U C M PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS CURSO DE PÓS=-GRADUAÇÃO LATO-SENSU PROJETO “ A VEZ DO MESTRE ” O FRACASSO ESCOLAR: UMA BATALHA A SER VENCIDA — A BUSCA DE ALTERNATIVAS PARA SUPERAR O FRACASSO ESCOLAR— ELIANAR CEZAR RODRIGUES DIAS ORIENTADOR: Profª Fabiane Muniz Rio de Janeiro Fevereiro/2003 ELIANAR CEZAR RODRIGUES DIAS O FRACASSO ESCOLAR: UMA BATALHA A SER VENCIDA — A BUSCA DE ALTERNATIVAS PARA SUPERAR O FRACASSO ESCOLAR— Monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Supervisão Escolar, como requisitos parcial para obtenção do Supervisor Escolar. título de AGRADECIMENTOS A DEUS que renova dia-a-dia minhas forças, na superação dos obstáculos da vida, porque é Ele que me tem dado a vitória. A MINHA MÃE (in memorian), por seu eterno desejo de minha realização pessoal e profissional. AO MEU PAI, pelo seu exemplo de luta, trabalho e dignidade. AO MEU ESPOSO E FILHOS, por compreenderem os momentos que os privei de minha presença junto a eles, para dedicar-me a realização deste trabalho. A MINHA SOGRA, que tanto me auxiliou, com tempo disponível para meus estudos. A HELENICE, grande amiga, que sempre me incentivou e auxiliou para o meu crescimento profissional. A MINHA ORIENTADORA, Fabiane Muniz, por sua compreensão e valioso auxílio nos momentos de dúvida. DEDICATÓRIA DEDICO este trabalho a todos os professores e profissionais da área que, apesar de tantos obstáculos, ainda acreditam numa educação de qualidade e lutam para superar as dificuldades que levam ao fracasso e a exclusão, de muitos, do Sistema Escolar. “Uma Educação sem esperança, não é Educação” (Freire, 1978, p.30) RESUMO A presente pesquisa, tem como principal objetivo identificar os fatores intervenientes do fracasso e evasão escolar. Procura, não apenas analisar o fracasso a nível sócio econômico, mas também verificar como a escola vem sendo forjadora desse fracasso, quando busca ajustar e enquadrar ao sistema, de forma hegemônica, muitas das vezes, desrespeitando o indivíduo na sua peculiaridade, não o considerando como sujeito do seu próprio conhecimento. Na busca de soluções, o mais importante é superar a visão de que a culpa é do aluno, mas vivenciar uma prática compromissada com a superação das dificuldades. A solução não pode ser vista como simplista ou, em outro extremo, como impossível; com tudo, esta busca começa com reflexões sobre a prática vigente, visando mais competência, criticidade, renovando sempre o compromisso político de se lutar por uma escola de qualidade, onde o aluno seja respeitado como centro do processo ensinoaprendizagem. INTRODUÇÃO......................................................................... 07. CAPÍTULO I 1.1 – A escola Brasileira de Ontem e de Hoje......................... 10. 1.1.1 – Considerações sobre a realidade do Sistema Escolar Brasileiro...................................................................... 10. 1.1.2 – Uma Retrospectiva Histórica........................................ 12. CAPÍTULO II 2.1 – O Fracasso Escolar na Visão da Psicologia — Direcionamento da Questão Fracasso Escolar e Contribuições para Superá-la...................................... 22. CAPÍTULO III 3.1 – Vencendo o Desafio do Fracasso Escolar, Saindo do Discurso para a Ação Efetiva........................................ 25. 3.2 – Análise de Casos Práticos: Fracasso Escolar X Sucesso na Vida............................. 28. CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA INTRODUÇÃO Pretende-se, neste trabalho, identificar e pesquisar os fatores que contribuem para o fracasso escolar, analisando seus aspectos e investigando as possibilidades efetivas de reverter-se esta questão. Tal estudo, visa, portanto, desvelar as tensões e conflitos que envolvem a questão do fracasso escolar; repensando a realidade na busca de um saber crítico, que possibilite um ensino mais significativo e de qualidade. Torna-se pertinente fazer uma apanhado histórico da questão fracasso escolar em nosso sistema de ensino, procurando assim, compreender as origens do problema como vem sendo realizados trabalhos efetivos buscando superá-lo. Faz-se também necessário analisar como os profissionais da educação podem comprometer-se para superar o alto índice de repetência, a exclusão e todo o fracasso que permeia nosso sistema educacional; verificando se assim os obstáculos que dificultam a escola de garantir e criar espaços onde se possa desenvolver, no educando, a capacidade de ampliar seu saber, uma perfeita interação entre o saber fora da instituição escolar e o saber da instituição escolar; cabendo, sobretudo, investigar os processos que podem facilitar a aprendizagem de maneira criativa, buscando as alternativas lúdicas e prazerosas que possam vencer tal fracasso. 8 Dedica-se, aqui, um capítulo que estuda a contribuição da Psicologia na superação do fracasso escolar. Já que tal questão envolve também aspetos inerentes ao ser humano, que podem ser elucidados com a contribuição da Psicologia. O interesse por este objeto de estudo foi a constatação, no cotidiano escolar, no elevado número de crianças que ficam durante alguns anos consecutivos, retidos na mesma série. Assim, as crianças que são “julgadas” como incapazes, não avançam na sua vida escolar. E, relegadas a tal condição, acabam evadindo dos bancos escolares, reduzindo suas oportunidades e condições de crescimento como sujeitos críticos e preparados para lutar por seus direitos, sendo impedidos de assumir seu papel na sociedade na qual estão inseridos. Tais indícios vem causando a angústia e a insatisfação nos profissionais, realmente envolvidos, com a educação. Na esperança de encontrar novas alternativas para esse problema, julgamos de grande importância e utilidade um aprofundamento neste estudo, buscando reflexões pertinentes que viabilizem mudanças produtivas e capazes de interferir na drástica da constatação do fracasso escolar. É pertinente também avaliar nosso próprio desempenho e, ainda que modestamente, intervir para reverter todo o processo que marginaliza e exclui a tantos, relegando-os a um estado de tão grande opressão. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de cunho dialético, que levanta discussões visando refletir e analisar as questões relativas ao tema em estudo. 9 As considerações finais conduzem a visão positiva, porém realista, buscando-se superar as mazelas envolvidas na questão do fracasso escolar. É, contudo, difícil mas não impossível, nem mesmo simplista, a solução. O que não podemos é apenas estar cientes do fato, mas ter o compromisso de, na prática individual e cotidiana fazer as intervenções necessárias, oferecendo melhores oportunidades e alternativas práticas e prazerosas para o educando superar suas dificuldades. É preciso, entretanto, lutar por investimentos, por parte do Estado e das autoridades competentes, na área educacional; reinvidicando projetos coerentes e aplicáveis, que possam ser viabilizados por todos que acreditam na educação de qualidade. CAPÍTULO I 1.1 – A Escola Brasileira de Ontem e de Hoje 1.1.1 – Considerações sobre a realidade do Sistema Educacional Brasileiro. O fracasso escolar é um fenômeno que tem permeado toda a história da educação brasileira e a qualidade do nosso sistema escolar vem sendo questionado e merece uma atenção especial, pelas conseqüências que traz para o desenvolvimento dos indivíduos e para o desenvolvimento social, econômico, cultural e político do país. Lançamos mão da pesquisa histórica do ensino brasileiro em várias épocas para tentarmos entender este fenômeno, ou seja, a ineficiência e a baixa qualidade desse ensino e a sua conseqüência direta: os altos índices de evasão e repetência escolar. Estes índices podem ser comprovados através de pesquisa que nos dão conta que “de cada 1000 crianças que iniciam à primeira série, apenas 438 chegam à segunda série, 352 à terceira, 297 à quarta e apenas 294 à quinta série. Poder-se-ía estimar que dessas 1000 crianças iniciais, apenas 180 chegariam a concluir o primeiro grau.” (Brandão, 1985, p.22). 11 Sendo assim acreditamos que a retrospectiva histórica da educação brasileira certamente nos ajudará a penetrar nas raízes dessa situação tão injustas, uma vez que exclui o aluno das classes trabalhadoras do processo participativo da vida social, política, cultural e profissional. Essa visão histórica nos possibilitará de ver como a escola que está aí organizada através dos tempos e como podemos pelo compromisso político pensar novos rumos, pois não basta a tomada de medidas paliativas atacando os efeitos sem eliminar as causas. O problema é grave e requer muita seriedade em seu tratamento. Constata ainda que a política educacional tem garantido à população melhor privilegiada as melhores oportunidades. Na prática existe um ensino de melhor qualidade oferecido por algumas escolas particulares, em contra partida o ensino público é, na maioria das vezes, de baixa qualidade. Nas últimas décadas houve uma considerável expansão da oferta educacional no Brasil, entretanto, esse percentual quantitativo não foi seguido por melhora na qualidade do ensino oferecido. Como afirma Leite: “o estado não priorizou o ensino público, permitindo por outro lado, que a iniciativa privada ampliasse a sua participação; garantindo-se dessa forma, um ensino de melhor qualidade às elites sócio-econômicas em detrimento das camadas menos favorecidas”. (Leite, 1988, p.12) O que é fato notório, felizmente, é que apesar de toda a caótica situação do nosso sistema de ensino, principalmente na rede pública, existem ações concretas, por parte de muitos profissionais realmente envolvidos com a educação, no sentido de fazer de sua prática um importante instrumento de mudanças, a medida que primam pela qualidade do ensino. “A ação dos educadores comprometidos não devem consistir apenas na denúncia, mas na busca de soluções reais e viáveis”. (Leite, 1988, p.14). É importante compreender que a escola não é o único instrumento de transformação social, mas que esta não se concretiza sem que a educação 12 se efetive. É preciso portanto somar esforços no sentido de buscar soluções que possam instrumentalizar, de forma mais adequada, os profissionais de educação para que assim formem alunos mais conscientes e capazes e que o ensino seja menos elitista e excludente. 1.1.2 – Uma Retrospectiva Histórica Nem sempre a educação foi meta do Estado, entretanto, a partir do momento em que a classe dirigente percebeu a importância da educação como forma de controle do Estado, sobre as diversas instâncias da sociedade, passou a usá-la e como no dizer de Althusser (1974, p.54), a escola passou a ser “Aparelho ideológico do Estado”. Os próprios Jesuítas, quando começaram a colonização, tinham como objetivos impor a cultura “opressora”, não pretendiam, na verdade, fazer dos índios, pessoas letradas, capazes e, muito menos, prepará-las ou conscientizá-las. O ensino da cultura geral “enciclopédico” estava reservado aos filhos dos nobres. Aos demais era reservado o ensino catequético, cuja a finalidade era propagar e firmar a hegemonia dos dominantes. Assim a influência jesuítica durante todo o período colonial não trouxe nenhuma perspectiva transformadora para a educação que surgia. Na República os “grandes temas foram discutidos pelos intelectuais e pelos grupos que assumiram o controle do Estado; no bojo desta discussão emergiu o entusiasmo pela educação, insistindo na idéia que os problemas do País só poderiam ser resolvidos com a extensão da escola elementar ao povo”. (Ghiaraldelli, 1994, p.16) Ghiaraldelli deixa claro que a educação não era prioridade, mas o meio de firmar o poder em ascensão: a República e seus interesses. Na verdade a educação só era importante enquanto não interferisse nos direitos de autonomia do Estado. A preocupação não estava na educação, mas sim 13 com os problemas do País, com a modernização e a manutenção desses novos governantes. A reforma de Benjamim Constant em 1891 pretendia uma escola pública, laica, universal e gratuita. Entretanto o fato de se tirar o ensino religioso não se constituiu em melhoria da qualidade de ensino. Neste momento visava ser apenas uma alfabetização imediata do povo e a educação era centrada no professor, sendo a escola, dissociada das questões políticas e sociais. Infelizmente a educação, nesta fase da história, continuava sendo pensada e dirigida para alguns poucos uma vez que “a escola busca disseminar uma visão burguesa do mundo e da sociedade a fim de garantir a consolidação da burguesia industrial como a classe dominante”.(Veiga, 1986, p.27) Assim podemos ver que o ensino no Brasil só caminha quando algum grupo quer conquistar ou firmar sua posição na Política Nacional. Entre 1914 e 1918, como conseqüência da Primeira Guerra Mundial, houve no Brasil um relativo crescimento da Indústria e com isso volta à tona a necessidade de melhorar a situação do ensino brasileiro. Neste período o analfabetismo girava em torno de 75%. Estes dados contribuíram para ressuscitar entre os intelectuais o novo entusiasmo pela educação, entusiasmo este caracterizado pela idéia de expansão da rede escolar e da necessidade de alfabetizar o povo. Não podemos negar, entretanto, a importância dos vários movimentos no sentido de erradicar o analfabetismo, contudo o sentido maior para essas iniciativas era o de aumentar o contigente eleitoral, uma vez que o voto do analfabeto era proibido. Assim sendo a educação não era o fim mas o meio de se alcançar um determinado grupo de pessoas — os analfabetos — e o verdadeiro objetivo era puramente eleitoreiro. 14 Todas as reformas da década de 20 estavam pautadas no ideário liberal que considerava que o ensino deveria ser universal e diversificado para promover a igualdade de oportunidades e com isso pudesse garantir a democracia. “Embora as idéias liberais tivessem um caráter progressista, no contexto de uma sociedade na qual os que detinham o poder político o exerciam de forma reacionária, ela só poderiam ficar restritas ao plano das idéias e da legislação, não traduzindo em mudanças políticas e sociais concretas”. (Patto, 1990, p.58). Através da afirmativa de Maria Helena de Souza Patto percebe-se que as idéias liberais não encontraram eco no meio político e nem entre os que sempre deliberam o poder, pois o ensino a nível primário e médio permanecia marginalizado sem uma efetiva ação implementadora. Nos anos 20 “os católicos foram às últimas conseqüências contra os liberais, chegando mesmo a uma campanha de difamação”. (Ghiralldelli, 1994, p.39). A Igreja, na década de 30, defendia tenazmente a escola particular, neste quadro a educação não estava sendo pensada e programada para melhorar seu desempenho e nem tão pouco torná-la acessível as camadas mais necessitadas da sociedade, apesar dos esforços de alguns educadores adeptos das idéias de John Dewey e William Kilpatrick, teorias estas que davam maior liberdade à criança e a seus interesses, onde a criança passava a ser o centro do processo e não o professor como na teoria tradicional. Fazem parte dos educadores adeptos da teoria de Dewey e Kilpatrick: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Francisco Campos entre outros. Estes educadores acompanhando a modernização, a urbanização e a industrialização ocorrida no País, após a Primeira Guerra Mundial, promoveram reformas onde se dava ênfase aos “métodos ativos” de ensinoaprendizagem, estas reformas também valorizavam, além da criança como centro do processo, o trabalho em grupo e a prática de trabalhos manuais. 15 Enfim, em linhas gerais, defendiam uma escola pública obrigatória, laica e gratuita. Mesmo com os esforços desses educadores a velha educação acadêmica e aristocrática continuou a perdurar e o sistema escolar brasileiro, de então, não deu a devida importância à educação popular permanecendo a ação educativa para cada classe sem se preocupar com reformas mais profundas. Infelizmente, as reformas esperadas pelos educadores da década de 20, foram preteridas por interesses maiores das elites representadas pelos intelectuais ligados às oligarquias e a Igreja, principalmente os Jesuítas que durante séculos mantinham sua filosofia educacional, através dos estabelecimentos de ensino por eles administrados. O País continuava na sua inércia, pouco fazendo pela educação e assim na década de 30 as modificações se tornaram uma grande necessidade por causa da defasagem entre a educação o desenvolvimento econômico e industrial. Todas as modificações, ocorridas até então, não tinham como meta a educação popular, o ensino básico, mas sim, supria as necessidades da sociedade industrial e esta influenciaria profundamente na expansão do ensino, não em um ensino de qualidade mas um ensino imediatista, voltado para o mercado de trabalho, isto porque alguns pré-requisitos deveriam ser preenchidos, como por exemplo ler e escrever, não apenas para que o indivíduo recebesse uma educação tanto quantitativa quanto qualitativa, ministrada por uma escola pública, laica e gratuita, mas para aumentar a capacidade do indivíduo produzir cada vez mais e elevar o consumo dos bens produzidos. Infelizmente as políticas educacionais caminham sempre em defesa de interesses particulares assim é que na Constituição de 1937 Getúlio Vargas para se fortalecer, garante à Igreja Católica, sua parceira político-ideológica, maior presença na educação através da liberdade de ensino para as pessoas coletivas, particulares e as associações. 16 O golpe de 10 de Outubro de 1945 derruba Getúlio, mas essas forças não eram democráticas, só estavam preocupadas com a proximidade do governo com as forças de esquerda. Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 estas forças se abalaram uma vez que o cenário mundial era para a construção de governos democráticos. Dessa forma o movimento popular no Brasil veio se fortalecer e crescer. Da década de 40 a 50 com o processo de industrialização e desenvolvimento, outras exigências se faziam necessárias, assim é que medidas foram tomadas para preparar mão-de-obra e como o sistema educacional não tinha estrutura para isto, foi preciso implantar um ensino profissionalizante. A Indústria carecia de formação mínima do operariado. Para suprir tanta necessidade da indústria como do comércio, foram criadas o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em 1942 e o SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) em 1946. Mais uma vez a educação foi utilizada pela classe dominante para favorecer seus interesses, mão-de-obra especializada para ampliar seus lucros. A partir da década de 60 o Brasil, que era basicamente agrícola, entra no processo de industrialização, com isso acentua-se a discussão na questão da divisão de lucros e dos rumos do processo de desenvolvimento do País. Um dos mais graves problemas desse período foi a concentração da população sub/urbana por causa da passagem de uma economia especificamente agrícola para a economia industrial. Para suprir a demanda da sociedade industrial a simples alfabetização não conseguiu dar conta de preparar mão-de-obra suficiente. Já agora a educação não mais apenas uma questão social, mas sim de sobrevivência. Por isso o êxodo rural causou vários problemas sociais, pelo crescimento do contingente de pessoas que permaneciam analfabetas. 17 Em 1963, o então Presidente João Goulart, traz a público a situação que se encontrava a educação brasileira: “metade da população continuava analfabeta; 7% dos alunos do curso primário chegava a 4ª série, o ensino secundário acolhia apenas 14% daqueles que o procuravam, somente 1% dos estudantes alcançavam o ensino superior”. (Ghiraldelli, 1994, p.133). O plano nacional da educação impetrado por Jango em 1962 com todas as suas metas quantitativas e qualitativas e o sonho da construção de uma nação verdadeiramente democrática, foram abafados com o golpe de março de 1964. No período da Ditadura Militar a educação foi relegada ao abandono. Todos os Generais que ocupavam o governo estavam muito mais preocupados com a repressão política e a privatização do ensino do que com os problemas sociais, num total desrespeito à cidadania e aos direitos fundamentais ao homem a liberdade. Todo o aparelho repressivo do governo se equipou de modo a manter o controle agindo em todas as áreas e a educação, mais uma vez, foi mutilada pelos órgãos repressivos encarregados para isto. Um exemplo dessa ação repressiva foi a forma como o governo militar agiu em relação ao trabalho pioneiro da Prefeitura de Natal, iniciado em 1961, com a campanha “de pé no chão também se aprende a ler”, desenvolvida pelo Professor Paulo Freire, onde se buscava resgatar a cultura do povo e também integrar a educação popular com a educação escolar. Este projeto se espalhou por todo o País, foi também neste período que Paulo Freire elaborou seus primeiros escritos sobre a educação, surgindo a Pedagogia Libertadora. “A Educação Libertadora questiona concretamente a realidade das relações do homem com a natureza com os outros homens, visando a uma transformação, sendo portanto uma educação crítica”. (Freire, 1976, p.28). 18 O Professor Paulo Freire não podia portanto fazer parte do cenário da Ditadura Militar pois seu ideal de Educação Libertadora ia contra tudo que se pregava neste quadro da política nacional. Assim sendo suas idéias precisavam ser substituídas e a sua ideologia “abafada”. O governo criou portanto, em 1967 o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) para “substituir” o trabalho iniciado por Paulo Freire. Não pode-se, contudo, dizer que o MOBRAL tenha sido um total fracasso, mas, na verdade esse movimento estava impregnado da ideologia do governo estando longe de suprir as necessidades da classe popular. Os benefícios deste projeto se deram por conta do desempenho de muitos monitores (professores leigos) que se empenhavam em fazer um bom trabalho na erradicação da alfabetização. Todas as iniciativas deste período para se implementar uma educação que viesse a favorecer a classe popular, logo eram sufocadas e muitos foram banidos do País e vidas foram sacrificadas. Verifica-se, ainda, o trabalho de educadores comprometidos como professor Anísio Teixeira e Almeida Júnior entre outros, que foram acusados de comunistas pelos defensores da Escola Particular. Estes educadores viram a LDB (Lei 4024/61) que tramitou durante treze anos, ser aprovada com mais de duzentas emendas, consideradas, pelos educadores, como verdadeira traição às forças democráticas e populares. Anísio Teixeira considerou como uma “meia vitória” a aprovação da lei 4024/61; enquanto que os integrantes socialistas da campanha pela Escola Pública ficaram profundamente insatisfeitos. Não é difícil entender toda esta revolta, pois dá para sentir-se traído e impotente diante de tanta falta de compromisso, dos que aprovaram a Lei, com o destino da democracia, da educação popular e do ensino público. 19 Analisando a Ditadura Militar, podemos dizer que seguiam os princípios capitalistas sendo para eles algo secundário. Moacir Gadotti escreve: “A política educacional do regime militar tem considerado a educação como um verdadeiro inimigo do progresso”. (Gadotti, 1979, p.123). Logo eles foram bem coerentes, segundo seus ideais, quando relegaram a educação a segundo plano e priorizaram os ideais do capitalismo ocidental com objetivo de integrar o Brasil neste processo de “desenvolvimento”. Há de se questionar a quem serve este desenvolvimento, uma vez que o povo dele foi excluído. Infelizmente, nos nossos dias a situação da educação não difere muito dos “Anos de Ferro”. Há uma forte pressão contra as privatizações, aposta-se no sucateamento das escolas públicas, tanto na parte física, na qualidade de ensino e na desvalorização dos profissionais da área. Este processo vem se construindo ao longo destes anos. O professor que, outrora, tinha um certo “status” e um maior reconhecimento, vem sendo esmagado, gradativamente, por salários aviltantes; os profissionais da educação chegam a nossos dias sofrendo e amargando sua existência em conseqüência desse sistema de opressão perverso e injusto, que leva uns a cruzar os braços, outros a desistir da carreira e alguns, felizmente, ainda tentam se organizar como categoria para lutar pela sua dignidade enquanto profissionais do ensino. Não pode haver um País democrático enquanto a educação não for estendida a todos e não houver compromisso político dos nossos representantes, nas instâncias do Poder Executivo e Legislativo, onde os problemas econômicos e sociais possam ser discutidos com responsabilidade, seriedade e respeito pelos direitos de todos. Enquanto não houver uma distribuição de renda menos perversa não haverá uma verdadeira democracia institucional e social em nosso País. O modelo neoliberal que norteia muitas ações governamentais, em relação às políticas educacionais, seguem muitas “orientações” do 20 Banco Mundial busca ajustar a educação ao mercado econômico e financeiro de modo homogêneo, universal e consequentemente injusto. Certamente esta prática vem causando sérios prejuízos à nossa educação, reforçando a exclusão social, uma vez que não leva em consideração as individualidades de cada País e nem as diferenças regionais. Podemos assim dizer que não se pode se desvincular a educação de todo o processo político, social, cultural e científico. Bem sabemos que uma reforma educacional só se constrói com luta e é uma tarefa coletiva, onde se busca implementar a educação feita de baixo para cima; onde os projetos educacionais sejam construídos por educadores atuantes e envolvidos no ideal da educação. E para sairmos da crítica pela crítica, para uma ação consciente, organizada e coesa é preciso que se tenha propostas alternativas para uma nova educação dirigida às camadas populares, que são os que mais sofrem com as conseqüências das desigualdades e das muitas descabidas resoluções governamentais. É de extrema necessidade que os profissionais de educação se façam respeitar pela qualidade do seu trabalho efetivo, não deixando-se corromper pela ideologia do poder, mas lutando pela primazia na educação. “Certamente um profissional comprometido, cujo pensamento, que pensa a vida, as relações, encerra um grande potencial de direção na luta pela transformação das sociedades. Neste sentido, ele tem o mérito não apenas de denunciar uma educação supostamente neutra, como o de distinguir claramente a pedagogia das classes dominantes da pedagogia as classes oprimidas”. (Freire, 1979, p.11). Sem dúvida é mais que necessário que, enquanto educadores tenhamos bem claro os nossos objetivos; se estamos buscando combater a mediocridade, questionando sempre os valores vigentes, fazendo que os nossos alunos de classes populares encontre sua maneira própria de ser e existir nesta sociedade, ou se vamos nos acomodar e entrar também neste processo de alienação. 21 O que propomos e queremos para este momento histórico em que vivemos é que se forjem profissionais capazes de batalhar e resistir contra estes processos de alienação e mantenham a esperança viva, pois “uma educação sem esperança não é educação”. (Freire, 1979, p.30). Nesta retrospectiva histórica elucidou-se como vem sendo tratada a educação brasileira, levando a compreensão de alguns mecanismos e fatores intervenientes do fracasso escolar, principalmente, das classes populares. As políticas governamentais vêm, ao longo de nossa história, atendendo uma elite minoritária e todos os passos para melhorar as condições brasileiras são lentos e arrastados por manobras políticas, facilitadoras de benefícios e privilégios a uma pequena parcela da população. CAPÍTULO II 2.1 – O Fracasso Escolar na Visão da Psicologia — Direcionamento da Questão Fracasso Escolar e Contribuições para Superá-la. É de extrema importância para os profissionais da educação, utilizar a contribuição da Psicologia, na busca da superação do fracasso escolar. Na escola o sujeito principal de todo o processo é o aluno, um ser humano que, por sua natureza, é complexo e com toda esta diversidade precisa ser atendido em suas necessidades afetivas e cognitivas, dentro da escola. Nada mais sensato do que buscar compreender este ser através da ciência da Psicologia que, a séculos, procura elucidar a complexidade do ser humano. Dedicar-se ao estudo da Psicologia, na busca de vencer o fracasso escolar, não significa colocar nesta ciência, pura e simplesmente, a solução isolada para o problema em questão, mas analisar, juntamente com outros fatores (sociais, familiares, culturais, institucionais, etc.) o que pode ser feito efetivamente. “Faz-se necessário analisar todo tipo de entrave que leva ao fracasso escolar, seja decorrente de aspectos culturais, sociais, familiares, pedagógicos, orgânicos, intrapsíquicos, etc. É importante esclarecer que esses aspectos não existem de forma isolada, e com isso queremos dizer que não há nada que aconteça no âmbito desses aspectos que não interfiram ou modifique todos os demais”. (Bossa, 2002, p.12). 23 Um aspecto essencial no complexo emaranhado, que está envolvido no fracasso escolar, está o papel da escola. A escola, enquanto Instituição, já traz em si uma seletividade sutil, quando está preparada para o aluno “ideal”, quando objetiva responder a um ideal padrão de educação e traz consigo a dimensão do impossível. Como afirma Nadia Bossa “a escola está preparada para receber a criança “ideal” e tendo em vista responder às demandas Narcísicas da humanidade, está fadada ao fracasso”. (Bossa, 2002, p. 12). Como nossa escola está estruturada em torno de um conceito imaginário — a “criança ideal” —, a nossa “criança real”, o aluno para qual deveria ser articulada a escola, fica com a culpa pela impossibilidade de concretização dos fins a que se destina. “A criança que não aprende o que a escola determina, suporta toda a rejeição destinada àqueles que questionam o ideal Narcísico”. (Bossa, 2002, p.13). A questão fracasso escolar, é representada, em nosso País pelos altos índices de reprovação e evasão escolar. Representa um dos grandes problemas do Brasil, que ainda não conseguiu oferecer a educação básica necessária para a maioria da população. Dados estatísticos comprovam e caracterizam a situação do fracasso escolar. “No Brasil, durante o período de 1974 a 1978, de cada 1.000 crianças que iniciaram a primeira série, apenas 180 concluíram o primeiro grau. Nota-se no entanto, que o principal momento de estrangulamento do sistema situa-se na passagem da primeira para a segunda série, quando as taxas de fracasso (evasão e repetência) chegaram a 56%”. (Leite, 1988, p.15). Embora esses valores refiram-se a 1978, não há sinais de grandes alterações; sabe-se, entretanto, que tais índices tendem a aumentar na época de recessão econômica, quando ocorre uma elevação no nível de pobreza da população. 24 Apesar de todo o problema, a escola é ainda uma grande Instituição social, responsável pela formação integral do indivíduo, muitas pesquisas tem confirmado tal afirmação. “Apesar de todos os problemas, a escola tem um papel fundamental no desenvolvimento cognitivo, afetivo, e psicológico das crianças, oriundas principalmente das camadas mais humildes, representando talvez a única oportunidade que estes setores encontram para o desenvolvimento de um repertório básico que possibilite uma participação social e efetiva”. (Leite, 1998, p.14). Especificamente, os estudos da Psicologia também comprovam o fenômeno de fracasso escolar e a necessidade de superá-lo. “Os estudos da Psicologia revelam que a segunda metade do século XX vem desafiando a clínica com sintomas que expressam mal-estar de uma época e inscrevem-se de forma singular na história de cada um. O fracasso escolar é um desses sintomas e toma lugar considerável nas preocupações do homem contemporâneo”. (Bossa, 2002, p.157). Constatamos que o fracasso escolar é uma questão difícil que envolve a escola, os profissionais de educação, a família e toda a sociedade e verifica-se que esses setores e a própria ciência não têm a solução simplista para complexidade deste problema. Contudo, através da Psicologia pode-se obter dados concretos no que se refere aos fatores intrínsecos da aprendizagem, na busca de soluções, partindo da melhor compreensão do universo do aluno em questão Em fim, a Psicologia pode oferecer subsídios para o melhor entendimento do complexo mundo do ser humano. A Psicologia sugere que “a escola busque as experiências criativas que possibilitam o crescimento deste ser”. (Bossa 2002, p.166). CAPÍTULO III 3.1 – Vencendo o Desafio do Fracasso Escolar, Saindo do Discurso para a Ação Efetiva. Incentivar a discussão sobre o fracasso escolar é como mexer numa ferida que nunca se fecha, mas sempre que se mexe ela sangra e dói e como diz Miguel Arroyo: “falar em fracasso escolar não resulta atraente para os educadores. É como rever um velho seriado. Mudar de discurso e falar em sucesso, resolverá o problema?”. (Arroyo, 1988, p.4). É inegável que o tema vem sendo constantemente discutido pelos profissionais de educação, contudo, não da maneira como deveria ser conduzido; procurando soluções efetivas e aplicáveis a cada realidade educacional. Sem dúvida não é atraente para os educadores e especialistas em educação, confirmar que o fracasso escolar existe, porque vai tocar exatamente na prática de cada um, questionando, entre outros aspectos, as suas atuações. Entretanto, esta conscientização requer coragem e humildade para reconhecer o que deve ser mudado e melhorar muitos aspectos da prática pedagógica. Na verdade o que, geralmente, ocorre é uma acomodação por parte de muitos profissionais, na busca de mudanças para que a prática não fique comprometida. Devemos questionar a nossa ação através de uma 26 pedagogia crítica, reavaliando todos os aspectos no âmbito educativo e buscando implementar uma prática comprometida, não só com os movimentos de transformações sociais, mas acompanhar todas as transformações que possam interferir no aprendizado do aluno, procurando sempre levar para a sala de aula visões atuais e conscientizadoras, tudo com compromisso profissional, político e ético. Não basta o educador estar apenas sensível a realidade do sistema educacional do País, mas é necessário tratar qualquer questão relacionada a educação com seriedade e ter em mente que ele é um eixo integrador da construção do saber, lutando por uma escola menos excludente, mais crítica e comprometida com as transformações sociais. Todo o processo ensino-aprendizagem deve se efetuar com resultados positivos, à medida que, nós educadores estejamos abertos e prontos a fazer contínuas revisões de nossa prática educacional, por causa do dinamismo das transformações de nossa sociedade moderna. Infelizmente a educação não é levada a sério pelos dirigentes de nossa Pátria. Tudo caminha muito lentamente. As verbas não condizem com as necessidades, uma vez que o número dos que precisam da escola pública se torna cada vez maior. Além disso o baixo salário dos profissionais de educação fazem deles o que Ronca e Gonçalves exemplificam tão bem: “Neste contexto tão complexo e tão contraditório o profissional da educação, obrigado a trabalhar muito com um salário cada vez mais reduzido, fica esmagado pelo seu cotidiano e não consegue perceber a relação entre educação e sociedade. Uma conseqüência disso é um ativismo desenfreado que faz que o educador não tenha tempo e condições de refletir sobre sua ação, ou então um verbalismo vazio e inócuo que não leva a nada”. (Ronca, 1995, p.31). 27 Este quadro mostra claramente as causas da acomodação de muitos professores e especialistas. Também diante deste contexto fica difícil assumir um compromisso real com a aprendizagem das crianças das Escolas Públicas. Entretanto, acredito que é no coletivo que se vai superar as deficiências e buscar nova competência para que estes profissionais já tão humilhados — tal qual seus alunos — vejam seu trabalho valorizado em todas as suas dimensões. É preciso dos discursos prolixos, e puramente filosóficos para buscar estabelecer, com seriedade, uma ponte entre o teórico e o senso comum. E para que os projetos educacionais se elaborem e se aperfeiçoem, faz-se necessário a existência de um permanente debate e constantes avaliações entre profissionais, especialistas e também com a sociedade, afim de concretizar estes projetos, não sobre utopias, mas na realidade social, política e educacional para uma educação comprometida com as transformações sociais que possa, na sua prática cotidiana, oferecer aos educandos alternativas conscientizadora, respeitando para as uma aprendizagem individualidades e eficaz atendendo e as diferenças. No âmbito governamental, constatamos, muitas das vezes, que não existe vontade política da construção de uma escola pública de qualidade; e o que é mais frustrante é saber que esta situação é socialmente construída e serve para a manutenção do “Status Quo” de alguns poucos da sociedade. Assim sendo, para que haja possibilidade de mudanças, precisamos instrumentalizar o aluno, principalmente das classes populares, para que ele compreenda bem como ocorrem as relações dentro da nossa sociedade. Para isto devemos desenvolver nesse aluno a capacidade de ler o mundo e como afirma Paulo Freire: “não há uma educação neutra. O processo educativo num ato político, uma ação que resulta em relação de domínio ou liberdade entre as pessoas”. (Freire, 1978, p.28). Há uma 28 necessidade urgente de capacitar nossos educandos a superar e enfrentar as desigualdades que a nossa sociedade, estruturada como está, impõe aos das classes, ditas subalternas, obrigando-os muitas das vezes a abandonar a escola e levando os dados que apontam o fracasso escolar. Muitas das vezes, a escola também contribui para que não haja mudanças substanciais, quando não analisa qual o seu papel em relação aqueles alunos que fracassam na escola mas conseguem sobressair-se bem fora dela, nem tão pouco busca refletir o seu papel social e sua função nesta sociedade tão diversificada e desigual. 3.2 – Análise de Casos Práticos: Fracasso Escolar X Sucesso na Vida. Pudemos nesta pesquisa verificar o caso de um jovem, considerado como fracassado na escola, e que conseguiu, fora dela, desenvolver outras habilidades e obter sucesso. O caso é do jovem J.O.R., 22 anos; Em conversa informal ele conta que abandonou a escola, pois esta não lhe oferecia nenhuma perspectiva de mudança de vida. Segundo suas próprias palavras: “Sou um fracasso na escola, não dou para estudar”. Porém no decorrer da nossa conversa pude perceber que ele é altamente inteligente. Apesar de não usar muitas palavras da “norma culta”, tem idéias coerentes e o pensamento lógico acerca do seu universo. Em sua atividade diária ele conserta objetos eletrônicos, sem nunca ter feito qualquer curso afim. É capaz de desmontar qualquer tipo de motor de motor e consertá-lo, além disso faz reparo em máquinas de costuras, de lavar, e outros eletrodomésticos, tudo apenas observando o funcionamento dos mesmos. No decorrer da conversa com o jovem, este referiu a si mesmo como sendo um “burro” e que por isso não havia conseguido dar continuidade aos seus estudos. Nestas palavras, ficou evidenciada a baixa 29 estima deste jovem, que nos leva a pensar no papel da escola, que muitas das vezes não valoriza os saberes. Por toda a sua habilidade, este jovem, poderia ser considerado um “superdotado” que a escola, com toda a sua organização estrutural, conseguiu “fracassar” por total inabilidade em lidar com as diferenças. No questionamento dessas diferenças de saberes podemos retomar a Gardner com sua teoria das inteligências múltiplas. “A escola deve valorizar as diferentes habilidades dos alunos e não apenas a lógica matemática e a lingüística, como é mais comum”. (Gardner, 1995, p.32). Talvez este jovem pudesse ter concluído os seus estudos e se especializado na área que tem a maior habilidade e aptidão, se a escola tivesse respeitado as diferenças individuais e valorizado as suas potencialidades. Outro caso que nos leva a pensar, é a história de F.S.R., um menino de 11 anos que já repetiu a classe de alfabetização, por 3 anos consecutivos, em uma escola municipal de Itaboraí. Durante um Conselho de Classe, o SOEP e a Direção, discutiam com os professores uma possível solução para diversos problemas de aprendizagem, de disciplina e de violência entre os alunos, quando foi levantado o problema de F.S.R.. A Orientadora procurou saber da professora como via o caso e que hipóteses levantava para explicar porque o aluno não conseguia acompanhar os demais. Segundo a explicação da professora, o problema estaria no fato de que ele era filho de pais alcoólatras e que havia muita fome nos seus primeiros anos de vida. Outro problema apontado por ela era o fato de ter perdido os pais e de ser criado por uma tia, também alcoólatra, que além de maltratá-lo, o obrigava a vender doces em sinais de trânsito até à noite. 30 A orientadora pedagógica observou algo interessante: “Como este menino tem tanta dificuldade a ler e escrever se, no seu fazer fora da escola ele sabe dar troco, dialoga com os fregueses e é bem esperto, não deixando ninguém enganá-lo, segundo o que afirmam muitos que por lá já passaram e viram o respectivo menino em seu árduo trabalho de vendedor das ruas. Não seria o momento de repensarmos a nossa prática pedagógica? Será que estamos valorizando, no dia-a-dia da sala de aula, a cultura, os valores, o modo de pensar e de falar desse aluno, por isso estamos tornando para ele o ensino sem significação”. A professora, defendendo o seu ponto de vista, e com um tom de irritação, argumentou que a Orientadora Pedagógica a estava acusando pelo fracasso do aluno e concluiu com essas palavras: “qualquer criança nas condições de F. teria sua capacidade cognitiva abalada. Já o encaminhei par a psicóloga e o neurologista e nenhum dos dois me deram uma posição. Confesso que não sei lidar com esta situação. Penso que o melhor seria transferi-lo para outra escola, talvez, mudando de ambiente ele venha a melhorar”. Na fala desta professora, vemos ainda bem vivo, em nossos dias, os preconceitos existentes na pedagogia tradicional, escola novista, tecnicista; onde o aluno era responsabilizado por seus êxitos e fracassos. Também vemos bem clara a teoria de carência cultural, defendida nos anos 70, quando se colocava a culpa no aluno pelo seu fracasso devido ao seu meio social. Sabemos, no entanto, que o ensino não pode ser isolado da vida e que é preciso despertar o interesse da criança e que, na maioria das vezes, são os processos inadequados o responsável pelo fracasso, pois estes levam as crianças à diferença, apatia, desinteresse e até a agressividade, tão presentes, atualmente, em nossas escolas. 31 Na fala da direção da escola não houve concordância com a proposta da professora em mudar o aluno de escola, foi dito: “é verdade que a criança desprezada, reprimida, sem carinho familiar o seu desempenho fica comprometido, uma vez que estes fatores negativos levam a criança a desenvolver um baixo autoconceito e que isto aumenta a possibilidade de novos fracassos. Não acredito que mudá-lo de escola irá ajudá-lo; creio até que esta medida estará reforçando sua rejeição e absolutamente não resolverá o problema dele, mas sim, o nosso, que estaremos passando o problema para frente. Se o aluno em questão, não vai bem na escola, é daí que deve partir a solução, é preciso buscar o desenvolvimento de seu potencial, seu espírito de investigação e também trabalhar sua afetividade e promover sua socialização, uma vez que fora da escola, em sua atividade “profissional”, ele tem um bom desempenho; cabe então a escola canalizar sua habilidades procurando fazer das atividades rotineiras da escola algo mais lúdico e interessante, podendo portanto, faze-lo também ter um bom desempenho na escola. É fundamental que todos os profissionais da educação se conscientizem que têm que fazer de sua prática, momentos de reflexão, procurando sempre aprender e se formar continuamente na busca de uma educação qualitativa, valorizando sempre os saberes diversos dos educandos em questão. Segundo Paulo Freire: “Ninguém sabe mais nem menos, nós temos saberes diferentes”. (Freire, 1978, p.27). Pensando nisso é que acreditamos que, o primeiro passo para reverter, a situação do aluno estigmatizado por não conseguir alcançar o proposto pela escola, deve ser exatamente o de canalizar e direcionar de forma coerente e objetiva estes saberes diferentes, acreditando que o aluno pode aprender e assim investir em todo o seu potencial. 32 Temos que sair “das análises clínicas e individuais” de que nos fala Miguel Arroyo, para uma ação conjunta que se constitui na organização dos profissionais engajados nesta luta, buscando efetivar sua ação com o apoio dos segmentos da sociedade, sem esquecer de pressioná-los a também abraçar a causa da educação, mobilizando a todos a se organizarem nos movimentos sociais onde se busquem uma Escola Pública voltada para as classes populares e também pela valorização do profissional de educação, pois sem dúvida nenhuma, enquanto estes profissionais estiverem marginalizados, discriminados, desvalorizados não acredito em progresso na área educacional. Temos que colocar em evidência o problema dos desperdícios de verbas Públicas destinadas a educação em nosso país. É necessária reivindicar maiores percentuais de verbas para educação, não apenas para o ensino regular, mas também para educação especial, uma vez que, segundo dados recentes, a população de portadores de alguma deficiência é de 10% do total. É uma percentual considerável de pessoas que são deixadas de lado porque não são devidamente aproveitadas pelo nosso Sistema de Ensino organizado como está, altamente excludente e celetista uma vez que não contempla as “diferenças”. Diante desse quadro vemos que o Estado não cumpriu a constituição que diz ser todos iguais perante a lei. Não podemos olhar a questão do fracasso como um problema individual, onde somente a criança, o jovem e o adolescente que não aprende, o que a escola ensina, sendo considerado como desajustado. Na realidade, muitas das vezes, é a escola que não está apta a trabalhar com as classes populares e assim considera o aluno que fracassa como ineficiente, deixando-o à margem do sistema educacional. Toda a reflexão no sentido de reverter o processo degenerativo, em que se encontra a educação brasileira, passa por duas grandes etapas: primeiro deve nascer do desejo coletivo e da participação crítica e consciente de todos no processo da construção de uma escola democrática, que esteja sempre 33 buscando a articulação dos projetos pedagógicos com a realidade do aluno, conduzindo tudo de um modo a desenvolver, tanto no professor quanto no aluno, a visão crítica dos fatores sociais, econômicos, culturais, educacionais e políticos da nossa sociedade. Segundo: passa pelo compromisso do professor com o trabalho. Segundo Vera Candau: “Um professor desiludido, procurando apenas sobreviver, desmotivado e descrente do magistério como prática social e espaço de exercícios de cidadania, não poderá desenvolver uma prática pedagógica competente e crítica. Portanto, a desvalorização do magistério como categoria profissional é o ponto nevrálgico para a construção de uma escola pública de qualidade, realmente democrática”. (Candau, 1988, p.93). Sem dúvida, para que haja esta educação de qualidade, tão esperada, é preciso fazer uso da educação como instrumento maior para a busca da realização de qualquer cidadão, para a sua independência e auto realização dentro do seu contexto social, dando-lhe assim condições de exercer a sua cidadania. O desafio fundamental a vencer é o de transformar em realidade os direitos que, hoje são apenas idealizadas através de leis bem escritas e estruturadas, mas que quase sempre não são colocadas em prática por falta de vontade política, apatia e acomodação de alguns profissionais que, pelo contrário deveriam lutar com competência e tenacidade pela sua valorização; não devendo esquecer-se que o aluno precisa ser o centro do processo ensino-aprendizagem e tudo deve ser feito para melhor atende-lo em suas necessidades educacionais, buscando uma educação realmente construtiva, voltada para a realidade do educando. CONCLUSÃO Finalizando, reforçamos a proposta de ousar e acreditar numa possível reconstrução do que não é para o que pode ser. Por isso, parece fundamental procurar entender melhor o mecanismo, perversamente construído, que ocorre em conseqüência da má formação do profissional, das mazelas institucionais e das políticas governamentais, pouco comprometidos com uma real transformação no quadro da educação. O que subjáz nas entrelinhas desse processo que leva à exclusão e o fracasso, fingindo assegurar a educação para todos? É uma questão pertinente que precisa estar clara para todos os profissionais da área, para que possa fazer de sua prática um compromisso sério, independente de qualquer “vontade” governamental. Bem sabemos que o número significativo de crianças em idade escolar, que não está realmente em condições dignas no sistema escolar, vai muito além do que é mostrado pelos índices oficiais, que tentam encobrir este quadro quando dizem: “toda a criança na escola”. O fato é que não se garante o acesso e a permanência dos indivíduos na escola, uma vez que estes são, na prática, prejudicados por vários elementos excludentes, como já vimos. O sistema escolar aceita com naturalidade o fracasso. Elitizado, não sabe trabalhar com as classes populares, nem com as habilidades diferentes. Destaca-se também o problema dos currículos que, na maioria das vezes são descontextualizados do vivencial do aluno. 35 Infelizmente, ainda vemos muitos profissionais que internalizam com grande facilidade, que todas as propostas advindas dos governos, quer Municipal, Estadual ou Federal, devem ser obedecidas sem que se faça uma análise profunda do que é viável, ou não, para aquele contexto específico e assim a educação caminha segundo a vontade de poucos, causando sérios danos em todo o sistema educacional. Mesmo diante de tantos desencontros, não podemos nos ater num discurso evasivo ou derrotista. Enquanto educadores não podemos perder a vontade e desacreditar que a solução é possível; do contrário, estaríamos negando tudo o que realizamos de conquistas, apesar de todos os entraves. A busca por uma educação de qualidade deve ser firmada em princípios éticos, morais, sociais e políticos, comprometidos, não com um grupo, mas com o ideal de uma educação de qualidade, que pode ser proporcionada enquanto houver profissionais que acreditam na efetiva realização desta qualidade. Devemos fugir da visão da educação na perspectiva neoliberal, que tem o caráter utilitarista e imediatista, com a bandeira da qualidade total em educação — expressão tão envoga atualmente. “Na perspectiva neoliberal o conhecimento é tratado como se fosse uma mercadoria e não uma construção, um processo”. (Frigoto, 1995, p.85). É inaceitável que se aceite, toda e qualquer, postura de opressão exercida pelos grupos dominantes e todos os instrumentos de coerção que exerce seu poder, mesmo que de forma velada, na manutenção do fracasso das minorias. A luta pela superação do fracasso escolar é árdua, mas deve ser vista como uma ação reflexiva na prática dos profissionais da educação. Ousar e apostar numa inserção social e produtiva é o ideal de todos os que 36 buscam a superação do fracasso escolar, onde o instrumento de mudança está na ação efetiva e comprometida de cada profissional, visando disseminar o conhecimento por toda população, sem nenhum tipo de exclusão. Para finalizar, nada melhor do que centrarmos nossa reflexão, na visão iluminada de Paulo Freire: “Estou propondo que o trabalho e a organização diminuam a distância entre o sonho e a concretez do sonho. O sonhador se junta a outro sonhador e eles encurtam a distância entre o sonho e a vida sonhada. Para isso mesmo é que inventamos a educação popular a cada dia. (Freire, 1991, p.44). BIBLIOGRAFIA ABRAMOWICZ, Anete e MOLL, Jaqueline (orgs.). Para além do Fracasso Escolar. São Paulo. Piros. 5ª edição. 2002. ALTHUSSER, L. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Tradução Joaquim José de Moura Ramos. São Paulo: Editora Martins Fontes. 1974. ARROYO, Miguel G. O Direito ao tempo da Escola. Caderno de pesquisa nº 65. São Paulo. 1988. BOSSA, Nádia A. Fracasso Escolar: Um Olhar Psicopedagógico. Rio Grande do Sul. Artimede. 2002. BRANDÃO, Zaia. A escola em questão. Rio de Janeiro. Editora Dois pontos. 2ª edição. 1985. CANDAU, Vera. Ensinar, hoje na Escola de Primeiro Grau: Desafios e Possibiliades. 1988. (mimeografado) FREIRE, Paulo e NOGUEIRA, Adriano. Que fazer: Teoria e Prática em Educação Popular. Rio de Janeiro. Vozes. 1991. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 5ª edição. 1979. 38 FRIGOTO, Galdêncio. Os Delírios da Razão. In: GENTILI, Pablo (org.). 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