REVISTA CIENTÍFICA SENSUS: PEDAGOGIA
“UNI DUNI TÊ, O ESCOLHIDO FOI VOCÊ”:
O BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL ENQUANTO ESPAÇO DE
INTERVENÇÃO DO PROFESSOR
Juliana Lopes Garcia1
Cleide Vitor Mussini Batista2
Resumo:
Vários professores de Educação Infantil não compreendem a importância da brincadeira
para o desenvolvimento das crianças com as quais trabalham, em muitos casos devido a
uma lacuna na formação docente que não aborda o tema e sua relevância. Muitos dos
profissionais que trabalham com crianças negam o brincar no espaço educacional
privilegiando outras atividades que acreditam ser mais condizentes com esse contexto.
Além de não reconhecerem o valor da brincadeira para o desenvolvimento das capacidades
infantis, esses professores tampouco reconhecem o seu papel frente a essa atividade, junto
às crianças. O objetivo desse estudo foi discutir a relevância do brincar para o
desenvolvimento da criança, assim como o papel do professor de Educação Infantil, suas
possibilidades de participação e intervenção frente a essa atividade, no cotidiano escolar.
Este artigo defende o brincar como espaço privilegiado para o desenvolvimento infantil,
sendo que no ambiente educacional deve ter em vista a aprendizagem. Quanto ao papel do
professor frente a brincadeira, fica claro que sua participação é fundamental, cabendo-lhe
estruturar do espaço do brincar; observar; e intervir. É indispensável que os professores que
trabalham com crianças pequenas tenham clareza da importância do brincar nas instituições
infantis, assim como seu papel junto às crianças enquanto brincam, para que, a brincadeira
seja contemplada adequadamente no ambiente educacional. Conclui-se que para que haja
uma reflexão por parte dos professores de Educação Infantil sobre o tema, de modo que
repensem suas práticas, se faz necessário repensar e propor cursos de formação inicial e
continuada que abarquem discussões e estudos sobre o brincar.
Palavras Chaves: Educação Infantil, brincar, professor.
Abstract:
Several kindergarten teachers do not understand the importance of play for the development
of children with whom they work, in many cases due to a gap in teacher education that does
not address the subject and its relevance. Many professionals who work with children deny
the privilege to play in the education space, other activities they believe are more consistent
with that context. In addition to not recognize the value of play in the development of
children's abilities, these teachers either acknowledge their role in relation to such activity,
1
Pedagoga; Especialista em Psicologia Aplicada a Educação (UEL) Professora de Educação Infantil da Rede
Municipal de Londrina. E-mail: [email protected].
2
Pós-Doutora; Doutora em Educação (Unicamp) e professora do departamento de Educação da Universidade
Estadual de Londrina. Email: [email protected].
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with children. The aim of this study was to discuss the relevance of play to child
development, as well as the role of teacher of kindergarten, your chances of participation
and intervention in relation to such activity, at school. This article defends the play as a
privileged space for child development, and environmental education should be aimed at
learning. The role of the teacher before the game, it is clear that their participation is
paramount, and shall organize the space of play, observe, and intervene. It is essential that
teachers who work with young children have a clear view of the importance of play in
children's institutions, as well as his role with the children while playing, so that the game
is adequately addressed in the educational environment. We conclude that for there to be a
reflection on the part of kindergarten teachers on the subject, so they rethink their practices,
it is necessary to rethink and propose courses of initial and continuing training that include
discussions and studies on the play.
Keywords: Childhood Education, play, teacher
As crianças brincam com mais facilidade quando a
outra pessoa pode e está livre para ser brincalhona.
(WINNICOTT, 1975, p. 67)
A importância do brincar na Educação Infantil não é reconhecida por muitos
profissionais que trabalham nesse espaço. Entender a brincadeira, dentro das instituições
infantis, como uma atividade secundária e sem valor, em muitos casos, advém de uma
lacuna na formação docente, onde muitas vezes não são propostos estudos e reflexões sobre
o brincar.
De qualquer forma, as discussões sobre o brincar vêm ocorrendo à longa data.
Percebe-se, no entanto, na prática de muitos professores que o brincar não é uma atividade
reconhecida, sendo desvaloriza e muitas vezes negada, de modo que outras propostas são
consideradas “mais produtivas” e condizentes com o ambiente educacional, como por
exemplo, as atividades de registros em folhas sulfites. Neste sentido, Abbott (2006) afirma
que:
Incontáveis pesquisadores e educadores salientam, e continuam
salientando, a questão importantíssima de que a educação das crianças
pequenas fundamenta-se no brincar. Pessoalmente, eu acredito que nós,
como educadores, ignoramos isso e acabamos sofrendo as conseqüências
(p. 107).
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Muitos educadores ignoram a importância do brincar na educação; outros se
quer compreendem a relevância deste tema no dia a dia do trabalho com crianças pequenas.
Dessa forma, se faz necessário discutir e refletir sobre o brincar na Educação Infantil, assim
como, o papel do professor, frente à essa atividade da criança. O objetivo principal desse
trabalho é discutir as possibilidades de intervenção do professor frente ao brincar infantil,
entendendo está atividade como meio mais adequado de aprendizagem e desenvolvimento
infantil.
Há vários professores que entendem o brincar como um “passatempo”, algo a se
fazer nos momentos ‘livres’, como na hora em que as crianças terminam uma atividade ou
quando não há mais tempo para a realização de uma proposta pedagógica. Assim, o brincar
não “toma tempo” das atividades, como as de escrita, consideradas, por esses profissionais,
realmente importantes no contexto escolar. Neste sentido, segundo Anning (2006, p.89)
“Atividades de aprendizagem práticas, baseadas no brincar, são vistas como ocupacionais e
como tendo menos status, principalmente para aquelas crianças menos capazes; algo a se
fazer quando se termina o trabalho ou sobra um tempo livre para se divertir.
Entendendo a brincadeira como uma atividade secundária e sem valor para o
processo de desenvolvimento infantil, há professores que negam essa atividade no cotidiano
educacional. Esses profissionais não compreendem que “[...] o brincar é a maneira de a
criança aprender e que negligenciar ou ignorar o brincar como um meio educacional é
negar a resposta natural da criança ao ambiente e, na verdade, à própria vida” (ANNING,
2006, p. 94).
É fundamental compreender que o brincar é o meio mais adequado para que a
aprendizagem das crianças ocorra, portanto não é possível negá-lo. Nesta perspectiva,
Heaslip (2006, p.122), afirma que “Para criar um ambiente de aprendizagem em que as
necessidades desenvolvimentais das crianças possam ser satisfeitas, em que possa ocorrer
uma aprendizagem ativa, o brincar parece ser o meio de aprendizagem natural e mais
apropriado”.
Em concordância com Heaslip (2006), Aguiar e Ferreira (2005) defendem o
brincar como atividade principal das crianças na fase de Educação Infantil. Eles
compreendem como atividade principal aquela que ao longo do desenvolvimento gera as
mudanças mais expressivas no processo psíquico e nos traços de personalidade. Segundo os
autores, o brincar para a criança é a principal atividade que possibilita o desenvolvimento
das capacidades infantis.
Entender o brincar, como o principal meio de desenvolvimento da criança,
possibilita repensar e compreender a importância do mesmo no cotidiano escolar. Neste
sentido, é importante refletir sobre a abrangência do brincar, que Moyles (2006) aponta
“[...] como um processo que, em si mesmo, abrange uma variedade de comportamentos,
motivações, oportunidades, práticas, habilidades e entendimentos” (p. 13).
Pensando o brincar nesta perspectiva, é possível também compreender o quanto
este processo, que envolve uma diversidade de elementos, contribui, como meio, para o
desenvolvimento integral da criança. Sobre esta questão Aguiar e Ferreira (2005) pontuam
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que a criança ao brincar experimenta, descobre, imagina, relaciona-se e principalmente
desenvolvem capacidades corporais, cognitivas, sociais e afetivas.
O brincar na Educação Infantil, entendido como meio de desenvolvimento das
capacidades da criança, revela o grande equivoco que muitos professores fazem ao
compreender e tratar a brincadeira como uma atividade secundária neste contexto. Visto
que, o brincar é o modo ativo da criança se desenvolver, pois neste momento a criança age
diretamente sobre as coisas. Segundo Fortuna (2003/2004):
Brincar é uma atividade paradoxal: livre, imprevisível e espontânea,
porém, ao mesmo tempo, regulamentada, meio de superação da infância,
assim como modo de constituição da infância: maneira de apropriação do
mundo de forma ativa e direta, mas também através da representação, ou
seja, da fantasia e da linguagem (p. 7).
Dos diversos autores que discutem a importância do brincar na Educação
Infantil enquanto via de desenvolvimento integral da criança, vale ressaltar que o
Referencial Curricular Nacional (RCN) para Educação Infantil (BRASIL, 1998),
documento que tem como objetivo subsidiar o trabalho dos profissionais de Educação
Infantil, também traz suas contribuições sobre a temática.
Sobre o brincar, fica evidente que a relevância do mesmo é reconhecida e
sugerida enquanto via de desenvolvimento e aprendizagem. Desta forma, o RCN aponta
que “propiciando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual as crianças podem
experimentar o mundo e internalizar uma compreensão particular sobre as pessoas, os
sentimentos e os diversos conhecimentos” (BRASIL, 1998, p. 28).
É relevante que, um documento que dá suporte ao trabalho dos profissionais da
Educação Infantil, trate da importância do brincar neste contexto, visando o
desenvolvimento global da criança, ou seja, envolvendo não só os conhecimentos, como
muitos professores priorizam, mas também as capacidades sociais e afetivas. Em
concordância com o que o RCN (BRASIL, 1998) aponta sobre o brincar, Santos (2001)
afirma que:
Por envolverem extrema dedicação e entusiasmos, os jogos das crianças
são fundamentais para o desenvolvimento de diferentes condutas e
também para a aprendizagem de diversos tipos de conhecimentos.
Podemos, então, definir o espaço do jogo como um espaço de
experiências e liberdade de criação no qual as crianças expressam suas
emoções, sensações e pensamentos sobre o mundo e também um espaço
de interação consigo mesmo e com o outro (p. 89).
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É fundamental, que os professores compreendam que o trabalho realizado na
Educação Infantil visa o desenvolvimento global da criança, entendendo, desta forma que a
criança não é só intelecto, mas é também corpo, emoções, relações. Desta forma, o
professor tem como função realizar um trabalho que abarque todas essas dimensões,
entendendo o brincar como via mais adequada para contribuir com o desenvolvimento das
capacidades infantis. Nesta perspectiva, Moyles (2002) pontua que é papel do professor,
garantir no ambiente educacional a aprendizagem, de modo que essa seja continua e
desenvolvimentista, incluindo diversos fatores, não só o intelectual, mas também o
emocional, social, físico, estético, estético e moral.
O brincar é a via mais adequada para o desenvolvimento global da criança.
Deste modo, deve estar contemplado na rotina das instituições infantis, com o intuito de
promover o desenvolvimento global das crianças pequenas. Para tanto, é necessário que os
profissionais que trabalham com as crianças tenham clareza da importância da brincadeira
no ambiente educacional, enquanto atividade principal dessa fase, ou seja, que gera
mudanças significativas no desenvolvimento infantil. Da mesma forma, é imprescindível
que os professores tenham clareza de seu papel frente as brincadeiras realizadas pelas
crianças neste espaço.
Muitos professores não compreendem o brincar como um espaço em que ele
pode participar e intervir, visto que se quer têm clareza do que exatamente fazer frente à
brincadeira da criança, procurando realizar outras atividades enquanto as crianças brincam.
Nesta perspectiva, Fortuna (2003/2004), sobre o papel do professor no brincar, afirma:
Seu papel no brincar foge à habitual centralização onipotente, e os
professores não sabem o que fazer enquanto seus alunos brincam,
refugiando-se na realização de outras atividades, ditas produtivas. Na
melhor das hipóteses, tentam racionalizar, definindo o brincar como
atividade espontânea que cumpre seus fins por si mesma. Na pior das
hipóteses, sentem-se incomodados pela alusão à própria infância que o
contato com o brincar dos seus alunos propicia, ou confusos quanto ao
que fazer enquanto as crianças brincam, muitas vezes não apenas se
intrometendo na brincadeira, como tentando ser a própria criança que
brinca (p. 8).
Por não reconhecerem a importância do brincar enquanto via de
desenvolvimento infantil e tampouco entenderem o quão relevante é a participação e
intervenção junto às crianças enquanto estas brincam, é que muitos professores aproveitam
o momento do brincar para realizar outros afazeres, muitas vezes desvinculadas do próprio
trabalho pedagógico. Sobre esta questão, Fortuna (2003/2004) pontua que:
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[...] o educador não pode aproveitar a “hora do brinquedo” para realizar
outras atividades, como conversar com os colegas, lanchar, etc. ao
contrario: em nenhum momento da rotina na escola infantil o educador
deve estar tão inteiro e ser tão rigoroso – no sentido de atento às crianças e
aos seus próprios conhecimentos sentimento – quanto nessa hora (p. 9).
Estas considerações suscitam uma questão: “Qual então, é o papel do professor
no brincar infantil?”. É importante deixar claro que o professor tem, sim, sua vez no brincar
infantil, devendo estar inteiramente presente neste momento. Mesmo o brincar livre no
contexto educacional tem que ser preparado pelo professor, devendo ser um ambiente
estruturado.
Mas o que seria estruturar o espaço do brincar? Segundo o RCN (BRASIL,
1998) o professor deve estruturar o campo das brincadeiras, organizando sua base
estrutural, ou seja, ofertando materiais, como sucatas, fantasias, fantoches e brinquedos,
além de delimitar o espaço e o tempo para brincar.
Pode-se considerar esse, como o primeiro momento em que o professor
intervém no brincar infantil, estruturando o ambiente. Neste sentido, para que o
desenvolvimento da brincadeira na Educação Infantil seja adequado, Santos (2001) indica
alguns aspectos essenciais da organização do brincar, como: prever na rotina escolar tempo
considerável para o jogo livre, de modo que as crianças interajam entre si e com os objetos
de forma espontânea; ofertada em quantidade e variedade de materiais, organizados para
facilitar a manipulação pelas crianças. O professor deve selecionar o material de acordo
com à faixa etária das crianças, além de organizar o espaço da sala podendo contar com a
ajuda das crianças, criando assim, um ambiente de cooperação.
No entanto, não se pode considerar que a simples oferta de materiais diversos e
a delimitação do espaço e tempo por si só, seja um ambiente bem estruturado para a
brincadeira. É fundamental ter clareza de que este ambiente, deve ser pensado e estruturado
para o brincar com fim de promover o desenvolvimento infantil. Sobre o espaço do brincar
organizado pelo professor, Kitson (2006) afirma que:
O papel do adulto é fornecer uma estrutura dentro da qual as crianças
possam interagir – é contestar, definir problemas a serem resolvidos,
incentivar as crianças a testarem idéias, talvez o mais importante, mostrar
às crianças estratégias pessoais de aprendizagem (p. 108).
É preciso que o professor estruture o espaço da brincadeira de modo a contribuir
com o desenvolvimento das crianças. Dessa forma, é fundamental que esse ambiente e as
situações proporcionadas por meio do brincar, sejam significativas para as crianças. Neste
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sentido, Aguiar e Ferreira (2005) defendem a importância do professor conhecer as
especificidades de seus alunos para tornar as situações de ensino-aprendizagem mais
eficazes.
Qual a melhor forma do professor conhecer as crianças com as quais trabalha,
do que estando com elas, próximo a elas principalmente no brincar? Nesta perspectiva,
considera-se que “o brincar fornece oportunidades para uma cuidadosa observação das
crianças em atividades que elas mesmas escolheram e que soam relevantes e significativas
para elas” (ABBOTT, 2006, p. 100).
A observação realizada pelo professor durante o brincar, é fundamental. Pode-se
considerar essa a segunda função do professor frente às brincadeiras infantis. No entanto,
vale ressaltar que esse momento de observação é a base, o que fundamenta a intervenção do
professor, e mesmo o que foi considerado o primeiro momento de participação do adulto (a
estruturação do espaço do brincar). Pois, é a partir das observações, que o professor poderá
estruturar, da maneira mais adequada, o ambiente de brincar.
Defendendo a relevância da observação, por parte do professor, durante as
brincadeiras, o RCN (BRASIL, 1998) pontua que:
Por meio das brincadeiras os professores podem observar e constituir uma
visão dos processos de desenvolvimento das crianças em conjunto e de
cada uma em particular, registrando suas capacidades de uso das
linguagens, assim como de suas capacidades sociais e dos recursos
afetivos e emocionais que dispões (p. 28).
É a partir da observação frente às brincadeiras infantis, que o professor poderá
aprofundar e acompanhar, efetivamente, o desenvolvimento das crianças com as quais
trabalha. Desta forma, além de estruturar o espaço do brincar, de modo que este seja
realmente significativo para a criança, o professor pode pensar sobre a maneira mais
adequada de intervir, já que está atento ao desenvolvimento das crianças. Nesta perspectiva
Heaslip (2006) afirma que é fundamental o professor observar, monitorar, registrar e avaliar
para determinar a forma mais adequada de intervenção.
A observação do brincar implica uma avaliação do desenvolvimento infantil,
mas também do próprio trabalho do professor que compreendendo as necessidades das
crianças, já que acompanha seu desenvolvimento, precisa repensar suas propostas e
práticas, para que o brincar seja realmente um campo significativo para a aprendizagem
infantil “O educador infantil que realiza seu trabalho pedagógico na perspectiva lúdica
observa as crianças brincando e faz disso ocasião para reelaborar suas hipóteses e de definir
novas propostas de trabalho” (FORTUNA, 2003/2004, p. 8).
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É no cotidiano de seu trabalho que o professor poderá, observando as crianças
em suas brincadeiras, conhecê-las e reconhecer suas necessidades de aprendizagem,
promovendo, assim de modo mais adequado o brincar neste contexto, visando o
desenvolvimento infantil. Nesta perspectiva, Aguiar e Ferreira (2005) afirmam que:
Assim procedendo, as intervenções pedagógicas se revestirão de um novo
sentido, na medida em que são incluídas nas reflexões cotidianas do
profissional da educação infantil acerca do conhecer a criança para
trabalhar com ela, brincar com ela e aprender, participando dos seus
brinquedos e apontando caminhos para a superação dos obstáculos (p. 88).
É realmente fundamental que o professor acompanhe o brincar infantil, com um
olhar cuidadoso frente a cada criança, para que as brincadeiras sejam sempre ocasiões de
aprendizagens, e mais importante que sejam significativas para a criança, contribuindo
verdadeiramente para seu desenvolvimento integral.
O adulto que trabalha com crianças pequenas deve organizar o brincar, de modo
que este seja planejado, ou seja, a brincadeira deve ser pensada pelo professor e estar
contemplada na rotina escolar. O brincar não pode ser entendido como um momento livre,
de “descanso” para o adulto, mas como uma ocasião privilegiada em que o mesmo deve
estar junto às crianças para observar, avaliar e intervir.
O papel do professor se estende frente à brincadeira, além da observação e
estruturação do ambiente de brincar. Além de planejar, estruturar e observar, o brincar
infantil, é importante e necessário que o professor faça suas intervenções. Sobre a
intervenção do professor frente ao brincar, Fortuna (2003/2004) pontua que o professor:
[...] não fica só na observação e na oferta de brinquedos: intervém no
brincar, não para apartar brigas ou para decidir que fica com quem, ou
quem começa ou quando termina, e sim para estimular a atividade mental,
social e psicomotora dos alunos com questionamentos e sugestões de
encaminhamentos. Identificar situações potencialmente lúdicas,
fomentando-as, de modo a fazer a criança avançar do ponto em que está
na sua aprendizagem e no seu desenvolvimento (p. 9).
Fica evidente que o brincar em contexto educacional tem que ter conseqüência
de aprendizagem e nesse processo o professor tem seu papel como aquele que intervém,
contribuindo com o desenvolvimento infantil. Essa intervenção, mais direta, realizada pelo
adulto durante as brincadeiras, pode-se dizer que é a terceira função do professor frente ao
brincar.
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Como já foi pontuado, anteriormente, a base da ação do professor frente às
brincadeiras é a observação. Nesse terceiro momento: intervenção do professor, não é
diferente, pois é a partir das observações, que o adulto poderá intervir de modo mais
adequado e eficiente junto às crianças durante seu brincar.
Comentando uma intervenção inadequada de um professor, frente à duas
crianças que estavam fazendo montagens com blocos, Heaslip (2006) pontua que:
Se o professor tivesse dedicado um momento a observar e ouvir o dialogo
das crianças enquanto elas brincavam com os blocos, ele poderia ter dito
alguma coisa adequada que realçasse e ampliasse a atividade. As crianças
sentiriam que seu brincar estava sendo valorizado, compreendido e
apreciado pelo adulto e ficariam motivadas a continuar e ampliar suas
idéias (p. 126).
É realmente importante que o professor acompanhe e observe as crianças
durante as brincadeiras, pois dessa forma percebendo as necessidades de aprendizagem
infantil, poderá fazer intervenções significativas contribuindo com o desenvolvimento das
mesmas.
Mas, para que o professor junte-se as crianças e seja aceito, na brincadeira, é
necessário que as mesmas sintam que o adulto respeita aquele momento, o brincar e seus
participantes. Desta forma, Abbott (2006) afirma que “para que as crianças aceitem os
adultos em seu brincar precisam ser desenvolvidos relacionamentos baseados em mutua
confiança e respeito” (p. 105). Estabelecer uma relação de confiança com as crianças é
imprescindível, para participar de seu brincar e dessa forma, poder realizar as intervenções
adequadas.
Quanto aos momentos e a prática das intervenções mais adequadas, vale
ressaltar que não há ‘receita pronta’, pois “a sensibilidade de saber como e quando intervir
no brincar – ou não – é necessária e depende do conhecimento a respeito das crianças e da
natureza do próprio brincar” (ABBOTT, 2006, p. 105).
É necessário conhecer bem as crianças com as quais trabalha por isso, é
importante estar próximo delas enquanto brincam e acompanhar seu brincar interando-se da
dinâmica do mesmo, para desse modo, perceber o momento e o modo mais adequado de
intervir, pois segundo Heaslip (2006):
Se a intervenção ocorrer cedo demais ou for excessivamente dirigida, ela
destrói a descoberta. Se for tarde demais, a criança pode se aborrecer com
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a repetição desnecessária, e valiosas oportunidades de aprendizagem
podem ser desperdiçadas (p. 125).
O autor, ainda indica que os professores devem perguntarem a si mesmos: “A
minha intervenção vai realçar ou desvalorizar o brincar infantil?” (HEASLIP, 2006, p 125).
Essa é uma reflexão fundamental, que deve ser realizada constantemente pelo professor,
pois sua intervenção pode contribuir em nada, ou ainda, desvalorizar o brincar infantil.
Há, ainda, que se considerar que em algumas situações o mais apropriado é não
realizar intervenções no brincar infantil. Nesta perspectiva, Heaslip (2006) ainda pontua
que em algumas ocasiões é mais valido ficar de lado permitindo que a criança tome a
iniciativa, visto que, a mesma necessita de tempo e espaço para que a ocorra à
aprendizagem.
As considerações realizadas mostram que não há um manual para o professor
seguir, quanto às intervenções no brincar. Para que o adulto contribua realmente com o
desenvolvimento infantil, através do brincar é preciso que observe e acompanhe o brincar
conhecendo bem as crianças, percebendo o momento e o modo mais adequado de intervir.
No entanto, Kitson (2006) faz alguns apontamentos sobre a participação do
adulto nas brincadeiras infantis, esclarecendo algumas das funções da ação do professor no
brincar. O autor aponta que, sendo as crianças pequenas egocêntricas, o adulto pode
monitorar a negociação entre elas, como um facilitador. Além disso, o adulto pode: criar
problemas e manter as crianças envolvidas em sua solução; manter a atividade em
andamento, motivando as crianças a persistir; enriquecer a brincadeira, aprofundá-la e abrir
novas áreas de aprendizagem.
Estes apontamentos mostram o quanto é importante à intervenção do adulto na
brincadeira da criança, e quão abrangente é essa ação, pensando no desenvolvimento
infantil. Contudo, ao reconhecer a relevância da participação do adulto no brincar infantil,
Kitson (2006) pondera que:
É importante lembrar que, embora o adulto possa orientar e, em certa
extensão, ampliar o brincar sociodramático, o brincar e a ação precisam
ser essencialmente das crianças. As suas idéias devem ser usadas. As
palavras faladas precisam ser suas palavras, expressando os seus
pensamentos. Talvez o adulto entre em uma “brincadeira” sem a intenção
de simplesmente fazer parte do grupo, mas com o objetivo de fazer
avançar a aprendizagem infantil, de colocar obstáculos, no caminho de
sua história para que, pela superação desses obstáculos, sejam criadas
oportunidades de aprendizagem (p. 119).
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A participação do professor na brincadeira, não significa tirar o lugar da criança
e centralizá-la em si. É preciso respeitar a ação da criança nessa atividade, reconhecendo a
importância do brincar na Educação Infantil, assim como, a relevância de suas intervenções
neste momento, para que o mesmo seja um espaço de aprendizagens significativas. O
adulto que trabalha com as crianças, precisa ter clareza de que a brincadeira é da criança,
mas ele tem sua vez, enquanto àquele que intervém visando o desenvolvimento infantil.
O professor precisa reconhecer a importância de seu papel no brincar, pois como
bem aponta Kitson (2006) é a partir disso que esse profissional poderá intervir e
desenvolver verdadeiramente o potencial da brincadeira.
Para que os professores possam ter verdadeiramente consciência da relevância
do brincar e de suas intervenções frente a essa atividade, é imprescindível que haja espaços
para discussões, estudos e reflexões sobre o tema. Dessa forma, ressalto a importância de
revisar e investir na formação inicial e continuada desses profissionais, para que debates e
reflexões sobre o brincar ocorram, de modo que, repensem suas práticas e contemplem na
rotina escolar brincadeiras, estruturas, observado-as e realizando intervenções
significativas.
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