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RELIGIÃO E SEXUALIDADE: REFLEXÕES SOBRE IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO
PAULO⋅
Zedequias Alves⋅⋅
[email protected]
INTRODUÇÃO
A discussão acerca da sexualidade humana vem sendo intensificada nestas ultimas décadas
através de debates nas diversas ciências. No campo religioso temos presenciado o surgimento de
novas igrejas que trazem um discurso inclusivo e procuram ser uma opção para Homossexuais,
Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
A presente pesquisa é uma reflexão sobre as chamadas igrejas inclusivas na Cidade de São
Paulo. Por “igreja inclusiva” entendemos as igrejas abertas para a comunidade L.G.B.T., e que trazem
uma proposta de inclusão para todos os que estão excluídos das outras vertentes religiosas presentes
no Brasil. A presença das igrejas inclusivas no universo religioso do nosso país tem gerado os mais
diferentes tipos de manifestações, desde o ataque direto e contundente a forma de pensar teológico
destes grupos até a total indiferença para esta nova realidade. Ambas posturas carecem de uma
investigação mais acurada, pois a presença de qualquer religiosidade, traz consigo várias questões
que precisam ser analisadas.
Alguns fatores contribuíram para o estudo deste tema, entre eles a presença de muitas
igrejas inclusivas espalhadas pelo Brasil. Podemos citar apenas algumas destas igrejas: Igreja da
Comunidade Metropolitana de São Paulo (2005); Comunidade Cristã Nova Esperança – SP (2004);
Igreja Contemporânea – RJ (2006); Comunidade Betel –RJ (2005); Igreja Para Todos – SP (2004);
Igreja Acalanto-S.P (1997); e até uma igreja virtual com o nome de Diversidade Católica – RJ (2007).
Um outro fator que me impulsionou na direção desta pesquisa foi a questão do debate político
em torno de projetos de lei que visam defender o direito da comunidade L.G.B.T. Em 1995, a exdeputada federal Martha Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o Projeto de Parceria
Civil Registrada entre pessoas do mesmo sexo, o qual pôde ser considerado pela sociedade, um marco
para a discussão da homossexualidade no País. Neste processo, o papel das normas jurídicas passou
a ocupar posição considerável nas discussões entre as mais variadas correntes de pensamento.
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Texto elaborado para apresentação no XI Simpósio Nacional da Associação Brasileira de História das
Religiões– Sociabilidades Religiosas: mitos, ritos e identidades, coordenado pelo Dr. Silas Guerriero (PUC-SP)
no grupo de trabalho: As Novas Religiosidades na Sociedade Brasileira.
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Mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
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Não só os estudiosos das leis, mas também outros profissionais começaram a debater sobre o
reconhecimento ou não da união civil entre homossexuais. O Projeto de Lei nº 1151/95 se constitui em
um marco importante para a conquista dos direitos da conjugalidade homossexual. Este projeto
suscitou a discussão na sociedade e em especial nas igrejas. Toda esta discussão no pensamento de
Luiz Mello “vem colocando na ordem do dia a necessidade de compreensão da família e do casamento
como construções socioculturais dinâmicas, mutáveis e capazes de incorporar um leque cada vez
maior de situações e formas de expressão e manifestação das trocas afetivo-sexuais entre seres
humanos” (MELLO, 2005, p.28).
Em 2001 a deputada Iara Bernardi - PT /SP encaminhou um projeto de lei a Câmara dos
Deputados que foi aprovado em 23/11/2006 e a matéria foi encaminhada ao Senado. Este projeto
determina sanções às práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas. Há vários
artigos neste projeto que tem causado discussões, especialmente dentro dos círculos religiosos, e seu
debate já se estende por oito anos sem uma votação definitiva.
Novamente vemos a sexualidade sendo colocada em pauta e um dos maiores opositores a
aprovação destas Leis são as igrejas católicas, protestantes e pentecostais que a despeito de suas
diferenças teológicas se unem para combater a aprovação de tais leis, através de seus representantes
políticos.
Toda esta agitação faz com que o tema seja cada vez mais discutido e ganhe uma visibilidade
impar. A presente pesquisa poderá contribuir para a discussão deste tema tão importante e que ao
mesmo tempo ainda é visto como um tabu por parte da sociedade, especialmente da igreja. Minha
proposta é analisar este fenômeno e procurar trazer novas informações que servirão de base para
outros pesquisadores nas diversas áreas do conhecimento.
O projeto nasceu de uma conversa em sala de aula quando estava cumprindo os créditos do
mestrado ainda no primeiro semestre. Uma amiga disse espantada em sala de aula que havia
conhecido uma igreja “sodomita”. Fiquei curioso por saber que igreja era esta e comecei a pesquisar e
foi quando me deparei com as igrejas inclusivas.
Nosso recorte temporal será entre os anos de 1990 a 2009, já que a maioria destas igrejas, no
Brasil tiveram inicio neste período. A importância de se pesquisar mais sobre este assunto é pela sua
atualidade e pelo grande espaço que o tema vem tendo no meio da sociedade. Analisar este fenômeno
no seu inicio é de fundamental importância para traçarmos uma rota e fazermos um mapeamento dos
caminhos que serão trilhados por estas igrejas durante a sua história. O estudo das origens de
qualquer instituição é de grande importância para um delineamento futuro. O estudo deste tema pode
nos levar não apenas ao conhecimento do sujeito, na medida em que “[...]muito aprendemos sobre nós
mesmos quando estudamos o diferente”(GREEN;TRINDADE, 2005, p.51).
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Este trabalho foi financiado em parte pelo Fundo Mackenzie de Pesquisa.
1. RELIGIÃO E SEXUALIDADE
1.1. O Estudo Cientifico da Religião
É notório que a religião tem sido há muito tempo, objeto de vários estudos nos mais diferentes
campos disciplinares. Do ponto de vista cientifico, este estudo sempre encontrou resistências devido ao
entendimento de que “religião e ciência não se misturam”. Avaliando historicamente a religião, ela
sempre ficou dentro de uma redoma, e esta cautela excessiva acabou por prejudicar o seu estudo de
forma mais abrangente.Gaymon Bennet escreveu:“Os que, porém, tentam isolar a ciência, protegendoa contra as corrupções percebidas da religião, e os que tentam rejeitar a ciência, como imposição do
secularismo à religião vivem uma vida ingênua” (PETERS; BENNETT, 2003, p. 31).
Este quadro sofreu mudanças significativas e neste período pós-moderno e de globalização do
mundo, o estudo da religião ganhou um crescente interesse, especialmente dentro de uma abordagem
cientifica. Gaymon Bennet, afirma que a globalização trouxe consigo mudanças profundas,
especialmente relacionadas ao avanço dos estudos científicos, que acabam por influenciar o aspecto
religioso dos povos, porque “[...] para efetuar uma mudança cientifica, muitos paises experimentam
paralelamente um reavivamento e uma revisão de seus valores culturais e religiosos” ( PETERS;
BENNETT, 2003, p. 32).
Gaymon Bennet, sustenta que: “A ciência e a religião são onipresentes na sociedade humana,
elas permeiam a existência humana e se interpenetram”. (PETERS; BENNETT, 2003, p.31). Mas a
despeito disto, persiste as diferenças e a intenção da Ciência da Religião é exatamente colocar uma
ponte neste abismo e encontrar caminhos para um estudo cientifico do fenômeno religioso.
Na avaliação do sociólogo Antônio Gouvêa Mendonça é necessário fazer uma distinção entre
Teologia e Ciência da Religião. Da mesma forma que Mendonça, vamos deixar de lado a discussão em
relação aos nomes: Ciência da Religião, Ciências das Religiões, Ciências da Religião ou Ciência das
Religiões, e vamos nos concentrar no objeto de estudo desta área de conhecimento.
Para Mendonça o objeto da Teologia é Deus, seja ela metafísica ou indutiva a “Teologia é uma
Ciência de Deus” (2004,p.22). Diferentemente da Teologia, as Ciências da Religião não estudam
Deus, mas suas formas de expressões nas pessoas e nas culturas. Assim podemos dizer que o conflito
existente entre Ciência e Teologia pode terminar, pois o objeto de estudo da Ciência é a Religião e o
da Teologia é Deus.
A religião é vista dentro do campo cientifico como as variadas e mesmo infinitas formas com
que Deus se expressa no mundo, na história e no cotidiano das pessoas.O conceito de religião é amplo
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e quando usado nesta pesquisa não está se resumindo a uma vertente religiosa, ou uma chamada
“denominação” especifica. Vale a pena ressaltar aqui a observação de Mendonça (2004, p.24): “As
instituições religiosas são veículos de comunicação religiosa, mas não são a religião em si mesma”. O
conceito de religião é muito mais amplo que o conceito de denominação. As denominações são
históricas e pertencem a um tempo e a um contexto concreto.
1.2. Religião e Sexualidade: Construções do homem que vive em sociedade.
Em todas as culturas desde as mais primitivas até as mais civilizadas é possível encontrar
vestígios da presença de elementos que caracterizam algum tipo de religiosidade. A religião está
presente tanto nas sociedades antigas como nas modernas, demonstrando assim, como defende Louis
Berkhof (1990, p.24) a “[...]presença universal da idéia de Deus[...]”na mente humana. Quando falamos
de religião distinguimos de espiritualidade no seguinte sentido: “É um erro supor que pode haver uma
religião totalmente interior, sem regras, sem liturgia, sem sinais exteriores de estados interiores. Em
religião, tal como em sociedade, a forma exterior é a própria condição de existência” (DOUGLAS,1991,
p. 79).
Partiremos de uma abordagem sociológica tendo como referencial as análises de Peter L.
Berger. Na abordagem de Berger (1985,p.38): “A religião é o empreendimento humano pelo qual se
estabelece um cosmos sagrado”. Segundo ele, a religião vem entendida “[...] como projeção humana,
baseada em infra-estruturas específicas da história humana” (BERGER, 1985, p.186).Dentro de uma
análise dialética, Berger (1985, p.15) entende que a sociedade é produto do homem e o homem é
produto da sociedade, a religião faz parte da sociedade, ela é uma construção do homem que vive em
sociedade.
Este processo dialético envolve o homem a sociedade e a religião, cada um exercendo seu
papel, porém, interligados entre si e contribuindo para as legitimações sócio-culturais.
Os três
momentos descritos por Berger para entender melhor este processo são: a exteriorização, a
objetivação e a interiorização. A exteriorização é o primeiro momento do processo dialético bergeriano,
assim definida:
O ser humano é exteriorizante por essência e desde o início. Esse fato
antropológico de raiz com muita probabilidade se funda na constituição
biológica do homem. O homo sapiens ocupa uma posição peculiar no reino
animal. Essa peculiaridade se manifesta na relação do homem com seu
próprio corpo e com o mundo. À diferença dos outros mamíferos superiores,
que nascem com um organismo essencialmente completo, o homem é
curiosamente “inacabado” ao nascer (BERGER, 1995,p. 17).
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Enquanto o mundo dos animais é fechado em termos de possibilidades, pois cada espécie
vive no seu ambiente especifico, o homem vive em um mundo aberto, um mundo que ele deve
modelar. Berger (1985, p.18) afirma que o “O homem precisa fazer um mundo para si [...]”. Aplicando
tal conceito a religião, podemos dizer que o homem precisa construir uma religião para si.
Muito embora a experiência religiosa seja um fenômeno universal ela assume características
muito próprias, que embora possam ser distintas uma das outras conduzem aos mesmos sentimentos
e retratam os mesmos anseios. Por isto, independente da maneira como esta religiosidade se
manifestar, ela irá sempre revelar a busca pelo sagrado, ou pelo oculto, ou por algum tipo de divindade.
Conseqüentemente isto vai resultar em rituais, como afirmou Mary Douglas (1991, p.80): “Enquanto
animal social, o homem é um animal ritual”.
A objetivação é o segundo momento do processo dialético bergeriano e pode ser entendida da
seguinte forma:
Embora toda cultura se origine e radique na consciência subjetiva dos seres
humanos, uma vez criada não pode ser absorvida à vontade na consciência.
Subsiste fora da subjetividade do individuo, como um mundo. Em outras
palavras, o mundo humanamente produzido atinge o caráter de realidade
objetiva. (Berger,1985, p.22)
Portanto a sociedade, que é um produto do homem, com ele se confronta como uma realidade
objetiva. Assim, a sociedade dirige, sanciona, controla e pune a conduta individual. Berger (1985, 24)
enfatiza ainda, que a sociedade pode chegar a destruir o próprio indivíduo.
Se no primeiro momento ocorre a efusão da realidade, num segundo momento esta realidade
adquiri um status ontológico, para num terceiro momento dentro deste processo dialético, ser
interiorizado. De acordo com Berger (1985,p.16), é neste momento que o homem passa a ser moldado
pela sociedade que ele mesmo criou, a interiorização é portanto“[...]a reapropriação dessa mesma
realidade por parte dos homens, transformando-a novamente de estruturas do mundo objetivo em
estruturas da consciência subjetiva [...]”. Deste processo dialético temos o que podemos denominar de
socialização. Peter Berger (1985, p.88), acrescenta que “[...] qualquer análise do mundo social que
deixe de lado algum destes três momentos será uma análise distorcida”.
Uma contribuição importante do pensamento de Berger é sua análise da função legitimadora
da religião. Analisando a religião como um produto do homem que vive em sociedade, notamos que a
religião tem a condição de fazer o universo significativo para o ser humano. O mundo tem os seus
mistérios e o homem precisa conviver com eles de forma consciente. Exatamente nesta busca de
significados que encontramos o papel mais importante da religião, ela acaba por dar sentido a vida
humana em todos os seus aspectos.
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Na religião o homem busca sentido e significado para a existência tanto no aspecto pessoal,
como num sentido cósmico. Na fé expressa pela religião ele procura encontrar respostas para aquilo
que está fora do alcance da sua razão, ou mesmo do seu poder de ação. Podemos explicar todas as
dimensões de uma sociedade a partir da sua religião. Vista por este prisma a religião tem a função de
manter a realidade do mundo socialmente construído. É certo que as construções sociais tem o poder
de se tornarem legitimadoras do certo e errado, a religião, de acordo com Berger (1985, p. 45) se
constitui no “[...] instrumento mais amplo e efetivo de legitimação”. Este poder legitimador é avaliado
por Berger (1985, p.46):
A religião legitima as instituições infundido-lhes um status ontológico de
validade suprema, isto é, situando-as num quadro de referencia sagrado e
cósmico. Provavelmente a mais antiga forma dessa legitimação consista em
conceber a ordem institucional como refletindo diretamente ou manifestando
a estrutura divina do cosmos, isto é, conceber a relação entre a sociedade e
o cosmos como uma relação entre o microcosmo e o macrocosmo.
Berger entende que este esquema sofre alteração nas sociedades mais desenvolvidas. Ao
afirmar isto, ele subtende que este tipo de atitude vem de sociedades menos desenvolvidas e relaciona
o problema ao campo do conhecimento. Ele afirma que: “O esquema microcosmo-macrocosmo da
legitimação da ordem social, típico das sociedades arcaicas[...]”, ou seja, sociedades com uma visão
do mundo estritamente mitológica.
Durante a história, a religião fez com que os homens atribuíssem a objetos o poder e status de
sagrado. Através da religião o homem criou objetos e mecanismos que o protege do misterioso e
temeroso. Dentro desta análise de Berger, a religião é vista como o empreendimento humano com o
qual se estabelece um cosmos sagrado. Ele define sagrado como algo apreendido pelo homem e que
tem uma qualidade de poder misterioso e temeroso. Desta forma o inverso do sagrado é o profano, e
esta dicotomia acaba marcando a religião que reduz a vida a estas duas esferas, e também se torna
fundamental para entendermos o fenômeno religioso. Por isto as manifestações históricas do sagrado
e do profano são tão distintas e complexas. Como afirma Berger(1985, p.39)
O sagrado é apreendido como algo que salta para fora das rotinas normais
do dia a dia, como algo de extraordinário e potencialmente perigoso, embora
seus perigos possam ser domesticados e sua força aproveitada para as
necessidades cotidianas. Embora o sagrado seja apreendido como distinto
do homem, refere-se ao homem, relacionando-se com ele de um modo em
que não o fazem os outros fenômenos não humanos. Assim, o cosmos
postulado pela religião transcende, e ao mesmo tempo, inclui o homem. O
homem enfrenta o sagrado como uma realidade imensamente poderosa
distinta dele. Essa realidade a ele se dirige, no entanto, e coloca a sua vida
numa ordem, dotada de significado.
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1.3. A construção de novos paradigmas
Na análise de Berger (1985, p.41) o mundo sempre esteve impregnado do sagrado, o que
conduz à tese de que a “[...] religião desempenhou uma parte estratégica no empreendimento humano
da construção do mundo”.
Partindo desta análise podemos pensar na questão da sexualidade humana como algo
estritamente ligado às construções sociais, principalmente a religião. A religião sempre exerceu um
papel regulador da moral nas sociedades: “A religião antiga não é mais que um aspecto da ordem
social que regula tanto os deuses como os homens”. (DOUGLAS,1991, p. 33).
Os papéis sexuais variam de cultura para cultura e de época para época sendo forjados
socialmente. Robinson Cavalcanti afirma: “A vivencia da sexualidade não paira nos ares, nem é algo
desconectado de um dado fundamental: a cultura” (CAVALCANTI, 1992, p.15). É esperado um certo
comportamento tanto do homem como da mulher e qualquer desvio é reprimido, pois: “As formas de
expressão do desejo sexual não são inatas, elas são aprendidas pela experiência social e definidas
pela cultura” (GREEN;TRINDADE, 2005, p.125).
A própria imagem do homossexual que foi construída na história é representa de diferentes
maneiras dependendo do tempo em que foi construída, por exemplo, o homossexual com jeitos
femininos de tempos passados não pode ser comparado com o homossexual de forma viril dos tempos
modernos.
Em nossa sociedade a homossexualidade não é encarada como na sociedade grega ou
romana, “[...] através da medicina classificatória, tornou-se uma espécie sexual e um tipo social”
(CHAUI,1991,p.29). Se na sociedade grega e romana o homossexualismo era considerado uma
atividade, na sociedade moderna “[...] transformou-se num modo de ser que determina todas as outras
atividades e o destino pessoal de alguém” (CHAUI,1991, p. 29).
A tendência natural é achar que as coisas são do jeito que sempre foram em todos os lugares
e tempos. A sociedade se caracteriza pelas suas constantes mudanças. O modelo ocidental de família
vem sofrendo profundas mudanças há alguns séculos, percebemos que: “O exercício da sexualidade
também está se dissociando mais e mais das esferas da conjugalidade e da reprodução, em
decorrência do desenvolvimento cientifico-tecnológico e da diminuição da influência religiosa,
particularmente católica, no imaginário social dominante no Ocidente.” (MELLO, 2005,p.31)
Luis Mello em sua pesquisa sobre conjugalidade homossexual no Brasil afirmou que:
As representações sociais relativas à família vem sofrendo alterações
significativas no Brasil e no mundo. Neste contexto, as lutas de lésbicas e
gays pela conquista de legitimidade social para as suas relações amorosas
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apontam para questionamentos profundos dos fundamentos estruturadores
do ideário de família conjugal” (MELLO, 2005,p.17).
As leis propostas em defesa dos homossexuais procuram adquirir direitos que até então
apenas os heterossexuais possuem. Implícito está a concepção de “família”, e “casamento” que hoje é
reconhecida como a união civil de homem e mulher.
A sexualidade restrita a família sofre mudanças em virtude das alterações que a própria família
vem sofrendo. As chamadas uniões estáveis são apenas um modelo de família na sociedade moderna,
existem também famílias formadas por pai(s) e filho, ou mãe(s) e filho, ou avós e netos, ou ainda
marido e mulher, enfim, há uma miscelânea de modelos familiares sendo estabelecidos como normais.
Para alguns todas estas novas concepções são resultado do pluralismo da sociedade moderna que por
sua vez “[...] está conduzindo para um pluralismo de formas de organização familiar” (CAVALCANTI,
1992, p.44).
A disseminação do movimento inclusivo contribui para a formação de novos paradigmas
acerca da sexualidade humana dentro da sociedade brasileira.
2. O SURGIMENTO DAS IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO PAULO
2.1. O conceito de inclusão
A discussão acerca da sexualidade humana vem sendo intensificada nestas ultimas décadas.
A presente pesquisa é uma reflexão sobre o surgimento das igrejas inclusivas na Cidade de São Paulo.
Por “igreja inclusiva” entendem-se as igrejas que trazem uma proposta de inclusão para todos os que
estão excluídos das outras vertentes religiosas presentes no Brasil. Muito embora o discurso seja o de
inclusão a todos os excluídos por discriminação racial, social, e religioso, existe uma ênfase na
exclusão das minorias sexuais.
A utilização do conceito de minoria não está relacionado a estatística numérica, o termo é
utilizado seguindo a definição de Louis Wirth:
Wirth indica que podemos definir uma minoria como um grupo de indivíduos
que, por suas características físicas ou culturais, se diferenciam do resto da
sociedade em que vivem por tratamento diferencial ou igualitário, e que se
consideram objeto de discriminação coletiva. Por conseguinte, a existência
de um grupo minoritário implica a existência de um grupo correspondente
majoritário dominante, que possui maior status e maiores privilégios. O status
minoritário está associado à exclusão de participação total na vida da
sociedade, e a minoria é tratada e se compreende como um grupo (talvez,
ainda melhor, como um “povo”) à parte.(GREEN; TRINDADE, 2005, p.56)
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O termo “inclusão” muito comum no nosso contexto nestes últimos anos ganhou uma nova
conotação no cenário religioso. Ser uma igreja inclusiva na definição corrente é ser uma igreja aberta
para a comunidade LGBT. Neste trabalho utilizamos a sigla L.G.B.T. para denominar as chamadas
minorias sexuais. Esta sigla é recente e foi adotada a partir da 1ª Conferência Nacional G.L.B.T
realizada em Brasília em junho de 2008. Até então era utilizada a sigla G.L.B.T., a inversão do “G” pelo
“L” na inicial da sigla atende a uma antiga reivindicação das lésbicas e pretende dar uma maior
visibilidade ao orgulho lésbico.
2.2. Novas concepções da sexualidade dentro da religião
Hoje as chamadas “práticas sexuais desviantes” consideradas em outros tempos como pecado
pela igreja, doença pela medicina ou até mesmo crime pelas leis, são tratadas como sagradas, sadias
e perfeitamente legais. Claro que não existe unanimidade neste pensamento e que todos estes
conceitos são alvos de pesquisas e muito debate.
A visão religiosa tradicional em relação a sexualidade não mudou, e de acordo com ela as
pessoas podem realizar a sexualidade de forma correta que é a heterossexualidade, ou de forma
incorreta que é qualquer forma que não seja a heterossexual. A sexualidade está na área da ética e
existe um certo consenso entre os religiosos acerca dos desvios sexuais: necrofilia, zoofilia, estupro,
prostituição, pedofilia, fornicação, incesto, masturbação, aborto, sadismo, masoquismo, e o
homossexualismo, todos estes tipos encontram reprovação na ética cristã.
Os desvios sexuais são vistos pela religião tradicional segundo o prisma da possessão
demoníaca e se a questão é possessão de espíritos malignos, subentende-se que após o exorcismo a
cura será imediata. Também são vistos sob o prisma moral da imoralidade e do desvio de caráter
exigindo-se do pecador arrependimento e busca de santidade, ou ainda do prisma médico do desvio de
personalidade e comportamento, neste caso orienta-se a procura de um profissional, geralmente um
psicólogo.
Para Jurandir Freire Costa (GIUMBELLI, 2005, p.91) falar de sexualidade sadia ou doente é
voltar-se para termos médicos que não devem ser aplicados a questão das preferências sexuais. Um
princípio básico estabelecido pela Resolução do Conselho Federal de Psicologia faz com que este
tema seja tratado a partir de outras perspectivas - CFP n° 01/99: "A homossexualidade não constitui
doença, nem distúrbio e nem perversão". O propósito de tal decisão é afirmar que a sexualidade faz
parte da identidade do sujeito e que a orientação sexual não é algo que pode ser mudado.
Com a chegada do movimento inclusivo no Brasil e a abertura de varias igrejas com um
discurso totalmente diferente do tradicional em relação a sexualidade, a questão entra na pauta de uma
maneira nunca vista anteriormente. O momento presente se caracteriza pela busca de vivencia de uma
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nova concepção da sexualidade dentro da religião, o que “[...] envolve um trabalho de reflexão ou de
reinterpretação das bases e dos pressupostos de tradições e instituições religiosas” (GIUMBELLI,
2005, p.12).
Este movimento como todos os outros, não está livre de diferentes interpretações e de ser alvo
dos estereótipos construídos pela sociedade. O termo estereótipo “[...] é um conceito muito próximo do
preconceito e pode ser definido como uma tendência à padronização com a eliminação das qualidades
individuais e das diferenças com a ausência total do espírito crítico nas opiniões sustentadas”(CRUZ,
2003,p.41). Assim as igrejas inclusivas passam a ser chamadas de igrejas de gays ou de
homossexuais o que poderia dar a impressão de um exclusivismo. Na conceituação das próprias
igrejas não poderia haver inclusão se houvesse qualquer tipo de exclusão.
Para as igrejas inclusivas o fato de não se aceitar as várias formas de amor se constitui em
preconceito e exclusão. Estas igrejas integram um movimento que não vê a homossexualidade como
um pecado, ou uma doença a ser tratada. A heterossexualidade não é combatida por estas igrejas, o
que elas defendem é que outras opções sejam aceitas da mesma forma que a opção heterossexual. A
hermenêutica usada por estas igrejas utiliza textos da bíblia e faz uma reinterpretação para defender,
por exemplo, a homossexualidade interpretando várias histórias bíblicas como prova para suas
conclusões. A sexualidade passa a ser vista como um santo dom de Deus e integra-se uma
espiritualidade de corpo e alma.
Pluralidade é uma das marcas das igrejas inclusivas, facilitada pela ligação com a vertente
evangélica que permite uma maior flexibilidade e maior liberdade para a vivencia de diferentes formas
de religiosidade pelo fato de não estarem ligadas a uma hierarquia religiosa centralizada como ocorre
com a Igreja Católica. Nehemias Marien afirmou: “A igreja tem uma mentalidade liberal, pluralista e
ecumênica. Ela quer ser assim, uma comunidade aberta, com esta visão acolhedora, com as portas
abertas, sem muros. Não tem um dogma fechado nas suas doutrinas, na sua crença, mas ela tem esse
desejo de partilhar,hoje, a experiência nascida da sua caminhada”. (GIUMBELLI, 2005, p.79).
Daí a importância de ver este fenômeno como social, pois a participação em grupos sociais
reforça comportamentos e identidades.
Na medida em que o homossexual consegue efetuar contatos e descobre
que existem outras pessoas na sociedade semelhantes a ele, também
excluídos do grupo majoritário, ele tende a encarar de outra forma suas
experiências, e ressignifica sua afirmação pessoal como homossexual,
atrelando-se cada vez mais a essa categoria. (GREEN;TRINDADE, 2005,
p.33)
A religião cumpre um papel importante na vida de seus participantes que optam por ela
revelando anseios e necessidades que podem ser preenchidos com a busca do sagrado: “A
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aproximação do ambiente religioso é motivada por razões advindas de registros distintos, geralmente
associada a uma situação limite que leva à busca da religião como possibilidade de superação e de
encontro de felicidade” (HEILBORN, 2005, p. 254). A necessidade de interação social é suprida na
convivência do grupo: “A descoberta do grupo religioso é significada como a aquisição de uma nova
família, regida por um modelo de relação de interdependência entre os membros, na qual a
reciprocidade é um dos valores estruturantes”. (HEILBORN, 2005, p. 252).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A organização destas igrejas inclusivas é algo que poderemos considerar novo, permitindo
uma maior flexibilidade na construção de conceitos e regras de comportamento. A participação não se
limita ao grupo L.G.B.T., o que faz com que o grupo possa ganhar ainda mais adeptos. A religião ocupa
um espaço importante na vida das pessoas e a idéia de inclusão acaba sendo bastante difundida nesta
sociedade que tem trabalhado para a inclusão dos mais diferentes grupos em diversas áreas da
sociedade.
As grandes capitais são lugares de grande diversidade possibilitando facilidades para o
surgimento de novos movimentos religiosos. Igrejas com discurso de apoio e aprovação para as
minorias sexuais podem encontrar especial lugar para proliferação na cidade de São Paulo por ser ela
considerada a cidade que concentra a maior população L.G.B.T. do Brasil.
Falando especificamente desta nova construção social que tem possibilitado o surgimento de
igrejas chamadas inclusivas, percebemos a alteração que a religião provoca na sociedade, mas que
esta alteração a sociedade já provocou anteriormente na religião. A sociedade cria suas leis que são
alteradas nestas mudanças sociais de acordo com as mudanças dos paradigmas que regem a moral e
a vida das pessoas. Nota-se que a tradição judaica cristã vem perdendo a sua força moralizadora
nestes últimos tempos e que outras concepções tem se instalado nos países outrora de influência
cristã. Mudam-se os conceitos, muda-se o ser humano, muda-se a sociedade.
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RELIGIÃO E SEXUALIDADE: REFLEXÕES SOBRE