Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos ESTUDO sobre SECTOR ELÉCTRICO e AMBIENTE Relatório Síntese Paula Antunes Rui Santos Sandra Martinho Gonçalo Lobo Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente Faculdade de Ciências e Tecnologia Universidade Nova de Lisboa Lisboa, 2003 ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO ......................................................................................... 1 2. IMPACTES AMBIENTAIS DO SECTOR ELÉCTRICO.................................... 3 2.1. ENQUADRAMENTO ................................................................................ 3 2.2. IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DOS IMPACTES AMBIENTAIS DO SECTOR ELÉCTRICO ......... 4 2.3. EMISSÕES ATMOSFÉRICAS....................................................................... 5 2.4. MEDIDAS DE REDUÇÃO DOS IMPACTES AMBIENTAIS ......................................... 9 2.4.1. Gestão da Procura .....................................................................10 2.4.2. Gestão da Produção ...................................................................11 2.4.3. Medidas de Minimização dos Impactes Ambientais..........................12 2.4.4. Síntese das Medidas de Redução dos Impactes ..............................14 2.5. IMPACTES AMBIENTAIS DO SECTOR ELÉCTRICO PORTUGUÊS ...............................14 2.5.1. Caracterização do Sector Eléctrico Português.................................15 2.5.2. Caracterização da Produção ........................................................16 2.5.3. Impactes Ambientais da Produção de Electricidade .........................17 2.5.4. Impactes Ambientias do Transporte e Distribuição de Electricidade ...34 3. AVALIAÇÃO ECONÓMICA DOS IMPACTES AMBIENTAIS DO SECTOR ELÉCTRICO ............................................................................................... 37 3.1. 3.2. 3.3. ENQUADRAMENTO ...............................................................................37 AVALIAÇÃO ECONÓMICA DAS EXTERNALIDADES DO SECTOR ELÉCTRICO..................40 DESENVOLVIMENTOS RECENTES ...............................................................46 4. POLÍTICA DE AMBIENTE E O SECTOR ELÉCTRICO ................................ 49 4.1. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE POLÍTICA DE AMBIENTE ....................................49 4.2. INSTRUMENTOS DE POLÍTICA DE AMBIENTE ..................................................52 4.2.1. Avaliação do Desempenho dos Instrumentos .................................52 4.2.2. Tipos de Instrumentos de Política de Ambiente ..............................54 4.3. ANÁLISE DA POLÍTICA AMBIENTAL PARA OS PRINCIPAIS PROBLEMAS AMBIENTAIS ......57 4.3.1. Consumo de Recursos Não Renováveis .........................................57 4.3.2. Alterações Climáticas .................................................................61 4.3.3. Acidificação, eutrofização e ozono troposférico...............................65 4.3.4. Perda de Biodiversidade .............................................................70 4.3.5. Recursos Hídricos ......................................................................72 4.3.6. Resíduos ..................................................................................75 4.4. INSTRUMENTOS TRANSVERSAIS ................................................................77 4.4.1. Avaliação de Impactes ambientais ...............................................77 4.4.2. Prevenção e Controlo Integrados de Poluição (PCIP) .......................80 4.4.3. Sistemas de Gestão Ambiental ....................................................82 4.4.4. Participação Pública ...................................................................83 5. ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS DAS EMPRESAS DO SECTOR ELÉCTRICO ... 85 5.1. MOTIVAÇÕES PARA ADOPÇÃO DE ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS NAS EMPRESAS ............85 5.1.1. Política Ambiental – Efeitos na Competitividade das Empresas .........85 5.1.2. Mercado de Produto ...................................................................86 5.1.3. Mercados de Factores Produtivos/Recursos....................................87 5.1.4. Pressões Sociais ........................................................................88 5.2. ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS DAS EMPRESAS ...................................................88 5.3. AVALIAÇÃO E COMUNICAÇÃO DO DESEMPENHO AMBIENTAL E DA SUSTENTABILIDADE DAS EMPRESAS ........................................................................................91 5.4. CONTABILIDADE AMBIENTAL NAS EMPRESAS ..................................................92 5.4.1. Enquadramento ........................................................................92 5.4.2. Motivações e Objectivos da Contabilidade Ambiental ......................93 5.4.3. Custos e Benefícios Ambientais ...................................................96 5.5. ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS DAS EMPRESAS DO SECTOR ELÉCTRICO.......99 5.5.1. Metodologia de Análise e Resultados Obtidos .................................99 5.5.2. Aspectos Ambientais Abordados pelas Empresas .......................... 103 5.5.3. Comparação com Outras Empresas do Sector Energético .............. 104 5.5.4. Empresas do Sector Eléctrico Português...................................... 104 6. CONCLUSÕES ..................................................................................... 107 BIBLIOGRAFIA ....................................................................................... 112 ANEXO I SUMÁRIO Apresentação Os aspectos ambientais têm vindo a assumir uma relevância crescente na formulação de políticas de desenvolvimento económico e na definição das estratégias empresariais. A integração da vertente ambiental nas políticas sectoriais, nomeadamente na política energética, e mais concretamente na relativa ao sector eléctrico, reveste-se assim de grande actualidade e de um interesse crescente. O presente relatório enquadra-se no “Estudo sobre Sector Eléctrico e Ambiente”, solicitado pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) ao Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, que tem como objectivo central apresentar uma síntese e discussão dos principais aspectos relativos às interacções entre o sector eléctrico e o ambiente. O trabalho foi estruturado sob a forma de relatórios parcelares, organizados do seguinte modo: 1º Relatório - Impactes Ambientais do Sector Eléctrico; 2º Relatório - Avaliação Económica dos Impactes Ambientais do Sector Eléctrico; 3º Relatório - Política de Ambiente e o Sector Eléctrico; 4º Relatório - Estratégias Ambientais das Empresas do Sector Eléctrico. O presente documento constitui o Relatório Síntese do referido estudo, apresentando um sumário executivo dos quatro relatórios elaborados, os quais podem ser consultados na sua versão integral em http://www.erse.pt. Impactes Ambientais do Sector Eléctrico No 1º relatório apresentou-se uma síntese do contributo das actividades do sector eléctrico para os principais problemas ambientais da actualidade. Verificou-se que, de um modo geral, para as tecnologias baseadas na queima de combustíveis fósseis, os principais impactes ambientais ocorrem durante a fase de produção de electricidade, devidos sobretudo à emissão de poluentes atmosféricos. Não devem, no entanto, ser neglicenciados os efeitos associados às actividades a montante (extracção de recursos, transporte e refinação). As tecnologias de aproveitamento de fontes renováveis de energia, apesar de, em geral, originarem impactes ambientais muito menos significativos durante a produção de electricidade, também têm alguns impactes negativos importantes, devido essencialmente à natureza dos materiais utilizados (no caso da energia solar) e aos danos ecológicos associados (casos da hidroelectricidade e energia eólica). Os aspectos ambientais também devem ser considerados para as actividades de transporte e distribuição de electricidade, nomeadamente devido à natureza e perigosidade de alguns materiais utilizados (e.g. PCB’s, SF6), à fragmentação de habitats provocada pela instalação de linhas de transporte e distribuição e aos eventuais efeitos na saúde humana provocados pelos campos electromagnéticos. Identificaram-se um conjunto de medidas que podem ser adoptadas para minimizar os impactes ambientais da electricidade, desde as medidas orientadas para a redução dos consumos (gestão da procura), passando pela escolha das formas de produção (gestão da produção) e considerando, finalmente, as medidas para minimização dos impactes gerados (e.g. medidas de controlo de poluição, gestão de resíduos, recuperação de habitats). Os impactes ambientais do sector eléctrico português são significativos, dada a natureza e dimensão das actividades associadas. Por este motivo as empresas do sector têm sido objecto de fortes pressões, nomeadamente regulamentares, por parte das entidades públicas com responsabilidade no ambiente, tendo, em consequência, vindo a realizar esforços significativos no sentido de minimizar os efeitos ambientais das suas actividades. O controlo das emissões de poluentes atmosféricos (sobretudo SO2, NOx, partículas e, mais recentemente CO2) tem sido um dos aspectos fundamentais para o sector eléctrico português. associados à Outros factores relevantes têm sido os impactes ambientais hidroelectricidade, devidos ao alagamento e destruição de ecossistemas e zonas de valor patrimonial, a gestão de resíduos e a localização de corredores destinados à instalação de linhas de transporte de energia eléctrica. O sector eléctrico português tem desenvolvido esforços importantes para reduzir as emissões de poluentes atmosféricos, nomeadamente através da introdução do gás natural, da redução do teor de enxofre dos combustíveis utilizados e da instalação de queimadores de baixo NOx e de precipitadores electrostáticos. Apesar disso verifica-se que, para o caso do dióxido de carbono e dos óxidos de azoto, os compromissos ambientais para o sector podem vir a ser violados em anos de baixa produtibilidade hidroeléctrica. Da análise realizada ressalta assim a premência de serem desenvolvidos esforços adicionais no controlo dos impactes ambientais do sector eléctrico, nomeadamente no controlo dos consumos (através de estratégias mais agressivas de DSM), no incentivo às fontes renováveis e na utilização de combustíveis mais limpos. Avaliação Económica dos Impactes Ambientais do Sector Eléctrico Os estudos de avaliação económica das externalidades ambientais do sector eléctrico, analisados no 2º Relatório, apresentam características diferenciadas no que respeita ao enquadramento político, âmbito de aplicação, pressupostos assumidos, abordagem conceptual e metodológica, categorização dos custos ambientais e nível de detalhe da análise. Ficou evidente que esta variabilidade torna inviável uma comparação directa dos resultados obtidos, bem como uma extrapolação automática para outros casos de estudo. Por exemplo, reconciliando as análises realizadas em três estudos distintos1, Krupnick e Burtraw (1997) obtiveram um intervalo de variação para os danos da poluição atmosférica na saúde humana, no ciclo do carvão, entre 1.57 e 5.90*103 USD95/kWh (0.23 e 0.90 PTE95/kWh). Embora exista um claro consenso em relação à abordagem geral, os valores ainda apresentam variações significativas. De facto, existem aspectos irreconciliáveis e que justificam as diferenças observadas entre as estimativas de valor. Em termos gerais, torna-se evidente a ausência de consenso em relação a aspectos de modelação de base fundamentais, como sejam os relativos à qualidade do ar, bem como em relação à análise dos comportamentos e preferências individuais e a sua transferibilidade. Existem diversas fontes de incerteza associadas aos estudos de avaliação económica: incerteza estatística em torno dos valores médios estimados em cada “pathway”, incerteza qualitativa acerca dos modelos seleccionados para obter as estimativas, e incerteza acerca dos “pathways” negligenciados no processo de avaliação, como é o caso das emissão atmosféricas aquecimento global. Por exemplo, ambos os estudos norte-americanos não integram na sua análise o efeito de aquecimento global, ao contrário do projecto Externe, o que justifica parte da variação observada. Apesar das dificuldades apontadas, os resultados obtidos com a aplicação de métodos de avaliação dos custos externos ambientais têm contribuido para a 1 Os estudos de Lee et al (1995) e RCG/Hagler/Bailly (1995), ambos norte-americanos, e o projecto europeu ExternE (ExternE - Implementação Nacional, Alemanha, 1995). análise da importância relativa dos danos associados aos diferentes ciclos de combustível, bem como da sua relação com os custos de produção e preço de venda da electricidade. Estes aspectos podem ser relevantes para suportar a política de incentivos e apoiar as decisões de planeamento estatégico. Uma breve leitura dos resultados obtidos pelo projecto ExternE permite constatar alguns aspectos interessantes. Em termos gerais, no que respeita aos combustíveis fósseis, não é possível estabelecer uma ordenação de custos externos para os ciclos do carvão e do fuelóleo, com base nos resultados obtidos para os três países em que a análise comparativa é possível (Reino Unido, Alemanha, França). Por exemplo, no Reino Unido os custos externos do ciclo do carvão superam ligeiramente os do fuelóleo, enquanto em França e, sobretudo, na Alemanha são inferiores. Ambos os ciclos causam maiores impactes que o do gás natural. Por outro lado, observa-se que os custos externos do ciclo da biomassa são relativamente elevados, em resultado da dimensão dos danos associados às emissões atmosféricas, à erosão do solo e a outros efeitos decorrentes do processo de florestação. A sua relação com os custos externos associados aos combustíveis fósseis é penalizada quando não são contabilizados os custos externos associados ao aquecimento global. Se estes fossem contabilizados, os custos externos da biomassa seriam combustíveis relativamente fósseis, tal como inferiores se aos verifica resultantes nos da resultados utilização do ExternE de – Implementação Nacional, nomeadamente o caso de estudo português (CE, 2001; Martins et al, 1999a). Existem fortes evidências de que a transferência directa de estimativas de valor (em $/ton ou $/kWh) entre localizações geográficas distintas é inadequada, quer no que se refere aos danos ambientais, que variam, por exemplo, com a geografia, meteorologia e receptores afectados, quer no que se refere às externalidades não ambientais (ex. emprego, fiscalidade), que variam com a especificidade da economia local. A única excepção respeita aos danos associados ao aquecimento global, uma vez que estes não dependem da localização geográfica das fontes emissoras (embora os custos de cumprimento sejam diferenciados no espaço). Ao longo das últimas duas décadas tem-se registado uma evolução positiva dos estudos de avaliação económica, em termos conceptuais, metodológicos e de rigor e, em consequência, da consistência e fiabilidade das estimativas de custo externo obtidas. Contudo, a maioria dos autores, mesmo dos estudos mais recentes, considera que as estimativas de valor económico obtidas não devem ser ainda interpretadas como resultados rigorosos, mas antes como valores indicativos da ordem de grandeza dos impactes do sector eléctrico. Reconhecem, assim, a necessidade de desenvolvimento de investigação adicional, nomeadamente sobre os impactes no aquecimento global e na saúde humana. O desenvolvimento de estudos rigorosos de avaliação dos custos externos ambientais deve constituir uma prioridade, na medida em que podem constituir uma ferramenta importante no apoio à política do sector eléctrico, nomeadamente: Na concepção de instrumentos para corrigir/mitigar as distorções dos mercados energéticos; Na definição dos montantes compensatórios a atribuir por danos ambientais; Na orientação à definição geral de regulamentação para proteger a saúde e assegurar a sustentabilidade; No apoio ao processo de planeamento de expansão/substituição de capacidade instalada de produção. O trabalho desenvolvido tem contribuído pontualmente para alguma(s) destas componentes do processo de decisão, disponibilizando uma relação de ordens de grandeza para alguns danos ambientais associados ao sector eléctrico e dando indicações da relação entre custos privados de produção e custos externos ambientais. Contudo, crê-se que existe ainda um caminho a percorrer, em termos de investigação e de aperfeiçoamento dos trabalhos aplicados, para que os resultados de estudos de avaliação económica dos custos externos sejam consensualmente aceites para suportar as diversas fases do processo de decisão política do sector eléctrico. Política de Ambiente e o Sector Eléctrico No 3º Relatório apresentaram-se os principais aspectos da política de ambiente, focando em particular aqueles que podem ter maiores implicações para o sector eléctrico. Da síntese sobre instrumentos de política de ambiente apresentada, conclui-se que existe uma enorme diversidade de instrumentos, que podem ser aplicados pelas autoridades ambientais para influenciar o comportamento dos agentes, dependendo a escolha do instrumento a aplicar em cada caso das especificidades do problema ambiental em análise, do contexto socio-económico e dos objectivos que se pretendem privilegiar com a política (eficácia ambiental, eficiência económica, equidade,...). Cada vez mais é reconhecida a necessidade de adoptar “pacotes de instrumentos” que permitam atingir diversos objectivos de forma integrada, ao invés de se implementarem instrumentos isolados muitas vezes dando incentivos de sinal contrário. Constata-se que as abordagens regulamentares têm sido as mais adoptadas pelas autoridades ambientais, nomeadamente ao nível comunitário e nacional, correspondendo a sua aplicação a estágios iniciais da política de ambiente, em que se pretende sobretudo garantir o cumprimento de objectivos ambientais. Recentemente existe uma tendência para favorecer a aplicação de mecanismos de mercado, já consagrada desde os anos setenta por organismos internacionais como a OCDE, sobretudo através do estabelecimento de taxas e subsídios ambientais (no caso da Europa) e de mercados de direitos de emissão (sobretudo nos EUA), dadas as vantagens que lhes estão associadas. O crescente reconhecimento do papel dos instrumentos de informação e de actuação voluntária, como complemento das restantes abordagens, tem sido associado a uma generalização da sua aplicação, sendo a adesão dos agentes a esquemas voluntários, cada vez maior. Da análise da evolução da política ambiental a nível internacional, comunitário e nacional, para os principais problemas ambientais (consumo de recursos não renováveis, alterações climáticas, acidificação, eutrofização e ozono trosposférico, perda de biodiversidade, recursos hídricos, resíduos), constata-se que a política ambiental é cada vez mais complexa e restritiva, sendo as responsabilidades dos agentes (designadamente do sector eléctrico) cada vez maiores. Verifica-se assim uma tendência para a exigência de uma maior eficiência na utilização de recursos, para a adopção de compromissos exigentes de redução de emissões, para a imposição de tectos (nacionais e sectoriais) e valores limite de emissão de poluentes cada vez mais restritivos, e para a existência de maiores condicionantes à localização de actividades em zonas ecologicamente sensíveis. Estas maiores exigências traduzir-se-ão forçosamente por um maior esforço de controlo ambiental para o sector eléctrico, dado o seu relevante contributo para os problemas ambientais. A maior facilidade associada à intervenção neste sector, quando comparada com outros de natureza mais “difusa”, tais como os transportes, reforça esta conclusão. Por sua vez, a tendência já referida para o favorecimento de abordagens de mercado e de actuação voluntária, implica que nestes casos a actuação em termos ambientais deixa de ser imposta aos agentes por uma autoridade ambiental, passando estes a serem responsáveis, pela definição do seu curso de acção, face às regras estabelecidas. Em síntese, considera-se que as crescentes exigências ambientais com que o sector eléctrico se depara, implicam, por um lado, um esforço cada vez maior no controlo dos impactes ambientais, com importantes custos para o sector, podendo, no entanto, ser encaradas como uma oportunidade para o sector se adaptar e inovar, procurando novas soluções, mais eficientes em termos ambientais e económicos. Estratégias Ambientais das Empresas do Sector Eléctrico As crescentes exigências da política de ambiente, cada vez mais restritiva, complexa e baseada na utilização de abordagens de incentivo e de mercado, implicam um acréscimo de responsabilidades para os agentes (designadamente do sector eléctrico). Paralelamente, existe um conjunto alargado de outros factores, relacionados com os próprios mercados de produtos, com o fornecimento de factores produtivos, com o funcionamento do sector financeiro, com os consumidores e com a sociedade em geral, que exercem pressões sobre as empresas, motivando-as para a adopção de estratégias ambientais próprias. Embora o cumprimento destes requisitos ambientais se traduza, frequentemente, em custos acrescidos para as empresas, que diminuem a sua competitividade, também existem casos em que as pressões ambientais são encaradas pelas empresas como um incentivo à inovação, que lhes permite aumentar a sua produtividade de recursos e/ou encontrar novas oportunidades de negócio, aumentando assim a sua competitividade. A atitude das empresas face a estes desafios ambientais tem vindo a evoluir desde a década de 70, passando-se de uma fase inicial, em que as empresas não estavam minimamente preparadas, para uma fase em que se preocupavam com o cumprimento da legislação. Posteriormente (a partir da década de 80) as empresas começaram a aperceber-se das oportunidades de reduzir custos e/ou aumentar os ganhos associados aos aspectos ambientais, adoptando assim uma estratégia de prevenção de riscos ambientais e, num estágio mais avançado, de eco-eficiência. Actualmente, as empresas mais avançadas procuram integrar as dimensões económica, ambiental e social em todas as suas actividades, alcançando assim um estágio de sustentabilidade. A evolução das estratégias ambientais das empresas, e das exigências dos diferentes stakeholders, implicou um aumento das suas necessidades e responsabilidades de transparência e de divulgação de informação. Neste contexto, têm vindo a ser desenvolvidas ferramentas de comunicação e avaliação do desempenho ambiental e também de integração dos custos ambientais na contabilidade das empresas, essenciais para uma adequada gestão dos aspectos ambientais. Da análise efectuada à informação existente sobre as estratégias ambientais das empresas do sector eléctrico, a nível mundial, constatou-se que estas, de um modo geral têm vindo a acompanhar a evolução geral que se apresentou acima. A maioria das empresas encontra-se no estágio de prevenção de riscos ambientais, preocupando-se sobretudo com o seu desempenho ambiental e com a implementação de sistemas de gestão do ambiente. Saliente-se, no entanto, que já existe um número significativo de empresas que referem preocupações de sustentabilidade nos seus relatórios ambientais, encarando o ambiente, a economia e a sociedade como três pilares fundamentais da sua estratégia de actuação. As empresas do sector eléctrico português também têm vindo a acompanhar a evolução das restantes, sem contudo se poderem considerar líderes neste domínio. Constata-se que as empresas portuguesas já têm uma preocupação relevante com o seu desempenho ambiental, procurando sobretudo demonstrar o cumprimento da legislação. Pode considerar-se que três delas (EDP, Tejo Energia e Turbogás) estão já na fase de prevenção de riscos ambientais, tendo as suas instalações sistemas de gestão ambiental certificados (ou em vias de certificação). Contudo, as preocupações de eco-eficiência e de sustentabilidade – integração das vertentes económica, ambiental e social – parecem ainda estar ausentes das estratégias ambientais das empresas do sector eléctrico português. Neste contexto, parece existir um conjunto de oportunidades ainda não exploradas pelas empresas do sector eléctrico português, nomeadamente ao nível da produtividade de recursos (eco-eficência) da diferenciação ambiental de produtos (potenciada com a liberalização dos mercados), do investimento em capital natural, como forma de compensar os impactes gerados, e do desenvolvimento de novas formas de intervenção no domínio social. O sector eléctrico português encontra-se numa fase crucial de desenvolvimento, com a futura implementação do Mercado Ibérico de Electricidade (MIBEL). Os efeitos destas alterações nas estratégias das empresas e, consequentemente, no desempenho ambiental do sector eléctrico português são difíceis de antecipar. Se, por um lado, a passagem para um regime concorrencial pode conduzir a uma limitação das margens de actuação das empresas, levando, numa perspectiva de curto prazo, à necessidade de reduzir custos e investimentos ambientais, também é certo que o bom desempenho ambiental é hoje em dia encarado pelas empresas como um factor de competitividade, sobretudo quando associado à implementação de estratégias eco-eficientes e sustentáveis. Além disso, as novas regras vão implicar uma crescente necessidade de antecipação de riscos para as empresas, incluindo os de natureza ambiental, o que só é possível com a adopção de estratégias ambientais proactivas. Esta discussão não pode ser dissociada da análise da evolução da política ambiental e das suas implicações para o sector eléctrico. Tal como se referiu neste trabalho, as actividades do sector eléctrico têm implicações em quase todos os grandes problemas ambientais da actualidade, apontando a evolução da política de ambiente a nível internacional, e sobretudo europeu, para uma crescente exigência e responsabilização dos agentes, à qual as empresas do sector eléctrico não podem deixar de dar resposta. Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente - DCEA/FCT/UNL 1. INTRODUÇÃO Os aspectos ambientais têm vindo a assumir uma relevância crescente na formulação de políticas de desenvolvimento económico e na definição das estratégias empresariais. A integração da vertente ambiental nas políticas sectoriais, nomeadamente na política energética, e mais concretamente na relativa ao sector eléctrico, reveste-se assim de grande actualidade e de um interesse crescente. O presente relatório enquadra-se no “Estudo sobre Sector Eléctrico e Ambiente”, solicitado pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) ao Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, que tem como objectivo central apresentar uma síntese e discussão dos principais aspectos relativos às interacções entre o sector eléctrico e o ambiente. O trabalho foi estruturado sob a forma de relatórios parcelares, organizados do seguinte modo: 1º Relatório - Impactes Ambientais do Sector Eléctrico; 2º Relatório - Avaliação Económica dos Impactes Ambientais do Sector Eléctrico; 3º Relatório - Política de Ambiente e o Sector Eléctrico; 4º Relatório - Estratégias Ambientais das Empresas do Sector Eléctrico. O presente documento constitui o Relatório Síntese do referido estudo, apresentando um sumário executivo dos quatro relatórios elaborados, os quais podem ser consultados na sua versão integral em http://www.erse.pt. No 1º Relatório, “Impactes Ambientais do Sector Eléctrico” (Antunes et al, 2000), apresenta-se uma avaliação dos principais impactes ambientais associados ao sector eléctrico, com particular ênfase nas emissões atmosféricas, bem como uma descrição das principais medidas de controlo que podem ser adoptadas. Apresenta-se também uma caracterização ambiental do sector eléctrico português, por forma a avaliar a evolução do seu desempenho ambiental nos últimos anos. O 2º Relatório, “Avaliação Económica dos Impactes Ambientais do Sector Eléctrico” (Santos et al, 2001), aborda os aspectos relacionados com a avaliação económica das externalidades ambientais do sector eléctrico. Este relatório incide, essencialmente, na apresentação e discussão dos resultados obtidos em estudos de avaliação económica dos 1 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL impactes ambientais disponíveis na literatura. São, nomeadamente, descritos e analisados os resultados do projecto europeu ExternE, que visou o desenvolvimento e implementação de uma metodologia geral para a avaliação dos impactes das diferentes tecnologias de produção de electricidade nos países da União Europeia e Noruega. No 3º Relatório, “Política de Ambiente e o Sector Eléctrico” (Antunes et al, 2001), abordam-se os aspectos relacionados com a formulação e desenvolvimento da política de ambiente e sua aplicação ao sector eléctrico, apresentando-se uma breve síntese dos princípios fundamentais orientadores da política ambiental e dos aspectos teóricos mais relevantes relacionados com a aplicação de instrumentos de política de ambiente. Apresenta-se a política adoptada a nível internacional, comunitário e nacional para os problemas ambientais mais relacionados com o sector eléctrico. Finalmente, no 4º Relatório do referido estudo, “Estratégias Ambientais das Empresas do Sector Eléctrico” (Antunes et al, 2003), são abordados os aspectos relacionados com as respostas das empresas face aos novos desafios decorrentes da legislação e de outros requisitos ambientais, com particular enfoque nas empresas do sector eléctrico. 2 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente - DCEA/FCT/UNL 2. IMPACTES AMBIENTAIS DO SECTOR ELÉCTRICO 2.1. Enquadramento A análise integrada energia-ambiente é um campo recente e em evolução, sobretudo quando comparado com a análise energética tradicional. Na componente ambiental as incertezas são muito elevadas, devido à complexidade das teias de relações nos sistemas naturais, existindo poucos métodos universalmente aceites e informação precisa. A análise dos impactes ambientais associados à electricidade reveste-se de algumas dificuldades, nomeadamente: 1. A consideração de cargas e impactes que são difíceis de quantificar ou generalizar (por exemplo impactes ecológicos, degradação de solos e impactes visuais); 2. A existência de incertezas no estabelecimento da relação entre as cargas ambientais e os danos nos ecossistemas; 3. A dificuldade de comparar impactes à partida incomensuráveis (por exemplo contrabalançar saúde humana com danos nos ecossistemas e custos e benefícios ambientais). Na avaliação dos impactes ambientais do sector eléctrico português procurou-se não restringir a análise dos impactes áqueles que são mais fáceis de quantificar (e.g. emissões atmosféricas), em detrimento de outros mais dependentes de factores específicos do local e não lineares (e.g. impactes nos ecossistemas). Na análise dos impactes ambientais do sector eléctrico abordaram-se os impactes originados durante todo o ciclo de vida de uma determinada tecnologia de produção de electricidade, bem como os associados ao transporte e distribuição de electricidade. Adoptou-se como base de análise o modelo conceptual subjacente ao conceito de gestão ambiental integrada, que preconiza uma abordagem por problema ambiental (e.g. alterações climáticas, acidificação), ao invés do modelo adoptado na política de ambiente tradicional assente numa abordagem por meios (ar, água, solo). Os impactes do sector eléctrico são assim analisados em termos do seu contributo para os diferentes problemas ambientais, designadamente: - Alterações climáticas - Acidificação e ozono troposférico - Deplecção da camada de ozono - Escassez de recursos hídricos/poluição de águas superficiais e subterrâneas - Perda de biodiversidade 3 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL - Resíduos sólidos e/ou perigosos - Degradação do solo - Degradação de zonas costeiras e ecossistemas marinhos 2.2. Identificação e Análise dos Impactes Ambientais do Sector Eléctrico Nesta secção é apresentada uma avaliação sumária dos principais impactes ambientais associados ao sector eléctrico nas suas diferentes actividades: produção, transporte e distribuição. Consideraram-se as seguintes formas de produção: A. Energias não renováveis Termoeléctrica (carvão, fuelóleo, gás natural) Nuclear Incineração de resíduos com aproveitamento energético B. Renováveis Hidroeléctrica (mini-hídricas e grandes aproveitamentos) Solar (fotovoltaica e térmica eléctrica) Eólica Biomassa Geotérmica Na Tabela 1 apresenta-se uma síntese dos principais impactes ambientais associados ao sector eléctrico. Por forma a poder comparar os impactes associados a cada forma de produção de energia eléctrica, foi ainda elaborada uma matriz de avaliação de impactes (Tabela 2), que contém a classificação dos impactes ambientais de acordo com a sua significância. A escala de impactes utilizada foi a seguinte: Sem significado Pouco significativo Significativo Muito significativo Na elaboração desta matriz de avaliação foram considerados os impactes por unidade de energia produzida, considerando também a vida útil dos projectos em questão. A classificação dos impactes, sobretudo na actividade de produção, foi efectuada considerando o ciclo de vida completo de cada forma de energia, desde a extracção de matérias primais, passando pelo seu processamento/ refinação e transporte, até à actividade de produção propriamente dita. 4 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente - DCEA/FCT/UNL Note-se que os impactes ambientais identificados referem-se apenas aos impactes directos. Desta forma, não são considerados os impactes indirectos (e.g. a emissão de gases de efeito de estufa contribui para as alterações climáticas que, por sua vez, contribuem para a perda de biodiversidade). 2.3. Emissões Atmosféricas As emissões atmosféricas são um dos impactes ambientais mais significativos associados ao sector energético em geral, e, em particular, ao sector eléctrico. Dada a impossibilidade prática de medir as emissões individuais de todas as fontes, num dado horizonte temporal, recorre-se frequentemente à elaboração de estimativas recorrendo à aplicação de factores de emissão. Os factores de emissão são geralmente derivados de quantidades medidas ou são estimados com base na composição dos combustíveis ou como se processa a sua queima. Este é o caso das emissões de dióxido de carbono, óxidos de enxofre e metais como o chumbo. As principais fontes de informação sobre factores de emissão são a base de dados desenvolvida e mantida pela US-EPA (1995), as directrizes metodológicas para elaboração de inventários de emissões desenvolvidas conjuntamente pelo programa EMEP (Emissions Monitoring and Evaluation Program), e no âmbito do programa CORINAIR, (EMEP/CORINAIR, 1996) e as directrizes desenvolvidas pelo IPCC para elaboração de inventários nacionais de gases de efeito de estufa (IPCC, 1996). A Organização Mundial de Saúde também produziu um compêndio de factores de emissão para o ar e água (WHO, 1982). Na Figura 1 apresenta-se uma comparação das emissões de dióxido de carbono, dióxido de enxofre e óxidos de azoto no ciclo de vida das energias renováveis com as do ciclo de vida da geração convencional de electricidade no Reino Unido (carvão, fuelóleo, gás natural e gasóleo). Da análise da referida figura ressaltam as vantagens das energias renováveis relativamente às convencionais, no que diz respeito à emissão de poluentes atmosféricos, mesmo considerando os elevados consumos energéticos associados ao fabrico de certos equipamentos, como é o caso das células solares fotovoltaicas. 5 Tabela 1 – Síntese dos impactes ambientais do sector eléctrico Categorias de impacte Termoeléctrica Alterações Climáticas A extracção, refinação e sobretudo a queima de combustíveis fósseis geram emissões de GEE’s A refinação e sobretudo a queima de combustíveis fósseis geram emissões de SO2 e NOx As actividades de extracção, transporte e queima de combustíveis fósseis geram emissão de partículas Acidificação Poluição Atmosférica Local Ozono Troposférico Nuclear Incineração de resíduos Miní-hidricas A incineração gera emissões de SO2 e NOx, para além de outros compostos acidificantes As instalações de incineração emitem metais pesados e compostos orgânicos tais como dioxinas Os óxidos de azoto são percursores do ozono troposférico Os óxidos de azoto são percursores do ozono troposférico Fluxos Hidrológicos Poluição Localizada de Águas Superficiais e Subterrâneas Perda de Biodiversidade Grandes Aproveitamentos A incineração de resíduos gera emissões de CO2 Alteração do regime dos rios; redução dos caudais Escorrências de poluentes nas actividades Poluição térmica e radioactiva das de extracção transporte e refinação; águas de refrigeração águas de refrigeração As emissões radioactivas podem afectar organismos vivos Degradação do Solo A extracção de carvão e o armazenamento de combustíveis causam degradação e contaminação do solo Degradação de Zonas Costeiras e O transporte de combustíveis fósseis Ecossistemas Marinhos provoca contaminação de ecossistemas marinhos Depleção de Recursos Abióticos Os combustíveis fósseis são recursos abióticos não renováveis Resíduos Sólidos e Perigosos A refinação e queima de combustíveis fósseis gera cinzas e escórias Saúde Humana Emissões de poluentes atmosféricos têm efeitos na saúde humana Acidentes Graves Perigo de explosão e incêndio em todas as fases Poluição térmica; efluentes de processo e do sistema de tratamento de gases A extracção de combustíveis nucleares provoca degradação do solo Os combustíveis nucleares são recursos abióticos não renováveis Produção de resíduos radioactivos durante a operação Radiações emitidas têm efeitos na saúde humana Um acidente numa central nuclear pode ter consequências extremamente graves e duradouras. Alteração do regime dos rios; redução de caudais (sobretudo nas albufeiras) Degradação da qualidade da água na albufeira (eutrofização) (menor risco nos fios-de-água) Efeitos negativos sobretudo nas Efeitos negativos nas populações de populações de peixes; impactes peixes; submersão de ecossistemas cumulativos terrestres Inundação de áreas que podem ser significativas; risco de salinização dos solos (menor nos fios-de-água) Redução dos sedimentos e nutrientes transportados aumenta erosão e diminui produtividade A incineração gera cinzas e escórias Emissões de poluentes atmosféricos têm efeitos na saúde humana Aumento da sismicidade; probabilidade de ocorrência de acidentes (sobretudo nas barragens) Riscos Químicos Intrusão Visual As estruturas associadas geram impactes As estruturas associadas geram visuais impactes visuais As estruturas associadas geram impactes visuais Ruído Actividades associadas provocam aumento dos níveis de ruído Actividades associadas provocam aumento dos níveis de ruído Impactes socio-económicos Alteração visual em áreas não perturbadas Intrusão visual das estruturas (e.g. barragem); efeito positivo associado ao espelho de água Submersão de núcleos populacionais, valores patrimoniais, estruturas. Novas oportunidades de uso (e.g. recreio) Tabela 1 – Síntese dos impactes ambientais do sector eléctrico (cont.) Categorias de impacte Alterações Climáticas Solar Fotovoltaica Solar Térmica Eléctrica Acidificação Poluição Atmosférica Local Fluxos Hidrológicos/ Escassez de Água Poluição Localizada de Águas Superficiais e Subterrâneas Perda de Biodiversidade Degradação do Solo Extensas áreas requeridas, mas admitindo alguns usos Biomassa Emissões de GEE’s, que no entanto não são contabilizadas para aquecimento global Emissões de SO2 e NOx na queima Emissões de partículas A produção das células é um processo intensivo em energia Ozono Troposférico Eólica Emissões de NOx A remoção de vegetação pode provocar alterações no escoamento e infiltração Lixiviação de agroquímicos Descarga acidental de na produção de biomassa fluídos de transporte de pode causar contaminação calor pode causar poluição e eutrofização Destruição de vegetação Risco de colisão de aves para culturas de energia e com pás das turbinas. remoção de resíduos Perturbação de áreas florestais. remotas Extensas áreas requeridas, Extensas áreas Degradação do solo por admitindo alguns usos requeridas, mas não culturas de energia; risco completamente ocupadas de erosão Resíduos Sólidos e Perigosos Algumas células utilizam materiais escassos Geração de resíduos perigosos na produção e desmantelamento das células Materiais requeridos para fabrico das células Resíduos potencialmente perigosos produzidos no desmantelamento Libertação de GEE’s para a Podem ocorrer eventuais fugas de SF6 atmosfera (CO2 e CH4) Emissões de gás sulfídrico e amónia Risco de descida dos níveis freáticos Fluídos hidrotérmicos podem contaminar recursos superfficiais e subterrâneos Derrrames acidentais de óleos (eventualmente com PCB’s) e substâncias tóxicas Linhas aéreas provocam fragmentação de habitats; risco de colisão de aves Ocupação de solo para as instalações Implantação de cabos subterrâneos Cinzas resultantes da combustão devem ter destino adequado Libertação para a atmosfera de compostos nocivos Aumento do risco de desabamento, risco de explosão e sismicidade Fluídos de transporte de calor podem apresentar alguma perigosidade Saúde Humana Acidentes Graves Riscos Químicos Os materiais utilizados têm alguma perigosidade Intrusão Visual Os paineis solares constituem uma estrutura estranha na paisagem Ruído Transporte e Distribuição Riscos para fauna e flora marinha quando os fluídos são descarregados para o mar Degradação de Zonas Costeiras e Ecossistemas Marinhos Depleção de Recursos Abióticos Geotérmica Fluídos de transporte de calor podem apresentar alguma perigosidade Paineis solares e instalação causam impactes visuais significativos Culturas de energia têm As turbinas constituem um impactes importantes na elemento estranho na paisagem paisagem O ruído provocado pela operação pode ser um factor limitante da implementação Efeitos na saúde de campos electromagnéticos Estruturas associadas (postes, cabos, estações) causam intrusão visual Níveis de ruído relevantes na fase de operação Efeito de coroa Tabela 2 – Avaliação dos impactes ambientais do sector eléctrico (ao longo do ciclo de vida) Produção IMPACTES AMBIENTAIS Alterações Climáticas Acidificação Poluição Atmosférica Local Ozono Troposférico Fluxos Hidrológicos Poluição Localizada de Águas Superficiais e Subterrâneas Perda de Biodiversidade Degradação do Solo Degradação de Zonas Costeiras e Ecossistemas Marinhos Depleção de Recursos Abióticos Resíduos Sólidos e Perigosos Saúde Humana Acidentes Graves Riscos Químicos Intrusão Visual Ruído Impactes Socio-económicos Termoeléctrica Nuclear Incineração de RSU Miníhidricas Grandes aproveitamentos Fio de água Albufeiras Solar Fotovoltaica Térmica Eléctrica Eólica Biomassa Geotérmica Transporte e Distribuição Emissões de CO2 (g/kWh) Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 1200 1000 800 600 400 Emissões de SO2 (g/kWh) Gasóleo Gás natural Fuelóleo (melhor prática) Carvão Geotérmica Eólica eléctrica Solar térmica Solar fotovoltaica Grandes Biomassa 0 hidroeléctricas Mini-hídricas 200 16 14 12 10 8 6 4 Fuelóleo Gás natural Gasóleo Fuelóleo Gás natural Gasóleo Solar térmica eléctrica Solar térmica eléctrica Carvão (melhor prática) Solar fotovoltaica Solar fotovoltaica Carvão (melhor prática) Grandes hidroeléctricas Grandes hidroeléctricas Geotérmica Mini-hídricas Mini-hídricas Emissões de NOx (g/kWh) 0 Eólica Biomassa Biomassa 2 14 12 10 8 6 4 Geotérmica 0 Eólica 2 Figura 1 – Comparação das emissões de CO2, SO2 e NOx ao longo do ciclo de vida de diferentes formas de produção de electricidade (Fonte: baseado em dados de OECD/IEA, 1998) 2.4. Medidas de Redução dos Impactes Ambientais A redução dos impactes ambientais associados ao sector eléctrico pode, de um modo geral, ser realizada através de intervenções nos diversos pontos da cadeia causal que conduz aos diferentes problemas ambientais. As medidas de redução dos impactes ambientais foram agrupadas em três grandes categorias, consoante o seu ponto de actuação no sistema: 9 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 1. Medidas de gestão da procura, que visam essencialmente reduzir e controlar o consumo de energia, contribuindo assim para minimizar simultaneamente todos os impactes ambientais associados às diversas fases do ciclo de vida da electricidade. 2. Medidas de gestão da produção, que actuam através da escolha de formas de produção de electricidade, para satisfazer uma determinada procura, com menores impactes ambientais, tais como a utilização de energias renováveis e a escolha de combustíveis “limpos”. 3. Medidas de minimização dos impactes ambientais, que actuam através da introdução nos processos de tecnologias ou dispositivos que permitam reduzir as pressões ambientais causadas. Exemplos deste tipo de medidas são todas as tecnologias de controlo de emissões atmosféricas e as medidas de tratamento de resíduos e efluentes. As medidas de gestão da procura são, à partida, as mais eficazes para resolver os problemas ambientais associados à electricidade, uma vez que se dirigem para as suas causas últimas, permitindo não só poupar recursos escassos como evitar a geração de emissões e resíduos. A actuação a este nível tem ainda a vantagem de contribuir simultaneamente para a resolução de vários problemas ambientais. Por sua vez, dentro do grupo de medidas de minimização dos impactes ambientais, as medidas baseadas na prevenção da poluição são, de um modo geral, mais desejáveis (normalmente têm uma maior eficácia ambiental com menores custos) do que as baseadas na remoção da poluição gerada, sendo estas últimas, por sua vez, preferíveis às medidas de recuperação/restauração ambiental. Na maior parte dos casos não existe uma medida considerada óptima, ou aplicável em todas as situações, pelo que um mais efectivo controlo dos problemas ambientais passa geralmente pela adopção simultânea de um conjunto de medidas actuando nos diversos pontos do sistema. 2.4.1. Gestão da Procura A gestão da procura (Demand Side Management – DSM) consiste no planeamento, implementação e monitorização de actividades destinadas a encorajar os consumidores a modificarem os seus níveis e padrões de consumo de electricidade. A DSM pode contribuir para atenuar todos os impactes ambientais negativos associados ao sistema eléctrico, na medida em que actua na causa última dos problemas ambientais: o consumo de electricidade. 10 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL As estratégias de DSM incluem iniciativas destinadas a modificar a forma do diagrama de cargas – gestão de carga – (por exemplo reduzindo o pico do diagrama de carga) e/ou a área total sob o diagrama de carga (o integral da curva corresponde ao consumo total de energia) – eficiência energética. Gestão da Carga - Os programas de gestão da carga incluem medidas que visam aproveitar melhor a capacidade instalada, ou diferir ou eliminar a necessidade de aumentar a capacidade. Assim, o principal objectivo da gestão da carga é modificar o perfil de carga, nomeadamente através da redução da procura nos períodos de ponta. A gestão da carga pode ser implementada através de modificações na estrutura tarifária, de controlo directo da carga, ou da introdução de tecnologias específicas. Eficiência Energética - Os programas de eficiência energética visam reduzir a energia consumida por sistemas e equipamentos específicos na utilização final, sem reduzir a qualidade dos serviços energéticos prestados. Estas reduções são geralmente alcançadas pela instalação de equipamentos mais eficientes para produzir iguais níveis de serviços energéticos com menor consumo. A eficiência energética pode contribuir para reduzir a ligação entre a procura energética e o crescimento económico e adiar a necessidade de aumentar a capacidade, contribuindo simultaneamente para a poupança de combustível. As políticas e medidas de eficiência energética são cada vez mais reconhecidas como uma peça chave de sistemas energéticos sustentáveis. Os instrumentos para promover a eficiência energética incluem a adopção de regulamentos e normas de construção, a adopção de requisitos de eficiência energética para aparelhos e equipamentos domésticos, ou a implementação de esquemas de rotulagem de produtos. Também existem programas de instalação directa, frequentemente implementados através de contratos com empresas de serviços energéticos (Energy Service Companies – ESCO), que fornecem medidas de conservação de energia. 2.4.2. Gestão da Produção As medidas de gestão da produção visam procurar satisfazer a procura de electricidade recorrendo a fontes/tecnologias que gerem à partida menores impactes ambientais. As medidas de gestão da produção podem basear-se em três estratégias distintas: Aumentar o contributo de fontes renováveis para a produção de energia, que evitam a deplecção de recursos não renováveis, como os combustíveis fósseis, e permitem reduzir a emissão de poluentes atmosféricos. 11 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Aumentar a eficiência dos processos de conversão de energia (nomeadamente dos processos baseados na queima de combustíveis fósseis, permitindo não só reduzir as emissões poluentes, mas também o consumo de recursos não renováveis), bem como do transporte e distribuição. Escolher combustíveis mais limpos, cuja queima gere menores quantidades de emissões poluentes, em particular emissões atmosféricas (ex. gás natural). 2.4.3. Medidas de Minimização dos Impactes Ambientais As medidas de minimização de impactes visam eliminar ou atenuar os impactes ambientais da produção de electricidade, sendo de um modo geral consideradas medidas de fim de linha, que devem ser implementadas em complemento das medidas anteriormente enunciadas (gestão da procura e da produção). Gases de Efeito de Estufa - O controlo das emissões de CO2 passa sobretudo pela redução das emissões na origem, através de medidas de gestão da procura ou de gestão da produção, dada a reduzida eficácia e elevados custos associados às tecnologias de remoção. Óxidos de Azoto - Para além das medidas acima enunciadas de gestão de procura e de produção de electricidade, existem basicamente duas abordagens para controlar as emissões de NOx: Medidas primárias - modificação das condições de combustão para evitar a formação de NOx. Medidas secundárias - tratamento dos gases de exaustão para remover os óxidos de azoto após o processo de combustão. É possível combinar medidas primárias e secundárias, uma vez que actuam em diferentes partes do processo de formação de emissões de NOx. Óxidos de Enxofre - As emissões de óxidos de enxofre podem ser reduzidas através da chamada “beneficiação” dos combustíveis, que consiste na redução do seu teor de enxofre. Esta abordagem pode nalguns casos ser custo-eficaz no controlo das emissões de SO2, mas gera grandes quantidades de resíduos sólidos e efluentes líquidos ácidos. As emissões de óxidos de enxofre também podem ser reduzidas através de modificações nos processos de combustão, nomeadamente pela adição de cal em caldeiras convencionais ou pela combustão em leitos fluidizados, ou pela implementação de processos de dessulfurização para remover o SO2 do gás de saída das instalações de combustão. Partículas e Metais Pesados - As emissões de partículas podem ser minimizadas através de medidas de prevenção de poluição e de controlo de emissões, para além 12 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL das medidas acima enunciadas, nomeadamente a escolha de combustíveis mais “limpos”. Medidas de gestão como melhoria do desenho, operação e manutenção dos processos e outras medidas de boa prática podem contribuir para reduzir as emissões. Aumentando a eficiência da combustão, reduz-se significativamente a quantidade de produtos de combustão incompleta, uma componente importante das emissões de partículas. A redução das cinzas através da limpeza dos combustíveis também pode contribuir para reduzir as emissões de partículas. Existem diversas tecnologias para remoção de partículas com diferentes características físicas e económicas, tais como os separadores por inércia, para partículas de maiores dimensões, os precipitadores electrostáticos e os filtros de mangas. Poluição da Água/Fluxos Hidrológicos - A principal medida para minimização dos impactes causados pela utilização de águas de arrefecimento em centrais térmicas consiste na redução do consumo de água, através da implementação de sistemas em circuito fechado, que têm no entanto a desvantagem de necessitarem de torres de arrefecimento, aumentando os impactes visuais. A minimização dos aditivos químicos adicionados pode contribuir para reduzir o risco de contaminação. Os efeitos das barragens nos fluxos hidrológicos podem ser parcialmente minimizados através da manutenção de um caudal ecológico. As medidas para controlar a eutrofização em albufeiras incluem o controlo do fluxo de nutrientes para o reservatório e/ou a sua remoção da massa de água. A desmatação da zona a inundar antes do enchimento de uma albufeira também é uma medida geralmente utilizada para evitar os efeitos da degradação da matéria orgânica presente no material vegetal submerso. Degradação do Solo/Perda de Biodiversidade - As medidas que podem ser adoptadas para a minimização da perda de solo e de biodiversidade provocada pelos aproveitamentos hidroeléctricos incluem medidas para evitar impactes ambientais (localização e concepção do empreendimento), medidas para mitigar ou reduzir impactes ambientais (tais como caudais ecológicos, dispositivos de passagem de peixes), medidas destinadas a compensar efeitos negativos que não podem ser compensados ou minimizados e medidas a implementar no desmantelamento e restauração ambiental dos aproveitamentos. A escolha dos locais de implantação e de corredores é a medida mais eficaz para minimizar os efeitos nos ecossistemas e no uso do solo associados à implantação de parques eólicos, de sistemas solares, de linhas aéreas na rede de transporte de electricidade. Outras medidas que podem ser implementadas nesta actividade consistem na instalação de dispositivos dissuasores para minimizar o risco de 13 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL colisão de aves com as linhas e a instalação de plataformas de nidificação nas zonas mais seguras. 2.4.4. Síntese das Medidas de Redução dos Impactes Na Tabela 3 apresenta-se uma síntese das principais medidas que podem ser implementadas para redução dos impactes ambientais das actividades do sector eléctrico, agrupadas segundo as três grandes categorias consideradas. Tabela 3 – Medidas de redução de impactes ambientais do sector eléctrico GESTÃO DA PROCURA Gestão da carga Estrutura tarifária Controlo de carga Tecnologias específicas Eficiência energética Construção eficiente Equipamentos eléctricos eficientes Auditorias energéticas (industria) Programas de instalação directa GESTÃO DA PRODUÇÃO Energias renováveis Solar Eólica Hidroeléctrica Aumento da eficiência na conversão Tecnologias de elevada eficiência Gás natural, centrais de ciclo combinado Co-geração de calor e electricidade Selecção de combustíveis Gás natural Combustíveis com baixo teor de enxofre Outros combustíveis MINIMIZAÇÃO DE IMPACTES Emissões atmosféricas CO2 Remoção dos gases de combustão Descarbonização do carvão (gaseificação e combustíveis ricos em H) NOx Queimadores de baixo NOx Injecção de combustível Oxi-combustão Redução selectiva catalítica Redução selectiva não catalítica MINIMIZAÇÃO DE IMPACTES Emissões atmosféricas SO2 Beneficiação dos combustíveis Modificação da combustão Dessulfurização dos gases de combustão Partículas e metais pesados Ciclones Precipitadores electrostáticos Filtros de mangas Poluição da água/ fluxos hidrológicos Refrigeração em circuito fechado Minimização de aditivos químicos Tratamento de efluentes na bacia das albufeiras Práticas agrícolas adequadas Remoção de nutrientes das albufeiras Desmatação das zonas a inundar Degradação do solo/perda de biodiversidade Localização de estruturas e corredores Concepção dos aproveitamentos Manutenção de caudais ecológicos Passagens para peixes Grelhas de desvio Compensação de danos ecológicos Resíduos sólidos e perigosos Aproveitamento de cinzas Aproveitamento de resíduos de dessulfurização Reciclagem de materiais em sistemas solares Ruído Selecção de locais Redução do ruído gerado Isolamento da fonte de ruído 2.5. Impactes Ambientais do Sector Eléctrico Português Nesta secção apresenta-se uma caracterização dos principais impactes ambientais associados ao sector eléctrico português, considerando sobretudo os associados às actividades de produção, transporte e distribuição de electricidade, dadas as dificuldades em caracterizar os impactes das outras fases do ciclo de vida, tais como a extracção, transporte e processamento de matérias primas. Têm vindo a ser implementadas algumas medidas no sector eléctrico português de modo a promover o desenvolvimento sustentável e a cumprir as mais recentes 14 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL obrigações legais em matéria de protecção do ambiente. De um modo geral, as medidas implementadas incluem a redução do consumo de combustíveis fósseis através da utilização de energias renováveis, a utilização mais eficiente dos combustíveis, nomeadamente através da produção de electricidade em cogeração, a utilização de combustíveis fósseis com baixo teor de carbono e enxofre, a instalação de equipamento para reduzir as emissões de poluentes atmosféricos e acções de protecção da biodiversidade como a inclusão de escadas para peixes em aproveitamentos hidroeléctricos ou a inclusão de apoios de linha com plataformas para nidificação de cegonhas nas actividades de transporte e distribuição. 2.5.1. Caracterização do Sector Eléctrico Português O consumo energético em Portugal tem crescido mais rapidamente do que o PIB, conduzindo a um aumento da intensidade energética. Em termos globais, a indústria e os transportes são os sectores que mais contribuem para o consumo final de energia. Uma outra característica vincada do sector energético em Portugal resulta da elevada dependência do exterior relativamente ao abastecimento de energia, nomeadamente das importações de energia primária, sobretudo do petróleo e carvão. A produção de energia primária de origem nacional, cerca de 20% da importada, é essencialmente constituída por hidroelectricidade e biomassa. Uma parte significativa do consumo de energia primária destina-se à produção de electricidade, que por sua vez representa uma parte substancial do consumo final de energia, cerca de 17%. Assim, torna-se evidente que o sector eléctrico representa necessariamente uma componente fundamental da política energética, nas suas vertentes económica e ambiental. A elasticidade do consumo relativamente ao PIB foi de 1.73 no período 1994-98, prevendo o Plano de Expansão do Sistema Eléctrico de Serviço Público que essa elasticidade venha a decrescer, atingindo um valor de 1.33 em 2000 e sendo inferior à unidade a partir de 2005 (DGE, 1999). O crescimento verificado no consumo de electricidade em Portugal deveu-se essencialmente ao aumento da taxa de electrificação e do rendimento disponível das famílias, bem como ao desenvolvimento do sector dos serviços. Em 2001, o sector industrial representava cerca de 41% do consumo total de energia eléctrica no país (DGE, 2002). O sistema electroprodutor encontra-se fortemente concentrado no Sistema Eléctrico de Serviço Público (SEP). A produção hidroeléctrica, apresenta grandes variações 15 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL interanuais, decorrentes das flutuações no regime hidrológico. As variações na disponibilidade de energia hidroeléctrica são compensadas recorrendo ao parque térmico, verificando-se assim que a produção a partir das duas tecnologias está inversamente relacionada (ver Figura 2). A EDP constitui destacadamente o maior grupo empresarial a operar no sector Produção (TWh) eléctrico em Portugal. 30 25 20 15 10 5 0 1995 1996 1997 Térmica 1998 1999 2000 Hidroeléctrica Figura 2 - Variação de produção térmica e hídrica de electricidade 2.5.2. Caracterização da Produção A maioria dos impactes ambientais do sector eléctrico estão directamente associados à fase de produção. Com efeito, a queima de combustíveis fósseis nas centrais termoeléctricas é uma das fontes mais importantes de emissão de poluentes atmosféricos a nível nacional. Adicionalmente, a produção de electricidade, sobretudo a partir de fontes renováveis como a hidroeléctrica, pode causar impactes negativos em termos de ocupação de solo e perda de biodiversidade, cuja importância depende, em cada caso, da selecção do local de implantação. A produção de resíduos sólidos, como as cinzas e escórias, é também um aspecto significativo, nomeadamente nas centrais a carvão devido à presença de materiais não combustíveis na sua composição. Não Renováveis As fontes de produção de energia eléctrica não renováveis incluem as centrais termoeléctricas, a cogeração e a incineração de resíduos. As centrais termoeléctricas incluem as centrais da CPPE do Grupo EDP (Sines, Setúbal, 16 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Barreiro, Carregado e Tapada do Outeiro), a Central do Pego, pertencente à Tejo Energia, e a Central de Ciclo Combinado da Tapada do Outeiro, pertencente à Turbogás. As empresas de cogeração consideradas neste estudo são as associadas da Cogen Portugal. A incineração de resíduos sólidos urbanos com valorização energética é realizada na Valorsul e na LIPOR. Renováveis Hidroeléctricas – Grandes Aproveitamentos - A produção de energia hidroeléctrica é maioritariamente assegurada pelos grandes aproveitamentos da CPPE. A produção de electricidade a partir das centrais hidroeléctricas apresenta uma elevada variabilidade interanual, traduzida através do índice de produtibilidade hidroeléctrica, em função da variação na precipitação. Aproveitamentos Integrados no SEI – Existem aproveitamentos hidroeléctricos integrados no Sistema Eléctrico Não Vinculado (SENV), tendo a análise incidido sobretudo nos pertencentes a empresas do Grupo EDP (HDN, Hidrocenel e EDP Energia). A implementação de pequenos aproveitamentos hidroeléctricos tem tido um crescimento significativo nos últimos anos, devido não só aos programas de incentivo ao investimento implementados, mas também à garantia de aquisição da electricidade produzida a um preço favorável. Energia Eólica – Neste estudo consideraram-se sobretudo os parques eólicos pertencentes à ENERNOVA (Grupo EDP). Aproveitamento de Biomassa - A produção de electricidade a partir de biomassa é apenas realizada na Central de biomassa de Mortágua (Central Térmica para Aproveitamento Energético de Resíduos Florestais de Mortágua). 2.5.3. Impactes Ambientais da Produção de Electricidade 2.5.3.1. Deplecção de Recursos Abióticos Um dos principais impactes ambientais da produção de electricidade através da queima de combustíveis fósseis é o seu contributo para a deplecção de recursos não renováveis. Tomou-se como indicador desse impacte o Input Directo de Materiais, que, neste caso, é dado pela quantidade de combustível consumido (t) por unidade de electricidade produzida (MWh) (Figura 3). 17 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 Tapada do Outeiro (CPPE) Barreiro Setúbal Sines Pego 1995 0,55 0,18 0,23 0,36 0,34 1996 0,57 0,15 0,24 0,36 0,34 1997 0,55 0,14 0,24 0,36 0,34 1998 0,31 0,14 0,23 0,37 0,35 1999 0,32 0,16 0,24 0,37 0,34 2000 0,34 0,24 0,37 0,35 2001 0,32 0,24 0,37 0,36 Figura 3 – Consumo de combustível (t) por MWh para as centrais termoeléctricas (Fonte: Grupo EDP, Pegop) Verifica-se que as centrais a carvão contribuem mais para a deplecção de recursos não renováveis do que as centrais a fuelóleo, o que decorre directamente do menor PCI do combustível utilizado. Os baixos valores verificados na central do Barreiro justificam-se por ser uma unidade de co-geração, com produção de energia térmica útil. 2.5.3.2. Emissões Atmosféricas Centrais Termoeléctricas Nas Figuras 4 a 11 apresentam-se as emissões atmosféricas associadas à produção de electricidade nas centrais do SEP. Verifica-se que as emissões totais de CO2, NOx e SO2 acompanham a variação na produção anual de electricidade a partir de combustíveis fósseis. As emissões específicas de CO2 são mais elevadas nas centrais a carvão (Sines e Pego) do que nas centrais a fuelóleo (Barreiro, Setúbal e Carrregado). A emissão específica de CO2 da Central de Ciclo Combinado da Tapada do Outeiro (Turbogás) é significativamente inferior à das restantes centrais, ressaltando as vantagens em termos de controlo das emissões de GEE’s da adopção do gás natural relativamente aos restantes combustíveis fósseis. 18 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Emis sõ e s d e C O 2 (kt o n) 25000 2 00 33 20000 1 64 77 15000 1 81 41 1 81 82 1999 2000 2001 2092 2247 2288 1 50 38 1 26 46 1 31 50 1996 1997 10000 5000 0 1995 1998 Ta p . d o O u t e iro Tu rb o gá s Pego 2633 2870 3123 2508 4259 4163 3600 S in e s 8577 7503 7450 7423 8184 8154 7914 Setúba l 3671 1725 1878 3607 3350 2406 2879 Ba rre iro 320 227 265 320 332 302 325 C a rre ga d o 994 202 137 1112 1733 857 1147 Ta p a d a d o O u t e iro 281 119 298 69 83 12 29 Emissões de CO2 (g/kWh) Figura 4 - Emissões de CO2 das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) 2000 1500 1000 500 0 Tapada do Outeiro (Turbogás) Tapada do Outeiro Carregado Barreiro Setúbal Sines Pego 1995 1114 764 532 706 894 830 1996 1143 823 447 734 891 800 1997 1112 812 428 734 889 802 1998 944 661 431 716 885 828 1999 980 638 503 723 878 820 2000 1048 682 471 753 897 840 381 2001 989 759 497 746 912 834 384 379 Figura 5 - Emissões específicas de CO2 das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) As Centrais de Sines e da Tapada do Outeiro são as que apresentam valores mais elevados das emissões específicas de NOx. As emissões específicas de SO2 das centrais a fuelóleo são, de um modo geral, superiores às das centrais a carvão, devido ao diferente teor de enxofre dos combustíveis. Verifica-se que as emissões totais de partículas têm vindo sempre a diminuir no horizonte temporal estudado, independentemente das flutuações no IPH2, devido sobretudo à instalação progressiva de precipitadores. 2 IPH – Índice de produtibilidade hidroeléctrica - Indicador que permite quantificar o desvio do valor total de energia eléctrica produzida por via hídrica num determinado período, em relação ao que se produziria se ocorresse um regime hidrológico médio. 19 Emis sõ e s d e N O x (kt o n) Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 100 90 80 68.15 70 59.57 60 54.57 50 46.30 47.13 1996 1997 53.11 51.02 40 30 20 10 0 1995 1998 Ta p . O u t e iro Tu rb o g á s 6.94 1999 2000 3.90 4.43 2001 2.63 11.24 11.30 10.06 Pego 6.54 7.78 7.92 S in e s 35.43 30.99 30.75 30.64 34.88 25.73 23.43 Se túba l 12.48 5.86 6.38 12.26 11.39 8.04 10.44 Ba rre iro 0.88 0.62 0.73 0.88 0.91 0.82 1.23 C a rre g a d o 3.38 0.68 0.44 3.66 5.60 2.76 3.17 Ta p a d a d o O u t e iro 0.86 0.37 0.91 0.19 0.23 0.03 0.06 Figura 6 – Emissões de NOx das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) Emissões de NOx (g/kWh) 5,00 4,00 3,00 2,00 1,00 0,00 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Tapada do O uteiro 3,42 3,52 3,41 2,59 2,69 2,84 2,01 Carregado Barreiro Setúbal Sines Pego 2,60 2,80 2,64 2,18 2,06 2,20 2,10 1,46 1,23 1,17 1,18 1,38 1,28 1,88 2,40 2,49 2,50 2,43 2,46 2,52 2,70 3,69 3,68 3,67 3,65 3,74 2,83 2,70 2,06 2,27 2,48 2,29 2,16 2,28 2,33 Tap.O uteiro Turbogás 0,71 0,75 0,44 Figura 7 – Emissões específicas de NOx das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) 20 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Emissõ e s de SO 2 (kto n) 180. 00 167. 73 160. 00 151. 28 153. 85 137. 98 140. 00 120. 00 112. 36 126. 42 119. 28 100. 00 80. 00 60. 00 40. 00 20. 00 0.00 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Pego 13. 67 15. 33 19. 52 12. 15 20. 35 20. 47 18. 91 S in e s 60. 09 54. 67 52. 92 49. 75 50. 23 48. 47 52. 03 S e t ú ba l 68. 23 33. 01 36. 61 66. 92 59. 49 42. 54 47. 06 Ba rre iro 5.82 4.17 5.04 6.20 5.65 5.86 5.35 16. 05 3.62 1.47 15. 15 16. 87 8.91 14. 31 3.77 1.56 3.73 1.11 1.26 0.17 0.32 C a rre g a d o Ta p a d a d o O ut e iro Emissões de SO2 (g/kWh) Figura 8 – Emissões de SO2 das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop)3 16.00 14.00 12.00 10.00 8.00 6.00 4.00 2.00 0.00 Tapada do Outeiro Carregado Barreiro Setúbal Sines Pego 1995 14.95 12.34 9.66 13.12 6.26 4.31 1996 14.95 14.78 8.20 14.04 6.50 4.46 1997 13.90 8.72 8.14 14.31 6.31 4.70 1998 15.12 9.00 8.37 13.29 5.93 4.02 1999 14.38 6.22 8.56 12.38 5.39 3.92 2000 15.14 7.09 7.56 13.32 5.33 4.13 2001 10.81 9.48 8.17 12.19 6.00 4.38 Figura 9 – Emissões específicas de SO2 das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop) 3 As emissões de SO2 da Central da Tapada do Outeiro da Turbogás são nulas, dadas as características do combustível utilizado (gás natural). 21 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 10 Emis sõ e s d e p a rt ícu la s (kt o n ) 9 8.35 8 7 5.72 6 5.27 5 4.87 4.09 4 2.98 3 2.43 2 1 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Pego 0.67 0.66 0.76 0.44 0.71 0.69 0.56 S in e s 4.20 3.67 3.65 3.28 2.43 1.71 1.03 Se túba l 1.08 0.51 0.39 0.66 0.49 0.35 0.46 Ba rre iro 0.20 0.14 0.17 0.21 0.17 0.11 0.24 C a rre g a d o 0.62 0.04 0.03 0.25 0.26 0.11 0.11 Ta p a d a d o O u t e iro 1.58 0.70 0.27 0.03 0.03 0.00 0.03 Emissões de partículas (g/kWh) Figura 10 – Emissões de partículas das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop)4 7.00 6.00 5.00 4.00 3.00 2.00 1.00 0.00 Tapada do Outeiro Carregado Barreiro Setúbal Sines Pego 1995 6.27 0.48 0.33 0.21 0.44 0.21 1996 6.70 0.16 0.28 0.22 0.44 0.19 1997 1.01 0.18 0.27 0.15 0.44 0.18 1998 0.41 0.15 0.28 0.13 0.39 0.14 1999 0.35 0.10 0.26 0.11 0.26 0.14 2000 0.38 0.09 0.17 0.11 0.19 0.14 2001 0.91 0.07 0.36 0.12 0.12 0.13 Figura 11 – Emissões específicas de partículas das centrais do SEP (Fonte: Grupo EDP, Pegop) Instalações de Valorização Energética de RSU e de Cogeração A valorização energética de resíduos sólidos urbanos é realizada nas instalações da Valorsul e da Lipor. As emissões específicas de SO2, NOx e partículas (g/kWh) da Central de Valorização Energética de Resíduos da Valorsul são, de um modo geral, 4 As emissões de partículas da Central da Tapada do Outeiro da Turbogás são nulas, dadas as características do combustível utilizado (gás natural). 22 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL significativamente inferiores às das centrais termoeléctricas do SEP, apesar da menor “qualidade” do combustível utilizado. Tal facto poderá ser explicado pela maior sofisticação e eficácia do sistema de tratamento de gases daquela central. Não existem dados sobre as emissões atmosféricas associadas aos sistemas de cogeração. A cogeração de calor e electricidade é geralmente considerada uma opção favorável em termos ambientais, devido à maior eficiência de utilização dos combustíveis que possibilita. Refira-se, no entanto, que o facto de esta estratégia assentar no desenvolvimento de um elevado número de unidades com uma dimensão relativamente pequena, pode criar dificuldades adicionais na implementação e controlo de medidas de minimização das emissões atmosféricas. Avaliação Global Nesta secção apresenta-se uma avaliação global do contributo do sector eléctrico português para os principais problemas ambientais associados aos poluentes atmosféricos emitidos pelo parque térmico: alterações climáticas e acidificação. Apresenta-se também uma avaliação do contributo do sector para as emissões de poluentes a nível nacional. Emissões de GEE’s Na Figura 12 apresenta-se a evolução das emissões específicas de CO2 do parque térmico português do SEP. Verifica-se um decréscimo a partir de 1997, possivelmente devido à introdução do gás natural na Central do Carregado e da entrada em serviço da Central de Ciclo Combinado da Tapada do Outeiro (Turbogás). 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0 Emissão específica CO2 (Parque térmico) 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 793 814 811 723 712 747 748 Figura 12 – Evolução das emissões específicas de CO2 do parque térmico do SEP(g/kWh) (Fonte: Grupo EDP, Pegop; Turbogás) 23 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Segundo o Protocolo de Quioto, adoptado no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a Comunidade Europeia, e respectivos Estados-Membros, comprometem-se em conjunto a reduzir as emissões de GEE´s (avaliadas através do potencial de aquecimento global) em 8% relativamente aos níveis de 1990 no período 2008-2010. Portugal tem como compromisso limitar o crescimento das emissões totais de GEE’s em 27% relativamente ao ano base de 1990, até 2008-2010 (DGA, 1999). Nesta percentagem está incluído um aumento de 40% para as emissões de CO2. Na Figura 13 apresenta-se a comparação das emissões de CO2 do conjunto das centrais térmicas do SEP, com as metas decorrentes da aplicação do Protocolo de Quioto. A comparação é apresentada para duas metas: 1. A meta nacional, que decorre do cálculo de um crescimento de 40% relativamente às emissões nacionais de CO2 em 1990 (39138 kt) (DGA, 2000); 2. Uma meta para o sector da electricidade e calor, calculada aplicando uma taxa de crescimento de 40% relativamente às emissões de CO2 do sector de produção de electricidade e calor em 1990 (13903 kt; DGA, 2000). Uma vez que ainda não existe uma afectação dos tectos de emissão entre os vários sectores de actividade, adoptou-se o pressuposto de que as responsabilidades de controlo de emissões serão igualmente partilhadas por todos os sectores. Este pressuposto foi, aliás, também assumido nos estudos preparatórios para o Plano de Expansão do SEP (REN, 2001). 60000 50000 40000 30000 20000 10000 0 Emissões de CO2 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 16477 12646 13150 15038 20033 18141 18182 Meta de Quioto (nacional) 54793 54793 54793 54793 54793 Meta Quioto (sector eléctrico) 19464 19464 19464 19464 19464 Figura 13 - Comparação das emissões de CO2 das centrais térmicas do SEP com as metas (kt) Verifica-se que, apesar da meta estabelecida para Portugal prever a possibilidade de um crescimento das emissões globais de GEE’s, essa “folga” de crescimento já está presentemente esgotada, pelo menos no respeitante ao sector eléctrico, assumindo que as responsabilidades de controlo são igualmente partilhadas por 24 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL todos os sectores de actividade. Note-se que os valores apresentados na Figura 13 apenas incluem as emissões das centrais do SEP, não incluindo os autoprodutores e restantes entidades do SENV. A premência da implementação do PNAC (Programa Nacional de Alterações Climáticas) torna-se assim por demais evidente (ver 4.3.2). Emissões de Compostos Acidificantes Nas Figuras 14 e 15 apresenta-se a evolução das emissões específicas de NOx e SO2, respectivamente, do parque térmico português do SEP. Verifica-se que, em ambos os casos, tem havido uma descida a partir de 1997, (à excepção das emissões de SO2 em 2001) em resultado da introdução do gás natural e da implementação de medidas de controlo (queimadores de baixo NOx e combustível com menor teor de enxofre). 5 4 3 2 1 0 Emissões específicas de NOx (Parque térmico) 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2.9 3.0 2.9 2.6 2.4 2.2 2.1 Figura 14 – Evolução das emissões específicas de NOx do parque térmico do SEP (g/kWh) (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) 10 8 6 4 2 0 Em issões específicas de SO 2 (Parque térm ico) 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 8.1 7.2 7.4 7.3 5.5 5.2 5.7 Figura 15 – Evolução das emissões específicas de SO2 do parque térmico do SEP (g/kWh) (Fonte: Grupo EDP, Pegop, Turbogás) Nas Figuras 16 e 17 apresenta-se uma comparação das emissões de SO2 e NOx, do sector eléctrico e globais, com os tectos nacionais de emissão estabelecidos no 25 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Protocolo de Gotemburgo e na Directiva Comunitária sobre Tectos Nacionais de Emissões de SO2 (kton) Emissão (Directiva 2001/81/CE) (c.f. 4.3.3.2). 450 400 350 300 250 200 150 100 50 0 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 SO2 Total SO2 Electricidade SO2 Gotemburgo SO2 Directiva Figura 16 – Comparação dos tectos de emissão de SO2 estabelecidos no Protocolo de Gotemburgo e na Directiva 2001/81/CE com as emissões nacionais e do sector eléctrico Emissões de NOx (kton) (Fonte: IA, 2003) 450 400 350 300 250 200 150 100 50 0 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 NOx Total NOx Electricidade NOx Gotemburgo NOx Directiva Figura 17 – Comparação dos tectos de emissão de NOx estabelecidos no Protocolo de Gotemburgo e na Directiva 2001/81/CE com as emissões nacionais e do sector eléctrico (Fonte: IA, 2003) Da análise das referidas figuras, constata-se que o cumprimento das metas estabelecidas implicará um esforço significativo para Portugal. Uma vez que o sector eléctrico contribui significativamente para as emissões daqueles poluentes, sobretudo no caso do SO2, é de esperar que uma parte muito importante do esforço de redução recaia sobre o sector eléctrico nacional. 26 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Contributo do Sector Eléctrico para as Emissões a Nível Nacional Na Figura 18 apresenta-se a contribuição percentual dos diversos sectores para as emissões de SO2, NOx e CO2, em 2001, de acordo com o inventário nacional de emissões (IA, 2001), ressaltando o peso do sector eléctrico (sobretudo no caso das emissões de SO2) e dos transportes (NOx). Produção pública de calor e electricidade 4,1% Transportes 0,5% 0,0% 0,0% 0,0% 3,4% 0,0% 8,0% 0,0% 1,4% 19,8% Energia - outros 0,0% 7,9% 27,7% 38,3% 23,9% Processos industriais e util. solventes 55,0% 28,8% Agricultura 2,6% NOx SO2 Florestas e mod. uso do solo 51,0% 27,6% CO2 Resíduos Figura 18 – Contribuição percentual dos diversos sectores para as emissões a nível nacional, em 2001 (Fonte: IA, 2003) 2.5.3.3. Resíduos Cinzas e Escórias Nas Figuras 19 e 20 apresenta-se a produção total e específica (por kWh de electricidade produzida) de cinzas volantes nas centrais termoeléctricas do SEP, para o período 1995-2001. Verifica-se que a produção de cinzas nas centrais a carvão é muito superior à das centrais a fuelóleo. 600000 500000 400000 300000 200000 100000 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Pego 132150 158271 132381 110685 184114 208000 165000 Sines 347713 275813 307429 271901 346780 349561 316155 Setúbal 6037 2051 2300 2529 5650 1622 1881 Carregado 140 316 356 1081 1222 534 1003 Nota: As cinzas volantes da Central da Tapada do Outeiro (CPPE) são contabilizadas conjuntamente com as escórias Figura 19 – Produção de cinzas nas centrais termoeléctricas (t) (Fonte: Grupo EDP, Pegop) 27 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 50.00 40.00 30.00 20.00 10.00 0.00 Carregado Setúbal Sines Pego 1995 0.11 1.16 36.23 41.66 1996 1.29 0.87 32.77 44.11 1997 2.12 0.90 36.68 33.98 1998 0.64 0.50 32.43 36.55 1999 0.45 1.22 37.21 35.46 2000 0.42 0.51 38.45 41.97 2001 0.66 0.49 36.43 38.22 Figura 20 – Produção específica de cinzas (t/kWh) (Fonte: Grupo EDP, Pegop) A Figura 21 resume as estratégias de gestão de cinzas nas centrais de Sines e do Pego. As escórias das Centrais da CPPE são depositadas no aterro controlado da Central de Sines, sendo as da Central do Pego depositadas no parque de cinzas e escórias da central. 400000 400000 350000 350000 300000 300000 250000 250000 200000 200000 150000 150000 100000 100000 50000 50000 0 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Deposição 62654 -552 22763 12578 16196 10462 12043 Deposição 34359 9496 1853 775 368 2080 13200 Reutilização 285059 276365 284666 259323 330584 339099 304112 Reutilização 97791 148775 130528 109910 183746 205920 151800 Sines Pego Figura 21 – Gestão de cinzas nas Centrais de Sines e do Pego (Fonte: Grupo EDP, Pegop) Resíduos Metálicos A produção de resíduos metálicos nas centrais termoeléctricas resulta essencialmente de equipamento fora de uso (essencialmente condensadores e transformadores), de reparações e modificações efectuadas e de cabos metálicos. Os resíduos metálicos das centrais da CPPE são enviados na sua quase totalidade para reciclagem, sendo os da Central do Pego vendidos como sucata. 28 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Óleos Usados e PCB’s O Grupo EDP efectua uma gestão diferenciada de óleos sem PCB’s (óleos isolantes, hidráulicos e lubrificantes de base mineral, aqui designados por “óleos usados”) e de óleos e equipamentos de transformação eléctrica com PCBs. Os PCB’s e equipamentos que os contêm têm vindo a ser eliminados com recurso a incineração em instalações licenciadas (fora do território nacional). Avaliação Global Na Figura 22 apresenta-se a estrutura da produção de resíduos industriais em Portugal em 1999, de acordo com informação do Plano Estratégico dos Resíduos Industriais (IR, 2001). Constata-se o reduzido peso do sector da electricidade, gás e água, para o total da produção de resíduos na indústria nacional (cerca de 2.7% do total), sendo, no entanto, o seu contributo para a produção total de resíduos perigosos mais elevado (5,9%). Resíduos Banais Electricida de, gás e água 2,6% Total Resíduos Perigosos Indústria extractiva 27,1% Electricidade, gás e água 5,9% Indústria extractiva 3,1% Electricidade, gás e água 2,7% Indústria extractiva 26,9% Indústria transforma dora 70,2% Indústria transformadora 91,0% Indústria transformadora 70,4% Figura 22 – Produção de resíduos industriais por sector de actividade (Fonte: INR, 2001) 2.5.3.4. Fluxos Hidrológicos/Poluição da água Centrais Térmicas Os sistemas de arrefecimento das centrais térmicas da EDP funcionam em circuito aberto, sendo o volume de água restituído ao meio igual ao volume extraído. O sistema de refrigeração da Central do Pego funciona em circuito fechado, sendo os consumos referentes às necessidades para compensação da água perdida por evaporação e para renovação periódica da água. A água do circuito de arrefecimento da maioria das centrais da EDP5 é clorada para prevenir o desenvolvimento de microorganismos. Apesar das concentrações de cloro serem usualmente baixas (abaixo do limite de detecção), não causando, em 5 Exceptua-se a central do Carregado, onde se utiliza o sistema Taproge, baseado num processo mecânico de remoção do filme de biomassa. 29 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL princípio, efeitos significativos no meio receptor, não se deverá negligenciar o grande volume de água produzido e descarregado. Aproveitamentos Hidroeléctricos O represamento da água nas barragens e a regularização de caudais tem impactes positivos, contribuindo para a mitigação dos efeitos de situações de cheia e de estiagem. No entanto, esta regularização também tem impactes negativos significativos nos ecossistemas aquáticos a jusante, sobretudo se não forem garantidos caudais ecológicos que salvaguardem a sobrevivência das espécies. Dos aproveitamentos hidroeléctricos da CPPE, apenas em quatro (Alto Lindoso, Touvedo, Alto Rabagão e Vilarinho das Furnas) é referida a “obrigatoriedade de manutenção de um caudal ecológico a jusante para fins ambientais”. O represamento da água numa barragem provoca também impactes na qualidade da água devidos à diminuição do oxigénio dissolvido e ao enriquecimento em nutrientes. Se bem que estes impactes sejam originalmente provocados pelo inadequado tratamento de efluentes domésticos e industriais e/ou por práticas agrícolas desajustadas, os seus efeitos são potenciados pela existência da barragem. Na Tabela 5 apresenta-se uma síntese da evolução da qualidade da água nas albufeiras dos aproveitamentos hidroeléctricos do SEP. A classificação apresentada baseia-se numa metodologia desenvolvida pelo INAG (Instituto da Água) para classificação da qualidade da água para usos múltiplos, que considera as seguintes classes (Tabela 4): Tabela 4 – Classes de qualidade da água (INAG) Classe A Sem poluição Águas consideradas como isentas de poluição, aptas a satisfazer potencialmente as utilizações mais exigentes em termos de qualidade. Classe B Fracamente poluído Águas com qualidade ligeiramente inferior à classe A, mas podendo também satisfazer potencialmente todas as utilizações. Classe C Poluído Águas com qualidade “aceitável”, suficiente para irrigação, para usos industriais e produção de água potável após tratamento rigoroso. Permite a existência de vida piscícola (espécies menos exigentes) mas com reprodução aleatória; apta para recreio sem contacto directo. Classe D Muito poluído Águas com qualidade “medíocre”, apenas potencialmente aptas para irrigação, arrefecimento e navegação. A vida piscícola pode subsistir, mas de forma aleatória. Classe E Águas ultrapassando o valor máximo da classe D para um ou mais parâmetros. São consideradas como inadequadas Extremamente poluído para a maioria dos usos e podem ser uma ameaça para a saúde pública e ambiental. Da análise da Tabela 5 verifica-se que as albufeiras do Douro são as que apresentam maiores problemas de qualidade da água, existindo, no entanto pouca informação relativamente às albufeiras do sistema Tejo-Mondego. 30 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Tabela 5 – Qualidade da água nas albufeiras dos aproveitamentos hidroeléctricos do SEP Aproveitamento Qualidade da água Estado trófico 1995 1996 1997 1998 1999 Tejo-Mondego Douro Cávado-Lima Alto-Lindoso Mesotrófico Classificaçã o para usos secundários Condicionada Touvedo Alto Rabagão Utilização livre Vila Nova/Venda Nova Vila Nova / Paradela Salamonde Vilarinho das Furnas Caniçada Miranda Picote Bemposta Pocinho Valeira Vilar-Tabuaço Régua Carrapatelo Torrão Crestuma-Lever Caldeirão Aguieira Raiva Cabril Bouçã Castelo de Bode Pracana Fratel Utilização livre Protegida Protegida Protegida Protegida Condicionada Condicionada Mesotrófico (ocas. oligo.) Mesotrófico Eutrófico/hipereutrófico Mesotrófico (ocas.eutr.ehiper) Meso/eutrófico (ocas. hiper) Eutrófico/hipertrófico Utilização Utilização Protegida Utilização Utilização livre livre livre livre Eutrófico (ocas. meso e hiper) Utilização livre Eutrófico (ocas. meso e hiper) Protegida Protegida Protegida Utiliz. limitada Protegida Utiliz. limitada Fonte: INAG/SNIRH, 2002 (http://snirh.inag.pt) 2.5.3.5. Degradação de Solo/Perda de Biodiversidade Ocupação de Solo e Destruição de Ecossistemas A implementação de grandes aproveitamentos hidroeléctricos, com a consequente inundação de áreas, tem impactes ambientais significativos em termos de ocupação de solo e perda de biodiversidade. Tomou-se como indicador aproximado destes impactes a área ocupada6 por unidade de electricidade produzida. Os aproveitamentos hidroeléctricos do SEP provocaram a inundação de uma área total de 21 855 ha, o que num ano de produtibilidade hidroeléctrica média (1998) corresponde à ocupação de 1.9 ha/GWh7. Na Figura 23 apresentam-se os valores específicos de ocupação de solo para os aproveitamentos hidroeléctricos do SEP. 6 7 Área ocupada pelo espelho de água O valor médio corresponde à relação entre a área total inundada e a produção total 31 Ocupação de solo (ha/GWh) Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 16 13,9 14 11,3 12 10 7,4 8 6 2 4,4 4,4 4 1,2 2,5 7,4 5,0 2,9 1,0 0,8 2,0 1,9 2,8 2,6 1,6 1,8 1,3 1,4 1,6 1,0 0,1 0,2 0,4 0 Fratel Pracana Castelo de Bode Bouçã Cabril Raiva Aguieira Caldeirão Fio de água Crestuma-Lever Torrão Carrapatelo Régua Vilar-Tabuaço Valeira Pocinho Bemposta Picote Miranda Caniçada Vilarinho das Furnas Salamonde Vila Nova Alto Rabagão Touvedo Alto-Lindoso Albufeira Valor médio Figura 23 – Ocupação de solo nos grandes aproveitamentos hidroeléctricos (ha/GWh) Verifica-se que existe uma imensa variabilidade na intensidade de ocupação de solo entre os diversos aproveitamentos, o que resulta das diferentes características dos locais de implantação, tais como a topografia, morfologia do leito, afluências, etc. É interessante referir que o aproveitamento de Alqueva irá inundar uma área total de 25000 ha (superior à soma das áreas alagadas de todos os aproveitamentos da CPPE), estando prevista uma produção anual de 350 GWh, o que corresponde a 71.4 ha/GWh, ou seja, cerca de 30 vezes superior ao valor médio e 5 vezes superior ao aproveitamento com maior ocupação (Alto Rabagão). A instalação de parques eólicos também requer a ocupação de áreas significativas, sendo este aspecto (conjuntamente com o ruído e com a intrusão visual) um dos impactes ambientais mais importantes desta forma de produção de electricidade. Na Figura 24 apresentam-se os valores específicos de ocupação de solo para os parques eólicos da ENERNOVA. Da comparação das Figuras 23 e 24 verifica-se que a energia eólica, em Portugal, é mais “área intensiva” do que a hidroeléctrica. Note-se, no entanto, que o tipo de ocupação é completamente diferente. Enquanto que no caso das hidroeléctricas a ocupação corresponde à inundação de áreas, com a consequente destruição de ecossistemas e perda da possibilidade de utilização do solo, no caso da energia eólica, a ocupação não é tão “radical”, não havendo a destruição do solo e dos ecossistemas afectados, e continuando a existir a possibilidade de manutenção de alguns dos usos anteriores. Acresce que, no caso da energia eólica, o grau de reversibilidade dos impactes também é muito maior. 32 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 Fonte da Mesa 1997 1998 1999 2000 2001 15,45 15,04 13,99 13,99 16,16 8,80 7,17 7,30 9,30 Pena Suar 4,44 Cabeço da Rainha 3,16 2,71 Cadafaz Figura 24 – Ocupação de solo nos parques eólicos da ENERNOVA (ha/GWh) Perturbação de Espécies A instalação de aproveitamentos hidroeléctricos também causa perturbações significativas nas espécies piscícolas, devido à obstrução que as barragens constituem para a passagem dos indivíduos, tendo assim impactes negativos, sobretudo nas espécies migratórias. A construção de passagens para peixes constitui uma medida normalmente adoptada para minimizar este impacte. No entanto, a sua eficácia está fortemente dependente, por um lado, da concepção adequada dos dispositivos, e por outro das condições de funcionamento em cada caso particular. Na Figura 25 apresentam-se os resultados de um levantamento efectuado às condições de funcionamento das passagens para peixes num conjunto de mini-hídricas. Verifica-se que numa larga percentagem de casos as passagens para peixes estão inoperacionais ou em condições inaceitáveis de funcionamento. 8% 25% inoperacional condições inaceitáveis 33% condições aceitáveis boas condições s/informação 17% 17% Figura 25 – Condições de funcionamento dos dispositivos para passagem de peixes em minihídricas (Fonte: Ferreira et al, 2000) 33 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 2.5.4. Impactes Ambientais do Transporte e Distribuição de Electricidade Os principais impactes ambientais das actividades de transporte e distribuição de electricidade relacionam-se com a utilização de materiais tóxicos nos equipamentos e os efeitos em termos de ocupação de solo, perda de biodiversidade, intrusão visual e ruído associados à instalação de linhas aéreas. Os eventuais efeitos nocivos na saúde humana associados aos campos electromagnéticos também constituem um impacte ambiental relevante desta actividade. Nesta secção apresenta-se uma caracterização dos principais impactes ambientais associados ao transporte e distribuição de electricidade em Portrugal. 2.5.4.1. Ocupação de Solo A instalação de linhas aéreas de transporte de electricidade implica o condicionamento do uso do solo na sua área de influência, sendo definidos corredores, com larguras dependentes do nível de tensão, no interior dos quais não podem existir construções ou ser desenvolvidas actividades que violem as distâncias prescritas. Na Tabela 6 apresenta-se uma avaliação da área total de restrição para as diferentes classes de tensão. Verifica-se que a actividade de transporte de electricidade é responsável pelo condicionamento do uso do solo numa área total de 28 770 ha. Tabela 6 – Áreas afectadas pelas linhas aéreas de transporte de electricidade Linha Extensão da Largura do Área total de linha (km) corredor (m) restrição (ha) 150 kV 2391 45 10670 220 kV 2357 45 10607 400 kV 1234 60 7404 Total 5982 28770 Fonte: Grupo EDP, 2000 2.5.4.2. Alterações Climáticas Diversos equipamentos da rede de transporte utilizam SF6, um GEE, como se apresenta na Tabela 7. O inventário relativo à EDP Distribuição está em preparação. 34 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Tabela 7 - Utilização de SF6 na actividade de transporte de electricidade (kg) 1990 1995 1998 1999 Disjuntores 400 kV 2218 2764 2845 2845 Disjuntores 220 kV 3287 4186 4671 4625 Disjuntores 150 kV 544 866 1192 1249 Disjuntores 60 kV 0 187 358 370 Disjuntores 30 kV 10 10 10 10 0 5100 5710 5950 Subestações blindadas Fonte: Grupo EDP, 2000 2.5.4.3. Resíduos Os resíduos metálicos produzidos nas actividades de transporte e distribuição são enviados, na sua quase totalidade, para reciclagem. As lâmpadas usadas na rede de transporte são essencialmente fluorescentes tubulares utilizadas na iluminação de edifícios administrativos e subestações de MAT. Na distribuição, estes resíduos são constituídos essencialmente por lâmpadas de bolbo com vapor de mercúrio e vapor de sódio utilizadas na rede de iluminação pública. O processo de identificação de esquemas de eliminação que se revelem mais eficientes do ponto de vista económico e ambiental encontra-se em reformulação no Grupo EDP. À semelhança da actividade de produção, os óleos usados sem PCBs gerados nas actividades de transporte e distribuição são enviados para reutilização em empresas licenciadas. O Grupo EDP adopta uma estratégia de gestão de resíduos com PCB’s no transporte e distribuição de electricidade idêntica à descrita anteriormente para a actividade de produção. Cerca de 80% da produção anual de postes de betão usados estão a ser armazenados pela EDP Distribuição e serão em breve objecto de um programa de eliminação/valorização. 2.5.4.4. Contaminação de Águas Superficiais e Subterrâneas São efectuadas inspecções semanais para a detecção de eventuais fugas de óleos isolantes, dispondo a generalidade dos transformadores de potência de bacias de recolha de óleos derramados, individuais ou colectivas. São também efectuadas inspecções semanais às baterias de condensadores contendo óleo isolante com PCBs ainda em serviço. Actualmente o isolamento dos cabos é realizado com um produto oleoso não migrante, o que reduz as possibilidades de derrames nos terrenos circundantes. 35 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 2.5.4.5. Campos Electromagnéticos Nos projectos das linhas de MAT são calculados os valores de campo eléctrico e magnético gerados, os quais mesmo nas condições mais desfavoráveis, são inferiores aos recomendados pelo ICNIRP (Comissão Internacional de Protecção de Radiações Não Ionizantes) e com a recomendação da Comissão Europeia sobre este assunto (1999/519/CEE, de 12 de Julho). Nas medições efectuadas têm-se obtido valores sempre inferiores aos das recomendações. 2.5.4.6. Ruído Na fase de projecto das linhas de MAT é calculado o nível máximo de ruído gerado para as condições de isolamento adoptadas, sendo sempre inferior aos estipulados na legislação sobre ruído. Pontualmente existem reclamações devido ao ruído nas linhas aéreas em exploração na rede de transporte, verificando-se, mais raramente, reclamações devidas ao ruído provocado pelo vento nas estruturas metálicas. A EDP distribuição não efectua medições de rotina ao ruído, embora algumas medições pontuais tenham sido realizadas em subestações, não se detectando níveis de ruído perturbadores das actividades circundantes (Grupo EDP, 2000). 2.5.4.7. Impactes das Linhas Aéreas na Avifauna De modo a minimizar o risco de colisão de aves com as linhas aéreas, a REN tem vindo a implementar um conjunto de medidas que se sintetizam na Tabela 8. Nas linhas aéreas da rede de distribuição também têm vindo a ser instalados dispositivos do tipo “espanta pássaros” (Grupo EDP, 2000). Tabela 8 – Medidas tomadas nas linhas de muito alta tensão Até 1999 Jan/98 Montagem de cruzetas c/ bóias Montagem de ventoinhas 2000 2001 2002 TOTAL 250 -77 0 -69 -8 96 97 352 210 288 355 1302 76 30 106 162 172 334 Montagem de varetas cruzadas Chapas sobre isoladores Montagem de plataformas 500 151 195 123 140 1109 Ninhos transferidos 143 105 115 61 66 490 Fonte: REN (2003) 36 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 3. AVALIAÇÃO ECONÓMICA SECTOR ELÉCTRICO DOS IMPACTES AMBIENTAIS DO 3.1. Enquadramento Os trabalhos de avaliação económica de impactes ambientais centram-se essencialmente na avaliação de “externalidades”. Em termos genéricos, diz-se que existe uma externalidade quando a decisão de um agente económico gera custos ou benefícios a outros agentes, que não foram considerados na respectiva decisão e sem que haja lugar a qualquer forma de compensação. Quando os efeitos gerados por uma decisão económica se traduzem em impactes ambientais negativos, sem que as vítimas sejam compensadas, está-se perante a existência de uma externalidade negativa, também por vezes referida como “custos externos ambientais”. A existência de uma externalidade está, assim, relacionada com uma divergência entre os custos/benefícios privados e os correspondentes valores na perspectiva da sociedade. Aliás, na literatura sobre externalidades ambientais e sector eléctrico, estas surgem com a denominação de “adder(s)”, na medida em que configuram o custo (externo ambiental) a adicionar ao custo privado de produção, por forma a obter o custo social da produção de electricidade (Pearce, 2001). A promoção de uma afectação eficiente e sustentável dos recursos ambientais nas decisões de consumo e produção de electricidade passa, em parte, por conseguir fazer repercutir os custos externos ambientais no preço da energia eléctrica. Deste modo, para além de uma orientação de eficiência na afectação dos recursos aplicase, simultaneamente, um princípio ético aceite de uma forma generalizada: o princípio do utilizador-pagador, ou, mais especificamente na perspectiva do controlo de poluição, o princípio do poluidor-pagador. A avaliação económica das externalidades ambientais configura, assim, uma ferramenta essencial no apoio à política do sector eléctrico, nomeadamente: na concepção de instrumentos para corrigir/mitigar as distorções dos mercados energéticos, internalizando os custos externos ambientais; na definição dos montantes compensatórios a atribuir por danos ambientais; na orientação à definição geral de regulamentação para proteger a saúde e assegurar a sustentabilidade; 37 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL no apoio ao processo de planeamento de expansão/substituição de capacidade instalada de produção. No passado recente tem sido evidente o significativo desenvolvimento teórico dos métodos de avaliação económica de recursos ambientais, nomeadamente de bens/serviços que não são transaccionados no mercado. Os principais métodos apresentados estão sintetizados na Tabela 8. Tem vindo a ser realizado um esforço significativo no desenvolvimento de metodologias de avaliação, de modo a fazer face a limitações que foram sendo detectadas em aplicações e casos de estudo. Como resultado do intenso trabalho teórico, estão actualmente disponíveis um grande número de ferramentas, algumas contemplando diversas opções metodológicas, que podem ser aplicadas à avaliação das externalidades ambientais do sector eléctrico. Tabela 8 – Sistematização dos métodos de avaliação económica Métodos Efeitos ambientais avaliados (exs.) (Des)Vantagens Análise de mercados reais (base monetarização: pm) Alterações de produtividade Geral efeitos da erosão do solo e desflorestação, da poluição do ar e da água na agricultura, floresta e pescas Sector eléctrico Custo da doença impactes das emissões da produção (térmica) na agricultura e silvicultura (ECO Northwest, 1987; CE, 1995) Geral efeitos da poluição do ar e da água e de acidentes na saúde humana assenta em dados que se observam directamente no mercado dificuldade de implementação em situações de distorção dos mercados e/ou quando a alteração no “output” tem efeito nos preços dificuldade em assegurar estimativas fiáveis dos efeitos físicos assenta em dados que se observam directamente no mercado verificação dos requisitos de implementação Sector eléctrico incerteza do impacte na saúde humana efeitos da poluição do ar e de acidentes (não fatais) na saúde humana (CE, 1995) precisão das relações causa-efeito tratamento dos indivíduos não-produtivos exclusão de algumas componentes de custo (ex. sofrimento) não consideração da WTP pela redução da exposição à doença dificuldade em lidar com doenças crónicas Capital humano Geral efeitos da poluição e de acidentes na vida humana controvérsia da abordagem (estima o valor da vida humana com base na perda potencial produtivo) Análise de custos/despesas actuais ou potenciais (base monetarização: pm) Custos reposição/ relocalização e Despesas preventivas Geral efeitos da erosão, poluição do ar e da água, ruído, e destruição de zonas húmidas Sector eléctrico efeitos das emissões atmosféricas centrais termoeléctricas: custo de cumprimento da regulamentação estadual e federal (sul 38 simplicidade da aplicação (assenta em dados que se observam directamente no mercado) dificuldade na verificação de alguns dos pressupostos de implementação: evidência da disposição para assumir custos/despesas; informação completa sobre alterações na qualidade do ê í Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Métodos Efeitos ambientais avaliados (exs.) Califórnia e nordeste EUA) (Bernow et al, 1990); efeitos das emissões GEE’s: custo gestão/manutenção áreas florestais para capturar e sequestrar carbono (Ottinger et al, 1990) e custo dos trabalhos de defesa da costa alemã para evitar potenciais efeitos do aumento do nível das águas do mar (Hohmeyer, 1988) Análise de mercados substitutos (base monetarização: pm (Des)Vantagens ambiente; inexistência de benefícios secundários; possibilidade reposição do estado original de qualidade ambiental (CR);… constrangimentos impostos pela capacidade de pagar exiguidade da análise (caso dos custos cumprimento) substitutos) Métodos hedónicos Valor de propriedade Diferencial de salários Geral efeitos poluição do ar, água, ruído, paisagem/visibilidade e resíduos Sector eléctrico efeitos na paisagem/visibilidade da produção termoeléctrica a carvão, fuelóleo e gás natural (Estado Nova Iorque) (ECO Northwest, 1987; Ottinger et al, 1990); ruído do tráfego rodoviário, ferroviário e aéreo nos estágios dos ciclos de combustível (CE, 1995) Geral (risco) perda de vida e doença resultantes das emissões poluentes e acidentes profissionais Sector eléctrico Custo de viagem mortalidade associada às emissões de poluentes e acidentes de trabalho (CE, 1995) Geral VUD de áreas e/ou actividades de recreio Sector eléctrico VUD (caça) veados na área a ser inundada por uma barragem (ECO Northwest, 1987) nível de exigência de disponibilidade de informação detalhada sobre aspectos muito diversificados e existência de situações de distorção dos mercados imobiliários condicionamento dos resultados pela robustez da análise econométrica (im)possibilidade do diferencial salários reflectir os riscos para os trabalhadores (situações de informação incompleta; incapacidade de negociação dos contratos salariais; existência de barreiras à mobilidade no mercado de trabalho) reconhecimento científico na avaliação dos benefícios de áreas de recreio ausência de realismo nos pressupostos sobre comportamento dos indivíduos na determinação da curva da procura dificuldades na definição pressupostos para determinação do CO do tempo nível de exigência de recursos (tempo, informação, $,…) dificuldades na abordagem e avaliação de alterações (sobretudo marginais) na qualidade ambiental… Análise de mercados hipotéticos (base monetarização: valores contingenciais) Avaliação contingencial Geral única abordagem para estimar o VET VET da vida selvagem e protecção ecossistemas, habitats; VUD de recreio e saúde humana possibilidade de implementação em situações de inexistência, distorção ou exiguidade de mercados reais e/ou ausência de mercados substitutos Sector eléctrico impactes na floresta resultantes da produção hidroeléctrica (ECO Northwest, 1987); efeitos da poluição atmosférica na saúde humana (“valor da vida estatística” e/ou “valor de um ano de vida perdido”) (CE, 1995) ocorrência de enviesamentos (hipotético, operacional, “design”,…) 39 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Contudo, os resultados obtidos até ao presente não são ainda totalmente satisfatórios, em parte devido a algumas limitações metodológicas e requisitos de aplicação. Salientam-se, entre outros, os seguintes aspectos: A avaliação económica de externalidades ambientais baseia-se, naturalmente, numa perspectiva antropocêntrica, pelo que a contribuição total das várias espécies e processos ecológicos para a função de sistema de suporte de vida providenciada pelos ecossistemas não pode ser capturada; A avaliação económica tem de ser realizada a jusante da avaliação física dos recursos/danos ambientais, pelo que incorpora necessariamente toda a incerteza que eventualmente exista na avaliação da magnitude dos impactes ambientais ou na caracterização do sistema ambiental. A complexidade e dificuldade de abordagem científica dos processos e funções dos ecossistemas, associada a limitações na disponibilidade de informação, limita a análise ambiental e, por consequência, o interesse e a capacidade de desenvolver estudos de avaliação económica. A avaliação económica enfrenta ainda dificuldades na atribuição de valor, em termos monetários, a recursos/danos ambientais, mesmo quando estes estejam caracterizados de forma aceitável. Estas dificuldades resultam de aspectos metodológicos, nomeadamente para contemplar os valores de não-uso, bem como de restrições operacionais que condicionam a capacidade de afectação dos recursos necessários, incluindo tempo, à realização de estudos que conduzam a resultados fiáveis. 3.2. Avaliação Económica das Externalidades do Sector Eléctrico Ao longo das últimas duas décadas, têm vindo a ser desenvolvidos diversos estudos, nomeadamente nos EUA e na Europa, cujo objecto se centra na avaliação económica dos impactes ambientais associados às actividades do sector eléctrico, nomeadamente à produção (incluindo as actividades a montante e a jusante), transporte e distribuição de electricidade. Os estudos desenvolvidos e que consubstanciam, em grande parte, o conteúdo do 2º Relatório do presente Estudo, têm contribuído, pontualmente, para alguma(s) das componentes do processo de decisão referidas na secção anterior, disponibilizando nomeadamente uma relação de ordens de grandeza para alguns danos ambientais associados ao sector eléctrico e dando indicações da relação entre custos privados de produção e custos externos ambientais. 40 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL A análise do seu conteúdo revela, no entanto, diferenças substanciais relativamente ao âmbito de aplicação (espacial, temporal, tecnológico), à abordagem conceptual e metodológica, e ao nível de complexidade. Com efeito, em termos cronológicos, é mesmo possível definir uma tendência de evolução relativamente a alguns dos aspectos referidos, e subdividir os estudos em duas gerações (v. Figura 26). • âmbito de aplicação (espacial, tecnológico) 1ª geração 2ª geração projecto ExternE, 1999 2ª geração Hohmeyer, 1988 Pearce et al, 1992 • nível de complexidade • consistência das estimativas de valor… Bernow et al, 1991 DOE, 1995 ECO Northwest, 1987 Austrália • abordagem conceptual e metodológica 1ª geração Ottinger et al, 1990 Europa Lee et al, 1995; RCG/Hagler/Baily, 1995 critérios 1ª vs 2ª geração EUA Stocker et al, 1990 projecto VEPDP, 1993 NIEIR, 1988 Figura 26 – Estudos de Avaliação das Externalidades Ambientais do Sector Eléctrico Nesta perspectiva, integram a primeira geração os estudos desenvolvidos até ao início da década de 90, cujo âmbito de análise incide, sobretudo, nos impactes ambientais associados à fase da produção de electricidade, e não acomodam, de forma adequada, as dimensões temporal e espacial na avaliação dos danos ambientais. Os estudos da segunda geração, desenvolvidos ao longo da década de 90, apresentam, normalmente, maiores níveis de complexidade e de rigor, incorporando, entre outros aspectos, uma componente mais significativa de modelação ambiental. De entre o conjunto de estudos disponíveis, destaca-se o projecto europeu “Externalities of Energy” (ExternE), da iniciativa da Comissão Europeia, pelo seu pelo nível de abrangência, abordagem, conhecimento crítico gerado e disponibilidade de informação para Portugal. Este projecto integra a segunda geração, a par dos estudos norte-americanos de Lee et al (1995) e RCG/Hagler Baily (1995), utilizando, à sua semelhança, uma metodologia do tipo “bottom-up” e uma abordagem “impact pathway” ou de análise de ciclo de vida (ACV), que compreendeu, genericamente, os seguintes estágios sequenciais: 41 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 1. identificação dos impactes prioritários da(s) tecnologia(s) de produção de energia eléctrica objecto de análise (ex. tecnologias fósseis, nuclear e renováveis); 2. quantificação das cargas ambientais resultantes de cada uma das actividades do(s) ciclo(s) de combustível objecto de análise (ex. resíduos sólidos e líquidos, poluentes gasosos e partículas, risco de acidentes, exposição dos profissionais a substâncias perigosas); 3. descrição do meio receptor (e.g. condições meteorológicas; localização, idade e saúde da população; áreas agrícolas, agro-florestais e florestais; estado dos receptores ecológicos; sistema/escala de valores dos indivíduos) e identificação das áreas abrangidas pelas diferentes concentrações; 4. quantificação (física) dos impactes sobre os diferentes receptores (ecológicos, humanos, construídos); 5. avaliação económica das externalidades ambientais associadas aos impactes quantificados no estágio anterior, com base na análise de preços de mercado e/ou de estudos de avaliação económica disponíveis na literatura, nomeadamente europeus, para a realização de Transferências de Benefícios; 6. análise da incerteza associada a cada estágio do “impact pathway”. Apesar de terem sido adoptadas uma metodologia e uma abordagem comuns, as estimativas de custos externos ambientais obtidas para o conjunto dos países europeus não são directamente comparáveis entre si, dadas as circunstâncias nacionais, que conduziram à análise de um leque muito diferenciado de tecnologias, combustíveis e opções de redução de impactes ambientais, e à influência de factores como a especificidade da localização e qualidade do meio. A inviabilidade da realização de comparações torna-se ainda mais evidente quando se extravasa o âmbito específico de um estudo, como o ExternE. De acordo com os resultados da investigação de Krupnick e Burtraw (1996), que incidiu na análise comparativa do conjunto de estudos de segunda geração, revela-se muito difícil ou inexequível comparar “adders”, mesmo quando estes se reportam, por exemplo, a um mesmo “pathway”, de um mesmo ciclo de combustível, com tecnologia e localização geográfica semelhantes. Segundo estes autores, é evidente a ausência de consenso em relação a aspectos de modelação de base fundamentais, como 42 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL sejam os relativos à qualidade do ar, bem como em relação à análise dos comportamentos e preferências individuais e à sua transferibilidade8. Apesar da identificação de diferenças nas estimativas de custo externo obtidas bem como no nível de incerteza que lhes está associado, é de consenso geral que a sua contabilização dá um contributo relevante para a análise da importância relativa dos danos associados aos diferentes ciclos de combustível, e da sua relação com os custos de produção e preço de mercado da electricidade. Aspectos que assumem relevância para suportar, por exemplo, uma política de incentivos e decisões de planeamento estatégico, tal como o tem vindo a demonstrar a experiência nalguns países europeus, como a Suécia, Dinamarca e Itália (IEA/NEA, 2002). Em relação aos resultados do projecto ExternE, numa leitura geral, verifica-se que na maioria dos países europeus as estimativas de custos externos ambientais são muito significativas, ascendendo, nalguns casos, a 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em termos mais específicos, observa-se que os ciclos de carvão apresentam, em 1995, custos externos que rondam 0,01 €/kWh, ou seja, são, pelo menos, da mesma ordem de magnitude dos custos privados. O gás natural também apresenta custos externos significativos, cerca de 0,01 €/kWh (CE, 2001). Por outro lado, constata-se que os combustíveis fósseis apresentam os custos externos mais elevados e as energias de fonte renovável os valores mais baixos. No entanto, relativamente aos combustíveis fósseis não é possível estabelecer uma ordenação consequente de custos externos para os ciclos do carvão e do fuelóleo. Por exemplo, no Reino Unido os custos externos do ciclo do carvão superam ligeiramente os do fuelóleo, enquanto em França e, sobretudo, na Alemanha são inferiores. Ambos os ciclos causam maiores impactes que o do gás natural. Os custos externos do ciclo da biomassa são relativamente elevados, em resultado da dimensão dos danos associados às emissões atmosféricas, à erosão do solo e a outros efeitos decorrentes do processo de desflorestação. Não obstante, em caso de contabilização dos custos externos associados ao aquecimento global, as estimativas finais obtidas são relativamente inferiores às dos ciclos dos combustíveis fósseis. No que concerne ao ciclo da energia nuclear, a valorização dos danos tem vindo a basear-se em estimativas de especialistas em engenharia sobre as probabilidades e consequências da ocorrência de acidentes, reconhecendo-se a necessidade de desenvolver abordagens metodológicas assentes nas preferências individuais por 8 Este último aspecto é, aliás, fundamental, sobretudo se, como alguns autores sugerem, a existência de “consensos” for considerada como um dos factores de credibilidade e validação interna dos estudos de avaliação económica. 43 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL um determinado risco de acidente (percepção de risco). Este tipo de abordagem conduziria, certamente, a estimativas de custo externo mais elevadas que as obtidas no âmbito do ExternE. No que se refere, especificamente, a Portugal, as estimativas obtidas encontramse sistematizadas na Tabela 9. Tal como se pode verificar, o custo externo ambiental médio (excluindo o aquecimento global) do sector eléctrico nacional, em 1995, situa-se em cerca de 3 cêntimos-euro/kWh (cerca de 6 PTE/kWh), o que corresponde a cerca de 34% do preço da electricidade para a indústria (0.09 €/kWh). Assim, a sua total internalização no preço da electricidade conduziria, neste caso específico, a um aumento de 34%. produção/Recurso GWh/ano Carvão Fuelóleo Hidroeléctrica Total 13,455 7,426 10,008 Total Outros culas Partí- NOx Custos ambientaisb) SO2 electric.a) Tecnologia de Produção Tabela 9 – Estimativa dos custos ambientais do sector eléctrico português, em 1995, excluindo o aquecimento global cêntimos-Euro95/kWh (PTE95/kWh) Total Anual MEuro95/ano (MPTE95/ano) 2.29 1.20 0.09 1.01 4.74 637 (4.6) (2.4) (0.19) (2.02) (9.5) (127,728) 2.89 0.48 0.09 0.22 3.74 278 (5.8) (0.97) (0.19) (0.45) (7.5) (55,807) ng ng ng 0.02 0.03 3 (0.05) (0.06) (504.17) 30,889 918 (184,040) Média 2.97 (5.96) Notas: a) produção líquida, em 1995; b) Valores originais em ECU, a preços de 1995, convertidos em Escudo (PTE) e Euro utilizando a taxa de câmbio média desse ano (1ECU =193.91PTE) e o factor de conversão PTE-Euro (1Euro = 200.482PTE). MEuro(PTE) = milhões Euro(PTE). Fonte: CE (2001) O custo externo anual (excluindo o aquecimento global) para a sociedade, estimado em 918 milhões de euros, representa cerca de 1.2% do PIB nacional e 30% do volume de negócios do sector de produção de electricidade, em 1995. Cerca de 69% desse custo é imputável à produção termoeléctrica a carvão e 30% à termoeléctrica a fuelóleo. As externalidades ambientais induzidas pela produção hidroeléctrica representam menos de 1% das estimativas de custo externo total9. 9 Com efeito, o valor médio descrito (5.96 PTE/kWh) resulta da integração de um valor muito reduzido associado à hidroelectricidade (0.06 PTE/kWh, para cerca de 1/3 da produção total), com o valor associado ao ciclo do carvão (9.5 PTE/kWh), o mais elevado, e o obtido para o ciclo do fuelóleo (7.5 PTE/kWh). 44 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL No que se refere aos custos externos ambientais associados às emissões de gases com efeito de estufa (GEE´s), os valores obtidos situam-se entre 0.21 e 7.92 cêntimos-euro/kWh (0.4 a 16 PTE/kWh) de electricidade enviada para a rede. Estes valores resultam, sobretudo, da utilização de combustíveis fósseis no sector eléctrico. Em termos agregados, as estimativas oscilam entre 66 e 2446 milhões de euros, em 1995, o que corresponde a cerca de 0.1% e 3.2% do PIB português, ou 2% e 82% do volume de negócios do sector de produção de electricidade, nesse mesmo ano. Nos diferentes cenários de avaliação considerados, cerca de 64% do custo externo do aquecimento global é imputável às emissões atmosféricas do ciclo do carvão e 36% às do ciclo do fuelóleo. Em contrapartida, as estimativas para o ciclo da hidroelectricidade são inferiores a 1% do respectivo custo externo. A integração das externalidades ambientais das emissões de GEE´s na contabilização dos custos externos do sector eléctrico aumenta, substancialmente, as estimativas de valor finais. Com efeito, os custos externos ambientais passam a oscilar entre 3.2 e 10.9 cêntimos-euro/kWh (6 e 22 PTE/kWh) de electricidade enviada para a rede. Em termos agregados, correspondem a 1.3% e 4.4% do PIB nacional, em 1995, ou 33% e 112% do volume de negócios do sector de produção de electricidade Dada a reduzida representatividade da produção de energia eléctrica a partir da biomassa no total da produção nacional, a análise realizada não contemplou a sua integração. No entanto, é referido que os ciclos da biomassa, nomeadamente aqueles que recorrem a tecnologias obsoletas ou possuem sistemas de controle de emissões atmosféricas ineficazes, também podem provocar externalidades ambientais significativas, incorrendo em custos externos na ordem dos 0,0145 €/kWh (cerca de 3 PTE/kWh). No âmbito do estudo realizado consideraram-se algumas hipóteses sobre o consumo de energia e a taxa de penetração do gás natural, no período compreendido entre 1995 e 2010. Estas hipóteses, conjugadas com as estimativas de custo externo obtidas para a unidade da Tapada do Outeiro, permitiram simular a potencial variação dos custos externos do sistema eléctrico nacional, em 2010 (Tabela 10). 45 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Tabela 10 – Estimativa dos custos ambientais do sector eléctrico português, em 2010, incluindo aquecimento global Custos externos totais (incluindo aquec. global)a) cêntimos-Euro95/kWh (PTE95/kWh) Intervalo confiança 95%b) Carvão Fuelóleo Hidroeléctrica Gás Natural Sector eléctrico Intervalo restritoc) média baixa média alta média 3% média 1% 5.05 16.35 6.24 8.58 4.07 15.62 5.28 7.68 0.03 0.04 0.03 0.03 0.19 5.97 0.80 2.00 2.09 8.73 2.78 4.16 (4.18) (17.51) (5.58) (8.34) Notas: a) Valores originais em ECU, a preços de 1995, convertidos em Escudo (PTE) e Euro utilizando a taxa de câmbio média desse ano (1ECU =193.91PTE) e o factor de conversão PTE-Euro (1Euro = 200.482PTE); b) Considerando que os custos externos do aquecimento global oscilam entre 3.68 – 134.4 €/ton. CO2; c) Considerando que os custos externos do aquecimento global oscilam entre 17.4 – 45 €/ton. CO2. Fonte: Martins et al (1999) De acordo com os resultados obtidos, para uma taxa de penetração do gás natural no mercado energético do Continente de 30%, em 2010, os custos externos unitários registarão uma redução entre 20% e 35%10. Numa análise prospectiva, e apesar do potencial crescimento da produção de energia eléctrica em cerca de 50%, durante o período 1995-2010, é expectável que, dado o cenário de introdução do gás natural, o aumento nos custos externos ambientais se venha a situar entre 4% e 24%. Estes valores devem, no entanto, ser interpretados com alguma prudência, em virtude do nível de incerteza que lhes está associado. Aliás, segundo o próprio texto do relatório (Martins et al, 1999b): “Atendendo a todas as incertezas que afectam a avaliação dos custos externos, recomenda-se que os resultados fornecidos no presente documento sejam utilizados apenas como informação de enquadramento. (...)”. 3.3. Desenvolvimentos Recentes Em data posterior à redacção do 2º Relatório, em Novembro de 2001, realizou-se um workshop promovido pela Agência Internacional de Energia e a Agência de Energia Nuclear, com o objectivo de informar técnicos e decisores de política acerca do estado-da-arte da avaliação de externalidades ambientais no sector energético, do ponto de vista do conhecimento científico, e debater as questões relacionadas 10 Note-se que esta análise não contempla qualquer alteração tecnológica ou processual noutro tipo de centrais de produção de energia eléctrica. Caso se considerasse a introdução de tecnologias para redução das emissões atmosféricas (nomeadamente SO2, NOx e partículas) nas centrais termoeléctricas a carvão e fuelóleo, a redução dos custos externos unitários seria, naturalmente, mais significativa. 46 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL com a utilização das estimativas de valor disponíveis no processo de tomada de decisão (IEA/NEA, 2002). As apresentações realizadas incidiram quase exclusivamente sobre os resultados do ExternE e corroboram, em termos genéricos, a análise de Krupnick e Burtraw (1997) e a afirmação acima transcrita, embora tenha sido dado ênfase à sua importância no âmbito da definição da política energética. Com efeito, apesar da evolução positiva dos estudos de avaliação económica, em termos conceptuais, metodológicos e de rigor e, em consequência, da consistência e fiabilidade das estimativas de custo externo obtidas, que se tem vindo a registar nas últimas duas décadas, a maioria dos autores reitera que as estimativas de valor económico obtidas não devem ser ainda interpretadas como resultados rigorosos, mas antes como valores indicativos da ordem de grandeza dos impactes do sector eléctrico. Desta forma, é reconhecida a necessidade de desenvolvimento de investigação adicional, nomeadamente sobre os impactes no aquecimento global e na saúde humana, que são responsáveis por mais de 90% dos custos externos ambientais do ciclo dos combustíveis (Pearce, 2001). Como outras áreas para desenvolvimento futuro, destacam: (i) a redução das incertezas associadas às estimativas do ExternE; (ii) a avaliação de externalidades como a segurança e a diversidade da oferta, assim como a perda de coberto florestal; (iii) a necessidade de investigação adicional no âmbito das taxas de actualização aplicáveis no muito longo prazo e na avaliação da vida humana; (iv) a incorporação de uma abordagem dinâmica e do progresso tecnológico na ACV; e (v) a construção de uma base de dados com informação acerca da avaliação de externalidades e da forma como esta está a ser utilizada no âmbito da política energética. O desenvolvimento do projecto internacional de investigação ECLIPSE, permitirá colmatar algumas das falhas de informação actuais, nomeadamente na ACV de novas tecnologias de produção de energia eléctrica, como o fotovoltaico (PV), fuelcells, biomassa e tecnologias de cogeração. A publicação dos seus resultados prevê-se que venha a ocorrer em finais de 2003. 47 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 48 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4. POLÍTICA DE AMBIENTE E O SECTOR ELÉCTRICO Por forma a enquadrar a análise realizada neste capítulo, apresenta-se inicialmente uma breve síntese dos princípios orientadores fundamentais, que estabelecem um quadro de referência básico do desenvolvimento da política ambiental. Apresentase também uma síntese dos aspectos teóricos mais relevantes relacionados com o desenvolvimento e aplicação de instrumentos de política de ambiente. A política adoptada a nível internacional, comunitário e nacional para os principais problemas ambientais mais relacionados com o sector eléctrico é apresentada utilizando a tipologia de problemas adoptada, apresentando-se ainda uma análise de alguns instrumentos de política ambiental que actuam transversalmente nos diferentes problemas, tais como a avaliação de impactes ambientais e a prevenção e controlo integrados de poluição. 4.1. Princípios Fundamentais de Política de Ambiente Sustentabilidade - O desenvolvimento sustentável é actualmente apontado como um dos objectivos fundamentais da política ambiental. Este conceito, introduzido inicialmente no Relatório da Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, é definido como sendo o desenvolvimento que garante a satisfação das necessidades actuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras virem a satisfazer as suas. Por forma a se conferir às gerações futuras a possibilidade de usufruirem pelo menos do mesmo rendimento que as actuais, torna-se necessário garantir que o stock de capital total (constituído pelos recursos naturais e pelo capital construído) que elas têm disponível não diminui. A questão da possibilidade (ou não) de substituir capital natural por artificial encontra-se no cerne do debate entre os defensores da sustentabilidade forte e fraca. Numa perspectiva de sustentabilidade fraca, admite-se que se pode permitir uma deplecção do capital natural, desde que esta seja compensada por um crescimento no capital artificial. Pelo contrário, os defensores da sustentabilidade forte defendem que os dois stocks de capital (natural e artificial) devem ser geridos e preservados separadamente, não admtindo que possa haver substituição, excepto em situações muito limitadas. A nível da União Europeia, o desenvolvimento sustentável surge como objectivo prioritário no Tratado da União (Tratado de Maastricht), nos 5º e 6º Programas de Acção Comunitário em Matéria do Ambiente e na Estratégia da União Europeia para um Desenvolvimento Sustentável (Proposta da Comissão ao Conselho Europeu de Gotemburgo) (Comunicação da Comissão COM(2001), 264 final). 49 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Princípio do poluidor (utilizador)-pagador - O princípio do poluidor-pagador (PPP) foi adoptado pela OCDE em 1972 como um princípio económico para a afectação dos custos de controlo da poluição. Na sua formulação inicial este princípio estabelece que os poluidores devem suportar os custos das medidas que são legalmente obrigados a implementar para proteger o ambiente, tais como medidas de redução da poluição na fonte ou medidas de tratamento de efluentes. Este princípio tem vindo a ser progressivamente generalizado e estendido, relativamente à sua formulação inicial. De um princípio de internalização parcial dos custos ambientais, tem vindo a tender para se aproximar de um princípio de internalização total (OECD, 1992). O PPP surgiu inicialmente como um princípio económico, tendo vindo progressivamente a ser reconhecido como um princípio legal, nomeadamente através da sua integração no Acto Único Europeu, em 1987 e no Tratado de Maastricht em 1992. A legislação nacional também contempla o PPP, estando este princípio consignado na Lei de Bases do Ambiente. Princípio da precaução - O Princípio da Precaução constitui uma regra geral de actuação pública a aplicar em situações em que existem ameaças potencialmente graves ou irreversíveis para a saúde humana ou para o ambiente, estabelecendo que quando houver incerteza acerca de impactes ambientais potencialmente irreversíveis das acções humanas, deve dar-se o benefício da dúvida ao ambiente, devendo o ónus da prova ser colocado nas actividades que potencialmente danificam o ambiente. O princípio da precaução deve ser invocado sobretudo no caso de acções que possam vir a causar danos ambientais particularmente gravosos, de natureza irreversível. A nível internacional o Princípio da Precaução tem vindo a ser incorporado em muitos acordos internacionais, nomeadamente no Carta Mundial da Natureza, adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1982, no Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Destroem a Camada de Ozono (1987), na 3ª Conferência do Mar do Norte (1990), na Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento (1992), na Convenção Quadro da Nações Unidas para as Alterações Climáticas (1992), no Protocolo de Cartagena sobre Biosegurança (2000), na Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POP’s) (2001), para além da sua consagração na Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento (1992) e no Tratado da União Europeia (Tratado de Maastricht, 1994). Princípio da prevenção/redução na fonte - O princípio da prevenção estabelece que 50 é preferível adoptar medidas que permitam evitar, ou reduzir Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL substancialmente, a ocorrência de danos ambientais, do que procurar mitigar os danos, ou resolver os problemas depois de eles terem ocorrido. Este princípio está estreitamente relacionado com o princípio da redução na fonte, que estabelece que a poluição deve ser reduzida o mais a montante possível na cadeia causal geradora dos impactes ambientais, o que implica que se devem privilegiar medidas de redução da poluição na origem em detrimento da adopção de tecnologias de tratamento de fim de linha ou do transporte de resíduos ou poluentes. Estes princípios gerais são consagradoss no Tratado da União Europeia (Tratado de Maastrricht), bem como nos 5º e 6º Programas de Acção Comunitária em Matéria de Ambiente. Princípio da integração - O princípio da integração estabelece que os objectivos ambientais devem ser plenamente integrados nos restantes domínios, nomeadamente nas políticas económica e social, ao nível da definição e implementação de políticas, actos legislativos e financiamentos. Na Declaração do Rio e na Cimeira da Terra II (Rio +5) os países signatários comprometeram-se a integrar considerações ambientais na sua definição de políticas. Este princípio é consagrado no Tratado da União Europeia, bem como nos 5º e 6º Programas de Acção Comunitária em Matéria de Ambiente. A aplicação deste princípio implica a introdução de procedimentos práticos de actuação, tais como a obrigatoriedade de apresentar uma avaliação ambiental prévia de propostas de projectos e de planos e programas, bem como o desenvolvimento de indicadores de integração. Princípio da responsabilidade - O princípio da responsabilidade estabelece que o acesso aos recursos ambientais acarreta a responsabilidade de os utilizar de um modo ecologicamente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justo. Assim, todos os agentes são responsáveis pela utilização sustentável dos recursos ambientais, sendo a sua preservação entendida como uma responsabilidade partilhada pela comunidade, pelos agentes económicos, pelos cidadãos e associações representativas. Este princípio tem sido aplicado sobretudo na âmbito da política de produto, através do conceito de Responsabilidade Alargada do Produto (ou Produtor) (Extended Product – ou Producer, na Europa – Responsibility. Princípio da participação - O princípio da participação estabelece que todos os agentes afectados devem ser envolvidos na formulação e implementação de decisões relativas aos recursos naturais. O princípio da participação está fortemente ligado ao direito à informação, o qual vem sendo reconhecido em termos cada vez mais amplos aos cidadãos. Com efeito, só quando os cidadãos estão devidamente 51 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL informados é que podem ter oportunidade de exercer convenientemente o seu direito de participação. 4.2. INSTRUMENTOS DE POLÍTICA DE AMBIENTE Através da aplicação de instrumentos de política de ambiente e, designadamente, de instrumentos económicos que corrijam as causas económicas dos problemas ambientais, através da criação e/ou utilização de mercados, é possível eliminar ou minimizar as externalidades e promover uma gestão adequada da escassez dos recursos, incentivando a adopção de decisões mais eficientes em termos de produção, transporte, distribuição e consumo de electricidade. Nesta secção abordam-se, de uma forma sintética, alguns aspectos essenciais sobre a aplicação de instrumentos, em particular económicos, de política de ambiente. 4.2.1. Avaliação do Desempenho dos Instrumentos Dada a natureza diversificada dos problemas ambientais e do contexto socioeconómico, não é possível identificar a priori um instrumento óptimo, que seja sempre superior aos restantes. Em cada situação há que escolher entre muitos instrumentos possíveis, de acordo com os critérios que se adoptem para a sua selecção. De uma forma sintética, podem adoptar-se os seguintes critérios principais: Eficácia ambiental - relacionada com o impacte e desempenho ambiental de um instrumento, i.e., em que medida o instrumento contribui para o cumprimento dos objectivos de política (quando estes estão definidos) ou para a redução nas emissões. A eficácia ambiental é, pela sua natureza, um critério indispensável à avaliação de um instrumento. Eficiência económica (estática) - refere-se à maximização da diferença entre o dano ambiental evitado com a implementação de um determinado instrumento e os custos de controlo de poluição. Contudo, em muitos casos torna-se difícil medir de uma forma objectiva os danos causados pela degradação ambiental, o que leva à adopção da relação custo-eficácia como critério de avaliação de instrumentos. Um instrumento tem uma boa relação custo-eficácia se permite maximizar a melhoria ambiental obtida com um dado orçamento, ou inversamente, se permite alcançar um determinado nível de melhoria ambiental com o custo mínimo. Eficiência dinâmica/Incentivo à inovação – é fundamental considerar a evolução temporal dos custos de cumprimento, bem como dos benefícios ambientais que daí resultam. Assim, o incentivo dado por um instrumento aos 52 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL agentes para encontrarem formas inovadoras de reduzir os seus impactes ambientais deve ser considerado um critério essencial na avaliação da política. O conceito de eficiência dinâmica, que se relaciona com o incentivo à inovação dado pelo instrumento, deve pois ser consagrado na avaliação Equidade/justiça e aceitação política - a equidade, ou seja, a distribuição de custos e benefícios entre os elementos da sociedade (produtores, consumidores, empresários, trabalhadores,...) deve ser uma preocupação fundamental na implementação da política de ambiente. O seu sucesso depende da capacidade de envolvimento da opinião pública e da aceitação pelos agentes, o que por sua vez depende da sua justiça distributiva. Geração de receitas - A capacidade de gerar receitas é uma propriedade associada ao critério anterior e geralmente apreciada num instrumento. A questão fundamental não é tanto avaliar a capacidade de gerar receitas em si mesma, mas antes associar essa capacidade à decisão de como afectar essas receitas, uma vez que a forma como estas são utilizadas tem profundas implicações na distribuição de rendimentos, sendo um aspecto essencial, nomeadamente no caso das taxas ambientais. Capacidade de cumprimento (enforcement) - a capacidade de garantir o cumprimento (enforcement) é essencial na cadeia de implementação da política de ambiente, constituindo os custos de fiscalização e cumprimento uma parte significativa dos custos associados à aplicação de políticas ambientais. A aplicação gradual de instrumentos, isto é, com um nível de exigência crescente ao longo do tempo, pode facilitar a sua aceitação e, consequentemente, a tarefa de os fazer cumprir por parte da autoridade ambiental. Integração com outras políticas sectoriais – a integração da política de ambiente com outras políticas sectoriais (ex. transportes, energia, agrícola, industrial) é um requisito básico para o seu sucesso. Um bom exemplo da necessidade de integração de políticas é dado pelos casos existentes de subsídios economicamente ineficientes e ambientalmente perversos. Efeitos induzidos na economia - A aplicação de instrumentos de política de ambiente pode induzir diversos custos e benefícios económicos, para além dos decorrentes directamente dos custos de controlo de poluição e de fiscalização e da melhoria da qualidade do ambiente. Embora a sua avaliação seja por vezes difícil, estes efeitos devem ser considerados, na medida do possível, na avaliação do desempenho dos instrumentos de política de ambiente. 53 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Mudança de atitude (soft effects) – a designação de “soft effects” diz respeito às mudanças de atitudes e à maior consciencialização ambiental dos agentes. Assim, por exemplo, uma taxa de valor reduzido imposta a um determinado bem, pode constituir um “sinal” alertando os consumidores sensibilizados para os seus custos ambientais. 4.2.2. Tipos de Instrumentos de Política de Ambiente Em geral, e de uma forma muito agregada, são consideradas três categorias de instrumentos, não mutuamente exclusivas, que correspondem a três estágios de desenvolvimento da política de ambiente: a) instrumentos de comando e controlo ou de regulamentação directa; b) instrumentos económicos e fiscais ou de mercado; c) instrumentos de informação/actuação voluntária. 4.2.2.1. Instrumentos de Comando e Controlo ou Regulamentação Directa Na abordagem de “comando e controlo”, as autoridades políticas para obterem um comportamento simplesmente considerado obrigatório desejável por lei, por parte utilizando dos agentes, complementarmente tornam-no diversos mecanismos para garantir o seu cumprimento, tais como regimes de contraordenação e coimas. Através dos instrumentos de comando e controlo, tais como normas de emissão, tecnológicas, de qualidade ambiental e de utilização de produtos, proibições, etc., as autoridades ambientais fixam as metas a alcançar, as tecnologias a utilizar, ou os comportamentos a adoptar pelos agentes económicos. Os custos de cumprimento/controlo, que podem variar significativamente de agente para agente, não são geralmente tidos em consideração na concepção do instrumento, o que pode gerar uma significativa ineficiência económica na implementação da política. Os instrumentos de comando e controlo também se caracterizam por serem ineficientes do ponto de vista dinâmico, devido ao reduzido incentivo à inovação e ao desenvolvimento tecnológico. Outras desvantagens normalmente apontadas a este tipo de instrumentos relacionam-se com o elevado esforço que requerem ao nível do licenciamento, monitorização, e contra-ordenação. Estes instrumentos têm algumas vantagens que justificam a sua ampla utilização, nomeadamente a eficácia ambiental, que resulta do seu modo de actuação. A boa aceitação pelos decisores políticos e agentes económicos em geral, que geralmente os preferem aos instrumentos económicos, justifica também a sua vasta utilização. A justificação deste comportamento decorre da percepção por parte dos agentes 54 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL que os instrumentos de comando e controlo lhes geram menores encargos financeiros. 4.2.2.2. Instrumentos Económicos e Fiscais ou de Mercado Os instrumentos económicos não obrigam os agentes a cumprir uma meta estabelecida, a utilizar determinada tecnologia ou a adoptar um dado comportamento. Pelo contrário, têm carácter de incentivo, efectuando o controlo pelo preço, e deixando a liberdade aos agentes para escolher a estratégia mais adequada de adaptação das suas actividades. Estes instrumentos baseiam-se na correcção de preços em mercados existentes que apresentam distorções, ou na criação de novos mercados que permitam internalizar as externalidades. São exemplos deste tipo de instrumentos as taxas ambientais, os subsídios, as licenças/direitos transaccionáveis, sistemas de depósito e reembolso, mecanismos de seguros/caução e títulos de desempenho ambiental. Entre as vantagens associadas aos instrumentos de mercado, em estudos teóricos e empíricos, destaca-se a eficiência económica, o incentivo à inovação tecnológica, o potencial de geração de receitas, a flexibilidade, o duplo dividendo e a fácil integração com outras políticas sectoriais. Apesar das vantagens enunciadas, os instrumentos de mercado são, frequentemente, difíceis de aplicar ou aplicados de uma forma sub-óptima do ponto de vista económico. Taxas Ambientais – podem considerar-se três tipos de taxas quanto ao objectivo: (1) taxas com receitas consignadas a fins específicos, tais como as taxas por serviço prestado onde se coloca um preço na utilização de um determinado serviço (tratamento de um efluente, deposição/ tratamento de resíduos,...).; (2) as taxas de incentivo, que têm como objectivo incentivar a alteração de comportamentos nos agentes económicos, no sentido de diminuir o dano ambiental e (3) as taxas fiscais, que se caracterizam por estarem integradas no sistema fiscal. Direitos Transaccionáveis de Emissão - A abordagem de DT’s para o controlo de poluição baseia-se na criação de mercados de direitos, por exemplo, de emissão. Quando a afectação inicial de responsabilidades de controlo de poluição não é eficiente, o funcionamento do mercado gera oportunidades de transacção de direitos, que teoricamente só se esgotam quando a afectação atingir o ponto de eficiência. O preço a pagar para emitir um dado poluente será, assim, determinado pelo confronto da procura e da oferta. Com este tipo de instrumento controlam-se directamente as emissões totais de poluentes, ao mesmo tempo que se actua nos mercados, permitindo agregar algumas vantagens já referidas para os instrumentos 55 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL de comando e controlo (ex. eficácia ambiental) com vantagens de outros instrumentos económicos (ex. eficiência económica). Os mercados de DT’s são um tipo de instrumento de mercado que apresenta vantagens interessantes, mas a sua eficácia depende da forma como são concebidos e administrados, bem como das condições específicas dos problemas ambientais em estudo. Assim, os programas devem ser desenvolvidos de uma forma flexível que incentive as trocas, permitindo a redução das emissões e a correspondente melhoria da qualidade do ambiente, através da afectação dos esforços de controlo nas fontes adequadas, nomeadamente para atingir as soluções com melhor relação custo-eficácia. 4.2.2.3. Instrumentos de Informação e Actuação Voluntária As estratégias de divulgação, ou instrumentos de informação, constituem a terceira geração de instrumentos de política de ambiente. Os instrumentos de informação caracterizam-se por envolverem tentativas públicas ou privadas para aumentar a disponibilidade de informação junto de trabalhadores, consumidores, accionistas, e público em geral, nomeadamente sobre a qualidade do ambiente e a poluição gerada, bem como sobre as características ambientais de actividades, produtos e/ou processos. As abordagens voluntárias também são incluídas nesta categoria de instrumentos. Com estes instrumentos, os agentes assumem com as autoridades ambientais compromissos, quantitativos ou qualitativos, para melhorar o seu desempenho ambiental, por vezes, e desejavelmente, para além do que a lei estritamente estabelece. Existe uma vasta experiência de aplicação de instrumentos deste tipo nalguns países, com sucesso evidente, como é o caso da Holanda. Exigem uma cultura de substantiva cooperação e de autocontrolo, e capacidade de enfrentar free riders. Na Tabela 11 apresentam-se exemplos de instrumentos de cada uma das categorias consideradas, frequentemente referidos para promover a execução da política de ambiente. 56 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Tabela 11 – Exemplos de instrumentos de política de ambiente Instrumentos Económicos Regulação Directa • • • • • Proibições • Procedimentos de registo/licenciamento Utilização de Mercados Normas de emissão Normas sobre produtos Normas tecnológicas Normas de qualidade do ambiente • • Obrigações de take-back • Obrigações de rotulagem / informação Quotas de incorporação de materiais reciclados Informação /Actuação Voluntária Criação de Mercados • Taxas sobre emissões • Direitos transaccionáveis de emissão • Taxas sobre produtos • • • Taxas de utilização Direitos transaccionáveis de desenvolvimento • • Subsídios • Isenções fiscais Esquemas de depósito e reembolso Remoção de subsídios distorcivos • Quotas individuais de captura transaccionáveis • Esquemas de responsabilidade civil por danos ambientais • Títulos de desempenho ambiental • • Rótulos ecológicos • Certificação ambiental de empresas/ actividades/ produtos (EMAS e ISO 14000) • • Acordos negociados Códigos de conduta ambientais Disponibilização/ divulgação de informação 4.3. Análise da Política Ambiental para os Principais Problemas Ambientais 4.3.1. Consumo de Recursos Não Renováveis A Política Ambiental referente ao consumo de recursos não renováveis assenta numa maior eficiência energética (tanto na oferta como no consumo de electricidade) e na diversificação da produção de electricidade, com um aumento da contribuição relativa das energias renováveis. O aumento da eficiência energética permite não só diminuir a pressão sobre a utilização de recursos não renováveis, como também contribui para reduzir todos os impactes ambientais associados à produção de electricidade. O incremento das fontes renováveis, ao contribuir para a redução na utilização de combustíveis fósseis, também desempenha um papel relevante na minimização dos problemas associados à queima de combustíveis, nomeadamente alterações climáticas, acidificação e formação de ozono troposférico. Assim, analisaram-se as implicações para o Sector Eléctrico inerentes a estes dois aspectos: eficiência energética e energias renováveis. 4.3.1.1. Política Internacional No que diz respeito à eficiência energética salienta-se o Protocolo relativo à eficiência energética e aos aspectos ambientais associados (assinado conjuntamente com o Tratado da Carta da Energia), de 17 de Dezembro de 1994, que tem por objectivo fundamental incentivar o estabelecimento de políticas nacionais no âmbito da eficiência energética. Em 1997 as Nações Unidas lançaram a Iniciativa para a Conservação de Energia, que analisa os usos de energia e 57 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL eficiência energética de 53 países, entre os quais Portugal. É referido que a eficiência energética aumentou a partir do choque petrolífero da década de 70, sendo, no entanto, possível a obtenção de maiores ganhos ao nível da eficiência energética, estimados numa redução no consumo de energia de cerca de 20-30% durante as próximas duas a três décadas. A promoção das fontes renováveis tem aumentado significativamente nos últimos anos. Os instrumentos de política normalmente utilizados consistem sobretudo em incentivos económicos e fiscais para a produção de electricidade a partir de fontes renováveis. Mais recentemente têm surgido abordagens distintas, como o estabelecimento de preços “verdes” ou a criação de sistemas de certificados “verdes”, numa lógica de abordagem voluntária. Este tipo de instrumentos permite gerar receitas privadas, e a consequente capacidade de investimento, o que pode constituir uma alternativa ao tradicional investimento público. Tratam-se igualmente de instrumentos eficientes do ponto de vista económico. 4.3.1.2. Política Comunitária Ao nível da Política Comunitária para a eficiência energética, destaca-se o Plano de Acção para a Eficiência Energética [COM(2000)247]. Este plano refere que existe um potencial de redução dos consumos energéticos até 2010 de 18% relativamente aos valores actuais. Prevê-se reduzir anualmente a intensidade energética em 1%, o que representa uma redução de cerca de 9% do consumo até 2010, ou seja, metade do potencial de redução de 18% estimado. A Comissão propõe, igualmente, a duplicação da quota da energia proveniente da co-geração para 18% da produção total de energia. A eficiência energética no sector residencial é também um aspecto importante na política comunitária, existindo várias Directivas na área. Relativamente às energias renováveis, foi elaborado o Livre Verde da Comissão sobre as Fontes de Energia Renováveis [COM(96)576], onde é fixado um objectivo ambicioso de duplicar a contribuição das energias renováveis para o consumo energético interno bruto (ou seja, 12% em 2010). Em 1997 é publicado o Livro Branco sobre Energias Renováveis, para uma estratégia e um plano de acção comunitários [COM(97)599]. Este Livro surge na sequência do Livro Verde, reforçando o objectivo central estabelecido que consiste em duplicar a parte das fontes de energia renováveis no consumo interno bruto de energia na UE (12% até 2010). É ainda apresentado o objectivo de produção de 22.1% de energia eléctrica a partir de fontes renováveis em 2010. 58 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Mais recentemente, foi aprovada a Directiva 2001/77/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de Setembro, relativa à promoção da electricidade produzida a partir de fontes renováveis no mercado interno da electricidade. A Directiva constitui uma parte do pacote de medidas necessárias ao cumprimento do Protocolo de Quioto. Por outro lado, a Directiva deve também ser encarada à luz do objectivo indicador de duplicar a quota das energias renováveis dos actuais 6% para 12% do consumo interno bruto de energia, tal como foi definido no Livro Branco sobre fontes renováveis de energia. Por forma a atingir o seu objectivo, a Directiva propõe que seja exigido aos Estados Membros que estabeleçam metas indicativas nacionais para o consumo de electricidade produzida a partir de fontes renováveis. A Directiva apresenta em anexo (ver Tabela 12), valores indicativos para estas metas nacionais, a definir por cada um dos Estados Membros. Para Portugal é indicado o valor de 39% (incluindo aproveitamentos hidroeléctricos com potência instalada superior a 10 MW) como meta a alcançar em 2010 para o consumo de electricidade produzida a partir de fontes renováveis em percentagem do consumo bruto total de electricidade. A nível comunitário têm, também, vindo a ser lançados vários programas de incentivos importantes, tais como o Programa SAVE, visando promover a utilização racional e eficaz dos recursos energéticos e os Programas ALTENER e o JOULETHERMIE de promoção das fontes de energias renováveis. Tabela 12 – Valores de referência para as metas indicativas nacionais dos Estados Membros relativas à fracção da electricidade produzida a partir de fontes renováveis (E-FER) no consumo bruto de electricidade (Directiva 2001/77/CE) Países Bélgica Dinamarca Alemanha Grécia Espanha França Irlanda Itália Luxemburgo Países Baixos Áustria Portugal Finlândia Suécia Reino Unido Comunidade Europeia E-FER 1997 % 1.1 8.7 4.5 8.6 19.9 15.0 3.6 16.0 2.1 3.5 70.0 38.5 24.7 49.1 1.7 13.9 E-FER 2010 % 6.0 29.0 12.5 20.1 29.4 21.0 13.2 25.0 5.7 9.0 78.1 39.0 31.5 60.0 10.0 22.1 59 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4.3.1.3. Política Nacional A criação do Centro para a Conservação da Energia (CCE), actual Agência para a Energia (ADENE), em 1984, foi um dos primeiros passos tomados no sentido da adopção de uma política de utilização racional e eficiente da energia. Outro passo importante foi a criação, em 1988 (Decreto-Lei n.º 188/88), do Sistema de Incentivos à Utilização Racional de Energia de Base Regional (SIURE), publicado juntamente com o Decreto-Lei n.º 189/88, que possibilitaram um acentuado desenvolvimento da produção de energia eléctrica por produtores independentes, valorizando a utilização de recursos endógenos. Posteriormente foi criado o Programa Energia, tendo sido apoiados um total de 607 projectos, entre 1994 e 2001, dos quais cerca de 55% são na área da eficiência energética. Com o intuito de dar um novo impulso à utilização das fontes endógenas de energia e permitir uma maior articulação entre as políticas de energia e do ambiente foi publicado o Decreto-Lei n.º 168/99, de 18 de Maio e, mais recentemente o Decreto-Lei n.º 339-C/2001, de 29 de Dezembro. Estes diplomas estabelecem um regime que determina que toda a energia produzida é obrigatoriamente adquirida pela distribuidora local de energia eléctrica, qualquer que seja a potência da instalação, excepto para aproveitamentos hidroeléctricos cuja potência está limitada aos 10 MW (DGE, 2002). Mais recentemente, no âmbito do Programa Operacional da Economia (POE), destaca-se a Medida 2.5 - MAPE que tem por objectivos reduzir a intensidade energética nacional, promover o desenvolvimento da produção de energia recorrendo a recursos endógenos, limpos e renováveis, incentivar uma utilização cada vez mais racional da energia, minimizar os impactes ambientais decorrentes da produção e consumo de energia e reduzir a dependência externa do sistema energético nacional. Por último, em Setembro de 2001 foi publicado pelo Ministério da Economia o Programa E4 - Eficiência Energética e Energias Endógenas, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 154/2001, de 19 de Outubro. Este Programa apresenta como principal meta a duplicação da potência eléctrica instalada por via renovável de modo a atingir o objectivo de produção de 39% (estabelecidos na Directiva 2001/77/CE) de energia eléctrica de origem renovável (incluindo a energia hidroeléctrica) num horizonte de dez a quinze anos. 4.3.1.4. Implicações para o Sector Eléctrico Da análise da política internacional, comunitária e nacional conclui-se que a aposta na eficiência energética e na produção de electricidade a partir de fontes de energia renováveis são essenciais para o Sector Eléctrico. 60 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL No âmbito da legislação apresentada, destaca-se a Directiva 2001/77/CE, vulgarmente designada por Directiva das Renováveis. O cumprimento da meta estabelecida na directiva (39% de produção de electricidade a partir de fontes de energia renováveis em 2010) trata-se de um grande desafio para o Sector. A construção de novas centrais hidroeléctricas de grande dimensão está fortemente condicionadas por razões ambientais, ou seja, para que a meta seja cumprida é necessário um maior desenvolvimento das restantes formas de produção de energia renovável (DGE, 2002). Uma maior aposta na eficiência energética e na racionalização dos consumos também irá contribuir fortemente para o cumprimento da meta estabelecida, pois pode permitir que a produção de energia a partir de fontes renováveis cresça a um ritmo moderado (DGE, 2002). 4.3.2. Alterações Climáticas 4.3.2.1. Política Internacional O Protocolo de Quioto, adoptado, em 1997, pelos países participantes na Terceira Conferência das Partes (CoP 3) à Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, enquadra, à escala da política internacional, o problema das alterações climáticas e a estratégia para a sua mitigação. Sob a sua égide, os países desenvolvidos (Anexo I da Convenção) ficam colectivamente obrigados a reduzirem as suas emissões de gases com efeito de estufa (GEE’s) em, pelos menos, 5% relativamente aos níveis de 1990, no período de cumprimento 2008-2012. No que concerne à estratégia de mitigação que cada Parte deve adoptar para o efeito, o Protocolo é omisso. Não obstante, no reconhecimento da multiplicidade e diversidade das circunstâncias nacionais e da efectiva oportunidade e capacidade (técnica, política, administrativa, económica) para o desenvolvimento de esforços adicionais para redução de emissões, o Protocolo preconiza a implementação, à escala internacional, de um conjunto de (três) mecanismos de mercado: o Comércio de Emissões (CE), a Implementação Conjunta (IC) e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Em termos formais, o Protocolo foi aberto para assinatura em Março de 1998 e entrará em vigor 90 dias após a sua ratificação por parte de mais de 55 dos 84 signatários, cujas emissões representem, pelo menos, 55% do total das emissões de CO2 (em 1990). A 24 de Fevereiro de 2003, 105 Partes já ratificaram ou acederam ao Protocolo11. Não obstante, as suas emissões representam apenas cerca de 44% do total, o que, cadjuvado pela decisão de não ratificação dos EUA, 11 Fonte: http://unfccc.int/resource/kpstats.pdf. 61 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL coloca a (im)possibilidade da sua entrada em vigor na decisão de (não) ratificação da Federação Russa, que se espera vir a ser tomada no decurso dos próximos meses12. 4.3.2.2. Política Comunitária A estratégia da União Europeia (UE) para as alterações climáticas tem sido formulada com o objectivo de cumprir os quantitativos de redução de emissões de GEE’s estabelecidos no Protocolo de Quioto: menos 8% relativamente aos níveis de 1990, no primeiro período de cumprimento, 2008-2012. Em termos políticos, esta estratégia consubstancia-se na adopção do acordo de partilha de responsabilidades, sob o qual cada Estado-Membro fica sujeito a uma meta específica de redução ou controlo das suas emissões de GEE’s13. Em termos de acção política, a estratégia da UE encontra-se consagrada no Programa Europeu para as Alterações Climáticas (PEAC) e assenta em duas componentes principais e complementares: (1) reforçar a adopção de políticas e medidas nacionais orientadas para a redução de emissões de GEE’s provenientes de fontes específicas (COM(2000)88), privilegiando o recurso a instrumentos regulamentares, em complemento e articulação com instrumentos económicos (taxas)14, de actuação voluntária (acordos voluntários) e de informação (CE, 2001); e (2) introduzir, à escala comunitária, um sistema de comércio de direitos de emissão para o sector da energia e grandes instalações industriais (COM(2000)87), a fim de melhorar a relação custo-eficácia da estratégia de cumprimento comunitária e preparar os Estados-Membros (e os seus agentes económicos) para a utilização dos mecanismos de mercado do Protocolo. Relativamente ao PEAC, em Outubro de 2001, a Comissão Europeia apresentou uma proposta de Comunicação (COM (2001)580) para a primeira fase da sua implementação. Actualmente, encontra-se em redacção uma proposta para fases de aplicação subsequentes. No que concerne ao comércio europeu de direitos de emissão, o Conselho Europeu de Ambiente aprovou, a 9 de Dezembro de 2002, uma Proposta de Directiva 12 Para actualização da informação consultar http://unfccc.int/resource/convkp.html. Tal como à escala internacional, o reconhecimento da diversidade das circunstâncias nacionais e da capacidade para reduzir as emissões de GEE’s conduziu à diferenciação das metas de controlo e redução de emissões de GEE’s entre os 15 Estados-Membros. 14 Por exemplo, é expectável que a União Europeia venha retomar, a prazo, o debate sobre a introdução de uma taxa sobre o carbono e a harmonização da tributação de produtos energéticos (CAC, 2001). 13 62 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL (14935/02, EN)15, que se encontra, actualmente, no Parlamento Europeu para segunda leitura, não sendo expectável a introdução de alterações estruturais relevantes (Delbeke, 2003). Não obstante, é de salientar que o documento aprovado apresenta algumas alterações relativamente à proposta original em discussão (COM(2001)581), apresentada no 3º Relatório do presente Estudo, por exemplo, no que se refere à potencial cobertura de actividades/instalações e de GEE’s e à possibilidade da utilização de créditos gerados no âmbito dos mecanismos de mercado do Protocolo de Quioto (nomeadamente IC e MDL). O Anexo I clarifica estes e outros aspectos, actualizando, assim, o conteúdo do 3º Relatório. 4.3.2.3. Política Nacional Portugal, enquanto país signatário do Protocolo de Quioto, comprometeu-se, sob o acordo de partilha de responsabilidades negociado na UE, a controlar as suas emissões de GEE’s por forma a que as mesmas, no primeiro período de cumprimento, 2008-2012, não excedam 27% do nível registado em 1990. De acordo com as projecções mais recentes, realizadas no âmbito dos estudos técnicos preparatórios do Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC) e que actualizam as do PNAC’2001, as emissões nacionais de GEE’s, em 201016, situar-se-ão em cerca de 92.5 e 97.4 Mton de CO2 e, no “cenário business as usual” (BAU) baixo e alto, respectivamente (Figura 27). Atendendo ao conjunto de medidas e instrumentos de política que se encontram actualmente em vigor, ou em fase de planeamento, e cujos efeitos nas emissões de GEE’s se farão sentir até 2012, as emissões nacionais, em 2010, reduzem-se para 87.5 e 91.4 Mton CO2e, no “cenário de referência” (CR) baixo e alto, respectivamente. 15 16 Interinstitutional File: 2001/0245 (COD). Emenda a Directiva do Conselho 96/61/EC. Ano médio do primeiro período de cumprimento. 63 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 100 95 90 Mton CO2e 85 80 75 70 65 60 55 50 1990 2000 2010 Meta Quioto Inventários nacionais BAU - Cenário Alto BAU - Cenário Baixo CR - Cenário Baixo CR - Cenário Alto Figura 27 – Cenários de emissão de GEE’s e esforço de redução (BAU e de Referência) (Fonte: IA, CEEETA, FCT/UNL, 2003) Por conseguinte, Portugal, para cumprir com as responsabilidades assumidas no âmbito de Quioto e da UE, terá de efectuar um esforço (adicional) de redução de emissões de GEE’s de cerca de 10.7 a 14.6 Mton CO2e (Tabela 12). Tabela 12 - Esforço de redução de emissões de GEE’s (BAU e de Referência) Esforço de redução (Mton CO2e) Cenário Baixo Cenário Alto Cenário BAU 15,7 20,6 Cenário de Referência 10,7 14,6 Nota: As estimativas apresentadas consideram Florestas e Alterações do Uso do Solo (FAUS). Fonte: IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) (http://www.iambiente.pt) O “cenário de cumprimento” (CC) do PNAC visa equacionar a estratégia nacional de cumprimento destas responsabilidades e compreende: (i) a implementação de medidas e instrumentos (adicionais), à escala nacional; (ii) a adopção do comércio europeu de direitos de emissão; e (iii) o eventual recurso aos mecanismos de flexibilidade de Quioto (CE, IC e MDL). Actualmente, encontra-se em fase de discussão com os agentes sectoriais as medidas e instrumentos adicionais equacionados pela equipa técnica no âmbito da construção do CC. Este cenário deverá encontrar-se concluído no final do mês de Março. No que concerne, especificamente, à adopção do comércio europeu de direitos de emissão, esta será efectivada através do Plano Nacional de Alocação, cuja elaboração ficará a cargo da(s) autoridade(s) competente(s), em Portugal, ainda a 64 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL definir. Relativamente à primeira fase de mercado, o Plano deverá encontrar-se concluído até 31 de Março de 2004. 4.3.3. Acidificação, eutrofização e ozono troposférico 4.3.3.1. Política Internacional – Convenção sobre Poluição Atmosférica Transfronteira A abordagem do problema da poluição atmosférica transfronteira é enquadrada pela Convenção sobre Poluição Atmosférica Transfronteira de Longa Distância (CLTRAP – Convention on Long-Range Transboundary Air Pollution), desenvolvida no âmbito de UN/ECE, assinada em Geneva em 1979 por 34 Governos e pela Comissão Europeia. A CLRTAP foi aprovada, para ratificação, em Portugal em 1980, através do Decreto nº 45/80, de 12 de Julho. A Convenção foi o primeiro instrumento internacional com força legal abordando problemas de poluição atmosférica numa escala regional alargada. Para além de definir os princípios gerais de cooperação internacional para controlo da poluição atmosférica, a Convenção estabeleceu uma estrutura institucional integrando a investigação e a política. Desde a entrada em vigor da CLRTAP em 1983, esta Convenção foi complementada por oito protocolos, cuja implementação tem permitido alcançar resultados significativos, quer em termos de reduções nas emissões alcançadas, quer também no estabelecimento de uma estrutura institucional e de investigação de suporte à sua implementação. O mais recente protocolo desta Convenção (Protocolo de Gotemburgo17), ao introduzir uma nova abordagem, multi-efeito, multi-poluente, é o mais sofisticado até à data. Este Protocolo visa a promoção de acções para controlar simultaneamente a acidificação, a eutrofização e o ozono ao nível do solo, numa abordagem integrada, assente em fundamentos científicos sólidos. No caso Europeu, o processo negocial foi suportado por um modelo, que avalia os efeitos das emissões de cada país e os custos das medidas de redução das emissões, e pela informação disponibilizada no âmbito do Programa EMEP. A sensibilidade dos diferentes ecossistemas foi um factor chave neste processo, dado o objectivo de longo prazo do Protocolo de garantir a sua protecção. 17 Assinado por Portugal a 1/12/1999, mas ainda não ratificado. 65 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL A principal obrigação do Protocolo de Gotemburgo relaciona-se com o estabelecimento de tectos de emissão para o SO2, NOx, COV’s e amónia, que devem ser atingidos até 2010. O cumprimento destas metas requer reduções significativas das emissões em muitos países. Os países cujas emissões causam pouco dano comprometem-se a estabilizar as suas emissões. O Protocolo também estabelece obrigações para novas fontes fixas (nas quais se incluem grandes instalações de combustão, produção de electricidade e processos industriais) e móveis, para as quais se aplicam valores limite de emissão. 4.3.3.2. Política Comunitária Tectos Nacionais de Emissão A Directiva 2001/81/EC do Parlamento Europeu e do Conselho de 23 de Outubro de 2001 estabelece tectos nacionais de emissão para determinados poluentes atmosféricos, considerando nomeadamente os compromissos assumidos pelos Estados-Membros no âmbito do Protocolo de Gotemburgo, tomando os anos 2010 e 2020 como referências. A Directiva 2001/81/EC estabelece que até ao ano de 2010 os Estados-Membros devem limitar as suas emissões nacionais dos poluentes SO2, NOx, COV, e NH3 a quantidades não superiores aos tectos de emissão que têm como finalidade cumprir, em termos gerais, os seguintes objectivos ambientais para a Comunidade até 2010: a) Acidificação – as áreas em que as cargas críticas são excedidas devem ser reduzidas em pelo menos 50% em relação à situação em 1990. b) Exposição humana ao ozono ao nível do solo – a carga de ozono ao nível do solo acima do nível crítico para a saúde humana deve ser reduzida em 2/3 em todas as células da grelha, relativamente à situação em 1990. Adicionalmente, a carga de ozono ao nível do solo não deve exceder o limite absoluto de 2.9 ppm.h em nenhuma célula da grelha. c) Exposição da vegetação ao ozono ao nível do solo – a carga de ozono ao nível do solo acima do nível crítico para as colheitas e vegetação semi-natural deve ser reduzida em 1/3 em todas as células da grelha, relativamente à situação em 1990. Adicionalmente, a carga de ozono ao nível do solo não deve exceder o limite absoluto de 10 ppm.h, expresso como uma excedência do nível crítico de 3ppm.h em nenhuma célula da grelha. A Directiva estabelece ainda que os Estados-Membros devem desenvolver, até 1 de Outubro de 2002, programas nacionais para a redução progressiva das 66 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL emissões nacionais dos poluentes considerados, de modo a cumprirem os tectos nacionais de emissão em 2010, bem como preparar e actualizar anualmente inventários nacionais de emissões e projecções para 2010 utilizando a metodologia acordada no âmbito da CLRTAP e as directrizes EMEP/CORINAIR. Os Estados Membros devem proceder à transposição desta Directiva até 27 de Novembro de 2002. Emissões Atmosféricas das Grandes Instalações de Combustão As emissões atmosféricas das Grandes Instalações de Combustão foram recentemente objecto de nova regulamentação comunitária, introduzida pela Directiva 2001/80/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho de 23 de Outubro de 2001, sobre a limitação das emissões de certos poluentes para a atmosfera de grandes instalações de combustão, que revoga a Directiva 88/609/CEE. Esta Directiva visa também dar cumprimento aos compromissos relativos aos valores limite de emissão para fontes fixas assumidos pela União Europeia no âmbito do Protocolo de Gotemburgo. A Directiva 2001/80/CE estabelece essencialmente valores limite de emissão de dióxido de enxofre, óxidos de azoto e poeiras aplicáveis a grandes instalações de combustão18, existentes e novas. Os valores limite de emissão estabelecidos para as novas instalações de combustão permitem cumprir os valores estabelecidos no Protocolo de Gotemburgo, sendo nalguns casos mais exigentes. A Directiva 2001/80/CE estabelece ainda os procedimentos e obrigações de monitorização de emissões aplicáveis a instalações novas e existentes. Qualidade do Ar Em 1996 o Conselho Europeu adoptou a Directiva Quadro de Qualidade do Ar (Directiva 96/62/CE do Conselho de 27 de Setembro de 1996), relativa à avaliação e gestão da qualidade do ar ambiente. Esta Directiva abrange a revisão de legislação anteriormente existente sobre qualidade do ar, bem como a introdução de novas normas de qualidade do ar para poluentes anteriormente não regulamentados, estabelecendo calendários para a adopção de Directivas-filhas para uma gama de poluentes. Os poluentes abrangidos são o dióxido de enxofre, dióxido de azoto, partículas, chumbo e ozono, já abrangidos por anterior legislação, bem como benzeno, monóxido de carbono, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, cádmio, arsénio, 18 Instalações de combustão com um input térmico igual ou superior a 50 MW, independentemente do tipo de combustível utilizado (sólido, líquido ou gasoso) 67 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL níquel e mercúrio. Para além de estabelecer os critérios e calendários para a definição das normas de qualidade do ar, a Directiva Quadro requer a avaliação da qualidade do ar e a sua divulgação nos Estados Membros com base em critérios e métodos comuns, para o que a Comissão tem vindo a preparar documentos guia. A Directiva Quadro foi seguida por um conjunto de Directivas-filhas, que estabelecem os valores limite, ou, no caso do ozono, os valores alvo, para os diferentes poluentes. Para elém do estabelecimento dos valores limite e limiares de alerta, as Directivas-filhas procuram harmonizar as estratégias de monitorização, os métodos de medição, os métodos de calibração e de avaliação de qualidade, de modo a obterem-se medições comparáveis no espaço Europeu e a fornecer informação adequada ao público. A primeira Directiva-filha a ser publicada (Directiva 1999/30/CE, do Conselho de 22 de Abril de 1999) que estabelece valores-limite para o NOx, SO2, Chumbo e PM10, entrou em vigor em Julho de 1999. A Directiva 2000/69/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Novembro de 2000, que estabelece valores-limite para o benzeno e monóxido de carbono, entrou em vigor em 13 de Dezembro de 2000. Os valores-limte de ozono no ar ambiente são objecto da Proposta de Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho 2000/C 56 E/11, apresentada na Comunicação COM (1999) 125 final, que irá substituir a actual Directiva do ozono (Directiva 92/72/CE). Esta proposta de Directiva estabelece objectivos de longo prazo equivalentes aos novos valores guia da OMS e valores alvo, que devem ser alcançados até 2010. O cumprimento das novas exigências Comunitárias em termos de qualidade do ar, para além de poderem vir a limitar a implementação e localização de novas instalações, poderão também vir a ter implicações para instalações termoeléctricas existentes, sobretudo para aquelas que se localizarem em zonas de excedência dos valores limte de qualidade do ar que venham a ser objecto de programas de acção. 4.3.3.3. Política Nacional A estratégia nacional de cumprimento dos tectos de emissão estabelecidos na Directiva 2001/81/CE tem vindo a ser definida no Programa para os Tectos de Emissão Nacional (PTEN). A Directiva Quadro de Qualidade do Ar foi transposta para o Direito nacional através do Decreto-Lei nº 276/99, que revoga parcialmente a anterior legislação, designadamente o Decreto-Lei nº 352/90, que estabelecia o anterior quadro geral do regime de protecção e controlo da qualidade do ar. A Portaria 286/93 de 12 de Março fixa os valores limite e os valores guia no ambiente para o dióxido de 68 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL enxofre, partículas em suspensão, dióxido de azoto e monóxido de carbono, bem como o valor limite para o chumbo e o valores guia para o ozono troposférico. Estes valores deverão vir a ser revistos em função das novas Directivas Comunitárias de qualidade do ar, aprovadas na sequência da nova Directiva Quadro. A Portaria 286/93 estabelece ainda valores limite de aplicação geral e de aplicação sectorial, incluindo as grandes instalações de combustão. Note-se, no entanto, que estes valores traduzem ainda o disposto na Directiva 88/609/CE, havendo necessidade de os ajustar de acordo com o estabelecido na nova Directiva das Grandes Instalações de Combustão. A Portaria define também os tectos e metas de redução para as emissões de SO2 e NOx das grandes instalações de combustão, de acordo com a Directiva 88/609/CE, fixando ainda limites para o teor de enxofre nos combustíveis líquidos. A Direcção Geral do Ambiente é a entidade responsável pela realização anual dos inventários nacionais de emissões de poluentes atmosféricos, necessários, nomeadamente para dar cumprimento às obrigações estabelecidas na CLRTAP e na UNFCC. 4.3.3.4. Implicações para o Sector Eléctrico Os novos valores limite de emissão para as grandes instalações de combustão (GIC), bem como o cumprimento das novas exigências Comunitárias em termos de qualidade do ar, implicarão um acréscimo significativo do esforço de controlo de poluição por parte das instalações termoeléctricas. De acordo com o cenário de cumprimento considerado no PTEN19 o cumprimento daqueles limites, conjuntamente com as limitações decorrentes da implementação da Directiva sobre Prevenção e Controlo Integrado de Poluição (PCIP), e restante regulamentação ambiental em implementação, permitirão controlar as emissões de SO2 e NOx a um nível tal, que não será necessário um esforço significativo adicional para garantir o cumprimento dos tectos nacionais de emissão. Note-se, no entanto, que tal não significa que o sector eléctrico não terá que realizar esforços de redução de emissões por forma a se conformar com as novas exigências, mas apenas que o esforço requerido para cumprir as restantes obrigações já permite cumprir os tectos de emissão. 19 IA, DCEA FCT/UNL, CEEETA, (2002), “Programa de Tectos de Emissão Nacional. Estudos de Base. Cenário de Cumprimento”. 69 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4.3.4. Perda de Biodiversidade 4.3.4.1. Política Internacional Os principais passos de política internacional no domínio da conservação da natureza surgiram na sequência da Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Humanidade que teve lugar em Estocolmo, em 1972. Desta Conferência resultou a criação do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e, mais tarde a “Estratégia Mundial de Conservação”, apresentada pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) em 1980. Desde o início dos anos 70 foram adoptadas diversas Convenções Internacionais no domínio da conservação da natureza, tais como a Convenção de Ramsar sobre Zonas Húmidas, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Ameaçadas de Extinção (CITES), a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras da Fauna Selvagem (Convenção de Bona) e a Convenção de Berna sobre a Vida Selvagem e os Habitats Naturais da Europa. O reconhecimento da necessidade de uma acção internacional concertada para fazer face à perda de biodiversidade levou também à preparação da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), aberta para assinatura na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, que teve lugar no Rio de Janeiro em 1992. Esta Convenção foi ratificada por Portugal através do Decreto-Lei nº 21/93, de 29 de Junho. A CDB tem três objectivos fundamentais, designadamente a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável das suas componentes e a partilha justa e equitativa dos benefícios resultantes da utilização dos recursos genéticos. A CDB introduziu uma nova abordagem, ao reconciliar a necessidade de conservação com a preocupação de desenvolvimento, baseada em considerações de igualdade e partilha de responsabilidades. A CDB preconiza o desenvolvimento de estratégias internacionais e nacionais que enquadrem a adopção de medidas destinadas a promover a conservação da natureza e a utilização sustentável da biodiversidade. 4.3.4.2. Política Comunitária A política de conservação da natureza da União Europeia assenta em duas Directivas fundamentais: a Directiva Aves (Directiva 79/409/CE), relativa à conservação das aves selvagens, e a Directiva Habitats (Directiva 92/43/CEE), relativa à preservação dos habitats naturais da fauna e da flora selvagens. Estas duas directivas estabelecem a salvaguarda dos habitats naturais das espécies da 70 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL fauna e da flora, nomeadamente por meio da criação de uma rede europeia de sítios protegidos. O conjunto das Zonas Especiais de Conservação, estabelecidos no âmbito da Directiva Habitats, e das Zonas de Protecção Especial, designadas no contexto da Directiva Aves, constituirá a “Rede NATURA 2000”. Os planos ou projectos susceptíveis de virem a afectar um sítio “NATURA 2000” de modo significativo, individualmente ou em conjugação com outros projectos, deverão ser objecto de uma avaliação adequada, tendo em conta o valor natural que esteve na origem da integração do sítio na rede. Se o plano ou projecto não afectar a integridade do sítio em causa, e após auscultação, se necessário, da opinião pública, poderá ser aprovado. No caso contrário, na ausência de soluções alternativas, a actividade em questão apenas poderá ser exercida no sítio por razões imperativas de reconhecido interesse público, incluíndo as de natureza social ou económica. Esta disposição poderá ser relevante para o caso do desenvolvimento de novos projectos de produção e transporte de electricidade em zonas integradas na Rede NATURA 2000, ou nas suas proximidades. Note-se que as localizações adequadas para a instalação de determinados tipos de projectos de aproveitamento de fontes renováveis de energia eléctrica, nomeadamente eólicas e hídricas, se encontram frequentemente em zonas com interesse conservacionista. 4.3.4.3. Política Nacional A política nacional de protecção da natureza iniciou-se com a publicação da Lei nº 9/70, de 19 de Junho, que introduziu as noções de parque nacional e reserva e ao abrigo da qual foi criado o Parque Nacional da Peneda Gerês e foram instituídas várias reservas. Actualmente o quadro legislativo da protecção de natureza é estabelecido pelo Decreto-Lei nº 19/93, de 23 de Janeiro de 1993 que cria o sistema nacional de áreas protegidas, compreendendo áreas protegidas de interesse nacional, regional e local. O Decreto-Lei nº 140/99, transpôs para o direito português alguns princípios gerais contidos na Directiva Aves, tendo a Directiva Habitats sido transposta através do Decreto-Lei nº 226/97. Posteriormente, o Decreto-Lei nº 140/99 revê a transposição para a ordem jurídica interna das Directivas Aves e Habitats conjuntamente. A elaboração da lista nacional de sítios a classificar como Zonas Especiais de Conservação para integrar a Rede NATURA 2000 decorreu em Portugal em duas fases. Na 1ª fase, identificou-se um conjunto inicial de sítios, tendo como objectivo primordial dar resposta adequada à ameaça de extinção de determinadas espécies, 71 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL bem como à degradação representatividade dos valores de habitats naturais aos e paisagens. níveis Considerando nacional, comunitário a e biogeográfico, e a evolução do conhecimento científico sobre o património natural, foi aprovada em 2000 uma 2ª lista nacional de sítios. Constata-se que já existem significativas áreas do território nacional classificadas ao abrigo de um, ou vários, dos instrumentos de conservação da natureza vigentes na legislação nacional, que constituem restrições à localização de novos centros electroprodutores. Restrições à localização de actividades são ainda introduzidas pela Reserva Ecológica Nacional (REN) criada pelo Decreto-Lei nº 321/83. Salientese ainda, que tal como se referiu anteriormente, Portugal adotou as principais Convenções Internacionais em matéria de protecção da natureza. A Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade foi recentemente aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros nº 152/2001 de 11 de Outubro de 2001. 4.3.4.4. Implicações para o Sector Eléctrico Muitas das obrigações assumidas por Portugal em matéria de conservação da natureza e protecção da biodiversidade traduzem-se por limitações à implantação de actividades causadoras de perturbações nos ecossistemas em zonas com interesse ecológico ou de danos a espécies com estatuto de protecção. As actividades do sector eléctrico têm fortes impactes nos ecossistemas, nomeadamente a implantação de centros produtores, tanto de fontes convencionais como renováveis (tais como as hidroeléctricas e eólicas), e as actividades de transporte de electricidade. Neste contexto, a política de conservação da natureza condiciona fortemente o desenvolvimento das actividades do sector eléctrico, sobretudo na localização de novas instalações e infraestruturas. 4.3.5. Recursos Hídricos 4.3.5.1. Política Internacional O enquadramento do regime jurídico das águas internacionais é, no essencial, estabelecido por duas convenções-quadro multilaterais: a Convenção de Helsínquia, relativa à protecção e utilização dos cursos de água transfronteiriços e lagos internacionais, de 1992, e a Convenção de Nova Iorque, sobre o Direito dos Usos dos Cursos de Água Internacionais para Fins Distintos dos da Navegação, de 1997 (ainda não em vigor). Verifica-se, assim, que não existe um grau de desenvolvimento da política internacional neste domínio como existe para outros problemas ambientais abordados anteriormente. 72 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4.3.5.2. Política Comunitária A política de recursos hídricos da União Europeia, ao contrário da política internacional, reúne um conjunto de orientações e de instrumentos que condicionam fortemente as utilizações do domínio hídrico. Presentemente, o objectivo geral da política comunitária neste domínio consiste na promoção de uma gestão integrada dos recursos hídricos. A Directiva-Quadro no domínio da política da água, Directiva 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro, estabelece um quadro de acção comunitária para a protecção das águas internas de superfície e de transição, e das águas costeiras e subterrâneas. Os objectivos gerais são os de prevenir e reduzir os níveis de poluição, e de promover a utilização sustentável da água, a protecção do ambiente, a melhoria do estado dos ecossistemas aquáticos e a redução dos impactes das inundações e das secas. Em termos gerais, a Directiva-Quadro vai ter implicações significativas nos utilizadores da água, incluindo o sector eléctrico, dado que associa ao estabelecimento de objectivos ambiciosos para o estado de qualidade, requisitos de avaliação dos impactes e pressões gerados por cada uso, bem como de análise económica dos usos e de aplicação do princípio da recuperação total dos custos. Estando ainda em discussão a definição do que deve ser entendido por usos e serviços da água, no espírito da Directiva, daí decorrendo a forma como cada uso contribuirá para a recuperação total dos custos, incluindo ambientais e de escassez, existe ainda uma margem de incerteza significativa sobre o que serão os reais impactes da Directiva-Quadro sobre usos da água associados ao sector eléctrico, nomeadamente em termos de condicionantes de utilização e de preço a pagar. 4.3.5.3. Relações Bilaterais Portugal-Espanha As relações bilaterais entre Portugal e Espanha para a gestão das bacias internacionais têm um contexto jurídico próprio, desde há várias décadas. Em 1998, foi assinada a Convenção sobre Cooperação para a Protecção e o Aproveitamento Sustentável das Águas das Bacias Hidrográficas Luso-Espanholas, visando o aproveitamento sustentável dos recursos. Esta Convenção adopta os princípios e as normas da Convenção Internacional sobre a Protecção e o Uso dos Rios Transfronteiriços, e da Convenção de Espoo sobre a Avaliação de Impacte Ambiental num Contexto Transfronteiriço. Adopta ainda os objectivos gerais da proposta de Directiva-Quadro da Água, então em fase de desenvolvimento, incorporando os princípios do aproveitamento sustentável dos recursos hídricos, da precaução e da prevenção. 73 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL A Convenção, que ecossistemas abrange as águas subterrâneas e superficiais, bem como os aquáticos e terrestres deles directamente dependentes, regulamentando todas as utilizações, em curso ou projectadas, que possam causar impactos transfronteiriços, aplica-se às bacias hidrográficas dos rios Minho, Lima, Douro, Tejo e Guadiana. 4.3.5.4. Política Nacional A Lei de Bases do Ambiente, estabelece que a bacia hidrográfica é a unidade de gestão dos recursos hídricos, a qual deverá ter em conta as suas implicações socioeconómicas, culturais e internacionais. Contudo, o actual sistema de gestão da água ainda não concretiza de forma efectiva esta orientação estratégica. As principais normas de qualidade da água constam do DL nº 236/98, de 1 de Agosto, fixando a qualidade em função de vários usos identificados e exprime uma compatibilização entre interesses de aproveitamento humano e os interesses na preservação da capacidade funcional ecológica. Estão ainda definidas em legislação normas de qualidade especiais para determinadas substâncias perigosas, normas gerais de descarga de águas residuais, nomas de descarga especiais e normas de descarga sectoriais previstas em contratos de promoção ambiental ou de adaptação ambiental. O regime jurídico da utilização do domínio hídrico, que se encontra sob a jurisdição do Instituto da Água, está unificado no Decreto Lei nº 46/94. O Decreto-Lei nº 194/2000, que transpôs para a ordem jurídica interna a Directiva nº 96/61/CE, relativa à prevenção e controlo integrados de poluição, integra o procedimento de licenciamento, para as actividades constantes do Anexo I do diploma, no procedimento de licença ambiental. A actividade de captação de águas para a produção de energia hidroeléctrica e o estabelecimento de infraestruturas hidráulicas estão sujeitas a títulos de utilização. A produção de energia eléctrica em aproveitamentos hidroeléctricos com potência inferior a 10 MW está sujeita a regime especial relativo ao sector eléctrico. A Portaria n.º 295/2002, de 19 de Março, regula o procedimento de obtenção de licenças necessárias para a produção de energia hidroeléctrica por pequenas centrais hidroeléctricas. A utilização do domínio hídrico exige coordenação da legislação do sector eléctrico com a legislação da água. Na análise dos aspectos jurídicos, apresentada no Plano Nacional da Água (DL 112/2002 de 17 de Abril), refere-se que existem algumas dificuldades, designadamente que “os aproveitamentos hidroeléctricos titulados por concessões, quer de utilidade pública, quer de interesse privado, atribuídas ao 74 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL abrigo da legislação vigente até meados da década de 90, encontram-se presentemente perante um quadro legal incompleto, quer do ponto de vista do sector eléctrico, quer do ponto de vista do sector da água”. O Decreto-Lei 46/94 define ainda uma hierarquização das utilizações de água, colocando a produção de energia em quarto lugar, após o consumo humano, agricultura e indústria, e antes do turismo e outros. Também no âmbito da gestão de conflitos foram criadas as Comissões de Gestão de Albufeiras (CGA) - DecretoLei 21/98. O Decreto-Lei 47/94, estabelece o regime económico e financeiro da utilização do domínio público hídrico, que está sujeita ao pagamento de uma taxa, denominada “taxa de utilização”. O INAG preparou um estudo para a determinação das taxas a aplicar no contexto deste regime, que se encontra em fase de apreciação. De qualquer modo, este regime deverá vir a ser ajustado para incorporar as orientações da Directiva-Quadro da Água. 4.3.6. Resíduos 4.3.6.1. Política Internacional A política internacional relativa aos resíduos centra-se essencialmente na regulação de movimentos de resíduos entre países, tendo sido adoptada, no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, a Convenção de Basileia sobre o Controlo de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e sua Eliminação, que entrou em vigor a 5 de Maio de 1992. A Convenção pretende controlar o movimento transfronteiriço de resíduos perigosos, monitorizar e prevenir o tráfico ilegal, fornecer assistência para a gestão ambientalmente adequada destes resíduos e desenvolver Directrizes Técnicas para a sua gestão. 4.3.6.2. Política Comunitária As fases iniciais da política europeia de resíduos centraram-se sobretudo em problemas isolados e claramente identificados, tais como os movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos, os PCB’s, etc. A posterior evolução da política comunitária, nomeadamente a assinatura do Acto Único Europeu (1987) e do Tratado de Maastricht (1992), possibilitou o reforço da política de resíduos, passando esta a ter como objectivo fundamental o desenvolvimento de uma política integrada de gestão de resíduos na Comunidade Europeia. Neste contexto, a Estratégia Comunitária de Gestão de Resíduos, que estabelece quatro directrizes estratégicas: prevenção; reutilização e recuperação; optimização da deposição final 75 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL e regulação do transporte, para além de incluir um número de acções recomendadas. A Estratégia Comunitária foi revista em 1996 tendo, no entanto, mantido as linhas mestras fundamentais da versão anterior, acrescentado que devia ser dada preferência à recuperação de materiais relativamente à recuperação energética. A Directiva 75/442/CEE constitui o quadro jurídico da política comunitária de gestão dos resíduos, a qual foi posteriormente alterada pela Directiva do Conselho 91/156/CEE, por forma a incorporar as directrizes estabelecidas na Estratégia Comunitária para a Gestão dos Resíduos. A Directiva 91/689/CEE, relativa aos resíduos tóxicos e perigosos, contém instrumentos de gestão e fiscalização para os resíduos perigosos. A estratégia comunitária de gestão de resíduos é ainda complementada por um conjunto de Directivas específicas sobre a gestão de determinados fluxos de resíduos, tais como PCB’s, óleos usados, lamas de depuração, resíduos de embalagens, pilhas e acumuladores e equipamentos eléctricos e electrónicos. A legislação comunitária em matéria de resíduos inclui ainda um conjunto de Directivas destinadas a reduzir o impacte do tratamento e deposição final de resíduos, estabelecendo requisitos técnicos de construção e operação de instalações de tratamento. 4.3.6.3. Política Nacional O quadro jurídico nacional de gestão de resíduos foi estabelecido inicialmente pelo Decreto-Lei 488/85. Actualmente, o enquadramento legal da gestão de resíduos em Portugal, nomeadamente a sua recolha, transporte, armazenagem, tratamento, valorização e eliminação, por forma a não constituir perigo ou causar prejuízo para a saúde humana ou para o ambiente, é definido pelo Decreto-Lei nº 239/97. Este diploma reafirma o princípio da responsabilidade do produtor pelos resíduos que produza e introduz um mecanismo autónomo de autorização prévia das operações de gestão de resíduos. As linhas estratégicas da gestão de resíduos industriais (classe em que se inserem os principais fluxos de resíduos associados ao sector eléctrico) estão definidas na Estratégia de Gestão dos Resíduos Industriais e no Plano Estratégico de Resíduos Industriais (PESGRI). A classificação dos diferentes tipos de resíduos nas diversas categorias é estabelecida na lista designada por Catálogo Europeu de Resíduos (CER), aprovado através da Portaria nº 818/97. Os produtores de resíduos são 76 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL obrigados a preencher um mapa de registo, identificando os resíduos de acordo com o CER, conforme o estabelecido na Portaria nº 792/98. As regras para o transporte de resíduos dentro do território nacional são fixadas na Portaria nº 335/97 de 16 de Maio, estando as regras relativas à fiscalização e controlo das transferências de resíduos à entrada, no interior e à saída da Comunidade Europeia estabelecidas no Decreto-Lei nº 296/95. A legislação nacional contempla ainda um conjunto de diplomas visando reduzir o impacte ambiental associado às instalações de recolha e tratamento de resíduos industriais. Tal como no caso da legislação comunitária, a legislação nacional contempla ainda diplomas visando a gestão de fluxos especiais de resíduos, como é o caso, dos resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos (DL 20/02). 4.3.6.4. Implicações para o Sector Eléctrico Os principais fluxos de resíduos associados ao sector eléctrico são as cinzas e escórias, os óleos usados, resíduos metálicos, os equipamentos com PCB’s, lâmpadas usadas e postes de betão. Alguns destes tipos de resíduos, nomeadamente os óleos usados e equipamentos com PCB’s, são abrangidos por disposições específicas. A gestão das cinzas das centrais térmicas também é abrangida por dsposições próprias, designadamente o despacho conjunto SEARN/SEIE/SETC, de 2 de Maio de 1987, relativo aos destino final e correcta utilização das cinzas das centrais térmicas. Para os restantes tipos de resíduos aplicam-se a estratégia e as regras gerais acima referidas para os resíduos industriais. As regras relativas à implantação e operação de instalações de recolha, tratamento e deposição de resíduos também podem ter implicações para o sector, ao condicionarem as actividades respectivas. 4.4. Instrumentos Transversais 4.4.1. Avaliação de Impactes ambientais A AIA de projectos é um instrumento de política de ambiente, com o objectivo de assegurar que as potenciais consequências sobre o ambiente de um projecto de investimento são analisadas e tomadas em devida consideração no seu processo de aprovação. O Estudo de Impacte Ambiental (EIA) é um documento preparado pelo proponente do projecto que contém, nomeadamente, a identificação e avaliação dos impactes ambientais do projecto e a identificação das medidas destinadas a evitar, minimizar ou compensar esses impactes. Recentemente o âmbito do 77 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL processo de AIA foi extendido para contemplar a avaliação ambiental de programas e planos com potenciais efeitos significativos no ambiente. 4.4.1.1. Política Internacional A Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) foi inicialmente introduzida nos Estados Unidos da América com a publicação do National Environmental Policy Act, a 1 de Janeiro de 1970. Posteriormente este instrumento de política ambiental foi sendo integrado nos sistemas jurídicos de um número crescente de países. A nível internacional, o reconhecimento da necessidade de melhorar os mecanismos de avaliação dos impactes provocados no ambiente por projectos públicos ou privados com relevantes efeitos transfronteiros, levou à aprovação da Convenção sobre a Avaliação dos Impactes Ambientais num Contexto Transfronteiriço, concluída a 25 de Fevereiro de 1991 em Espoo (Finlândia) no âmbito da Comissão Económica para Europa das Nações Unidas (UNECE). 4.4.1.2. Política Comunitária A AIA foi introduzida na União Europeia em 1985, com a entrada em vigor da Directiva 85/337/CEE, alterada pela Directiva 97/11/CE, que estabelece as linhas gerais do procedimento de AIA, destinado a garantir que as consequências ambientais de projectos são identificadas e avaliadas antes da sua autorização. A Directiva de AIA determina que o público deve ser consultado, devendo os resultados dessa consulta ser tomados em consideração no processo de autorização do projecto. Esta Directiva define quais as categorias de projectos que devem ser sujeitas a AIA, o procedimento a seguir e conteúdo da avaliação. Recentemente foi aprovada a Directiva 2001/42/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de Junho de 2001 relativa à avaliação dos efeitos de determinados planos e programas no ambiente (avaliação ambiental estratégica), que estabelece que deve ser efectuada uma avaliação ambiental de todos os planos e programas para a agricultura, silvicultura, pescas, energia, indústria, transportes, gestão de resíduos, gestão das águas, telecomunicações, turismo, ordenamento urbano e rural ou utilização dos solos, e que constituam enquadramento para a futura aprovação dos projectos enumerados nos anexos I e II da Directiva 85/337/CEE. Na sequência da assinatura da Convenção de Aarhus sobre o acesso à informação, a participação do público e o acesso à justiça no domínio do ambiente, a Comissão Europeia adoptou em 18 de Janeiro de 2001 uma proposta de Directiva, COM(2000)839, que prevê a participação do público na elaboração de certos planos e programas relativos ao ambiente. 78 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4.4.1.3. Política Nacional Em Portugal o processo de AIA foi iniciado com a entrada em vigor do Decreto-Lei nº 186/90 e do Decreto Regulamentar nº 38/90. Actualmente rege-se pelo Decreto-Lei nº 69/2000, (com as alterações introduzidas pelo Decreto de Rectificação nº 7-D/2000) que procurou responder às novas exigências comunitárias entretanto aprovadas, reflectindo ainda os compromissos assumidos pelo Governo, no quadro da Convenção sobre Avaliação de Impactes Ambientais num Contexto Transfronteiriço (Convenção de Espoo). O Decreto-Lei nº 69/2000 veio estabelecer o carácter vinculativo da decisão de Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território, expressa através da Declaração de Impacte Ambiental (DIA), clarificando o quadro procedimental da avaliação, ajustando o processo de participação pública e de acesso à informação, introduzindo a faculdade do proponente apresentar uma proposta de definição do âmbito (PDA) e estabelecendo a pós-avaliação para assegurar o acompanhamento dos projectos após emissão da DIA. A Autoridade de AIA é o Instituto do Ambiente, quando o projecto a realizar esteja incluído no Anexo I do Decreto-Lei 69/2000, a Entidade Licenciadora seja um Serviço Central não desconcentrado, sob tutela da Administração Central ou uma Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território (DRAOT) ou quando o projecto se situe em área sob jurisdição de duas ou mais DRAOT’s. Nos restantes casos, a autoridade de AIA é a DRAOT com jurisdição na área onde se localiza o projecto. 4.4.1.4. Aplicação ao Sector Eléctrico Diversos projectos relacionados com o sector eléctrico estão incluídos no Anexo I (projectos com AIA obrigatória, em que a DGA é a Autoridade de AIA e com 30-50 dias de consulta pública) e no Anexo II (AIA obrigatória, em que a Autoridade de AIA é a DRAOT com jurisdição na área e com 20-30 dias de consulta pública) do Decreto-Lei nº 69/2000. Qualquer projecto de alteração, modificação ou ampliação de instalações ou de empreendimentos compreendidos nos projectos constantes nos anexos I e II que seja susceptível de produzir impactes significativos no ambiente deve igualmente ser sujeito a AIA, no contexto do anexo II do DL 69/2000. O Despacho nº 11091/2001, de 25 de Maio de 2001, veio definir um conjunto de procedimentos simplificados, aplicáveis a instalações de produção de energia eléctrica a partir de fontes renováveis, que permitem uma consideração prioritária 79 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL em matéria dos licenciamentos exigíveis que constituem responsabilidade do MAOT, nomeadamente no que se refere aos regimes de Avaliação de Impacte Ambiental e da Reserva Ecológica Nacional. No caso dos projectos de aproveitamento de energia eólica, deve ainda ser considerado o Despacho Conjunto dos Ministros da Economia e do Ambiente e do Ordenamento do Território n.º 583/2001, de 3 de Julho, que define a obrigatoriedade de realização de processos de avaliação de impacte ambiental de projectos de energia eólica em zonas sensíveis (Sítios da Rede Natura 2000 e Áreas Protegidas). 4.4.2. Prevenção e Controlo Integrados de Poluição (PCIP) O conceito de Prevenção e Controlo Integrados de Poluição (PCIP) foi introduzido pela Directiva nº 96/61/CE, com o objectivo de promover a adopção de uma abordagem comum ao controlo da poluição industrial nos Estados Membros. Reconhecendo que a existência de abordagens diferentes no controlo da poluição do ar, das águas e do solo pode favorecer a transferência de problemas de poluição entre os meios físicos, em vez de incentivar a protecção do ambiente no seu todo, a Directiva PCIP visa essencialmente a adopção de uma abordagem integrada no controlo de poluição, assente prioritariamente na prevenção das emissões de poluentes e na sua minimização. A Directiva aplica-se à generalidade das actividades industriais e a algumas actividades agrícolas. 4.4.2.1. Licença Ambiental A Directiva PCIP, e o Decreto-Lei nº 184/2000, que a transpõe, define, o esquema de atribuição de uma licença ambiental às instalações industriais, sendo a Direcção Geral do Ambiente (DGA) é a entidade competente para tomar decisões acerca dos pedidos de licença ambiental. A licença ambiental de uma instalação estabelece as medidas destinadas a evitar ou, se tal não for possível, a reduzir as emissões para o ar, a água e o solo, a produção de resíduos e a poluição sonora, constituindo condição necessária do licenciamento ou da autorização dessas instalações. A licença ambiental fixa ainda, entre outros aspectos, os valores limite de emissão para as substâncias poluentes susceptíveis de serem emitidas pela instalação em causa, bem como as indicações adequadas que garantam a protecção do solo e das águas subterrâneas, o controlo do ruído e gestão de resíduos. 80 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL De acordo com o DL 184/2000 as novas instalações passam a estar sujeitas à obtenção da licença ambiental. As instalações existentes devem possuir a respectiva licença ambiental até 30 de Outubro de 2007. 4.4.2.2. Melhores Técnicas Disponíveis (MTDS) A Directiva PCIP estabelece que a licença ambiental deve basear-se na aplicação das Melhores Técnicas Disponíveis (MTDS), que se referem à fase de desenvolvimento mais avançada e eficaz das actividades e dos respectivos modos de exploração, que demonstre a aptidão prática de técnicas específicas para constituir, em princípio, a base dos valores limite de emissão com vista a evitar e, quando tal não seja possível, a reduzir de um modo geral as emissões e o impacte no ambiente no seu todo. Para cada sector industrial abrangido pela Directiva IPPC estão a ser produzidos os designados BREF’s (BAT Reference Document), que contêm uma compilação de informação, destinada a apoiar as autoridades licenciadoras na determinação das MTDS e a dos valores limite de emissão a incluir numa determinada licença ambiental. O BREF referente às melhores técnicas disponíveis para as instalações termoeléctricas com input térmico superior a 50 MW (grandes instalações de combustão) ainda se encontra em fase de preparação (working draft) (http://eippcb.jrc.es). 4.4.2.3. Registo Europeu de Emissões Poluentes (EPER) A Decisão da Comissão 2000/479/CE de 17 de Julho, relativa à criação de um Registo Europeu das Emissões de Poluentes (EPER) nos termos do artigo 15º da Directiva PCIP, estabelece que cada Estado-Membro terá de elaborar um relatório das emissões para o ar e para a água de todas as instalações abrangidas pela Directiva. O 1º inventário EPER português, aplica-se a todas as instalações novas e existentes abrangidas pelo Anexo I, e terá como ano de referência o ano de 2002 (IA, 2002). O Instituto do Ambiente (IA), estabeleceu a realização do Exercício EPER 2002 para a recolha dos dados das emissões e das fontes responsáveis. Neste contexto, cada operador deverá reportar os dados das emissões e das fontes responsáveis, relativas aos poluentes EPER para o ar e para a água produzidos pela sua instalação, preenchendo o formulário electrónico e-EPER. 4.4.2.4. Implicações para o Sector Eléctrico No que respeita às indústrias do sector da energia, estão incluídas no Anexo I da Directiva PCIP as instalações de combustão com uma potência calorífica de combustão superior a 50 MW, bem como as refinarias de petróleo e de gás, as 81 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL coquerias e as instalações de gaseificação e liquefacção de carvão. A listagem das instalações existentes abrangidas, entre as quais se encontram diversas instalações do sector eléctrico, pode ser consultada em http://www.iambiente.pt. 4.4.3. Sistemas de Gestão Ambiental Um sistema de gestão ambiental é a parte do sistema global de gestão de uma organização através da qual esta controla os seus aspectos ambientais, ou seja as actividades, produtos e processos que provocam, ou podem vir a provocar, impactes ambientais. Este esforço de gestão deve resultar numa melhoria contínua do desempenho ambiental da organização. Existem duas normas de sistemas de gestão do ambiente aplicáveis em Portugal, a norma ISO 14001, relativa à certificação de Sistemas de Gestão Ambiental e o Regulamento Comunitário de Ecogestão e Auditoria – EMAS. A norma ISO 14001 faz parte da série de normas ISO 14000 sobre gestão ambiental, desenvolvida no âmbito do Comité Técnico 207 da ISO (International Standards Organization). Esta série de normas é constituída por um conjunto de documentos relacionados com sistemas de gestão ambiental (ISO 14001 e 14004) e outros documentos relacionados com ferramentas de apoio à gestão ambiental, tais como auditorias ao sistema de gestão ambiental (ISO 14010, 14011 e 14012), avaliação do desempenho ambiental (ISO 14031 e 14032), análise de ciclo de vida (ISO 14040, 14041, 14042, 14043, 14048 e 14049) e rótulos e declarações ambientais (ISO14020, 14021, 14024 e 14025). O Regulamento Comunitário de Auditoria e Ecogestão (Regulamento do Conselho nº 1836/93 de 29 de Junho) é um sistema em que podem participar de forma voluntária organizações que desenvolvem actividades industriais, para avaliar e melhorar de modo continuado os impactes dessas actividades e informar o público sobre o comportamento e progressos das instalações em termos de ambiente. O EMAS requer que as empresas estabeleçam e implementem sistemas de gestão ambiental eficazes incluindo, nomeadamente, uma política ambiental, objectivos, e programas ambientais e que forneçam informação acerca do seu desempenho ambiental ao público (a declaração ambiental). A certificação segundo a norma ISO 14001 pode constituir um passo prévio à adesão de uma instalação industrial ao EMAS. O Regulamento EMAS foi recentemente objecto de um processo profundo de revisão, tendo o novo esquema sido publicado no Regulamento(CE) nº 761/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho de 19 de Março. 82 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 4.4.4. Participação Pública 4.4.4.1. Política Internacional O princípio da participação foi recentemente consagrado ao mais alto nível através da Convenção da UNECE sobre Acesso à Informação, Participação Pública na Tomada de Decisão e Acesso à Justiça em Assuntos Ambientais, que foi adoptada em 25 de Junho de 1998 em Aarhus. A Convenção de Aarhus, reconhece que o desenvolvimento sustentável apenas pode ser alcançado com o envolvimento de todos os agentes no processo, conferindo ao público três direitos fundamentais (e às Partes as decorrentes obrigações): (1) o direito à informação; (2) o direito à participação (3) o direito a ter acesso à justiça. 4.4.4.2. Política Comunitária A Comunidade Europeia tem vindo a procurar ajustar a legislação relativa às suas instituições às obrigações da Convenção de Aarhus. Neste contexto, foi aprovado o Regulamento (CE) nº 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão. Está ainda em preparação uma nova Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho sobre o acesso do público às informações sobre o ambiente, e uma Proposta de Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho que prevê a participação do público na elaboração de certos planos e programs relativos ao ambiente,. O direito à participação pública está ainda consagrado em diversos diplomas de legislação comunitária, anteriormente referidos, nomeadamente a legislação relativa à avaliação de impactes ambientais de projectos, à avaliação ambiental de planos e programas, a nova Directiva Quadro da Água, etc. 4.4.4.3. Política Nacional A política nacional de acesso à informação sobre o ambiente está definida na Lei nº 65/93, de 26 de Agosto, posteriormente alterada pela Lei nº 94/99, de 16 de Julho, que estabelece o regime de acesso aos documentos da Administração, transpondo para o ordem júridica interna a Directiva 90/313/CEE. O Código de Procedimento Administrativo (Decreto-Lei nº 442/92 de 15 de Novembro) concede o direito aos cidadãos ao acesso a arquivos e registos administrativos. Para além das obrigações de consulta do público decorrentes da aplicação de alguns dos diplomas legais anteriormente referidos, nomeadamente os de AIA, a Lei nº 83/95, de 31 de Agosto, sobre o direito de participação procedimental e de acção popular, estabelece que a adopção de planos, a decisão sobre a localização e a 83 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL realização de obras públicas ou de outros investimentos públicos com impacte relevante no ambiente ou nas condições económicas e sociais e da vida em geral das populações devem ser precedidos da audição dos cidadãos interessados e das entidades defensoras dos interesses que possam vir a ser afectados por aqueles planos ou decisões. 84 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 5. ESTRATÉGIAS ELÉCTRICO 5.1. Motivações Empresas AMBIENTAIS para Adopção DAS de EMPRESAS Estratégias DO SECTOR Ambientais nas Na Figura 28 sintetizam-se os principais factores que influenciam o comportamento ambiental das empresas, actuando assim como forças propulsoras da adopção de estratégias ambientais. Recursos materiais EMPRESA Mercado Clientes Consumidores Competidores Associações industriais e comerciais Recursos humanos Recursos financeiros Fornecedores ONGA’s Comunicação social Comunidade Pressões sociais Política ambiental Autoridades ambientais Directrizes internacionais Bancos Investidores Seguradoras Escolas Universidades Figura 28 – Pressões para a adopção de estratégias ambientais nas empresas 5.1.1. Política Ambiental – Efeitos na Competitividade das Empresas Uma das principais motivações para a adopção de estratégias ambientais nas empresas resulta directamente da pressão exercida pelas autoridades ambientais. A visão tradicional dos efeitos da política de ambiente na competitividade das empresas assume que existe um trade-off entre o desempenho ambiental e económico, considerando-se que aos benefícios sociais decorrentes da implementação de regulamentação ambiental mais restritiva estão inexoravelmente associados custos privados, associados à prevenção e controlo da poluição, que têm que ser suportados pelas empresas, reduzindo assim a sua competitividade. Esta visão pessimista tem vindo, no entanto, a ser contestada argumentando-se que a regulamentação ambiental, se adequadamente concebida, pode ter efeitos positivos na competitividade, ao desencadear inovações que permitem baixar o custo total de um produto, ou aumentar o seu valor, contribuindo assim para melhorar a competitividade das empresas (Porter e van der Linde, 1995). 85 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Com efeito, a política de ambiente pode ser um factor dinamizador de inovação na empresa, ao evidenciar as ineficiências na utilização de recursos, conduzindo a um aumento na sua produtividade, que pode, em determinadas circunstâncias, mais do que compensar os custos associados à melhoria ambiental. As empresas que desenvolvem inovações em resposta a uma política ambiental mais exigente podem ainda vir a beneficiar das designadas “first mover advantages”, decorrentes do desenvolvimento de novas tecnologias antes dos seus competidores. Diversos autores têm vindo, no entanto, a contestar esta hipótese, considerando, em primeiro lugar que, a existirem tais oportunidades de ganhos, estas serão naturalmente consideradas no processo racional de tomada de decisão das empresas, sem ser necessária a existência de regulamentação ambiental. Além disso, apesar de existirem casos em que a política ambiental traz vantagens competitivas, verifica-se que também existem situações em que esta se traduziu em significativos custos para as empresas. Os efeitos da política de ambiente na competitividade das empresas dependem essencialmente da forma como é desenhada a própria política, nomeadamente dos instrumentos adoptados para promover a sua execução, e da atitude das empresas face às novas exigências introduzidas. As empresas que tomam uma atitude proactiva e encaram os requisitos ambientais como oportunidades para inovarem, melhorando os seus processos e produtos, conseguem frequentemente obter uma melhor posição competitiva, reduzindo custos e/ou aumentando o valor dos seus produtos. Torna-se assim imperiosa a passagem de uma lógica de antagonismo (win-loose) para uma perspectiva de cooperação (win-win) na abordagem das Win-Loose Crescimento económico Protecção do ambiente Protecção do ambiente relações entre os objectivos ambientais e as estratégias empresariais (Figura 29). Win-Win Crescimento económico Figura 29 – Relação entre a política ambiental e a competitividade das empresas 5.1.2. Mercado de Produto Actualmente as forças de mercado também exercem pressões para a adopção de estratégias ambientais nas empresas. Os clientes e consumidores estão cada vez 86 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL mais alertados para as questões ambientais, tentando incorporar estas preocupações nas suas decisões de compra/aquisição de bens e serviços. A procura por produtos com melhor desempenho ambiental tem vindo a crescer, sendo o mercado para os designados “produtos verdes” cada vez mais alargado. Esta procura já se traduz em muitos casos por uma disponibilidade dos consumidores para pagar um preço mais elevado por produtos com melhor desempenho ambiental. Por outro lado, as empresas que adoptam estratégias ambientais mais avançadas assumem frequentemente na sua carta de princípios ou declaração de política ambiental o compromisso de procurarem promover a adopção de boas práticas ambientais junto dos seus parceiros de negócios, ou o compromisso de apenas fazerem negócios com empresas com bom desempenho/reputação ambiental. Neste contexto, as estratégias adoptadas pelos rivais com os quais uma determinada empresa compete no mercado, também podem constituir um factor propulsor da evolução para uma estratégia ambiental nas empresas. As associações de pares, designadamente as associações industriais e comerciais, também têm tido um papel muito relevante na promoção de estratégias ambientais nas empresas. Actualmente existem numerosos esquemas tais como o Responsible Care®, o Business Charter for Sustainable Development, o Global Compact, promovido pelas Nações Unidas, o Forest Stewardship Council e o Marine Stewardship Council. 5.1.3. Mercados de Factores Produtivos/Recursos Os fornecedores de recursos e outros factores produtivos também podem, em muitos casos, constituir factor de pressão/motivação para a adopção de uma estratégia ambiental nas empresas. Em primeiro lugar, as empresas que fornecem recursos materiais também podem ter assumido o compromisso de procurar fazer negócios apenas (ou preferencialmente) com empresas com um bom desempenho ambiental, tal como no caso dos clientes. Os fornecedores de recursos financeiros, tais como accionistas e investidores, designadamente a própria banca, também funcionam cada vez mais como factores de pressão, sendo cada vez mais as instituições bancárias e seguradoras que tomam em consideração questões ambientais nas suas decisões. Os recursos humanos também podem funcionar como catalizadores de mudança de atitude nas empresas face ao ambiente. Em muitas empresas, são os próprios líderes que adquirem uma consciência ambiental/social e que actuam como agentes dinamizadores da estratégia ambiental. 87 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 5.1.4. Pressões Sociais Os diferentes grupos de interesse da sociedade que, embora fazendo parte do ambiente externo da empresa, influenciam as suas actividades, também exercem, em muitos casos, pressões para a melhoria do seu desempenho ambiental. É o caso das organizações não governamentais, da comunidade local, da comunicação social e da comunidade científica. 5.2. Estratégias Ambientais das Empresas As estratégias ambientais das empresas têm vindo a acompanhar a evolução da política de ambiente e as pressões da sociedade. De um modo geral, pode dizer-se que desde a década de 70 houve uma evolução da atitude das empresas face ao ambiente, passando-se de uma situação de ausência de preparação para estratégias que envolvem uma crescente integração dos aspectos ambientais e do conceito de sustentabilidade na cultura e gestão empresarial. Na Figura 30 sintetizam-se os principais estágios considerados nesta evolução, com a cronologia correspondente à evolução das empresas mais avançadas neste Sustentabilidade Sem Preparação 1970 Cumprimento da legislação 1980 Prevenção de riscos ambientais 1990 Eco-eficiência Capitalismo natural Integração do ambiente na cultura da empresa domínio. 2000 Figura 30 – Evolução das estratégias ambientais das empresas Sem Preparação - Numa fase inicial de implementação da política ambiental, as empresas não se encontravam minimamente preparadas para responder às novas solicitações impostas pela legislação ambiental. Neste contexto, muitas empresas adoptaram uma atitude de recusa, argumentando que as exigências ambientais se traduziriam em custos adicionais que punham em risco a própria sobrevivência das empresas. 88 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Cumprimento da Legislação - À medida em que a estrutura institucional e a capacidade de actuação das autoridades governamentais na área do ambiente se desenvolveu, as empresas viram-se confrontadas, ou ameaçadas, com custos crescentes decorrentes do não cumprimento da legislação, passando a adoptar então uma postura reactiva, procurando responder às exigências da regulamentação ambiental. Nesta fase, as empresas encaram a protecção ambiental como um custo adicional que têm que suportar, com efeitos negativos nos resultados financeiros e na sua competitividade. Prevenção de Riscos Ambientais - Numa terceira fase, as empresas começam a reconhecer as vantagens de antecipar a legislação ambiental, de modo a prepararem as suas estratégias de cumprimento com um horizonte temporal mais alargado, o que lhes permite procurar soluções mais eficientes para a resolução dos problemas ambientais. As empresas adoptam, assim, uma atitude proactiva face à política ambiental, indo por vezes para além do simples cumprimento da legislação. Nesta fase o ambiente ainda é encarado como um centro de custos, preocupandose as empresas sobretudo com a necessidade de minimizar riscos ambientais e evitar custos. Eco-eficiência e Capitalismo Natural - À medida que a atitude proactiva face ao ambiente começa a fazer parte da cultura de uma empresa, a gestão ambiental começa a ser associada não apenas a um “centro de custos”, mas também a um potencial “centro de proveitos”, sendo o ambiente encarado como uma oportunidade de negócios, que pode trazer vantagens competitivas e gerar resultados positivos para as empresas. O conceito de eco-eficiência, que significa produzir mais (e criar mais valor) com menos (recursos e resíduos), introduzido pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), traduz a noção de que é possível conciliar o desempenho ambiental das empresas com o desempenho económico. Surge o conceito de capitalismo natural, que preconiza quatro estratégias fundamentais, designadamente: Produtividade de recursos, ou seja a obtenção da mesma utilidade ou trabalho de um produto ou processo, utilizando menos materiais e energia; Biomimetismo, que assenta no redesenho dos sistemas industriais à semelhança dos sistemas naturais, procurando a reutilização constante de materiais em ciclos fechados, e eliminando frequentemente a toxicidade; Economia de serviços, que preconiza a passagem de uma lógica económica baseada na aquisição de bens, para uma economia baseada na provisão de 89 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL serviços, permitindo alinhar os objectivos de protecção do capital natural com os objectivos económicos das empresas. Investimento no capital natural, contribuindo para a sustentação, restauração e expansão dos stocks de capital natural. Sustentabilidade das Empresas - Recentemente as empresas têm evoluído no sentido de reconhecerem que a sustentabilidade económica não é, por si só, condição suficiente para a sua sustentabilidade global, adoptando uma postura na qual a empresa é encarada como parte da Natureza, integrando conscientemente a sua visão e operações nos ciclos naturais. Paralelamente, as empresas tendem a assumir cada vez mais o seu papel na sociedade, preocupando-se não só com os seus accionistas, mas alargando o espectro de stakeholders, incluindo diversos actores sociais, tais como os seus funcionários, a comunidade local, os clientes, os fornecedores e contratados, as organizações não governamentais, etc. A responsabilidade social das empresas (RSE) é hoje em dia reconhecida como parte fundamental da estratégia e operações empresariais, sendo considerado um aspecto que não pode ser ignorado pelas empresas que pretendem sobreviver nos mercados e economias modernas. O conceito de RSE está estreitamente relacionado com a noção de sustentabilidade das empresas, que integra as vertentes económica, ecológica e social, numa perspectiva de criação de valor a longo prazo. Esta perspectiva é representada pelo conceito de “Tripla Linha de Valor” (Triple Bottom Line), que traduz o facto das empresas integrarem a responsabilidade social e ambiental, a par dos objectivos económicos, nos seus processos de decisão a todos os níveis. Na Tabela 13 apresentam-se os requisitos básicos de sustentabilidade económica, ecológica e social de uma empresa. Tabela 13 – Condições para a sustentabilidade empresarial Capital Económico Capital Natural Capital Social Empresas economicamente sustentáveis possuem a qualquer momento cashflow suficiente para garantir liquidez, produzindo simultaneamente um retorno acima da média para os seus accionistas. Empresas ecologicamente sustentáveis utilizam apenas recursos naturais que são consumidos a uma taxa inferior à regeneração natural ou ao desenvolvimento de substitutos. Empresas socialmente responsáveis acrescentam valor às comunidades onde operam, contribuindo para aumentar o seu capital humano e social. Não causam emissões a uma taxa superior à capacidade dos sistemas ambientais as assimilarem. As partes interessadas (stakeholders) compreendem as motivações da empresa e aceitam o seu sistema de valores. A adopção de estratégias de sustentabilidade é actualmente reconhecida como um importante factor de criação de valor nas empresas. Reconhecendo que “o valor accionista a longo prazo é criado aproveitando as oportunidades e gerindo os riscos 90 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL decorrentes dos desenvolvimentos económicos, ambientais e sociais20”, foi recentemente criado o Dow Jones Sustainability World Index (DJSI World), um índice bolsista derivado do Dow Jones Global Index (DJGI), que inclui 300 empresas que representam as 10% melhor classificadas em termos de gestão de sustentabilidade, das 2500 que compõem o DJGI. Actualmente existe também o Dow Jones STOXX Sustainability Index (DJSI STOXX), derivado dos índices Dow Jones STOXX (pan-europeu e zona euro). Os resultados obtidos com estes índices, bem como os de outros índices e fundos de investimento “verdes”21, parecem sugerir que existe uma relação positiva entre o desempenho financeiro e o desempenho ambiental das empresas. Esta constatação foi confirmada em diversos estudos empíricos, onde se concluiu existir uma correlação positiva estatisticamente significativa entre estes dois factores. Estes estudos não são, no entanto, conclusivos no que diz respeito ao sentido da relação causal, ou seja, não é claro se o bom desempenho financeiro surge em consequência do bom desempenho ambiental, ou se, pelo contrário, são as empresas com bom desempenho financeiro que podem investir na melhoria ambiental. O mais provável é os dois factores estarem relacionados, resultando ambos da adopção de estratégias de longo prazo que conduzem à sustentabilidade económica, ambiental e social das empresas. 5.3. Avaliação e Comunicação do Desempenho Ambiental e da Sustentabilidade das Empresas O poder crescente das empresas numa economia globalizada acarreta responsabilidades acrescidas, nomeadamente de transparência e accountability. Por outro lado, à medida que as empresas vão evoluindo no desenvolvimento de uma estratégia ambiental, o interesse em avaliar e comunicar os seus progressos neste domínio também vai aumentando. Paralelamente, os outros stakeholders, nomeadamente as instituições financeiras, tais como os bancos, seguradoras e fundos de investimento, bem como as autoridades ambientais, as organizações não governamentais e o público, procuram obter informação acerca do desempenho ambiental e social das empresas, reconhecendo que a informação normalmente disponibilizada acerca do desempenho financeiro apenas dá uma visão parcial da sustentabilidade da empresa. 20 21 Dow Jones Sustainability Indexes Guidebook, http://www.sustainability-indexes.com. Por exemplo o Storebrand Scudder Environmental Value Fund. 91 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Neste contexto têm vindo a ser desenvolvidas ferramentas de avaliação e comunicação do desempenho ambiental das empresas. Consoante os objectivos, podem distinguir-se três grandes grupos de ferramentas (Figura 31): 1. Relatórios ambientais ou de sustentabilidade, que têm como objectivo principal a comunicação e divulgação do desempenho das empresas; 2. Indicadores de desempenho ambiental, que visam sobretudo a medição, avaliação e realização de benchmarkings do desempenho das empresas ou das suas operações; 3. Ferramentas de ordenação do desempenho ambiental, utilizadas para avaliar e estabelecer rankings de desempenho ambiental das empresas. Relatórios Ambientais das Empresas (comunicar) Ferramentas de Ordenação do Desempenho Ambiental (avaliar/benchmark) Indicadores de Desempenho Ambiental (medir) Figura 31 – Ferramentas de avaliação e comunicação do desempenho ambiental das empresas (adaptado de EEA, 2001) 5.4. Contabilidade ambiental nas empresas 5.4.1. Enquadramento O tema da contabilidade ambiental tem vindo a suscitar um interesse crescente, essencialmente na última década, sendo de salientar o contributo desta abordagem quer ao nível macroeconómico, quer ao nível microeconómico e da empresa. A Tabela 14 apresenta uma síntese de algumas características de diversos tipos de contabilidade ambiental. Tabela 14 – Tipos de contabilidade ambiental Contas Nacionais Contabilidade Financeira Contabilidade de Gestão 92 Nível Âmbito Audiência Macroeconómico País Externa Microeconómico Empresa Empresa Externa Empresa Empresa, divisão, instalação, linha de produto... Interna Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Ao nível macroeconómico, a contabilidade ambiental tem vindo a ser utilizada para a expansão e reorientação das Contas Nacionais, de modo a contemplar aspectos como o estado do ambiente e a escassez de recursos naturais na avaliação do padrão de crescimento e desenvolvimento de um país. Ao nível microeconómico e da empresa, é de realçar a aplicação da contabilidade ambiental quer como uma componente da contabilidade financeira, sendo um elemento com relevância crescente nos mercados financeiros, quer como uma ferramenta de gestão empresarial. A contabilidade ambiental empresarial visa a contabilização de custos e proveitos que decorrem dos aspectos ambientais associados às actividades das empresas. Por essa razão, o seu âmbito é alargado, podendo incluir aspectos tão diversificados como a avaliação dos impactes ambientais da actividade da empresa, bem como das consequências de decisões de gestão ambiental ou da legislação ambiental. Nesta perspectiva, pode ser considerada um instrumento essencial do relacionamento da empresa com os seus stakeholders. O papel da contabilidade ambiental nas empresas foi recentemente reconhecido pela Comissão Europeia, que, em Maio de 2001, adoptou uma recomendação respeitante ao reconhecimento, à valorimetria e à prestação de informações sobre questões ambientais nas contas anuais e no relatório de gestão das sociedades [C(2001)453/CE]. Em Portugal, a Directriz Contabilística nº29, publicada no Boletim do Contribuinte nº20, de Outubro de 2002, adopta esta Recomendação Europeia, sendo aplicável a todas as entidades abrangidas pelo Plano Oficial de Contabilidade. 5.4.2. Motivações e Objectivos da Contabilidade Ambiental A maior motivação para a adopção de um sistema de contabilidade ambiental numa empresa resulta do inevitável reconhecimento da existência de custos e benefícios ambientais associados à sua actividade. Segundo Schaltegger e Burritt (2000) existem duas forças motrizes fundamentais para o desenvolvimento de sistemas de contabilidade ambiental numa empresa: Aumento da pressão por parte dos stakeholders, que se preocupam com o impacte da actividade da empresa sobre o ambiente. A existência do sistema permite uma maior clarificação de responsabilidades no desempenho ambiental da empresa; Relevância económica dos custos ambientais, isto é, dos custos resultantes dos impactes ambientais das actividades das empresas, que têm aumentado 93 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL significativamente em resultado da evolução da política ambiental e do conhecimento científico na área do ambiente. O desempenho ambiental de uma empresa é uma medida importante do seu sucesso e da qualidade da sua gestão. Em termos gerais, um sistema de contabilidade ambiental pode ser um importante instrumento de gestão na medida em que facilita a integração dos aspectos ambientais na estratégia da empresa e na cadeia de decisão operacional. O reconhecimento do potencial contributo da contabilidade ambiental surge da necessidade de lidar na gestão empresarial com aspectos tão importantes e diversificados como: Associar um valor financeiro a responsabilidades ambientais passadas, presentes ou futuras a que a empresa ou organização têm de fazer face; Avaliar o valor presente ou potencial de oportunidades emergentes no mercado para determinadas tecnologias, produtos ou cadeias de valor; Responder à necessidade crescente, e que alastrou no mundo empresarial nos anos 90 em consequência da evolução nas estratégias ambientais das empresas, de reportar e comunicar os aspectos ambientais e financeiros aos diversos stakeholders. Neste contexto, a contabilidade ambiental, como ferramenta de gestão permite cumprir diversos objectivos e contribuir para melhorar o desempenho ambiental e económico da empresa, e dessa forma para o seu sucesso, nomeadamente: Identificar oportunidades de redução/eliminação de custos, nomeadamente através de decisões de gestão ou de engenharia, através da adopção de estratégias eco-eficientes; Identificar os custos decorrentes do cumprimento da legislação, apoiando os agentes económicos e as autoridades ambientais na procura de instrumentos de política com melhor relação custo-eficácia; Identificar custos ambientais que estejam eventualmente escondidos nos custos gerais; Identificar oportunidades de compensar os custos ambientais com a geração de proveitos decorrentes da venda de resíduos valorizáveis, de direitos transaccionáveis, de tecnologias limpas, ou outros produtos ou serviços com mercado; Apoiar a estratégia de marketing, incluindo a definição de uma política de preço mais adequada para os diversos produtos, tendo em consideração os custos 94 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL reais associados à sua oferta, e identificando as vantagens competitivas dos processos, produtos e serviços, e o desenvolvimento de produtos “verdes”; Apoiar o desenvolvimento e operação de um sistema de gestão ambiental; Divulgar aos accionistas e outros stakeholders dados sobre o impacte económico-financeiro da gestão dos aspectos ambientais na empresa, correspondendo às exigências crescentes dos mercados; Dar cumprimento a exigências e recomendações legislativas. Em síntese, a contabilidade ambiental pode assumir um papel estratégico. A melhoria dos fluxos de informação nas empresas é essencial para suportar estratégias como a gestão da qualidade total, a eco-eficiência, o desenvolvimento sustentável ou iniciativas de divulgação ambiental. As vantagens da adopção de políticas proactivas, em vez de reactivas, e nomeadamente o investimento em acções de prevenção da poluição podem tornar-se mais evidentes quando se dispõe de um sistema desta natureza22. A contabilidade ambiental ao nível da gestão operacional é igualmente relevante, visando, essencialmente, identificar, adquirir e analisar informação que permita apoiar diversos tipos de decisões operacionais, por exemplo, ao nível das compras, gestão de risco e afectação de custos. Ao contrário da integração dos aspectos ambientais na contabilidade financeira, que está condicionada pelos princípios e orientações gerais da contabilidade, os procedimentos da contabilidade ambiental de gestão podem ser ajustados às necessidades e objectivos. Uma empresa que pretenda atingir um patamar de sustentabilidade tem que, necessariamente, adquirir, processar e reportar informação de natureza financeira, ambiental e social, e consequentemente desenvolver uma contabilidade ambiental financeira e de gestão. O reporte de informação deve contemplar um vasto leque de alvos, desde os accionistas e o mercado financeiro até à estrutura de gestão, colaboradores e outros stakeholders. O veículo utilizado para a divulgação pode incluir o relatório de contas e de gestão, o relatório ambiental, bem como outros meios, incluindo informações e documentos de trabalho internos. 22 A US EPA(1995) relata evidência empírica do aumento na adopção de estratégias deste tipo em empresas com sistemas de contabilidade ambiental. 95 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 5.4.3. Custos e Benefícios Ambientais Os custos ambientais são um dos diversos tipos de custos que uma empresa incorre ao fornecer bens e serviços aos seus clientes. De acordo com uma perspectiva de gestão contabilística, custos e benefícios ambientais são aqueles para os quais os factores de natureza ambiental, como por exemplo a legislação ambiental existente, constituem uma motivação significativa. Os custos ambientais podem ser divididos em custos privados (internalizados pela empresa) e custos sociais ou externalidades. Os custos internos ou privados apenas têm impacte directo na empresa, correspondendo às despesas que são totalmente ou parcialmente motivadas por considerações de natureza ambiental. Os custos externos correspondem a danos ambientais causados pela empresa/ organização e suportados por outros agentes ou pela sociedade em geral, sem que haja compensação desses danos, não se reflectindo por isso nas decisões económicas da empresa. Pode ainda considerar-se a categoria dos custos de oportunidade ambiental, que se traduzem em custos mais elevados que o necessário a curto prazo, por exemplo a nível energético ou de gestão de resíduos, mas que proporcionarão benefícios a longo prazo. A US EPA (1995), numa perspectiva de contabilidade de gestão, apresenta uma tipologia para os custos ambientais considerando as seguintes categorias: Custos convencionais: correspondem aos custos de utilização de matérias primas, utilidades, bens de capital, fornecimentos; são geralmente considerados na contabilidade mas não como custos ambientais, sendo, por essa razão, esquecidos para efeito da tomada de decisões na área ambiental; Custos potencialmente escondidos dos gestores, incluindo: - upfront environmental costs – correspondem aos custos incorridos antes da operação de um processo, sistema ou instalação. Incluem custos relacionados com a localização da instalação, desenho de processos e produtos, avaliação de alternativas de equipamento de controlo de poluição, qualificação de fornecedores; - custos decorrentes da legislação ou de actuação voluntária – correspondem a custos de operação de um processo, sistema ou instalação que são muitas vezes considerados custos gerais. É o caso, por exemplo, dos custos de monitorização; - back-end environmental costs – ao contrários das categorias de custos anteriores, estes custos não estão escondidos no sistema de contabilidade de gestão, dado que não são geralmente considerados. Correspondem a custos 96 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL incorridos após a conclusão da operação de um sistema, processo ou instalação, isto é a custos futuros; Custos contingentes – correspondem a custos que podem, ou não, vir a ocorrer no futuro, requerendo uma análise estocástica para a determinação do seu valor, e designadamente a atribuição de uma probabilidade de ocorrência; Custos de imagem – correspondem a custos incorridos para afectar aspectos subjectivos da gestão e as percepções dos consumidores, colaboradores e outros stakeholders. Incluem-se neste tipo os custos derivados da produção de relatórios ambientais, ou de programas de acção junto da comunidade envolvente. As organizações começam geralmente por desenvolver sistemas de contabilidade ambiental que apenas consideram os custos privados. Contudo, actualmente, reconhece-se que o âmbito desejável da contabilidade ambiental passa por considerar a contabilização total dos custos (privados e sociais) e de preferência ao longo de todo o ciclo de vida do produto, desde a extracção de materiais à sua deposição final. A definição de passivo ambiental é também crucial na definição do âmbito da contabilidade ambiental, e é um dos aspectos que requer atenção, porque resulta da integração de aspectos contabilísticos e jurídicos. Em termos gerais, um passivo ambiental é entendido como uma obrigação de realizar uma despesa no futuro para remediação/ controlo de um dano ambiental que resultou de uma ocorrência no passado. A obrigação pode ser de natureza legal ou derivar dos costumes, da prática da empresa, ou da sua estratégia de sustentabilidade e designadamente da assumpção voluntária da sua responsabilidade social. Os passivos ambientais podem ainda ser contingentes, quando a sua concretização depende da ocorrência incerta de acontecimento futuros. Por estas razões, a expressão passivo ambiental é, por vezes, utilizada para descrever aspectos distintos como, por exemplo, responsabilidade pelo pagamento de penalidades, obrigações legais de remediação/recuperação ambiental, responsabilidade civil de compensação das vítimas, ou até, quando se assume a perspectiva da responsabilidade social da empresa, acções voluntárias de prevenção ou controlo de poluição. Na Recomendação da Comissão 2001/453/CE, os passivos ambientais só são reconhecidos quando podem ser estimadas, de modo fiável, as despesas para fazer face às obrigações a eles subjacentes. Dificuldades na avaliação monetária dos passivos podem condicionar a sua integração no balanço da empresa, sendo 97 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL necessário o apoio de outros documentos relevantes para se avaliar a situação financeira da empresa. A abordagem da Recomendação europeia para a identificação, avaliação e divulgação de custos ambientais, aproxima-se de uma perspectiva de contabilidade financeira, orientada para o exterior da empresa e condicionada pelas normas contabilísticas em vigor. Numa perspectiva de contabilidade de gestão, o aspecto mais relevante é o de obter informação que permita a adopção de estratégias preventivas e proactivas, onde seja possível identificar e avaliar acções que permitam evitar a ocorrência de passivos ambientais. A análise contingente é essencial numa perspectiva de gestão, olhando-se mais para o presente e futuro do que para o passado. Os custos contingentes podem ser significativos para alguns sectores de actividade, sobretudo para empresas que operam em condições susceptíveis de causar danos ambientais, e com um elevado grau de incerteza ou risco. Do lado da contabilização dos benefícios ambientais associados à actividade de uma empresa existe menos trabalho desenvolvido, decorrendo este desequilíbrio da própria natureza do impacte ambiental gerado por uma empresa em sentido abstracto. Podem, no entanto enunciar-se diversas categorias de benefícios que podem resultar de acções de natureza ambiental, incluindo designadamente: rendimentos resultantes da venda de tecnologias, produtos ou serviços; poupanças, correspondentes a custos evitados, resultantes de acções de prevenção e/ou controlo ambiental; benefícios de natureza social, nomeadamente, os decorrentes da melhoria da qualidade ambiental. Existem diversas dificuldades associadas à identificação e avaliação dos custos e benefícios ambientais a considerar no sistema de contabilidade ambiental. A primeira tarefa a executar consiste na correcta identificação da informação que importa obter para que o sistema cumpra os seus objectivos sem incorrer numa afectação desproporcionada de recursos. Contudo, a identificação de custos pode tornar-se particularmente difícil quando os custos ambientais para a escala de análise pretendida estão englobados no que se designa por custos conjuntos. Nesse caso, tem de se proceder ao desenvolvimento de regras para a sua afectação. Por sua vez, na avaliação de custos e benefícios têm de ser, por vezes, ultrapassadas dificuldades sobretudo quando se trata de avaliar aspectos que não se traduzem em transacções nos mercados de bens e serviços. 98 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 5.5. Análise das Estratégias Ambientais das Empresas do Sector Eléctrico 5.5.1. Metodologia de Análise e Resultados Obtidos Efectuou-se uma análise das estratégias ambientais das empresas do Sector Eléctrico a nível mundial (e outras empresas do sector energético, com actividades ligadas ao petróleo e gás natural), com base numa análise comparativa de relatórios ambientais. A selecção das empresas foi realizada adoptando critérios como a facilidade de acesso a informação (designadamente, a disponibilidade online), a língua utilizada na divulgação (portugûes, espanhol, inglês ou francês), a dimensão e projecção internacional das empresas e a representatividade espacial. A amostra seleccionada inclui 70 empresas (ver Caixa 1). Caixa 1 – Empresas do sector eléctrico consideradas na análise África: 4 Europa: 34 ESKOM (África do Sul) Sonelgaz (Argélia) Egyptian Electricity Holding Company (Egipto) ONE (Marrocos) E.ON (Alemanha) RWE (Alemanha) ESTAG (Áustria) Electrabel (Bélgica) EAC (Chipre) ELTRA (Dinamarca) ENDESA (Espanha) HidroCantábrico (Espanha) Union Fenosa (Espanha) Iberdrola (Espanha) Rede Eléctrica de España (Espanha) Fingrid (Finlândia) Espoon Sahko (Finlândia) Helsinki Energy (Finlândia) EDF (França) Public Power Corporation (Grécia) ESB (Irlanda) RARIK (Islândia) Enel (Itália) Hafslund (Noruega) EDP (Portugal) Rede Eléctrica Nacional (Portugal) Tejo Energia (Portugal) Turbogás (Portugal) Scottish Power (Reino Unido) British Energy (Reino Unido) Powergen (Reino Unido) Innogy (Reino Unido) Scottish and Southern Energy (Reino Unido) International Power (Reino Unido) National Grid (Reino Unido) Electrica (Roménia) RAO UES (Rússia) EOS (Suíça) América: 19 Transener (Argentina) EDESUR (Argentina) CEMIG (Brasil) Bandeirante (Brasil) ESCELSA (Brasil) ENERSUL (Brasil) Electrobrás (Brasil) Transalta (Canadá) Hydro Québec (Canadá) Ontario Power Generation (Canadá) BC Hydro (Canadá) EPCOR (Canadá) ENDESA Chile (Chile) TXU (EUA) Duke Energy (EUA) AEP (EUA) NiSource (EUA) Exelon (EUA) El Paso Electric Company (México) Ásia: 10 Saudi Electricity Company (Arábia Saudita) CLP (China) KEPCO (Coreia do Sul) Ahmedabad Electricity Company (Índia) PT PLN (Indonésia) TEPCO (Japão) Kansai (Japão) NEPCO (Jordânia) PEEGT (Síria) EGAT (Tailândia) Oceânia: 3 United Energy (Austrália) Western Power (Austrália) Meridian Energy (Nova Zelândia) Total: 70 empresas 99 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL A análise efectuada reflecte apenas a informação disponível online23, não contemplando eventuais estratégias e/ou práticas ambientais que não tenham divulgação na Internet. Eventualmente, este factor introduz um enviezamento na análise ao não contemplar as empresas que não tendo estratégia ambiental também não privilegiam a internet como meio de divulgação. Com base na informação apresentada pelas empresas, procurou inferir-se qual o tipo de estratégia ambiental adoptada considerando um conjunto de factores diferenciadores. Para este efeito, foram consideradas sete áreas temáticas não mutuamente exclusivas: Política/Estratégia Ambiental (ex. a empresa enuncia um conjunto de princípios de Política Ambiental ?); SGA/Certificação (ex. a empresa centra os seus esforços no desenvolvimento/ manutenção de Sistema(s) de Gestão Ambiental – SGA, com o objectivo de obter Certificação Ambiental?) Eco-eficiência (ex. a empresa preocupa-se com critérios de eco-eficiência?) Desempenho Ambiental (ex. a empresa preocupa-se com os impactes ambientais – e.g. emissões atmosféricas, poluição da água – gerados pela sua actividade?) Desempenho Social (ex. o conceito de responsabilidade social está presente na estratégia da empresa?) Desempenho Económico24 (ex. a empresa possui uma contabilidade ambiental organizada?) Gestão da Sustentabilidade (TBL) (ex. a empresa adopta uma abordagem “tripple bottom line” contemplando as vertentes económica, social e ambiental?). A estratégia ambiental de cada uma das empresas foi avaliada nestas 7 áreas de acordo com uma escala de 0 a 5: 0 – tema não abordado; 1 – tema mencionado, mas muito pouco desenvolvido; 23 24 À excepção das empresas portuguesas, para as quais se dispunha de informação adicional A análise incide sobre o reporte do desempenho económico no relatório de ambiente ou de sustentabilidade da empresa. 100 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 2 – tema mencionado, mas com dados quantitativos insuficientes; 3 – tema suficientemente abordado e com alguns dados quantitativos; 4 – tema aprofundado e com bastantes dados quantitativos; 5 – tema muito relevantes. aprofundado apresentando dados quantitativos e metas Com base nesta avaliação, identificou-se o estágio de evolução da estratégia ambiental da empresa. Como principal resultado da análise elaborou-se uma tabela de empresas/temas com a respectiva avaliação. Adicionalmente, para cada área temática foi efectuada uma síntese dos principais aspectos abordados nos relatórios das empresas. Por fim, para cada empresa foi elaborada uma ficha síntese de análise em que são referidos alguns aspectos mais específicos da organização. É importante sublinhar, que a análise efectuada não procurou avaliar o desempenho ambiental ou de sustentabilidade das empresas, tendo apenas como objectivo procurar identificar o estágio de evolução da estratégia ambiental adoptada por cada empresa. Da análise global dos resultados obtidos (Figura 32), verifica-se que a maioria das empresas se encontram na fase de prevenção de riscos ambientais, adoptando procedimentos de reporte de desempenho, auditoria e certificação ambiental. Um número significativo de empresas encontram-se ainda na fase de cumprimento de legislação, havendo, no entanto, muitas destas que já apresentam uma política/estratégia ambiental e que começam a iniciar processos de certificação ambiental. Sustentabilidade 19% Sem Inform ação 20% Ecoeficiência 1% A usência de Preparação 11% Prev.R iscos A m bientais 29% C um prim ento da Legislação 20% Figura 32 – Estágio de evolução da estratégia ambiental das empresas do sector eléctrico Por outro lado, verificou-se também que um número significativo de empresas se encontram no estágio mais avançado, com a adopção de uma estratégia de gestão da sustentabilidade. Na Figura 33 apresenta-se a pontuação acumulada (soma das pontuações obtidas em cada uma das áreas temáticas) para cada empresa analisada. 101 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Note-se que esta classificação traduz o grau de desenvolvimento da estratégia ambiental da empresa, com base na informação reportada pela própria empresa. Não foi objectivo desta análise a avaliação do desempenho ambiental das empresas, nem a verificação/validação da informação por elas apresentada. Pontuação Acumulada 0 TEPC O Scottish Pow er Kansai ESKO M Enel RW E N ationalG rid ED F B C Hydro M eridian Energy O ntario Pow erG eneration Scottish and Southern Energy HelsinkiEnergy TX U Transalta B ritish Energy Hydro Q uébec Pow ergen Innogy Iberdrola EN D ESA Electrabel N iSource EPC O R W estern Pow er ED P U nion Fenosa Espoon Sahko R ede Eléctrica de España A EP D uke Energy U nited Energy Tejo Energia ESB C LP Turbogás InternationalPow er ELTR A Fingrid Exelon ED ESU R EG A T C EM IG EO S HidroC antábrico E.O N ONE Electrica EN D ESA C hile Transener R ede Eléctrica N acional Public Pow erC orporation EA C A hm edabad Electricity C om pany Electrobrás B andeirante R A O U ES Hafslund R A R IK ESTA G PEEG T N EPC O PT PLN KEPC O SaudiElectricity C om pany ElPaso Electric C om pany EN ER SU L ESC ELSA Egyptian Electricity Holding Sonelgaz 5 10 15 20 25 30 35 Uma maior pontuação acumulada (soma das pontuações obtidas em cada uma das áreas temáticas) não implica necessariamente uma estratégia ambiental mais evoluída. Por exemplo, existem empresas que, segundo o critério descrito na metodologia, se encontram no estágio da sustentabilidade e no entanto apresentam uma pontuação acumulada menor que algumas empresas classificadas como estando em estágios anteriores. A Figura apresentada não pretende comparar o desempenho ambiental ou a sustentabilidade das empresas, mas apenas ilustrar, de forma agregada, o nível de desenvolvimento das diferentes áreas temáticas que transparece da informação repoortada pela própria empresa. Figura 33 – Pontuação acumulada e estágio de evolução da estratégia ambiental das empresas 102 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 5.5.2. Aspectos Ambientais Abordados pelas Empresas Política / Estratégia Ambiental - A grande maioria das empresas apresenta, nos seus sites e relatórios de ambiente, os princípios de política de ambiente da empresa. No entanto, a maioria delas não associam os princípios de política com objectivos e metas quantificadas e respectivo grau de cumprimento. Sistemas de Gestão Ambiental / Certificação - O processo de certificação ambiental dos sistemas de gestão ambiental das suas unidades industriais é referido pela maioria das empresas. A certificação pela Norma ISO 14001 é a mais frequente (37 empresas fazem referência à norma), sendo o EMAS adoptado por apenas oito empresas europeias. Normalmente, os relatórios não entram em grandes detalhes sobre o funcionamento dos respectivos SGA e incidem sobretudo na certificação ambiental. Eco-eficiência - apenas seis das empresas analisadas abordam a questão da ecoeficiência. Desempenho Ambiental - a avaliação do desempenho ambiental é normalmente a secção mais desenvolvida dos relatórios ambientais. A análise das emissões atmosféricas é quase sempre destacada, com particular ênfase na problemática das Alterações Climáticas (emissões de CO2). Os impactes relacionados com os recursos hídricos, resíduos e conservação da natureza também são mencionados. A produção a partir de energias renováveis é igualmente realçada, assim como as medidas tomadas para promover a eficiência energética. Contudo, as empresas de energias renováveis (excepto para produção hidroeléctrica), normalmente não referem os impactes ambientais associados, salientando apenas os aspectos benéficos deste tipo de produção quando comparado com a produção convencional de electricidade. Desempenho Social - a nível social as preocupações centram-se sobretudo nos funcionários da empresa e em aspectos relacionados com a saúde e segurança no trabalho. Um número considerável de empresas faz referência à participação em projectos de apoio e cooperação com as comunidades locais, numa óptica de responsabilidade social. Desempenho Económico - O desempenho económico é normalmente apresentado através de dados financeiros gerais, como o volume de negócios ou o investimento efectuado. Apenas quatro empresas fazem referência à existência de uma contabilidade ambiental organizada. Gestão da Sustentabilidade (TBL) - Verifica-se que algumas empresas já apresentam uma estratégia de desenvolvimento sustentável e não apenas 103 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL ambiental. Contudo, são poucas as empresas onde a integração das três componentes é efectiva e onde se passa dos princípios estratégicos para objectivos concretos da empresa. Em alguns casos há uma integração das componentes ambiental e social; a componente económica surge normalmente separada das restantes. A maioria das empresas (53%) apresentam informação quantitativa acerca dos diferentes aspectos ambientais, sendo a preparação de relatórios ambientais a forma de apresentação de informação mais frequentemente adoptada pelas empresas. 5.5.3. Comparação com Outras Empresas do Sector Energético Os resultados da análise da informação sobre a estratégia ambiental divulgada na Internet das 14 empresas do sector do gás natural e petróleo pertencentes ao DJSI World são semelhantes aos obtidos para o Sector Eléctrico. Seis das empresas analisadas foram classificadas como estando nos estágios iniciais de Ausência de Preparação ou de Cumprimento da Legislação Ambiental, duas encontram-se no estágio de Prevenção de Riscos Ambientais, uma encontra-se no estágio da Ecoeficiência, encontrando-se quatro empresas no estágio de sustentabilidade 5.5.4. Empresas do Sector Eléctrico Português A EDP, a TejoEnergia e a Turbogás são as empresas do Sector Eléctrico Nacional que se apresentam num estágio mais avançado de evolução da estratégia de ambiente (Prevenção de Riscos Ambientais). Os Sumários Ambientais da Tejo Energia e da Turbogás incidem fundamentalmente no SGA. A EDP tem vindo a procurar elaborar o seu relatório segundo as directrizes da GRI, não contemplando, no entanto, ainda as vertentes económica e social. A REN ainda se encontra numa fase inicial de cumprimento da legislação ambiental, baseada numa declaração de política ambiental e num conjunto de princípios gerais. A GALP Energia faz menção, no seu relatório de ambiente, aos princípios de desenvolvimento sustentável e à adopção de uma estratégia Triple Bottom Line. No entanto, a integração das três dimensões da sustentabilidade é insuficiente para se poder considerar que a empresa se encontra neste estágio avançado de estratégia ambiental. Todas as empresas assentam a sua estratégia em princípios de ambiente gerais, que são um pouco mais desenvolvidos no caso da EDP, Tejo Energia e GALP Energia. 104 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL A Tejo Energia destaca-se na temática SGA /Certificação, reflectindo o facto do SGA da central termoeléctrica do Pego ter sido o primeiro em Portugal a ser certificado pela Norma ISO 14001 e a ser registado no EMAS. A Turbogás também faz menção à certificação da central da Tapada do Outeiro pela Norma ISO 14001. O Relatório de Ambiente de 2001 da EDP limita-se a referir a existência de um SGA por instalação, sem entrar em mais considerações sobre o seu funcionamento. À semelhança do constatado a nível internacional, nenhuma das empresas analisadas aborda a questão da Eco-eficiência. A nível do reporte do desempenho ambiental destaca-se a estratégia da EDP que aborda os principais aspectos ambientais inerentes à sua actividade apresentando dados quantitativos globais e por centro produtor. Contudo, não são apresentadas metas nem medidas para uma melhoria do desempenho. O reporte do desempenho social e económico, conjuntamente com o desempenho ambiental é insuficiente para todas as empresas analisadas. Verifica-se assim que as principais empresas do Sector Energético Nacional (EDP e GALP Energia) se encontram numa fase evolutiva da sua estratégia de ambiente e que, a breve prazo, poderão apresentar estratégias semelhantes às principais empresas do sector a nível internacional. A Rede Eléctrica Nacional encontra-se num estágio mais atrasado, pelo menos a nível do reporte e divulgação de relatórios anuais de ambiente. A REN – Rede Eléctrica Nacional SA e a EDP Distribuição Energia SA apresentaram à ERSE os seus Planos de Promoção da Qualidade Ambiental (estabelecidos no Regulamento Tarifário) para o triénio 2002-04, que incluem um diversificado conjunto de medidas de gestão ambiental, nomeadamente no domínio da gestão de resíduos, do estudo e minimização dos efeitos nos ecossistemas, da obtenção de informação e do desenvolvimento de sistemas de gestão ambiental. 105 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 106 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 6. CONCLUSÕES De um modo geral, os principais impactes ambientais do sector eléctrico ocorrem durante a fase de produção de electricidade, sobretudo para as tecnologias baseadas na queima de combustíveis fósseis, devidos sobretudo à emissão de poluentes atmosféricos. Não devem, no entanto, ser neglicenciados os efeitos associados às actividades a montante (extracção de recursos, transporte e refinação). As tecnologias de aproveitamento de fontes renováveis de energia, apesar de, em geral, originarem impactes ambientais muito menos significativos durante a produção de electricidade, também têm alguns impactes negativos importantes devido essencialmente à natureza dos materiais utilizados e aos danos ecológicos associados. Os aspectos ambientais também devem ser considerados para as actividades de transporte e distribuição de electricidade, nomeadamente devido à natureza e perigosidade de alguns materiais utilizados e à fragmentação de habitats provocada pelas linhas de transporte e distribuição. Existe um vasto conjunto de medidas que podem ser adoptadas para minimizar os impactes ambientais associados ao sector eléctrico, desde as medidas orientadas para a redução dos consumos (gestão da procura), passando pela escolha das formas de produção (gestão da produção) e considerando, finalmente, as medidas para minimização dos impactes gerados (e.g. medidas de controlo de poluição, gestão de resíduos, recuperação de habitats). Os impactes ambientais do sector eléctrico português são significativos, dada a natureza e dimensão das actividades associadas. O controlo das emissões de poluentes atmosféricos (sobretudo SO2, NOx, partículas e, mais recentemente, CO2) tem sido um dos aspectos fundamentais para o sector eléctrico português. Outros factores relevantes têm sido os impactes ambientais associados à hidroelectricidade, devidos ao alagamento e destruição de ecossistemas e zonas de valor patrimonial, a gestão de resíduos e a localização de corredores destinados à instalação de linhas de transporte e distribuição de energoa eléctrica. O sector eléctrico português tem desenvolvido esforços importantes para reduzir as emissões de poluentes atmosféricos, nomeadamente através da introdução do gás natural, da redução do teor de enxofre dos combustíveis utilizados e da instalação de queimadores de baixo NOx e de precipitadores electrostáticos. Da análise realizada ressalta a premência de serem desenvolvidos esforços adicionais no controlo dos impactes ambientais do sector eléctrico, nomeadamente no controlo dos consumos (através de estratégias mais agressivas de DSM), no 107 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL incentivo às fontes renováveis, na utilização de combustíveis mais limpos e na instalação de equipamento de controlo de emissões. Os diferentes estudos de avaliação económica das externalidades ambientais do sector eléctrico apresentam características diferenciadas no que respeita ao enquadramento político, âmbito de aplicação, pressupostos assumidos, abordagem conceptual e metodológica, categorização dos custos ambientais e nível de detalhe da análise. Esta variabilidade torna inviável uma comparação directa dos resultados obtidos, bem como uma extrapolação automática para outros casos de estudo. Apesar das dificuldades apontadas, os resultados obtidos com a aplicação de métodos de avaliação dos custos externos ambientais têm contribuido para a análise da importância relativa dos danos associados aos diferentes ciclos de combustível, bem como da sua relação com os custos de produção e preço de venda da electricidade. Estes aspectos podem ser relevantes para suportar a política de incentivos e apoiar as decisões de planeamento estatégico. Dos resultados do projecto ExternE conclui-se que existem fortes evidências de que a transferência directa de estimativas de valor entre localizações geográficas distintas é inadequada. A única excepção respeita aos danos associados ao aquecimento global, uma vez que estes não dependem da localização geográfica das fontes emissoras (embora os custos de cumprimento sejam diferenciados). Ao longo das últimas duas décadas tem-se registado uma evolução positiva dos estudos de avaliação económica, em termos conceptuais, metodológicos e de rigor e, em consequência, da consistência e fiabilidade das estimativas de custo externo obtidas. Contudo, as estimativas de valor económico obtidas não devem ser ainda interpretadas como resultados rigorosos, mas antes como valores indicativos da ordem de grandeza dos impactes do sector eléctrico. A percepção dos elevados custos ambientais associados aos impactes ambientais do sector eléctrico implica que os benefícios sociais associados ao controlo dos problemas ambientais sejam, de um modo geral, elevados, justificando assim a adopção de políticas ambientais, através da implementação de instrumentos e medidas de actuação. Existe uma enorme diversidade de instrumentos, que podem ser utilizados pelas autoridades ambientais para influenciar o comportamento dos agentes, dependendo a escolha em cada caso das especificidades do problema ambiental em análise, do contexto socio-económico e dos objectivos que se pretendem privilegiar com a política. Cada vez mais é reconhecida a necessidade de adoptar “pacotes de instrumentos” que permitam atingir diversos objectivos de forma integrada. A política ambiental é cada vez mais complexa e restritiva, sendo as responsabilidades dos agentes (designadamente do sector eléctrico) cada vez 108 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL maiores. Verifica-se assim uma tendência para a exigência de uma maior eficiência na utilização de recursos, para a adopção de compromissos exigentes de redução de emissões, para a imposição de tectos (nacionais e sectoriais) e valores limite de emissão de poluentes cada vez mais restritivos, e para a existência de maiores condicionantes à localização de actividades em zonas ecologicamente sensíveis. Estas maiores exigências traduzir-se-ão forçosamente por um maior esforço de controlo ambiental para o sector eléctrico, dado o seu relevante contributo para os problemas ambientais. A maior facilidade associada à intervenção neste sector, quando comparada com outros de natureza mais “difusa”, tais como os transportes, reforça esta conclusão. Por sua vez, a tendência já referida para o favorecimento de abordagens de mercado e de actuação voluntária, implica que nestes casos a actuação em termos ambientais deixa de ser imposta aos agentes por uma autoridade, passando estes a serem responsáveis, pela definição do seu curso de acção, face às regras estabelecidas. Estas crescentes exigências ambientais podem, no entanto, ser encaradas como uma oportunidade para o sector se adaptar e inovar, procurando novas soluções, mais eficientes em termos ambientais e económicos. Torna-se assim fundamental a adopção de uma atitude proactiva por parte das empresas do sector eléctrico, que lhes permita antecipar as exigências ambientais e utilizá-las como um incentivo à inovação, aumentando a sua produtividade de recursos e/ou encontrando novas oportunidades de negócio, aumentando assim a sua competitividade. Paralelamente, existe um conjunto alargado de outros factores, relacionados com os próprios mercados de produtos, com o fornecimento de recursos/factores produtivos e com a sociedade em geral, que exercem pressões sobre as empresas, motivando-as para a adopção de estratégias ambientais proactivas. A atitude das empresas face a estes desafios ambientais tem vindo a evoluir desde a década de 70. Actualmente, as empresas mais avançadas procuram integrar as dimensões económica, ambiental e social em todas as suas actividades, alcançando assim um estágio de sustentabilidade. As empresas do sector eléctrico, de um modo geral, têm vindo a acompanhar a evolução, encontrando-se a maioria no estágio de prevenção de riscos ambientais, preocupando-se sobretudo com o seu desempenho ambiental e com a implementação de sistemas de gestão do ambiente. Contudo, existe já um número significativo de empresas que referem preocupações de sustentabilidade nos seus relatórios ambientais. As empresas do sector eléctrico português também têm vindo a acompanhar a evolução das restantes, sem contudo se poderem considerar líderes neste domínio. Constata-se que as empresas portuguesas já têm uma preocupação relevante com 109 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL o seu desempenho ambiental, procurando sobretudo demonstrar o cumprimento da legislação. Pode considerar-se que três delas (EDP, Tejo Energia e Turbogás) estão já na fase de prevenção de riscos ambientais. Contudo, as preocupações de ecoeficiência e de sustentabilidade – integração das vertentes económica, ambiental e social – parecem ainda estar ausentes das estratégias ambientais das empresas do sector eléctrico português. Neste contexto, parece existir um conjunto de oportunidades ainda não exploradas pelas empresas do sector eléctrico português, nomeadamente ao nível da produtividade de recursos (eco-eficência) da diferenciação ambiental de produtos (potenciada com a liberalização dos mercados), do investimento em capital natural, como forma de compensar os impactes gerados, e do desenvolvimento de novas formas de intervenção no domínio social. O sector eléctrico português encontra-se numa fase crucial de desenvolvimento, com a futura implementação do Mercado Ibérico de Electricidade (MIBEL) no período 2003-06. Estas alterações implicam um aumento da concorrência ao nível da produção, com a extinção dos contratos de aquisição de energia ainda vigentes, e a possibilidade de escolha do fornecedor para todos os clientes. Os efeitos destas alterações nas estratégias das empresas e, consequentemente, no desempenho ambiental do sector eléctrico português são difíceis de antecipar. Se, por um lado, a passagem para um regime concorrencial pode conduzir a uma limitação das margens de actuação das empresas, levando, numa perspectiva de curto prazo, à necessidade de reduzir custos e investimentos ambientais, também é certo que, tal como se referiu anteriormente, o bom desempenho ambiental é hoje em dia encarado pelas empresas como um factor de competitividade, sobretudo quando associado à implementação de estratégias eco-eficientes e sustentáveis. Além disso, as novas regras vão implicar uma crescente necessidade de antecipação de riscos para as empresas, incluindo os de natureza ambiental, o que só é possível com a adopção de estratégias ambientais proactivas. Esta discussão não pode ser dissociada da análise da evolução da política ambiental e das suas implicações para o sector eléctrico. Tal como se referiu neste trabalho, as actividades do sector eléctrico têm implicações em quase todos os grandes problemas ambientais da actualidade, apontando a evolução da política de ambiente a nível internacional, e sobretudo europeu, para uma crescente exigência e responsabilização dos agentes, à qual as empresas do sector eléctrico não podem deixar de dar resposta. 110 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL 111 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL BIBLIOGRAFIA Antunes, P., A. Salgueiro, R. Santos, G. Lobo, J. Almeida, N. Carvalhais, (2000), Impactes Ambientais do Sector Eléctrico, 1º Relatório do “Estudo sobre Sector Eléctrico e Ambiente” para a ERSE, Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente, DCEA, FCT, UNL. Antunes, P., R. Santos, S. Martinho, G. 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EDP (2001), Relatório de Ambiente 2001, EDP-Electricidade de Portugal, Lisboa. 112 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL EEA, (2001), Business and the Environment: Current Trends and Developments in Corporate Reporting and Ranking, European Environment Agency, Technical Report No 54, Copenhagen. EMEP/CORINAIR, (1996), Atmospheric Emissions Inventory Guidebook. Volumes 1 e 2, European Environment Agency, Copenhagen. ERSE, (1999), Caracterização do Sector Eléctrico. Portugal Continental 1999. Entidade Reguladora do Sector Eléctrico, Lisboa. ERSE (2002), “Caracterização do Sector Eléctrico Portugal Continental 2001. Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, Lisboa. Ferreira, M. T., A. Pinheiro, A. Ferreira, F. Godinho, A. Albuquerque, J. M. Santos, R. Diogo, F. Reis, S. Santos, L. 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Actividades/Instalações e GEE’s abrangidos O comércio europeu de direitos de emissão (CE) abrange as actividades/instalações e GEE’s definidos nos Anexos I e II, respectivamente, da proposta de directiva (Art. 2º). De acordo com a informação actualmente disponível, em 2010, as emissões das instalações nacionais abrangidas pelo CE representarão cerca de 37% das emissões nacionais totais, sendo o sector electroprodutor responsável por cerca de 55% do total das emissões dessas instalações (v. Caixa I.1). Caixa I.1 - Emissões de GEE’s das instalações abrangidas pelo Comércio Europeu de Direitos de Emissão Sectores Contribuição (%) para Total do CE total de emissões de instalações Vidro abrangidas pelo CE, 2010 Cerâmica 2010 - Alto Cimento Oferta de energia 2010 - Baixo Geração de electricidade 55 % Metalurgia Refinação 9% Refinação Indústria e Construção 2000 Pasta e papel 1990 Electroprodutor 0 10 20 Emissões Tg CO2.e 30 40 Metalurgia 0.4 % Pasta e papel 4% Cimento 23 a 24 % Cerâmica 6% Vidro 3% Fonte: IA, FCT/UNL, CEEETA (2003). Enquadramento do Comércio de Emissões no PNAC – Documento de Trabalho. Não obstante o estabelecido no Art. 2º, no que se refere à primeira fase de mercado (Janeiro 2005 – Dezembro 2007), uma instalação abrangida pelo Anexo I pode ser temporariamente excluída do CE (alínea a) do Art. 25º). Para o efeito, a instalação deve ficar sujeita a políticas e medidas nacionais que induzam a uma redução das suas emissões de GEE’s similar à que ocorreria se participasse no CE. Concomitantemente, encontra-se sujeita aos requisitos de monitorização e comunicação de informação estabelecidos pelo CE. Por outro lado, de acordo com a alínea a) do Art. 23º, a partir de 2005, os Estados-Membros podem incluir no CE instalações com limiar abaixo do referido no Anexo I. Ainda em relação à primeira fase de mercado, está prevista a transacção exclusiva de direitos de emissão de dióxido de carbono (CO2). No entanto, de acordo com o n.º 1 do Art. 26º, a Comissão, até 31 de Dezembro de 2004, pode apresentar, ao Parlamento e Conselho 116 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Europeu, uma proposta de alteração do Anexo I, por forma a incluir outras actividades e emissões de GEE’s listadas no Anexo II. b. Activos transaccionados A proposta de Directiva aprovada reconhece, explicitamente, a possibilidade de transacção de créditos de emissão gerados a partir dos mecanismos do Protocolo de Quioto, nomeadamente da Implememtação Conjunta (IC) e do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Com efeito, o Art. 24º estabelece que os direitos de emissão podem ser transaccionados entre a União Europeia e outros países do Anexo B do Protocolo, desde que os mesmos tenham ratificado o Protocolo e com os quais tenha sido estabelecido um acordo que permita o reconhecimento mútuo dos direitos de emissão do CE e créditos de emissão de GEE’s gerados no âmbito de outros mecanismos. c. Critérios a observar no Plano Nacional de Alocação Tal como explicitado no 3º Relatório, a definição do Plano Nacional de Alocação deve observar o conjunto de critérios estabelecido no Anexo III da proposta de directiva. De acordo com o 4º parágrafo do Anexo III da proposta original em discussão COM(01)581 “ (...) não deverão ser atribuídos direitos para cobrir emissões que irão ser reduzidas ou eliminadas na sequência de legislação comunitária sobre a utilização de fontes de energia renováveis na produção de electricidade (...)”25. A proposta de directiva aprovada altera substancialmente a redacção deste parágrafo. Não obstante, o seu espírito mantém-se na redacção dada ao 1º parágrafo do seu Anexo III. d. Outros aspectos Para além do conjunto destes aspectos, acresce-se: (a) as alterações introduzidas no sistema de incumprimento, na primeira fase de mercado (Art. 16º), reduzindo de 50€ para 40€ a penalidade por cada tonelada de CO2e emitida em excesso para além dos direitos de emissão detidos pelo operador da instalação e (b) o enfoque dado à possibilidade dos Estados-Membros poderem permitir que um grupo de instalações ou sector (com a mesma actividade) forme um pool, na primeira e/ou segunda fases do CE. Actualmente, ainda é elevado o nível de incerteza associado a muitos aspectos do CE (por ex., número de direitos de emissão emitidos e alocados por cada Estado-Membro, extensão da utilização da opção de exclusão temporária de instalações/actividades, efectiva articulação com a IC e o MDL). Não obstante, ao longo dos últimos meses, têm-se vindo a desenvolver múltiplos estudos e análises acerca da potencial dimensão, dinâmica e preços de mercado, bem como do seu potencial impacte sobre as diversas actividades abrangidas. 25 Proposta de Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho, 2001/0245 (COD). “(...) Emissions trading is clearly not the best way to promote renewables and CHP, but primarily a way to reduce costs. Its limits should be acknowledged.” Fonte: Chairman’s Summary Recorded of Stakeholders Consultation Meeting with Industry and Environmental NGOs, Set. 2001. 117 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL De acordo com informação disponibilizada pelo PointCarbon – Carbon Market Forecasting26, em Março de 2003, o mercado europeu de direitos de emissão poderá crescer de 1 milhar de milhões de euros, em 2005, para cerca de 7.4 milhares de milhões de euros, em 2007. Assim, A. Christiansen (2003)27 recomenda que as empresas sob CE, atempadamente, desenvolvam as suas estratégias de mercado e preparem as suas empresas para o esforço de redução e controlo de emissões de GEE’s que terão de realizar no futuro. A análise realizada também integrou um poll de peritos que estimaram os preços de mercado de uma tonelada de CO2e, cujos resultados encontram-se sistematizados na Tabela seguinte. Tabela I.1 – Estimativa de preços de mercado para os direitos de emissão de CO2e Fonte: www.pointcarbon.com De acordo com informação disponibilizada pela McKinsey Quarterly (2002)28, é expectável que o CE venha acelerar o processo de substituição de centrais a carvão por centrais de ciclo combinado a gás natural, no sector electroprodutor, e induzir a um aumento nos preços da energia, quer para os consumidores finais como para as empresas. Efeitos que, aliás, são corroborados pelo ICF Consulting (2002)29. Por outro lado, as conclusões apresentadas pela McKinsey chamam a atenção para o facto de que, sob o CE, a não ser que os reguladores intervenham, muitos produtores de electricidade podem vir a obter ganhos financeiros inesperados, como free-riders. Com efeito, segundo os resultados do modelo utilizado, em muitos casos os custos associados ao desmantelamento de centrais termoeléctricas obsoletas e ao investimento em centrais a gás natural eficientes, podem ser mais do que compensados pelos lucros operacionais crescentes resultantes do potencial aumento de 40% do preço de venda da electricidade30. 26 www.pointcarbon.com. Coordenador do Relatório do PointCarbon – Carbon Market Forecasting. McKinsey Quarterly, 2002, N.º 4. 29 ICF Consulting (2002), European Carbon Market Outlook. 30 Para informação adicional consultar “Climate Change for Europe’s Utilities”, McKinsey [email protected], disponível em www.pointcarbon.com. 27 28 118 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC) Os estudos técnicos preparatórios do Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC) realizados no decurso do ano 2002 e que se encontram, actualmente, em fase de conclusão, começaram por reestimar as emissões nacionais de GEE’s, no primeiro período de cumprimento do Protodolo de Quioto, 2008 – 2012, e avaliar o quão estas distam da meta assumida por Portugal no âmbito deste Protocolo e do acordo de partilha de responsabilidades da UE (+27% de emissões de GEE’s, em 2008-2012, face às emissões de 1990). Para o efeito, consideraram-se os cenários de evolução demográfica, macroeconómica, sectorial e de preços da energia, de médio-longo prazo, que se encontram sistematizados na Caixa I.2. A partir destes cenários de evolução “business as usual” (BAU) e com recurso a um modelo de procura de energia, efectuaram-se as estimativas de emissão de GEE’s para o ano médio do primeiro período de cumprimento, 2010, cujos resultados apresentam-se na Tabela I.2. Como se pode verificar a partir da sua análise, as estimativas de emissão obtidas, quando comparadas com as do PNAC’2001 e que constam do 3º Relatório do presente Estudo, são substancialmente mais elevadas. Por conseguinte, também o esforço nacional de redução de emissões de GEE’s é superior (15.7 a 20.6 Mton CO2e, com FAUS31, nos cenários baixo e alto, respectivamente), face ao apresentado no 3º Relatório (11,3 Mton CO2e, com FAUS. As estimativas de emissão no cenário BAU foram posteriormente refinadas, considerando os impactes (in)directos nas emissões de GEE’s do conjunto de medidas e instrumentos de política (ambiental e sectorial, comunitária e nacional) que se encontrarão em vigor até ao horizonte de cumprimento das responsabilidade de Quioto e da UE (2012). Estas medidas e instrumentos de política configuravam, no âmbito do PNAC’2001, o “bloco imediato de políticas e medidas (PeM) sectoriais”. No que se refere ao sector da oferta de energia, as medidas e instrumentos de política considerados são os que integravam, no PNAC’2001, o respectivo bloco imediato. Não obstante, as estimativas do seu potencial de redução de emissões de GEE’s, em 2010, encontram-se actualizadas na Tabela I.3. 31 FAUS: Floresta e Alterações do Uso do Solo. 119 Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Caixa I.2: PNAC - Descrição sumária dos cenários macroeconómicos, sectoriais e demográficos considerados para efeitos de cálculo das estimativas das emissões nacionais de GEE’s, em 2010 1. Cenários Macroeconómicos Cenário Baixo “O cenário baixo corresponde a algum fracasso, por parte dos agentes económicos e sociais, na superação dos estrangulamentos com que se defronta o sistema produtivo. Nesta perspectiva "pessimista", a contribuição para o crescimento dos aspectos qualitativos será inferior, por comparação com a contribuição dos factores meramente quantitativos”. Cenário Alto “O cenário alto, pelo contrário, traduz um sucesso mais completo que aquele subjacente ao cenário baixo. A evolução qualitativa, traduzida no "progresso técnico", será neste caso mais elevada, evoluindo a economia portuguesa a uma maior velocidade de convergência real. A maior taxa de investimento possibilitada por um menor consumo público e pela captação de poupança externa reforça, neste cenário, o crescimento mais elevado”. Fonte: Transcrição de CISEP(2001), cap.3, nº 1 em IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) Cenários e Esforço de Redução. Documento de Trabalho realizado no âmbito dos estudos técnicos preparatórios do PNAC (http://www.iambiente.pt). 2. Cenários Sectoriais: Taxas médias anuais de variação real do Valor Acrescentado Bruto (%) Sectores Cenário Alto Cenário Baixo 2000-15 2015-25 2000-15 2015-25 Agricultura 3 2,5 2 2 Energia 4 4 2 2 Indústria 3,2 2,8 2 1,3 Construção 3,7 3,3 2,1 1,6 Serviços 4,6 4,2 3,2 2,9 SIFIM 4,4 4,1 3,1 2,7 Total 4,2 3,8 2,8 2,5 Fonte: GEPE (2002) em IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) Cenários e Esforço de Redução. Documento de Trabalho realizado no âmbito dos estudos técnicos preparatórios do PNAC (http://www.iambiente.pt). 3. Cenários Demográficos População (1000 hab) N.º de Famílias 1990 1995 2000 2005 2010 9860 3054 10036 3268 10243 3495 10430 3729 10597 3946 Fonte: INE (2001) em IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) Cenários e Esforço de Redução. Documento de Trabalho realizado no âmbito dos estudos técnicos preparatórios do PNAC (http://www.iambiente.pt). 4. Cenários de Preços da Energia Fonte: http://www.eia.doe.gov/oiaf/aeo/#prices em IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) Cenários e Esforço de Redução. Documento de Trabalho realizado no âmbito dos estudos técnicos preparatórios do PNAC (http://www.iambiente.pt). 120 Tabela I.2 – Emissões de GEE’s no cenário “business as usual” (BAU) Sectores de Actividade Inventário Cenário Alto (Tg CO2eq.) 1990 1. Energia (combustão e outros usos não energéticos) Tg CO2eq. 2010 Cenário Baixo Variação/1990 (%) 2020 2010 2020 Tg CO2eq. 2010 2020 Variação/1990 (%) 2010 2020 41 77,7 89,6 89,5 118,6 72,7 80,4 77,3 96,1 1.1 Oferta de energia 16,1 26,6 29,4 65,1 82,3 24,9 26,9 54,2 66,8 1.2 Indústria e Construção civil 8,7 15,3 17,4 74,8 98,8 14,4 15,3 65,1 74,9 1.3 Transportes (s/Bancas internacionais) 10,9 26,1 31,7 139,4 191,2 24 27,6 120,9 153,2 1.4 Residencial e Terciário 3,4 7,5 8,4 118,4 146,9 7,2 8,1 109,5 138,4 1.5 Agricultura, Florestas e Pescas 1,8 2,3 2,7 24,8 48,1 2,2 2,5 19 38 2. Processos Industriais 4,8 8,1 8,5 69,6 77,4 8 8,1 66,2 69,5 3. Solventes e Outros Produtos 0,3 0,3 0,3 2,7 2,7 0,3 0,3 2,7 2,7 12,3 4. Agricultura (1) 5. Florestas e Alterações do Uso do Solo (FAUS) (1) 6. Resíduos e Outros (1) 12,3 n.a. 0 n.a 12,3 n.a. 0 n.a (2) 0,4 -2,5 n.a. -725 n.a -2,2 n.a. -650 n.a (3) 1,7 1,5 n.a. -11,8 n.a. 1,5 n.a. -11,8 n.a. Total s/Bancas Internacionais e c/FAUS 60,5 97,4 n.a. 61,1 n.a. 92,5 n.a. 53 n.a. Total s/Bancas Internacionais e s/FAUS 60,1 99,9 n.a. 66,4 n.a. 94,7 n.a. 57,7 n.a. Valores PNAC (com FAUS) Meta Quioto (até +27% emissões 1990, em 2010) Cenário Alto 1990 2010 60,5 76,8 Esforço de redução (Mton CO2e) Esforço de redução (Mton CO2e) 2010 (+27%) 76,8 20,6 Valores PNAC (sem FAUS) Meta Quioto (até +27% emissões 1990, em 2010) Cenário Baixo 15,7 Cenário Alto 1990 2010 60,1 76,3 (+27%) Cenário Baixo 2010 (+27%) 76,3 23,6 Notas: (1) As estimativas de emissões, em 2010, incluem já os efeitos das medidas em vigor; Desenvolvimento Rural e das Pescas; (3) Estimativas da equipa técnica. Fonte: IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) (http://www.iambiente.pt) (+27%) 18,4 (2) Estimativas da equipa técnica validadas pelo Ministério da Agricultura, do Estudo sobre o Sector Eléctrico e o Ambiente Relatório Síntese Centro de Economia Ecológica e Gestão do Ambiente DCEA/FCT/UNL Tabela I.3: Síntese das medidas e instrumentos para o sector da oferta de energia, no Cenário de Referência Medidas e instrumentos de política Programa E4: electricidade produzida a partir de fontes renováveis de energia (E-FER). Meta: 39%, em 2010. Cenário Cenário Alto Baixo Potencial redução, em 2010 Mton CO2e 3.1 3.6 Plano de expansão do sistema electroprodutor (Eficiência energética no sector electroprodutor) 0.5 0.8 Fonte: IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) (http://www.iambiente.pt) No contexto dos actuais estudos técnicos do PNAC, o conjunto destas medidas e instrumentos de política integram o seu “cenário de referência” (CR). Assim, utilizando a terminologia do PNAC’2001 que consta do 3º Relatório, as emissões de GEE’s no CR correspondem às emissões no cenário BAU “corrigidas” do potencial técnico de redução de emissões do bloco imediato. A Tabela I.4 sistematiza as emissões de GEE’s no CR. Tal como pode observar-se, em 2010, estas serão de 87.5 e 91.4 Mton CO2e, nos cenários baixo e alto, respectivamente. Por conseguinte, atendendo ao nível de emissões de GEE’s, em 1990, reportado no Inventário Nacional (60.5 Mton CO2e), as emissões, em 2010, situar-se-ão entre 10.7 a 14.6 Mton CO2e para além da meta assumida por Portugal no âmbito de Quioto e da UE (76.8 Mton CO2e). O cumprimento dessa meta é equacionado no âmbito do “cenário de cumprimento” (CC) do PNAC e compreende: i) A implementação de medidas e instrumentos adicionais, à escala nacional, que, na terminologia do PNAC’2001 adoptada no 3º Relatório, configuram o “bloco adicional de PeM”; ii) A adopção do comércio europeu de direitos de emissão, que, pela sua natureza, é vinculativo para cada um dos Estados-Membros da UE; e iii) O eventual recurso aos mecanismos de flexibilidade do Protocolo de Quioto explicitados no 3º Relatório, nomeadamente ao Comércio de Emissões (CE) e ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Tabela I.4 – Emissões de GEE’s no cenário de referência (CR) Sectores de Actividade Inventário Cenário Alto (Tg CO2eq.) 1. Energia (combustão e outros usos não energéticos) 1.1 Oferta de energia Tg CO2eq. Cenário Baixo Variação/1990 (%) Tg CO2eq. Variação/1990 (%) 1990 2010 2020 2010 2020 2010 2020 2010 2020 41 71,7 n.a. 74,8 n.a. 67,6 n.a. 64,9 n.a. 16,1 22,6 24,1 40,3 49,5 21,6 22,6 33,9 40,4 1.2 Indústria e Construção civil 8,7 15,3 17,4 74,8 98,8 14,4 15,3 65,1 74,9 1.3 Transportes (s/Bancas interncaionais) 10,9 24,4 n.a. 124,5 n.a. 22,6 n.a. 107,6 n.a. 1.4 Residencial e Terciário 3,4 7,1 7,7 106,6 125,7 6,8 7,5 99,2 119,2 1.5 Agricultura, Florestas e Pescas 1,8 2,3 2,7 24,8 48,1 2,2 2,5 19 38 4,8 8,1 8,5 69,6 77,4 8 8,1 66,2 69,5 2. Processos Industriais 3. Solventes e Outros Produtos 0,3 0,3 0,3 2,7 2,7 0,3 0,3 2,7 2,7 4. Agricultura 12,3 12,3 n.a. 0 n.a. 12,3 n.a. 0 n.a. 5. Florestas e Alterações do uso do solo (FAUS) 0,4 (1) -2,5 n.a. -725 n.a. -2,2 n.a. -650 n.a. 6. Resíduos e Outros 1,7 (2) 1,5 n.a. -11,8 n.a. 1,5 n.a. -11,8 n.a. Total s/Bancas Internacionais e c/FAUS 60,5 91,4 n.a. 51,1 n.a. 87,5 n.a. 44,6 n.a. Total s/Bancas Internacionais e s/FAUS 60,1 93,9 n.a. 56,3 n.a. 89,7 n.a. 49,3 n.a. Valores PNAC (com FAUS) Cenário Alto 1990 Meta Quioto (até +27% emissões 1990, em 2010) 60,5 Esforço de redução (Mton CO2e) Esforço de redução (Mton CO2e) 76,8 (+27%) 1990 2010 76,3 76,8 (+27%) 10,7 Cenário Alto 60,1 Cenário Baixo 2010 14,6 Valores PNAC (sem FAUS) Meta Quioto (até +27% emissões 1990, em 2010) 2010 Cenário Baixo 2010 (+27%) 17,6 Notas: (1) Estimativas da equipa técnica validadas pelo Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas; Fonte: IA, CEEETA, FCT/UNL (2003) (http://www.iambiente.pt) 76,3 (+27%) 13,4 (2) Estimativas da equipa técnica. 125