Dor Psíquica, Recalque e Ponto de Vista Econômico
Oneli de Fátima Teixeira Gonçalves Rocha
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Parcial de uma pesquisa teórica sobre o conceito de dor psíquica em Freud.
Estudo realizado a partir do caso clínico de Elizabeth von R. (1893). A dor psíquica é
uma conseqüência específica da dinâmica pertencente à subjetividade na histeria. Surge
a partir de lembranças de representações patogênicas recalcadas, originada de um
conflito entre uma cadeia de representações de natureza sexual e moral. Apresenta como
mecanismo de defesa o recalque. Com a dissociação entre a idéia e sua quota de afeto,
faz com que o destino deste seja convertido para o corpo através do sintoma. Com o
enfraquecimento da idéia dissociada, esta é recalcada e se liga fora da consciência a um
núcleo de representações patogênicas. É no tratamento que o sujeito é levado, através da
corrente principal de pensamento, a relembrar suas representações que se tornaram
patogênicas causando-lhe dor psíquica.
Palavras-chaves: Histeria, conversão, recalque, dor psíquica
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Freud em 1893 fez o que chamou de primeira análise integral de um caso de
histeria. Atendendo ao pedido de um conhecido médico, examinou uma jovem de vinte
e quatro anos, que sofria há mais de dois, de dores nas pernas e tinha dificuldade de
andar (astasia-abasia). Neste mesmo período a jovem tivera muitas emoções dolorosas
que iniciou com uma depressão após cuidar por longo tempo de seu pai enfermo até o
seu falecimento, em seguida, teve que assistir a mãe que se submeteu a uma cirurgia
importante na vista, e por isso necessitou ficar enclausurada no quarto desta para
acompanhá-la na sua recuperação e logo depois precisou dar apoio á família (mãe, irmã
e cunhado) a fim de enfrentar a perda de uma outra irmã, já casada, que falecera em
função de um problema cardíaco após o parto.
Elizabeth demonstrava ser psiquicamente normal e inteligente, enfrentava seus
problemas com ar alegre – “a belle indifférence dos histéricos” como descreve Freud
(1893 p. 161 grifo do autor). Queixava-se de intensa dor e ao ficar de pé ou andar,
cansava-se com facilidade, necessitando descansar em períodos curto de tempo,
diminuindo as dores sem necessariamente eliminá-las. A dor tinha um caráter
indefinido, situava-se numa grande área não muita bem delimitada da superfície anterior
da coxa direita, com certo exagero de sensibilidade na pele e nos músculos, que se
estendia ao longo das duas coxas. Pela ausência de outros sintomas, Freud descartou
qualquer possibilidade de doença orgânica grave.
Ao iniciar a discussão do caso de Elizabeth, Freud (1893) chama atenção para
dois aspectos aparentemente distintos, porém interessantes considerando o momento
histórico em que escreveu caso, ou seja,período pré-psicanalítico . O primeiro é sobre a
sua formação que está ligada ao emprego de diagnóstico e eletroprognóstico, período
em que se evidenciava o modelo médico como forma de tratamento. E o segundo é a
forma como escreve seus relatos, em que o seu conteúdo, ou seja, a dinâmica do
psiquismo, só poderá ser expresso numa “forma” próxima da literatura, que se
constituiu num estudo de caso. A conformação com essa característica de seu trabalho é
justificada pela reflexão de que a responsabilidade sobre esse aspecto está exatamente
relacionada à natureza do assunto. Admite que para se chegar a um estudo que
possibilite uma compreensão da dinâmica psíquica é necessário fazer uma descrição
minuciosa desse processo. Este estudo de caso adquire o seu formato a partir do
estabelecimento de uma íntima ligação entre a história dos sofrimentos e os sintomas
apresentados pela paciente.
Freud (1893) adota a estratégia de entrelaçar explicações que possam trazer
dados importantes sobre como a paciente “caminha” na sua recuperação. Destaca como
ponto fundamental, a descrição do seu caráter , o qual é encontrado com freqüência em
pessoas histéricas como por exemplo, um significativo desgaste físico e psicológico
pelo cuidado a pessoas enfermas; presença de sensibilidade moral; exigência de amor
em excesso, que num primeiro momento é contemplado pela família; ambição; talentos
variados; necessidade de adotar uma natureza independente, que vai além do ideal
feminino além de uma atitude de reserva e obstinação.
Outro ponto que Freud (1893) considera importante, está relacionado à
hereditariedade, no caso de Elizabeth, não há nenhum dado significativo, apesar da mãe
sofrer por muitos anos de uma depressão que não fora investigada. Os demais familiares
(irmãos e irmãs da mãe, bem como o pai e a família desta) não têm histórico de
problemas psíquicos importantes, sendo considerados pessoas com certo equilíbrio
emocional, assim como não há registro de caso grave de quadro psicótico em parentes
próximos.
O fato de Elizabeth encontrar-se dominada por emoções dolorosas, Freud (1893)
afirma que “há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenhe
um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria” (p. 184). A saúde física
fica abalada em conseqüência da privação de sono, há um descuido consigo mesmo que
tem como conseqüências certos desleixos em relação à própria pessoa. A esse respeito
diz Freud:
Em minha opinião, qualquer pessoa cuja vida psíquica seja
ocupada pelas mil e umas tarefas envolvidas na prestação de
cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umas
às outras numa sucessão interminável por um período de
semanas e meses, adotará, por um lado o hábito de suprir todos
os sinais de sua própria emoção, e por outro, logo desviará a
atenção de suas próprias impressões, visto não ter nem tempo e
nem força para apreciá-las devidamente. Assim, acumula uma
massa de impressões passíveis de carregar afeto, que mal
chegam a ser suficientemente percebidas e que, de qualquer
modo, não foram enfraquecidas pela ab-reação[3]. Está criando
material para uma “histeria de retenção”2. (FREUD, 1893,
p.184-185).
Ao que sugere, parece ser “conveniente” ao indivíduo voltar toda sua atenção
para dedicar-se ao enfermo, fazendo com que a descarga emocional que necessita para
se libertar de um afeto, encontre uma outra via de escape.
Segundo Freud (1893) na manifestação da histeria, o indivíduo pode caminhar
por duas vias de possibilidades: a primeira, quando o doente se recupera, onde as
impressões constituídas perdem naturalmente seu significado e a segunda, quando
ocorre a morte daquele que estava sendo cuidado, instalando-se, portanto o período de
luto. Passam a ter valor somente as coisas que estão relacionadas ao morto. As
impressões ainda não elaboradas se evidenciam e após o período de exaustão, surge à
histeria.
Com Elizabeth, foi durante o cuidado junto ao pai que a paciente desenvolveu
pela primeira vez um sintoma histérico, momento em que as primeiras sementes são
lançadas para o favorecimento da histeria. Em que “escolhera” uma área do corpo como
região histerogênica3 para conversão de suas dores – a coxa direita. Através do
tratamento, observa-se com clareza o momento em que Elizabeth começa a desenvolver
seu sintoma. Admitiu, por exemplo, que numa noite ao retornar de uma festa em
companhia de um jovem pelo qual se sentia atraída, lhe despertava um grande interesse
de ter outros momentos com o rapaz. Com o agravamento da doença do pai, os
encontros ficaram mais escassos, mas, ao recorrer a determinadas lembranças, relatou
sobre a noite que considerou o clímax dos seus sentimentos pelo jovem. Deixou-se ser
convencida principalmente pelo pai de ir a uma festa, onde encontraria a tal rapaz. Até
aquela noite Elizabeth nunca havia experimentado sentimentos tão afetuosos em relação
a um homem. Porém, ao chegar em casa, percebera que seu pai havia piorado
significativamente, recriminou-se amargamente por ter sacrificado o momento que
deveria estar cuidando do pai, e não priorizando seu prazer.
Observou-se que um conjunto de idéias que envolvia seus deveres para com o
pai entrou em conflito com o conteúdo de seus desejos,e mais, sob intensa auto-censura,
faz com que decida a partir de então, em favor dos deveres para com o pai, provocando
assim, a dor histérica.
Após o primeiro episódio de dores fortes, ao vivenciar a situação de doença e
morte da irmã, Elizabeth volta a manifestar os sintomas com mais intensidade.
Ao tomarmos como referência a teoria conversiva da histeria, Freud (1893)
sinaliza duas possibilidades a ser consideradas: a primeira é de que Elizabeth
“recalcou”4 uma idéia sexual fora da consciência em que a carga correspondente a esse
afeto fora transformada em sensações físicas de dor, a segunda que acredita ser a mais
provável é de que:
Um conflito exatamente semelhante – embora de maior
significação ética e ainda mais claramente estabelecida pela
análise - desenvolveu-se de novo alguns anos depois e levou a
uma intensificação e uma extensão das mesmas dores para além
dos limites originais. Mais uma vez, foi um círculo de
representação de natureza sexual que entrou em conflito com
todas as suas representações morais, [...] as representações de
ser atraída precisamente por esse homem que lhe era totalmente
inaceitável.(FREUD, 1893, p.187).
Foi durante o tratamento que Freud (1893) constatou que novamente se
apresentava para Elizabeth, a manifestação de um sentimento de desejo em relação a
outro homem, sendo agora pelo seu cunhado, eis a razão do afeto ser inaceitável. Ao
que parecia indicar estava presente há muito tempo. Até aquele momento julgava-se
forte o suficiente para passar sem a ajuda de um homem. Sua natureza aparentemente
indiferente, dava lugar ao reconhecimento da necessidade do desejo de ser amada,
agora, por seu cunhado. Sentimento este, mobilizado pelo relato das lembranças dos
momentos em que passara em companhia deste, em que puderam falar sobre os assuntos
mais diversos até os mais íntimos. Neste momento seus desejos sexuais , aliados as suas
dores, atingiram seu ponto máximo.
Freud (1893) afirma que poucas foram às vezes que Elizabeth teve consciência
de seus sentimentos pelo marido da irmã, ainda assim, em momentos de curta duração.
Ao que parece, a conversão é uma dinâmica que ocorre sob pressão de uma
defesa, em que o sujeito necessita esconder seus verdadeiros sentimentos de natureza
sexual, transformando-os em um conteúdo que gere menos sofrimento.
Freud (1893) ao se indagar sobre o que para Elizabeth se transforma em dor
física, procura responder de forma bastante cautelosa. Para ele, seria inferir sobre a
lembrança de um conteúdo ou grupo de conteúdos que deveria ter sido transformado em
dor psíquica. Essas lembranças estão constituídas de determinada carga de afeto que
está ligada a um complexo de representações de sentimentos sexuais que se mantém
fora da consciência, podendo dizer que é justamente essa quantidade de carga afetiva
que fora convertido.
Freud5 reconhece a dor psíquica de Elizabeth como uma conseqüência
pertencente à dinâmica psíquica na histeria de conversão, sendo constituídas por
representações patogênicas, que fora recalcada a fim de poupar-se da dolorosa
convicção de que amava o marido da irmã, resultando em dores nas pernas. Freud
explica, que isso se traduz em:
Representações que eram patogênicas e que tinham sido
esquecidas e expulsas da consciência. A partir desses exemplos,
reconheci uma característica universal de tais representações:
eram todas de natureza aflitiva, capazes de despertar afetos de
vergonha, de autocensura e dor psíquica [...] eram todos de uma
espécie que a pessoa preferiria não ter experimentado, que
preferiria esquecer. (FREUD, 1893-1895, p 283).
Vale aqui abrirmos um pequeno parêntese, para citar a relação entre essas
representações patogênicas e as fantasias. Em 1897, Freud percebeu pela primeira vez a
importância das fantasias como base dos sintomas histéricos, embora só publicado, bem
mais tarde6, afirma que toda crise histérica é constituída de fantasias que podem ser
inconscientes e conscientes. Quando as fantasias são inconscientes, podem torna-se
também patogênicas, ao que parece foi o que aconteceu com as lembranças das
representações que Elizabeth estabeleceu em relação a seus sentimentos pelo cunhado.
Ainda no texto de 1893, Freud, afirma que cada sintoma histérico individual
desaparece de forma imediata e permanente quando se consegue trazer à luz a
lembrança do fato que provocou o sintoma. Despertar o afeto que se mantém ligado que
fora colocado para fora da consciência necessitará da lembrança do acontecimento
envolvendo um maior número possível de detalhes, em que resultará na tradução do
afeto em palavras, consequentemente na possível eliminação dos sintomas.
Freud (1905) cita como exemplo mais corriqueiro da atuação anímica sobre o
corpo, o conteúdo fornecido pela chamada expressão das emoções, que significa
exatamente como a paciente nomeia a sua reação, fato que pode ser demonstrado
quando Elizabeth relata na análise, por exemplo, “não ser capaz de dar um único passo à
frente” ou “não ter nada em que se apoiar” (FREUD, 1893, p.197). A explicação
utilizada pela paciente, passa a ser indicativo de uma excitação psíquica específica da
conversão, que, posteriormente, pôde ser ativada através de associações, ou oriunda da
vida psíquica ou como conversão simbólica, que parece ter ocorrido com Elizabeth, e
que Freud (1893) afirma ser uma regra geral nos casos de histeria de conversão.
É importante aqui darmos destaque ao que Freud (1893) chama de eclosão da
histeria que invariavelmente é atribuída a um ‘conflito psíquico’7. Segue ele esse
conflito surge quando uma representação incompatível destrói uma ‘defesa’ por parte do
Eu, entrando em ação o mecanismo do recalcamento. Mecanismo de defesa que atua
excluindo da consciência, as representações (pensamentos e recordações) que estão
ligados à pulsão. Trata-se de empurrar para o lado, retirar de foco, o que está causando
certo desconforto. Porém é importante saber que o que fora reprimido não desaparece
em definitivo.
Para Elizabeth, os sinais de dores histéricas se intensificam quando ela
demonstra o conflito existente entre suas representações sexuais e suas representações
éticas e morais, sentimentos estes que necessitam ser recalcados, e que tem como
conseqüência, destinar para o corpo um quanto de sentimento que não pode ser
admitido conscientemente.
Retomando a dinâmica psíquica de Elizabeth, o amor inconsciente que
sentira pelo cunhado teria perdido certa quantidade de energia, que o reduziu apenas a
uma representação de fraca intensidade. Através dessa redução de força, o grupo de
representações ligado a esse sentimento foi deslocado para fora da consciência sendo
caracterizado como um grupo de representações isolado, também conhecido como
material psicológico patogênico8.
Para Freud (1893) a representação patogênica que fora colocada de lado está
sempre a ‘mão’ e pode ser alcançada por associações que estão presentes na corrente
principal de pensamento. O trabalho é de retirar camada por camada das representações
que compõem a vida psíquica, fazendo com que a paciente recorra a detalhes ainda não
relatados sobre lembranças de fatos ocorridos. Elas estão próximas da superfície do
material consciente. Isso explica o fato de Elizabeth reconhecer - pelo menos por um
momento - seu amor pelo cunhado, quando por exemplo, quando esteve junto ao leito
de morte de sua irmã , em que pensara que o cunhado estaria livre, e poderia tê-la como
esposa.
O termo “histeria de defesa” implicaria por um momento, o sentimento
consciente que deveria ter ocorrido com Elizabeth naquele instante, sobre isso, Freud
afirma:
A consciência simplesmente não sabe por antecipação quando
uma representação incompatível vai aflorar. A representação
incompatível, que juntamente com as que lhe estão associadas é
depois excluída e forma um grupo psíquico separado, deve
originalmente ter estado em comunicação com a corrente
principal de pensamento. De outra forma, o conflito que levou a
sua exclusão não poderia ter ocorrido. São esses momentos,
portanto, que deve ser classificado de ‘traumáticos’; é nesses
momentos que ocorre a conversão, cujos resultados são a
divisão da consciência e o sintoma histérico. (FREUD, 1893,
p. 189-190).
No caso de Elizabeth, ao que parece, ocorreram várias vezes momentos que, ao
serem lembrados, foram rememorados como traumáticos. O que possibilitou a
existência desses momentos são às experiências associadas como representações que se
tornaram dolorosas. As quais se acrescentaram uma nova excitação, a representação
pertencente ao grupo psíquico que fora separado pelo mecanismo do recalcamento.
É sabido que o sintoma histérico até pode ser originário de uma única
experiência concreta, mas são as lembranças de experiências mais antigas que são
despertadas a partir de associações presentes na corrente principal de pensamento, que
atuará na causa do sintoma.
Outro ponto que pode ser mencionado trata-se da existência de um
possível obstáculo que pode dificultar um pouco a compreensão no caso de Elizabeth.
Partindo de uma análise mais detalhada, Freud (1893) presumiu que já havia ocorrido
uma conversão anteriormente, quando Elizabeth ainda cuidava do pai. O conflito entre
os cuidados junto ao pai enfermo e os seus desejos sexuais, foi considerado como
acontecimentos que serviram como o protótipo dos eventos que se seguiriam.
Não se pode deixar de mencionar que durante sua atuação como ‘enfermeira’ do
pai, Elizabeth esteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, porém ficara a
dúvida se poderia essa ser determinada como um sintoma histérico. O que parecia ser
mais provavelmente é que estava relacionado a sintomas de dores reumáticas, fato
confirmado pelo seu desaparecimento imediato, diferentemente do momento quando a
jovem estava em tratamento.As lembranças relativas à doença e morte do pai e as
impressões sobre o cunhado foram acompanhadas de dores, porém no momento em que
vivenciou esses fatos, não sentira dor alguma, levando Freud até mesmo a questionar se
não seria esta uma contradição.
Ele mesmo tenta responder da seguinte maneira: presume que as dores que
resultaram na conversão, não aconteceram quando Elizabeth vivenciara as situações
neste primeiro momento, manifestação que só ocorrera num momento posterior, ou seja,
a conversão não se deu ligada às impressões quando estas haviam ocorrido, mas sim em
conexão com as lembranças das mesmas. É o que Freud9 destaca como uma das fases do
recalque, em que afirma ter motivos para supor que “existe um recalque primevo , uma
primeira fase do recalque, que consiste em negar a entrada no consciente ao
representante psíquico (ideacional) da pulsão”, nesse momento se estabelece
uma fixação, onde o representante em questão se mantém inalterado e a pulsão
permanece ligada a ele.
Ao tratar desta questão, Freud nos remete ao estudo sobre a gênese do trauma,
ou seja, o processo de recalcamento não deve ser considerado como algo que ocorre
apenas uma vez, mas, principalmente, considerar que ele já ocorreu nos primórdios da
constituição da vida psíquica. Na maioria dos casos, verifica-se que uma primeira
situação de recalque, supostamente traumática, não deixa nenhum sintoma.
É importante ressaltar que em termos da teoria da conversão, é correto afirmar
que esta pode resultar tanto de uma somatória de supostos traumas, bem como da
latência preliminar de sintomas.
Outro aspecto interessante a ser destacado no estudo sobre histeria é quando
Freud (1893) chama atenção para o fator quantitativo dos afetos investidos na
manifestação do sintoma, ou seja, a questão de qual grau máximo de tensão afetiva o
organismo é capaz de tolerar, onde afirma que mesmo na histeria o indivíduo é capaz de
reter certa quantidade de afeto com o qual não se lidou, e ao ser exposta a ocorrência de
causas provocadoras semelhantes, essa quantidade é aumentada significativamente que
vai além da tolerância do indivíduo. Significam dizer que a formação dos sintomas
histéricos se desenvolve a partir dos afetos tantos relembrados como afetos novos
favorecendo assim à conversão, explica Freud:
O afeto permanece num estado “estrangulado”, e a lembrança da
experiência a que está ligado é isolada da consciência. A partir
daí, a lembrança afetiva se manifesta em sintomas histéricos,
que podem ser considerados como “símbolos mnêmicos”10 [...]
Sugerem duas razões principais [...]Uma delas é que a
experiência original ocorreu enquanto o indivíduo se encontrava
num particular estado de dissociação psíquica [...] a outra o “eu”
do indivíduo considerou essa experiência como sendo
“incompatível” com ele próprio e, portanto deve ser “
rechaçada” [...] se a experiência original, juntamente com o
afeto, puder ser introduzida na consciência, o afeto é por si
mesmo descarregado.(FREUD, 1893-1895,22).
Significa dizer que o sentimento de Elizabeth pelo marido de sua irmã, jamais
poderia ser aceito conscientemente, por ir de encontro aos seus valores éticos e morais,
necessitando ser “guardado” fora da consciência. Suas lembranças relativas ao cunhado
foram transformadas em símbolos outros, que ao serem relembradas não pudessem
resultar em um tormento psíquico.
Ao examinar os motivos e os mecanismos do caso de histeria de Elizabeth,
Freud (1893) questiona-se por que o sofrimento da paciente foi representado exatamente
por dores nas pernas? Por que em forma de astasia-basia? Além de ter constatado que
os sintomas são comuns em quase todos os casos de dores histéricas, obteve a
compreensão de que desde o início sempre estivera presente uma dor que considerou de
base orgânica, que ocorrera muito antes dos cuidados prestados ao pai enfermo. Prova
disso, é que mesmo com o tratamento, não se conseguiu obter nenhuma prova de que
aquele primeiro episódio de dor física tivesse uma causa psíquica. Donde se concluiu
que a dor originária era reumática e passará então a se tornar como um símbolo
mnêmico constituído de excitações psíquicas dolorosas para paciente.
Outros aspectos devem ser considerados: o primeiro e mais importante, é que
para Elizabeth a consciência da dor física coincidia com o período em que as excitações
também apareceram. O segundo aspecto é que a dor poderia estar ligada por muitos
caminhos as suas idéias da época. O que parece ter tido influência decisiva sobre os
caminhos da dinâmica da conversão e que fora determinada por ligações associativas,
por exemplo, o fato de que vários dias seguidos, uma das pernas em que sentia dor
servia de sustentação para o pai apoiar sua perna enquanto ela trocava as ataduras. Essa
área ficou determinada inconscientemente como foco de localização e irradiação de suas
dores, a chamada região histerogênica.
A forma inconsciente da manifestação da astasia-abasia parecia simbolizar uma
expressão somática aliada à incapacidade de fazer alterações na sua própria vida e
servindo como elo de ligação para a conversão, que fora demonstrada por Elizabeth
durante o tratamento. Freud também sustenta esse ponto de vista, a partir da explicação
de que a conversão apresenta como base à simultaneidade, aliada a uma ligação
associativa com a corrente principal de pensamento, em que a expressão das emoções na
conversão histérica tem o objetivo de restaurar o significado original das palavras.
Podemos então entender que a dor psíquica é uma conseqüência pertencente à
dinâmica psíquica na histeria de conversão, que surge a partir de lembranças de
representações patogênicas recalcadas que ocorrem demandadas a partir do conflito
estabelecido entre o círculo de representação de natureza sexual e as representações
morais que Elizabeth constituiu ao longo do desenvolvimento e da formação de sua
dinâmica psíquica.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Edição Standart Brasileira das Obras Completas. ESB.Rio de
Janeiro: Imago, 1995. 24 v.
_______________ (1893). Caso 5 – Srta. Elizabeth Von R. op. cit.
_______________ (1893-1895). Estudo sobre a Histeria Breuer e Freud. op. cit..
_______________ (1893). A Psicoterapia da Histeria (Freud). op.cit.
_______________(1893). Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos:
Comunicação Preliminar. op.cit.
_______________(1895 b). Considerações Teóricas. op.cit
_______________(1896).Observações Adicionais sobre as Neuropsicoses de Defesa.
op.cit.
_______________(1896). A Etiologia da Histeria. op. cit.
_______________(1896). A Etiologia “Especifica” da Histeria. op. cit.
_______________(1905). Tratamento Psíquico (ou Anímico). op.cit.
________________(1908). Fantasias
Histéricas
e
sua
Relação
com
a
Bissexualidade. op. cit.
________________ (1915). Recalque. op.cit.
GAY, P. Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras,
1989.719 p.
HANNS, Luiz Alberto (Coord. Geral). Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio
de janeiro: Imago Ed. 2004. p. 175 – 193.
____________________ Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro:
Imago. Ed., 1996. p. 355 - 363.
LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. –B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins
Fontes Editora Ltda., 1988. p. 21.
MASSON, J. M. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess.
Rio de Janeiro: Imago, 1986. 503 p.
[3]
Descarga emocional pela qual o indivíduo se liberta do afeto que está ligado a recordação de um
acontecimento traumático. (LAPLANCHE E PONTALIS, 1988, p.23)
2
Estado de excitação que costuma ser seguido por conseqüências psíquicas, tais como a depressão
patológica e os estados de angústia. (FREUD, 1895b, p.231)
3
Região determinada inconscientemente como foco de localização e irradiação de dores. (FREUD, 1893,
197).
4
A primeira vez que surge o termo “recalcado”, que vem do alemão “verdrängt”, é na segunda seção do
texto o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: Comunicação Preliminar (1893). Neste período,
o “recalque” é utilizado como equivalente a “defesa”.
5
Em A Psicoterapia da Histeria publicado em 1893 (FREUD).
6
Em 1908 (FREUD) sob o título Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade. p. 164.
7
Dinâmica que ocorre a partir do conflito entre o círculo de representações de natureza sexual e as
representações morais que compõem os pensamentos de Elizabeth.
8
Denominação feita por Peter Gay ao comentar sobre o caso de Elizabeth no texto Histéricos, Projetos e
Dificuldades (1989). P. 81)
9
Artigos sobre Metapsicologia (FREUD, 1915, p. 171).
10
Todas as experiências e excitações que, no período posterior a puberdade, prepara o caminho a eclosão
da histeria, só sentem esses efeitos, como se pode demonstrar, por despertarem o traço mnêmico desses
traumas de infância, que se tornam conscientes de imediato, mas levam a uma descarga de afeto e ao
recalcamento (FREUD, 1896).
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