U
C
M
PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO
DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS
CURSO DE PÓS=-GRADUAÇÃO LATO-SENSU
PROJETO “ A VEZ DO MESTRE ”
O FRACASSO ESCOLAR: UMA BATALHA A SER VENCIDA
— A BUSCA DE ALTERNATIVAS PARA SUPERAR O FRACASSO
ESCOLAR—
ELIANAR CEZAR RODRIGUES DIAS
ORIENTADOR: Profª Fabiane Muniz
Rio de Janeiro
Fevereiro/2003
ELIANAR CEZAR RODRIGUES DIAS
O FRACASSO ESCOLAR: UMA BATALHA A SER VENCIDA
— A BUSCA DE ALTERNATIVAS PARA SUPERAR O FRACASSO
ESCOLAR—
Monografia apresentada ao Curso
de Pós-Graduação em Supervisão
Escolar, como requisitos parcial
para
obtenção
do
Supervisor Escolar.
título
de
AGRADECIMENTOS
A DEUS que renova dia-a-dia minhas forças, na superação dos obstáculos
da vida, porque é Ele que me tem dado a vitória.
A MINHA MÃE (in memorian), por seu eterno desejo de minha realização
pessoal e profissional.
AO MEU PAI, pelo seu exemplo de luta, trabalho e dignidade.
AO MEU ESPOSO E FILHOS, por compreenderem os momentos que os
privei de minha presença junto a eles, para dedicar-me a realização deste
trabalho.
A MINHA SOGRA, que tanto me auxiliou, com tempo disponível para meus
estudos.
A HELENICE, grande amiga, que sempre me incentivou e auxiliou para o
meu crescimento profissional.
A MINHA ORIENTADORA, Fabiane Muniz, por sua compreensão e valioso
auxílio nos momentos de dúvida.
DEDICATÓRIA
DEDICO este trabalho a todos os professores e profissionais da área
que, apesar de tantos obstáculos, ainda acreditam numa educação de
qualidade e lutam para superar as dificuldades que levam ao fracasso e a
exclusão, de muitos, do Sistema Escolar.
“Uma Educação sem esperança, não é Educação”
(Freire, 1978, p.30)
RESUMO
A presente pesquisa, tem como principal objetivo identificar
os fatores intervenientes do fracasso e evasão escolar.
Procura, não
apenas analisar o fracasso a nível sócio econômico, mas também verificar
como a escola vem sendo forjadora desse fracasso, quando busca ajustar e
enquadrar
ao
sistema,
de
forma
hegemônica,
muitas
das
vezes,
desrespeitando o indivíduo na sua peculiaridade, não o considerando como
sujeito do seu próprio conhecimento.
Na busca de soluções, o mais importante é superar a visão
de que a culpa é do aluno, mas vivenciar uma prática compromissada com a
superação das dificuldades.
A solução não pode ser vista como simplista ou, em outro
extremo, como impossível; com tudo, esta busca começa com reflexões
sobre a prática vigente, visando mais competência, criticidade, renovando
sempre o compromisso político de se lutar por uma escola de qualidade,
onde o aluno seja respeitado como centro do processo ensinoaprendizagem.
INTRODUÇÃO......................................................................... 07.
CAPÍTULO I
1.1 – A escola Brasileira de Ontem e de Hoje......................... 10.
1.1.1 – Considerações sobre a realidade do Sistema Escolar
Brasileiro...................................................................... 10.
1.1.2 – Uma Retrospectiva Histórica........................................ 12.
CAPÍTULO II
2.1 – O Fracasso Escolar na Visão da Psicologia —
Direcionamento da Questão Fracasso Escolar e
Contribuições para Superá-la...................................... 22.
CAPÍTULO III
3.1 – Vencendo o Desafio do Fracasso Escolar, Saindo do
Discurso para a Ação Efetiva........................................ 25.
3.2 – Análise de Casos Práticos:
Fracasso Escolar X Sucesso na Vida............................. 28.
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA
INTRODUÇÃO
Pretende-se, neste trabalho, identificar e pesquisar os
fatores que contribuem para o fracasso escolar, analisando seus aspectos e
investigando as possibilidades efetivas de reverter-se esta questão.
Tal
estudo, visa, portanto, desvelar as tensões e conflitos que envolvem a
questão do fracasso escolar; repensando a realidade na busca de um saber
crítico, que possibilite um ensino mais significativo e de qualidade.
Torna-se pertinente fazer uma apanhado histórico da
questão fracasso escolar em nosso sistema de ensino, procurando assim,
compreender as origens do problema como vem sendo realizados trabalhos
efetivos buscando superá-lo.
Faz-se também necessário analisar como os profissionais da
educação podem comprometer-se para superar o alto índice de repetência,
a exclusão e todo o fracasso que permeia nosso sistema educacional;
verificando se assim os obstáculos que dificultam a escola de garantir e criar
espaços onde se possa desenvolver, no educando, a capacidade de ampliar
seu saber, uma perfeita interação entre o saber fora da instituição escolar e
o saber da instituição escolar; cabendo, sobretudo, investigar os processos
que podem facilitar a aprendizagem de maneira criativa, buscando as
alternativas lúdicas e prazerosas que possam vencer tal fracasso.
8
Dedica-se, aqui, um capítulo que estuda a contribuição da
Psicologia na superação do fracasso escolar. Já que tal questão envolve
também aspetos inerentes ao ser humano, que podem ser elucidados com a
contribuição da Psicologia.
O interesse por este objeto de estudo foi a constatação, no
cotidiano escolar, no elevado número de crianças que ficam durante alguns
anos consecutivos, retidos na mesma série.
Assim, as crianças que são “julgadas” como incapazes, não
avançam na sua vida escolar.
E, relegadas a tal condição, acabam
evadindo dos bancos escolares, reduzindo suas oportunidades e condições
de crescimento como sujeitos críticos e preparados para lutar por seus
direitos, sendo impedidos de assumir seu papel na sociedade na qual estão
inseridos.
Tais indícios vem causando a angústia e a insatisfação nos
profissionais, realmente envolvidos, com a educação.
Na esperança de encontrar novas alternativas para esse
problema, julgamos de grande importância e utilidade um aprofundamento
neste estudo, buscando reflexões pertinentes que viabilizem mudanças
produtivas e capazes de interferir na drástica da constatação do fracasso
escolar.
É pertinente também avaliar nosso próprio desempenho e,
ainda que modestamente, intervir para reverter todo o processo que
marginaliza e exclui a tantos, relegando-os a um estado de tão grande
opressão.
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de cunho dialético,
que levanta discussões visando refletir e analisar as questões relativas ao
tema em estudo.
9
As considerações finais conduzem a visão positiva, porém
realista, buscando-se superar as mazelas envolvidas na questão do fracasso
escolar. É, contudo, difícil mas não impossível, nem mesmo simplista, a
solução. O que não podemos é apenas estar cientes do fato, mas ter o
compromisso de, na prática individual e cotidiana fazer as intervenções
necessárias, oferecendo melhores oportunidades e alternativas práticas e
prazerosas para o educando superar suas dificuldades.
É preciso, entretanto, lutar por investimentos, por parte do
Estado e das autoridades competentes, na área educacional; reinvidicando
projetos coerentes e aplicáveis, que possam ser viabilizados por todos que
acreditam na educação de qualidade.
CAPÍTULO I
1.1 – A Escola Brasileira de Ontem e de Hoje
1.1.1 – Considerações sobre a realidade do Sistema
Educacional Brasileiro.
O fracasso escolar é um fenômeno que tem permeado toda a
história da educação brasileira e a qualidade do nosso sistema escolar vem
sendo questionado e merece uma atenção especial, pelas conseqüências
que traz para o desenvolvimento dos indivíduos e para o desenvolvimento
social, econômico, cultural e político do país.
Lançamos mão da pesquisa histórica do ensino brasileiro em
várias épocas para tentarmos entender este fenômeno, ou seja, a
ineficiência e a baixa qualidade desse ensino e a sua conseqüência direta:
os altos índices de evasão e repetência escolar.
Estes índices podem ser comprovados através de pesquisa que
nos dão conta que “de cada 1000 crianças que iniciam à primeira série,
apenas 438 chegam à segunda série, 352 à terceira, 297 à quarta e apenas
294 à quinta série.
Poder-se-ía estimar que dessas 1000 crianças iniciais,
apenas 180 chegariam a concluir o primeiro grau.” (Brandão, 1985, p.22).
11
Sendo assim acreditamos que a retrospectiva histórica da
educação brasileira certamente nos ajudará a penetrar nas raízes dessa
situação tão injustas, uma vez que exclui o aluno das classes trabalhadoras
do processo participativo da vida social, política, cultural e profissional. Essa
visão histórica nos possibilitará de ver como a escola que está aí organizada
através dos tempos e como podemos pelo compromisso político pensar
novos rumos, pois não basta a tomada de medidas paliativas atacando os
efeitos sem eliminar as causas.
O problema é grave e requer muita seriedade em seu tratamento.
Constata ainda que a política educacional tem garantido à população melhor
privilegiada as melhores oportunidades.
Na prática existe um ensino de
melhor qualidade oferecido por algumas escolas particulares, em contra
partida o ensino público é, na maioria das vezes, de baixa qualidade.
Nas últimas décadas houve uma considerável expansão da oferta
educacional no Brasil, entretanto, esse percentual quantitativo não foi
seguido por melhora na qualidade do ensino oferecido. Como afirma Leite:
“o estado não priorizou o ensino público, permitindo por outro lado, que a
iniciativa privada ampliasse a sua participação; garantindo-se dessa forma,
um ensino de melhor qualidade às elites sócio-econômicas em detrimento
das camadas menos favorecidas”. (Leite, 1988, p.12)
O que é fato notório, felizmente, é que apesar de toda a caótica
situação do nosso sistema de ensino, principalmente na rede pública,
existem ações concretas, por parte de muitos profissionais realmente
envolvidos com a educação, no sentido de fazer de sua prática um
importante instrumento de mudanças, a medida que primam pela qualidade
do ensino.
“A ação dos educadores comprometidos não devem consistir
apenas na denúncia, mas na busca de soluções reais e viáveis”. (Leite, 1988,
p.14). É importante compreender que a escola não é o único instrumento de
transformação social, mas que esta não se concretiza sem que a educação
12
se efetive. É preciso portanto somar esforços no sentido de buscar soluções
que possam instrumentalizar, de forma mais adequada, os profissionais de
educação para que assim formem alunos mais conscientes e capazes e que
o ensino seja menos elitista e excludente.
1.1.2 – Uma Retrospectiva Histórica
Nem sempre a educação foi meta do Estado, entretanto, a partir
do momento em que a classe dirigente percebeu a importância da educação
como forma de controle do Estado, sobre as diversas instâncias da
sociedade, passou a usá-la e como no dizer de Althusser (1974, p.54), a
escola passou a ser “Aparelho ideológico do Estado”.
Os próprios Jesuítas, quando começaram a colonização, tinham
como objetivos impor a cultura “opressora”, não pretendiam, na verdade,
fazer dos índios, pessoas letradas, capazes e, muito menos, prepará-las ou
conscientizá-las. O ensino da cultura geral “enciclopédico” estava reservado
aos filhos dos nobres. Aos demais era reservado o ensino catequético, cuja
a finalidade era propagar e firmar a hegemonia dos dominantes. Assim a
influência jesuítica durante todo o período colonial não trouxe nenhuma
perspectiva transformadora para a educação que surgia.
Na República os “grandes temas foram discutidos pelos
intelectuais e pelos grupos que assumiram o controle do Estado; no bojo
desta discussão emergiu o entusiasmo pela educação, insistindo na idéia
que os problemas do País só poderiam ser resolvidos com a extensão da
escola elementar ao povo”. (Ghiaraldelli, 1994, p.16)
Ghiaraldelli deixa claro que a educação não era prioridade, mas o
meio de firmar o poder em ascensão: a República e seus interesses. Na
verdade a educação só era importante enquanto não interferisse nos direitos
de autonomia do Estado. A preocupação não estava na educação, mas sim
13
com os problemas do País, com a modernização e a manutenção desses
novos governantes.
A reforma de Benjamim Constant em 1891 pretendia uma escola
pública, laica, universal e gratuita. Entretanto o fato de se tirar o ensino
religioso não se constituiu em melhoria da qualidade de ensino.
Neste
momento visava ser apenas uma alfabetização imediata do povo e a
educação era centrada no professor, sendo a escola, dissociada das
questões políticas e sociais.
Infelizmente a educação, nesta fase da história, continuava sendo
pensada e dirigida para alguns poucos uma vez que “a escola busca
disseminar uma visão burguesa do mundo e da sociedade a fim de garantir a
consolidação da burguesia industrial como a classe dominante”.(Veiga, 1986,
p.27)
Assim podemos ver que o ensino no Brasil só caminha quando
algum grupo quer conquistar ou firmar sua posição na Política Nacional.
Entre 1914 e 1918, como conseqüência da Primeira Guerra
Mundial, houve no Brasil um relativo crescimento da Indústria e com isso
volta à tona a necessidade de melhorar a situação do ensino brasileiro.
Neste período o analfabetismo girava em torno de 75%.
Estes dados
contribuíram para ressuscitar entre os intelectuais o novo entusiasmo pela
educação, entusiasmo este caracterizado pela idéia de expansão da rede
escolar e da necessidade de alfabetizar o povo.
Não podemos negar, entretanto, a importância dos vários
movimentos no sentido de erradicar o analfabetismo, contudo o sentido
maior para essas iniciativas era o de aumentar o contigente eleitoral, uma
vez que o voto do analfabeto era proibido. Assim sendo a educação não era
o fim mas o meio de se alcançar um determinado grupo de pessoas — os
analfabetos — e o verdadeiro objetivo era puramente eleitoreiro.
14
Todas as reformas da década de 20 estavam pautadas no ideário
liberal que considerava que o ensino deveria ser universal e diversificado
para promover a igualdade de oportunidades e com isso pudesse garantir a
democracia. “Embora as idéias liberais tivessem um caráter progressista, no
contexto de uma sociedade na qual os que detinham o poder político o
exerciam de forma reacionária, ela só poderiam ficar restritas ao plano das
idéias e da legislação, não traduzindo em mudanças políticas e sociais
concretas”. (Patto, 1990, p.58).
Através da afirmativa de Maria Helena de Souza Patto percebe-se
que as idéias liberais não encontraram eco no meio político e nem entre os
que sempre deliberam o poder, pois o ensino a nível primário e médio
permanecia marginalizado sem uma efetiva ação implementadora.
Nos anos 20 “os católicos foram às últimas conseqüências contra
os liberais, chegando mesmo a uma campanha de difamação”. (Ghiralldelli,
1994, p.39).
A Igreja, na década de 30, defendia tenazmente a escola
particular, neste quadro a educação não estava sendo pensada e
programada para melhorar seu desempenho e nem tão pouco torná-la
acessível as camadas mais necessitadas da sociedade, apesar dos esforços
de alguns educadores adeptos das idéias de John Dewey e William
Kilpatrick, teorias estas que davam maior liberdade à criança e a seus
interesses, onde a criança passava a ser o centro do processo e não o
professor como na teoria tradicional. Fazem parte dos educadores adeptos
da teoria de Dewey e Kilpatrick: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo,
Lourenço Filho, Francisco Campos entre outros.
Estes educadores acompanhando a modernização, a urbanização
e a industrialização ocorrida no País, após a Primeira Guerra Mundial,
promoveram reformas onde se dava ênfase aos “métodos ativos” de ensinoaprendizagem, estas reformas também valorizavam, além da criança como
centro do processo, o trabalho em grupo e a prática de trabalhos manuais.
15
Enfim, em linhas gerais, defendiam uma escola pública obrigatória, laica e
gratuita.
Mesmo com os esforços desses educadores a velha educação
acadêmica e aristocrática continuou a perdurar e o sistema escolar
brasileiro, de então, não deu a devida importância à educação popular
permanecendo a ação educativa para cada classe sem se preocupar com
reformas mais profundas.
Infelizmente, as reformas esperadas pelos educadores da década
de 20, foram preteridas por interesses maiores das elites representadas
pelos intelectuais ligados às oligarquias e a Igreja, principalmente os
Jesuítas que durante séculos mantinham sua filosofia educacional, através
dos estabelecimentos de ensino por eles administrados.
O País continuava na sua inércia, pouco fazendo pela educação e assim na
década de 30 as modificações se tornaram uma grande necessidade por
causa da defasagem entre a educação o desenvolvimento econômico e
industrial. Todas as modificações, ocorridas até então, não tinham como
meta a educação popular, o ensino básico, mas sim, supria as necessidades
da sociedade industrial e esta influenciaria profundamente na expansão do
ensino, não em um ensino de qualidade mas um ensino imediatista, voltado
para o mercado de trabalho, isto porque alguns pré-requisitos deveriam ser
preenchidos, como por exemplo ler e escrever, não apenas para que o
indivíduo recebesse uma educação tanto quantitativa quanto qualitativa,
ministrada por uma escola pública, laica e gratuita, mas para aumentar a
capacidade do indivíduo produzir cada vez mais e elevar o consumo dos
bens produzidos.
Infelizmente as políticas educacionais caminham sempre em
defesa de interesses particulares assim é que na Constituição de 1937
Getúlio Vargas para se fortalecer, garante à Igreja Católica, sua parceira
político-ideológica, maior presença na educação através da liberdade de
ensino para as pessoas coletivas, particulares e as associações.
16
O golpe de 10 de Outubro de 1945 derruba Getúlio, mas essas
forças não eram democráticas, só estavam preocupadas com a proximidade
do governo com as forças de esquerda. Com o fim da Segunda Guerra
Mundial em 1945 estas forças se abalaram uma vez que o cenário mundial
era para a construção de governos democráticos. Dessa forma o movimento
popular no Brasil veio se fortalecer e crescer.
Da década de 40 a 50 com o processo de industrialização e
desenvolvimento, outras exigências se faziam necessárias, assim é que
medidas foram tomadas para preparar mão-de-obra e como o sistema
educacional não tinha estrutura para isto, foi preciso implantar um ensino
profissionalizante. A Indústria carecia de formação mínima do operariado.
Para suprir tanta necessidade da indústria como do comércio, foram criadas
o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em 1942 e o SENAC
(Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) em 1946.
Mais uma vez a
educação foi utilizada pela classe dominante para favorecer seus interesses,
mão-de-obra especializada para ampliar seus lucros.
A partir da década de 60 o Brasil, que era basicamente agrícola,
entra no processo de industrialização, com isso acentua-se a discussão na
questão da divisão de lucros e dos rumos do processo de desenvolvimento
do País.
Um dos mais graves problemas desse período foi a concentração
da população sub/urbana por causa da passagem de uma economia
especificamente agrícola para a economia industrial.
Para suprir a demanda da sociedade industrial a simples
alfabetização não conseguiu dar conta de preparar mão-de-obra suficiente.
Já agora a educação não mais apenas uma questão social, mas sim de
sobrevivência. Por isso o êxodo rural causou vários problemas sociais, pelo
crescimento do contingente de pessoas que permaneciam analfabetas.
17
Em 1963, o então Presidente João Goulart, traz a público a
situação que se encontrava a educação brasileira: “metade da população
continuava analfabeta; 7% dos alunos do curso primário chegava a 4ª série,
o ensino secundário acolhia apenas 14% daqueles que o procuravam,
somente 1% dos estudantes alcançavam o ensino superior”. (Ghiraldelli,
1994, p.133).
O plano nacional da educação impetrado por Jango em 1962 com
todas as suas metas quantitativas e qualitativas e o sonho da construção de
uma nação verdadeiramente democrática, foram abafados com o golpe de
março de 1964.
No período da Ditadura Militar a educação foi relegada ao
abandono.
Todos os Generais que ocupavam o governo estavam muito
mais preocupados com a repressão política e a privatização do ensino do
que com os problemas sociais, num total desrespeito à cidadania e aos
direitos fundamentais ao homem a liberdade.
Todo o aparelho repressivo do governo se equipou de modo a
manter o controle agindo em todas as áreas e a educação, mais uma vez, foi
mutilada pelos órgãos repressivos encarregados para isto.
Um exemplo dessa ação repressiva foi a forma como o governo
militar agiu em relação ao trabalho pioneiro da Prefeitura de Natal, iniciado
em 1961, com a campanha “de pé no chão também se aprende a ler”,
desenvolvida pelo Professor Paulo Freire, onde se buscava resgatar a
cultura do povo e também integrar a educação popular com a educação
escolar.
Este projeto se espalhou por todo o País, foi também
neste
período que Paulo Freire elaborou seus primeiros escritos sobre a educação,
surgindo a Pedagogia Libertadora.
“A Educação Libertadora questiona
concretamente a realidade das relações do homem com a natureza com os
outros homens, visando a uma transformação, sendo portanto uma
educação crítica”. (Freire, 1976, p.28).
18
O Professor Paulo Freire não podia portanto fazer parte do
cenário da Ditadura Militar pois seu ideal de Educação Libertadora ia contra
tudo que se pregava neste quadro da política nacional. Assim sendo suas
idéias precisavam ser substituídas e a sua ideologia “abafada”. O governo
criou portanto, em 1967 o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização)
para “substituir” o trabalho iniciado por Paulo Freire. Não pode-se, contudo,
dizer que o MOBRAL tenha sido um total fracasso, mas, na verdade esse
movimento estava impregnado da ideologia do governo estando longe de
suprir as necessidades da classe popular. Os benefícios deste projeto se
deram por conta do desempenho de muitos monitores (professores leigos)
que se empenhavam em fazer um bom trabalho na erradicação da
alfabetização.
Todas as iniciativas deste período para se implementar uma
educação que viesse a favorecer a classe popular, logo eram sufocadas e
muitos foram banidos do País e vidas foram sacrificadas.
Verifica-se, ainda, o trabalho de educadores comprometidos como
professor Anísio Teixeira e Almeida Júnior entre outros, que foram acusados
de comunistas pelos defensores da Escola Particular. Estes educadores
viram a LDB (Lei 4024/61) que tramitou durante treze anos, ser aprovada
com mais de duzentas emendas, consideradas, pelos educadores, como
verdadeira traição às forças democráticas e populares.
Anísio Teixeira considerou como uma “meia vitória” a aprovação
da lei 4024/61; enquanto que os integrantes socialistas da campanha pela
Escola Pública ficaram profundamente insatisfeitos.
Não é difícil entender toda esta revolta, pois dá para sentir-se
traído e impotente diante de tanta falta de compromisso, dos que aprovaram
a Lei, com o destino da democracia, da educação popular e do ensino
público.
19
Analisando a Ditadura Militar, podemos dizer que seguiam os
princípios capitalistas sendo para eles algo secundário.
Moacir Gadotti
escreve: “A política educacional do regime militar tem considerado a
educação como um verdadeiro inimigo do progresso”. (Gadotti, 1979, p.123).
Logo eles foram bem coerentes, segundo seus ideais, quando relegaram a
educação a segundo plano e priorizaram os ideais do capitalismo ocidental
com objetivo de integrar o Brasil neste processo de “desenvolvimento”. Há
de se questionar a quem serve este desenvolvimento, uma vez que o povo
dele foi excluído.
Infelizmente, nos nossos dias a situação da educação não difere
muito dos “Anos de Ferro”. Há uma forte pressão contra as privatizações,
aposta-se no sucateamento das escolas públicas, tanto na parte física, na
qualidade de ensino e na desvalorização dos profissionais da área. Este
processo vem se construindo ao longo destes anos.
O professor que,
outrora, tinha um certo “status” e um maior reconhecimento, vem sendo
esmagado, gradativamente, por salários aviltantes; os profissionais da
educação chegam a nossos dias sofrendo e amargando sua existência em
conseqüência desse sistema de opressão perverso e injusto, que leva uns a
cruzar os braços, outros a desistir da carreira e alguns, felizmente, ainda
tentam se organizar como categoria para lutar pela sua dignidade enquanto
profissionais do ensino.
Não pode haver um País democrático enquanto a educação não
for estendida a todos e não houver compromisso político dos nossos
representantes, nas instâncias do Poder Executivo e Legislativo, onde os
problemas
econômicos
e
sociais
possam
ser
discutidos
com
responsabilidade, seriedade e respeito pelos direitos de todos. Enquanto
não houver uma distribuição de renda menos perversa não haverá uma
verdadeira democracia institucional e social em nosso País.
O modelo neoliberal que norteia muitas ações governamentais,
em relação às políticas educacionais, seguem muitas “orientações” do
20
Banco Mundial busca ajustar a educação ao mercado econômico e
financeiro de modo homogêneo, universal e consequentemente injusto.
Certamente esta prática vem causando sérios prejuízos à nossa educação,
reforçando a exclusão social, uma vez que não leva em consideração as
individualidades de cada País e nem as diferenças regionais.
Podemos assim dizer que não se pode se desvincular a educação
de todo o processo político, social, cultural e científico. Bem sabemos que
uma reforma educacional só se constrói com luta e é uma tarefa coletiva,
onde se busca implementar a educação feita de baixo para cima; onde os
projetos educacionais sejam construídos por educadores atuantes e
envolvidos no ideal da educação. E para sairmos da crítica pela crítica, para
uma ação consciente, organizada e coesa é preciso que se tenha propostas
alternativas para uma nova educação dirigida às camadas populares, que
são os que mais sofrem com as conseqüências das desigualdades e das
muitas descabidas resoluções governamentais.
É de extrema necessidade que os profissionais de educação se
façam respeitar pela qualidade do seu trabalho efetivo, não deixando-se
corromper pela ideologia do poder, mas lutando pela primazia na educação.
“Certamente um profissional comprometido, cujo pensamento, que pensa a
vida, as relações, encerra um grande potencial de direção na luta pela
transformação das sociedades. Neste sentido, ele tem o mérito não apenas
de denunciar uma educação supostamente neutra, como o de distinguir
claramente a pedagogia das classes dominantes da pedagogia as classes
oprimidas”. (Freire, 1979, p.11).
Sem dúvida é mais que necessário que, enquanto educadores
tenhamos bem claro os nossos objetivos; se estamos buscando combater a
mediocridade, questionando sempre os valores vigentes, fazendo que os
nossos alunos de classes populares encontre sua maneira própria de ser e
existir nesta sociedade, ou se vamos nos acomodar e entrar também neste
processo de alienação.
21
O que propomos e queremos para este momento histórico em que
vivemos é que se forjem profissionais capazes de batalhar e resistir contra
estes processos de alienação e mantenham a esperança viva, pois “uma
educação sem esperança não é educação”. (Freire, 1979, p.30).
Nesta retrospectiva histórica elucidou-se como vem sendo tratada
a educação brasileira, levando a compreensão de alguns mecanismos e
fatores intervenientes do fracasso escolar, principalmente, das classes
populares. As políticas governamentais vêm, ao longo de nossa história,
atendendo uma elite minoritária e todos os passos para melhorar as
condições brasileiras são lentos e arrastados por manobras políticas,
facilitadoras de benefícios e privilégios a uma pequena parcela da
população.
CAPÍTULO II
2.1 – O Fracasso Escolar na Visão da Psicologia —
Direcionamento da Questão Fracasso Escolar
e Contribuições para Superá-la.
É de extrema importância para os profissionais da educação,
utilizar a contribuição da Psicologia, na busca da superação do fracasso
escolar. Na escola o sujeito principal de todo o processo é o aluno, um ser
humano que, por sua natureza, é complexo e com toda esta diversidade
precisa ser atendido em suas necessidades afetivas e cognitivas, dentro da
escola. Nada mais sensato do que buscar compreender este ser através da
ciência da Psicologia que, a séculos, procura elucidar a complexidade do ser
humano.
Dedicar-se ao estudo da Psicologia, na busca de vencer o
fracasso escolar, não significa colocar nesta ciência, pura e simplesmente, a
solução isolada para o problema em questão, mas analisar, juntamente com
outros fatores (sociais, familiares, culturais, institucionais, etc.) o que pode
ser feito efetivamente. “Faz-se necessário analisar todo tipo de entrave que
leva ao fracasso escolar, seja decorrente de aspectos culturais, sociais,
familiares, pedagógicos, orgânicos, intrapsíquicos, etc.
É importante
esclarecer que esses aspectos não existem de forma isolada, e com isso
queremos dizer que não há nada que aconteça no âmbito desses aspectos
que não interfiram ou modifique todos os demais”. (Bossa, 2002, p.12).
23
Um aspecto essencial no complexo emaranhado, que está
envolvido no fracasso escolar, está o papel da escola. A escola, enquanto
Instituição, já traz em si uma seletividade sutil, quando está preparada para
o aluno “ideal”, quando objetiva responder a um ideal padrão de educação e
traz consigo a dimensão do impossível. Como afirma Nadia Bossa “a escola
está preparada para receber a criança “ideal” e tendo em vista responder às
demandas Narcísicas da humanidade, está fadada ao fracasso”. (Bossa,
2002, p. 12).
Como nossa escola está estruturada em torno de um conceito
imaginário — a “criança ideal” —, a nossa “criança real”, o aluno para qual
deveria ser articulada a escola, fica com a culpa pela impossibilidade de
concretização dos fins a que se destina. “A criança que não aprende o que
a escola determina, suporta toda a rejeição destinada àqueles que
questionam o ideal Narcísico”. (Bossa, 2002, p.13).
A questão fracasso escolar, é representada, em nosso País pelos
altos índices de reprovação e evasão escolar. Representa um dos grandes
problemas do Brasil, que ainda não conseguiu oferecer a educação básica
necessária para a maioria da população.
Dados estatísticos comprovam e caracterizam a situação do
fracasso escolar. “No Brasil, durante o período de 1974 a 1978, de cada
1.000 crianças que iniciaram a primeira série, apenas 180 concluíram o
primeiro grau.
Nota-se no entanto, que o principal momento de
estrangulamento do sistema situa-se na passagem da primeira para a
segunda série, quando as taxas de fracasso (evasão e repetência)
chegaram a 56%”. (Leite, 1988, p.15).
Embora esses valores refiram-se a
1978, não há sinais de grandes alterações; sabe-se, entretanto, que tais
índices tendem a aumentar na época de recessão econômica, quando
ocorre uma elevação no nível de pobreza da população.
24
Apesar de todo o problema, a escola é ainda uma grande
Instituição social, responsável pela formação integral do indivíduo, muitas
pesquisas tem confirmado tal afirmação. “Apesar de todos os problemas, a
escola tem um papel fundamental no desenvolvimento cognitivo, afetivo, e
psicológico das crianças, oriundas principalmente das camadas mais
humildes, representando talvez a única oportunidade que estes setores
encontram para o desenvolvimento de um repertório básico que possibilite
uma participação social e efetiva”. (Leite, 1998, p.14).
Especificamente, os estudos da Psicologia também comprovam o
fenômeno de fracasso escolar e a necessidade de superá-lo. “Os estudos
da Psicologia revelam que a segunda metade do século XX vem desafiando
a clínica com sintomas que expressam mal-estar de uma época e
inscrevem-se de forma singular na história de cada um. O fracasso escolar
é um desses sintomas e toma lugar considerável nas preocupações do
homem contemporâneo”. (Bossa, 2002, p.157).
Constatamos que o fracasso escolar é uma questão difícil que
envolve a escola, os profissionais de educação, a família e toda a sociedade
e verifica-se que esses setores e a própria ciência não têm a solução
simplista para complexidade deste problema.
Contudo, através da
Psicologia pode-se obter dados concretos no que se refere aos fatores
intrínsecos da aprendizagem, na busca de soluções, partindo da melhor
compreensão do universo do aluno em questão
Em fim, a Psicologia pode oferecer subsídios para o melhor
entendimento do complexo mundo do ser humano. A Psicologia sugere que
“a escola busque as experiências criativas que possibilitam o crescimento
deste ser”. (Bossa 2002, p.166).
CAPÍTULO III
3.1 – Vencendo o Desafio do Fracasso Escolar,
Saindo do Discurso para a Ação Efetiva.
Incentivar a discussão sobre o fracasso escolar é como mexer
numa ferida que nunca se fecha, mas sempre que se mexe ela sangra e dói
e como diz Miguel Arroyo: “falar em fracasso escolar não resulta atraente
para os educadores. É como rever um velho seriado. Mudar de discurso e
falar em sucesso, resolverá o problema?”. (Arroyo, 1988, p.4).
É inegável que o tema vem sendo constantemente discutido pelos
profissionais de educação, contudo, não da maneira como deveria ser
conduzido; procurando soluções efetivas e aplicáveis a cada realidade
educacional.
Sem dúvida não é atraente para os educadores e especialistas
em educação, confirmar que o fracasso escolar existe, porque vai tocar
exatamente na prática de cada um, questionando, entre outros aspectos, as
suas atuações.
Entretanto, esta conscientização requer coragem e
humildade para reconhecer o que deve ser mudado e melhorar muitos
aspectos da prática pedagógica.
Na verdade o que, geralmente, ocorre é uma acomodação por
parte de muitos profissionais, na busca de mudanças para que a prática não
fique comprometida. Devemos questionar a nossa ação através de uma
26
pedagogia crítica, reavaliando todos os aspectos no âmbito educativo e
buscando implementar uma prática comprometida, não só com os
movimentos de transformações sociais, mas acompanhar todas as
transformações que possam interferir no aprendizado do aluno, procurando
sempre levar para a sala de aula visões atuais e conscientizadoras, tudo
com compromisso profissional, político e ético.
Não basta o educador estar apenas sensível a realidade do
sistema educacional do País, mas é necessário tratar qualquer questão
relacionada a educação com seriedade e ter em mente que ele é um eixo
integrador da construção do saber, lutando por uma escola menos
excludente, mais crítica e comprometida com as transformações sociais.
Todo o processo ensino-aprendizagem deve se efetuar com resultados
positivos, à medida que, nós educadores estejamos abertos e prontos a
fazer contínuas revisões de nossa prática educacional, por causa do
dinamismo das transformações de nossa sociedade moderna.
Infelizmente a educação não é levada a sério pelos dirigentes de
nossa Pátria. Tudo caminha muito lentamente. As verbas não condizem
com as necessidades, uma vez que o número dos que precisam da escola
pública se torna cada vez maior.
Além disso o baixo salário dos
profissionais de educação fazem deles o que Ronca e Gonçalves
exemplificam tão bem:
“Neste contexto tão complexo e tão contraditório o profissional da
educação, obrigado a trabalhar muito com um salário cada vez mais
reduzido, fica esmagado pelo seu cotidiano e não consegue perceber a
relação entre educação e sociedade.
Uma conseqüência disso é um
ativismo desenfreado que faz que o educador não tenha tempo e condições
de refletir sobre sua ação, ou então um verbalismo vazio e inócuo que não
leva a nada”. (Ronca, 1995, p.31).
27
Este quadro mostra claramente as causas da acomodação de
muitos professores e especialistas. Também diante deste contexto fica difícil
assumir um compromisso real com a aprendizagem das crianças das
Escolas Públicas. Entretanto, acredito que é no coletivo que se vai superar
as deficiências e buscar nova competência para que estes profissionais já
tão humilhados — tal qual seus alunos — vejam seu trabalho valorizado em
todas as suas dimensões.
É preciso dos discursos prolixos, e puramente filosóficos para
buscar estabelecer, com seriedade, uma ponte entre o teórico e o senso
comum.
E para que os projetos educacionais se elaborem e se
aperfeiçoem, faz-se necessário a existência de um permanente debate e
constantes avaliações entre profissionais, especialistas e também com a
sociedade, afim de concretizar estes projetos, não sobre utopias, mas na
realidade social, política e educacional para uma educação comprometida
com as transformações sociais que possa, na sua prática cotidiana, oferecer
aos
educandos
alternativas
conscientizadora,
respeitando
para
as
uma
aprendizagem
individualidades
e
eficaz
atendendo
e
as
diferenças.
No âmbito governamental, constatamos, muitas das vezes, que
não existe vontade política da construção de uma escola pública de
qualidade; e o que é mais frustrante é saber que esta situação é socialmente
construída e serve para a manutenção do “Status Quo” de alguns poucos da
sociedade.
Assim sendo, para que haja possibilidade de mudanças,
precisamos instrumentalizar o aluno, principalmente das classes populares,
para que ele compreenda bem como ocorrem as relações dentro da nossa
sociedade. Para isto devemos desenvolver nesse aluno a capacidade de ler
o mundo e como afirma Paulo Freire: “não há uma educação neutra. O
processo educativo num ato político, uma ação que resulta em relação de
domínio ou liberdade entre as pessoas”. (Freire, 1978, p.28).
Há uma
28
necessidade urgente de capacitar nossos educandos a superar e enfrentar
as desigualdades que a nossa sociedade, estruturada como está, impõe aos
das classes, ditas subalternas, obrigando-os muitas das vezes a abandonar
a escola e levando os dados que apontam o fracasso escolar.
Muitas das vezes, a escola também contribui para que não haja
mudanças substanciais, quando não analisa qual o seu papel em relação
aqueles alunos que fracassam na escola mas conseguem sobressair-se bem
fora dela, nem tão pouco busca refletir o seu papel social e sua função nesta
sociedade tão diversificada e desigual.
3.2 – Análise de Casos Práticos:
Fracasso Escolar X Sucesso na Vida.
Pudemos nesta pesquisa verificar o caso de um jovem,
considerado como fracassado na escola, e que conseguiu, fora dela,
desenvolver outras habilidades e obter sucesso. O caso é do jovem J.O.R.,
22 anos; Em conversa informal ele conta que abandonou a escola, pois esta
não lhe oferecia nenhuma perspectiva de mudança de vida. Segundo suas
próprias palavras:
“Sou um fracasso na escola, não dou para estudar”.
Porém no decorrer da nossa conversa pude perceber que ele é altamente
inteligente. Apesar de não usar muitas palavras da “norma culta”, tem idéias
coerentes e o pensamento lógico acerca do seu universo. Em sua atividade
diária ele conserta objetos eletrônicos, sem nunca ter feito qualquer curso
afim. É capaz de desmontar qualquer tipo de motor de motor e consertá-lo,
além disso faz reparo em máquinas de costuras, de lavar, e outros
eletrodomésticos, tudo apenas observando o funcionamento dos mesmos.
No decorrer da conversa com o jovem, este referiu a si mesmo
como sendo um “burro” e que por isso não havia conseguido dar
continuidade aos seus estudos. Nestas palavras, ficou evidenciada a baixa
29
estima deste jovem, que nos leva a pensar no papel da escola, que muitas
das vezes não valoriza os saberes. Por toda a sua habilidade, este jovem,
poderia ser considerado um “superdotado” que a escola, com toda a sua
organização estrutural, conseguiu “fracassar” por total inabilidade em lidar
com as diferenças.
No questionamento dessas diferenças de saberes podemos
retomar a Gardner com sua teoria das inteligências múltiplas. “A escola
deve valorizar as diferentes habilidades dos alunos e não apenas a lógica
matemática e a lingüística, como é mais comum”. (Gardner, 1995, p.32).
Talvez este jovem pudesse ter concluído os seus estudos e se
especializado na área que tem a maior habilidade e aptidão, se a escola
tivesse respeitado as diferenças individuais e valorizado as suas
potencialidades.
Outro caso que nos leva a pensar, é a história de F.S.R., um
menino de 11 anos que já repetiu a classe de alfabetização, por 3 anos
consecutivos, em uma escola municipal de Itaboraí.
Durante um Conselho de Classe, o SOEP e a Direção, discutiam
com os professores uma possível solução para diversos problemas de
aprendizagem, de disciplina e de violência entre os alunos, quando foi
levantado o problema de F.S.R..
A Orientadora procurou saber da professora como via o caso e
que hipóteses levantava para explicar porque o aluno não conseguia
acompanhar os demais. Segundo a explicação da professora, o problema
estaria no fato de que ele era filho de pais alcoólatras e que havia muita
fome nos seus primeiros anos de vida. Outro problema apontado por ela era
o fato de ter perdido os pais e de ser criado por uma tia, também alcoólatra,
que além de maltratá-lo, o obrigava a vender doces em sinais de trânsito até
à noite.
30
A orientadora pedagógica observou algo interessante: “Como este
menino tem tanta dificuldade a ler e escrever se, no seu fazer fora da escola
ele sabe dar troco, dialoga com os fregueses e é bem esperto, não deixando
ninguém enganá-lo, segundo o que afirmam muitos que por lá já passaram e
viram o respectivo menino em seu árduo trabalho de vendedor das ruas.
Não seria o momento de repensarmos a nossa prática pedagógica? Será
que estamos valorizando, no dia-a-dia da sala de aula, a cultura, os valores,
o modo de pensar e de falar desse aluno, por isso estamos tornando para
ele o ensino sem significação”.
A professora, defendendo o seu ponto de vista, e com um tom de
irritação, argumentou que a Orientadora Pedagógica a estava acusando pelo
fracasso do aluno e concluiu com essas palavras: “qualquer criança nas
condições de F. teria sua capacidade cognitiva abalada. Já o encaminhei
par a psicóloga e o neurologista e nenhum dos dois me deram uma posição.
Confesso que não sei lidar com esta situação. Penso que o melhor seria
transferi-lo para outra escola, talvez, mudando de ambiente ele venha a
melhorar”.
Na fala desta professora, vemos ainda bem vivo, em nossos dias,
os preconceitos existentes na pedagogia tradicional, escola novista,
tecnicista; onde o aluno era responsabilizado por seus êxitos e fracassos.
Também vemos bem clara a teoria de carência cultural, defendida nos anos
70, quando se colocava a culpa no aluno pelo seu fracasso devido ao seu
meio social.
Sabemos, no entanto, que o ensino não pode ser isolado da vida
e que é preciso despertar o interesse da criança e que, na maioria das
vezes, são os processos inadequados o responsável pelo fracasso, pois
estes levam as crianças à diferença, apatia, desinteresse e até a
agressividade, tão presentes, atualmente, em nossas escolas.
31
Na fala da direção da escola não houve concordância com a
proposta da professora em mudar o aluno de escola, foi dito: “é verdade que
a criança desprezada, reprimida, sem carinho familiar o seu desempenho
fica comprometido, uma vez que estes fatores negativos levam a criança a
desenvolver um baixo autoconceito e que isto aumenta a possibilidade de
novos fracassos. Não acredito que mudá-lo de escola irá ajudá-lo; creio até
que esta medida estará reforçando sua rejeição e absolutamente não
resolverá o problema dele, mas sim, o nosso, que estaremos passando o
problema para frente.
Se o aluno em questão, não vai bem na escola, é daí que deve
partir a solução, é preciso buscar o desenvolvimento de seu potencial, seu
espírito de investigação e também trabalhar sua afetividade e promover sua
socialização, uma vez que fora da escola, em sua atividade “profissional”,
ele tem um bom desempenho; cabe então a escola canalizar sua habilidades
procurando fazer das atividades rotineiras da escola algo mais lúdico e
interessante, podendo portanto, faze-lo também ter um bom desempenho na
escola.
É fundamental que todos os profissionais da educação se
conscientizem que têm que fazer de sua prática, momentos de reflexão,
procurando sempre aprender e se formar continuamente na busca de uma
educação qualitativa, valorizando sempre os saberes diversos dos
educandos em questão.
Segundo Paulo Freire: “Ninguém sabe mais nem menos, nós
temos saberes diferentes”. (Freire, 1978, p.27).
Pensando nisso é que
acreditamos que, o primeiro passo para reverter, a situação do aluno
estigmatizado por não conseguir alcançar o proposto pela escola, deve ser
exatamente o de canalizar e direcionar de forma coerente e objetiva estes
saberes diferentes, acreditando que o aluno pode aprender e assim investir
em todo o seu potencial.
32
Temos que sair “das análises clínicas e individuais” de que nos
fala Miguel Arroyo, para uma ação conjunta que se constitui na organização
dos profissionais engajados nesta luta, buscando efetivar sua ação com o
apoio dos segmentos da sociedade, sem esquecer de pressioná-los a
também abraçar a causa da educação, mobilizando a todos a se
organizarem nos movimentos sociais onde se busquem uma Escola Pública
voltada para as classes populares e também pela valorização do profissional
de educação, pois sem dúvida nenhuma, enquanto estes profissionais
estiverem marginalizados, discriminados, desvalorizados não acredito em
progresso na área educacional.
Temos que colocar em evidência o problema dos desperdícios de
verbas Públicas destinadas a educação em nosso país.
É necessária
reivindicar maiores percentuais de verbas para educação, não apenas para
o ensino regular, mas também para educação especial, uma vez que,
segundo dados recentes, a população de portadores de alguma deficiência é
de 10% do total.
É uma percentual considerável de pessoas que são
deixadas de lado porque não são devidamente aproveitadas pelo nosso
Sistema de Ensino organizado como está, altamente excludente e celetista
uma vez que não contempla as “diferenças”. Diante desse quadro vemos
que o Estado não cumpriu a constituição que diz ser todos iguais perante a
lei.
Não podemos olhar a questão do fracasso como um problema
individual, onde somente a criança, o jovem e o adolescente que não
aprende, o que a escola ensina, sendo considerado como desajustado. Na
realidade, muitas das vezes, é a escola que não está apta a trabalhar com
as classes populares e assim considera o aluno que fracassa como
ineficiente, deixando-o à margem do sistema educacional. Toda a reflexão
no sentido de reverter o processo degenerativo, em que se encontra a
educação brasileira, passa por duas grandes etapas: primeiro deve nascer
do desejo coletivo e da participação crítica e consciente de todos no
processo da construção de uma escola democrática, que esteja sempre
33
buscando a articulação dos projetos pedagógicos com a realidade do aluno,
conduzindo tudo de um modo a desenvolver, tanto no professor quanto no
aluno, a visão crítica dos fatores sociais, econômicos, culturais, educacionais
e políticos da nossa sociedade.
Segundo: passa pelo compromisso do professor com o trabalho.
Segundo Vera Candau: “Um professor desiludido, procurando apenas
sobreviver, desmotivado e descrente do magistério como prática social e
espaço de exercícios de cidadania, não poderá desenvolver uma prática
pedagógica competente e crítica. Portanto, a desvalorização do magistério
como categoria profissional é o ponto nevrálgico para a construção de uma
escola pública de qualidade, realmente democrática”. (Candau, 1988, p.93).
Sem dúvida, para que haja esta educação de qualidade, tão
esperada, é preciso fazer uso da educação como instrumento maior para a
busca da realização de qualquer cidadão, para a sua independência e auto
realização dentro do seu contexto social, dando-lhe assim condições de
exercer a sua cidadania.
O desafio fundamental a vencer é o de transformar em realidade
os direitos que, hoje são apenas idealizadas através de leis bem escritas e
estruturadas, mas que quase sempre não são colocadas em prática por falta
de vontade política, apatia e acomodação de alguns profissionais que, pelo
contrário deveriam lutar com competência e tenacidade pela sua
valorização; não devendo esquecer-se que o aluno precisa ser o centro do
processo ensino-aprendizagem e tudo deve ser feito para melhor atende-lo
em suas necessidades educacionais, buscando uma educação realmente
construtiva, voltada para a realidade do educando.
CONCLUSÃO
Finalizando, reforçamos a proposta de ousar e acreditar numa
possível reconstrução do que não é para o que pode ser. Por isso, parece
fundamental procurar entender melhor o mecanismo, perversamente
construído, que ocorre em conseqüência da má formação do profissional,
das
mazelas
institucionais
e
das
políticas
governamentais,
pouco
comprometidos com uma real transformação no quadro da educação.
O que subjáz nas entrelinhas desse processo que leva à exclusão
e o fracasso, fingindo assegurar a educação para todos? É uma questão
pertinente que precisa estar clara para todos os profissionais da área, para
que possa fazer de sua prática um compromisso sério, independente de
qualquer “vontade” governamental.
Bem sabemos que o número
significativo de crianças em idade escolar, que não está realmente em
condições dignas no sistema escolar, vai muito além do que é mostrado
pelos índices oficiais, que tentam encobrir este quadro quando dizem: “toda
a criança na escola”. O fato é que não se garante o acesso e a permanência
dos indivíduos na escola, uma vez que estes são, na prática, prejudicados
por vários elementos excludentes, como já vimos.
O sistema escolar aceita com naturalidade o fracasso. Elitizado,
não sabe trabalhar com as classes populares, nem com as habilidades
diferentes. Destaca-se também o problema dos currículos que, na maioria
das vezes são descontextualizados do vivencial do aluno.
35
Infelizmente, ainda vemos muitos profissionais que internalizam
com grande facilidade, que todas as propostas advindas dos governos, quer
Municipal, Estadual ou Federal, devem ser obedecidas sem que se faça uma
análise profunda do que é viável, ou não, para aquele contexto específico e
assim a educação caminha segundo a vontade de poucos, causando sérios
danos em todo o sistema educacional.
Mesmo diante de tantos desencontros, não podemos nos ater
num discurso evasivo ou derrotista. Enquanto educadores não podemos
perder a vontade e desacreditar que a solução é possível; do contrário,
estaríamos negando tudo o que realizamos de conquistas, apesar de todos
os entraves.
A busca por uma educação de qualidade deve ser firmada em
princípios éticos, morais, sociais e políticos, comprometidos, não com um
grupo, mas com o ideal de uma educação de qualidade, que pode ser
proporcionada enquanto houver profissionais que acreditam na efetiva
realização desta qualidade.
Devemos fugir da visão da educação na perspectiva neoliberal,
que tem o caráter utilitarista e imediatista, com a bandeira da qualidade total
em educação — expressão tão envoga atualmente.
“Na perspectiva
neoliberal o conhecimento é tratado como se fosse uma mercadoria e não
uma construção, um processo”. (Frigoto, 1995, p.85).
É inaceitável que se aceite, toda e qualquer, postura de opressão
exercida pelos grupos dominantes e todos os instrumentos de coerção que
exerce seu poder, mesmo que de forma velada, na manutenção do fracasso
das minorias.
A luta pela superação do fracasso escolar é árdua, mas deve ser
vista como uma ação reflexiva na prática dos profissionais da educação.
Ousar e apostar numa inserção social e produtiva é o ideal de todos os que
36
buscam a superação do fracasso escolar, onde o instrumento de mudança
está na ação efetiva e comprometida de cada profissional, visando
disseminar o conhecimento por toda população, sem nenhum tipo de
exclusão. Para finalizar, nada melhor do que centrarmos nossa reflexão, na
visão iluminada de Paulo Freire: “Estou propondo que o trabalho e a
organização diminuam a distância entre o sonho e a concretez do sonho. O
sonhador se junta a outro sonhador e eles encurtam a distância entre o
sonho e a vida sonhada. Para isso mesmo é que inventamos a educação
popular a cada dia. (Freire, 1991, p.44).
BIBLIOGRAFIA
ABRAMOWICZ, Anete e MOLL, Jaqueline (orgs.). Para além do Fracasso
Escolar. São Paulo. Piros. 5ª edição. 2002.
ALTHUSSER, L. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Tradução
Joaquim José de Moura Ramos. São Paulo: Editora Martins Fontes. 1974.
ARROYO, Miguel G. O Direito ao tempo da Escola. Caderno de pesquisa
nº 65. São Paulo. 1988.
BOSSA, Nádia A. Fracasso Escolar: Um Olhar Psicopedagógico. Rio
Grande do Sul. Artimede. 2002.
BRANDÃO, Zaia. A escola em questão. Rio de Janeiro. Editora Dois
pontos. 2ª edição. 1985.
CANDAU, Vera. Ensinar, hoje na Escola de Primeiro Grau: Desafios e
Possibiliades. 1988. (mimeografado)
FREIRE, Paulo e NOGUEIRA, Adriano. Que fazer: Teoria e Prática em
Educação Popular. Rio de Janeiro. Vozes. 1991.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 5ª
edição. 1979.
38
FRIGOTO, Galdêncio. Os Delírios da Razão. In: GENTILI, Pablo (org.).
Pedagogia da Exclusão. Rio de Janeiro. Vozes. 1995.
GADOTTI, Moacir. Educação e Poder, Introdução a Pedagogia do
Conflito. São Paulo. Cortez. 9ª edição. 1989.
GARDNER, Howard. Teoria das Inteligências Múltiplas. Rio Grande do
Sul. Ed. Artimedes. 2ª edição. 1995.
GHIRALDELLI, Paulo. História da Educação. São Paulo. Cortez. 2ª edição.
1994.
LEITE, Sérgio Antônio da Silva. Alfabetização e Fracasso Escolar. São
Paulo. Edicom. 1988.
PATTO, Maria Elena de Souza. A Produção do Fracasso Escolar. São
Paulo. T.A.Queiroz. 1990.
RONCA, Antônio Carlos Caruso e GONÇALVES, Carlos Luiz M. S.
A
Supervisão Escolar. In: ALVES, Neida (org.) Educação e Supervisão. São
Paulo. Cortez. 7ª edição. 1995.
SANTIAGO, Maria Eliete. Escola Pública de Primeiro Grau: da
compreensão a intervenção. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1990.
VALENTE, Maria Luiza Castro. Fracasso Escolar: Problema de Família.
São Paulo. HVF – Arte e Cultura. 1995.
Download

ELIANAR CEZAR RODRIGUES DIAS