impossibilidade de satisfação, razão por que estamos sempre em busca de algo que nos falta. O desejo, estruturado a nível inconsciente, apesar de caótico, realiza-se na sua dimensão simbólica, regido pela trama da fantasia do sujeito. O desejo está fora do significante. É causado pelo objeto a. Só pode ser inferido a partir da fala que é da ordem da demanda, ou seja, do enunciado, mas o desejo é da ordem da enunciação. Lacan baseia-se em Hegel para formular o aforismo “O desejo do homem é o desejo do Outro”. Para Hegel, o desejo do homem se constitui a partir do desejo do outro; meu semelhante. É um desejo de desejo, um desejo que se nutre de desejos, ou seja, é o desejo de reconhecimento pelo outro da dialética do senhor e do escravo. Depende, a nível consciente, do outro como desejante. Em Lacan, “O desejo do homem é o desejo do Outro” é da ordem do inconsciente. O Outro aí é o lugar onde se institui o Outro da falta, faltando o significante que o definiria como totalidade: O inconsciente é o discurso do Outro, sendo que para o neurótico, ele é barrado, porque há uma inscrição da falta no Outro, o que o torna inconsistente. É justamente por haver uma falta inscrita no Outro que o Outro diz respeito ao desejo do sujeito, pois é ao nível do que falta no Outro que sou levado a buscar aquilo que me falta – o que me falta como objeto do meu desejo. (QUINET, 2003, p. 93). Sendo assim, o inconsciente como discurso do Outro é uma cadeia significante em que circula o desejo inconsciente. Mas, para além do Outro, o desejo do sujeito 52 depende de um outro, parceiro, a partir da falta, que é o objeto a. Quinet reconhece que no registro imaginário se encontra o desejo de reconhecimento pelo outro, o que acarreta sempre em luta de prestígio, com sua dimensão mortífera manifesta na ambição de dobrar o outro, impondo-o à dominação, como na dialética do senhor e do escravo. (QUINET, 2003, p. 94). A dimensão trágica do sujeito está na impossibilidade da articulação do desejo e na sujeição do sujeito ao que se articula, sem o seu arbítrio, a partir das marcas do Outro. 3.2 O SUJEITO E O ENCONTRO COM A PUBERDADE É chegado o momento em que o sujeito se depara com a puberdade, um encontro há muito esperado, mas com questões de difícil resolução. Além de transformações físicas e psíquicas importantes, a puberdade traz consigo uma questão central que é a identidade sexual, quando o jovem, saído da infância, se depara com o real do sexo, um encontro traumático que escapa à simbolização, algo da ordem do impossível de traduzir em palavras. Esse é o momento em que o adolescente busca viver suas primeiras experiências adultas e os relacionamentos amorosos ocupam um lugar de destaque em sua vida. Surgem várias dificuldades, dentre elas a busca do sexo compartilhado: Como fazer para aproximar-se do outro? Como se posicionar diante do sexo? O que fazer se o parceiro recusar? Alguns jovens conseguem fazer essa passagem relativamente bem e não raro ajudam os colegas a enfrentarem essas situações inaugurais, relatando inclusive suas próprias experiências sexuais. Outros, no entanto, têm muita dificuldade em conversar sobre essas questões, embora saibamos que as primeiras experiências sexuais de um sujeito se dêem, em primeira instancia, na infância. Segue um caso ilustrativo dessa dimensão traumática. Marcos, estudante da 2º ano do Ensino Médio, primogênito de uma família de dois filhos, tem ficado com Priscila, timidamente, no clube em que pratica natação. Se perguntado como é essa relação, responde que “está tudo normal”. Não consegue 53 falar dessa normalidade: “Não gosto de falar disso”, diz. Em uma entrevista preliminar com os pais, eles revelaram que, quando Marcos tinha nove anos, foi pego beijando uma amiguinha e a agarrando no play – um encontro mal sucedido. Advertidos pelo condomínio, seus pais o castigaram, não mais permitindo que descesse para brincar. Marcos, agora com 17 anos, precisa esconder sua libido de todos, inclusive dele mesmo, tendo muita dificuldade em tocar no assunto. O despontar do período da latência cursa, em geral, com uma maturação somática branda até a chegada da puberdade. Marcos apresentou, no período de latência, um resto pulsional ativo, que o levou a ser punido pelos pais. Com a chegada da puberdade, se deparou com “um real em jogo a que não se pode fugir e que se mostra no corpo” (ALBERTI, 1996, p. 165). Marcos se vê pressionado a esconder “esse a mais de energia”. Já nos reportamos no capítulo 1 sobre a entrada do jovem na adolescência, quando se constata um reforço pulsional e um redespertar edípico, aliados a um despertar das fantasias incestuosas inconscientes. Com a genitalidade sobredeterminada pela primeira infância, impelido a ir ao encontro com o real do sexo, o jovem sai em busca da escolha de um objeto sexual. É um momento que vai exigir profundas mudanças, como o desligar-se da autoridade dos pais para tentar alcançar um supereu impessoal, o que sabemos que é algo da ordem de uma resolução complexa, como nos mostra Freud no terceiro ensaio sobre a teoria da sexualidade infantil. Neste capítulo, concentramo-nos na questão do encontro com o real do sexo, um real que não pode ser falado pelo sujeito adolescente, momento de difícil atravessamento e que nos remete novamente aos fundamentos freudianos. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), conforme o próprio Freud comenta no artigo de 1923 - A Organização Genital Infantil (Uma Interpolação na Teoria da Sexualidade) - sua preocupação centrou-se em descrever a diferença fundamental existente entre a vida sexual das crianças e dos adultos. Nos anos subseqüentes foi fazendo alguns acréscimos sobre suas descobertas em relação às organizações pré-genitais da libido, ao caráter bifásico da sexualidade e às dissimetrias na sexualidade do menino e da menina. Em 1923, observa-se em Freud a necessidade de falar sobre a categoria 54 feminina e já atribui um papel central ao falo para os dois sexos: A aproximação da vida sexual da criança à do adulto vai muito além [da primazia dos órgãos genitais] e não se limita unicamente ao surgimento da escolha de um objeto. [...] a característica principal dessa ‘ organização genital infantil’ é sua diferença da organização genital final do adulto. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em consideração apenas um órgão genital, ou seja, o masculino. O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo. Infelizmente, podemos descrever esse estado de coisas apenas no ponto em que afeta a criança do sexo masculino; os processos correspondentes na menina não conhecemos. (FREUD [1923], 1976, v. 19, p. 180). Em 1924, Freud avança, mostrando-nos as disposições masculinas ou femininas no sentido de atividade e passividade, uma manifestação ainda na infância. Observa que na fase fálica a criança apresenta um interesse narcísico nos órgãos genitais, encontrando prazer na sua manipulação. A atividade autoerótica das zonas eróticas, tanto no menino quanto na menina, não apresenta uma diferenciação sexual como se observa na puberdade. Essa evidência leva Freud a julgar que as manifestações autoeróticas e masturbatórias da sexualidade se apresentam nas meninas de caráter masculino. Ao atingir a puberdade, afirma Freud, impõe-se, nas meninas, a eliminação da sexualidade clitoridiana masculina, uma pré-condição para que haja o desenvolvimento da feminilidade. Quando a mulher transfere a excitabilidade erógena do clitóris para a vagina, ocorre uma mudança de zona dominante, ao contrário do homem que permanece com a mesma zona dominante desde a infância. No artigo Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos (1925), Freud já mostra o avanço na compreensão da entrada da feminilidade, ao falar do abandono da masturbação fálica na menina pelo sentimento narcísico de humilhação, ao reconhecer a diferença anatômica dos sexos. Esses conflitos edípicos retornam na puberdade e estão relacionados ao complexo de castração. O menino, que na infância temia ver seu órgão castrado pelo pai, age então narcisicamente para garantir sua integridade e desiste do seu objeto sexual que é retomado no momento em que pode, enfim, escolher um objeto de amor e colocar em ato seu desejo sexual. A menina, que desde o início teve sua 55 integridade perdida, na puberdade, tem o complexo de castração reativado, fazendose imaginar que teria mais prazer caso tivesse o pênis. O encontro com o real do sexo já existe desde as primeiras percepções no tocante à diferença entre os sexos. Na adolescência, há um despertar das fantasias sexuais da primeira infância, interrompidas durante o período de latência, agora com a possibilidade de escolha do objeto que coloque o sujeito frente a seu desejo edípico até então adormecido. Ocorre, nesse momento, uma reativação da escolha do objeto interdito. Isto poria em evidência a disjunção entre a sensualidade e a ternura sobre o mesmo objeto. O desejo sexual reativa o Édipo, restabelecendo a relação originária com o objeto que proporcionou a mais primitiva satisfação sexual, a amamentação no seio materno – e que se torna o protótipo de todos os relacionamentos amorosos. Para a psicanálise esse encontro pubertário não é o primeiro da dimensão traumática para o sujeito, pois Freud diz: “Não só os desvios da vida sexual normal como também a configuração normal desta é determinada pelas manifestações infantis da sexualidade.” (FREUD [1905], 1972, v. 7, p. 218). Alberti comunga dessa idéia quando nos fala desse encontro como uma segunda dimensão traumática, pelo fato de que o corpo do sujeito sofre modificações de uma ordem tal que não há representações que lhe permitam dar conta delas. Diz que ao se deparar com sua sexualidade, apoiada em desejos e fantasias inconscientes, o jovem se vê novamente diante de um trauma: “um trauma que se dá ali onde se desenvolve a vida sexual, ou seja, na primeira infância.” (ALBERTI, 1996, p. 188). A escolha de objeto é tratada por Freud em Sobre o Narcisismo: uma Introdução (1914), ensaio em que ele coloca a vida erótica dos seres humanos nas suas diferenças homem-mulher. Reforça a idéia de que a escolha de objeto nas crianças de baixa idade deriva de suas primeiras experiências de satisfação: As primeiras satisfações sexuais autoeróticas são experimentadas em relação com funções vitais que servem à finalidade de autopreservação. As pulsões sexuais estão, de início, ligadas à satisfação das pulsões do ego; somente depois é que elas se tornam independentes, com uma vinculação original no fato de que os primeiros objetos sexuais são as pessoas que cuidam delas. (FREUD [1914], 1974, v. 14, p. 103). 56 Sendo assim, inicialmente ligadas às pulsões do eu, somente mais tarde as pulsões sexuais tornam-se independentes, embora vinculadas aos primeiros objetos sexuais da criança. É uma escolha do tipo anaclítico ou de ligação, diferente da escolha narcisista em que o sujeito procura em si mesmo o objeto amoroso. Ambos os tipos de escolha objetal existem originalmente no sujeito: ele próprio e a mulher que cuida dele, ou seja, ambos os tipos estão abertos ao sujeito, uma vez que o ser humano tem originalmente dois objetos sexuais. Há, no entanto, diferenças fundamentais no que se refere à escolha do tipo masculino ou feminino. O primeiro tipo, de ligação, é típico masculino. O sujeito transfere o narcisismo original para o objeto sexual, havendo uma supervalorização sexual, com um empobrecimento do ego em relação à libido, em favor do objeto amoroso. No sexo feminino, com o eclodir da puberdade, há uma intensificação do narcisismo original, em que as mulheres amam apenas a si mesmas. Suas necessidades acham-se na direção de serem amadas e não de amar. Esta é a finalidade e satisfação de uma escolha objetal narcisista. Mas uma pessoa apaixonada pode privar-se de uma parte de seu narcisismo. Há mulheres cujas escolhas amorosas são do tipo masculino. A escolha do objeto relaciona-se com a escolha da neurose, o que Lacan denomina “insondável decisão de ser”, uma vez que, para ele, a escolha não é um querer, mas algo que é determinado pela estrutura do sujeito. A ampliação do termo sexualidade pela psicanálise surgiu pelo fato da sexualidade não se limitar à questão da genitalidade. Esse para além da biologia leva Lacan a introduzir o termo sexuação para designar a forma como são reconhecidos e diferenciados os dois sexos pelo inconsciente, diferenciando as modalidades masculina e feminina de gozo. Assim, masculino refere-se à submissão, à função fálica, sendo-lhe próprio o gozo fálico, enquanto que ao feminino acrescenta-se um gozo suplementar pela posição não-toda em relação à norma fálica. (SOLER, 1997). Freud utiliza o termo gozo muito raramente. Em seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), utiliza-o a propósito dos homossexuais que, em virtude de sua aversão pelo objeto de sexo oposto, não conseguem extrair nenhum gozo da 57 relação com ele. Em Além do Princípio do Prazer (1920), ao elaborar o conceito de pulsão de morte, utiliza-o no sentido de apoio ao surgimento da pulsão sexual. O exemplo da satisfação da necessidade nutricional através da sucção do seio materno, o chuchar, o nascimento dessa atividade repetitiva é da ordem do gozo, assinalando a entrada na fase de autoerotismo. Lacan retoma a questão da diferença sexual a partir da teoria do gozo. Para chegar às premissas de seu conceito de gozo, um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico, retorna à fase do autoerotismo, no fim da década de 1950. Nesse momento inicial situa o gozo como uma tentativa permanente de ultrapassar os limites do princípio do prazer. Em 1962, defende a idéia de que o gozo se sustenta pela obediência do sujeito a uma ordem, e finalmente, na década de 1970, o expressa em forma de sexuação, diferenciando então o gozo fálico do gozo feminino. Segundo Elia (2005), não é possível não gozar. O gozo está no campo da estrutura, portanto no campo da linguagem. O gozo é o que o significante faz no e com o sujeito: O gozo pode ser concebido como o tipo de afecção que o sujeito sofre pelo fato de ser sujeito ao significante e que se traduz em sua experiência como efeito de sentido ao qual ele adere e que repete, para além de seu arbítrio e para além da significação que pode compreender desse efeito (ELIA, 2005, p. 14). A criança, ao renunciar à atividade sexual pela via da sublimação - pelo fato de estar privada do instrumento que permite sua satisfação sexual - quando chega à puberdade, constata que o instrumento que lhe é dado é um engodo. Descobre que a posse desse instrumento não é suficiente para o acesso a um gozo perdido. Passa do campo da criação para o de castração. Lacan coloca a angústia de castração como responsável por um basta nos impulsos sexuais, a fim de que não se estabeleça um laço entre o gozo e o objeto da demanda de amor, dando início ao período de latência. Nesse momento se instala o recalcamento, uma necessidade imperiosa para não se saber sobre esse gozo que retorna com a chegada da adolescência, com toda força. Todo sujeito humano é determinado pela sexualidade, pelo mundo pulsional 58 próprio de sua realidade psíquica, o que o torna um sujeito em crise. Isto porque a sexualidade, segundo Lacan, muito antes de fazer sentido, faz furo no real. Alberti nos fala sobre essa desarmonia no sujeito adolescente, ao se deparar com a genitalidade: Assim, ao contrário de permitir a constituição da sexualidade adulta como harmônica, o primado da genitalidade a introduz no campo da impossível completude, já que a submissão da libido ao significante, por um lado, marginaliza o mundo das pulsões e, por outro, implica uma proibição que divide o campo do gozo: ali onde o sujeito goza, ele faz algo proibido; ali onde ele se submete a esse primado ele não goza. (ALBERTI, 1996, p. 120 -121). Desse modo, a crise da adolescência se efetiva no encontro com o sexo, mais precisamente, no desencontro, uma vez que a harmonização se faz impossível, o que muda o nosso olhar sobre os adolescentes. A psicanálise aponta, segundo Lacan, para uma hiância entre o gozo e regulação da sexualidade, gozo esse que só se dará com a transgressão. O sujeito não nasce com sua posição sexual definida, uma vez que essa posição não lhe é dada pela própria natureza humana. Ele, ao atingir a puberdade, terá que responder pela sua posição sexual, terá que dar conta desse real. As tentativas de dar conta do real inscrevem-se, para Freud, na retomada do mito individual de cada sujeito, levando-o a escolhas singulares que tem a ver com sua própria história. No dizer de Lacan, “as vias do que se deve fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro que se coloca no campo do Outro.” (LACAN [1964], 1998, p. 194). Interessante retornarmos mais uma vez a Freud que, nos Três Ensaios (1905), aborda o encontro na puberdade com o objeto sexual, um objeto fora do corpo, como um reencontro com o objeto de primitiva satisfação sexual - o seio materno. O encontro com o objeto amoroso se faz por apoio a modelos infantis primitivos podendo também se fazer pelo narcísico, quando o sujeito encontra no outro a si próprio. Para Freud, é essa relação primordial que vai servir de modelo para todos os demais relacionamentos amorosos. Sendo assim, a mãe carinhosa e dedicada, ao 59 lidar com a criança, é responsável por um ser humano amoroso, capaz de amar e ser amado. O amor dos pais para com o filho em dose adequada na infância pode cumprir a tarefa de orientar o filho, na maturidade, em sua escolha do objeto amoroso, o que não acontece, quando há excesso ou a falta de amor. O excesso de amor pode se tornar pernicioso com prenúncios de um adoecimento neurótico na idade adulta, permanecendo por toda a vida. A angústia que se manifesta, muitas vezes no sujeito ainda criança, nada mais é do que a expressão da falta que a criança sente em relação à pessoa amada. Somente tende ao estado de angústia a criança com uma pulsão sexual desmedida ou prematuramente desenvolvida, ou que se tornou muito exigente em função dos mimos excessivos. Retomando o início do sub-capítulo, quando questionamos a dificuldade do adolescente ao se deparar com o real do sexo, verifica-se um deslocamento do campo pulsional em que o corpo do outro entra em cena como objeto possível de desejo, provocando-lhe um mal estar. Para além do olhar dos pais, a sexualidade genital entra no mundo de cada um, em qualquer época, de forma peculiar e, em se tratando de homem e mulher, Freud nos mostra o quanto o ato sexual assume função e valores diferentes. A mulher prima pelo afeto, ao passo que o homem fica mais preocupado com a ereção e a detumescência, mostrando-se mais animalesco. Diz Zalcberg: [...] os sexos não entram da mesma forma na relação sexual o que gera a impossibilidade de uma complementaridade entre eles. O homem implica a mulher em seu sintoma por tomá-la como fetiche em sua fantasia; a mulher, por seu lado, envolve o homem em sua fantasia como objeto erotomaníaco de amor.(ZALCBERG, 2007, p. 4) Podemos atribuir o amor na mulher como próprio da subjetividade feminina, diferente do homem que, ao atingir a puberdade, sai em busca de satisfazer sua fantasia de virilidade, colocando o seu pênis em ato, numa escolha de objeto sexual em substituição ao objeto de amor primordial perdido. Para o sujeito humano, essa busca de satisfação sexual, do sexo 60 compartilhado, vem carregada de angústia, tendo em vista que o desejo passa a ser um imperativo desafiante no enlaçamento que trata a dimensão de quanto ele está apenso à efetivação do desejo do outro. O sujeito precisa do outro para satisfazer a si próprio. Esse passo adolescente tem uma dimensão de incompletude, sem o poder de antecipação, uma vez que os jovens não resolvem sozinhos a questão, mas precisam do outro para a realização do ato, o que é por vezes aniquilador. Esse é o drama vivido por Renato, jovem de poucos amigos, 18 anos, que vem apresentando uma queixa de dificuldade no enfrentamento de realização de seu desejo: ter uma mulher. Primogênito de uma família de classe média, desde criança sofre repressão no seio familiar, intensificada com um assalto sofrido aos 13 anos de idade. Renato passa a sair só com os pais e hoje não vai a lugar nenhum sozinho, não se expõe em grupo, principalmente quando nele tem alguma menina que lhe interessa. As transformações que observa em seu corpo o fazem sentir-se estranho. Começa a ficar deprimido porque todas as manhãs, sua cama amanhece molhada, sem entender o porquê, além de fazer verdadeiros pesadelos com mulheres. Acorda com freqüência à noite, só pensando nelas. Tem vontade de perguntar ao pai sobre essas questões sexuais, mas não tem como abordá-lo. Está louco para relacionar-se com mulheres, mas não tem coragem de enfrentá-las, sempre achando que elas irão rejeitá-lo. Acha-se horroroso e faz fantasias de que se agarrar uma mulher, vai sufocá-la. Sabe que precisa encontrar uma saída para desvencilhar-se do encarceramento em que se colocou e que passou a incomodá-lo muito. Esse mal estar intensifica-se com o ingresso na faculdade, em que outras cobranças passam a ser feitas. Vai ao extremo de abandonar o curso. Esse rapaz ainda não consegue fazer a passagem, permanecendo numa posição passiva de assujeitamento a esses pais e vivenciando um drama ainda infantil. Carneiro Ribeiro (2001, p.7) faz referência a Lacan sobre o despertar dos sonhos no adolescente, nesse encontro com o real do sexo afirmando que “O drama da juventude reside na possibilidade do encontro no ato sexual fazer cair o véu e levar o jovem a encarar o impossível da relação sexual”, incurabilidade apontada pela psicanálise do que existe desde sempre, enunciada pelo aforismo lacaniano: não há a relação sexual, ou seja, não há complementaridade entre os sexos assim como não é possível decifrar o enigma da diferença sexual. O sujeito adolescente está diante de um saber sobre o sexo, um saber sobre a 61 castração. Escolhendo decifrar este saber, poderá trilhar o caminho da autonomia, efetuando suas próprias escolhas, desde as amorosas até a escolha profissional. 3.3 O PROFESSOR E O ANALISTA Retomemos agora a cena da escola, enunciada na introdução, provocadora do presente estudo: um discurso para o professor ausente, em que o amor de transferência se faz visível. O encontro com o desejo do Outro, através da fala, produz um efeito traumático, porém necessário por ser constitutivo do sujeito. O que no Outro se revela inominável, provoca um desamparo e exige um movimento do sujeito rumo à possibilidade de satisfação. Para que possamos dar nossa contribuição em relação ao encontro do sujeito adolescente com o professor, vamos, mais uma vez, recorrer a Freud e Lacan no que se refere ao fenômeno da transferência e ao laço social. Vimos através do discurso dos alunos o quanto o amor transferencial se fez presente, manifesto em relação à figura do professor, este como simulacro da figura paterna e alvo de representações transferenciais. A transferência é tida como um fenômeno natural que se faz presente em todas as relações, seja nas amizades, na relação médico-paciente, educadoreducando, seja na relação analista-analisando. Ela ocorre toda vez que se supõe um saber ao Outro sem que necessariamente ele o tenha. Josef Breuer, Wilhelm Fliess e outros foram alguns dos professores de Freud a quem ele supôs um saber. Este saber há de ser diferenciado do conhecimento. Nós, humanos, estamos mergulhados em informações e o número de informações que recebemos é tanto mais rico e complexo quanto o meio sóciocultural em que vivemos. Porém, nem toda informação se transforma em conhecimento, ainda que saibamos que o conhecimento é a construção de cada um a partir de uma informação. O saber é algo da ordem subjetiva, que provoca um para além do prazer, um gozo, e que passa pela via do desejo inconsciente. O sujeito transforma o conhecimento para apropriar-se dele, mas a incorporação ao saber é da via do inexplicável, do “não sabia que sabia”. 62 Na relação transferencial entre analisando e analista, experimentamos uma especificidade própria da psicanálise: ela é um fenômeno endereçado ao analista, um instrumento de operação do analista e que determina a possibilidade ou não da entrada do sujeito em análise. O analisando transfere um saber ao analista e este vai se manter opaco, permanecendo na ignorância douta. Na transferência há um amor ao saber. Amor paradoxal que se apresenta como um amor, ao mesmo tempo, falso e verdadeiro. Trata-se de algo complexo porque a transferência é um fenômeno no qual se verifica um deslocamento de afetos das primeiras relações amorosas. Como entender a transferência na relação educador-educando? Que posição ocupa o professor na relação transferencial? Sabemos que os lugares ocupados nessa relação diferem da relação analista-analisando. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), já referido anteriormente, Freud aponta para o aparecimento de um período de latência em que a energia sexual infantil se recalca para dar lugar a atividades intelectuais e sociais. Nesse momento, os professores passam a ocupar, de uma forma parcial, o lugar dos pais com quem as crianças estabeleceram uma primeira relação amorosa. Herdam os sentimentos parentais e, segundo Freud, passam a ser pais substitutos. Essa dinâmica se repete na puberdade quando há a ativação das fantasias sexuais e o trabalho intelectual é considerado igualmente uma das saídas para a satisfação sexual. Nesse momento, o jovem se lança no mundo social mais amplo, ocupando o professor uma posição referencial de suma importância, muitas vezes não percebida por esse profissional preocupado com o conteúdo acadêmico. Diz Freud: ”Transferimos para eles (professores) o respeito e as expectativas ligadas ao pai onisciente de nossa infância e depois começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa.” (FREUD [1914], 1974, v. 13, p. 288). Relatamos aqui uma situação constrangedora em uma universidade pública, em que uma aluna desloca seu amor primordial para a figura do professor. Ao final de curso, Márcia, como iremos chamá-la, temerosa por perder o amor dos pais e, angustiada por ter sido reprovada em uma disciplina com possibilidade de uma reincidência, resolve tumultuar o ambiente de sala de aula onde o professor estava fazendo atendimento individual aos alunos que recorreram ao pedido de revisão de prova. Sai de sala gritando e ameaçando ir queixar-se à direção do curso pela falta de respeito e consideração aos alunos que não estavam sendo atendidos a tempo. Após 63 alguns minutos, estes retornam para contar a situação dramática ocorrida na sala dos professores. Márcia, após intensa crise de choro, desmaiou frente à coordenação, o que exigiu um contato com a responsável pela aluna, que confirmou serem freqüentes essas cenas na vida da jovem. O incidente foi compreendido como a atualização de reações infantis, servindo o mestre como alvo dessas representações transferenciais. Como outro exemplo de fenômeno transferencial na educação, contrário a este, lembramos o caso de Joana que, na época de prestar vestibular, optou por licenciatura em português – francês, porque tivera uma professora no segundo segmento do ensino fundamental que amava e que a fizera gostar da disciplina. A educação e a psicanálise, embora atuem de formas diferentes, se sustentam na transferência, o que nos leva a buscar uma maior compreensão desse fenômeno nos dois campos de atuação, com vistas a subsidiar o professor no seu encontro com os adolescentes. Freud, ao expor sua teoria sobre a neurose, pela primeira vez, nas Cinco Lições de Psicanálise (1909), de uma forma sistemática, nos esclarece que sempre que se vai tratar de um paciente neurótico surge nele um estranho fenômeno - a transferência - em que sentimentos afetuosos, muitas vezes hostis e não justificados, originam-se em antigas fantasias tornadas inconscientes. E prossegue, convicto da importância da transferência como instrumento terapêutico: A transferência surge espontaneamente em todas as relações humanas e de igual modo nas que o doente entretém com seu médico; é ela, em geral, o verdadeiro veículo de ação terapêutica, agindo tanto mais fortemente quanto menos se pensa em sua existência. A psicanálise, portanto, não a cria; apenas a desvenda à consciência e dela se apossa a fim de encaminhá-la ao termo desejado. Não posso certamente deixar o assunto da transferência sem frisar que este fenômeno é decisivo não só para o convencimento do doente mas também do médico. (FREUD [1909] 1970, v. 11, p. 48). Em linguagem lacaniana, transferimos o amor da infância no sentido do que nos afeta, naquilo que ultrapassa as palavras, por uma via significante, sem a mediação das significações. Convocar o sujeito a falar do que o afeta leva a que algo se produza além da palavra. Esse algo é o fenômeno da transferência, expressão de 64 uma representação inconsciente que ocorre no campo da linguagem. Elia (2004) identifica a transferência como “um campo propriamente constituído pela experiência psicanalítica, no qual são as configurações produzidas pela fantasia (e não pelas vias significantes do sintoma) que vêm à cena”. (ELIA, 2004, p. 31). Sadala se refere à transferência como: “a manifestação do inconsciente em ato – uma encenação. É um fazer no dizer. Dela pode surgir algo novo - uma faceta da verdade do sujeito. E é essa a principal finalidade de uma psicanálise.” (SADALA, 2001, p. 213). Na perspectiva psicanalítica, a transferência é identificada como um fenômeno em que afetos primitivos são deslocados para a figura do analista. Apesar de ser um fenômeno que se manifesta em qualquer relação, no espaço analítico ela é condição para que aconteça a análise. O inconsciente se presentifica na transferência através da associação livre, na medida em que o sujeito dirige sua fala ao analista, em busca de seu deciframento. Freud torna pública a idéia de transferência (Übertragung), pela primeira vez, em sua contribuição técnica aos Estudos sobre a Histeria (1895), termo usado em sentido ainda restrito, como uma conexão que deveria ser desfeita por ser um engano. No seu capítulo 4, A Psicoterapia da Histeria, Freud identifica o fenômeno através de um paciente com sintoma histérico específico em que o conteúdo do desejo aparece na consciência da paciente sem qualquer lembrança das circunstâncias de épocas passadas e a mesma vivencia um sentimento de repúdio, provocando uma falsa ligação (mésalliance), o que se repete de uma forma equivocada a cada vez em que esse desejo lhe surge. O estatuto de conceito ocorre quando Freud, trabalhando com o fenômeno da resistência, percebe que para dar prosseguimento aos trabalhos psicanalíticos, deve fazer surgir a lembrança patogênica, como no caso da paciente que ilusoriamente confundira o passado com o presente em que o desejo proibido de querer ser beijada por um homem que conhecera no passado, se viu contemporizado na situação analítica. Essa temática retorna ao discurso freudiano em sua análise do Caso Dora (1905) e é considerada como de significativa importância histórica, pois, no momento em que estava atendendo a adolescente Ida Bauer, este seu nome, 18 anos, não sabia ainda trabalhar com a transferência, não sabia do papel que o analista desempenha na transferência do analisando. Através desse caso, Freud se debruça 65 sobre esse fenômeno para saber qual o seu lugar na teoria do processo psicanalítico, iniciando a construção da teoria sobre a transferência. Por não ter trabalhado a transferência a tempo – já que ela mesma, no sonho, se aconselhava a abandonar o tratamento analítico como abandonara a casa de Herr K - a falha levou a jovem a atuar suas lembranças e fantasias. O abandono do tratamento possibilitou a Freud esclarecer algumas particularidades sobre esse caso e constatar o quanto a transferência é um fator terapêutico de extrema importância para a psicanálise. O próprio Freud, ao analisar o caso, reconheceu ter se descuidado não permitindo a ela endereçar-lhe o seu amor, razão do fracasso desse caso que lhe serviu como um enorme aprendizado. No pós-escrito do caso Dora, publicado como Fragmentos da Análise de Um Caso de Histeria, Freud conceitua transferência como reedição das pulsões e fantasias atualizadas através da figura do analista, e é com o caso Dora que Freud percebe a transferência como um obstáculo a ser superado. “A transferência, que parece predestinada a agir como maior obstáculo à psicanálise, torna-se seu mais poderoso aliado, se sua presença puder ser detectada a cada vez, e explicada ao paciente.” (FREUD [1905],1972, v. 7, p. 114). Em A Interpretação dos Sonhos (1900) Freud retoma o termo transferência com o sentido de um deslocamento em que alguns acontecimentos do dia, resíduos diurnos, são ingredientes essenciais na formação dos sonhos, transferidos e modificados pelo trabalho do próprio sonho. Ao perceber que a transferência era uma maneira peculiar de deslocamento de afetos, toma a elaboração do sonho como modelo, e, de uma forma análoga, reconhece que no tratamento psicanalítico, o mecanismo de deslocamento também se põe em ação. A figura do analista funciona como um resto diurno, manifestação do inconsciente, sobre o qual o paciente trabalha transferindo para ele imagens que funcionam como antigas vivências disfarçadas, que não podem ser lembradas ou se fazer representar como são na realidade, funcionando como resistência. Em 1912, no artigo Dinâmica da Transferência, Freud faz um exame teórico do fenômeno da transferência e da maneira como ela opera no tratamento. No início desse artigo defende a idéia da importância, na origem da transferência, da disposição inata e das influências sofridas durante os primeiros anos do sujeito para a condução de sua vida erótica, sendo que a passagem pelo Édipo definiria o tipo de transferência na relação analista -analisando: 66 Deve-se compreender que cada indivíduo, através da ação combinada de sua disposição inata e das influências sofridas durante os primeiros anos, conseguiu um método específico próprio de conduzir-se na vida erótica.[...] Se a necessidade que alguém tem de amar não é inteiramente satisfeita pela realidade, ele está fadado a aproximar-se de cada nova pessoa que encontre com idéias libidinais antecipadas. (FREUD [1912], 1969, v. 12, p. 133-134). Freud afirma que a transferência pode ser endereçada a qualquer pessoa desde que não tenha sido satisfeita sua necessidade de amar nos primeiros anos de vida e busca realizar-se no outro, sustentando-se numa estrutura de falta. Dependendo de como essa passagem ocorre, o sujeito produz clichês estereotipados, alguns como simples reimpressões; outras, como pulsões libidinais retidas no curso do desenvolvimento ou inconscientes, presas a fantasias infantis e dirigidas ao analista como forma de resistência. A libido entra num curso regressivo de reviver imagos paternas, maternas ou fraternas do indivíduo. Provoca uma resistência transferencial que, quando considerável, pode dificultar o trabalho do analista, quebrando a regra fundamental: a associação livre. A transferência se dá no momento em que o analista é captado por esses estereótipos, em que ele se depara com as questões psíquicas de seu paciente, impedido de progredir no tratamento. A relação da transferência com a resistência, vista a transferência como a forma mais intensa da resistência, aponta para um paradoxo, porque quanto mais próximo ao recalque, maior é a transferência, mas é só através dela que se pode conhecê-lo. Freud estabelece, ainda nesse artigo, a distinção entre transferência positiva e negativa. Coloca como apropriadas para o trabalho do analista, a transferência negativa ou a positiva de pulsões eróticas reprimidas; e exclui a transferência positiva de sentimentos amistosos e afetivos, por pertencer ao campo da consciência. No artigo Recordar, Repetir e Elaborar (1914), Freud trabalha alguns conceitos importantes como compulsão à repetição, neurose de transferência e elaboração. Estabelece a relação da compulsão à repetição com a transferência e a resistência. Refere-se à transferência com um fragmento de repetição e à repetição como uma transferência do passado infantil esquecido que se presentifica nas relações atuais. Aponta para o fato de que quanto maior a resistência, mais extensivamente a atuação (repetição) substituirá o recordar. Mostra-nos como o sujeito é compelido a repetir e 67 que o analista, ocupando o lugar que não é dele, proporciona ao paciente a possibilidade de se recolocar frente à situação que lhe causa sofrimento, de modo a fornecer “um novo significado transferencial e em substituir sua neurose comum por uma ‘neurose de transferência’, da qual pode ser curado pelo trabalho terapêutico.” (FREUD [1914], 1969, v. 2, p. 201). Podemos, nesse momento, estabelecer um paralelo entre a relação analistaanalisando e educador-educando. No primeiro caso, o analisando enamora-se do analista sob o efeito da transferência e lhe endereça um amor que não pode ser correspondido pelo analista. Trata-se, como já dito anteriormente, de um falso amor, ao mesmo tempo, de um amor verdadeiro, na medida em que repete clichês da vida amorosa infantil, uma reedição de afetos que também se faz presente na relação educador-educando em que o professor é objeto de um amor por parte dos alunos, como vimos na situação apresentada na introdução. O professor entra com o seu ser na relação, produzindo efeitos sobre os quais ele não tem nenhum controle. Isso porque raras são as vezes em que ele consegue um retorno do trabalho desenvolvido com o aluno durante o período que esteve com ele. Esse não é o caso de Cesar, que na década de 1980 cursava o segundo segmento do Ensino Fundamental e se sentia extremamente rejeitado social e intelectualmente pela turma. Passados trinta anos, seu professor, a quem o jovem imputara poder e saber, viveu momentos de emoção, ao receber o convite de um lançamento de livro de poesias desse jovem, hoje procurador da República. A demanda de amor desse aluno e a sensibilidade do professor possibilitaram um esvaziamento do espaço ocupado pelo professor e um caminho de autoconfiança e de busca de saber do demandante. Andrade de Sá aborda a questão da posição que o professor ocupa na transferência de uma forma objetiva e clara: “A transferência ocorre quando o desejo de saber do aluno se aferra à pessoa do professor, atribuindo ao professor um sentido especial, passando a escutá-lo a partir desse lugar situado em seu desejo.” (ANDRADE DE SÁ, 2004, p. 71-72). O professor, objeto de transferência do aluno, pode ser amado ou odiado por seus alunos, uma vez que o que ele representa para o aluno faz parte do seu imaginário, podendo não ser o que ele realmente é. Segundo a autora citada, na relação educador-educando, há a possibilidade de se moverem duas leis: uma 68 vinculada pela função paterna, que barra o desejo do Outro e que interdita e castra o Outro, e a outra lei, da pura interdição, de uma educação autoritária, que sustenta o sujeito desejante, mas o tiraniza, exigindo que trabalhe e deixe seu próprio desejo para depois. Dois são, portanto, os caminhos a serem percorridos pelo educador na sua relação com o educando: colocar-se no lugar daquele que tudo sabe e tratar o educando como objeto ou perceber o seu educando como sujeito pulsional que deseja e se coloca no lugar daquele que oferece condições para que encontre o seu caminho. Na segunda opção a sua prática se volta para o aluno na sua subjetividade e singularidade, o que o aproxima do discurso do analista, como veremos adiante. Numa relação educador-educando, o mais importante não é o conteúdo. O que importa é ocupar a posição de figura substituta do primeiro objeto de amor, sustentando seus educandos de uma forma amorosa. Quer eles o amem ou odeiem, o respeitem ou critiquem, é preciso que o professor reconheça o grau de importância ao exercer sua função na evolução de suas aprendizagens. Lacan, no seu texto Intervenção sobre a Transferência (1951), trabalha a transferência a partir do caso Dora, onde define a relação transferencial como “uma seqüência de inversões dialéticas e sublinha que os momentos ‘fortes’ da transferência inscrevem-se nos tempos ‘fracos’ do analista. A cada inversão, o analisando avança na descoberta da verdade.” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 769). Em 1954-1955, Lacan inscreve a transferência numa relação entre o eu do paciente e a posição do Outro. A partir do artigo de Freud Observações sobre o Amor Transferencial (1915) também chamado de Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise III, Lacan desenvolve o Seminário 8 (1960-1961), em que introduz o desejo do psicanalista para esclarecer a verdade do amor transferencial. Apóia-se na obra O Banquete (séc. IV a.C.), de Platão, para construir toda uma teoria através dos diálogos elogiosos feitos por sábios, estudiosos, políticos, filósofos e médicos, ao todo, sete discípulos de Sócrates, cada um com uma concepção diferente de amor, com o objetivo de entender a questão do amor transferencial em Freud, um dos fundamentos da teoria psicanalítica. Sócrates foi colocado por Lacan no lugar daquele que interpreta o desejo de seus discípulos. Em 1964, no Seminário 11, Lacan coloca a transferência como um dos quatros conceitos fundamentais da 69 psicanálise, ao lado do inconsciente, da repetição e da pulsão. Um dos principais pensadores da Grécia Antiga, Sócrates, considerado um filósofo de temperamento crítico, com alto padrão de conduta moral, foi um grande mestre que pregava sabedoria e justiça, grande responsável pela produção de um saber dos seus discípulos. Sempre rodeado de muitos admiradores, proclamava a imortalidade da alma e a existência de uma providência superior a todos os deuses particulares. O primeiro de todos os seus preceitos foi o famoso “Conhece-te a ti mesmo”. Teve grande ascendência sobre os homens cultos de seu tempo, tais como Péricles e seu sobrinho Alcebíades, um jovem e belo adolescente. Não compreendido pelo povo, porque havia criticado certas partes da constituição de Atenas, acusaram Sócrates, injustamente, de ser partidário de um regime ditatorial dos Trinta Tiranos e de haver corrompido a juventude, ensinandolhes doutrinas contrárias à religião da cidade, logo após o término da guerra do Peloponeso. (431 a.C.). Sócrates ensinava seus discípulos a cuidarem não só do corpo, nem das riquezas, mas da alma e de seu aperfeiçoamento, tendo sido condenado aos setenta anos. Forçado a aguardar a hora final por mais de mês no cárcere, teve a possibilidade de preparar-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos e admiradores e, sorvendo a cicuta, veneno que na época era dado aos condenados à morte, pronunciou a frase ”Devemos um galo a Esculápio”, em agradecimento ao Deus da Medicina que o estava livrando do mal da vida com o dom da morte. Para Sócrates, a essência do homem é a sua Psyché. Buscava em cada um a verdade lógica que existe dentro de cada homem, ajudando as pessoas a buscarem o autoconhecimento. Com o seu método, sempre adotava a posição de quem nada sabia e, usando da ironia, expunha muitas vezes as pessoas ao ridículo, o que gerou muitos inimigos, mas conquistou fervorosamente os que conseguiram ultrapassar esse processo catártico em que Sócrates colocava seus discípulos literalmente na arena, para produzir-lhes, posteriormente um alívio ao sofrimento que se lhes havia sido imposto. O que ligava os jovens a Sócrates era o amor, a identificação amorosa, como dizia Goethe “só se aprende, acima de tudo, de quem se ama.” Sócrates foi condenado à morte. Excluído por ter andado na contramão da 70 história, por escandalizar a sociedade que não o compreendeu no seu empenho de servir a Eros, assim como Freud no seu tempo, no seu desejo de saber. Platão, nobre, nascido na Grécia em 427 a.C., se dedicou à poesia, fez iniciação em Filosofia com Heráclito, juntando-se a Sócrates. Mais tarde, Platão criou a Academia, uma associação intelectual em que mensalmente os intelectuais se reuniam para realização de um banquete seguido de conversações filosóficas. A sua célebre escola foi palco de verdadeiras discussões sobre diversos temas que interessavam à sociedade da época Lacan faz um recorte na obra de Platão, para mostrar-nos a relação de amor Alcebíades e Sócrates – em O Banquete, apontando Sócrates como um precursor da psicanálise. O Banquete foi uma cerimônia com regras, uma espécie de rito, de concurso íntimo entre pessoas da elite, de jogo de sociedade. Tinha como regulamento cada um dar em forma de pequena contribuição um discurso pautado sobre o amor. Alcebíades, um dos discípulos de Sócrates, chega ao Banquete completamente embriagado e é ajudado por companheiros a entrar no recinto, dispondo-se a defendê-lo das críticas, a tecer elogios a Sócrates através de um discurso em que o coloca como aquele que tem o objeto do seu desejo. Seguem-se dois fragmentos do diálogo Alcebíades e Sócrates na obra Banquete: (Alcebíades) Assim foi que, como vos dizia, amigos, fiquei a sós com Sócrates e julguei que este se dispusesse imediatamente a falar comigo na linguagem que amante e amado empregam quando se encontram a sós. Intimamente regozijava-me com essa expectativa (PLATÃO, 2005, p. 157). Ao conseguir uma maior aproximação Alcebíades faz a confissão pública e convida Sócrates a amar ao que ele retruca: Pensa um pouco mais sobre tudo isso, para que não atribuas valor demasiado ao que pouco valho. Os olhos do espírito só começam a ver melhor quando os olhos do corpo se fecham; e tu ainda estás muito longe de haver conseguido isso. (PLATÃO, 2005, p. 159). Alcebíades quer seduzir Sócrates para arrebatar seu desejo. “O desejo, como o próprio Sócrates o articula com Platão, não se deixa agarrar assim nem pelo rabo 71 como diz Picasso nem de outro jeito, pois que o desejo, como se tem sublinhado, é a falta.” (LACAN [1964-1965], 2006, p. 152). Sócrates recusa esse belo homem, pois sabe que o que ele quer é sua sabedoria. Alcebíades coloca o saber de Sócrates no patamar de preciosas estatuetas de deuses, os agalmata. O que ele deseja é esse agalma que Sócrates sabe que não tem, razão pela qual designa-lhe Agatão como objeto de seu desejo. Lacan vê na fala de Sócrates, na busca da verdade, uma não preocupação com a questão da natureza do amor, mas com a questão do que conhecemos hoje por transferência. Refere-se a Sócrates como o sujeito que resiste às investidas de Alcebíades, recusando qualquer retribuição ao amor transferencial do sedutor, o que segundo Lacan seria um denominador comum entre Freud e Sócrates, que inaugura assim a primeira transferência analítica de que se tem notícia. Para Lacan, Alcebíades dirige a Sócrates uma demanda de amor, a qual ele não responde, negando-se a ser érôménos, uma recusa à metáfora do amor. No momento em que Sócrates se recusa a ocupar esse lugar, ele surge como desejante, como érastès, o que o possibilita ficar no lugar de desejante, interpretar Alcebíades e apontar Agatão como seu objeto de desejo. Ao colocar Sócrates como aquele que interpreta o desejo de seus discípulos, Lacan aponta para o fenômeno da transferência: Alcebíades acredita desejar Sócrates quando deseja Agatão. Eis aí a posição do analista: saber que o amor do paciente não é pela sua pessoa, mas é um amor ao saber do inconsciente que vai surgir a partir do desejo do analista. Este deve consagrar-se agalma, ou seja, a essência do desejo, fazendo semblante, e aí está a diferença em relação a Sócrates. Para a psicanálise, a questão do amor se concebe na perspectiva da demanda incondicional. Ela não se constitui pelo amar ou ser amado, mas pelas articulações das posições de érastès e érôménos, amante e amado, ser desejante e ser desejado: O que faz com que a metáfora do amor não possa se produzir? Que não haja substituição de Érôménos pelo Érastès? Que ele não se manifeste como Érastès, no lugar onde havia o Érôménos? É que Sócrates só pode recusar a isso, porque para ele, nada há que seja amável nele. Sua essência é este ouden, esse vazio, esse oco. (LACAN [1960-1961], 1992, p. 157). De acordo com as palavras de Lacan ([1960-1961], 1992, p. 345) “a metáfora 72 do desejante no amor implica naquilo que ela substitui como metáfora, o desejado e este é o desejante no outro, o que só é possível se o próprio sujeito for colocado como desejável.” Segundo Quinet, o analista deve estar disposto a pagar um preço de se ver reduzido, ele e seu nome, a um significante qualquer, em nome desse agalma, no qual Lacan reconheceu como objeto a, objeto causa do desejo. (QUINET, 2005, p. 31). A função do analista é causar o desejo de saber no analisando, resultado de todo um processo analítico que passa pela transferência. “O analista, sustentado pela ética da psicanálise, simplesmente cria condições para que o analisando descubra e reconheça sua verdade, seu desejo e a singularidade de seu gozo.” (FERREIRA, 2005, p. 89). O analista precisa saber que o amor do paciente não é pela sua pessoa, mas é um amor ao saber do inconsciente que vai surgir a partir do desejo do analista. Este profissional precisa levar o paciente a renunciar às suas resistências, por amor a ele, analista. A função do educador deve ser fazer o educando desejar saber para poder fazer escolhas. “Desejar saber o quê?”, podemos perguntar. Dependendo da posição discursiva do educador, pode ou não haver uma aprendizagem, pois é com ele que o educando aprende. O que temos constatado nas escolas, no exercício da prática, é um modo de educar perverso onde não há lugar para a subjetividade do educando e até, do educador. Constatamos, a cada dia, que uma tarefa aparentemente simples, na realidade é bastante complexa e exige do professor um conhecimento para além da sala de aula. Um saber psicanalítico poderia ajudá-lo, ainda que sua função não seja a de psicanalisar. Ao tratar de Psicanálise e Educação (2002), Cunha aponta para a relevância do paradigma psicanalítico para a educação: Os ensinamentos psicanalíticos dirigem nossa atenção para o vasto e complexo mundo subjetivo oculto no interior de professor e aluno, cada qual sofrendo constantemente a pressão de seus respectivos desejos, muitos dos quais atingidos pelo recalque. Mostrar que os fenômenos da sala de aula são muito mais humanos do que técnicos, o paradigma psicanalítico abre um caminho diferente e frutífero para os professores, o caminho da vivência humanizadora, da compreensão do outro, da busca de boas relações do indivíduo consigo mesmo e com os que o cercam. (CUNHA, Psicologia da Educação, RJ: DP&A, 2002, p. 17-18). 73 É Importante pontuar que, quando o professor entra em cena na vida da criança, ela já traz traços sedimentados. A sua importância vai se definindo na relação com o aluno, algo que escapa ao saber da consciência, como um modelo ideal e possibilitador de diálogo, propiciando ao outro uma identificação que o impulsione a produzir forças socialmente úteis. Relembremos algumas passagens da vida estudantil de Freud. De origem judaica, Sigmund Freud nasceu em Freiberg, na época cidade austríaca, em 1856. Aos quatro anos, sua família mudou-se para Viena, onde viveu até seus oitenta e dois anos, quando teve que se refugiar em Londres, devido à Segunda Guerra Mundial, vindo a morrer um ano depois, em 1939. Proveniente de uma família numerosa, era o mais velho de oito filhos do segundo casamento. Sendo o mais querido, ocupava uma posição privilegiada desde os primórdios de sua vida. A família punha uma expectativa de sucesso profetizada aos 11 anos de idade por um andarilho-poeta, o que lhe rendeu um supereu extremamente exigente e um temor em cair na mediocridade. A ele foi dado um quarto exclusivo para os estudos, local em que trabalhou durante toda sua formação escolar, com total dedicação de seus pais, que não mediram esforços para o seu sucesso. Foram eles que o introduziram nos textos bíblicos e na religião, influenciando-o de uma maneira significativa, a ponto de lhe servir de fonte para em 1927 escrever O Futuro de uma Ilusão (1927). Quando adolescente, cursou com louvor o Gymnasium, com fundamentos em humanidades. Essa vivência lhe possibilitou amplo conhecimento sobre as culturas grega e latina - e um aprendizado completo de línguas - além de um grande interesse pela arqueologia, o que lhe rendeu metáforas belíssimas como a “escavação das camadas profundas da mente”. Iniciou sua carreira universitária em Viena, buscando a medicina, aos dezessete anos, vindo a se formar somente aos vinte e cinco anos, devido a sua imensa curiosidade com a pesquisa. Após formar-se, ingressou no serviço de Psiquiatria de Theodor Meynart, dedicando-se aos estudos de neuroanatomia e posteriormente em neuropatologia, psicopatologia, até chegar à psicanálise. Por questões financeiras, paralelamente, teve que partir para a clínica particular, o que nos rendeu essa fonte inesgotável de saber, de cujas águas nos servimos até os dias de hoje. 74 O amor aos estudos significava na Viena da época uma oportunidade de ascensão social, importante para Freud, que pertencia a uma família pobre de recursos. Por outro lado o seu sucesso significava pertencimento à elite vienense, e queria muito dar alguma contribuição à ciência, mas os tempos de universidade não lhe são dignos de lembranças. Isso porque foi discriminado por sua condição judaica e ousadia científica. No artigo Algumas Reflexões sobre a Psicologia Escolar (1914), Freud, já sexagenário, ao reviver o seu passado escolar, revela sua emoção ao encontrar um velho mestre-escola e admite ter dificuldade de discernir se o que mais o influenciou foi o seu interesse pela ciência ou a personalidade dos mestres. Com base em Freud, podemos afirmar categoricamente a importância do educador para o educando, isso em qualquer época. Uma vez instalada a transferência, o educador torna-se depositário de algo que pertence ao educando, passando a fazer parte do inconsciente desse sujeito, o que explica o fato de alguns professores marcarem o percurso intelectual do aluno de uma forma positiva, negativa, ou passarem pela sua vida em total indiferença. O professor pode ser o referencial que sustente as perdas sofridas e ajude o jovem a buscar caminhos, pensar no futuro e nas possibilidades, sem negar as incertezas e a falta. É importante que ele conheça cada adolescente em sua singularidade para poder ajudá-lo a enfrentar suas dificuldades. Isso exige do profissional uma disponibilidade interna para dar suporte ao jovem que se apresenta diante ele, como também com o adolescente que habita em cada um que se apresenta nessa relação. A educação, que lida com o desejo de saber do educando, tem na figura do professor o Outro que deve causar esse desejo. É em torno da transferência que se vão construindo laços necessários para que haja aprendizagem. Dependendo da posição do professor, pode ou não haver uma aprendizagem. Quando se trata da relação professor-aluno, não basta o profissional estabelecer conteúdos, planejamento adequado, metodologia, recursos de ensino, ou mesmo verificar o conhecimento prévio dos educandos, ou seja, essas questões objetivas são as que menos importam no ato de educar. É necessário ter sempre presente que um mundo subjetivo interage nessa relação, que situações do passado, relações primordiais se atualizam na sala de aula. Afetos deslocados para a figura do professor, constituem o fenômeno que conhecemos como transferência, ocorrendo em qualquer relação humana, mas que, 75 na sala de aula abre caminho para a curiosidade, para o desejo de saber (Wissendrang), trabalho de investigação iniciado, segundo Freud, muito antes, no desejo de descobrir o enigma da origem dos bebês, não raro determinada pela chegada de outra criança na vida familiar, ou até pelo medo disso vir a acontecer e que se reatualiza numa situação de aprendizagem. Assim como os pais representam para a criança a fonte do saber, os professores ocupam também esse lugar, mas suas respostas sempre vão ser um saber insubjetivável, ou seja, “[...] as respostas do adulto não fazem senão rodear e escavar o lugar de uma falta, a falta da resposta que ofereceria ao sujeito o acesso ao saber e ao gozo sexuais.”(LEMÉRER, 1999, p. 14), cabendo ao sujeito sair em busca do seu desejo de saber. Se a relação professor-aluno estiver intermediada por um fator de resistência, pode ocorrer um impasse que irá prejudicar o andamento de todo um percurso acadêmico, razão pela qual um professor não pode desconhecer que o conhecimento está sempre permeado pelo desejo inconsciente e que ele, professor, também traz consigo todo um universo psíquico complexo por que ele não domina. Em referência ao professor, Maria Cristina Kupfer assinala que: O professor é também um sujeito marcado por seu próprio desejo inconsciente e é exatamente esse seu desejo que o impulsiona à função de mestre. A dificuldade com que esse profissional se depara diante do binômio educação-psicanálise é que o seu desejo justifica o estar ali, mas estando ali, precisa renunciar a esse desejo. (KUPFER, 2001, p. 94). Ainda que o professor perceba sentimentos recalcados em seu aluno através da fixação de algum sintoma que o aluno apresente, não é sua função analisar esse fenômeno transferencial. Este latifúndio psíquico cabe ao analista que deverá manejá-lo para provocar uma mudança. No Seminário 8 (1960-1961), Lacan usa da metáfora para nos falar do manejo da transferência no tratamento psicanalítico, posição bem diferente da apresentada pelo professor na sua relação com o aluno: A cela analítica, mesmo macia, não é nada menos que um leito de amor [...] é uma situação mais falsa possível [...] No quarto mais protegido de todos, o do consultório analítico, a posição do amor se torna ainda mais paradoxal.[...] O que pode estar em causa no fundo 76 da relação analítica, entendo partir do extremo, do que é suposto pelo fato de que alguém se isole com um outro para lhe ensinar o quê? – aquilo que lhe falta”. (LACAN [1960-1961], 1992, p. 22-23). As propostas de trabalho do analista e do professor junto ao sujeito adolescente não são excludentes. A diferença está no posicionamento de cada um frente a esse sujeito, posição estudada por Lacan quando propõe a existência dos discursos que fazem o laço social, o que se dá sob o fenômeno da transferência. Lacan considera o laço social como uma das maiores causas do sofrimento humano, o que já vinha sendo apontado por Freud, desde 1914, e de uma forma mais definitiva em O Mal-estar na Civilização, em 1930, quando coloca o laço social como a terceira fonte do sofrimento humano afirmando que o mal-estar do sujeito está, também, na sua relação com o outro: O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: do nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução [...]; do mundo externo [...]; e, finalmente de nossos relacionamentos com outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes. (FREUD [1930], 1974, v. 21, p. 95). Essa terceira dificuldade exige do sujeito uma aproximação com o outro, momento em que o sujeito precisa buscar no outro o que lhe falta, o que lhe traz um mal-estar, mal-estar esse que o sujeito projeta no outro. O gozo, segundo Lacan, seria o mal que o sujeito atribui ao outro. Na conferência de comemoração de jubileu de seu colégio, Algumas Reflexões sobre a Psicologia Escolar (1914), Freud já mostrara a dificuldade e a posição diferenciada na relação professor-aluno. Ao comentar sobre a estranha sensação que é na idade madura receber uma ordem e fazê-la cumprir, diz: “[...] obedecemos automaticamente, como o velho soldado que, à voz de ‘Sentido!’, deixa cair o que tiver nas mãos e se surpreende com os dedos mínimos apertados de encontro às costuras das calças.” (FREUD [1914], 1974, p. 285). Isso revela a posição do aluno diante do professor todo poderoso e que lhe causa um mal-estar. Para Quinet (2006, p. 17), o mal-estar na civilização é o mal-estar dos laços sociais, que se expressam nos atos de governar / ser governado, educar / ser educado, analisar / ser analisado já enunciados por Freud e retomados por Lacan, 77 que acrescenta mais um ato, o de se fazer desejar das histéricas. Às formas como as pessoas se relacionam entre si - governar, educar, psicanalisar e fazer desejar - Lacan as chamou de discursos, uma vez que os laços sociais são tecidos e estruturados como linguagem. Desenvolveu, assim, sua teoria dos discursos. A noção de discurso, como o eixo de ligação social, é tomada por Lacan na contramão da teoria da comunicação, a qual considera de um lado o emissor e do outro, o receptor, constituindo dois pólos de intersubjetividade, ao contrário da psicanálise, em que a própria mensagem no seu retorno do campo do Outro criva a possibilidade de emergir um sujeito. A lógica dos discursos se dá a partir da formalização de uma estrutura quaternária que, pela rotação de noventa graus, escreve o laço social e o real da experiência analítica, através de uma operação matemática: a permutação circular. Nos discursos há o lugar do agente que movimenta o laço social. No discurso do mestre, por exemplo, o agente é o significante mestre (S1), no discurso da histérica é o sujeito ($), no discurso universitário é o saber (S2) e no discurso do analista é o objeto a - o mais gozar(a). Os lugares se mostram na dinâmica de cada discurso em posições assim distribuídas: agente / verdade / outro / produto. Em cada um dos discursos está “de um lado o sujeito e do outro o campo do Outro, sendo o sujeito o lugar de apreensão de um efeito de significante.” (PEREIRA, 2004). Na dialética exposta por Hegel, em 1806, na obra Fenomenologia do Espírito, é preciso que o amo enfrente a morte simbólica do escravo e que este a reconheça, dando a esse Outro a condição de senhor e vencedor, pois só há lugar para um vencedor. Quando o senhor fala, ele precisa do outro, do escravo - que detém o saber sobre sua posição - para produzir a mais valia, o gozo, o objeto a. O desejo do escravo se aliena ao desejo do senhor, pois o que caracteriza a dialética do desejo é que o desejo só pode se realizar pela destruição do desejado. O escravo jamais poderá recuperar o gozo, nem mesmo com a morte do seu mestre, porque no seu lugar virão outros. Lacan faz uso do modelo hegeliano da dialética do senhor e do escravo para a matriz de seus discursos. Parte do discurso do mestre para trabalhar os discursos, cuja escritura, pelo lugar que ocupa cada letra, é inerente à constituição do sujeito. No discurso do mestre, o sujeito interrogado produz o seu saber sobre o mais de gozar. O ponto de partida é a própria definição de significante como aquilo que representa o sujeito para outro significante. Essa definição possibilita escrever esse 78 discurso que servirá de matriz aos outros. O S1 é o significante Um, a primeira marca, traço unário e deve ser visto intervindo no campo do saber, no campo do Outro. A partir dos discursos, Lacan propõe os diferentes manejos da transferência, em especial o discurso do mestre e o discurso do analista. Este último é o único que coloca no lugar do Outro um sujeito que tem como agente a causa do desejo. Permite a ele responder ao furo colocando, na falta do Outro, sua fantasia. O discurso do analista causa transferência e destitui o significante do lugar do mestre; ocupa o lugar de agente do discurso, mas cala sobre o seu próprio desejo para o outro falar. Ele não é aquele que sabe, mas a quem se supõe um saber sobre a falta. Ocupa o lugar do objeto a, objeto para sempre perdido. “[...] o sujeito pode perceber-se como sujeito da falta, castrado, e pode aceder ao poder da palavra plena que toca a sua verdade.” (ANDRADE DE SÁ, 2004, p. 32). Em outras palavras, o agente no discurso do analista é o objeto a, esse vazio que torna possível o outro ser um sujeito que vai trabalhar sobre o que determina seu sofrimento e descobrir-se como desejante. O analista, por sua vez, apesar de ocupar o lugar de objeto a, objeto a ser deixado cair, do lugar da falta-a-ser, também tem o desejo de fazer produzir a análise, “tal como um artista que, através de sua obra, quer produzir efeitos no seu leitor, no sujeito que vai à galeria impactar-se com a obra de arte”, ocupando, assim, o lugar de agente. (ALBERTI, 1996, p. 205). No discurso do mestre, ao contrário do discurso do analista, o agente é o S1, o todo poderoso, próprio do modelo hegeliano da dialética do senhor e do escravo, em que o educando deve servir ao mestre atendendo suas demandas e seus desejos. É um discurso de dominação, com estatuto de mais-valia. De caráter impositivo, com poder de comando do significante, que tudo faz para que o sujeito ceda ao seu desejo. É o discurso em que o mestre ocupa o lugar do saber, mas não o produz, um saber absoluto, próprio do senhor que, segundo Lacan, delega ao escravo o saber sobre o seu gozo. Os sujeitos podem se articular nos discursos e, em sendo assim, o aluno pode ocupar outras posições, assim como o professor. Uma delas seria apostar no aluno, suportando o professor sua própria falta-a-ser, para que pudesse fluir uma transmissão mais eficaz. A verdade em jogo na relação professor-aluno poderia ser a sua própria relação com a castração, com o impossível de dizer. O professor poderia provocar o desejo no aluno se deixasse espaço para a dúvida, em lugar de ser o todo poderoso. A civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional, mas a inclinação do 79 homem é ser o lobo do outro homem; sendo assim, esse ideal se faz impossível. Esse tema do laço social nos remete ao drama do adolescente Moritz, personagem da obra O Despertar da Primavera, que escolhe o suicídio para libertarse do Outro. Logo no início da peça, que trata do despertar de jovens para o sexo, Moritz lê um fragmento de um livro para os Bergman: “A Lua cobre o rosto [...] eu me deito outra vez de costas, me aqueço ao calor da minha putrefação. E sorrio.” Arranca a folha e a guarda no bolso, prenunciando sua escolha futura: a morte como libertação. Em outra fala reitera seu desejo de libertação, devido ao desamparo e malestar em que se vê enlaçado: [...] Se eu repetir, meu pai tem um ataque do coração e minha mãe vai pro manicômio. Então. Ninguém agüenta uma coisa assim. Antes das provas, eu rezei. Eu implorei que Deus me deixasse tuberculoso mas que, por favor, que eu não precisasse provar desse cálice. Eu não precisei, mas ainda consigo ver o seu brilho dourado. Ele fica ali, a uma certa distância. Eu não ouso nem levantar o olho. Mas agora eu já apanhei a escada e vou subir degrau por degrau, até o fim. Eu preciso. Bem agarrado, porque se eu cair, quebro o pescoço. Aí está tudo acabado [...] A minha passagem pra liberdade está aqui. A vida é só uma questão de gosto. Você gosta dela. Ou vai embora. (WEDEKIND, 1891, s/p). A fala de Moritz ao longo da peça denuncia o tempo todo o desejo de libertarse dessa persona não grata – a escola : “Você não pode querer fazer nada, não pode pensar em nada. O dever de casa vem sempre antes, como se fosse uma rachadura, um buraco na terra que abre embaixo dos seus pés.” E questiona, mais adiante: Por que a gente tem que ir à escola? Preferia ser um inseto a ter que ir pra escola. Por que a gente tem que ir? Pra fazer provas. E por que fazer provas? Pra gente repetir. Sete vão repetir, porque na classe do ano que vem só cabem sessenta alunos. Sete vão ter que evaporar. Desde o Natal que eu ando meio estranho. Um pouco angustiado. Se não fosse pelo meu pai, pegava minhas coisas e ia embora. Pros Estados Unidos. (WEDEKIND, 1891). Com base no legado de Lacan sobre os discursos que fazem laço social, Martinho (2002) questiona o lugar que o sujeito poderia vir a ocupar em uma instituição educacional: o educando como escravo do saber científico contemporâneo, o professor como mestre contemporâneo do saber científico e o pai, como 80 significante, agente do discurso do mestre? A autora serve-se da obra de Wedekind, O Despertar da Primavera (1891), para pensar o lugar do sujeito nos discursos do mestre e do universitário uma vez que a peça traz à tona experiências de estudantes nas suas relações com pais, professores e colegas. Identifica a burocracia do discurso universitário na escola de Moritz: a obrigatoriedade dos exames, os resultados finais, a concorrência por vagas limitadas, a tirania do saber, estando o estudante na posição do outro, do trabalho, identificado ao objeto a, encarregado de produzir o sujeito dividido, sofrido por não ser onisciente. (MARTINHO, 2002, p. 154). No discurso universitário dá-se uma transmutação do saber a partir do saber do escravo, uma passagem para um saber teórico que vai agenciar o discurso universitário, um discurso que se desenvolve em uma abstração professoral exigindose uma obediência cega a esse saber transladado, sem se importar, em absoluto, com o aproveitamento do sujeito. Nesse discurso a verdade do sujeito é rejeitada em nome de tudo saber. O saber que agencia esse discurso (S2) se dirige ao educando objeto a - trabalhador escravizado a um saber teórico, tornando-se um mero reprodutor desse saber. Nesse tipo de discurso, o sujeito não aparece, está em afânise, pois está fundado no significante que o representa. Moritz vê-se angustiado diante da concorrência imposta pelo discurso universitário e se coloca no discurso do mestre, deixando-se cair através do suicídio. Os professores, um Outro não barrado, parecem não se importarem com seus apelos. Permanecem como autoridades absolutas, o que é condenado por Freud no seu artigo Contribuições para uma discussão acerca do suicídio (1910): “Ela (a escola) deve lhes (aos alunos) dar o desejo de viver e devia lhes oferecer apoio e amparo em uma época da vida em que as condições de seu desenvolvimento as compelem a afrouxar seus vínculos com a casa dos pais e com a família.” (FREUD [1910], 1970, p. 217). Os pais de Moritz, ao colocá-lo em uma escola de nível, depositaram nele expectativas de sucesso profissional e ascensão social, desejo a que ele não corresponde, no que o levou a dar-se um tiro de revólver. Algo do pai real foi desvelado, pai cruel, pai nada pacificador, nada protetor. Professores e pais tiranizaram-no assim como o pai da horda primitiva de Totem e Tabu. Isto se mostra na fala de um professor no enterro: “Dissipado, depravado, esfarrapado, degenerado!”; na fala do reitor: “De qualquer modo é altamente inverossímil que o tivéssemos podido fazer passar para a classe superior”: na fala do pai: “O pequeno 81 não era meu! Desde pequenina essa criança não me agradava.” Moritz não consegue se amarrar na significação fálica. Não pode sustentar uma posição masculina diante do desejo de uma mulher. Ficou fora dessa ordem simbólica. Por não conseguir atender às expectativas de seus pais e substitutos, Moritz suicida-se, uma última tentativa de barrar o circuito em que ele figurava como objeto de gozo. Nesse caso, diz Alberti, trata-se de uma psicose: Não é de uma posição feminina que Moritz fala, mas do gozo da mulher, o que estaria mais do lado de Schreber do que de uma histeria ou de um masoquismo feminino [...] não há o objeto que resta da divisão - ela não ocorreu - o circuito em que se verifica sua existência o reduz a ser o objeto de gozo do Outro.[...] Seu suicídio [...] é a tentativa última de inscrever na própria pele a divisão. Suicídio na entrada do primeiro surto psicótico, separação definitiva e sem apelação. (ALBERTI, 1999, p. 132-133). Esse tipo de atitude, em que pais se colocam no discurso do mestre e, de uma forma imperiosa, tomam atitudes a partir de seus desejos, pode trazer conseqüências indesejáveis, como é o caso do jovem que se deixa cair. João, como o chamaremos, cursa a primeira série do Ensino Médio. Convocado pela coordenação, em caráter de urgência, para se posicionar em uma das áreas a cursar: humana, tecnológica ou biomédica, decide-se pela área humana. Passa a freqüentar a turma durante uma semana, quando a mãe, sem consultá-lo, resolve, intempestivamente, transferi-lo para a área tecnológica, alegando que o boom da atualidade é Engenharia Civil. E João adoece. A escola acata a decisão da mãe e João, por sua vez, permanece sob o jugo “do olhar que vigia e da voz que critica” como nos diz Quinet no capítulo 1 do livro Psicose e Laço Social (2006), numa renúncia pulsional. João cala-se e adoece, disparando uma fobia social que o leva a perder o ano escolar. O discurso do mestre é o laço civilizador que exige a renúncia pulsional promovendo o rechaço do gozo, que retorna sob a forma do supereu, do qual o sentimento de culpa do sujeito é o índice que se manifesta através do olhar que vigia e da voz que critica.O mais-degozar se declina aqui em mais-de-olhar e mais-de-voz. O discurso do mestre produz os dejetos da civilização – o que escapa à simbolização. Ao se tomar a civilização através do que ela produz, a própria civilização é o dejeto, uma cloaca, ‘a cloaca máxima’. (QUINET, 2006, p. 36-37). 82 Quando um adolescente se sente obrigado a fazer descer pela “goela” abaixo, a convocação da escola e a decisão dos pais, com promessas de gozo futuro, esse adolescente não assume sua posição de sujeito e pode responder a tudo isso através de algum sintoma, sintoma que se apresenta como resto, capaz de falar sobre sua angústia e seu desejo. Cabe ao analista acolher os restos para reconstituir o sujeito do desejo, recompondo esse sujeito adolescente e tornando-o apto a efetuar suas escolhas a partir de seu próprio nome. 83 Fotomontagem – hcourcy3 84 4 O ADOLESCENTE E A ESCOLHA PROFISSIONAL 4.1 A ESCOLHA PROFISSIONAL E A ESCOLA Se nos voltarmos para o mundo acadêmico, outras questões se nos apresentam. Isso porque, apesar do nosso ensino universitário ser ainda bem jovem, a educação brasileira tem sofrido reformas que fogem aos paradigmas tradicionais. Em conseqüência, esse dado de realidade tem trazido reflexos na mais convencional das instituições pedagógicas, assim como nas escolhas profissionais de seus alunos. A prática em escolas e os ecos na clínica psicanalítica, advindos do próprio adolescente e seus familiares, revelam-nos dificuldades nessas escolhas, não só pelas próprias questões do sujeito como também pelas reformas de ensino com largas flexibilizações e pelas mudanças aceleradas do mundo contemporâneo. Dentre as modificações surgidas, destacamos instituições educacionais que passaram a valorizar a diversificação, a igualdade de oportunidades e a preparação do universitário para o enfrentamento do imprevisível de nossa época. Novas formas educacionais, como intercâmbio internacional e ensino à distância, surgem como modalidades em franca expansão. Se atentarmos para as ofertas dos produtos universitários, há evidências da fragmentação de profissões derivadas da informática, do direito, da engenharia, da psicologia, da medicina e outros. Essa evidência torna os cursos superiores de baixa qualidade, descaracterizando-os nas suas finalidades como instituições de ensino e pesquisa. Com a democratização do ensino superior, jovens e adultos, que não tiveram oportunidades até então, buscam essas universidades na esperança de ascensão na pirâmide social. A cada ano surgem novas faculdades com ofertas tentadoras e grades curriculares variáveis de uma instituição a outra, exigindo atenção na opção feita pelo candidato à vaga do curso escolhido. Por ter esta pesquisa interesse em subsidiar não só os profissionais que atuam na clínica, mas também os educadores que lidam com o adolescente no seu 85 momento de escolha de profissão, julgamos de relevância uma breve passagem pela legislação de ensino no Brasil, para entendermos as estratégias das escolas que fazem algum trabalho nesse sentido. Tomemos alguns pontos da legislação, que nos dizem sobre os direitos do sujeito no campo profissional. A questão da democratização foi uma das preocupações dos defensores de uma educação igualitária a partir de 1945, contra o dualismo que havia, de um lado, o ensino secundário clássico absorvendo 80% dos jovens e por outro, os cursos profissionalizantes, destinados às classes menos favorecidas, que foi amplamente criticada na Câmara Federal, em 1958, durante a discussão do projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e que veio a ser a lei 4.024 de 20/12/1961. Em 1968, fixam-se normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola de nível médio, com o incremento de matrículas no ensino superior através do decreto-lei 405/1968. Pelo decreto 68.908/1969 resolve-se a crise dos chamados “excedentes” com a criação de universidades privadas, especialmente em cursos de medicina. Também se tenta solucionar a demanda, expandindo-se o vestibular e criando-se o chamado vestibular classificatório, que permanece nas universidades até hoje. Este se caracteriza pelas várias chamadas realizadas por instituições interessadas em preencher vagas ociosas. Muitos candidatos acabam se matriculando em cursos não de suas escolhas, para não ficarem fora da faculdade, ou mesmo para não terem que se submeter a outro vestibular. A lei 5.692/1971 surge para regulamentar o ensino de 1º e 2º graus. Traz no seu corpo uma reforma de ensino no tocante à profissionalização, com características de terminalidade no ensino do então segundo grau, hoje ensino médio. A implementação dessa lei não se faz cumprir por razões diversas, dentre elas a falta de qualificação profissional e de um olhar clínico para o mercado de trabalho. “Houve, naquele momento, uma predominância da formação especial sobre a educação geral em algumas instituições escolares das esferas municipais e estaduais, o que vem a se refletir na qualidade de ensino.” (SOUZA & SILVA, 1997, p. 67). 86 Nas décadas de 1960 a 1980, as escolas, movidas por instâncias superiores, cuidam de fazer uma integração escolas-empresas desde os primeiros anos do ensino fundamental. Tal iniciativa vê-se fadada ao insucesso, pela falta de um trabalho estrutural, de base. Em 1996 surge a lei de nº 9.394/1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação em nível nacional nos três graus de ensino. Traz como exigência no seu artigo 27, a orientação para o trabalho, no corpo dos conteúdos curriculares. No artigo 35 encontra-se a obrigatoriedade da preparação básica para o trabalho com o objetivo de levar o sujeito a se adaptar a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores. O artigo 40 do texto dessa lei aponta para uma articulação da educação profissional com instituições especializadas na própria empresa. É uma situação análoga a um estágio, uma tentativa de virada radical em relação à lei anterior, a 5.692. Não faltam críticas a respeito da profissionalização, considerada forçada, pela falta de verbas, de professores treinados e de equipamentos. A dissociação entre a realidade sócio-econômica e a falta de credibilidade dos egressos do Ensino Médio são fatores que impedem a implementação da lei, o que leva os jovens a buscarem cursos superiores para o alcance de uma maior qualificação e preparação ao trabalho. Nos últimos dez anos de prática de sala de aula em universidades da esfera federal, percebemos que um número significativo de jovens, principalmente os de classes desfavorecidas, faz escolhas, não raro, oportunistas. A oferta pelo ingresso nas universidades pelo sistema de cotas, somado ao fato da proposta de ensino profissionalizante do Ensino Médio não cumprir seu objetivo, arrastam esses jovens adultos a cursos superiores que nada tem a ver com suas aptidões e habilidades, por uma necessidade social imperiosa. São as questões próprias da adolescência, aliadas à evolução meteórica do mundo contemporâneo, à variedade de ofertas de instituições de ensino superior e ao mundo do trabalho incerto, que levam, certamente, os jovens a apresentarem dificuldades em decidir sobre a escolha da profissão. Esta, não raro, se faz acompanhar de uma angústia e mesmo, de uma desestruturação dentro da própria 87 família. Por não saberem orientar adequadamente o jovem, os pais saem em busca de profissionais que possam aplicar um teste vocacional e definir a área que corresponda ao talento e às habilidades do filho. O teste vocacional é uma modalidade estatística, com valor preditivo, pouco utilizada nos dias atuais. Nessa modalidade, o psicólogo ou profissional habilitado exerce o papel de simples conselheiro. Interessante situarmos o momento em que houve necessidade dessa especialização profissional. A revolução industrial traz consigo as máquinas e, em decorrência, mudanças na relação homem / mundo, homem / trabalho e uma maior abertura do mercado de trabalho, com a criação de agências de orientação profissional. Tem como objetivo preparar aprendizes para as novas profissões. Em virtude dos problemas daquele momento, na primeira década do século XX, surge esse profissional com o objetivo, principalmente, de identificar trabalhadores inaptos para determinadas tarefas industriais e suas relações com o trabalho. (CARVALHO, 1995). O termo trabalho vem do latim tripalium, instrumento de tortura e já aparece definido na Bíblia como castigo divino imposto aos homens por sua desobediência a Deus. Na Antiguidade Clássica, o trabalho é visto como algo desprezível, próprio dos escravos. Durante a Idade Média o trabalho é feito pelos servos que servem aos seus senhores feudais, donos das terras e do poder. Este é visto, na ocasião, como castigo, sofrimento e a profissionalização é determinada por nascimento ou por conveniência (WHITAKER, 1997). O advento da Idade Moderna, com suas profundas transformações sociais, culturais, científicas e econômicas, provoca mudanças paradigmáticas no campo do trabalho, hoje visto como um fenômeno integrativo do homem na sociedade, fonte de satisfação e auto-realização, mas que também promove angústia e infelicidade. Desde 1958, com a expansão do ensino, o educador Anísio Teixeira aponta para a necessidade de profissionais qualificados que possam realizar um trabalho educacional de qualidade. Já não temos apenas que preparar estudiosos e intelectuais para continuarem a estudar e a ensinar e cada vez se fazerem mais competentes nesse indispensável e maravilhoso círculo vicioso da cultura humana. Por certo que ainda temos de fazer isso, mas 88 também, temos que preparar a grande massa de meninos e jovens para as tarefas comuns da vida, tornadas técnicas senão difíceis, pelo tipo de civilização que se desenvolveu em conseqüência de nosso progresso em conhecimento, e, além disto, os quadros vastos, complexos e diversificados das profissões e práticas em que se expandiu o trabalho especializado. (TEIXEIRA, 1958, p. 1). A orientação vocacional, que surge como um dos campos de atividades das ciências sociais, inicialmente com uma preocupação social, torna-se obrigatória com a lei 5.692/1971. No seu artigo 10 institui a obrigatoriedade da orientação educacional nas escolas brasileiras, incluindo aconselhamento vocacional em cooperação com os professores, a família e a comunidade. O mundo profissional passa a ser de competência também da educação com um profissional especialista, pois é um trabalho que exige uma especificidade e acompanhamento das mudanças sociais que ocorrem no mundo. Segundo Bohoslavsky (1977), o processo de orientação frente à situação de escolha deve ser da competência de psicólogos especializados, responsáveis pelo encaminhamento do jovem ou adulto nesse momento crítico de mudanças, ou seja, na passagem de um ciclo educativo ao mundo do trabalho. A orientação vocacional, nessa linha, trabalha com diversas técnicas com o objetivo de auxiliar o jovem a assumir a situação que ele enfrenta. Ao compreendê-la, afirmam seus adeptos, o jovem pode chegar a uma decisão pessoal, autônoma e responsável, elaborando seus conflitos e ansiedades em relação ao futuro. Segundo esse padrão, a orientação vocacional é vista como uma colaboração não-diretiva no sentido de promover o estabelecimento de uma imagem não conflitiva de sua identidade profissional. Nessa visão procura-se estar atento para as possibilidades de mudanças da realidade sócio-cultural como novas carreiras, especializações, campos de trabalho e com antecipações futuras. As alterações trazidas pela lei 9.394/1996 quanto à responsabilidade dos sistemas de ensino a favor da gestão democrática do ensino público na educação básica, leva os profissionais de educação, especializados em orientação educacional, a participarem dos projetos pedagógicos nas escolas. Mas nem todas as escolas apresentam essa proposta, ou mesmo esses profissionais especializados. Variados são os caminhos feitos pelas instituições de ensino e estes vão 89 depender da visão de mundo de seus dirigentes e da linha de trabalho que as escolas realizam. Há aquelas que trabalham as profissões desde o primeiro segmento do ensino fundamental de uma forma descontextualizada, há as que fazem um trabalho mais consistente sobre profissões nas últimas séries do ensino fundamental, há as que introduzem a orientação vocacional na segunda série do Ensino Médio, nos “buracos” dos horários e há as que não fazem nenhum tipo de trabalho preparatório de escolha de profissão. Há, ainda, escolas que trabalham com profissionais psicólogos, outras com orientadores educacionais e outras, com professores voluntários. Em uma visita como psicopedagoga a uma Instituição Escolar do Município do Rio de Janeiro em 2007, pudemos participar do trabalho realizado pelas equipes pedagógica e psicológica na última série do primeiro segmento, o atual 9º ano. Segundo as psicólogas, esse processo se vê intensificado nos dois primeiros anos do Ensino Médio visando direcionar o adolescente para uma profissão. Tal procedimento, no parecer dessas profissionais, costuma minorar a dificuldade da escolha, passando para os jovens uma maior segurança na determinação de seus objetivos. Pfromm Netto, em seu livro Psicologia da Adolescência (1976), nos fala da variedade de fatores que podem influir na tomada de decisão profissional desajustada, dentre elas quando calcada em um único fator, como por exemplo, o econômico. Levisky, em seu livro Adolescência: Reflexões Psicanalíticas (1995), reforça alguns pontos já sinalizados em relação às escolhas como dificuldade financeira familiar, identificação com os pais, idealizações e necessidade de status social. A escolha de uma profissão é um momento crucial que pode levar o sujeito da saúde à doença, momento com conflitos relativos ao mundo adulto, em termos ocupacionais. Não são poucas as equivocações em relação às profissões. Muitas vezes o jovem opta, por exemplo, por educação física porque gosta de nadar, confundindo hobbie com profissão; ou então decide fazer psicologia para resolver seus problemas pessoais, ou filosofia por estar em meio a uma crise existencial; ou mesmo arquitetura, pelo simples fato de ter habilidade para desenho, sem considerar outros fatores envolvidos na profissão. Outros decidem por uma profissão que irá lhes trazer um status, sem levar em conta suas identificações com o exercício das 90 profissões escolhidas; há os que resolvem seguir a profissão dos pais, ou mesmo, dos professores. Há jovens que já optaram por uma carreira, que por vezes se descobrem desmotivados com os cursos escolhidos e resolvem retroceder. Partem para outra opção numa proposta que poderá decepcioná-los mais uma vez. Isto porque, como já colocamos anteriormente, no Brasil, muitos alunos não escolhem suas universidades por suas habilidades, por sua diversificação ou pela oferta de melhores cursos com vistas ao mercado de trabalho. Suas escolhas, muitas vezes, priorizam gratuidade, comodidade, facilidade e sustentabilidade. Sabemos como muitas decisões incluem a desinformação sobre as profissões e o mercado de trabalho. E as implicações sócio-políticas também entram como responsáveis por escolhas de profissão como história, direito, serviço social, em que o jovem vivencia fantasias onipotentes de transformação social. Os profissionais que lidam com escolhas de profissão acreditam que esse processo de elaboração de profissão deveria começar cedo nas Instituições Escolares. Dentro dessa linha pedagógica, Soares (2002) trabalha o autoconhecimento, explorando características de personalidade, interesses, aptidões e valores, por meio de exercícios vivenciais e diálogos; busca o conhecimento das ofertas de mercado de trabalho, das propostas das universidades, com visitas às diversas instituições de ensino superior ou técnico e as empresas. Os projetos apresentados por escolas constam de palestras informativas de profissionais que atuam em empresas e divulgação de absorção de estagiários e trainees pelas mesmas. Ao final desse percurso o jovem tem condições de fazer sua escolha alicerçado no tripé gostar, ter habilidade e oportunidade de trabalho. Para Soares (2002), esse trabalho ajuda o adolescente no seu processo de subjetivação. Seu conhecimento no mercado de trabalho e seu projeto de futuro ficam mais delineados, assim como o momento da escolha se torna mais fácil dentro da instituição escolar. Como outros profissionais já apontaram, a autora também nos mostra decisões adolescentes nem sempre em consonância com o trabalho realizado pelas escolas. Acrescenta às ofertas de melhor oportunidade no mercado de trabalho a possibilidade de trabalhar na empresa familiar; fatores econômicos e culturais impeditivos às suas 91 realizações profissionais, fatores que considera como os verdadeiros determinantes no momento de escolha. (SOARES, 2002, p. 950). Dentre as contribuições dos profissionais que atuam nessa área em clínicas, algumas técnicas são por eles apontadas como possíveis a serem realizadas em instituições educacionais: O genograma profissional, por exemplo, é uma delas. Utilizada em terapia de família, dentro de uma abordagem sistêmica, pode ser realizada na própria sala de aula com pequenos grupos de pais e alunos. Através dessa técnica, o jovem tem a oportunidade de saber de sua história familiar profissional, profissões de pessoas da família que deram certo ou não, ocasião que vem a tomar conhecimento de fatos que desconhecia da família, das influências positivas ou negativas dos ascendentes, momento em que os pais abrem um caminho para uma escolha com mais autonomia; uma segunda técnica apontada é a linha de vida, outra via de autoconhecimento, em que são solicitados a esses jovens dados sobre suas vidas: a escolha do nome, fatos de sua história, registro de dados significativos que possam inclusive reverter suas escolhas. Bohoslavsky (1977) compreende ser a identidade profissional um aspecto da identidade determinada e determinante na relação com toda a personalidade. No entender desse teórico, a formação da identidade profissional deve ser entendida numa contínua interação entre fatores internos e externos, pois não existe projeto pessoal independente de um projeto social. Modernamente algumas escolas têm, nos seus planejamentos, um trabalho de empreendedorismo, uma nova modalidade institucional que visa desenvolver no educando o pensamento criativo, a capacidade de pensar longe e de uma forma inovadora. Esse tipo de projeto visa desenvolver a capacidade de identificar oportunidades de produtos e serviço, de visualizar ausente, capacita o adolescente a ler a realidade social, a fazer uma valoração das novas oportunidades, a transformar um sonho em realidade, através da determinação e persuasão. Segundo Dolabella (2003) este é um trabalho gradual que exige um continuum na instituição escolar, por ser um building, um informar, um construir valores, um desenvolver habilidades, espírito coorporativo, coragem e disponibilidade para enfrentar riscos e mudanças. Como escolher uma profissão em um mundo tão polvilhado de questões que 92 trazem perplexidade e tensão permanentes para o adolescente, provocando-lhe um mal-estar próprio da civilização pós-moderna? Diz Niskier: “A transitoriedade no mundo do trabalho é uma realidade, e o homem precisa estar preparado para enfrentar novas situações, o que impõe uma efetiva reforma e expansão da educação profissional do País (Brasil), que pouco está articulada com o mundo do trabalho.” (NISKIER, 2006, p. 33) O perfil do profissional de hoje mostra-se muito diferente do que havia algumas décadas atrás. Acabou a empregabilidade, a fidelidade a uma única empresa ou única experiência profissional. As empresas, ao contrário, procuram profissionais com autonomia e adaptabilidade, que acumulem em seu currículo uma ampla variedade de experiências. O que verificamos no mundo empresarial de hoje é um aumento de rotatividade, gerando o fim da estabilidade e o conseqüente desemprego, de forma que é de extrema utilidade para os trabalhadores serem flexíveis e versáteis, em condições de ingressarem em diferentes trabalhos durante o curso de suas vidas. Sob o ponto de vista da escola, para poder fazer escolhas profissionais, o jovem precisa ter um mínimo de conhecimento sobre si, sobre o que existe no mercado de trabalho do mundo globalizado em que vivemos. A busca de dados nesse mercado multidiversificado, em que uma profissão se entrelaça na outra, pode ser um trabalho a ser feito em parceria famílias-escolas-empresas, para se minimizar o número cada vez mais crescente de evasões nas universidades. Isso vai sustentar a idéia de que a escolha de uma profissão é um trabalho que exige uma integração: pais-professores-alunos em uma instância menor, e família-escola-empresa em uma instância mais complexa. De uma forma ilusória, muitos jovens associam profissões ligadas à moda, ao esporte, à arte, à produção de games espelhando-se em profissionais bem sucedidos. Essa é uma das razões porque cabe à escola discutir os valores do mundo do trabalho e sua relação com a educação, dando oportunidade ao jovem, pais e mestres de se debruçarem sobre uma outra ótica, a respeito da escolha profissional. É fato que as transformações do mundo moderno vêm influenciando as subjetividades dos adolescentes, assim como eles vêm modificando o mundo que os cerca, numa constante relação dialética aberta para o futuro, que é imprevisível. 93 E as profissões, estas também vêm mudando vertiginosamente. Algumas, com o passar de poucos anos, tornar-se-ão obsoletas ou desnecessárias, enquanto outras irão surgir para corresponder às inovações científicas e tecnológicas. Schwartz (2000) e outros apontam, numa visão profética, para escolhas de profissões promissoras. Listam algumas, dentre elas designer, gerente de comunidade, gestão de segurança de alimentos, de energia, engenheiro genético, de trânsito, ambiental, médico sanitarista, assistente social, terapeuta, produtor cultural. Essas indicações podem representar um perigo para o jovem que busca profissões de sucesso, sem fazer uma análise da real situação dessas profissões do futuro, apontadas por esses profissionais. O século XXI traz consigo um olhar para uma outra fatia da população: o jovem trabalhador sem qualificação e sem oportunidade para estudar. O Decreto Federal de nº 5.598/2005 busca articular aprendizagem e trabalho para jovens não contemplados até hoje. Traz, no seu regulamento, uma oportunidade de trabalho e de estudo para esses jovens, em um prazo máximo de dois anos Apesar de ser uma medida louvável, exige vontade política para implementá-la. Como a psicanálise vê a questão da escolha profissional? 4.2 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA A ESCOLHA PROFISSIONAL Em nossa cultura, o vestibular funciona como um rito de passagem para a vida adulta, promovendo um angustiante encontro com o real. Para entrar nesse mundo, o jovem precisa incorporar uma identidade profissional às pressas. Essa precocidade em resolver algo tão importante em sua vida precipita por vezes uma escolha errada. Pensar o tema Adolescência e Escolha Profissional sob o ponto de vista psicanalítico exigiu-nos um longo percurso teórico centrado no sujeito do inconsciente. Freud, que chocou o mundo científico, em pleno final do século XIX, com a descoberta do inconsciente, afirma que, apesar do inconsciente pertencer ao homem, ele não o conhece, uma vez que ele opera com autonomia e produz efeitos que supomos não serem nossos. 94 O inconsciente é uma máquina que não dominamos - diz Freud, em que o pensamento é capturado numa outra lógica de funcionamento e que só podemos ter acesso pelo sintoma e seus efeitos: chistes, ato falho, lapsos, sonhos - ao que Lacan acrescenta que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e que, portanto, a palavra é a via de acesso a ele. O drama de Alberto pode nos ajudar a entender essas afirmativas. Jovem de 18 anos, primogênito de três, filho de pais separados, Alberto aderiu à religião da mãe, cuja igreja freqüenta regularmente aos domingos. Seu pai, pouco presente em sua vida fica todas as tardes no bar da esquina de casa, único momento em que Alberto o vê. Comunicam-se pouco; apenas o suficiente para pedir um trocado. Viciado em games, suas brigas com a mãe são constantes. Em 2007 passou para duas universidades, uma de teologia e outra de história. Iniciou cursando teologia em uma universidade católica, com bolsa de estudos integral, mas abandonou no segundo mês após o início. No segundo semestre dá início ao curso de história. Após uma semana de aula, desiste do novo curso, não entendendo porque o fez. Esconde o fato da mãe, que só vai descobrir ao final do ano, nada mais podendo fazer para salvá-lo. Alberto não está podendo falar disso. Perde as vagas, o que o obriga a prestar novo vestibular. Percorrendo a teoria psicanalítica, o artigo Romances Familiares (1909), Freud nos mostra o quanto as fantasias plenas de desejo são necessárias na constituição da subjetividade. Para que haja o desfecho do Édipo na infância, faz-se necessário, diz Freud, a identificação da criança com a imagem de um pai com atributo fálico. Trata-se de um atributo imaginário uma vez que a criança acredita que seu pai possui realmente o falo, identificação imaginária que vai sustentar a identificação simbólica. O sujeito, ainda que reconheça que tem o atributo fálico, só poderá servir-se dele mais tarde, ou seja, em linguagem lacaniana, a metáfora paterna institui algo da ordem do significante, com significação a posteriori, na adolescência, quando ocorre uma reatualização das fantasias edípicas da infância. Lacan (1950-1960), numa releitura do Édipo freudiano, dá uma significação ao sujeito no que concerne ao que é para o Outro, e, a partir do pai, produz-se para a criança a significação do significante da falta da mãe, numa operação metafórica do sujeito. A identificação com a imagem de um pai que possui o atributo fálico claudica (na adolescência), exigindo uma nova identificação para sustentar a função paterna e 95 a vida do sujeito. (ALBERTI, 1996, p. 236). É em função da busca de um Nome-do-Pai que o sustente e reoriente seu desejo, que o sujeito adolescente se depara com uma angústia a que podemos identificar como crise da adolescência. Em um primeiro momento, busca tamponar, erroneamente, essa falta de significante pela via imaginária de identificação, uma identificação puramente especular, sem conseguir buscar o que lhe causa seu próprio desejo, o que só vai conseguir no momento em que o mito edípico adquirir toda sua desenvoltura, isto é, quando o sujeito se dá conta plenamente do seu desejo e sai em sua busca de equivalências simbólicas que possibilitem realizar seus desejos, “[...] o que levará o sujeito para além da travessia das aparências, onde o sujeito deixa de querer ser como o pai para ter a mãe, conforme o esquema edípico, para encontrar esse um Nome-do-Pai que pode ser qualquer um, mas que seja fundamentalmente um significante”. (ALBERTI, 1996, p. 247). Alberto não encontrou no pai o atributo fálico necessário e teve dificuldade de libertar-se da mãe fálica. Retomando a questão da constituição do sujeito, este, primariamente, é um efeito, não um agente e se constitui no campo do Outro. Esse Outro precede o sujeito e fala do sujeito antes de seu nascimento. Quando o sujeito nasce depara-se com um limite imposto pela cultura. Surge no campo do Outro, no campo da linguagem, do simbólico e é chamado à subjetividade pelo significante. A subjetividade constitui-se a partir da ordem simbólica. O homem, efeito da linguagem, tem na palavra um enigma significante. Esta não vale por si só, mas exige uma associação a nível contextual. Em sendo objeto do desejo do Outro, a criança leva consigo marcas significantes que vão determinar o sujeito futuro. A partir das marcas dos discursos dos pais, a criança carrega consigo uma herança simbólica. A inscrição simbólica na sua história familiar constitui o seu desejo inconsciente, a partir do desejo do Outro. O pai saiu de casa quando a mãe de Alberto estava grávida dele. Seu tio, em uma briga com a irmã, deu-lhe o significante débil mental. Alberto custou a andar, teve dificuldade de jogar bola, não consegue andar de bicicleta até hoje e apresenta dificuldade de relacionamento. A mãe, que o considera superdotado, não consegue entender o que se passa com o filho. Após percorrer vários profissionais, um apontou ser Alberto portador de uma síndrome cujo nome não lembra. Motivo das brigas entre o casal, o pai, não suportando mais as acusações da mãe, sai definitivamente de 96 casa e vai constituir outra família. A mãe resolve arrumar um namorado, adotar outros dois filhos, temerosa que esse filho não corresponda ao seu desejo de seguir os seus ideais. Alberto preocupa-se em atender às expectativas da mãe, não pode fazer escolhas. Preso à figura materna não consegue separar-se dela, quer ocupar o lugar do pai ausente, permanecendo como o falo imaginário da mãe que não deseja saber sobre as questões íntimas do filho, o que o deixa deslibidinizado. Lacan percebe que o sujeito só pode ser concebido no lugar do Outro ao preço de uma perda irredutível, mas sempre haverá um resto excluído de uma nomeação, dos limites da linguagem, das normas fálicas que organizam os sujeitos, as famílias e a cultura: um ponto de exclusão, o objeto a que não pode ser absorvido pelo significante. Este é para Lacan o lugar localizado como categoria do impossível e que vai definir o real: é o ponto de trauma pela intrusão do simbólico no corpo, dimensão que estrutura cada sujeito, que leva o sujeito a adotar uma solução para se colocar no laço social. (GONÇALVES & CARVALHO, 2007). Em Lacan, a família, para além do romance familiar, é uma família para além do imaginário e do simbólico, para além do Édipo, para além das fronteiras. Ela não é causa do sujeito, não é constituída pelos pais, mas pelo desejo da mãe, Nome-do-pai e objeto a. O pai, não mais representante simbólico do desejo da mãe, pode levar o sujeito a fazer uma nova aliança com a pulsão desejante. Como podemos entender o que se passa com Alberto que não consegue fazer suas próprias escolhas? Qual a crença que tem em seus pais? O que eles estão fazendo para autorizá-lo a separar-se deles? O que ele faz para separar-se dessa família? Alberto está alienado ao desejo do Outro. Submetido à determinação significante, quer libertar-se, mas não consegue e toma a via da petrificação. Precisa fazer a escolha de barrar o gozo que se repete e que se desvela em seu sintoma. Esta é a escolha de Alberto, que precisa furar esse significante mestre com que se identifica e barrar o gozo que não mais suporta, restaurando a perda do ser através da escolha pelo desejo. A adolescência é considerada uma escolha. Fazer escolhas é elaborar a castração. Implica querer desligar-se da autoridade dos pais, assumir a castração do Outro, elaborar o luto para buscar a elaboração da falta no Outro. Ao buscar identificar-se com um outro, seja pela moda, pelas marcas corporais, pelos piercings, pelo esporte, pela grafitagem, por games, orkut ou outros tipos de relacionamentos 97 virtuais, há uma tentativa de velar a angústia de castração, de que falta um significante no Outro. Ao deparar-se com a inconsistência do Outro, o sujeito busca ancoragem no significante do Nome-do-Pai, reconstituindo a consistência imaginária dessa autoridade. Separar-se dos pais é um processo que exige do adolescente experimentar prescindir dos pais. Para tanto se mostra rebelde, burla regras, contradiz as ordens paternas, enfim, vai usando de sua capacidade de contrariar, para poder assumir um novo lugar como filho. Sai em busca de sustentação simbólica. Dentre outros exemplos de adolescentes que enfrentam essas dificuldades e buscam a clínica psicanalítica, podemos citar o caso de Vítor que não sabe o que fazer frente à multiplicidade de escolhas de profissão possíveis. Esse momento leva muitos pais a assumirem as escolhas pelos filhos, de acordo com seus ideais, por se julgarem mais experientes. Sabemos o quanto as escolhas feitas somente pelos pais, que não passam pelos desejos dos filhos, podem trazer conseqüências psíquicas traumáticas. Vitor, um jovem de 16 anos, 3º ano do Ensino Médio não sabe bem o que quer. Os pais, percebendo a sua dificuldade de escolha, decidem-se pela economia porque há boas perspectivas de trabalho no mundo atual. Vítor, sem coragem de recusar, aceita e concorda por achar que a mãe sabe tudo. À medida que o tempo passa, fica cada dia mais infeliz e desinteressado pelos estudos. De castigo nos finais de semana, pelo baixo desempenho, torna-se agressivo. A situação torna-se insustentável, a ponto de o responsável procurar ajuda em um profissional da área psicológica, porque o jovem está desestimulado dizendo que quer abandonar os estudos. Ao contrário, um outro exemplo de adolescente, em que vemos a importância da posição dos pais na elaboração das escolhas. Luís, um rapaz de dezoito anos, filho de pais dentistas, acabou de passar no vestibular para o segundo semestre em jornalismo. A mãe de Luis, criada como um menino, porque esse era o desejo de seu pai, sugeriu, ainda que temerosa, que ele fizesse uma viagem como mochileiro, dormindo em albergues, como ela o fez quando solteira, com o fim de aproveitar o tempo ocioso do primeiro semestre. Muito animado com a idéia, comunicou a decisão de viajar a seu pai, que saiu de casa o ano passado para constituir outra família. Em seguida o jovem zarpou para a Europa Ocidental percorrendo vários países por onde circulam os trens. Sua mãe comenta 98 que está extremamente satisfeita com o filho porque ele conseguiu se separar dela mais facilmente do que supunha. Ao lhe ser possibilitada uma viagem, ele estudou todas as possibilidades, planejou a viagem e, sozinho, resolveu aventurar pelo mundo. Em conversa com a analista, a mãe diz: “Fico muito tensa e preocupada, mas estou, ao mesmo tempo, muito feliz! A gente cria filho pro mundo”. Em ambas as situações o que nos salta aos olhos é a importância da separação por parte não só dos filhos como também dos pais. Essa separação paisfilhos traz em si uma dupla polaridade, apontada por Freud em Romances Familiares (1909) quando nos diz que embora seja um dos mais dolorosos trabalhos na relação pais-filhos, é absolutamente necessário que essa separação se realize. Não podemos, no entanto, achar que é um momento único. A separação é um processo, uma vez que ela é para sempre incompleta. O sujeito substitui as figuras dos pais por outras representações simbólicas, por instituições ou por ideais sociais. No dizer de Strauss, “[...] ele [o sujeito] passa do quadro restrito da família àquele mais amplo da sociedade por meio da transferência de investimentos libidinais.” (STRAUSS, 2000, p. 12). Freud, no mesmo artigo referido no parágrafo anterior, nos fala dos pais da infância como sendo sempre um porto seguro para as crianças pequenas, uma autoridade única e fonte de todos os conhecimentos. Tudo o que a criança pequena quer é ser igual aos pais. À medida que a criança vai crescendo, vai se deparando com outras realidades, percebendo falhas nas figuras paternas e qualidades em outros pais, o que possibilita começar a criticá-los. Busca razões que possam justificar a negligência dos mesmos em relação a ela, sente-se preterida pelos irmãos, tem fantasias de adoção, enfim, a imagem de perfeição deixa de existir. Cresce o desejo de querer libertar-se desses pais que desceram em seu conceito e estima, substituindo-os por outros. A separação, segundo Freud, já existe na primeira infância, mas mostra-se ainda incipiente, o que podemos perceber através de Rafael. Rafael é um menino de cinco anos, filho de pais separados que vivem brigando. Encaminhado pela escola por comportamento agressivo, mudança de humor e falta de limites, esta, na impossibilidade em solucionar o problema porque a questão, segundo a professora, está na relação parental “torta”. Pede socorro aos 99 pais para que providenciem um psicólogo para o menino “encapetado”. Colado a uma mãe superprotetora que, por razões não esclarecidas tem medo de perder a guarda do filho judicialmente, vive brigando todos os finais de semana em que o pai vem buscar Rafael, o que o irrita muito. Na escola mostra-se, com freqüência, agressivo e raivoso principalmente com as meninas e a professora, ou seja, com figuras femininas. Nele se mostra algo de libidinal quando, diante de uma mulher, muda de comportamento, agride e pede para que o coloquem de castigo. Rafael não quer saber dessa mãe, a quem desenha como se fosse um monstro. O que Rafael deseja é separar-se da ‘”sufocadora”, como a chama. Sente-se mortificado. Então desloca e atualiza sua angústia de castração, demandando uma borda, a interdição paterna como uma necessária ação apaziguadora. Em seu artigo Separar-se de seus Pais (2000), Strauss ressalta que se separar deve partir dos filhos, e não dos pais. A família deve servir basicamente à constituição de um desejo e isto está presente na separação. É preciso que o sujeito queira se separar. É importante que os pais não se separem dos filhos antes que eles o façam, pois eles precisam dessa sustentação para que possa aflorar o desejo a partir da percepção de que os pais não são perfeitos; de que eles têm fraquezas, inseguranças, indecisões, um furo, causa do desejo do sujeito. Reforçando com as palavras do autor: “[...] o sujeito nunca chega a concluir esta tarefa, que a separação permanece incompleta. Na maior parte dos casos o que o sujeito consegue é operar a substituição dos seus pais por ideais sociais.” (STRAUSS, 2000, p. 11). A identificação não pode ser preponderante na escolha do sujeito, assim como a imposição do Outro ou a sedução pela escolha de uma profissão com possibilidade de sucesso rápido não o deveria ser. Mas não raro o é, tornando o sujeito infeliz, o que pode resultar em mudanças a curto ou médio prazo na vida profissional desse sujeito, ou até na aceitação conformada do destino que lhe traçaram, tornando-se um sujeito esvaziado da pulsão de saber. Em vários momentos de sua vida Freud, possivelmente pela força do fenômeno transferencial, teria acreditado que os métodos educativos pudessem ser reformulados a partir da descoberta da psicanálise, que o processo analítico pudesse ser considerado uma pós-educação, como podemos ver em Cinco Lições de psicanálise (1909), em que coloca a psicanálise como um prolongamento da 100 educação com objetivo de superar os resíduos da infância. Logo essa idéia se dilui e em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912), adverte os médicos quanto às restrições que eles devem impor à analogia de ambos os processos. Em 1925, percebemos um maior avanço em relação à impossibilidade de articulação. Alerta os educadores para que não confundam sua tarefa com a do analista e ressalta a especificidade da obra educativa. “O processo educacional requer que o educador assuma o lugar de ideal-do-eu, de sorte que o educando se submeta a suas exigências, e, por outro lado, a fim de que o próprio ideal-do-eu do educando, pela absorção de certos traços do educador, sofra sua influência.”, reitera Millot (2001). Marcando a especificidade do tratamento psicanalítico, Millot ressalta que: O tratamento analítico tem por objeto a própria transferência que, ao final do tratamento será destruída [...] O analista busca sua própria destituição do ideal-do-eu de seu paciente. A análise de transferência, correspondente à resolução do conflito edípico solapa, além disso, qualquer possibilidade de transferência posterior, e libera o analisante de sua dependência infantil para com a instância do ideal-do-eu. (MILLOT, 2001, p. 130). O que significa, para as famílias, o filho querer separar-se delas? O que significa a saída de um filho de casa seja para estudar fora, para casar ou mesmo numa escolha pessoal de querer morar sozinho? Como os pais reagem contra suas escolhas? Ou que estratégias a família usa para ajudar ou não o filho nesse processo de separação psíquica? Dentre as estratégias de separação utilizadas pelas famílias, trazemos uma realidade contemporânea na fase em que o jovem realiza o vestibular, já apresentada no caso de Luís. Esse jovem escolheu seguir a carreira de jornalismo e viajar para o exterior para estudar uma segunda língua, em intercâmbio, modalidade que já fizemos referência ao início do capítulo. Essa experiência é uma oportunidade de aprender a se virar longe da família. Para os pais isso significa uma chance de melhorar as relações interpessoais, conhecer novas culturas e ganhar fluência em uma língua estrangeira, requisito obrigatório no mercado de trabalho atual, razão porque os pais passam, às vezes, a serem os maiores incentivadores nesse empreendimento. 101 O convívio com culturas diferentes e a experiência sem igual de distanciar-se da família e cuidar da sua própria vida são argumentos que as famílias usam com freqüência, como estratégia para facilitar esse processo de separação de ambas as partes. A expectativa de que a experiência os fará mais fortes no enfrentamento dos desafios do mundo moderno, nem sempre acontece, pois a separação implica num longo trabalho psíquico que pode ter um ponto culminante na adolescência, momento por excelência, de elaboração de escolhas. No que diz respeito à escolha profissional, vimos como adolescentes se fixam nas figuras paternas e permanecem com seus desejos não manifestos, com medo de desapontá-los, dando lugar ao desejo do Outro e sem poderem fazer escolhas a partir de seus desejos. É preciso escutar o sujeito e fazê-lo escutar-se, a fim de que o jovem atenda ao seu inconsciente e faça escolhas a partir do seu desejo. 102 Fotomontagem – hcourcy4 103 5 CONCLUSÃO Esta pesquisa pretendeu investigar, na perspectiva psicanalítica, a construção do sujeito adolescente e o momento da escolha profissional. Para tanto, preocupouse em dar relevância a alguns aspectos próprios da adolescência, à influência dos mestres, pela via da transferência, no momento de fazer escolhas, assim como mostrar a importância dos pais para o adolescente. Vimos o quanto é importante esse significante adolescente para o jovem, mas também o quanto é difícil essa passagem, não só para ele, como para seus familiares. Trabalhamos algumas formulações psicanalíticas fundamentais como desejo, transferência, alienação, separação e buscamos uma maior compreensão das modalidades de construção da adolescência no laço social. O percurso teórico realizado nesta pesquisa foi permeado pela clínica com adolescentes, o que nos possibilitou sinalizar alguns pontos considerados de interesse. Dentre eles, ressaltamos conflitos psíquicos relativos à partilha do sexo e à escolha profissional do adolescente. Ao fazer referência à família, Strauss nos diz : ”[...] a função da família é menos a satisfação das necessidades do que a transmissão que está na base da constituição subjetiva e que, por esse motivo, implica a relação com um desejo que não seja anônimo”.(STRAUSS, 2000, p. 15). O sujeito adolescente necessita ir a busca do seu desejo, mas precisa de uma retaguarda firme para ampará-lo na sua necessária travessia, o que, por vezes não encontra sustentação simbólica. Checchia (1990) define a adolescência como um fenômeno próprio da modernidade e a aponta como um momento de ressignificação da metáfora paterna decorrente do impacto, no sujeito, do encontro com o real da puberdade em uma sociedade contraditória. A adolescência, neste sentido, implica um período de travessia de identificações. Este autor sinaliza que, se por um lado a sociedade pós-moderna produz uma cultura que possibilita uma variedade de opções para que se estabeleçam novas identificações simbólicas, por outro lado leva o sujeito a mobilizar sua libido para fins economicamente (ir)racionais, o que o impele a realizar identificações imaginárias para fins de consumo. Esse dado de realidade dificulta o 104 confronto com seus conflitos originais, e o impede de buscar novas equivalências simbólicas que sustentem seu próprio desejo. É a identificação imaginária que falha na adolescência, restando ao sujeito encontrar uma nova identificação que sustente a metáfora paterna e que Alberti traduz muito bem, quando diz: “Na adolescência, após a falência do pai da infância, o sujeito precisa encontrar esse pai do nome que, de um lado, apesar de tudo, vem sustentar a função paterna e a vida do sujeito.” (ALBERTI, 1996, p. 236). Ao tratar do adolescente e suas escolhas, Rassial (1999) ressalta a necessidade de o jovem dispensar o pai para poder servir-se dos Nomes-do-Pai, que, a partir de então, vão ser pensados no plural de suas escolhas de vida. É fato que o pai simbólico precisa sustentar e orientar o desejo do jovem. Quando ocorre a falência do pai simbólico, o jovem vai buscá-lo em outras instâncias que não nas relações simbólicas e imaginárias da família. Para Lacan, o resíduo que a família conjugal representa na evolução das sociedades, não pode ser eliminado. Retornando às exigências sócio-culturais, o futuro profissional do sujeito adolescente de hoje depende não só de sua formação e da ampliação do seu potencial intelectual como também de uma boa capacitação técnica, de relações de respeito e de uma ação agressiva no mundo profissional. Se nos voltarmos para o mundo de hoje, a sociedade cobra atitudes dos jovens, soluções e, sobretudo, projeções futuras, que lhes garantam inclusão na sociedade maior. Se antes as regras eram definidas e duradouras, hoje o meio social e produtivo exige do sujeito maior capacitação de adaptação e flexibilidade ante as mudanças constantes de metas e objetivos, estratégias inteligentes, em decorrência das transformações no mercado mundial. Há que se ter um equilíbrio frente às novas exigências do meio que afetam todos os níveis da vida social, o que promove um estado de permanente transitoriedade. A exigida qualidade total e o consumismo desenfreado do mundo pósmoderno, em que tudo se torna obsoleto, levam as empresas a uma reorganização contínua e acelerada para poder acompanhar e manter-se no mercado. O paradigma da globalização, os paradoxos entre antigos e novos valores, os conflitos geracionais, os projetos individualistas em que cada um busca os seus interesses pessoais e profissionais, tornam o convívio familiar frágil, pouco 105 comunicativo, com pouca sustentação, deixando a todos em tensão permanente diante do imprevisível. Essas são algumas instabilidades que têm afetado as famílias nas suas dinâmicas relacionais. Se olharmos para o mundo, violências banalizadas, promessas enganosas de emprego e de falso sucesso profissional, nepotismos, falcatruas, todas essas arbitrariedades aliadas às próprias questões do sujeito, podem levar o adolescente a um estado de passividade e irritabilidade que se traduzem em um mal-estar, o que pode desembocar em dificuldades relativas à escolha profissional. No âmbito das escolas, as instituições educacionais trabalham os seus alunos enfatizando o conhecimento, os avanços técnicos e as informações, em detrimento da formação ética dos jovens, necessária para torná-los homens mais preparados para lidar com o Outro da cultura. Ao se depararem com uma diversificação tão grande em relação às profissões e a tantas mudanças nesse campo, os jovens saem em busca de cursos mais valorizados, de escolhas que possam lhes dar status e bom retorno financeiro, o que evidencia não levarem, por vezes, em consideração o que desejam fazer. Quando o sujeito percebe-se aflito diante da escolha profissional, diante da busca de um significante profissional, isso vai para além da designação a respeito das ocupações ou funções sociais. Ele busca na realidade algo que diga sobre ele, enquanto sujeito. O significante profissional é um referente sobre o sujeito. No ato da escolha, esse significante torna-se algo que fala do sujeito. Ao escolhê-lo, o jovem crê estar escolhendo algo que o define enquanto sujeito. Esse significante encontra-se atrelado ao desejo do Outro. A causa do desejo pode incorporar uma voz ou um olhar que o Outro lhe dirija. Na busca desse olhar ou voz, o sujeito passa a procurar o seu lugar no laço social, fazendo escolhas permeadas pela busca desse olhar. Ao escolher um referente profissional, o sujeito busca algo que o signifique, mas o referente é inerente ao próprio sujeito. Cabe ao próprio perceber, a partir da falta, que é ele quem vai poder dizer sobre seus referentes, buscando algo que diga sobre si mesmo. Em outras palavras, é construindo uma identidade profissional que poderá dizer sobre sua própria escolha. Lacan (1966) apresenta-nos o nome próprio como o enunciado que se iguala à significação. O nome responde quem é o eu, mas o sujeito não pode entendê-lo. 106 Embora o nome e a profissão sejam significantes que designam algo sobre o sujeito, há uma diferença entre ambos. Assim como o nome próprio, o referente profissional é um significante. Estes se diferenciam na medida em que o primeiro é escolhido pelo Outro, ao passo que a profissão é o próprio sujeito quem escolhe a partir do Outro. O que quero ser? O que querem que eu seja? Cabe ao sujeito escolher um significante que o designe e que, na sua fantasia, o signifique. Na escolha desse referente algo o angustia: é o vazio frente ao ato da escolha, cuja causa também se origina na instância do Outro primordial. É preciso que o sujeito queira se separar da cadeia significante, ou seja, tenha vontade de saber o que é para além daquilo que se inscreve do Outro. Pela nossa experiência, sabemos que, ao longo de nossas vidas, há escolhas possíveis. Estamos sempre escolhendo. Muitas vezes elas se modificam por razões pessoais, familiares, sócio-culturais, políticas, econômicas e outras. Em qualquer época, a escolha do sujeito é um momento de tomada de posição frente ao novo, uma aceitação de perdas, uma vez que qualquer escolha significa abrir mão de algo, o que leva o sujeito a vivenciar um luto. À escolha de uma profissão, junta-se a história de vida do sujeito, a construção de um estilo de vida, a travessia do Édipo e a escolha da neurose. Essas escolhas e projetos de vida pautam-se em muitos determinantes, escolhas não raro induzidas, impostas ou seduzidas pelo Outro da cultura. É importante evocar o desejo causado pela falta relacionada à percepção de que os pais não são tão perfeitos como o jovem supunha. Ao descobrir “os furos” dos pais, esses jovens precisam sair em busca de outros horizontes para saber sobre o mundo que ainda lhes é desconhecido, distanciando-se assim do núcleo familiar ou social a que pertencem, momento em que podem vir a se autorizar a fazer suas próprias escolhas, dentre elas a profissional. Vimos anteriormente que a alienação é um destino na constituição do sujeito, enquanto a separação pode ou não estar presente. É preciso que o sujeito queira se separar da cadeia significante, ou seja, tenha vontade de saber o que é para além daquilo que se inscreve do Outro. A separação, para Lacan, é da ordem da escolha e tem implicação com o sujeito desejante. Possibilita o sujeito instaurar uma janela entre o eu e o mundo; 107 possibilita o sujeito saber desembaraçar-se, dar novos sentidos aos seus sintomas. É um separar-se do enigma do desejo do Outro. Esta operação é condição necessária para se fazer escolhas. Mas é preciso que os pais saibam o quanto eles são importantes nesse empreendimento. Seus filhos precisam deles para sustentá-los, psiquicamente, nas suas empreitadas desafiadoras. No que se refere às escolhas de profissão, propriamente ditas, o avanço tecnológico tem tornado algumas profissões efêmeras exigindo dos sujeitos adaptações de funções em razão da própria evolução humana. Por outro lado, essas profissões estão cada vez mais próximas, as parcerias estão cada vez mais presentes e a escolha pode vir a tornar-se mais fácil para quem está em dúvida entre dois cursos supostamente diferentes. Desenvolver a capacidade de discernir, de antecipar situações futuras, de acompanhar o mundo nas suas demandas, são questões a considerar, tendo como ponto fundamental, a elaboração dos conflitos originais para poderem vencer as dificuldades. Em referência à teoria dos discursos de J. Lacan (1969-1970), podemos dizer que a instituição escola, hoje, concebida como empresa, é enredada em uma nova modalidade do discurso do mestre, própria do mal-estar contemporâneo: o discurso do capitalista, “um discurso que exclui o outro do laço social, pois o sujeito só se relaciona com os objetos-mercadoria, comandado pelo significante-mestre capital”. (QUINET, 2006, p. 39). O discurso do capitalista é um deslizamento do discurso do mestre em que há o senhor e o escravo, discurso em que o trabalhador pode não mais querer ser objeto de gozo. No discurso do capitalista, não há com quem negociar. As grandes empresas não tem um patrão. Elas operam sobre os trabalhadores, só que estes não o vêem. Não existe laço social. O sujeito é agenciado pelo objeto a, objeto de consumo que Lacan, no Seminário 17 (1969-1970) chama de latusa. O sujeito não tem como se defender. É um discurso que produz graves efeitos, isola o sujeito, provocando um desconhecimento de seu próprio corpo, fazendo surgir síndromes auto-imunes, doenças estranhas, sem explicações. Nesse discurso há a foraclusão da castração, em que as pessoas não se preocupam com as conseqüências subjetivas. Nesse caso incluímos também os professores, que precisam ficar atentos, pois 108 são igualmente agentes e vítimas desses discursos que se fazem presentes nas escolas de hoje. Lacan vai dizer no Seminário 20 (1972-1973) que a única saída para o discurso do capitalista é o discurso da histérica, um discurso que provoca o desejo. A escolha da profissão exige coragem para decidir, implica um escolher bem se exercer. Aos professores cabe interessarem-se pela verdade do desejo do sujeito frente aos objetos profissionais. O profissional, seja ele professor, psicólogo, psicanalista, orientador educacional, poderá contribuir para despertar o sujeito adolescente para buscar obter informações em universidades, nas empresas que sejam de seu interesse, no que desponta no mercado mundial e, principalmente, que possa escutar-se para saber o que quer. Só assim poderá escolher a melhor opção profissional, sabendo que pode mudar o seu rumo, a qualquer momento, de acordo com seu desejo. Lacan, ao iniciar sua fala no texto Perguntas àquele que Ensina, no Seminário 2 (1954-1955), nos diz: “Estamos nos aproximando de um cume. Nada nos indica que, do alto deste cume, teremos uma vista realmente panorâmica sobre aquilo que percorremos”. Parodiando o mestre, não há como pintar a tela da escolha profissional com todas as suas matizes. Nem ao menos nos aproximamos do arco-íris. Ficam apenas algumas pinceladas sobre a teoria psicanalítica de Freud e Lacan e a nossa prática educacional como uma contribuição a mais, tendo um longo caminho ainda a percorrer até nos aproximarmos do cume. Mesmo assim, será que teremos a tão sonhada vista panorâmica? Fica o desejo da busca. 109 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABERASTURY, A. & KNOBEL, M. Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981. ALBERTI, S. Esse Sujeito Adolescente. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996. --------------. (org.) Autismo e esquizofrenia na Clínica da Esquize. Rio de Janeiro: Marca d’Água, 1999. --------------. O Adolescente e o Outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. ANDRADE DE SÁ, C. Psicanálise e Educação: Possibilidades de interlocução. Dissertação de Mestrado. Juiz de Fora: Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, 2004. ARIÉS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1981. AULETE, C. 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A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose (1924). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v.19. --------------. Algumas Conseqüências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos (1925). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v.19. --------------. O Futuro de uma Ilusão (1927). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v.21. --------------. O Mal-Estar na Civilização (1930[1929]). In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v.21. GARNOT, D. S. F. Herdeiros da Ciência até que Ponto? Revista Tempo Freudiano, n. 5, p. 89-109, 2003. GENNEP, VAN. Ritos de Passagem (1906). Revista Mente e Cérebro: O Olhar Adolescente, artigo de El Far, Ritos de Passagem. São Paulo, Duetto. n. 4, p. 14-21, 2007. GONÇALVES & CARVALHO. Jornada Nacional de Psicanálise: Novos Laços Familiares. Aracaju, 2007. HANNS, L.A. Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. HEGEL, G.W.F. Sobre Fenomenologia do Espírito (1806). 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Escolha da Carreira e Globalização, São Paulo: Moderna, 1997. 116 APÊNDICE A - OFICINA COM ADOLESCENTES: O MUNDO DO TRABALHO OBJETIVOS Levar o adolescente a colocar sua visão de mundo em relação ao trabalho. Provocar uma discussão sobre as profissões dos familiares e sua relação com o sucesso ou fracasso. Refletir sobre os seus fracassos e sucessos. Despertá-lo para a busca de informações que possam auxiliá-lo na escolha de uma área profissional. Levá-lo a compreender que a escolha da profissão pode mudar seu rumo, no momento propício, de acordo com o seu desejo. CLIENTELA - Estudantes do Ensino Médio ou Técnico FAIXA ETÁRIA - Adolescentes de14 a 21 anos CARGA HORÁRIA - 20 horas distribuídas em 2 (duas) horas semanais. Total de 10 sessões. VAGAS - 8 (oito). PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS - a decidir com a instituição de ensino ou de saúde. METODOLOGIA - técnicas auto-expressivas a partir de temas geradores, entrevistas com profissionais convidados. RECURSOS MATERIAIS: materiais de sucata, revistas, tesoura, cola, papel pardo e outros. 117 APÊNDICE B - PROPOSTA DE ENCONTROS COM PAIS E PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, EM INSTITUIÇÕES DE ENSINO MÉDIO E TÉCNICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO TEMA - O SUJEITO ADOLESCENTE E SUAS ESCOLHAS OBJETIVOS Apontar características do adolescente no mundo contemporâneo. Identificar os fatores que podem interferir na escolha de profissão do sujeito adolescente. Ressaltar a importância dos pais e mestres no momento de escolhas do adolescente. PÚBLICO ALVO - pais de alunos e profissionais de educação e de saúde interessados no tema. CARGA HORÁRIA - 12 h/a distribuídas por mês, utilizando-se do primeiro sábado de cada mês, de 8h às 12h. ROTEIRO 1º dia: Apresentação. A importância do nome próprio e da escolha da profissão para o sujeito. Características da adolescência. Um pouco de História. Aspectos culturais. Visão da Psicanálise. 2º dia: O adolescente e o desligamento da autoridade dos pais. O adolescente e o mundo do trabalho. Ofertas do mercado na contemporaneidade. A importância da sustentação de pais e mestres na escolha profissional dos adolescentes. 3º dia: A contribuição da psicanálise para a escolha profissional. METODOLOGIA Apresentação dos participantes. Recorte de filme sobre escolha de profissão. 118 Discussão co-participativa. Exposição oral. Dinâmica em grupo. RECURSOS MATERIAIS - Data-show, vídeo, quadro branco, papel, lápis.