Dor Psíquica, Recalque e Ponto de Vista Econômico Oneli de Fátima Teixeira Gonçalves Rocha ___________________ Parcial de uma pesquisa teórica sobre o conceito de dor psíquica em Freud. Estudo realizado a partir do caso clínico de Elizabeth von R. (1893). A dor psíquica é uma conseqüência específica da dinâmica pertencente à subjetividade na histeria. Surge a partir de lembranças de representações patogênicas recalcadas, originada de um conflito entre uma cadeia de representações de natureza sexual e moral. Apresenta como mecanismo de defesa o recalque. Com a dissociação entre a idéia e sua quota de afeto, faz com que o destino deste seja convertido para o corpo através do sintoma. Com o enfraquecimento da idéia dissociada, esta é recalcada e se liga fora da consciência a um núcleo de representações patogênicas. É no tratamento que o sujeito é levado, através da corrente principal de pensamento, a relembrar suas representações que se tornaram patogênicas causando-lhe dor psíquica. Palavras-chaves: Histeria, conversão, recalque, dor psíquica _____________________________ Freud em 1893 fez o que chamou de primeira análise integral de um caso de histeria. Atendendo ao pedido de um conhecido médico, examinou uma jovem de vinte e quatro anos, que sofria há mais de dois, de dores nas pernas e tinha dificuldade de andar (astasia-abasia). Neste mesmo período a jovem tivera muitas emoções dolorosas que iniciou com uma depressão após cuidar por longo tempo de seu pai enfermo até o seu falecimento, em seguida, teve que assistir a mãe que se submeteu a uma cirurgia importante na vista, e por isso necessitou ficar enclausurada no quarto desta para acompanhá-la na sua recuperação e logo depois precisou dar apoio á família (mãe, irmã e cunhado) a fim de enfrentar a perda de uma outra irmã, já casada, que falecera em função de um problema cardíaco após o parto. Elizabeth demonstrava ser psiquicamente normal e inteligente, enfrentava seus problemas com ar alegre – “a belle indifférence dos histéricos” como descreve Freud (1893 p. 161 grifo do autor). Queixava-se de intensa dor e ao ficar de pé ou andar, cansava-se com facilidade, necessitando descansar em períodos curto de tempo, diminuindo as dores sem necessariamente eliminá-las. A dor tinha um caráter indefinido, situava-se numa grande área não muita bem delimitada da superfície anterior da coxa direita, com certo exagero de sensibilidade na pele e nos músculos, que se estendia ao longo das duas coxas. Pela ausência de outros sintomas, Freud descartou qualquer possibilidade de doença orgânica grave. Ao iniciar a discussão do caso de Elizabeth, Freud (1893) chama atenção para dois aspectos aparentemente distintos, porém interessantes considerando o momento histórico em que escreveu caso, ou seja,período pré-psicanalítico . O primeiro é sobre a sua formação que está ligada ao emprego de diagnóstico e eletroprognóstico, período em que se evidenciava o modelo médico como forma de tratamento. E o segundo é a forma como escreve seus relatos, em que o seu conteúdo, ou seja, a dinâmica do psiquismo, só poderá ser expresso numa “forma” próxima da literatura, que se constituiu num estudo de caso. A conformação com essa característica de seu trabalho é justificada pela reflexão de que a responsabilidade sobre esse aspecto está exatamente relacionada à natureza do assunto. Admite que para se chegar a um estudo que possibilite uma compreensão da dinâmica psíquica é necessário fazer uma descrição minuciosa desse processo. Este estudo de caso adquire o seu formato a partir do estabelecimento de uma íntima ligação entre a história dos sofrimentos e os sintomas apresentados pela paciente. Freud (1893) adota a estratégia de entrelaçar explicações que possam trazer dados importantes sobre como a paciente “caminha” na sua recuperação. Destaca como ponto fundamental, a descrição do seu caráter , o qual é encontrado com freqüência em pessoas histéricas como por exemplo, um significativo desgaste físico e psicológico pelo cuidado a pessoas enfermas; presença de sensibilidade moral; exigência de amor em excesso, que num primeiro momento é contemplado pela família; ambição; talentos variados; necessidade de adotar uma natureza independente, que vai além do ideal feminino além de uma atitude de reserva e obstinação. Outro ponto que Freud (1893) considera importante, está relacionado à hereditariedade, no caso de Elizabeth, não há nenhum dado significativo, apesar da mãe sofrer por muitos anos de uma depressão que não fora investigada. Os demais familiares (irmãos e irmãs da mãe, bem como o pai e a família desta) não têm histórico de problemas psíquicos importantes, sendo considerados pessoas com certo equilíbrio emocional, assim como não há registro de caso grave de quadro psicótico em parentes próximos. O fato de Elizabeth encontrar-se dominada por emoções dolorosas, Freud (1893) afirma que “há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenhe um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria” (p. 184). A saúde física fica abalada em conseqüência da privação de sono, há um descuido consigo mesmo que tem como conseqüências certos desleixos em relação à própria pessoa. A esse respeito diz Freud: Em minha opinião, qualquer pessoa cuja vida psíquica seja ocupada pelas mil e umas tarefas envolvidas na prestação de cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umas às outras numa sucessão interminável por um período de semanas e meses, adotará, por um lado o hábito de suprir todos os sinais de sua própria emoção, e por outro, logo desviará a atenção de suas próprias impressões, visto não ter nem tempo e nem força para apreciá-las devidamente. Assim, acumula uma massa de impressões passíveis de carregar afeto, que mal chegam a ser suficientemente percebidas e que, de qualquer modo, não foram enfraquecidas pela ab-reação[3]. Está criando material para uma “histeria de retenção”2. (FREUD, 1893, p.184-185). Ao que sugere, parece ser “conveniente” ao indivíduo voltar toda sua atenção para dedicar-se ao enfermo, fazendo com que a descarga emocional que necessita para se libertar de um afeto, encontre uma outra via de escape. Segundo Freud (1893) na manifestação da histeria, o indivíduo pode caminhar por duas vias de possibilidades: a primeira, quando o doente se recupera, onde as impressões constituídas perdem naturalmente seu significado e a segunda, quando ocorre a morte daquele que estava sendo cuidado, instalando-se, portanto o período de luto. Passam a ter valor somente as coisas que estão relacionadas ao morto. As impressões ainda não elaboradas se evidenciam e após o período de exaustão, surge à histeria. Com Elizabeth, foi durante o cuidado junto ao pai que a paciente desenvolveu pela primeira vez um sintoma histérico, momento em que as primeiras sementes são lançadas para o favorecimento da histeria. Em que “escolhera” uma área do corpo como região histerogênica3 para conversão de suas dores – a coxa direita. Através do tratamento, observa-se com clareza o momento em que Elizabeth começa a desenvolver seu sintoma. Admitiu, por exemplo, que numa noite ao retornar de uma festa em companhia de um jovem pelo qual se sentia atraída, lhe despertava um grande interesse de ter outros momentos com o rapaz. Com o agravamento da doença do pai, os encontros ficaram mais escassos, mas, ao recorrer a determinadas lembranças, relatou sobre a noite que considerou o clímax dos seus sentimentos pelo jovem. Deixou-se ser convencida principalmente pelo pai de ir a uma festa, onde encontraria a tal rapaz. Até aquela noite Elizabeth nunca havia experimentado sentimentos tão afetuosos em relação a um homem. Porém, ao chegar em casa, percebera que seu pai havia piorado significativamente, recriminou-se amargamente por ter sacrificado o momento que deveria estar cuidando do pai, e não priorizando seu prazer. Observou-se que um conjunto de idéias que envolvia seus deveres para com o pai entrou em conflito com o conteúdo de seus desejos,e mais, sob intensa auto-censura, faz com que decida a partir de então, em favor dos deveres para com o pai, provocando assim, a dor histérica. Após o primeiro episódio de dores fortes, ao vivenciar a situação de doença e morte da irmã, Elizabeth volta a manifestar os sintomas com mais intensidade. Ao tomarmos como referência a teoria conversiva da histeria, Freud (1893) sinaliza duas possibilidades a ser consideradas: a primeira é de que Elizabeth “recalcou”4 uma idéia sexual fora da consciência em que a carga correspondente a esse afeto fora transformada em sensações físicas de dor, a segunda que acredita ser a mais provável é de que: Um conflito exatamente semelhante – embora de maior significação ética e ainda mais claramente estabelecida pela análise - desenvolveu-se de novo alguns anos depois e levou a uma intensificação e uma extensão das mesmas dores para além dos limites originais. Mais uma vez, foi um círculo de representação de natureza sexual que entrou em conflito com todas as suas representações morais, [...] as representações de ser atraída precisamente por esse homem que lhe era totalmente inaceitável.(FREUD, 1893, p.187). Foi durante o tratamento que Freud (1893) constatou que novamente se apresentava para Elizabeth, a manifestação de um sentimento de desejo em relação a outro homem, sendo agora pelo seu cunhado, eis a razão do afeto ser inaceitável. Ao que parecia indicar estava presente há muito tempo. Até aquele momento julgava-se forte o suficiente para passar sem a ajuda de um homem. Sua natureza aparentemente indiferente, dava lugar ao reconhecimento da necessidade do desejo de ser amada, agora, por seu cunhado. Sentimento este, mobilizado pelo relato das lembranças dos momentos em que passara em companhia deste, em que puderam falar sobre os assuntos mais diversos até os mais íntimos. Neste momento seus desejos sexuais , aliados as suas dores, atingiram seu ponto máximo. Freud (1893) afirma que poucas foram às vezes que Elizabeth teve consciência de seus sentimentos pelo marido da irmã, ainda assim, em momentos de curta duração. Ao que parece, a conversão é uma dinâmica que ocorre sob pressão de uma defesa, em que o sujeito necessita esconder seus verdadeiros sentimentos de natureza sexual, transformando-os em um conteúdo que gere menos sofrimento. Freud (1893) ao se indagar sobre o que para Elizabeth se transforma em dor física, procura responder de forma bastante cautelosa. Para ele, seria inferir sobre a lembrança de um conteúdo ou grupo de conteúdos que deveria ter sido transformado em dor psíquica. Essas lembranças estão constituídas de determinada carga de afeto que está ligada a um complexo de representações de sentimentos sexuais que se mantém fora da consciência, podendo dizer que é justamente essa quantidade de carga afetiva que fora convertido. Freud5 reconhece a dor psíquica de Elizabeth como uma conseqüência pertencente à dinâmica psíquica na histeria de conversão, sendo constituídas por representações patogênicas, que fora recalcada a fim de poupar-se da dolorosa convicção de que amava o marido da irmã, resultando em dores nas pernas. Freud explica, que isso se traduz em: Representações que eram patogênicas e que tinham sido esquecidas e expulsas da consciência. A partir desses exemplos, reconheci uma característica universal de tais representações: eram todas de natureza aflitiva, capazes de despertar afetos de vergonha, de autocensura e dor psíquica [...] eram todos de uma espécie que a pessoa preferiria não ter experimentado, que preferiria esquecer. (FREUD, 1893-1895, p 283). Vale aqui abrirmos um pequeno parêntese, para citar a relação entre essas representações patogênicas e as fantasias. Em 1897, Freud percebeu pela primeira vez a importância das fantasias como base dos sintomas histéricos, embora só publicado, bem mais tarde6, afirma que toda crise histérica é constituída de fantasias que podem ser inconscientes e conscientes. Quando as fantasias são inconscientes, podem torna-se também patogênicas, ao que parece foi o que aconteceu com as lembranças das representações que Elizabeth estabeleceu em relação a seus sentimentos pelo cunhado. Ainda no texto de 1893, Freud, afirma que cada sintoma histérico individual desaparece de forma imediata e permanente quando se consegue trazer à luz a lembrança do fato que provocou o sintoma. Despertar o afeto que se mantém ligado que fora colocado para fora da consciência necessitará da lembrança do acontecimento envolvendo um maior número possível de detalhes, em que resultará na tradução do afeto em palavras, consequentemente na possível eliminação dos sintomas. Freud (1905) cita como exemplo mais corriqueiro da atuação anímica sobre o corpo, o conteúdo fornecido pela chamada expressão das emoções, que significa exatamente como a paciente nomeia a sua reação, fato que pode ser demonstrado quando Elizabeth relata na análise, por exemplo, “não ser capaz de dar um único passo à frente” ou “não ter nada em que se apoiar” (FREUD, 1893, p.197). A explicação utilizada pela paciente, passa a ser indicativo de uma excitação psíquica específica da conversão, que, posteriormente, pôde ser ativada através de associações, ou oriunda da vida psíquica ou como conversão simbólica, que parece ter ocorrido com Elizabeth, e que Freud (1893) afirma ser uma regra geral nos casos de histeria de conversão. É importante aqui darmos destaque ao que Freud (1893) chama de eclosão da histeria que invariavelmente é atribuída a um ‘conflito psíquico’7. Segue ele esse conflito surge quando uma representação incompatível destrói uma ‘defesa’ por parte do Eu, entrando em ação o mecanismo do recalcamento. Mecanismo de defesa que atua excluindo da consciência, as representações (pensamentos e recordações) que estão ligados à pulsão. Trata-se de empurrar para o lado, retirar de foco, o que está causando certo desconforto. Porém é importante saber que o que fora reprimido não desaparece em definitivo. Para Elizabeth, os sinais de dores histéricas se intensificam quando ela demonstra o conflito existente entre suas representações sexuais e suas representações éticas e morais, sentimentos estes que necessitam ser recalcados, e que tem como conseqüência, destinar para o corpo um quanto de sentimento que não pode ser admitido conscientemente. Retomando a dinâmica psíquica de Elizabeth, o amor inconsciente que sentira pelo cunhado teria perdido certa quantidade de energia, que o reduziu apenas a uma representação de fraca intensidade. Através dessa redução de força, o grupo de representações ligado a esse sentimento foi deslocado para fora da consciência sendo caracterizado como um grupo de representações isolado, também conhecido como material psicológico patogênico8. Para Freud (1893) a representação patogênica que fora colocada de lado está sempre a ‘mão’ e pode ser alcançada por associações que estão presentes na corrente principal de pensamento. O trabalho é de retirar camada por camada das representações que compõem a vida psíquica, fazendo com que a paciente recorra a detalhes ainda não relatados sobre lembranças de fatos ocorridos. Elas estão próximas da superfície do material consciente. Isso explica o fato de Elizabeth reconhecer - pelo menos por um momento - seu amor pelo cunhado, quando por exemplo, quando esteve junto ao leito de morte de sua irmã , em que pensara que o cunhado estaria livre, e poderia tê-la como esposa. O termo “histeria de defesa” implicaria por um momento, o sentimento consciente que deveria ter ocorrido com Elizabeth naquele instante, sobre isso, Freud afirma: A consciência simplesmente não sabe por antecipação quando uma representação incompatível vai aflorar. A representação incompatível, que juntamente com as que lhe estão associadas é depois excluída e forma um grupo psíquico separado, deve originalmente ter estado em comunicação com a corrente principal de pensamento. De outra forma, o conflito que levou a sua exclusão não poderia ter ocorrido. São esses momentos, portanto, que deve ser classificado de ‘traumáticos’; é nesses momentos que ocorre a conversão, cujos resultados são a divisão da consciência e o sintoma histérico. (FREUD, 1893, p. 189-190). No caso de Elizabeth, ao que parece, ocorreram várias vezes momentos que, ao serem lembrados, foram rememorados como traumáticos. O que possibilitou a existência desses momentos são às experiências associadas como representações que se tornaram dolorosas. As quais se acrescentaram uma nova excitação, a representação pertencente ao grupo psíquico que fora separado pelo mecanismo do recalcamento. É sabido que o sintoma histérico até pode ser originário de uma única experiência concreta, mas são as lembranças de experiências mais antigas que são despertadas a partir de associações presentes na corrente principal de pensamento, que atuará na causa do sintoma. Outro ponto que pode ser mencionado trata-se da existência de um possível obstáculo que pode dificultar um pouco a compreensão no caso de Elizabeth. Partindo de uma análise mais detalhada, Freud (1893) presumiu que já havia ocorrido uma conversão anteriormente, quando Elizabeth ainda cuidava do pai. O conflito entre os cuidados junto ao pai enfermo e os seus desejos sexuais, foi considerado como acontecimentos que serviram como o protótipo dos eventos que se seguiriam. Não se pode deixar de mencionar que durante sua atuação como ‘enfermeira’ do pai, Elizabeth esteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, porém ficara a dúvida se poderia essa ser determinada como um sintoma histérico. O que parecia ser mais provavelmente é que estava relacionado a sintomas de dores reumáticas, fato confirmado pelo seu desaparecimento imediato, diferentemente do momento quando a jovem estava em tratamento.As lembranças relativas à doença e morte do pai e as impressões sobre o cunhado foram acompanhadas de dores, porém no momento em que vivenciou esses fatos, não sentira dor alguma, levando Freud até mesmo a questionar se não seria esta uma contradição. Ele mesmo tenta responder da seguinte maneira: presume que as dores que resultaram na conversão, não aconteceram quando Elizabeth vivenciara as situações neste primeiro momento, manifestação que só ocorrera num momento posterior, ou seja, a conversão não se deu ligada às impressões quando estas haviam ocorrido, mas sim em conexão com as lembranças das mesmas. É o que Freud9 destaca como uma das fases do recalque, em que afirma ter motivos para supor que “existe um recalque primevo , uma primeira fase do recalque, que consiste em negar a entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) da pulsão”, nesse momento se estabelece uma fixação, onde o representante em questão se mantém inalterado e a pulsão permanece ligada a ele. Ao tratar desta questão, Freud nos remete ao estudo sobre a gênese do trauma, ou seja, o processo de recalcamento não deve ser considerado como algo que ocorre apenas uma vez, mas, principalmente, considerar que ele já ocorreu nos primórdios da constituição da vida psíquica. Na maioria dos casos, verifica-se que uma primeira situação de recalque, supostamente traumática, não deixa nenhum sintoma. É importante ressaltar que em termos da teoria da conversão, é correto afirmar que esta pode resultar tanto de uma somatória de supostos traumas, bem como da latência preliminar de sintomas. Outro aspecto interessante a ser destacado no estudo sobre histeria é quando Freud (1893) chama atenção para o fator quantitativo dos afetos investidos na manifestação do sintoma, ou seja, a questão de qual grau máximo de tensão afetiva o organismo é capaz de tolerar, onde afirma que mesmo na histeria o indivíduo é capaz de reter certa quantidade de afeto com o qual não se lidou, e ao ser exposta a ocorrência de causas provocadoras semelhantes, essa quantidade é aumentada significativamente que vai além da tolerância do indivíduo. Significam dizer que a formação dos sintomas histéricos se desenvolve a partir dos afetos tantos relembrados como afetos novos favorecendo assim à conversão, explica Freud: O afeto permanece num estado “estrangulado”, e a lembrança da experiência a que está ligado é isolada da consciência. A partir daí, a lembrança afetiva se manifesta em sintomas histéricos, que podem ser considerados como “símbolos mnêmicos”10 [...] Sugerem duas razões principais [...]Uma delas é que a experiência original ocorreu enquanto o indivíduo se encontrava num particular estado de dissociação psíquica [...] a outra o “eu” do indivíduo considerou essa experiência como sendo “incompatível” com ele próprio e, portanto deve ser “ rechaçada” [...] se a experiência original, juntamente com o afeto, puder ser introduzida na consciência, o afeto é por si mesmo descarregado.(FREUD, 1893-1895,22). Significa dizer que o sentimento de Elizabeth pelo marido de sua irmã, jamais poderia ser aceito conscientemente, por ir de encontro aos seus valores éticos e morais, necessitando ser “guardado” fora da consciência. Suas lembranças relativas ao cunhado foram transformadas em símbolos outros, que ao serem relembradas não pudessem resultar em um tormento psíquico. Ao examinar os motivos e os mecanismos do caso de histeria de Elizabeth, Freud (1893) questiona-se por que o sofrimento da paciente foi representado exatamente por dores nas pernas? Por que em forma de astasia-basia? Além de ter constatado que os sintomas são comuns em quase todos os casos de dores histéricas, obteve a compreensão de que desde o início sempre estivera presente uma dor que considerou de base orgânica, que ocorrera muito antes dos cuidados prestados ao pai enfermo. Prova disso, é que mesmo com o tratamento, não se conseguiu obter nenhuma prova de que aquele primeiro episódio de dor física tivesse uma causa psíquica. Donde se concluiu que a dor originária era reumática e passará então a se tornar como um símbolo mnêmico constituído de excitações psíquicas dolorosas para paciente. Outros aspectos devem ser considerados: o primeiro e mais importante, é que para Elizabeth a consciência da dor física coincidia com o período em que as excitações também apareceram. O segundo aspecto é que a dor poderia estar ligada por muitos caminhos as suas idéias da época. O que parece ter tido influência decisiva sobre os caminhos da dinâmica da conversão e que fora determinada por ligações associativas, por exemplo, o fato de que vários dias seguidos, uma das pernas em que sentia dor servia de sustentação para o pai apoiar sua perna enquanto ela trocava as ataduras. Essa área ficou determinada inconscientemente como foco de localização e irradiação de suas dores, a chamada região histerogênica. A forma inconsciente da manifestação da astasia-abasia parecia simbolizar uma expressão somática aliada à incapacidade de fazer alterações na sua própria vida e servindo como elo de ligação para a conversão, que fora demonstrada por Elizabeth durante o tratamento. Freud também sustenta esse ponto de vista, a partir da explicação de que a conversão apresenta como base à simultaneidade, aliada a uma ligação associativa com a corrente principal de pensamento, em que a expressão das emoções na conversão histérica tem o objetivo de restaurar o significado original das palavras. Podemos então entender que a dor psíquica é uma conseqüência pertencente à dinâmica psíquica na histeria de conversão, que surge a partir de lembranças de representações patogênicas recalcadas que ocorrem demandadas a partir do conflito estabelecido entre o círculo de representação de natureza sexual e as representações morais que Elizabeth constituiu ao longo do desenvolvimento e da formação de sua dinâmica psíquica. REFERÊNCIAS FREUD, Sigmund. Edição Standart Brasileira das Obras Completas. ESB.Rio de Janeiro: Imago, 1995. 24 v. _______________ (1893). Caso 5 – Srta. Elizabeth Von R. op. cit. _______________ (1893-1895). Estudo sobre a Histeria Breuer e Freud. op. cit.. _______________ (1893). A Psicoterapia da Histeria (Freud). op.cit. _______________(1893). Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: Comunicação Preliminar. op.cit. _______________(1895 b). Considerações Teóricas. op.cit _______________(1896).Observações Adicionais sobre as Neuropsicoses de Defesa. op.cit. _______________(1896). A Etiologia da Histeria. op. cit. _______________(1896). A Etiologia “Especifica” da Histeria. op. cit. _______________(1905). Tratamento Psíquico (ou Anímico). op.cit. ________________(1908). Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade. op. cit. ________________ (1915). Recalque. op.cit. GAY, P. Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.719 p. HANNS, Luiz Alberto (Coord. Geral). Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de janeiro: Imago Ed. 2004. p. 175 – 193. ____________________ Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago. Ed., 1996. p. 355 - 363. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. –B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes Editora Ltda., 1988. p. 21. MASSON, J. M. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. Rio de Janeiro: Imago, 1986. 503 p. [3] Descarga emocional pela qual o indivíduo se liberta do afeto que está ligado a recordação de um acontecimento traumático. (LAPLANCHE E PONTALIS, 1988, p.23) 2 Estado de excitação que costuma ser seguido por conseqüências psíquicas, tais como a depressão patológica e os estados de angústia. (FREUD, 1895b, p.231) 3 Região determinada inconscientemente como foco de localização e irradiação de dores. (FREUD, 1893, 197). 4 A primeira vez que surge o termo “recalcado”, que vem do alemão “verdrängt”, é na segunda seção do texto o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: Comunicação Preliminar (1893). Neste período, o “recalque” é utilizado como equivalente a “defesa”. 5 Em A Psicoterapia da Histeria publicado em 1893 (FREUD). 6 Em 1908 (FREUD) sob o título Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade. p. 164. 7 Dinâmica que ocorre a partir do conflito entre o círculo de representações de natureza sexual e as representações morais que compõem os pensamentos de Elizabeth. 8 Denominação feita por Peter Gay ao comentar sobre o caso de Elizabeth no texto Histéricos, Projetos e Dificuldades (1989). P. 81) 9 Artigos sobre Metapsicologia (FREUD, 1915, p. 171). 10 Todas as experiências e excitações que, no período posterior a puberdade, prepara o caminho a eclosão da histeria, só sentem esses efeitos, como se pode demonstrar, por despertarem o traço mnêmico desses traumas de infância, que se tornam conscientes de imediato, mas levam a uma descarga de afeto e ao recalcamento (FREUD, 1896).