info TRIMESTRAL | JAN.FEV.MAR. 2005 • Nº 3 • €2 Magazine de informação da Ordem dos Engenheiros REGIÃO NORTE Velez Grilo e o “novo mundo” Caros Colegas, Aproveitando a coincidência da publicação deste terceiro número da INFO com este período do ano, os Órgãos Regionais Norte da Ordem dos Engenheiros desejam a todos os membros da Região norte desta Ordem e às respectivas famílias, uma Páscoa feliz. Ordem dos Engenheiros – Região Norte info editorial índice 4 Artigos de Opinião Maria Teresa Ponce de Leão Tesoureira da OERN 12 18 24 30 32 Notícias Entrevista a Velez Grilo Os Engenheiros e a inovação O engenheiro utiliza o conhecimento técnico-científico aliado à experimentação de forma a criar, aperfeiçoar e desenvolver produtos, processos e sistemas que apresentem uma mais valia para a economia e para a sociedade. São actores cuja missão deve ter em vista a melhoria dos índices de sucesso na colocação no mercado de respostas às necessidades desse mesmo mercado. A actuação do engenheiro tem, tem tido e terá um papel particularmente importante na promoção da inovação. Recuando um século deparamo-nos com um dos maiores inovadores na área da engenharia, Thomas Edison, com o seu mais de milhar de patentes pautou a sua vida pela pesquisa permanente de novas ideias, com viabilidade técnica e económica, potencialmente integráveis em processos de utilidade social. A sua lâmpada, associada à arquitectura de todo o sistema que a alimenta, é a imagem da inovação como luz para a sociedade. Continuando a viajar no tempo encontramos outros exemplos igualmente paradigmáticos, Leonardo da Vinci cujo brilhante curriculum, talvez falho em experimentação, dispensa qualquer descrição ou Bill Gates cuja intervenção na sociedade tem incidido no constante avanço e desenvolvimento da tecnologia enquanto economicamente eficiente. Numa Europa que pretende ser a sociedade, baseada no conhecimento, mais competitiva do mundo, a formação tem um papel crucial. A construção da Área Europeia de Educação Superior, com facilidades na mobilidade, reconhecimento das qualificações e comparabilidade na estrutura e nomenclatura de graus não suscita quaisquer dúvidas. Também aqui pensar inovador e sustentável tem implicações directas na oferta de produtos com vantagens para a sociedade. Mas, toda a estratégia que enquadra Bolonha só colherá sucesso se visar uma oferta, que aposta na formação de profissionais competentes, desenhada em função da procura. Ora, este raciocínio não nos conduz a uma única Bolonha. Pensar a formação não se deve esgotar na duração dos ciclos superiores. Há que pensar em qualidade para o que também pesa a formação preparatória para esses ciclos. Talvez seja a altura para pensar num Acordo de Bolonha, porque não do Porto, para o ensino secundário. As vantagens indiscutíveis dos mecanismos que permitem a mobilidade e comparabilidade têm que se compatibilizar com a oferta de produtos específicos como resposta às necessidades da procura. Só assim ofereceremos à sociedade engenheiros inovadores conscientes da importância do seu contributo para a sustentabilidade. Destaque Homenagem ao Professor Sampaio Vida Associativa Agenda 4 12 18 Ficha Técnica Propriedade: Ordem dos Engenheiros – Região Norte Director: Luís Ramos ([email protected].) Conselho Editorial: Gerardo Saraiva de Menezes, Luís Leite Ramos, Fernando Almeida Santos, Maria Teresa Ponce Leão, António Machado e Moura, Joaquim Ferreira Guedes, José Alberto Gonçalves, Aristides Guedes Coelho, Hipólito Campos de Sousa, José Ribeiro Pinto, Francisco Antunes Malcata, António Fontainhas Fernandes, João da Gama Amaral, Carlos Vaz Ribeiro, Fernando Junqueira Martins, Luís Martins Marinheiro, Eduardo Paiva Rodrigues, Paulo Pinto Rodrigues, António Rodrigues da Cruz, Maria da Conceição Baixinho. Redacção: Ana Ferreira (edição), Liliana Marques e redacção QuidNovi. Paginação: Paulo Raimundo. Grafismo, Pré-impressão e Impressão: QuidNovi. Praceta D. Nuno Álvares Pereira, 20 4º DQ – 4450-218 Matosinhos. Tel.229388155. www.quidnovi.pt. [email protected] Publicação trimestral: Janeiro/Fevereiro/Março – n.º 3/2005. Preço: 2,00 euros. Tiragem: 12 500 exemplares. ICS: 113324. Depósito legal: 29 299/89. Contactos Ordem dos Engenheiros – Região Norte Jorge Basílio, secretário-geral da Ordem dos Engenheiros – Região Norte Sede: Rua Rodrigues Sampaio, 123 – 4000-425 Porto. Tel. 222054102/ 222087661. Fax.222002876. www.ordemdosengenheiros.pt Delegação de Braga: Largo de S. Paulo, 13 – 4700-042 Braga. Tel. 253269080. Fax. 253269114. Delegação de Bragança: Av. Sá Carneiro, 155/1º/Fracção AL. Edifício Celas – 5300-252 Bragança. Tel. 273333808. Delegação de Viana do Castelo: Av. Luís de Camões, 28/1º/sala 1 – 4900-473 Viana do Castelo. Tel. 258823522. Delegação de Vila Real: Av. 1º de Maio, 74/1º dir. – 5000-651 Vila Real. Tel. 259378473. Página 4 OPINIÃO info info OPINIÃO Página 5 Machado e Moura, Coordenador do Colégio de Engenharia Electrotécnica A Bacia Portuguesa do Douro: um olhar crítico Com uma bacia hidrográfica de mais de 97000 km2, gerando em ano médio e em regime de escoamento natural, cerca de 23200 hm3, o rio Douro constitui o maior potencial hídrico da Península. A área da bacia é partilhada muito desigualmente pelos dois países ibéricos, correspondendo a parte portuguesa a aproximadamente um quinto do total. Contudo, em termos do potencial hídrico efectivo, a proporção indicada altera-se significativamente já que a bacia portuguesa é, habitualmente, bastante mais favorecida em termos de precipitação pluviométrica, o que conduz a um valor anual médio gerado de cerca de 8200 hm3, ou seja, 35% do total. Em regime de escoamento livre, os caudais do rio Douro e dos seus afluentes caracterizam-se por uma irregularidade considerável, traduzindo uma forte e directa dependência da grande variabilidade das precipitações. Assim, a caudais de estiagem de valor insignificante sucedem-se caudais de Inverno de valor muito elevado que podem ir até ao ponto de causar cheias, provocando a saída das águas do seu leito habitual e provocando danos e prejuízos de vulto às populações ribeirinhas. No sentido de se obter uma conveniente regularização dos caudais e permitir um aproveitamento tanto quanto possível integral, adequado e eficaz das águas do Douro e seus afluentes, foram sendo realizadas inúmeras obras hidráulicas, particularmente na bacia espanhola, quer para a produção de energia hidroeléctrica quer para o abastecimento das populações e satisfação das suas necessidades básicas, bem como para a rega e para o serviço da actividade industrial. Possuidores da parte da bacia situada a montante e sabendo que o escoamento das águas se processa de acordo com as leis da gravidade, os nossos vizinhos levaram a cabo um significativo conjunto de obras hidráulicas que lhes permitem, no presente, um armazenamento de 7500 hm3, ou seja, 50% do valor total médio anual gerado pela sua bacia. Este valor possibilita claramente os meios suficientes para suprir as necessidades de água para uso e consumo das populações, bem como contribuir para a redução do nível de poluição das águas fluviais em períodos estivais de escassez de caudais e ainda para amortecer os caudais de cheia mais elevados. Em contrapartida, os portugueses adoptaram uma atitude de singular confiança, quer no trabalho dos seus vizinhos, quer na regularidade das precipitações pluviométricas, deixando praticamente a totalidade da sua bacia em regime de escoamento livre. Esta situação, no mínimo incompreensível, tem sido e continuará a ser fonte de inúmeros problemas e de situações potencialmente catastróficas, com elevados riscos para pessoas e bens, além de constituir um desperdício inconcebível e inaceitável de um recurso endógeno fabuloso. Os cinco aproveitamentos hidráulicos realizados na década de 70 e até meados da de 80 no troço do Douro Nacional, permitiram o estabelecimento de uma artéria navegável com mais de 200 km de extensão, entre a foz do rio e Barca d’Alva, mas revelam-se perfeitamente incapazes de qualquer efeito significativo em termos de regularização de caudais e, muito menos ainda, em termos de laminagem de cheias. Para os cerca de 8200 hm3 gerados em ano médio pela bacia portuguesa do Douro, dispomos actualmente apenas de cerca de 400 hm3 de capacidade de armazenamento (dos quais 69 hm3 relativos aos cinco escalões do Douro Nacional), o que corresponde a menos de 5% daquele valor!... Situação chocante e confrangedora, cujos efeitos são bem visíveis, sobretudo quando ocorrem períodos de precipitações mais intensas. Recentemente viveram-se situações que, apesar de magnitude moderada, ainda estão presentes nas nossas memórias: o drama de Março de 2001 e as aflições de Dezembro de 2002 e de Janeiro de 2003, estas, felizmente, sem vítimas a lamentar. Sublinhe-se contudo que os valores de caudais de cheia registados nestes períodos são muito inferiores (menos de metade) a outros verificados na segunda metade do século XX, particularmente em 1962 e 1978. Em 27 de Dezembro de 2002 os valores de caudais registados em Saucelle e em Crestuma levam inevitavelmente à conclusão que a responsabilidade pela situação verificada nos cabe por inteiro, ao não termos dotado a nossa bacia, em especial os afluentes principais da margem direita (Sabor, Tua, Pinhão, Corgo e Tâmega) e também da margem esquerda (Côa e Paiva) das obras hidráulicas de que ela carecia para permitir uma gestão mínima dos caudais nela gerados. Só a ignorância ou uma clara má fé permite acusar os nossos vizinhos de nos inundarem, efectuando descargas desmedidas! São também totalmente destituídas de fundamento as acusações lançadas à EDP de uma incorrecta (economicista) gestão dos caudais turbinados e descarregados nos escalões a fio de água do Douro nacional. A gestão, pura e simplesmente, não é possível!... Quem se dá ao luxo de entregar à lógica das leis da gravidade a escorrência das águas, não se pode queixar dos infortúnios que tal situação inevitavelmente acarreta!... Neste artigo pretendemos deixar um alerta para a situação confrangedora em que actualmente se encontra a bacia portuguesa do rio Douro que, a manter-se, constituirá, cada vez mais, um atentado ao interesse público e um desperdício gritante dos nossos recursos endógenos. Esta situação traduz um elevado índice de incapacidade de garantia dos abastecimentos mínimos de água para uso e consumo das populações durante os períodos de estiagem, a par duma total impotência e inoperância em períodos de cheia. Cabe aqui observar que o amortecimento dos caudais de ponta de cheia no leito principal do rio Douro apenas se poderá alcançar através da construção de barragens criando albufeiras com adequada capacidade de armazenamento nos cinco principais afluentes. Assim, estima-se que, com pelo menos um aproveitamento em cada um desses afluentes, seria possível reduzir os caudais de ponta de cheia em cerca de 4000 m3/s na Régua e 5500 m3/s nas zonas ribeirinhas do Porto e de Vila Nova de Gaia. Do ponto de vista energético a situação encerra algo de paradoxal, uma vez que os cinco escalões do Douro Nacional, do tipo fio de água, apresentam níveis de produção muito baixos quando os caudais afluentes ultrapassam os 2000 m3/s. O desnível entre as cotas de montante e de jusante reduz-se de forma drástica, conduzindo à situação clássica de “afogamento” dos respectivos grupos. Por outro lado, durante o período de Página 6 OPINIÃO info info OPINIÃO Página 7 Luís Sousa Lobo, Representante de Portugal no Grupo de Bologna estiagem, com caudais muito reduzidos, o nível de energia produzido é muito baixo. A situação que actualmente atravessamos, apesar de estarmos em pleno Inverno, é disso um exemplo bem eloquente! Os cerca de 920 MW de potência instalados nesses cinco aproveitamentos são utilizados numa percentagem mínima, o que não aconteceria se fosse possível dispôr das reservas de água adequadas. Que soluções são possíveis para tentar ultrapassar a situação? Diversas propostas elaboradas no passado pelas entidades com responsabilidades na matéria, foram sendo sucessivamente revistas até à actualidade, mas, paradoxalmente, permaneceram praticamente sem qualquer concretização visível. Com efeito, há mais de quatro décadas, no início dos anos 60, a empresa Hidro-Eléctrica do Douro (HED) apresentava o Plano Geral de Aproveitamentos Hidráulicos do Rio Douro e seus Afluentes o qual contemplava, para além dos 3 escalões do troço internacional (Picote e Miranda já em exploração, e Bemposta em construção) e dos 5 escalões do troço nacional, cerca de duas dezenas de aproveitamentos a instalar nas cinco principais bacias de afluentes. Estas duas dezenas de aproveitamentos visavam, para além do seu aproveitamento energético, contribuir para a garantia dos abastecimentos de água para rega e uso urbano, bem como para mitigar os prejuízos causados por situações hidrológicas extremas (amortecimento de caudais de cheia e redução do grau de poluição das águas fluviais em períodos críticos), possível graças aos diversos escalões dotados de albufeira de suficiente capacidade de armazenamento, que no seu total permitiam um valor global de armazenamento próximo dos 7000 hm3 (destaque especial para os escalões previstos para a bacia do Sabor, Quinta das Laranjeiras e Sampaio, de 1520 hm3 e 1700 hm3 ), valor que representava cerca de 85% do volume gerado em ano médio pela bacia portuguesa do Douro, o que fornecia os meios para uma gestão eficaz dos caudais mesmo em situações meteorológicas extremas. A decisão de realizar prioritariamente os cinco escalões sobre o troço nacional do rio, teve o efeito perverso de adiar sucessivamente a implementação da necessária e suficiente capacidade de regularização, com excepção de escassos 115 hm3 disponibilizados em 1988, no troço terminal do rio Tâmega, com o escalão do Torrão. Entretanto, a partir de 1970, foram sendo realizados diversos estudos, a nível de Inventários e de Planos Gerais, cujo objectivo era o de proceder à revisão e actualização dos esquemas previstos nos Planos Gerais que a HED realizara nos finais dos anos 50 e inícios de 60, incidindo essencialmente sobre as bacias do Tâmega, do Alto Tua, do Baixo Sabor, do Côa e do Paiva. Estes inúmeros estudos e sucessivas iterações conduziram, em meados dos anos 80, à definição de um plano geral para a bacia nacional do rio Douro em que a capacidade global de armazenamento era apenas de 4500 hm3, surgindo já bastante reduzida quando comparada com os valores iniciais, mas mantendo-se em níveis que permitem garantir os meios adequados para a correcta gestão hídrica do potencial da bacia. Com o aproximar do final da década de 80, pareceu que se havia finalmente adquirido a consciência da necessidade imperiosa de implementar diversas albufeiras nos afluentes nacionais do rio Douro, a começar, naturalmente, pelos situados o mais a montante possível, os rios Côa e Sabor. Foi assim lançado o aproveitamento de Foz-Côa que iria constituir a primeira (e obviamente, insuficiente...) “reserva estratégica” de água a instalar no Douro Superior, à qual deveriam seguir-se outras no Baixo Sabor, no Alto Côa, no Tua, no Tâmega e Paiva. A altíssima valia, a vários níveis, daquela reserva estratégica não foi no entanto suficiente para impedir uma decisão política infeliz tomada em Janeiro de 1996, fazendo não só o problema regressar à estaca zero, como acarretando elevadíssimos prejuízos materiais suportados pelo erário público. A caminho de se completar uma década sobre a desastrada e altamente discutível decisão, não será despiciendo, recordar o compromisso, então assumido, de lançar de imediato um novo aproveitamento situado na mesma área geográfica, na bacia do rio Sabor, o qual continua ainda por cumprir. Até quando?!... É mais do que tempo de encarar de frente este desafio e lançar mãos à obra de dotar a bacia portuguesa do Douro dos meios indispensáveis que permitam utilizar eficazmente os seus preciosos recursos hídricos, garantindo uma melhor segurança das pessoas e bens, e contribuindo para o desenvolvimento e melhoria das suas condições de vida, a par duma valia energética fundamental. A retoma do programa de realização dos aproveitamentos hidroeléctricos previstos para a bacia portuguesa do Douro, encarados agora numa óptica de fins múltiplos, aparece não só como perfeitamente justificável como constitui um imperativo nacional, tendo em vista contribuir para a resolução dos problemas referidos. Impõe-se, de forma urgente, encarar com frontalidade a realização das infra-estruturas necessárias à disponibilização das funções hídricas e energéticas proporcionadas por aproveitamentos hidráulicos de fins múltiplos, dotados da capacidade de armazenamento/regularização adequada, os quais permitiriam usufruir de enormes valências associadas a inúmeras vertentes, designadamente a sócio/económica, a ambiental, a de segurança e a energética. Processo de Bologna: Engenharia Contra o devaneio académico da proposta do MCIES Pode parecer pelas notícias e comentários públicos, que estamos atrasados no que respeita a reformas no Ensino Superior, na sequência da declaração de Bologna. Errado. Em Portugal já estamos mais avançados em muitos dos aspectos dessas reformas do que variados outros países europeus. Por exemplo, o jornal Le Monde dava conta recentemente dos avanços das reformas em quatro Universidades francesas “pioneiras”, as quais, dizia-se na notícia, iniciaram já a introdução do regime semestral, das disciplinas de opção e do uso dos créditos! Ora em Portugal o regime semestral entrou em uso primeiro nos cursos de Engenharia, há mais 30 anos e generalizou-se. Os créditos foram introduzidos há mais de 20 anos. As disciplinas de opção estão por todo o lado, também há muitos anos. Não estamos nada mal portanto na flexibilização dos curriculums. O sistema de avaliação de cursos também já está a funcionar há mais de 10 anos. Quanto à profissão, os Estatutos da Ordem de 1992 permitiram a introdução dos exames e da acreditação dos cursos. Tive a honra, com mais 10 colegas, de preparar as alterações estatutárias da proposta que venceu o referendo. Nos anos seguintes, como Vice-Presidente da Ordem, na equipa do Bastonário João Vaz Guedes, implementámos as mudanças, incluindo o lançamento dos Colégios de Especialidade, a acreditação dos cursos e os exames de admissão. A acreditação de cursos pela Ordem veio a inspirar logo de seguida o processo de avaliação de cursos pela Fundação das Universidades Portuguesas/CRUP, a que atrás fiz referência. Esse pioneirismo da Ordem foi bem sucedido, teve aceitabilidade social e trouxe prestígio. A consolidação do processo de avaliação “no terreno” ficou ainda a dever muito ao empenho do bastonário seguinte, o Eng. Emanuel Maranha das Neves. Recentemente, no quadro da chamada “reforma de Bologna”, parece ter surgido por parte do MCIES uma certa urgência em adoptar o modelo designado por 3+2, com uma uniformidade geral considerada vantajosa. Discordo bastante de que haja vantagens nessa uniformidade. Pelo contrário, a diversidade, regulada, diferencia estimula, e permite a inovação. Mas não pretendo desenvolver aqui esse tema. Recordo só que a uniformidade introduzida pela Senhora Thatcher em Inglaterra em 1992 teve efeitos hoje reconhecidos como bastante perniciosos. O que desejo comentar agora é a proposta apresentada para a área de Engenharia pelo MCIES, através do respectivo coordenador, o Prof. Luís Soares. Trata-se de um trabalho bem documentado e que permite elevar o nível do debate, embora o considere limitado em certos planos da análise que faz. Mas a visão que propõe para a articulação entre as escolas, as organizações profissionais e o mercado de trabalho corresponde a um retrocesso. É defendida a correspondência completa entre 6 níveis de qualificação académica (que vão da especialização tecnológica, curta, até ao grau de Doutor) e 6 níveis de título profissional (que iriam de Técnico de Engenharia até Engenheiro-Investigador). Esta proposta é complicada, rígida e preocupante, por diversas razões que resumo a seguir. Todos reconhecemos a grande conveniência em manter a separação entre a regulação da profissão e as qualificações académicas, nas sociedades modernas. É essa a norma de longa data nos países anglo-saxónicos. É um pouco como a separação de poderes no Estado. No Estado, a confusão desses poderes dá maus resultados. A Ordem adoptou o modelo da separação, com sucesso e boa aceitação social, à luz do Decreto-Lei que aprovou os novos Estatutos em 1992. A ANET, Associação Nacional de Engenheiros Técnicos, seguiu-lhe as pisadas. Não faz agora sentido voltar “ao antigamente”, quando a carta de curso dava automaticamente o título de Engenheiro. Usa-se habitualmente o termo “academic drift” para descrever a aproximação do ensino de outros tipos ao modelo universitário (caso da conversão já referida dos Politécnicos ingleses a Universidades em 1992, por exemplo). Mas no caso presente temos um “academic drift” mais inesperado: é o “academic drift” da profissão, visando o alinhamento dos níveis profissionais com uma variedade de níveis académicos. Ora sabemos bem que o bom desempenho escolar e o bom desempenho profissional não são coincidentes. A dependência proposta vai totalmente em sentido contrário à evolução da organização social nos países mais competitivos. Dizer, como se diz no documento, que ao doutoramento corresponde o título profissional de EngenheiroInvestigador (nível profissional 6) é insensato em termos profissionais. Como se pode abrir a um jovem cientista com Página 8 OPINIÃO info 27 ou 28 anos, talvez a iniciar uma carreira de investigação, um lugar no topo da profissão? A carreira académica e a carreira profissional assentam em experiências e competências bastante diferentes. No outro extremo da tabela a que me refiro, introduz-se a designação de “Técnico de Engenharia” para formações curtas de cerca de 1 ano (tipo electricista especializado). Esta designação é desajustada e imprudente. Em breve os Técnicos de Engenharia passariam a ser designados por Técnicos-Engenheiros. Esse igualitarismo não é bom. Nas sociedades modernas a igualdade dos cidadãos perante a lei é indiscutível. Mas a suposta igualdade de competências é um erro. Todo o progresso social assenta nessas diferenciações exigentes, competitivas, avaliadas de forma séria e independente. Esta parece ser mais outra deriva na atitude burocrática com que a reforma tem sido encarada. Vem-me à memória o aviso do colega Luís Valente de Oliveira, num colóquio que teve lugar na Gulbenkian em Setembro último, para nos precavermos contra as reformas no Ensino Superior feitas com “mentalité de fonctionaire”. É o que está a acontecer. Tenho estima e consideração pessoal pelo Prof. Luís Soares, mas o caminho por onde nos quer levar não é bom. O sistema de graus deve ser simples e compreensível. O sistema em vigor em Portugal tem raízes fortes e regula em grande parte as opções dos jovens e o reconhecimento info dos vários percursos pelos adultos. Qualquer mudança deve ser cautelosa, simples, gradual. E muito “legível”. O esquema proposto parece-me um devaneio burocrático: é demasiado complexo e confunde o sistema escolar com a regulação da profissão, que são realidades diferentes. Não se muda aliás a sociedade por decreto, muito menos nos dias de hoje. E particularmente numa área em que está envolvido tanto esforço individual continuado, tanta procura de reconhecimento social e tantos sonhos que moveram e movem milhões de pessoas e fazem avançar o mundo! A articulação entre os graus académicos e o reconhecimento profissional deve continuar a basear-se na acreditação e no exame. Eventualmente, para os cursos de perfil não universitário, poderão requerer-se, para admissão na Ordem, não um mas dois exames, como nos EUA: “Fundamentals of Engineering” e “Professional Engineering”. Haverá assim uma dupla garantia. O nível de conhecimentos de Matemática e Física, isto é, de conceptualização, bem como o domínio das ciências de engenharia são pré-requesitos para o perfil de Engenharia da Ordem. Desta forma a flexibilidade do sistema aumenta mas a garantia de qualidade mantém-se. Na minha opinião são estas soluções não burocráticas, isto é, sem reconhecimentos administrativos automáticos, que devem prevalecer. De contrário, quem fica favorecido são os mais “habilidosos” a lidar com as regras burocráticas, e não os QUADRO PROPOSTA DE ESTRUTURA DE QUALIFICAÇÕES E TíTULOS PROFISSIONAIS ( do Ministério da Ciência, Inovação e ensino Superior) NíVEL FORMAÇÃO DIPLOMA I CARTA DE CURSO TiTULO PROFISSIONAL(1) 6 Doutoramento Doutor Engenheiro-investigador Curso de Especialização Diploma de Especialização Avançada Avançada 5 4 3 Engenheiro-especialista (2) 20 Ciclo Mestre Engenheiro Curso de Especialização Diploma de Especialização Engenheiro-técnico Pós-Graduada Pós-Graduada especializado(2) Licenciado? 2 10 Ciclo Bacharel? Engenheiro-técnico Outro? Curso de Especialização Diploma de Especialização Tecnológica Tecnológica 1 Técnico de engenharia (1) ‘Qualificações acadêmicas de referência” para acesso ao título. (2) Apenas quando a formação conduz a um aumento do nível de competências, isto é, o curso tem um carácter de aprofundamento/especialização. Não incluirá por isso os cursos de reciclagem ou reconversão. que acumularam competências de maneira séria. O mesmo se pode dizer da propaganda que se tem feito da ideia (errónea) do valor universal dos créditos ECTS, visando promover a mobilidade a qualquer preço. Mas a mobilidade tem ela também que ser concorrencial e selectiva. Por outro lado, importa lembrar que o perfil de Engenheiro Técnico está valorizado no mercado. A ANET atingiu hoje, depois de muitas vicissitudes que acompanhei de perto, um grau de organização e um prestígio que a suas antecessoras não tinham atingido. E ainda bem. Assim, a articulação entre as duas associações tem hoje melhores condições para dar frutos. Muito recentemente a ANET OPINIÃO Página 9 pronunciou-se sobre o documento do MCIES para as Engenharias, sublinhando o interesse em reforçar a cooperação entre as associações e exprimindo concordâncias e discordâncias. Entre as discordâncias ou reparos, contam-se a reserva de competência para as associações profissionais na definição de especialidades, a manutenção da acreditação profissional como distinta da acreditação ou avaliação académica e na oferta de um primeiro ciclo não profissionalizante o contraria o bom senso e o próprio texto da Declaração dos Ministros de 1999 em Bologna. Subscrevo todas estas preocupações da ANET. Já não subscrevo a anuência à introdução de títulos profissionais de Mestre-Engenheiro e de DoutorEngenheiro, pelas razões que já referi brevemente acima. A Comissão Nacional FEANI, que existe já há 10 anos, constitui naturalmente a primeira base para desenvolver essa articulação. Mas é preciso reconhecer que a gestão dos níveis de qualificação dentro da Ordem dos Engenheiros, sobretudo, nos últimos seis ou sete anos, não tem sido sempre feliz. Os níveis de qualificação têm sido usados, diversas vezes, quase como condecorações honoríficas, por motivos talvez alheios ao exercício da profissão. Isso não é bom, porque se misturam relações pessoais ou notoriedade com mérito profissional, o que pode acabar enfraquecendo o prestígio dos próprios títulos ou então modificar-lhes a natureza. Por outro lado, a Ordem tem também lidado com a acreditação dos cursos sinalizando a sua intervenção de maneira redutora em vez de acentuar perante a opinião pública exactamente o contrário, isto é, a necessidade de conhecer e estudar bem as fragilidades da formação, dar visibilidade às soluções com sucesso, encorajar a inovação, insistir nas competências transversais que melhor preparam para o trabalho em equipa e para a liderança. Por outro lado, nos sistemas complexos as grandes mexidas dão grandes sarilhos. É ver o caso da colocação de professores. No mundo de hoje, em que o poder e a iniciativa estão distribuídos, mais valem as reformas graduais. E mais valem os sistemas orgânicos, com boa regulação da qualidade, que o centralismo, geralmente burocrático Não é pela colagem das carreiras profissionais ao sistema de ensino que a Ordem ganha credibilidade e afirmação autónoma. Pelo contrário. Essa colagem seria um erro e um retrocesso. Não é nesse sentido que marcham as sociedades modernas. A regulação da profissão pelo Estado, com proximidade, funciona mal e é um modelo de organização social que pertence ao passado. A Associação dos Engenheiros nasceu em 1869, num momento difícil, apontando o caminho da modernidade. Teve sobressaltos em 1936 e 1956. Revigorou-se em 1981 e 1992. As lições desse percurso nobre não devem perder-se. Página 10 OPINIÃO info info OPINIÃO Página 11 António Guimarães Rodrigues, Reitor da Universidade do Minho Modelos de Desenvolvimento A Escarpa Um alpinista na escalada de uma escarpa sabe que para avançar é preciso arriscar e lançar o seu ponto de apoio mais acima, ganhando terreno. A alternativa é deixar-se deslizar de volta à base, perdendo a possibilidade de se elevar a uma altitude de onde possa desfrutar todo um campo de novos desafios e oportunidades. Para evoluir é necessário introduzir a mudança e aceitar os desafios e os riscos, acreditando que é preferível tentar e falhar do que não ousar. O Horizonte Apenas a adopção de um horizonte alargado permite a tomada de decisões estratégicas. Em processos que envolvem diferentes agentes, com diferentes perspectivas e exigências de curto prazo, apenas um horizonte alargado permite que as decisões não assumam um cariz meramente táctico, que cumpra os interesses locais e individuais. Em compromissos de médio e longo prazo, os diferentes agentes podem ter a percepção do ganho e a vantagem da cedência do interesse imediato. Apenas para o médio e longo prazo é possível exercer a efectiva definição e decisão estratégica. Lógica Gravitacional Na decisão sobre a localização de centros de actividade económica intervém um elevado número de factores. A proximidade a toda uma infra-estrutura logística; o acesso próximo a mão-de-obra qualificada; a proximidade aos centros financeiros e de decisão é normalmente determinante. Ou seja, os modelos de desenvolvimento seguem frequentemente uma lógica gravitacional, em que os centros de maior dimensão atraem e acumulam cada vez mais actividade económica, e adquirem melhores condições de vida para as populações. Não é difícil prever que uma evolução deste tipo conduz, no médio prazo, a uma menor coesão do espaço territorial e a um mais acentuado desequilíbrio no desenvolvimento. A comunicação social anunciou, há mais de um ano, num semanário, que em 2010 cerca de 90% da população portuguesa estaria a viver num de dois grandes centros urbanos. Independentemente da correcção dos números apresentados, esperar-se-ia que a afirmação publicada tivesse suscitado, em reacção, alguma opinião. Efectivamente, o princípio da coesão definido pela União Europeia, que se traduz na atribuição de fundos ao país, não foi acompanhado por idêntica política de investimento ao nível interno. O cenário futuro de desenvolvimento corresponderá ao resultado das decisões políticas presentes e futuras. Independentemente de um juízo de valor, não é viável evitar tomar no presente as acções coerentes com a opção adoptada para o cenário futuro. Num eventual cenário de desenvolvimento que corresponda à concentração gravitacional devem ser desde já desenvolvidas as acções que minorem as consequências económicas e sociais futuras, que resultarão de uma desertificação de largas áreas do país ditada pela migração das suas populações na procura de melhores condições de vida. Região do Conhecimento Em 2000, a União Europeia identificou como objectivo construir na Europa, até ao ano de 2010, uma economia mais competitiva do que a dos Estados Unidos. Como pilar, a UE definiu a necessidade de construção da Sociedade do Conhecimento. Também pela mesma data, a União Europeia afirmou a importância das regiões para o processo de desenvolvimento da Sociedade do Conhecimento. A identificação de espaços territoriais como regiões pressupõe a existência de uma identidade. Para além da identidade socio-cultural, releva a identificação com um projecto. O conceito de região – como Região do Conhecimento – permite que as políticas e os programas europeus e nacionais com repercussão no desenvolvimento possam ser interpretados e avaliados, focando-as em vectores estratégicos centrados na região, envolvendo o compromisso de todos os agentes de desenvolvimento. Por outro lado, mais do que a construção de novas centralidades, é fundamental que se construam malhas de desenvolvimento que articulem valências distribuídas, que promovam a actividade económica e actuem como elos de coesão social. Uma Região do Conhecimento A Norte do País, no Minho, o desenvolvimento estruturou-se segundo sub-regiões identificadas com os vales (Ave, Cávado, Lima e Minho), e cumpriu etapas fundamentais na instalação de infra-estruturas básicas, tendo sido, inclusivamente, bem sucedido na definição de planos estratégicos de carácter local. Necessidade de garantir a cobertura de infra-estruturas de suporte à plena utilização e desenvolvimento de indústrias e serviços suportadas pelas acessibilidades digitais. Necessidade de reconhecer, de forma objectiva, o impacto no desenvolvimento da actuação das instituições que produzem, preservam e propagam o conhecimento. Necessidade de assumir modelos de discriminação positiva no investimento e financiamento que reconheçam o mérito baseado em critérios normalizados não indexados ao volume, mas ao desempenho dos agentes de desenvolvimento. A Formação e a Qualificação Contudo, a este modelo de desenvolvimento (“segundo os vales”) corresponde uma lógica centrípeta orientada no sentido do grande centro litoral a Norte, segmentando artificialmente o espaço territorial. Este modelo fomentou a fragilidade associada ao desenvolvimento baseado em monosectores tradicionais. A construção de uma malha de desenvolvimento requer uma lógica transversal ao modelo de desenvolvimento “segundo os vales”, e a implantação de eixos interiores que garantam o preenchimento sustentado do espaço territorial. Sobre diagnósticos e perspectivas de desenvolvimento e sobre as oportunidades e ameaças presentes e futuras foram desenvolvidos vários estudos. Sendo estes estudos de grande validade e interesse, são muitas vezes utilizados como referenciais para exercícios de segmentação artificial do reconhecimento de competências e de acantonamento de oportunidades em diferentes sub-regiões. Face à fragilidade estrutural ditada pela dependência em mono-sectores tradicionais e à ameaça de elevados níveis de desemprego acompanhados pela deterioração das condições sociais em algumas regiões, e tomando em conta quer a realidade das competências nelas reunidas, quer das oportunidades que se oferecem, alguns princípios elementares devem ser assumidos: Necessidade de criar alternativas locais, na indústria e serviços, dando expressão e apoiando clusters alternativos. Necessidade de estabelecer plataformas de mobilidade acrescida que permitam aumentar o potencial de acesso ao mercado de trabalho. Necessidade de reorientar as competências associadas a sectores de actividade convencionais para produtos afins com maior valor acrescentado e mercado mais qualificado. Não podem ignorar-se as estatísticas: Em Portugal, na população com idade entre os 25 e os 64 anos, verifica-se uma percentagem de 9,3% de licenciados, contra 21,8% na União Europeia; apenas 11,1% da população nesse grupo etário possui uma instrução de nível secundário, contrastando drasticamente com os 42,9% da média da União Europeia. A formação e qualificação, reconhecidas como pilares para a competitividade e para o desenvolvimento sustentado, serão efectivas se estruturadas de acordo com uma orientação associada às competências que permitem adquirir. Estes objectivos não podem ser confundidos com a duração de ciclos de formação que ignorem a duração da formação prévia dos jovens que acedem ao ensino superior. A duração dos ciclos não pode também ignorar o reconhecimento pelo mercado de trabalho. Não deve corresponder apenas a mais uma etapa para um acrescido desinvestimento no ensino superior. A Inovação A inovação é a alavanca que permite suportar a competitividade. O suporte à cadeia de valorização do conhecimento adquire carácter prioritário. À semelhança das congéneres europeias, as Universidades Portuguesas são fonte de criação de conhecimento e de inovação. O apoio à transposição deste conhecimento e inovação em benefício da competitividade das empresas permitirá avançar no sentido de um mercado mais qualificado. A evolução do tecido empresarial neste sentido, traduzir-se-á no recurso a quadros qualificados, aumentando a necessidade de absorção destes quadros e garantido a justificação de necessidades que forçarão o nível de absorção de licenciados para valores mais próximos da média europeia. Página 12 NOTÍCIAS Portugal viola legislação ambiental comunitária Portugal foi processado pela Comissão Europeia por alegadas violações da legislação ambiental comunitária. Duas das três acções já interpostas pela Comissão Europeia no Tribunal de Justiça da União Europeia info referem-se à conservação da natureza. Em causa estão a não designação de Portugal das zonas de protecção especial em número suficiente para preservar aves estepárias e a redução da área da zona de protecção especial de aves de Moura/Mourão/Barrancos, sem uma justificação válida. O terceiro processo diz respeito ao atraso de um ano da transposição da directivaquadro da água. info Além destes casos, existe a ameaça da Comissão apresentar mais três processos contra Portugal. O facto do nosso país não ter concluído os estudos sobre o efeito do Alqueva em áreas naturais a jusante da barragem, antes do fecho das barragens constitui uma das ameaças. As outras duas referem-se às falhas nas avaliações de impacte ambiental e no inadequado tratamento de esgotos em 18 aglomerações urbanas no país. O Ministério do Ambiente já respondeu numa nota divulgada a 14 de Janeiro. Criticou o facto de a Comissão exigir a delimitação de zonas de protecção especial para as aves sem haver financiamento comunitário para a sua gestão e argumentou que está ser analisada a validade da desafectação da zona Moura/Mourão/Barrancos. A lei das águas e os estudos sobre as águas afectadas pelo Alqueva estão concluídos. O ministério ainda esclareceu a Comissão que está a ser estudado a forma para resolver as falhas nos processos de avaliação e que esta deverá passar por uma alteração na lei dos impactes ambientais e que na península de Setúbal, na maioria dos concelhos alentejanos e em dois do Algarve será efectuado o tratamento de esgotos. Engenharia para homens Existem menos mulheres em cargos importantes nas áreas da ciência e da engenharia, porque as suas responsabilidades maternas não lhes permitem estar disponíveis para trabalhar muitas horas. E as mulheres têm um desempenho inferior que os homens nas Coincidência ou não, o facto é que desde que Lawrence Summers está à frente da universidade cada vez menos mulheres são contratadas. Porto Vivo para 2005 ciências e na matemática, devido às diferenças genéticas. Estas afirmações são do reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, proferidas durante uma conferência sobre o papel das mulheres e das minorias nas ciências e nas engenharias, promovida pelo Centro Nacional de Investigação Económica norte-americano. Académicas e cientistas manifestaram a sua indignação face a estas declarações, houve inclusive uma participante a abandonar a sala em sinal de protesto. Em entrevista feita ao The Boston Globe depois da conferência, o reitor afirmou que: “a investigação na área da genética comportamental tem revelado que atitudes tradicionalmente atribuídas à socialização não se devem afinal a este factor”. Na sua opinião devem ser realizadas mais investigações e ressalvou que os estudos citados podem não ser a sua opinião pessoal e que os organizadores da conferência lhe pediram para ser provocador. No calendário e estratégia de acção para 2005, a Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) Porto Vivo propõe nos primeiros seis meses arrancar com a intervenção no quarteirão da Praça Carlos Alberto, um dos cinco quarteirões-piloto definidos pela sociedade. Espera-se que num futuro próximo aqui se alberguem jovens casais e profissionais das áreas da saúde e justiça. Esta foi uma das ideias transmitidas na conferência de imprensa promovida pela sociedade em Janeiro de 2005. Ainda no primeiro semestre, a Porto Vivo irá recolher sugestões escritas sobre o ‘masterplan’ para o centro da NOTÍCIAS Página 13 cidade e em Abril será apresentada a sua versão preliminar, o qual estará em discussão pública durante 60 dias. A versão definitiva do ‘masterplan’ será conhecida em Junho, bem como o gestor do centro urbano. No segundo semestre será levada a cabo a recuperação de dez edifícios no centro histórico e de propriedade da autarquia, para serem depois vendidos a jovens a preços que apenas cubram os custos estimados para as obras, cerca de 2,5 milhões de euros. Na conferência ainda foram dadas a conhecer mais duas novas zonas de intervenção da Porto Vivo: a zona delimitada pela Rua da Bainharia, Viela do Anjo e Rua Mouzinho da Silveira, no centro histórico, e Mercado do Bolhão. A sociedade espera apresentar a versão definitiva do ‘masterplan’ para toda a sua zona de acção a 30 de Julho. Este documento traçará o plano de oito freguesias da cidade num total de cinco quilómetros quadrados e fixará as estratégias de cada zona de intervenção. Tribunal Arbitral da Construção O Tribunal Arbitral da Construção deu no início de Fevereiro um passo à frente na sua constituição com a assinatura do”protocolo de fundação” pela associação que ficará responsável pelo processo de criação deste organismo. IMOPPI, ordens dos Engenheiros, Arquitectos, Economistas e Advogados, LNEC, Instituto de estradas, INH, REFER, APAE, AECOPS, AICCOPN, APEMIP, AICE, ANEOP e APCMC são as entidades que integram o protocolo. Página 14 NOTÍCIAS Rapidez no processo de Entre-os-Rios Rapidez no processo de Entre-os-Rios é o apelo da Ordem dos Engenheiros (OE) que mais uma vez realça a convicção de que os seis engenheiros acusados pelo Ministério Público e pronunciados em meados de Janeiro do info corrente ano pelo Tribunal da Relação do Porto não são responsáveis pela queda da Ponte de Hintze Ribeiro. No comunicado da instituição lê-se: “exige-se que seja feita justiça de forma célere, ilibando os inocentes e, atendendo às conclusões do relatório da comissão de inquérito, apurando os verdadeiros responsáveis pelo colapso da ponte”. info Os arguidos são acusados do crime de infracção de regras de construção, incorrendo numa pena de um a oito anos e se o perigo estiver associado a negligência podem estar sujeitos a um máximo de cinco anos de prisão. A pena pode ser agravada, tendo em conta a morte de 59 pessoas que seguiam num autocarro e em três automóveis quando ocorreu o colapso da estrutura. Mais de 70.000 empregos perdidos O sector da construção civil e das obras públicas perdeu 71 mil e 200 postos de trabalho nos anos de 2003 e 2004. Esta é uma das conclusões apresentada pela Associação de Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) em Fevereiro do corrente ano. Contra as expectativas, o ano de 2004 não foi de retoma, mas de queda do emprego, apesar do sector ter assistido a uma recuperação ao nível de indicadores como o Valor Acrescentado Bruto e da Formação Bruta de Capital Fixo em relação ao ano anterior. Albano Ribeiro, presidente do Sindicato de Construção do Norte, perante estes números afirmou: “afinal, vêm confirmar o drama para o qual se tem vindo a alertar nos últimos anos”. Prevê que nos próximos três meses irão “alguns milhares de trabalhadores para o fundo de desemprego”, e muitos deles “nem a esse apoio terão direito, porque os seus patrões não lhe faziam descontos”. O ano de 2005, segundo a AICCOPN, começou sem manifestar sinais de mudança, podendo ainda não ser este o ano da retoma. Casa da Música abre as portas Está marcada a abertura da Casa da Música para o dia 14 de Abril, colocando um ponto final nas derrapagens financeiras e nas polémicas que a envolveram desde a sua integração no projecto Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Para a inauguração estão previstas as actuação de Lou Reed, da Mariza e da Orquestra Nacional do Porto. A Casa da Música dispõe de um auditório com uma área total de 1100 metros quadrados, para 1238 lugares, com excelentes condições acústicas e técnicas. Ainda tem à disposição um pequeno auditório, sala vip, espaço NOTÍCIAS Página 15 cibermúsica, área destinada ao serviço educativo, centro de documentação, restaurante e bar, zona comercial, salas de ensaio e estúdios de gravação e parque de estacionamento. Fisco de olho na construção Os serviços tributários até ao fim do mês de Fevereiro irão avaliar mais de 100 mil imóveis vendidos no ano de 2004, de forma a detectar eventuais situações de subfacturação, e no caso de se verificarem irregularidades o sector da construção e dos promotores imobiliários deverá pagar mais IRC do que no ano passado. Se forem detectadas discrepâncias nos valores declarados nas vendas de imóveis, a diferença poderá entrar na contabilidade dos vendedores referente à actividade de 2004. Albergaria produz painéis solares A Solco Europe, a primeira fábrica de produção de painéis solares em Portugal, foi oficialmente inaugurada no dia 28 de Janeiro em Albergaria-aVelha, apesar de estar a funcionar desde Novembro de 2004. O investimento, que conta com capitais nacionais e estrangeiros, ronda os 1,5 milhões de euros e o objectivo é abastecer a Europa, sobretudo o mercado ibérico, com painéis solares fabricados sob licença de patente e tecnologia concebidas pela australiana Solco Industries Pty. A sua capacidade de produção anual é de 15 mil metros quadrados de área de colector solar, o equivalente a cerca de três mil unidades. Página 16 NOTÍCIAS Segundo o director técnico da empresa, Miguel Sousa, este tipo de produto começa a ser novamente procurado, recuperando o sucesso de há 15 ou 20 anos atrás e o descrédito dos últimos anos devido aos defeitos que apresentava. “Produzimos um painel duradouro, em peça única e com garantia vitalícia contra ferrugem e corrosão, que são problemas típicos de produtos similares, afirma o director. “Actualmente, perante factores como o custo dos combustíveis e as questões ambientais, há uma série de preocupações que este produto respeita. É uma energia limpa, não poluente”, acrescenta. A Solco Europe pretende conquistar o mercado pelos preços praticados, visto serem “20 a 30 por cento mais económicos do que os praticados pelas outras empresas do ramo”, assegura Miguel Sousa. Fiscalização de obras para os privados O vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Paulo Morais, pretende colocar, sob a forma de concessão, info nas mãos de empresas privadas parte da actividade de fiscalização de obras particulares na cidade, de acordo com informações apuradas em Janeiro. Esta decisão tem como base a recente sindicância a que a Divisão de Fiscalização do Urbanismo da Câmara do Porto foi submetida entre Outubro de 2003 e Julho de 2004, solicitada pelos responsáveis autárquicos. Os dados apresentados revelaram índices de ineficácia elevados dos serviços na demolição de edificações clandestinas e um número considerável de funcionários municipais a elaborar projectos para o sector privado e a apresentálos na câmara com outro nome. Face a esta solução, pretende-se que as empresas privadas acelerem a actividade de fiscalização das obras no Porto e aumentem o número de fiscalizações efectuadas sem que seja necessário ter mais funcionários ao serviço da autarquia. Paulo Morais ainda prevê que no futuro 60 por cento dos serviços de fiscalização sejam realizados por esses mesmos privados. Além desta decisão, foi também apresentada a vontade em estabelecer novas regras para as actividades fisca- info lizadoras, nomeadamente o poder em ser activadas por ordens superiores, por motivos de reclamações, queixas, denúncias e ainda amostragens. As empresas privadas poderão ainda efectuar inspecções e vistorias às obras, de forma a detectarem operações urbanísticas ilegais. O objectivo principal da Divisão de Fiscalização das Obras Particulares será assim a detecção de operações urbanísticas ilegais e a reposição da legalidade, contando para isso com o apoio da Polícia Municipal na execução dos embargos. Consequências da nova lei dos alvarás Cinco mil empresas perderam alvará e 1600 desceram de classe, estas são as consequências da entrada em vigor da Lei 12/2004. Numa entrevista ao jornal Público, publicada a 24 de Janeiro de 2005, o presidente do Instituto de Mercado de Obras Públicas e Particulares e do Imobiliário (IMOPPI), Hipólito Ponce de Leão, considera que mesmo assim o mercado continua desregulado e que há um longo caminho a percorrer. “Mas devo fazer uma ressalva: o número está sobredimensionado, mas não quer dizer que a força que existe não seja necessária para o sector. O que acho é que a organização não devia ser esta. Neste momento, com a quantidade de empresas que existe, não sei se não era de se juntarem para poderem trabalhar. Estou a falar de fusões, e não estou a pensar nas empresas de classe 9, como é habitual. Estou a pensar nas empresas de classe 1 e 2, que são a grande maioria”, explica. Quanto à tomada dessa medida, que é aliás discutida há algum tempo, Hipólito Ponce de Leão afirma: “nós fazemos o que podemos. Por exemplo, com a aplicação de novos indicadores económicos e com o aumento das exigências. O mercado já sabe que no próximo ano, na revalidação dos alvarás para 2006, as empresas até à classe 5 terão de apresentar uma autonomia financeira de oito por cento, e as empresas até à classe 9 terão de ter autonomia de dez por cento”. Quanto à crise do sector dos últimos três anos, o presidente do IMOPPI responde: “sem irmos impondo metas, e sermos ambiciosos nelas, o sector nunca ficará regularizado. Nós amenizamos as exigências, diminuímos os critérios que estavam até expressos na Lei 61/99, a pensar nas empresas e a darlhes tempo para se prepararem. É o que vamos continuar a fazer”. Associações apoiam perdas de alvarás As associações representativas do sector da construção apoiam a decisão de retirar alvarás a mais de cinco mil empresas, num universo das quase 25 mil que no ano de 2003 estavam habilitadas ao exercício da actividade. Manuel Agria, da Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas (ANEOP), considera: “nós só podemos aplaudir esse facto, porque um dos problemas do sector é estar enxameado de pseudo-empresas”. Na sua opinião, os preços praticados por essas empresas não só promoviam a concorrência desleal como prejudicavam a economia do sector e a nacional. “O prejuízo que elas traziam ao país e à economia é bem superior ao impacto que agora vai haver”. Para Rui Viana, presidente da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), esta medida já estava anunciada há muito tempo, não constituindo, por isso, nenhuma surpresa. Construtora do Tâmega liderou adjudicações em 2004 A Construtora do Tâmega, somando o valor de 137,9 milhões de euros, liderou as adjudicações em 2004, subindo quatro lugares na tabela anual. Ainda de acordo com os dados da Associação das Empresas de Construção Civil e Obras Públicas (AECOPS), do valor total de adjudica- NOTÍCIAS Página 17 ções, 110,5 milhões resultaram de obras adjudicadas a consórcios integrados por essa construtora. Com estes resultados, a empresa superou a Somague que acabou o ano com 117,9 milhões de euros em obras adjudicadas e a líder da tabela de 2003, a Teixeira Duarte, a qual desceu para o sétimo lugar, totalizando 52,9 milhões de euros em obras adjudicadas, isto é, aproximadamente metade que no ano anterior. Destacam-se ainda nas primeiras posições a Zagope com 107,7 milhões de euros, a Construtora do Lena com 83,2 milhões de euros e a Camilo de Amorim, a quem foram adjudicadas obras no valor de 79,3 milhões de euros. Dos dados apresentados pela AECOPS é ainda de referir que a Construtora Lena liderou com 51 adjudicações em número de concursos ganhos. Página 18 ENTREVISTA info Francisco Correia Velez Grilo, Engenheiro Electrotécnico O que é o avanço? info ENTREVISTA Página 19 Texto de Ana Ferreira • Fotos de Alfredo Pinto “depende do que se quer fazer. É uma questão de análise. Têm filosofias diferentes”. O primeiro é para evitar fazer contas e o segundo é para fazer contabilidade, explica o engenheiro electrotécnico. Assiste maravilhado com o que se faz com a electricidade, mas “o que é evoluir? É só mudar de posição”, “o que é criar? É arrumar o existente numa maneira diferente.” e “o que é investigação? É trazer para um meio coisas desconhecidas nesse meio”. Como “a palavra foi dada ao homem para se enganar”, nunca se compromete com palavras como invenção, desenvolvimento, avanço e certeza, pois estas podem ser ambíguas, incertas, equívocas, ou seja, podem não definir o que realmente se pretende afirmar. Por isso, o melhor é ter cuidado com elas. Todas as perguntas merecem uma explicação esclarecedora e um caso prático que sustente a resposta, daí a dificuldade em ser sucinto e em fazer afirmações curtas e simples. “Tenho a preocupação em provar com casos concretos que a afirmação tem a sua viabilidade em ser válida. Posso trocar as informações, talvez por ser um canhoto contrariado”, explica. O engenheiro recorre frequentemente a citações de pessoas especiais com quem cruzou no percurso pessoal e profissional. Ao longo da entrevista, manteve um bloco de folhas à frente, onde escrevia palavras-chave das perguntas e sarrabiscos. Sarrabiscos esses que desenvolviam e acompanhavam o raciocínio. Os números Francisco Correia Velez Grilo, um engenheiro electrotécnico que passou a maior parte da sua vida entre folhas de contas, réguas de cálculo e frequências moduladas, questiona aos 83 anos o que se passa em redor com a mesma facilidade e impulsividade que fazia quando era mais novo. O facto de ter assistido atentamente ao aparecimento de novos meios e instrumentos que provocaram alterações bem significativas na população mundial e na economia, leva-o a interrogar-se sobre as “voltas que o mundo dá”. O invento criado por Bell em 1876, o telefone, já pertence a um passado muito remoto. Até mesmo o aparecimento do telefone móvel, em 1973, parece ter sido há muito tempo, visto já existirem os telefones móveis da terceira geração. Actualmente, não se fala em analógico, mas sim Como “a palavra foi dada ao homem para se enganar”, Velez Grilo nunca se compromete com palavras como invenção, desenvolvimento, avanço e certeza, pois estas podem ser incertas. em digital, nem em redes fixas, mas em redes móveis. É um ‘novo mundo’ ao qual o engenheiro se tem adaptado, rejeitando ficar para trás na ‘carruagem do progresso’. Os números sempre foram a sua paixão, as telecomunicações o seu trabalho. Razões mais do que suficientes para apanhar esta ‘carruagem’ com satisfação. Tem no seu escritório de casa: um Macintosh e um IBM, as suas ferramentas actuais de trabalho, a acrescentar à caneta que nunca dispensa para sarrabiscar letras e números. E perante a pergunta “qual prefere?”, responde: “O gosto de fazer contas foi sempre o meu motor principal. Eu estudei Electrotecnia, porque foi a partir dela que aprendi a fazer mais contas e durante 46 anos leccionei, ultimos 30 como catedrático, Electrotecnia, com base nas contas. E continuo a fazer contas e a aprender a fazer contas”. E foi a paixão pelos números que conduziu Velez Grilo da aldeia alentejana de Ervedal, onde nasceu a 28 de Agosto de 1921, para o liceu de Évora e, mais tarde, para a Universidade do Porto, onde obteve a licenciatura em Engenharia Electrotécnica, em 1947. Mas antes de ir para o Porto, de onde nunca mais saiu, permaneceu em Coimbra a fazer os preparativos para Engenharia. O fascínio pela Universidade de Coimbra deriva do contacto com uns estudantes coimbrões em Évora e a opção pela Electrotécnica surgiu “um dia, já estava em Coimbra, um estudante de Engenharia disseme: «a electrotecnia, aquilo é que é ciência» e eu fui atrás dessa frase. Não me arrependo, mas não digo que aquilo é que é ciência, mas também não digo que não seja”. Já aposentado dos diversos cargos que exerceu ao longo da carreira profissional, ainda hoje o engenheiro só faz contas. Além disso, precisa de as fazer para actualizar a Teoria Vectorial do Sinal livro que está a preparar, mais uma vez, em parceria com António Manuel E. S. Casimiro e João António Correia Lopes. Tendo sido publicada a 2ª edição em Dezembro de 1989, é necessária a actualização. Velez Grilo recorre a uma frase do professor Pacheco de Amorim, mestre de Coimbra, para definir a sua paixão: “matemática não é fazer contas, isso é contabilidade. Matemática é evitar fazer contas.” E para o engenheiro fazer contas não é mais do que saber trabalhar com gráficos e estudá-los. Quanto à definição de engenheiro, Velez Grilo lembra o professor Almeida Garrett, o homem que introduziu o cimento armado em Portugal: “um engenheiro para ser bom tem de ter bom senso em primeiro lugar, em segundo lugar também deve ter bom senso e depois tem Página 20 ENTREVISTA info de ser bom técnico”. Steve Jobs da Macintosh e Sam Palmisano da IBM são exemplos disso. Na sua opinião há diferenças entre cientistas e engenheiros que devem ser realçadas. Sabino Domingues, amigo de infância que o acompanhou até ao fim da faculdade, uma vez perguntou-lhe: “já reparaste que quando queremos resolver um problema nunca estão nos livros?” - É nesta perspectiva que reside a diferença: “hoje é uma confusão tremenda. Os cientistas querem ser engenheiros e estes querem ser cientistas. E aí está a arte das aproximações, que é efectivamente a Engenharia. Mas para resolver um problema temos de saber que na Engenharia há estratificações, embora aja intercâmbio”, explica o engenheiro. O seu orientador de investigação da Universidade de Birmingham – experiência que realizou durante a preparação de doutoramento na Universidade do Porto, terminado em 1954 – dizia: “quando estamos a fazer o curso só há certezas, quando passamos para a investigação só há dúvidas”. Velez Grilo comprovou que de facto é assim e anos mais tarde, numa visita ao Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), conheceu um professor que reforçou essa ideia: “the absolute certaintly is a privilege of the uncultural mind” (“a certeza absoluta é um privilégio das mentes incultas”). Afirmação à qual responde: “só há duas entidades neste mundo que nunca erram: Nosso Senhor, porque é uma identidade perfeita, e os burros, porque têm sempre certezas, sabem sempre tudo”. Regressando à definição de engenheiro, considera que também existem diferenças entre o génio e o talento, o espírito sintético e o espírito analítico. “Ao longo da minha carreira dei 19 valores a dois alunos: um que depois veio a ser reitor da Universidade do Minho, e o outro professor da Faculdade de Ciências. O mais oposto possível, ao ponto de um deles ser o mais talentoso e o outro o mais genial. O professor Pacheco de Amorim dizia: «basta-me cinco minutos para fazer um exame a um aluno.» Ao talentoso podia-se fazer qualquer pergunta que ele respondia, mas se perguntasse mais alguma coisa para além da matéria dada nas aulas, não abria a boca. Ao outro perguntava qualquer coisa e começava a pensar o que seria ‘se’ou seja, ia um pouco mais além e colocava perguntas nas dúvidas. Ia atrás dos seus ‘feelings’ de uma forma extraordinária. Qual deles é o melhor? Ambos eram muitíssimo bons.” Um dos homens mais extraordinários que o engenheiro conheceu foi o professor Corrêa de Barros: “ele era o talento máximo, mas também não se pode deixar de dizer que era um génio”. Este foi o docente que leccionou a matéria do curso que mais gostou: Medidas Eléctricas. No ensino de esta disciplina e de outras, o engenheiro veio a suceder o seu “mestre”. A propósito do ensino e do programa curricular, conta um episódio recente com uma estudante que encontrou no autocarro e que estava a tirar especialização em Geometria: “esperava que me dissesse algo que ainda não soubesse, quando para meu espanto ela nunca tinha ouvido falar de outras geometrias para além de geometria eucladiana. Não quer dizer com isto que não saiba Geometria ou que não seja capaz de resolver os problemas, mas por concepções diferentes”. “Saber é poder” Durante a carreira de docente, Velez Grilo transmitiu aos seus alunos a importância em adquirir conhecimentos de uma forma incessante. Para ele “saber é poder” e, por isso, também em si alimentou a curiosidade em saber mais e em viver diferentes experiências profissionais. Além de ter sido professor do ensino superior, assumiu cargos administrativos universitários, chegando a ser director da Faculdade de Engenharia, de 1980 a 1982, e vice-reitor eleito da Universidade do Porto, de 1982 a 1985. O seu percurso profissional esteve muito ligado à rádio como consultor técnico, podendo-se bem dizer que foi um info homem da rádio. Passou pelas Rádio Club do Centro, Rádio Press, Rádio Satélite e Rádio Festival. Mas onde a sua colaboração foi mais intensa foi nos Emissores do Norte Reunidos. Trabalhou ali desde 1955 até à nacionalização da Rádio, depois passou a director técnico da Rádio Difusão Nacional até 1986. Aceitou missões especiais, como a sua nomeação pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para representante português do Grupo de Peritos de Telecomunicações, que trabalhou em Bruxelas, no estudo das possibilidades de Cooperação no Domínio da Investigação Científica e Tecnológica, em 1970. Nesse ano foi também nomeado vogal do Conselho Geral dos CTT, em representação do Ministro da Educação Nacional. Destacou-se no domínio da gestão de investigação, tendo assumido, por exemplo, a responsabilidade do projecto OPEX-OLYMPUS em Portugal na área da investigação e propagação das ondas electromagnéticas a frequências superiores a 10 GHz. A profissão permitiu-lhe viajar muito, principalmente quando trabalhava na área investigação da Comunidade Europeia. Foi ENTREVISTA Página 21 representante português no grupo de peritos de Telecomunicações da COST/CEE, cooperação no domínio da investigação científica e tecnológica, desde a sua fundação em 1970 e, posteriormente, no seu sucessor, o Grupo Técnico de Telecomunicações , durante vários anos. “Nesta altura, as telecomunicações estavam bem atrasadas em relação aos Estados Unidos e ao Japão. A Comunidade Europeia convidou todos os países que faziam parte da comunidade e outros que iriam ser. Portugal ainda não fazia parte e nomeou-me para integrar o grupo de peritos, no início da década de 70. Depois dentro do grupo ainda havia vários projectos, nos quais os diferentes países se inscreviam. A certa altura eu fui vice-presidente deste grupo de Telecomunicações e, em Portugal, a Junta Nacional de Investigação criou a COCEDE, equivalente à COST, que reuniu representantes dos diferentes ministérios. Propus e criou-se na COCEDE o grupo de peritos de telecomunicações português. Convidei as instituições interessadas em telecomunicações para o integrar: os CTT, o Serviço Meteorológico Nacional, a Marconi, o instituto superior Página 22 ENTREVISTA info técnico, a televisão (RTP), o exército e, fui mais longe, e convidei representantes da marinha. Tivemos um projecto muito interessante para Portugal, mas não foi possível realizá-lo: o trabalho com bóias de escuta submarinhas, que eram as mais valiosas de toda a Europa”. Com orgulho, Velez Grilo explica o projecto mais importante e o primeiro da COST: a previsão do tempo a médio prazo. Foi feito um grande investimento, que implicou a criação dos dois computadores mais potentes da Europa, um colocado na Alemanha e o outro no Reino Unido. A importância deste projecto reflectiu-a na aviação, na agricultura e em outras áreas, “com uma rentabilidade prevista de 1 para 20”. Além destes desempenhos profissionais, o engenheiro ainda teve tempo para fazer muito mais. Foi inclusive membro da Comissão de Admissão e Qualificação da Ordem dos Engenheiros de 1985 a 1988. Fez ainda parte de júris de concurso em várias universidades, participou em congressos, e é autor de publicações científicas e didácticas. “Nihil nove sub sole” “Nihil nove sub sole” (“Nada de novo debaixo do sol”) é a resposta de Velez Grilo quando questionado sobre as novas tecnologias. “Com que verdade é que eu falo da inovação? Todos brigam por causa da inovação. É questionável se é ou não inovação”. “Nós vivemos da experiência do passado, embora hajam pessoas que pensam que o mundo nasceu ontem. Já no tempo do Sócrates e de Aristóteles se ponham problemas que se colocam agora. No século XIX usavam-se os instrumentos de cálculo que se usam hoje, as matrizes”. A investigação do telefone móvel, por exemplo, que tem como ano de aparecimento 1973, já estava a ser feita há muito tempo, mas depois acrescenta-se a criatividade e surge algo novo. Para Velez Grilo: “dizer que o telemóvel não é uma grande realização, é uma loucura. Agora sobre o processo de funcionamento, já o meu professor me ensinava em 1940 quando estudava as modulações, as frequências. O processo eu já sabia, mas antigamente usavam-se válvulas, depois transístor, mais tarde fizeram-se milhões de transístores numa cápsula. Do ponto de vista do fabrico de meios houve uma evolução”. Lembrando que em 2005 celebra-se o primeiro centenário do trabalho da Teoria da Relatividade de Einstein, o engenheiro realça: “o instrumento de cálculo de Einstein era o cálculo tensorial e é natural que todos os cientistas que falam de Einstein que trabalhassem no tensor, mas ninguém fala mais do tensor.” Novas técnicas surgem para desenvolver o que já está a ser investigado há algum tempo, “mas às vezes está-se a fazer um retrocesso, quando se julga estar a avançar”, alerta. E aqui reporta-se à teoria de Oswald Spengler (1880-1936) sobre a decadência da Europa, sem dúvida, um grande contributo para a teoria social. Em traços gerais, o filosofo alemão defendia quatro idades culturais do mundo, que se desenvolveriam como organismos biológicos, com oito fases idênticas em cada uma: mítica, mística, reformista, préfilosófica, matemática, religiosa, racionalista e materialista. Concluiu que a cultura ocidental avança para o estádio final. A cultural atinge a maturidade com a civilização – indústrias, máquinas e falta de religião – e assim é destruída a tradição cultural. “Será que a Europa está efectivamente nesse caminho? Esta teoria não passa de uma teoria. Não é experimentalmente verificável.” O futuro das Telecomunicações passa obrigatoriamente por alguns caminhos, mas Velez Grilo não sabe quais são. “Ninguém sabe, só Deus, não me vou armar em profeta. Quando se fala do rumo a tomar é porque não se sabe o que se deve fazer e há duas respostas possíveis. Tinha um professor que dizia: «quando não se sabe o que fazer há duas hipóteses e se não sabe é porque estas são essencialmente iguais por isso qualquer uma delas é boa, mas, às vezes, nem se sabe quais são as hipóteses, que é o caso do que se vai passar no futuro, não se sabe quais são as opções». Eu quando não sei o que hei-de fazer trabalho. A pessoa humana é uma máquina tão perfeita que não há uma gota de suor que seja perdida. Ou a outra norma que o meu professor Corrêa de Barros dizia: «há uma grande maneira de não errar que é não fazer nada, mas esse é o pior dos erros. Esforçemo-nos para cada dia fazer melhor do que fizemos ontem, porque nessa altura estamos a fazer o bem»”. De facto, o engenheiro não prevê os caminhos do avanço, mas tem uma certeza: não lhe é possível fugir. Quanto à existência ou não de um controlo do avanço, esse é complicado. “Esses avanços tecnológicos estão a dar origem à possibilidade de explodir uma bomba em qualquer lado, com um simples carregar no botão. A liberdade poderá causar perigos. Mas o mal não é ter um avião ou uma arma, o mal é o uso que se dá. Há, porém, uma ‘arma’ importante: a formação de carácter. Tudo também depende do lugar onde se trabalha”. Na sua opinião o computador é um instrumento indispensável, mas admite que, por vezes, é utilizado incorrectamente. Aponta como outro exemplo de método pouco seguro, o uso da retina nos computadores dos aeroportos para identificação individual. Mesmo sabendo que podem ser utilizados para fins errados, Velez Grilo desde pequeno que está maravilhado com o que se faz com a electricidade, como, por exemplo, com os telemóveis e as televisões. Pedindo-lhe para eleger um objecto surgido no século XX, responde com rapidez: a caneta, o seu instrumento de cálculo para fazer contas. De seguida, escolhe um relacionado com a sua área profissional. “O computador é info um meio indispensável: máquina de escrever, fazer operações, estudos e previsões. Grande auxiliar de trabalho, é indiscutivelmente a grande inovação do século XX utilizada por todos. Mas o computador apareceu quando? Eu fiz com uma régua de cálculo todos as contas que precisava durante o meu curso, hoje não há nenhuma operação que não fosse feita na altura. Mas os meios é que são diferentes”. Reportando-se novamente ao avanço tecnológico, desta vez refere-se ao papel que Portugal poderá assumir no mercado internacional no sector das Telecomunicações. “Há coisas espantosas em Portugal e feitas por portugueses. Na FEUP área das Telecomunicações há grandes técnicos”. Na opinião do engenheiro, o problema reside nos milhões de programadores indianos que estão ao serviço de empresas norte-americanas, constituindo para estas uma mão-de-obra barata. Contrariando, assim, a ideia de que no sector nacional das Telecomunicações não existem meios técnicos e humanos eficazes, Velez Grilo vai mais além e manifesta a sua confiança no trabalho feminino. Não concorda em absoluto com as afirmações do reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, segundo as ENTREVISTA Página 23 quais os homens são detentores de um raciocínio matemático mais desenvolvido e que estão mais ligados às áreas de engenharia e matemática. “Um dos espíritos mais científicos, mais extraordinários neste mundo foi Marie Curie. Na minha experiência como estudante e professor de Medidas Eléctricas comprovei que madame Curie para cada medida magnética que tinha de fazer criava um processo novo e eficiente”. Pela sua própria experiência, quer profissional quer pessoal, o engenheiro acredita que a mulher possui um grande potencial para comandar. A história mundial prova a existência de mulheres que assumiram papéis relevantes, porém nem sempre visíveis. Este poder feminino deriva, segundo Velez Grilo, ao facto de ser ela quem assegura a conservação da espécie, do indivíduo. “As mulheres é que tomam conta dos filhos e dessa relação cria-se um laço íntimo”. Al Capone é um bom exemplo. “Ele é o maior génio do ponto de vista negativo, porque o Governo norte-americano não foi capaz de o condenar por qualquer crime, a não ser por fuga aos impostos, e a mãe mandava e ele obedecia cegamente”. Página 24 DESTAQUE info info DESTAQUE Página 25 Professor Sampaio Homenageado na FEUP A Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OREN) e o Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), com o apoio da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) e da Associação dos Antigos Alunos de Engenharia Civil da FEUP (AEC-FEUP), promoveram, no dia 14 de Janeiro, no Auditório da FEUP, uma homenagem ao Professor Joaquim da Conceição Sampaio, uma das mais ilustres personalidades da Engenharia Civil portuguesa, falecida a 14 de Outubro de 2004. Uma oportunidade ímpar para se prestigiar o percurso de vida de um homem que nasceu em Ramalde a 15 de Fevereiro de 1924 – embora o seu nascimento só tenha sido registado a 14 de Junho –, e que se tornou num exemplo para todos os que fazem da Engenharia a sua área de trabalho. Desde a passagem pela escola primária já se podia adivinhar que Joaquim Sampaio viria a ser bem sucedido quando se fizesse homem, não só pelo empenho e dedicação que o caracterizavam, mas pelas elevadas qualidade humanas. Licenciou-se em Engenharia Civil na FEUP a 19 de Novembro de 1948, mantendo-se vinculado a esta instituição desde essa época até Junho de 1994, data da sua jubilação. Passou por Paris, onde realizou um estágio em 1953, doutorou-se em Engenharia Civil dois anos mais tarde e, posteriormente, dedicou-se à investigação – tornando-se num especialista na área de comportamento das peças de betão armado e betões e ligantes hidráulicos –, ao ensino e, a par da carreira académica, desenvolveu actividade na área da Engenharia Civil. Estes foram alguns dados biográficos do Professor Sampaio referidos pelos discursantes na sessão de homenagem. Além destes factos, também não foi esquecido o importante papel que desempenhou no Laboratório de Ensaio de Materiais da FEUP, do qual foi director de 1974 a 1997 – a ele ligado mais de 40 anos, tendo tornado as suas visitas menos assíduas por motivos de saúde – e a sua colaboração como consultor de empresas como a Tecnopor e Soares da Costa. A cerimónia contou com a presença de inúmeras figuras públicas, das quais se destacaram o Secretário de Estado das Obras Públicas, Engenheiro Jorge Costa, o Reitor da Universidade do Porto, Professor Novais Barbosa, e o Director do Departamento de Engenharia Civil e o representante do Director da FEUP, Professor José Ferreira O Professor Sampaio foi um especialista na área de comportamento das peças de betões armado e hidráulicos. Lemos. A OERN fez-se representar pelo seu Presidente da Mesa da Assembleia, Engenheiro Luís Braga da Cruz, o qual também proferiu algumas palavras. Na mesa da sessão ainda se encontravam o Presidente do CSOPT, Engenheira Natércia Cabral, o Presidente da Associação dos Antigos Alunos de Engenharia Civil – FEUP, Engenheiro João Porto, o Presidente da AICCOPN, Rui Viana, o Presidente do IMOPPI, Engenheiro Ponce de Leão, e o Professor Catedrático jubilado da FEUP, Joaquim Sarmento. Além dos testemunhos de algumas individualidades que constituíam a mesa – dos quais são apresentados extractos nas páginas seguintes –, ainda discursaram nomes que foram mais chegados ao homenageado: os Professores Álvares Ribeiro, Guedes Coelho e Conceição Nunes e o Engenheiro Esteves Ferreira. Todas as intervenções, que de uma forma ou de outra relataram uma ligação ao homenageado, comoveram a plateia que encheu o Auditório da FEUP. Sentada na fila da frente estava a companheira de mais de 50 anos do Professor, Srª. D. Palmira da Rocha Pinto e Sampaio, com quem casou a 24 de Outubro de 1951. Outros familiares, amigos, colegas de profissão não quiseram faltar ao evento para mais uma vez recordar a vida e o trabalho do Professor Sampaio. E os presentes que nunca conviveram com ele muito terão aprendido nesta cerimónia. Todos os discursantes foram unânimes em realçar o “espírito prático” do “engenheiro de corpo inteiro”, cuja “perda é enorme e insubstituível”. Até aspectos mais pitorescos do engenheiro foram salientados, como o uso diário do chapéu para tapar a calvície. A sessão de homenagem foi enriquecida pela projecção de um slide-show, ao mesmo tempo que decorriam os discursos. Eram exibidas imagens do engenheiro em vários momentos da sua vida e alguns dos seus trabalhos de construção e reabilitação na área de Engenharia Civil, como, por exemplo, o Campanário da Igreja da Senhora da Hora, o Instituto Politécnico de Portalegre (em co-autoria) e a reabilitação do Castelo de Vila da Feira e do Mosteiro de Grijó. O slide-show era ainda constituído por fotografias referentes ao ensaio de carga da ponte móvel do Porto de Leixões entre Matosinhos e Leça da Palmeira (1959); ao ensaio do comportamento da pista do Aeroporto do Porto (1961); ao ensaio de carga do viaduto da Rua Gonçalo Cristóvão e da Rua de Camões no Porto (1962); e ao ensaio de carga da passagem inferior do caminho-de-ferro em Custóias da linha da Póvoa de Varzim (1982), entre outras. Após os depoimentos no auditório, os presentes foram convidados a dirigir-se ao Laboratório de Ensaios de Materiais da FEUP para assistir ao descerramento de uma placa de homenagem ao professor Sampaio, outro ponto alto da cerimónia de homenagem. Este evento também serviu de pretexto para o lançamento de “Memórias – Joaquim Sampaio”, uma biografia e uma compilação de depoimentos de familiares, amigos e colegas do homenageado. A referir ainda que nesta obra pode ler-se um extracto da última lição proferida pelo professor, na FEUP, a 1 de Junho de 1994. O livro está à venda na OERN e é o primeiro volume de uma colecção, que esta ordem profissional se propõe lançar sobre a memória de engenheiros portugueses que se notabilizaram no exercício da profissão. Página 26 DESTAQUE info “O Senhor Professor Joaquim da Conceição Sampaio fez parte de uma geração de grandes mestres da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto com quem todos nós muito aprendemos. Geração essa que projectou bem alto quer o nome da Faculdade quer o curso de Engenharia Civil e que muito contribuiu para a grande aceitação deste curso por parte da comunidade técnica e científica. (...) Foi um grande impulsionador e um grande promotor do Laboratório de Materiais, que ficará para sempre associado ao seu nome. Nos anos 90 tive o privilégio de apoiar a organização da sua última lição no exercício das funções que hoje em dia desempenho de novo; pude testemunhar o enorme prestígio que gozava e o grande carinho que o envolveu nesse evento que nos deixou grandes recordações. O seu saber, a sua disponibilidade constante e a sua amizade marcaram profundamente diversas gerações de nossos alunos e hoje em dia nossos colegas que viam sempre o Professor Sampaio como um mestre e um amigo sempre ao dispor. É assim com grande saudade e emoção que recordo hoje o Senhor Professor Joaquim da Conceição Sampaio, grande personalidade da Engenharia Civil, que durante a sua vida académica muito engrandeceu a nossa Faculdade de Engenharia”. Professor Ferreira Lemos, Director do Departamento de Engenharia Civil e representante do director da FEUP “...Acima de tudo os símbolos das instituições, aqueles que dão sentido e que ajudam a afirmar-se, os que lhe dão alma são as pessoas e as pessoas fundamentalmente numa escola superior são as pessoas. E o Professor Sampaio faz parte da alma desta Faculdade. (...) Quando se homenageia alguém é costume fazer um apelo às suas qualidades, às suas qualidades pessoais, às suas qualidades humanas, à dedicação, às causas, aos atributos pessoais de natureza mais evidente: a inteligência, a capacidade de organizar, ao valor pedagógico, a capacidade profissional. Ao Professor Sampaio era reconhecido tudo isso e é justo hoje invocálo, mas além disso havia algo nele que ninguém, aluno, colega ou engenheiro ou simples amigo podia ficar indiferente. Eu refiro-me particularmente à forma calorosa que sempre nos tirou dúvidas, sendo alunos ou sendo mais tarde engenheiros; à sua generosidade, à sua atitude de permanente simplicidade perante a vida e perante as dificuldades técnicas. (...) E finalmente um toque de carácter pessoal. O Professor Sampaio tinha um respeito por todas as outras pessoas, nomeadamente com as crianças. Recordo-me que às vezes, quando éramos mais novos, tínhamos de trabalhar ao sábado e eu às vezes levava os meus filhos mais pequenos e uma das minhas filhas com 3 ou 4 anos. Ela para se entreter fazia uns inquéritos para as pessoas preencherem e o Professor Sampaio viu aquilo e submeteu-se a preencher o inquérito como se tratasse de uma matéria séria.” Luís Braga da Cruz, Presidente da Mesa da Assembleia da Ordem dos Engenheiros – Região Norte “Falar de Joaquim Sampaio é como muito bem escreveu o meu companheiro de direcção, o Engenheiro Reis Campos na publicação editada sobre o homenageado é revisitar a segunda metade do século XX da Engenharia portuguesa, e em particular a sua acção na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. (...) Mas Joaquim Sampaio não foi apenas um teórico, um formador de engenheiros de raras qualidades e capacidades. Ele percebeu desde sempre a importância de ligar a universidade às empresas e por isso, ao longo da sua vida, prestou valiosos serviços enquanto consultor a muitas das associadas da AICCOPN. (...) É pois, pelo muito que fez pela Engenharia Civil portuguesa e por todo o sector da construção civil, que o Professor Doutor Joaquim Sampaio nunca poderá ser esquecido. Deverá, isso sim, ser uma referência para actuais professores e alunos da FEUP, bem como para todos quantos fazem da construção a sua vida e acreditam que, dessa forma, poderão contribuir para um país mais desenvolvido e consequentemente uma sociedade mais feliz. Para concluir apenas quero reforçar a ideia que a AICCOPN, enquanto associação representativa de mais de oito mil empresas de construção civil e obras públicas, se info sente muito honrada em se associar a esta homenagem póstuma ao Professor Doutor Joaquim Sampaio, insigne engenheiro e distinto professor, que ao marcar de forma indelével tantos nossos engenheiros civis, estes não deixarão também de continuar a honrar a sua memória na actividade diária das suas empresas”. Rui Viana, Presidente da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas do Norte “Cheguei ao Porto no princípio de Novembro de 1961, para frequentar o 4.º ano do Curso de Engenharia Civil. Foi nessa altura que conheci o Professor Joaquim da Conceição Sampaio, então regente da cadeira de Materiais de Construção. (...) Mas o meu contacto com o Professor Joaquim Sampaio não se limitou ao período em que fui seu aluno, nem à vivência posterior do dia-a-dia da Faculdade. Na sua actividade profissional, ele participava frequentemente, como projectista de Estruturas, nos projectos de Arquitectura do Professor Barbosa de Abreu; a partir do momento em que eu passei a colaborar de forma permanente com este último, passei também a ter o privilégio de conviver profissionalmente com o primeiro, ainda que em regime intermitente. (...) Sem prejuízo do seu rigor científico, dir-se-ia que a sua característica profissional mais marcante era o seu espírito prático, a forma como resolvia os problemas e a segurança com que o fazia. Se tivermos em conta que a Engenharia só se concretiza nas obras, teremos de concluir que o Professor Joaquim da Conceição Sampaio foi no mais amplo sentido das palavras um engenheiro de corpo inteiro!” João Porto, Presidente da Associação dos Antigos Alunos de Engenharia Civil – FEUP “Como disponho da prerrogativa da representação da Universidade do Porto, desejaria nesta qualidade de formalizar a homenagem sentida desta instituição ao Senhor Professor Doutor Joaquim da Conceição Sampaio recordando-o como académico e como profissional de Engenharia que honrou sobremaneira a sua Faculdade e a sua universidade ao DESTAQUE Página 27 longo de toda uma carreira verdadeiramente exemplar que nem mesmo a implacável imposição legal da jubilação logrou interromper. (...) O Senhor Professor Doutor Joaquim Sampaio pautou o seu desempenho por uma intervenção muito acima do normal, que deverá ser salientada como um importante contributo para que tal meta não se transforme numa simples utopia. E fê-lo mesmo antes de a declaração em causa, certamente já presente na mente dos seus melhores, ter sido vertida nos estatutos da Universidade do Porto. Pretende-se, no entanto, um depoimento pessoal decorrente de uma convivência de longos anos com o Senhor Professor Doutor Joaquim Sampaio. Período em que se apresentou como Mestre; em que foi conselheiro; em que, para efeitos formais e a partir de certa altura, terei de me atrever a considerar como par; mas em que, acima de tudo, foi um amigo. (...) Estava-me reservado um privilégio ainda maior do que ter sido aluno do Engenheiro Sampaio. Foi-me dada a oportunidade de ser colaborador seu e do Professor Joaquim Sarmento, em projectos que elaboraram em conjunto no escritório que partilhavam na Rua da Alegria.” José Novais Barbosa, Reitor da Universidade do Porto “O Engenheiro Sampaio era uma personalidade pela qual a vaidade não tinha passado. A sua modéstia era flagrante e reconhecia-se em todas as circunstâncias. Desprovido de preocupações de destaque, quantas vezes se aquietava no silêncio, na sua modéstia, pois a exibição pessoal não constava do seu processo vital. (...) Depois da aposentação manteve-se ainda uma contribuição muito importante, além de que outros interesses científicos continuaram a atrair o seu pensamento. Todas as inovações tecnológicas eram por ele recebidas com muita curiosidade e despertavam pesquisas específicas para o seu esclarecimento. (...) O seu tempo era dividido entre as obrigações e as devoções. Sem pressas, com a calma que lhe era peculiar. O futebol era uma actividade das suas preferências. Não é verdade que ficasse mal-humorado quando o F.C. Porto Página 28 DESTAQUE info perdia, era superior a essas contingências. Em prática pessoal desportiva, penso que não estava para grandes maçadas, era mais inclinado para a contemplação e a única manifestação muscular, que me lembro, foi num jogo de malha que nós promovemos ao fim da tarde. O seu swing era convincente. Tinha estilo e vigor. Ele era vencedor. Tentei persuadi-lo para o golfe, assegurando-lhe um handicap ganhador. Não o convenci. No quartel das devoções, estava um nobre culto das velhas amizades que ele tinha reunido ao longo do seu percurso e como é óbvio os seus desvelos inexcedíveis quanto à família, os componentes de raiz e aqueles que estabeleceu como se fossem seus bons amigos. O padecimento dos seus dois últimos anos foram de grande coragem e resignação como só se encontram nos espíritos superiores”. Joaquim Sarmento, Professor Catedrático Jubilado da FEUP “Nesta homenagem ao Professor Sampaio, ao Engenheiro Sampaio como nós tratamos, pensei que teria interesse em referir com um certo pormenor um relatório que ele elaborou no Laboratório de Ensaio de Materiais em 1960, que é o relatório 3690, que é também publicado nas actas desta reunião. Ele preparou com todo o cuidado no Porto esse trabalho que era Ensaio de Carga da Ponte de Serviço da Bemposta ( Douro Internacional), que tem muito interesse até histórico, porque os ensaios foram feitos em Outubro e Novembro de 1960. Há quase 45 anos. Os trabalhos de ensaio “in situ” começaram a 26 de Agosto de 1960 e demoraram 3 dias e tal, aproveitando o fim de semana, porque de facto foram muito bem preparados no Porto. As provas dinâmicas começaram às 19h de sexta-feira, dia 26 de Agosto de 1960 e utilizaram-se os camiões dumper que existiam no estaleiro.(...) Nas provas estáticas foram utilizados também três camiões dumper e foi também necessário fazer rapidamente os ensaios, porque a ponte era precisa (...) Um dos aspectos, de que depois vou mostrar alguns slides, que tem muito interesse para mim, que acompanhei os ensaios todos como autor do projecto, foi quando passado dois anos houve uma cheia excepcional. (...) O que eu aprendi com essa cheia é que a ponte resistiu bem, havia uma certa garantia mesmo que houvesse uma cheia excepcional, superior à de 1909. Álvares Ribeiro, Professor Catedrático Jubilado da FEUP “Dizia que conheci o Sampaio em 1950, no entanto conclui este Natal que poderia e tive oportunidade de o conhecer antes, porque ambos fomos contemporâneos no Liceu Rodrigo de Freitas. Uma filha minha ofereceu-me no Natal Liceus de Portugal, de Edição Asa, 2003. No livro são apresentadas histórias dos liceus, instalações, etc., e uma rubrica designada Alunos de que o liceu guardou memória são referidos, entre outros, nas décadas de 40 e 50, nomes de três colegas de turma: Casimiro Águeda de Azevedo, Joaquim da Conceição Sampaio e Joaquim Von Haff e o meu próprio, mais novo, por isso já fora deste grupo. Esta referência permitiu-me tirar duas conclusões. Primeiro, fomos contemporâneos. Tive a oportunidade de o conhecer nessa altura e que o Sampaio foi distinto no liceu e na Faculdade. Na Faculdade foi distinto porque foi convidado e no liceu foi distinto porque fez parte desta lista especial. (...) Colaboramos realmente um com o outro numa camaradagem exemplar. Nunca disputamos nada, lugares ou cargos, e sempre nos apoiamos. Acompanhei as suas provas de doutoramento e o concurso para professor extraordinário e ele as minhas. Posso garantir que nos apreciávamos mutuamente. Ambos ficamos muitos anos como primeiros assistentes e professores extraordinário e acedemos na mesma altura à carta para o efeito de delegamento dos quadros. Aliás houve um período em que o Sampaio e eu fomos os únicos assistentes do primeiro grupo. Aristides Guedes Coelho, Professor Catedrático Jubilado da FEUP “A minha relação com o Professor Sampaio, no princípio da década de 90, fins da década de 80, está relacionada com a normalização dos betões. A normalização dos betões estava entregue naquela altura à Associação Técnica da Indústria de Cimento, que pediu ao Laboratório um presidente da Comissão Técnica e fui indicado então para presidir a essa comissão e aí encontrei o Professor Sampaio. Do Professor Sampaio, uma das notas mais relevantes, info além da sua competência inata, era a sua permanência em todas as reuniões. (...) Outro aspecto do meu relacionamento com ele foi as sessões de divulgação das normas. A Associação Técnica da Indústria de Cimento realizou diversas reuniões em todo o país e um dos elementos constante nessas sessões era o Professor Sampaio. Tinha uma sensibilidade especial para falar à audiência, uma sensibilidade espantosa para perceber qual era o grau de dificuldade que tinha de dar às suas palavras. Eu tinha vindo de 30 anos de fazer ensaios em modelos de barragens e portanto sentia necessidade em explicar porquê que os ensaios deviam ser feitos e ele disse-me: “- Ó Professor Ferreira você já viu a cara das pessoas? Veja se consegue falar mais amigavelmente”. Manuel Esteves Ferreira, Investigador Coordenador do LNEC e Presidente da CT 104 – Betões “Conhecemo-nos há mais de 40 anos, do Doutoramento Honoris Causa do Engenheiro Manuel Rocha, mas foi em consequência dos meus filhos e do seu afilhado frequentarem a mesma escola que nos aproximámos. Não foi portanto na qualidade de docente desta casa, onde leccionei durante seis anos duas disciplinas: Organização e Administração e Economia Política, que tive a sorte de conhecer mais pessoalmente Joaquim Sampaio. portanto, o meu testemunho não é técnico nem científico, esse foi dado pelos que me antecederam. O meu testemunho é apenas humano. George Washington disse que uma verdadeira amizade é como uma planta que se desenvolve lentamente e foi assim que aconteceu no que nos respeita. acabamos por fazer férias e passeios juntos, o que me permitiu reconhecer as suas qualidades como homem. (...) Sampaio revelava em seu qualquer pequeno gesto a sua aguda inteligência e espírito de observação. Era um homem simples, calmo, equilibrado, mas alegre e sempre pronto a dar uma piada e nada interessado em ser projectado para a ribalta. A política pouco lhe interessava, para além de tema de simples conversação. A sua vida familiar era o centro dos seus interesses, para além do futebol. E infelizmente estamos habitados a ver homenageados que andam pelas luzes da ribalta. (...) DESTAQUE Página 29 O mais que pude trazer aqui foi o testemunho de um amigo. Ramón y Cajal disse que os amigos como os dentes: vamos perdendo durante os anos, nem sempre sem dor. Este perdemos com grande mágoa”. Conceição Nunes, Professor Catedrático Jubilado da FEC “Eu fui também aluno do Professor Sampaio como é sabido, por isso o meu gosto reforçado por estar aqui e puder associar-me a esta iniciativa. (...) Acho que saímos todos daqui mais ricos por conhecer melhor a vida de um homem que é um exemplo. Eu penso que não haverá muitas personalidades relativamente à vida das quais seja possível durante quase duas horas prender a atenção da assembleia da forma que aconteceu relativamente ao Professor Sampaio. É bem evidente a vida de exemplo que foi para todos nós. (...) É acima de tudo um acto de justiça homenagear um engenheiro distinto, um professor prestigiado e um investigador de grande prestígio nacional e internacional que marcou indelevelmente várias gerações de engenheiros formados nesta instituição desde os anos 40. (...) A minha presença aqui visa reconhecer o mérito e o trabalho desenvolvido pelo professor Joaquim Sampaio ao longo da sua vida académica e profissional. Entende o Governo que sendo merecido o destaque deve também ser devidamente publicitado e dado a conhecer à sociedade em geral para que, apontado como exemplo a seguir, possa constituir a semente que vai gerar o aparecimento de outros que prestigiem a actividade da construção em geral e da profissão de engenheiro em particular, porque o país também beneficia com aqueles que de entre os seus mais se notabilizam. E seguindo os ensinamentos e a atitude de empenho e de rigor do Professor Joaquim Sampaio teremos cada vez mais trabalhadores qualificados, empresas modernas e competitivas, institutos superiores e universidades de grande qualidade e as cidades portuguesas mais funcionais e seguras.” Jorge Costa, Secretário de Estado das Obras Públicas Página 30 VIDA ASSOCIATIVA info info VIDA ASSOCIATIVA Página 31 Texto de João Baptista 5º Colóquio Internacional sobre Segurança e Higiene do Trabalho Realizou-se nos dias 24 e 25 de Fevereiro de 2005, no Auditório da FEUP, no Porto, o 5º Colóquio Internacional sobre Segurança e Higiene do Trabalho. Este colóquio foi organizado conjuntamente pela Ordem dos Engenheiros – Região Norte, a FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a APSET – Associação Portuguesa de Segurança e Higiene do Trabalho e contou com a presença, na sessão de abertura, de Sua Excelência, o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Eng. Fernando Santo. O programa científico integrou cinco sessões proferidas por alguns dos melhores especialistas reconhecidos nos diferentes domínios, 20 comunicações orais divididas por cinco sessões científicas: A formação de profissionais de SHST como pilar fundamental da prevenção de riscos; O impacto da legislação de SHST nas empresas e na actividade dos profissionais de SHST; Análise dos acidentes de trabalho e das doenças profissionais; A abordagem da SHST através dos equipamentos de trabalho; Boas práticas na prevenção de riscos profissionais. Este programa contou ainda com a realização de uma mesa redonda dedicada ao tema “Qualificação de Coordenadores de Segurança no Trabalho da Construção”, que foi bastante participada, uma vez que este tema está na ordem do dia. Os temas a abordados reflectiram, assim, pela sua actualidade, as grandes questões que hoje se colocam à SHT, em particular na União Europeia e em Portugal. A organização registou com agrado o interesse e o sucesso desta iniciativa, uma vez que o número de participantes superou as expectativas, cerca de 400 participantes. A acrescentar a este facto, e porque a actualidade do tema assim o merece, o Presidente do Conselho Directivo da Região Norte da Ordem dos Engenheiros, Eng. Gerardo Saraiva, lançou o desafio, na sessão de encerramento, para que no próximo ano se repita este colóquio. Engenheiros querem obras vigiadas Mais segurança é uma das conclusões a que os engenheiros do Norte chegaram no 5º Colóquio Internacional sobre Higiene e Segurança no Trabalho, que durante dois dias teve como ponto central a sinistralidade laboral em Portugal, particularmente na construção civil. Segundo dados oficiais, a sinistralidade laboral no país é quase o dobro da média europeia e o sector da construção civil é o mais atingido, com 30 por cento dos acidentes mortais (83 casos em 2004). Face a estes números, torna-se urgente a alteração das normas vigentes, sobretudo no que refere à legislação actual, que em muitos casos está “dispersa, descoordenada e contraditória”. Alfredo Soeiro, presidente do colóquio, considera que todos os agentes envolvidos em práticas com maior risco de sinistralidade devem participar na alteração dessas leis, “e não apenas em fase de debate público”. A obrigatoriedade dos responsáveis nas obras aliarem conhecimentos sobre sinistralidade laboral a uma formação em construção civil é a “trave-mestra” que se pretende colocar em prática no futuro. De acordo com a legislação actual exige-se apenas que os coordenadores de segurança de obras tenham uma formação na área de Higiene e Segurança no Trabalho. Para Gerardo Saraiva, presidente da Ordem dos Engenheiros – Região Norte, para se obterem resultados na diminuição da sinistralidade é fundamental que um licenciado passe a “dominar técnicas de construção de modo a melhor prevenir acidentes de trabalho”, e que seja incentivada uma mentalidade de segurança. Promover a transparência no sector da construção e agilizar o processo de licenciamento foram outros pontos debatidos durante o colóquio. “Há um descrédito generalizado dos utentes em relação aos nossos produtos finais”, sendo preciso reforçar a confiança que deve existir em torno da construção. Esta afirmação foi feita pelo professor Hipólito Sousa, que ainda salientou que “Higiene e Segurança não é um domínio menor” e, por isso, deve ser tratado da mesma forma que as outras questões colocadas ao sector. A Info no próximo número integrará artigos de fundo sobre as conclusões deste colóquio. Plano de Formação Profissional Financiada A Ordem dos Engenheiros deve certificar perante a Sociedade a competência profissional dos seus membros, através de uma rigorosa e exigente Qualificação Profissional e também contribuir para uma melhor formação e actualização dos Engenheiros. A Ordem tem assim como propósito fundamental contribuir para o progresso da engenharia, estimulando os esforços e competências dos seus associados nos domínios científico, profissional e social, bem como, o cumprimento escrupuloso das regras de ética profissional. Um dos objectivos principais da Ordem dos Engenheiros é promover o nível de qualificação dos activos empregados ou em risco de desemprego, que carecem de reciclagem ou de actualização das suas competências, fase à iminente obsolescência dos seus conhecimentos, assim como, daqueles que necessitam de um aprofundamento dessas competências, numa perspectiva de inovação organizacional ou de adaptação a novos equipamentos, métodos ou contextos de trabalho inerentes ao desenvolvimento empresarial. Neste contexto, e na sequência duma candidatura apresentada ao Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social (POEFDS), a Ordem dos Engenheiros Região Norte leva a cabo durante o ano de 2005 um Plano de Formação Profissional Financiada destinado especificamente aos seus membros. Página 32 AGENDA info ENCONTROS 17 MARÇO LOCAL: PORTO ORGANIZAÇÃO: OERN ASSEMBLEIA REGIONAL NORTE DA ORDEM DOS ENGENHEIROS Eng. Rui Sequeira, da empresa SIG2000 20 DE ABRIL - Sistemas de Informação Geográfica e GPS na gestão de situações críticas. Dr. Hugo Dias, da empresa PH-Informática As palestras realizam-se no Auditório da sede da OERN, às 18h, e são abertas ao público em geral. 13 A 17 JUNHO 21 MAIO LOCAL: FEUP ORGANIZAÇÃO: FEUP DIA DA GRADUAÇÃO A Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto tem já agendada para 21 de Maio de 2005 a cerimónia festiva do Dia da Graduação. Neste dia entregamos as cartas de Doutoramento, de Mestrado e de Licenciatura aos Doutores, Mestres e Licenciados, que obtiveram o seu grau no ano civil anterior. É também nesta ocasião que homenageamos os que por jubilação ou aposentação se retiraram do serviço activo durante o ano de 2004. Todos os anos uma figura de relevo da universidade, da investigação, do mundo empresarial ou da sociedade portuguesa em geral, é convidada a participar neste evento. CONGRESSOS E SEMINÁRIOS LOCAL: FEUP ORGANIZAÇÃO: FEUP e Department of Information System and Computation of the Polytechnic University of Valencia. 17TH CONFERENCE ON ADVANCED INFORMATION SYSTEMS ENGINEERING (CAISE’05) Realiza-se entre 13 a 17 de Junho de 2005, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a 17th Conference on Advanced Information Systems Enginnering (CAiSE’05). A conferência pretende ser um fórum de discussão, apresentação e troca de resultados e experiências na área da investigação de “Information Systems Engineering”, que irá reunir entre 300 a 400 investigadores oriundos de todo o mundo. O evento é organizado pela FEUP em parceira com o Department of Information System and Computation of the Polytechnic University of Valencia. Mais informações em: http://gnomo.fe.up.pt/~caise/index.php 28 DE FEVEREIRO A 5 MARÇO LOCAL: FEUP ORGANIZAÇÃO: FEUP SEMANA ABERTA FEUP 2005 A Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto recebe de 28 de Fevereiro a 5 de Março de 2005 a Semana Aberta 2005. A iniciativa abre assim as portas da FEUP aos jovens do ensino secundário por forma a cativá-los para a Engenharia e para as inúmeras potencialidades dos cursos de Engenharia. À semelhança do que aconteceu em anos anteriores espera-se a visita de várias escolas do país. Conferências e visitas guiadas são algumas das propostas que a apresentar. 16 MARÇO E 20 ABRIL LOCAL: Auditório da sede da OERN ORGANIZAÇÃO: Colégio de Engenharia Geográfica - OERN PALESTRAS COLÉGIO DE ENGENHARIA GEOGRÁFICA O Colégio Regional de Engenharia Geográfica promove duas palestras técnicas sobre aplicações de Sistemas de Informação Geográfica, cujos temas deverão ser de interesse para diversas especialidades de Engenharia. 16 DE MARÇO - Os Sistemas de Informação Geográfica na gestão dos sistemas multimodais de transporte 21 A 23 JUNHO LOCAL: FEUP ORGANIZAÇÃO: FEUP e Sociedad Española para la Defensa del Patrimonio Geológico y Minero SIMPÓSIO SOBRE MINERAÇÃO E METALURGIA A Sociedad Española para la Defensa del Patrimonio Geológico y Minero, em parceira com uma equipa de trabalho que envolve elementos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, realiza o Simpósio sobre Mineração e Metalurgia, de 21 a 23 de Junho de 2005. Este evento visa dinamizar e congregar esforços no sentido da promoção da investigação e preservação dos patrimónios mineiro e metalúrgico antigos no sudoeste europeu. A 3ª edição deste simpósio será realizado na cidade do Porto, nas instalações da FEUP. O objectivo da iniciativa, marcada por uma colaboração entre instituições Ibéricas, é permitir um desenvolvimento futuro de dinâmicas conducentes a uma melhor identificação e preservação das raízes mineiras e metalúrgicas que marcaram o passado da actividade humana na Península Ibérica. Mais informações em: http://www.ippar.pt/conferencias/simposio2005 info 25 A 28 JULHO LOCAL: UTAD ORGANIZAÇÃO: COLÉGIO DE ELECTROTECNIA DA OERN EFITA/WCCA 2005 JOINT CONFERENCE A conferência conjunta EFITA/WCCA 2005 constituirá um fórum privilegiado onde investigadores e profissionais poderão trocar informação sobre os desenvolvimentos e aplicações das Tecnologias da Informação na agricultura. Os principais objectivos que se esperam alcançar com a realização deste evento são a promoção do uso das novas tecnologias, a divulgação do estado da arte no uso de ferramentas de software, o estabelecimento de contactos e de colaboração entre as Instituições de Investigação, de Ensino e os Produtores, iniciar projectos de educação e treino e apresentar planos inovadores com vista a criar novas empresas. Os trabalhos da conferência serão organizados em sessões plenárias, tutorais, workshops e posters cobrindo diversos temas: Agricultura de Precisão, Automação e Controlo, Desenvolvimento Rural, eAgBusiness, Gestão de Recursos, Modelação Ambiental e Científica, Produção Animal, Redes Sensoriais, Segurança Alimentar, Sistemas de Apoio à Decisão, Sistemas de Informação Geográfica, Sustentabilidade, entre outros. A organização deste evento está a cargo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Federação Europeia para as Tecnologias da Informação na Agricultura (EFITA), da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Tecnologias da Informação na Agricultura (APDTICA) e conta com o apoio da Ordem dos Engenheiros. A submissão de trabalhos terminou no dia 11 de Janeiro de 2005, tendo sido recebidos 263 trabalhos de autores provenientes de 51 países. É de referir que pela primeira vez na história da realização deste congresso serão atribuídos dois prémios de investigação, Júnior e Sénior, e será efectuada uma selecção dos melhores trabalhos para publicação em revistas científicas de reconhecido mérito internacional. Mais informações em: http://www.agriculturadigital.org/efitaandwcca2005 ou [email protected] HISTORIAL DO CONGRESSO A EFITA - Federação Europeia para as Tecnologias da Informação na Agricultura tem organizado com uma periodicidade bianual os congressos: 1th Conference of the European Federation for Information Technology in Agriculture, Food and Environment, Copenhaga, Dinamarca, 1997 2th Conference of the European Federation for Information Technology in Agriculture, Food and Environment, Bona, Alemanha, 1999 3th Conference of the European Federation for Information Technology in Agriculture, Food and Environment, Montpellier, AGENDA Página 33 França, 2001 4th Conference of the European Federation for Information Technology in Agriculture, Food and Environment, Montpellier, Debrecen, Hungria, 2003 A ASAE – American Society of Agricultural Engineers tem vindo a organizar com uma periodicidade bianual os congressos: 1th INTERNATIONAL CONFERENCE, USA, 1986 2th INTERNATIONAL CONFERENCE, USA, 1988 3th INTERNATIONAL CONFERENCE, USA, 1990 4th INTERNATIONAL CONFERENCE, University of Florida, USA, 1992 5th INTERNATIONAL CONFERENCE, Joseph MI, USA, 1994 6th INTERNATIONAL CONFERENCE, Cancun, México, 1996 7th INTERNATIONAL CONFERENCE, Orlando, USA, 1998 WCCA- World Congress of Computers in Agriculture and Natural Resources, Brasil, Março, 2002 WCCA- World Congress of Computers in Agriculture and Natural Resources, Tailândia, Agosto, 2004 No seguimento de um protocolo assinado em 2003 na Hungria pelas Instituições EFITA e ASAE, estes dois eventos irão ser realizados pela primeira vez em simultâneo e em Portugal, sendo a sua designação abreviada EFITA/WCCA 2005 Joint Conference. PARTICIPANTES Tendo em conta a experiência de congressos anteriores, e que o número de trabalhos submetido é de 263 de 51 países, espera-se um número de participantes entre 300 a 350, sendo cerca de 60 alunos de doutoramento. Estes são na sua maioria oriundos de países Europeus e dos Estados Unidos da América, contando-se ainda com participantes da América Latina, Ásia e África, por esta ordem de importância. DIVULGAÇÃO O congresso EFITA/WCCA 2005 tem vindo a ser divulgado desde Agosto de 2004 por todo o mundo de variados modos: em revistas científicas da área, imprensa, cartazes e brochuras, convocatórias e anúncios enviados por correio normal e electrónico, website, etc.. É de referir que as convocatórias foram distribuídas em formato electrónico a cerca de 15000 investigadores e profissionais da área graças à colaboração de Instituições Parceiras que acederam a ajudar a organização na divulgação deste congresso, bem como na realização de algumas sessões técnicas, como sejam a ISHS, ASAE, CIGR, FAO, Comissão Europeia, entre outras. PROGRAMA TÉCNICO DO CONGRESSO O programa do congresso será constituído por uma sessão de abertura e de encerramento, 5 sessões técnicas a decorrer em paralelo durante 4 dias, 5 sessões tutorais, workshops, sessões de posters, reuniões dos membros dos comités e das organizações presentes, visitas técnicas e exposições que começarão a ser definidas após o dia 28 de Fevereiro de 2005, data limite para a conclusão do processo de revisão dos trabalhos submetidos e das propostas de realização de Página 34 AGENDA info sessões técnicas. O programa será publicado no website do congresso (uma primeira versão provisória em Abril de 2005 e uma versão definitiva em Junho de 2005). 27 A 29 JULHO LOCAL: Campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores ORGANIZAÇÃO: APAET 6º CONGRESSO NACIONAL DE MECÂNICA EXPERIMENTAL A APAET – Associação Portuguesa de Análise Experimental de Tensões, com os apoios da FEUP e do INEGI, vai organizar o seu 6º Congresso Nacional de Mecânica Experimental. O objectivo principal deste congresso é a realização de um fórum para a discussão e divulgação das descobertas mais recentes nas áreas da Análise Experimental de Tensões e da Mecânica Experimental, quer nas aplicações a problemas de Engenharia quer na investigação que decorre nos diversos ramos da ciência. O evento decorrerá no Campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores, Ilha de São Miguel, durante os dias 27 a 29 de Julho de 2005. Mais informações em: http://paginas.fe.up.pt/apaet6/ FORMAÇÃO 2 E 9 ABRIL/18 E 25 JUNHO LOCAL: OERN ORGANIZAÇÃO: OERN 20º E 21º CURSOS DE ÉTICA E DEONTOLOGIA PROFISSIONAL A OERN tem vindo a promover Cursos de Formação em Ética e Deontologia Profissional com o objectivo de transmitir conhecimentos e divulgar casos de reconhecida importância para o exercício da profissão de Engenheiro, designadamente no tocante aos valores e princípios a ela inerentes. A duração destes Cursos é de 10 horas, a funcionar das 10h30 às 13h e das 14h30 às 17h. O número de participantes por curso é limitado, sendo as inscrições consideradas por ordem de recepção na OERN. Para efectuar a inscrição deverá enviar a ficha de inscrição e proceder ao pagamento de 25,00 euros (inclui: documentação) Mais informações em: www.norte.ordemdosengenheiros.pt VISITAS TÉCNICAS 4 MARÇO DEBATE LOCAL: IP9/A27 e IC1/A28 ORGANIZAÇÃO: OERN 7 ABRIL VISITA ÀS OBRAS DE CONSTRUÇÃO DO IP9/A27 E IC1/A28 LOCAL: OERN ORGANIZAÇÃO: COLÉGIO DE ELECTROTECNIA DA OERN O ENGENHEIRO ELECTROTÉCNICO E O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO No dia 7 de Abril, pelas 18h, realiza-se o debate “O Engenheiro Electrotécnico e o Exercício da Profissão”. Participantes já confirmados: Abertura : Eng. António Machado e Moura, coordenador do Colégio da Especialidade de Electrotecnia. Moderação: Eng. J. Neves dos Santos (Professor Universitário no DEEC da FEUP). Perspectiva de um Técnico: Eng. José Manuel Freitas (Câmara Municipal de Matosinhos) Perspectiva da Entidade Fiscalizadora (5ª Categoria) na Região Norte: Eng. Armando Lima ou Eng.ª Maria José Ribeiro (IEP). Perspectiva da Entidade Fiscalizadora (Outras Categorias) na Região Norte: Eng. Vilela Pinto (DRME). Perspectiva da Entidade Fiscalizadora (Instalações de Telecomunicações): Eng. Pedrosa Barros (ANACOM). Aspectos Legislativos : Eng. Vilela Pinto ( DRME ) Cada intervenção(informal) com 15 a 20 minutos. No fim haverá um tempo para debate. Visita às Obras de Construção do IP9/A27 e IC1/A28, Ponte de Lima, Viana do Castelo, Caminha, no dia 4 de Março, entre as 9h30 e as 17h. O custo da inscrição é 10 euros e o número máximo de participantes é 25. As inscrições devem ser feitas através de: Telefone: 258823522 (entre as 18h00 e as 19h30); Telemóvel: 964020524; Fax: 258823522; E-mail [email protected] CULTURA E LAZER 8 ABRIL LOCAL: Sala de Convívio da OERN ORGANIZAÇÃO: OERN INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DE PINTURA DE JORGE BARROCA Jorge Barroca nasceu no Porto em 1955. Cedo demonstrou gosto e talento pelas artes, nomeadamente na área da joalharia e ouriversaria. Frequentou um curso de pintura em 1997 no atelier do pintor Hélder Bandarra em Vila Nova de Gaia, onde adquiriu conhecimentos de variadas técnicas e géneros de pintura. A inauguração da exposição está marcada para as 17h e estará patente até ao dia 29 de Abril.