UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO FACULDADE DE LETRAS COMISSÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL LATINO-AMERICANO EM LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA, DE EDUARDO GALEANO Por LINDINEI ROCHA SILVA Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do Título de Doutor em Literaturas Hispânicas. Orientadora: Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri Rio de Janeiro Abril de 2011 FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL LATINO-AMERICANO EM LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA, DE EDUARDO GALEANO Lindinei Rocha Silva Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas. Examinada por: ______________________________________________________________________ Presidente, Profa. Drª. Silvia Inés Cárcamo Arcuri (orientadora) UFRJ. ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Ary Pimentel – UFRJ. ______________________________________________________________________ Prof. Dr. Raimundo Nonato Gurgel Soares – UFRRJ. ______________________________________________________________________ Prof. Drª. Eline Marques Rezende – UFRJ. ______________________________________________________________________ Prof. Drª. Maria Celina Izabeta – PUC/RJ. ______________________________________________________________________ Prof. Drª. Elena Palmero – UFRJ, Suplente. ______________________________________________________________________ Prof. Drª.Carmen Lúcia Tindó – UFRJ. Suplente. Rio de Janeiro Abril de 2011 SILVA, Lindinei Rocha. Figurações do intelectual latino-americano em Las venas abiertas de América Latina, de Eduardo Galeano / Lindinei Rocha Silva - Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras, 2011. xi, 336f.: il.; 31 cm. Orientadora: Silvia Inés Cárcamo Arcuri. Tese (doutorado) – UFRJ/ Faculdade de Letras/ Programa de Pósgraduação em Letras Neolatinas, 2011. Referências Bibliográficas: f. 324-335. 1. América Latina 2. Eduardo Galeano 3. Ensaio 4. Intelectuais 5. Las venas abiertas de América Latina. I. Cárcamo, Silvia Inés. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas. III. Figurações do intelectual latinoamericano em Las venas abiertas de América Latina de Eduardo Galeano. RESUMO __________________________________________________________________________________ FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL LATINO-AMERICANO EM LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA, DE EDUARDO GALEANO Lindinei Rocha Silva Orientadora: Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas. No contexto sócio-histórico do final do século XIX, emerge da sociedade europeia a figura do intelectual. Na segunda metade do século XX, quando a polarização capitalismo/socialismo reordenava as forças políticas internacionais, o escritor uruguaio Eduardo Galeano publica Las Venas abiertas de América Latina (1971), retomando a tradição do ensaio político-social latino-americano inaugurada por Rodó. Nesta conjuntura, a vitória da Revolução Cubana acenaria como a possibilidade de outras revoluções no continente, justificando a atuação de um tipo de intelectual plenamente comprometido com as mudanças sociais. No conturbado cenário sócio-político dos anos 1960-70, permeado por ingerências estrangeiras e violentas ditaduras militares, Galeano, alinhado às posições ideológicas dos intelectuais da esquerda socialista, apresenta a revisão da história da América Latina e a defesa dos ideais da revolução como alternativa para que os países situados ao sul do Rio Bravo possam superar as condições de subdesenvolvimento em que se encontram. Na proposta de leitura de Las venas que apresentamos, analisaremos a narrativa de Galeano, a fim de compreender a configuração do intelectual latino-americano e, consequentemente, o pensamento de toda uma geração forjada no calor dos anos 1960. Palavras-chave: América Latina; Eduardo Galeano; ensaio; intelectuais; Las venas abiertas de América Latina. Rio de Janeiro Abril de 2011 RESUMEN _____________________________________________________ FIGURACIONES DEL INTELECTUAL LATINOAMERICANO EN LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA, DE EDUARDO GALEANO Lindinei Rocha Silva Orientadora: Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri Resumen da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas. En el contexto socio-histórico de finales del siglo XIX, emerge de la sociedad europea la figura del intelectual. En la segunda mitad del siglo XX, cuando la polarización capitalismo/socialismo reordenaba las fuerzas políticas internacionales, el escritor uruguayo Eduardo Galeano publica Las venas abiertas de América Latina (1971), retomando la tradición del ensayo político-social latinoamericano inaugurada por Rodó. En esta coyuntura, la victoria de la Revolución Cubana serviría de modelo a otras revoluciones en el continente, lo que justificaría la atuación de una clase de intelectuales comprometidos con el cambio social. En el escenario de turbulência social y política de los años 19601970, bajo la injerencia extranjera y las violentas dictaduras militares, Galeano, alineado con las posiciones ideológicas de los intelectuales de la izquierda socialista, propone la revisión de la história de América Latina y la defensa de los ideales de la revolución como una alternativa para que los países ubicados al sur del Río Bravo puedan superar las condiciones de subdesarrollo en que se encuentran. En la propuesta de lectura de Las venas que presentamos, vamos a analizar la narrativa de Galeano con el fin de entender la configuración de los intelectuales latinoamericanos y, consecuentemente, el pensamientode una generación forjada en el calor de la década de 1960. Palabras-clave: América Latina; Eduardo Galeano; ensayo; intelectuales; Las venas abiertas de América Latina. Rio de Janeiro Abril de 2011 ABSTRACT _____________________________________________________ FIGURATIONS OF THE INTELLECTUAL LATIN AMERICAN IN LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA BY EDUARDO GALEANO Lindinei Rocha Silva Orientadora: Profa. Doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas. In the socio-historical context of late XIX century, the intellectual figure emerges from European society. In the second half of the XX century, when the polarization capitalism/socialism reorder international political forces, the Uruguayan writer Eduardo Galeano publishes Las venas abiertas de América Latina (1971), retakes the tradition of Latin American social and political trialopened by Rodó. In this juncture, the victory of the Cuban Revolution would serve as a model for other revolutions on the continent, which would justify the actuation of a class of intellectuals committed to social change. In the scenario of social and political turbulence of the years 1960-1970, under the foreign interference and violent military dictatorships, Galeano, aligned with the ideological positions of the intellectuals of the socialist left, propose to revise the history of Latin America and defending the ideals of the revolution as an alternative for the countries located south of the Rio Bravo to overcome the conditions of underdevelopment in which they occur. In the reading proposal presented of Las venas, we will analyze the narrative of Galeano to understand the configuration of Latin American intellectuals and, consequently, the thought of a generation forged in the heat of the 1960's. Key-words: Latin América, Eduardo Galeano, essay, intellectual, Las venas abiertas de América Latina. Rio de Janeiro Abril de 2011 AGRADECIMENTOS _____________________________________________________ A Deus, porque se esperamos somente nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Não poderia deixar de agradecer à professora doutora Silvia Inés Cárcamo Arcuri pela valiosa orientação e disponibilidade, pelas leituras e sugestões, pelo diálogo acadêmico e o incentivo para não esmorecer diante das adversidades. Também agradeço aos professores doutores Ary Pimentel e Raimundo Nonato pela crucial contribuição na fase de qualificação da tese, quando pudemos aparar as arestas e corrigir o foco. DEDICATÓRIA ___________________________________________________ Dedico esta Tese a meu saudoso irmão Alexandre Said que tão cedo partiu, mas nos deixou o exemplo de celebrar cada dia como se fosse o último. Dedico também às mulheres da minha vida: Minha mãe, Glória, a razão de meu existir; minha força, meu tudo; Minha filha, Giulia, uma benção de Deus, pra quem eu olho e vejo que minha caminhada não é em vão. A Andréa pela paciência, às vezes, com a minha falta de tempo e pela dedicação. A minha mana Lindinalva e a minha sobrinha Amanda, porque seus sorrisos iluminam meu dia; E por último, mas não menos importantes: Meu querido irmão Lindomar, meu porto seguro em mares bravios, e meus lindos sobrinhos Gabriel, Rafael e Taís, sementes promissoras de um amanhã melhor. Toda forma de comunicación tiene algo de catarsis. Escribir es un gran desahogo y en gran medida es una catarsis. Una liberación que a través de la palabra encuentra un modo de salirse de adentro, de sacarse esos cristalitos rotos que a uno le están lastimando el alma. Y también es una celebración compartida; se escribe para compartir la belleza de la aventura de estar en el mundo, con todo lo que eso tiene de horror y de maravilla. Eduardo Galeano. SUMÁRIO _______________________________________________________ INTRODUÇÃO....................................................................................................................11 CAPÍTULO 1. ENTRE A AUTOBIOGRAFIA E O TESTEMUNHO................................17 1.1. O homem e a obra........................................................................................17 1.2. Anos 1960-70: uma geração em (r)evolução .............................................30 1.3. A Revolução Cubana e o intelectual latino-americano ...............................53 CAPÍTULO 2. LITERATURA E ENGAJAMENTO.........................................................71 2.1. Política e Literatura......................................................................................71 2.2. O ensaio e o mundo social .........................................................................91 2.3. O ensaio como gênero argumentativo........................................................104 2.4. A tradição ensaística na América hispânica ..............................................114 CAPÍTULO 3. FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL NO SÉCULO XX.........................144 3.1. A configuração do intelectual engajado.....................................................144 3.2. Figurações do intelectual latino-americano...............................................159 3.3. Galeano, um escritor-leitor.........................................................................186 CAPÍTULO 4. LAS VENAS: A RE(CONSTRUÇÃO) DA MEMÓRIA HISTÓRICA LATINO-AMERICANA..................................................................................208 4.1. Do paraíso à sujeição.................................................................................208 4.2. Outros ganharam porque a América Latina perdeu ou a teoria da dependência.......................................................................................................248 4.3. A recepção de Las venas ontem e hoje.....................................................283 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................317 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................324 FILMOGRAFIA ................................................................................................................336 INTRODUÇÃO ______________________________________________________ Esta investigação se propõe a analisar a obra Las Venas abiertas de América Latina (1971) do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940 -), buscando identificar a configuração do intelectual latino-americano que emana de suas páginas. Galeano é uma testemunha viva das transformações sócio-históricas por que passou o continente. Em quase 50 anos de atividade literária, nunca permaneceu indiferente à realidade que o cerca, ao contrário, fez de sua escritura um instrumento de conscientização política. Se no século XX Jean-Paul Sartre encarnou o modelo de escritor engajado, considerando a literatura um meio de transformação social, na segunda metade deste mesmo século e na contemporaneidade, Galeano tornou-se um ícone da esquerda latino-americana. Autor da obra que é considerada o manual do revolucionário latino-americano, Galeano continua empenhando sua voz e sua literatura na defesa dos valores socialistas como uma alternativa viável para os países que se encontram ao sul do Rio Bravo. É nesse epíteto sugestivo que encontramos uma das possibilidades de leitura para analisar a obra mais célebre do escritor: Las venas abiertas de América Latina, ou simplesmente Las venas, como é mais conhecida. O estudo pormenorizado de cada um dos ensaios que compõem a obra parece-nos uma oportunidade ímpar para discutir tanto a configuração do intelectual no século XX, a partir do final do século anterior, como o lugar do intelectual latino-americano no campo cultural do continente e o papel de Las venas na formação dos leitores identificados com as causas do socialismo, da Revolução Cubana e dos processos de libertação nacional, no contexto utópico dos anos 1960-1970. Nesta perspectiva, um aspecto essencial que permeará nosso estudo se dará no campo da recepção da obra tanto na época de sua publicação como em sua repercussão até os dias de hoje. 12 Gostaríamos de ressaltar que em nosso trabalho não seguimos uma estratégia metodológica determinada de análise textual, apegamo-nos, em linhas gerais, às diversas leituras referentes às teorizações sobre a conceituação do ensaio, da literatura engajada, da configuração do intelectual no século XX e da recepção literária. Outras leituras foram subsidiando nossas reflexões, à medida que avançávamos na análise da obra de Galeano. As questões abordadas em Las venas se relacionam com uma multiplicidade de desdobramentos que podem levar a diversos conjuntos de discussões circunscritas a várias áreas do saber, como história, literatura, sociologia, economia, política. Para delimitar nosso objeto de estudo, a proposta de trabalho foi estruturada em quatro capítulos. O primeiro consiste na análise dos conflitos pessoais do autor e sua relação com a escritura testemunhal. Assim, um dos focos de nossa pesquisa será acompanhar a trajetória do jovem Eduardo Galeano como caricaturista, sua filiação ao partido socialista uruguaio, culminando em sua atuação como jornalista e escritor na vida política de seu país e da América Latina. Buscaremos demonstrar como a biografia do autor, que sofreu perseguição política e foi exilado, tem grande influência na escritura de suas obras. Também observaremos que no contexto sócio-político das décadas de 1960-70 não eram muitos os escritores que conseguiram ou desejaram sustentar em sua obra uma total indiferença ou alheamento à conjuntura que os circundava. Destacaremos em nossa análise o papel preponderante e icônico que teve a Revolução Cubana de 1959 na configuração do intelectual latinoamericano. No segundo capítulo, analisaremos as visões díspares da crítica literária frente à literatura de compromisso social, assinalando a histórica dicotomia “arte pela arte”, que defendia a literatura como um fim em si mesma, versus literatura como um meio a serviço de uma causa maior, com uma função social definida. Nessa perspectiva, abordaremos as implicações do contexto social na escritura literária, discutindo o engajamento do escritor em 13 face das condições de opressão por que passava a América Latina na segunda metade do século XX. É nesta época que se definiu, sob a figura de Jean-Paul Sartre, a literatura comprometida ou engajada como “uma prática literária estreitamente associada à política, aos debates gerados por ela e aos combates que ela implica.” (DENIS, 2002. p.9). Sob este ponto de vista, analisaremos a relação entre política e literatura em Las venas, considerando Galeano como um escritor engajado, visto que o autor associa indelevelmente sua escritura ao compromisso social, à transformação da sociedade. Neste contexto, analisaremos os vínculos entre literatura e engajamento e as questões suscitadas sobre o alcance intelectual, social e político da obra literária. Ainda no segundo capítulo, analisaremos a heterogeneidade de gêneros literários que caracterizam a escrita de Galeano, seja no conjunto de sua obra ou numa obra específica. Como ressalta o escritor no prólogo de O século do vento: “O autor ignora o gênero ao qual pertence esta obra: narrativa, ensaio, poesia épica, crônica, depoimento ... Talvez pertença a todos e a nenhum.” (GALEANO, 1988, p. XIX). Observaremos que a “opção” que faz Galeano pelo gênero ou gêneros que utilizará na composição de determinada obra não é aleatória, como poderia sugerir o prólogo de Memória do fogo. Antes, como afirma Mikhail Bakhtin, obedece a um interesse, intencionalidade e finalidade específicos a desempenhar sobre o interlocutor/leitor. Ao examinarmos a questão do gênero em Las venas, analisaremos a configuração histórica do ensaio, investigando sua origem e conceituação no século XVI, com o filósofo francês Michel de Montaigne, e as modernas teorias de Adorno, Gómez-Martínez, Arenas Cruz e Weinberg, que permitem classificar Las venas abiertas de América Latina como um ensaio de intenção político-social. 14 O gênero ensaio é um dos mais profícuos na América Latina, destacando-se como veículo de disseminação das novas ideias, identificadas com as causas sociais, com a exaltação da liberdade, da independência das colônias e dos movimentos antiescravistas. Na tradição ensaística latino-americana, iniciada no final do século XIX, os escritores evidenciam sua preocupação com a realidade sócio-histórica circundante, demonstrando a função social da literatura, na qual ética e estética se equilibram em importância. Nomes importantes como o do venezuelano Andrés Bello (1781-1872), dos argentinos Esteban Echeverría (1805 -1851) e Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), do cubano José Martí (1853-1895) e do uruguaio José Enrique Rodó (1872-1917) estão entre os precursores e cultivadores da tradição ensaística no continente. Para que possamos situar Eduardo Galeano como continuador desta tradição, analisaremos a inscrição do ensaio no continente na perspectiva do crítico norte-americano John Skirius (1982), que destaca a meditação escrita em estilo literário, uma literatura de ideias, como uma das principais características do ensaio hispano-americano. Para o autor, o ensaio se constitui como um gênero híbrido em que se mesclam, em maior ou menor grau, a prosa, a poesia e o drama. Também sob este ponto de vista, Las venas, por sua heterogeneidade de composição literária e até por seu conteúdo temático se inscreveria na tradição ensaística latino-americana. No terceiro capítulo, focalizaremos a aparição da figura do intelectual, demonstrando que sua concepção está atrelada a um momento historicamente situado, a passagem do século XIX para o XX. Para analisar o contexto em que se definiu tal conceito, o crítico literário francês Benoît Denis (2002) estabelece uma relação entre literatura e engajamento, afirmando que o surgimento do intelectual, na perspectiva sartreana do termo, ou seja, de que o escritor não podia omitir-se diante da condição humana na sociedade, foi determinado pela configuração de um campo literário autônomo e pela Revolução Russa de outubro de 1917. 15 Para Denis, os escritores franceses retomaram a relação entre a literatura e a causa social, anteriormente evocada pelos iluministas, somente depois da repercussão do caso Dreyfus. Para que possamos compreender as figurações do intelectual no século XX, tanto na Europa como na América Latina, e inscrever Las venas abiertas de América Latina no campo intelectual da esquerda socialista do continente, analisaremos as reflexões de teóricos como Antonio Gramsci, Pierre Bourdieu, Norberto Bobbio, Edward Said, Beatriz Sarlo e Gayatri Spivak. Tais considerações nos permitirão apontar o paradigma de intelectual que segue Eduardo Galeano ao escrever sua mais célebre obra. Como observaremos, o escritor uruguaio demonstra em sua escritura crer firmemente na eficácia da literatura engajada, e, portanto, na função do intelectual de refletir criticamente sobre os problemas da sociedade, para que possa apontar caminhos alternativos. A forma que encontra para difundir suas ideias e tornar públicas suas inquietudes e preocupações com as mazelas da sociedade latino-americana é a literatura. Sob este ponto de vista, o escritor utiliza a literatura como um instrumento de cognição da realidade, por meio do qual pode conscientizar e atuar sobre as consciências, levando à transformação desta sociedade. No último capítulo, analisaremos cada um dos ensaios que compõem as quatro partes de Las venas, destacando o viés revisionista na seleção da bibliografia das fontes alternativas às oficiais. Ressaltaremos que esta releitura ou reinterpretação se baseia nas concepções das novas correntes historiográficas que propunham modelos metodológicos que levassem em consideração outras fontes de consulta, além dos documentos oficiais. Galeano defende apaixonadamente que se faça uma revisão da memória histórica latino-americana, privilegiando as fontes silenciadas pelos vencedores. Comparando outras obras de Galeano, observaremos que em sua escritura está presente o escritor engajado. Las venas é reconhecidamente a obra na qual o autor identificou-se com o paradigma do intelectual latino-americano que usa seu prestígio e sua literatura como instrumento detonador da transformação social. 16 Ainda no último capítulo, analisaremos a recepção de Las venas, utilizando como método os elementos paratextuais, descritos por Gerard Genette (1997) como recursos de que se utiliza um autor para assegurar a recepção de sua obra. Para avaliar o preponderante papel da intertextualidade na reinterpretação da história que propõe Galeano, retomaremos o conceito de dialogismo de Mikhail Bakhtin para identificar a pluralidade de vozes (polifonia) que se estabelece na reescritura do autor uruguaio. Um dos vieses que orientam este trabalho é a crença de que o caráter autobiográfico subjaz a escritura de Las venas. Não necessariamente a história particular do autor, mas a representação de uma geração de latino-americanos que sofreu às mãos da ditadura e no exílio. A trajetória de vida de Eduardo Galeano deixou marcas evidentes que se refletem em sua visão pragmática de literatura. Até os dias de hoje, Las venas abiertas de América Latina continua sendo o maior testemunho de sua profissão de fé. 17 1. ENTRE A AUTOBIOGRAFIA E O TESTEMUNHO O autor reina ainda nos manuais de história literária [...] ciosos por juntar, graças ao seu diário íntimo, a pessoa e a obra; a imagem da literatura que se pode encontrar na cultura corrente está tiranicamente centralizada no autor, sua pessoa, sua história, seus gostos, suas paixões; [...] a explicação da obra é sempre buscada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, a entregar a sua ‘confidência’. Roland Barthes 1.1. O HOMEM E A OBRA Para analisar a obra de um escritor, um dos primeiros passos é conhecer sua biografia. No caso de Eduardo Galeano, essa premissa ganha contornos de axioma. A figura emblemática do escritor e a repercussão de Las venas parecem ter-se plasmado em uma única figura. A obra tornou-se um epíteto do escritor. Galeano, ao longo dos anos, foi construindo uma carreira de prestígio como intelectual e de sucesso como escritor. Suas obras contemplam temas que vão do discurso político ao futebol, de ácidas crônicas a melodiosas narrativas, numa multifacetada escritura que inclui artigos jornalísticos, desenhos, romances, contos, ensaios, crônicas. Em vigorosa atividade há mais de 50 anos, o escritor continua a envergar sua pena em defesa de seus pontos de vistas, assumindo os riscos de um discurso apaixonado e polêmico. Independente do lugar onde esteja e do tema que se discuta, a referência inequívoca de Galeano é Las venas, obra que se impõe como um norte, um porto seguro que justifica o homem e o escritor. A tese defendida por Galeano em grande parte de suas obras tem o componente autobiográfico muito forte. Por isso, acompanhar os desenlaces cronológicos que antecederam a publicação de sua obra é de grande relevância para compreender sua forma de atuar como persona e como escritor. Investigar a história pessoal do autor, o contexto histórico da época 18 em que foi publicada Las venas, sua repercussão naquele então e nos dias de hoje, em que ainda arrebata leitores entusiastas e é considerado um best-seller, é também reconstituir parte do caminho rumo às origens do pensamento intelectual da esquerda latino-americana. Se o ser humano é historicamente determinado pelas condições em que vive, Eduardo Galeano não é uma exceção. As conturbações sócio-políticas que marcaram sua juventude levaram-no ao engajamento político. Fruto das contradições por que passava a sociedade latino-americana na década de 1960, ainda muito jovem, o escritor já refletia em suas caricaturas e textos a influência que teve o socialismo em sua vida e nos de sua geração. Eduardo Hughes Galeano nasce em Montevidéu, em 03 de setembro de 1940, filho de uma família de ascendência alemã, espanhola e italiana, católica e de classe média. Durante a adolescência, transitou por várias atividades. Queria ser jogador de futebol como a maioria dos meninos uruguaios da década de 1950, época em que a “Celeste” venceu em pleno Maracanã a seleção brasileira de futebol: “Yo quise ser jugador de fútbol, pero era un patadura sin redención.”1 Galeano trabalhou como operário de fábrica, arrecadador de impostos, mensageiro, pintor de cartazes. Desde criança tinha aptidão para desenhos, aos 14 anos vendeu sua primeira caricatura política para El Sol, jornal montevideano semanal do partido socialista. Na época, assinava seus desenhos como Gius, em analogia à pronúncia de seu sobrenome paterno. Anos mais tarde, deixaria de usar sobrenome, Hughes, devido à difícil pronúncia em espanhol, e não como uma forma de protesto, conforme assinala o próprio escritor, e passa a adotar o materno: “Y recién ahora, una noche de éstas, me di cuenta de que llamarme Eduardo 1 Entrevista de Eduardo Galeano a Tomás Foster. Jornal Tiempo Argentino, domingo 06 de marzo de 2011. http://tiempo.elargentino.com/notas/vargas-llosa-no-hay-que-hacerle-favor-de-atacarlo-ni-de-tirarle-huevospodridos. Consultado em 07 de março de 2011. 19 Galeano fue, desde fines de 1959, una manera de decir: yo soy otro, soy un recién nacido, he nacido de nuevo.” 2 O ano em que ocorre a Revolução Cubana é emblemático para Galeano, pois além da mudança do sobrenome que usava como cartunista, aos 19 anos, casa-se com sua primeira esposa, Silvia Brando. Posteriormente se divorciaram, casando-se três anos depois com Graciela Berro; e, em 1976, com sua terceira esposa, Helena Villagra. Profissionalmente, Galeano começou sua carreira como jornalista no início dos anos 1960. Neste enveredamento pela senda do jornalismo pode-se observar uma analogia entre o teórico do socialismo Karl Marx e o escritor uruguaio. Ambos abraçaram o jornalismo como forma de divulgação de seus pontos de vista. Marx ganha notoriedade em 1842, com a publicação de seus artigos de cunho radical-democrata, quando assume a chefia da redação do jornal Renano, em Colônia; Galeano torna-se diretor do diário Época e chefe de redação do semanário Marcha. Na segunda metade da década de 1960, Galeano inicia uma viagem de pesquisa de campo pela América Latina e uma intensa investigação bibliográfica sobre a região. O autor expressa claramente em Las venas o valor da experiência pessoal, da observação direta em contraponto com o discurso intelectual, baseado apenas na instrução letrada em gabinetes, longe da realidade vivida pelas classes populares. Neste sentido, Galeano reafirma o valor da experiência da luta armada de José Martí e da viagem de Che Guevara pela América Latina como símbolos da passagem do teórico ao contato direto com a realidade. A obra publicada em 1971 é também um testemunho desta visão pragmática do discurso intelectual gestada durante sua própria viagem. Em 1973, um grupo direitista militar toma o poder no Uruguai, em resposta à guerrilha urbana levada a cabo pelos Tupamaros, como eram conhecidos os membros dos grupos 2 Na obra El libro de los abrazos (1989), Galeano conta histórias inventadas sobre o porquê da adoção do sobrenome materno. 20 políticos da esquerda radical uruguaia de orientação marxista, como o Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros (MLN-T). A ditadura cívico-militar ali implantada foi um divisor de águas na vida do autor. Devido a sua participação ativa no movimento revolucionário, além de suas posições ideológicas firmemente defendidas em Las venas, Galeano foi encarcerado e, posteriormente, forçado a sair do país. No período da ditadura (1973-1985), o Uruguai chegou a ter cerca de cinco mil presos políticos, entre jornalistas, sindicalistas, intelectuais, políticos e cidadãos comuns acusados de simpatizantes da causa socialista. Fugindo da perseguição política, Galeano estabeleceu-se na vizinha Argentina. Três anos mais tarde, entretanto, assim como havia ocorrido em sua terra natal, o general Jorge Rafael Videla toma o poder mediante um golpe militar e estabelece um regime que daria origem a mais sangrenta das ditaduras, com um saldo de trinta mil mortos ou desaparecidos. Na época, o autor tem seu nome agregado à lista daqueles condenados pelos esquadrões da morte, o que o forçou a fugir novamente, agora para Barcelona, Espanha, onde do exílio escreveria, em 1978, o prólogo e o posfácio que seriam incorporados à Las venas, e obras como a trilogia Memoria del fuego. O ingresso do escritor ainda jovem na atividade jornalística contribuiria decisivamente na forma em seu estilo de escritura. Galeano tem sua primeira experiência com a escrita nas reportagens, amiúde, de corte político, em que a realidade aparecia continuamente golpeada pelas circunstâncias. Antecipando seu estilo de reescritura que irá desenvolver em Las venas, as reportagens China: crónica de un desafío (1964) e Guatemala, país ocupado (1967) refletem uma escrita de denúncia, que retrata o cotidiano de tempos difíceis, textos elaborados a partir de fatos documentais. Tais artigos revelam a profunda imersão do autor na efervescência das ideias e combates daquela época. 21 Galeano não está preocupado que seus textos estejam datados e percam sua transcendência. Como sói acontecer nas reportagens, tratam especificamente de um acontecimento restrito cronologicamente, com um local e uma data específica. Ao cronista Galeano interessa o agora histórico, ainda assim, por mais que sejam direcionados àquela ocasião, muitos dos textos de Galeano reverberam até hoje como se fosse uma profecia, porque os equívocos e as injustiças, em muitos casos continuam incólumes. Em 1960, aos 20 anos, Galeano torna-se chefe de redação do semanário uruguaio Marcha, publicação que se estende de 1939 a 1974, dividido em dois momentos de 1939 a 1960 e de 1960 a 1974. O diário foi fundado pelo jornalista uruguaio Carlos Quijano com o objetivo de agitar o Uruguai da longa letargia arraigada na imagem fantasmagórica da “Suíça americana” (ONETTI apud PINO, 2002, p.143). Este periódico político e cultural chegou a ser o mais destacado do país, tanto por sua linha independente como pela equipe de colaboradores, que contava com intelectuais da envergadura de Ángel Rama, Mario Benedetti, Emir Rodríguez Monegal, Juan Carlos Onetti, Julio Castro, Arturo Ardao, Hugo Alfaro, Carlos Real de Azúa, entre outros. Foi editado até 1974, quando em 29 de novembro foi fechado pela ditadura cívico-militar, encabeçada pelo latifundiário Juan María Bordaberry. Parte dos colaboradores de Marcha foi encarcerada ou exilada devido a seu trabalho jornalístico de cunho socialista. É incontestável a importância de Marcha na formação do ideário político de Galeano. A publicação era fruto do intenso intercâmbio de ideias entre autores da esquerda uruguaia e de outros países: “De este modo, construyeron una sensibilidad y una mentalidad común, más allá de las variantes ideológicas de cada integrante del equipo estable o de sus colaboradores.” (ONETTI apud PINO, 2002, p.144). Todos esses escritores defendiam uma literatura social, como afirmava Onetti. Eram intelectuais engajados, no sentido da tradução da expressão francesa proposta por Jean-Paul Sartre, engagement, compromisso. Tinham na literatura 22 existencialista uma fonte de inspiração e um meio a serviço de uma causa maior que a própria criação literária. Assim, a literatura que buscavam representava uma resistência interior ante a opressão e a coerção exterior. Ainda que esses intelectuais bebessem na fonte sartreana, não ignoravam o que defendia o escritor e filósofo argelino Albert Camus em O homem revoltado (1996), obra que abalou a esquerda francesa e foi o pivô do rompimento da longa amizade entre Sartre e Camus. O filósofo argelino supunha a rebelião como propulsora do espírito que move o homem crítico, humanista e emancipador, prevenindo-o da tirania em nome da liberdade, portanto, não era possível apoiar uma política de crimes justificados, como fazia o regime socialista soviético, em que interrogavam, encarceravam e até fuzilavam, em nome de uma causa maior. A conciliação entre as propostas de Camus e Sartre fez com que, posteriormente, muitos dos intelectuais de Marcha rompessem com o regime cubano. Galeano inicia ainda na juventude sua atividade como escritor literário. Aos 23 anos, publica seu primeiro romance Los dias siguientes (1963), mas sua produção inicial não demonstrava explicitamente seu comprometimento político, estava mais próxima à tendência existencialista da época. Seus escritos jornalísticos e literários mesmo não sendo contraditórios, não evidenciavam seu tom incisivo já manifesto em suas primeiras produções nos jornais, contextualizadas à base de linguagem descritiva e baseadas em fatos documentais. O aprendizado ideológico de Galeano, somado à índole da juventude, fez com que, depois de ser preso no Uruguai e exilado em Buenos Aires, fundasse e dirigisse a revista Crisis (1973-76) nos mesmos moldes da revista de Montevidéu. A formação estética e ideológica de Galeano que se observava já em Las venas e, posteriormente, em outras obras teve sua maturação nas redações de jornais e nas revistas de caráter cultural. Estes meios editoriais eram os responsáveis pela interlocução entre os intelectuais e outros discursos da 23 época. Conforme frisou o próprio Galeano numa entrevista ao Canal Cultura da Argentina, Crisis era “una forma de conversar con la gente de la calle.” 3 Analisando o papel das revistas culturais, a argentina Beatriz Sarlo, uma das principais representantes da crítica cultural na América Latina, destaca que a “existência da revista cultural demonstra a necessidade intelectual de buscar o conflito e o debate na esfera pública.” (Apud CÁRCAMO, 1997, p. 365). Desta forma, a revista se apresenta também como uma esfera política que “si bien escoje la comunicación masiva como punto de partida específico, presupone que esta noción debe superar los limites del sentido que le confirieron, de modo unilateral, la ciencia empirista y el aparato ideológico masivo del capitalismo.” (LENARDUZZI, 1998, p.27). Por este viés, entendem-se as revistas culturais como veículos que responderiam aos meios institucionais hegemônicos, destacando a importância da cultura como fomentadora do pensamento crítico. Com Galeano na direção da revista Crisis, a publicação mensal de cultura teve edição ininterrupta de quarenta números, durante três anos, com uma tiragem que alcançou os 35.000 exemplares, chegando a ser uma das revistas mais importantes que se publicaram na Argentina em 1970. Para criar a revista, contou com o apoio financeiro de um amigo que, segundo o próprio Galeano, chegou a vender um quadro do pintor surrealista Marc Chagall para financiar a empreitada, mas, a partir das 7 a e 8a edições, a revista se autofinanciava. Analisando o impacto da revista nos anos 1970, a professora Silvia Cárcamo analisa: [...] Crisis significou para a cultura argentina um projeto editorial que introduzia novidades tanto no aspecto formal (diagramação, ilustrações, material) quanto no que diz respeito à difusão de um discurso crítico pluralizado e da produção literária nacional e latino-americana. (CÁRCAMO, 1997, p. 365). Ao criar a revista Crisis, Galeano buscou a companhia de outros intelectuais, assim como deu voz à população. Recebia artigos de populares e publicava matérias que emanavam 3 Eduardo Galeano em entrevista a Felipe Pigna no programa Lo pasado pensado. Canal Cultura, Argentina. http://www.elhistoriador.com.ar/gaceta/gaceta22.html Consultado em 12 de novembro de 2010. 24 das ruas. Uma delas teve grande repercussão, tratava da dura vida dos colectiveros, motoristas de ônibus, que tinham a dupla tarefa de dirigir e cobrar as passagens em jornadas estendidas, por isso, durante o expediente, tiravam o sueño blanco, uma espécie de cochilo enquanto dirigiam. Nesta mesma série de reportagens, uma das manchetes dizia: Nos han prohibido adornar el colectivo. O artigo demonstrava o grau de controle das liberdades individuais e de expressão levado a cabo pelo aparato policial da ditadura. Podem parecer incidentais essas citações, mas a forma como Galeano relembra esta época e o incondicional apoio de seu interlocutor, o jornalista argentino Felipe Pigna, dão a dimensão da importância que teve a revista no cenário político daquela época. Segundo Beatriz Sarlo, “la revista Crisis, hasta su cierre a raíz del golpe de estado de 1976, es tribuna de perspectivas que se sostienen durante la dictadura militar con un carácter nítidamente impugnador.” (2001, p.136). A pesquisadora australiana Diana Palaversich (1995, p. 10) destaca que essa particularidade de dar voz a tipos e situações que emanam da população já havia sido sublinhada pelo crítico uruguaio Ángel Rama num artigo intitulado Galeano en busca del hombre nuevo, quando Galeano publicou seu segundo romance Vagamundo (1973). Rama também enfatizou outras características que seriam recorrentes na obra de Galeano, tais como uma defesa apaixonada de seus temas, uma perspectiva populista e a predileção por retratar pessoas das camadas populares. Como se observará posteriormente, esse viés de engajamento marcará a produção literária desta geração de intelectuais latino-americanos. No artigo, o crítico ressalta que a situação de agravamento da crise uruguaia e latino-americana tocou profundamente Galeano, pois se podia perceber que agora, depois da experiência de vida, o autor tinha a dimensão do estado de marginalização em que vivia grande parte da população do continente. Em Vagamundo, Galeano demonstrou que concebia a literatura como uma construção coletiva na qual as categorias do nacional e do popular se mesclavam, desmistificando 25 conceitos e propondo uma visão revisionista. Esta mesma concepção já havia sido explorada por Galeano na escrita de Las venas em 1971, como abordaremos posteriormente. Um dos temas mais abordados em Vagamundo é a história Argentina, sob enfoques que conjugam fragmentos de documentos do passado com acontecimentos daquele presente, visando estimular a reflexão dos leitores sobre a situação atual do país. Este procedimento também orientará a linha editorial da revista Crisis, em que se percebe o desejo de construção da memória popular como forma de revisão da memória nacional. O caminho proposto é o da emergência de vozes tradicionalmente alijadas do debate cultural, postas à margem da sociedade. Com esse propósito, a revista abriu espaço para gêneros populares como tango, circo, carnaval, teatro de rua, futebol, assim como destacou a cultura da mídia, televisão, rádio e jornalismo. O sincretismo entre o culto e o popular parece fazer parte de um projeto que Galeano alentava já na escrita de Las venas. A orientação política socialista da maioria dos intelectuais que por ali passaram foi a marca registrada da publicação. Já em seu segundo número, reafirmando o compromisso dos escritores engajados com a realidade social, é publicado um texto do filósofo francês Jean-Paul Sartre, ícone do movimento existencialista e defensor da literatura engajada. Referindo-se à revista Crisis, Galeano afirmou que os escritores estão: [...] unidos en la certeza que la cultura es comunicación o no es nada. [...]. Cuando fundamos la revista, queríamos demostrar que la cultura popular existía, que no era la mera reproducción degradada de las voces del poder, sino que tenía fuerza propia y expresaba una memoria colectiva lastimada, herida, traicionada. 4 Observa-se que Galeano e os outros escritores de Crisis compartilhavam o ideal do escritor engajado de expressar o impulso revolucionário, dando voz a diferentes extratos sociais, visando configurar uma nova realidade cultural. 4 Eduardo Galeano em entrevista ao jornal Página 12. www.pagina12.com.ar/1998/suple/radar/mayo/98-0503/nota2. Consultado 05 de outubro de 2009. 26 Entretanto, esse projeto teve de ser interrompido, porque em 1976, também na Argentina, Galeano sofre perseguição política e, fugindo do encalço da ditadura militar, fecha a revista e exila-se em Barcelona. Da Espanha acompanha os acontecimentos na América Latina e continua sua luta contra a ditadura. Somente após um período de dez anos, pôde regressar a sua terra natal, quando Julio María Sanguinetti instaurou o regime democrático no Uruguai. Relatando sobre o período de exceção, tanto no Uruguai como na Argentina, Galeano ressalta que se fortaleceu para que pudesse passar uma imagem positiva a seus leitores. O escritor admite que o conceito de escrita como entrega é conscientemente assumido. Em razão dos acontecimentos, o autor abandona sua narrativa existencialista de Los dias siguientes (1963), em que a evasão da realidade se expressava pelo exílio em distintas formas, como se refugiar em seu círculo de amigos ou na morte, e adota uma escrita testemunhal e histórica, na defesa de seus princípios ideológicos. Retoma, então, sua veia jornalística de escrita comprometida com os ideais socialistas, já esboçada na juventude, a serviço do momento histórico em que vive. Com orgulho, Galeano comenta a importância da revista Crisis para o momento difícil que vivia seu país. Numa entrevista, relembra o artigo Los hombres que cruzan el rio, que relata a história de vinte uruguaios que cruzavam todos os meses de 1975, no dia que saía a publicação em Buenos Aires, para ler a revista proibida: Compran entre todos, un ejemplar de Crisis y ocupan un café. Uno de ellos lee en voz alta, página por página, para todos. Escuchan y discuten. La lectura dura todo el día [...] Aunque sólo fuera por eso – pienso - valdría la pena. (GALEANO apud PALAVERSICH, 1995, p. 104-105). Nota-se no comentário de Galeano que a publicação havia conseguido atingir objetivos que sobrepassavam a defesa de um ideal político, desempenhava um papel social, os 27 leitores uruguaios encontravam na revista uma forma de evasão da dura realidade enfrentada no país, assim como experimentavam momentos de catarse. Como observamos, o contexto histórico da América Latina nas décadas de 1960-70 conforma uma parte muito significativa da escritura de Galeano, por isso é pertinente analisála traçando um paralelo entre o ambiente político e cultural de que emergem seus textos. Um bom exemplo da disposição do autor frente à realidade se pode observar em suas obras escritas no exílio, como La canción de nosotros (1975) e Dias y noches de amor y de guerra (1978), em que predominam um tom saudosista do Uruguai anterior à ditadura militar. Notase um Galeano existencialista, bastante diferente do discurso engajado que o consagrou em Las venas. Entretanto, seria demasiado simplista e tacanho pensar que foi apenas o contexto histórico que forjou a escritura de Galeano, como se os fins justificassem os meios. O desejo de transformação da sociedade vai além das fronteiras nacionais e de um período da história determinado, é um anseio inerente ao ser humano. Ainda assim, não é despropositado afirmar que uma das marcas peculiares à juventude que viveu na segunda metade do século XX foi a militância política. Mais que uma experiência pessoal, a obra de Galeano está inserida num contexto histórico comum desta geração em toda a América Latina. Nesta perspectiva, o caráter de escritura autobiográfica é reforçado, pois as experiências vividas pelo autor na prisão ou no exílio não são uma exclusividade, pelo contrário, para os que defendiam uma posição avessa ao regime militar este destino era quase uma regra. As evocações de Galeano não são meras ilustrações retóricas, baseiam-se em extensa pesquisa de fontes alternativas às oficiais, em depoimentos e no cotidiano daquela época. Em seus textos escritos no exílio são fortes e impactantes os detalhes da atuação dos governos militares. No artigo El exílio entre la nostalgia y la creación, Galeano descreve que a tragédia do exílio só não é pior que a sorte dos que não conseguiram sair do país: 28 Para desdramatizar el exilio de los escritores, bastaría con recordar unos pocos ejemplos de Argentina y Uruguay, sin ir más lejos, que tengo recién marcados en el alma: el poeta Paco Urondo, muerto a balazos; los narradores Haroldo Conti y Rodolfo Walsh y el periodista Julio Castro, perdidos en la siniestra bruma de los secuestros; el dramaturgo Mauricio Rosencof, reventado por la tortura y pudriéndose entre rejas. (GALEANO apud PALAVERSICH, 1995, p.29). Galeano diminui a importância do sofrimento no exílio diante do destino dos que ficaram no país. Nos relatos, em vez de personagens, pessoas, em vez de tinta, sangue. Vidas interrompidas ou ceifadas pela arbitrariedade. Amigos de infância que foram à esquina de suas casas e nunca mais voltaram: prisão, tortura, desaparecimento e morte. O tema do exílio é um capítulo aparte na obra de Galeano, como será analisado posteriormente. Em grande medida, sua obra revela as marcas deixadas por esse período. Pode-se observar um viés autobiográfico na escritura de Las venas, quando levamos em consideração que o amadurecimento de Galeano como escritor se deu nas redações dos jornais, todos com forte apelo marxista, como El Sol, dirigido pelo próprio partido socialista. Seu contato com as obras de Karl Marx, leitura obrigatória para juventude da época, e convivência com o ambiente efervescente das redações culminou no referencial ineludível na obra do autor uruguaio. Grande parte do êxito editorial e da repercussão de Las venas se deve a seu caráter inovador na forma de apresentar a história da América: “Sé que pudo resultar sacrílego que este manual de divulgación hable de economía política en el estilo de una novela de amor o de piratas.” (GALEANO,1991, p.438). Esta história escrita como “novela” e com personagens e relatos saídos de fontes não oficiais é reflexo de um contexto intelectual influenciado, particularmente, pelas ciências sociais e pelas concepções da chamada Escola dos Annales. Como ressalta Galeano, defendendo o revisionismo histórico: “La historia es un profeta con la mirada vuelta hacia atrás: por lo que fue, y contra lo que fue, anuncia lo que será.” (p.11). O 29 escritor imprimiu em sua obra um discurso engajado e passional, no qual defendia que a história da América Latina precisava ser revirada e reescrita. A explicação que propunha o escritor para pobreza do povo latino-americano não era inédita, apontava para a chegada das três caravelas espanholas que desembarcaram em La Española em 1492. Entretanto, sua forma de “contar” essa história era completamente original. Uma mescla de história das Américas com dados estatísticos recentes, fruto de uma intensa e ampla pesquisa bibliográfica nas áreas de história, geografia, ciência política, sociologia, antropologia, literatura, realizada nas mais variadas fontes, tais como jornais, revistas, relatórios econômicos, teses, artigos científicos, romances, depoimentos pessoais, discurso etc. Em grande medida, foi a forma romanceada de tratar assuntos, às vezes tão áridos, como uma conversa informal ou uma crônica despretensiosa que despertou e ainda desperta tanto interesse na leitura de uma obra tão extensa. A forma clara como expõe Galeano o propósito da obra, desde a introdução, é também um orientador do tipo de leitura que se quer propor. Em Las venas não se procura demonstrar os dois lados da história, pois o discurso oficial já foi assentado em outras páginas. A visão apresentada por Galeano é maniqueísta, os papéis do vilão (capitalismo) e do mocinho (socialismo) estão muito bem definidos, seguindo um viés revisionista, busca apresentar a história sob outra perspectiva, a dos vencidos. A teoria da dependência permeia o discurso do autor uruguaio: os vilões e carrascos do atraso histórico e econômico da América Latina são personagens conhecidos, muitas vezes como heróis, como os colonizadores Hernán Cortés e Francisco Pizarro, ou ainda uma prática levada a cabo durante anos, principalmente na América portuguesa, o tráfico negreiro. Avançando cronologicamente na história, são os comerciantes ingleses e seu monopólio mercantil ou, mais recentemente, as incursões do Fundo Monetário Internacional e das multinacionais em território latino-americano, patrocinando guerras civis e ditaduras 30 militares. As vítimas são as massas colonizadas e alienadas por uma política monopolista, mercantilista e imperialista. Esse é um resumo estritamente superficial de uma obra que ultrapassa as 500 páginas em algumas edições e, mesmo décadas depois de sua publicação, desperta interesse e debates acalorados. Não há dúvida de que a releitura de Las venas abiertas de América Latina, 40 anos após a primeira edição, revela-nos uma parte importante do pensamento intelectual latinoamericano do século passado, assim como nos possibilita compreender um pouco mais o microcosmo deste clássico da literatura do continente. 1.2. ANOS 1960-70: UMA GERAÇÃO EM (R)EVOLUÇÃO Em toda a história da América Latina é difícil encontrar um período tão funesto como foram os chamados anos de chumbo, as ditaduras militares que se proliferaram como uma praga endêmica em vários países do continente. Para os que nasceram depois dos anos 1980, refletir sobre este período talvez soe como um inútil revirar do passado morto e enterrado. Entretanto, mais que fatos, as ditaduras deixaram marcas profundas que pulsam a cada manhã, quando a lembrança dos mortos e desaparecidos parece exigir uma satisfação. Estas ausências relembradas dolorosamente impõem, em muitos países, não o revanchismo, mas uma forma de lenitivo, seja por meio da reparação da imagem do perseguido político ou uma compensação financeira por danos morais e materiais. Mais do que isso, o princípio democrático da justiça evoca, como consequência de atos homicidas, o julgamento para os que mataram sob o pretexto da manutenção da ordem pública e da segurança nacional. Em face de um período tão perigoso para a livre expressão, uma das formas que encontrou esta geração foi o caminho das artes. Neste cenário, a literatura, como expressão idiossincrática, reflete uma visão peculiar, condicionada, ainda que implicitamente, a uma época e a um contexto político e social. A escrita de Las venas, em 1971, pode ser percebida 31 como um testemunho do pensamento daquela intelectualidade de então. O jovem Eduardo Galeano tinha pouco mais de 25 anos de idade quando planejou suas viagens pela América Latina que serviriam como pesquisa de campo para sua escritura. Na verdade, a gestação da obra iniciou-se ainda na adolescência, quando se filiou ao partido socialista. Seus artigos e caricaturas da juventude já prenunciavam o escritor engajado que conhecemos hoje. Este perfil revolucionário não era uma exceção na época, ao contrário, foi e ainda é uma das marcas daquela geração. A própria noção de juventude, como a conhecemos hoje, é um fenômeno que teve sua eclosão nas décadas de 1960 e 70. A combinação de uma série de fatores que culminaram numa extraordinária guinada no pensamento e comportamento da sociedade. As mudanças no cenário econômico possibilitaram a formação de um mercado consumidor definido e uma nova mentalidade das famílias de classe média que estimularam seus filhos a prolongarem seus estudos, o que concentrou uma massa de jovens que trocavam experiências e buscavam um novo modelo de sociedade. Conscientes de suas potencialidades e com mais recursos, estes jovens se organizaram para propor novas ideias que pudessem substituir às que haviam levado o mundo às guerras e à violência que se assistia desde a Primeira Guerra Mundial. A televisão começava a chegar aos lares de todo o globo e passava a se tornar meio de comunicação em massa por excelência, diminuindo as distâncias e tornando a disseminação das ideias mais rápidas. Esta revolução nas comunicações teve reflexos diretos na cultura mundial. Em quase todos os países passou-se a assistir e a ouvir, em grande medida, os mesmos filmes, programas e musicais. Fenômenos como os Beatles são prova desse início de homogeneização cultural. O cinema e a televisão tiveram papel preponderante na disseminação deste novo modelo cultural. Em protesto contra a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos, surgem movimentos como os hippies que pregavam contracultura. Também nesta época teve início uma grande revolução comportamental como o surgimento do feminismo e dos movimentos 32 civis em favor dos negros e dos homossexuais. Na América Latina, a vitoriosa Revolução Cubana alimentava a utopia da implantação do modelo socialista no continente. As transformações estruturais na economia e na sociedade ao redor do mundo acarretaram um choque geracional. Em A Era dos Extremos (1995), o historiador Eric Hobsbawm definiu estas mudanças como uma revolução cultural, devido ao crescimento repentino dos números da educação superior, o que acarretou a ascensão da juventude como grupo social autônomo. Sublinhando o papel decisivo da educação, Hobsbawm afirma que no fim da Segunda Guerra Mundial havia na França menos de 100 mil estudantes, 15 anos depois, já passava de 200 mil, e em 1970 esse número havia mais que triplicado para 651 mil. Esta nova elite intelectual erigiu para si ícones de sua geração, que ousaram contestar e questionar a autoridade estabelecida. Os grandes símbolos foram personagens históricos que desafiaram os padrões da época e, muitas vezes, pagaram com a vida o preço do desafio. A morte, entretanto, não punha fim à vida, mas iniciava o mito, tais como Jimmy Hendrix, Janis Joplin, James Dean, Martin Luther King e Che Guevara, para citar alguns. Além destas transformações culturais, o mundo também passava por um período político conturbado. Os acontecimentos ocorridos na França em maio de 1968 tiveram um valor simbólico evocado até os dias de hoje. Representa o ápice de um momento histórico de intensas transformações políticas, culturais e comportamentais que marcaram a segunda metade do século XX. Neste ano, as manifestações estudantis ocorridas nas universidades francesas deram origem a sucessivos movimentos de protestos em outras universidades da Europa e das Américas, ganhando a adesão da classe trabalhadora e da população em geral, insatisfeitas com os rumos das políticas nacional e mundial. Nestas circunstâncias históricas, os jovens se converteram em protagonistas das transformações políticas e sociais. Antes do maio francês de 1968, nos Estados Unidos, já se 33 observavam as mobilizações anti-Vietnã. Na América Latina, em maio de 1969, a juventude argentina organizava o “Cordobazo”, em reação ao regime militar que governava o país, autodenominado Revolução Argentina. O reflexo imediato do movimento foi a queda do presidente Juan Carlos Onganía, e, posteriormente, a volta do peronismo ao poder. De forma análoga, em outros países latino-americanos se formavam grupos de oposição aos governos autoritários. Ainda que se aponte o maio de 1968 como o detonador de uma nova mentalidade, não é possível compreendê-lo sem levar em consideração o ambiente político do pós-guerra da década de 1960. Especificamente na América Latina, os confrontos do período foram motivados por questões ligadas à educação e à reação aos regimes militares. A violência da máquina estatal usada como instrumento repressor deixou milhares de mortos, órfãos e desaparecidos. Como observaremos na análise de Las venas, esse clima policialesco que já vivia o continente no final dos anos 1960 é relatado por Galeano na primeira edição da obra em 1971. Ao longo de toda a escritura de Las venas, o Brasil é um dos grandes referenciais de Galeano. Ao tratar das ditaduras no continente, o autor demonstra uma intensa pesquisa sobre este período em nosso país. Descrevendo a situação como similar a que ocorria na maioria dos países do continente, Galeano expõe os ardis tramados sob o manto nebuloso da Operação Condor, aliança político-militar criada e financiada pelo governo norte-americano para reprimir a resistência aos regimes ditatoriais instalados nos seis países do Cone Sul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia), que instaurou uma junta militar após o golpe de 1964: [...] cuando el embajador Lincoln Gordon, que recorría, eufórico, los cuarteles, pronunció un discurso en la Escuela Superior de Guerra, afirmando que el triunfo de la conspiración de Castelo Branco ‘podría ser incluido junto a la propuesta del Plan Marshall, el bloqueo de Berlín, la derrota de la agresión comunista en Corea y la solución de la crisis de los cohetes en Cuba, como uno de los más importantes momentos de cambio en la historia mundial de mediados del siglo veinte’ [...] Después que se cansaron de arrojar a la hoguera o al fondo de la bahía de 34 Guanabara los libros de autores rusos tales como Dostoievski, Tolstoi o Gorki, y tras haber condenado al exilio, la prisión o la fosa a una innumerable cantidad de brasileños, la flamante dictadura de Castelo Branco puso manos a la obra: entregó el hierro y todo lo demás. (GALEANO, 1991, p.253). Observa-se claramente que os planos norte-americanos para a América Latina já haviam sido traçados de antemão e que obedeciam a um cronograma e a um modus operandi especificamente definido, visando deter o avanço da esquerda política no continente. Durante os 21 anos que durou o regime, centenas de pessoas foram submetidas à tortura, ao exílio e à morte. Poder-se-ia cogitar que tratamos de um tema anacrônico, mas esta realidade ainda estampa jornais no nosso século. Para ilustrar o quanto esse tema continua mais vivo do que se supunha, no mês de fevereiro de 2009, uma celeuma se instaurou no Brasil, espalhando-se por todos os meios de comunicação. Em editorial do dia 17, o jornal Folha de São Paulo classificou a ditadura do Brasil como uma “ditabranda”, o que gerou forte indignação. Definir como “ditabranda” uma época na qual cidadãos como Rubens Paiva, Antônio Henrique Pereira Neto, Stuart e Zuzu Angel, Nilda e Esmeraldina Cunha, Vladimir Herzog e outras centenas de pessoas foram barbaramente perseguidas, torturadas e assassinadas foi considerado um ultraje à memória do país. Para expressar o repúdio ao trocadilho do editorial, intelectuais lançaram um manifesto e abaixo-assinado contra a “ditabranda” da Folha de São Paulo: Ao denominar ‘ditabranda’ (…) a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. (…) O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.5 5 Intelectuais lançam manifesto contra a “ditabranda” da Folha de São Paulo. http://www.direitoacomunicacao.org.br/novo/content.php?option=com. Consultado em 08 de abril de 2009. 35 Evidenciando a articulação em prol de um ideal comum, o manifesto foi assinado por nomes de destaque como dos professores Antônio Cândido, Dalmo de Abreu Dallari e Emir Sader, também do diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, Michel Löwy. Na época da consulta, a petição on-line já contava com mais de 4.000 assinaturas. Num outro país sul-americano, em abril de 2009, o setuagenário Alberto Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Pela primeira vez um ex-presidente latino-americano foi considerado culpado por esse tipo de crime em um julgamento realizado em seu próprio país. A memória das quase 70.000 vítimas dos abusos cometidos pelo governo Fujimori clamou pela justiça, desafiando um longo período de silenciamento forçado. O ex-presidente chegou a desfrutar de uma grande popularidade por ter fortalecido a economia do país e derrotado a insurgência maoísta Sendero Luminoso, mas um escândalo de corrupção derrubou seu governo em 2000 e ele escapou para o exílio no Japão. Após o anúncio da condenação, houve confrontos nas ruas do Peru entre os simpatizantes e detratores do ex-presidente. Irônica, mas democraticamente, a pessoa mais indicada pelas pesquisas de opinião como a prospectiva presidente do país é a filha do exditador peruano, Keiko Fujimori. A ditadura ainda ressoa incisivamente nos dias de hoje, como atestam inúmeras exposições de arte, memoriais, filmes, obras literárias etc. Expressões de uma sociedade consciente da vulnerabilidade deste sistema de governo acossado tantas vezes pela ganância de poder unilateral. E por que esse tema é tão explorado? Seria mais um clichê dessa cultura latina já tão estigmatizada? Obviamente não. Certamente porque não é possível apagar da memória parte da nossa história de vida. Seria como se esquecêssemos ou omitíssemos o que vivemos na infância ou na juventude. Mais plausível seria imaginar que tais obras são uma reação a segmentos da sociedade que evocam esse período de exceção com certo saudosismo. Esses recordatórios artísticos servem de aviso sobre o quão frágeis são as democracias 36 indiretas, nas quais nos iludimos com a ideia de que o poder emana do povo e para ele governa. Um exemplo singular da recuperação da memória histórica latino-americana é o documentário Utopia e barbárie (2010), do cineasta brasileiro Silvio Tendler. O filme retrata, por meio de entrevistas e imagens da época, a geração que viveu as revoluções da esquerda e da contracultura, como as guerras de independência na África e na Ásia, a guerra do Vietnã, as ditaduras latino-americanas, a queda do socialismo na Alemanha e na União Soviética, a disseminação do neoliberalismo e do conceito de globalização. Entre as 63 personalidades que participam do documentário, destacamos nomes consagrados como Ferreira Goulart, Gianni Vattimo, Leandro Konder, Roberto Retamar, Susan Sontag, Augusto Boal, Amir Haddad e Eduardo Galeano. Na obra o escritor uruguaio tem duas participações, nas quais emite opiniões sobre o período conturbado dos anos 196070, em que se contrapunham utopia e barbárie, identificadas por Tendler como movimentos que se complementam. Também se faz referência a Galeano ao veicular a imagem de Hugo Chávez entregando a Barack Obama a obra Las venas abiertas de América Latina. Coadunando o pensamento que permeia o documentário, Galeano reflete: El derecho de soñar, que es el papá y la mamá de todos los derechos, porque es el que da de comer a todos los demás. [...] ¿ Qué sería de nosotros si no tuviéramos esa posibilidad de ver más allá de la pena, de lanzarnos más allá del desamparo? ¿Qué sería de nosotros? Qué pobres seríamos. Ya no pobres solamente en el sentido material, de esa pobreza que tanta gente sufre en el mundo, sino pobres en un sentido todavía más trágico, todavia peor. Pobres de la falta de ese pan imprescindible que es el que da de comer a la esperanza. 6 Este sentimento de que a utopia é uma necessidade do ser humano para que consiga viver num mundo de injustiças é uma das conclusões a que chegam os participantes das entrevistas. Todos fazem um balanço da trajetória pessoal e política que tomaram, refletindo sobre erros e acertos de uma geração que tentou mudar o mundo pelas ideias e pelas armas. 6 Eduardo Galeano em entrevista a Silvio Tendler no documentário Utopia e Barbárie. 37 Compreender a época em que foi escrita Las venas, ajuda-nos a ter a perspectiva do momento histórico que vivia o autor e os leitores da obra. Por isso é necessário refletir sobre alguns acontecimentos que marcaram a vida daquela geração, visto que a proposição de uma nova história do continente é também um dos objetivos de Galeano. Como será analisado posteriormente, uma das perspectivas que orientará a escritura da obra é a teoria da dependência, linha de raciocínio que será desenvolvida a cada capítulo, obedecendo a uma ordem cronológica que se inicia em 1492, na chegada dos colonizadores ao novo continente. O ensaio está fortemente embasado em variadas fontes e referências bibliográficas que propõem inequivocamente uma relação de causalidade entre a economia-política e os rumos do continente. Especificamente, na segunda parte da obra e no apêndice “Siete años después”, as ditaduras militares são o foco das reflexões de Galeano. O autor defende que existe uma aliança entre as elites econômicas que, com o patrocínio dos Estados Unidos, apóia um golpe militar para que não se permita que governos de esquerda, com forte apoio popular, mantenham-se no poder e rompam sua hegemonia. A relação entre poder econômico e dominação política fica evidente na definição de ditaduras propostas por Arnaldo Spindel: [...] são formas de governo em que o poder econômico lança mão quando da impossibilidade da aplicação com sucesso do modelo de democracia formal. Quando a dominação burguesa não tem condições de se estabilizar no quadro de uma democracia, dadas diversas condições históricas e econômicas, ela passa a se utilizar outros recursos. (SPINDEL,1985, p. 30). Este atentado contra a democracia está quase exclusivamente pautado na coerção física, pela pretensão do direito de monopólio da força, levado a cabo por meio de aparelhos repressivos, sob a alegação da manutenção da ordem na sociedade civil. Na segunda metade do século passado, lamentavelmente, os regimes democráticos na América Latina foram apenas breves intervalos entre ditaduras ou regimes populistas. 38 Como explicar que tantas nações tenham sucumbido a essa dominação simultaneamente? Historicamente, poder-se-ia apontar a frágil democracia no continente baseada na tradição política, herdada historicamente da colonização espanhola e portuguesa, pois na Península Ibérica as decisões eram tomadas por uma elite monárquica. Entretanto, mais que a tradição, parece que a estrutura do poder econômico destes países foi implantada com sucesso nas colônias e estendido, posteriormente, às novas nações independentes. A maioria dessas ex-colônias tinha como atividade principal a exportação de matérias-primas, o que implicava no poder econômico, consequentemente político, concentrado nas mãos de uma oligarquia agrária, que decidia pela maioria, mantendo os privilégios ciclicamente. Alternando-se no poder, como no exemplo brasileiro da “política do café com leite” em que as oligarquias agrárias de São Paulo e Minas Gerais mantinham uma aliança de rotatividade no poder. Ainda quando a democracia era invocada, imperava o regime fundado no autoritarismo, com máscara de democracia, em que os oligarcas que estavam no poder, eleitos por seus pares, obedeciam às leis que eles próprios tinham “votado”, visando seu próprio benefício. Por esse prisma, chegamos à conclusão de que não estamos muito distantes dos sistemas de governo atuais latino-americanos, em que as votações, como as do aumento do próprio salário, são realizadas pelos parlamentares, seus beneficiários diretos. Nos demais países do continente, mudam-se os cenários, permanecem os mesmos atores cênicos. De maneira contumaz, Galeano reitera em Las venas que as nações latino-americanas comungaram um passado de exploração colonial, assim como sofreram um processo de dominação econômica pelos ingleses e, posteriormente, foram substituídos pelos norteamericanos. Esta dominação econômica imperialista ditava os rumos da política local no continente e, de acordo com seus interesses hegemônicos, apoiava as ditaduras militares. 39 Portanto, são análogos os laços históricos de exploração econômica e dominação ideológica que unem essas terras. O transcurso do tempo mostrou que o espólio iniciado com a chegada dos europeus, séculos depois seria continuado violentamente pelos grilhões da ditadura, e mais uma vez este pedaço do globo tornar-se-ia um lugar onde poucos decidiriam o destino de toda uma nação. Nos regimes militares latino-americanos não havia muitas opções: ficar no país e ser perseguido, torturado ou assassinado; ou ser exilado ou exilar-se. Os intelectuais que tiveram a oportunidade de optar pela segunda alternativa foram capazes de transmitir, mesmo do exílio, mensagens de apoio a seus conterrâneos, a mobilização de organismos e da opinião pública internacional para que interviessem a favor dos perseguidos políticos. Como foi o caso de Galeano ao escrever Los dias siguientes (1963), Dias y noches de amor y de guerra (1978) e a trilogia Memoria del Fuego (1982,84,86). Assim, os autores puderam legar às futuras gerações sua experiência e retornar a seu país para lutar pelo restabelecimento da ordem democrática. Analisando esse período da história da América Latina, é possível vislumbrar a violência a que foi submetido o exilado político. Nos relatos de escritores exilados, como Eduardo Galeano, podemos observar as marcas desta experiência em suas vidas: O exílio foi a experiência mais importante da minha vida, sob a ótica do desenvolvimento de uma linguagem, de uma responsabilidade criadora, porque foi depois dele que consegui fazer frente a projetos de criação de longo prazo mais ambiciosos. (CULT, 2000, p.9-10). Galeano entende que o exílio teve um impacto tão grande em sua forma de ver o mundo que, a partir desta experiência, pôde vislumbrar o que e como deveria desenvolver sua linguagem literária. Obviamente, a saída forçada da terra natal transforma a perspectiva que se tem do mundo, assim como a consciência dos assassinatos de amigos e parentes altera a visão que se tem da própria vida. 40 Observando a biografia da intelectualidade latino-americana, pode-se notar o papel do exílio como experiência reveladora, sobretudo, na segunda metade do século XX, e acentuadamente nos países da América do Sul que vivenciaram as agruras das ditaduras militares. Diana Palaversich, ao tratar da escritura de Galeano, dedica dois capítulos ao tema do exílio, citando Rama, afirma que os últimos 200 anos da história do continente foram marcados por deslocamentos forçados de sua equipe política que demonstrou decidida filiação política e, por isso, passou pela experiência do exílio. Este fato decorre da falta de sintonia, uma relação de tensão, como é de se esperar, entre os intelectuais e os centros de poder político. O escritor colombiano Gabriel García Márquez, um dos maiores expoentes da literatura hispano-americana contemporânea, é um exemplo singular de exilado político que fez de sua experiência na ditadura uma motivação para escrever. Gabo, demonstrando que a literatura ficcional, ou especificamente fantástica, serve como um meio de conscientização, sem diminuir o valor da obra literária, caracterizou de forma inconfundível em Cem anos de solidão a dominação norte-americana. Como metáfora, usou a antiga United Fruit Company (EUA), patrocinadora dos inúmeros golpes militares na América Latina. O Nobel de literatura demonstra em seus personagens marcas de sua biografia, como forma de perpetuar na memória de seus leitores a importância da resistência a toda forma de dominação. Portanto, o elemento ficcional da narrativa literária não se opõe ao da narrativa histórica; sua diferença está nas operações intelectuais submetidas a um conjunto de regras que legitimam a argumentação de cada uma delas. (CERTEAU, 1982, p. 11). Este contexto histórico comum a tantos escritores latino-americanos, parte negra do passado recente, é a substância que forjou o caráter político do jovem socialista Eduardo Galeano, tornando-se um dos fios condutores, talvez o mais importante, para quem busca compreender sua obra. Não apenas em Las venas, mas também em sua obra ficcional, 41 jornalística e ensaística, encontramos alusões inequívocas ao período da ditadura e do exílio. O que corrobora o caráter autobiográfico de sua obra, visto que, desde o início de sua carreira como caricaturista e afiliado ao partido socialista, podemos vislumbrar boa parte de sua produção baseada em suas convicções ideológicas. Conhecer um pouco da história pessoal do autor em sua terra natal e na Argentina, países em que foi vítima de perseguição e exílio, ajuda-nos a compreender a configuração do escritor engajado. Para demonstrar que estão vivas as imagens deste período em sua vida diária e que faz questão de que não sejam esquecidas, Galeano descreve as perseguições políticas que sofreu. Em inúmeras crônicas e reportagens reflete sobre o impacto psicológico a que foi submetido: Durante los 12 años de la dictadura militar, Libertad fue nada más que el nombre de una plaza y una cárcel. En esa cárcel, la mayor jaula para presos políticos, estaba prohibido dibujar mujeres embarazadas, parejas, pájaros, mariposas y estrellas; y los presos no podían hablar sin permiso, silbar, sonreír, cantar, caminar rápido ni saludar a otro preso. Pero estaban presos todos, salvo los carceleros y los desterrados: tres millones de presos, aunque parecieran presos unos pocos miles. A 1 de cada 80 uruguayos le ataron una capucha en la cabeza; pero capuchas invisibles cubrieron también a los demás uruguayos, condenados al aislamiento y a la incomunicación, aunque se salvaran de la tortura. El miedo y el silencio fueron convertidos en modos de vida obligatorios. (GALEANO, 2002, p.108). A descrição ilustra incisivamente o modo pelo qual as ditaduras militares latinoamericanas das décadas de 1960 e 1970 encaminharam as questões políticas internas de seus respectivos países. Paralelamente, serve para o aprofundamento do debate em torno da questão da cultura como um todo, especificamente da literatura e de sua relação com a violência institucionalizada pela ditadura. A prosa poética que observamos demonstra seu envolvimento emocional com o tema, assim como seu desejo de retratar com dignidade os que estiveram sob o jugo pesado da perseguição política. A descrição nos possibilita ter uma noção aproximada do impacto psicológico na vida do cidadão comum, na sua forma de pensar e agir, sob a tutela de um sistema repressivo. Galeano remete o leitor que viveu esse período a repensar sua valentia diante das adversidades, e a seus leitores mais jovens, prezar e defender a democracia em que vivem, repensando seus valores e refletindo sobre seu papel na manutenção das liberdades individuais. Ademais, reforça a necessidade de se manter viva a 42 memória dos que morreram em nome dos direitos humanos, trazendo à tona acontecimentos quase sempre relegados aos subterrâneos da História e da memória oficial, visto que os documentos, acervos da ditadura militar, que comprovam o abuso de poder estão protegidos por sigilo, sob a alegação de pôr em risco a segurança nacional. Em nenhuma outra obra de Galeano se observa uma descrição tão incisiva, irônica e irascível da ditadura militar como em Las venas: Las fuerzas armadas fueron convocadas sucesivamente por las clases dominantes de Uruguay y Argentina para aplastar a las fuerzas del cambio, arrancar sus raíces, perpetuar el orden interno de privilegios y generar condiciones económicas y políticas seductoras para el capital extranjero: tierra arrasada, país en orden, trabajadores mansos y baratos. No hay nada más ordenado que un cementerio. [...] Para operar con eficacia, la represión debe parecer arbitraria. Excepto la respiración, toda actividad humana puede constituir un delito. (GALEANO, 1991, p.467.) Se na primeira parte da obra Galeano descreve a exploração e a crueldade a que foram submetidos os primeiros habitantes do continente, antes e depois da independência política, sob as mãos dos colonizadores e do neocolonialismo britânico; na segunda parte e no ensaio Siete años después, sua crítica se abaterá sobre a ganância imperialista norte-americana, patrocinadora das ditaduras militares, e as classes dominantes dos países do continente. Seus argumentos serão a experiência da perseguição política vivida antes do exílio. Como testemunho da verdade, descreverá os métodos de tortura física e psicológica levados a cabo, sob a alegação de manter a ordem pública, submetendo o país às “fuerzas del cambio”, à ignomínia. Num breve retrospecto da história do continente latino-americano, poderíamos apontar dois temas que tem sido repetido reiteradamente na literatura do continente, a saber, a luta dos nativos contra a subjugação territorial, econômica, ideológica de invasores estrangeiros e, posteriormente, a dominação à força militar pelos próprios concidadãos auto-intitulados elite político-militar. Estes dois temas permeiam Las venas. Galeano demonstra que a chegada dos espanhóis instaura uma nova ordem no continente e, na segunda metade do século XX, a ditadura é um divisor de águas da chamada modernidade na América Latina. 43 Não há como pensar a literatura latino-americana sem cotejar o que se aponta como o “detonador” do movimento cultural mais importante deste continente: o realismo mágico e o chamado Boom. O próprio Boom, fenômeno singular da história da literatura hispano-americana, pode ser considerado uma consequência direta dos regimes autoritários, visto que a fuga ou exílio dos escritores latino-americanos para Europa lhes deu projeção internacional, após a publicação de suas obras na Espanha e na França, destino da maioria deles. Nesta época se observa o êxito da literatura latino-americana em geral, e principalmente do realismo mágico, em particular: Certamente, se ela (a literatura latino-americana) representa uma novidade dentro da literatura universal, pela sua técnica e conteúdo, essa literatura reflete e serve de instrumento sociológico às análises sobre as realidades da América Latina, tais como as ditaduras, as desigualdades sociais, a crença religiosa, a guerrilha, a repressão, os povos indígenas, os processos de urbanização. (SÁENZ CARRETE, 1995, p. 258) A literatura latino-americana expressava na época mais que a estética literária do continente, também era interpretada como desveladora da triste realidade enfrentada no continente. Levando em consideração o êxito editorial desta literatura, poder-se-ia cogitar que as ditaduras latino-americanas ensejaram, incidentalmente, algo de positivo. Nada mais longe da verdade, metaforicamente esse período poderia ser considerado a idade das trevas no continente. O êxito da literatura do período foi uma infeliz coincidência, por assim dizer, foi “um tiro pela culatra” para os censores de plantão. Os mecanismos pelos quais o poder político autoritário exerceu sua dominação sobre a sociedade se refletiram na ficção e no discurso ideológico da narrativa de muitos autores, uma reação dos escritores à violência do estado. Claudia Gilman (2003) denomina “bloque de los sesenta/setenta” ao período de escalada da violência repressiva das ditaduras na América Latina. Nas décadas que se seguiram ao golpe militar, a literatura havia se tornado um meio de denunciar as atrocidades cometidas pelo regime, assim como uma forma de evitar que esse 44 período caísse no esquecimento. O crítico literário Silviano Santiago, ao avaliar a literatura que havia sido produzida durante a ditadura, descreve o modo como a literatura havia respondido à repressão. Santiago afirma que, em linhas gerais, destacaram-se duas vias predominantes na produção da época: a alegórica e a jornalística. Na primeira incluíam-se os “textos que se filiam ao realismo dito mágico e que, através de um discurso metafórico e de lógica onírica, pretendem, crítica e mascaradamente, dramatizar situações passíveis de censura”; e na segunda, “os romances-reportagem, cuja intenção fundamental é a de desficcionalizar o texto literário e com isso influir, com contundência, no processo de revelação do real.” (SANTIAGO, 1982, p.52). Em Las venas podemos observar que, embora não se possa classificá-la como um romance-reportagem, claramente busca com contundência desvelar a realidade. Ratificando essa linha de raciocínio, Flora Süssekind defende que as duas tendências caminham juntas em relação à maneira de fazer transparecer o engajamento. Ambas privilegiam a transmissão de uma mensagem unilateral, fixando o leitor na posição de receptor da informação cujo conteúdo é uma denúncia política. “A mesma chave mestra político-referencial abre todas as portas.” (SÜSSEKIND, 1985, p.61). Na realidade, era uma tentativa de burlar a censura, visto que os meios de comunicação estavam sendo monitorados. Assim, a literatura assumia a função informativa que lhe estava impedida. “Como consequência disso, muitos autores da época sustentaram uma posição crítica com relação aos fatos, mas não com relação à linguagem e ao leitor, fazendo da primeira apenas um meio e do segundo um seguidor em potencial.”(VIDAL, 2003). Esse posicionamento nos faz lembrar os tempos das 1a e 2a Guerras Mundiais, quando as fábricas tinham que usar sua capacidade instalada para fins bélicos, como ilustra bem o filme A lista de Schindler (1993), em que uma fábrica de panelas transforma-se numa produtora de artefatos balísticos. Similarmente, os 45 escritores, tão afeitos à matéria onírica, precisam fazer da realidade um elemento a mais na labuta poética, fazendo de sua escritura um meio e de seu leitor um possível discípulo. Essa mescla de realidade e fantasia não era uma prerrogativa ímpar da América hispânica, também no Brasil a ditadura do silêncio e do medo impulsionaram formas de expressão que se afastavam da realidade. Essa evasão se dava, por exemplo, pela falta propositada de ordem cronológica dos acontecimentos, assim como a criação de não-lugares, apenas identificáveis pelos fatos narrados. A caricaturização7 da realidade também era uma forma utilizada pelo escritor para manifestar seu ponto de vista, sem que fosse tachado de reacionário. Havia uma cumplicidade, pois, assim como o escritor tinha a necessidade de se expressar de uma forma inovadora para fugir da censura, também o leitor estava buscando uma literatura que lhe servisse de consolo, uma forma de expressão que lhe possibilitasse acreditar que as injustiças que faziam parte de seu cotidiano eram reais, e que ele não era a única pessoa que percebia e desejava exteriorizar seu sentimento de impotência. Por isso, outras obras do próprio Galeano, como os ensaios publicados em jornais entre 1963 e 1988 reunidos em Nosotros decimos no (1989), apelavam à empatia, à identificação como forma de resistência. O exílio fez de Galeano um estrangeiro em sua própria terra. Ao retornar, após 12 anos longe de seu país, encontrou um Uruguai sem forças para reagir, como se a obsolescência tivesse tomado conta dos ânimos, como se a ferida não houvesse sido extirpada e permanecesse ainda viva não apenas no corpo, mas também na alma: —Disculpe. Es nacional –me dijo un comerciante que me vendió una lata de carne en conserva, al día siguiente de mi regreso al país. Después de 12 años de exilio, confieso que no me lo esperaba. Y cuando lo comenté con mis 7 A caricaturização é um processo que possui similaridades com o estereótipo e com o imaginário. O processo de caricaturização toma, como no estereótipo, um elemento dado na realidade, a caricatura não "inventa" essa característica, mas, ao exagerá-la, vai se assemelhar ao do imaginário, pois ele irá abstrair-se da realidade, criar relações que não são observáveis nela. Então, a semelhança com o estereótipo está no ponto de partida no real, e com o imaginário está na sua posterior abstração dele. http://www.jorwiki.usp.br/gdmat08/index.php/ Consultado em 03 de outubro de 2009. 46 amigos, ellos echaron la culpa al Proceso. Y yo tampoco me esperaba que la dictadura se llamara Proceso. El lenguaje estaba, y quizás todavía está, enfermo de miedo; se había perdido la sana costumbre de llamar pan al pan y vino al vino.(GALEANO, 2002. p. 112) (Grifo nosso) Para o autor, as consequências do exílio continuam ecoando mesmo depois do regresso. Imperava um sentimento de perda da terra natal e um misto de remorso, não só no sentido do exílio propriamente dito, mas também pelo sucumbimento daquela sociedade uruguaia consciente que estava sendo construída ao longo dos anos sob a égide da democracia, anterior ao golpe. A apatia de seus concidadãos desperta um senso de responsabilidade que toma para si como sua missão na terra. Por isso, seu projeto de transformação, iniciado ainda no exílio, ganha corpo com a volta a seu país. Os que viveram esses anos de chumbo sabem que não há muitas diferenças entre os países subjugados pela manu militare. Na memória das vítimas da perseguição política ainda estão presentes os legados da repressão policial, da impunidade e do autoritarismo das instituições. Não obstante, na contramão da história aparece um legado especialmente importante: a existência de uma memória política construída pelos movimentos sociais que se preocupam em transmitir às novas gerações os acontecimentos ocorridos no período da ditadura militar. É essa memória histórica e política da sociedade que Eduardo Galeano quer perpetuar. O histórico de assassinatos na época das ditaduras no Uruguai e na Argentina é assustador. O número de mortos e desaparecidos supera em muitas vezes o caso brasileiro, o que torna a violência ainda mais nefasta, quando comparamos o número de habitantes desses países. A herança da repressão e medo, decorrente deste estado de coisas e o exílio político sofrido por Galeano influenciou fortemente seu estilo, sua temática e suas posições ideológicas. Escrevendo sobre os exilados da região rio-platense, Sheila Wilson Serfaty comenta que “los argentinos y los uruguayos se convierten realmente en latinoamericanos en el exilio.” (SERFATY apud PALAVERSICH, 1995, p.43). Isto se deve ao sentimento nacional e 47 saudosista que impregna os que são forçados a deixar a terra natal. A afirmação denota um certo preconceito dos argentinos e uruguaios em relação aos demais países do continente, baseados na falsa premissa de uma colonização com baixa miscigenação, o que lhes conferiria o status de legítimos descendentes europeus. É necessário que se vejam pelo olhar do outro para que sejam capazes de entender a dimensão de sua própria cultura. Neste sentido, contraditoriamente, os exilados se tornam autênticos nacionalistas. O exílio é uma situação humilhante, pois o que poderia ser uma viagem internacional, possibilitando um enriquecimento cultural e intelectual, torna-se um banimento, como de um animal que não é mais aceito entre os seus. É a negação da própria origem, metaforicamente a exclusão da espécie. É, sobretudo, a negação de toda a história de vida, construída ao longo da existência e o esfacelamento dos laços familiares e de amizade. Em suma, é a imposição do abandono da própria cultura. Sobre o papel do exílio na literatura latino-americana, afirma Ángel Rama: Sarmiento, Montalvo, Martí son algunos ejemplos de una agobiadora práctica que movilizó a los escritores, máxime cuando ellos ostentaban conjuntamente, como también es tradición en la cultura latinoamericana, una decidida filiación política. (Rama apud PALAVERSICH, 1995, p. 82) Como sublinha Rama, mesmo antes da independência, a história da América Latina é marcada pela expulsão ou assassinato dos dissidentes do regime político no poder. O exílio como consequência do embate de ideias entre intelectuais e governo, particularmente quando liderado pelos militares, é uma característica sui generis de nosso continente. Nos casos como os da Argentina, Chile e Uruguai, que tiveram seu auge na década de 1970, com a instauração das ditaduras militares no Cone Sul, foram exilados não só escritores e militantes políticos, mas milhares de cidadãos, impedidos de desempenhar suas atividades pessoais e de trabalho, devido a perseguições. Estes regimes de exceção que depõem presidentes democraticamente 48 eleitos, declaram toques de recolher e fechamento de emissoras de rádio e TV contrários à política do governo, continuam até os dias de hoje. Objetivamente, para a análise da obra de Galeano a que nos propusemos, interessa o exílio político que teve início nos chamados “anos de ira” (1969-1973) em que se intensificaram a repressão e as ramificações sobre a expressão crítica do pensamento. Evidentemente, quando alguém se opõe a um sistema que está no poder, este reage tentando silenciá-lo. Quem discorda é abafado violentamente, lançado no exílio, na prisão ou, como no infame caso argentino, jogado de um avião militar em alto mar, nos denominados voos da morte. Obviamente, nesta época não havia muitas escolhas para os dissidentes do governo, como o próprio Galeano afirma: ¿Cuál sería la alternativa al exilio, al menos en el Rio de la Plata y en la etapa actual? Para sobrevivir, tendríamos que convertirnos en mudos, desterrados, en nuestros propios países, y el exilio de adentro es siempre más duro, y más inútil que cualquier exilio de afuera. (GALEANO, 1988. p.304) Nessas circunstâncias, o caminho mais seguro era fugir para o exterior. E é de lá que Galeano formaria sua trincheira. A princípio, o impacto psicológico da distância da terra natal instaurou um sentimento de perda de identidade e, consequentemente, uma tentativa de evasão do real, entretanto o sentimento de urgência configurou o discurso engajado que consagrou o escritor. No Uruguai, a instauração da ditadura militar divide a sociedade, revelando visões diferentes em relação ao presente e ao futuro. Estes conceitos se evidenciam no campo literário e político. A classe média tinha uma visão idealizada do passado, desejando restabelecer a situação prévia à ditadura. Já a outra parcela minoritária, classificada como esquerda radical por sua identificação com o Movimento de Liberação Nacional – Tupamaro, do qual Galeano fazia parte, queria ver instaurado no país um governo socialista. 49 Analisando os escritores que nasceram depois de 1940, Anderson Imbert conclui que estes autores “participan del mismo rechazo a las formas narrativas que puede observarse en el resto del continente.” O crítico literário afirma que Eduardo Galeano “más que vacilar entre el cuento (Vagamundo, 1973) y la novela (La canción de nosotros, 1975), vacila entre la ficción y el ensaio.” (ANDERSON IMBERT, 2000, p.420). Como sublinhamos, tais obras foram escritas no exílio, portanto, circunscrevem-nas a período peculiar da vida do escritor. Posteriormente analisaremos a importância do gênero ensaístico na América Latina e na obra de Galeano. Outra explicação plausível para esta mudança de foco pode ser a influência de dois grandes escritores, os compatriotas Juan Carlos Onetti, autor de uma obra narrativa áspera e desiludida, com personagens conflitivos, e Mario Benedetti, que tinha uma visão incisiva e crítica da sociedade. Ambos os autores participaram com Galeano do semanário uruguaio Marcha e também foram exilados políticos durante a ditadura. Este grupo de escritores era leitor contumaz da literatura europeia que estava em voga, particularmente, de autores existencialistas como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, que expressavam uma atitude cética diante da vida. Mais que uma opção literária ou uma visão de mundo, La canción de nosotros pode ser entendida como uma etapa primordial do amadurecimento de Galeano como escritor. Se em seu primeiro romance, Los días siguientes, a atitude dos personagens ali descritos é de evasão da realidade e descomprometimento com o que os rodeia, com apatia e passividade; numa fase posterior, radicalizará seu posicionamento ideológico, por assim dizer, já que seus personagens defenderão uma relação de intervenção e defesa de pontos de vista na sociedade em que estão inseridos, visando transformar o estado de coisas, a fim de construir um lugar mais justo de viver. Sem dúvida, Galeano vai paulatinamente aprimorando seu estilo de escrita à medida que adquire mais experiência com o amadurecimento. 50 Não se pode deixar de levar em conta que ao escrever Los días siguientes, Galeano era apenas um jovem de 23 anos de idade, que em 1963 está buscando o meio apropriado para expressar sua veia literária. Evidentemente, a consciência crítica do jovem escritor é muito diferente do Galeano maduro. Ainda que já apareçam elementos que identifiquem a realidade cotidiana uruguaia, diferentemente da escrita vigorosa de Las venas, sua consciência crítica na época se manifesta apenas pelo desprezo dos valores dominantes da sociedade burguesa, sem apontar algum caminho alternativo consistente. Conforme afirma Ángel Rama ao analisar a tomada de consciência dos jovens escritores latino-americanos: “En sus manifestaciones primeras la conciencia crítica es simplemente una insatisfacción ante lo que ofrece la vida y mundo a un joven, cuando no una retracción hacia la vida interior que vale por un implícito juicio del contorno.” (RAMA apud PALAVERSICH, 1995, p. 81). No entender de Rama, até mesmo pela falta de experiência de vida, não se podia exigir destes novos escritores reflexão e discurso tão apurados. O que justifica que a crítica do jovem Galeano se dirigisse à classe média uruguaia, ignorando os problemas do país e do continente, sem se aprofundar analiticamente em suas causas. No entanto, sua abordagem se transformará na década seguinte, quando, já no exílio na Argentina, Galeano escreve o romance La canción de nosotros, em que apresenta as consequências devastadoras da ditadura na sociedade uruguaia. Baseado em circunstâncias reais, apresenta a visão de uma sociedade em que os indivíduos foram destruídos pelos efeitos da ditadura. Galeano apresenta a visão idealizada do Uruguai pré-ditadura como pano de fundo para compor La canción de nosotros. Este lugar que não mais existia e nem podia ser recuperado de maneira factual devido à ditadura, era recobrado por meio da literatura que o autor escreveu no exílio. O tema de La canción de nosotros é o desejo dos exilados de retorno ao espaço geográfico concreto que define sua identidade individual e coletiva. 51 As cicatrizes da ditadura estão impregnadas em cada página, seja de forma vívida, seja nas metáforas nas quais se pode visualizar a cidade de Montevidéu assolada pelo autoritarismo, que torna cada um dos personagens, ainda que de variadas formas, marginalizado ou abandonado política ou sócio-economicamente, como os personagens Ganapán (ganha-pão) e Buscavida, nomes relacionados à picaresca espanhola, representantes de uma camada social carente do Uruguai pós-ditadura: _ ¿ Y el cielo ¿será así también ¿Habrá países tristes en el cielo _ ¿Te preocupa - Buscavida arroja piedritas contra su valija, parada algunos metros más allá – A buen puerto vas por agua. Si igual vos nunca vas a pisar el Cielo. Ahí tampoco te van a dejar entrar. (GALEANO, 1975, p.26) (Grifo nosso) A ideia que se expressa nos advérbios “también” e “tampoco” é da relação de privação enfrentada no cotidiano da sociedade uruguaia e numa promessa de um céu cristão. Também deixa clara a melancolia causada pela tristeza do país tomado, como diria Julio Cortázar, e a necessidade de buscar um lugar melhor, assim como a exclusão social dentro de seu próprio país. Diferentemente do romance anterior, já se percebe nitidamente o engajamento ideológico do autor, que crê no caminho da transformação da sociedade pela via da ação coletiva, visando reconstruir ou recuperar para os uruguaios o próprio país em que se sentem exilados em sua própria terra, que se distanciam do entorno ameaçante para seu mundo interior, fugindo de identificações com os valores impostos pela ditadura. Esse sentimento se depreende da pergunta, como um refrão de Fuenteovejuna: ¿Hay un lugar que sea de nosotros? Três anos depois de publicar La canción de nosotros, em 1978, Galeano escreve o ensaio Siete años después, que viria a compor a versão definitiva de Las venas. Neste ensaio as referências à ditadura e ao exílio dão a dimensão daqueles tempos tormentosos: “En muchos países de América Latina, quien no está desterrado más allá de las fronteras, vive el 52 exilio en la propia tierra.” (GALEANO, 1991, p.469). Galeano demonstra preocupação e compaixão pelo povo uruguaio que, resignadamente, suportava os abusos da ditadura militar. Muitos autores latino-americanos escreveram sobre a experiência do exílio. Comentando sobre este tema, de Paris, em maio de 1967, o escritor argentino Julio Cortázar escreve uma carta ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar, na qual argumenta que a distância territorial promove benefícios em prol de uma melhor contemplação e entendimento da realidade intelectual latino-americana, e que, por isso, sua literatura possui uma raiz nacional e regional potencializada por uma experiência mais aberta e mais complexa (Cf. CROCE, 2006). Esta visão exterior, de quem contempla de fora, coaduna a interpretação de que a escrita desde o exílio proporciona, literalmente, um ponto de vista diferenciado da terra natal. Galeano também denota em La canción de nosotros seu engajamento ideológico, ao propor, por meio do desenvolvimento da consciência política dos personagens, o abandono das superstições que vinculam a situação vivida ao conceito de destino, por isso irremediável. No final da obra, estes mesmos personagens substituem a atitude de resignação por uma relação cada vez mais estreita entre a vida pessoal e o contexto socioeconômico. Esta é a forma que encontra Galeano para demonstrar aos leitores que há uma necessidade premente de conscientização, pois somente pela ação conjunta de todas as camadas sociais seria possível uma mudança radical da sociedade latino-americana. A utopia fica clara quando o autor alude a uma sociedade em que não haja divisão entre elite e subalternos. Obviamente, essa visão utópica e romântica não representava e nem representa a realidade uruguaia ou de qualquer outro país. Este romance, “novela o lo que sea” (GALEANO, 2005, p.9) configura junto com Las venas a gênese do processo de construção literária de Galeano, baseado numa perspectiva revisionista da história latino-americana por meio de um diálogo intertextual entre os períodos 53 de colonização da América, das ditaduras militares e da exploração econômica e cultural norte-americana. Pode-se observar em La canción de nosotros um discurso explicitamente engajado, que visa demonstrar a natureza cíclica das estruturas de repressão no continente ao longo da história e apontar os caminhos possíveis para a transformação desta condição de submissão. Sua proposta, como observaremos, será o caminho da revolução baseado no modelo cubano. Portanto, era necessária a conscientização política dos latino-americanos e, consequentemente, a decisão de atuar em conjunto, uni-vos, como diria Marx, solidariamente todos os marginalizados pelo sistema socioeconômico e político em prol de uma nova sociedade. Há muitas semelhanças entre o conteúdo de La canción de nosotros e Las venas, coincidências, sobretudo, na defesa ideológica de uma sociedade socialista, o que, quase invariavelmente, reflete-se numa concepção maniqueísta da realidade. O compromisso político de Galeano está manifesto como base estruturadora tanto de seu ensaio como da obra ficcional, ratificando seu enveredamento pela literatura engajada. Como sublinhamos, o autor demonstra, implicitamente, que sua literatura está intimamente ligada a sua própria história de vida como homem e como escritor. Por isso, em “Siete años después”, Galeano retoma incisivamente a temática de seu segundo romance, reafirmando sua crença na revolução como única saída para os exilados socioeconomicamente dentro e fora do continente. 1.3. A REVOLUÇÃO CUBANA E O INTELECTUAL LATINO-AMERICANO À geração que viveu a juventude nos 1960-70 atribui-se o epíteto de revolucionária. Esta adjetivação é fruto de uma combinação de fatores econômicos, sociais, comportamentais e culturais. As transformações representam uma resposta ao cenário conturbado da época. Um 54 dos fatores preponderantes, no que se refere à atitude e ao comprometimento político da nova juventude transviada, é a bem sucedida Revolução Cubana, no limiar da década de 1960, ocorrida às margens da maior hegemonia bélica do planeta, um país que expandia sua influência à medida que interferia na política e na economia dos chamados países subdesenvolvidos. A figura do intelectual latino-americano ganha dimensão no cenário conturbado das ditaduras militares, o que acaba por configurar uma identificação quase unívoca entre a esquerda política e a intelectualidade da época. Como a situação política da maioria dos países do continente estava marcada pela opressão dos regimes militares, vislumbrar a derrubada do poder norte-americano em Cuba, por meio de uma revolução popular heróica liderada por jovens idealistas como Fidel Castro, Ernesto (Che) Guevara e Camilo Cienfuegos alimentou a utopia de estender o socialismo a toda a América Latina. Os grandes difusores da Revolução Cubana pelo mundo foram os escritores e intelectuais exilados de seus países. Desta forma, o Boom da literatura hispano-americana foi também protagonista na disseminação dos ideais socialistas no continente. A Revolução de Fidel inspirou o surgimento de movimentos de libertação nacional na América Latina, assim como introduziu no cenário político os grupos subalternos como um novo sujeito histórico. Ao refletirmos sobre preponderante papel das ditaduras e da Revolução Cubana no discurso engajado de Galeano, é preciso destacar que as críticas mais contundentes à ditadura e a defesa explícita da revolução como forma de transformação da sociedade latino-americana está expressa no ensaio Siete años después. A explicação é obvia, a repercussão da obra original fez de Galeano persona non grata em seu país, exilando-se na Argentina, em 1973. Em 1976 foi novamente obrigado a sair deste país rumo à Europa. Dois anos depois, escreve o ensaio que se incorporaria definitivamente à obra. A intenção da escrita de um apêndice à Las venas foi comentar sua recepção na época. No texto, Galeano aprofunda suas críticas ao 55 regime militar, assim como atualiza dados estatísticos, citados em 1971, constatando que em alguns países latino-americanos a situação socioeconômica está ainda pior. A trajetória de Galeano como desenhista, jornalista e escritor demonstram seu perfil de defensor da liberdade de expressão. O cerceamento da liberdade pelo regime militar exacerba no jovem escritor o desejo de defender a mudança do cenário latino-americano. Por isso, pode-se notar sua crítica às elites econômicas e políticas que querem impor um modelo de governo por meio da segregação socioeconômica, como se observa em La canción de nosotros, ou pela negação da memória histórica autóctone e a exploração econômica do continente às mãos estrangeiras, como observamos em Las venas. O discurso engajado é uma marca da escritura de Galeano. A defesa do direito à equidade, à memória, à liberdade é um elemento onipresente em sua escritura, seja nos artigos de jornal ou em sua literatura. Notamos em sua obra a proposição da mudança, a ideia de revolução, a exortação à ação contundente como via de transformação do status quo, ainda que o autor não se detenha em analisar ou elaborar o conceito de revolução. Galeano assume a literatura como um instrumento essencial de cognição e atuação sobre a consciência de seus leitores. Portanto, na gênese de sua criação literária está presente a ideia de revolução. Como sublinhamos, a ditadura militar e a Revolução Cubana são os dois acontecimentos decisivos que vão configurar o pano de fundo do conturbado cenário latinoamericano na segunda metade do século XX. A Revolução, em razão do primeiro, introduzirá no panorama político e, consequentemente, literário, grupos subalternos, maiorias marginalizadas que veem no triunfo socialista cubano um modelo a ser seguido, o que acaba por provocar nas elites econômicas o temor da insurreição popular por conta das demandas por mudanças sociais, gerando novas ditaduras no continente. Foi este contexto sócio-político que levou Galeano a incluir, sete anos depois da primeira edição de Las venas, uma introdução-prólogo que alertava sobre a necessidade de romper com aquele estado de coisas: 56 ¿Tenemos todo prohibido, salvo cruzarnos de brazos? La pobreza no está escrita en los astros; el subdesarrollo no es el fruto de un oscuro designio de Dios. Corren años de revolución, tiempos de redención. Las clases dominantes ponen las barbas en remojo [...] El águila de bronce del Maine, derribada el día de la victoria de la revolución cubana, yace ahora abandonada, con las alas rotas, bajo un portal del barrio viejo de La Habana. Desde Cuba en adelante, también otros países han iniciado por distintas vías y con distintos medios la experiencia del cambio: la perpetuación del actual orden de cosas es la perpetuación del crimen. (GALEANO, 1991, p.10-11). O escritor chama a atenção para a atitude de resignação que tem sido exigida dos latino-americanos pelas classes dominantes. Galeano exorta à ação, pois a situação de precariedade socioeconômica em que vivem nações inteiras na América Latina não é desígnio de Deus. A mudança é possível e a vitoriosa Revolução Cubana é a prova de que a organização social é o caminho para que o povo possa ser sujeito de sua própria história. Para o autor, a estrutura de espoliação somente pode ser desfeita pelo processo revolucionário em que o povo conscientizado toma as rédeas de seu destino, libertando-se dos grilhões da opressão política e econômica. Em Las venas Galeano afirma reiteradamente as qualidades do modelo de revolução desenvolvido em Cuba. No ensaio La revolución ante la estructura de la impotência, o autor descreve a dominação norte-americana que havia na ilha no período da ditadura de Fulgêncio Batista e a campanha vitoriosa de Fidel contra este governo. Também louva as transformações nos âmbitos econômico e educacional: Cuba tenía las piernas cortadas por el estatuto de la dependencia y no le ha resultado nada fácil echarse a andar por su propia cuenta. La mitad de los niños cubanos no iba a la escuela en 1958, pero la ignorancia era, como denunciara Fidel Castro tantas veces, mucho más vasta y más grave que el analfabetismo. La gran campaña de 1961 movilizó a un ejército de jóvenes voluntarios para enseñar a leer y a escribir a todos los cubanos y los resultados asombraron al mundo: Cuba ostenta actualmente, según la Oficina Internacional de Educación de la UNESCO, el menor porcentaje de analfabetos y el mayor porcentaje de población escolar, primaria y secundaria, de América Latina. (GALEANO, 1991, p.115) Para reforçar seus argumentos de defesa do modelo de governo implantado em Cuba, ao longo da obra, Galeano destaca as transformações sociais, os avanços nos campos da educação e da saúde, como exemplos a serem seguidos pelos demais países latino- 57 americanos. São esses avanços ocorridos após a Revolução que até hoje povoa a mente de jovens utópicos, a inspiração ainda é aquela dos movimentos de guerrilha armada no continente. A revolução que se defende em Las venas culminou com a criação de um dos mitos mais influentes na América Latina. Como demonstra a história, inaugurou-se na ilha um período de grande euforia que contaminou toda a região e logo se espalhou pelos outros continentes. A repercussão do fato influenciou especialmente os intelectuais e artistas que eram líderes das organizações de esquerda. A Revolução Cubana se tornou um fenômeno de popularidade e de disseminação ideológica, o que é um feito, visto que, à época, os veículos de comunicação em nada se assemelhavam à velocidade da informação nos dias de hoje. A explicação para a retumbante identificação está na estratégia de propaganda do governo de Havana, a cargo da editora Casa de las Américas e de suas publicações, que tornou Cuba a capital cultural do terceiro mundo, divulgando apenas as inegáveis conquistas sociais da Revolução. Tanto as obras cubanas como as de autores de toda América Latina eram publicadas na ilha e cruzavam fronteiras, difundindo a esperança revolucionária pelo mundo. Um bom exemplo da expansão promovida pela instituição foi o apoio dado a outras experiências de difusão e reflexão da literatura hispano-americana, como o semanário uruguaio Marcha, não por acaso dirigido por Eduardo Galeano, e os suplementos literários Siempre no México e Primera Plana na Argentina.8 Ainda hoje a sede da Casa de las Américas, em Havana, é um lugar de irradiação da cultura cubana, onde se recepcionam turistas e, principalmente, estudiosos do “fenômeno” Revolução Cubana. A editora, por meio de sua revista, concursos literários e prêmios articulou e articula o intercâmbio cultural entre os países do continente e do mundo. O reconhecimento internacional pelo trabalho de divulgação dos autores latino-americanos teve seu apogeu nas 8 Sobre a importância da Casa de las Américas na difusão da Revolução Cubana por meio da literatura hispanoamericana, conferir BRAGANÇA, 2008. 58 conquistas dos Prêmios Nobel conferidos ao guatemalteco Miguel Ángel Astúrias em 1967, ao chileno Pablo Neruda em 1971 e ao colombiano Gabriel García Márquez em 1982. Analisando a relação de apoio ou patrocínio da instituição editorial cubana aos escritores que abraçaram a causa socialista, pode-se cogitar um dos motivos que dificultaram o rompimento dos laços de amizade e cooperação com o regime castrista, mesmo após a divulgação de execuções sumárias e encarceramentos ordinários por “crimes de consciência.” Entretanto, esta relação de engajamento à causa cubana, quase unânime por parte dos intelectuais no início dos anos 1960, começou a ruir quando autores e intelectuais se pronunciaram hostis à política cubana, porque reconheceram que no modelo de governo adotado na ilha pouco havia de democrático e de liberdade de expressão. Donde se conclui que a sonhada democracia socialista, como queria Karl Marx, nunca chegaria a concretizar-se de fato nem no país caribenho nem em outra parte do globo. Ainda hoje, Galeano mantém proximidade com o governo cubano. A Revolução e as contradições de Havana influenciaram contundentemente o pensamento e a obra do escritor uruguaio. Portanto, uma análise sobre o impacto da Revolução na sociedade latino-americana ajuda-nos a compreender melhor um dos temas mais comuns da literatura do continente no século passado. O alcance da Revolução Cubana pode ser notado nas correntes políticas e ideológicas que sobrevivem até hoje. Este movimento teve reflexos na economia do continente, pois também influenciou as relações externas entre os países, que passaram a dividir-se entre prós e contras ao regime castrista. A reação de alguns governos à caminhada vermelha, que culminou no acirramento das liberdades individuais, levou ao bloqueio comercial e às privações por que passa o povo cubano até os dias de hoje. Entretanto, em vez de estancar o movimento, tal atitude reforçou a mitologia em torno do acontecimento histórico. Como a América Latina vivia uma época de crise, revelada pelos problemas comuns de seu subdesenvolvimento como a questão agrária, 59 dependência externa, decadência das condições das políticas públicas e, principalmente, a expansão dos regimes ditatoriais; no imaginário intelectual, a revolução9 era um modelo para a tomada do poder em nome da luta contra a ditadura, em favor da democracia e da justiça social. Daí a inspiração para obras literárias que tinham como pano de fundo a insurgência contra a dominação política e socioeconômica. Debates acirrados sobre o caráter do processo cubano, seus personagens e o percurso da Revolução foram protagonizados por jornalistas, cientistas sociais, historiadores, educadores e gente proveniente das mais diversas áreas que foram, inclusive, perseguidos em seus países por apoiarem a causa cubana. Na própria ilha caribenha, boa parte da intelectualidade brindou a Revolução e a apoiou, sobretudo, até o final da década de 1960. O escritor mexicano Carlos Monsiváis denomina esse período años del consenso10. Segundo o autor, nunca houve na história um feito político capaz de articular em torno de si tantos artistas e intelectuais. Para Monsiváis, a ressonância da Revolução ganhou força ainda em 1959, ano do levante, quando as autoridades cubanas decidiram fundar a Casa de las Américas, cujo objetivo era obter o apoio de artistas, escritores e intelectuais de esquerda de todo mundo à causa cubana. Como sublinhamos, esta instituição funcionava como departamento de relações públicas da Revolução e é a grande responsável pela adesão ideológica de acadêmicos de todo o mundo a sua causa. Os años de consenso, entretanto, não duraram muito tempo. A morte precoce de Camilo Cienfuegos, a saída nebulosa de Che Guevara do governo cubano rumo à Bolívia, culminando em seu assassinato em Valle Grande, e o desaparecimento ou eliminação de outros possíveis concorrentes da fase insurrecional deixou Fidel Castro em uma posição privilegiadíssima. Assim, a Revolução acabou sendo dominada por sua figura ímpar. 9 Em estudos sobre a América Latina, o historiador José Luis Bendicho Beired discute a recorrência do termo revolução no vocabulário político latino-americano. O autor afirma que, diante da inexistência de um espaço institucional capaz de contemplar a diversidade de expectativas e interesses, “revolucionar” tornou-se sinônimo de “tomar o poder”. BEIRED, 1996, p.439. 10 Carlos Monsiváis apud MARQUES, Rickley Leandro. O papel dos intelectuais na revolução cubana – o caso Padilla. http://www.unb.br/ih/novo/ revistas/2.2008. Consultado em 12 de junho de 2009. 60 O tempo mostrou, conforme satirizou o escritor, jornalista e militante político inglês George Orwell, em A revolução dos bichos (1945), os ideais igualitários que conquistam muitos adeptos, inexoravelmente, são corroídos pela própria natureza humana e desembocam em tiranias. Em prol do bem-geral, uma parcela privilegiada da sociedade toma para si a responsabilidade pela liberdade de escolha dos demais, dando inicio ao culto pela personalidade de um líder carismático. O que equivale dizer que a sonhada democracia socialista nunca chegaria a concretizar-se de fato, seja nos trópicos latino-americanos ou na Eurásia. O grande modelo, a União Soviética, atual Rússia, abandonou em 1991 o sistema que denominava socialismo, ainda que não fosse possível chamá-lo deveras socialista, assim como tampouco o é a República Popular Democrática da Coréia, o Vietnã ou a República Popular da China. Países que, sob o manto do socialismo/comunismo, têm imposto regimes cruelmente arbitrários. Ainda assim, no mundo globalizado, as tiranias não impedem que os países democráticos mantenham intensas relações comerciais, desde que tirem proveito disto. Um exemplo singular desta política econômica é o clima de instabilidade política e de revoltas populares que se assiste em 2011 no Oriente Médio. Na década de 1960, na América Latina, uma das consequências mais funestas da centralização do poder nas mãos de Fidel foi o tolhimento da liberdade de expressão. Ainda em 1961, pouco tempo após a Revolução, houve uma controversa proibição da exibição de um documentário sobre a região denominada Havana Velha. O filme retratava a realidade da área portuária, inclusive os casos de prostituição. Sua proibição gerou a crítica de intelectuais cubanos e estrangeiros. Para contornar a celeuma, El Comandante en Jefe fez um pronunciamento intitulado Palabras a los intelectuales, relativizando a censura ao filme e a liberdade de expressão, mas deixando claro que a Revolução estava à frente de quaisquer 61 outros assuntos. Foi neste episódio que Fidel cunhou a famosa frase “dentro de la revolución, todo; fuera de la revolución, nada” 11. No entanto, sete anos depois, ocorreu outro episódio que desencadeou a maior crise entre o governo cubano e os intelectuais desde o inicio da Revolução, o chamado Caso Padilla. Trata-se da perseguição política mais conhecida dentro e fora da ilha. O poeta Heberto Padilla, um dos mais famosos escritores cubanos da época, foi publicamente repreendido após escrever o livro de poemas Fuera del juego (1968), no qual demonstrava sua insatisfação com a falta de liberdade de expressão em Cuba. A polêmica agravou-se quando o livro ganhou o prêmio Julián del Casal na categoria de poesia, e Padilla, posteriormente, foi recolhido ao cárcere. A prisão repercutiu internacionalmente e dividiu a opinião dos representantes da Casa de las Américas, pois a maioria dos intelectuais estrangeiros não aceitava o encarceramento do poeta e ameaçava romper relações com a instituição e com o governo cubano, caso o poeta não fosse libertado. No México, Octavio Paz reuniu um círculo de intelectuais composto por Carlos Fuentes, Juan Rulfo, entre outros, que manifestou sua desaprovação quanto à prisão do poeta cubano e enfatizaram a importância do direito à crítica intelectual e da liberdade, para que Cuba não caísse em um ato “repressivo” e “antidemocrático”. 12 Seguindo o exemplo mexicano, cerca de oitenta intelectuais da arte e da cultura mundial, tais como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag, Frederico Felline, Marguerite Duras, Alberto Moravia entre outros, que eram publicamente conhecidos como amigos de Cuba e colaboravam na divulgação e legitimação da Revolução, 11 Fidel Castro. Palabras a los intelectuales. Ministerio de Cultura de la República de Cuba. http://www.min.cult.cu/loader.php?sec=historia&cont=palabrasalosintelectuales. Consultado em 16 de março de 2008. 12 A primeira carta de protesto dirigida a Fidel Castro contra a prisão de Padilla, assinada pelos escritores mexicanos do Pen Club do México, foi publicada em 2 de abril de 1971, no jornal mexicano Excelsior. Citado por Sílvia Cezar Miskulin, em Um olhar crítico da intelectualidade de esquerda mexicana sobre a Revolução Cubana. www.anphlac.org/periodicos /anais/ encontro7 /silvia _miskulin.pdf. Consultado em 12 de setembro 2009. 62 assinaram um manifesto de repúdio13 à prisão de Padilla por tratar-se de um método repressivo e por constranger a liberdade de expressão. Para abrandar os ânimos, o poeta foi liberado. Entretanto, logo depois da libertação, Padilla foi “convidado” a ler uma carta, na qual se desculpava pelo que escreveu e a fazer uma autocrítica em que delatava nominalmente seus amigos. Essa atitude foi muito mal interpretada, sobretudo fora de Cuba, por tratar-se de um ato de retratação forçado. O procedimento visava à humilhação e autocondenação públicas dos que se comportassem como contra-revolucionários, servindo de exemplo a outros dissidentes. Ainda assim, visando à própria integridade física, os intelectuais e demais artistas cubanos mantiveram o apoio irrestrito à Revolução. Após o caso Padilla, Havana, que fora a vanguarda intelectual e artística da América Latina, encerrou-se em seus próprios muros. Muitos intelectuais estrangeiros ainda se consideravam amigos de Cuba, como Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes. Entretanto, o regime já não inspirava a utopia latino-americana. Até hoje o caso Padilla é considerado o divisor de águas entre os tempos áureos do movimento e as pesadas críticas ao regime. Depois dele, instauraram-se debates acalorados entre os que defendiam a implantação do socialismo nos moldes cubanos em todo continente latino-americano e dos que acusavam Cuba de ter se tornado mais um regime totalitário. Seria até possível ver analogias entre o caso Dreyfus na França, como analisaremos posteriormente, e o de Padilla em Cuba. Enquanto o primeiro marcou o reconhecimento público do intelectual, o caso Padilla dividiu as opiniões desta classe de homens letrados. Entretanto, o caso Padilla não foi a última controvérsia entre os intelectuais e o regime cubano. Em abril de 2003, um grupo de intelectuais, políticos e artistas enviaram uma carta à Cuba, condenando o que o governo castrista chamou de “juízo por delito de consciência”, ou 13 Cf. Padilla, H. Treinta años después de Fuera del juego. Em: Revista Encuentro de la Cultura Cubana. Madrid. no. 19, 2000-2001, p. 43-45. 63 seja, a emissão de qualquer opinião contrária ao regime, vigorando a proibição da liberdade de expressão dos cubanos. Mais uma vez, a intelectualidade internacional saiu em defesa dos cidadãos da ilha que foram privados de sua liberdade de expressão. Numa carta aberta, Guter Grass, Mario Vargas Llosa, Antonio Tabucchi, Jorge Edwards, Javier Marías, Fernando Savater, Emilio Lamo de Espinosa, François Maspero, Adam Michnik, Enrique Krauze, Carlos Monsiváis, entre outros argumentavam que o governo de Fidel Castro, aproveitando-se da comoção internacional gerada pela guerra no Iraque, iniciou uma onda de violenta repressão política contra 78 opositores, encarcerados e condenados a penas de até 28 anos por delitos de associação e consciência: Los abajo firmantes, intelectuales, artistas y políticos del mundo democrático, exigimos al gobierno cubano la inmediata liberación de todos los disidentes, que desean la soberanía y la democracia de su país, y demandamos el cese de la represión contra la oposición pacífica. 14 Corroborando a atitude dos intelectuais latino-americanos, o escritor português José Saramago defendeu o direito de discordar e criticou a pena de morte aplicada em Cuba, principalmente para os casos denominados pelo governo castrista de crimes de consciência. Eduardo Galeano, reconhecidamente um dos maiores defensores da Revolução e um difusor apaixonado do modelo cubano, não pôde omitir-se. No artigo intitulado Cuba duele15, publicado no semanário uruguaio Brecha, em 17 de abril 2003, ainda que o autor contemporizasse a situação, afirmando que os dissidentes são “grupos que operaban desde la casa de James Cason” (chefe diplomático dos EUA), e que os “amigos que están lejos” compreendam as medidas que Cuba “se ha visto obligada a tomar” (Grifo nosso). Galeano, mesmo nestes termos, exigiu maior liberdade para os cubanos: “Si en Cuba hubiera plena libertad de prensa y de opinión, esta presunta disidencia se descalificaría a sí misma.” (GALEANO, 2003). 14 http://arch1.cubaencuentro.com/sociedad/represionencuba/20030405/0fa6576d3167fc02884193f7f252c7de.ht ml. Consultado em 05 de julho de 2008. 15 Eduardo Galeano. Cuba duele. Publicado no semanário Brecha, em 17 de abril 2003. 64 Galeano demonstra toda sua tristeza e frustração pelos acontecimentos na ilha. Na crônica, tece comentários sobre a vocação democrática da Revolução Cubana e da traição que se tem feito ao socialismo nos séculos XX e XXI: “Son visibles, en Cuba, los signos de decadencia de un modelo de poder centralizado, que convierte en mérito revolucionario la obediencia a las órdenes que bajan, ‘bajó la orientación’, desde las cumbres.” (GALEANO, 2003). (Grifo do autor). Ademais, ressalta a necessidade de liberdade e justiça para que a Revolução possa continuar: Las prisiones y los fusilamientos en Cuba son muy buenas noticias para el superpoder universal, que está loco de ganas de sacarse de la garganta esta porfiada espina. Son muy malas noticias, en cambio, noticias tristes que mucho duelen, para quienes creemos que es admirable la valentía de ese país chiquito y tan capaz de grandeza, pero también creemos que la libertad y la justicia marchan juntas o no marchan. (GALEANO, 2003). Galeano demonstra não ter abandonado o apoio ao regime cubano, entretanto, ainda que tardiamente, fez eco ao que afirmou o peruano Manuel González Prada: “Los intelectuales sirven de luz; pero no deben hacer de lazarillos, sobre todo en las tremendas crisis sociales donde el brazo ejecuta lo pensado por la cabeza.” (Apud MONSIVÁIS, 2007, p.18). O ocaso do século XX demonstrou que as utopias foram apenas utopias. O fato de intelectuais da envergadura de Saramago e Galeano, tradicionais aliados de Havana, criticarem publicamente o governo cubano serviu como um termômetro do estado da opinião pública em todo o mundo. Assim, toda uma ideologia, um sonho de uma América Latina nos moldes cubanos, defendida com unhas e dentes por Galeano ao longo de anos, sofreu um duro golpe, o que lhe obrigou, não a abandonar suas convicções ideológicas, mas a ser mais cauteloso na defesa da causa. Após esses acontecimentos, a perspectiva sobre o socialismo mudou drasticamente, no meio intelectual a dissidência já sobrepujava o apoio a Fidel Castro que, alheio às críticas, manteve sua condução com mão de ferro. “El comandante en jefe”, um dos principais ícones 65 do século passado, foi capaz de enganar a morte e escrever sua própria história. Resistiu à invasão de Cuba pela maior potência militar de todos os tempos, no episódio da Baía dos Porcos, assim como aos planos frustrados da agência de inteligência norte-americana para assassiná-lo e ao bloqueio político e econômico que, em menor grau, perdura até os dias de hoje. Castro afrontou a tudo e a todos e ainda foi o responsável pela nomeação de seu sucessor, o irmão Raúl Castro, em 2008, às vésperas de seu regime completar 50 anos. Como explicar que a revolução em uma ilha caribenha tenha alcançado o status que ainda ostenta e por tanto tempo? Não seria descabido afirmar que a projeção que recebeu e ainda recebe a Revolução Cubana se deve em grande parte à repercussão das vozes dos intelectuais simpáticos ao regime, dentre os quais, Galeano tem cadeira cativa. Deve-se muito também ao êxito editorial de Las venas abiertas de América Latina a propagação da revolução caribenha, não apenas como um movimento político, mas também como uma filosofia de vida que marcou a geração de 1960-70, e ainda influencia muitos jovens nos dias de hoje. Em nenhuma hipótese infravalorizamos os méritos do acontecimento histórico nem as condições desfavoráveis em que se deram. Jovens idealistas, após três anos de guerrilha nas montanhas da pequena ilha, chegam vitoriosos em Havana e implantam o primeiro, e único, governo socialista na América. O carisma pessoal de seus protagonistas talvez seja um dos motivos que tornam a Revolução Cubana tão singular em relação a outros modelos do gênero. Estes personagens históricos conseguiram consubstanciar-se no próprio movimento. Fidel ainda vive dos louros de sua ação há cinquenta anos. O argentino Ernesto Guevara de la Serna, o Che Guevara, capturado e morto em circunstâncias épicas, segundo os relatos da história, permanece como estandarte supremo do regime cubano e encarna em todo o mundo o ideal de revolucionário. 66 Em Las venas, Galeano cita seis vezes a Fidel Castro e em todas elas reproduz ipsis litteris trechos de seus discursos: “‘Cuba sigue siendo una factoría productora de materia prima. Se exporta azúcar para importar caramelos [...]’ (Fidel Castro, La Revolución cubana (discursos), Buenos Aires, 1959.)”. Ou faz irônicas referências incidentais: “Aquí las familias quieren mucho a los mártires - me ha dicho un viejo cañero -, pero después de muertos. Antes eran puras quejas’. Pienso que no resultaba casual que Fidel Castro reclutara a las tres cuartas partes de sus guerrilleros entre los campesinos [...].”(GALEANO, 1991, p. 116). Apesar de citar o revolucionário Che Guevara em apenas quatro ocasiões, em todas elas exalta sua sabedoria e liderança. Galeano faz questão de salientar que teve trato pessoal com o médico argentino: “En 1964, en su despacho de La Habana, el Che Guevara me enseñó que la Cuba de Batista no era sólo de azúcar: los grandes yacimientos, cubanos de níquel y de manganeso explicaban mejor, a su juicio, la furia ciega del Imperio contra la revolución.” (GALEANO, 1991, p.221). Até mesmo o verbo utilizado por Galeano, “enseñar”, demonstra seu caráter de discípulo do guerrilheiro. Che Guevara, ou simplesmente Che, é um fenômeno de popularidade. Trata-se de uma imagem mais conhecida que a da própria Revolução Cubana. Presente em quase todas as manifestações populares de protesto, como um pop star, conquista jovens de todas as idades, que compram avidamente pôsteres e camisetas, alimentando a ganância do mercado capitalista. É um exemplo singular de sucesso na história do merchandising mundial e os intelectuais latino-americanos têm muita responsabilidade nisso, e a mídia também tem seu quinhão, pois graças a eles, o Che Guevara que paira na memória coletiva é um guerrilheiro heroico. Seu sacrifício o elevou à condição de mártir e de mito. As fotografias divulgadas de seu cadáver assemelham-se às reproduções artísticas da crucificação de Cristo. Em Cuba é considerado um santo, contando, inclusive, com um memorial que possui toda uma liturgia 67 para sua visitação, ou peregrinação. Ao redor do mundo, é visto como um símbolo de quem se ofereceu em holocausto em favor de um mundo mais justo. Visões românticas à parte, pouco se divulga sobre o período em que Che Guevara esteve à frente de La Cabaña, uma caserna do regime cubano, convertida rapidamente num dos mais ativos centros de fuzilamentos. Logo depois da vitória da revolução, centenas foram mortos, muitos após sumaríssimos julgamentos, ou sem eles. Entretanto, o que ficou na memória foi o herói eternizado em teses, nas muitas biografias e filmes excessivamente românticos e maniqueístas que sedimentaram o caminho para o mito Che. Atualmente parece impossível questionar uma figura lendária forjada nos anos 1960 e agraciada pela visita dos ícones da geração, os intelectuais franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Entretanto, para o exilado político cubano Jacobo Machover, filho do tradutor do próprio Che Guevara, o guerrilheiro argentino foi um dos maiores assassinos da Revolução. Em seu livro La cara oculta del Che (2008), apresenta uma série de testemunhos de vítimas que estiveram diante de Che e relataram que ele dirigiu pessoalmente centenas de execuções sumárias de contra-revolucionários em Cuba. Não é nossa intenção questionar a biografia de personagens históricos ou a Revolução Cubana, sob uma perspectiva contra-revisionista, contestando a proposta de Galeano em relação à história oficial da América Latina. Apenas refletimos sobre a transcedentalidade de um dos temas norteadores de Las venas, visto que este fato histórico inspirou outras obras literárias e deu visibilidade internacional a vários intelectuais latino-americanos. No final do século passado, a imagem que boa parte da intelectualidade latinoamericana projetava de Cuba era de um modelo socialista em que a igualdade social, o direito à educação, à saúde, ao trabalho, à cidadania reforçavam a defesa do legado desse regime para toda América Latina. Entretanto, a realidade deixada por esse sistema de governo tem sido, nos continentes que vigorou ou ainda sobrevive, a materialização de ditaduras políticas por 68 meio de polícias secretas, delação de vizinhos pela simples expressão de pensamento dissidente, controle estrito das populações, privação e misérias econômicas. Assim é a realidade descrita pelos exilados e fugitivos do regime. Atualmente, a maior fonte de arrecadação de Cuba é o turismo. Mas a abertura do aeroporto José Martí aos estrangeiros não significou o relaxamento da vigilância ostensiva. Duas moedas circulam oficialmente no país, o “peso cubano convertible” (CUC), apenas para os turistas, e o peso para cidadãos do país. A nenhum cubano é permitido conduzir estrangeiros em carros particulares, sob pena de prisão ou multa. A frota de automóveis em Cuba é composta em mais de 80% por veículos fabricados nos anos 1950. O mesmo se pode afirmar do precário transporte público. Entretanto, novíssimos modelos esportivos importados são vistos pela cidade, só os estrangeiros que moram no país e os cubanos que têm a permissão do governo podem comprar automóveis. Não é permitido ao cidadão do país hospedar-se em hotéis, tampouco receber estrangeiros na própria residência sem comunicação prévia, pois a vigilância dos comitês revolucionários – um tipo de polícia comunitária, garante o controle do regime. Na via pública, uma conversa mais demorada com um estrangeiro também pode acarretar em advertência ou detenção, ainda que temporária, até que o turista tenha se afastado o suficiente. Internet, celular, TV a cabo são limitados, restritos ou rastreados. Sem negar a importância do movimento sócio-político mais influente do século passado na América Latina, questiona-se a herança desta revolução, não apenas para Cuba, mas também para uma nova geração que cultua um modelo de regime utópico, interpretado pelas lentes da literatura intelectual da época, no peculiar contexto histórico da Guerra Fria. Não ignoramos as conquistas sociais inquestionáveis que houve na ilha caribenha, mas a que preço? Há dívidas morais que persistem até os dias de hoje. Que papel teve a intelectualidade latino-americana na perpetuação da ideia de uma revolução que ainda não acabou, o que 69 contraria o próprio conceito de revolução, ato transitório que leva a uma mudança. A esquerda latino-americana divide a responsabilidade com o regime castrista na mais longa ditadura pessoal do século XX. A Revolução há alguns anos já não é mais uma unanimidade, nem mesmo para a própria esquerda. Por isso, os intelectuais estrangeiros que ainda apóiam o regime cubano, já o fazem sem o entusiasmo de outrora. A diversificação temática que se observa nas obras de Galeano do final do século passado e no atual pode ser compreendida como reflexo de uma nova ordem política mundial. Entretanto, Galeano não abandonou sua trincheira de escritor engajado. Como é sabido, o uruguaio figura entre um dos personagens da esquerda mais destacados na defesa do regime cubano e, atualmente, tem feito discursos nas posses e realizações de Hugo Chávez e Evo Morales, apoiando a doutrina bolivariana. Recentemente, em maio de 2009, a edição eletrônica do jornal argentino Página 12 publicou fragmentos do discurso de Eduardo Galeano no encontro Reflexiones sobre el proceso de cambio en Venezuela y su impacto en América Latina, el Caribe y el Mundo 16. Na ocasião, Galeano argumentou que o presidente venezuelano é ‘el satán predilecto’ de Europa, mas não veem a ‘demagogia’ e o ‘populismo’ de Silvio Berlusconi na Itália. Segundo o escritor uruguaio, os processos de mudança que se efetuam na América Latina são ‘profundos’, ‘diversos’ y ‘hermosos’, mas são ‘bastante incomprensibles para el Norte del mundo’. Reafirmando a teoria da dependência, tese defendida em Las venas, assegurou que “Hay una tradición de desprecio que proviene de la humillación colonial, que obliga a desconocer todo lo que en estas comarcas ocurre’. Galeano ratificou que ‘la riqueza de los países del Norte tiene raíces históricas muy claras, proviene del robo y el saqueo’. E concluiu seu discurso descrevendo as transformações promovidas por Chávez como ‘fecundas’, ‘criadoras’ e ‘interesantísimas’. 16 http://www.pagina12.com.ar/diario/ultimas/20-124185-2009-05-01.html Consultado em 08 de outubro de 2009. 70 O histórico de lutas de Galeano contra as ditaduras militares lhe conduz a uma encruzilhada em seu papel de intelectual. Como evitar os extremos da postura do engajamento político partidário sem tomar a atitude do isolamento em torres de marfim Um bom norte é apontado pelo filósofo italiano Norberto Bobbio: “A primeira tarefa dos intelectuais deveria ser a de impedir que o monopólio da força torne-se também o monopólio da verdade.” (BOBBIO, 1997, p. 81). Na perspectiva de Bobbio, o apoio à elite econômica ou política desabilita a identificação do intelectual, ou seja, somente posicionando-se contra as forças hegemônicas, é possível ostentar o título de intelectual. Título, aliás, que Galeano rejeita veementemente, como se observa no extenso ensaio Siete años después, que encerra Las venas: [...]El lenguaje hermético no siempre es el precio inevitable de la profundidad. Puede esconder simplemente, en algunos casos, una incapacidad de comunicación elevada a la categoría de virtud intelectual. Sospecho que el aburrimiento sirve así, a menudo, para bendecir el orden establecido: confirma que el conocimiento es un privilegio de las élites. (GALEANO, 1991, p.438). Galeano repudia qualquer tipo de identificação de Las venas com o discurso hermético e pretensioso da intelectualidade, representante das elites. O autor procura demonstrar pela própria linguagem utilizada que se identifica com os grupos subalternos, alijados dos privilégios, e que deseja subverter a ordem estabelecida. A trajetória de lutas do escritor contra as injustiças sociais e as ditaduras, tanto na juventude como na madurez, é coerente com seu discurso em Las venas. Galeano sempre se posicionou explicitamente contra qualquer tipo de cerceamento da liberdade. Entretanto, não é tão simples compreender os processos sociais e políticos na América Latina quando se está emocionalmente inserido nestes mesmos processos. Portanto, fugir do maniqueísmo e contemporizar os desdobramentos da escritura engajada pós-ditadura é uma tarefa que ainda encontra-se em processo. 71 2. LITERATURA E ENGAJAMENTO Yo hago literatura comprometida, es lo mío. Me siento muy comprometido con el oficio literario que, para mí, es un oficio solidario. Eduardo Galeano 2.1. POLÍTICA E LITERATURA Vivemos na era do capitalismo global, em que a dominação das massas pelo poder da propaganda midiática é irreversível. A literatura como expressão cultural, íntima e social do ser humano não ficou alheia a estas transformações. Contestou o curso da história, mas também se tornou um produto de sua lógica. Os paradigmas tradicionais da literatura têm sido repensados, sedimentando novas visões de mundo, contextualizadas à luz do momento histórico em que está inserida. Portanto, o fato literário é historicizado, o que significa que pode compartilhar ou rechaçar o sistema do qual faz parte. Não é nova a idéia de vinculação da arte como instrumento de contestação ou disseminação de uma ideologia. No século passado, ao redor do mundo e, quase epidemicamente, nos países latino-americanos, as ditaduras vicejaram, encarregando-se de retroceder a condição humana à dos primatas. Foi a situação de prisioneiros em seu próprio país, forjada pelas ditaduras militares, que configurou a resistência do movimento intelectual contra os abusos de autoridade em toda a América Latina. Essa reação mobilizou diversas formas de expressão cultural, e a literatura não ficou alheia ao assoreamento da liberdade de pensamento provocado pelos regimes autoritários. Alguns escritores fizeram de suas obras monumentos de resistência, vinculando sua arte a um fim específico. A ideia de tornar a literatura um instrumento de reivindicação e compromisso social nunca foi uma unanimidade. O Formalismo Russo é um dos grandes exemplos de análise literária que recusa abordagens extrínsecas ao texto; seus teóricos defendiam que a 72 interpretação literária deveria ser efetuada por meio dos constituintes estéticos do texto literário, sem relevar aspectos externos, sem levar em conta metodologias baseadas na psicologia, antropologia, filosofia etc. Em grande medida, essa recusa é reflexo da concepção de literatura como “a desfamiliarização da verdade que constitui (verdadeira ou aparente) seu objeto, de maneira que o leitor perceba, por meio de sua recriação artística – o que faz com que a literatura seja uma arte – aspectos do mundo que lhe escapariam de outro modo” (LUIZ-RODRÍGUEZ, 1997, p. 14.). Entretanto, não é simples chegar a uma definição derradeira sobre literatura. Como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um [...] aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CÂNDIDO, 1995, p.249.) Sob esta perspectiva, a literatura exorta à reflexão e nos torna mais humanos, motivando a adquirir conhecimentos. Tal ponto de vista é uma consequência da interdisciplinaridade que se observa nos estudos literários nos quais se leva em consideração outros campos do saber como a sociologia, a história, a antropologia, a psicologia que aprofundam e propõem novos olhares à análise literária. Como sublinha Roland Barthes: Da mesma maneira, o Texto não pára na (boa) literatura: não pode ser abrangido numa hierarquia, nem mesmo numa simples divisão de gêneros. [...]. Se o Texto suscita problemas de classificação (aliás, é uma de suas funções ‘sociais’), é que sempre implica certa experiência do limite. [...] o Texto é sempre paradoxal. (BARTHES, 2004. p.73). Sob a perspectiva de Barthes, não há gêneros melhores, nem pode haver uma hierarquização de textos. Entre suas inúmeras funções, também está a social. Coadunando o pensamento de Barthes, Alceu Amoroso Lima defende que a literatura seja a “expressão 73 verbal com ênfase nos meios e não com exclusão dos fins.” (LIMA, 1969, p. 22) (Grifo nosso). Equivale dizer que se uma obra tem uma função que vai além da fruição estética, isso não a desabona como arte. Por outro lado, podemos confrontar esta afirmação, apegando-nos a indagação do crítico francês Gerard Genette sobre as condições que fazem de um texto uma obra literária ou um objeto verbal com função estética, dotado de literariedade 17. Genette elabora uma teoria para determinar a literariedade de um objeto verbal, propondo que “leve em conta as diversas maneiras que a linguagem possui de escapar e sobreviver à sua função prática e produzir textos suscetíveis de serem recebidos e apreciados como objetos estéticos.” (GENETTE, 1991, p.31). O autor estabelece dois regimes de literariedade: o constitutivo, garantido por um complexo de intenções, de convenções genéricas e de tradições culturais e o condicional, que provém de uma apreciação estética subjetiva. Além disso, também define dois critérios de literariedade: o temático e o remático. Enquanto o primeiro diz respeito ao conteúdo do discurso, o segundo considera o discurso em si mesmo, não somente o que o texto diz, mas o que o texto é. Para Genette, do cruzamento dos regimes e critérios surgem os modos da literariedade, que, no entanto, não se repartem de maneira simétrica. O modo temático ficcional, onde estão incluídos o drama e a narrativa, funciona sempre em regime constitutivo: uma obra verbal de ficção é quase inevitavelmente recebida como literária, independentemente de julgamentos de valor. Isso porque “a atitude de leitura que postula é uma atitude estética [...].” (p.8). Assim, a literatura se impõe essencialmente por suas características formais. Exemplificando, o autor afirma que um poema é sempre uma obra literária, pois as características formais que o definem como poema são de ordem estética. Mas esses aspectos formais não se restringem ao emprego do verso, estão 17 Para Gérard Genette (1991), dentro da categoria “objeto verbal com função estética”, as obras constituem uma espécie particular, devido ao caráter intencional de sua função estética. Um objeto que atinge função estética, tendo sido produzido com outra finalidade, não é uma obra. 74 relacionados à utilização da linguagem como material sensível, autônomo, e não mais como um meio de comunicação transparente. Portanto, [...] uma página de História ou de memórias pode sobreviver a seu valor científico ou a seu interesse documental; uma carta ou um discurso podem encontrar admiradores além de sua destinação de origem e de sua ocasião prática; um provérbio, uma máxima, um aforismo podem tocar ou seduzir leitores que não reconheçam neles, de maneira alguma, o valor de verdade. (GENETTE, 1991, p.28) Por esse raciocínio, a inclusão da prosa de não-ficção, como Las venas, no campo literário de um texto cuja função original não seja de ordem artística depende de um julgamento de gosto individual ou coletivo que faça com que suas qualidades estéticas, essencialmente estilísticas, passem ao primeiro plano. Refletindo sobre o campo literário latino-americano, o professor Maurício Bragança sublinha: Pensar a transição/permanência destes problemáticos sistemas literários latinoamericanos é problematizar os locais de interstício cultural nos quais se estabelecem os campos de força e negociação entre história e teoria; produção, circulação e consumo cultural; sujeito e representação; gênero e performance; hegemonia, diferença e contra-hegemonia, conformando novas subjetividades e novos lugares de enunciação. (BRAGANÇA, 2008, p.120.) Portanto, qualquer classificação categórica seria uma arbitrariedade, considerando todas as variantes existentes e ainda outras que poderiam ser propostas. Sobre esta questão Pierre Bourdieu (1998) assinala que uma forma de sistematização do campo literário pode ser pensada em função do campo intelectual a que se restringe: [...] é preciso situar o corpus assim constituído no interior do campo ideológico de que faz parte, bem como estabelecer as relações entre a posição deste corpus neste campo e a posição no campo intelectual do grupo de agentes que o produziu. Em outros termos, é necessário determinar previamente as funções de que se reveste este corpus no sistema das relações de concorrência e de conflito entre grupos situados em posições diferentes no interior de um campo intelectual que, por sua vez, também ocupa uma dada posição no campo do poder (BOURDIEU, 1998, p. 186). Desta forma, Bourdieu apresenta o campo literário como um espaço social em que diferentes grupos de autores estão inseridos em função de determinadas relações entre si e 75 com o campo do poder. Este espaço abriga um grupo com afinidades políticas, culturais, ideológicas, que concentra uma capacidade de atuação de um determinado sujeito social. Assim, para Bourdieu, a configuração de um campo literário se dá a partir da produção e negociação de bens simbólicos no qual os intelectuais ingressam em função da tomada de posição política e ideológica. Neste contexto, podemos incluir Las venas abiertas de América Latina no campo intelectual da esquerda socialista latino-americana da segunda metade do século XX. Estes autores inscrevem-se no grupo de escritores engajados que faziam da literatura uma forma de ação social, seguindo os preceitos de Sartre. Para o teórico francês de inspiração marxista, não era possível ignorar as realidades sociais e sua relação com as manifestações artísticas. Também Galeano defende que “el valor de un texto bien podría medirse por lo que desencadena en quien lo lee. Los libros mejores, los mejores ensayos y artículos, los más eficaces poemas y canciones no pueden ser leídos o escuchados impunemente.” (GALEANO, 1986 b, p.62). Obviamente, não é o conceito que um autor tenha de sua obra que faz dela literatura. Ainda assim, não se pode menosprezar numa análise textual a motivação de seu escritor. E, no caso do uruguaio, fica patente que seu desejo era que o valor literário de uma obra fosse medido por sua relevância no contexto atual da sociedade e pelo impacto causado no leitor. No entender de Galeano, não apenas a qualidade estética deveria ser levada em consideração na classificação da literariedade de um texto. Também se pode inferir da declaração do autor, levando-se em consideração seu engajamento explícito, que os melhores textos são os que desempenham uma função social. Essas declarações vão de encontro à critica literária que defende a arte pela arte, e acendem ainda mais a fogueira das vaidades que envolve a já controversa definição de cânone 76 literário, e ainda aproveitam essa mesma fogueira para banir não só as obras classificadas como pseudoliterárias, assim como inquisitoriamente queimar o próprio Galeano. Ao tratarmos de um autor assumidamente engajado, como é o caso de Galeano, é impossível ignorar o questionamento sobre a isenção política do escritor. Outra questão inexoravelmente ligada à questão literatura/engajamento é se a politização da literatura não a relega ao empobrecimento estético e a sua redução à forma panfletária. Em caso afirmativo, há uma disputa entre a arte e o pragmatismo, visto que o engajamento é fruto de um posicionamento político definido, redundando num discurso orientado, como afirma o escritor George Orwell, as “lealdades de grupos são necessárias, e, no entanto, são um veneno para literatura, uma vez que a literatura é o produto das individualidades.” (ORWELL, 2005, p.161). Não se pode negar que a vinculação a uma ideologia política remete o escritor a um compromisso de divulgação ou propaganda desta doutrina, limitando, ainda que implicitamente sua liberdade de expressão, subordinando seu campo temático e até, talvez, sua criatividade. Diante deste dilema, Orwell propõe: “Quando se envolve em política, um escritor deveria fazê-lo como cidadão, como ser humano, e não como escritor. Não penso que ele tenha o direito, apenas por causa de suas sensibilidades, de se esquivar do trabalho sujo e corriqueiro da política.” (ORWELL, 2005, p.162). Diferentemente do que pode sugerir, George Orwell não defende a isenção do escritor na política. Antes, concebe o escritor como uma figura aparte do cidadão comum, mas o ofício de escritor não se confunde com a personalidade e a responsabilidade inerentes ao ser humano. Cada um tem seu campo de atuação delimitado e não necessariamente compartilhado. O autor de A revolução dos bichos deixa claro que não é possível evadir-se das conjecturas políticas do mundo real a que todos são submetidos, escritores ou não. Nesse sentido, não é possível abster-se da política, se a própria noção de sociedade está baseada na definição do homem como um ser político. 77 Eduardo Galeano tem demonstrado em sua literatura da última década que compartilha desta ideia de bipartição entre autor e obra, visto que a militância política não é mais o tema central de sua escritura, como acontecia até o final século passado. Entretanto, o cidadão uruguaio Eduardo continua ativamente a defender seus ideais políticos. Para tratar da polêmica relação entre engajamento e literatura na América Latina não se pode ignorar o papel desencadeador das ditaduras militares. No início da década de 1980, alguns críticos tomaram a iniciativa de avaliar a literatura produzida durante esse período. Um dos trabalhos mais destacados pela profundidade da pesquisa é a obra Repressão e censura no campo das artes da década de 70 (1982). Na obra Silviano Santiago reflete sobre o papel da literatura na época de repressão ostensiva no continente. O resultado desse estudo indicou que, nos anos que se seguiram ao golpe militar, a literatura foi um dos meios mais importantes de denúncia dos abusos cometidos pelo regime, assim como uma forma de evitar o silenciamento da sociedade organizada. Entretanto, como se podia suspeitar, os discursos engajados, cuja paixão é um elemento inerente, contavam com uma boa dose de contrapropaganda, caindo muitas vezes no maniqueísmo, um traço também característico da literatura comprometida. Como ressalta Santiago, há uma relação intrínseca entre os “anos de chumbo” e a literatura engajada na América Latina. À medida que a abertura política se consolida no continente, a literatura também respira novos ares. A escritura de Galeano é um exemplo singular, sua literatura a partir da década de 1980 afasta-se paulatinamente do modelo engajado de Las venas. Contudo, o autor não abandona seu tom crítico cultivado desde a juventude. Tanto na trilogia Memoria del fuego (1982,84,86) como em El libro de los abrazos (1989), pode-se observar uma compilação de histórias curtas, muitas vezes líricas, apresentando as visões de Galeano em relação a temas diversos como emoções, arte, política e valores. Ainda assim, as obras também apresentam uma crítica mordaz à sociedade capitalista 78 moderna e a defesa de um modelo do que deveria ser uma mentalidade ideal na sociedade contemporânea. Analisando historicamente, até o século XVIII a literatura foi vista como educativa ou pedagógica. A literatura eclesiástica tinha um objetivo definido: as escrituras sagradas de todas as religiões da civilização ocidental ou oriental fazem da estética literária uma aliada da pedagogia sacerdotal. Foi a partir da Renascença que a literatura perdeu o cunho comunitário e passou a ter caráter particular e íntimo. O Romantismo foi o responsável por essa mudança de paradigma: A curiosa ideia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Data do romantismo europeu do século XIX [...] momento em que o artista se torna um desempregado crônico. Arte e artesanato. A indústria veio para substituí-lo. Sem função social mas ainda cheia de sua própria importância, a arte entre horrorizada e fascinada, volta-se contra o mundo utilitário que a cerca, negando-o, criticando-o, como um não-objeto feito de antimatéria.O mundo burguês é anti-artístico. A arte não precisa mais dele. Já pode nascer a "arte pela arte". 18 (Grifo do autor). O poeta curitibano Paulo Leminski assinala que a desvinculação entre arte e utilidade é um conceito relativamente recente na história da humanidade. Na leitura de Las venas observa-se que Galeano, diferentemente dos escritores que fogem veementemente da classificação de artistas utilitários e contrariando o que o “mundo burguês” passou a determinar para a literatura, assume-se como escritor engajado, sem se importar com os rótulos da crítica. Conforme conclui Leminsky: Uma arte, uma literatura in-útil: nenhuma ideia poderia ser mais estranha à Idade Média católica, herdeira das concepções greco-latinas sobre o duplo papel da arte: "delectare", "agradar", e "docere", "instruir"... A obra literária tem deveres morais. Não há lugar para umas obras blasfemas, sacrílegas, iconoclastas, dissolventes, corruptoras. A obra de arte é a expressão de uma norma ...A desmesurada liberdade da literatura ocidental moderna pareceria aos medievais o triunfo de Satanás na terra. O pecado da literatura moderna, aliás, é o mesmo de Lúcifer, a soberba, o orgulho de se declarar autônoma, além do bem e do mal. (ibidem). 18 LEMINSKY, Paulo. A arte e outros inutensílios. Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, 18 de outubro de 1986. 79 É esta ideia de uma literatura in-útil, ou seja, um instrumento para um fim pedagógico é o que predomina nos textos jornalísticos e até em obras mais extensas de Galeano, em que revela suas posições ideológicas e suas aspirações artísticas. Em Patas arriba (1998), o autor combina gravuras e variadas fontes de referência, comerciais de TV, bancos, obras literárias, jornais etc. para comunicar uma mensagem e exortar a um determinado sentido: ¿Qué destino tienen los nadies, los dueños de nada, en países donde el derecho de propiedad se está convirtiendo en el único derecho ¿Y los hijos de los nadies [...] según la organización Human Rights Wacht, en 1993 los escuadrones parapoliciales asesinaron a seis niños por día en Colombia y a cuatro por día en Brasil.( GALEANO, 1998, p.18-9). A visão de mundo do autor, seu discurso, a técnica e a escolha da linguagem, seja prosa ou poesia, constituem um todo, destinado a criar e transferir uma versão que se some à realidade. Galeano, assim como Antônio Cândido, quando determina papel social do escritor e do intelectual, entende que a literatura hispano-americana está imbuída de um caráter militante do escritor, “levado com freqüência a participar na vida e nos movimentos sociais.” (CÂNDIDO, 1995, p. 57). Para que compreendamos o sentido que Galeano pretende imprimir em suas obras, podemos nos servir de dois ensaios em que o escritor faz uma auto-análise de sua escrita e de sua visão do que é literatura, ambos escritos como uma espécie de autocrítica sobre os caminhos literários trilhados por ele. Na obra Silencio, voz y escritura en Eduardo Galeano, Diana Palaversich (1995) analisa os ensaios Defensa de la palabra (1976) e Diez errores o mentiras frecuentes sobre literatura y cultura en América Latina (1980) como textos que representam um tipo de manifesto literário. A autora afirma que o título do texto de 1980, assim como sua estrutura parecem seguir o modelo utilizado por Ángel Rama em Diez problemas para el novelista latinoamericano (1972), em que o crítico divide a obra em dez tópicos centrais para discutir temas como o contexto econômico e cultural, a relação entre o 80 escritor e seus leitores, além de examinar a questão do gênero no romance e a narrativa testemunhal e documental. Os dois ensaios de Galeano foram escritos no período em que esteve exilado durante a ditadura. Conforme assinala Palaversich, a estrutura de ambos é bem similar e até chegam a discutir os mesmos assuntos, formulados sob outro enfoque. A linguagem empregada tem um tom de manifesto literário no qual Galeano explica a índole política de sua escrita. Percebe-se claramente a reflexão sobre a relação entre o contexto político conturbado da época e as manifestações culturais que emanaram ou foram provocadas por essa tensão. O tom melancólico e existencialista que predomina nos ensaios reflete as contradições que o autor vivenciou no regime de exceção por que passou em sua terra natal e na Argentina, e pelo próprio exílio a que foi submetido. Esse contexto pessoal transparece nos relatos contundentes contra a memória histórica da América Latina construída e difundida por órgãos oficiais. Neste rol também se inclui a defesa dos direitos humanos, aludindo à opressão da ditadura. Entretanto, como será abordado em seguida, contraditoriamente, Galeano será um dos últimos a reconhecer o caráter repressor do governo castrista em Cuba. Até mesmo porque os ideais da Revolução Cubana durante muito tempo inspiraram os discursos engajados do uruguaio e de muitos outros escritores e intelectuais latino-americanos, forjados no cadinho revolucionário e na cartilha marxista. Referindo-se à ditadura, refletia “En tiempos tan tormentosos, el oficio de escribir es un peligro. En circunstancias así, uno recupera el orgullo y la alegria de la palabra o le pierde respeto para siempre.” (GALEANO apud PALAVERSICH, 1995, p.15). Fica patente que Galeano acreditava na palavra como arma contra a opressão e, principalmente, uma forma de recuperação da própria identidade e auto-estima. Palaversich analisa em profundidade os dois ensaios supracitados, apontando quatro temas norteadores da escritura do autor uruguaio: a relação do escritor com a realidade continental; o diálogo entre o escritor e o leitor; o conflito 81 entre a cultura dominante e a cultura alternativa; a subversão dos cânones literários e da ideologia dominante. A autora sublinha que a literatura de Galeano até final do século XX atende a um projeto ideológico do autor. Assim, tanto em Las venas como em outras obras, os tópicos destacados por Palaversich pontuarão as reflexões do escritor uruguaio. No que diz respeito ao papel do escritor frente à realidade social latino-americana, Galeano defende a denúncia da injustiça e suas consequências políticas. Assim, sua literatura funciona como instrumento de conscientização para que a realidade seja transformada. Essa posição do escritor como sacerdote, um iluminado em defesa dos oprimidos, com uma obrigação social, muitas vezes soa como uma atitude paternalista, um discurso voltado para sua autopromoção retórica, ainda mais quando se leva em consideração que o continente é constituído por nações formadas e conformadas por uma sociedade pós-colonial, achacada por discursos políticos e religiosos utilizados como pano de fundo para exploração. Um traço que se percebe com facilidade na obra de Galeano é a busca de uma comunhão entre o escritor e seus leitores. Galeano entende a literatura como um instrumento essencial de cognição e reflexão, atribuindo-lhe o poder de atuar sobre as consciências dos que a leem. Como afirma Palaversich: “Por lo tanto, la particular complicidad del lector con la cual cuenta Galeano no es aquella del ‘lector cómplice’cortazariano, sino, más bien, se trata de una complicidad ideológica, un punto de vista compartido.” (1995, p.15). Galeano entende que sua literatura cumpre uma missão, pois acredita que é possível mudar a realidade com a sensibilização e a conscientização coletiva: “...lo que uno escribe puede ser historicamente útil sólo cuando de alguna manera coincide con la necesidad colectiva de conquista de identidad.” (GALEANO, 1981, p.11). Pode-se entrever nesta afirmação a justificativa para o tema central de Las venas. Entretanto, não é somente na obra de 1971 que o escritor retoma elementos documentais da cultura latino-americana para configurar uma nova identidade do continente. 82 Em boa parte de seus ensaios e obras mais extensas, como na trilogia Memoria del fuego, o autor declara que um de seus objetivos é o resgate da memória histórica e a reafirmação da identidade autóctone do continente, suplantada por culturas de conquistas. Nestas obras, a variedade e heterogeneidade das fontes são o arcabouço das narrativas, seja em referências bibliográficas eruditas, contos populares, notícias de jornal, poesias, crônicas ou depoimentos. Como afirma no prólogo de O século do vento, terceiro tomo da trilogia, trata-se de uma obra em que “o autor conta o que ocorreu, a história da América e sobretudo da América Latina, e gostaria de fazê-lo de tal maneira, que o leitor sinta que o acontecido torna a acontecer enquanto o autor conta.” (GALEANO, 1986, p. 19). Ao re-contar a história latino-americana, Galeano descreve de forma passional a exploração do continente desde a conquista da América pela colonização espanhola no século XVI até o hodierno imperialismo norte-americano, e propõe uma cultura de libertação: Esa cultura de la liberación se alimenta del pasado pero no termina en él. Vienen de muy lejos algunos de los símbolos de identidad colectiva capaces de abrir, a los latinoamericanos de nuestro tiempo, nuevos espacios de libertación ... ¿Qué es la genuína cultura popular sino un complejo sistema de símbolos de identidad que el pueblo preserva y crea? (GALEANO, 1986b, p.34-35). Esse projeto de resgate da identidade cultural e histórica latino-americanas se faz presente tanto em Las venas, como em obras mais recentes como as da trilogia e El libro de los abrazos. Baseado na nova concepção de documento, em todas as obras grande parte das fontes de consulta são elementos da cultura popular, mitos canções etc. Galeano entende que tais fontes são capazes de transmitir de forma alternativa a realidade retratada há séculos pela visão ortodoxa dos vencedores. O que propõe o autor é uma contra-história, uma outra versão que sirva de opção e, principalmente, de reflexão sobre o discurso oficial. Galeano inscreviase no discriminado grupo de escritores da cultura popular, assumindo todos os preconceitos emanados desta definição. Talvez por isso os questionamentos defendidos por Galeano em 83 seus ensaios/manifestos tenham a ver com a ausência de seu nome na maioria das histórias da literatura latino-americanas. Discordando dos críticos literários no que diz respeito à noção de valor universal de um texto, ou seja, da própria constituição do cânone, Galeano afirma: Hasta aquí, se nos dice, llega el género novela; éste es el límite del ensayo; allá comienza la poesía; Y sobre todo no confundirse: he ahí la frontera que separa la literatura de sus bajos fondos, los géneros menores, el periodismo, la canción, los guiones de cine, televisión o radio. (1986b, p.25) Galeano tinha, já na época, a consciência de que a crítica desprestigiava determinados escritores em função do gênero de suas obras, relegando-os à categoria de escritores considerados menores pela tradição literária. Contudo, isso não o incomodava, porque como ele mesmo afirmou no prólogo de O século do vento: “O autor ignora o gênero a qual pertence essa obra...” (Ibidem, p.19). Para Galeano toda produção cultural, independente de modelos, faz parte do patrimônio da sociedade. Parece-nos que não poderia ser diferente, pois afirmar que a literatura é fruto de seu momento histórico soa como clichê. Contudo, como defende o escritor, não há como, pelo menos, imaginar a literatura latino-americana sem cotejar os processos históricos vividos nessa região ao longo de seus pouco mais de 500 anos póschegada dos europeus. A literatura, assim como defendia Antônio Cândido na obra Literatura e Sociedade, e, posteriormente, o professor André Trouche, em América Latina, história e ficção, deve dar ênfase à interlocução literatura e história, acentuando o desdobramento cultural advindo deste binômio. E Galeano demonstrou preocupação com este tema, ainda em seu ensaio/manifesto Diez errores o mentiras frecuentes sobre literatura y cultura en América Latina, quando abordou o acalorado debate entre os teóricos da literatura sobre a questão do puramente literário ou sobre quem ou que obras poderiam ser incluídas, por exemplo, na história da 84 literatura hispano-americana: “La compartimentación de la actividad creadora tiene ideólogos especializados en levantar murallas y cavar fosas [...].” (GALEANO, 1986 b, p.25) Galeano defende uma identidade latino-americana comum, afirma que se deve levar em consideração a memória histórica particular de cada país, assim como, quando reprova a alocação da criação literária em compartimentos, expõe claramente que essa categorização é muito mais uma necessidade da crítica que inerente à própria literatura. Permitindo-me uma digressão, entre críticos e professores de literatura ou não, estas categorizações nunca foram unânimes. O que tem justificado essa prática de classificação de obras literárias em gêneros ou períodos determinados é o pretexto de tornar o ensino da literatura mais didático. A Literatura, vez por outra, tem sido esboçada como mero organograma, como Darwin ao classificar as espécies, em que se ensina sua periodização e classificação como fim e não como meio. Esse tipo de raciocínio relega a cultura humanística a um simples algoritmo, passível de elaboração de fórmulas, sem maiores preocupações com o teor literário. Como o próprio Galeano afirmou em Patas arriba, Para explicar el éxito de sus negocios, John D. Rockefeller solía decir que la naturaleza recompensa a los más aptos y castiga a los inútiles; y más de un siglo después, muchos dueños del mundo siguen creyendo que Charles Darwin escribió sus libros para anunciarles la gloria. (GALEANO, 1998, p.5) (Grifo do autor). Esta ideia de dominação dos mais fortes, poderosos financeiramente, também se reflete na ideia de literatura que se observa na política de educação desenvolvida por alguns governos, como o brasileiro, por exemplo, que tornaram a literatura uma disciplina curricular coadjuvante, quase opcional, no Ensino Fundamental e Médio, visto que figura apenas como complemento no ensino da língua materna. Lê-se literatura para “aprender” português e não para ser brasileiro. Apesar de os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) indicarem que a seleção dos conteúdos não mais privilegiaria a memorização de informações e que seria baseada em eixos estruturadores da área de códigos e suas tecnologias, contraditoriamente, sugerem temas de 85 estudo como usos da língua e o ensino da gramática. Segundo o documento, esses temas podem ser desdobrados em unidades temáticas seguidas das respectivas competências e habilidades a serem desenvolvidas nas aulas de Língua e Literatura, ou seja, a Literatura continua sendo, ainda, apenas um acessório, não fazendo parte do núcleo estruturador das competências exigidas pelas instituições de ensino. Talvez caiba à academia, aos cursos de Letras, por exemplo, desenvolver futuros educadores conscientes da importância da literatura na formação intelectual e humana dos estudantes. A despeito de toda preterição que possa sofrer nas mãos de determinadas políticas educacionais, Eduardo Galeano vê na literatura um imprescindível instrumento pedagógico de transformação, independente de seu gênero, defende o permanente diálogo com outras artes: El aire huele a tinta, huele a madera. Las planchas de madera, en altas pilas, esperan que Borges las talle, mientras los grabados frescos, recién despegados, se secan colgados de los alambres. Con su cara tallada en madera, Borges me mira sin decir palabra [...]. Le cuento los cuentos; y este libro nace. (GALEANO, 2003, p.1). A literatura de cordel, uma das expressões máximas da cultura popular brasileira, aliada aos textos de Galeano, corrobora a defesa de uma literatura a serviço das classes subalternas, retratadas nas rústicas gravuras do artesão José Borges. Como se observa no fragmento acima, o autor quer exaltar a literatura que existe em cada parte, a vida que pulsa longe das academias universitárias, a arte popular escondida no interior do Nordeste brasileiro. Quer fazer celebrar poeticamente a literatura presente na gravura talhada em madeira do homem simples, sem estudo, no desenho, no artesanato, na música popular bem exemplificados no cordel. Essa perspectiva de literatura não contradiz, absolutamente, a defesa da memória histórica que faz em sua célebre obra. Antes, reforça seu compromisso em dar voz aos que foram silenciados por uma elite que se apodera do direito de usufruir a própria cultura, seja pela opressão política, social ou econômica. Galeano propõe uma literatura alternativa, complementar. Não renega a literatura tradicional, mas acredita que as 86 novas formas ou fórmulas têm muito a contribuir. Arredio às pressões externas, o uruguaio não aceita a prescrição de modelos literários ditados, muitas vezes, pelos interesses de grupos dominantes que, numa análise histórica, impuseram a cada época sua respectiva ideologia. Acreditamos que a visão elitista sobre o conceito de cultura erudita versus cultura de massa contribuiu para que diminuísse o interesse na literatura, culminando na falta de familiaridade com os textos literários nas camadas mais pobres da sociedade, incluídos inexoravelmente estudantes e, lamentavelmente, muitos professores que sem refletir sobre a natureza ficcional, poética e artística da literatura, acabam reproduzindo quase osmoticamente a ideologia da cultura dominante. “Para a elite, a cultura é distância e distinção, demarcação e disciplina, exatamente o contrário de um povo que se definiria por suas necessidades imediatas.” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p. 273). Conforme assinala o autor espanhol, essa visão é preconceituosa, pois associa “ter cultura” como uma forma de poder e manutenção de um distanciamento entre a elite e as classes subalternas. E não são poucos os que se encastelam em suas torres de marfim e identificam seus pares entre os que dominam línguas estrangeiras, escutam música clássica, frequentam exposições de arte etc. Obviamente, o desejável seria que a cultura erudita pudesse fazer parte do cotidiano das classes populares, o que em nenhuma hipótese se confunde com o repúdio à cultura popular ou a cultura de massa, com toda a ambiguidade que o termo massa sugere. A palavra literatura muitas vezes soa em nosso país como um bem cultural elitista. Não é exagero afirmar que uma parcela de nossa sociedade crê que o letramento a faz diferente dos demais, uma classe superior, detentora de um conhecimento além do entendimento das massas. Talvez daí advenha o preconceito em relação aos meios de comunicação de massa. Entretanto, essa visão é míope, pois discriminam a vítima do sistema criado por essa mesma elite. Designar a população em geral como massa encerra uma 87 semântica que a considera como manipulável, ou seja, moldada ao bel-prazer do oleiro. Se metaforicamente somos todos feitos do barro, de uma forma ou de outra todas as classes foram moldadas, apenas as fôrmas utilizadas foram diferentes. Entretanto, como categorizálas sem juízo de valor? Parafraseando Hamlet, “that‘s the question.” Uma das prescrições a que todos fomos expostos, independente da classe social, da localização geopolítica e de outros pré-conceitos que nos fizeram crer que somos diferentes, é o próprio conceito de cultura do qual emana a literatura. No sentido antropológico da palavra, não há cultura melhor ou pior, trata-se de um conjunto de realizações individuais e coletivas que determinam e identificam um povo. Portanto, não podemos pensar em cultura, mas em culturas. Para Galeano, essa concepção de cultura/literatura “alienante” já era previsível. Sua maneira de responder ao uso da máquina capitalista, estatal ou não, para fins ideológicos era lutar com as armas do inimigo, ou seja, aproveitar a própria literatura como forma de reação. Seu conceito de literatura aproxima-se da ideia de reflexão e aprendizagem, de cunho pedagógico, baseado em releituras de mitos, tradições, fábulas autóctones e populares que constituem o passado histórico do continente latino-americano e sua identidade. Esta valorização da cultura popular com fins ideológicos, entretanto, não é novo. Conforme assinala Peter Burke, “a ideia de cultura popular está assinalada às primeiras formas de consciência nacional no final do século XVIII, que consistiu em uma tentativa dos intelectuais em erigir a cultura popular em cultura nacional.” (Apud DOMINIC, 1999, p. 20). Desta forma, Galeano em Las venas dá continuidade a um projeto ideológico iniciado pelos homens letrados do século XVIII. Não podemos ainda designá-los como intelectuais, pois o termo ganharia a acepção que hoje conhecemos somente em meado do século XIX. Ainda questionando o papel da crítica literária, Galeano destoa do coro dos que contrapõem a arte ao compromisso político, entre a linguagem-instrumento e a linguagem 88 como um fim em si mesma. Esta questão não é nova, provavelmente tenha nascido junto ao próprio conceito de arte. O que é arte e qual sua função? Para o autor, o conteúdo político não diminui ou contamina a ‘pureza’ da obra de arte. Pelo contrário, é parte indissociável do fazer artístico. O escritor uruguaio tem como sua profissão de fé a crítica ao sistema capitalista, à história estabelecida. Para ele, estar na contramão é o caminho mais acertado a seguir. Como se pôde observar anteriormente nas citações de seus ensaios/manifestos, Eduardo Galeano não é um escritor muito afeito a teorias. Desde Los días siguientes demonstrou ser um jovem angustiado e insatisfeito com a condição desigual da raça humana e por isso dedicou-se desde a adolescência a buscar pragmaticamente a transformação da realidade injusta que lhe impunha o contexto social em que vivia. Neste sentido, podemos observar algumas coincidências na biografia do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e de Eduardo Galeano. Ambos iniciaram sua vida literária em jornais e se filiaram ao Partido Socialista, foram exilados pela intolerância política, encontraram no ativismo político uma via para debelar o desespero existencial. Viam na arte uma oportunidade de mobilização popular. Brecht escreve no exílio, no começo da Segunda Guerra Mundial, dramas biográficos; o escritor uruguaio, também exilado, publica La canción de nosotros, narrativa basicamente existencialista, em que imprime um ar saudosista, quase melancólico de um Uruguai deixado para trás. Os dois escritores, cada um na sua época, exploravam as facetas da arte como um fórum de discussões sobre as desigualdades nas relações humanas como consequência do capitalismo. Sob o ideário marxista, cada um a sua maneira, defendia a transformação da realidade em que viviam. Entendiam que somente pela conscientização do povo de seus direitos, pela reflexão e atitude, inclusive o reconhecimento de sua identidade, seria possível uma sociedade mais justa. Escritores como Brecht e Galeano estão imbuídos da ideologia marxista de lutas de classes como motor da história, por isso dedicaram sua literatura a causa socialista. 89 Como escritor latino-americano, Galeano demonstra inconformismo com as conceituações da crítica literária estrangeira, especialmente com algumas interpretações do chamado Boom literário latino-americano. Para o autor uruguaio não era possível classificar as obras da literatura fantástica e do realismo mágico apenas como reflexos da natureza exuberante da América Latina, ou como expressão paradigmática da literatura do continente, pois este tipo de análise exalta somente os aspectos exóticos desta literatura, neutralizando seu conteúdo político contestador. Os próprios escritores do Boom admitem que essa fase da literatura hispano-americana era uma forma de metáfora da realidade do continente, apontando para importantes questões identitárias que sustentaram o campo intelectual e o projeto criador latino-americano. Constitui-se como uma via alternativa ao tolhimento da liberdade de expressão sofrida em seus países de origem na ditadura militar. Portanto, a própria terminologia Boom é imprecisa. Conforme indaga o professor André Luiz Trouche: Afinal, de que se fala quando falamos em "boom" e "pós-boom"? De um termo meramente indicador de um fenômeno de recepção da literatura hispano-americana? De um termo cunhado pelo discurso crítico europeu/norte-americano, a (re)descobrir a América? [...] De um conceito teórico revelador da emergência e da maturidade do processo literário latino-americano? [...] E, principalmente, diante de tal quadro de perplexidades, qual a validade crítico-conceitual destes conceitos hoje? (TROUCHE, 2009, p.6) Ao refletirmos sobre o campo literário em que se insere Las venas, a resposta a tais indagações poderiam orientar uma conclusão. Entretanto, em 1972, “ano em que foi sentenciada a morte do boom” (BRAGANÇA, 2008, p. 121), ainda não havia nenhum tipo de consenso sobre sua validade como conceito, conforme sublinha um dos mais respeitados estudiosos sobre o assunto, escritor e jornalista chileno José Donoso: ¿Qué es entonces, el boom? ¿Qué hay de verdad y qué de superchería en él? Sin duda es difícil definir con siquiera un rigor módico este fenómeno literario que recién termina – si es verdad que ha terminado -, y cuya existencia como unidad se debe no al arbitrio de aquellos escritores que lo integrarían, a su unidad de miras estéticas y políticas, y a sus inalterables lealtades de tipo amistoso, sino que es más bien invención de aquéllos que la ponen en duda (DONOSO, 1998, p. 12). 90 Donoso questiona as motivações da crítica literária que levaram a cunhar o termo boom, sugere inclusive, que poderia haver má-fé, “superchería”, para fazê-lo. Afirma não haver critérios mínimos para defini-lo como fenômeno literário. Em Historia personal del “boom”, o crítico chileno não nega a originalidade literária incontestável das obras do denominado boom, mas atribui ao “impulso capitalista” das editoras, sobretudo europeias, e à irrupção da Revolução Cubana os motivadores do interesse dos leitores de todas as partes para conhecerem a literatura, a cultura e a história latino-americanas. É neste contexto que se retoma uma forma de representação da realidade que ganhara força na América Latina no final do século XIX: o ensaio. Uma narrativa que tem um diferente enfoque, comparado ao Boom, que utilizará um gênero que até então não fazia parte do cânone da literatura latino-americana. Como assume o próprio Galeano: “Sé que pudo resultar sacrílego que este manual de divulgación hable de economía política en el estilo de una novela de amor o de piratas.” (GALEANO, 1991, p.7). Como ressaltamos, Galeano questiona a validade de alguns conceitos impostos pela crítica literária e se desobriga de seguir rótulos ou etiquetas, mas ainda assim não refuta a quem o denomina como um escritor engajado e utópico. Assume explicitamente seu papel de autor de um tipo de literatura que condena todas as formas de colonialismo, imperialismo e hegemonias socioeconômicas. Sinteticamente, assim definiu o escritor mexicano Carlos Fuentes o ideal de literatura que cultivavam os escritores do mesmo campo intelectual de Galeano: “La gigantesca tarea de la literatura latinoamericana contemporánea ha consistido en darle voz a los silencios de nuestra historia.” (FUENTES apud SKLODOWSKA, 1991, p.29). Para Galeano, a literatura precisa ser encarada como fenômeno artístico, considerada em sua natureza educativa por excelência, porque cultiva valores, crenças, ideais, pontos de vista, que podem enriquecer a vida daqueles que a leem. Não deve prender-se a modelos pedagógicos, mas considerada como uma atividade prazerosa de conhecimento do ser humano 91 e das diversas funções da linguagem, pois retrata e recria as questões universais, numa linguagem esteticamente trabalhada, transgressora da rotina cotidiana. Observa-se claramente que nas obras do autor uruguaio política e literatura estão sempre em tensão e interlocução, formam um amálgama, são um instrumento que tem a intenção de conscientizar e provocar a reflexão de seus leitores sobre a realidade que os cerca. 2.2 O ENSAIO E O MUNDO SOCIAL No rol das novas propostas de análise literária, o ensaio desponta como um dos grandes protagonistas. Até meados do século XX, via de regra, os estudos literários relegavam o ensaio a um papel menor, por considerá-lo, muitas vezes, como texto não-literário. Entretanto, esta visão redutora e excludente foi abandonada a favor de reflexões sobre sua proficuidade, reconhecendo sua vasta contribuição na história literária do continente. A fortuna crítica sobre a constituição do ensaio como gênero tem despertado cada vez mais interesse. Há inúmeros autores que se debruçaram sobre o tema para tentar compor uma teoria que pudesse dar subsídios para a análise de obras ensaísticas. Entre eles, destacam-se os teóricos como Georg Luckács, Theodor Adorno e o precursor Michel de Montaigne. Enquanto o primeiro propunha pensar o ensaio como forma, Adorno afirmava que a lei mais íntima do ensaio é a heresia, sob a concepção do ensaio vinculado à interpretação ativa e ao discurso crítico: “No ensaio, elementos discretamente separados entre si são reunidos em um todo legível; ele não constrói nenhum andaime ou estrutura. Mas, enquanto configuração, os elementos se cristalizam por seu movimento.” (1986, p.31). Adorno recusa a ideia de que se possa estabelecer uma estrutura estável para o ensaio, defendendo a flexibilidade como condição à sua prática. 92 A origem da palavra ensaio pode nos servir para introduzir seu conceito. Etimologicamente, ensaio (no francês essai) é uma prova, um experimento, uma tentativa. No latim exagium, ato de pensar, meditar, examinar a própria mente. Estas acepções denotam o caráter abrangente, muito mais ligado à índole do autor que a uma estrutura típica, como acontece com os outros gêneros literários. Por isso, é comum situar o ensaio em função de seu conteúdo. Em linhas gerais, o ensaio é uma composição não-ficcional breve que muitas vezes trata de um assunto determinado, a partir de um ponto de vista pessoal. Obviamente, trata-se de uma descrição pouco precisa, o que denota a falta de consenso sobre sua delimitação. Talvez por isso, como sublinhamos, diferentemente de outros gêneros, o ensaio tenha sido preterido durante muito tempo e tenha demorado muito para ser considerado como um tema relevante nos estudos literários. É muito comum que apontem características do ensaio em função dos outros gêneros, o que indica que é possível considerá-lo como um quarto gênero literário, com sua própria legitimidade na família literária. Partilham desta ideia alguns autores contemporâneos como a espanhola Maria Elena Arenas Cruz (1997), enquanto outros, como a argentina Liliana Weinberg (2007), enfatizam sua relação com a dinâmica do pensar e o considera como representação literária de um exercício da inteligência, como “literatura de ideias”. Historicamente, os primeiros ensaístas, rompendo a tradição do cânone da retórica e do latim, apelaram à prosa, ao estilo coloquial e às línguas vernáculas não somente para transmitir ideias, mas também para converter a própria linguagem em matéria de reflexão e trabalho artístico. Foi a partir do Renascimento e do Humanismo que os ensaístas dialogaram com diversas formas de linguagem e integraram distintas referências na textura da própria obra. Assim, a prosa ensaísticas se transformou em grande mediadora entre outras formas discursivas e textos em prosa. 93 A própria história do ensaio é relativamente recente, data do século XVI. Os precursores do gênero foram o nobre francês Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592), com Essais (1580), e seu primeiro leitor e seguidor, o inglês Francis Bacon, com Essays (1597). A publicação destas obras marca cronologicamente o início da longa e rica tradição do ensaio literário. Montaigne, considerado pai do ensaio moderno, deu uma inflexão autobiográfica e subjetiva a sua obra e generalizou o uso do término ensaio: “isto é puramente o ensaio de minhas faculdades naturais [...]. Estas são minhas fantasias, pelas quais tento dar um conhecimento não das coisas mas de mim mesmo”. (1996, p.114). O autor francês tem papel preponderante na constituição do ensaio como gênero, visto que se deve a ele tanto a denominação ensaio como sua difusão como escrito literário. Em forma de ensaio, Montaigne publicou um volume de pequenos textos sobre uma variedade de assuntos que vão de canibais a carruagens, de versos de Virgílio à educação das crianças, cujos tópicos e, sobretudo, os títulos foram escolhidos como uma reação aos agentes externos (política, solidão, moral), nos quais o autor se encontrava imerso na sociedade de sua época. A partir do ensaio de Montaigne, instauram-se certos traços básicos que se converteriam, de forma geral, nos definidores do gênero: uma forma literária em prosa nãoficcional que representa a perspectiva particular de um autor/intérprete que se dedica ao exame de um tema. Desta forma, o ensaio situa-se entre o poético e o didático, distingue-se dos demais gêneros por sua estrutura baseada na flexibilidade formal e na subjetividade. Os ensaios de Montaigne e de Bacon originaram duas correntes distintas no gênero ensaístico: o ensaio familiar ou informal e o formal ou discursivo. Os escritos de Montaigne eram informais, subjetivos, quase líricos, adotando um tom leve, impressionista, em que procurava exprimir uma reação pessoal e íntima diante da realidade. Não demonstra haver uma estrutura rígida preestabelecida. Já os ensaios de Bacon se caracterizavam por sua 94 formalidade metódica e objetividade, escritos em linguagem rigorosa, de intenção lógicodiscursiva. Bacon oferece um modelo alternativo à subjetividade do francês. Obviamente estas duas correntes não delimitam a vasta produção ensaística que se seguiu, apenas apontam as direções iniciais do gênero que se estabelecia. Segundo o historiador inglês Peter Burke, ao escolher o título ensaio, Montaigne estava pensando tanto no conteúdo quanto na forma de seu livro. Ele apresentava-se como quem simplesmente pensa em voz alta. Ainda segundo o Burke, Montaigne ao cunhar o nome ensaio, tentativa, “essai”, no sentido original do termo em francês, o fez em parte por modéstia, a alegando que o que publicava eram simples tentativas literárias. Em seus primórdios, o ensaio funcionava como esboços de um artista. Sua estrutura era bem próxima à da língua falada, do registro informal. Montaigne, ao empregar esse gênero, não se comprometia com o que afirmava. Talvez porque quisesse arrancar seus leitores de suas confortáveis visões sobre o mundo, ou porque acreditava que os seres humanos são incapazes de chegar a uma conclusão final, absoluta, sobre algum assunto. Ainda na Europa, é importante ressaltar que o ensaio evidenciou sua fecundidade nos jornais no início do século XVIII, demonstrando a grande afinidade entre ambos. O tom informal do ensaio invadiu o jornalismo inglês com Daniel Defoe. Posteriormente, Joseph Addison e Richard Steele fundaram e dirigiram os jornais The Spectator e The Guardian nos quais fizeram do ensaio um êxito sem precedentes. Destes jornais participou ativamente o poeta inglês Alexander Pope, que escreveu ensaios em verso, mas que não teve muitos seguidores. A popularidade do ensaio também se deve em grande medida à configuração de um público leitor. Este é um fato relativamente recente, desenvolve-se ao longo do século XIX e parte do XX. O incremento intelectual está relacionado às condições culturais e sóciohistóricas que possibilitaram a qualificação da mão-de-obra, consequência da Revolução 95 Industrial e o avanço do capitalismo. Esse imperativo econômico desencadeará a alfabetização da massa trabalhadora, alargando o mercado editorial e o aparecimento dos meios de comunicação de massa. Naturalmente, observa-se uma relação indissociável entre as transformações socioeconômicas e a configuração cultural da época. No rol destas transformações, “el periódico substituía al relacionista oral, al predicador, al catecismo, a la literatura moralizante e informativa, aún más, representaba una cumplicidad complementaria del literario con la función social del código por escrito.” (VÁZQUEZ MONTALBÁN, 1998. p.160). O surgimento dos meios de comunicação de massa, a despeito do que se chegou a professar, não tinha a intenção de suprimir os livros, apresentava-se como mais um meio a disposição do leitor. Entretanto, o aumento quantitativo do número de leitores acabou por dividir a literatura em pelo menos dois tipos: a literatura de elite e a de consumo, mas a diferença não estava simplesmente nos veículos livro e jornal, tinha a ver com fatores culturais e econômicos: La frontera fundamental estaba dibujada por la ambición temática y el tratamiento lingüístico. La formación cultural del receptor tenía mucho que ver com su sensibilidad lectora y con su selección de lecturas, pero también había una serie de aspectos materiales que acentuaban la división del mercado [...] desde el formato hasta el precio [...]. (VÁZQUEZ MONTALBÁN, 1998, p.173). Mais uma vez se observa a questão econômica, o status social, refletindo-se e determinando a classificação da literatura. A expansão da imprensa escrita pode ser compreendida como reflexo do desenvolvimento da economia, visto que surgiu principalmente da necessidade de atendimento às exigências comerciais da época. Sob este aspecto, o jornal deu grande notoriedade aos ensaístas e difundiu o gênero para camadas da população que não tinham acesso a publicações mais caras. A identificação entre o ensaio e jornal também se observou na América Latina, acentuadamente no século XX. No período do pós-guerra, em muitos países do continente, os intelectuais, denominação recentemente incorporada ao vocabulário da época, como 96 analisaremos a posteriori, tiveram seus ensaios publicados em jornais. Na segunda metade deste mesmo século, quando o então jornalista Galeano foi chefe de redação do semanário Marcha e diretor da revista cultural Crisis, o ensaio tinha ganhado espaço privilegiado, sob os cuidados de renomados intelectuais latino-americanos tais como Ángel Rama, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti, Carlos Monsiváis etc. Estes escritores, agora mais próximos dos interlocutores em função dos meios de comunicação de massa, aproveitaram o caráter dialogal do ensaio e suas flexíveis características formais para atender à demanda do público e às especificidades do veículo. Comentando sobre a proficuidade do ensaio na América Latina, o crítico literário Anderson Imbert afirma que “en la década de los setenta la literatura y el periodismo se mezclaron hasta el punto de que algunos de los mejores libros de entonces son difíciles de clasificar.” (2000, p. 424). Em razão das convergências e contornos discursivos que se observavam na época entre literatura e jornalismo, como sublinha Anderson Imbert, os papéis não estavam bem definidos, levando à fusão ou confusão entre os dois ofícios. Grande parte dos escritores e ensaístas do século XX começou sua carreira nos jornais. Apenas na América hispânica, podemos citar José Martí, José Carlos Mariátegui, Augusto Roa Bastos, Juan Rulfo, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, entre tantos outros. Em nosso continente, o exemplo sobressalente de um jornalista que se tornou célebre na literatura é o Prêmio Nobel Gabriel García Márquez. O colombiano assim explica a importância do jornalismo em sua escritura: “yo no hubiera escrito ninguno de mis libros si no conociera las técnicas del periodismo, tanto de la forma de capturar y de elaborar la información como la forma de utilizarla em el relato”19. Na América Latina, muitos autores fizeram de seu ofício jornalístico e literário uma arma contra a alienação, a inconsciência e a resignação. Respondendo à condição histórica 19 Gabriel García Márquez. Citado por STEENMEIJER, Maarteen. Los dos columnismos de Gabriel García Márquez. In: El género del columnismo de escritores contemporáneos. Revista Insula, 2005. p.37. 97 que viviam, os jornalistas vincularam seus textos a uma proposta política de leitura do mundo, utilizaram o ensaio como um meio de reinterpretar a realidade. A subjetividade assinalada por Montaigne e a intenção de provar uma tese defendida por Bacon estão presentes em Las venas. Na obra é possível depreender tanto da matéria abordada como de seu autor, pelas marcas de subjetividade ali impressas: Para quienes conciben la historia como una competencia, el atraso y la miseria de América Latina no son otra cosa que el resultado de su fracaso. Perdimos; otros ganaron. Pero ocurre que quienes ganaron, ganaron gracias a que nosotros perdimos: la historia del subdesarrollo de América Latina integra, como se ha dicho, la historia del desarrollo del capitalismo mundial. (GALEANO, 1991, p.3). Galeano estrutura seu discurso a partir de suas concepções, de suas leituras, e essa informação se constituem na coluna vertebral da forma ensaística de escrever. É no caráter subjetivo, explicitamente demonstrado em Las venas, que se observa a perspectiva ideológica marxista e antiimperialista, interpretada pelo autor sob o ponto de vista da teoria da dependência. Ao tratarmos do ensaio como gênero literário, não podemos deixar de considerar a inquestionável contribuição do filósofo e teórico alemão Theodor Adorno. Poucos pensadores refletiram sobre o gênero com tanto afinco, o que se pode comprovar em O ensaio como forma. Esta obra foi escrita na década de 1950, logo depois de seu retorno à Alemanha, após o exílio. O contexto histórico do qual emanou esclarece o tom de defesa do ensaio, visto que naquela época a crítica literária alemã havia difamado o gênero como um produto bastardo. Adorno tenta redimi-lo, mostrando que o ensaio constitui a maneira mais adequada de traduzir o pensamento dialético, sem prendê-lo rigidamente aos conceitos, como já havia afirmado Georg Luckács ao defender a relação entre a arte e a sociedade. Adorno discordava da corrente crítica que condenava o mutável, a estrutura flexível do ensaio como indigno da filosofia. Para o teórico alemão, é a relação estrita entre pensamento e 98 linguagem que configura o gênero ensaio como veículo do pensamento, a confluência entre expressão e filosofia: O ensaio parte dessas significações e, sendo ele mesmo essencialmente linguagem, leva-as avante; ele gostaria de ajudar a linguagem em sua relação com os conceitos, de tomá-los refletidamente tais como eles já se encontram inconscientemente denominados na linguagem. [...] O ensaio se posiciona tão ceticamente diante disso quanto diante da pretensão de definir. [...] Pois percebe que exigir definições estritas contribui há muito tempo para eliminar, mediante a manipulação dos significados dos conceitos através de sua fixação, o elemento irritante e perigoso das coisas, que vive nos conceitos. (ADORNO, 1986, p.176). O pensamento adorniano, em princípio, assume o ensaio como linguagem e, como tal, posiciona-se filosoficamente a favor da dúvida sistêmica, pois não busca configurar conceitos imutáveis, antes, questioná-los, pois não acredita que seja possível chegar a conclusões definitivas. Apesar de o ensaio ter nascido na vizinha França, somente no século XVIII o ensaio literário floresceria na Espanha, graças ao contexto histórico de transformações sociais e da ilustração por que passava o país. A flexibilidade formal do ensaio podia ajustar-se às intenções didáticas e utilitárias da época. Esta centúria chegou a ser chamada de “siglo sin novela”, não porque não houvesse textos narrativos notáveis, senão porque traziam reminiscências de gêneros barrocos ou tinham uma intencionalidade didática tão clara que condicionava a estrutura e o sentido do relato.” (JIMENEZ & CÁCERES, 2007, p.179). A Espanha precisou de quase três séculos, depois de Montaigne apresentar o gênero ao mundo, para que o ensaio fosse reconhecido na literatura do país. No século XX, José Ortega y Gasset foi o primeiro escritor espanhol a se considerar um ensaísta, classificando a maioria de suas próprias obras como ensaios. No prólogo de Meditaciones del Quijote encontra-se sua definição mais célebre sobre o ensaio: Estas Meditaciones, exentas de erudición —aun en el buen sentido que pudiera dejarse a la palabra— van empujadas por filosóficos deseos. Sin embargo, yo agradecería al lector que no entrara en su lectura con demasiadas exigencias. No son filosofía, que es ciencia. Son simplemente unos ensayos. Y el ensayo es la 99 ciencia menos la prueba explícita […] y el rígido aparato mecánico de la prueba es disuelto en una elocución más orgánica, movida y personal. (ORTEGA Y GASSET, 1963, p.11-12). Como sublinhara Adorno, não é objetivo precípuo do ensaio apresentar conceitos definitivos, tampouco Ortega y Gasset cria que o ensaio devesse ensejar a comprovação científica do que se afirmava, pois se “é a ciência menos a prova”, corresponde a defender que não é uma ciência. Quando classificamos Las venas como um ensaio, talvez o aspecto mais importante a ser levado em consideração sobre a constituição do gênero seja sua forma de leitura. Montaigne é um exemplo singular de ensaísta que escreve a partir de suas leituras, o que caracteriza trabalho de reescritura peculiar ao ensaio. A reescritura, em última análise, é um modelo de leitura, pois toma como referencial outras obras, comentando-as sob um ponto de vista subjetivo. Assim, instaura-se uma nova perspectiva de leitura que surge no momento em que se inauguram novos modos de relação entre a leitura e a realidade. Foi Montaigne quem primeiro concebeu essa nova forma de leitura que possibilitaria a abertura do mundo conhecido a novos horizontes. Somente no Renascimento foi possível estabelecer uma nova relação entre o sujeito e o conhecimento, o que se refletiria também na concepção que se tinha da leitura. O crítico literário Luiz Gómes-Martínez ressaltou a peculiar releitura que faz o ensaísta quando sublinhou a discussão de temas já assentados como uma das características do gênero: [...] lejos de suponer una nota negativa para el género, es una de sus características decisivas. Su misma existencia depende no sólo de un "algo" ya creado, sino de que ese "algo" haya sido asimilado por los posibles lectores: sus escritos abundan en referencias y alusiones que deben ser comprendidas para que estos adquieran su verdadera dimensión. (1981, p 13). A escrita sobre temas que já foram “assimilados” permite configurar a intertextualidade e, a partir dela compreender uma nova realidade. Neste sentido, observam-se muitas afinidades que possibilitam pensar Las venas como um ensaio. A discussão sobre 100 temas já assimilados, aceitos muitas vezes como inquestionáveis à luz da historiografia oficial, são revistos e confrontados por uma argumentação incisiva que propõe um novo olhar, um caminho alternativo construído também à base de documentos de variadas fontes, além de abundantes referências bibliográficas. Tais características são evidentes mesmo numa leitura superficial da obra, constituindo-se como algumas de suas marcas formais peculiares. Eduardo Galeano constrói sua linha argumentativa, recuperando temas e notas já esboçados em obras da tradição intelectual hispânica, seguindo os passos desta literatura, discute tópicos há muito já debatidos por autores espanhóis como os religiosos Bartolomé de Las Casas e Bernardino de Sahagún, assim como, e, sobretudo, muitos escritores hispanoamericanos dos quais, à guisa de exemplo, citamos o venezuelano Andrés Bello, o cubano José Martí, o uruguaio José Enrique Rodó e o peruano José Carlos Mariátegui. Tópicos como a valorização da língua e da cultura autóctone pré-colombiana, a reconstrução/recuperação da identidade nativa do continente, a crítica à exploração estrangeira, a defesa de uma revolução popular como motor de transformação social e histórica que possibilite modificar a realidade atual do continente são alguns dos temas recorrentes nas obras destes escritores. Galeano discute tais assuntos em ensaios que “abundan en referencias y alusiones.” Sob esta perspectiva, Eduardo Galeano dá prosseguimento a uma literatura que se baseava na reinterpretação de temas debatidos na esfera intelectual, mas de interesse coletivo. Esta forma de escritura deixa explícito o desejo de reivindicar uma leitura alternativa dos fatos e versões, assim como inscrever tais textos numa tradição hispano-americana de socialização do saber, um projeto utópico de distribuição do capital simbólico por meio da palavra escrita. Segundo a ensaísta argentina Liliana Weinberg (2007, p.8), as correntes atuais da nova retórica e da pragmática se preocupam menos com a delimitação formal do ensaio, focando o tipo de contrato de intelecção que o ensaísta estabelece com o leitor, por meio de um texto 101 que se inscreve mais no rol explicativo-argumentativo que no narrativo. Analisando os muitos trabalhos sobre a constituição do ensaio como gênero literário, a conclusão mais segura é que ainda não se pode apontar categoricamente um conceito sobre o gênero. A autora ressalta que esta falta de consenso se deve às poucas características mínimas nas quais coincidem os estudiosos, entre as quais destaca: escrita dedicada a oferecer o ponto de vista do autor; vínculo com a prosa; caráter não-ficcional; perspectiva pessoal ostensiva; abertura a um amplo espectro de temas e formas de tratamento; concisão; contundência; vontade de estilo. A despeito desta pequena lista de coincidências, o inventário de discordâncias é muito maior: caráter aberto, instável, ambíguo, híbrido, mestiço. Weinberg também faz referência ao ensaio como: “literatura en potencia, antigénero, género degenerado, etc.” (Ibidem, p.9) As diferenças no tratamento do ensaio não se devem apenas a sua complexidade intrínseca, mas também à perspectiva de análise e linha teórica adotadas, que levam a considerá-lo como um tipo de texto, uma forma discursiva, mas também como uma modalidade enunciativa, uma atividade intelectual, uma poética do pensar, um estilo do dizer. Neste sentido, o ensaísta é um tipo de especialista do entender e do dizer sobre seu entender, que oferece como resultado de seu ato intelectivo, não só sua opinião, mas um conjunto de razões organizadas de forma a apoiar seu julgamento pessoal. Assim, o ensaio corresponde também a uma forma enunciativa particular, com fortes marcas tensivas, originadas do ponto vista do autor, que querem levar a reflexão da matéria em tela. Conforme ressalta Weinberg na obra Pensar el ensayo: [...] hay en el ensayo una representación, uma auténtica performación del acto de pensar, de la experiencia intelectual [...] Desde ese presente que a la vez corresponde al tiempo de la enunciación y al tiempo de la interpretación, al tiempo del pensar y al tiempo del predicar, comienzan las expansiones del ensayo y se actualiza la capacidad de establecer vínculos, genealogías, tradiciones, por él nombradas y rediseñadas, y de inscribirse en diversas esferas, ya que el ensayo traduce y reactualiza las tensiones entre los distintos campos, particularmente entre el literario y el intelectual. (2007, p. 11.) 102 A autora entende o ensaio como uma forma de expressão e interpretação que relaciona distintos campos do saber, traduzindo-os numa espécie de poética do pensar. Destaca que os textos ensaísticos têm um caráter prometeico, aludindo ao mito Prometeu, de Ésquilo, que roubou os conhecimentos dos deuses do Olimpo para entregá-los aos humanos e por isso é castigado. Esta metáfora explicaria a capacidade que tem o ensaio de articular mundos, mediar o conhecimento teórico e prático, a ética e a estética. Sob esta perspectiva, seria um gênero interpretativo capaz de erigir-se como discurso articulador de discursos, estabelecendo vínculos entre o conhecimento científico e o humanístico. O gênero ensaístico, como os demais gêneros literários, evidencia uma rica e complexa genealogia, inscrita numa determinada tradição de pensamento. A escritura de Las venas é herdeira e signatária desta tradição, pois podemos observar em suas páginas o estabelecimento de novas formas de articulação do contexto latino-americano, uma afiliação a esta tradição, a representação de uma tomada de posição artística e intelectual por parte de seu autor. Galeano compreende a capacidade de mediação entre discursos inerente ao ensaio, levando seu leitor a pensar sobre a matéria em pauta, à luz de uma prática significativa e da necessidade de reforçar seu vínculo com as condições concretas de sua produção discursiva, diferentemente da escritura ficcional. Ao mesmo tempo, submete à interpretação uma matéria fortemente personalizada, abrindo a possibilidade de um contrato dialógico de intelecção que reforça o lugar simbólico do ensaísta e de seu texto no campo literário, intelectual, filosófico etc. Como analisaremos, Galeano é um escritor-leitor, sua escritura é uma forma de interpretar uma interpretação anterior a sua, a de suas fontes. É sob sua mediação que se estabelecerá a interlocução que reforçará seu posicionamento ideológico, logo, seu campo intelectual. Assim, a interpretação que propõe o ensaio visa um “ir além” que se inscreve em um horizonte de valores, numa determinada visão de mundo: Uno escribe para tratar de responder a las preguntas que [...] coincide con la necesidad social de respuesta. Escribí Las venas para difundir ideas ajenas y 103 experiencias propias que quizás ayuden un poquito, en su realista medida, a despejar las interrogantes que nos persiguen desde siempre [...] Este libro es una búsqueda de claves de la historia pasada que contribuyen a explicar el tiempo presente, que también hace historia, a partir de la base de que la primera condición para cambiar la realidad consiste en conocerla. (GALEANO, 1971, p. 438-9) Galeano afirma que sua escrita pode ganhar sentido coletivo, quando consegue responder aos questionamentos que persistem sem respostas, a forma de fazê-lo é conhecer o passado para mudar o presente. Na leitura de Las venas observa-se claramente o papel de Galeano como mediador de discursos alheios, que assume explicitamente o papel de leitor e intérprete messiânico do passado para uma coletividade que, supostamente, anseia por respostas, visando à transformação da realidade atual. Daí o caráter prometeico do ensaio, conforme sublinha Weinberg (2007). Esta reflexão parte do princípio de que os textos que veiculam o discurso intelectual são indagações sobre o mundo e sua realidade, a partir de um “eu”, de uma subjetividade que se constitui em ponto de partida, como uma viagem de exploração do tema proposto por meio da linguagem, uma representação artística de um processo intelectual. Sob este viés, o ensaio apresenta-se como a interpretação pessoal, traduzida em uma ordem textual, que faz da linguagem e da prosa seu instrumento de expressão e sua matéria de indagação. O tom subjetivo, a variedade temática e, sobretudo, a extrema liberdade ou a “descontinuidade” compositiva são outras características de Las venas que nos levam a classificar a obra como um ensaio. Conforme aponta Adorno: O ensaio pensa em fragmentos, uma vez que a própria realidade é fragmentada; ele encontra sua unidade ao buscá-la através das fraturas, e não ao aplainar a realidade fraturada. A harmonia uníssona da ordem lógica dissimula a essência antagônica daquilo sobre o que se impõe. A descontinuidade é essencial ao ensaio; seu assunto é sempre um conflito em suspenso (ADORNO, 1986, p.38). Galeano constrói Las venas por meio do comentário de muitas fontes, que aparecem como citações, exemplos, alusões, fragmentos que se justapõem numa “colcha de retalhos” para formar seus pensamentos, sua interpretação. 104 Podemos ainda refletir sobre uma paradoxal característica do ensaio, concebido no espaço privado do ensaísta e ao mesmo tempo público, por se dirigir a um leitor imaginado. Portanto, o ensaio reúne em sua materialidade o mundo da escrita e da leitura. Assim, está vinculado a muito além do que remete sua organização textual, pois está ligado tanto às condições concretas de sua produção discursiva, o que envolve a responsabilidade do ensaísta pelo que está sendo veiculado; como ao horizonte de sentido em que está inserido, na relação do texto com o mundo, sua representação social e processo de simbolização cultural, como observaram autores como Bakhtin, Foucault e Bourdieu, estabelecendo a relação entre discurso e suas representações. Nesta mesma perspectiva, a pragmática defende a ideia de contrato implícito firmado entre os interlocutores por meio do discurso, no qual se atualiza uma série de papéis sociais e culturais. As novas teorias sobre a linguagem nos ajudam a entender os vínculos que se estabelecem entre ensaio, interpretação e processos simbólicos. 2.3. O ENSAIO COMO GÊNERO ARGUMENTATIVO Como ressaltamos, não há um consenso sobre a definição do ensaio, assim como sua constituição como um novo gênero literário que se incorpore à tríade lírico, dramático e épico, o que gera definições tão polissêmicas como “unicornio de los géneros”, proposta por Octavio Paz. Entretanto, muitos estudos já concebem estes textos como constitutivos de um gênero argumentativo. Um exemplo singular é a extensa e complexa obra Hacia una teoría general del ensayo, da espanhola María Elena Arenas Cruz (1997), na qual a autora defende que se estudem os princípios básicos da construção textual do ensaio nos níveis semântico, sintático e pragmático para que se possa constituir o ensaio como um “tipo de texto autônomo”. Para delimitar as relações entre estes níveis, a autora parte da distinção clássica entre gêneros históricos e gêneros teóricos ou naturais: 105 [...] son géneros históricos el cuento, la oda, el ensayo, la comedia, la epopeya, etc. Por su parte los géneros naturales son categorías abstractas de raíz antropológica, universales y transhistóricas [...] son géneros naturales el lírico, el dramáticoteatral, y el épico-narrativo, sistema económico que da cuenta de las capacidades expresivas y modos de representación básicos de la conciencia humana. (ARENAS CRUZ, 1997, p.18) Esta divisão clássica é a mais utilizada pelos pesquisadores contemporâneos que preferem analisar os textos sob a perspectiva histórica, pela observação dos sistemas literários, negando, inclusive, a existência de categorias teóricas ou naturais, às quais pertenceriam o ensaio, devido à complexidade e o risco de afastar-se da realidade artística, reservando a designação de gênero literário apenas para os textos que se possam classificar na perspectiva histórica. Esta adesão terminológica se justificaria por sua ampla disseminação nos manuais teóricos e histórias literárias. Arenas Cruz diverge da subdivisão tradicional que reserva o término tradicional gênero para apenas os três modelos históricos/clássicos (lírico, épico e dramático). Para possibilitar que se situe o ensaio adequadamente, defende a ampliação do paradigma genérico para quatro categorias naturais, somando-se a argumentação à tríade tradicional. Sob esta nova classificação, poder-se-ia alocar as manifestações textuais literárias e não literárias, em prosa e verso. Para a autora, mais pertinente que o término gênero para denominar estas obras literárias seria a “expresión neutra clase de textos” devido a sua grande funcionalidade teórica e porque se aplicaria tanto a textos literários como não-literários, “desapareciendo las jerarquías institucionalizadas de las convenciones críticas.” (p.20). Mas como definir essa “clase de texto”? Segundo a maioria dos teóricos contemporâneos, seria sua constituição histórica, ou seja, as marcas que imprimem os fenômenos de produção e recepção textual na história literária; e seu funcionamento pragmático, um tipo particular de ação comunicativa, avalizada pela tradição literária, que permita a adequada concepção e leitura da obra. Assim, a “clase de textos”, mais que um conjunto de textos seria um “modelo o esquema cognitivo” (p.21) que serve para a produção e recepção de determinadas obras literárias. 106 A. García Berrio e M. T. Hernández (Apud ARENAS CRUZ, 1997, p.26.) propuseram o gênero argumentativo literário como uma nova categoria que englobasse outros gêneros em prosa: a argumentação ensaística, a prosa doutrinal e a oratória. As duas características principais que se destacam nestes tipos de textos são sua “estructura pragmática”, que desempenha um papel fundamental como macro ato de fala perlocutório; e sua “manifiesta y cuidada voluntad de estilo”, que se impõe sobre os aspectos formais, inclusive, sobre a intrincada profundidade dos conteúdos específicos. A despeito da classificação inglesa do ensaio como um gênero de não-ficção, Arenas Cruz comenta que esta proposta se explicaria, do ponto de vista social e histórico, pelo progressivo desaparecimento em nossa sociedade do discurso discordante, difundida geralmente nos livros, que tem sido substituído pelo discurso veiculado na mídia, em que a opinião pessoal não tem nenhuma relevância. Ainda no campo das possibilidades de classificação do ensaio, o professor Aullón de Haro propõe a categoria dos gêneros ensaísticos, que reúnem textos que se definem como o exercício crítico, não estritamente científico, das formações culturais. Este exercício crítico é fruto da reflexão sobre a sociedade e constitui-se como expressão espontânea da existência humana, ainda que fora do âmbito da ficcionalidade ou da desfamiliarização da realidade. Nesta perspectiva, relacionando o ensaio à necessidade ontológica de expressão, Lukács, em sua carta a Leo Popper, afirma: Hay, pues, vivencias que no podrían ser expresadas por ningún gesto y que, sin embargo, ansían expresión. Por todo lo dicho sabes a cuáles me refiero y de que clase son: la intelectualidad, la conceptualidad como como vivencia sentimental, como realidad inmediata, como principio espontáneo de existencia; la concepción del mundo en su desnuda pureza, como acontecimiento anímico, como fuerza motora de la vida. (LUKÁCS apud ARENAS CRUZ, 1997 p.27) (Grifo nosso) Portanto o ensaio é uma forma de entender algum aspecto do mundo, relacionando o particular e o universal. Lukács entende o ensaio como uma forma de expressão sobre a vida, um poema intelectual. Ao analisarmos a reflexão que faz Galeano sobre a situação do país 107 mais pobre das Américas, observamos a expressão de um ponto de vista emocionado, cronologicamente marcado em 1977, que, entretanto, mais de trinta anos depois, expressa a realidade imediata deste país: Haití es el país más pobre del hemisferio occidental. Allí hay más lavapiés que lustrabotas: niños que a cambio de una moneda lavan los pies de clientes descalzos, que no tienen zapatos para lustrar. Los haitianos viven, en promedio, poco más de treinta años. De cada diez haitianos, nueve no saben leer ni escribir. [...] No faltan en el país talleres donde los niños trabajan por un dólar diario armando casettes y piezas electrónicas. Son por supuesto, productos de exportación; y, por supuesto, también se exportan las ganancias, una vez deducida la parte que corresponde a los administradores del terror. (GALEANO, 1991, p.452-3) Considerando tanto a citação de Lukács, que expressa a reflexão teórico-filosófica sobre necessidade do reconhecimento do ensaio como forma de expressão, quanto à de Galeano, que demonstra a indignação com a miséria e as injustiças que assolam o primeiro país das Américas a ter sua independência política, pode-se observar em ambos uma atitude argumentativa sentimental, uma necessidade expressiva e comunicativa. Como analisar literariamente tais textos, se não encontramos nos gêneros tradicionais parâmetros para que possamos classificá-los? Daí a proposição por parte de muitos teóricos de um novo modelo de análise literária para os textos não-ficcionais. O reconhecimento do gênero argumentativo como modelo geral de orientação de produção autoral e de recepção leitora pela teoria literária seria um referente adequado para classificar toda uma produção textual de caráter eminentemente reflexivo, que não se pode vincular a outras categorias genéricas, fundamentalmente ficcionais. “La única matización que se impone (ao gênero argumentativo) es la necesidad de establecer una gradación de literariedad, que sirva para delimitar dentro de cada clase los textos más artísticos de los más didácticos o informativos.” (ARENAS CRUZ, 1997, p. 28). Para a delimitação do gênero argumentativo, Arenas Cruz se baseia nos modelos mentais, presentes tanto nos autores como nos leitores, dos diversos sistemas literários, por meio do qual o leitor e o crítico estabelecem o “parentesco” ou as afinidades intrínsecas entre 108 textos; e o regime autoral, baseado nos processos intencionais de escolha, imitação e transformação em relação à tradição anterior levados a cabo pelo autor. Desta dupla perspectiva, propõe uma extensa lista de “classe de textos” do gênero argumentativo: o diálogo; a epístola; a miscelânea; a literatura paremiológica (recopilações de sentenças); a glosa; o ensaio (desde o modelo de Montaigne até o ensaio de influência jornalística); o artigo de opinião (desde os modelos mais extensos que os jornais reservam para as tribunas de opinião como o menos extenso, publicado nas colunas); a oratória; o prólogo e o tratado. O conjunto de normas internas próprias de cada classe de textos, em que se baseiam os modelos mentais, estará relacionado aos âmbitos sintático-semântico (o que se diz e como) e pragmático (quem diz, a quem e com que intenção). É a delimitação do conteúdo destas perguntas, por meio da análise e descrição da obra concreta, que permitirá definir o referente cognitivo de cada classe de texto. Para análise dos textos que se inscreveriam no gênero argumentativo, Arenas Cruz propõe quatro parâmetros: âmbito do referente, âmbito sintático-semântico, plano da enunciação autoral; e plano da atitude de recepção. Compreendamos cada um deles: O âmbito do referente diz respeito à base semântica e a relação do texto realidade, estabelecendo-se um pacto de leitura regido pela categoria do verossímil; neste tipo de texto o que argumenta (o autor) seleciona premissas que possam servir para construir argumentos úteis para provar ou refutar, visto que os argumentos são raciocínios elaborados para persuadir um receptor concreto e não a um auditório universal. O âmbito sintático-semântico baseia-se no tipo de superestrutura argumentativa, caracterizada formalmente pela tese e a justificativa argumentada mediante provas não demonstradas, visando à persuasão. Um exemplo é o uso do prólogo para que o escritor exponha o propósito de sua obra e justifique sua posição diante do assunto. 109 O plano da enunciação autoral é o âmbito da comunicação que se observa na intenção do enunciador e seu posicionamento frente ao que é apresentado. Nenhum dos diferentes modos de apresentação linguística (narração, representação, exposição, argumentação etc.) serve para definir a classe de texto no plano do enunciado, visto que se pode encontrar vários deles num mesmo texto. Assim, o modo de apresentação linguística predominante no gênero argumentativo é aquele por meio do qual o sujeito da enunciação informa, comenta, interpreta, tomando apenas ele a palavra. Para exemplificar tal estrutura argumentativa, podemos analisar o seguinte fragmento de Las venas: Los turistas adoran fotografiar a los indígenas del altiplano vestidos con sus ropas típicas. Pero ignoran que la actual vestimenta indígena fue impuesta por Carlos III a fines del siglo XVIII. [...] No sucede lo mismo, en cambio, con el consumo de coca, que no nació con los españoles; ya existía en tiempos de los incas. La coca se distribuía, sin embargo, con mesura; el gobierno incaico la monopolizaba y sólo permitía su uso con fines rituales o para el duro trabajo en las minas. Los españoles estimularon agudamente el consumo de coca. Era un espléndido negocio. En el siglo XVI se gastaba tanto, en Potosí, en ropa europea para los opresores como en coca para los oprimidos. (GALEANO, 1991, p.72-3) Galeano constrói sua argumentação por meio de um flash-back, inicia sua linha de raciocínio no presente histórico, apresentando um costume conhecido e contemporâneo ao leitor, mas seu objetivo é desqualificar o argumento de que a preservação da indumentária era uma prova da valorização da cultura indígena. O autor ressalta que tal fato, na realidade, atesta sua apropriação. O argumento da vestimenta, entretanto, é apenas um artifício para que Galeano possa demonstrar que o mau uso da coca atribuído aos indígenas, na verdade, se deve aos colonizadores, responsáveis por sua disseminação e a criação da estrutura do tráfico, com a aquiescência da Igreja. Para demonstrar que seu argumento é válido, o escritor usa como “prova” a citação de Comentarios Reales, do hispano-inca Garcilaso de la Vega. Assim, é possível observar o plano da enunciação autoral, pois fica evidente a intenção do enunciador (Galeano) e seu claro posicionamento diante do narrado. 110 A narração dos fatos pelo autor está marcada pelos comentários na exposição argumentada, assim, quando relata ações e descreve situações, as comenta e interpreta, ajuíza e valora. Arenas Cruz ressalta que o modo narrativo domina quando o compromisso e a perspectiva do autor em relação ao assunto que está apresentando se subordina à ação, ao relato dos acontecimentos. No caso de Las venas, observamos, ao contrário, que a narrativa é que está construída de forma a subordinar-se a perspectiva do narrador, daí o predomínio da subjetividade do autor. Uma outra característica que também se observa no texto de Galeano é que a enunciação é principalmente monológica, do ponto de vista da situação enunciativa, o que o inscreve no gênero argumentativo. Assim, quem detém o monopólio do discurso é o enunciador. Benveniste afirma que todo texto monológico, na medida em que se constitui como um ato de comunicação, é originado implicitamente dialógico. A enunciação discursiva é aquela em que um “eu” se enuncia em um “aqui” e um “agora” a partir dos quais fala e enuncia a um “tu” que pretende influenciar de alguma maneira. (BENVENISTE, 1991, p.36). O discurso de Galeano, ainda que pontuado por outras vozes, as citadas, é monológico argumentativo, o que não exclui o caráter dialogal, visto que locutor e interlocutor estão sempre presentes de maneira implícita. É deste caráter dialogal que deriva a intenção apelativa ou persuasiva do sujeito da enunciação em relação a seu receptor implícito. Por seu caráter dialogal, de forma abrangente, pode-se afirmar que o gênero ensaio transita livremente por várias áreas do saber, sua interdisciplinaridade é um fato. Livre, digressivo, o ensaio é mais do que um tema em prosa num espaço limitado e criado por uma subjetividade, uma de suas características é a persuasão, o que inclui uma longa série de estratégias de convencimento. Esta finalidade persuasiva do discurso já havia sido destacada pela retórica clássica na articulação de três componentes da linguagem, o docere, a tentativa de influenciar 111 intelectualmente o receptor; o delectare, que deseja fazer atrativo o discurso e mesmo o orador; e o movere, que objetiva mobilizar o receptor para que tome uma posição a favor da tese defendida. Em Las venas pode-se observar a conjugação destes três componentes: [...]. Pero se me hace cuesta arriba, lo confieso, leer algunas obras valiosas de ciertos sociólogos, politicólogos, economistas o historiadores, que escriben en código. [...] Sospecho que el aburrimiento sirve así, a menudo, para bendecir el orden establecido: confirma que el conocimiento es un privilegio de las élites. Algo parecido suele ocurrir, dicho sea de paso, con cierta literatura militante dirigida a un público de convencidos. [...] Quizás esa literatura de parroquia esté tan lejos de la revolución como la pornografía está lejos del erotismo.(GALEANO, 1991, p.438) (Grifo nosso). O caráter dialogal que permeia o discurso de Galeano demonstra seu desejo de aproximar-se do leitor, de ficar íntimo, o que é reforçado pelo tom coloquial em primeira pessoa: “se me hace cuesta arriba”. Também busca influenciar seu leitor por meio da comparação entre seu discurso ao “estilo de una novela de amor o de piratas” e a linguagem dos “politicólogos”. O que o o autor alega é que que não há motivos para esconder a verdade por trás de “códigos”, assim, o receptor pode confiar que o conteúdo veiculado neste texto é apenas um “manual de divulgación”. Entretanto, a declaração de Galeano de que seu texto não tem a intenção de influenciar reforça ainda mais a ideia de que o autor usa outras estratégias a fim de conseguir a adesão do leitor a sua visão de mundo. Ao analisarmos a questão autoral em Las venas, é esclarecedor a oposição que faz o professor H. Weinrich (Apud ARENAS CRUZ, 1997, p.42.) entre “atitude narrativa” e “atitude comentativa” em relação ao grau de relaxamento que imprimem ao discurso e ao espírito dos interlocutores na argumentação. Enquanto na primeira os acontecimentos narrados são relatados de forma “relaxada”, sem grande dramatismo; na atitude comentativa os interlocutores estão em tensão porque tratam de acontecimentos que os afetam diretamente. O enunciador está comprometido com seu discurso e adverte a seu interlocutor da necessidade de uma resposta. O predomínio na obra de Galeano da atitude discursiva ou comentativa sobre a narrativa implica na subjetividade e personalização de seu discurso. 112 Os procedimentos narrativos que usa o autor uruguaio, assim como outros ensaístas, para dar a impressão de diálogos compartidos e a busca de uma interpretação da realidade comum são também um artifício retórico, na medida em que a voz monológica do enunciador se impõe, subordinando o conteúdo temático à sua visão de mundo. O plano da atitude de recepção é o quarto e último parâmetro apresentado por Arenas Cruz. Este parâmetro está relacionado ao comportamento e a participação do leitor na interpretação dos textos literários, especificamente, a resposta perlocutória, ou seja, o efeito produzido pelo enunciado no interlocutor, visto que na organização da superestrutura do gênero argumentativo predomina um tom apelativo-persuasivo. Garcia Berro descreve este processo relacionando o “valor proposto” pelo emissor, baseado nos componentes retóricos descritos anteriormente, para alcançar a persuasão de seu leitor; e a “estima” do leitor, que tanto pode ser de adesão como de recusa. (Apud ARENAS CRUZ, 1997, p.43.) A resposta perlocutória condiciona a interpretação do gênero argumentativo, diferentemente dos demais gêneros históricos, em que o contexto da comunicação fundamentalmente estética faz com que o processamento se conclua, por assim dizer, depois da compreensão e avaliação. Isto se dá porque a intenção perlocutória está explícita na estrutura comunicativa deste gênero. Assim, a interpretação da informação que fazem os leitores do gênero argumentativo é mais globalizante, na medida em que completam o processo comunicativo textual de base perlocutória com uma resposta relacionada às suas ideias. Resumindo a teoria proposta por Arena Cruz, os princípios gerais que caracterizariam o gênero argumentativo são: a) o referente textual está integrado por elementos semânticos verdadeiros e por suas interpretações verossímeis; b) a enunciação autoral é monológica, projetada em um diálogo explícito com um “tu”, devido ao predomínio da “atitude comentativa”; c) predomínio da estrutura expositivo-argumentativa em que se fundem o autor 113 real e o enunciador, de forma que se possa ajuizar a enunciação com valor de verdade ou falsidade; e d) uma construção textual determinada por uma superestrutura argumentativa que organiza as partes do texto e delimita seu conteúdo, em que seu tom apelativo-persuasivo visa uma resposta perlocutória. Para Arenas Cruz estas características, mais que preceitos que determinam o gênero, são intuídas ou apreendidas por escritores e leitores, orientando a produção, compreensão e classificação em uma “clase de texto”, de princípios afins, no âmbito institucional da comunicação literária. Assim, a classificação do ensaio como um quarto gênero literário, ou uma “clase histórica de texto”, serve [...] a un productor a la hora de crear una obra literaria y a un receptor a la hora de descodificarla, situados ambos en un momento de la historia y en el espacio creado por la institución propia de la comunicación literaria en el seno de uma sociedad y una cultura concreta. (p.45) Portanto, uma classe texto, ainda que seja uma noção abstrata de caráter analítico, funciona pragmaticamente quando se deseja trabalhá-la no âmbito de uma instituição literária determinada. O caráter eminentemente subjetivo do ensaio põe em relevo a debilidade da argumentação como uma verdade inquestionável, apresenta-se como uma tentativa, uma alternativa razoável, refutando ou ratificando uma temática que emerge da realidade em que está inserido tanto o enunciador como receptor. A perspectiva defendida por Arenas Cruz possibilita que analisemos Las venas abiertas de América Latina como uma obra que foi produzida e deve ser lida como um texto inscrito no gênero argumentativo ou ensaístico, consequentemente, como um gênero autônomo. Desta forma, ressaltamos também o reconhecimento de seu valor histórico como veículo de comunicação do pensamento e reflexão humanistas, que possibilitou e possibilita tanto a expressão da razão, opiniões e valores baseados na verossimilhança, como explorar as 114 possibilidades da linguagem metafórica, tanto para seduzir como para levar à reflexão sobre questões socioeconômicas, filosóficas e existenciais latino-americanas. Las venas vem à luz num contexto histórico definido, o da América Latina dos anos 1960. Os questionamentos propostos na obra refletem uma mensagem que encontra no ensaio um campo fértil já semeado por grandes intelectuais no continente nos séculos XIX e XX. A estrutura do ensaio pressupõe implicitamente uma sociedade democrática na qual todas as vozes têm direito de serem ouvidas e as diferentes opiniões em conflito podem ser justificadas, constituindo um futuro tolerante e mais justo. 2.4. A TRADIÇÃO ENSAÍSTICA NA AMÉRICA HISPÂNICA Na Europa do século XVI, Michel de Montaigne já difundia o gênero ensaio, angariando simpatizantes e seguidores. Entretanto, somente no final do século XIX, o término ensaio seria usado pela crítica literária hispânica. Obviamente, esta afirmação não nega que houvesse obras que se identificassem facilmente com o gênero antes desta época. Era apenas uma questão de terminologia, pois muitos autores espanhóis e hispano-americanos já cultivavam o modelo francês. Comentando sobre a proficuidade do ensaio na América hispânica, José Luis GómezMartínez, em sua Teoria del ensayo, percorre a tradição ensaística do continente, nomeando os grandes precursores do gênero e ressaltando seus mais fervorosos seguidores no século XX: Desde sus inicios en la lucha ideológica por la independencia, con la obra de un José Joaquín Fernández de Lizardi o de un Simón Bolívar, a la búsqueda posterior de la propia identidad, la literatura iberoamericana se caracteriza por una fuerte producción ensayística ininterrumpida hasta nuestros días. [...] En realidad, el cultivo del ensayo en Iberoamérica alcanza las proporciones de un denominador común que caracteriza la producción literaria de muchos de sus escritores más destacados: así Alfonso Reyes, Eduardo Mallea, Jorge Luis Borges, Germán Arciniegas, Mariano Picón Salas, Ernesto Sábato, Arturo Uslar Pietri, Rosario Castellanos, H. A. Murena, Leopoldo Zea, Julio Cortázar, Carlos Monsiváis, Ariel Dorfman o Mario Benedetti. (GÓMEZ-MARTÍNEZ, 1981, p.6) 115 Se fôssemos analisar a trajetória dos autores citados como precursores ou seguidores do ensaio hispano-americano, chegaríamos à conclusão de que estamos tratando, em boa medida, da própria história da literatura do continente, o que inscreve o gênero entre os mais profícuos e difundidos. Muitos destes autores não são apenas signatários do ensaio, mas também escritores de outros gêneros que constituem o cânone literário da América hispânica. O norte-americano John Skirius, doutor em História pela universidade de Harvard, elaborou uma compilação de ensaios representativa do gênero, El ensayo hispanoamericano del siglo XX. Na introdução, ressalta que “confesarse, persuadir, informar, crear arte: cierta combinación de estas cuatro intenciones básicas habrá de encontrarse en las obras de la mayoría de los ensayistas literarios de Hispanoamérica en el siglo XX.” (p.10). O autor destaca a meditação escrita em estilo literário, uma literatura de ideias, como características do ensaio. Depreende-se, portanto, que o ensaio é um gênero literário que articula a produção de ideias à produção artística. Corroborando tal afirmativa, o próprio Skirius explica que por ensaio literário pode-se entender o mesmo que defendia o mexicano Alfonso Reyes, em El deslinde, por ‘literatura ancilar’ em oposição à “literatura en pureza”. Assim, os ensaios literários seriam como a literatura ancilar, nos quais os elementos literários estão “prestados”, “cuyo tema y propósito no son basicamente literários.” (p.10). É neste contexto que Reyes emprega o conceito mais conhecido do ensaio hispanoamericano: “este centauro de los géneros, donde hay de todo y cabe todo, propio hijo caprichoso de una cultura que no puede responder ya al orbe circular y cerrado de los antiguos, sino a la curva abierta, al processo en marcha, al etcétera” (Apud SKIRIUS, 1994, p.10). Esta metáfora mitológica do centauro reflete o caráter híbrido do ensaio que constrói o literário a partir do não literário, um misto de lírica e de ciência. 116 Desta forma, levando-se em consideração a divisão da literatura entre três gêneros básicos: a prosa, a poesia e o drama, o ensaio se constituiria em um gênero híbrido em que se mesclariam em maior ou menor grau os demais. Destarte, teríamos um subgênero da prosa, a prosa de não-ficção, que pode assumir traços característicos da poesia, da ficção, assim como efeitos do drama. Sob esta perspectiva, o ensaio não seria um gênero autônomo, visto que sua estrutura não apresenta regras próprias, técnicas formais que orientem o ensaísta. Diante da imprecisão dos limites formais do ensaio, Enrique Anderson Imbert nos oferece a seguinte definição: El ensayo es una composición en prosa, discursiva pero artística por su riqueza de anécdotas y descripciones, lo bastante breve para que podamos leerla de una solo sentada, com un ilimitado registro de temas interpretados en todos los tonos y con entera libertad desde un punto de vista muy personal. (Apud SKIRIUS, 1994, p.12) Também nesta definição pode-se observar que não há uma delimitação precisa que distinga o ensaio inequivocamente dos demais gêneros, menos ainda quando consideramos a in-definição, “leerla de una solo sentada”, de sua extensão. Esta percepção da brevidade tem caráter eminentemente subjetivo, não constituindo um parâmetro razoável. Um traço peculiar do ensaio e particularmente da tradição ensaística latino-americana é que muitos de seus autores escreviam para jornais e/ou revistas da época, como já sublinhamos, o que singulariza a extensão destes ensaios produzidos originalmente para serem publicados em uma ou duas colunas. Por isso, é pertinente observar a relação entre a extensão de cada um dos ensaios de Las venas e o jornalismo. A obra seminal do uruguaio está dividida em ensaios que tratam de temas específicos, a maioria destes tem uma extensão que não ultrapassam três ou quatro páginas, dependendo da edição. Por conta de sua brevidade, poderiam ser publicados em uma ou duas colunas de jornal, possibilitando sua leitura “de una solo sentada”, para usar a expressão de Anderson Imbert. 117 É preciso ressaltar que quando Galeano escreveu a obra, em 1971, era chefe de redação do prestigiado semanário Marcha, de orientação socialista, que serviu de canal para o intercâmbio de ideias entre os mais destacados escritores uruguaios da época como Juan Carlos Onetti, Ángel Rama, Mario Benedetti, Carlos Real de Azúa, Jorge Ruffinelli, Emir Rodríguez Monegal e de convidados especiais como Mario Vargas Llosa, Miguel Ángel Asturias, Roberto Fernández Retamar, Augusto Céspedes, René Zavaleta Mercado e até mesmo Jean-Paul Sartre, entre muitos outros. Assim como Galeano, estes escritores/ensaístas também tinham participação ativa em seus países no meio jornalístico, o que reforça uma vez mais a afinidade entre os dois gêneros. Há muitas influências do jornalismo no ensaio hispano-americano do século XX. Uma das características que se pode observar nitidamente em Las venas é o cuidado com a escolha do título da obra e de cada um de seus ensaios, servindo-lhes como uma epígrafe. Fica evidente o esmero na escolha e o caráter de síntese do tema que será abordado, não como explicação do assunto a ser discutido, mas como uma perspectiva sugerida para sua leitura. Alguns exemplos são emblemáticos: “Ciento veinte millones de niños en el centro de la tormenta”; “Contribuición del oro de Brasil al progreso de Inglaterara”; “Los plantadores de cacao encendían sus cigarros con billetes de quinientos mil reis”; “La economía norteamericana necesita los minerales de América Latina como los pulmones necesitan el aire”. Observamos nestes títulos uma proximidade com as manchetes de jornais. Percebe-se claramente a intenção de captar a atenção do leitor, de convidar à leitura, de seduzi-lo. Conforme ressalta Gómez-Martínez: Juzgado el ensayo como obra literaria, debemos igualmente tener presente que la relación del título con el resto del ensayo es también una relación puramente literaria. [...] El título del ensayo, pues, al igual que en los demás géneros literarios, es un recurso estilístico que el autor emplea consciente de sus efectos artísticos. (1981, p.36) 118 Não resta dúvida de que tais títulos configuram um recurso estilístico e que Galeano o utiliza como meio de aguçar a curiosidade. Assim, uma vez conseguida a atenção do leitor, os artifícios do escritor o levarão a prosseguir na leitura. Um outro objetivo explícito já no título é o desejo de contar com a adesão do leitor à ideia defendida no ensaio, assim, antes mesmo de ter contato com o texto, o leitor já estaria sendo cooptado. Esta atitude persuasiva do ensaio se completa na exposição de ideias ao longo do texto. Comentando sobre a relação entre jornalismo e ensaio, Skirius ressalta que o ensaísta do século XX se propõe a descrever e discutir os problemas contemporâneos, não a resolvê-los, caracterizando estes escritores como cronistas de suas sociedades, mas não redentores. Diferentemente do ocorreu no século XIX, quando os ensaístas hispano-americanos tomavam a dianteira em propor novos paradigmas, assumiam pessoalmente a responsabilidade pela defesa de um caminho que alterasse o status quo. Autores que propunham programas e reformas políticas em suas reflexões. Escritores da envergadura de Domingo Faustino Sarmiento, autor do clássico Facundo, que se tornou a presidente da Argentina; do pensador, político, gramático e legislador venezuelano Andrés Bello; do revolucionário e poeta cubano José Martí entre outros que se destacaram pela coragem de aceitar e assumir o duplo papel de líderes políticos e escritores, conciliando a teoria à prática, pagando o preço da defesa de seus ideais, em alguns casos, com a própria vida. Destacar essa característica da ensaística no século XIX não diminui o valor dos escritores do século posterior, apenas distingue o tipo de atuação destes intelectuais, visto que no século XX os ensaístas se propuseram a desempenhar papéis políticos e acadêmicos como conferencistas, editores e jornalistas. Podemos atribuir a mesma coragem no período da ditadura e logo após sua derrocada, quando os intelectuais lideraram emblemáticas mobilizações sociais em defesa do direito de liberdade de expressão e de atuações no campo político que lhes custaram a vida ou que escaparam da morte graças ao exílio. 119 No final do século XX, entretanto, ainda que estes escritores engajados almejassem produzir obras que transformassem a sociedade, seja no campo do ensaio ou de outros gêneros literários, a realidade que se vivia já não possibilitava vislumbrar na utopia socialista, consubstanciada na Revolução Cubana, apenas para citar a mais festejada pela esquerda latino-americana, a panacéia para todos os problemas que afligiam a América Latina. Skirius aponta como característica peculiar à constituição do ensaio como gênero literário o propósito estético, o que distingue os textos ensaísticos dos demais artigos de jornal que têm o propósito de informar e descrever questões de interesse geral, inscritos na ordem do dia. O ensaio, portanto, é escrito a partir da consciência do autor de seu caráter estético, ou seja, a beleza e o deleite, alcançados por meio de técnicas de escritura tomadas de outros gêneros, como sublinha Gómez-Martínez: Con frecuencia se ha dicho que el ensayo es en prosa lo que el soneto en poesía; pero esta comparación, sin duda muy sugestiva, tiene únicamente valor, y quizás más que nada simbólico, en lo que a la voluntad de estilo se refiere; es decir, la brevedad del ensayo hace que en él se acumulen los recursos estilísticos en un intento de perfección estética. Por lo demás, nada más opuesto a la libertad formal del ensayo, que las estrictas reglas que gobiernan al soneto. (1981, p.36) Mais uma vez se ressalta a flexibilidade estrutural ou formal do ensaio, o que o afasta dos outros gêneros literários, assim, a vontade de estilo, o esmero na forma e não da forma, é também um dos objetivos do texto, sem menosprezar seu conteúdo temático. Devido esta dupla funcionalidade do ensaio, decorre a constituição híbrida do gênero. Como ressaltamos, a hibridez atribuída ao ensaio coloca em jogo a própria ideia de gênero, já que dentro dele cabem tanto fragmentos poéticos como filosóficos ou autobiográficos. Assim, o ensaio configurar-se-ia na fronteira entre os gêneros. Como assinala Skirius, confessar, persuadir, criar arte e informar são os impulsos básicos que orientam o ensaio hispano-americano do século XX. Para ilustrar o caráter informativo, o autor usa a metáfora dos raios X, denotando a objetividade científica que 120 orientou a pesquisa da extensa bibliografia sobre as identidades culturais e os problemas contemporâneos do continente. Entretanto, ressalta o autor, a interpretação, frequentemente, pressupõe valores subjetivos. Também nesta perspectiva podemos inscrever Las venas no gênero ensaio. Galeano trabalha com extensas e variadas fontes como artifício para expressar suas opiniões sobre os temas abordados, como ressalta no posfácio, acrescentado à obra sete anos depois: “Este libro había sido escrito para conversar con la gente. Un autor no especializado se dirigía a un público no especializado, con la intención de divulgar ciertos hechos que la historia oficial, historia contada por los vencedores, esconde o miente.” (p.437) O fato de Galeano acrescentar sete anos mais tarde uma introdução e um posfácio à Las venas, demonstra outra característica do ensaio ressaltada por Montaigne: Por vezes, em um assunto vão e sem valor, procuro ver se ele encontrará com que lhe dar corpo, e com que o apoiar e escorar. Por vezes passeio-o por um assunto nobre e repisado, no qual nada tem a descobrir por si, estando o caminho tão trilhado que ele só pode caminhar sobre as pegadas de outrem. [...] nunca me proponho apresentá-los inteiros. Pois não vejo o todo de coisa alguma; tampouco o veem os que nos prometem mostrá-lo. (MONTAIGNE, 1996, p.50) (Grifo nosso) Nesta perspectiva, a edição aumentada de Las venas pode ser analisada como uma obra aberta, pois discorre sobre sua recepção, oferecendo ao leitor uma auto-analise dentro da própria obra. Galeano não a apresenta como conclusiva. Assim como Montaigne, o ensaísta José Carlos Mariátegui afirmava: “Ninguno de estos ensayos está acabado: no lo estarán mientras yo viva y piense y tenga algo que añadir a lo por mí escrito, vivido y pensado” (1976, p.12). Galeano, leitor aplicado de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, parece ter aplicado sem parcimônia este ensinamento do autor peruano. Portanto, mais que a mera apresentação de provas, como já ressaltara Ortega y Gasset, o ensaio, mesmo fundamentado sobre citações estatísticas, como é o caso da obra de Las venas, constitui-se como um espaço privilegiado da reflexão livre, do afloramento da subjetividade. 121 Na análise de Las venas podemos observar a influência que teve a leitura de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana sobre Galeano, não só na unidade do conteúdo temático, mas, sobretudo, na forma de expressão. O autor peruano na escolha do título vincula o ensaio à interpretação, não deixando margem às especulações sobre o caráter subjetivo de sua escritura. Mariátegui demonstra em sua argumentação o desejo de esboçar uma tentativa, essai em francês, sobre os problemas de sua terra natal, por meio do questionamento da constituição da elite cultural de origem europeia, que gera uma subdivisão e o alijamento das camadas populares descendentes indígenas de seu país. Siete ensayos representa um novo paradigma de análise política, social e cultural, assim como dá visibilidade ao ensaio como modelo de difusão de ideias às literaturas latinoamericanas. Analisemos um excerto do capítulo “El hecho económico en la historia peruana”: Los ensayos de interpretación de la historia de la República que duermen en los anaqueles de nuestras bibliotecas coinciden, generalamente, en su desdén o su ignorancia de la trama económica de toda política. Acusan en nuestra gente una obstinada inclinación a no explicarse la historia peruana sino romántica y novelescamente. En cada episodio, en cada acto, las miradas buscan un protagonista. [...] La pereza mental del criollo se habitúa fácilmente a prescindir del argumento de la historia peruana: se contenta con el conocimiento de sus dramatis personae. [...] La conquista destruyó en el Perú una forma económica y social que nacía espontáneamente de la tierra y de la gente peruana. (MARIÁTEGUI, 1976, p. 58) (Grifos do autor) O autor peruano chama a atenção para predominância de uma visão romântica da história oficial, por desdém ou ignorância, em detrimento de uma análise econômica profunda. Mariátegui destaca o papel negativo da elite política de seu país, que é usada como títere de um sistema de exploração econômica, desde a colonização, em que as camadas populares, constituídas pela população indígena original, são esmagadas. Coadunando a leitura de mundo proposta em Siete ensayos, Galeano afirma na introdução: Los fantasmas de todas las revoluciones estranguladas o traicionadas a lo largo de la torturada historia latinoamericana se asoman en las nuevas experiencias, así como los tiempos presentes habían sido presentidos y engendrados por las contradicciones del pasado. La historia es un profeta con la mirada vuelta hacia atrás: por lo que fue, y contra lo que fue, anuncia lo que será. Por eso en este libro, que quiere ofrecer una historia del saqueo y a la vez contar cómo funcionan 122 los mecanismos actuales del despojo [...] También los héroes derrotados y las revoluciones de nuestros días, las infamias y las esperanzas muertas y resurrectas: los sacrificios fecundos. (Galeano, 1991, p. 11-2) (Grifo nosso) Os dois autores desejam chamar a atenção para o passado colonial perverso, ocultado na versão oficial, oferecendo uma história alternativa de interpretação da realidade latinoamericana. Diferente de um historiador, Galeano subjetivamente reavalia, interpreta as informações e fontes a partir de sua perspectiva. Como afirma Gómez-Martínez: “El valor del ensayo no depende del número de datos que aporte, sino del poder de las intuiciones que se vislumbren y de las sugerencias capaces de despertar en el lector.” (1981, p 15.). E é justamente essa a intenção de Galeano, incitar no leitor o questionamento, buscar a identificação com seus pontos de vista. A subjetividade é a força motriz do ensaio. Essa visão do ensaio como uma forma de expressão do pensamento vale tanto para quem escreve como para quem lê. É nesse contexto que se insere literatura de Galeano, pois encontra no ensaio uma forma de expressão de seu pensamento, de suas vivências. Não busca convencer no sentido científico do termo, com a demonstração factual de seus argumentos. É um exercício de reflexão em forma escrita. Dialeticamente ponderamos, somos o que nos fizeram acreditar que éramos. Somos produto dos discursos que nos foram repetidos exaustivamente. Nossa identidade histórica é construída paulatinamente, desde a cultura oral que recebemos em casa até os discursos oficiais propagados institucionalmente. Como afirma Benveniste em seu artigo Da subjetividade na linguagem, só se pode dizer que “é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito, uma vez que, na verdade, só a linguagem funda, na sua realidade, que é a do ser, o conceito de ego.” (BENVENISTE, 1991, p.288). Cônscios do papel imprescindível da linguagem na distribuição do capital simbólico, tanto Mariátegui como Galeano usam suas experiências jornalísticas para configurar formalmente um ensaio que aproxime o texto do leitor. 123 Além das afinidades temáticas e ideológicas, entre Siete ensayos e Las venas, ressaltamos que a configuração da estrutura formal de ambas se baseia em extensa pesquisa estatística e dão ênfase à questão sócio-econômica sob uma perspectiva marxista. A primeira se limita ao país do autor, o que se explicita desde o título, e apresenta uma curta extensão, reforçando o caráter não-conclusivo do ensaio. Na obra de Galeano, seja por sua extensão ou pelo título abarcador, observa-se um projeto mais globalizante, que compreende todo o continente, inclusive a de colonização lusitana. Os temas abordados nas obras demonstram a coincidência de pensamento: preocupações com os assuntos econômicos, sociais, históricos, culturais. Como proposta de transformação, apresentam o mito da revolução social, que têm o propósito de dar a conhecer a trama oculta das realidades peruana e latino-americana, respectivamente. Sua mensagem: é a consciência que levará a mudança. Parece-nos importante destacar a biografia de Mariátegui, não só pelas coincidências que apontam sua literatura como uma referência formal e ideológica para Galeano, mas, sobretudo, para ressaltarmos fragmentos de sua vida que o tornaram forte para suportar as debilidades impostas pela frágil saúde, assim como sua corajosa atuação na cultura de um dos países mais pobres da América Latina. José Carlos Mariátegui la Chira20 (1894-1930) nasceu em Moquegua, Peru. Ainda na infância sofreu um acidente que lhe tirou o movimento de sua perna esquerda. Para ajudar no sustento da família, que foi abandonada pelo pai, começou aos 14 anos a trabalhar no jornal La Prensa como ajudante nas oficinas. Em 1911, seu desejo de incorporar-se ao grupo de redatores lhe motivou a publicar sem autorização um artigo. Em 1914, começou a escrever regularmente como redator com o pseudônimo de Juan Croniqueur. Fundou o jornal La noche em oposição ao diário governista El dia. Em 1918, fundou a revista Nuestra época, que só teve dois números. Foi fechada devido à publicação de um artigo antimilitarista que motivou 20 Cf. PERICAS, Luiz Bernardo. José Carlos Mariátegui e o Brasil. Estudos avançados. São Paulo, v. 24, n. 68, 2010. www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142010000100023&lng=en&nrm=iso>. Consultado em 05 de julho de 2010. 124 um ataque a um grupo de oficiais. No ano seguinte, fundou o jornal La Razón, em colaboração com César Falcón. Devido à opressão do governo, em 1919 teve que viajar à Europa, onde teve contato com as correntes revolucionárias de pensamento, arte e literatura. Nesta época, aderiu ao marxismo, que seria a bússola norteadora de seu pensamento e seus escritos. Regressa ao Peru 1923. Com o agravamento da doença da infância, amputaram-lhe a perna, mas seguiu ativo em pensamento e ação. Fundou a revista Amauta (1926-1930), considerada a mais importante e paradigmática do Peru no século XX, contribuindo com suas crônicas jornalísticas, contos e poemas. Amauta serviu para a difusão dos princípios marxistas e como veículo expressivo da literatura de vanguarda. Em suas páginas foram publicados importantes trabalhos da nova geração intelectual, política, artística e literária da Europa. Também foi a expressão das duas tendências mais importantes do Peru dos anos 20: o indigenismo e a vanguarda. Em junho de 1927, a revista foi fechada por suposta existência de um levante comunista para derrubar o governo. No ano seguinte, depois do incidente, a direção de Amauta se autodefine como socialista e, semanas depois, é fundado o Partido Socialista Peruano. Ainda em 1928, é publicado Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Poucos anos depois Mariátegui sucumbiria a sua doença, falecendo precocemente aos 35 anos de idade. As coincidências entre Mariátegui e Galeano são bastante significativas. Iniciam sua carreira trabalhando em jornais ainda na adolescência, usam um pseudônimo, tornam-se redatores, fundam as revistas de cultura mais importantes em seus países, são obrigados a sair do país e se exilam na Europa, onde têm contato com a efervescência cultural do velho continente. Mariátegui funda o Partido Socialista no Peru e Galeano participa da Juventude Socialista. O autor uruguaio deixa claro em Las venas sua adesão ao marxismo e cita Siete ensayos, demonstrando sua influência: José Carlos Mariátegui había observado que el capitalismo extranjero [...] tendía a apoderarse de los cultivos de exportación de Perú, a través de la ejecución de 125 hipotecas de los terratenientes endeudados. [...] Cuando el gobierno nacionalista del general Velasco Alvarado llegó al poder en 1968 [...] el ingreso per capita de la población era quince veces menor que el de los Estados Unidos y el consumo de calorías aparecía entre los más bajos del mundo, pero la producción de algodón seguía, como la del azúcar, regida por los criterios ajenos a Perú que había denunciado Mariátegui. (GALEANO, 1991, p. 80) Galeano analisa as razões do subdesenvolvimento latino-americano pelo mesmo viés defendido por Mariátegui 28 anos antes. Ambos os autores escrevem críticos sobre a evolução da economia, sublinhando a influência negativa do capitalismo estrangeiro. Galeano faz um estudo diacrônico, desde a chegada dos colonizadores até 1970, enquanto Mariátegui observa a condição de exploração econômica dos índios em seu país na época, ressaltando a discriminação social a que eram submetidos. Outro tema que tangencia as obras é a questão agrária e o direito indígena sobre a terra, vinculando a baixa produtividade de alimentos à ganância do mercado exportador. No contexto peruano, sob um enfoque marxista, Mariátegui problematiza a educação pública; o papel da religião; o regionalismo frente ao centralismo; a literatura nacional. As mesmas preocupações são alvo da reflexão de Galeano, contudo, seu foco é mais amplo, continental, e, até pela extensão de Las venas, sua pesquisa é mais abrangente. Ainda sobre a questão indígena e a configuração da identidade do continente, tanto Mariátegui como Galeano estavam de acordo com a corrente ensaística latino-americana que refutavam a visão positivista europeia de finais do século XIX, baseada no racionalismo científico de forte conteúdo racista. Em consonância com o que já defendia o uruguaio José Enrique Rodó (1871-1917) em Ariel (1900), repudiavam a cópia de modelos estrangeiros, seja dos colonizadores ou dos norte-americanos, exaltando a cultura autóctone. Da mesma forma, defendiam os valores da mestiçagem e de assimilação de outras culturas, como já o fizera, o mexicano José Vasconcelos (1882-1959) em La raza cósmica (1925). Com esta postura, propunham a subversão do paradigma indígena em voga, a visão 126 negativa dos índios como atrasados, incitavam à implementação de reformas sociais que levassem em consideração os direitos dos primeiros habitantes do continente. Mariátegui defendia um modelo marxista que desse primazia à questão indígena na sociedade peruana, visto que seu país fora o berço de uma das civilizações mais desenvolvidas do denominado período pré-colombiano, para isso recorre aos mitos de um passado utópico da sociedade Inca. Esse passado áureo idealizado servia para contrastar com a precariedade que vivia a população indígena na atualidade, em consequência da dominação colonial espanhola, o que servia de metáfora de regresso ao paraíso perdido. Também Galeano tinha na recuperação de lendas e mitos indígenas um manancial argumentativo para defender sua tese de desagregação da utópica harmonia das sociedades pré-coloniais. Assim, por meio da recriação idílica do paraíso, o autor uruguaio reforçava a crítica ao modelo colonial de antanho e imperialista norte-americano de então. Neste contexto, a experiência socialista de Cuba emerge como proposta de transformação social, assim como resposta a onda antidemocrática que se espalhava na América Latina. Este engajamento claramente observável no ensaio hispano-americano constitui também uma das características do gênero. Skirius afirma que na América hispânica o ensaio está “definido mucho más en función del contenido que de la forma.” (SKIRIUS, 1994, p.19). Para sustentar que este engajamento vai além das fronteiras do ensaio, cita Germán Arciniega: “el problema de nuestra América es singularísimo, y ofrece un campo de estudio que literalmente solo cabe en el ensayo. [...] Ahí hasta las novelas se vuelven ensayos. Y la historia. Y el teatro.” (Apud SKIRIUS, 1994, p.19). A definição do ensaio hispano-americano em função do conteúdo tem sido encarada como uma de suas características mais sobressalentes. Para tentar explicar a escassez de ensaios dedicados à teoria ou filosofia na América hispânica, vinculando seu conteúdo ao contexto sócio-histórico e cultural, Arciniegas afirma: “El ensayo no es un divertimiento 127 literario, sino una reflexión obligada a los problemas que cada época nos impone. Esos problemas nos desafían en términos más vivos que a ningún otro pueblo del mundo.” (1993, p.333). Sob esta perspectiva, a identidade entre o ensaio e a conjuntura do continente são inerentes. A recorrência temática no ensaio hispano-americano, somado à dificuldade de sua classificação como gênero autônomo, têm-se refletido numa fortuna crítica escassa, como no caso de Las venas, que mereceu mais destaque no campo das ciências políticas e econômicas que dos estudos literários. Comparando as obras que se constituíram como gênese do ensaio moderno, Montaigne e Bacon, com a ensaística hispano-americana, comprovamos que entre os europeus a temática abordada é extremamente heterogênea. Entretanto, no ensaio hispano-americano pode-se observar uma reiterada reflexão sobre questões de identidade do continente e sobre a realidade nacional. Em sua Breve historia del ensayo hispanoamericano, José Miguel Oviedo destaca que, desde seu nascimento, o ensaio teve papel crucial para o estabelecimento da identidade hispano-americana, assim como seu contraponto frente à Europa e Estados Unidos. (1990, p.23) Há autores como Leopoldo Zea (1976) que veem no ensaio hispano-americano a influência dos textos de intelectuais espanhóis da Geração de 1898, como Unamuno, o escritor mais destacado deste período. Esta linha de raciocínio leva em consideração a consciência crítica sobre a configuração da identidade espanhola que norteou sua ensaística no século XIX. No caso hispano-americano, além da influência ibérica nos questionamentos sobre a identidade, somavam-se as questões de miscigenação étnica do continente. Analisando-se cronologicamente, o florescimento do ensaio hispano-americano terá seu zênite no final do século XIX e durante a centúria posterior, desempenhando um papel destacado no desenvolvimento do pensamento cultural latino-americano. 128 Para explicar a diferença entre as temáticas do ensaio inglês e francês frente ao hispano-americano José Luis Gómez-Martínez defende que ensaio europeu se desenvolve independente das circunstancias históricas, porque seus autores são oriundos de países “cultivados”, diferentemente da Espanha que vivia tempos de crise pela perda das colônias em 1898; e da América Latina que se emancipava dos laços europeus e tomava consciência de si mesma. Ratificando esta interpretação, Oviedo (1990, p. 21) reforça a ideia de que existe uma funcionalidade por trás da temática reiterada nos ensaios hispano-americanos, elaborados com uma explícita intenção política, visando transformar a realidade em que se encontrava a América Latina naquela época. Teorizando sobre a configuração temática diacrônica do ensaio na América hispânica, parece-nos possível depreender que sua evolução seguiu caminhos diferentes de seu precursor inglês, adotando uma postura de interpretação sócio-política. Sob este ponto de vista, é possível reconhecer dois tipos de ensaio: um modelo europeu (britânico-francês) dos séculos XVI a XVIII de temática variada; e um modelo hispano-americano centrado na própria identidade, com marcada função política, nos séculos XIX e XX. Como já se ressaltou, a ensaística hispano-americana tradicionalmente aborda problemas e realidades contemporâneas a seus autores. Ao tratarmos da classificação de Las venas como um ensaio, impõe-se a variedade de assuntos desenvolvidos, ainda que todos eles guardem uma unidade temática que caracteriza a obra como um todo, a saber, as transformações sócio-econômicas e culturais impostas desde a chegada dos colonizadores. Galeano, seguindo os passos de Mariátegui, retoma questões relativas à devastação do meio ambiente às mãos dos espanhóis, assim como compara a anterior condição de fartura e desenvolvimento dos povos indígenas, a despeito do que afirmavam colonizadores sobre sua condição de atraso técnico: En la costa del Pacífico los españoles destruyeron o dejaron extinguir los enormes cultivos de maíz, yuca, frijoles, pallares, maní, papa dulce; el desierto 129 devoró rápidamente grandes extensiones de tierra que habían recibido vida de la red incaica de irrigación. Cuatro siglos y medio después de la conquista sólo quedan rocas y matorrales en el lugar de la mayoría de los caminos que unían el imperio. [...] que no conocía la rueda, el caballo ni el hierro, merced a la prodigiosa organización y a la perfección técnica lograda a través de una sabía división del trabajo, pero también gracias a la fuerza religiosa que. regía la relación del hombre con la tierra que era sagrada y estaba, por lo tanto, siempre viva. (GALEANO, 1991, p.67) É preciso ressaltar que, sob este enfoque, analisa-se apenas o ensaio hispanoamericano quanto à funcionalidade de seu conteúdo, porque no que se refere às demais características do ensaio, a saber, a subjetividade, a individualidade, a vontade de estilo, a expressividade, para citar algumas, tanto o ensaio europeu como o hispano-americano seguem o modelo montaigniano. Esta generalização evoca o caráter argumentativo do gênero ensaístico, como sublinha Arenas Cruz, e conforme foi abordado, não pode ser o único parâmetro para que se possa pensar o ensaio como um gênero autônomo. A constituição dos gêneros literários é fruto da delimitação de características específicas que os conformam. Portanto, a interpretação que propõe Skirius parte do pressuposto de que o ensaio é um tipo de texto que serve como fonte de comunicação ou de informação sobre uma situação social ou sobre a expressão peculiar de uma ideologia do autor. Entretanto, esta perspectiva tão abarcadora de liberdade compositiva, sem uma determinação formal, em vez de facilitar a delimitação do ensaio, gerou a fugidia definição de inclassificável, conforme assinalou Gómez Baquero: “un cajón de sastre donde entra todo lo que no tiene clasificación en otra parte”. (Apud ARENAS CRUZ, 1997, p. 17) A falta de consenso sobre a própria delimitação e configuração de ensaio como gênero literário também se reflete nas diferentes teses sobre a origem do ensaio na América Latina. Enquanto Germán Arciniegas (1993) sustenta que tanto Bartolomé de Las Casas como Simón Bolívar foram ensaístas e que ainda nas crônicas coloniais já se podia encontrar o berço do ensaio hispano-americano moderno. Para o professor e crítico literário peruano José Miguel Oviedo (1990), pode-se afirmar que o ensaio constituiu o primeiro gênero da literatura 130 propriamente americana, entretanto deve-se situá-lo no século XIX, intimamente relacionado às lutas no continente pela independência. Apesar da discussão, muitas vezes acalorada, sobre a data de inauguração do gênero em terras americanas, a maioria dos estudiosos do ensaio hispano-americano coincide em incluir os nomes de Andrés Bello, Domingo Faustino Sarmiento, José Martí, José Montalvo e Eugenio María Hostos entre os fundadores do gênero no continente. Dentre as características peculiares ao ensaio hispano-americano, talvez a mais sobressalente seja sua recorrência temática. Uma breve revisão dos estudos críticos sobre a ensaística do continente indica que a motivação para tais estudos foi o interesse, fundamentalmente, na ideologia e na história do pensamento, privilegiando o conteúdo, ainda que não descuidasse da forma. Para exemplificar, podemos citar a antologia El ensayo en Hispanoamérica (Vázquez, 1972), em que se constata uma expressiva recorrência temática. A obra procura oferecer uma visão panorâmica da evolução do gênero por meio de 38 ensaios, dos quais apenas três não abordam aspectos relacionados ao questionamento sobre a origem dos problemas nacionais ou americanos. Analisando a citada compilação proposta por John Skirius, El ensayo hispanoamericano en el siglo XX, podemos advertir, apenas pela leitura do índice, que o autor usou como um dos critérios para sua seleção o conteúdo temático, assim como fizera Alberto Vasquez. Nos textos selecionados pelo estudioso norte-americano fica explícita a escolha de autores cujos ensaios tratam da temática relacionada às reflexões acerca da identidade hispano-americana, inauguradas no final do século XIX. Ainda que a obra se proponha a apresentar uma compilação de ensaios do século XX, o que se observa são textos cronologicamente marcados no século anterior, momento definidor do ensaio hispanoamericano como modo de pensar as nações e o continente. 131 Na compilação de Skirius configura-se um rol de ensaístas dentre os quais uma parcela pode ser considerada canônica na literatura hispano-americana, que poderia inquestionavelmente figurar em antologias não dedicadas ao gênero ensaio. Entre os trinta e dois autores ali contemplados, apenas duas figuras femininas são lembradas, a chilena Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de literatura em 1945, e a francesa nacionalizada mexicana Elena Poniatowska. Integram a lista onze escritores que nasceram no século XIX e doze nos primeiros 15 anos do século XX, o que perfaz 26 escritores ligados cronologicamente à questões suscitadas no limiar entre os século XIX e XX, momento histórico extremamente rico para a produção ensaística direcionada para as questões de independência dos países hispano-americanos e a configuração de identidade e sentidos da nação. Estes temas ligados à identidade será um paradigma que percorrerá a produção ensaística do continente ao longo do século que se inaugura. Portanto, pode-se supor que a escolha dos autores obedeceu a uma opção pelos temas tratados, mas não ignorou a vontade de estilo, a estética verbal por trás da mensagem inquietante. Antes de oferecer os textos selecionados de cada autor, Skirius nos apresenta uma breve biografia de cada ensaísta. Estes textos introdutórios servem ao leitor como uma contextualização da obra, assim como a relação do ensaísta com outros textos ali copilados. A presença de poetas poderia parecer exógena a uma obra dedicada ao ensaio, cuja característica mais contundente é a prosa, daí a falta de seguidores da estética ensaísta em verso cultivada por Alexander Pope. Entretanto, o autor escolhido para abrir antologia é o poeta nicaraguense Rubén Darío, a escolha de um ensaio intitulado José Martí é emblemático, pois uma vez mais se conjuga forma e conteúdo, num texto em que se exaltam os ideais do literato e revolucionário cubano. Como afirma Skirius: “El reconocimiento del nombre de Rubén Darío como gran poeta nicaragüense y como escritor de verso y prosa modernistas no asegura la lectura de sus ensayos.” (p.49). Outros autores são também muito mais conhecidos 132 por obras poéticas ou ficcionais que lhes tornaram célebres que por seus ensaios, como é o caso dos chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges e o colombiano Gabriel García Márquez, para citar apenas alguns dos autores compilados. A obra também faz jus aos grandes fundadores do ensaio na América hispânica como José Enrique Rodó, José Vasconcelos, José Carlos Mariátegui, além de nomes consagrados como Mario Vargas Llosa, Alejo Carpentier, Alfonso Reyes e Carlos Monsiváis, para citar alguns. Skirius seleciona autores que fizeram de sua obra ensaística um meio de discussão sobre temas ligados aos problemas nacionais e à configuração de identidades. Nesta perspectiva, parece-nos que Eduardo Galeano poderia figurar na compilação, até porque grande parte dos escritores ali representados tem um importante papel intelectual na cultura hispano-americana, assim como representam o campo literário da esquerda marxista em seus respectivos países. Entendemos a ausência de Galeano como uma opção metodológica, visto que, ao analisarmos uma antologia, devemos considerar a subjetividade de seu organizador como uma das variantes que orientaram sua seleção. Skirius, mais que um estudioso da ensaística hispano-americana, é um investigador incisivo da relação entre história, política e literatura no continente. O interesse do autor por esta particularidade dos ensaístas latino-americanos pode ser observado nos textos introdutórios dos ensaios apresentados, o que poderia também explicar outras ausências. Ademais, uma compilação tem suas limitações inerentes como a de espaço. A edição de 1994, publicada no México, ultrapassa as 600 páginas, o que também demonstra a aspiração do compilador em abarcar a maior quantidade possível de ensaios que sejam representativos deste período. Como sublinhamos, figuras destacadas da história política e literária empunharam suas penas na defesa da independência dos estados nacionais e na constituição de uma 133 identidade histórica21 latino-americana. Sob esta perspectiva, muitos escritores hispanoamericanos buscaram por meio de suas obras traçarem um percurso histórico alternativo que demonstrasse que era possível reconstruir a identidade hispano-americana. Tendo em vista que a reconstituição de identidades depende de sistemas de representação simbólica, tais autores propuseram o reconhecimento de novos traços que poderiam conformar uma nova identidade do continente. O caminho escolhido para essa reconstrução social foi o processo dialético entre a exterioridade e a interioridade dos sujeitos, veiculado nas obras ensaísticas. O que se propunha era remodelar as consciências individuais por meio de uma interação constante entre as estruturas institucionais socialmente estabelecidas: É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. (HALL, 2000, p.109). Sob este ponto de vista, o ensaísmo na América Latina cumpria o papel destas “formações discursivas específicas”. Por meio do discurso, buscavam constituir uma nova identidade para o continente. Partícipe deste campo literário, Galeano propunha o revisionismo histórico como forma de valorização da cultura autóctone, em detrimento da cultura estrangeira, expondo as condições de exploração e apagamento das raízes culturais dos nativos do continente. Segundo o americanista colombiano Germán Arciniegas (1993), a lista de escritores latino-americanos que encontraram no ensaio sua forma de expressão e de ação pode ser contabilizada desde o tempo da chegada dos espanhóis em 1492, o que demonstra o atrelamento do processo de definição das identidades ao poder de construção das 21 Utilizamos o conceito de identidade histórica como uma construção social que se modifica ao longo da história devido a disputas de poder e reconstruções simbólicas. In: MENDES, Gláucia da Silva. A (re)construção da identidade latino-americana no jornal O Globo: a naturalização do atraso. Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008. 134 representações sociais. Por isso, como sublinhou Hall, estes autores buscavam configurar “no interior de formações discursivas específicas” outro modelo de identidade para o continente. Nesta perspectiva, a tradição ensaística no continente nasce junto com a chegada dos colonizadores. Variadas histórias da literatura hispano-americana, como a da Professora Bella Jozef (2005), apresentam as crônicas coloniais, escritas na ou sobre a América, como os primeiros exemplos da literatura do novo continente, incluindo as cartas de Colombo e as crônicas coloniais, por seu valor histórico. Sob este ponto de vista, é importante frisar a distinção que faz Anderson Imbert em História de La Literatura Hispanoamericana. Dentro da própria ideia de literatura que se defende na publicação, há uma ressalva categorizadora: Claro está que, en los primeros capítulos, hemos tenido que admitir a muchos hombres de acción o de pensamiento que escribieron crónicas y tratados sin intensiones artísticas(sin embargo, aun en esos casos, la cuota literaria de sus escritos es lo que apreciamos). [...] cuando llegamos a nuestro tiempo, sólo nos interesan los escritores que cultivan la poesía, el poema en prosa, el cuento, la novela, el teatro ... A los ensayistas sólo los consideramos en tanto hombres de letras. (ANDERSON IMBERT, 2000, p. 8.) (Grifos nossos) Sob esta perspectiva, os ensaístas não seriam literatos, apenas homens de letras, ou seja, intelectuais. No seu entender, quando a língua espanhola já conta com uma produção eminentemente “artística”, não se deve considerar o ensaio como parte da literatura. Neste contexto, a tradição ensaística será valorizada ou alijada do cânone literário conforme a visão de literatura que tem o autor da obra. Em outro extremo, Alejandro de Losada defende uma noção de literatura mais abarcadora, como “un conjunto con cierta unidad intrínseca y con referencia esencial a su sociedad.” (1976, Prólogo). E acrescenta: [...] las formas literarias son, en primer lugar, objetivación e institucionalización de formas de consciencia y de existencia social. No sólo son “creaciones” artísticas o lingüísticas sino, sobre todo, un modo de establecer, al nivel de la consciencia, relaciones entre los hombres. (LOSADA, 1976, p.173) 135 Losada leva em consideração não apenas o trabalho artístico sobre a linguagem, mas “sobre todo” a expressão que possibilita a afinidade entre os homens. Apesar das visões díspares sobre o conceito de literatura, o que se reflete na falta de consenso sobre a inserção da ensaística no cânone literário, há ensaístas incontestes que compõem com brilhantismo o panteão da literatura latino-americana. Analisamos a produção ensaística do continente, é possível encontrar nas obras um amálgama histórico, que se configura numa afinidade ideológica e uma confluência de estilos, permeada por uma preocupação temática, que se revela na busca da construção de uma identidade coletiva, formada pelos vínculos de várias matrizes étnicas e culturais. Assim, mais que um conjunto de textos que pertencem a épocas e autores diversos, identificamos nestes ensaios um sistema de representações que constituem um discurso sobre a América Latina. Essa unidade, ainda que relativa, pode ser percebida desde o final do século XIX até a segunda metade do XX, quando se observa uma quase homogeneização político-cultural no continente. O crítico uruguaio Ángel Rama formulou teorias literárias integradoras nas quais deu ênfase às intervenções de impérios estrangeiros na América Latina. Para Rama, esta grande vocação “fue un útil instrumento de afirmación independiente y soberana, y de lucha contra las intromisiones foráneas y de resguardo de la especificidad cultural latinoamericano.” (RAMA apud PALAVERSICH, 1995, p.81). Para o crítico uruguaio, vincular as afinidades culturais, construídas historicamente pelos países latino-americanos, era o que motivava seus autores a defender uma ideia comum por meio da literatura. Rama entendia a literatura como um elemento integrante da cultura e não um mero objeto artístico, independente do sistema cultural das civilizações. Pode-se notar no discurso do crítico um viés ideológico, uma característica peculiar aos escritores hispano-americanos da época. Não é possível apagar as marcas da opressão sofrida pelos povos latino-americanos da memória coletiva, desde a colonização até a culminação das ditaduras militares, sob o 136 patrocínio norte-americano. Em ambos os casos, como afirmara Rama, há um espírito de luta contra as intromissões estrangeiras. A maneira que encontram os ensaístas para preservar a memória é fazer de sua arte um instrumento de recordatório e conscientização. Apesar de generalizante, nesta afirmação está embutida a ideia de que a conversão do escritor em guardião da herança cultural e intérprete da situação política é produto de uma particular conjuntura latino-americana, na qual o compromisso político é parte indelével de seus intelectuais: También así entendió el pueblo de la diáspora, esperando de los escritores un mensaje que recogiera la tradición más rica y la actualizara en las nuevas circunstancias, lo que habría de traducirse en uma intensificación ideológica que es propia de los mensajes literarios. Más que simples creaciones artísticas, el escritor y ese medio afín sintieron la necesidad de uma producción que al tiempo de restaurar los valores de la cultura originaria, destacara sus problemas más urgentes, sus reclamaciones, sus protestas ... Es ese el momento en que irrumpe la literatura a modo de descarga y de intento de reflexión. Y esta irrupción no responde caprichosa y oportunistamente a un proyecto del escritor, sino a un gran reclamo por parte del público [...]. (RAMA apud PALAVERSICH, 1995, p.25). (Grifo nosso). O crítico uruguaio entende que a intensificação da mensagem ideológica “es propia de los mensajes literarios” e que atendem a uma demanda, uma expectativa, de um público que exige que o escritor seja um orientador. Os estudos de Rama sobre as narrativas latinoamericanas transcendem às obras literárias, avaliando-as como parte de um processo histórico-cultural. Observando sob esse ponto de vista, os escritores não são apenas sujeitos históricos, mas também grupos de intelectuais engajados na promoção da cultura interna das sociedades. Por essa razão, o crítico trabalha sob a visão de “cultura militante” que seria uma atitude consciente e também política dos escritores de elaborar projetos culturais que orientassem um caminho a percorrer. No que diz respeito à unidade temática que se observa na ensaística hispanoamericana, não se pode deixar de notar que as vozes dos artistas do continente, muitas vezes silenciadas de forma violenta, sempre ousaram, denunciando a censura a que foram 137 submetidos. Este sentimento coletivo imbuiu o espírito de escritores que fizeram da literatura uma forma de desvelar uma suposta versão ocultada pelo discurso oficial. Portanto, é possível compreender a práxis do ensaio na América Latina como um processo de criação artística que também, mesmo que não seja seu fim exclusivo, pode interpretar as realidades socioeconômicas. Sob esta perspectiva, o ensaio é, como toda literatura, uma expressão artística que emana do homem, portanto, não pode abster-se de refleti-lo e a seu entorno, seu contexto histórico. Coadunando este entendimento, no ensaio Alrededores de la literatura hispanoamericana, o mexicano Octavio Paz apresenta uma reflexão sobre a nacionalidade das literaturas que têm sua gênese atrelada ao processo histórico-cultural: La literatura es un conjunto de obras, autores y lectores: una sociedad dentro de la sociedad. Hay excelentes poetas y novelistas colombianos, nicaragüenses y venezolanos pero no hay una literatura colombiana, nicaragüense o venezolana. Todas esas literaturas son inteligibles solamente como partes de la literatura hispanoamericana. (PAZ, 1981. p. 25). Para o ensaísta mexicano, somente é possível compreender a literatura hispanoamericana a partir das relações intrínsecas que se estabelecem entre as noções de literatura nacional, regional e continental. Esse entendimento relaciona o processo de formação da América Latina à construção de sua literatura, conforme ressalta a pesquisadora chilena Ana Pizarro, “la necesidad de observar el proceso de la literatura latinoamericana como parte integrante del proceso social en América Latina.” (1987, p.192). Essa relação entre literatura e história reflete-se em sua articulação do campo literário na qual podemos observar na literatura do continente o viés de compromisso social. Estas reflexões sobre história e literatura são imprescindíveis quando nos propomos a analisar Las venas. A literatura de Galeano nos remete além das fronteiras nacionais do Uruguai e da própria América hispânica, sua temática é ainda mais ambiciosa, pretende 138 escrever um ensaio que retome questões já debatidas e estudadas, para oferecer seu próprio ponto de vista ou apenas dar prosseguimento à discussão sobre a América Latina. Até a publicação de Las venas abiertas de América Latina, Eduardo Galeano era apenas mais um jornalista utópico, sem maior expressão na vida intelectual ou literária, mesmo em seu país. Após a publicação, ganha projeção internacional e desponta como uma das vozes mais influentes da esquerda no cenário latino-americano. Toda esta celebração, entretanto, não se reflete na esfera acadêmico-literária, visto que a obra figura como um referencial teórico em múltiplas áreas do conhecimento como geografia, economia, sociologia, antropologia, história. Entretanto, este êxito editorial não se reflete no campo da investigação literária. Não se encontram muitas teses, dissertações e artigos científicos que tenham a obra de Galeano como objeto. O que não significa que não haja centenas de resenhas e artigos que, quase invariavelmente, limitam-se à descrição do enredo, sem uma análise criteriosa. Acreditamos que seja necessário aprofundar os estudos literários sobre a profícua verve literária de Galeano, considerando seu aporte na reabilitação da tradição ensaística, iniciada no final do século XIX, desenvolvida pelos intelectuais que encontraram neste gênero um meio de externar um discurso engajado que configura uma das características mais incisivas do ensaio no continente. Eduardo Galeano é um escritor que tem assentado em sua obra ensaística a defesa intelectual de suas posições ideológicas. Ainda que o uruguaio tenha uma produção literária variada, na qual podemos encontrar contos, poesia, romances, quando buscamos uma denominação tanto para o autor quanto para sua obra, não é difícil encontramos uma definição abarcadora e generalista. Desde o prefácio de Las venas, Galeano demonstra o anseio de recuperação/reconstrução da identidade histórica latino-americana. Para realizar seu objetivo, 139 estabelece relações e interpretações de fontes oficiais e involuntárias que fizeram parte da construção desta memória, da cultura da qual ele próprio faz parte. Portanto, é através do próprio discurso que o autor tenta angariar a adesão de seus leitores. Os estudos históricos recentes sobre a identidade nacional a definem como uma ‘construção’ consciente e orientada, realizada por meio da orquestração de relatos históricos. A essas construções simbólicas, o historiador Eric Hobsbawn denomina tradição: [...] um conjunto de práticas reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado [...]. (1997, p. 9). Na visão do historiador, tais práticas são contextuais e reguladas por grupos sociais interessados na reiteração de valores e normas de comportamento, elaborados no tempo e no espaço. Portanto, as tradições são orientadas e inventadas pelos grupos hegemônicos que constituem a história. Explicitamente, Galeano busca refutar os valores incutidos pela repetição de tradições inventadas nos discursos oficiais, propondo uma nova forma de compreensão do passado que enseje a transformação da realidade presente. Essas tradições se configuram por meio da enunciação, entendida aqui, na acepção de Landowski, como “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e torna o próprio enunciado “o objeto cujo sentido faz ser o sujeito.” (1992, p.22). Ou seja, há uma identidade semiótica entre quem enuncia o que se enuncia, logo, o sentido do texto está sempre comprometido com o ponto de vista do enunciador. Como esse enunciador que “inventa a tradição” são grupos sociais que estão no poder, cada indivíduo insere-se numa representação modelo de sociedade, desempenhando o papel que lhe coube nesta engrenagem. Jornalista experiente, Galeano sabe que os referenciais de construção e fixação da identidade, antes relacionados às artes e à cultura popular, passaram a ser definidos fundamentalmente no discurso midiático, responsável por atingir boa parte da população. Por 140 isso, a análise do modo como as identidades são construídas hoje leva em consideração os conteúdos midiáticos. Como as construções identitárias são regidas por relações de poder, um importante aspecto que deve ser levado em conta na obra do autor uruguaio são os reflexos de sua formação jornalística na conformação de sua obra literária. O fato de Galeano escrever Las venas no gênero ensaístico tem a ver com sua peculiar estrutura, por estar em sintonia direta com o leitor, pois se inscreve como gênero textual que se baseia na interação, no diálogo com o interlocutor. O próprio o autor assume ironicamente que escreveu a obra de forma “sacrílega” para distanciar-se do discurso hermético dos historiadores profissionais. Em função do gênero ensaio, pôde expressar opiniões pessoais sobre temas já exaustivamente debatidos, sem que precisasse ser categórico ou conclusivo. Las venas é a culminação narrativa de todo um trabalho de pesquisa sobre o passado e o presente do continente, levado a cabo por Galeano durante anos, conforme atestam seus artigos publicados em jornais e em crônicas como Guatemala, clave de Latinoamérica (1967) e Crónicas latinoamericanas (1968). Ao apelar para o referente histórico como base de proposição de uma antítese, Galeano atribui uma urgência à revisão da história oficial, retomando célebres ensaístas como seu compatriota José Enrique Rodó, que opunha a América Latina à do Norte; o nicaraguense Rubén Darío, que concebia o continente como uma comunidade latino-americana criada em virtude de sua história comum; e do grande arquiteto da independência cubana José Martí, que propunha em Nuestra América: [...] el deber urgente de nuestra América es enseñarse como es, una en alma e intento, vencedora veloz del pasado sofocante, manchada sólo con la sangre de abono que arranca a las manos de la pelea con las ruinas y la de las venas que nos dejaron picadas nuestros dueños.” (MARTÍ, 1968, p. 251). (Grifo nosso). Desde jovem, partidário da ideologia socialista, Galeano retoma o ideal do poeta cubano de constituição utópica de uma América unida. Coincidindo, inclusive na imagem das 141 veias vampirizadas, tanto o poeta cubano como Galeano sublinham a importância da revisão do passado, da disseminação do conhecimento como motor de transformação. Parece-nos que a perspectiva de Mikhail Bakhtin (1992) sobre os gêneros textuais pode nos auxiliar no exame de Las venas, uma vez que o teórico da linguagem concebe o gênero como “expressão da práxis humana”, portanto suscetível às mudanças, de acordo com as condições que se fizerem necessárias. Esta aparente generalização demonstra a consciência do crítico sobre a impossibilidade de permanência dos mesmos valores, imunes às transformações históricas. O mesmo se pode afirmar sobre a definição do ensaio que desde Montaigne vem respondendo às demandas da prosa não-ficcional, sem ater-se a uma estrutura pré-definida. Para Bakhtin, o ser humano, em quaisquer de suas atividades, serve-se da língua e, a partir do interesse, intencionalidade e finalidade específicos de cada atividade, os enunciados lingüísticos se realizam de maneiras diversas. A estas diferentes formas de incidência dos enunciados, o teórico denomina gêneros do discurso “[...] cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados.” (BAKHTIN, 1992, p.277). Essa relativa estabilidade, que é inerente a um dado gênero textual, quer dizer que é passível da alteração, aprimoramento ou expansão, podendo ocorrer em função do desenvolvimento social, tecnológico, influência de outras culturas etc. Assim, Bakhtin afirma que dentro de uma dada situação linguística, o falante/ouvinte produz uma estrutura comunicativa que se configurará em “formas-padrão”, pois são formas marcadas a partir de contextos sociais e históricos. O teórico também ressalta a questão dos gêneros do discurso no que diz respeito a seu caráter mediador e organizador da linguagem. Neste contexto, a interseção entre produção e recepção pode ser observada na relação que se estabelece entre os interlocutores na comunicação. Assim, as estratégias discursivas utilizadas para a constituição de uma memória 142 comum entre emissor e receptor se manifestam nos discursos e estes somente circulam na sociedade a partir da intertextualidade. Nesta perspectiva, entendemos que todo discurso, para que possa ser compreendido, constitui-se a partir de suas inter-relações com os outros. Por isso Bakhtin afirma que a verdadeira substância da língua é a interação verbal. Este pressuposto manifesta-se no diálogo, entendido não apenas como comunicação verbal e presencial entre duas pessoas, mas em todo tipo de comunicação. Deste modo, pode-se também aplicar tal conceito a uma obra literária: [...] o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores: ele decorre, portanto, da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. [...] Qualquer enunciação, por mais significativa e completa que seja, constitui apenas uma fração de uma corrente de comunicação verbal ininterrupta [...]. (BAKHTIN, 1988, p. 123). (Grifo nosso). Em Las venas, é o diálogo com outras vozes, com outros textos, que orientará a escritura de Galeano. Este diálogo se estabelece pela intertextualidade22, seja pela citação literal, seja pelas referências às fontes que o autor remete. Os ensaios são construídos argumentativamente pela recuperação de um tema já debatido. Galeano confronta o que se conhece, e propõe uma nova perspectiva. Assim, explora a intertextualidade como informação compartilhada, toma o senso comum como plataforma de configuração do senso crítico. Podese claramente reconhecer as vozes de outros autores no discurso do autor uruguaio que, corroborando a visão de Bakhtin, insere-se na discussão ideológica de um determinado grupo social para refutá-lo, como se observa no seguinte exemplo: Wright Patman, el conocido parlamentario norteamericano, considera que el cinco por ciento de las acciones de una gran corporación puede resultar suficiente, en muchos casos, para su control liso y llano por parte de un individuo, una familia o un grupo económico (NACLA Newsletter, abril-mayo de 1969.). Si un cinco por 22 Utilizamos aqui intertextualidade no sentido defendido por Claude Chabrol: ‘trata-se de todos os fenômenos de citação, referência, retomada, empréstimo, transformação, desvio, inversão entre textos, contemporâneos ou não, na esfera dos discursos sociais, quer seja no interior de um mesmo domínio, quer seja entre suportes midiáticos ou ainda entre domínios diversos. CHABROL, 1996, p.8. 143 ciento basta para la hegemonía en el seno de las empresas todopoderosas de los Estados Unidos, ¿qué porcentaje de acciones se requiere para dominar una empresa latinoamericana? (GALEANO, 1991, p.404) (Grifo nosso). Galeano estabelece um diálogo intertextual para corroborar seu ponto de vista, a saber, a visão de que o poderio imperialista norte-americano pode subverter até mesmo preceitos universais de controle acionário. O uso da pergunta retórica introduz uma terceira voz, a do leitor, frente aos dois discursos enunciados. Assim, Galeano seleciona conscientemente um trecho, descontextualizado, que lhe serve de premissa para construir argumentos que possam refutar o discurso citado. O tom dialogal e subjetivo que marcam os textos ensaísticos, ainda que a enunciação seja monológica, está projetada em um diálogo com o receptor/leitor. Como sublinhamos, os gêneros devem ser considerados como um meio social de produção e de recepção do discurso. Para classificar determinado enunciado como pertencente a dado gênero, é necessário que verifiquemos suas condições de produção, circulação e recepção, o que se torna mais relevante quando analisamos obras ensaísticas em que as condições de produção são determinantes para sua recepção. Como no caso de Las venas, escrito em um dos períodos mais violentos da história recente da América Latina. Desta forma, podemos observar que os acontecimentos sócio-políticos que marcaram a década de 1960 definiram as representações que tinham os intelectuais sobre a forma de transformar a realidade, repercutindo também nas produções literárias da época. Quando nos aproximamos da obra de Galeano sob a perspectiva dos gêneros literários, não temos o objetivo de defini-la segundo este parâmetro, apenas gostaríamos de sublinhar que seu caráter ensaístico responde às exigências ideológicas de sua escritura, assim como a inscreve num gênero caro aos intelectuais latino-americanos. 144 3. FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL NO SÉCULO XX E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes [...]. Fernando Pessoa. 3.1. A CONFIGURAÇÃO DO INTELECTUAL ENGAJADO Comentando sobre o papel dos intelectuais na sociedade contemporânea, o filósofo italiano Norberto Bobbio afirma que, mesmo com outras denominações, os intelectuais sempre existiram, porque em todas as sociedades sempre estiveram conjugados os poderes econômicos, políticos e ideológicos. Explicando a relação entre estes, Bobbio afirma: [...] o poder ideológico, que se exerce não sobre os corpos como o poder político, jamais separado do poder militar, não sobre a posse de bens intelectuais, dos quais se necessita para viver e sobreviver, como o poder econômico, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra. (o poder ideológico é extremamente dependente da natureza do homem como animal falante). (1997, p.11). O filósofo italiano ressalta que, diferentemente de outras espécies que subjugam pela força, somente o ser humano é capaz de impor sua vontade, exercer sua força por meio da palavra. Sob esta perspectiva, um dos instrumentos mais eficazes para a dominação do semelhante é a habilidade com as palavras. A reflexão de Bobbio também se aplica ao condicionamento deste domínio da palavra ligado a uma realidade sócio-cultural específica, pois se encontra intimamente ligada a uma conjuntura histórica, e é justamente a singularidade desse contexto que configurará o intelectual. Portanto, não é possível estabelecer um conceito atemporal e universal de uma casta de homens letrados, diferenciada da sociedade em geral, que, somente a partir da segunda metade do século XIX, é publicamente reconhecida como a dos intelectuais. Quando afiguramos a ideia de intelectual tal qual a concebemos hoje, não é possível ignorar que essa denominação está atrelada à concepção de um fenômeno historicamente 145 situado, e que o francês Jean-Paul Sartre é a figura mais representativa dessa classe de homens no século XX. Foi Sartre quem difundiu um modelo de intelectual engajado, defendendo que o escritor não podia omitir-se diante da condição humana. Entretanto, também se pode considerar o engajamento sob um espectro mais abarcador, que leva em consideração a defesa de valores universais tais como a justiça e a liberdade. A questão do engajamento na literatura retoma uma questão bem mais antiga: a função da arte. No cuidadoso estudo Literatura e engajamento (2002), o crítico francês Benoît Denis defende a ideia de que o engajamento na literatura está historicamente situado no século XX, chegando a ocupar o centro do debate literário da época. Para o autor, o surgimento da literatura engajada foi determinado pela conjugação de três fatores: a configuração de um campo literário autônomo; a aparição da figura do intelectual, na passagem do século XIX para o XX, como um novo elemento da sociedade, situado à margem da literatura e da universidade; e a Revolução Russa de outubro de 1917. Antes deste período, afirma Denis, pode-se reconhecer apenas uma literatura de combate, sem, contudo, denominá-la engajada, pois somente no final do século XIX os escritores franceses retomaram a relação entre a literatura e a causa social. Esta mudança ocorre pontualmente depois da repercussão do caso Dreyfus, em que um grupo de artistas, professores, escritores, pensadores que, já tendo uma notoriedade, intervêm no debate público, em nome dos valores morais e políticos. A partir deste período, passou-se a utilizar a expressão literatura engajada para designar um conjunto de obras de alcance político. Foi também nesta época que Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau Ponty e Simone de Beauvoir fundaram a revista Les Temps Modernes (nome dado em homenagem a Charles Chaplin, referindo-se ao homônimo filme), quando a Europa ainda não tinha assimilado com distanciamento os fatos que ocorreram na II Guerra. A publicação marca o reaparecimento da imprensa francesa no pós-guerra. No primeiro número da revista, de outubro de 1945, Sartre 146 defende que o homem, e singularmente o escritor, é um ser engajado. Com tal raciocínio, o filósofo francês funda as premissas de ação dos intelectuais, que devem tomar posição crítica em relação ao mundo, afirmando-se como representantes das forças progressistas e como defensores de uma causa humanitária. Sartre retoma a gênese dos intelectuais franceses, como Voltaire e Diderot, que defendiam os valores universais entre 1848 e 1898. Como sublinha Denis (2002), foi este contexto que propiciou a constituição de um campo literário, fato determinante para o surgimento da literatura engajada. Tal concepção propunha mais que a delimitação da literatura, discutia-se a inscrição de seus seguidores em uma casta de escritores. O sociólogo franco-argelino Pierre Bourdieu (1996) investiga os mecanismos da reprodução social que legitimam as diversas formas de dominação e analisa o aparecimento, na segunda metade do século XIX, de um campo literário autônomo em relação à sociedade em geral, submetido apenas a seus próprios pares. Benoît Denis, comentando o fenômeno de autonomização descrito por Bourdieu, explica que “os escritores adotaram uma série de atitudes e de posturas destinadas a distingui-los dos homens comuns e a reagrupá-los no seio de uma aristocracia simbólica.” (DENIS, 2002, p.20). Esta classe se diferenciaria pela especificidade de seu ofício, que deveria reafirmar um distanciamento do escritor frente à realidade política e social, focalizando seu trabalho sobre a forma para garantir a autonomia de sua prática. Para Bourdieu, a literatura apresentava-se como um campo de produção e negociação de bens simbólicos, no qual se ingressava a partir da tomada de posição política e ideológica, que definia seu status como grupo hegemônico. Partindo desta constatação, o sociólogo insere em sua análise o exame do que ele denominou regras da arte, propondo a discussão em torno de uma prática que distingue o homem: a figuração simbólica do real. Bourdieu destaca que o espaço institucionalizado da academia proporciona os elementos de identidade de posição e de representação da elite intelectual. Nesse contexto, a noção de capital social, econômico e 147 simbólico levantados pelo autor, possibilita compreender uma série de mecanismos de legitimação do papel dos intelectuais. A conjuntura criada pelo Caso Dreyfus23 é apontada pelo historiador francês Chistophe Charle (Apud DENIS, 2002, p.210.) como o episódio que projetou a figura do intelectual, atribuindo-lhe uma função e conferindo-lhe publicamente este título. O caso Dreyfus possibilitou recuperar uma série de elementos da tradição clássica do pensamento político que havia sido esquecido desde a Revolução Francesa de 1789. Charle enfatiza a importância de estudos comparativos entre grupos de intelectuais de nacionalidades diferentes para definir a função do intelectual dentro de uma sociedade, levando em consideração as especificidades de cada contexto cultural. Refletindo sobre as transformações na figura do escritor ao longo dos séculos, no que diz respeito a seu rol social, suas competências, em sua relação com a escritura e com o leitor, o crítico literário catalão Joan Oleza destaca que, na segunda metade do século XIX, o autor adquire uma dimensão mais próxima do cidadão responsável. O homem de letras, que pela primeira vez na história se emancipa profissionalmente, tem a missão de analisar e explicar a realidade, constituindo-se como um poder autônomo na sociedade. Oleza afirma que o intelectual assume uma missão: [...] armado con el poder de la inteligencia se constituye en azote del poder, en transgresor de las normas establecidas, en creador de nuevas consignas y nuevos valores, como el Zaratustra de Nietzsche, como el Zola de “J’accuse” [...] como Theodor W. Adorno, como Jean-Paul Sartre, como Michel Foucault, como Joan Fuster. Toda una estirpe de autores comprometidos con su tiempo pone en pie la figura del intelectual profeta. (2010, p.41). 23 Um dos mais ruidosos casos de erro judicial da história moderna da França. Teve características de autoritarismo, anti-semitismo e fraude jurídica. Envolveu Alfred Dreyfus (1859-1935), capitão do estado-maior do exército francês, numa acusação de espionagem em favor da Alemanha, por terem sido encontrados documentos com a sua caligrafia falsificada junto ao adido militar alemão em Paris. Foi, por isso, condenado à prisão perpétua na ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa. Em 1898, encontraram-se evidências de sua inocência e culpa do major francês Esterhazy, espião alemão. Mas o segundo julgamento manteve o resultado do primeiro, provocando a indignação do escritor Émile Zola (1840-1902) que escreveu o artigo Eu acuso para denunciar a farsa. O escândalo dividiu a opinião pública entre dreyfusards (a esquerda progressista) e anti– dreyfusards (a direita conservadora), e surgiram fortes ataques anti-semitas por parte da direita e anticlericais, à esquerda, por ser Dreyfus judeu e a Igreja ligada ao Estado. Os debates arrastaram–se por mais oito anos, até o capitão ser totalmente inocentado, em 1906. (DENIS, 2002, p. 209-228). 148 Foi somente a partir do caso Dreyfus e da comoção social causada pela repercussão do artigo Eu acuso (J'accuse) de Émile Zola, publicado no jornal L'Aurore em janeiro de 1898, que a política volta a ser tema da literatura na França, após um silêncio de quase cinqüenta anos. A segunda metade do século XIX toma de Zola sua inspiração, pois o autor francês incorpora àquela sociedade um espírito de confiança nas ciências empíricas, que seria, no seu entendimento, um instrumento de disseminação da justiça e da liberdade. A ciência seria a responsável por regenerar o homem e a sociedade. “Zola buscava compatibilizar, pois, uma concepção cientificista e uma consciência sociológica do homem.” (BULHÕES, 2007, p.65). Para Zola, o escritor deveria tomar parte da situação descrita em sua obra, colher subsídios do comportamento da sociedade e dos personagens. Acreditando que a observação é superior à imaginação, Zola confere ao escritor uma imagem diferente da aura tradicional. É deste contexto de efervescência sócio-cultural que a palavra intelectual ganha projeção e passa a definir àquele que: [...] colocando em jogo o prestígio e a competência adquiridos num domínio de atividade específica e limitada (literatura, filosofia, ciências etc.), aproveita-se dessa competência que lhe é reconhecida para emitir opiniões de caráter geral e intervir no debate sócio-político. A função intelectual tende a partir daí a sobrepor às funções tradicionalmente atribuídas ao escritor e à escritura. Opera-se uma redistribuição de papéis, ao termo da qual a literatura vê, paradoxalmente, seu prestígio reforçado. (DENIS, 2002, p.21). Essa sobreposição de papéis era derivada de uma opção do escritor por participar do debate sócio-político alheio a seu ofício, o que lhe conferia prestígio social. Esse prestígio, entretanto, será questionado quando a função do intelectual ganha autonomia em relação à literatura, que se vê confrontada com um novo tipo de linguagem ou de discurso, ao qual Roland Barthes associa à figura do escritor em oposição ao escritor-escrevente. Barthes distingue-os, considerando os escritores-escreventes (escritores engajados) como homens “transitivos”, que acreditam ser capazes de “pôr fim a uma ambigüidade do mundo”, pois 149 supõem que sua fala “institui uma explicação irreversível” ou “uma informação incontestável”. Diferentemente, o escritor (o intelectual) seria aquele que suporta a literatura “como um compromisso falhado, como um olhar de Moisés sobre a Terra Prometida do real”. (BARTHES apud DENIS, 2002, p.27). O escritor-escrevente não permite que “sua mensagem se vire e se feche sobre si mesma, e que se possa aí ler, de uma maneira diacrítica, outra coisa senão aquilo que ele quis dizer”. (Ibidem, p.27). No conceito do escritor-escrevente, a linguagem é um instrumento de comunicação, um veículo do pensamento. Apesar da diferenciação de Barthes ser clara, identificando o escritor-escrevente como o escritor engajado, em oposição ao intelectual identificado como escritor não-engajado; na prática, frequentemente, os dois papéis se confundem ou se sobrepõem. Como assinalou Benoît Denis, uma terceira característica na inscrição histórica do engajamento na literatura de origem francesa foi a Revolução Socialista de outubro de 1917. Este movimento deflagrou uma série de eventos políticos e sociais que culminou na eliminação da autocracia russa, resultando no estabelecimento do poder soviético sob o controle do partido bolchevique, liderado por Vladimir Lênin, que derrubou o governo provisório e impôs o governo socialista. Este acontecimento exerceu fascínio tanto sobre a camada literária como a intelectual do entre-guerras. O movimento russo representou para os intelectuais franceses a realização de um processo histórico inaugurado em 1789, na Revolução Francesa. Nesta época se inicia uma politização literária que não só se dividirá entre direita e esquerda, mas, sobretudo, entre escritores engajados e não engajados. A irrupção do discurso revolucionário dará primazia ao envolvimento sócio-político, como legitimador da autonomia do campo literário, consequentemente, a identificação entre revolução política e ruptura estética que culminou nas vanguardas europeias. Portanto, as vanguardas artísticas não representaram apenas uma ruptura estética, mas também uma contestação política. O escritor 150 engajado deseja fazer de suas obras uma forma de participar do processo revolucionário. Assim, a literatura engajada já não representa um fim em si mesma, mas um meio a serviço de uma causa maior que a própria literatura. Analisando historicamente a inscrição dos intelectuais na sociedade, Norberto Bobbio (1997) propõe as seguintes classificações: a) os que não se envolvem com a política, se consideram os guardiões dos princípios e valores universais; b) os que entendem que a tarefa do intelectual é teórica e política, cabendo a ele elaborar a síntese das várias ideologias; c) os que imaginam que lhes cabe função de educar as massas; d) os que defendem que sua tarefa é política, mas a sua política não é a partidária, mas a da cultura. Parece-nos difícil classificar com clareza Eduardo Galeano em apenas uma das categorias sugeridas por Bobbio. Primeiramente pela longevidade de sua atuação intelectual. Galeano completou 70 anos, em 2010, e desde os 14 militava no Partido Socialista, o que significa que ele fez parte de diferentes períodos e projetos sócio-políticos. Ao longo de sua trajetória como escritor, adotou posições que tanto poderiam inscrevê-lo como educador das massas, assim como defensor e disseminador de uma ideologia política. No início de sua carreira como chargista e jornalista engajado, entendia a palavra como uma arma, como um instrumento de ação. Como sublinha a crítica argentina Beatriz Sarlo, na segunda metade do século XX, os intelectuais buscavam, em suas atividades, ser porta-vozes dos que “viviam oprimidos pela pobreza e pela ignorância” e por isso “foram exilados, perseguidos, encarcerados, torturados, assassinados, excluídos, censurados, deportados, privados de sua nacionalidade, proscritos.” (SARLO, 2000, p.160). Galeano, como os de sua geração, acreditava que tinha um papel a desempenhar, que seu ofício era um instrumento de denúncia que poderia transformar a realidade. Na madurez, mesmo se mantendo alinhado a suas convicções ideológicas, o escritor também se permite afastar-se da temática socioeconômica e do tom de denúncia, como nas 151 obras El libro de los abrazos (1989) e Las palabras andantes (1993) em que celebra e indaga os mistérios da própria vida; em Patas Arriba (1998), no limiar do século XXI, Galeano retoma o que se pode considerar sua profissão de fé, a relação de sua literatura com o contexto social de sua época. Levando-se em consideração apenas a escrita de Las venas, poderíamos classificar Galeano como um escritor que se autodefine como educador das massas: “este libro, que quiere ofrecer una historia del saqueo y a la vez contar cómo funcionan los mecanismos actuales del despojo.” (GALEANO, 1991, p.11). (Grifo nosso). Quando faz sua defesa ideológica, Galeano afirma que seu papel é esclarecer, revelar a seus leitores, considerando-os como necessitados da palavra. Assim, o autor atribui a sua literatura um papel messiânico: “la literatura transmite conocimiento y actúa sobre el lenguaje y la conducta de quien la recibe; que nos ayuda a conocernos mejor para salvarnos juntos.” (GALEANO, 1981, p. 9). (Grifo nosso). Nitidamente se observa uma das características sobressalentes da escritura de Galeano: seu caráter pastoral, ou seja, textos produzidos com a finalidade de doutrinar, indicar o caminho, transmitir por meio de parábolas uma ideia de salvação. Para ilustrar o caráter pastoral da escritura de Galeano, parecem-nos irretocáveis os comentários do professor Horacio González, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, sobre a abertura de um evento proferida por Eduardo Galeano, na qual o escritor uruguaio optara por ler seus próprios textos. González chamou a atenção para a cena do escritor (Galeano) que lê para um auditório, e com determinada impostação de voz, produz uma escuta atenta, contando com a adesão irrestrita do público. [...] la llamo "lectura pastoral". [...] Se supone que hay alguien que tiene una fuerza mediadora entre un conjunto de textos que tienen autor, en este caso escritos por el mismo conferenciante [Galeano], y recogen viejos ejemplos de la aventura moral de la humanidad. Ese es el tema, el tema tiene una cierta herencia vinculada a la fuerte conjunción entre la lectura y el mundo de lo sagrado. La lectura es la vía por la cual se introduce a un sujeto, a un sujeto dramático, a un mundo de valores que muchas veces son valores sagrados. Pueden ser valores laicos, pero por detrás, o persiguiendo lo laico de una manera volátil pero efectiva, está lo sagrado. (GONZÁLEZ, 2008, p.163). 152 O que destaca González sobre a leitura de Galeano aplica-se também a seus leitores, como ressalta escritor argentino. O discurso de Galeano, ainda que trate de temas laicos, tem um efeito messiânico, visto que sua audiência está composta de sujeitos que foram ali para ouvi-lo, portanto, já aceitaram tacitamente seu discurso, legitimando-o sócio-historicamente. Nesta perspectiva, podemos afirmar que público leitor de Las venas é semelhante à plateia que ouvia atentamente a voz grave de Galeano, ou seja, são leitores que se identificam com o discurso ideológico do escritor. É a força mediadora de Galeano que possibilita que ele pregue, por assim dizer, aos já convertidos. Sua obra lhe confere o princípio da autoridade, como observa Bourdieu, [...] a linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daquelas a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade. (BOURDIEU, 1998, p.25). A própria definição do termo intelectual baseia-se no princípio de autoridade que lhe confere “prestígio e competência reconhecida para emitir opiniões de caráter geral.” (DENIS, 2002). Assim, os ouvintes/leitores de Galeano demonstram cumplicidade por atribuírem ao escritor/expositor o princípio de autoridade, legitimado pelo poder simbólico, assinalado por Bourdieu. Sobre a leitura pastoral, González assinala: Todo el aparato educativo surge de aquí, el aparato religioso surge de aquí, todo el ensayo pedagógico surge de aquí, todo el ideal pedagógico descansa en la idea de que hay una lectura a través de un expositor laico que, de una manera remota pero no difícil de reconocer, cumple ciertos papeles sacerdotales. (2008, p. 168). Em Las venas, Galeano demonstra repudiar o discurso pastoral. Comentando a recepção da obra no posfácio “Siete años después”, o autor critica o que ele denomina “cierta literatura militante dirigida a un público de convencidos” e, depreciativamente, compara: “Quizás esa literatura de parroquia esté tan lejos de la revolución como la pornografía está 153 lejos del erotismo.” (GALEANO, 1991, p. 438). Sua atitude visa justificar as motivações de sua escritura, afastando-a do panfleto ou do estilo de catecismo ou messiânico. Entretanto, o próprio autor atribui a sua mensagem um caráter libertador, capaz de responder aos anseios de seus leitores: “lo que uno escribe puede cobrar sentido colectivo cuando de alguna manera coincide con la necesidad social de respuesta.” (GALEANO, 1981, p.11). Depreende-se de seu discurso que o escritor se apresenta como se fosse uma autoridade eclesiástica, intérprete das necessidades coletivas, revelador de todos os questionamentos. O autor demonstra em sua escritura a atitude do intelectual que tomou para si a defesa dos “direitos da classe operária que, se realmente assumisse a sua missão, poderia tornar-se uma fonte de liberdade para todos os oprimidos.” (SARLO, 2000, p.161.). Ao se oferecer como representante de uma classe explorada, Galeano se atribui o direto de voz desta camada “oprimida pela pobreza e pela ignorância” por considerá-la desqualificada, cabendo a ele, o intelectual, o privilégio da palavra. Sobre este caráter ambíguo do papel do intelectual, a indiana Gayatri Spivak parte de “uma critica aos intelectuais ocidentais, em particular Deleuze e Foucault, para refletir sobre a prática discursiva do intelectual pós-colonial.” (ALMEIDA, 2010, p.11). Spivak afirma que o subalterno não fala porque não lhe permitem falar, em razão de sua condição. A autora problematiza a constituição do sujeito subalterno como uma categoria homogênea, rejeitando esse termo para definir qualquer sujeito marginalizado. Para Spivak, provavelmente imbuída da perspectiva das castas sociais indianas, o termo subalterno “descreve as camadas mais baixas da sociedade, constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante.” (Ibidem, p.12). 154 No célebre artigo Pode o subalterno falar? Spivak questiona a posição do intelectual que julga ter o direito de falar pelo outro, pois nenhum ato de resistência pode ocorrer em nome do subalterno, sem que esse ato esteja imbricado no discurso hegemônico. Assim, o intelectual, ao tomar a palavra no lugar do outro, reproduz a mesma estrutura de opressão na qual o subalterno é silenciado ou tem sua voz abafada, sem poder ser ouvido. Esta visão contemporânea do papel do intelectual põe em xeque o modelo de intelectual engajado defendido por Sartre e adotado pela intelectualidade latino-americana na segunda metade do século XX. Comentando a perspectiva teórica da autora indiana sobre os intelectuais, Eduardo Subirats dispara: “Spivak é um exemplo patético que conta com uma plêiade de lúgubres prosélitos latino-americanistas.”24 A resposta intempestiva do filósofo espanhol explica-se porque, também ele, assim como Galeano, escreveu obras ensaísticas como El continente vacío (1992) e América o la memoria histórica (1994), em que questiona a lógica da colonização espanhola e sua política de esvaziamento do continente americano de toda forma de história, cultura, religião. Obviamente, sua visão sobre a questão da representação dos intelectuais dista muito da professada por Spivak. Podemos notar que nenhuma das categorizações de Bobbio sobre os intelectuais faz menção ao intelectual que adere a uma política partidária, visto que essa afiliação comprometeria a isenção para transmitir ideias que pudessem ser contrárias ao partido. Refletindo sobre a questão, o filósofo italiano conclui: Se eu tivesse que designar um modelo ideal de conduta, diria que a conduta intelectual deveria ser caracterizada por uma forte vontade de participar das lutas políticas e sociais do seu tempo, que não o deixe alienar-se tanto a ponto de não sentir aquilo que Hegel chamava de ‘o elevado rumor da história do mundo’, mas, ao mesmo tempo, por aquela distância crítica que o impeça de se identificar completamente com uma parte até ficar ligado por inteiro a uma palavra de ordem. (BOBBIO, 1997, p.79). 24 Eduardo Subirats, entrevistado por Silvia Cárcamo. In: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517106X2005000100010&script=sci_arttext Consultado em 25 de maio de 2010. 155 Portanto, a independência político-ideológica demanda uma “distância crítica”, que proteja o intelectual da identificação completa com a proposta política. Bobbio defende que “a primeira tarefa dos intelectuais deveria ser a de impedir que o monopólio da força torne-se também o monopólio da verdade.” (1997, p. 81). Na perspectiva do autor, o apoio à elite econômica ou política impossibilita a isenção do intelectual, ou seja, somente posicionando-se contra as forças hegemônicas, participando da esquerda política, é possível ostentar o título de intelectual. Sobre a aproximação dos intelectuais ao poder, o crítico e filósofo francês Julien Benda, na obra A Traição dos Intelectuais (2007), tradução da clássica La Trahison des Clercs (1927), afirma que os valores que devem mover os intelectuais são, necessariamente, desinteressados, sem apego aos valores materiais e aos benefícios pessoais. Norberto Bobbio, comentando o texto de Benda, sublinha que o autor não considera o intelectual militante um traidor, desde que respeite “duas condições: a) pregar a religião do justo e do verdadeiro (e não aquela do interesse do próprio grupo); b) pregá-la com a consciência da sua ineficácia prática – não com a pretensão de salvar o mundo”. (BOBBIO, 1997, p.47). A referência à religião se deve à identificação, na edição original francesa, do termo clérigo para referir-se aos homens letrados, que têm uma função pedagógica. Para Benda, o compromisso inerente ao intelectual deve ser a justiça, a verdade e a razão. Quaisquer outros compromissos ou buscas alheias à causa são considerados uma traição do intelectual. Nesta mesma linha de raciocínio, o crítico literário palestino Edward Said defende o modelo de intelectual isento, que se posiciona sempre à margem do poder. Para representar esta isenção, o autor utiliza como metáfora a figura do exilado. Para Said, o intelectual poderia vislumbrar as questões sob uma perspectiva marginal, exterior, atuando como um exilado, somente assim o intelectual poderia falar o que pensa a respeito do poder e dos governos: 156 A questão central para mim, penso, é o fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público. E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzi-los); isto é, “alguém que não pode ser facilmente cooptado por governos ou corporações,” e cuja raison d’etre” é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete. (SAID, 2005, p. 25-6). (Grifo nosso). O escritor defende que estar fora do poder é um imperativo para os intelectuais, para que não seja enredado pelas benesses das elites econômicas, sejam instituições políticas, religiosas, a mídia ou as grandes corporações. Jean-Paul Sartre, o mais importante intelectual militante do século XX, foi um exemplo singular do distanciamento do poder. Ainda que estivesse próximo dos comunistas, com toda agitação da política em seu país, jamais se filiou ao Partido Comunista Francês ou a qualquer outro, tendo sido duro crítico do stalinismo e admitindo-se, inclusive, anarquista. Entretanto, na América Latina, onde Sartre é uma das referências sobressalentes da esquerda, este exemplo não se aplica a toda intelectualidade latino-americana. O próprio Eduardo Galeano, que defende o caráter engajado da atividade intelectual nos moldes sartreanos, tem uma relação bastante próxima de líderes governamentais, como pudemos observar anteriormente. Sob o ponto de vista de Said e Bobbio, a identificação com o poder hegemônico político e/ou econômico macula o papel do intelectual, pois não lhe permite a crítica isenta. Galeano ao abraçar a causa cubana, aproximou-se demasiado de Fidel Castro, a ponto de não se sentir a vontade para criticar suas decisões arbitrárias. Quando desaprovou algumas atitudes do regime, como no artigo Cuba Duele, teve de fazê-lo de forma eufemística, não lhe permitindo “levantar publicamente questões embaraçosas”, para usar a terminologia de Said. 157 Conforme ressalta o escritor palestino, para que se possa desempenhar o papel de intelectual, deve-se, necessariamente, ser independente do poder e dos governos, pois só assim não se sentirá um traidor ao criticar os eventuais equívocos. O intelectual deve ser um perturbador, uma voz crítica da sociedade. Desta forma, faz-se mister sua total isenção para que possa defender livremente a liberdade de opinião, sem trair sua própria consciência. Ao tratarmos da importância da configuração do intelectual para analisarmos Las venas, não poderíamos deixar de destacar a perspectiva do teórico marxista Antonio Gramsci (18911937). Para o co-fundador do Partido Comunista Italiano, o intelectual deveria adotar uma posição, sobretudo, pedagógica. Embora estivesse comprometido com um projeto político que defendesse a ascensão do proletariado ao poder, Gramsci acreditava que uma revolução popular deveria ser precedida por uma mudança de mentalidade, da qual seus principais agentes seriam os intelectuais. Também afirmava que o desenvolvimento das atividades do intelectual pressupõe o exercício de um dever crítico da cultura. Assim, a principal tarefa dos intelectuais seria estabelecer uma relação crítica entre a cultura, as ideias e a política. Diferentemente da maioria dos autores que interpretaram o socialismo relacionando a política à economia, o teórico italiano sublinhou o papel da cultura e dos intelectuais nos processos de transformação histórica. Gramsci acreditava que o Estado precisa mais do que o monopólio da força física para governar, necessita também do consentimento da sociedade, nesta perspectiva, os intelectuais seriam os “funcionários do consenso”: Formam-se, assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas especialmente em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. Uma das mais marcantes características de todo grupo social que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista ideológica dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos. (GRAMSCI, 1982, p.8-9) 158 Na visão de Gramsci, os intelectuais assumem o protagonismo na articulação entre os grupos sociais e profissionais autônomos em relação à classe dominante. Todos os membros de uma corporação deveriam ser considerados intelectuais, não pelo seu nível de erudição, mas pelas funções que exercem. Assim, distinguem-se dois tipos de intelectual: o “intelectual orgânico”, que em sintonia com uma classe social procura dar coesão e consciência a essa classe; e o “intelectual tradicional”, que se conserva relativamente autônomo e independente, que já não pertence a nenhuma classe específica. Ambos são instrumentos da consolidação de uma vontade coletiva. Ao contrário do pensamento marxista tradicional, que considerava as instituições sociais como a igreja, a escola, os meios de comunicação como reprodutoras mecânicas da ideologia do Estado, Gramsci via nelas a possibilidade do início das transformações por intermédio do surgimento de uma nova mentalidade ligada às classes dominadas. Assim, o papel do intelectual seria o diálogo e a interlocução entre os grupos, visando o consenso, a legítima e democrática vontade coletiva. Eduardo Galeano, quando compôs em Las venas um relato que combinava uma profunda pesquisa sobre o passado pré-colombiano, colonial e pós-colonial da América Latina, propondo uma revisão histórica na interpretação destes períodos, constituiu um discurso político que, assim como Gramsci, ressaltava a importância da valorização da cultura das classes marginalizadas nos processos de transformação histórica. Seu objetivo era estabelecer uma mentalidade comum, consensual, para que pudesse iniciar um movimento de transformação da realidade. Em outras palavras, Galeano buscava conquistar primeiro as mentes e corações, não necessariamente nesta mesma ordem, para depois exortar à revolução. Sua função, como intelectual, seria a de mediar uma tomada de consciência pelo reconhecimento do próprio valor histórico. 159 Nas concepções de Gramsci e Sartre sobre o intelectual há pontos de contato e entendimentos diferentes, um deles é sobre a relação dos intelectuais com o poder. Enquanto o teórico italiano relativiza esta proximidade, o escritor francês defende que “o intelectual é alguém que se mete no que não é de sua conta e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas, e das condutas que nelas se inspiram”. (SARTRE, 1994, p.14). Portanto, o envolvimento ideológico do intelectual, e muitas vezes pessoal, com o poder inviabiliza sua contestação, o que nos leva a refletir sobre a situação peculiar da América Latina nas décadas de 1960-70 e no papel do intelectual latino-americano frente a dois fatos históricos que polarizaram a discussão intelectual da época: a Revolução Cubana e a implantação de regimes militares. 3.2. FIGURAÇÕES DO INTELECTUAL LATINO-AMERICANO O tema dos intelectuais talvez seja um dos mais recorrentes na crítica literária latinoamericana no século XX. E não é gratuito esse interesse, visto que as elites letradas desempenharam importante papel na história da América Latina. Desde a época colonial, pode-se vislumbrar uma classe de homens que articulava os saberes da metrópole às tradições locais, desempenhando papel decisivo tanto nas artes como na história política do continente. Alguns séculos depois, esta mesma elite cultural se tornaria a responsável pelos processos de independência e os líderes das guerras civis que levariam à construção dos estados nacionais. Esses homens letrados puseram suas competências acadêmicas e literárias a serviço dos combates políticos, das polêmicas, da redação e concepção das constituições. As transformações socioeconômicas que se observariam no final do século XIX nasceram da aspiração idealizada nos escritos da elite modernizadora, que produzia e oferecia seus conhecimentos em prol da conformação de uma identidade nacional. Foi nesta época que 160 se configurou o particular contexto que levou à ruptura entre o universo cultural indígena e o novo universo cultural de imposição de formas políticas, religiosas, econômicas e culturais. Ao analisar a configuração do conceito de intelectual na América Latina, uma questão tangencia o tema: a partir de quando é possível pensar nesta figura no continente? Como já sublinhamos, o papel e a atividade do intelectual antecederam a atribuição da palavra para nomeá-lo. Na segunda metade do século XIX, o grande debate dos escritores e pensadores latino-americanos se dava entre liberais e conservadores, que têm em comum uma sólida formação clássica e uma origem social semelhante: La gran diferencia aparece con el debate sobre las Constituciones de la República y los Códigos Civiles, y con los enfrentamientos de toda índole en torno a la secularización, el proceso mundial sustentado en la educación laica, la separación de la Iglesia y el Estado, la libertad de expresión y la libertad de creencias que, según los conservadores, dividirá y envenenará a comunidades nacionales, sólo posibles por la unidad de la fe. (MONSIVAIS, 2007, p.15). Foi a celeuma criada em torno da separação entre a Igreja e o Estado, principalmente no que diz respeito à educação de orientação laica, defendida pelos liberais, que pontuou a discussão que dividiria a opinião de políticos, escritores e pensadores durante um longo período, e que marcará a cisão entre liberais e conservadores. A história mostrou que a posição laica prevaleceu na América Latina em razão do trabalho intelectual de liberais como o mexicano Ignacio Manuel Altamirano (1834-1893), o argentino Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888); o porto-riquenho José María de Hostos (1839-1903); o chileno José Victorino Lastarria (1817-1888); o peruano Manuel González Prada (1848-1918); o equatoriano Juan Montalvo (1833-1880). E, sobretudo, graças à iniciativa de dois excepcionais homens de letras, o venezuelano Andrés Bello (1781-1872), que atuou em várias áreas do conhecimento na Venezuela e na Colômbia. No Chile, fundou a primeira universidade do país e redigiu seu Código Civil, além de escrever a Gramática de la lengua castellana destinada al uso de los americanos; Também no campo das ideias e da ação, o 161 cubano José Martí (1853-1895), grande mártir da independência de seu país, destaca-se por sua atuação como poeta, escritor, orador, jornalista e combatente. É considerado um dos intelectuais mais completos da historia latino-americana. Em relação à primeira geração de intelectuais latino-americanos, ainda que alguns de seus participantes não cogitassem utilizar esse título, o escritor mexicano Carlos Monsiváis sublinha o singular papel desempenhado por Bello, Martí e Hostos: Estos inventores de naciones y estos utopistas de la unidad iberoamericana constituyen uno de los mayores legados del siglo XIX: el de los liberales de formación enciclopédica, casi siempre juristas y periodistas. A ellos les corresponde fundar universidades, escuelas normales y centros de estudio; es de ellos el proyecto de educación laica. ‘Yo ciertamente soy de los que miran la instrucción general, la educación del pueblo... como el cimiento indispensable de las instituciones republicanas’ (Andrés Bello). Y, además, sin someterse a las nociones de ‘caridad cristiana’, son adelantados en la lucha contra la desigualdad: ‘La verdad se revela mejor a los pobres y a los que padecen’, indica Martí, y Hostos argumenta: ‘Vosotros, los que en vez de vivir peregrináis, seguidlo con paso firme; la desdicha que os espera es tan gloriosa, que no la tocaría por la inútil felicidad de los felices’. (2007, p.17-18). (Grifo nosso). Desde sua configuração na América Latina, observa-se o papel fundamental que desempenharam estes homens de letras na consolidação dos estados nacionais laicos, na fundação das universidades. Neste contexto, percebe-se claramente a vinculação do intelectual à defesa da “educación del pueblo”, da “lucha contra la desigualdad” em favor dos pobres. Este viés ideológico afirmava não distinguir o trabalho intelectual do braçal, não hierarquizá-los: […] no hay diferencia de jerarquía entre el pensador que labora con la inteligencia y el obrero que trabaja con las manos, que el hombre del bufete y el hombre del taller, en vez de marchar separados y considerarse enemigos, deben caminar inseparablemente unidos. [...] Los intelectuales sirven de luz; pero no deben hacer de lazarillos, sobre todo en las tremendas crisis sociales donde el brazo ejecuta lo pensado por la cabeza. (GONZÁLEZ PRADA apud MONSIVÁIS, 2007, p.18). Entretanto, conforme sublinha Monsiváis, este elogio do trabalho físico serve apenas para o envaidecimento da classe intelectual, demonstrando a “arrogancia y las actitudes clasistas del gremio”. Pode-se inferir uma atitude demagógica no discurso intelectual 162 veiculado por González Prada, pois sua crítica à hierarquia baseia-se justamente na hierarquização entre a função do intelectual de ser a “luz”, a “cabeza” em oposição ao povo identificado como o braço que executa. Fernando Aínsa faz um mapeamento genealógico do intelectual uruguaio contemporâneo, apontando sua origem nos escritores dândi e boêmio do final do século XIX, esta “evolução” se deve ao [...] comportamiento disidentes, cuando no abiertamente provocador, de dandis y bohemios [...] la tipificación de la condición de un escritor en creciente tensión con una realidad social y cultural que contradice su original formación cultural de filiación europea, a todas luces insatisfactoria para dar respuesta a los desafíos de un “aquí y ahora” que se impondrá en forma ineludible en años sucesivos. (AÍNSA, 1998. p. 70). Mesmo os dândis, oriundos de uma estirpe de escritores abastados, demonstravam não mais aceitar os costumes da época. Com sua postura irreverente, desprezam a sociedade burguesa tradicional, buscando uma originalidade dissonante. Os boêmios, por sua vez, qualificam-se como inadaptados e autodidatas, encontram nos ideais sociais e políticos, primeiro anarquista e depois socialistas, a forma de reivindicar sua independência intelectual e criticar os valores burgueses da sociedade de então. Aínsa sublinha que o escritor boêmio deve ser analisado sócio-historicamente e não como autor de obras literárias, e que sua irreverência e inconformismo “insinuan los indicios de lo que será años después la noción del intelectual comprometido.” (Ibidem, p.79). É preciso ressaltar que, assim como na Europa não se utilizava o termo intelectual antes do caso Dreyfus no fim do século XIX, na América Latina este reconhecimento somente será observado por volta dos anos 1930, quando se concede a alguns escritores o rol de “Maestros de la Juventud, augures y guías exaltados por las multitudes.” (MONSIVAIS, 2007, p.15). Estes “maestros” terão como precursor o uruguaio José Enrique Rodó, que em sua obra Ariel, publicada em 1900, inaugura o ensaio latino-americano do século XX. 163 Provavelmente a leitura do ensaio filosófico Calibán (1877), de Ernest Renan, tenha influenciado Rodó na decisão de tomar da obra teatral A tempestade (1611), de Willian Shakespeare, os símbolos para sua obra, visto que antes dele o autor francês havia interpretado a figura de calibã como uma representação das classes sociais populares de sua época, que se rebelam frente à tirania da aristocracia (BERND, 2007). Rodó usa a ilustração do professor Próspero ensinando seus jovens estudantes como metáfora da exortação à juventude hispano-americana sobre o valor de sua herança cultural, sublinhando a supremacia dos valores e da cultura latina. Rodó retoma um dos gêneros mais cultivados no continente, consolidando a tradição ensaística voltada para as questões da identidade latino-americana como modo de pensar a América Latina nações. Sua visão utópica encontra na polarização Ariel-Calibã, personagens de Shakespeare ressemantizados, o lugar simbólico da configuração da identidade cultural hispano-americana. Rodó identifica Ariel como protagonista, representando as virtudes da cultura latino-americana frente a Calibã, identificado com o imperialismo norte-americano. A figura de Calibã é bastante profícua na literatura hispano-americana, embora nem sempre o personagem shakespeariano tenha a mesma interpretação. O cubano Roberto Fernández Retamar propõe como explicação para a origem do nome Calibã “a deformação ou anagrama da palavra caniba, nome que provém de caribe, apelativo usado por Colombo para nomear a presumível tribo antropófaga do Mar do Caribe.” (Apud BERND, 2007, p.72). Entretanto esse conceito de canibal não aparece nem mesmo nas interpretações do próprio Retamar que, diferentemente de Rodó, defende o protagonismo de Calibã, símbolo da resistência à opressão e dominação, recusando a alternativa de Próspero, símbolo da opressão da metrópole: “Asumir nuestra condición de Calibán implica repensar nuestra historia desde el otro lado, desde el otro protagonista.” (FERNÁNDEZ RETAMAR apud PALAVERSICH, 1995, p.136). 164 Rodó representa um paradigma para o intelectual latino-americano do século XX quando aponta o personagem Próspero como o porta-voz dos valores universais: “Rodó cree en la aristocracia de los mejores, en la belleza tal y como los griegos la definen y en la caridad en el sentido cristiano.” (MONSIVÁIS, 2007, p.20). Assim, será a visão dos homens letrados que deverá prevalecer como uma verdade a ser revelada. Será esta perspectiva messiânica que constituirá o discurso intelectual na América Latina. Na interpretação mais difundida, Ariel seria a representação do intelectual que deve se opor à cultura materialista dos Estados Unidos, simbolizada em Calibã. Já nos anos oitenta apareceria uma interpretação de algum modo complementar à famosa tese de Fernández Retamar: o Calibã de Rodó era a ameaça à cultura nacional que as posições xenofóbicas identificavam com o imigrante-Calibã, visto como materialista e ganancioso. (GUERRERO, 2010, p. 138). Ao refletirmos sobre as figurações do intelectual na América Latina, não podemos ignorar que o tópico sugere intrinsecamente uma generalização, visto que abarca variadas temáticas como as revistas, a academia, os processos políticos, num extenso território. Em razão da tipicidade do próprio espaço geográfico, o papel das elites culturais variava conforme o contexto sócio-político de cada país em que estavam inseridas. Portanto, não é possível atribuir um sentido unívoco de intelectual para todo o continente. Para tentar sintetizar a trajetória dos intelectuais, o pesquisador e ensaísta Carlos Altamirano organizou a obra Historia de los intelectuales en América Latina, na introdução explica: [...] desde fines del siglo anterior, los indicios de diferenciación entre esfera política y esfera cultural se harían cada vez más evidentes y que la división del trabajo comenzó a desgastar los lazos tradicionales entre los hombres de pluma y la vida política. [...] la literatura, al menos la literatura de y para el público cultivado, no se transformó por ello en una profesión – seguiría siendo una ocupación que no daba dinero – y los empleos más frecuentes para quienes quisieran vivir de la escritura o del conocimiento disciplinado en estudios formales fueron el periodismo, la diplomacia y la enseñanza. (ALTAMIRANO, 2008, p.9). 165 Podemos observar uma visão análoga a de Monsiváis quanto à origem dos intelectuais no continente, iniciada a partir de sua separação ou no reconhecimento como uma categoria autônoma, com a separação de papéis entre os “hombres de pluma y la vida política”. Altamirano esclarece que foram as condições sócio-econômicas e a falta de um público leitor de literatura que levaram os homens letrados a enveredarem pelo caminho do jornalismo, da diplomacia e da docência. Portanto, a reconstituição histórica da tradição intelectual latinoamericana está relacionada a uma série de meios e condições culturais e sócio-históricas que possibilitaram ou evocaram a existência dessa produção. Desta forma, o meio intelectual não pode ser pensado no século XX sem referência à imprensa e a evolução do jornalismo, de instituições como as universidades e de organizações específicas de intelectuais, como as academias e as revistas. Um bom exemplo disso é o incremento do mercado editorial, visto que foi a iniciativa de comercialização em larga escala da produção literária latino-americana que proporcionou as condições para a ampliação da indústria editorial, assim como difundiu as obras de autores até então desconhecidos. Este desdobramento contribuiu, de forma direta ou indireta, para uma nova inscrição da intelectualidade latino-americana nas demandas literárias da sociedade. Como já aludimos alhures, este período ficou conhecido como Boom da literatura latino-americana, portanto este fenômeno editorial está intimamente ligado à noção de intelectual na América Latina. Entretanto, até hoje, a delimitação ou conceituação do intelectual não é categórica, visto que abriga sujeitos de várias esferas da sociedade. A expansão dos meios de comunicação teve consequências na relação entre os intelectuais do século XX com a esfera midiática. Se antes os intelectuais criticavam o papel que tinham os meios como agentes culturais de dominação, atualmente reconhecem que não é possível viver sem eles. A midiatização é parte da vida cultural e política, e os intelectuais aproveitam esse mesmo espaço como arena para o debate político. 166 Uma das particularidades que definiram os intelectuais latino-americanos no século XX foi o questionamento obsessivo sobre a identidade nacional e regional. Este tema gerou diferentes interpretações, que tanto podiam defender que o continente carecia de uma identidade própria, como podiam postular que a identidade só seria possível expressar-se politicamente. Em ambos, coube aos intelectuais serem os porta-vozes dessa expressão. Esta perspectiva foi o campo em que se desenvolveu a chamada teoria da dependência, que converte as potências mundiais em inimigas da emancipação e da justiça na América Latina. Para Altamirano (2008) este modo de pensar é uma herança do romantismo e do positivismo no século XIX. Na primeira metade do século XX, quando o futuro europeu parecia desvanecer devido às experiências negativas das duas Grandes Guerras, a América Latina desponta como o lugar onde seria possível a realização dos ideais de justiça e equidade, ou seja, a terra que podia realmente abrigar a utopia. É neste contexto que as diferentes versões do marxismo levariam a termo a teoria da dependência e as redes transnacionais de intelectuais ganhariam maior dinamismo no continente. Esses ideais se materializaram na Revolução Mexicana de 1910 e, sobretudo, na icônica Revolução Cubana (1959), que alcançou uma repercussão sem precedentes no modo de pensar e atuar dos intelectuais latino-americanos. Na conjuntura sócio-política que vivia a América Latina naquele então, entre tantos e tão variados conceitos sobre a figura do intelectual, parece-nos apropriado defini-la como homens e mulheres que: empenhados em quebrar a hegemonia, relocalizar a escritura, negociar espaços de enunciação, buscaram - e buscam ainda - vias que possam cartografar geografias de resistência, reelaborar via escrita e arte o conceito de extradição para o de “extradição”, reinventar a relação com o país estrangeiro e a norma hegemônica, além de dar voz aos vencidos do violento projeto de colonização. Para isso passaram a encenar em sua narrativa ficcional, ou pensar em seus trabalhos teórico-críticos, uma nova condição mediadora da escrita que intentaria introduzir no império da letra a novos grupos sociais. (VOLPE, 2003, p.46). 167 Na definição pode-se perceber a diferença do intelectual latino-americano frente ao modelo sartreano de intelectual engajado europeu. Na América Latina, no período do pósguerra, observa-se um direcionamento maciço da literatura para questões políticas. Entretanto, não se trata de uma literatura engajada para a defesa de valores universais, como havia acontecido no caso Dreyfus, mas de um engajamento militante em que o intelectual usa seu prestígio social para influenciar ideologicamente seus interlocutores/leitores, por meio de uma escrita de caráter pastoral (GONZÁLEZ, 2008) ou prometeica (WEINBERG, 2007), na qual apresenta-se como articulador e intérprete de um sujeito subalterno. Ressaltamos que na época, o mundo estava dividido entre as duas grandes potências atômicas, os Estados Unidos e União Soviética, e que a Guerra Fria acirrava os ânimos na América devido à Revolução Cubana, apoiada pela potência socialista. Se a inspiração intelectual europeia no início do século XX foi a Revolução Russa de 1917 (DENNIS, 2002), o modelo de insurreição que encarnará a utopia na América Latina, como sublinhamos, será a revolução de 1959. Neste contexto histórico, não podemos ignorar o papel decisivo das esquerdas latinoamericanas nas transformações sociais e políticas que conformaram uma nova realidade no continente, seja na luta pela queda das ditaduras ou na redemocratização após sua queda. No mapa político latino-americano atual é possível observar que as mudanças se traduziram na chegada ao poder de governos que, cada um a seu modo, refletem a história dos movimentos sociais e das lutas populares em seus países nas décadas de 1960-70. Quem seriam os grandes fomentadores destas mudanças, os responsáveis pela atual conjuntura democrática na América Latina? Os intelectuais engajados capitaneados por Sartre ou os ativistas políticos que tombaram em combate em prol de uma nova ordem sóciopolítica? Esta questão chegou a centralizar o debate sobre o papel do intelectual. Por ocasião da passagem de Sartre pelo Brasil em 1960, o teórico francês recomendou aos escritores brasileiros que produzissem uma literatura popular de teor nacionalista. O poeta 168 brasileiro Ferreira Gullar reagiu mal à prescrição, pois entendia que a defesa de Sartre de uma literatura popular e de soluções políticas baseava-se no modelo cubano, e não era possível fazê-lo sem levar em consideração os grandes contrastes regionais do Brasil. Gullar também coloca em dúvida a eficácia prática do modelo de literatura engajada sartreana: “não seria mais útil ao homem entregar-se à ação política de fato que fazer literatura?” Seu questionamento baseava-se no exemplo do teatro brasileiro que se arrogava nacionalista, mas que estava restrito à elite, porque a massa da população não tinha acesso. É necessário recordar que, naquele então, Gullar era autor de uma obra marcada pela reação política ao controle imposto pela censura, além de um dos mais ativos oponentes da ditadura militar, membro militante do Centro Popular de Cultura (CPC), no Rio de Janeiro, ligado à União Nacional de Estudantes – UNE. Obviamente, o poeta queria ressaltar que uma forma de engajamento não inviabiliza a outra, podiam ser complementares. Não que Sartre recusasse a dimensão estética da obra, mas a relegava a segundo plano, privilegiando a natureza ética. O poeta maranhense discute tais implicações estéticas da proposta francesa de engajamento: [...] esse ponto de vista de Sartre pode levá-lo, logicamente, a preferir um mau romance nacionalista a um bom, que trate apenas do homem, de sua vida, de seus problemas íntimos. Passaríamos a julgar as obras pela sua moralidade e voltaríamos às fábulas bem pensantes. (GULLAR Apud ROMANO, 2005, p.33). Com tal posicionamento, Gullar defende a complexidade do fenômeno literário, não limitando a literatura ao compromisso social. Ademais, questiona os pressupostos teóricos sartreanos como únicos possíveis ao engajamento. Indiretamente, Gullar respondia, no artigo publicado no Jornal do Brasil, ao que Sartre havia preconizado em Que é a literatura?, quando defendeu que nem todas as artes seriam engajáveis: As notas, as cores, as formas não são signos, não remetem a nada que lhes seja exterior [...] a poesia não se serve de palavras [...]. Os poetas são homens que se 169 recusam a utilizar a linguagem. [...] Se o poeta conta, explica ou demonstra, a poesia torna-se prosaica; o poeta perdeu a partida. (SARTRE, 1993, p.10-13). Para o teórico francês, a poesia, a música, a pintura não serviriam como forma de engajamento, porque não remeteriam a algo exterior, ou seja, seriam um fim em si mesmas e não um meio, um veículo para transmitir uma mensagem, como aconteceria com a prosa. Ferreira Gullar critica tais pressupostos, rejeitando o alijamento da poesia e de outras artes como forma de engajamento. No contexto acalorado das discussões sobre intelectuais engajados e não engajados, Carlos Heitor Cony, escrevendo sobre o engajamento defendido por Sartre, conclui: “ninguém pode ser responsável no lugar dos outros, cada qual tem sua dose intransferível e (essas sim) inalienável.” (CONY apud ROMANO, 2005, p.34). O cronista brasileiro questiona a ideia de que o escritor tem um dever a cumprir em função de seu ofício, que lhe cabe ser o representante de outras vozes silenciadas. Na literatura hispano-americana, o poeta e ensaísta argentino Jorge Luis Borges talvez seja um dos escritores que tenha sofrido mais críticas em função do alheamento político em sua literatura. Borges inscrevia-se entre os que não consideravam a fusão entre política e literatura uma função do escritor, tampouco, uma virtude: Meu compromisso é com a arte, com a estética. Quando escrevo, eu escrevo como escritor, não como político. Mas muitos têm na política um estímulo para fazer arte. Neruda foi um poeta medíocre, dos piores que conheci na vida, mas a política fez dele um grande poeta latino-americano.25 Borges acreditava que o escritor não devia participar da vida política e social do seu país, se o fizesse, que fosse apenas como cidadão, nunca como escritor. Entretanto este posicionamento neutro em relação à política não foi bem interpretado pelos intelectuais da esquerda. Um bom exemplo pode ser observado na análise do mexicano Carlos Monsiváis 25 Jorge Luis Borges. http://almanaque.folha.uol.com.br/entborges.htm - Consultado em 23 de agosto de 2008. 170 sobre o papel fomentador de escritores e de leitores das revistas culturais na América Latina. Monsiváis afirma que as revistas mais importantes foram Contemporáneos (1926-1931) no México, Orígenes em Cuba e Sur na Argentina. Sobre o grupo de escritores de Sur, o autor mexicano classifica Borges como “legendario”, entretanto, faz a seguinte reflexão: Borges es, en sí mismo, un capítulo de la vida intelectual de América Latina y del mundo con su imaginación sorprendente [...] Es, sin duda, el intelectual y escritor latinoamericano del siglo XX de mayor repercusión internacional. [...] Borges escribe un poema a los defensores de El Álamo en la guerra de Estados Unidos contra México y recibe una condecoración de Pinochet. Éstos son hechos innegables pero también, y con fuerza infinitamente mayor, se impone la generosidad de su obra, la lucidez asombrosa, el genio expresivo. (MONSIVÁIS, 2007, p.21) (Grifo nosso). Monsiváis, imbuído do conceito sartreano de escritor engajado, considerava a atitude de Borges incompatível com a postura de um autor de sua envergadura. Sobre a mudança de opinião de alguns intelectuais contemporâneos, dizia Monsiváis nostalgicamente: “tenho visto as melhores cabeças da minha geração destruídas pela falta de loucura”. 26 Essa loucura era a utópica América Latina socialista, que os escritores da esquerda latino-americana defendiam em seu ofício como forma ação e motivação. Esses intelectuais acreditavam que tinham uma incumbência: refletir sobre as mazelas de seus países, procurando desvendá-las aos olhos dos incrédulos, arrancando homens e mulheres da sua ignorância e de sua condição humana no mundo, tencionando transformá-los. Tratava-se de projeto ideológico que a esquerda socialista latino-americana queria levar a cabo no continente. Para tal propósito, empenharam-se no desenvolvimento de uma produção literária, seja na narrativa ficcional ou não, ensaios, poesia, artigos de jornal etc. Nesta literatura se observa explicitamente o discurso engajado de defesa do sujeito subalterno, oprimido pela pobreza e ignorância, que tem sua cultura marginalizada ou totalmente alijada. Tais escritores apresentam-se como seus porta-vozes, propondo uma nova identidade para América Latina, 26 Entrevista de Carlos Monsiváis veiculada em http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/07/12/carlosmonsivais-uma-entrevista-inedita-307031.asp. Consultado em 10 de setembro de 2010. 171 por meio da recuperação da memória histórica. Os caminhos para esta valorização das raízes do continente e para a transformação de sua realidade baseavam-se na perspectiva revisionista da História. Os escritores da época participavam de um contexto intelectual influenciado, particularmente, pela leitura da produção oriunda da Escola dos Annales (1929-1989), idealizada por Lucien Febvre, Marc Bloch e Fernand Braudel, esta corrente historiográfica postulava novas propostas teórico-metodológicos para o estudo da História, rechaçando o modelo positivista vigente no século XIX. Mais que uma crítica ao estudo da história política, a Escola dos Annales apontou como objeto central de suas investigações a contextualização do homem no tempo e na sociedade. A denominada Nova História estava fortemente influenciada pela valorização dos estudos das ciências sociais e pelo questionamento da própria noção de documento histórico que vigorava no século XIX. Se no positivismo a documentação era relativa ao evento e ao seu produtor, sob este novo ponto de vista, o foco estará no campo sócio-econômico. Nesta perspectiva, as fontes de consulta, os documentos “se referem à vida cotidiana das massas anônimas, à sua vida produtiva, à sua vida comercial, ao seu consumo, às suas crenças, as suas diversas formas de vida social.” (REIS, 1994, p.126). As transformações que sofreu o conceito de história refletiram-se em muitas áreas do conhecimento, a ciência literária não ficou alheia a tais alterações. O maniqueísmo que predominou na época colonial, dividindo o mundo entre civilização e barbárie, colonizador-colonizado, é substituído paulatinamente por uma contraposição entre centros privilegiados e marginalizados, em que se podem confrontar ideias de ambos os lados. Esta nova perspectiva da história influenciou a intelectualidade da época, servindo de subsídio teórico para a composição de Las venas. A situação sócio-política da América Latina era reflexo de um longo processo de descolonização, que se iniciou com a luta pela 172 independência do Haiti em 1804 e culminou com a de Cuba 1898. O continente acostumavase com a independência e enfrentava uma nova etapa de intromissão estrangeira, agora sob a égide do imperialismo norte-americano. Neste período, exacerba-se uma consciência, surgida desde a primeira geração criolla, que defendia a posição ideológica de tomar os rumos da própria história, que até então era propriedade exclusiva dos colonizadores. Desta conjuntura pós-colonial emergem da sociedade as vozes dos intelectuais que defendem uma revisão da história oficial. A ascensão destes novos protagonistas põe em xeque o viés ideológico de que a história seria uma ciência que aspira a objetividade e a neutralidade, como se promulgou no século XIX, assim como se problematiza o lugar privilegiado das instituições, patrocinadas pelo poder político e econômico, concebidos como guardiões da memória, com a prerrogativa de narrador da história. Estes intelectuais refutam esta legitimização e arrogam para si o mesmo direito: o de propor uma escritura relacionada aos referentes históricos, que configurem um novo projeto sócio-político para a América Latina. Como analisaremos, Eduardo Galeano será um destes intelectuais que constituíram um discurso revisionista, privilegiando a documentação alternativa e involuntária em relação aos documentos oficiais, por meio da qual valorizou a figura de líderes revolucionários como Tupac Amaru, José Artigas, José Martí, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, entre tantos outros mártires que encabeçaram movimentos sociais, a fim de defender o direito à identidade autóctone, a terra e à justiça social no continente. O viés de leitura apontado por Galeano tenta absolutizar uma contra-história, propondo também uma hegemonia hermenêutica. Desta forma, independentemente do enunciador se privilegiará um ponto de vista subjetivo em que seu autor se inscreverá como narrador/intérprete de uma documentalidade. Ou seja, de maneira análoga, Galeano propõe em 173 Las venas um pacto implícito de leitura que se baseie nos mesmos pressupostos da leitura da história. Sobre a legitimidade dos fatos históricos, Hayden White declara “[...] o intuito do discurso é constituir o terreno onde se pode decidir o que contará como um fato na matéria em consideração e determinar qual o modo de compreensão mais adequado ao entendimento dos fatos assim constituídos.” (WHITE, 1994. p. 123.). Assim, o discurso da história está voltado para sua própria justificação, visto que os modos de compreensão e escolha da bibliografia são traços de uma subjetividade que se enuncia no interior do discurso. Nesta perspectiva, o discurso é resultados de sua própria constituição. Portanto, o próprio discurso histórico, que é subjetivo, ao ser ‘recortado’ ainda que por uma nova visão de história, também reflete as posições ideológicas de seu enunciador. Na conjuntura histórica em que se inserem os escritores latino-americanos da segunda metade do século XX, são as preocupações e contradições sócio-políticas que tomam de assalto a cena literária. No ambiente de cerceamento das liberdades individuais, pode-se notar a fusão ou confusão de papéis entre escritor e intelectual. Muitas vezes não é possível separar um do outro, ou só se julga um como tal em função do outro. Ratificando o entendimento sartreano sobre o papel do intelectual, o linguista e cientista político norte-americano Noam Chomsky opina que os “intelectuais deveriam ser pessoas que refletem criticamente sobre a sociedade, buscam a verdade e ajudam os outros a compreendê-la.” 27 O engajamento político marcadamente presente na literatura latino-americana dos anos 1960-70, que poderia ser visto como um detrator desta literatura, na realidade não está muito distante das demais formas de expressão, como assinala Benoît Denis, [...] toda obra literária é em algum grau engajada, no sentido em que ela propõe uma certa visão de mundo e que ela dá forma e sentido real. E é tudo igualmente exato que não há escritor que, consciente ou inconscientemente, não atribua ao seu empreendimento uma certa finalidade. Visto deste ângulo, entretanto, o 27 Entrevista veiculada no caderno Prosa & Verso. Jornal O Globo. Rio de Janeiro, 4 de maio de 1996, p. 6. 174 engajamento se dissolve: ele está em toda parte e em nenhum lugar, e torna-se próprio da literatura. (2002, p.10). Quando restringimos o engajamento ao século XX, partimos de uma análise limitadora. O termo cunhado por Sartre pode até designar algumas obras de outros períodos, entretanto, como sublinha Denis, em maior ou menor grau, a atribuição de uma finalidade à criação literária é inerente ao próprio ser humano, não significa que ela foi produzida apenas com um propósito específico. Ao refletirmos sobre a imensa produção artística que abarca o citado período, não podemos simplificá-la à ação político-ideológica. Assim, não expressaria a realidade denominar um escritor por seu engajamento político. Independentemente do ofício de escritor, o ser humano é político, logo, está inserido em uma ou mais correntes ideológicas, às quais se vincula, ainda que inconscientemente. Como sublinhamos, uma das características comuns aos intelectuais franceses e latinoamericanos é a auto-aceitação de ambos em assumir a missão de serem a consciência moral do país, engajando-se na defesa das classes marginalizadas ou oprimidas. Esse engajamento intelectual da esquerda manifestou-se na literatura como uma forma de contra-poder, um posicionamento incisivo contra as formas de autoritarismo e os abusos políticos. A defesa combativa da democracia expressou-se com mais veemência nos momentos particulares de tensões sociais e de crises políticas vividas no continente latino-americano no século passado. O novo século trouxe uma acirrada batalha de ideias entre intelectuais antigos e novos. Atualmente, proliferam-se os críticos do modelo de intelectual engajado, principalmente pela suposta demagogia de se manifestarem como representantes do povo, majoritariamente composta pele classe baixa, quando os próprios intelectuais não são oriundos dessa classe social, mas provêm da classe média. Não deixa de ser um conflito ético o fato de os intelectuais gozarem de privilégios econômicos, sociais, culturais, e defenderem os que são privados disso. Outra crítica sobre a função do intelectual é sua auto-instituição como porta- 175 vozes do povo. Esta característica que chegou a ser considerada inerente ao próprio conceito de intelectual no século XX, hoje perdeu sua transcendência. Com a crise de valores surgida no controverso período denominado pós-modernidade, o modelo de intelectual engajado sartreano perde a sua eficácia. Inclusive, suscitando questionamentos sobre o que vem a ser um intelectual e sobre sua função na sociedade da informação em que vivemos. Se na primeira metade do século XX, era impossível pensar a cultura fora dos parâmetros indicados pelos intelectuais, no final deste mesmo século se apagam os holofotes do intelectual engajado. Isso se explica, pelo menos parcialmente, devido às mudanças de paradigmas e das transformações conjunturais por que passa a sociedade global. Entretanto, a ideia de intelectual engajado não foi completamente abandonada no século XXI. Um exemplo disso é o linguista norte-americano Noam Chomsky, considerado pelo jornal The New York Times o intelectual mais importante do mundo e, em 2005, um dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Se não está mais em voga o modelo de intelectual francês, tampouco se pode dizer que Chomsky seja o protótipo de intelectual contemporâneo. Quando comparamos suas ideias e as de Galeano podemos notar pontos de contato, principalmente no que diz respeito à crítica ao modelo da política internacional norteamericana. Algumas vezes é quase possível confundi-los: Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano. (CHOMSKY, 2009, p.12-3). 176 Ao ser perguntado se os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 1960 e 1970, Chomsky afirmou que “é uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente subordinados ao poder.” (Ibidem, p.13). O linguista atribui aos intelectuais o mérito de hoje vivermos num mundo mais justo e democrático, e cita como exemplo os candidatos do Partido Democrata, uma mulher e um afro-americano, o que seria inconcebível há 20 anos. Do outro lado do atlântico, corrobora o rol dos assumidamente engajados, o dramaturgo e escritor espanhol Alfonso Sastre, que defende a transformação revolucionária do mundo nos moldes marxistas, não como uma utopia, mas como uma realidade possível. Em seus ensaios condena com veemência aos que chama de: Una barbarie apadrinada hoy, además de por la intelligentsia de siempre, por una multitud de intelectuales que se han desplazado desde la izquierda (más o menos izquierda) a la derecha ... como ... el filosofo Ortega y Gasset en los años cuarenta dijo “por fin España tenía suerte”, refiriéndose al franquismo. (SASTRE, 2004, p.3). Em tom revanchista, o escritor espanhol critica o novo modelo e defende um tipo de intelectual que lute por uma sociedade sem classes sociais, levante a voz em nome dos que oprimidos. Evoca o que se costumava chamar de Nova Esquerda, um termo usado no discurso político para se referir a movimentos radicais de esquerda dos anos 1960, comumente chamado de ativismo social. Pode-se observar no posicionamento ideológico tanto do intelectual espanhol como no de Chomsky uma identificação com o escritor engajado sartreano. Na América Latina, o papel do intelectual continua sendo uma discussão de que se ocupam importantes pesquisadores como Nestor García Canclini, Carlos Monsiváis, Silviano Santiago, Martín-Barbero e Beatriz Sarlo são vozes importantes que buscam analisar criticamente os fenômenos globais sob uma ótica local. 177 A argentina Beatriz Sarlo (1993), quando se propôs a analisar a situação dos intelectuais latino-americanos, identificou sua configuração nos anos 1960-70 com o modelo engajado de Sartre somado à ideologia marxista. Entretanto, segundo a autora, este modelo foi superado em razão da mudança de paradigma que se conformava no final do século XX, quando foram abandonados três núcleos ideológicos: a revolução como arma de transformação, as vanguardas estéticas e os intelectuais. Estes três núcleos, quando analisados historicamente, estão interligados e, de alguma forma, são reflexos mútuos. Por isso, analisa Sarlo, quando os conflitos que marcavam a sociedade até então se extinguem, seus sujeitos políticos, entre eles os intelectuais, também perdem sua transcendência. Para a autora, as transformações pelas quais a sociedade foi passando exigia novos modelos, inclusive de intelectual. Já não aceitavam discursos portadores de valores universais. Surgem, então, dois tipos de intelectuais mais comuns: o conformado com a situação política existente em que a “transgressão [...] é vista como assumir um risco desnecessário ou como um resto de pensamento utópico que persiste apesar de seu arcaísmo.” (SARLO, 1993, p.5). Entre estes últimos encontram-se autores que ainda consideram teoria da dependência a única explicação possível para o subdesenvolvimento latino-americano. Analisando as considerações de Sarlo sobre o intelectual, podemos observar que estão estruturadas a partir da sua experiência concreta e por sua própria história de vida. Por isso, quando afirma que o discurso crítico precisa ser autônomo e não se subordinar à ação política, tal reflexão está marcada pela autocrítica que fez do seu passado de militante marxista, no período de ditadura argentina. Do mesmo modo, quando Sarlo assevera que vivemos em outros tempos e que o intelectual de hoje deve ir além do discurso, que precisa criar um cenário para sua enunciação, refere-se à disputa por espaço de enunciação com outros sujeitos como os jornalistas, âncoras de telejornais, comunicadores midiáticos, assim como outros meios. Com este raciocínio, Sarlo defende que a voz dos intelectuais contemporâneos seja 178 mais uma entre outras tantas, que não fale pelos outros, “os intelectuais, se ainda querem fazer algo que ninguém lhes pede, podem colaborar para que os que não se ouvem bem entre si, por razões de distância ou de traduzibilidade, se escutem.” (SARLO, 2001, p.220). Não podemos deixar de considerar que Sarlo leva em consideração que a aproximação do fim do século XX trouxe consigo novos questionamentos, até mesmo porque a conjuntura de então já não exigia uma postura unívoca de engajamento, passado o período dos “anos de chumbo”. Desta forma, pode-se observar no discurso intelectual uma nova forma de engajamento, uma adequação ideológica aos novos tempos pós-ditadura, pós-utopia ou como é mais conhecido o período que anuncia o século XXI, a pós-modernidade. Teóricos como Jean Baudrillard, Fredric Jameson, Jean-François Lyotard e David Harvey têm posicionamentos distintos para definir a pós-modernidade. Entretanto, confluem na ideia de caracterizá-la pela utilização da força da imagem na construção de novas identidades e no reforço do consumismo no atual estágio do capitalismo. Para que entendamos o pós-moderno, devemos partir da compreensão do que representou o conceito de moderno. Entretanto, não basta apenas a análise do conceito de modernidade, pois o próprio prefixo “pós” articula problemáticas situadas em diversas áreas. Historicamente, o que marca o fim da modernidade é o colapso causado pela frustração da expectativa quanto aos frutos da ciência, em grande medida essa frustração se deveu a alguns eventos que marcaram profundamente a sociedade no século XX, o principal deles foi a calamidade das duas Guerras Mundial. Na medida em que as expectativas criadas não se puderam realizar efetivamente, surgiram a frustração, o relativismo e o niilismo28 em nossa sociedade contemporânea. Em franca contraposição à modernidade, é a desilusão, a perda da esperança, a incerteza e a relatividade que configuraram o pensamento pós-moderno. A 28 Niilismo aqui entendido em seu sentido genérico, a saber, a corrente filosófica que não aceita a certeza como possibilidade de conhecer a realidade em si. Sobre a relação entre o niilismo e a pós-modernidade, conferir O Fim da Modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. VATTIMO, 2004. 179 ciência e o racionalismo já não são capazes de satisfazer aos anseios e responder aos questionamentos da sociedade, assim, há uma reação contra o estabelecimento Se não há mais otimismo quanto aos rumos da humanidade e, consequentemente, da cultura moderna, esse desencanto vem acompanhado da rejeição a discursos totalizantes. Portanto, a pós-modernidade configura-se como uma reação cultural, representada pela frustração e perda da confiança no potencial do homem e da sociedade. O conceito de pósmodernidade para Lyotard é um paradigma filosófico que representa “a incredulidade em relação às metanarrativas” 29 , isto é, a rejeição aos postulados que visavam explicar e legitimar as ideologias, tais como o cristianismo, o capitalismo, o socialismo, o progresso científico. Podemos também entender as metanarrativas como conceitos absolutos, filosofias que acreditavam que a razão e o progresso científico levariam o homem à felicidade, emancipando-o dos dogmas, mitos e superstições. Como no caso do socialismo marxista, que apregoava uma história impulsionada pelo confronto de classes contraditórias, a burguesia e o proletariado, que resultaria, ao fim da revolução do proletariado, numa sociedade sem classes, de plena liberdade e igualdade: o comunismo. Entretanto, a história provou que tais teorias não se mostraram a panacéia como se previa. Ao mesmo tempo em que a razão e a ciência melhoraram as condições de vida das pessoas, promovendo a cura para as doenças e a alfabetização em larga escala, também deram ao homem o poder de produzir armas de destruição em massa, como a bomba atômica. O socialismo, que inspirou tantas teorias e revoluções, como as que descrevemos neste trabalho, quando confrontado com a realidade, desencadeou regimes autoritários em muitos países como a antiga União Soviética, a China e Cuba. Suas populações ainda sofrem com restrições 29 SALATIEL, José Renato. Filosofia pós-moderna - Jean-François Lyotard e os regimes totalitários. http://www.midiaindependente.org/485876.shtml. Consultado em 20 de dezembro de 2010. 180 às liberdades civis e violações dos direitos humanos. Como demonstra a história recente latino-americana, este modelo ainda inspira governantes no século XXI. Por esta razão, instaurou-se um clima de desconfiança em relação a qualquer discurso que propusesse consensos universais, ou seja, projetos coletivos, como as revoluções, que vislumbrassem transformar a sociedade, como propunha Galeano e outros intelectuais latinoamericanos na década de 1970. Essa crise resulta numa visão incerta sobre o futuro, o que desautoriza qualquer ideologia ou reflexão baseada em conceitos de verdade universal. Destarte, a abertura política na América Latina, o fim da Guerra Fria, o desencanto com o modelo cubano, e consequentemente, o enfraquecimento das ideologias revolucionárias, além da ascensão dos valores individualistas, amorteceram a paixão pelo modelo de intelectual que buscava, através de seus atos públicos, aliarem moral e política. O engajamento intelectual contra as opressões e as injustiças que pretendia reduzir a distância entre teoria e prática revolucionária foi perdendo cada vez mais sua relevância, chegando a ser considerado anacrônico. Neste contexto, torna-se necessário questionar qual o papel do intelectual na sociedade pós-moderna. Se no século passado o intelectual atuava como porta-voz de grupos socialmente marginalizados, falando em nome deles, a mudança de paradigma exigia também uma nova perspectiva da atuação dos intelectuais. Em Os intelectuais e o poder este foi o tema central da famosa discussão entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. No artigo, Foucault vislumbra uma nova forma de engajamento do intelectual diferente da que vigorava na em sua época: Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura [...] Os próprios intelectuais fazem parte desse sistema de poder, a “ideia” de que eles são agentes da “consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar 181 “um pouco na frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento; na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso. (FOUCAULT, 1985, p.71.). Foucault sublinha que os intelectuais contemporâneos reconhecem que existe um sistema de poder que alija o direito à palavra “das massas”, e que eles próprios fazem parte do sistema quando se apresentam como porta-vozes das classes populares. Esta constatação também nega a possibilidade de uma verdade absoluta, assim como a necessidade de lutar contra esta estrutura de poder que homogeneíza esta verdade. A diferença do modelo anterior é que não há mais uma verdade comum sobre esses valores. Os filósofos franceses têm como foco não apenas identificar o papel do intelectual, mas também sua forma de atuação como representantes das massas. Deleuze sublinha a “indignidade de falar pelos outros”, destacando que não bastava apenas a dar voz aos sujeitos silenciados, abstendo-se do debate, mas também analisar os mecanismos de sua representação, que a desqualificam. Saúl Sosnowski sustenta que os desafios dos intelectuais são cada vez maiores, pois os novos tempos demandam que assumam a responsabilidade de uma proposta construtiva. O escritor não vê com bons olhos a atitude dos intelectuais contemporâneos, afirma que a representação do intelectual latino-americano mudou muito desde a década de 1950, quando se reconhecia o intelectual como comprometido: nos anos 1960, “se lo respetaba por emitir la voz crítica de una conciencia social; en los `70, el revolucionario portó armas; en los `80, quien sobrevivió, transó para alcanzar la socialdemocracia de los `90 como tabla de salvación.” (1998, p.29). O crítico literário lembra o cenário político que convocava à intelectualidade ao compromisso e conclamava todos à ação, tempos marcados pela [...] escisión dada entre la sacralización del territorio americano, donde debía ejercerse en cuerpo presente la lucha por el socialismo, y latitudes pródigas a enfermizos aburguesamientos. [...] se anunciaba en una retórica que valoraba el abandono de los valores de una clase y la adopción de aquella que regiría el destino de la humanidad. Nada era utópico; todo estaba al alcance de las manos; sólo la conversión podría legitimar el acceso al “hombre nuevo”. (SOSNOWSKI, 1998, p. 28.). 182 O contexto histórico dos anos 1960 e 70 convidavam à utopia sem considerá-la como tal, e a Revolução Cubana era prova cabal disto. Sosnowski enfatiza que muitos destes intelectuais, tendo cumprido com seus ideais da juventude, hoje ocupam gabinetes de governo e “entregan sus palabras a cambio de un reconocimiento metálico; por un metal que, por cierto, es menos dañino que el que segó las vidas de los antiguos compañeros de ruta.” (1998, p.29). Para o crítico o literário, atualmente é difícil distinguir em nome de quem falam: “A quiénes representan más allá de su circuito imediato.” (1998, p.29). Também defende que não se menospreze a memória e nem a releguem apenas aos que sofreram e sofrem até hoje as perdas como “las Madres y las Abuelas y los hijos” da Plaza de Mayo. Atualmente, no segundo milênio, o que se questiona já não é mais a responsabilidade do intelectual na sociedade, mas, sobretudo, o papel do intelectual dentro do sistema do qual é parte integrante. A mudança de paradigma, entretanto, longe de ignorar a importância dos intelectuais nas últimas décadas, reforça sua contribuição no estabelecimento e aprofundamento dos regimes democráticos. Foi, em grande medida, o desenvolvimento de uma consciência política nos países latino-americanos que possibilitou a ascensão de grupos sociais formados por pessoas humildes, que tradicionalmente haviam sido mantidas à margem da política e da sociedade; a ascensão de um operário e de um indígena à presidência do Brasil e da Bolívia, respectivamente, são exemplos singulares das transformações por que passou a América Latina. Esta nova configuração socioeconômica em nível mundial trouxe consigo outras teorias sistêmicas como o neoliberalismo e o neo-socialismo: O globalismo tanto desafia as ciências como as ideologias e as utopias. Os mesmos processos e estruturas de alcance mundial, que abalam os quadros sociais e mentais de referência abrem um vasto panorama de dilemas e de horizontes, no qual se criam e recriam correntes de pensamento de alcance global. (IANNI, 1999, p.215). 183 Tais correntes de pensamento buscariam explicar as transformações por que passa a sociedade global, contemplando vários segmentos da realidade social mundial. Já não é possível pensar o local ou o nacional fora de um contexto global. Para Ianni, a globalização é um fenômeno atrelado às relações econômicas desiguais fomentadas pelo neoliberalismo, esta corrente de pensamento seria responsável pelo desequilíbrio nas relações comerciais entre países ricos e pobres, o que geraria: O desemprego estrutural envolve o pauperismo e a lumpenização; as xenofobias, os etnicismos e o racismo atingem principalmente os setores sociais assalariados [...] intensifica-se a privatização da terra, do mar e do ar [...] O ecologismo, ou ambientalismo, é também outra manifestação [...] da crescente e reiterada privatização dos recursos naturais, principalmente pelas corporações transnacionais. (IANNI, 1999, p.223). O neoliberalismo é apresentado como a nova (velha) face do capitalismo. Nesta interpretação pode-se vislumbrar uma refutação à noção de fim da história, proposta pelo cientista político norte-americano Francis Fukuyama, que vinculava na década de 1990 a queda do Muro de Berlin, em 1989, à culminação do debate ideológico sobre as organizações econômicas, sociais e políticas do mundo (FUKUYAMA, 2002, p. 12). Para Fukuyama o liberalismo havia saído vitorioso da disputa entre o socialismo e o comunismo. São flagrantes as coincidências do discurso de Ianni com o de Galeano em Las venas. Poder-se-ia interpretar como uma nova leitura da teoria da dependência dos anos 1970. Os inimigos a combater são as privatizações da nova ordem econômica que aumentaram seu alcance, se antes o socialismo pregava necessidade de uma reforma agrária, agora é mister que também se redistribua o mar, o ar e todo o mais que foi usurpado pela iniciativa privada, visto que, como sublinha Ianni, o aumento do número das classes subalternas, “que os neoliberais denominam ‘pobreza’, ‘miséria’, [...] ou ‘classes perigosas’” (IANNI, 1999, p.223) torna o mundo cada vez mais desigual. Para combater as mazelas geradas pelo globalismo, “o socialismo se transfigura em neosocialismo”, que nasce dos movimentos da sociedade civil mundial, as ONGs, dos Fóruns 184 Globais com o objetivo de superar o capitalismo pelo “contraponto das forças sociais que agitam as configurações e os movimentos da sociedade global”. (Ibidem, p.35). Observamos nitidamente o renascimento, se é que já morreu alguma vez, de uma “nova” esquerda, não apenas latino-americana, mas globalizada, que busca na integração uma ferramenta para enfrentar localmente a globalização. O ensaísta e poeta argentino Rafael Bielsa defende que umas das formas que a América Latina encontrou para marcar posição em relação ao resto do mundo foram os discurso de integração dos intelectuais contemporâneos que subjazem a configuração dos mercados de livre comércio no continente, principalmente o Mercosul. Analisando essa postura Jorge Carlos Guerrero comenta: [...] el Mercosur tomaría el relevo de la nación, ejecutante desde su fundación de un proyecto modernizador, y vendría, en segundo lugar, a encaminar la idea bolivariana de unidad a su realización. [...] la integración, asentada tanto en lo económico y político como en lo cultural, vendría a transformar el proyecto histórico. (2010, p.26). O projeto histórico a que se refere Guerrero é o discurso de integração da América Latina, inspirado na “tradición cultural y política” de Simón Bolívar e no dominicano Pedro Henríquez Ureña “como descifrador de um proyecto cultural”. Nesta perspectiva, haveria uma relação inequívoca entre poder político e autoridade cultural que sustentaria a ideia de nação como narração. (BHABHA apud GUERERO, 2010, p.27). Portanto, os intelectuais desempenharam e ainda desempenham um papel importante na constituição dos discursos de integração latino-americana. Por isso, muitos partidos políticos e movimentos sociais contemporâneos são oriundos dos grupos engajados do final do século XX. No contexto atual, o exercício da democracia ganha ainda mais importância quando vislumbramos recaídas autoritárias na África, na Ásia, no Oriente Médio e até, contraditoriamente, na própria esquerda socialista na América Latina. A manutenção de discursos engajados se propõe hoje a não permitir que o caminho da soberania popular, pavimentado à custa de muito derramamento de sangue na América Latina, 185 curve-se ao autoritarismo estéreo e que grupos, antes subalternos, encastelem-se no poder, repetindo os erros do passado. Não é por acaso que ao sul do continente os regimes democráticos têm mantido vigilância no avanço do populismo e, concomitantemente, sem revanchismo, julgado os crimes cometidos pelas ditaduras militares que aterrorizaram a região nas décadas de 1960 a 1980. Na Argentina, Chile, Peru e Uruguai ex-ditadores foram presos, leis de anistia revogadas e processos reabertos contra quem torturou e assassinou no período autoritário. Infelizmente, no Brasil ainda não existe a consciência dos parlamentares, talvez por motivos escusos, da importância da revisão da Lei da Anistia e da necessidade de revelar os documentos do período da ditadura no país, assim como ocorreu nos países vizinhos. Tramita no congresso brasileiro um processo que pode levar à criação de uma Comissão Nacional da Verdade, com o objetivo de apurar casos de violação de direitos humanos durante o regime militar, incluindo o levantamento de possíveis responsáveis. Espera-se que a Comissão seja aprovada antes que todos os envolvidos já tenham morrido. Baseados na história dos intelectuais latino-americanos, é possível afirmar que estamos no limiar de uma nova consciência política no continente. Esta classe de homens letrados tem feito uma espécie de ‘balanço’ de sua experiência de vida e de escritor. Se o modelo socialista representado por Cuba não correspondeu à utopia, frustrado também ficou seu discurso libertário, chegando a soar anacrônico na contemporaneidade. As transformações no cenário sócio-político da região configuraram um novo modo do intelectual pensar a América Latina. Se as trincheiras da revolução já não contam com sua pena afiada, seu engajamento continua na defesa dos ideais de justiça e liberdade. Em grande parte, essa transformação se dará como consequência natural dos tempos de desencantamento político e de imprevisibilidades históricas. Esse não-lugar em que se encontra o intelectual latino-americano, o fim das ideologias, conduziu-o a um relativo silêncio, substituído pela produção e de transmissão do conhecimento, agora a serviço dos 186 direitos humanos. Eduardo Galeano é um bom exemplo desta mudança de paradigma. O aparente abandono ideológico que se observa em obras mais recentes como Futebol ao Sol e à Sombra (2004), uma antologia de crônicas sobre o esporte, pode ser compreendido como uma outra faceta do escritor Galeano não-engajado, demonstrando que o autor está consciente de seu papel como cidadão e como escritor, mas que os papéis já não se confundem como antes. Entretanto, até mesmo em sua obra mais recente, Espejos (2008), Galeano evidencia seu olhar crítico, irônico, melancólico e lírico sobre as injustiças impetradas pelos homens desde as origens da humanidade. Se o cenário sócio-político latino-americano no século XXI é bastante diferente daquele que originou o escritor engajado de Las venas abiertas de América Latina, também diversa é a forma de expressão literária que observamos mais recentemente em suas obras, em que predominam mais dúvidas que certezas, que convidam o leitor a desfrutar da poesia que há no mundo, sem descuidar da defesa de uma sociedade mais justa. 3.3. GALEANO, UM ESCRITOR-LEITOR Las venas abiertas de América Latina é uma daquelas obras que poderíamos chamar de imprescindíveis para os interessados na história e na cultura latino-americana. Isto se deve tanto a seus acertos quanto a suas lacunas, que permitem estabelecer um contraponto. Após 40 anos de sua primeira publicação, a obra é um dos maiores êxitos da literatura do continente. Este sucesso ímpar tem entre suas maiores qualidades a acessibilidade vocabular utilizada para tratar de matérias enfadonhas, como costumam ser as teorias políticas e econômicas. Las venas é um ensaio extenso, por conta disso, o número de leitores que efetivamente percorreram todas as suas páginas é bem menor do que os que tecem comentários generalizados, justificados por citações descontextualizadas, que não refletem a profundidade da reflexão proposta na obra. Parece-nos que uma análise dos ensaios, um a um, é capaz de orientar de forma mais realista tanto as condições de sua produção como de recepção. 187 A escrita de Las venas exigiu de Galeano uma profunda pesquisa (em bibliotecas, museus e em viagens pelo continente) sobre o contexto histórico latino-americano. Entretanto, mais que uma mera sucessão de acontecimentos, os relatos tem um estilo cuidadoso em que a forma de narrar também é um dos elementos responsáveis pelo seu êxito. Em suas páginas é possível observar um discurso apaixonado e indignado contra os exploradores de antanho e do século XX. O que se observa nitidamente em Las venas é que o narrador, identificado com o próprio autor, é, sobretudo, um leitor. Cada ensaio é minuciosamente engendrado sob uma perspectiva própria, mas sempre subsidiada por uma série de leituras criteriosamente selecionadas. Sua orientação política, filiação e compromisso estão explicitamente verbalizados nas suas escolhas. Das centenas de fontes consultadas, levando em consideração a perspectiva de documento da Escola dos Annales, quase sua totalidade está circunscrita à defesa do socialismo e do revisionismo histórico. Galeano é um leitor atento às questões de sua época, um questionador do momento por que passava a América Latina. É um escritor que conversa com seu leitor. Nesse diálogo, o leitor/interlocutor é convidado a refletir, a questionar a história e ordem estabelecida. Entretanto, mais que apenas observar, Galeano exorta seus leitores a assumir outra visão de mundo e, consequentemente, a atuar sobre a condição imposta. Como o autor sublinha na introdução, “este libro, que quiere ofrecer una história del saqueo”, não apenas uma história, mas, uma outra história, a dos derrotados. Assim, ainda que sua fonte de reflexão declarada seja a História, sua perspectiva é a do excluído, dos indígenas, dos negros, dos analfabetos, da massa que não teve voz na narração histórica estabelecida pelo poder dos vencedores que instituíram o modelo que se ensina na escola. A esse respeito, é interessante destacar que em 2011 o governo da Bolívia incluiu entre os livros textos das escolas de todo país a obra Las venas. Segundo explicou um funcionário do 188 governo, “el contenido de Las venas abiertas de América Latina es vital para comprender el actual proceso de cambio en la nación andina.” 30 O texto de Galeano há muito compõe a bibliografia de cursos de graduação, mas esta é a primeira vez que seu livro é adotado em segmentos do ensino fundamental. Esta medida, obviamente, obedece a um posicionamento ideológico do presidente Evo Morales de adesão ao modelo bolivariano defendido pelo presidente da Venezuela Hugo Chávez. Como será analisado posteriormente, o “chavismo” está baseado na teoria da dependência, um dos norteadores da obra de Galeano. Levando em consideração a intertextualidade como uma das principais características das obras de Galeano, para citar os exemplos de Las venas e Memoria del Fuego, 350 e 1063 fontes documentais consultadas, respectivamente, poderíamos denominar tais obras como textos-leitura, como observa Roland Barthes (2004). Esta intertextualidade denota uma relação dialógica ou polêmica, estabelecida entre o texto de Galeano e uma série de outros textos concretos. Galeano, como todo leitor, “imprime” sua postura sobre tais fontes e a veicula na escrita de seu ensaio. Neste sentido, a obra é uma releitura ou a reescritura de suas leituras. Não que a reescritura, entendida como escrita baseada em leituras, seja um atributo de poucos autores. Barthes, comentando a relação entre leitura e escritura no ensaio A Morte do Autor (2004), afirma que a unidade do texto reside não em seu autor, sua origem, mas no seu destino. O teórico francês proclama, desta forma, o “nascimento do leitor”, somente possível com a exclusão da ideia ou a morte do autor. Barthes defende que o conceito tradicional de autor já não determina com precisão um sujeito criador de um texto, para o crítico literário, devido ao fluxo de informações a que é submetido o indivíduo na modernidade, seria mais propício designá-lo escritor, cuja habilidade seria combinar textos anteriores. Portanto, toda escritura se basearia em outros textos, ou seja, seria a reescritura de um texto pré-concebido. Segundo o teórico, um texto literário ou uma obra de arte, quando 30 Prensa Latina. www.prensa-latina.cu/index.php?option=com_content&task=view&id=221279&Itemid=1 Consultado em 12 de outubro de 2010. 189 circula em uma comunidade, já não pertence ao autor, mas ao leitor. Neste contexto, já não se pode pensar na intenção do autor, antes, em multiplicidade de significados e de diversos tipos de recepção. A crítica literária Leyla Perrone-Moisés, no abrangente estudo Flores da escrivaninha, reflete sobre a natureza teórica do fenômeno da criação literária e sobre a constituição dos conceitos de intertextualidade e dialogismo. Para a autora, os textos são reflexos de variadas vozes, que mantêm ligações inter e intratextuais: A literatura se produz num constante dialogo de textos, por retomadas, empréstimos e trocas; a literatura nasce da literatura. Cada obra nova é uma continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores, dos gêneros e temas já existentes. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea. (1990, p. 94). Esta continuidade que observa a autora está baseada nos conceito de dialogismo de Mikhail Bakhtin, em que se estabelece um diálogo interno entre uma pluralidade de vozes (polifonia) que não expressam uma verdade, um argumento de autoridade. Posteriormente, Julia Kristeva retomaria os estudos de Bakhtin para formular a teoria da intertextualidade, “todo texto se constrói como um mosaico de citações; todo texto é absorção e transformação de textos; ele é uma escritura-réplica (função e negação) de outro (dos outros) texto (s)”. (Apud PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 94). Nesta perspectiva, a intertextualidade é inerente à criação literária. Tal concepção é levada em consideração quando Barthes refuta a ideia moderna de que o autor é o centro de todos os atributos do texto, advindo dele as possibilidades de leitura, visto que o autor é concebido como alguém que nutre a obra, mantendo uma relação de filiação. Para o crítico, na modernidade deve-se pensar na figura do escritor, em que a obra não guarda qualquer relação de dependência. Barthes rechaça a ideia de testemunho autorizado, de conhecimento único, a favor da multiplicidade de interpretações que pode ser encontrada tanto dentro como fora do texto: 190 Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico (que seria a "mensagem" do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura. (BARTHES, 2004, p. 59). Na análise posterior que faremos dos ensaios de Galeano, ficará patente o uso de textos que “concordam” e “contrastam. E como afirma Barthes, constituem-se em “um tecido de citações” provenientes de diversas fontes. Ao escritor/leitor Galeano, resta-lhe “coser” outros textos pré-concebidos. Sobre a importância das fontes na constituição de um novo texto Perrone-Moisés, baseada no pressuposto da intertextualidade de Kristeva, explica: [...] as ‘fontes’ deixam de interessar por elas mesmas, elas só se interessam para que possa se verificar como elas foram usadas, transformadas. As ‘influências’ não se reduzem a um fenômeno simples de recepção passiva, mas são um confronto produtivo com o Outro, sem que se estabeleçam hierarquias valorativas em termos de anterioridade-posterioridade, originalidade e imitação. (PERRONE-MOISÉS, 1990, p.94.) (Grifos da autora). Comentando a multiplicidade de citações no reiterado processo de reescritura, Barthes assinala as citações como um sistema de pluralidade textual, em que as referências se encontram nas práticas culturais da sociedade, e onde a literatura passa ser uma prática a mais das que se encontram dentro de todo o sistema sociocultural: [...] um texto está formado por escrituras múltiplas, procedentes de várias culturas que, umas com as outras, estabelecem um diálogo, uma parodia, uma contestação; mas existe um lugar em que se recolhe toda essa multiplicidade, e esse lugar não é o autor, como até hoje se afirmou, senão o leitor: o leitor é o espaço em que se inscrevem, sem que se perda nem uma, todas as citações que constituem uma escritura, a unidade do texto não está em sua origem mas em seu destino. (BARTHES, 2004, p.71). Com tal afirmação, o teórico reforça a importância da recepção/leitura na interpretação dos sentidos. Para Barthes o texto é um grande inventário de outros textos, de outras leituras com as quais estabelece um diálogo. Entretanto, somente o leitor é capaz de conectá-los a um sentido, e nenhum leitor é igual ao outro, logo, o texto não tem um sentido unívoco, mas se 191 constitui como unidade semântica em cada leitura. Este conceito bartheano de autoria atribuída ao leitor pode ser aplicado ao leitor/escritor Galeano, haja vista a relação de cumplicidade que estabelece com suas fontes: Na cabeça de cada texto estão indicados o ano e o lugar onde ocorreu o que o episódio narra. No pé, entre parênteses, os números indicam as principais obras que o autor consultou em busca de informação e sinais de referência. A lista das fontes documentais é oferecida ao final do volume. (GALEANO, 1986a, Prólogo). Nos prólogos da trilogia Memória do Fogo, intitulados “Este livro”, Galeano explicita que sua escritura é realizada a partir de outros textos com os quais dialoga, cita-os, destaca pontos que lhe parecem relevantes. O prólogo serve como um manual de instruções para que se compreendam as várias formas de citação e referência que são usadas no texto. Mas os prólogos não são iguais nas três obras. O trecho citado é de As caras e as máscaras, segundo volume. No Prólogo de Os nascimentos, Galeano explica: “Para que a história respire e o leitor a sinta viva, o autor recriou, à sua maneira, os dados disponíveis de cada episódio; mas tanto os mitos quanto as vinhetas históricas foram elaborados sobre uma base rigorosa de documentos.” (1984, p.20). Como nos demais tomos da trilogia, o autor sublinha o uso das fontes de consulta, destacando seu papel como “recriador” da história, sob seu ponto de vista. No terceiro volume, diferentemente dos tomos anteriores, o autor esclarece que a obra: “Não se trata de uma antologia, e sim de uma criação literária, que se apóia em bases documentadas, mas que se move com inteira liberdade.” (1988, XIX). Se no primeiro volume destacava seu papel como recriador de textos sobre “uma base rigorosa de documentos”; no último da série, faz questão de sublinhar que são textos originais, frutos de sua “criação literária”. Aqui se manifesta explicitamente como escritor de literatura. Em Las venas, ainda que se trate de um texto ensaístico, e, portanto, com uma estrutura formal flexível, em que se observam marcas idiossincráticas, como o uso da 1ª pessoa do singular, como ocorre no apêndice “Siete años después”, também se pode perceber 192 que Eduardo Galeano se mostra um escritor, nos moldes bartheanos, aquele que lê, seleciona a informação e os dados que são pertinentes a seu relato e escreve a partir do texto alheio. Na leitura de Las venas, percebemos um imenso trabalho de pesquisa e seleção. Em cada parágrafo o autor se esmerou em escoimar qualquer argumento que contradissesse seu ponto de vista, sua leitura marxista de uma sociedade justa. Neste sentido, podemos observar até mesmo uma analogia na forma de documentar-se para a escritura de suas obras entre Karl Marx e Galeano. Na biografia do teórico do socialismo somos informados que, após deixar seu país em consequência das perseguições motivadas por seus artigos radical-democratas publicados no Jornal Renano, em Paris e depois em Londres, dedicou-se a vastos estudos econômicos e históricos, sendo frequentador assíduo da sala de leituras do British Museum. Esta mesma imagem de pesquisador de arquivos, de um leitor compulsivo, pode ser vislumbrada na leitura dos ensaios do também jornalista Galeano. Consultando a extensa bibliografia de Las venas, percebe-se claramente que sua escolha obedece a um viés ideológico socialista. No que se refere às suas fontes de consulta, os textos foram conscientemente escolhidos, a fim de justificar a tese do escritor. Como já sublinhamos, Galeano contempla uma gama de fontes de variadas origens, incluindo compêndios que se debruçavam sobre textos de épocas longínquas, como os dos religiosos espanhóis Bernardino de Sahagún e do padre Bartolomé de Las Casas, que defendiam a causa indígena contra os abusos dos mineiros e encomendeiros. A seleção das citações de Galeano obedecia a seu estilo irreverente sarcástico, como no seguinte trecho: “los indios preferían ir al infierno para no encontrarse con los cristianos.” (p.64).31 Entretanto, a maior parte da bibliografia foi composta por pesquisas, ensaios, jornais, revistas, histórias, economia, estudos sócio-antropológicos sobre a América Latina. Para corroborar sua “base rigorosa de documentos”, também serviram de fonte muitos romances da literatura latino-americana, 31 Quando a referência assinalar apenas o número da página, trata-se de Las venas abiertas de América Latina. La Habana: Siglo XXI, 1991. 193 como no caso de seu comentário sobre a crise açucareira no Haiti: “Hay una novela espléndida de Alejo Carpentier, El reino de este mundo (Montevideo, 1966), sobre este alucinante período de la vida de Haití. Contiene una recreación perfecta de las andanzas de Paulina y su marido por el Caribe.” (p. 104). Como se observa na transcrição citada, Galeano registra as referências das inúmeras fontes em que se baseou para escrever ou reescrever. Não há dúvida de que uma análise acurada das fontes utilizadas como referência para a escrita de Las venas é matéria para outra tese. Ainda assim, não é possível analisar a obra sem que nos detenhamos na apreciação de algumas das referências que são, em última instância, a base da escritura da obra. Portanto, ao identificarmos os principais temas e fontes bibliográficas, desvelamos os critérios de seleção do escritor, consequentemente, vislumbramos as leituras e interpretações que deram origem ao trabalho de reescritura que constitui o cerne de Las venas. Eduardo Galeano é um escritor erudito, grande conhecedor de literatura e falante de línguas estrangeiras, o que lhe possibilitou ler no original suas fontes. Também é um aventureiro, muitas informações da obra foram coletadas in loco, nas viagens que fez durante os quatro anos que passou pesquisando a América Latina. O número total de notas explicativas e/ou referências bibliográficas ao longo da obra é de 482, dispostas no rodapé das páginas. Entre estas também se encontram notas explicativas, que servem como paratextos, como afirma Gerard Genette (1997), auxiliando ou orientando as condições de recepção. Para que tenhamos uma ideia do universo que constituem essas referências, apresentamos os seguintes números: 266 fontes são obras, artigos e relatórios que tratam de economia política (mais de 50% do total). Documentos históricos ou releituras da história são os textos que ocupam numericamente o segundo lugar em citações, com 85 referências. 194 Em ambos os casos, a língua que predomina nos textos consultados é o espanhol, 199 e 65, respectivamente. Em ordem decrescente, as obras consultadas em outros idiomas são o inglês, com 51 referências, o português, com 34 e o francês com 06. Tais referências abarcam períodos cronologicamente distintos, desde textos como os de Las Casas e Sahagún até obras inéditas da década de 1970. As demais leituras de Galeano dividem-se entre geopolítica, antropologia, sociologia, literatura etc. À guisa de exemplo, citamos algumas destas fontes: Jornais: Wall Street Journal, International Commerce, Miami Herald, Columbia Journal of World Business, New York Times, New York Post (EUA); Gaceta de la Universidad de Montevideo, Diario Ya (Uruguai), Diario la Razón (Argentina); Le Monde (França); Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, Correio do Povo, O globo, Correio da Manhã, O Estado de São Paulo (Brasil). Revistas: Reader´s Digest, Revista Time, Fortune Magazine (EUA); Revista de História Social, Revista de Historia Americana y Argentina, Revista Visión (Argentina); Revista Marcha (Uruguai), Revista de Ciências Sociais da UFRJ, Revista Veja, Revista Fator (Brasil). Literatura: José Hernández; Domingo Faustino Sarmiento; Ricardo Güiraldes; José Carlos Mariátegui, Pablo Neruda; Alejo Carpentier, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Jorge Amado. Organizações: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), Organização das nações Unidas para Agricultura e Alimentação, Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização dos Países Produtores de 195 Petróleo (OPEP), Associação Latino-americana de Livre Comercio (ALALC), Mercado Comum Centroamericano (MCC), Organização dos Estados Americanos (OEA). Bancos: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial, Banco Nacional de Comercio do México, Banco Central Brasileiro. Outras fontes: Biografias dos presidentes argentino Juan Manuel Rosas e do paraguaio Solano Lópes; Declaração do presidente chileno Salvador Allende; Conferência de imprensa do presidente uruguaio Aparicio Méndez. Também compõem as referências artigos acadêmicos inéditos, documentos emitidos por centrais sindicais, agências de notícias, entrevistas, ensaios, relatos, testemunhos, autores anônimos, informantes indígenas. Sublinhamos que as referências listadas acima circunscrevem apenas notas de rodapé, estão excluídas tantas outras embutidas no texto corrente de Las venas. Como observado, a vasta bibliografia trata enfaticamente de temas ligados à economia política, e não por acaso, visto que Galeano seleciona minuciosamente os dados estatísticos de suas leituras para corroborar a defesa de uma visão alternativa à história oficial. O escritor uruguaio defende uma tese que procura desenvolver de forma substancial (documentada) e inédita na elaboração de um texto ensaístico, que retoma o fervor revolucionário desse gênero literário que já tem consolidado na América Latina uma tradição. O alicerce de seu pensamento em Las venas é a consideração do germe do capitalismo, plantado sob a forma da exploração colonial. Esta ideia está atrelada à teoria da dependência, que considera a exploração econômica de países estrangeiros como a causa do fracasso financeiro na América Latina. Para explicar esse processo, Galeano percorrerá os meandros históricos que levaram o continente à situação socioeconômica na qual se encontrava na época da publicação da obra. 196 Não é o objetivo desta investigação discutir se as teses defendidas pelo autor são plausíveis ou não. Ainda assim, tampouco podemos nos furtar a obrigação de uma reflexão sobre o tema. Como é sabido, o capitalismo é um sistema econômico complexo que teve e tem o papel preponderante nos destinos históricos do mundo atual. Poder-se-ia até especular se esse sistema já não existia desde que o ser humano criou o conceito de moeda, gerando uma revolução sem precedentes nas relações econômicas na sociedade. O que Galeano relata em Las venas é o processo de implantação da lógica capitalista no novo continente, produzindo desigualdades, injustiças, má distribuição de renda, desgaste do meio ambiente e outros efeitos negativos no plano do bem-estar das populações nativas, uma vez que a força motora do capitalismo é a exploração do trabalho humano e dos recursos naturais. Como observaremos posteriormente, em Las venas se descrevem as manifestações mais exacerbadas da exploração colonial, produzindo hecatombes em progressão geométrica, devastação de sociedades inteiras, guerras de conquista e de superposição hegemônica. É nessa descrição catastrófica do capitalismo que Galeano sustenta sua crítica ao sistema. Deste entendimento também são alguns teóricos que buscam a explicação para o estado socioeconômico da América Latina. Esta proposta de interpretação do subdesenvolvimento latino-americano coincide, pelo menos em parte, com o argumento da teoria da dependência, que surge como uma ideologia da esquerda socialista que rejeita a ideia de que o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos está atrelado ao processo de modernização liberal. Esta teoria teve ampla repercussão e prestígio entre a intelectualidade latino-americana no final da década de 1960 e início de 1970. Entre as personalidades que merecem distinção nos agradecimentos em Las venas abiertas de América Latina, encontra-se o economista e sociólogo alemão Andreas Gunder Frank, um dos criadores da teoria da dependência. Para o economista, o paradigma da modernização não ajudava os países pobres. Representava uma relação colonial entre 197 metrópoles (países ricos) e satélites (países pobres). A integração desses países subdesenvolvidos ao sistema capitalista mundial os levava justamente ao subdesenvolvimento que buscavam combater. Sem entrar nos méritos da visão ideológica de Galeano, não se pode negar que a relação de forças é característica inerente às relações econômicas, seja ela capitalista ou qualquer outra. Por isso, a ideia de que exista dependência é objetivamente inquestionável. Entretanto, como assinala Luiz Toledo Machado: A rigor, não existe uma teoria da dependência, mas simplesmente a dependência dentro do sistema internacional de relações de força e poder. O que se pretendeu chamar de teoria da dependência é uma obviedade histórica; uma tentativa de nova versão do modelo neocolonial, já descrito e conhecido desde o século XIX quando, então, o sistema político das nações hegemônicas impôs às ex-colônias um novo modelo sócio-econômico e político de exploração em nome do liberalismo triunfante. (MACHADO, 1999. p. 12). (Grifos do autor). Esse viés defendido por Machado corrobora a teoria da dependência, ainda que não concorde que seja uma nova forma de exploração, mas a continuidade de um processo levado a cabo desde a chegada dos europeus no continente. É justamente sobre este processo de expropriação que Galeano quer demonstrar, exaustivamente, que a situação socioeconômica na América Latina é consequência da política colonial e de sua continuidade nos períodos subsequentes. A teoria da dependência talvez seja uma das retóricas latino-americanas mais difundidas no meio intelectual. Esta teoria teve um predomínio majoritário no âmbito universitário, entre os formadores de opinião, principalmente nas cátedras de sociologia e economia política, que acabaram por influenciar parte da intelectualidade e da opinião pública do continente. Ainda que na atualidade a teoria da dependência já não conte com tantos seguidores, sua influência continua sendo tenaz na chamada esquerda latino-americana. Las venas, em boa medida, é a grande responsável pela disseminação desta teoria não só na América Latina como também em outros continentes, visto que foi traduzida em vários idiomas, e que suas 198 inúmeras edições serviram de texto basilar sobre a historia latino-americana em numerosas universidades dos Estados Unidos e da Europa. Posteriormente, quando analisarmos capítulo a capítulo Las venas, poderemos observar que a teoria da dependência constitui o arcabouço teórico defendido por Galeano para explicar o atraso latino-americano. Mesmo na contemporaneidade, com o renascimento do populismo na chamada doutrina bolivariana, algumas “verdades históricas” dos séculos XIX e XX são retomadas e reforçadas no imaginário coletivo latino-americano, alcançando todas as camadas sociais. Para tal disseminação, a força da mídia é inexorável e tem papel preponderante, servindo ao grupo social e econômico que esteja no poder. Um bom exemplo é o uso da figura de Simón Bolívar e de seu ideário libertador em toda América Latina. Não cabe em nossa ponderação nenhum juízo de valor, apenas frisamos que boa parte da retórica há muito explorada na América Latina parte ou cria novos clichês de elevado valor simbólico, enquanto outros servem para alimentar antigas contradições que dividem a sociedade latino-americana. O que se pretende ressaltar é a máxima relevância do questionamento, da reflexão, sem apelo apenas à sensibilidade. Portanto, é importante reduzir o valor da retórica, por mais belas e tocantes possam ser as metáforas. Como sublinhamos anteriormente, a seleção da bibliografia atende a um declarado objetivo de demonstrar uma história alternativa, por isso, suas referências estão pautadas em arquivos de escritores e intelectuais da esquerda engajada à causa socialista, defensores do modelo de governo adotado em Cuba em 1959, pós-revolução. Estes escritores alimentavam o sonho de uma América Latina unida, Galeano em Las venas demonstra que essa unidade do continente foi concretizada apenas como modelo de exploração em épocas distintas: Tres edades históricas distintas - mercantilismo, feudalismo, esclavitud - se combinaban así en una sola unidad económica y social, pero era el mercado internacional quien estaba en el centro de la constelación de poder que el sistema de plantaciones integró desde temprano. (GALEANO, 1991, p. 91-2). 199 Para que essa unidade exploratória se convertesse no fortalecimento do continente, Galeano divide as três Américas em apenas duas: a do Norte, anglo-saxônica, e a Latina. Com uma pergunta retórica explica sua subdivisão: “¿Por qué el norte es rico y el sur pobre? El río Bravo señala mucho más que una frontera geográfica.” (p. 213). No último ensaio da primeira edição, o escritor conclui seu raciocínio: Para que el imperialismo norteamericano pueda, hoy día, integrar para reinar en América Latina, fue necesario que ayer el Imperio británico contribuyera a dividirnos con los mismos fines. Un archipiélago de países, desconectados entre sí, nació como consecuencia de la frustración de nuestra unidad nacional. (p.431). Eduardo Galeano vê no esfacelamento da unidade latino-americana pré-colonial a debilidade que levou à condição de subdesenvolvimento. Acredita que um novo projeto de unidade é a força motriz para a transformação econômica e social do continente. Galeano alentava o sonho de uma América Latina unida “un solo espacio en la imaginación y la esperanza” como defendiam “Simón Bolívar, José Artigas y José de San Martín” (p.432). Estes personagens históricos pensavam numa América espanhola unida, Galeano espera uma integração mais abrangente que inclua também os países não hispânicos. Por isso é importante destacar em Las venas a consideração do Brasil como parte indissociável da América Latina. A integração da América Latina é um dos grandes eixos norteadores em torno dos quais se debate temas como a identidade, a nação e o latino-americanismo. No final do século XIX e no transcorrer do seguinte, podemos observar que a literatura nos oferece diferentes perspectivas sobre a noção de integração latino-americana. O próprio conceito de América Latina que incluísse o Brasil não era postulado por intelectuais e governos hispanoamericanos e brasileiros até meados do século XX, a expressão referia-se somente à América hispânica. Galeano, ao incluir países que não faziam parte da América espanhola, segue uma tradição intelectual latino-americana iniciada pelo argentino Manuel Baldomero Ugarte (1875-1951), que escreveu artigos em que defendia uma América Latina unida em oposição 200 ao imperialismo norte-americano. Ugarte afirma que o Brasil é simplesmente “una variante especial” de “La Gran España” e deve ser considerado e tratado como “parte integrante da nossa família de nações [América Latina], como parte do ideal vindo da península Hispânica”. Não pode existir um “latino-americanismo parcial”. (Apud BETHELL, 2009, p.11). Entretanto, a inclusão do Brasil na construção discursiva latino-americanista estava longe de constituir uma unanimidade. No estudo sobre os discursos de integração latinoamericana, escritor uruguaio Jorge Carlos Guerrero afirma que até mesmo Simón Bolívar, ícone da unidade latino-americana, desconfiava da monarquia brasileira devido à política escravista: “el hecho de que ‘Brasil [siguiera] siendo una monarquia de esclavitud [...] influenció sustancialmente la percepción que los vecinos [hispanoamericanos] tenían del país.’” (GUERRERO, 2010, p. 32). No Brasil, muitas figuras destacadas como Benjamin Constant, um dos fundadores da República brasileira, manifestaram preocupação com a falta de conexão do país com o resto do continente. Entretanto, nasceriam na América hispânica os textos mais importantes sobre o latino-americanismo. Guerrero sustenta que “los discursos de la integración se inscriben en el latinoamericanismo como tradición discursiva.” (2010, p. 39.). Nesta perspectiva, o discurso latinoamericanista sustentaria um projeto regional que visava sintetizar uma noção de identidade cultural do continente nos imaginários nacionais. Estes discursos têm origem no chamado arielismo, fundado pelo uruguaio José Enrique Rodó, quando postulou a dicotomia entre um norte, materialista e protestante, em contraposição um sul, herdeiro de uma cultura europeia católica e greco-romana. Tal oposição serviria para sustentar um discurso de modelo político de integração do continente, assim como rechaçar o paradigma norte-americano. Contudo, nem Rodó, em Ariel, nem José Martí, em Nuestra América, incluíram o Brasil em sua defesa de unidade do continente. A maioria dos escritores, críticos literários e intelectuais hispano-americanos demonstravam pouco interesse pela cultura brasileira e, 201 consequentemente, por sua integração aos demais países de fala hispânica. Preocupavam-se com suas próprias identidades e culturas nacionais. Nem mesmo o ensaísta peruano José Carlos Mariátegui, referência para a escritura de Las venas, incluía o Brasil em suas reflexões. Na apresentação de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, para referir-se à América Latina, usa o termo Indo-américa, referindo-se apenas aos países hispânicos. Neste contexto, é importante destacar o papel disseminador de dois intelectuais mexicanos: José Vasconcelos e Alfonso Reyes32. Provavelmente, as décadas de 1920 e 1930 tenham sido uma das mais importantes no debate literário em que o Brasil integrava o ideário cultural latino-americano, graças às relações entre Brasil e México e a atuação do então Ministro da Educação José Vasconcelos, em 1922. Em sua grande obra La raza cósmica (1927), Vasconcelos faz várias comparações entre o México e os países sul-americanos, incluindo o Brasil. O escritor mexicano defendia a integração do Brasil a outros países do continente e incluía os brasileiros no chamado à missão da raça ibero-americana contra as nações nórdicas (Estados Unidos), contra o imperialismo. Posteriormente, o governo mexicano enviaria ao Brasil como embaixador o escritor Alfonso Reyes. O diplomata viveu no país e estabeleceu um intenso intercâmbio cultural e político com personalidades como Carlos Lacerda, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Manuel Bandeira, Cecília Meireles entre outros. Reyes coaduna o pensamento de Vasconcelos, reafirmando a necessidade de integração cultural latino-americana nos muitos ensaios sobre a cultura e literatura brasileiras. Entre os intelectuais que incluíam o Brasil no conceito de latino-americanismo, destacamos o compromisso de outro mexicano, o filósofo Leopoldo Zea, que buscou constituir uma categoria identitária latino-americana, baseada nos ideais de liberdade de 32 Cf. Regina Aída Crespo. Cultura e política: José Vasconcelos e Alfonso Reyes no Brasil (1922-1938). Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 4. http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n45/16525.pdf Consultado em 3 de março 2010. 202 Bolívar, em oposição à norte-americana. Sublinhando a importância de Zea na tradição dos discursos de integração do continente, Guerrero ressalta: [...] suplementaba retoricamente el grand texto latinoamericanismo modernista, la ‘Nuestra América’ de Martí. En el se refería a una ‘Nuestra América, la América de Darcy y la América mía.’ [...] Se trata de una reescritura que pone al día el texto martiniano en un gesto retórico correctivo. El latinoamericanismo de Zea pasa, mediante la ampliación de ‘Nuestra América’, a hacer abarcar discursivamente a toda América Latina. (2010, p. 33.) Na referência de Zea, inclusa na citação de Guerrero, observa-se o reconhecimento do trabalho de Darcy Ribeiro na construção de uma América Latina plural, baseada na configuração histórico-cultural dos povos latino-americanos. No outro extremo, os ensaios do dominicano Pedro Henríquez Ureña (1884-1946) representam a exclusão do Brasil como partícipe da cultura latino-americana. Ureña escreveu importantes trabalhos sobre a cultura do continente, como Las corrientes literarias en la América hispânica (1949), mas pouco se aprofundou nas questões brasileiras em suas reflexões. Comentando a escassa integração da literatura na América Latina, Leopoldo Costigan & Lúcia Bernucci (2002) lamentam: Quanto poderíamos ter-nos beneficiado de um Alfonso Reyes (que morou quatro anos no Brasil), um Aluísio Azevedo (que residiu em Assunção e em Buenos Aires onde faleceu), de um Monteiro Lobato (popularíssimo no Rio da Prata), de uma Gabriela Mistral (que morou quatro anos no Rio de Janeiro), de um Vinícius de Morais (que exerceu funções consulares em Montevidéu) se eles tivessem se voltado sobre as questões ligadas ao nosso Continente! O que dizer de Mário de Andrade, leitor de Güiraldes, Borges, Carpentier e Asturias, mas que se despreocupou de estudar detalhadamente as relações entre os nossos e os do lado de lá? (2002, p.872). As reflexões dos autores demonstram que tanto no Brasil quantos nos países da América espanhola não havia o interesse ou mesmo uma corrente literária que pudesse voltarse para a análise das contribuições, convergências e divergências entre estas literaturas. Também destacam que somente nos anos 1970 seria possível encontrar obras que contemplassem autores e obras das duas Américas. Costigan & Bernucci citam como 203 exemplos Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana (1977), de Haroldo de Campos, a coleção de ensaios América Latina en su literatura (1972), coordenada por César Fernández Moreno, e os três volumes de América Latina: cultura, linguagem e literatura (1993-95), sob organização de Ana Pizarro. Uma das figuras mais importantes na defesa da integração latino-americana é o crítico uruguaio Ángel Rama. Na comunicação Algunas sugerencias de trabajo para una aventura intelectual de integración, Rama sublinha: En América enfrentamos un problema muy complejo – al cual si podemos dar aunque sea una solución provisória creo que hemos realizado una hazaña intelectual – que consiste en poner en paralelo las literaturas de lengua española y las de lengua portuguesa. Solamente hacer eso en América Latina es una aventura intelectual que quizás sin demasia yo llamaría revolucionaria. (1985, p.85). Rama chama a atenção para a lamentável falta de integração cultural entre os países latino-americanos, considerando que, devido à dificuldade de implementação de uma política cultural integradora, até mesmo uma integração apenas literária já seria revolucionária. Em Las venas Eduardo Galeano inicia esta aventura intelectual apresentando toda a América Latina como una. Ao longo da obra, integra os países do continente sem levar em consideração como um fator de dissidência suas diferentes colonizações. Assim, América Central, Caribe (espanhol, francês e inglês) e América do Sul (espanhola e portuguesa) dividem no mesmo parágrafo a mesma reflexão. Durante poco menos de tres siglos a partir del descubrimiento de América, no hubo, para el comercio de Europa, producto agrícola más importante que el azúcar cultivado en estas tierras. Se alzaron los cañaverales en el litoral húmedo y caliente del nordeste de Brasil y, posteriormente, también las islas del Caribe -Barbados, Jamaica, Haití y la Dominicana, Guadalupe, Cuba, Puerto Rico y Veracruz y la costa peruana resultaron sucesivos escenarios propicios para la explotación, en gran escala, del ‘oro blanco’. (GALEANO, 1991, p.91-92). Galeano transita livremente pela América Latina, considerando-a como vítima do processo exploratório estrangeiro. A inclusão do Brasil como componente “natural” do 204 continente se observa enfaticamente na descrição pormenorizada da cena brasileira desde a colonização. O autor uruguaio sublinha a cultura do país, destacando autores literários brasileiros, artigos, textos teóricos e outras obras de intelectuais de nosso país. Nesta perspectiva, Las venas retoma nos anos 1960-70 a tradição discursiva de integração latinoamericana que teve seu impulso no final do século XIX. Estes períodos foram momentos de afirmação de projetos nacionais nos quais os intelectuais tiveram fundamental importância na configuração simbólica do discurso sobre a América Latina. Na consecução deste projeto, o escritor-leitor Galeano converteu as fontes de consulta no arcabouço teórico de sua lógica argumentativa, baseado, sobretudo, no pensamento marxista para a constituição de sociedade mais justa. Este desejo orientou a seleção de fontes que corroborassem sua perspectiva ideológica, por isso, podemos observar que os posicionamentos políticos dos autores citados e até mesmo suas biografias são análogas a do ensaísta uruguaio. Neste contexto, ao tratarmos da inclusão do Brasil no conceito de América Latina, parece-nos pertinente analisarmos a importância de três brasileiros que contribuíram decisivamente para a escrita de Las venas. Não os destacamos como sobressalentes aos demais autores, apenas sublinhamos a importância de seus pensamentos na constituição da obra. Um dos intelectuais que mais influenciaram Galeano foi o antropólogo e educador brasileiro Darcy Ribeiro. Sua teoria de formação dos povos é citada pelo autor uruguaio para fundamentar os relatos sobre a exploração dos indígenas nas Américas espanhola e portuguesa. O reconhecimento da importância do brasileiro na escrita de Las venas está expresso nas páginas iniciais da obra, nos agradecimentos especiais: “Este libro no hubiera sido posible sin La colaboración que prestaron, de una u otra manera [...] Darcy Ribeiro [...].” A estima que demonstra Galeano por Ribeiro é resultado da longa amizade e de suas posições ideológicas afins. O antropólogo se dedica ao estudo dos índios do Brasil e escreve 205 uma vasta obra etnográfica de defesa da causa indígena. Posteriormente, preocupa-se com os rumos da educação primária e superior, embrenhando-se também na política. Devido ao golpe militar de 1964, foi exilado, chegando a trabalhar como assessor do presidente chileno Salvador Allende e de Velasco Alvarado, no Peru. Neste período escreve sua obra seminal, a coleção Estudos de Antropologia da Civilização, dividida em cinco volumes. Estes estudos são citados em Las venas sete vezes, em diferentes ensaios dentro da obra. Faz parte desta coleção o clássico Las Américas y la civilización: proceso de formación y causas del desarrollo desigual de los pueblos americanos, publicado na Espanha em 1969, em razão do exílio. Na obra, Ribeiro estuda as causas econômicas e políticas do subdesenvolvimento latino-americano. Como antropólogo engajado, além de investigar os processos de formação dos povos e identificar os problemas do continente, o autor aponta possíveis caminhos para escapar do subdesenvolvimento: Nosso estudo é uma tentativa de integração das abordagens antropológica, sociológica, econômica, histórica e política em um esforço conjunto para compreender a realidade americana de nossos dias. [...] O que nos falta são esforços por integrá-los organicamente, a fim de verificar que contribuições podem oferecer às ciências sociais para o conhecimento da realidade que vivemos e para determinar as perspectivas de desenvolvimento que temos pela frente. (RIBEIRO, 1970, p.3-4). Assim como Galeano em Las venas, Ribeiro justifica a escrita da obra, destacando a importância do conhecimento para a transformação da realidade. Também ressalta a importância das ciências sociais na compreensão da realidade. Ambos demonstram uma atitude combativa, questionadora dos fatores culturais, sociais e econômicos apontados pela história oficial como formadores das nações latino-americanas. Darcy Ribeiro, mais que um intelectual, foi um realizador, participou de governos estaduais e federal brasileiros. Teve ímpeto para concretizar até o fim de seus dias os projetos da juventude. Como já sublinhamos, a julgar pela expressiva bibliografia da área de economia política, podemos afirmar que Las venas é um ensaio que está pautado em informações 206 factuais para demonstrar a tese da teoria da dependência. Um dos autores mais citados na obra é o economista brasileiro Celso Furtado, um dos defensores desta teoria, membro da Comissão Econômica para a América Latina da Organização das Nações Unidas (CEPALONU). Ao longo de Las venas, são catorze referências ao economista e vinte e quatro citações dos Relatórios da CEPAL. É importante ressaltar que Furtado desempenhou atribuições no governo brasileiro no período anterior e posterior à ditadura militar. Devido as suas posições políticas, com a edição do Ato Institucional nº 1 (AI-1), foi incluído na primeira lista de cassados, perdendo seus direitos políticos por dez anos. Exilado em 1964, foi para Santiago do Chile e, posteriormente, para os Estados Unidos, onde construiu uma longa carreira acadêmica em universidades norte-americanas. Galeano cita várias obras de Furtado, dando ênfase a Formação Econômica do Brasil, sua mais consagrada e reeditada obra, escrita em 1959, ano da Revolução Cubana. No ensaio, o economista esboça as primeiras versões da teoria da dependência ou teoria do subdesenvolvimento, interpretando a história econômica do país. Até hoje é uma das obras essenciais para quem se propõe a entender os meandros que conduziram o Brasil das décadas de 1960-70. Analisando seu índice, percebemos com clareza a influência de Furtado na delimitação temática da obra de Galeano, a saber, colonização (séc. XVI, XVII) sociedade escravocrata (séc. XVIII), trabalho assalariado (séc. XIX), industrialização (séc. XX). Também podemos observar afinidades formais na escritura de Las venas e Formação Econômica do Brasil. Ambas despertaram nos leitores o interesse pela teoria econômica, matéria reconhecidamente árida, pela forma como os escritores abordaram o assunto, num processo das ciências sociais, conhecido como lógico-histórico de constituição do objeto, em que a economia é vista como um instrumento fundamental para a análise dos fenômenos sócio-históricos. 207 Outro autor brasileiro da área de economia-política que Galeano usa em sua bibliografia é o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. A obra de consulta é Ideologías de la burguesía industrial en sociedades dependientes (1970). Assim como Gunder Frank e Celso Furtado, Cardoso defendia a teoria da dependência. A obra apóia-se numa visão marxista, baseada tanto em fatores históricos como socioeconômicos para explicar o subdesenvolvimento latino-americano. Entretanto, FHC, como atualmente é conhecido, ao chegar à presidência do Brasil (1995-2002), tanto afirmou como demonstrou que já não compartilhava o ideário da esquerda marxista latino-americana, aplicando o modelo neoliberal na condução econômica do país. Destacamos aqui, apenas à guisa de exemplo, uma parte ínfima das leituras de Galeano. No capítulo seguinte, dedicado a releitura de Las venas, analisaremos outros escitores/leitores que subsidiaram à elaboração da obra. Como ressaltou Barthes, é a linguagem que pronuncia, não o autor. Assim, atribuir ao texto um autor é reduzi-lo, cerceálo. Perrone-Moisés corrobora tais pressupostos: “o futuro da literatura não se decidirá pela simples linha sucessória, mas por essa interação sincrônica que faz com que a literatura seja mais um espaço de escritura-leitura do que uma seqüência simples de fontes puras e influências degradadas.” (1990, p. 99). Sob a perspectiva de ambos, é a leitura que atribui ao texto sentidos, é o leitor que dialoga e expande as significações. Assim, a cada leitura de Las venas abiertas de América Latina, decreta-se a morte do autor Eduardo Galeano. 208 4. LAS VENAS: A RE(CONSTRUÇÃO) DA MEMÓRIA HISTÓRICA. A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens. Jacques Le Goff. 4.1. DO PARAÍSO À SUJEIÇÃO A relação entre literatura e memória é uma das grandes discussões teóricas que têm permeado a interface entre os estudos da literatura e da história. Já não se concebe a memória como um processo parcial, de valor acessório para as ciências humanas. Atualmente, a memória constitui-se como um campo de investigação que subsidia a pesquisa em outras áreas afins à história. Cronologicamente, esta ciência tem seu inicio na antiguidade, em que se definia a realidade, baseada no testemunho e no relato. No século XX, esta concepção é substituída por uma visão mais crítica da história, sob a perspectiva de outras ciências como a filosofia, sociologia e a antropologia. Com a mudança de paradigma, observa-se a valorização da memória, tanto no âmbito individual como coletivo, como uma forma de reconstrução do passado histórico por meio da reconstituição ou reinterpretação dos fatos que estabeleceram os meios de compreensão da realidade atual. Neste novo contexto, os fenômenos históricos seriam entendidos como fruto de rupturas, transformações sociais e mudanças culturais. O que se propõe é uma nova visão que não se baseie apenas no monólogo da história sobre si mesma, oferecendo caminhos alternativos para a interpretação da realidade. Sob esta nova perspectiva, Eduardo Galeano propõe a revisão dos anais da história oficial latino-americana, constituída pelos vencedores, apresentando uma nova interpretação 209 pela valorização de fontes alternativas que revelam uma nova memória histórica do continente como forma de transformar a realidade social latino-americana. Destacando o papel da memória histórica na configuração do comportamento humano, Pierre Ansart distingue quatro atitudes possíveis que tangenciam a memória individual e a memória coletiva: a tentação do esquecimento, a tentação da repetição, a tentação da revisão e a tentação da intensificação da memória dos ressentimentos (ANSART, 2004, p. 34). Galeano, como se observa ao longo da obra, refuta as memórias do esquecimento e da repetição, sublinhando a importância da revisão. Como observaremos na análise de Las venas, Galeano destaca a importância dos relatos orais na configuração da memória, rejeitando a ideia unilateral de materialidade apenas do documento como fonte formal e aceita pela ciência histórica. Sua proposta de leitura da história leva em consideração a subjetividade contida nos depoimentos, rompendo com idealização em relação às fontes escritas. Corroborando os preceitos defendidos pela “nouvelle histoire”, em Las venas se ressalta a necessidade de aliar à explicação do relato uma escrita sobre a história. Outra característica muito peculiar à obra é a ampla e variada bibliografia consultada, o que atesta o papel preponderante das ciências sociais em sua visão da história, cimentando a interdisciplinaridade entre estas ciências e a memória. Para Galeano, a reconstrução da memória histórica é, sobretudo, simbólica, pois se baseia menos nos escritos que nas imagens, nos gestos, nas tradições, enfim, na cultura. Assim, conforme ressalta Hayden White (1992), a ênfase que se dá a determinado aspecto da história e a própria linguagem empregada contribuem para que o texto também seja compreendido como uma construção social. Galeano entende a memória como fonte viva da história, resultado dos processos históricos, portanto, a única capaz de transformar a realidade atual da América Latina. 210 Analisar Las venas abiertas de América Latina é uma tarefa árdua, mas recompensadora. Página a página somos inseridos numa viagem ao passado de nosso continente, acompanhando relatos poéticos, dramáticos, irônicos e, sobretudo, engajados, de um escritor que desvela suas intenções desde o início de cada ensaio que compõe a extensa obra. Os títulos são cuidadosamente elaborados para expressar, na maioria das vezes por meio de metáforas, o viés ideológico que se apresentará sobre o tema em questão. O próprio título da obra é metafórico, como se considerará posteriormente, fazendo referência ao vampirismo de que é vítima a América Latina ao longo de cinco séculos. A introdução, um longo prólogo de 12 páginas, tem título próprio, constituindo-se como um capítulo aparte. Em Las venas, Galeano, apelando à emoção que desperta a injustiça contra crianças indefesas, propõe o dramático título: “Ciento veinte millones de niños en el centro de la tormenta”. A tônica do ensaio é o perverso sistema colonial e pós-colonial, em que alguns países ganharam a custa de que a América perdesse. Estas afirmações resumem tanto o ponto de partida do autor uruguaio, a saber, que a pobreza do continente está associada à exploração histórica que vem sofrendo o continente desde a chegada dos colonizadores. Para reforçar sua perspectiva da história, Galeano elabora títulos que chamam a atenção para seu ponto de vista, em vários exemplos o paradoxo dá o tom irônico do ensaio, como o título da primeira parte: “La pobreza del hombre como resultado de la riqueza de la tierra”. O autor é um habilidoso artífice do jogo de palavras e das frases de efeito, como se pode observar em outros de seus títulos “es un crimen más grande matar a una hormiga que a un hombre”; “Las trece colonias del norte y la importância de no nacer importante”; “Un imperio que importa capitales”; “Un talismán vacío de poderes.” Sua afinidade pelo recurso estilístico fica patente no texto “Paradojas” publicado em El libro de los abrazos (1989), no qual Galeano discorre sobre as contradições do mundo: 211 Si la contradicción es el pulmón de la historia, la paradoja ha de ser, se me ocurre, el espejo que la historia usa para tomarnos el pelo. [...]José Carlos Mariátegui, el más marxista de los marxistas latinoamericanos, creía fervorosamente en Dios. El Che Guevara había sido declarado completamente inepto para la vida militar por el ejército argentino. De manos de un escultor llamado Aleijadinho, que era el más feo de los brasileños, nacieron las más altas hermosuras del Brasil. Los negros norteamericanos, los más oprimidos, crearon el jazz, que es la más libre de las músicas. En el encierro de la cárcel fue concebido Don Quijote, el más andante de los caballeros. (GALEANO, 1989, p.95). (Grifo nosso). O tom ameno que observamos se deve à própria estrutura da obra, constituída por pequenas historietas que versam sobre sociedades primitivas, artes, política e valores. Com bom humor, Galeano demonstra sua admiração por personagens históricos e ficcionais da cultura mundial e latina. Estes personagens figuram também em Las venas, mas em vez do lirismo, nota-se a denúncia: La euforia del oro era cosa del pasado: la obra se llamaba Los profetas, pero ya no había ninguna gloria por profetizar. Toda la pompa y la alegría se habían desvanecido y no quedaba sitio para ninguna esperanza. El testimonio final, grandioso como un entierro para aquella fugaz civilización del oro nacida para morir, fue dejado a los siglos siguientes por el artista más talentoso de toda la historia de Brasil. El «Aleijadinho», desfigurado y mutilado por la lepra, realizó su obra maestra amarrándose el cincel y el martillo a las manos sin dedos y arrastrándose de rodillas, cada madrugada, rumbo a su taller. (p.90). O fato de Galeano retomar temas e personagens em muitas de suas obras demonstra uma característica peculiar de sua escritura desde 1971, seu projeto de reconstrução da história e da memória latino-americanas. O escritor ressalta que mesmo diante da situação de exploração por que passou a capital do ouro brasileiro, na “fugaz civilización del oro nacida para morir”, a valentia do povo latino-americano, representada pela genialidade do artista brasileiro Aleijadinho, é capaz de vencer diante das mais ferrenhas adversidades. Esta é a tônica que se imprimirá na introdução de Las venas abiertas de América Latina, na qual também se observam claramente as condições de produção da obra. Como já ressaltamos, sua escrita reflete o desejo de representação de uma geração, a do próprio Galeano, que viveu um período de repressão ideológica na década de 1960. Um ambiente de violência institucionalizada, caracterizado pelos desaparecimentos, prisões e assassinatos de 212 jovens, militantes ou não, trabalhadores, intelectuais e até mesmo donas de casa acusadas de simpatizantes dos movimentos revolucionários. Galeano identifica este clima de insatisfação e propõe explicitamente no livro o desejo de ver florescer no continente os ideais da Revolução cubana: ¿Tenemos todo prohibido, salvo cruzarnos de brazos? [...] Corren años de revolución, tiempos de redención. Las clases dominantes ponen las barbas en remojo [...] El águila de bronce del Maine, derribada el día de la victoria de la revolución cubana, yace ahora abandonada, con las alas rotas, bajo un portal del barrio viejo de La Habana. Desde Cuba en adelante, también otros países han iniciado por distintas vías y con distintos medios la experiencia del cambio: la perpetuación del actual orden de cosas es la perpetuación del crimen. (p.11). A alusão refere-se à saída forçada dos norte-americanos, que consideravam Cuba o quintal de suas casas. Há no discurso de Galeano uma convocação à luta: “Corren años de revolución”. Nesta perspectiva, a obra poderia também ser lida como um manifesto contra o estado de coisas que imperava no continente, um chamado à ação, à defesa da dignidade do homem latino-americano frente à opressão dos governos e o direcionamento externo. A primeira edição de Las venas, de 1971, está subdividida em introdução e mais duas partes: “La pobreza del hombre como resultado de la riqueza de la tierra” e “El desarrollo es un viaje con más náufragos que navegantes.” Em 1978, uma introdução e um posfácio são incorporados à obra. Por tratar-se de uma obra extensa e com matizes que poderiam distanciar-nos de nosso objetivo, a leitura que propomos de Las venas terá como foco a análise de cada um de seus ensaios, destacando a relação entre sua ideia central e algumas fontes que subsidiaram a reescritura do texto. Antes de analisarmos a obra, é preciso ressaltar que sua subdivisão tem um caráter bastante peculiar. Galeano divide o livro em duas grandes partes. Cada uma delas tem um título, sob o qual se propõe uma nova subdivisão. A cada divisão, subordinam-se breves ensaios. 213 Como já foi ressaltado, Galeano compõe seus ensaios a partir da releitura de fontes alijadas do discurso histórico oficial. Ao escrever sobre a recepção da obra, enfatiza: “Un autor no especializado se dirigía a un público no especializado, con la intención de divulgar ciertos hechos que la historia oficial, historia contada por los vencedores, esconde o miente.” (p.437). Em Las venas se observa uma perspectiva de análise histórica baseada na corrente historiográfica denominada Nova História, que tem no historiador francês Jacques Le Goff seu principal expoente. Esta nova visão da história defendia a análise e a interpretação das fontes, levando em consideração a organização social e econômica, tal qual propõe Galeano. Outra característica peculiar desta corrente historiográfica é a utilização de conceitos antropológicos como instrumento de compreensão da formação dos grupos sociais. Como já sublinhamos anteriormente, o antropólogo Darcy Ribeiro foi um dos que contribuíram decisivamente na escritura de Las venas. Nesta perspectiva, tanto o viés revisionista como os novos conceitos sobre a análise da história orientaram Galeano na composição da obra. O ensaio que abre a primeira parte traz já no título um paradoxo: “El signo de la cruz en las empuñaduras de las espadas”, visando ressaltar a contradição em usar o símbolo máximo da salvação cristã para disseminar a morte. Como fizera na introdução da obra, Galeano anuncia o caráter contraditório da colonização, que sob a alegação de salvar “el vasto imperio del diablo”, “La epopeya de los españoles y los portugueses en América combinó la propagación de la fe cristiana con la usurpación y el saqueo de las riquezas nativas.” (p.19-20). Percorrendo cronologicamente os quase 500 anos da chegada dos colonizadores europeus, Galeano apresenta o contexto histórico da Espanha do final do século XV que propiciou a chegada ao “Novo Mundo.” O autor destaca a importância do emblemático ano de 1492 para a formação da Espanha atual, sublinhando os acontecimentos políticos, religiosos e culturais que transformaram o país no centro das discussões mundiais e em uma das maiores potências do século XVI. 214 Com o inicio do Renascimento, todo o continente europeu experimentava uma brusca mudança de mentalidade, que reformulava as crenças e costumes, tornando o homem responsável direto por seu destino, em detrimento da cultura teocentrista que perdurou durante séculos. Particularmente para Espanha, 1492 é um ano excelso, pois encerrava vitoriosamente a campanha da unificação com a Reconquista de Granada, que pôs fim à presença do Islã na península ibérica, depois de oito séculos de dominação. Ainda no plano religioso, os reis católicos Fernando e Isabel compelem a expulsão de “ciento cincuenta mil judíos declarados”, forçando uma segunda diáspora. Como sublinha Galeano: España adquiría realidad como nación alzando espadas cuyas empuñaduras dibujaban el signo de la cruz. [...] La hazaña del descubrimiento de América no podría explicarse sin la tradición militar de guerra de cruzadas que imperaba en la Castilla medieval, y la Iglesia no se hizo rogar para dar carácter sagrado a la conquista de las tierras incógnitas del otro lado del mar. (p.17). Galeano responsabiliza a Igreja pela manipulação ideológica na imposição da fé cristã, dando caráter de sagrado às mortes impetradas tanto na península como na América. No ensaio seguinte, “Retornaban los dioses con las armas secretas”, o autor uruguaio dá eco aos relatos em língua náhuatl dos informantes indígenas preservados no Códice Florentino, do franciscano espanhol Bernardino de Sahagún: “‘solamente aparecen sus caras. Son blancas, son como si fueran de cal. Tienen el cabello amarillo, aunque algunos lo tienen negro. Larga su barba es...’ Moctezuma creyó que era el dios Quetzalcóatl quien volvía.” (p.24). O Códice quando foi escrito formava um conjunto de doze livros, mas, em franca censura, as autoridades espanholas confiscaram os manuscritos de Sahagún. Hoje, pouco resta da obra original. Galeano faz questão de reproduzir as vozes dos que atuaram como defensores dos povos nativos oprimidos pela colonização. Dando destaque ao injusto processo colonizador espanhol, o autor também enumera os fatores que “trabajaron objetivamente por la victoria de los invasores”. À crença dos nativos da América no retorno de deuses “blancos y barbudos”, Galeano soma a exploração do rancor dos povos submetidos ao domínio Azteca 215 e Inca, trabalhada ardilosamente pela “habilidad política, la técnica de la traición y la intriga” dos colonizadores, além do uso dos cavalos e as doenças contagiosas que dizimaram as civilizações pré-colombianas. No ensaio “Como unos puercos hambrientos ansían el oro”, o autor volta a utilizar um fragmento do Códice Florentino para descrever a voracidade espanhola diante da abundância de minerais que oferecia o novo mundo: Lo cuentan las voces de los vencidos. [...] Los españoles “estaban deleitándose. Como si fueran monos levantaban el oro, como que se sentaban en ademán de gusto, como que se les renovaba y se les iluminaba el corazón. [...] Como unos puercos hambrientos ansían el oro”, dice el texto náhuatl preservado en el Códice Florentino. Más adelante, cuando Cortés llega a Tenochtitlán, la espléndida capital azteca, los españoles entran en la casa del tesoro, “y luego hicieron una gran bola de oro, y dieron fuego, encendieron, prendieron llama a todo lo que restaba, por valioso que fuera: con lo cual todo ardió. Y en cuanto al oro, los españoles lo redujeron a barras...” (p.(27). (Grifos nossos). Na citação podemos observar uma característica enfatizada ao longo de toda a obra: a necessidade de valorização da cultura autóctone para a constituição de uma autêntica identidade histórica do continente latino-americano, baseada na utilização de fontes que apresentem uma visão alternativa à história oficial. A versão proclamada por Galeano provém tanto das vozes dos vencidos, que, segundo o texto, mostravam-se submissos, ofertando colares de ouro, com a intenção de agradar aos invasores, como de Bernardino de Sahagún, que supervisionou a escrita do Códice Florentino no início do século XVI, pouco depois da Conquista do México. Galeano cita o texto náhuatl como forma de dar voz às classes subalternas, como ressaltaria Deleuze no diálogo com Foucault, mesmo que estas vozes estivessem filtradas pelo porta-voz Sahagún no Códice. No final da citação, Galeano descreve explicitamente o desprezo dos colonizadores espanhóis pela arte e pela tradição religiosa indígena. Todos os objetos que encontraram em Tenochtitlán, “la espléndida capital Azteca”, foram reduzidos a “una gran bola de oro”. A ganância foi o motor que impulsionou a empresa colonizadora. O relato enfatiza a completa 216 ausência de senso humano, ético e estético por parte dos invasores. Galeano descreve o choque de dois mundos completamente diferentes na forma de ser e parecer, em que prevalece a astúcia sobre a credulidade, a cobiça e a ambição como valores superiores a qualquer outro. Toda a expressão artística de uma civilização reduzida à fumaça e cinzas ou a uma inexpressiva e amorfa bola de ouro. Esta peculiaridade da colonização espanhola também foi destacada pelo jornalista e filósofo espanhol Eduardo Subirats, que defende a reformulação da memória histórica espanhola como única forma de corrigir as distorções veiculadas ao longo dos 500 anos da chegada do colonizador à América. Em sua obra El continente vacío (1992), publicada dois anos depois da Festa do V Centenário, analisam-se os fatos históricos que desencadearam o Descobrimento, questionando a autenticidade de seu descobridor, seus relatos de heroísmo patriótico e, sobretudo, o caráter messiânico da empreitada espanhola. Subirats define a lógica da colonização espanhola como o esvaziamento do continente americano de qualquer forma de história, cultura, religião. O autor rechaça a constituição de uma nova identidade hispanoamericana baseada nos princípios ocidentais do colonizador cristão. Um dos temas sobressalentes do capítulo “Fiebre del oro, fiebre de la plata” é a descrição da riqueza e da grandiosidade da cidade de Potosí e de sua montanha de prata. Para justificar a fama de Potosí na época, Galeano cita Cervantes, nas palavras de Don Quijote: “Vale un Potosí” (p. 30), em substituição à expressão “Vale un Perú”, que expressava a ideia de riqueza mineral do país sul-americano. O autor também sublinha que ainda no século XVI já se fazia uso de material tóxico nas minas: “el proceso de amalgama con mercurio, que hizo posible la explotación de plata de ley más baja, empezó a aplicarse en ese mismo período.” (p.33). A ganância desenfreada não tinha limites, os efeitos devastadores do mercúrio eram sentidos na natureza exuberante e na saúde dos indígenas: [...] entre 1616 y 1619 el visitador y gobernador Juan de Solórzano hizo una investigación sobre las condiciones de trabajo en las minas de mercurio de 217 Huancavélica: «...el veneno penetraba en la. pura médula, debilitando los miembros todos y provocando un temblor constante, muriendo los obreros, por lo general, en el espacio de cuatro años» [...] El empleo del mercurio para la extracción de la plata por amalgama envenenaba tanto o más que los gases tóxicos en el vientre de la tierra. Hacía caer el cabello y los dientes y provocaba temblores indominables. (p.60-62). Quando escreveu Las venas, a sociedade em geral ainda não tinha um senso de responsabilidade ecológica, como se observa nos dias de hoje. Adiantando um tema central das discussões atuais, Galeano já se preocupava em denunciar a destruição da natureza: Los incendios que abrían tierras a los cañaverales devastaron la floresta y con ella la fauna; desaparecieron los ciervos, los jabalíes, los tapires, los conejos, las pacas y los tatúes. La alfombra vegetal, la flora y la fauna fueron sacrificadas, en los altares del monocultivo, a la caña de azúcar. La producción extensiva agotó rápidamente los suelos. (p.97). Por outro lado, não se observa em Las venas uma preocupação especial com temas relacionados à defesa do direito das crianças, questões de gênero, como a defesa da mulher ou de minorias. Em obras posteriores, como na trilogia Memoria del Fuego, estes temas já constituem um foco de reflexão: Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. [...] Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los. Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas. (GALEANO, 1984, p.54). Galeano busca na tradição oral, nas lendas das tribos pré-colombianas as fontes para refutar a preconceituosa posição que ocupam as mulheres na sociedade atual, assim como ressalta o papel da tradição na constituição das tradições e da memória histórica, como corroboram Hobsbawm & Ranger (1984). Em Patas Arriba (1998), questiona-se a corrupção política, as drogas, a deliquência infantil e juvenil, as ditaduras na África, o capitalismo selvagem que avança sobre a natureza, criando dificuldades para vender facilidades: 218 El grupo General Electric tiene cuatro de las empresas que más envenenan el aire del planeta, pero es también el mayor fabricante norteamericano de equipos para el control de la contaminación del aire [...] Westinghouse, que se ha ganado el pan vendiendo armas nucleares, venden también millones de equipos para limpiar su propia basura radiactiva. (p.197). Tais exemplos ratificam que Galeano, ao longo de sua trajetória como escritor, tem assumido a responsabilidade atribuída aos intelectuais de refletir criticamente sobre os problemas que afetam a sociedade, denotando preocupação com temas contemporâneos. Em 1971, os questionamentos de Galeano retomavam o processo de colonização espanhola na América. O autor identificava na corrupção e na incompetência administrativa do regime Habsburgo os motivos do país ir à bancarrota, pois mesmo levando toda riqueza das colônias à Espanha não conseguiu que a metrópole enriquecesse, já que destruiu a indústria nacional com as importações e pagou à Inglaterra com a riqueza que retirava da América. Para narrar uma nova versão da história da América Latina, o escritor esboça também um panorama sócio-econômico da Espanha e de Portugal, além de outros países da Europa como Inglaterra, França, Itália e Alemanha. Baseado nesta oposição metrópole/colônia e nos diferentes modelos de colonização levados a cabo na América do Norte e na América Latina, Galeano representa estas diferenças com metáfora que intitula o ensaio: “Los españoles tenían la vaca, pero otros tomaban la leche”. Citando Karl Marx, Galeano afirma que o início do capitalismo se dá na época dos descobrimentos, reforçando a ideia de que o subdesenvolvimento da América Latina é consequência direta do processo de colonização e posterior expansão do capital comercial. Galeano corrobora tal raciocínio apresentando as reflexões do economista e sociólogo alemão André Gunder Frank, um dos criadores da teoria da dependência: Analizando la naturaleza de las relaciones «metrópoli-satélite» a lo largo de la historia de América Latina como una cadena de subordinaciones sucesivas, André Gunder Frank ha destacado, en una de sus obras, que las regiones hoy día más signadas por el subdesarrollo y la pobreza son aquellas que en el pasado han tenido lazos más estrechos con la metrópoli y han disfrutado de períodos de auge. (p.48). 219 Para ratificar sua crença nesta perspectiva, que faz do continente uma vítima dos interesses alheios, Galeano descreve a situação miserável da Potosí atual. Para reforçar ainda mais seus argumentos, o autor reproduz as palavras de uma moradora da outrora opulenta cidade, pelo uso do discurso direto: En nuestros días, Potosí es una pobre ciudad de la pobre Bolivia: «La ciudad que más ha dado al mundo y la que menos tiene», como me dijo una vieja señora potosina, envuelta en un kilométrico chal de lana de alpaca, cuando conversamos ante el patio andaluz de su casa de dos siglos. Esta ciudad condenada a la nostalgia, atormentada por la miseria y el frío, es todavía una herida abierta del sistema colonial en América: una acusación. El mundo tendría que empezar por pedirle disculpas. (p. 49). (Grifo nosso). Pela voz das classes subalternas, Galeano denuncia a exploração, o descaso com a cultura, com a arte colonial, o roubo de relíquias por padres e turistas. Ironicamente, o autor nos informa: “La iglesia de San Ambrosio se ha convertido en el cine Omiste; en febrero de 1970, sobre los bajorrelieves barrocos del frente se anunciaba el próximo estreno: “El mundo está loco, loco, loco” (p.51). O título do filme parecia profetizar o futuro. Como bom leitor do Quijote, Galeano imprimiu em seu texto a voz popular também pelos ditados que reproduziu: “Los capitales no se acumulaban, sino que se derrochaban. Se practicaba el viejo dicho: “Padre mercader, hijo caballero, nieto pordiosero”. (p.57). Este era mais um recurso estilístico que utilizava para demonstrar seu afastamento do hermético discurso da elite, como frisou o próprio autor. Diferentemente de outros ensaístas como Mariátegui, que escrevia sobre a realidade de seu país e de seu povo, Galeano incluiu, não como adendo, mas como legítima parte integrante da América Latina o Brasil e as Antilhas, comentando sobre a exploração colonial em regiões onde o espanhol não era a língua falada. Sob a perspectiva de uma América Latina plural, o escritor uruguaio dedicou-se a denunciar o genocídio indígena e o tratamento desumano da escravidão: 220 [...] al infortunio de los indígenas de los imperios aniquilados en la América hispánica hay que sumar el terrible destino de los negros arrebatados a las aldeas africanas para trabajar en Brasil y en las Antillas. [...] Los indios de las Américas sumaban no menos de setenta millones, y quizás más, cuando los conquistadores extranjeros aparecieron en el horizonte; un siglo y medio después se habían reducido, en total, a sólo tres millones y medio. [...] Se estima en unos diez millones el total de negros esclavos introducidos desde África, a partir de la conquista de Brasil y hasta la abolición de la esclavitud [...] Los negros morían rápidamente, sólo en casos excepcionales llegaban a soportar siete años continuos de trabajo. (p. 58-85). Com uma narrativa passional, Galeano descreve a sangrenta e desumana extinção dos índios. O escritor, citando variadas fontes, demonstra como o trabalho nas minas corroía o corpo e alma indígenas. O genocídio não se restringia apenas à época da chegada dos colonizadores, os efeitos da conquista e de todo o longo tempo de humilhação posterior devastaram a identidade cultural e social construída ao longo de séculos. O desprezo, a usurpação da dignidade foram as marcas da colonização tanto na América hispânica como na portuguesa. Galeano sublinha que este desrespeito vigorava ainda no século XX, e que a ditadura brasileira de então contribuía para que tais condições continuassem: Se sabe que los indígenas han sido ametrallados desde helicópteros y avionetas, que se les ha inoculado el virus de la viruela, que se ha arrojado dinamita sobre sus aldeas y se les ha obsequiado azúcar mezclada con estricnina y sal con arsénico. El propio director del Servicio de Protección a los Indios, designado por la dictadura de Castelo Branco para sanear la administración, fue acusado, con pruebas, de cometer cuarenta y dos tipos diferentes de crímenes contra los indios. El escándalo estalló en 1968. (p. 76.). No ensaio que encerra o primeiro capítulo, Galeano propõe uma simetria entre as colonizações espanhola e portuguesa. Assim como descreveu o esplendor e a derrocada da Potosí de prata, a hecatombe indígena, os mártires como o mestiço Túpac Amaro, os revolucionários mexicanos Miguel Hidalgo e José María Morelos, também o fez no Brasil, na “Potosí de Oro”, a Vila Rica de Ouro Preto. Percorrendo as ruas históricas da cidade com um morador local, o autor uruguaio apresenta aos leitores a riqueza em ouro e diamantes que deu nome ao Estado brasileiro de Minas Gerais. 221 Galeano nos conduz pelas vielas empoeiradas dos vilarejos, passando pela história de vida e de morte de tantos negros que sucumbiram nas minas de ouro. Mas também destaca a beleza das histórias de vidas reais que se tornaram lendárias como as da exuberante negra Xica da Silva e do escultor “hijo genial de una esclava y un artesano, Antônio Francisco Lisboa, el “Aleijadinho”, el “Tullidito”, (p.90), do inconfidente José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes. Nos relatos sobre a vida de pessoas do povo, Galeano ressalta a importância de cidades como Potosí e Ouro Preto para a cultura latino-americana, assim como demonstra que a usurpação das riquezas minerais e do direito à identidade cultural não foi uma prerrogativa dos colonizadores que falavam espanhol. No segundo capítulo, “El rey azúcar y otros monarcas agrícolas”, o mais extenso de Las venas, dividido em 23 ensaios, o autor disserta sobre uma segunda atividade exploradora no novo continente, o cultivo da cana-de-açúcar como monocultura de exportação. Galeano ressalta a importância do produto e o efeito destrutivo no solo e nas economias dos países latino-americanos: Inmensas legiones de esclavos vinieron de África para proporcionar, al rey azúcar, la fuerza del trabajo numerosa y gratuita que exigía: combustible humano para quemar. Las tierras fueron devastadas por esta planta egoísta que invadió el Nuevo Mundo arrasando los bosques, malgastando la fertilidad natural y extinguiendo el humus acumulado por los suelos. El largo ciclo del azúcar dio origen, en América Latina, a prosperidades tan mortales como las que engendraron, en Potosí, Ouro Preto [...]. (p.92). Mas não era apenas o “ouro branco” o responsável pela política de devastação da natureza nativa e da exploração do trabalho escravo, “combustible humano para quemar”, outros produtos agrícolas como o cacau, o algodão, a seringueira, o café e as frutas também tiveram seus ciclos ao integrar-se ao mercado internacional. As terras foram cedidas pela coroa portuguesa, era o inicio do latifúndio no Brasil: De la plantación colonial, subordinada a las necesidades extranjeras y financiada, en muchos casos, desde el extranjero, proviene en línea recta el latifundio de 222 nuestros días. Este es uno de los cuellos de botella que estrangulan el desarrollo económico de América Latina y uno de los factores primordiales de la marginación y la pobreza de las masas latinoamericanas. (p.95). O escritor identifica a origem do latifúndio no continente ainda na época da colonização. A questão da reforma agrária será um tema bastante debatido ao longo da obra, constituindo-se como um dos eixos fundamentais da proposta socialista. Ainda hoje, a reforma agrária, ou a falta dela, é um dos pontos de maior tensão entre movimentos sociais de esquerda e os governos. O ciclo do açúcar entrou em crise devido às constantes rebeliões de escravos e a descoberta de ouro no sul do país, que atraíram a mão-de-obra das plantações do nordeste açucareiro. Galeano já havia mencionado a contaminação dos mananciais, ao tratar dos ciclos de mineração nas Américas espanhola e portuguesa. No ensaio que se inicia, o autor enfatiza o papel central da terra em seu discurso, pois trata a devastação do solo como um crime contra a humanidade, destacando, principalmente, sua função como provedora de alimentos. Descreve a desertificação da natureza causada pela monocultura, realça o tema, inclusive, por intitular o segundo ensaio deste capítulo como “El asesinato de la tierra en el Nordeste de Brasil.” La franja húmeda del litoral, bien regada por las lluvias, tenía un suelo de gran fertilidad, muy rico en humus y sales minerales, cubierto por los bosques desde Bahía hasta Ceará. Esta región de bosques tropicales se convirtió, como dice Josué de Castro, en una región de sabanas (Josué de Castro, Geografía da fome, São Paulo, 1963). Naturalmente nacida para producir alimentos, pasó a ser una región de hambre. (p.96). Como havíamos sublinhado, a linha de raciocínio defendida pelo autor uruguaio é fruto de sua intensa pesquisa bibliográfica em obras que defendiam os preceitos do socialismo. A obra citada por Galeano veicula muitas concepções ideológicas que também estão presentes em Las venas. Em 1946 foi publicado Geografia da Fome do médico e geógrafo brasileiro Josué de Castro. Ativista político, Castro dedicou sua vida ao combate à fome. Sua obra apresenta um dos mais profundos estudos sobre a desnutrição no Brasil, 223 principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Castro tinha uma visão política da fome, atribuía a situação de calamidade não só à falta de nutrientes na alimentação cotidiana do povo ou das características climáticas do país, mas, sobretudo, à concentração de terra nas mãos dos grandes latifundiários, por isso, defendia como ponto crucial para a mudança deste paradigma a reforma agrária. O geógrafo combateu energicamente a ideia de que o fenômeno da fome era natural e impossível de ser revertido, pensamento hipócrita que predominava na época. Ao quebrar este silêncio, Castro ganhou destaque internacional e suas obras foram traduzidas para mais de 25 países e recomendadas pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), instituição em que ocupou a presidência do Conselho. Por seu trabalho humanitário, Josué de Castro recebeu duas indicações ao Prêmio Nobel da Paz. Não é sem razão que o título da introdução de Las venas: “Ciento veinte millones...” seja uma paráfrase de um texto de Castro. Ambos os autores coincidem tanto no repúdio pela situação desumana na América Latina, como na proposta de uma revolução como meio de transformação: “Josué de Castro declara: ‘Yo, que he recibido un premio internacional de la paz, pienso que, infelizmente, no hay otra solución que la violencia para América Latina. ’” (p.5). Ainda na introdução, Galeano comenta sobre a desnutrição no Nordeste e sobre costumes medievais que ainda persistiam na região como o “direito à primeira noite” de cada moça aos proprietários ou administradores das terras. “La prostitución infantil, niñas de diez o doce años vendidas por sus padres, es frecuente en las ciudades del nordeste.” (p. 99). O autor faz referência à prostituição infantil, mas não se detém no assunto, diferentemente de seus textos a partir da década de 1990, como Patas arriba, em que questionará incisivamente o comportamento da sociedade atual: ¿Qué destino tienen los nadies, los dueños de nada, en países donde el derecho de propiedad se está convirtiendo en el único derecho? ¿Y los hijos de los nadies? A 224 muchos, que son cada vez más muchos, el hambre los empuja al robo, a la mendicidad y a la prostitución; y la sociedad de consumo los insulta ofreciendo lo que niega. (GALEANO, 1998, p. 18-9). No final do século XX, Galeano demonstra frustração diante do quadro dantesco que vislumbra nos países subdesenvolvidos. Parece sentir-se como um pregador no deserto, pois constata irremediavelmente: “el mundo al revés premia al revés: desprecia la honestidad, castiga el trabajo, recompensa la falta de escrúpulos y alimente el canibalismo.” (1998, p.5). No ensaio “A paso de carga en las islas del Caribe”, Galeano descreve a função das ilhas caribenhas no processo de colonização espanhola, destacando o importante papel da primeira revolução de independência ocorrida na América. “La revolución haitiana había coincidido, y no sólo en el tiempo, con la revolución francesa.”(p. 103). Em 1825 tem início uma série de batalhas que culminariam no reconhecimento da independência da antiga colônia de Saint Domingue pelo governo francês. A independência do Haiti ocasionou uma grande crise açucareira no país. É neste contexto histórico que Cuba ocupará o primeiro lugar na produção mundial do produto. Tema de que se ocupa Galeano em “Castillos de azúcar sobre los suelos quemados de Cuba,” no qual se descreve a devastação pelo fogo da terra e dos bosques da ilha em nome da monocultura. Para demonstrar que o caminho de salvação de Cuba viera da revolução, são invocados os nomes de José Martí e Che Guevara: “El pueblo que compra manda, el pueblo que vende sirve; hay que equilibrar el comercio para asegurar la libertad; el pueblo que quiere morir vende a un solo pueblo, y el que quiere salvarse vende a más de uno”, había dicho Martí y repitió el Che Guevara en la conferencia de la OEA, en Punta del Este, en 1961. (p.110). São os heróis da Cuba socialista que serão os protagonistas do próximo ensaio “La revolución ante la estructura de la impotencia.” A situação de Cuba era ambígua, pois, libertada da Espanha, já era considerada como mais uma das estrelas da bandeira norteamericana. Para dar relevo ao papel salvador da revolução cubana, Galeano, numa extensa nota de rodapé, descreve a situação de submissão e exploração que vivia Porto Rico, após a 225 ocupação dos Estados Unidos. Neste contexto, faz menção pela primeira vez ao líder da Revolução Cubana, sem citar seu nome: Cuando cayó Batista, Cuba vendía casi todo su azúcar en Estados Unidos. Cinco años antes, un joven abogado revolucionario había profetizado certeramente, ante quienes lo juzgaban por el asalto al cuartel Mancada, que la historia lo absolvería; había dicho en su vibrante alegato: ‘Cuba sigue siendo una factoría productora de materia prima. Se exporta azúcar para importar caramelos...’”. (p. 113). Para ressaltar a grande transformação que se deu na ilha caribenha, Galeano cita estatísticas bonbásticas e pouco realistas: “Había en Cuba, en 1958, más prostitutas registradas que obreros mineros. [René Dumont, Cuba (intento de crítica constructiva), Barcelona, 1965.]” (p. 114). Para concluir sua reflexão, Galeano evoca diferentes obras, escritas em inglês, francês e espanhol, que defendem a Revolução e seus os avanços sócioeconômicos. “‘Edificar sobre el azúcar ¿es mejor que edificar sobre la arena?’, se preguntaba JeanPaul Sartre en 1960, desde Cuba.” (p.115). Com esta citação Galeano abre o próximo ensaio, “El azúcar era el cuchillo y el imperio el asesino”, no qual demonstra, em tempos de Guerra Fria, o apoio explícito de Sartre à revolução socialista em Cuba, assim como sublinha a importância da figura que representou o modelo de escritor engajado no século XX, um ícone de toda a geração de intelectuais da esquerda latino-americana. No mesmo ensaio, também a voz do povo cubano está representada: “Antonio Bastidas, el negro de setenta años que una madrugada de este año se colgó con ambos puños de la palanca de la sirena porque el ingenio había sobrepasado la meta y gritaba: “‘¡Carajo!’, gritaba: ‘¡Cumplimos, carajo!’[...]” (p.116). Galeano demonstra o apoio à Revolução por meio das citações tanto da intelectualidade internacional, como do linguajar de baixo calão utilizado na linguagem oral do povo. A utilização do discurso direto demonstra que o autor uruguaio não quer apenas ser a voz do povo, quer dar voz ao povo, ainda que essa voz seja dada pela ótica da desqualificação da enunciação, ou do preconceito embutido nesta representação, como sublinha Spivak (2010). A 226 autora questiona o discurso intelectual que se autonomeia procurador do sujeito subalterno, julgando poder representá-lo ou falar por ele. Galeano conclui o capítulo descrevendo uma sociedade cubana ideal, permeada por valores éticos em detrimento dos econômicos. Exalta as conquistas da Revolução em relação ao modelo capitalista, destacando a resignação do povo cubano diante da escassez de recursos: [...] en una sociedad socialista, a diferencia de la sociedad capitalista, los trabajadores ya no actúan urgidos por el miedo a la desocupación ni por la codicia. Otros motores -la solidaridad, la responsabilidad colectiva, la toma de conciencia de los deberes y los derechos que lanzan al hombre más allá del egoísmo- deben ponerse en funcionamiento. [...]Hay escasez, es cierto, de diversos productos: en 1970 faltan frutas y heladeras, ropa; las colas, muy frecuentes, no sólo resultan de la desorganización de la distribución. La causa esencial de la escasez es la nueva abundancia de consumidores: ahora el país pertenece a todos. Se trata, por lo tanto, de una escasez de signo inverso a la que padecen los demás países latinoamericanos. (p.120-1). Tal descrição remete a uma sociedade socialista idealizada, que talvez nem Marx tenha vislumbrado. No relato de Galeano, todos os vícios inerentes à sociedade humana como a cobiça e o egoísmo foram banidos da ilha. As condições de escassez se explicam, contraditoriamente, pelo aumento do poder de compra, o que não seria o caso dos demais países do continente que sofrem privações em consequência do capitalismo, a raiz de todo o mal. No ensaio seguinte, “Gracias al sacrificio de los esclavos en el Caribe, nacieron la máquina de James Watt y los cañones de Washington”, o autor descreve a situação dos escravos trazidos da África por espanhóis, portugueses, franceses, ingleses e holandeses. Galeano afirma que o lucro com o comércio de manufaturas, escravos e açúcar possibilitou aos comerciantes patrocinarem o desenvolvimento da máquina a vapor inglesa. Demonstrando o tratamento desumano aplicado no tráfico negreiro, conclui: Entre los albores del siglo XVI y la agonía del siglo XIX, varios millones de africanos, no se sabe cuántos, atravesaron el océano; se sabe, sí, que fueron muchos 227 más que los inmigrantes blancos, provenientes de Europa, aunque, claro está, muchos menos sobrevivieron. (p.123). Pode-se observar claramente que Galeano faz questão de traçar um paralelo, principalmente, entre as colonizações espanhola e portuguesa, ainda que também comente sobre o contexto histórico das Antilhas francesas e da América inglesa. O autor destaca os processos levados a cabo nas antigas colônias europeias, sem absolvê-los das atrocidades cometidas, sublinhando uma relação de causa e efeitos entre o passado e o presente de mazelas que ainda persistem na América Latina. É patente o interesse de Galeano em demonstrar que o Brasil deve fazer parte da reflexão sobre a América Latina, no ensaio “El arco iris es la ruta del retorno a Guinea”, o autor evidencia uma profunda pesquisa sobre os efeitos do tráfico negreiro no país. Descreve os atos de barbárie cometidos contra os escravos, a fim de manter sua submissão. Destaca com paixão o papel do reino negro independente do Quilombo dos Palmares, que resistiu todo o século XVII às investidas militares portuguesas e holandesas. Numa época em que a monocultura açucareira reinava em todo continente, em Palmares, devido à experiência africana, praticava-se o policultivo: [...] los negros cultivaban el maíz, el boniato, los frijoles, la mandioca, las bananas y otros alimentos. [...] La abundancia de alimentos de Palmares contrastaba con las penurias que, en plena prosperidad, padecían las zonas azucareras del litoral. Los esclavos que habían conquistado la libertad la defendían con habilidad y coraje porque compartían sus frutos: la propiedad de la tierra era comunitaria y no circulaba el dinero en el estado negro. “No figura en la historia universal ninguna rebelión de esclavos tan prolongada como la de Palmares. La de Espartaco, que conmovió el sistema esclavista más importante de la antigüedad, duró dieciocho meses.” (Décio de Freitas, A guerra dos escravos, inédito.) (p.132) (Grifos nossos). A paixão dedicada à causa indígena e a sua forma de organização na América espanhola ganha um contorno análogo na exposição das virtudes dos povos escravos sequestrados da África pelos portugueses. Percebe-se na descrição citada uma sociedade idealizada, fundada nos moldes socialistas, sem propriedade privada e sem o corruptor capital. 228 Entre as fontes bibliográficas citadas, é digna de destaque a obra A guerra dos escravos, do historiador e jornalista gaúcho Décio Freitas. Em Las venas, há o acréscimo da preposição “de” no nome do autor brasileiro, lapso que se observa tanto na edição em espanhol consultada, como na versão em português da coleção de Estudos Latino-americanos, da editora Paz e Terra, traduzida por Galeno de Freitas. A título de curiosidade, na época da publicação de Las venas compunham seu conselho editorial Antonio Cândido, Celso Furtado, Fernando Gasparian e Fernando Henrique Cardoso. Os três últimos citados na obra de Galeano. Como acontece na maior parte das referências bibliográficas de Las venas, Galeano cita escritores da esquerda política latino-americana. Décio Freitas foi um pensador marxista cassado pelo regime militar. Refugiou-se em Montevidéu, onde escreveu Palmares: a guerra dos escravos, obra em que recupera a figura de Zumbi dos Palmares e defende a ideia de que os quilombos representaram a luta de classes no Brasil colonial. Galeano cita a obra com o nome provisório, A guerra dos escravos, pois na época ainda era inédita, destacando a importância das fontes alternativas às oficiais. Escrita no insólito ano de 1964, só seria publicada em 1971, mesmo ano da primeira edição de Las venas. Sob a perspectiva de Décio Freitas, Galeano exalta a figura de Zumbi, que ganha uma aura revolucionária, destacando a importância de seu papel como fomentador de outras resistências escravas no sistema colonial brasileiro. Galeano conclui o ensaio enfatizando a importância da matriz africana na cultura e na constituição das religiões adotadas pelas camadas mais pobres em diversos países latinoamericanos: Los cultos de raíz africana encuentran amplia proyección entre los oprimidos cualquiera que sea el color de su piel. Otro tanto ocurre en las Antillas. Las divinidades del vudú de Haití, el bembé de Cuba y la umbanda y la quimbanda de Brasil son más o menos las mismas [...] En el Caribe y en Bahía se entonan los cánticos ceremoniales en nagó, yoruba, congo y otras lenguas africanas. (p.136). 229 Baseado em um artigo próprio, Los dioses y los diablos en las favelas de Río, de 1969, Galeano comenta o importante papel das religiões africanas na América como elemento de coesão social, pois canaliza as frustrações da vida de um determinado grupo marginalizado, assim como atua como um mecanismo de negação da cruel realidade enfrentada no dia-a-dia: En los suburbios de las grandes ciudades del sur de Brasil [...] han brotado de la costa del oeste de África las divinidades del bien y del mal que han atravesado los siglos para transformarse en los fantasmas vengadores de los marginados, la pobre gente humillada que clama en las favelas de Río de Janeiro: Fuerza bahiana, fuerza africana, fuerza divina, ven acá. Ven a ayudarnos. (p.136) Nos próximos ensaios dedicados aos ciclos da monocultura, o autor relaciona a libertação dos escravos africanos ao aprisionamento econômico dos sertanejos. Ainda que dê exemplos de outros países do continente, o Brasil é o foco de suas reflexões mais acuradas. O contexto destes ensaios é o período que se seguiu à abolição da escravatura. Entretanto, como a distribuição de terras não sofreu nenhuma mudança, os latifundiários precisavam de outros braços para a plantação dos produtos que tinham alta cotação no mercado internacional. Por isso, a política de opressão aos índios e aos escravos foi substituída pela exploração dos escravos libertos e da massa de miseráveis, no Brasil, nordestinos flagelados da seca, oriundos principalmente da Paraíba e do Rio Grande do Norte. “La venta de campesinos” é o título que usa Galeano para referir-se ao comércio humano que substituiu o tráfico negreiro. Naquele então, o tráfico de pessoas ocorria nas emigrações para a região monocultora mais valorizada. Para demonstrar a situação de penúria a que eram submetidos os sertanejos, o autor uruguaio usa como fonte bibliográfica um clássico da literatura brasileira, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o que reforça a ideologia do autor de que a literatura tem também uma função social, além de servir como registro da sociedade da época: En 1938, la peregrinación de un vaquero por los calcinados caminos del sertão había dado origen a una de las mejores novelas de la historia literaria de Brasil. El azote de la sequía sobre los latifundios ganaderos del interior, subordinados a los ingenios de 230 azúcar del litoral, no ha cesado, y tampoco han variado sus consecuencias. El mundo de Vidas secas continúa intacto: el papagayo imitaba el ladrido del perro, porque sus dueños ya casi no hacían uso de la voz humana. (p. 138). No ensaio “El ciclo del caucho: Caruso inaugura un teatro monumental en medio de la selva”, Galeano destaca um outro período monocultor em que contrastam a riqueza dos latifundiários e a miséria da população. A borracha retirada das seringueiras seria o grande motor da opulência no Norte do Brasil, principalmente do Acre, território “que Brasil había arrancado a Bolivia al cabo de una fulminante campaña militar.” O grande ícone da riqueza do período, o teatro Amazonas, está estampado nos cartões postais da região amazônica até os dias de hoje. O título do ensaio faz referência à apresentação do tenor italiano Enrico Caruso no dia de sua inauguração. Corroborando o que já havíamos assinalado, Galeano demonstra claramente a importância da literatura como registro histórico. É bastante singular o título do próximo texto “Los plantadores de cacao encendían sus cigarros con billetes de quinientos mil reis”. Trata-se de um excerto do romance São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado. Na nota de rodapé, o autor uruguaio faz referência a outras obras do escritor baiano que têm o ciclo do cacau como pano de fundo, Cacau (1935) e Gabriela, Cravo y Canela (1969), ambas edições em espanhol. Como nos demais ensaios relacionados à monocultura, este também destaca o contraste entre o período de abundância da cidade-sede e o estado atual deste mesmo local, convertido em um dos mais pobres da região. Os dois ensaios seguintes “Brazos baratos para el algodón” e “Brazos baratos para el café” seguem o mesmo paradigma dos anteriores, destacando a exploração do trabalho de uma massa de miseráveis em nome das riquezas dos latifundiários e das multinacionais. Há muito de atual nas observações de Galeano. Suas críticas estão centradas no monopólio agrícola da empresa norte-americana Anderson Clayton e no dumping praticado por ela. Estes 231 métodos ainda hoje são uma prática comum, assim como os subsídios oferecidos aos produtores agrícolas pelo governo daquele país. Para denunciar as práticas capitalistas norte-americanas, o autor cita uma das obras que guardam bastantes similaridades no plano ideológico com Las venas, conforme já assinalamos no capítulo sobre a ensaística hipano-americana. Trata-se de Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana: “José Carlos Mariátegui había observado que el capitalismo extranjero; en su perenne búsqueda de tierras, brazos y mercados, tendía a apoderarse de los cultivos de exportación de Perú, a través de la ejecución de hipotecas de los terratenientes endeudados.” (p.152). Em ambas as obras se identifica a exploração estrangeira e o latifúndio como as causas do subdesenvolvimento. No contexto brasileiro, para destacar a disseminação do plantio do café, no que Galeano denomina Sul do Brasil para referir-se ao Sudeste, encontramos uma descrição curiosa da Cidade Maravilhosa: “Los turistas que actualmente atraviesan los bosques de Tijuca para ir a nadar a las aguas de la barra ignoran que allí, en las montañas que rodean a Río de Janeiro, hubo grandes cafetales hace más de un siglo.” (p.155). No ensaio também se enfatiza a importância dos imigrantes no ciclo cafeeiro em São Paulo, gerando riqueza econômica e a constituição de uma elite social. Em “La cotización del café arroja al fuego las cosechas y marca el ritmo de los casamientos”, Galeano utiliza o mesmo recurso da citação para metaforicamente resumir os acontecimentos de uma determinada época. Trata-se da crise política e econômica no Brasil depois do colapso do preço do café. Situação piorada pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954. O escritor relata a pressão política e econômica por que passaram muitos países latinoamericanos, devido à especulação internacional sobre o preço do café, e aponta como grandes vilãs as empresas monopolistas norte-americanas como a United Fruit, transformada em United Brands: 232 En Estados Unidos el café proporciona trabajo a más de seiscientas mil personas: los norteamericanos que distribuyen y venden el café latinoamericano ganan salarios infinitamente más altos que los brasileños, colombianos, guatemaltecos, salvadoreños o haitianos que siembran y cosechan el grano en las plantaciones. (p.161). O título do ensaio se explica com a citação do colombiano Mario Arrubia, ao afirmar ironicamente que na Colômbia o preço do café no mercado internacional influencia até os pedidos de casamento. Na cidade cafeeira de “Antioquia, la curva de matrimonio responde ágilmente a la curva de los precios del café. Es típico de una estructura dependiente: hasta el momento propicio para una declaración de amor en una loma antioqueña se decide en la bolsa de Nueva York.” (163). A referência a Arrubia serve para justificar o ensaio posterior “Diez años que desangraron a Colombia”, em que Galeano descreve de forma dramática e crua um período de violência que se desencadeou no próspero país produtor de café: [...] entre 1948 y 1957, la guerra campesina abarcó los minifundios y los latifundios, los desiertos y los sembradíos, los valles y las selvas y los páramos andinos, empujó al éxodo a comunidades enteras, generó guerrillas revolucionarias y bandas de criminales y convirtió al país entero en un cementerio: se estima que dejó un saldo de ciento ochenta mil muertos (80 Germán Guzmán Campos, Orlando Fals Borda y Eduardo Umaña Luna, La violencia en Colombia. Estudio de un proceso social, Bogotá, 1963-64.). El baño de sangre coincidió con un período de euforia económica para la clase dominante: ¿es lícito confundir la prosperidad de una clase con el bienestar de un país? (Grifo do autor). (p.164). Defensor da insurreição popular como motor da transformação da sociedade, o autor uruguaio vê neste período de violência a origem das “posteriores guerrillas políticas que; levantando las banderas de la revolución social, llegaron a ocupar y controlar extensas zonas del país.” (p.166). Entre as contradições geradas pelo período áureo do café na Colômbia, Galeano destaca a distribuição injusta dos recursos, o que ocasionava uma cifra escandalosa de 88% de desnutrição nas crianças em idade escolar, além do acesso desigual à educação. Na irônica nota de rodapé, Galeano demonstra o “quão” conceituadas eram as universidades que formavam a elite intelectual colombiana: 233 Hay en Colombia más de un millón de niños sin escuela. Ello no impide que el sistema se de el lujo de mantener cuarenta y una universidades diferentes, públicas o privadas, cada una con sus diversas facultades y departamentos, para la educación de los hijos de la élite y de la minoritaria clase media (83 El profesor Germán Rama encontró que algunas de estas venerables casas académicas tienen en sus bibliotecas, como acervo más importante, la colección encuadernada de Selecciones del Reader's Digest. Germán W. Rama, Educación y movilidad social en Colombia, Revista «Eco», núm. 116, Bogotá, diciembre de 1969). (p.168). (Grifo nosso). Em “La varita mágica del mercado mundial despierta a Centroamérica”, Galeano relata o avanço da monocultura nesta região, fruto da concentração de terras e da influência das empresas norte-americanas em Honduras, Guatemala e Costa Rica. No texto posterior, “Los filibusteros al abordaje”, o autor continua a narrar as incursões estrangeiras levadas a cabo no processo de exploração da América Central. Desde as negociações para a construção do Canal do Panamá até dominação das multinacionais. Resgatando um dos acontecimentos mais tristes da história colombiana, Galeano demonstra a repercussão do episódio do assassinato dos trabalhadores ‘bananeros’ grevistas. Buscando reconstruir a memória histórica e contextualizá-la, cita os romances La casa Grande, de Álvaro Cespeda Samudio, a trilogia Viento fuerte, El papa verde e Los ojos de los enterrados, de Miguel Ángel Asturias e Cien años de soledad, de Gabriel Garcia Márquez. Como já assinalamos, tanto em Las venas como no semanário Marcha e na revista Crisis, Galeano se empenha em divulgar a obra de inúmeros autores latino-americanos, contribuindo para que seus leitores tenham a oportunidade de aprofundar-se na literatura e na cultura da América Latina. Relembremos aqui o episódio no célebre fragmento da clássica obra do Nobel de Literatura de 1982: La huelga grande estalló [...] Allí estaba José Arcadio Segundo, el día en que se anunció que el ejército había sido encargado de restablecer el orden público. [...] El capitán dio la orden de fuego y catorce nidos de ametralladoras le respondieron en el acto. José Arcadio Segundo no habló mientras no terminó de tomar el café. - Debían ser como tres mil - murmuró. - Qué? - Los muertos - aclaró él-. Debían ser todos los que estaban en la estación. La mujer lo midió con una mirada de lástima. "Aquí no ha habido muertos - dijo -. Desde los tiempos de tu tío, el coronel no ha pasado nada en Macondo." En tres cocinas donde se detuvo José Arcadio Segundo antes de llegar a la casa le dijeron lo mismo: "No hubo muertos." Pasó por la plazoleta de la estación, y vio las mesas de fritangas amontonadas una encima de otra, y tampoco allí encontró rastro alguno de la masacre.(GARCÍA MÁRQUEZ, 1980, p. 299 – 300). 234 Assim narra García Márquez a forma como as autoridades colombianas tentaram ocultar os acontecimentos, afirmando que não houve nada. Mas, infelizmente, houve muito. Foi em 12 de novembro de 1928 que se iniciou uma greve na zona bananeira de Ciénaga e Santa Marta, departamento de Magdalena. Mais de 25 mil trabalhadores cruzaram os braços, mesmo sob pressão da companhia multinacional United Fruit Company: “La huelga terminó con un baño de sangre: en la noche del 5 de diciembre de 1928, soldados del Ejército Nacional dispararon sobre una reunión pacífica de millares de huelguistas, matando a más de mil trabajadores.”33 Galeano destaca este fato por sua relevância no contexto latinoamericano, visto que após o massacre desencadearam-se os chamados anos vermelhos da Colômbia, traduzidos em revoltas populares de trabalhadores, agricultores e indígenas de todo território nacional. Em “La crisis de los años treinta: ‘es un crimen más grande matar a una hormiga que a un hombre’”, Galeano relata os cruéis governos de Jorge Ubico na Guatemala, de Maximíliano Hernández Martínez em El Salvador, de Tiburcio Carías em Honduras e de Anastasio Somoza na Nicarágua; todos patrocinadas pelo governo norte-americano, após a quebra da Bolsa de Nova York, na chamada política da “Buena Vecindad en Washington”. Neste contexto, o autor uruguaio sublinha o heroísmo quixotesco de personagens históricos como o nicaragüense Augusto César Sandino, que combateu até a morte a tirania instalada em seu país. A citação que serve de subtítulo ao ensaio é atribuída ao ditador salvadorenho Martínez, que, em 1932, mandou incluir no Código Penal um artigo que condenava à prisão quem matasse uma formiga, justificando que estes seres não teriam direito à reencarnação, diferentemente dos humanos. El Brujo, como era conhecido, dizia-se protegido por “‘legiones invisibles’ que le daban cuenta de todas las conspiraciones y mantenía comunicación telepática directa con el presidente de los Estados Unidos. Un reloj de péndulo le indicaba, 33 Fundación Manuel Cespeda. www.manuelcepeda.atarraya.org. Consultado em 20 de junho de 2010. 235 sobre el plato, si la comida estaba envenenada.” (p.180). Sem aprofundarmo-nos no tema, poderíamos afirmar que esta descrição de Galeano parece ter sido retirada de uma obra do realismo maravilhoso, pois trata de uma realidade que não se rege pelas normas do mundo racional, em que se observa a naturalização do sobrenatural, o que demonstra a extensão das literaturas superadoras do realismo que, de fato, renovaram a narrativa latino-americana na segunda metade do século XX. No ensaio subsequente, “¿Quién desató la violencia en Guatemala?”, Galeano descreve a queda do ditador Jorge Ubico e a ascensão de governos comunistas, iniciado por Juan José Arévalo, eleito presidente após uma revolução encabeçada por jovens oficiais e universitários da classe média, e de Jacobo Arbenz, que havia aprofundado as reformas, principalmente a agrária. Sob forte ataque de uma “furiosa campaña de propaganda internacional”, capitaneada pelos Estados Unidos, o governo de Arbenz foi sucumbido em 1954 pela “operación libertadora” da CIA. A partir de então, sucederam-se governos autoritários como o de “Julio César Méndez Montenegro (1966-1970), quien proporcionó a la dictadura el decorado de un régimen democrático.” O ano de 1967 é emblemático para a Guatemala. National Catholic Reporter, uma fonte citada por Galeano, descreve assim este período: “en poco más de un año, los grupos terroristas de la derecha habían asesinado a más de dos mil ochocientos intelectuales, estudiantes, dirigentes sindicales y campesinos que habían ‘intentado combatir las enfermedades de la sociedad guatemalteca’”. (p.183). Galeano ressalta o papel de mártires desempenhado pelos intelectuais e ao mesmo tempo condena a omissão da imprensa: “No vibraron los teletipos del mundo con las primicias de la sistemática carnicería, no llegaron a Guatemala los periodistas ávidos de noticias, no se escucharon voces de condenación. El mundo estaba de espaldas [...].” Neste mesmo ano, o autor uruguaio publica Guatemala, pais ocupado, citado no ensaio, e Guatemala, clave de Latinoamérica. 236 Ambos voltados à denúncia das atrocidades ali cometidas pelos sucessivos governos autoritários, como as descritas em Las venas: La aldea Cajón del Río quedó sin hombres, y a los de la aldea Tituque les revolvieron las tripas a cuchillo y a los de Piedra Parada los desollaron vivos y quemaron vivos a los de Agua Blanca de Ipala, previamente baleados en las piernas; en el centro de la plaza de San Jorge clavaron en una pica la cabeza de un campesino rebelde. En Cerro Gordo, llenaron de alfileres las pupilas de Jaime Velázquez; el cuerpo de Ricardo Miranda fue encontrado con treinta y ocho perforaciones y la cabeza de Haroldo Silva, sin el cuerpo de Haroldo Silva, al borde de la carretera a San Salvador; en Los Mixcos cortaron la lengua de Ernesto Chinchilla; en la fuente del Ojo de Agua, los hermanos Oliva Aldana fueron cosidos a tiros con las manos atadas a la espalda y los ojos vendados [...] (p.184). No ensaio seguinte, “La primera reforma agraria de América Latina: un siglo y medio de derrotas para José Artigas”, Galeano narra a saga do herói nacional uruguaio na tentativa de implatação da reforma agrária. No longo ensaio sobre seu país natal, o autor discorre sobre a formação do Uruguai desde a luta pela independência levada a cabo pelos despossuídos contra os espanhóis, o que condenou o país ao monocultivo e a uma outra dependência estrangeira, até a promulgação do Código Agrário de 1815 – “tierra libre, hombres libres”. Galeano busca recuperar a imagem de seu conterrâneo, segundo ele, injustiçado pela história oficial. Conforme anuncia no título do ensaio, a primeira reforma agrária da América Latina sai derrotada, duraria apenas um ano na Província Oriental: Este caudillo, con tanta saña calumniado y tan desfigurado por la historia oficial, encabezó a las masas populares de los territorios que hoy ocupan Uruguay y las provincias argentinas de Santa Fe, Corrientes, Entre Ríos, Misiones y Córdoba, en el ciclo heroico de 1811 a 1820. Artigas quiso echar las bases económicas, sociales y políticas de una Patria Grande [...] fue el más importante y lúcido de los jefes federales que pelearon contra el centralismo aniquilador del puerto de Buenos Aires. Luchó contra los españoles y los portugueses y finalmente sus fuerzas fueron trituradas por el juego de pinzas de Río de Janeiro y Buenos Aires, instrumentos del Imperio británico [...]. (p.187). Após relatar o programa pioneiro de reforma agrária implantado por Artigas, Galeano narra em “Artemio Cruz y la segunda muerte de Emiliano Zapata” a epopeia do revolucionário Zapata para instaurar um governo socialista no México. Seu adversário era o 237 ditador Porfírio Dias, apoiado pelos Estados Unidos. O autor uruguaio constrói uma narrativa épica do líder mexicano: Una ley de 1909 determinó que nuevas tierras fueran arrebatadas a sus legítimos dueños y puso al rojo vivo las ya ardientes contradicciones sociales. Emiliano Zapata, el jinete parco en palabras, famoso porque era el mejor domador del estado y unánimemente respetado por su honestidad y su coraje, se hizo guerrillero. (p. 197). Para reforçar o caráter heroico e mítico de Zapata, Galeano narra dramaticamente sua morte, comparando-o ao ícone da esquerda latino-americana: “En 1919 una estratagema y una traición terminaron con la vida de Emiliano Zapata. Mil hombres emboscados descargaron los fusiles sobre su cuerpo. Murió a la misma edad que el Che Guevara. Lo sobrevivió la leyenda: el caballo alazán que galopaba solo, hacia el sur[...].” (p.200). Galeano ressalta que o presidente Lázaro Cárdenas foi um continuador do legado de Zapata. Entretanto, Cárdenas será comparado, posteriormente, ao protagonista do romance La muerte de Artemio Cruz (1962), de Carlos Fuentes, como sugere o título do ensaio. O personagem é um homem de origem humilde que vai, com o passar do tempo, esquecendo-se do idealismo e heroísmo da juventude e “usurpa tierras; [...] se hace diputado [...] acumulando fortuna, poder y prestigio en base a los negocios, los sobornos, la especulación [...] la represión a sangre y fuego de la indiada. (p.203). A segunda morte de Zapata é para Galeano a derrocada dos valores revolução. Reforçando sua ideologia marxista, o autor uruguaio afirma que o “nacionalismo mexicano no derivó al socialismo y, en consecuencia, como ha ocurrido en otros países que tampoco dieron el salto decisivo, no realizó cabalmente sus objetivos de independencia económica y justicia social.” (p. 201) (Grifo nosso). Na primeira parte de Las venas há indubitavelmente um tema onipresente: a reforma agrária. Para demonstrar as consequências devastadoras do latifúndio na América Latina, Galeano toma a expressão do contemporâneo economista Domingo Maza Zavala para dar título a seu próximo ensaio: “El latifundio multiplica las bocas, pero no los panes”. Como 238 tantos outros intelectuais de esquerda dos anos 1960, sem negar sua afiliação ideológica ao socialismo, Zavala, ex-diretor do Banco Central da Venezuela, hoje é um crítico do modelo de governo instaurado por Hugo Cháves. Ao longo do ensaio, Galeano tece considerações sobre a “estructura del atraso del campo latinoamericano”, baseada no desperdício da força de trabalho, da terra disponível, dos capitais, do produto e, sobretudo, segundo o autor, “desperdicio de las huidizas oportunidades históricas del desarrollo.” Ironicamente, afirma: Desde que la Alianza para el Progreso proclamó, a los cuatro vientos, la necesidad de la reforma agraria, la oligarquía y la tecnocracia no han cesado de elaborar proyectos. [...]. Ya no es un tema maldito la reforma agraria: los políticos han aprendido que la mejor manera de no hacerla consiste en invocarla de continuo. (p.206) (Grifo do autor). Discorrendo sobre a reforma agrária no Brasil, Galeano destaca como um caso único no mundo o paradoxal Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, implantado em 1964 durante a ditadura militar: “en vez de distribuir tierra a los campesinos, se dedica a expulsarlos, para restituir a los latifundistas las extensiones espontáneamente invadidas o expropiadas por gobiernos anteriores. (p.207). Abusos e corrupção são relatados também em outros países como Equador, Venezuela. Na Argentina, o cenário não era diferente, apesar das tentativas de Juan Carlos Onganía de taxar as “llanuras peladas” e de Juan Domingo Perón com a proposição do “estatuto del peón” e o pagamento do “salario mínimo rural”, as forças oligárquicas foram mais fortes e ambos tiveram que recuar. Com base nos dados fornecidos pela CEPAL, uma das recorrentes fontes do autor, descreve-se o atraso da mecanização no Uruguai e do mau uso de fertilizantes na agricultura argentina. Na Bolívia e no Peru, observam-se mudanças positivas. No Chile, o recém empossado presidente Salvador Allende anuncia uma “reforma agraria radical, mientras escribo estas páginas”, sublinha Galeano. Como se sabe, esse projeto viu-se frustrado pela conspiração interna e externa que culminou no golpe militar de 11 de setembro de 1973. O presidente chileno, fiel a seu juramento, 239 preferiu morrer como mártir no palácio de La Moneda a trair a confiança de seus compatriotas. Com o título “Las trece colonias del norte y la importancia de no nacer importante”, Galeano explica, por meio do tipo de colonização implantada, as causas dos diferentes graus de desenvolvimento das Américas britânica e latino-americana. “No fueron factores raciales”, diferentemente do que já se propusera, “las islas británicas de las Antillas no tenían nada de españolas ni de portuguesas.” Desde a política de distribuição da posse da terra, brindada aos desbravadores nas colônias do norte e negada aos que nela trabalham na América Latina, estabelece-se um modelo de povoamento e de exploração, respectivamente: En realidad, al norte y al sur se habían generado, ya en la matriz colonial, sociedades muy poco parecidas y al servicio de fines que no eran los mismos [...] Los peregrinos del Mayflower no atravesaron el mar para conquistar tesoros legendarios ni para explotar la mano de obra indígena escasa en el norte, sino para establecerse con sus familias y reproducir, en el Nuevo Mundo, el sistema de vida y de trabajo que practicaban en Europa. No eran soldados de fortuna, sino pioneros; no venían a conquistar, sino a colonizar: fundaron “colonias de poblamiento.” (p.213) (Grifos do autor). Segundo Galeano, na América Latina a abundância de matéria-prima e de mão de obra “servil”: indígenas, escravos africanos e, posteriormente, uma massa de trabalhadores desempregados empurrados de um lado para o outro ao sabor dos preços do mercado internacional, criou uma estrutura de exploração que persiste até os dias de hoje. O autor encerra o capítulo descrevendo as razões do sucesso econômico do irmão do norte, em contraponto ao atraso latino-americano: La verdad es que la insignificancia económica de las trece colonias permitió la temprana diversificación de sus exportaciones y alumbró el impetuoso desarrollo de las manufacturas. La industrialización norteamericana contó, desde antes de la independencia, con estímulos y protecciones oficiales. Inglaterra se mostraba tolerante, al mismo tiempo que prohibía estrictamente que sus islas antillanas fabricaran siquiera un alfiler. (p.216). No terceiro e último capítulo da primeira parte, “Las fuentes subterráneas del poder”, Galeano relata em oito ensaios as atrocidades cometidas contra a população latino-americana 240 no intuito de usurpar suas riquezas mineras subterrâneas (salitre, cobre, estanho, bauxita, ferro, petróleo). Muitos países da América Latina são citados como exemplos de orgulho pela posição nacionalista adotada ou de vergonha pela corrupção e violência dos governos ao sul do Rio Bravo. No capítulo que se inicia, o autor escreve uma concisa história de heróis e de traidores latino-americanos. Dentre todos os capítulos de Las venas, este é o mais breve e, talvez o mais impactante, tanto na época de sua publicação como nos dias de hoje, visto que relata histórias de personagens que ainda figuram na esfera política, militar e empresarial da sociedade latinoamericana contemporânea. No primeiro ensaio, “La economía norteamericana necesita los minerales de América Latina como los pulmones necesitan el aire”, como expressa a metáfora, Galeano observa a escassez de petróleo e de uma variedade de metais imprescindíveis para o desenvolvimento econômico e militar do país do norte. Este breve ensaio de pouco mais de uma página é apenas uma introdução para a série de denúncias que será levada a cabo no ensaio subsequente, “El subsuelo también produce golpes de estado, revoluciones, historias de espías y aventuras en la selva amazónica”. A dependência norte-americana de fontes estrangeiras para suprir a maior parte dos minerais estratégicos de que necessita para manter seu arsenal de guerra, incluídos seus reatores nucleares, fizeram com que a maior potência militar interviesse na política governamental de vários países latino-americanos. No Brasil, devido as suas ricas jazidas minerais, dois presidentes, Jânio Quadros e João Goulart, foram derrubados pela elite econômica e política, visando acordos comercias espúrios com empresas norte-americanas. Semelhantes intervenções se deram na Bolívia, no Peru, na Venezuela e no Chile até a subida de Allende ao poder. Em Cuba, o próprio Che Guevara esclareceria a Galeano a dependência que tinham os norte-americanos da ilha caribenha: “En 1964, en su despacho de La Habana, el 241 Che Guevara me enseñó que la Cuba de Batista no era sólo de azúcar: los grandes yacimientos cubanos de níquel y de manganeso explicaban mejor, a su juicio, la furia ciega del Imperio contra la revolución.” (p.221). Tal citação demonstra quão pessoalmente estava o autor uruguaio envolvido com a ideologia castrista, o que lhe impedia, como se observa ao longo da obra, vislumbrar um panorama isento do processo revolucionário cubano e suas repercussões dentro e fora da ilha. Demonstrando que os tentáculos do imperialismo se extendiam por toda a América, Galeano destaca minuciosamente o processo norte-americano de apoderamento da Amazônia que estava em curso na década de 1960, com o aval do corrupto governo militar brasileiro: El gobierno había ofrecido exoneraciones de impuestos y otras seducciones para colonizar los espacios vírgenes de este universo mágico y salvaje. Según Time, los capitalistas extranjeros habían comprado, antes de 1967, a siete centavos el acre, una superficie mayor que la que suman los territorios de Connecticut, Rhode lsland, Delaware, Massachusetts y New Hampshire, «Debemos mantener las puertas bien abiertas a la inversión extranjera -decía el director de la agencia gubernamental para el desarrollo de la Amazonia- [...] En América Latina es lo normal: siempre se entregan los recursos en nombre de la falta de recursos. (p.223-224) (Grifo do autor). No ensaio seguinte, “Un químico alemán derrotó a los vencedores de la guerra del Pacífico”, o autor uruguaio descreve a importância do salitre e do guano para a economia do Peru. Devido às nefastas previsões do economista britânico Thomas Malthus para a Europa, que pregava o descompasso entre o crescimento demográfico e a produção de alimentos, o fantasma da fome acelerou a descoberta das propriedades fertilizantes do guano, um adubo natural rico em fosfato e nitrogênio, proveniente de excrementos de aves, morcegos, ou fabricado com resíduos de peixes. Se antes as oligarquias de Lima viviam soberbamente à custa das minas de prata de Potosí, “ahora pasaban a vivir de la mierda de los pájaros y del grumo blanco y brillante de las salitreras. Perú creía que era independiente, pero Inglaterra había ocupado el lugar de España. ‘El país se sintió rico - escribía Mariátegui.’” A exploração do salitre em Antofagasta, até então província boliviana, desencadeou a Guerra do Pacífico 242 (1879-1883). As disputas na região, entretanto, remontavam à expulsão dos espanhóis. À época, Chile e Bolívia já discutiam o estabelecimento correto da fronteira, o que ameaçava indiretamente o Peru. Foi a valorização pelos ingleses dos territórios chilenos e bolivianos, ricos em guano e salitre, o que gerou a disputa de uma região antes ignorada pelos três países. Os batalhões chilenos invadiram a província, anexando-a definitivamente a seu território, o que provocou uma crise econômica no Peru. O que a Bolívia não sabia, na época, é que havia perdido na guerra: “la mina de cobre más importante del mundo actual, Chuquicamata, se encuentra precisamente en la provincia, ahora chilena, de Antofagasta.” Entretanto, a vitória chilena seria, na verdade, uma vitória inglesa, pois as terras no calor das batalhas foram compradas por dois britânicos, John Thomas North e seu sócio Robert Harvey, financiados pelo Banco de Valparaíso e outros bancos do país. Quando, posteriormente, o presidente chileno José Manuel Balmaceda tentou romper os monopólios britânicos, nacionalizando os distritos salitreiros, constituindo empresas chilenas, North e seus compatriotas financiaram rebeldes e barcos britânicos de guerra: “Derrotado, Balmaceda se suicidó. [...]. Chile funcionaba como un apéndice de la economía británica: el más importante proveedor de abonos del mercado europeo no tenía derecho a la vida propia.” Neste contexto, explica-se o título do ensaio, o aperfeiçoamento, por um químico alemão, do processo “Haber-Bosch para producir nitratos fijando el nitrógeno del aire, desplazó al salitre definitivamente y provocó la estrepitosa caída de la economía chilena.” (p.232). “Dientes de cobre sobre Chile” é a continuação do histórico de exploração pelos ingleses, agora sob domínio norte-americano. Apesar de toda propaganda terrorista da direita, apoiada pelos Estados Unidos, Salvador Allende se elege presidente e anuncia a nacionalização da mineração no Chile. Diferentemente da “chilenización” do cobre pelo governo anterior, que converteu o Estado em sócio das empresas estrangeiras, permitindo a 243 elas triplicar seus lucros, Allende propõe o rompimento do círculo vicioso da exploração estrangeira. Em “Los mineros del estaño, por debajo y por encima de la tierra”, Galeano narra a legendária história da descoberta por Simon Patiños da maior mina de estanho da Bolívia e de sua influência econômica e política em seu país, antes e mesmo depois da nacionalização do estanho, conquista fundamental da revolução de 1952, visto que o refino do mineral se fazia em Liverpool, na Inglaterra, nas empresas de Patiños. Numa ácida crítica à elite boliviana, Galeano dispara: “Este país que no había podido, hasta ahora, producir sus propios lingotes, se da el lujo, en cambio, de contar con ocho facultades de derecho destinadas a la fabricación de vampiros de indios.” (p.241). No ensaio Galeano descreve a situação de indigência do país produtor de estanho: [...]el envase de hojalata identifica a los Estados Unidos [...] es también un símbolo, aunque no se sepa, de la silicosis en las minas de Siglo XX o Huanuni: la hojalata contiene estaño, y los mineros bolivianos mueren con los pulmones podridos para que el mundo pueda consumir estaño barato. Media docena de hombres fija su precio mundial. ¿Qué significa, para los consumidores de conservas o los manipuladores de la bolsa, la dura vida del minero en Bolivia? (p.242). (Grifos do autor). Provavelmente em nenhuma outra parte de Las venas se sinta tão profundamente a descrição vívida e dramática das condições de indigência em que viviam as populações da América latina. Não é possível com um pequeno excerto selecionado da narrativa de Galeano resumir a atmosfera “sufocada”, sem ar, que recria o autor ao descrever as minas. Talvez as imagens claustrofóbicas dos mineiros chilenos sejam uma analogia possível, mas incompleta ainda. Conforme afirmou Galeano numa entrevista ao programa argentino Lo pasado pensado34, para escrever os textos de Las venas, foi preciso viver a experiência na pele, compartilhando dos dramas pessoais, da bebedeira e do choro. Galeano compara “la mejor cancha de golf de toda Bolívia”, privilégios que recebem os engenheiros estrangeiros que 34 Eduardo Galeano em entrevista a Felipe Pigna no programa Lo pasado pensado. Canal Cultura, Argentina. http://www.elhistoriador.com.ar/gaceta/gaceta22.html Consultado em 12 de novembro de 2010. 244 gerenciam as minas de estanho “nacionalizadas” do país à vida dos trabalhadores bolivianos que “ganan centavos y trabajan como bestias”: Todos masticaban, mientras trabajaban, hojas de coca con ceniza, y esto también formaba parte de la obra de aniquilación, porque la coca, como se sabe, al adormecer el hambre y enmascarar la fatiga, va apagando el sistema de alarmas con que cuenta el organismo para seguir vivo. [...]Pero la muerte lenta y callada constituye la especialidad de la mina. El vómito de sangre, la tos, la sensación de un peso de plomo sobre la espalda y una aguda opresión en el pecho son los signos que la anuncian.[...]. (p.245). Os mesmos dentes que morderam o cobre chileno e o estanho boliviano fincam seus “Dientes de hierro sobre Brasil.” Neste ensaio observa-se claramente o trabalho de pesquisa que antecedeu a escrita da obra. A riqueza de detalhes e a citação das fontes corroboram a descrição que faz Galeano dos meandros políticos que culminaram no Golpe Militar de 1964. Antes do Golpe, em 1952, um acordo militar entre Estados Unidos e Brasil proibia que o país latino-americano vendesse matérias-primas estratégicas, como o ferro, por exemplo, a países socialistas. Segundo Galeano, uma das causas da trágica queda do presidente Getúlio Vargas foi a venda deste minério a Polônia e a Tchecoslováquia. Posteriormente, patrocinados pelo poder econômico norte-americano de sua principal companhia mineradora: “Los directores, abogados o asesores de la Hanna -Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pedreira, Roberto Campos, Mário da Silva Pinto, Otávio Gouveia de Bulhões- eran también miembros, al más alto nivel, del gobierno de Brasil [...].” (p.250). Como o presidente Jânio Quadros anulou as ilegais autorizações de exploração da companhia estadunidense, restituindo as jazidas à reserva nacional: “cuatro días después, los ministros militares obligaron a Quadros a renunciar: ‘Fuerzas terribles se levantaron contra mí [...].” (p.251). Graças ao levante popular, em Porto Alegre, encabeçado por Leonel Brizola, o vice-presidente João Goulart, Jango, pôde assumir. Entretanto, as mesmas forças terríveis impulsionaram o golpe militar de março de 1964: “Hombres de la Hanna pasaron a ocupar la vicepresidencia de Brasil y tres de los ministerios.” Posteriormente, depois de instaurar o regime de exceção que condenou ao exílio, 245 à prisão e à morte muitos brasileiros, o Marechal Castelo Branco concedeu à mineradora norte-americana o direito de exploração da maior jazida de Ferro do mundo, a de Paraopeba. Numa demonstração incontestável de que tudo estava previamente orquestrado, Galeano relata que, antes mesmo de Goulart ter renunciado e se afastado do Brasil, o presidente norte-americano Lyndon Johnson envia um telegrama de congratulações ao presidente do Congresso brasileiro, que assumiria provisoriamente o cargo. O extenso ensaio “E1 petróleo, las maldiciones y las hazañas” relata o alcance dos tentáculos das grandes corporações petroleiras norte-americanas sobre os governos da América Latina. Galeano, por meio de vasta bibliografia, demonstra como essas empresas desfrutaram e exerceram seu poder político em escala global: La Standard Oil y la Shell levantan y destronan reyes y presidentes, financian conspiraciones palaciegas y golpes de Estado, disponen de innumerables generales, ministros y James Bonds y en todas las comarcas y en todos los idiomas deciden el curso de la guerra y de la paz. (p.255). Num tom de denúncia, Galeano percorre a história da descoberta, exploração e refino dos produtos derivados do petróleo em diversos países latino-americanos. O autor contextualiza a criação, nacionalização e até desnacionalização das grandes empresas petroleiras estatais. Relata os lucros exorbitantes, o controle de preços dos cartéis e o poder de decisão política das companhias estrangeiras como a Standard Oil de Nueva Jersey na Venezuela. Tanto na América Latina como ao redor do mundo, o petróleo empossa presidentes e ditadores, “acentúa las deformaciones estructurales de las sociedades que pone a su servicio.” (p.258). Entretanto, alguns países ousaram desafiar esse poderio. Galeano, defensor fervoroso da revolução de 1959, obviamente, descreve o heroísmo de Cuba frente o imperialismo: En enero de 1960, Eisenhower anunció la reducción de la cuota cubana de azúcar, y en febrero Fidel Castro firmó un acuerdo comercial con la Unión Soviética para intercambiar azúcar por petróleo y otros productos a precios buenos para Cuba. La Jersey, la Shell y la Texaco se negaron a refinar el petróleo soviético: en julio el 246 gobierno cubano las intervino y las nacionalizó sin compensación alguna. [...] El conflicto era una prueba de soberanía, y Cuba salió airosa. Dejó de ser, al mismo tiempo, una estrella en la constelación de la bandera de los Estados Unidos y una pieza en el engranaje mundial de la Standard Oil. (p.260). O autor uruguaio também revela as ingerências de empresas petroleiras norteamericanas no México, na Argentina, no Uruguai e no Peru, ressaltando a corrupção de alguns governos e o heroísmo de presidentes nacionalistas que lutaram com todas as forças para criar empresas petroleiras estatais, tornando seus países independentes político e economicamente, protegendo os interesses de seus compatriotas. Sobre o Brasil, o autor uruguaio destaca algumas peculiaridades sobre a criação da estatal Petrobrás, em 1953: Petrobrás fue mutilada. El cártel le ha arrebatado dos grandes fuentes de ganancias: en primer lugar, la distribución de la gasolina, los aceites, el querosene y los diversos fluidos [...] en segundo lugar, la industria petroquímica, generoso manantial de beneficios, que ha sido desnacionalizada, hace pocos años, por la dictadura del mariscal Castelo Branco. (p.263). Entretanto a ganância estrangeira não havia sido aplacada. Galeano ressalta que a sabotagem e a má-fé também faziam parte do arsenal destas “grandes” empresas. Em agosto de 1960, a Petrobrás havia encomendado um estudo da bacia sedimentar brasileira ao técnico norte-americano Walter Link, principal geólogo de la Standard Oil de Nova Jersey. Contratado a peso de ouro, por meio milhão de dólares, seu extenso relatório “tachaba de ‘inexpresiva’ la espesura sedimentaria de Sergipe: hasta entonces había sido considerada de grado B, y Link la rebajó a grado C.” (p.263). Três meses depois, dois técnicos brasileiros revisaram os estudos geológicos e apontaram “como resultado de sus informes, el pequeño estado nordestino de Sergipe pasó a la vanguardia en la producción de petróleo.” (p.263). Galeano sublinha que, além dos golpes de estado na América Latina, duas grandes empresas petroleiras norte-americanas também forjaram e patrocinaram a Guerra del Chaco (1932-1935) : 247 [...] entre los dos pueblos más pobres de América del Sur: «Guerra de los soldados desnudos», llamó René Zavaleta a la feroz matanza recíproca de Bolivia y Paraguay. [...] Era una disputa entre dos empresas, enemigas (Standard Oil e Shell) y a la vez socias dentro del cártel, pero no eran ellas quienes derramaban la sangre. (p.266). Como costuma acontecer, apesar da declarada vitória paraguaia, os dois países saíram derrotados. Atualmente sabemos que, lamentavelmente, outras guerras foram inventadas para justificar invasões e usurpação da soberania política e econômica de países não-aliados, baseadas nos valores morais, religiosos e, sobretudo, econômicos norte-americanos, algumas destas ingerências ainda estão em andamento. O texto que encerra a primeira parte de Las venas é “El lago de Maracaibo en el buche de los grandes buitres de metal.” O título faz referência ao bate-estaca, maquinário que extrai o petróleo cru do lago venezuelano. Toda a argumentação de Galeano está baseada nos contrastes que se observam na sociedade do país que mais exporta petróleo no mundo e tem 70% de sua população vivendo em condições marginalizadas. O autor destaca o papel devastador da exploração estrangeira no país, sublinhando que e o valor enviado aos Estados Unidos pelas empresas petroleiras que atuam na Venezuela “excede a la que los españoles usurparon a Potosí o los ingleses a la India.” Uma ínfima parcela de todo esse lucro é revertida em benefício do povo venezuelano. Enquanto uma elite política corrupta entrega ao estrangeiro as riquezas minerais do país e usufrui seus acordos espúrios milionários: “buena parte de la población, que disputa las sobras de la minoría dominante, no se alimenta mejor que en la época en que el país dependía del cacao y del café.” (p.279) Galeano conclui a primeira parte de Las venas, lamentando o que a corrupção e a absurda concentração de renda fizeram ao país com maior renda per capita da América Latina, em 1970. Uma nação na qual 50% das crianças e jovens estavam fora da sala de aula e “un millón de analfabetos entre los dieciocho y los cincuenta años de edad.” (p.281). 248 Passados mais de 40 anos, os índices de pobreza na Venezuela caíram consideravelmente, entretanto, uma elite político-econômica ainda detém os privilégios. Ultimamente, o monopólio da força tem buscado a homogeneização da opinião. No modelo chavista, que Galeano admira, não tem sido fácil conciliar justiça social e liberdade de expressão. 4.2. OUTROS GANHARAM PORQUE A AMÉRICA LATINA PERDEU OU A TEORIA DA DEPENDÊNCIA Ao analisarmos a fortuna crítica de Las venas, tanto seus críticos como defensores identificam na macro interpretação do ensaio a teoria da dependência como um de seus arcabouços teóricos. Quando nos referimos à teoria da dependência, retomamos um conceito muito profícuo entre os intelectuais da esquerda marxista na segunda metade do século XX. Segundo Luiz Toledo Machado (1999), a teoria da dependência não se constitui como uma proposta teórica em si mesma, em função da ausência de elementos metodológicos significativos e de conteúdo inovador. Trata-se, na verdade, de uma proposta de interpretação socioeconômica, que indica a dependência como um processo histórico dentro do sistema internacional de relações de força e poder. Para Machado pode-se entendê-la como uma nova versão do modelo neocolonial, já descrito e conhecido desde o século XIX quando, então, o sistema político das nações hegemônicas impôs às ex-colônias um novo modelo sócio-econômico e político de exploração em nome do liberalismo triunfante. (MACHADO, 1999, p. 99). Sob esta perspectiva, não é muito original a interpretação das causas do subdesenvolvimento latino-americano. Se na primeira parte de Las venas Galeano identificou “La pobreza del hombre como resultado” da chegada do europeu ao continente americano, da usurpação “de la riqueza de la tierra” e do subsequente processo de colonização, que 249 desembocaria na divisão internacional do trabalho. Na segunda parte que ora analisamos, a crítica de Galeano se voltará contra o modelo capitalista, os novos mecanismos de apropriação do excedente por meio das empresas transnacionais e do sistema financeiro especulativo. Estes são os entraves ao desenvolvimento do continente que querem combater os defensores da teoria da dependência. A criação de tal conceito é atribuída a Fernando Henrique Cardoso, André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Ruy Mauro Marini. Este grupo atestava que o subdesenvolvimento dos países pobres é produto histórico do enriquecimento dos países ricos, que são vítimas da exploração estrangeira. É preciso sublinhar que a denominação explícita da teoria não aparece em Las venas, o que não significa que o conceito não esteja presente incisivamente na argumentação de Galeano e no rol de autores citados. Passemos a análise da segunda parte de Las venas abiertas de América Latina. Como na primeira parte, observa-se a subdivisão: um título geral, “El desarrollo es un viaje con más náufragos que navegantes”, seguido por dois capítulos: “Historia de la muerte temprana”, dividido em sete ensaios; e “La estructura contemporánea del despojo”, em doze. Cada ensaio tem seu próprio título, perfazendo um total de dezenove. “Historia de la muerte temprana” é o título do primeiro capítulo, no qual Galeano descreve a independência das colônias latino-americanas como natimorta, pois o fato de se livrarem do jugo de suas metrópoles não significou a autonomia para esses estados nacionais, pois se tornaram submissos do protecionismo inglês. O ensaio que abre a segunda parte de Las venas faz referência ao monopólio comercial, assegurado pela Inglaterra, após a independência das colônias americanas, por isso intitula o texto “Los barcos británicos de guerra saludaban la independencia desde el río”, em alusão à salva de tiros de canhão que partiu dos navios de guerra britânicos para festejar a constituição da junta revolucionária em Buenos Aires, em 1810. Na América Latina, a independência consolidava o “livre” comércio, 250 antes vedado pelas metrópoles coloniais. Segundo Galeano, este novo comércio foi o responsável pela destruição da rudimentar indústria manufatureira que se formava nas antigas colônias: El comercio libre enriquecía a los puertos que vivían de la exportación y elevaba a los cielos el nivel de despilfarro de las oligarquías ansiosas por disfrutar de todo el lujo que el mundo ofrecía, pero arruinaba las incipientes manufacturas locales y frustraba la expansión del mercado interno. (p.286). Em “Las dimensiones del infanticidio industrial” é desenvolvido o tema da concorrência desleal dos produtos britânicos no mercado interno dos países latino-americanos e a consequente crise instaurada em sua indústria manufatureira. O autor uruguaio sustenta que a produção das antigas colônias sucumbia diante dos artigos produzidos com os avanços implantados pela revolução industrial inglesa. Ao longo de todo o ensaio, Galeano relata a implosão sucessiva da indústria local de países como Peru, Chile, Brasil, Argentina e Bolívia. Em cada uma das recém-independentes colônias, o mercado interno foi inundado pelas manufaturas inglesas, causando o desemprego de milhares de trabalhadores. Bolivia era el centro textil más importante del virreinato rioplatense. En Cochabamba había, al filo del siglo, ochenta mil personas dedicadas a la fabricación de lienzos de algodón, paños y manteles [...] Desde Mojos, Chiquitos y Guarayos provenían finísimas telas de lino y de algodón, sombreros de paja, vicuña o carnero y cigarros de hoja. «Todas estas industrias han desaparecido ante la competencia de artículos similares extranjeros... », comprobaba, sin mayor tristeza, un volumen dedicado a Bolivia en el primer centenario de su independencia. (p.289) (Grifo do autor). Como já ressaltara Galeano nos dois textos anteriores, a independência das colônias americanas interessava mais a Inglaterra que a qualquer outra nação, pois organizou um sistema comercial em que transportava as matérias-primas, enquanto abastecia o mercado externo mundial com seus produtos manufaturados. É sobre a implantação destas relações comerciais que trata o ensaio “Proteccionismo y librecambio en América Latina: el breve vuelo de Lucas Alamán.” A independência das colônias significava para a Inglaterra o fim do 251 protecionismo aduaneiro. Em tom irônico, Galeano usa uma citação para ilustrar que a política da livre concorrência britânica só valia para a América: [...] ‘En los difíciles comienzos, cuando todavía la industria británica corría con desventaja, el ciudadano inglés al que se sorprendía exportando lana cruda, sin elaborar, era condenado a perder la mano derecha, y si reincidía, lo ahorcaban; estaba prohibido enterrar un cadáver sin que antes el párroco del lugar certificara que el sudario provenía de una fábrica nacional.’ (p.294). A segunda parte do título do ensaio “el breve vuelo de Lucas Alamán” faz referência ao ministro mexicano que criou o estatal Banco de Avío, objetivando impulsionar a industrialização de seu país. Com a cobrança de impostos aos tecidos estrangeiros, Alamán comprou o maquinário necessário para abastecer o mercado interno com tecidos de fabricação nacional, chegando a superar a indústria têxtil norte-americana. Entretanto, o sonho durou pouco: La inestabilidad política, las presiones de los comerciantes ingleses y franceses y sus poderosos socios internos, y las mezquinas dimensiones del mercado interno, de antemano estrangulado por la economía minera y latifundista, dieron por tierra con el experimento exitoso. (p.297). Entretanto, sublinha Galeano, usando as palavras do historiador mexicano Luis Chávez Orozco, o maior mérito de Alamán foi restabelecer a identidade entre a independência política e a econômica, defendendo a necessidade de combater os poderosos com suas mesmas armas: “un enérgico impulso a la economía industrial.” (p.298). O foco das reflexões de Galeano em “Las lanzas montoneras y el odio que sobrevivió a Juan Manuel de Rosas” é a história política da Argentina no século XIX. Ao longo do ensaio contextualiza-se o período da revolta federalista que se instaurou no país rio-platense. O levante popular alude ao conturbado processo de construção dos Estados nacionais por que passou vários países da América Latina. A revolta representava a justificativa políticoideológica para as elites periféricas que resistiam contra a formação de Estados centralizados, controlados pelos grupos exportadores, como era o caso da Buenos Aires, que no “siglo XVII 252 no había sido más que una gran aldea de cuatrocientas casas, se apoderó de la nación entera a partir de la revolución de mayo y la independencia.” (p.289). Galeano chama de proxenetistas as relações entre a província portenha e as demais do país, e que estas deformações se observavam ainda em 1970. Estas relações de desigualdade haviam pavimentado o caminho para uma guerra civil. A situação se agravou inda mais depois que “se crearan impuestos al consumo interno de carne, a la par que se desgravaban las exportaciones” e “un decreto de 1815 estableció que todo hombre de campo que no tuviera propiedades sería reputado sirviente, con la obligación de llevar papeleta visada por su patrón cada tres meses” ou seria considerado vagabundo e jogado nos batalhões de fronteira. Assim, “El criollo bravío, que había servido de carne de cañón en los ejércitos patriotas, quedaba convertido en paria, en peón miserable o en milico de fortín.” Após esta contextualização histórica, o autor uruguaio, numa extensa nota de rodapé, reproduz duas estrofes do poema épico Martín Fierro, ressaltando que seu autor, José Hernández, foi soldado da causa federalista. Cantou “las desdichas del gaucho desterrado de su querencia y perseguido por la autoridad.” Segundo o crítico literário argentino Augusto Raúl Cortázar, El poema no da referencias históricas precisas. Si se admite la posibilidad de que la edad de oro tenga un sentido de evocación idealizada, no sería exagerado esbozar tres períodos para comprender el desarrollo total del poema: la época de Rosas, coincidente con aquella época feliz para el gaucho (hasta 1852); los gobiernos de Mitre (1862/1868) y de Sarmiento (1868/1874), bajo los cuales sufre el protagonista sus desdichas y la nueva era, que corresponde más al autor que a su obra, en la que se consolida la organización de la sociedad y la justicia, se abren perspectivas de trabajo y de paz con la definitiva conquista de la pampa y se afianzan las instituciones democráticas.35 São justamente estes três períodos políticos assinalados por Raúl Cortázar o objeto das ponderações do ensaio. Na mesma nota, Galeano relaciona o passado argentino às oligarquias ainda em vigor na sociedade da época. Citando o historiador revisionista argentino Jorge Abelardo Ramos, criador da corrente política e ideológica da Esquerda Nacional, sublinha 35 Augusto Raúl Cortázar In: www.elfolkloreargentino.com/martinfinal.htm. Consultado em 25 de novembro de 2009. 253 “que los dos apellidos verdaderos que aparecen en el Martín Fierro son los de Anchorena y Gaínza, nombres representativos de la oligarquía que exterminó al criollaje en armas, y en nuestros días ambos se han fundido en la familia propietaria del diario La Prensa”. (p.295). Ainda no campo da literatura, o escritor uruguaio faz menção a Ricardo Güiraldes, autor oriundo da aristocracia argentina, e a sua obra Don Segundo Sombra, demonstrando o caráter polêmico das ideias expressas em Martín Fierro. Galeano se vale de autores revisionistas argentinos para reinterpretar os fatos históricos à luz de novos dados. Reivindica um importante papel para personagens históricos como Felipe Varela e, principalmente, Juan Manuel de Rosas. Para o autor uruguaio, estes homens merecem um segundo olhar da história. Para demonstrar o conflito que havia se instaurado na Argentina entre o campo e cidade, Galeano cita um trecho de uma carta enviada ao presidente argentino Bartolomé Mitre pelo “ilustre Domingo Faustino Sarmiento”: “no trate de economizar sangre de gauchos. Este es un abono que es preciso hacer útil al país. La sangre es lo único que tienen de seres humanos esos salvajes". Para o autor uruguaio, “tanto desprecio y tanto odio revelaban una negación de la propia patria, que tenía, claro está, también una expresión de política económica”. Em seguida reproduz um fragmento da principal obra de Sarmiento, Facundo, Civilización y Barbárie: “‘No somos ni industriales ni navegantes -afirmaba Sarmiento-, y la Europa nos proveerá por largos siglos de sus artefactos en cambio de nuestras materias primas.’”Demonstrando que a vitória da cidade contra o campo foi na verdade uma derrota, Galeano descreve a condição de adversidade em que vivem os camponese que deixaram suas aldeias rumo à Buenos Aires: “En los suburbios encuentran sitio junto a otros setecientos mil habitantes de las villas miserias y se las arreglan, mal que bien, con las migas que les arroja el banquete de la gran capital.” 254 Dando continuidade a sua visão revisionista da história latino-americana, Galeano em “La Guerra de la Triple Alianza contra el Paraguay aniquiló la única experiencia exitosa de desarrollo independiente” relata o contexto histórico que permeou a guerra mais sangrenta desencadeada na América Latina. Como se sublinha no título, não é a Guerra do Paraguai, mas uma guerra contra este país, nomenclatura diversa da empregada na Argentina, Brasil e Uruguai: a Tríplice Aliança. Enfatizando a variedade de suas fontes, o ensaio é iniciado com um diálogo entre o escritor e um paraguaio de sessenta e três anos, sem nenhuma perspectiva, que já havia peregrinado durante toda sua vida entre o sul do Brasil e a Argentina, buscando formas de se sustentar. Em discurso direto, o autor dá voz a seu interlocutor: “‘Los paraguayos somos pobres y pocos.’” E afirma que este povo sofre “la herencia de una guerra de exterminio que se incorporó a la historia de América Latina como su capítulo más infame.” O autor uruguaio classifica este acontecimento histórico como um genocídio, que não deixou “piedra sobre piedra ni habitantes varones entre los escombros.” A Inglaterra, ainda que não participasse diretamente do conflito fratricida, foi a patrocinadora do conflito e a maior beneficiada, pois os empréstimos tomados pelos países vencedores tiveram que ser pagos a juros escorchantes, o que hipotecou os frutos dos despojos paraguaios. Para dar credibilidade a sua versão revisionista da história, na nota de rodapé Galeano descreve as muitas obras que lhe serviram de referência. Questionando a história oficial, Galeano busca recuperar a imagem do “largo gobierno de mano de hierro del dictador Gaspar Rodríguez de Francia (1814-1840).” Para atestar as qualidades deste governo, cita o apoio popular, o desenvolvimento econômico e social, a reforma agrária, a centralização do poder e de todos os meios de produção nas mãos do estado; em suma, um governo socialista. Contraditoriamente, ainda que não houvesse liberdade política e direito à oposição, Galeano afirma que “en aquella etapa histórica sólo los 255 nostálgicos de los privilegios perdidos sufrían la falta de democracia.” Ou seja, tal qual a Revolução Cubana defendida pelo autor, os fins justificariam os meios. Na nota de rodapé, Galeano critica “el bestiario de la historia oficial” e discorda das “deformaciones ópticas impuestas por el liberalismo” que chegaram, segundo o autor, a ofuscar alguns intelectuais da esquerda como Pablo Neruda: [...] espléndido homenaje poético a los pueblos latinoamericanos, exhibe claramente esta desubicación. Neruda ignora a Artigas y a Carlos Antonio y Francisco Solano López; en cambio, se identifica con Sarmiento. A Francia lo califica de «rey leproso, rodeado/por la extensión de los yerbales», que «cerró el Paraguay como un nido/de su majestad» y «amarró/ tortura y barro a las fronteras». Con Rosas no es más amable: clama contra los «puñales, carcajadas de mazorca/sobre el martirio» de una «Argentina robada a culatazos/en el vapor del alba, castigada/hasta sangrar y enloquecer, vacía,/ cabalgada por agrios capataces» (p.311). Galeano defende claramente o revisionismo histórico, contestando a interpretação que reputa a Solano López o início da Guerra do Paraguai. O escritor uruguaio defende a valorização das figuras de Francia e dos presidentes paraguaios Carlos Antonio e Francisco Solano López que lhe sucederam. Para justificar sua posição, argumenta que ambos mantiveram a centralização do poder nas mãos do estado: "98 por ciento del territorio paraguayo era de propiedad pública.” Ampliaram as conquistas sociais, o desenvolvimento econômico e mantiveram “el mejor ejército de América del Sur”, enviavam seus jovens para estudar na Europa. Ainda segundo Galeano, o país fortaleceu seu mercado interno e não devia “ni un centavo al exterior.” Ademais, resgatou-se a tradição indígena abandonada com a chegada dos conquistadores. Diferentemente dos demais países latino-americanos, a economia paraguaia não estava voltada para a exportação, tampouco aceitava as imposições do mercado exterior, antes, mantinha um protecionismo sobre a indústria nacional. Este cenário independente não agradou a grande potência da época, a Inglaterra, que via naquele país mais que um foco de resistência, um “ejemplo que la experiencia paraguaya irradiaba peligrosamente hacia los vecinos.” (p.314) (Grifo do autor). Portanto, era imprescindível 256 “terminar con el escándalo de aquel país que se bastaba a sí mismo y no quería arrodillarse ante los mercaderes británicos.” (p.314). Urdiu-se um acordo entre Argentina e Brasil, sob supervisão inglesa, que selaria a sorte do Paraguai: “Venancio Flores invadió Uruguay, en ancas de la intervención de los dos grandes vecinos, y estableció en Montevideo, después de la matanza de Paysandú, su gobierno adicto a Río de Janeiro y Buenos Aires. La Triple Alianza estaba en funcionamiento.” Posteriormente se conheceriam os términos do tratado que repartiria os despojos do vencido: “Argentina se aseguraba todo el territorio de Misiones y el inmenso Chaco; Brasil devoraba una extensión inmensa hacia el oeste de sus fronteras. A Uruguay, gobernado por un títere de ambas potencias, no le tocaba nada.” (p.316). O combate sanguinário duraria longos cinco anos. Francisco Solano López encabeçaria uma guerra junto a seu povo que: [...] se inmoló a su lado. Hombres, mujeres, niños y viejos: todos se batieron como leones. [...] En 1870, López, a la cabeza de un ejército de espectros, ancianos y niños que se ponían barbas postizas para impresionar desde lejos, se internó en la selva. Las tropas invasoras asaltaron los escombros de Asunción con el cuchillo entre los dientes. Cuando finalmente el presidente paraguayo fue asesinado a bala y a lanza en la espesura del cerro Corá, alcanzó a decir: «¡Muero con mi patria! », y era verdad. Paraguay moría con él. [...] Los invasores venían para redimir al pueblo paraguayo: lo exterminaron. (p.317). (Grifos do autor). De forma cinematográfica descreve Galeano o desfecho da mais longa e sangrenta guerra da América Latina. Do Paraguai derrotado pouco restou, desapareceu quase toda população, as conquistas sociais e econômicas. Foram implantados nas reduzidas fronteiras o livre comércio e o latifúndio. Aos governos que sucederam a Solano López, Galeano chama de entreguistas. Entre eles, destaca a tirania do ditador Alfredo Stroessner, que converteu o país em um campo de concentração, legando à população quinze anos de atraso e má distribuição de renda, enquanto uma minoria corrupta desfrutava da escassa riqueza do pobre país. A história oficial sobre a Guerra do Paraguai diverge diametralmente dos relatos de 257 Galeano, principalmente nos países que saíram vitoriosos do conflito. Tais divergências atestam o que sublinha Hayden White sobre a escrita da história: Las historias (y también las filosofías de la historia) combinan cierta cantidad de “datos”, conceptos teóricos para “explicar” esos dados y una estructura narrativa para presentarlos como la representación de conjuntos de acontecimientos que supuestamente ocurrieron en tiempos pasados. [...] Este paradigma funciona como elemento “metahistórico” en todas las obras históricas de alcance mayor que la monografia o el informe de archivo. (1992, p.9) (Grifo nosso). Ainda que Las venas não tenha sido escrita estritamente como um relato histórico, observa-se uma “estrutura narrativa” que combina informações para “explicar” o passado. Será esta estrutura narrativa o elemento metahistórico que orientará a interpretação ou recepção do conteúdo da mensagem. Portanto, baseia-se em um ponto de vista dentre outras possibilidades. Esta perspectiva revisionista da Guerra da Tríplice Aliança ganha eco na América Latina a partir da última década do século XX, quando uma nova perspectiva sobre o passado marca o discurso de integração regional, conforme assinala Guerrero: Tras un siglo de silencio literario sobre el asunto, principalmente en los países aliados, se han publicado numerosas novelas sobre el conflicto [...] coincidentemente con la promoción de la integración regional del Cono Sur. Estos textos reescriben los discursos historiográficos y literários sobre la Guerra. (2010, p. 38). No próximo ensaio, “Los empréstitos y los ferrocarriles en la deformación económica de América Latina”, Galeano demonstra como todas as nações latino-americanas, com exceção do Paraguai, construiu sua malha ferroviária a custa de onerosos empréstimos aos bancos britânicos, que se converteram em grandes dívidas externas. Cita os exemplos mal sucedidos da Argentina e do Brasil, onde se estenderam as linhas férreas não como uma rede destinada a unir as diversas regiões do país, mas para ligar os centros produtores aos portos, fortalecendo a política de produção para exportação e arruinando o mercado interno. A deformação citada no título se refere ao destino dado às linhas férreas construídas: “no fueron capitales ingleses los que tendieron las primeras vias en Argentina, Brasil, Chile, Guatemala, 258 México y Uruguay.” (p.328). Entretanto, passaram às mãos dos ingleses tanto as vias férreas como os trens destes países “sin que se produjera el desembolso de un sólo centavo de inversión nueva.” Durante muitas décadas usufruíram os dividendos das tarifas dos fretes ferroviários, mas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os trens haviam caído em desuso, “la administración pública los recuperó. Casi todos los estados compraron a los ingleses los fierros viejos y nacionalizaron, así, las pérdidas de las empresas.” (p.329). Juntamente com a administração das ferrovias, as empresas britânicas obtinham do governo consideráveis concessões de terras às suas margens: “Las tierras constituían un estupendo negocio adicional: el fabuloso regalo otorgado en 1911 a la Brazil Railway determinó el incendio de innumerables cabañas y la expulsión o la muerte de las familias campesinas asentadas en el área de la concesión.” Galeano conclui o ensaio relembrando que, desta arbitrariedade eclodiu uma das revoltas populares mais intensas ocorridas no Brasil, a Guerra do Contestado. O conflito ocorreu na região sul do Brasil, entre outubro de 1912 e agosto de 1916, envolvendo cerca de 20 mil camponeses que enfrentaram forças militares do governo federal e estadual. Este episódio da história do Brasil demonstra a forma como os governos tratavam as questões sociais no início do século passado, quando os interesses financeiros das grandes empresas estrangeiras e de latifundiários ficavam acima dos interesses da população. No último ensaio deste capítulo, “Proteccionismo y librecambio en Estados Unidos: el éxito no fue la obra de una mano invisible”, Galeano introduz seu próximo tema: Os Estados Unidos da América. Iniciando sua narrativa, afirma que “La guerra que sellaría el destino colonial de América Latina nacía al mismo tiempo que concluía la guerra que hizo posible la consolidación de los Estados Unidos como potencial mundial.” (p.329). Referia-se à Tríplice Aliança e à vitória dos centros industriais protecionistas do norte sobre os agricultores escravistas do sul na Guerra de Secessão. O autor também retoma os diferentes tipos de 259 colonização levados a cabo nas Américas espanhola, portuguesa e inglesa, sublinhando as diferenças e destacando a liberdade que a colônia do norte desfrutava, possibilitando “una conciencia industrializadora que la metrópoli dejó crecer sin mayores problemas”. (p.330). Foi esta liberdade que possibilitou o protecionismo e o desenvolvimento de seu mercado interno. Ao contrapor os modelos de desenvolvimento dos Estados Unidos e do Brasil, Galeano enfatiza que a economia brasileira foi instrumentalizada para servir à Inglaterra, enquanto a norte-americana estava voltada às fábricas e ao comércio interno. Para reforçar esta diferença, conforme anuncia no título, o autor afirma que os principais intérpretes dos ideais das classes dominantes de ambos os países são Alexander Hamilton e Visconde de Cairu. Enquanto o primeiro foi um “paladín de la industrialización y promovía el estímulo y la protección del Estado a la manufactura nacional, Cairú creía en la mano invisible que opera en la magia del liberalismo: “dejad hacer, dejad pasar, dejad vender.” (p.332) O escritor uruguaio atribui ao protecionismo, ao nacionalismo e ao fortalecimento do mercado interno a explicação para a “hazaña norteamericana.”Também sublinha uma outra diferença em relação ao modelo latino-americano: “La frontera agrícola volaba hacia el oeste y hacia el sur, a costa de los indios y los mexicanos, pero a su paso no iba extendiendo latifundios, sino que sembraba de pequeños propietarios los nuevos espacios abiertos.”(p.336). Galeano conclui o capítulo com uma ironia: Como Inglaterra, Estados Unidos también exportará, a partir de la segunda guerra mundial, la doctrina del libre cambio, el comercio libre y la libre competencia, pero para el consumo ajeno. El Fondo Monetario Internacional y el Banco Mundial nacerán juntos para negar, a los países subdesarrollados, el derecho de proteger sus industrias nacionales, y para desalentar en ellos la acción del Estado. Se atribuirán propiedades curativas infalibles a la iniciativa privada. (p.337). (Grifos do autor). Na primeira edição de Las venas, “La estructura contemporánea del despojo” era o capítulo final da obra. Nesta parte que serviu de conclusão, Galeano descreve o processo 260 capitalista norte-americano levado a cabo na América Latina. Na nova versão imperialista, a espoliação é indireta, mas não menos eficaz que a inglesa, pois há um sistema opressor funcionando dentro das próprias fronteiras. Para mudar esta situação, o autor defende uma revolução nos moldes da experiência cubana. O caminho proposto para fugir do modelo de exploração estrangeiro é a unidade, a integração: Los despojados, los humillados, los malditos tienen, ellos sí, en sus manos, la tarea. La causa nacional latinoamericana es, ante todo, una causa social:para que América Latina pueda nacer de nuevo, habrá que empezar por derribar a sus dueños, país por país. Se abren tiempos de rebelión y de cambio. Hay quienes creen que el destino descansa en las rodillas de los dioses, pero la verdad es que trabaja, como un desafío candente, sobre la conciencia de los hombres. (p 435-36). No primeiro ensaio, “Un talismán vacío de poderes”, Galeano demonstra como, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se converteram na nova potência econômica mundial. Por meio da instalação de empresas multinacionais, à custa de “insignificantes inversiones”, este país burla as barreiras alfandegárias latino-americanas, devorando as indústrias nacionais. Assim, “el capital imperialista captura los mercados por dentro, haciendo suyos los sectores claves de la industria local.” (p.339). O mesmo processo de usufruto e despojo aplicado às estradas de ferro, que voltaram às mãos dos governos após perderem sua rentabilidade, estendeu-se a outras empresas latino-americanas, como a International Telephone and Telegraph Corporation, que vendeu ao governo brasileiro a peso de ouro suas instalações “oxidadas y sus maquinarías de museo.” O abandono dos serviços públicos e os investimentos nas multinacionais não significaram a renúncia à exploração das matérias-primas: América Latina continúa exportando su desocupación y su miseria: las materias primas que el mercado mundial necesita y de cuya venta depende la economía de la región y ciertos productos industriales elaborados, con mano de obra barata, por filiales de las corporaciones multinacionales. (p.341). (Grifo do autor). 261 O talismã que perdeu seus poderes se refere à derrota da indústria nacional recémnascida pelas empresas estrangeiras, forjada no triunfo do livre comércio no alvorecer da independência latino-americana. A burguesia latino-americana é o foco das críticas no ensaio “Son los centinelas quienes abren las puertas: la esterilidad culpable de la burguesía nacional.” Galeano expõe o avanço das grandes corporações multinacionais norte-americanas sobre as empresas estatais e privadas, o que arruinou o mercado interno, sob a benção de ambos os setores: “La burguesía se ha asociado a la invasión extranjera sin derramar lágrimas ni sangre, en cuanto al Estado, su influencia sobre la economía latinoamericana [...] se ha reducido al mínimo gracias a los buenos oficios del Fondo Monetario Internacional.”(p.334). O autor também comenta a resistência de três países que eram polos de desenvolvimento latino-americano, Argentina, Brasil e México, sublinhando as tentativas dos governos nacionalistas de forte apoio popular de Juan Domingo Perón (1946-55), Getúlio Vargas (1930-45 y 1951-54) e Lázaro Cárdenas (1934-40), respectivamente. Esses presidentes implantaram uma série de medidas que visavam fortalecer a indústria nacional, num processo de industrialização substitutiva de importações. Assim, diante de uma burguesia industrial inoperante: “El Estado ocupó el lugar de una clase social cuya aparición la historia reclamaba sin mucho éxito: encarnó a la nación e impuso el acceso político y económico de las masas populares a los beneficios de la industrialización.” (p.346). Essas experiências, entretanto, não aprofundaram as reformas necessárias como a agrária, excetuando, neste ponto, o México. Sem o apoio da burguesia nacional, patrocinada pelo capital estrangeiro, e da classe ruralista, os oligopólios estrangeiros “se iban apoderando no muy secretamente de la industria nacional de todos los países de América Latina.” Esse apoderamento por parte das multinacionais se arraigou nos governos militares que se sucederam no continente. Por isso Galeano inicia o ensaio seguinte com a pergunta 262 “¿Qué bandera flamea sobre las máquinas?”, narrando a história de uma velhinha negra, moradora de um barraco de madeira e lata numa favela do subúrbio de São Paulo, que antes de beber numa latinha o café que acabara de preparar, com orgulho, fecha os olhos e diz: “o Brasil é nosso.” Ironicamente, sublinha Galeano, no centro daquela mesma cidade, no mesmo instante, pensou, em outro idioma, da mesma maneira “el director ejecutivo de la Union Carbide, mientras levantaba un vaso de cristal para celebrar la captura de otra fábrica brasileña de plásticos por parte de su empresa. Uno de los dos estaba equivocado.” Durante as ditaduras militares, o Estado brasileiro fez da privatização um modelo de governo. Galeano cita um relatório da CEPAL para afirmar que, entre 1955 e 1962, em mais de 80% o governo assumia a co-responsabilidade pelo pagamento dos empréstimos no exterior a empresas estrangeira, além de garantir um dólar barato para a amortização dos juros destas dívidas. As empresas nacionais não gozavam das mesmas prerrogativas das montadoras de automóveis como General Motors e Volkswagen, por exemplo. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro negava apoio à Fábrica Nacional de Motores, a Fenemê, criada por Getúlio Vargas e, posteriormente, vendida à Alfa Romeo, durante a administração Castelo Branco. Situação semelhante vivia-se na Argentina e no México, que disputavam os investimentos estrangeiros, sublinhando suas vantagens para o desenvolvimento do país, ainda que, segundo dados do escritor uruguaio, em 1962, nestes três países, mais de 50% das empresas estivessem total ou parcialmente controladas por capital estrangeiro. Galeano sustenta que um dos grandes aliados, senão o maior, das multinacionais norteamericanas é o FMI, por isso, “El bombardeo del Fondo Monetario Internacional facilita el desembarco de los conquistadores” serve de continuação ao raciocínio desenvolvido anteriormente. No breve ensaio, o autor dá primazia à política econômica brasileira. Reitera suas críticas ao governo militar de Castelo Branco, expondo a ideologia do capitalismo selvagem defendida por seu ministro do Planejamento, Roberto Campos. Galeano resume o 263 pensamento de Campos, o “o artífice” da política do FMI no Brasil, da seguinte forma: “Los países pobres son pobres porque... son pobres; el destino está escrito en los astros y sólo nacemos para cumplirlo: unos, condenados a obedecer; otros, señalados para mandar. Unos poniendo el cuello y otros poniendo la soga.”(Grifo do autor, p.364). Com ironia, o autor demonstra a falta de argumentos de Roberto Campos para explicar a pobreza do Brasil. Ao longo do ensaio, Galeano demonstra a forma desleal como agem as multinacionais: “Bajan, pues, los precios, y se sientan a esperar la rendición del acosado. Los bancos colaboran con el sitio: la empresa nacional no es tan solvente como parecía: se le niegan víveres. Acorralada, la empresa no tarda en levantar la bandera blanca”. (Grifo do autor, p.367). Em socorro às empresas nacionais, interveio o FMI, organismo em que todos os países latino-americanos juntos não alcançam nem a metade dos votos destinados aos Estados Unidos para orientar sua política de empréstimos. Assim, sob o pretexto de estabilização econômica, esta organização nascida nos Estados Unidos, com sede e ao serviço dos Estados Unidos desvaloriza as moedas nacionais, sem atacar a inflação gerada pela deficiente estrutura de produção que não acompanha à demanda: “La terapéutica empeora al enfermo para mejor imponerle la droga de los empréstitos y las inversiones.” (p.368). (Grifo do autor). Galeano sublinha a maior das contradições, segundo informa a Organização dos Estados Americanos: [...] nada menos que el 95,7 por ciento de los fondos requeridos por las empresas norteamericanas para su normal funcionamiento y desarrollo en América Latina provienen de fuentes latinoamericanas, en forma de créditos, empréstitos y utilidades reinvertidas. (p. 368). A origem desses fundos é explicada no texto seguinte, “Los Estados Unidos cuidan su ahorro interno, pero disponen del ajeno: la invasión de los bancos”, em que Galeano demonstra com números a proliferação de instituições financeiras norte-americanas ao sul do Rio Bravo. A título de exemplo, cita que no mesmo ano em que a Revolução Cubana nacionalizou vinte bancos estadunidenses, setenta outros foram abertos na América Latina. O 264 objetivo principal destas instituições é “desviar el ahorro latinoamericano hacia las empresas norteamericanas que operan en la región, mientras las empresas nacionales caen estranguladas por la falta de crédito.” (p.370). Enquanto estava terminantemente proibido, sublinha o autor, qualquer banco estrangeiro operar como receptor de depósitos de cidadãos norte-americanos. A questão dos bancos é aprofundada no breve ensaio “Un imperio que importa capitales”, no qual Galeano volta a criticar o economista Roberto Campos, expondo o engodo que foi o Programa de Ação Econômica, que visava atrair capitais estrangeiros para impulsionar o desenvolvimento do país, mas que, ao contrário, teve uma evasão maior que o ingresso. O autor exemplifica os casos da Argentina, Brasil e México, onde os investimentos norte-americanos na indústria não chegavam nem a 4% de seu total no mundo. Nestes mesmos países, a evasão de divisas era cada vez maior, agravadas pelo vertiginoso “progresso tecnológico” que abreviavam os prazos de renovação do capital e da grande maioria das instalações e equipamentos que eram exportados aos países latino-americanos, depois de já terem “cumplido anteriormente un ciclo de vida útil en sus lugares de origen.” Mas isto não foi levado em consideração e o “valor atribuído a las maquinarias, arbitrariamente elevado, no sería, por cierto, ni la sombra de lo que es, si se consideraran los frecuentes casos de desgaste prévio.” (p.374). O sistema de empréstimos montado pelos Estados Unidos para financiar o déficit de sua balança é o tema de “Los tecnócratas exigen la bolsa o la vida con más eficacia que los ‘marines’”, no qual Galeano retoma tópicos já aludidos nos dois ensaios anteriores. O título se refere à dupla ação norte-americana: “el Imperio envía al exterior sus marines para salvar los dólares de sus monopolios cuando corren peligro y, más eficazmente, difunde también sus tecnócratas y sus empréstitos para ampliar los negocios y asegurar las materias primas y los mercados.” Para usar a ironia do autor uruguaio, poderíamos afirmar que qualquer 265 semelhança com as duas guerras do Golfo Pérsico, nas gestões George Bush pai e filho, seria mera coincidência. Galeano sublinha que os Estados Unidos exercem sua hegemonia nos organismos chamados internacionais, pequenos ou grandes, como AID (Agência para o Desenvolvimento Internacional), o FMI, o BID. Estas organizações “se arrogan el derecho de decidir la política económica que han de seguir los países que solicitan los créditos.” (p.376) Neste ofício, apoderam-se de informações privilegiadas dos bancos centrais das economias latinoamericanas, impondo e proibindo medidas aos governos nacionais, ignorando sua soberania. Quando Fidel Castro solicitou empréstimos ao Banco Mundial e ao FMI, “ambos organismos le respondieron que primero debía aceptar un programa de estabilización que implicaba, como en todas partes, el desmantelamiento del Estado y la parálisis de las reformas de estructura.”(p.388). Como se observa ao longo da obra, os exemplos positivos de enfrentamento ao poderia norte-americano são atribuídos ao governo de Fidel Castro. Citando a Organização dos Estados Americanos, o autor relata que a ajuda real que América Latina recebe em empréstimos é de 38% da ajuda nominal. Para conceder os empréstimos, os organismos internacionais exigem a aquisição de bens, fretes e seguro norteamericanos, além disso, “habitualmente prohiben el comercio con Cuba y Vietnam del Norte y obligan a aceptar la tutela administrativa de sus técnicos.” (p.380). Essas sanções também podem ser negociadas, por meio da compra de votos, em alguns destes organismos: “En 1962, el delegado de Haití a la Conferencia de Punta del Este cambió su voto por un aeropuerto nuevo, y así los Estados Unidos obtuvieron la mayoría necesaria para expulsar a Cuba de la Organización de Estados Americanos.” (p.382). No longo ensaio, Galeano relata ainda os diferentes estratagemas utilizados pelos “organismos internacionais”, a fim de derrubar alguns governos, como o do brasileiro João Goulart, e de beneficiar as multinacionais norteamericanas na Argentina, no Peru, na Bolívia, na Guatemala e na Colômbia. 266 No ensaio “La industrialización no altera la organización de la desigualdad en el mercado mundial”, Galeano ressalta o circulo vicioso que se instaurou na América Latina desde a colonização, a saber, a dependência exclusiva da exportação de uma monocultura ou de materias primas. Em alguns casos essa dependência chegava a 93%, como a do petróleo na Venezuela. Entretanto, mais que retomar este tema já abordado, o autor quer destacar a desigual política de preço aplicada às matérias-primas, não em função de seu valor real, mas de seu país de origem, em que nunca prevalece a lei da oferta e da procura, o livre comércio, “sino la dictadura de una sobre la otra, siempre en beneficio de los países capitalistas desarrollados.” Por isso, “la maldición de los precios bajos no pesa sobre determinados productos, sino sobre determinados países.” (p.396). O autor uruguaio enfatiza que da forma como está desenhado o comércio internacional, é impossível mudar a situação, pois são poucos os países que ousam exportar produtos manufaturados. Um destacado exemplo foi a chamada crise do café solúvel brasileiro, em que o maior produtor mundial teve de aceitar a taxação imposta para que o produto não tivesse condições de competir no mercado exterior com as multinacionais Nestlé e General Foods: Brasil sólo tiene el derecho de proporcionar la materia prima para enriquecer a las fábricas del extranjero. Cuando las fábricas brasileñas -apenas cinco en un total de ciento diez en el mundo- comenzaron a ofrecer café soluble en el mercado internacional, fueron acusadas de competencia desleal. (p.398). Ainda destacando a submissão da América Latina aos países desenvolvidos, Galeano usa a metáfora do idioma para explicar o atraso do continente. Em “La diosa tecnología no habla español”, o autor destaca o papel negativo das empresas de economia mista que, transvestidas de empresas nacionais, obtêm apoio financeiro e benefícios fiscais do Governo, em troca de transferência de tecnologia e patentes. Contudo, o centro das decisões fica nas mãos dos acionistas minoritários estrangeiros, como no caso das indústrias automobilísticas 267 na Argentina, Brasil e México. Estas transferências, entretanto, não viabilizam o desenvolvimento de uma tecnologia nacional, porque importam uma tecnologia já obsoleta. Galeano aponta como causas do atraso tecnológico da América Latina o baixíssimo nível de investimentos na educação e na pesquisa científica: “esta vasta región de analfabetos invierte en investigaciones tecnológicas una suma doscientas veces menor que la que los Estados Unidos destinan a esos fines”. E os poucos que se sobressaem na academia precisam sair do país, em busca de salários e possibilidades de aperfeiçoamento científico. Com ironia, afirma o uruguaio: América Latina no aplica en su propio beneficio los resultados de la investigación científica, por la sencilla razón de que no tiene ninguna. [...] El mero trasplante de la tecnología de los países adelantados no sólo implica la subordinación cultural y, en definitiva, también la subordinación económica, sino que [...] bien puede afirmarse que tampoco resuelve ninguno de los problemas del subdesarrollo. (p.406). (Grifo do autor). Galeano aprofunda sua reflexão sobre as causas do subdesenvolvimento da América Latina no ensaio “La marginación de los hombres y las regiones”, quando volta sua atenção para as mazelas que brotaram dentro do próprio continente: a má distribuição de renda, que segrega a população dentro do próprio país e, inversamente, a concentração dos bens de produção e do capital em regiões metropolitanas. Estes problemas, segundo o autor, têm origem no modelo de industrialização adotado, em que não se concilia a mão de obra disponível e os recursos tecnológicos disponíveis: “la inmensa marginación de los trabajadores que el sistema arroja a la vera del camino frustra el desarrollo del mercado interno y abate el nivel de los salarios.” (p.407). Segundo o autor, outro gargalo rumo ao desenvolvimento estaria na histórica concentração de terras, que gera a baixa produtividade agrícola nas extensas áreas improdutivas e, sobretudo, o êxodo rural de trabalhadores desempregados que engrossam as fileiras do subemprego nas grandes cidades, atraídos pela esperança de melhores condições de 268 vida no “gran circo mágico de la civilización urbana”. Melancolicamente, Galeano conclui que uma escada rolante pode até parecer uma “visão do Paraíso”, mas: [...] el deslumbramiento no se come: la ciudad hace aún más pobres a los pobres, porque cruelmente les exhibe espejismos de riquezas a las que nunca tendrán acceso, automóviles, mansiones, máquinas poderosas como Dios y como el Diablo, y en cambio les niega una ocupación segura y un techo decente bajo el cual cobijarse, platos llenos en la mesa para cada mediodía. (p.413-14). O autor destaca o eufemismo técnico usado pelas Nações Unidas para designar as condições de moradia de boa parte da população das cidades latino-americanas: “‘asentamientos que escapan a las normas modernas de construcción urbana’”, e sublinha que, independente da denominação que se dê aos barracos de madeira, zinco ou barro, “favelas en Río de Janeiro, callampas en Santiago de Chile, jacales en México, barrios en Caracas y barriadas en Lima, villas miseria en Buenos Aires y cantegriles en Montevideo”, estas moradias são fruto da marginalização de uma parcela da sociedade “arrojada a las ciudades por la miseria y la esperanza.”Os reflexos da mão de obra excedente e desqualificada são óbvios, desempenham: “tareas sórdidas o prohibidas: son sirvientas, picapedreros o albañiles ocasionales, vendedores de limonada o de cualquier cosa, ocasionales electricistas o sanitarios o pintores de paredes, mendigos, ladrones, cuidadores de autos, brazos disponibles para lo que venga.” Consequentemente, os salários pagos a essa massa podem ser várias vezes mais baixos que os dos países desenvolvidos: “Para ganar lo que un obrero francés percibe en una hora, el brasileño tiene que trabajar, actualmente, dos días y medio. Con poco más de diez horas de servicio el obrero estadounidense gana, en equivalencia, un mes de trabajo del carioca.”(p.417). Citando como exemplos Brasil e Argentina, Galeano critica a violência policial aplicada como remédio para a má distribuição de renda entre as regiões de um mesmo país, criando, por assim dizer, dois países, e dentro de uma mesma região, por meio de uma assepsia social, em que para “esconder o lixo debaixo do tapete”, o sistema expulsa: 269 [...] a punta de ametralladora, las favelas de los morros de la bahía y las villas miseria de la capital federal; arroja a los marginados, por millares y millares, lejos de la vista. Río de Janeiro y Buenos Aires escamotean el espectáculo de la miseria que el sistema produce; pronto no se verá más que la masticación de la prosperidad, pero no sus excrementos, en estas ciudades donde se dilapida la riqueza que Brasil y Argentina, enteros, crean. (p.415). Como se observa na citação, Galeano defende que não se reproduza dentro dos países a estrutura de dominação do sistema internacional, que não se concentrem as indústrias e, consequentemente, os capitais nos centros urbanos, como acontece no triângulo do sudeste brasileiro (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte), enquanto o nordeste vive das migalhas que lhe sobram; semelhantes condições se notam em Buenos Aires e Rosário, em Montevidéu, em Santiago e Valparaíso, ou em Lima. Segundo o autor, esta discrepância entre centro e interior se deve menos ao isolamento destas regiões que à “explotación, directa o indirecta, que sufren por parte de los viejos centros coloniales convertidos, hoy, en centros industriales.” No penúltimo ensaio de Las venas, “La integración de América Latina bajo la bandera de las barras y las estrellas”, o autor dá ênfase à exploração norte-americana no continente levada a cabo por meio de sua política comercial de implantação de multinacionais, aproveitando-se das condições favoráveis de implantação e expansão, proporcionadas pelas zonas de livre comércio estabelecidas pela Asociación Latinoamericana de Libre Comercio (ALALC) e pelo Mercado Común Centroamericano. Acordos que derrubam tarifas alfandegárias entre os países membros, beneficiando o capital privado que está nas mãos das empresas multinacionais do norte. “Todas las cerraduras se entregan al ladrón”, ainda mais quando nos documentos oficiais se recomenda “lisa y llanamente la desnacionalización de las empresas públicas.” Galeano ressalta que, contraditoriamente, as empresas do Brasil mais interessadas na integração latino-americana são as “empresas estrangeiras” mais poderosas, 270 tais como Ford, Caterpillar, Kodak e GE do Brasil. Assim, os países do continente, descapitalizados e com gravíssimos problemas de infra-estrutura: [...] abaten progresivamente sus barreras económicas, financieras y fiscales para que los monopolios, que todavía estrangulan a cada país por separado, puedan ampliar sus movimientos y consolidar una nueva división del trabajo, en escala regional, mediante la especialización de sus actividades por países y por ramas, la fijación de dimensiones óptimas para sus empresas filiales, la reducción de los costos, la eliminación de los competidores ajenos al área y la estabilización de los mercados. (p.422-3). (Grifo do autor). Para Galeano, a integração latino-americana é um embuste arquitetado por Washington para pavimentar o caminho da expansão de suas empresas, pois não é por acaso que o total de vendas das multinacionais norte-americanas espalhadas pelo mundo é seis vezes maior que o valor das exportações dos Estados Unidos. Em contrapartida, as zonas de livre comércio só serviram para derrubar os frágeis produtores nacionais de tecidos, pinturas, remédios, cosméticos, biscoitos e para aumentar os ganhos e a “órbita de negocios de la General Tire and Rubber Co., Procter and Gamble, Grace and Co., Colgate Palmolive, Sterling Products o National Biscuits.” Países como Uruguai e Paraguai, para citar apenas dois exemplos, são vítimas da abolição tarifária “porque el mero incremento del comercio en un intercambio de concesiones recíprocas sólo puede aumentar la desigualdad preexistente entre los polos del privilegio y las áreas sumergidas.” Na parte final do ensaio, Galeano propõe o tema que será aprofundado em seguida: Terá o Brasil um papel de integração ou de sub-imperialismo frente aos países latinoamericanos? O autor destaca que nos governos militares que sucederam o golpe de Estado de 1964: “Un elenco militar de muy importante gravitación postula a su país como el gran administrador de los intereses norteamericanos en la región, y llama a Brasil a ejercer, en el sur, una hegemonía semejante a la que, frente a los Estados Unidos, el propio Brasil padece.” (p.429). O General Golbery do Couto e Silva, um dos ideólogos do sub-imperialismo brasileiro, defendia a associação do país à iniciativa privada, mediante o apoio técnico, 271 visando fortalecer a segurança nacional. Segundo o general, para o Brasil se desenvolver era necessário um regime de força alinhado com os Estados Unidos. Na época da publicação de Las venas, o militar brasileiro era o presidente da Dow Chemical no Brasil. Destacando o papel crucial do Brasil no cenário latino-americano, Galeano enfatiza a importância da geografia do país continental, que lhe confere valor estratégico, e seu pujante crescimento industrial. Previne que os “gerentes” dos grandes interesses imperialistas instalados nos governos da Argentina e do Brasil disputam a liderança continental. Mas é o Brasil que desponta como uma grande potência econômica. Diferentemente de outros ensaios, como o de Rodó e de Mariátegui, que pensam a América Latina sob uma perspectiva hispânica, Galeano atribui ao Brasil um papel central na aventura humana do continente marcado por uma história comum de exploração colonial, dependência econômica, ditaduras militares e terreno fértil para as multinacionais norte-americanas. Por isso afirma: “Este es el país llamado a constituir el eje de la liberación o de la servidumbre de toda América Latina.” “‘Nunca seremos dichosos, ¡nunca!’, había profetizado Simón Bolívar”, como estas palavras que servem de título à conclusão da obra na primeira edição, Galeano faz uma defesa apaixonada pela unidade latino-americana: Cuando los pueblos en armas conquistaron la independencia, América Latina aparecía en el escenario histórico enlazada por las tradiciones comunes de sus diversas comarcas, exhibía una unidad territorial sin fisuras y hablaba fundamentalmente dos idiomas del mismo origen, el español y el portugués. (p.431). Esta unidade se perdeu no passado, sob os auspícios britânicos, pela imposição do neocolonialismo mercantilista. Na América Latina dos anos 1970, integrar para reinar era o objetivo do imperialismo norte-americano. Galeano explica que uma das causas do subdesenvolvimento latino-americano é o isolamento de “um arquipélago de países, desconectados entre si”. Os sonhos de Simón Bolívar, José Artigas e José de San Martín de uma América unida não se tornaram realidade porque as oligarquias consolidaram, por meio 272 do livre comércio, uma estrutura de fragmentação, posteriormente, aperfeiçoada pelos ingleses e norte-americanos: ‘Para nosotros, la patria es América’, había proclamado Bolívar: la Gran Colombia se dividió en cinco países y el libertador murió derrotado [...] Traicionados por Buenos Aires, San Martín se despojó de las insignias del mando y Artigas, que llamaba americanos a sus soldados, se marchó a morir al solitario exilio de Paraguay: el Virreinato del Río de la Plata se había partido en cuatro. Francisco de Morazán, creador de la república federal de Centroamérica, murió fusilado y la cintura de América se fragmentó en cinco pedazos a los que luego se sumaría Panamá, desprendida de Colombia por Teddy Roosevelt. (p.432). Assim, um a um, os países latino-americanos foram se distanciando um dos outros. Galeano pergunta: “¿Qué integración pueden realizar, entre sí, países que ni siquiera se han integrado por dentro?” As divisões sociais e o antagonismo entre os “vastos desiertos marginales y sus oasis urbanos” dão a devida medida da falta de integração interna. Num contexto continental, países como o Brasil não possuíam uma infra-estrutura eficiente de comunicação, terrestre ou telefônica com alguns países vizinhos. Assim como na época dos ciclos monocultores, “los países latinoamericanos continúan identificándose cada cual con su propio puerto, negación de sus raíces y de su identidad real, a tal punto que la casi totalidad de los productos del comercio intrarregional se transportan por mar.” (p.434). E para piorar, na época, das 118 linhas marítimas regulares, apenas dezesseis tinham bandeiras regionais. Com ironia, Galeano faz uma constatação: “El transporte de madera desde México a Venezuela cuesta más del doble que el transporte de madera desde Finlandia a Venezuela, aunque México está, según los mapas, mucho más cerca.” Os Estados Unidos tomaram um caminho oposto ao do irmão do sul porque “se propusieron y conquistaron”, não foi obra do acaso: Siete años después de su independencia, ya las trece colonias habían duplicado su superficie [...] y cuatro años más tarde consagraron su unidad creando el mercado único. En 1803, compraron a Francia, por un precio ridículo, el territorio de Louisiana, con lo que volvieron a multiplicar por dos su territorio. Más tarde fue el turno de Florida y, a mediados de siglo, la invasión y amputación de medio México en nombre del «Destino manifiesto». Después, la compra de Alaska, la usurpación de Hawaii, Puerto Rico y las Filipinas. (p.439). 273 As antigas colônias inglesas, baseadas em objetivos claramente definidos e perseguidos, unificaram-se e se transformaram em uma nação forte, posteriormente, levantouse um império. Enquanto o norte da América crescia, “desarrollándose hacia adentro de sus fronteras en expansión, el sur, desarrollado hacia afuera, estallaba en pedazos como una granada.” Galeano conclui Las venas abiertas de América Latina destacando o processo de integração no continente, identificado com usurpação, visto que tal processo se baseia nos incentivos fiscais, dos quais se beneficiam, predominantemente, as multinacionais norteamericanas: “No han de ser la General Motors y la IBM las que tendrán la gentileza de levantar, en lugar de nosotros, las viejas banderas de unidad y emancipación caídas en la pelea, ni han de ser los traidores contemporáneos quienes realicen, hoy, la redención de los héroes ayer traicionados”(p.436). Na segunda parte do último parágrafo da obra, após descrever em mais de 400 páginas o despojo sofrido pela América Latina às mãos de espanhóis, portugueses, ingleses e norte-americanos, Eduardo Galeano exorta seus leitores à ação: Es mucha la podredumbre para arrojar al fondo del mar en el camino de la reconstrucción de América Latina. Los despojados, los humillados, los malditos tienen, ellos si, en sus manos, la tarea. La causa nacional latinoamericana es, ante todo, una causa social: para que América Latina pueda nacer de nuevo, habrá que empezar por derribar a sus dueños, país por país. Se abren tiempos de rebelión y de cambio. Hay quienes creen que el destino descansa en las rodillas de los dioses, pero la verdad es que trabaja, como un desafío candente sobre las conciencias de los hombres. (Grifos nossos, p.436). Não se pode negar que Galeano, ao longo da obra, demonstra incisivamente a defesa dos valores socialistas como forma de governo alternativa ao capitalismo. Também é patente seu apoio explicito ao modelo de revolução liderado por Fidel Castro, seu amigo. Ainda assim, causa surpresa a convocação direta à revolução como forma de independência do continente, visto que não foi examinado ou proposto em nenhum dos ensaios precedentes mecanismos que pudessem orientar na consecução de uma insurreição continental. O que se 274 observa claramente em sua linha de raciocínio é seu desejo de “explicar” para “cambiar”, como o próprio autor esclarece em “Siete años después”: “Este libro es una búsqueda de claves de la historia pasada que contribuyen a explicar el tiempo presente, que también hace historia, a partir de la base de que la primera condición para cambiar la realidad consiste en conocerla.” (p.439). (Grifo nosso). Obviamente, não é despropositada ou incoerente com o discurso de Galeano a exortação final, esse chamamento aos latino-americanos a derrubar nestes “tiempos de rebelión y de cambio” os que se assenhorearam do continente, o imperialismo norteamericano. A conclusão é, na verdade, um complemento à epígrafe de Las venas: “Hemos guardado un silencio bastante parecido a la estupidez...”. Para o autor, a revolução não nascerá dos que pacientemente aguardam seu destino, mas dos que veem o destino como um reflexo de suas ações. Em 1978, em razão do grande êxito de Las venas e dos rumos políticos da América Latina, foi escrito o ensaio “Siete años después”, constituindo-se, posteriormente, no posfácio da obra. Galeano estava exilado na Espanha quando escreveu o ensaio, em razão da ferrenha perseguição política imposta pelas ditaduras latino-americanas. O fato de estar fora do continente lhe conferia segurança à própria integridade física e lhe permitia expressar uma visão, por assim dizer, de fora para dentro, sem que isso significasse isenção ou omissão. Em “Siete años después”, Galeano explica que o ensaio foi escrito como um comentário à recepção de Las venas, entretanto, suas reflexões vão muito além de uma análise literária. Observa-se claramente que o autor visa demonstrar a motivação para a escrita de sua celebrada obra, a fim de evitar equívocos em sua interpretação. Ao longo dos 18 textos escritos na 1ª pessoa, numerados e sem título, Galeano relata uma série de acontecimentos que tiveram como detonador a leitura de seu livro. O tom ameno inicial é substituído pela incitação que marcou a conclusão da primeira edição. No ensaio, o escritor descreve o terror 275 imposto pelas ditaduras em curso na América Latina, assim como exortar à mudança. Num tom dialogal, explica seu “despretensioso” objetivo: “este libro fue escrito para conversar con la gente”. Também justifica suas escolhas temáticas e de gênero: Sé que pudo resultar sacrílego que este manual de divulgación hable de economía política en el estilo de una novela de amor o de piratas. [...] El lenguaje hermético no siempre es el precio inevitable de la profundidad. Puede esconder simplemente, en algunos casos, una incapacidad de comunicación elevada a la categoría de virtud intelectual. Sospecho que el aburrimiento sirve así, a menudo, para bendecir el orden establecido: confirma que el conocimiento es un privilegio de las élites. (p.438). Para o autor,Segundo o escritor, sua escritura simples tem a ver com o desejo de se afastar do tom acadêmico e professoral que pode esconder em seus meandros uma linguagem deliberadamente inacessível. Galeano quer fugir do academicismo estéreo, afastar-se do modelo de intelectual característico das elites econômicas. Por isso se autodenomina “un autor no especializado” que se dirige a “un público no especializado”, já que os autores especializados seriam os defensores da história oficial, “contada por los vencedores”. Com a ironia que lhe é peculiar, Galeano usa um paradoxo para explicar a recepção de Las venas: “los comentarios más favorables que este libro recibió no provienen de ningún crítico de prestigio sino de las dictaduras militares que lo elogiaron proibiéndolo.” (p.437). O autor nega que seu texto seja uma “literatura militante dirigida a un público de convencidos”, que ele chama “literatura de paroquia”. Ressalta que a obra foi escrita para difundir ideias próprias e alheias que possam “quizás” ajudar a responder causas do subdesenvolvimento latino-americano: “la primera condición para cambiar la realidad consiste en conocerla.” (p.439). Galeano constata que, quase uma década depois da publicação de Las venas, o “sistema” multiplicou a fome e o medo, as multinacionais seguem sua escalada de lucros à custa da exploração da mão de obra barata do continente. As matérias-primas, mesmo 276 vencendo a “maldición de los precios bajos”, não têm sua valorização voltada para os interesses nacionais, como no caso de corrupção na nacionalização do petróleo venezuelano: [...] cuando el Estado se hace dueño de la principal riqueza de un país, corresponde preguntarse quién es el dueño del Estado. La nacionalización de los recursos básicos no implica, de por sí, la redistribución del ingreso en beneficio de la mayoría, ni pone necesariamente en peligro el poder ni los privilegios de la minoría dominante. (p.442). Retomando a vertente revisionista que marca a escrita de Las venas, relata-se o enterro do general peruano Juan Velasco Alvarado, líder revolucionário que encabeçou um processo de reformas sociais e econômicas, baseado nos ditames socialistas da reforma agrária e da nacionalização dos recursos naturais. Segundo Galeano, com o general também morria sua revolução, devido à “fragilidad implícita en todo proyecto paternalista y sin base popular organizada.” (p. 443). Se ao longo de Las venas Galeano não “instrumentalizou” seus leitores com mecanismos pragmáticos que pudessem levar à revolução, em “Siete años después” o escritor claramente demonstra os caminhos trilhados por muitas nações latino-americanas rumo ao modelo cubano que completaria 19 anos. Um dos exemplos citados é a greve de fome iniciada por “cuatro mujeres y catorce niños, llegados a La Paz desde las minas de estaño”, na Bolívia do ditador Hugo Bánzer. Usando o discurso indireto-livre, Galeano reproduz a reivindicação: - No estamos consultando - dijeron las mujeres -. Estamos informando. La decisión está tomada. Allá en la mina, huelga de hambre siempre hay. Nomás nacer y ya empieza la huelga de hambre. Allá también nos hemos de morir. Más lento, pero también nos hemos de morir. El gobierno reaccionó castigando, amenazando; pero la huelga de hambre desató fuerzas contenidas durante mucho tiempo. Toda Bolivia se sacudió y mostró los dientes. Diez días después, no eran cuatro mujeres y catorce niños: mil cuatrocientos trabajadoresy estudiantes se habían alzado en huelga de hambre. La dictadura sintió que el suelo se abría bajo los pies. Y se arrancó la amnistía general. (p.444). O autor relata que semelhantes atos puderam ser observados em outros países do continente como Panamá e Nicarágua. Contudo, as ditaduras que vicejavam na América Latina, sob o patrocínio dos Estados Unidos à Operação Condor, não permitiriam que, mesmo 277 exilados, os dissidentes do regime denunciassem o terror que promoviam em seus países. Numa nota de rodapé, Galeano denuncia a reação da ditadura chilena de Augusto Pinochet a um artigo de 1976, assinado por Orlando Letelier, ex-ministro do presidente deposto Salvador Allende. O diplomata e sua assistente Ronni Muffet sofreram um atentado à bomba por agentes secretos da DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), o aparato policial do regime militar de Pinochet. Na mesma nota, o autor cita nominalmente companheiros latinoamericanos assassinados durante a ditadura: Varios exiliados políticos de Uruguay, Chile y Bolivia habían sido asesinados, antes, en la Argentina. Entre ellos, los más notorios fueron el general Carlos Prats, figura clave en el esquema militar del gobierno de Allende, cuyo automóvil estalló en un garaje de Buenos Aires el 27 de septiembre de 1974; el general Juan José Torres, que había encabezado un breve gobierno antimperialista en Bolivia, fue acribillado a balazos el 15 de junio de 1976; y los legisladores uruguayos Zelmar Michelini y Héctor Gutiérrez Ruiz, secuestrados, torturados y asesinados, también en Buenos Aires, entre el 18 y el 21 de marzo de 1976. (p.445). Galeano usa “Siete años después” como um documento de divulgação dos horrores praticados contra os intelectuais e a população em geral pelos regimes militares. O autor aponta como um dos acontecimentos mais trágicos do continente o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que derrubou o governo democrático de Salvador Allende e mergulhou o Chile num banho de sangue. No mesmo ano, o governo uruguaio sofre um golpe de estado, decreta o fechamento dos sindicatos e proíbe toda atividade política. Três anos depois, seria o governo argentino de Evita Perón o alvo da ditadura. Em clara alusão à política norteamericana no continente, Galeano indaga: “Estas dictaduras, ¿son tumores a extirpar de organismos sanos o el pus que delata la infección del sistema?” Para ratificar seus argumentos, o autor cita a os testemunhos registrados nas atas do Congresso norte-americano: “Amplias confesiones públicas han probado, entre otras cosas, que el gobierno de los Estados Unidos participó directamente, mediante el soborno, el espionaje y el chantaje, en la política chilena.” (p.448). No caso brasileiro não foi diferente, o escritor relata que mais de uma década após o 278 golpe de estado que depôs Jango, o embaixador norte-americano Lincoln Gordon reconheceu que seu governo financiava há muito tempo as forças contrarias ao governo. Galeano reproduz uma entrevista de Gordon à revista Veja: “‘Qué diablos’, dijo Gordon. ‘Eso era más o menos un hábito, en aquel período... La CIA estaba acostumbrada a disponer de fondos políticos.’” Além do apoio financeiro, o então embaixador explicou que, nos dias do Golpe, o Pentágono deslocou um porta-aviões e quatro navios-tanque para a costa brasileira, pois em caso de necessidade poderiam dar, não apenas apoio moral, mas “‘apoyo logístico, abastecimientos, municiones, petróleo.” De forma irônica, Galeano explica a “política de seguridad nacional”, argumento da ditadura para justificar a violência e a suspensão dos direitos civis: En tiempos difíciles, la democracia se vuelve un crimen contra la seguridad nacional -o sea, contra la seguridad de los privilegios internos y las inversiones extranjeras [...]. Relaciones de víctima y verdugo, dialéctica siniestra: hay una estructura de humillaciones sucesivas que empieza en los mercados internacionales y en los centros financieros y termina en la casa de cada ciudadano. (p.452). Retomando alguns dos temas já abordados em Las venas, o autor descreve a situação calamitosa do país mais pobre do hemisfério ocidental, o Haiti: Los haitianos viven, en promedio, poco más de treinta años. De cada diez haitianos, nueve no saben leer ni escribir. [...]. Para la exportación, los valles fértiles: las mejores tierras se dedican al café, al azúcar, al cacao y otros productos que requiere el mercado norteamericano. Nadie juega al béisbol en Haití, pero Haití es el principal productor mundial de pelotas de béisbol. [...]. El menor asomo de protesta implica, en Haití, la prisión o la muerte. (p.453). Galeano faz menção aos sucessivos governos corruptos e violentos de Papa e Baby Doc. Permitindo-me outra digressão, os regimes ditatoriais do país nunca se preocuparam em desenvolver, literalmente, uma infraestrutura urbana, econômica e social que pudesse amenizar as consequências devastadoras dos fenômenos naturais que reiteradamente assolam o território haitiano, como o terremoto que varreu o país em janeiro de 2010, deixando um rastro de 300 mil mortos e endemias que ainda se multiplicam geometricamente. A catástrofe 279 sem precedentes fez a comunidade internacional, num primeiro momento, mobilizar-se e demonstrar generosidade. A grande mídia mundial finalmente se voltava para a Etiópia latinoamericana. Passado pouco mais de um ano, o Haiti parece estar, novamente, entregue a sua própria sorte. Estabelecendo um paralelo entre o Haiti e a Argentina, Galeano comenta a notícia de um jornal conservador portenho, que protestava contra um documento internacional que incluía o país rio-platense entre os subdesenvolvidos e dependentes. A queixa baseava-se no conceito de que não seria justo medir “una sociedad culta, europea, próspera y blanca con la misma vara que un país tan pobre y tan negro como Haiti”. Galeano reconhece as diferenças, mas critica “las categorías de análisis de la arrogante oligarquía de Buenos Aires”, sublinhando que: Al fin y al cabo, las matanzas del general Videla no son más civilizadas que las de Papa Doc Duvalier o su heredero en el trono, aunque la represión tenga, en la Argentina, un nivel tecnológico más alto. Y en lo esencial, ambas dictaduras actúan al servicio del mismo objetivo: proporcionar brazos baratos a un mercado internacional que exige productos baratos. (p.454) O nível tecnológico argentino a que se refere o autor são os voos da morte, um dos símbolos atrozes do período chamado “Proceso de Reorganización Nacional” (1976-1983). Por meio dos voos da morte centenas de perseguidos da ditadura foram drogados e jogados de aviões militares no mar. Alguns corpos, pela força das correntes marítimas, foram trazidos à costa do país, revelando o circo de horrores da ditadura. Galeano relembra as palavras de um ícone entre os combatentes do regime, o escritor argentino Rodolfo Walsh, em sua Carta abierta de un escritor a la Junta Militar: “‘Quince mil desaparecidos, diez mil presos, cuatro mil muertos, decenas de miles de desterrados son la cifra desnuda de ese terror’”. Após o envio da Carta, em março de 1977, o escritor foi sequestrado e permanece até hoje como “desaparecido”, mesmo que testemunhas tenham visto toda a ação contra o jornalista. 280 Outro tópico abordado é a exploração da mão de obra barata latino-americana. A tecnologia importada servia apenas para aumentar os ganhos, enquanto os salários eram cada vez mais baixos. À época, a CEPAL diagnosticava uma “redivisión internacional del trabajo”. Baseado no documento das Nações Unidas, Galeano ressalta que esta situação se deve às diferenças salariais entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento: El principal producto de exportación de América Latina, venda lo que venda, materias primas o manufacturas, son sus brazos baratos. [...] Ya los barcos negreros no cruzan el océano. Ahora los traficantes de esclavos operan desde el Ministerio de Trabajo. Salarios africanos, precios europeos. (p.459). (Grifo do autor). Galeano comenta o problema da desnutrição, em decorrência dos baixos salários, em países como Brasil, México, Uruguai e Guatemala: “De cada diez familias guatemaltecas que trabajan en el cultivo y la cosecha del café, principal fuente de divisas del país, apenas una se alimenta según los niveles mínimos adecuados”. (p.160). Reforçando sua exaltação ao modelo cubano, comenta que a queda de preço dos produtos de exportação na ilha caribenha não . desencadeou “una oleada de hambre entre los campesinos de Cuba. En Cuba ya no existe la desnutrición.” (p.461). Em tom messiânico, como se descrevesse uma utopia feita realidade, Galeano vocifera: “Al fin y al cabo, las ventas de azúcar al exterior han servido de palanca, en Cuba, para la creación de un mundo nuevo en el que todos tienen acceso a los frutos del desarrollo y la solidaridad es el eje de las relaciones humanas.” (p.462). Para o autor, a Revolução Cubana representa um ideal a ser seguido, pois é fruto de um movimento coletivo que fez do povo protagonista de sua própria história. Nesse ínterim, em muitos países da América Latina, “los trabajadores están obligados a cubrir, en cantidad de horas, lo que pierden en poder de compra del salario.”(p.463). Ironicamente, o autor protesta: “Mientras tanto, la dictadura proclama con orgullo: los uruguayos pueden comprar, más baratos que nunca, whisky escocés, mermelada inglesa, 281 jamón de Dinamarca, vino francés, atún español y trajes de Taiwán.” E conclui: “Aunque sonrían las estadísticas, se jode la gente.”(p.464). No ensaio, Galeano retoma também alguns problemas gerados pela concentração humana nos grandes centros, fruto do êxodo rural, como o desemprego e o subemprego: Las vastas legiones de trabajadores que el campo expulsa comparten, en las orillas de los grandes centros urbanos, la misma suerte que el sistema reserva a los jóvenes ciudadanos ‘sobrantes’. Se perfeccionan, picaresca latinoamericana, las formas de supervivencia de los buscavidas. (p.465). (Grifos do autor). As desigualdades sociais, somada à arbitrariedade dos regimes militares levaram o autor a profetizar a revolução como uma consequência natural da situação política e econômica vivida na Américas Latina dos anos 1970: “Cómo ahogar las explosiones de rebelión de las grandes mayorías condenadas? ¿Cómo prevenir esas posibles explosiones? ¿Cómo evitar que esas mayorías sean cada vez más amplias si el sistema no funciona para ellas?” (p.465-6). Galeano explorará uma unívoca vocação do continente rumo à revolução. Mais que o apelo social pelas mudanças econômicas, é a violência institucionalizada, o terror das ditaduras militares que devem motivar à ação das massas de oprimidos. O discurso antiimperialista está presente na denúncia do financiamento da Operação Condor, ainda que esta denominação não seja citada na obra. Com peculiar ironia, e em franca alusão à experiência pessoal, lamenta: En nuestras tierras [...] Se compra y se aplica, en gran escala, la tecnología norteamericana de la represión, ensayada en los cuatro puntos cardinales del planeta. Pero sería injusto no reconocer cierta capacidad creadora, en este campo de actividades, a las clases dominantes latinoamericanas. [...] han sabido montar una gigantesca maquinaria del miedo y han hecho aportes propios a la técnica del exterminio de las personas y las ideas. Es reveladora en este sentido, la experiencia reciente de los países del río de la Plata. (p.466). (Grifo nosso). Nos parágrafos posteriores, Galeano descreve esta “técnica del exterminio de las personas y las ideas” no Uruguai, onde “se difunde el pánico de la tortura entre todos los 282 ciudadanos, como un gas paralizante que invade cada casa y se mete en el alma de cada ciudadano”. No Chile, “un saldo de treinta mil muertos”; e na Argentina: [...] no se fusila: se secuestra. Las víctimas desaparecen. Los invisibles ejércitos de la noche realizan la tarea. No hay cadáveres, no hay responsables. Así la matanza siempre oficiosa, nunca oficial- se realiza con mayor impunidad, y así se irradia con mayor potencia la angustia colectiva. Nadie rinde cuentas, nadie brinda explicaciones. Cada crimen es una dolorosa incertidumbre para los seres cercanos a la víctima y también una advertencia para todos los demás. El terrorismo de estado se propone paralizar a la población por el miedo. (Grifo do autor, p.467) O relato das crueldades praticadas pela ditadura foi descrito por Galeano, em 1978, sob a comoção de saber que enquanto narrava os fatos desde o exílio, companheiros seus amargavam seus dias em prisões oficiais e clandestinas e em voos da morte. Tal situação levou Galeano a demonstrar meios de iniciar uma revolução: [...] las huelgas que estallaban en todo Chile a pesar del terror. [...]La gran mayoría de los secuestrados y desaparecidos en Argentina está formada por obreros que desarrollaban alguna actividad sindical. Sin cesar se incuban, en la inagotable imaginación popular, nuevas formas de lucha [...] Varias huelgas unánimes se sucedieron en Argentina a lo largo de 1977, cuando el peligro de perder la vida era tan cierto como el riesgo de perder el trabajo. No se destruye de un plumazo el poder de respuesta de una clase obrera organizada y con larga tradición de pelea. (p.469). No último parágrafo de Las venas abiertas, Eduardo Galeano sublinha a importância dos países latino-americanos se desenvolverem socioeconomicamente longe da influência imperialista norte-americana, ou seja, que sigam o exemplo cubano. Retomando a tônica da teoria da dependência, o autor conclui: “El subdesarrollo no es una etapa del desarrollo. Es su consecuencia. El subdesarrollo de América Latina proviene del desarrollo ajeno y continúa alimentándolo.” Galeano quer demonstrar que a estrutura de exploração norte-americana não é inexpugnável. Metaforicamente, compara a queda da potência capitalista a do império babilônico de Nabucodonosor diante dos medos e dos persas. Em alusão direta à profecia bíblica de Daniel, adverte “el sistema tiene pies de barro”. Evidenciando a reconstituição da memória como forma de conhecer para agir, o escritor assegura: “Toda memoria es 283 subversiva, porque es diferente, y también todo proyecto de futuro.” Em explícita referência à Revolução Cubana e às ações desenvolvidas por grupos revolucionários dentro e fora do continente, Eduardo Galeano convoca os latino-americano à luta: El sistema encuentra su paradigma en la inmutable sociedad de las hormigas. Por eso se lleva mal con la historia de los hombres, por lo mucho que cambia. Y porque en la historia de los hombres cada acto de destrucción encuentra su respuesta, tarde o temprano, en un acto de creación.(p.470). (Grifo nosso). 4.3. A RECEPÇÃO DE LAS VENAS ONTEM E HOJE Escrita nos últimos três meses de 1970, Las venas abiertas de América Latina é considerada a obra mais importante de Eduardo Galeano. Ao redor do mundo, já foram vendidos mais de quatro milhões de exemplares. Classificada genericamente como um ensaio de economia política, a obra se constituiu como referencial ineludível para o autor, ainda que tenha em sua vasta produção literária romances, contos, poesias, crônicas, obras menos densas para o público em geral. Antes de escrever o ensaio que o projetou no cenário internacional, Galeano viajou por quase toda a América Latina, pesquisando em bibliotecas, museus, institutos; ouvindo relatos pessoais “de los que sentían en la carne los desafíos humanos de vivir en un país subdesarrollado en fines de la década de ´60.”36 Como sublinha o autor, seu objetivo era compartilhar in loco as mesmas experiências. Deste projeto ficou a certeza de que havia uma “obligación moral de llevar aquellas tristes voces, portadoras de experiencias desumanas, al conocimiento de todos”. Claramente se observa na obra que o escritor quer demonstrar sua perspectiva de reconstrução da memória histórica pela recuperação das vozes de grupos sociais subalternos, alijados ou marginalizados na história latino-americana. 36 As citações sem referência neste correspondem a entrevista de Eduardo Galeano a Felipe Pigna no programa Lo pasado pensado. Canal Cultura, Argentina. 18 de junho de 2008. http://www.elhistoriador.com.ar/gaceta/gaceta22.html Consultado em 12 de novembro de 2010. 284 No século passado, este desejo de representação da voz alheia se confundia com a própria definição de intelectual. Como sublinha Beatriz Sarlo, os intelectuais costumavam atribuir a si mesmos a responsabilidade de representar [...] os que viviam oprimidos pela pobreza e pela ignorância, sem saber quais eram seus verdadeiros interesses ou o caminho para alcançá-los. Pensaram que as idéias podiam descer até aqueles que, operários, camponeses, marginais, submersos num mundo cego, eram vítimas de sua experiência. Sentiram-se portadores de uma promessa: obter os direitos dos que não tinham direito algum. Pensaram que sabiam mais do que as pessoas comuns e que esse saber lhes outorgava um só privilégio: comunicá-lo [...]. (SARLO, 2000, p.159). Esta apropriação do direito à palavra em nome das classes populares era uma característica peculiar dos intelectuais latino-americanos nas décadas de 1960 e 70, ou seja, circunscreve-se a um período peculiar por que passou o continente. O fato de analisarem criticamente a situação miserável da região os fez crer que estavam autorizados a tomar a palavra em nome dos que julgavam incapazes de reivindicar seus direitos. Portanto, outorgam a si mesmos uma procuração para representá-los. Esta ideia de missão se infere das palavras do próprio Galeano ao comentar sobre a grande responsabilidade que pesou sobre seus ombros ao escrever Las venas: “el arte de narrar escondia un desafio, y había que ser digno de ese desafio [...] ser la voz de estes pobres miserables sin voz.” Para cumprir esta tarefa, debruçou-se quatro anos sobre pilhas de documentos para escrevê-la “al cabo de 90 noches, a base de mucho café”. Mais que um ícone da esquerda socialista mundial, Galeano é um referencial quando se trata de questões sócio-políticas latino-americanas. O autor pode hoje ser considerado como uma personalidade midiática, sua experiência no jornalismo e na literatura fez dele um fenômeno da comunicação, em boa medida, devido ao êxito de Las venas. Seu reconhecimento como escritor pode ser comprovado pelos prêmios que recebeu: duas vezes o Casa de las Américas por La canción de nosotros, em 1975, e Días y noches de amor y de guerra, em 1978. Também recebeu prêmio American Book Award pela trilogia Memoria del 285 fuego, em 1989. Galeano chegou a concorrer com Las venas ao prêmio de Casa de las Américas, mas o júri considerou o gênero literário da obra, segundo o autor, “no acadêmico.” A obra publicada pela editora Siglo XXI teve mais de sessenta reedições, traduzida em 18 idiomas. Não são raros os casos de autores que se tornaram célebres por uma de suas criações literárias, mas o caso de Las venas é bastante peculiar, pois se trata de uma obra que tem um conteúdo temático alicerçado basicamente em teorias históricas e políticoeconômicas. Sua extensão não é exatamente um atrativo para um leitor comum, um ensaio de mais de 400 páginas repleto de dados estatísticos. O número de páginas pode ultrapassar as 500, quando sua edição é aumentada de uma apresentação, escrita por um autor consagrado. No Brasil, as primeiras edições foram prefaciadas por Darcy Ribeiro. Na edição mais recente, de 2009, a apresentação da obra ficou a cargo da escritora chilena Isabel Allende. Um fato curioso sobre a repercussão de Las venas nos dias atuais, foi o episódio ocorrido na reunião da 5ª Cúpula das Américas, realizada em Trinidad e Tobago, quando o presidente dos EUA, Barack Obama, foi presenteado com um exemplar de Las venas pelo presidente da Venezuela. Com esta atitude, Chávez buscava demonstra ao presidente norteamericano que as lutas sociais atualmente deflagradas na Venezuela são uma resposta à política imperialista em voga. Obviamente, a situação se constituiu numa inusitada propaganda ideológica. O marketing, expressão mais contundente do modelo de consumo capitalista, responsável pelas mais altas cifras em todos os ramos de atividade, foi a ferramenta utilizada por Chávez para divulgar em escala global a obra do autor que é um foco de resistência socialista no mundo pós-Muro de Berlin e União Soviética. Talvez seja impossível medir os custos desta propaganda gratuita, repetida à exaustão em todos os veículos de comunicação de massa. Certamente, Galeano tinha razão quando afirmou em Patas arriba que o mundo parece dar sinais de que está de cabeça para baixo. 286 Segundo o Jornal do Brasil on-line, no artigo “Veias Abertas, presente de Chávez a Obama, vira bestseller”37, a edição em português subiu da posição 73ª para a 10ª na lista de mais vendidos do site Amazon, em apenas um dia. A edição espanhola cresceu ainda mais rapidamente, da posição 47.468 passou para 283 no mesmo dia, chegando ao primeiro lugar no dia seguinte. O episódio denota que a obra se transformou em ícone do pensamento da esquerda latino-americana, além de demonstrar a comunhão entre Chávez e Galeano, ou seja, o apoio à política unilateral do presidente venezuelano. Depreende-se desta associação que Galeano ainda vê com bons olhos os modelos de governo populistas à moda cubana, o que também é ratificado pela onipresença do autor em eventos promovidos por alguns presidentes latino-americanos, como no discurso de posse de Evo Morales, nas inúmeras aparições nos palanques de Hugo Chávez ou nos Fóruns Sociais de Porto Alegre e do mundo. A receptividade de que goza Galeano nos meios de comunicação, rádio, TV, jornais, revistas, cinema, Internet, talvez tenha a ver com a imagem que o próprio escritor construiu ao longo tempo. Uma imagem quase prosaica, no bom sentido da palavra, alguém que demonstra simplicidade nas palavras, apesar da reconhecida erudição. Um jornalista que se tornou escritor e que manteve a forma de se expressar análoga ao discurso oral, dialogal, primando pela acessibilidade vocabular que o aproxima do leitor em textos ficcionais, ensaísticos, crônicas e poesias. Las venas é um testemunho do autor sobre como se encontrava a América Latina nas décadas de 1960-70, uma tentativa de demonstrar que aquela situação podia ser mudada. Seu objetivo está declarado nas primeiras linhas da obra “La división internacional del trabajo consiste en que unos países se especializan en ganar y otros en perder”. Como já sublinhamos, esta proposta é o arcabouço da teoria da dependência: pressuposto teórico que atribuía o 37 Jornal do Brasil, 19 de abril de 2009. http://www.jbonline.com.br. Consultado em 15 de maio de 2009. 287 atraso do continente às sucessivas ingerências estrangeiras, isentando seus habitantes da responsabilidade pela situação socioeconômica na qual viviam. Ao analisarmos a biografia de Galeano e o campo intelectual em que se inscreve o autor, assinalamos a importância destas informações para a recepção de Las venas, visto que: [...] tanto autor, como texto e leitor estão sujeitos a um poder superior que provoca, influencia e dita a concepção, a interpretação e a crítica das obras literárias: toda uma conjuntura social, moral e política cuja autoridade determina, mais ou menos directamente, o modo como escrevemos, lemos e avaliamos o que lemos. 38 Portanto, o leitor não seleciona e interpreta uma obra literária aleatoriamente, mas orienta-se por um contexto sócio-hitórico do qual fazem parte as instituições (escola, universidades), a crítica literária (teorias em voga, suplementos especializados) e os meios de comunicação (jornais, revistas, TV, internet) que podem influenciar tanto na escrita como na leitura da obra. Nesta perspectiva, a recepção ou resposta do público às obras literárias se processaria num âmbito bem maior que a própria interpretação do leitor, pois estaria “condicionada” a um sistema institucional que orienta as estratégias de leitura. Analisaremos, a seguir, a recepção de Las venas abiertas, baseados no que o crítico francês Gerard denomina elementos paratextuais: Um trabalho literário [...] raramente é apresentado sem estar adornado, reforçado e acompanhado de um certo número de outras produções, verbais ou não, tais como o nome do autor, um título, um prefácio, ilustrações. E apesar de que nós nem sempre saibamos se essas produções devem ou não ser vistas como pertencendo ao texto, em todo o caso elas rodeiam o texto e o estendem, precisamente para apresentá-lo, no sentido usual deste verbo, e num sentido mais forte: fazer presente, garantir a presença do texto no mundo, sua recepção e consumo sob a forma (atualmente, pelo menos) de um livro.39 38 cf.E-dicionário de termos literários de Carlos Ceia. Verbete Leitor. www.edtl.com.pt/index.php?option=com_ mtree&task=viewlink&link_id=896&Itemid=2. Consultado em 06 de novembro de 2010. 39 GENETTE, Gerard apud MIELNICZUK , Luciana & PALÁCIOS, Marcos. Considerações para um estudo sobre o formato da notícia na Web: o link como elemento paratextual. www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/ palacios/compostextofinal.doc. Consultado em 10 de novembro de 2009. 288 Conforme ressalta Genette, os elementos editoriais ou inseridos posteriormente pela vontade do autor, embora não façam parte do texto original, orientam sua leitura. Assim, os paratextos seriam elementos composicionais que acompanham, envolvem, delimitam o texto original. Corresponderiam a uma área de transição e de negociação entre o autor e o leitor, visto que são elementos que apresentam a obra a seu público. Genette afirma que os paratextos evoluem constantemente, de acordo com o período histórico, contexto cultural, gênero literário. Esta evolução ou adaptação do paratexto pode ser observada tanto diacrônica como sincronicamente em Las venas, seja ao longo dos anos ou nas numerosas edições simultâneas em diferentes países e idiomas. Conforme assinala Genette, o título é um dos paratextos mais importantes, pois podem orientar as estratégias de leitura. O próprio título: Las venas abiertas de América Latina é uma metáfora, uma alusão ao esgotamento físico e à dilaceração do continente. As veias abertas podem ser interpretadas como a descrição, implícita, de uma região que é sangrada há séculos por variadas potências que, acometidas de um endêmico vampirismo, alimentam-se de seu sangue. Esta imagem demonstra uma afinidade de pensamento entre o autor uruguaio e o ensaísta e poeta José Martí, ao exortar seus compatriotas à memória como arma de combate contra os que sugavam suas veias: El deber urgente de nuestra América es enseñarse como es, una en alma e intento, vencedora veloz de un pasado sofocante, manchada sólo con la sangre de abono que arranca a las manos de la pelea con las ruinas, y la de las venas que nos dejaron picadas nuestros dueños.40 (Grifos nossos). Ao dar nome à obra, Galeano retoma a mesma metáfora utilizada por Martí em Nuestra América, dotando o continente de dimensões anímicas, espirituais e políticas. Ambos dão primazia à consciência da história como motor de transformação da realidade latinoamericana. Desta forma, como sublinha Genette, o título por si só já é capaz de apresentar a 40 José Martí. Nuestra América. http://www.ensayistas.org/curso3030/textos/ensayo/nuestra-america.htm Consultado em 07 de julho de 2010. 289 obra e orientar sua recepção, pois focaliza a mediação pelo comunicador como elo entre a informação e o sujeito que a recebe. Assim, o nome do autor indicaria a origem da obra e seu título apresentaria uma sumaríssima noção de seu conteúdo. Um elemento paratextual bastante peculiar a uma das edições que consultamos, a publicada em Havana pela Siglo XXI, em 1991, é a reprodução de mapas na parte pré-textual da obra. Para que possamos compreender o que levaria Galeano a reproduzir a cartografia da América Latina nesta edição, parece-nos elucidadora a análise que faz o uruguaio Jorge Carlos Guerrero (2010) sobre o papel dos mapas na representação da unidade latinoamericana. O autor chama a atenção para o fato de os mapas terem o uso consagrado para representar pedagogicamente um vínculo entre “identidad y territorio” (p.14). Analisando algumas obras do artista plástico venezuelano Ricardo Benaim, que tem na cartografia uma de suas inspirações para a criação estética, Guerrero sublinha que as representações dos mapas não obedeceram aos critérios científicos da cartografia, mas aos desejos “utópicos” do pintor. Comentando a obra Cruz del Sur41 (1999), Guerrero afirma que o artista “‘reconstruye’ poder visual para inducir en el público no sólo una reflexión sobre la integración sino también un vínculo de pertenencia a un espacio supranacional (‘se vean a sí mismos como ciudadanos de una misma tierra’).” (2010, p.15). Este efeito se deve a valorização da capacidade persuasiva do mapa. Refletindo sobre a relação entre a cartografia e o nacionalismo, estabelecida por Benedict Anderson em Comunidades imaginadas, Guerrero cita o cientista político para enfatizar o papel dos mapas como a primeira representação das possessões coloniais britânicas e francesas, devido a sua facilidade de reprodução em jornais, cartas, revistas e até muros de hotéis, arraigando-se profundamente no imaginário popular. Para o escritor, a eliminação da especificidade informativa dos mapas acentuava as fronteiras nacionais e a 41 Cf. Página eletrônica do artista. www.ricardobenaim.com/obras/catalogo/pictoricas/70.htm 290 “coloração” que envolvia os países do bloco criava uma imagem que sintetizava os discurso de integração. Esta associação entre mapas e projetos de integração da América Latina tem um grande impulso na década de 1970, quando se buscou configurar uma identidade latinoamericana baseada na história do colonialismo no continente. Guerrero ressalta que esta mesma representação ganha corpo no primeiro lustro do século XXI, como no exemplo da Bienal do Mercosul de 2003, que tinha como propósito declarado: “ajudar a re-escrever a história da arte latino-americana [...] de um ponto de vista que não fosse euro-norteamericano.” (Bienal de Artes Visuais 2 apud GUERRERO, 2010, p.21). Nota-se claramente a identificação ideológica da organização da Bienal com os valores e o discurso das décadas de 1960-70. Ao comentar a pintura Sur42 (1994), do argentino Nicolás García Uriburu, Guerrero assinala que esta obra fazia parte de um projeto do artista de retomar os mapas invertidos, como fizera há mais de 30 anos: “El cuadro alude a Las venas abiertas de América Latina [...] Sur se lee como denuncia e interrogación contemporánea sobre una posible ruptura con ese pasado, criticado por intelectuales como Galeano, en el contexto de la integración.” (p.22). Como observamos, a utilização da cartografia inspira há muito a relação entre unidade, identidade e território. Certamente, os mapas foram apresentados na edição que analisamos aspirando demonstrar as etapas históricas por que passou o continente, sublinhando sua unidade. Nas páginas que antecedem o índice de Las venas, observam-se três mapas da América Latina, no primeiro, com a data de 1492, sob o título “Descubrimiento y conquista”, estão registrados os anos que as coroas espanhola e portuguesa conquistaram e fundaram as principais cidades do continente. No segundo mapa, sob o título “La independencia”, indicase o território atual dos países da América Latina e o ano de independência de cada um deles. Na página seguinte, observa-se um mapa do continente com a delimitação territorial dos 42 Cf. Página eletrônica do artista. www.nicolasuriburu.com.ar. 291 países e suas capitais no ano de 1980. Na reprodução dos três mapas estão sublinhados os contornos da América Latina, enquanto as fronteiras nacionais estão representadas graficamente por linhas tênues. Esses mapas evidenciam cronologicamente a história do continente, destacando como foram alteradas as fronteiras nacionais, de acordo com a política de extensão territorial norte-americana. O primeiro mapa exibe uma imensa região sem fronteiras, além das naturais, da qual os primeiros habitantes do continente dispunham para viver. Portanto, os mapas reforçam a ideia de unidade do continente que se perdeu, devido ao longo período de exploração e do imperialismo que o “mutilou”. O maior exemplo é o México, que teve reduzindo drasticamente seu território, como se observa na comparação entre o mapa da independência e o atual. Metaforicamente, Galeano apresenta aos leitores o caminho que foi tomado pelas nações latino-americanas para libertar-se do jugo espanhol e português, demonstrando, pelo contorno do continente, que se tratava de uma região dinâmica e unida. Ainda na parte pré-textual, uma peculiaridade da edição analisada é a foto de Galeano que aparece na capa. Para representar simbolicamente a obra, não se alude a qualquer período descrito em Las venas, mas ao próprio autor, como se tratasse de uma autobiografia. A foto contrasta com os demais caracteres do projeto gráfico da capa, pois é a única referência concreta ao mundo biossocial. A centralização do retrato, em primeiro plano, e o nome do autor impresso numa fonte duas vezes maior que o título da obra põe em relevo o status conferido ao autor, conforme ressalta Barthes: O autor é uma personagem moderna, produzida sem dúvida por nossa sociedade na medida em que [...] ela descobriu o prestígio do indivíduo ou, como se diz mais nobremente, da “pessoa humana; [...] a explicação da obra é sempre buscada do lado de quem a produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, a entregar a sua “confidência”. (BARTHES, 2004, p. 49). (Grifos do autor). 292 Neste caso específico de Las venas, a imagem de Galeano é usada como prova de seu prestígio, servindo, como observa Genette, como paratexto que garante sua recepção e consumo sob a forma de livro. “O paratexto é aquilo que permite que o texto se torne um livro e seja oferecido enquanto tal para seus leitores e para o público de um modo geral.” (Grifo nosso). Obviamente, Galeano pode ser considerado uma celebridade internacional, logo, um excelente “garoto propaganda” de seus livros, principalmente em Cuba, local da impressão desta edição, visto que o autor tem uma relação de cumplicidade e apoio de longa data com a revolução castrista. É importante notar que Genette chama a atenção para um público específico, no caso dos leitores de Las venas, circunscritos aos condicionamentos impostos pela conjuntura sóciopolítica dos “anos de chumbo”. Neste contexto, podemos observar que o discurso de Galeano está preferencialmente direcionado a um público cativo, que Horacio González chama de adeptos da “lectura pastoral”. Para o crítico argentino, as obras de Galeano têm uma forte vinculação com a tradição dos textos evangélicos, isto é, em que se espera que o leitor participe ou se identifique com o contexto ali descrito, “un espacio comunitario donde la lectura aparece enhebrando las conciencias, a modo de generar un momento colectivo de fuerte emoción.” (2008, p.163). González ressalta que vê com muita restrição esta que é a forma mais arcaica de leitura e que tem uma eficácia bem reconhecida, principalmente porque gostamos dela, pois não precisamos questioná-la, ou seja, conscientemente nos permitimos uma leitura alienada: [...] somos lectores que convivimos con la idea de que un texto con el médium pastoral nos involucra y nos hace revivir, muy remotamente, la idea de un rezo, de una plegaria; nadie está dispuesto a abandonar esa Idea [...] Ese modelo de lectura, como tiene un pequeño grano o grumo de demagogia, también hace de nuestra conciencia una conciencia que se entrega al pastor y, al mismo tiempo, se pregunta si esa entrega posee las precondiciones de emancipación adecuadas. Por eso, siempre en la lectura está en juego el dilema de la emancipación [...] (p. 165). 293 Esta ponta de demagogia muitas vezes é ignorada em razão do próprio contexto da leitura pastoral, que tem como premissa o “relaxamento’ da consciência, o que nos leva a uma adesão incondicional ao discurso veiculado. Esta particularidade da escritura de Galeano é também ressaltada pelo escritor argentino Andrés Neuman, quando comenta em tom informal e com muito bom humor um texto do uruguaio Gustavo Escanlar, no qual investiga o motivo para tamanha receptividade que goza as obras de Galeano: [...] por qué libro debería empezar la investigación. [...] ‘el más famoso es Las venas abiertas de América Latina. Pero nadie - en serio, nadie – llegó a leerlo entero. Te lo resumo en dos palabras: la culpa de todo la tiene el colonizador.’[...] ‘Galeano es una religión: apelando a la fe del lector, le dice lo que el lector necesita escuchar. La fe es más importante que la verdad. Por eso Galeano es más invocado que leído. Más o menos como la Biblia o el Corán.’ (NEUMAN, 2010, p. 45) Conforme adverte Neuman, as obras de Galeano já têm um público cativo que as lê com uma expectativa do tipo de mensagem que irá encontrar. Como sublinha Horacio González, leitores convertidos. Portanto, mesmo que observemos “virtudes” no estilo pastoral de Galeano, devemos cuidar para que não nos despojemos do senso crítico e da reflexão que exigem todas leituras. Uma outra possibilidade de interpretação para a apresentação de uma foto de Galeano na capa pode ser o processo de legitimação do autor, apoiada no valor de consumo que adquire seu nome, seu êxito como escritor consagrado. Sobre a relação entre a cultura e o mercado capitalista, o teórico norte-americano Frederic Jameson comenta: A produção de bens de consumo é agora um fenômeno cultural: compra-se o produto tanto por sua imagem quanto por sua identidade imediata. Passou a existir uma indústria voltada especificamente para criar imagens para bens de consumo e estratégias para a sua venda: a propaganda tomou-se uma mediadora essencial entre a cultura e a economia. (2001, p.138.). Portanto, ao analisarmos a configuração da capa de Las venas como elemento paratextual, observamos que a obra é apresentada como um produto cultural que busca uma “identificação ideológica” com determinado público, conforme ressalta Jameson. Esta 294 identificação teve reflexo na grande receptividade da obra, mas este não foi o principal objetivo do projeto socialista que era desenvolvido na época da publicação. A expansão do mercado editorial foi consequência de uma estratégia de divulgação da Revolução Cubana, transformada em paradigma do pensamento marxista na América Latina dos anos 1960-70. Neste contexto é importante ressaltar, como analisamos alhures, que a editora cubana Casa de las Américas desempenhou com sucesso o papel de centro irradiador da causa socialista e da cultura cubana. Trata-se da editora que cooptou grande parte dos escritores e intelectuais da esquerda latino-americana na época das ditaduras, neste sentido, o êxito de Las venas é também reflexo da bem sucedida campanha de divulgação da Revolução Cubana. Esta identificação temática entre Las venas e a revolução permeia toda a obra. Desde a epígrafe: “... hemos guardado un silencio bastante parecido a la estupidez ...”, Galeano deixa claro o objetivo da obra. Como a citação, retirada da Proclamação Insurreicional da Junta Tuitiva de La Paz, imprime palavras duras e incisivas, que incitam à ação aos leitores que não se enquadram na categoria dos resignados. Segundo Galeano, os estúpidos seriam os que aceitam tacitamente a realidade latino-americana. Portanto, é necessário que se levantem as vozes para que todos se conscientizem das injustiças a que são submetidos. Para o autor, é urgente criar um continente unido, capaz de compreender seu passado, a fim de convertê-lo numa arma de reivindicação por mudanças. Galeano conclama os latino-americanos à revolução. Na epígrafe observamos a escolha de uma citação no pretérito perfeito composto da língua espanhola hemos guardado, em vez do indefinido guardamos. Analisando linguisticamente, pode-se interpretá-la como um sentido de urgência na tomada de atitude. O pretérito perfeito composto, apesar de guardar a noção de aspecto perfectivo, ou seja, concluído, situa a ação num tempo passado recente, próximo ao do tempo presente, que pode 295 se prolongar até o momento, portanto, pode demarcar o momento a partir do qual já não se tolerarão as injustiças. Com o uso da 1a pessoa do plural no indicativo, frise-se a atitude de certeza do emissor/escritor em relação ao que está sendo dito, assim como se inclui no próprio discurso, convidando o leitor a que junto com ele analise as causas das atuais circunstâncias em que se encontram ambos, que rompam o silêncio estúpido que têm mantido todos esses séculos, pela proposição de uma história que possa mudar os destinos do continente. Nos agradecimentos, sempre presentes nas obras de Galeano, observamos o uso de mais um paratexto, que pode ser interpretado como outro recurso que visa orientar a leitura da obra. Na extensa lista, Galeano destaca autores e amigos que contribuíram direta ou indiretamente para a escrita de Las venas, como André Gunder Frank, defensor da teoria da dependência, e do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro entre outros. Em tom de ironia, absolve-os de qualquer responsabilidade: “ellos, y a los muchos amigos que me alentaron en la tarea de estos últimos años, dedico el resultado, del que son, claro está, inocentes.” Recurso semelhante encontramos no prólogo de outra obra: “Patas arriba tiene muchos cómplices. Es un placer denunciarlos.” (GALEANO, 1998, p. vi). Com Las venas Galeano inaugura em sua obra um modelo de construção narrativa de reescritura, baseado na consulta de variadas fontes e na obsessão pela citação como diálogo intertextual. Diana Palaversich aponta na narrativa de Galeano uma qualidade birreferencial, que se estabelece por meio de um contrato de factibilidade e literariedade com o leitor, assim o autor: [...] apela al hecho de haber vivido o testimoniado lo narrado, o a la bona fide de la documentación histórica, lo que le sirve como confirmación de la veracidad del texto [...] al establecer el contrato de literalidad Galeano revela el aporte de su propia subjetividad en el montaje de los eventos históricos relatados, lo que de sí enmarca el texto como ficción. (PALAVERSICH, 1995, p. 209). 296 A autora chama a atenção para a paradoxal tarefa de Galeano de reforçar para o leitor a percepção de que Las venas é um texto voltado ao mundo extraliterário, à realidade latinoamericana, o que se confirma na intertextualidade dos textos citados. Entretanto, também ressalta seu papel como transformador do texto alheio, que o expropria e ficcionaliza para seus próprios fins. Este “contrato de factibilidade” que estabelece Galeano com o leitor para confirmar a historicidade da matéria narrada não é uma prerrogativa de Las venas, na verdade, constitui-se em um dos eixos norteadores de sua escritura, como analisamos anteriormente nos prólogos da trilogia Memória do Fogo. No caso específico de Las venas, tanto o prólogo como o posfácio não faziam parte do texto original, foram incluídos posteriormente, após sete anos de sua primeira edição. Os textos foram escritos como um tipo de atualização e análise da situação sócio-política posterior a 1971. Entretanto, pode-se notar que, mais que simples revisão, Galeano apresenta argumentos que denotam uma interpretação e defesa da própria obra, para que o leitor leve em conta a perspectiva do autor ao escrevê-la: “este libro fue escrito para conversar con la gente”, por isso também esclarece que há uma identidade entre autor e público “un autor no especializado se dirigía a un público no especializado”, o que justificaria o gênero que escolheu para tratar de temas como economia e política: Sé que pudo resultar sacrílego que este manual de divulgación hable de economía política en el estilo de una novela de amor o de piratas. [...] El lenguaje hermético no siempre es el precio inevitable de la profundidad. Puede esconder simplemente, en algunos casos, una incapacidad de comunicación elevada a la categoría de virtud intelectual. Sospecho que el aburrimiento sirve así, a menudo, para bendecir el orden establecido: confirma que el conocimiento es un privilegio de las élites. (GALEANO, 1991, p.438). Galeano deixa claro que quer afastar-se do discurso oficial não só pelo conteúdo de sua obra, mas também pela forma de sua narrativa que se afasta dos “sociólogos, politicólogos, economistas o historiadores, que escriben en código”. Este ataque aos críticos e acadêmicos se exacerba em relação à censura imposta a Las venas: “los comentarios más favorables que este 297 libro recibió no provienen de ningún crítico de prestigio sino de las dictaduras militares que lo elogiaron proibiéndolo”. Este irônico elogio se refere à recepção negativa da obra pelos economistas e historiadores que “no le perdonaron a Galeano la extravagancia de su estilo, ironía y sarcasmo ni el despliegue abierto de la subjetividad, lo cual socava poder de los discursos especializados, aspirantes a la autoridad y a la objetividad” (PALAVERSICH, 1995, p.210). Galeano propõe que seu discurso em Las venas possa redefinir a identidade do continente latino-americano, constituída paulatinamente, desde a cultura oral até os discursos oficiais propagados. Para tal, refuta a versão institucionalizada da história, propondo uma nova documentalidade. E, a partir dela, constitui um discurso revisionista. Mesmo quando cita as fontes, Galeano, frequentemente, não enfatiza seu conteúdo, apenas sublinha seu interesse evocativo para construir uma nova perspectiva, extraindo do texto original uma frase, uma imagem que se constituirá como parâmetro para fundamentar seu ponto de vista, subvertendo, assim, sua condição de texto hegemônico. Palaversich afirma que a documentação eclética empregada por Galeano não quer chamar a atenção sobre a origem de cada texto, mas que este responda às exigências ideológicas da escritura do autor uruguaio, pois como os grupos subalternos que Galeano quer reconstruir a história carecem de documentação própria, [...] él tiene que recurrir a todas las fuentes alternativas disponibles, creando en el proceso un cuerpo particular de textos, un archivo, en el sentido foucauldiano de la palabra. Este archivo de los marginados, por llamarlo así, que constituye el núcleo de la historia alternativa de Galeano, socava la noción tradicional del documento histórico relevante, pero no subvierte las aspiraciones cognoscitivas y referenciales de estos textos. (PALAVERSICH, 1995, p.223). Em Las venas, este “archivo” alternativo ganha dimensão histórica, pois significa uma recusa em aceitar apenas as fontes oficiais como portadoras da “verdade” ou recusando seu papel como documentação inquestionável. 298 Neste contexto, parece-nos que o conceito de ideologia proposto Marx e Engels ajudanos a compreender tanto a veiculação do discurso historiográfico oficial como o proposto por Galeano em Las venas, visto que os teóricos do socialismo defendiam que só era possível pensar o indivíduo em relação as suas condições materiais de vida. Sob esta perspectiva, defendiam que são as condições sociais que determinam o que os indivíduos são. Consequentemente, a produção das ideias estaria diretamente ligada a sua vida real, ou seja, sua leitura de mundo estaria condicionada à forma como vivem. Portanto, a ideologia que os orienta está vinculada à formação sócio-histórica da qual fazem parte: A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. E, se, em toda a ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo por que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.(MARX & ENGELS, 1989, p.37). Marx e Engels analisam a ideologia não apenas como uma falsa visão da realidade, mas, sobretudo, como a expressão do interesse da classe dominante e a articulação de seus interesses. Desta forma, a ideologia representa as relações de classe, mas faz isso de forma ilusória, apresentando o interesse da classe hegemônica como se fosse consensual. Por isso, defendiam que: “Assim como não se julga o que um indivíduo é a partir de sua própria consciência; ao contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.” (Marx & Engels, 1996, p.80). Ou seja, não se deve analisar uma sociedade ou um período pela forma como ele se apresenta, antes, examinar as condições materiais de vida, para que se identifiquem as contradições inerentes à ideologia subjacente a esta sociedade. Um dos parâmetros basilares para uma leitura crítica é a consideração do principio organizador de sentido inerente ao próprio discurso, ou seja, a ideologia subjacente a ele. Ao fazermos essa afirmação, retomamos Hayden White ao definir o término ideologia como: 299 “un conjunto de prescripciones para tomar posición en el mundo presente de la práxis social y actuar sobre él (ya sea para cambiar el mundo o para mantenerlo en su estado actual); tales prescripciones van acompañadas por argumentaciones que afirman la autoridad de la ‘ciencia’ o del ‘realismo.’ (1992, p.32). Portanto, é a ideologia inerente a todo discurso que orientará tanto o discurso oficial como o alternativo, não sendo possível caracterizar nenhum tipo de discurso como isento. Quando analisamos trechos da obra, foi possível verificar que Las venas foi escrita com o propósito de apresentar uma história alternativa à oficial que desse visibilidade às origens das condições do continente latino-americano: Desterrados en su propia tierra, condenados al éxodo eterno, los indígenas de América Latina fueron empujados hacia las zonas más pobres, las montañas áridas o el fondo de los desiertos, a medida que se extendía la frontera de la civilización dominante. Los indios han padecido y padecen -síntesis del drama de toda América Latina- la maldición de su propia riqueza.[..] Las matanzas de los indígenas que comenzaron con Colón nunca cesaron. En Uruguay y en la Patagonia argentina, los indios fueron exterminados, en el siglo pasado, por tropas que los buscaron y los acorralaron en los bosques o en el desierto, con el fin de que no estorbaran el avance organizado de los latifundios ganaderos. (GALEANO, 1991, p.73.) (Grifos do autor). De forma maniqueísta, Galeano deixa claro que há culpados por este estado de coisas e, segundo sua visão, são os países mais desenvolvidos, especificamente os antigos colonizadores europeus e, mais recentemente, os Estados Unidos da América, que estendem seus grilhões por meio da imposição de seu poderio econômico e bélico. É importante destacar que no “arquivo alternativo” da história latino-americana que compõe Galeano, o Brasil é uma referência constante na obra. No ensaio “Villa Rica de Ouro Preto: La Potosí de oro”, observa-se a descrição que relaciona a pobreza e exploração no presente às práticas extrativistas sofridas pela exploração portuguesa em Minas Gerais: ‘Aquí el oro era bosque’, dice, ahora, el mendigo, y su mirada planea sobre las torres de las iglesias. ‘Había oro en las veredas, crecía como pasto’. Ahora él tiene setenta y cinco años de edad y se considera a sí mismo una tradición de Mariana [...] ‘No sabían dónde poner el dinero y por eso hacían una iglesia al lado de la otra’. Camina descalzo, a mi lado, a pasos lentos bajo el tibio sol de la tarde: ‘;Ve? ahí, en el frente de la iglesia, están el sol y la luna. Eso significa que los esclavos trabajaban día y noche. [...].’A lo largo del siglo XVIII, la producción brasileña del 300 codiciado mineral superó el volumen total del oro que España había extraído de sus colonias durante los dos siglos anteriores. (Celso Furtado). (GALEANO, 1991, p.79) (Grifos nossos). Uma particularidade inegável da escritura de Galeano é o imenso trabalho de pesquisa bibliográfica e seleção de fontes, como se observam nas notas de rodapé, como as de Celso Furtado, por exemplo, no trecho supracitado ou das notas de esclarecimento que demonstram a preocupação do autor em deixar claro que seus argumentos têm fundamentação, mesmo que não seja em documentos históricos tradicionais. Pode-se observar que suas referências eruditas, digamos assim, não parecem ter maior relevância que a opinião de um mendigo, que lhe serve de cicerone em Mariana. A forma como descreve a figura anciã denota um tom quase de piedade: “Camina descalzo, a mi lado, a pasos lentos bajo el tibio sol de la tarde”. A descrição lembra uma passagem de um romance romântico. Na linguagem se observa um sincretismo entre culto e popular, sugerindo, às vezes, um bate papo informal: “Los aborígenes desconocían los metales; fueron los portugueses quienes tuvieron que descubrir, por su propia cuenta.” (p.71). Apenas no pequeno trecho pode-se observar que nada é citado por acaso. “[...] en el frente de la iglesia, están el sol y la luna. Eso significa que los esclavos trabajaban día y noche.” A denúncia contra a crueldade e a exploração humana na escravidão, quem sabe um antepassado do guia de Galeano pelas ruelas da cidade histórica. O título alude às duas cidades, uma brasileira e outra chilena, arrasadas material e humanamente pelos colonizadores, não importando a origem deles: “Como había ocurrido en Potosí, Ouro Preto se lanzaba al derroche de su riqueza súbita.” (p.83). Ao longo da obra fica patente que um dos sustentáculos da análise sócio-econômica que faz o autor sobre a América Latina é a crítica à ingerência estrangeira no continente. 301 Galeano condena as intromissões, defendendo firmemente a luta antiimperialista43, já que as nações latino-americanas têm sido vítimas da exploração estrangeira, seja europeia a partir do século XVI ou norte-americana no XX. Analisando-se o antiimperialismo e a teoria da dependência, pode-se verificar que são complementares; ambos se propõem a explicar o fracasso do continente latino-americano pela influência de nações estrangeiras. Para combater a exploração econômica e a política de “esvaziamento cultural” (SUBIRATS, 1992) impostas ao continente, Galeano defenderá a extensão do socialismo cubano às demais nações latinoamericanas. Como sublinhamos anteriormente, a exaltação da Revolução Cubana teve um papel preponderante na recepção de Las venas junto a seus leitores, visto que à época funcionava como um panfleto em escala internacional dos ideais castristas. Por conta disso, esta Revolução inspirará o nascimento de movimentos de liberação nacional por toda América Latina e introduzirá no cenário político e literário novos sujeitos históricos. Também como consequência das demandas pelas mudanças sociais exigidas, assistir-se-á ao surgimento das ditaduras como aparelho repressor, em resposta à onda esquerdista que se espalhava pelo continente. Observando a vasta criação literária do autor uruguaio, pode-se notar nitidamente que a escolha dos títulos serve como um cartão de visitas, um convite à leitura, pois geralmente são incisivamente descritivos, capazes de traduzir sinteticamente as ideias que serão esboçadas na seqüência. Em Las venas, Galeano inicia seu ensaio com um emblemático título “Ciento veinte millones de niños en el centro de la tormenta”: La división internacional del trabajo consiste en que unos países se especializan en ganar y otros en perder. Nuestra comarca del mundo, que hoy llamamos América 43 Na visão de Jorge Miglioli, o imperialismo se caracteriza quando “os sujeitos da exploração continuam sendo os países mais avançados enquanto os objetos da exploração mudaram: em geral, não mais são colônias mas países “livres” capitalistas ou semicapitalistas, com diferentes graus de subdesenvolvimento. Embora a dominação militar ainda funcione, ela é mais discreta e disfarçada, e recorre-se mais freqüentemente à pressão política e econômica. E o imperialismo conserva alguns traços do colonialismo no uso do comércio internacional como processo explorativo.” MIGLIOLI, 2005, p.158. 302 Latina, fue precoz: se especializó en perder desde los remotos tiempos en que los europeos del Renacimiento se abalanzaron a través del mar y le hundieron los dientes en la garganta. Pasaron los siglos y América Latina perfeccionó sus funciones. [...] Pero la región sigue trabajando de sirvienta. Continúa existiendo al servicio de las necesidades ajenas [...]. (GALEANO, 1991, p.1.) (Grifos nossos) Uma característica bastante acentuada no discurso de Galeano é a forma direta, sem rodeios, que usa para transmitir sua mensagem. Além do emprego de uma linguagem clara, sem floreios, quase num tom dialogal, usa uma linguagem metafórica de fácil interpretação. O que se percebe desde o título da obra, está presente em seu transcurso. Quando afirma que os europeus “fincaram os dentes na garganta” da América Latina, é visível a personificação metafórica do continente, visto que sofre “hemorragias” pelos efeitos da “guerra bacteriológica de la derecha, planificada campaña de propaganda destinada a sembrar el terror”. (p. 234). Uma outra imagem que se desprende de suas metáforas é um discurso alinhado à defesa dos grupos subalternos ou subalternizados, índios, negros, nordestinos. A América Latina é uma mulher, que trabalha como uma serviçal, doméstica que tem seios e garganta, é explorada, violentada e roubada, que continua existindo, ontem e hoje, para servir às necessidades alheias. Cabe ainda ressaltar um outro traço do estilo de narração de Galeano: a predileção pela voz irônica, o que o autor nega, modestamente: “Eso de que yo soy irónico y sarcástico no corresponde a la realidad. Yo solamente cuento las cosas que veo y las cosas que escucho.”44 Mas que é facilmente identificável tanto na sua escritura como, e principalmente, em suas entrevistas e nas palestras em que predomina um clima espirituoso de humor e cumplicidade da audiência. Em Las venas, a ironia é uma das características mais importantes, o autor faz uso deste recurso para sublinhar a situação de subdesenvolvimento sócio-econômico em que a 44 Eduardo Galeano em entrevista a Felipe Pigna no programa Lo pasado pensado. Canal Cultura, Argentina. http://www.elhistoriador.com.ar/gaceta/gaceta22.html Consultado em 12 de novembro de 2010. 303 América Latina se encontra. Na narrativa, além da ironia, também se percebem claramente outros aspectos, tais como o senso de humor baseado na desqualificação dos objetos que são os alvos de sua crítica: [...] el imperialismo actual irradiaría tecnología y progreso, y hasta resultaría de mal gusto utilizar esta vieja y odiosa palabra para definirlo. Cada vez que el imperialismo se propone a exaltar sus propias virtudes, conviene, sin embargo, revisar los bolsillos. (GALEANO, 1991, p.341.) Entender o uso da ironia na obra de Galeano é uma das chaves para poder fruir de sua narrativa, que às vezes pode apresentá-la de maneira sutil ou explicitamente prosaica, como no exemplo. Seu discurso irônico baseia-se na contestação de um fato, uma decisão política, um dado estatístico divulgado por agências de informação, jornais ou fontes documentais oficiais com um contra-argumento que propõe um caminho alternativo ao estabelecido na visão dos vencedores, das elites, dos detentores do poder hegemônico. O tom irônico e, às vezes, jocoso que dá a sua versão dos fatos, estabelece um contrato implícito com o leitor que reconhece na situação um absurdo, mas pelo jogo de palavras, pelo trocadilho, Galeano consegue extrair da tragicidade um efeito cômico: Apenas llegada al poder, la dictadura de Videla se apresuró a prohibir las huelgas y decretó la libertad de precios al mismo tiempo que encarcelaba los salarios. [...] la nueva ley de inversiones extranjeras colocó en igualdad de condiciones a las empresas extranjeras y nacionales. La libre competencia terminó, así, con la situación de injusta desventaja en que se encontraban algunas corporaciones multinacionales frente a las empresas locales. Por ejemplo, la desamparada General Motors [...]. Fuentes insospechables confirman que una ínfima parte de las nuevas inversiones extranjeras directas en América Latina proviene realmente del país de origen. Según una investigación publicada por el Departamento de Comercio de los Estados Unidos. (GALEANO, 1991, p. 454-5) (Grifos nossos) Em linhas gerais, o autor, ao longo da obra, combina uma análise socioeconômica com a citação de um dado concreto. O efeito irônico se estabelece na relação entre as metáforas e as antíteses, pois Galeano emprega as ideias desvinculadas da realidade factual como, por exemplo, “la desamparada General Motors”, empresa norte-americana que na época tinha um volume mundial de vendas equivalente a “nada menos que al producto nacional bruto de la 304 Argentina entera”. Ou de “fuentes insospechables” como as do governo “imperialista”, maior interessado em beneficiar as corporações multinacionais de seu país na América Latina, que confirmam a origem dos investimentos “extranjeros” no próprio país. Observamos na ironia o caráter eminentemente intertextual da escritura de Galeano. A intertextualidade está presente na linha limítrofe que separa seu texto literário de uma pluralidade de outros textos com os quais este mantém uma relação implícita ou explícita. A noção de intertextualidade, originada em Bakhtin (1988, p.100-106) e seus conceitos de diálogo e heteroglosia, sublinham que o ato de ler e de escrever supõe alocar um texto específico dentro do espaço discursivo de outros textos. Assim, a linguagem se estabelece pelo reconhecimento tanto de um código compartilhado como pela reconstrução ou reconstituição do referente apresentado. A própria noção de interpretação está inexoravelmente ligada à intertextualidade. Como definem Koch e Elias: [...] a intertextualidade é o elemento constituinte e constitutivo do processo de escrita/leitura e compreende as diversas maneiras pelas quais a produção/recepção de um dado texto depende de reconhecimentos de outros textos por parte dos interlocutores, ou seja, dos diversos tipos de relações que um texto mantém com outros textos. (KOCH & ELIAS, 2006. p.86) Portanto, o processo de escritura de Galeano baseado na intertextualidade permite que o leitor recupere tanto as informações factuais como também estabeleça o nexo irônico construído pelo autor. Assim, a intertextualidade permite um acordo implícito com o leitor, ou seja, o autor simultaneamente propõe um contrato de factibilidade e literalidade. Primeiro apela para os fatos documentais ou para suas experiências vividas. Em seguida, revela em sua narração a subjetividade na montagem dos fatos históricos relatados, criando uma linha tênue entre realidade e ficção. Baseado nessa premissa, relaciona os acontecimentos sob sua ótica e, abusando de adjetivos qualificativos, o modus faciende de sua ironia, interpreta e desfere sua conclusão. 305 Como é sabido, reconstruir discursivamente o mundo, implica constituir subjetivamente no texto um outro mundo, moldado por sua própria experiência. Assim, quando Galeano apresenta um texto a seu leitor, deixa marcas de si como sujeito enunciador. Esse discurso45 sobre o mundo que se constrói em Las venas se dá a partir da narração de um ponto de vista. Se considerarmos que os discursos são constituídos socialmente de realidades e são produtos de um sujeito, de um lugar e de uma situação discursiva específicos e únicos, entendemos que a narração, ainda que baseada em fontes históricas como é o caso da obra, é uma construção particular da realidade. Galeano, ao recortar um fato, está fazendo escolhas e ao narrá-los de uma determinada maneira está dando sua versão particular da verdade. Como já sublinhamos, o ensaio introdutório “Ciento veinte millones ...” foi incorporado à Las venas sete anos depois, o texto foi escrito com a finalidade orientar a leitura da obra, a tônica que permeará a narrativa é apresentada em dois argumentos:o chamado descobrimento, conquista ou invasão da América e a exploração econômica espanhola (colonialismo), inglesa (mercantilismo) e norte-americana (capitalismo selvagem, imperialismo): Es América Latina, la región de Las venas. Desde el descubrimiento hasta nuestros días, todo se ha trasmutado siempre en capital europeo o, más tarde, norteamericano, y como tal se ha acumulado y se acumula en los lejanos centros de poder. [...] El modo de producción y la estructura de clases de cada lugar han sido sucesivamente determinados, desde fuera, por su incorporación al engranaje universal del capitalismo. A cada cual se le ha asignado una función, siempre en beneficio del desarrollo de la metrópoli extranjera de turno, y se ha hecho infinita la cadena de las dependencias [...] dentro de América Latina, la opresión de los países pequeños por sus vecinos mayores. (GALEANO, 1991, p.2.) (Grifo nosso). Como se observa, o discurso de Galeano está direcionado a questionar os motivos que levaram o continente ao subdesenvolvimento. Para contestar tal situação utiliza as máximas da teoria marxista, inclusive seu vocabulário “El modo de producción y la estructura de clases.” Também se pode notar que Galeano escreveu Las venas de forma a persuadir seu 45 Discurso entendido como texto, enunciado. Como uma organização plena de sentidos, situada dentro de um contexto sócio-histórico, construída por um sujeito e dirigida a outro. MAINGUENEAU, 2004. p. 51. 306 leitor da informação que está recebendo, como analisamos na configuração da ironia, o autor utilizará recursos linguísticos como as figuras de retórica a fim de criar “efeitos novos capazes de atrair a atenção do receptor. São expressões figurativas que conseguem quebrar a significação inicial, própria e esperada daquele campo de palavras.” (CITELLI, 1997, p. 1920). Entretanto, a argumentação de Galeano não se baseia apenas nas figuras de retórica, mas, sobretudo, no raciocínio que Citelli chama retórico: “um mecanismo de condução de idéias [...] capaz de atuar junto a mentes e corações, num eficiente mecanismo de envolvimento do receptor. [...] já não se quer apenas o assentimento lógico, deseja-se também trabalhar com os dados emocionais.” (1997, p. 19). Como observamos no trecho: Cuando el régimen cumplió su primer año de vida, el valor real de los salarios se había reducido al cuarenta por ciento. Fue una hazaña lograda por el terror. ‘Quince mil desaparecidos, diez mil presos, cuatro mil muertos, decenas de miles de desterrados son la cifra desnuda de ese terror’, denunció el escritor Rodolfo Walsh en una carta abierta. La carta fue enviada el 29 de marzo del 77 a los tres jefes de la junta de gobierno. Ese mismo día, Walsh fue secuestrado y desapareció. A persuasão exerce um papel preponderante em Las venas, pois a argumentação é construída por meio de vários raciocínios que buscam influenciar o leitor na aceitação das ideias contidas no ensaio. Algumas destas estratégias de argumentação primam pelo desenvolvimento de um texto embasado em fontes documentais ou apelando para o emocional. Nesta perspectiva, podemos observar algumas peculiaridades da argumentação de Galeano em Las venas: o uso de uma linguagem simples em lugar de uma linguagem especializada, além de notas explicativas, quando se faz necessário um termo técnico; o uso de recurso persuasivos, como já assinalamos, visando modificar convicções e atitudes; e a referência como recurso intertextual, a fim de assegurar um testemunho autorizado.46 Este tipo de estrutura argumentativa não é novo, contudo, Las venas é sui generis no tom polêmico e pastoral (GONZÁLEZ, 2008) que Galeano consegue imprimir no ensaio, no 46 Uma opinião abalizada, uma opinião de quem, pela reputação baseada no saber e na experiência, merecesse tal crédito, que a prova dos fatos se tornasse desnecessária ou supérflua. GARCIA, 1981, p.292. 307 qual defende quase de forma passional as virtudes do modelo socialista implantado em Cuba, frente ao “virulento” capitalismo imperialista norte-americano. Em certos ensaios uma descrição crua e realista das mazelas sociais do continente, em outros, narrações líricas em que se concilia a ideia à estética, conformando um tipo de ensaio político-poético. O escritor narra, relata ou apenas faz uma crônica das vivências das classes sociais menos favorecidas, dando a entender que, como latino-americano, compartilhou na carne os fatos ali mencionados. A defesa de uma identidade latino-americana proposta em Las venas recupera uma tradição ensaística da América Latina, como já analisamos, seu discurso retoma teses já propostas por Rodó e Vasconcelos. Galeano não foi uma voz solitária ao defender os valores culturais do continente em detrimento dos valores exógenos, impostos desde a colonização. Na época do descobrimento, o Frei espanhol Batolomé de Las Casas já condenava a forma de interferência de seu país na América e defendia uma colonização que levasse em consideração os nativos das terras recém-descobertas. Personagens históricos como Garcilaso Inca de la Vega, Francisco de Victoria, Guamán Poma e Tupac Amaru foram as vozes pioneiras, dos dois lados do Atlântico, que inauguraram a formação de uma consciência latino-americana. Esses pensadores expuseram o lado obscuro da história americana e espanhola, são os precursores de uma realidade renovadora da tradição intelectual de sua época. Em Las venas abiertas de América Latina estas vozes voltam a ganhar eco. Uma outra questão abordada na obra e que ainda vigora no século XXI é a intervenção militar em outros países e continentes como forma de imposição do modelo econômico e cultural norte-americano: Las actas del Congreso de los Estados Unidos suelen registrar testimonios irrefutables sobre las intervenciones en América Latina. [...] Amplias confesiones públicas han probado, entre otras cosas, que el gobierno de los Estados Unidos participó directamente, mediante el soborno, el espionaje y el chantaje, en la política chilena. [...] Cuando el golpe de estado contra Goulart, los Estados Unidos tenían en el Brasil su embajada mayor del mundo. (GALEANO, 1991, p.9). 308 Esta citação encontra-se no ensaio “Siete años después”, escrito em 1978, no exílio. Na época, a América Latina vivia o auge da ditadura militar. Como ressalta o autor, o intervencionismo norte-americano teve início no século passado, na guerra do Vietnã, no patrocínio da invasão a Cuba na Baía dos porcos, no apoio aos Contra da Nicarágua, na Operação Condor. Mais recentemente, no século XXI, continua em voga a política intervencionista dos Estados Unidos, como observamos nas guerras do Iraque e do Afeganistão. A publicação de Las venas foi um marco na carreira do escritor uruguaio, que até então era apenas mais um jornalista utópico47, sem maior expressão na vida intelectual ou literária, mesmo em seu país. Ainda mais se levarmos em consideração que naquela época, nos anos 1970, ser utópico era quase uma regra, dadas as condições sócio-históricas em que se vivia. Após a publicação, Galeano ganha projeção internacional e desponta como uma das vozes mais influentes em assuntos que tratam da América Latina. Testemunha da história contemporânea da América Latina, Galeano analisa assuntos políticos e busca em documentos das mais variadas áreas do conhecimento a matéria-prima para seus estudos da história do continente, sua obra tem o germe da contestação. Nele convivem o jornalista denunciador, o ensaísta contestador e o literato poético e idealista. Até quem nunca leu a extensa obra sabe que Galeano é um crítico do capitalismo que, inconformado com a realidade, defende a mobilização popular no embate contra a elite econômica para que seja possível viver numa sociedade mais igualitária. Seu idealismo, às 47 Usamos o termo utópico relacionado à definição de utopia, a saber, “um modelo de construção de sociedade ideal com origem num sujeito de conhecimento (individual ou colectivo, concreto ou abstrato) que, a partir da crítica que empreende às condições empíricas e ao funcionamento de uma sociedade historicamente dada, projeta mentalmente um programa alternativo, mais ou menos minucioso e não raro simetricamente invertido, de uma outra organização social e de uma outra conduta civil tidas como desejáveis. [...] A utopia pode assim ser caracterizada como uma comunidade organizada segundo princípios econômicos, políticos, morais e ideológicos, situada num espaço e num tempo com variáveis índices de verossimilhança relativamente ao espaço e ao tempo conhecidos. José Eduardo Reis s.v. "utopia", E-Dicionário de Termos Literários, coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, http://www.fcsh.unl.pt/edtl. Consultado em 05 de agosto de 2010. 309 vezes inverossímil, sonha com a possibilidade de que as coisas possam ser diferentes do que são. Sob a influência dos pressupostos sartreano, Galeano acredita que o trabalho do escritor deve ser explorado levando em consideração as suas condições sócio-históricas. Desde a adolescência, o autor já vislumbrava o contexto social como um referencial para a construção de suas obras. Quando analisamos a revolução socialista da ilha caribenha e as paixões acaloradas entre seus defensores e detratores, é necessário refletir sobre o alcance desse tema até os dias atuais, pois é quase inexplicável que este evento, que completou 50 anos de experiência, agora sob o comando de Raúl Castro, desperte ainda tanto fascínio e que, apesar do ocaso da União Soviética em 1991, inspire diretamente países como Venezuela, Bolívia e Equador, além de outros simpatizantes. Não é exagero afirmar que Galeano é um dos responsáveis por essa visão utópica da revolução no continente, a julgar por sua peregrinação constante por toda a América Latina e sua defesa, até certo tempo irrestrita, da experiência cubana. Esse alinhamento de Galeano ao governo de Fidel Castro gerou uma polêmica no meio intelectual latino-americano. O escritor exilado cubano Arnoldo Águila, por exemplo, critica incisivamente não só o escritor, mas a pessoa de Galeano. No texto Las venas: cerrado por reformas48, o escritor cubano caracteriza a obra de Galeano como ultrapassada e ao autor como um capitalista camuflado: “¿Cómo escribir para los pobres y vender tan caro el libro? (36 dólares en papel común en Amazon.com.) ¿Denunciar la pobreza extrema de América Latina y lucrar con eso?”. Não nos parece que haja incoerência no escritor que vive de seu ofício. Galeano, como os demais autores e a sociedade em geral, está inserido no contexto capitalista, e não há como fugir dessa lógica. Fazemos parte desse sistema que nos fez pensar o mundo sob uma perspectiva do capital e do lucro, visto que tudo que nos cerca está pensado e baseado nesta lógica. Entretanto, a maior crítica de Águila dirige-se às seguidas 48 Cf. www.arnoldoaguila.com/galeano. Consultado em 02 de julho de 2008. 310 reimpressões do livro sem que haja uma nota de esclarecimento sobre a situação atual da política de cubana: No me parece honesto que se haga una reedición de un libro que no se cansa de hablar de las dictaduras en América Latina bajo la perspectiva marxista, pues Cuba para él no es una dictadura, y no se diga una palabra sobre los cambios dramáticos que han ocurrido en estos últimos veinte años en América Latina y en todo el mundo. Hay silencios que comprometen más que las palabras. (Ibidem). Como exilado cubano, Águila afirma conhecer seu país natal melhor que Galeano, pois viveu o regime anterior a Fidel: “porque no hay quien nos haga un cuento sobre lo que sufrimos en vivo y en directo.” O autor cubano não nega a qualidade e a importância de Las venas, apenas defende que já não se pode interpretar as informações sobre Cuba no século XXI, como se fazia na década de 1970. Uma outra crítica bastante contundente, não só a Las venas, mas a todo o pensamento da esquerda marxista latino-americano, foi a publicação em 1996 do Manual del perfecto idiota latinoamericano, escrito pelo também exilado cubano Carlos Alberto Montaner em conjunto com o colombiano Plinio Apuleyo Mendonza e o peruano Alberto Vargas Llosa, filho do prestigiado escritor Mario Vargas Llosa. Os autores atribuem o título de “perfectos idiotas” aos ditadores, políticos corruptos e intelectuais. O Manual foi escrito em tom sarcástico e bem-humorado, como indica seu próprio título. Os três autores satirizam escritores e obras que serviram como base teórica para a teoria da dependência como explicação para o subdesenvolvimento da América Latina. Os principais alvos são os protagonistas da Revolução Cubana Fidel Castro e Che Guevara. Las venas é a obra que recebe as críticas mais incisivas. A apresentação da edição brasileira foi escrita pelo economista Roberto Campos, e não por acaso, pois Campos é uma das figuras duramente criticadas em Las venas abiertas: Los directores, abogados o asesores de la Hanna -Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pedreira, Roberto Campos, Márío da Silva Pinto, Otávio Gouveia de Bulhões- eran también miembros, al más alto nivel, del gobierno de Brasil, y continuaron 311 ocupando cargos de ministros, embajadores o directores de servicios en los ciclos siguientes. (1991, p. 250-1) Galeano critica a contradição dos interesses nacionais com a participação de Roberto Campos (quem posteriormente denominou a companhia brasileira de petróleo como “petrossauro”, defendendo a privatização da empresa estatal), no alto escalão da mineradora norte-americana Hanna Mining Co. e como Ministro do Planejamento do governo militar de Castelo Branco, embaixador e ministro da Fazenda em outros governos. O Manual, considerado uma resposta neoliberal à esquerda marxista, analisa muitos argumentos de Las venas, dedicando-lhe um capítulo inteiro, intitulado “La bíblia del idiota”. [...] hay bastantes posibilidades de que la idea de América Latina grabada en las cabecitas de muchos jóvenes formados em Estados Unidos, Francia o Italia (no digamos Rusia o Cuba) haya sido modelada por la lectura de esta pintoresca obra [Las Venas] ayuna de orden, concierto y sentido común. (1996, p.31) (Grifo nosso.) Apesar das duras críticas dirigidas à obra, os autores afirmam que “Galeano – que de personal nos merece todo el respeto del mundo – tiene una prosa rápida, lírica a veces, casi siempre efectiva.” (1996, p.31). Tais elogios em reconhecimento aos méritos literários de Galeano, entretanto, são complementados com adjetivos nada lisonjeiros: “una argumentación infantil e frágil.” No final do ensaio os autores propõem uma lista dos dez livros que “conmovieron al idiota latinoamericano”. Las venas, do autor denominado “la legendaria idiotez ideológica”, é um deles, assim como A história me absolverá, de Fidel Castro (1953), A guerra de guerrilhas, de Ernesto “Che” Guevara (1960) e Dependência e desenvolvimento na América Latina (1969) de Fernando Henrique Cardoso, apenas para citar alguns. Continuando o mote do Manual, em 2007 os três autores lançaram El regreso del perfecto idiota, analisando o fortalecimento do populismo no continente e o papel de Hugo Chávez na disseminação da doutrina bolivariana, capitaneando os novos “idiotas contumaces”. No capítulo final, em 312 referência à lista da publicação de 1996, são prescritos dez livros que deveriam ser lidos pelos idiotas latino-americanos. A publicação das duas obras para tratar do tema da Revolução Cubana e dos escritores engajados na causa do socialismo como uma alternativa viável para a América Latina demonstra que as discussões que nortearam o discurso intelectual nas décadas de 1960-70 ainda suscitam interesse mais de 40 anos depois. Retomando a análise de Las venas, observa-se que narrativa do autor uruguaio se constrói como uma explanação da matéria abordada sob a forma de uma ampliação/explicação da referência, uma das peculiaridades mais sobressalentes de sua escritura. Pode-se perceber que Galeano busca em sua experiência de jornalista um modus operandi para demonstrar as várias facetas que levaram ao subdesenvolvimento latinoamericano. Não só em Las venas, mas também em Memória do fogo, o autor utiliza-se de extensas e variadas fontes bibliográficas, que funcionam como um testemunho autorizado para legitimar seu contra-discurso. Esse viés de interpretação que utiliza fontes externas como referências para atestar a veracidade do argumento, por mais que queira transparecer isenção, não se limita a apresentar os fatos, é fruto da seleção subjetiva deste material. Oswald Ducrot (Apud MAINGUENEAU, 1997, p.32), para responder a questão do enunciador versus locutor, propõe a noção de polifonia, ou seja, a desvinculação unívoca de que cada enunciado só poder ser relacionado a um único autor, afirmando que é possível discernir em uma enunciação dois tipos de personagens, os enunciadores e os locutores. A distinção se dá, ainda, quando Ducrot assinala que, na verdade, pode-se perceber numa enunciação o falante, o autor efetivo, e o locutor, quem no enunciado é apresentado como seu responsável. Para Ducrot, o enunciador representa, de certa forma, frente ao locutor o que o personagem representa para o autor em uma ficção. Como explica Ducrot: [...] os enunciadores são seres cujas vozes estão presentes na enunciação sem que se lhes possa, entretanto, atribuir palavras precisas: efetivamente, eles não falam, mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista. Ou seja, o locutor pode por em cena, em seu próprio enunciado, posições diversas da sua. (Apud MAINGUENEAU, 1997, p.32). 313 Assim, enquanto o locutor é apresentado como responsável pela enunciação, o enunciador é apenas a voz presente na enunciação sem que lhe possa atribuir as declarações ali veiculadas. Desta forma, o enunciador Galeano, pode expressar no enunciado pareceres de locutores que coincidem ou não com os seus, sem comprometer-se pessoalmente com o discurso veiculado. Quando Galeano “recorta ou pinça” trechos do discurso alheio, esboça sua intencionalidade, pois devemos ter bem em mente que o fato de eleger alguns extratos de um todo discursivo, não deixa de ser um tipo de interpretação do discurso alheio. No entanto, também reconhecemos que para que os trechos interpretados possam ter credibilidade é necessário que sejam fundamentados. Justamente neste ponto, a análise do discurso nos serve de subsídio, pois a interpretação semântica de um texto é fruto não somente das inferências decorrentes do funcionamento das regras da língua e do conhecimento prévio de cada receptor, mas também através do “estudo da construção dos objetos discursivos e dos lugares enunciativos no fio intradiscursivo.” (PÊCHEUX apud LIMA, 1990, p.21). Como ressaltamos alhures, este lugar enunciativo era o conturbado cenário sócio-político da América Latina dos anos 1960-70, marcados pela dependência econômica, exploração estrangeira e, sobretudo, repressão política. Ao longo de toda a obra, Galeano faz questão de citar ipsis litteris, por meio do discurso direto, o discurso alheio. Ducrot caracteriza este tipo de discurso também como polifonia, pois necessariamente se afigura um segundo locutor no enunciado anteriormente codificado por um outro locutor. Ou seja, as informações veiculadas que supúnhamos de Galeano, identificado preliminarmente como autor da obra, são atribuídas a outra fonte. Este tipo de recurso serve como distanciamento do autor da enunciação frente ao discurso citado: El primer acuerdo de complementación en la ALALC fue firmado, en agosto de 1962, por Argentina, Brasil, Chile y Uruguay; pero en realidad fue firmado entre la IBM, la IBM, la IBM y la IBM. El acuerdo eliminaba los derechos de importación 314 para el comercio de maquinarias [...] la IBM World Trade “sugirió a los gobiernos que si eliminaban los derechos para comerciar entre sí construiría plantas en Brasil y Argentina ..” (Business International, op. cit.). (GALEANO, 1991, p.425.) Como se observa, a citação direta serve como distanciamento do autor da enunciação frente ao discurso citado, que caracteriza outro locutor. Neste caso, Galeano usa a referência como um argumento contra seu próprio locutor. A análise do discurso distingue o uso da citação através da ambiguidade inerente a ela, de acordo com o grau de assentimento do locutor ao que está dizendo. Consequentemente, o autor pode distanciar-se do enunciado por relatar opiniões de terceiros, sem comprometer-se; como pode suprimir suas ponderações sem que lhe cobrem um posicionamento. Ao analisarmos um texto em que se inscrevem vários locutores, mas que apenas ao autor se pode imputar a responsabilidade pela enunciação, e que os demais se caracterizam pela ausência, não podemos descartar a questão das condições de produção deste discurso. Não é possível apagar a comunidade em que se insere e se reconhece o enunciador. O espaço enunciativo não é um acessório exterior a este, antes, dirige-se a um grupo social específico, com ideologia própria. Ademais, se considerarmos a formação discursiva representada pela citação de supostos testemunhos autorizados, observaremos que sua característica principal baseia-se no status de seus locutores, instituições, pesquisadores, escritores, que se representa como integrantes de uma casta e estão associados a destinatários igualmente inscritos em organizações sociais. Dito de outra forma, lhes é atribuída autoridade inquestionável. Até mesmo porque só se lança mão do discurso autorizado quando este é reconhecido como tal. O testemunho autorizado em que se baseiam está intimamente ligado à ausência deste, quer dizer, a pessoa a quem se atribui legitimidade inquestionável não está presente para que se possa por em discussão sua autoridade, assim tornam-se incontestáveis suas afirmações, ou seja, as referências de Galeano apresentam-se como enunciadores de uma outra verdade emitida pelas fontes 315 documentais alternativas, ainda que seu propósito seja questionar outros documentos que o próprio Galeano denomina oficiais. O lugar privilegiado da obra literária, que goza de prerrogativas que teoricamente atestam sua credibilidade, não está isento de orientações prévias. Portanto, as informações e declarações veiculadas em determinado meio estão sujeitas às posições ideológicas do próprio meio. Assim, não seria absurdo afirmar que uma formação discursiva possui uma vertente social definida. Galeano tem a noção exata de seu público leitor, ou seja, as condições de produção de seu discurso estão irremediavelmente ligadas à noção de contrato de fala em que se [...] pressupõe que os indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais, sejam capazes de entrar em acordo a propósito das representações de linguagem destas práticas. Consequentemente, o sujeito que se comunica sempre poderá, com certa razão, atribuir ao outro (o não-EU) uma competência de linguagem análoga à sua que o habilite ao reconhecimento. O ato de fala transforma-se, então, em uma proposição que o EU dirige ao TU e para a qual aguarda uma contrapartida de conveniência. (CHARAUDEAU apud MAINGUENEAU, 1997, p.30) (Grifo nosso). Desta forma, estabelece-se contrato tácito de poder entre enunciador e ouvinte/ receptor, em que, a partir do momento em alguém se predispõe a ouvir, confere a outrem o status de falante. Este acordo nasce da necessidade de refletir sobre determinado tema; ao contrário do que se possa imaginar, o enunciador não se impõe como tal, mas supõe uma negociação para que seja aceito pelo interlocutor. No caso do escritor Galeano, a instituição livro lhe confere o respaldo e o habilita a escrever a seus seletos leitores. Como analisamos em Las venas, Galeano sustenta uma visão marcadamente ideológica e unilateral que se opõe à oficial, apontando como causa inequívoca do subdesenvolvimento latino-americano a intromissão e exploração estrangeiras. Na fundamentação desta visão maniqueísta, o leitor é apenas um receptor passivo que não dialoga com o texto, mas apenas o consome, como um produto acabado. A experiência de Galeano como jornalista não pode ser descartada quando analisamos a construção de seus textos, pois o autor emprega o cabedal de 316 recursos estilísticos utilizados nos meios de comunicação para captar a atenção do destinatário, na elaboração dos títulos dos ensaios, por exemplo, e fazê-lo refletir dentro dos parâmetros do escritor. Galeano busca em Las venas sensibilizar seus leitores de forma a influenciá-los na sua visão de mundo e nas ações da vida cotidiana, fazendo-os repensar as identidades culturais que lhes foram impostas ao longo dos anos, a fim de configurar uma nova. Ao acompanhar a narrativa de Galeano, é possível notar que os textos têm um caráter perlocutório, o que denota que esses discursos estão centrados no leitor. O escritor busca a cumplicidade de um sujeito-receptor que ressignifique as mensagens, identificando suas negociações e resistências à lógica dos meios. Assim, a recepção, aqui entendida como fenômeno coletivo, é um lugar onde se deve repensar a mensagem enviada, isto é, refletir sobre ela com base nas próprias experiências. Em Las venas abiertas de América Latina, Galeano busca conscientizar o leitor de que existe um discurso oficial, de interesses e poderes contrapostos aos interesses do cidadão comum, das classes populares. Por isso, há a necessidade de questionar os discursos constituídos, mantenedores da ordem estabelecida, e construir um novo modelo de interpretação que leve em conta as realidades sociais do continente. Nesta perspectiva, o leitor deixa de ser mero receptor e passa a ser também seu autor, um construtor de sentidos, uma vez que no campo de linguagem, da qual também fazem parte os elementos que compõem nosso mundo biossocial, cada realidade histórica atualiza, constitui ou reconstitui metaforicamente o texto, transformando-o numa realidade subjetiva. 317 CONSIDERAÇÕES FINAIS ___________________________________________________________________________ Na leitura de Las venas abiertas de América Latina buscamos problematizar as figurações do intelectual latino-americano na conjuntura sócio-histórica dos anos 1960-70. Analisando ensaio a ensaio, observamos que a principal obra de Eduardo Galeano pode ser interpretada como uma síntese do pensamento que orienta outras obras do autor, uma literatura em que o contexto social do qual emerge é um referencial ineludível. O escritor tem explicitamente a intenção de demonstrar que a América Latina ainda é um espaço em que a colonização se prolonga e se atualiza por meio do imperialismo político, econômico e cultural. A criação literária de Galeano constitui-se como um projeto de emancipação latinoamericana, em que se propõe um novo sujeito histórico, o subalterno, tradicionalmente alijado pelo discurso hegemônico da história oficial, escrita pelos vencedores. Entretanto, essa voz suprimida historicamente não emerge de seu próprio discurso, mas é “filtrada” pela intelectualidade do século XX, que acredita ser a portadora do direito de reivindicação da vontade das classes populares. O questionamento da história da América Latina é o alicerce sobre o qual se constrói no campo literário um discurso de recuperação da história omitida, silenciada ou negada dos grupos excluídos econômica e, sobretudo, representativamente da sociedade. O revisionismo histórico proposto em Las venas baseia-se numa nova concepção da História, que propõe modelos teórico-metodológicos que privilegiam fontes alternativas às oficiais. Segundo Galeano, fontes silenciadas pelos vencedores que merecem ser recuperadas. A forma que encontra Galeano para reinterpretar a história do continente é a reescritura. Sob a perspectiva Barthes, podemos afirmar que Las venas é um grande inventário de outros textos, de outras leituras com as quais estabelece um diálogo, influenciando em sua 318 recepção, na interpretação dos sentidos. No diálogo estabelecido entre texto e leitor, este último é convidado a refletir, a questionar e a concluir. O autor uruguaio exorta seus leitores a tomarem posição, a reagirem diante das circunstâncias históricas. Cada ensaio é constituído sob o ponto de vista do autor, entretanto, sempre subsidiado por uma série de leituras criteriosamente selecionadas, que denotam inequivocamente sua orientação política. Em boa parte da literatura de Galeano, escrita até o final da década de 1980, observamos o paradigma do escritor latino-americano engajado, que usa seu prestígio intelectual e sua literatura como uma forma de reivindicação, um instrumento detonador da transformação social. Numa perspectiva cronológica, reconstituímos a aparição na Europa da figura do intelectual, nos moldes defendidos por Jean-Paul Sartre, como um fenômeno historicamente situado na passagem do século XIX para o XX. Tal concepção estava atrelada ao entendimento de que o escritor engajado não podia omitir-se diante da condição humana. Analisando esta época, Pierre Bourdieu apresenta a noção de campo literário, na qual se proclama a autonomia da esfera de atividades estéticas, conquistando uma legitimidade própria frente à sociedade burguesa em geral. Segundo Bourdieu, somente a partir da produção e negociação de bens simbólicos, os intelectuais poderiam desempenhar sua função de tomada de posição política e ideológica. Já no limiar do século XX, na América Latina, um grupo de escritores constituiria uma tradição ensaística que se estenderia até os dias de hoje. Analisando a trajetória dos precursores e seguidores do ensaio hispano-americano, chegamos à conclusão de que estes autores constituem um dos segmentos mais importantes da própria história literária do continente. É no ensaio que estes homens letrados encontram a forma de expressão para, inicialmente, cimentar a independência das nações latino-americanas, consolidar os estados nacionais laicos e fundar as universidades. 319 A configuração do intelectual na América Latina, assim como na Europa, não estava apenas associada a questões políticas, mas também às condições sócio-econômicas. A falta de um público leitor de literatura acarretou no enveredamento dos homens letrados para as redações de jornais, suscitando a expansão do mercado editorial, a formação de academias e de revistas literárias. Na segunda metade do século XX, a aproximação dos escritores de seu público leitor, em função dos meios de comunicação de massa, consolidaria a figura do intelectual na sociedade da época. Em nossa análise de Las venas abiertas de América Latina, observamos uma estreita vinculação entre as idéias defendidas na obra e a biografia de seu autor. Eduardo Galeano nasceu em 1940, década que marca o início de muitos processos históricos que irão balizar todo o século XX, tais como o holocausto judeu, a segunda Guerra Mundial e a configuração do poderio militar dos Estados Unidos, após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Nesta época tem início a Guerra Fria, disputa ideológica, econômica e tecnológica pela conquista de zonas de influência pela hegemonia mundial entre os norteamericanos e os russos. Esta polarização do mundo em dois blocos influenciou diretamente nas políticas de vários países, sobretudo, da América Latina. Os jovens dos anos 1960-70 presenciaram uma combinação de fatores econômicos, sociais e culturais que os fizeram protagonizar uma revolução comportamental sem precedentes. Entretanto, mais que liberdade de expressão individual e coletiva, o cenário político conturbado da época exigia uma resposta da sociedade, e um dos fatores preponderantes para esta mudança de atitude foi o comprometimento político da nova juventude transviada. Quando aos 14 anos o adolescente Gius vendia suas caricaturas aos pequenos jornais e, posteriormente, filia-se ao Partido Comunista, demonstrava precocemente sua veia crítica da realidade. Esta atitude diante do mundo era reflexo de uma geração que cresceu numa 320 sociedade “virada de cabeça para baixo”, em que as disputas econômicas, transvestidas de ideológicas, justificavam as bélicas. A publicação de Los días siguientes, primeiro romance de Galeano, aos 23 anos, evidencia um jovem insatisfeito com as desigualdades sociais de seu país e o desejo de poder contribuir pragmaticamente na transformação da injusta realidade. A Guerra do Vietnam (1959-1975), a Revolução Cubana, iniciadas no limiar da década de 1960, e as ditaduras militares instauradas na América Latina foram o estopim para o engajamento político e artístico. Neste contexto, os escritores latino-americanos ganham notoriedade e acabam por configurar uma identificação quase unívoca entre a esquerda política e a intelectualidade da época. A revolução popular em Cuba, liderada por jovens idealistas como Fidel Castro e Che Guevara, tornava possível vislumbrar a derrubada do poderio norte-americano, alimentando a utopia de estender o socialismo a todo continente. A primeira revolução socialista na América Latina inspiraria o surgimento de movimentos de libertação nacional e introduziria no cenário político os grupos subalternos como um novo sujeito histórico. Estas maiorias marginalizadas veem no triunfo socialista cubano um modelo a ser seguido, o que provoca nas elites políticas, econômicas e militares o temor da insurreição popular por mudanças sociais, o que gerou sucessivas ditaduras no continente. A ebulição sócio-histórica que causou a Revolução Cubana reflete-se indelevelmente no discurso dos intelectuais da América Latina. O exemplo singular desta quase simbiose ideológica é a publicação de Las venas, em que se observa a defesa dos postulados marxistas como modelo de superação da dependência econômica estrangeira. O recrudescimento das ditaduras fez Galeano, já no exílio, escrever o ensaio Siete años después, posteriormente incorporado à obra. No texto, o autor desfere suas críticas mais contundentes contra a ditadura e defende explicitamente a revolução como forma de transformação da sociedade latinoamericana. 321 Na tese analisamos os desdobramentos da Revolução Cubana e seus reflexos no pensamento intelectual da esquerda latino-americana. Não negamos sua importância histórica e menos ainda as motivações que levaram a conformação de um projeto político que visava proporcionar à população tanto os direitos básicos como condições sociais equânimes para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e democrática. Entretanto, também refletimos sobre a instalação e perpetuação de um modelo que se tornou autoritário, centralizador e arbitrário. Questionamos a herança, não apenas para os cubanos, mas também para uma nova geração que enxerga este paradigma interpretado pelas lentes da literatura intelectual da época e de discursos, em Fóruns Globais contemporâneos, que defendem este modelo como se ainda estivéssemos no peculiar contexto histórico da Guerra Fria. A bipolarização entre capitalismo e socialismo em Las venas reflete a lógica maniqueísta sobre a qual se estrutura toda a obra: o colonizador versus o colonizado, Estados Unidos versus América Latina. Este raciocínio evidencia e reforça a teoria da dependência, que explicava o subdesenvolvimento latino-americano como um processo de exploração levado a cabo desde a colonização no século XVI. A nova face desta espoliação estrangeira seria o imperialismo norte-americano no século XX. Sob esta perspectiva, a América Latina havia perdido porque outros (Europa e EUA) ganharam. Tal pensamento, associado à truculência das ditaduras militares nas décadas de 1960-70, levou uma grande parcela dos autores latino-americanos a abraçar a causa socialista, opondo-se firmemente aos fundamentos da sociedade opressora em que viviam. Neste contexto, os escritores constroem para si uma auto-imagem idealizada de revolucionário que luta contra o capitalismo e o imperialismo por meio da palavra, sua arma contra o despotismo e as injustiças. Influenciados pelo modelo sartreano, os intelectuais demonstram em sua escritura uma atitude de quem assume a tarefa de “falar pelo outro”, ser o porta-voz dos grupos marginalizados. Em nossa análise refletimos sobre a “representação” 322 assumida pelo intelectual, ressaltando os questionamentos propostos por Sarlo e Spivak no que diz respeito à usurpação do direito à voz das camadas populares pelos intelectuais, visto que tal atitude desqualifica o discurso dos sujeitos históricos oriundos das classes subalternizadas. Esta mudança de perspectiva sobre o papel do intelectual ou “a crise dos intelectuais” tem a ver com as transformações socioeconômicas pelas quais passou o mundo e, consequentemente, a América Latina. Na transição do século XX para o XXI, configura-se um novo cenário sócio-político no qual se observa o ocaso dos discursos totalizantes, assim como da figura do intelectual e das utopias com pretensões universalistas. A mudança de paradigma, entretanto, não ignora a importância dos intelectuais no estabelecimento e aprofundamento dos regimes democráticos na América Latina, mas ampliase como um formador de opinião que oferece uma interlocução, uma mediação da realidade social entre tantos discursos veiculados no cenário midiático do terceiro milênio. Las venas abiertas de América Latina é um ensaio que representa o pensamento de toda uma geração de intelectuais da esquerda latino-americana, forjados no calor dos anos 1960. Passados 40 anos de sua publicação, Las venas é uma obra seminal para a compreensão deste imenso território que se estende ao sul do Rio Bravo. Galeano, do alto de seus 70 anos de idade, continua a empunhar sua pena na defesa do direito à equidade, à memória, à liberdade. Se nem sempre concordamos com suas idéias, não podemos deixar de reconhecer o esforço do escritor uruguaio para constituir uma reflexão própria, incisiva e apaixonada pela América Latina. Pressupondo que a arte deriva de conjunturas históricas precisas e evolui de acordo com as próprias transformações da sociedade, após a abertura política na América Latina, o fim da Guerra Fria e o desencanto com o modelo cubano, Eduardo Galeano busca novas formas de expressão, o que não significa o abandono de sua postura anterior, marcada por um compromisso ético com a realidade latino-americana e por valores dos quais não abre mão. Se 323 não mais defende os ideais da revolução com o único caminho, como observamos em Las venas abiertas de América Latina, continua sonhando com um mundo em que prevaleçam a justiça e a liberdade, uma via mais próxima da realidade que da utopia. 324 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ________________________________________________________ ADORNO,T. W. O ensaio como forma. Trad. Flávio R. Kothe. São Paulo: Ática, 1986. AÍNSA, Fernando. Del escritor dandy y bohemio al intelectual comprometido en Uruguay. In: Actas del congreso internacional del CELCIRP. Nova York: Fordham University, 1998. ALMEIDA, Sandra Regina Goulart. Apresentando Spivak. In: SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. ALTAMIRANO, Carlos. (dir). Términos críticos de la sociología de la cultura. Buenos Aires: Paidós, 2002. ________. Historia de los intelectuales en América Latina II: Los avatares de la ciudad letrada en el siglo XX. Buenos Aires: Katz editores, 2010. 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