Os belos jogos da minha infância Autora: Luz Eide Romero1 Trad. Maria Algela Barbato Carneiro2 Naqueles dias longínquos, a alegria e a criatividade próprias da infância eram a matéria prima de nossas brincadeiras. A falta de brinquedos convencionais nos permitia como crianças, reconhecer o mundo com nossa própria imaginação e os poucos materiais e objetos em desuso que por não servirem para outra coisa passavam a ser elementos essenciais dos jogos que não só nos divertiam como nos integravam nas nossas tarefas diárias, pois desde os sete anos, tínhamos “uso da razão” e, portanto, tínhamos que cumprir não so com as tarefas do colégio como também com os afazeres de casa. Com meus irmãos e minha irmã mais velha, principalmente, e algumas vezes com as crianças vizinhas que eram nossas amigas, inventávamos toda a sorte de brincadeiras que agora ao recordá-las me surpreendo ao ver como éramos inquietos e criativos e, por vezes, sinto melancolia de saber que nesses tempos, éramos felizes com tão pouca coisa, porque podíamos experimentar a felicidade que se encontra na simplicidade da vida. Era tão claro o princípio de sermos felizes com o que tínhamos que o fato de ter brinquedos convencionais não era importante; igualmente nossos brinquedos e brincadeiras não eram convencionais. Por exemplo, aos onze anos, umas monjas (freiras) nos deram a mim e à minha irmã uma boneca de pano, que jamais foi uma boneca porque rapidamente se converteu em um brinquedo de todos, quase uma bola, que acabou presa nos cabos elétricos da rua. Essa lembrança me leva às bolas de pano que elaborávamos para jogar “ponchados” (queimada) e outros jogos parecidos ao beisebol; em algumas ocasiões era necessário colocar-lhe um coração de pedra, para que a bola pudesse ser arremessada, não negando a efetividade de uma grande bola, mas erámos muito ágeis e, em quem ela tocava, tornava-se aborrecido ficar muito tempo quieto. No colégio tínhamos, além disso, uma bola de letras que quando lançada na parede fazia que a jogadora, pois era especial para as meninas, apresentasse habilidades físicas como: uma mão, com outra, com um pé, com o outro, meia volta, volta inteira á direita, à esquerda, agachada, etc.3 Além das bolas outra brincadeira interessante era pular corda. Elas se encontravam em todas as partes da casa, pois tínhamos uma tenda que servia para atar, guardar ou segurar coisas. Em nosso caso serviam para saltar individualmente ou em grupo de diversas maneiras: com as letras do alfabeto, a 21, a centena, etc. Também serviam para fazer balanços parecidos aos que existiam em um parque próximo. Lembro-me que um 1 Luz Eide Romero é professora de Educação Infantil em Bogotá (Colômbia) Maria Angela Barbato Carneiro é professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 3 A brincadeira do Brasil era denominada de Ordem, Sem lugar, sem rir... 2 dia armamos um balanço preso a um tronco que se sustentava em uma ponta de um terraço que dava para um pátio. Era inseguro balançar-se nele, mas a brincadeira me seduzia e quando estava bem impulsionada caiu a madeira com o balanço e comigo. Foi um dos tombos mais fortes que tive. Minha mãe correu a socorrer-me e atender-me. Meu pai furioso separou-a de mim dizendo: _ Deixe-a! Quem mandou ela fazer isso! Outro jogo especial era o aro que estava ligado às celebrações de dezembro. A cada oito de dezembro por tradição e em honra de Nossa Senhora, não prendíamos nem bandeiras e nem velas, queimávamos rodas velhas dos carros e a diversão começava no momento da queima: saltar sobre o fogo, especialmente, quando estava mais alto. Era um objetivo duro e quanto mais difícil nos sentíamos mais motivados. Ao terminar a queima restavam os aros que eram inquebráveis e com eles apostávamos corridas de várias maneiras: Com paus, sem paus, com cães sem cães, na subida na descida, etc. Se tínhamos ir longe o aro era nossa companhia. Igualmente nos divertíamos com nosso brinquedo vivo preferido um cão preto que nos deram ainda muito pequeno e que nossa mãe colocara o nome de Pekin. Era um lindo animal mestiço de pastor alemão, foi o cão mais inteligente que conheci. Exercia as funções de brinquedo, zelador, meio de transporte, carregador de mala e, sobretudo de acompanhante. Voltava para casa às 12hs: 00 quando tocava a sirene em uma casa anunciando a hora do almoço para os trabalhadores Pekin se despertava e ia ao colégio para buscar-nos, andando umas doze quadras de distância. Era tão inteligente que quando subíamos para o ônibus, entrava pela porta de trás e se escondia debaixo de uma poltrona para que o motorista não percebesse. Foi um dos poucos que sentiu quando vovó faleceu a muitos quilômetros e que uma noite veio despedir-se de nós e o cão com latidos lastimáveis cumprimentou-a. Uma brincadeira esportiva que praticávamos muito era subir em árvores. Nossa família é proveniente de um pequeno povoado ao norte de Bogotá e desde pequena meu pai havia despertado nossa vocação para macacos, construindo uma casa na árvore e para nós era muito comum subirmos nas mais altas, tornando-se difícil descer. Lembrome muito da primeira casa paterna em Bogotá, que existia um solar no fundo da casa e havia uma árvore especial chamada “arvore louca” porque crescia desmesuradamente, e nela praticávamos descida como bombeiros, sobretudo quando mamãe aparecia na esquina e nos dávamos conta que tínhamos nos esquecido das tarefas gastando todo o tempo brincando no terraço da casa. Ela chegava com a cinta na mão e todos os vizinhos, saiam pela porta dos fundos depois de descerem da árvore em velocidade. Um dia, fiquei por último, pois havia muitas crianças para descer e eu não consegui. Quando me dei conta, minha mãe subia pelas escadas. Ela começou a perseguir-me por todo o terraço e quando me cercou em uma ponta, onde eu não conseguiria correr mais, pulei na rua. Minha mãe ficou tão assombrada que se esqueceu de pegar-me. Outra brincadeira que é popular agora, mas que naquele tempo não rinha nome era o montanhismo. Nas excursões do colégio e como resultado de nossa própria colheita, corríamos e explorávamos montanhas, vales e rios perto da cidade, com histórias próprias de nossas experiências. Um jogo interessante praticado em dezembro era com pólvora (fogos de artifício), nessa época não era ilegal e nosso pai nos comprava fósforos de cor, vulcões, luzes de bengala, traques... Com eles armávamos castelos, caminhos do diabo e potencializávamos o estouro, fazendo com que eles explodissem colocando uma lata de leite condensado. Toque e quarta: como as ruas não eram pavimentadas, sempre tinham pedras, assim escolhíamos as mais bonitas e quando íamos ao colégio ou tínhamos que fazer alguma coisa, um jogador atirava sua pedra o mais distante possível. O segundo jogador, atirava a sua tentando fazê-la cair o mais próximo possível da anterior. Admitia-se qualquer número de jogadores. Vencia o que conseguia acertar a primeira pedra ou aquele que conseguisse atirá-la a uma quarta (distância de uma mão) daquela atirada no princípio. Um dia papai ganhou uma bicicleta de padaria, grande, negra, pesada, não tinha freios e a direção não era regulável. Converteu-se no nosso brinquedo preferido durante um bom tempo. Como éramos quatro, aos domingos nos juntávamos para dar uma volta na cidade. Naquela época não haviam ruas pavimentadas nem trânsito o que nos permitia fazer um passeio extenso pelos bairros vizinhos. Ainda que um de nós ia passear os outros faziam as tarefas de casa. O melhor foi quando nos aborrecemos deste ritmo e colocamos um acelerador. Vivíamos em uma casa onde as ruas laterais eram muito empinadas, tinham mais de 60 graus de inclinação. Recordo que fazíamos planos de como impulsionar a bicicleta com três pedais iniciais e descermos ladeira abaixo. Logicamente, que como a bicicleta não tinha freios, tínhamos que pará-la com as solas dos sapatos ou como dizia nossa mãe “ com o freio do poste” Essas mesmas ruas era os locais preferidos para os carrinhos de rolimã e patinetes que nós mesmos fazíamos com tábuas de madeira e rodinhas. Um dia, como uma coisa rara nesses bairros, pavimentaram as ruas e colocaram uma rota de ônibus, terminando com nossas brincadeiras, pois estávamos arriscados de atropelamento por esses intrusos que haviam invadido nosso espaço recreativo. São tantas a brincadeiras que faltam mencionar como as rodas que cantávamos no colégio ( la tia Mônica, los maderos de San Juan, etc.);os jogos tradicionais ( a galinha cega, esconde-esconde, o gato e o rato, a ponte está quebrada, o lobo, stop, jogo de palavras e canções, etc.) brincadeira de assustar os outros ( com sons e imagens ou qualquer objeto escuro e feio).havia jogos de habilidades (pião, iô-iô, pega varetas, jogo de dados, cama de gato) e o jogo com tampas de cerveja que com a ajuda de cascas de laranja se transformava em um carro de corrida cuja pista era a guia da rua ou o aparecimento de cometas e globos que nós mesmos elaborávamos. Jogos... Belos jogos da minha infância, que hoje, olhando para trás ao longo do caminho, me emociono ao recordar, descrever e sobretudo compartilhar com meu filho, que é um digno representante da geração de internautas que teve todo tipo de brinquedos, que está surpreendido com as brincadeiras e que me disse que gostaria de ter vivido naquela época.