I
MARLI BARBOZA DA SILVA
A MULHER E SUA INTERLOCUÇÃO COM A MÍDIA
TELEVISIVA: IMAGEM E SUBJETIVAÇÃO
Dissertação apresentada ao programa de Mestrado em
Estudos de Linguagens da Universidade Federal de
Mato Grosso, como requisito parcial para obtenção do
título de Mestre em Estudos de Linguagens.
Área de Concentração: Estudos Literários e Culturais
Orientador: Prof. Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos
Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT
Instituto de Linguagens – IL
Cuiabá
2009
II
MARLI BARBOZA DA SILVA
A MULHER E SUA INTERLOCUÇÃO COM A MÍDIA
TELEVISIVA: IMAGEM E SUBJETIVAÇÃO
Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT
Instituto de Linguagens – IL
Cuiabá
2009
III
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
INSTITUTO DE LINGUAGENS
COORDENAÇÃO DE PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE
LINGUAGEM – MESTRADO
___________________________________________
Professora Drª Gisela Grangeiro da Silva Castro
Examinadora Externa (ESPM/SP)
___________________________________________
Professor Dr. Yuji Gushiken
Examinador Interno (ECCO/UFMT)
____________________________________________
Professor Dr. Mario Cezar Silva Leite
Suplente (MeEL/UFMT)
____________________________________________
Professor Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos
Orientador (MeEL/UFMT)
Cuiabá, ___/___/______
IV
AGRADECIMENTOS
A Edson Santanna da Silva, meu pai, pelo exemplo de que o importante na
vida é amar e deixar que cada um cometa os próprios erros, mas que encare a vida
com honestidade.
A minha mãe, irmãos e familiares que me acompanharam e apoiaram,
mesmo, às vezes, sem entender o porquê da minha paixão pela academia.
As amigas Ana Paula, pelo retorno e pela convivência e Ângela por iluminar
nossos caminhos com sua doçura e lealdade. Irmãs de alma.
Ao Professor Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos, amigo e orientador, que me
permitiu errar quantas vezes fosse necessário para que encontrasse o meu
caminho.
Ao nosso Programa de Mestrado MeEl, na pessoa das professoras Doutoras
Claudia Graziano e Maria Rosa Petroni, que sempre nos ouviram e tentaram
acalmar nos momentos de ansiedade e a todos os secretários que por lá passaram.
E a FAPEMAT, pelo apoio que me permitiu realizar esta etapa de minha carreira.
Aos professores Doutores do nosso curso, Mario Cezar, Sirlei Silveira, Yuji
Gushiken, Ludmila Brandão que me iniciaram na busca pelo conhecimento durante
esses dois anos.
Um agradecimento especial a Deus, por meus filhos e sua compreensão.
Um dia eles vão entender as ausências da mamãe.
Fica minha dívida para com as amigas Delma Rosa e Maria de Fátima. Um
dia vou poder retribuir o carinho, a atenção e todo o trabalho que dei a vocês.
Às maravilhosas mulheres que se tornaram amigas durante o processo do
fazer. Aqui está meu retorno a vocês.
V
DEDICATÓRIA
Ao meu pai e aos meus filhos, lados de uma mesma história.
VI
RESUMO
SILVA, Marli Barboza. Mulher e sua interlocução com a Mídia Televisiva: imagem e
subjetivação. Dissertação de Mestrado. Cuiabá, 2009.
A presente dissertação tem como objetivo refletir sobre a representação feminina
transmitida pela mídia televisiva, capaz de ditar as normas de comportamento a
serem incorporadas no cotidiano da mulher brasileira. Tomando por base a mídia
audiovisual como espaço de ressignificação do feminino na busca pelo processo de
incorporação e subjetivação dos bens simbólicos pelas mulheres telespectadoras e
da imagem feminina como produto e veículo de consumo. O trabalho fundamenta-se
em pesquisa documental e bibliográfica, em publicações de diversos focos
científicos na perspectiva de gênero e mídia televisiva brasileira, cujas categorias de
análise possibilitaram atingir os objetivos da investigação e os resultados da
presente dissertação. Como método se utiliza a perspectiva empírica, e como
método de procedimento a descritiva. A observação de comportamentos por grupos
focais permite um levantamento de dados com os elementos que visam à
interlocução mulher e mídia, subjetividades coletivas sem enfatizar perfis femininos.
Em síntese, a compreensão da representação se dá numa interlocução dialética
entre categorias e instrumentos da pesquisa, a partir dos eixos temáticos definidos.
Palavras-chaves: mídia. gênero. consumo. espaço público. identidade.
VII
ABSTRACT
SILVA, Marli Barboza. Women and their communication with the television media:
image and subjectivity. The Master's Thesis. Cuiabá, 2009.
This thesis aims to reflect on the representation of women transmitted by the
television media, able to dictate standards of behaviour to be incorporated into the
daily life of the Brazilian woman. Based on audio visual media like area for remeaning females images in search of the subjectivity’s incorporation process trough
symbolic goods consumers in mass media using women as vehicle for consumption
of products. This analyses is based on documentary research, literature and
publications from various scientific outbreaks in the perspective of gender, even
considers Brazilian television, whose questioning categories make possible the
achievement of research, resulting in this dissertation. The approach method focuses
the comprehensive perspective, and permits some procedures to be descriptive,
when considering focus group by technical for data collection. The understanding of
the representation gets sense in a dialogue and dialectic between searching tools
categories extracted and applied in defined thematic axes.
Key words: media. gender. consumption. public space. identity.
VIII
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 9
OBJETIVOS ....................................................................................................................... 12
PROBLEMA ....................................................................................................................... 13
METODOLOGIA ................................................................................................................ 13
CAPÍTULO I – A FAMÍLIA E SUA INTERLOCUÇÃO COM O LÓCUS MIDIÁTICO:
RELAÇÕES EMBLEMÁTICAS ........................................................................................ 17
1.1 HISTÓRIA DA FAMÍLIA ............................................................................................. 17
1.2 FAMÍLIA E RELAÇÕES SOCIAIS: IDENTIDADE E COMPORTAMENTO .......... 24
1.3 FAMÍLIA, ESPAÇOS SOCIAIS E REPRESENTAÇÃO DO COTIDIANO. ............ 31
CAPÍTULO II – AS IDENTIDADES DE GÊNERO: O LUGAR DA MULHER SOCIAL
CULTURALMENTE CONSTRUÍDO ................................................................................ 41
2.1 RESSIGNIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO E O EMERGIR DE UMA NOVA
CONDIÇÃO DA MULHER ................................................................................................ 41
2.2 AS TRANSFORMAÇÕES NA COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA E O EMERGIR DE
UMA NOVA IDENTIDADE DA MULHER BRASILEIRA ................................................ 48
2.3 AS CATEGORIAS REPRESENTAÇÃO SOCIAL E GÊNERO EM ANÁLISE ...... 57
2.4 A MÍDIA E REPRODUÇÃO DA IMAGEM SOCIALMENTE CONSTRUÍDA DA E
PELA MULHER ................................................................................................................. 64
CAPÍTULO III – A MÍDIA TELEVISIVA, GLOBALIZAÇÃO E CULTURA NA
CONTEMPORANEIDADE. ............................................................................................... 74
3.1 COMUNICAÇÃO E MÍDIA TELEVISIVA NO CENÁRIO ATUAL ........................... 74
3.2 TELEVISÃO COMO ESPAÇO DE RESSIGNIFICAÇÃO: O DISCURSO
FEMININO.......................................................................................................................... 83
3.3 A MÍDIA E O LUGAR DA CULTURA E DO CONSUMO, A PARTIR DA
REPRESENTAÇÃO FEMININA ...................................................................................... 94
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 102
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 107
9
INTRODUÇÃO
Como parte constitutiva do processo de busca de uma identidade coletiva e
de igualdade de gênero, desde o século XIX inicia-se o movimento pela igualdade
de direitos políticos, quando a mulher procura ampliar seus espaços para além do
privado, processando sua inserção nos espaços políticos e de produção na busca
pela superação das desigualdades de gênero historicamente e culturalmente
construídas.
Durante séculos, o espaço da mulher fora circunscrito à esfera doméstica,
devido à cultura de dominação e submissão imposta pelo homem, que estabelecera
papéis sociais a partir da divisão sexual do trabalho.
Nesse sentido, a definição de papéis, inicialmente fruto da distinção da
biologia, foi sendo construída e desconstruída, tendo como parâmetro a cultura e
modificada de acordo com cada contexto social. Portanto, a cultura de gênero
imbricada por um conjunto de representações teve rebatimento no cotidiano da
sociedade a partir dos paradigmas que antes pressupunham a construção de ser
mulher em oposição a ser homem.
Em se tratando da relação homem-mulher, historicamente alicerçada por
relações desiguais que perpassam pela diferença sexual, a construção do modelo
igualitário moderno foi sendo concebida a partir da transgressão e ultrapassagem da
ordem antiga e do imaginário masculino, fundamentado na recusa de uma vida
conjugal subalterna, vindo a mulher a assumir seu lugar como ator social,
colocando-se como sujeito humano e específico.
Por sua vez, a história de mudanças e lutas da mulher na sociedade não
pode ser pensada desvinculada da realidade ou em etapas rígidas de
desenvolvimento, mas, sim, a partir de processos relacionais e dialéticos
decorrentes
das
transformações
econômicas,
políticas,
sociais e
culturais
impulsionadas pela ciência e tecnologia da informação.
Assim, o processo de desconstrução da cultura hegemônica criado pela
sociedade masculina com a divisão dos papéis e deslocamento das relações de
10
gênero para o campo das relações entre sexo, com a dualidade entre superioridade
e inferioridade ocorrera de forma mais expressiva a partir do século XX, com a
industrialização/urbanização as quais contribuíram para que a contradição existente
nas relações de poder do masculino sobre o feminino fosse questionado.
Por conseguinte, corroboraram as alterações da condição social e política da
mulher, o desenvolvimento e consolidação do capitalismo, a revolução das técnicas
dos meios de produção, de transportes e comunicação, bem como o crescimento
acelerado das cidades, conjunto de determinantes que imprimiram novas
conformatações nas relações na e da sociedade, quando a família começa a ser
remodelada.
Ao mesmo tempo em que desenvolvem e reorganizam a produção, as
relações de trabalho, desenvolvimento científico e tecnológico, ampliam-se os meios
informacional e de comunicação, constituindo um sistema que ultrapassa as
relações sociais, antes pautadas simplesmente nos espaços físicos sociais,
denominado terceira onda.
Como parte constitutiva desse processo, a mulher, na busca incessante pela
sua inserção no espaço público, seja por necessidade material ou imaterial, vê na
televisão um local de projeção de seus desejos e necessidades. Esse novo espaço
de visibilidade da imagem feminina pode ser utilizado na luta pela igualdade de
gênero, ainda que se constituem instrumento que incorpora com maior ênfase o
imaginário coletivo calcado em preconceitos e no valor de uso incorporado pelo
capital, atribuindo à imagem da mulher uma nova representação fundada no
mercado e no consumo.
A partir dessa assertiva pode-se inferir que entre os anos de 1950 e 1970 a
mulher amplia sua relação para além do mercado, se projetando nos demais
campos da vida social, a exemplo da política, educação, cultura, artes, sem,
contudo, superar as práticas tradicionais atribuídas pela sua condição de gênero.
Por sua vez, o divisor de águas concernente a mudanças significativas por
parte da mulher em termos de comportamento, atitudes, valores ocorre nos anos 80
e 90 quando, coincidentemente, acontece o deslocamento do capital monopolista
11
para a financeirização da economia, a reconfiguração dos mercados globais e
expansão da mídia como mediadora das relações do mercado e do consumo,
capturando-a, ao mesmo tempo, nas malhas dessa nova cultura, no jogo binário
entre espetáculo e realidade.
Assim, o mundo interior humano e a realidade objetiva são dominados pela
imagem e suas linguagens na era da comunicação, sendo por meio destas que se
constrói o pensar e se organizam os produtos de interesse do capital que,
articulados aos interesses introjetados no segmento feminino
reconstroem
significados e interpretações, originando novas representações femininas.
Desta forma, entre os meios de comunicação a televisão aberta constitui-se
num instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação cultural,
em que o consumo ideologicamente difundido na sociedade de forma subjetiva,
torna-se imprescindível à sobrevivência dos estilos de vida da sociedade, a medida
que o consumo passa a constituir valores intrínsecos aos modos de viver de parte
significativa das mulheres.
Nesse sentido, a mídia tem assumido fundamental importância na
representação do cotidiano das mulheres, a partir do visual, gestual, sonoro
induzindo à construção de identidades plurais em diferentes espaços sociais.
Portanto, a mulher no deslocamento e redimensionamento do espaço
privado, ao mesmo tempo que conquista projeção social, civil, jurídica, sexual,
erótica, estética, também rompe fronteiras que ultrapassam territórios, contexto em
que a televisão é grande colaboradora na construção de uma identidade feminina
porque possui mecanismos que levam a mulher a ressignifica-se material, espiritual,
funcional e esteticamente.
Assim, a utilização de imagens femininas por esta mídia traz imbricada a
construção de novos comportamentos e atitudes que formatam estilos de vida,
criando uma hiper-realidade que reflete no espaço subjetivo da família a partir da
naturalização de estereótipos e mitos, ao mesmo tempo que imprime na mulher o
estabelecimento de novos padrões de conduta, impelida pelo excessivo consumo,
reivindicações sociais e valores estéticos estereotipados.
12
Nesta perspectiva, a categoria gênero1 ainda continua concebida como
construção social do masculino, especificamente tratada como símbolo cultural
evocadora de representação, conceitos normativos numa teia de interpretações,
significados, organizações e instituições sociais, em identidades subjetivas
concomitantes. (SCOTT, 1988)
Assim, a partir da recriação que a mídia faz da mulher como instrumento de
branding, consegue inclusive reinterpretá-la como artefato de memória coletiva
disfarçada em símbolo de uma cultura. Papel primordial para tal iconografia
acontece via mídia televisiva, onde para além de uma remodelação cultural, ou um
espetáculo a ser consumido, constitui-se em instrumento e meio disseminador que
extrapolam fronteiras regionais e culturais.
Em síntese, todo o processo que produz o entrecruzamento de culturas com
a mídia nos diferentes espaços geográficos, no processo de globalização e avanço
tecnológico, assume uma compreensão cultural impelindo-a a constituir-se em
produto de consumo pelo seu imaginário materializado. Os meios de comunicação
criam e recriam diversos espaços a partir da apropriação de elementos do cotidiano,
submetendo-os a uma disseminação de culturas.
Nesse desvelamento desaparecem fronteiras, e a mulher, dentro desse
processo, adquire destaque, seja como produto, ou como sujeito de consumo.
OBJETIVOS
Objetivo Geral
A escolha da temática procura compreender a representação feminina
mediada pela televisão, focalizando o papel desta e os objetivos que esclarecem a
questão de gênero, as desigualdades construídas socialmente entre homens e
mulheres, juntamente com um possível vínculo da interlocução mediada na
construção de novas identidades orientadas para o consumo.
1
Constitui uma ferramenta para desconstruir a ligação entre mulher e natureza, e, assim, possibilitar
o entendimento de igualdade entre homens e mulheres, servindo também para produzir efeitos
práticos.
13
Objetivos Específicos:
- Compreender as mudanças nas relações familiares nos diferentes
contextos e sua emblemática interlocução com o lócus midiático;
- Analisar as mudanças intrínsecas ao processo histórico-social da mulher
nas relações gênero, produção e vida em sociedade, e de ressignificação identitária;
- (Re)construir o cenário da televisão enquanto espaço de ressignificação do
feminino, a partir das imagens como artefatos interculturais e das relações de
mercado;
- Compreender a representação da mulher telespectadora e sua interlocução
com a televisão, por meio das categorias gênero, identidade, família, globalização e
cultura, sob a ótica do consumo.
PROBLEMA
Como se representa e se vê representada a mulher do município de CuiabáMT, na mídia televisiva brasileira.
METODOLOGIA
A presente dissertação está organizada em três capítulos que incluem
interseções temporais e encaminhamentos concomitantes que se correspondem
com um diálogo dialético entre o resultado das entrevistas no trabalho de campo. A
pesquisa teórica admite um estudo de caráter exploratório, estabelecido para
responder aos objetivos específicos da linha de estudos selecionada que aborda os
grupos focais, nela descritos.
As categorias de análise nos permitiram a interlocução das referências
teóricas com os resultados da pesquisa a partir dos sujeitos, como opção didáticometodológica de organização da presente dissertação.
14
Assim, a partir das categorias trabalhadas, criam-se os eixos temáticos de
identidade, espaço público e gênero, os quais formatam a instrumentalidade
necessária aos procedimentos teórico-metodológicos adotados.
Para tanto, constitui-se de revisão do marco teórico de referência norteadora
do objeto de pesquisa “mulher e sua interlocução com a mídia televisiva: imagem e
subjetivação” para análise da família, consumo e representação social que, num
movimento
de
articulação
com
as
categorias
posteriores,
possibilitaram
compreender as imbricações decorrentes das novas tecnologias acessadas pelos
atores sociais partícipes do processo de validação de realidades e subjetividades
questionadas neste trabalho.
Para tanto, respalda-se nos autores Ariès (1978, 1981, 1986); Engels (2000);
Gueiros (2002); Canclini (2006); Levi-Strauss (1995); Therborn (2006); Sodré (1999,
2002); Calderón (1994); Bilac (2003), Spink (1993); Jodelet (2001); Jovchelovitch
(2000); Lacroix (2002); Bourdieu (2002) entre outros, enquanto principais
representantes das discussões acerca daquelas categorias.
A segunda fase se respalda no enfoque dos estudos culturais latinoamericanos buscando os novos olhares da mídia, sobre a temática da mulher nos
estudos culturais.
Para tal articulação, as categorias de referência foram espaço público,
privado, gênero; comunicação e identidade; imagem e mídia. Respaldam-se em
autores como Fischer (2001); Vieira (2001); Rial (1995); Augé (1994); Sarlo (2004);
Lauretis (1994); Lacroix (2002); Beauvoir (1949); Saffiotti (1987); Foucault (1998).
Na realização da terceira fase abordam-se as produções dos autores
Thompson (2002); Eco (1997); Hall (1997); Featherstone (1995); Pierre Levy (2002);
Baudrillard (1986); Foucault (1979); Willians (2000) nas quais se visualizam estudos
categoriais sendo estes: globalização, cultura e contemporaneidade, sendo as duas
primeiras partes constitutiva do instrumental de pesquisa.
Faz-se necessário registrar que outros autores foram referenciados na
medida em que complementam reflexões e interlocuções das categorias, tendo a
pesquisadora tido o cuidado de fundamentar naqueles que apresentam conexões
15
entre si complementando-se, partindo do pressuposto de que o objeto de estudo não
pode ser compreendido deslocado do conjunto teórico e da base real, num
movimento dialético, por conseguinte, histórico-social.
Para tanto, apoiou-se no método reflexivo referenciado nas ciências
humanas que permite compreender os aspectos intrínsecos à vida social e seus
determinantes culturais nos diferentes contextos e interpretações, ancorado nos
enfoques de gênero e nas marcações simbólicas socialmente construídas nos
múltiplos espaços sociais para além das fronteiras na contemporaneidade.
A abordagem metodológica qualitativa menos estruturada para lidar com as
informações mais subjetivas (CALDER, 1977), permitiu a maleabilidade de seu
caráter exploratório, utilizando-se para tanto a técnica de grupo focal por possibilitar
aprofundar o conhecimento sobre o objeto e mapear as perspectivas de
entendimento dos temas (GONDIM, 2002) constitutivos dos eixos temáticos que
conformatam o instrumental da investigação.
A relevância da utilização desta técnica está na possibilidade de se permitir
identificar percepções, sentimentos, atitudes e ideias dos participantes a respeito
dos eixos de análise.
Do ponto de vista do universo da pesquisa, escolheram-se mulheres de
diferentes espaços e esferas sociais para participar do grupo focal, tendo como
critério: professoras universitárias, estudantes universitárias, donas de casa que não
atuam no mercado formal de trabalho com diversos níveis de escolaridade. Com os
três grupos que totalizaram 18 mulheres procurou-se contemplar as diferenças de
faixas etárias, conhecimento, formação acadêmica e poder aquisitivo.
As partícipes dos grupos focais se encontram na faixa etária entre 19 e 60
anos. Possuem renda entre um e três salários mínimos e escolaridade que vai do
Ensino Fundamental Incompleto ao Superior completo, sendo que a maioria (65%)
possui apenas o Ensino Médio incompleto. As demais (23%) recebem em média, de
6 a 7 salários mínimos, possuem Ensino Superior completo e/ou Mestrado, em sua
maioria. São moradoras de bairros das regiões do Moinho, Parque Cuiabá, Tijucal,
CPA, Centro, Jardim Vitória, Jardim Guanabara, Pedregal e área rural pertencente
16
ao município de Cuiabá. Os grupos são compostos de mulheres casadas, viúvas,
solteiras que, na maior parte, tem dois filhos.
Como estratégia, agrupamos os eixos temáticos para discussão junto a cada
grupo focal, elencando questões que se encontram diretamente vinculadas aos
indicadores, sendo eles o arcabouço que direciona o alcance dos objetivos e a
consequente organização e sistematização da presente dissertação.
O método descritivo procede visto que se propôs compreender os discursos
processados pelas mulheres partícipes da pesquisa, conjugando o marco teórico
com os resultados do grupo focal com base na reflexão do coletivo das mulheres, no
sentido de repensar a imagem e a representação feminina veiculadas na e pela
televisão e sua apropriação nas práticas cotidianas. Ou seja, verificar o processo de
subjetivação nas atrizes sociais e sua compreensão da representação feminina na
contemporaneidade por meio da televisão.
Na sequência, a dissertação em tela traz as considerações finais e as
principais conclusões da pesquisa, que não ambicionam ser completas e exaustivas,
mas pretendem contribuir para o desvelamento da representação feminina mediada
pela televisão e as desigualdades socialmente construídas por homens e mulheres,
e os possíveis vínculos da interlocução na construção de identidades orientadas
para o consumo.
17
CAPÍTULO I – A FAMÍLIA E SUA INTERLOCUÇÃO COM O LÓCUS MIDIÁTICO:
RELAÇÕES EMBLEMÁTICAS
1.1 HISTÓRIA DA FAMÍLIA
Para compreender a família, de sua gênese à contemporaneidade, torna-se
necessário entender as mudanças historicamente ocorridas nesta instituição,
situando as problemáticas nos diferentes contextos socioeconômico e político.
Partindo da premissa de que é no desenvolvimento das relações sociais que
“as famílias” tomam forma e que se estruturam por meio de suas interações, sua
história encontra-se vinculada às transformações exógenas (estruturais e societais)
ocorridas a partir da produção e reprodução da existência humana, as quais
determinam as relações que homens e mulheres mantêm entre si nas diferentes
instâncias da vida.
A perspectiva histórico-social
é,
portanto,
a
mais adequada
para
apreendermos as alterações na estrutura econômica, política e social e seus
rebatimentos na organização, estrutura e comportamento da família decorrente do
movimento do processo civilizatório, engendradas de diferentes formas no tempoespaço.
Nessa direção, entre as primeiras formas de organização da sociedade temse a matriarcal constituída na era primitiva, quando as formas de produção agrícola
eram comunitárias. Caracterizava-se pelo equilíbrio entre os gêneros e pela difusão
da justiça e igualdade, onde o poder não era vitalício e nem hereditário, e que ainda
subsiste em algumas regiões do mundo. (PASSOS, 2006)
Significa que, a princípio, o monopólio dos lotes de terras era das mulheres,
enquanto os homens se dedicavam às atividades de caça, de pesca, vindo a ser
alterado, à medida que os sistemas econômicos e os modelos de produção vão
sendo desenvolvidos. Com o desenvolvimento dos modos de produção agrícola
impulsionados pelas inovações tecnológicas, segundo Engels (2000), a sociedade
18
matriarcal vai sendo substituída pelo patriarcado, ancorado no advento da
propriedade privada.
Assim, com o fortalecimento e disseminação da propriedade privada,
ocorrem a expansão do comércio e o êxodo para as cidades, a população urbana
passa a crescer mais que a rural e as cidades tornam-se o centro de comando das
atividades agrárias, quando as relações de parentesco (casamento, família) são
reformatadas e o desenvolvimento das formas produtivas reconfigurado.
Como família patriarcal, denomina-se genericamente, a família em que o
papel feminino e masculino e as fronteiras entre público e privado são rigidamente
definidos. O amor e o sexo são vividos em ordem separada, até com tolerância do
adultério por parte do homem, cabendo a este último, exclusivamente a atribuição de
chefe de família. (GUEIROS, 2002)
Autores clássicos como Freyre (2001) destacam que a família patriarcal é o
tipo de família que existiu no Brasil do século XVI ao XIX e da qual deriva toda a
formação social do país. A estrutura doméstica patriarcal caracterizava-se pela
importância central do núcleo conjugal e da autoridade masculina, retratada na
figura do patriarca, chefe ou coronel dono do poder econômico e comando político.
A predominância do modelo patriarcal brasileiro traz como característica a
família monogâmica, caracterizada pelo poder da propriedade, controle de bens,
recursos financeiros e visibilidade social, prevalecendo um padrão de autoridade do
homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos e dos mais velhos sobre os mais
novos.
Com o início do processo de industrialização, caracterizado por uma série de
inovações que revolucionaram as técnicas de produção, os meios de transportes e
de comunicação, o acelerado crescimento das cidades contribuiu para a formação
de uma nova classe social, a operária, ao mesmo tempo que com o
desenvolvimento industrial, ocorre a introdução da mulher no processo de trabalho
produtivo.
Até esse momento, as formas de inserção das mulheres nos espaços
públicos se deram com estas na condição de voluntárias em instituições
19
filantrópicas, em decorrência das primeiras formas de expressão da questão social 2,
e com o processo de industrialização e urbanização, estas paulatinamente ocupam
espaço no mercado de trabalho.
Nesse sentido, pode-se pontuar que um dos marcos importantes que deram
origem às mudanças na e da família ocorre a partir de fins do século XVIII com o
processo de industrialização, urbanização e escolarização que alterou as relações
endógenas na família. Como afirma Ariès (1986), a família começou a se manter
distante da sociedade, organizando-se cada vez mais em espaços limitados,
remodelando-se no âmbito privado. Segundo o autor, a disseminação da escola
decorre do processo de mudança de comportamento e sentimento em relação à
criança, que passa a ser vista sob duas dimensões que são compatíveis, afeição e
ambição.
Essas transformações tornaram-se mais evidentes no século XIX, quando se
instaura a burguesia, a qual ganha força com modificações na relação entre o
homem e os meios de produção, com o acúmulo de propriedade e riquezas que leva
à busca incessante pelo lucro, conformatando as duas classes fundamentais na
moderna sociedade capitalista, a burguesia que detinha as máquinas e ferramentas
e o proletariado industrial, proprietária apenas de sua força de trabalho.
Engels (2000, p. 72) afirma que
[...] a família patriarcal individual moderna promove o desenvolvimento da
propriedade privada por um lado, e por outro, faz com que se perca o
caráter público da família antiga. E a premissa para a cisão histórica, própria
da era burguesa, entre esfera pública e privada; essa última se desenvolve
simultaneamente com a propriedade e a família.
Portanto, com a Revolução Industrial e o desenvolvimento das forças
produtivas amplia-se o espaço da mulher no mercado de trabalho, embora esta
ainda permanecesse responsável pelas atribuições no espaço privado, surgindo as
profissões e a disputa sexual do trabalho, quando a atividade feminina foi
caracterizada como mão-de-obra barata e menos produtiva devido às múltiplas
ocupações a que a mulher se submetia, e à sua condição de mulher.
2
Tem sua base na produção e distribuição de riqueza, traduzida pela erosão pelos sistemas de
proteção social voltados à família, pela vulnerabilidade das relações sociais e pelo questionamento da
intervenção estatal.
20
Assim, a inserção da mulher no setor econômico, produto da Revolução
Industrial, mudou a estrutura e organização da família, imprimindo a separação
casa/trabalho, família/economia particularidades trouxeram consequências para a
vida de homens e mulheres. Como afirma Bourdieu (1997, p.135) o Estado por meio
de um longo trabalho jurídico-político, do qual a família moderna é resultado, tornou
o privado um negócio público, na medida em que este passou a se constituir
regulador das relações de produção e de trabalho.
Apesar das normas sociais e religiosas nas quais imperavam a obediência e
a sujeição ao pai ou marido, muitas mulheres ousaram contrapor-se aos usos e
costumes de sua época. Como marco desse processo tem-se a absorção da sua
força de trabalho na indústria emergente, no final do século XIX e início do século
XX, que apesar de constituir uma força de reserva, desvalorizada e explorada em
longas jornadas com baixa remuneração, ampliou o mercado durante a segunda
guerra mundial.
Em relação às mulheres brasileiras, uma das primeiras lutas empreendidas
foi pelo direito à educação e direito ao voto, e como resultado incluíram, à época, a
reivindicação de trabalho igual para salário igual, surgindo dentre a minoria das
mulheres instruídas as primeiras defensoras da emancipação feminina. O resultado
de todo esse processo foi a incorporação de uma nova consciência acerca da
discriminação e opressão da mulher na sociedade, e a busca por caminhos para sua
superação.
Embora a mulher no decorrer da história venha conquistando significativos
avanços na sua condição de cidadã, na política e no mercado de trabalho, há
discrepância de salário em relação ao gênero, com dupla jornada de trabalho frente
à ausência da equidade nos papéis sociais na vida privada, perpetuando a condição
de discriminação de gênero.
Nesse sentido, os processos de modernização e o movimento feminista
passaram a ser responsáveis por outras mudanças na família, contribuindo para a
construção de diferentes modelos na atualidade, que mesmo sendo questionados
devido às alterações de valores morais e produção de novos comportamentos,
continuam se mantendo enquanto instituição fundante na e da sociedade.
21
Desse modo, a família como modelo de instituição sofre rebatimentos da
nova ordem capitalista que afeta a dinâmica da vida societária e repercute na vida
familiar, conforme expressa Prado (1985, p. 08) “as famílias, apesar de todos os
seus momentos de crise e evolução, manifesta até hoje, uma grande capacidade de
sobrevivência e também porque ela subsiste sob múltiplas formas”.
No decorrer da história, a família, ao mesmo tempo em que se constitui mola
mestra da construção da sociedade, recebe seus rebatimentos a partir de um
conjunto de valores, normas e ideologia, que historicamente incorpora valores, de
forma a constituir-se em regras gerais, influenciando a forma de vida, o modus
vivendi destas, particularizadas dentro de um mesmo contexto.
Por sua vez, como parte da história, a dominação do homem sobre a mulher
traz intrínseca a cultura de posse por meio da qual as relações de poder se
manifestam nos diferentes contextos, visto que ao naturalizar o machismo, há
tempos presenciam-se atos de domínio masculino e submissão feminina, com a
anuência da sociedade.
Desta forma, em uma retrospectiva dos aspectos até então pontuados, Ariès
(1986) deixa evidente que as mudanças na família medieval se restringiam às
classes abastadas, enquanto que na família moderna as mudanças atingiram todas
as camadas sociais. A compreensão de família moderna, de modo geral é
subentendida com a separação entre o público e o privado, com ênfase na
intimidade familiar, privacidade individual na própria família, inclusive com a
separação de cômodos, objetivando garantir a sua privacidade. (GUEIROS, 2002)
Assim, enquanto a família patriarcal extensa traz consigo características
originárias da formação tradicional aristocrata, aquisição, acúmulo e herança de
bens, a nuclear moderna se caracteriza por sua composição familiar burguesa,
construída nos diferentes contextos, tendo a figura do pai, da mãe e dos filhos
alicerçada no casamento e educação dos filhos, a partir de valores e hábitos
predominantes no modo de viver da sociedade capitalista.
Cabe ressaltar que até o século XX perduram alguns traços da família
patriarcal na família conjugal moderna, vindo Therborn (2006, p.431) a afirmar que
22
“a mudança na família no século XX não foi nem revolucionária nem unilinear, o que
contraria a modernização e o evolucionismo proposto”. Assim, mesmo com as
mudanças na família em âmbito mundial, verifica-se que valores, normas e práticas
antigas e novas convivem, com predominância de um ou outro dependendo da
dinâmica de mudança dos contextos sociais, políticos e ideológicos, numa
demonstração do poder de resistência e da capacidade de adaptação da família
frente às mesmas.
Como nos demais países, o Brasil foi e é constituído por vários modelos de
família desde o Brasil-Colônia, mas a matriz inicial que permeou todas as esferas
sociais ancorava-se no modelo de família patriarcal (FREYRE, 2001), porém este
não era hegemônico na sociedade tradicional, mas sim um instrumento que o
Estado e a Igreja utilizaram para a perpetuação de seus interesses na sociedade
patriarcal.
Nesse sentido, Bilac (2003, p.44) afirma que a análise de Freyre concentrase nas classes dominantes e presta especial atenção aos “modelos culturais que
informariam as configurações familiares: “familismo” “patriarcalismo” a família
estudada, a partir das classes dominantes projeta-se na sociedade, seus valores e
padrões”.
Por conseguinte, a família é compreendida por diferentes autores como um
lugar de produção e reprodução das práticas sociais do habitus desde a infância,
configurando-se como um princípio importante para a construção da realidade social
(BOURDIEU, 1997). Mas esse “espírito de família”, segundo o autor, é resultado de
um trabalho simbólico e prático realizado pelas instituições com o objetivo de
construir valores e normas de comportamento estabelecido em cada tempo-espaço,
pois a família sendo um universo social é dinâmica e mutante. (SARTI, 1996).
Com as novas reconfigurações da família nas últimas décadas, o modelo e
a concepção de família são alterados na Constituição de 1988 de forma a responder
a sua nova materialidade e organização, antes baseadas no modelo nuclear, como
expresso nas Constituições anteriores.
Entre as mudanças processadas no âmbito da família, que contribuem
significativamente para o desenvolvimento da condição de igualdade entre homem e
mulher, no que diz respeito aos direitos e deveres na sociedade, além das
23
prerrogativas da Constituição de 88, tem-se os avanços no campo jurídico, entre
eles a Lei Maria da Penha e as alterações no Código Civil Brasileiro de 2002.
No entanto, apesar do reconhecimento da não-distinção entre gênero, as
diferenças evidenciam-se como fenômeno generalizado, independente da condição
étnico-racial, de classe social ou religião, muito embora as leis assegurem os direitos
e a igualdade entre homem e mulher, prevalece a reprodução de mitos e
estereótipos, imprimindo na sociedade a naturalização da dominação e a diferença
de gênero.
Retomando o fio condutor acerca dos novos re-arranjos familiares, que
alteram a organização e a estrutura familiar, para Bilac (2003), a função de provedor
não é mais monopólio do homem, à medida que cresce a inserção das mulheres no
mercado de trabalho indicando que o papel feminino tradicional vem mudando
rapidamente sem que o masculino tenha se alterado, uma vez que as mulheres já
não estão tão disponíveis para cuidar dos seus dependentes, tornando-se
necessárias
redefinições
de
responsabilidade
por
parte
da
sociedade,
particularmente com relação aos cuidados com crianças e idosos.
Apesar dos avanços no marco legal formal e da incorporação de diferentes
arranjos familiares, estes não se processam sem conflitos, preconceitos e
estereótipos, pois como informam Calderón e Guimarães (1994), há uma forte
tendência em se atribuir a um tipo ideal de família, porém devemos, a partir da
materialidade do real, apreender as novas formas de família em suas diferentes
maneiras, entre elas as recombinadas, recompostas, arranjos familiares, entre
outras.
Nesta direção, Prado (1985, p. 61) expõe que “não há transformação e uma
só direção”, ou seja, os interesses socioeconômicos de uma determinada sociedade
vão se modificando e se moldando em busca da manutenção econômica e
emocional da instituição familiar. Nesta perspectiva, a Organização das Nações
Unidas, quando do ano da família em 1994 concebeu a família como sendo duas ou
mais pessoas que partilham recursos e responsabilidades e têm um tipo de
compromisso uma com as outras, independente de laços de sangue, adoção ou
casamento.
24
Neste sentido, a construção da história da família instituída, denominada de
moderna, traz imbricada uma cultura que se altera com a capacidade dos homens e
mulheres ao fazer suas escolhas, pois ao escolher (livre arbítrio), atribuem
significado as suas escolhas, “a família não é mais vista como organizada por
normas dadas, mas fruto de contínuas negociações e acordos, entre seus membros
e nesse sentido sua duração de tempo depende da duração dos acordos”.
(GOLDANI apud BILAC, 2003, p. 91)
Levi-Strauss (1995) aponta a família como estrutura que contém em si a
esfera da cultura e a esfera da nobreza, entendendo como cultura a atividade
criadora determinada pelos homens e mulheres em seu significado antropológico,
por meio do conjunto de valores e experiências partilhadas. Em outros termos,
representa o conjunto explícito e implícito dos modos de pensar, sentir e agir da
sociedade.
Um dos pontos que ressaltamos é o de que a família também pode ser vista
como uma instituição social contraditória e conflitiva, na qual, ao mesmo tempo em
que se produzem as relações sociais, torna-se possível instituir espaço de
construção de valores e ideias que permitem a formação e constituição de uma
sociabilidade, possibilitando ao grupo familiar criar padrões de comportamento e
cultura. (MOTA, 2008)
1.2 FAMÍLIA E RELAÇÕES SOCIAIS: IDENTIDADE E COMPORTAMENTO
Antes do século X, a família ocidental viveu relações primitivas com
características nômades baseadas em normas de sobrevivência, necessidades
imediatas, sem governo sendo regida unicamente por leis naturais. A partir do
século XII, com o surgimento da concepção e consequente organização do Estado,
respaldado em Hobbes e Rousseau este vai se conformatando e, a partir do
Contrato Social, institui-se a propriedade privada cujas diferentes modalidades de
sociedade vão dando materialidade ao Estado.
[...] a propriedade começa como propriedade tribal e a sociedade tem forma
de uma comunidade baseada na família [...] essa forma de propriedade se
transforma em outra, a propriedade estatal, ou seja, a propriedade do
Estado [...] em certos casos o Estado é o proprietário único. O Estado cede
25
mediante certas regras às grandes famílias, constituindo a propriedade
privada. (CHAUÍ, 2001, p. 413)
Decorrente da organização e das relações de produção social fundadas na
família e propriedade outorga-se às mulheres grande parte das funções como
educação, criação dos filhos, alimentação, entre outras, contudo os avanços tanto
no âmbito político, social, laboral como legal-formal no percurso histórico da família
possibilitaram a construção de uma nova sociabilidade em que a identidade destas
foram sendo reconstruídas.
Em uma retrospectiva quanto à periodização e evolução da família, verificouse que do século XVI ao XVII, a identidade era insignificante, e somente na Idade
Média foi considerado necessário completar o primeiro nome com o sobrenome da
família. De acordo com Sodré (1999), somente no século XIX os párocos passaram
a manter seus registros de identidade com exatidão, sendo exigido o registro civil
com a instauração do Estado Moderno.
Portanto, no contexto das transformações compreendendo as relações como
um conjunto de vínculos recíprocos entre as pessoas, um conjunto de ligações ou
associações oficiais entre grupos ou países, no tocante à família estas distinguemse pelo modo exclusivo de viver a diferença de gênero, forma peculiar de relacionarse, da cultura e das relações geracionais.
Segundo Ariès (1981), a afetividade foi socialmente construída no decorrer
do século XVIII, quando emerge a cumplicidade das famílias que se transformaram
em espaço de carinho e afeição entre casais, entre pais e filhos, jamais vistos
anteriormente, relações que contribuíram para o surgimento da importância da
educação, transmitindo conhecimentos de uma geração à outra, quando as crianças
adquirem participação na vida dos adultos, superando, paulatinamente, o isolamento
destas e as relações baseadas na honra e perpetuação de bens materiais.
Surge então, a partir do século XVIII, um sentimento novo dos pais em
relação aos filhos, como pela vida escolar destes à medida que procuravam
acompanhá-los com solicitude habitual, que para Ariès (idem) representa o ingresso
na modernidade e, consequentemente as exigências de conhecimento na
preparação para a vida assegurada por meio da educação escolar. No entanto, a
26
escola era privilégio de poucos e posteriormente para homens, vindo a mulher a
inserir-se neste processo somente a partir do século XIX.
Assim sendo, no que se refere à família torna-se necessário compreendê-la
sob uma nova concepção, na qual as relações de afeto, respeito e responsabilidade
são referências básicas para sua configuração. A família é entendida e trabalhada
como unidade natural, que oferece proteção aos seus membros independente de
seus desenhos, recuperando o espaço protetivo e formativo da mesma, bem como o
de interlocução e convivência.
Como nas demais sociedades, a família brasileira também passou por
transformações nos diferentes contextos, com suas particularidades de país colônia,
sofrendo os rebatimentos dos acontecimentos exógenos e endógenos decorrentes
da ordem administrativa e do embricamento entre a dimensão patrimonialista e
burocrática que, dialeticamente, operava a dominação patriarcal, vindo a ser
partícipe das mudanças históricas na sua formação histórica, política e cultural.
Nesta direção, a família apresenta-se como um sistema interpessoal
constituído por pessoas que interagem com intuito diverso, como o atendimento às
necessidades afetivas e de reprodução, sofrendo interferências ambientais, de
crenças, valores e normas presentes no próprio grupo familiar e na esfera social a
que pertence, definindo assim sua forma peculiar de ser família. (GUEIROS, 2002)
Na contemporaneidade, as questões do mundo privado, da subjetividade, da
sexualidade e das linguagens corporais concernentes à mulher ganharam
visibilidade e dizibilidade, tanto no cotidiano da família, quanto nos debates
acadêmicos e nos múltiplos espaços sociais e políticos, em decorrência da
construção sócio-histórica do feminino-masculino e relações sociais de gênero
estabelecidas a partir de valores e identidades reconstruídas, as quais projetam
novas culturas.
Assim sendo, a afirmação da mulher no campo político, do trabalho e dos
direitos, amplia a área das enunciações feministas, ao mesmo tempo em que ocorre
a valorização de sua imagem, linguagem, atributos e temas concernentes ao
feminino.
27
Nesta lógica intensifica-se a dinâmica das relações da mulher nas diferentes
esferas da sociedade, a partir das transformações ocorridas ao longo da história
social da família, quando na contemporaneidade é recolocada a questão do afeto
que, associado ao princípio organizativo da intersubjetividade, cria símbolos e
representações, ao mesmo tempo em que redimensiona as experiências femininas e
reinventa novas formas de relações familiares, conforme expressa Gentilli et. al.
Marcada pela lógica do sujeito consumidor, alimentada pela
propaganda e pela publicidade, sobrepuja a identidade do sujeito cidadão
[...] a vantagem tornou-se o grande diferencial das práticas competitivas da
vida cotidiana [...] atingiu a família, as relações sociais, de amizade e
vizinhança. (2004, p. 53-54)
Significa que as novas formas de relações familiares e sociais atingiram a
produção da subjetividade feminina, fazendo emergir novos comportamentos,
atitudes e estilos de vida que serão apropriados e ressignificados pela família e pelo
mercado, alterando as identidades individuais, familiares e culturais.
Conforme significado expresso pelas mulheres, na indagação acerca da
imagem atual da família em sua opinião, quais espaços ela ocupa na sociedade, e
como ela vem sendo veiculada nos meios de comunicação, família, espaços sociais
e representação do cotidiano, foi expresso que:
[...] ter uma família desestruturada está se tornando comum. (M.
B.)
Filhos esquecem até aniversário de pai e mãe. A família tá se
perdendo. (F. M.)
Verdade. Tem preconceito, tá faltando união na família. (E. C.)
[...] famílias sem pai [...] (A. C.)
É muito difícil a família ficar unida porque filho hoje em dia tem
muita liberdade, não tem comportamento, diálogo, muita briga. Gente que
responde ao pai, hoje em dia não tem como pai chamar atenção porque tem
os direitos. (A. L.)
Ao mesmo tempo, presencia-se um período em que a fragmentação do
tempo e espaços culturais propicia a afirmação de múltiplos comportamentos
sociais, de novas visualidades e tendências de valores antes não admitidos pelo
sujeito moderno. Características como banalização, popular, emocional, passageiro,
subjetivo definem a atualidade.
28
Nesse movimento, os espaços urbanos como lugares de constituição
identitária ressignificam os sentidos provenientes da televisão em complexos
processos mediados pelas particularidades das instituições que o configuram
propondo distintos modos de subjetivação, rebatendo diretamente na família e seus
membros, contribuindo para a elaboração de uma identidade social e pessoal cujas
representações trazem engendradas atitudes e comportamentos incorporados e
reificados na cultura e no cotidiano da sociedade.
Para Martín-Barbero, “pensar os processos de comunicação neste sentido, a
partir da cultura, significa deixar de pensá-los a partir das disciplinas e dos meios.
Significa romper com a segurança proporcionada pela redução da problemática da
comunicação à das tecnologias” (2003, p.297). Nessa perspectiva, defende a
ampliação do campo da comunicação, deslocando o espaço de interesse dos meios
para o lugar onde é produzido seu sentido, na interlocução entre o telespectador e o
meio de comunicação.
No entanto, referendar a mídia televisiva como mediadora das relações
entre os membros da família, espaço de interlocução objetiva, constitui-se um
equívoco, na medida em que ao centrar-se na imagem a comunicação se faz de
mão única, não estabelecendo o diálogo, característica dos “meios frios”
(MCLUHAN, 2005) e da contemporaneidade na qual a individualidade se faz
presente, o que fragiliza cada vez mais a construção da sociabilidade e, por
conseguinte, as relações familiares.
Como resultado do processo de modernização da e na sociedade Mioto
(1997) informa que na década de 90 a família foi marcada por significativas
mudanças, apresentando como características
Número reduzido de filhos [...] Concentração da vida reprodutiva das
mulheres nas idades mais jovens (até trinta anos) [...] Aumento da
concepção em idade precoce [...] Aumento da co-habitação e da união
consensual... Predominância nas famílias nucleares[...] Aumento
significativo das famílias monoparentais[...] Aumento das famílias
recompostas[...] População proporcionalmente mais velha[...] Aumento de
pessoa que vive só. (p.118-119)
Dentre as mudanças citadas está também o empobrecimento acelerado das
famílias brasileiras, resultado do modelo de desenvolvimento econômico adotado
pelo Estado brasileiro, a partir da década de 80, que atinge particularmente crianças
29
e adolescentes, uma vez que estes convivem com as necessidades humanas e a
ilusão do consumo mediada pelo mercado.
Nesses moldes temos a maioria das famílias marcadas pelas desigualdades
sociais, construídas historicamente como núcleo de pessoas que convivem por
vezes de forma conflitante, possuindo laços sanguíneos ou não, encontrando-se
inseridas na estrutura social à qual pertencem, cuja tarefa principal é orientar e
proteger seus membros.
Em decorrência do empobrecimento acelerado das famílias ampliam-se as
múltiplas expressões da questão social, com a deteorização das condições de vida
da maioria da população que recebe baixos salários, sem especialização, sem
perspectivas futuras e/ou na condição de desemprego estrutural, subemprego,
fatores que não as impedem de figurar entre os consumidores de bens e produtos
na busca incessante pela inserção social dentre os membros de sua comunidade.
Frente ao quadro socioeconômico e cultural das famílias que se apresentam
desprovidas de acesso a bens e serviços, em especial aquelas com baixa
escolaridade, com mínima ou nenhuma qualificação profissional, que ao buscar a
inserção na sociedade de consumo passam maior parte do tempo fora do lar, na
tentativa de responder a essas demandas, sofrendo por sua vez com sua condição
de pobreza, e, por conseguinte, contribuindo para a constituição do estranhamento
nas relações familiares.
Além
das
questões
de
consanguinidade,
semelhanças,
simpatias,
preferências e das complexas relações familiares, para o entendimento da
representação social, a percepção da trajetória de vida de cada membro desta exige
releitura contextualizada do modelo de família moderna elaborado por Ariès (1978)
que coloca na arena das discussões os conflitos entre gerações e contradições
identitárias, frente aos problemas cotidianos da vida familiar.
Dessa forma, há uma reformulação dinâmica de valores e mudanças nessas
inter-relações que não se apóiam num modelo tradicional e hierárquico, mas antes
no valor da família como referência social fundamental para a constituição da
identidade social de cada indivíduo, passando pelo nascimento, infância e
30
adolescência, pelo casamento, formal ou informal e pela coabitação de membros
solteiros, coexistindo com as intermediações dos pais e sua função socializadora e
disciplinar, mediando e fazendo parte dos conflitos intergeracionais, a partir da
conjunção e disjunção de seus membros.
Nesse sentido, diferentes modelos de família estão presentes no cotidiano,
da nuclear aos novos arranjos e novas dinâmicas familiares, tais como: pais casados
e separados construindo outras uniões para nascimento de outros filhos; filhos de
diversas uniões convivendo em uma mesma residência; mãe solteira/produção
independente, moradores de rua que se agrupam por afetividade e segurança, entre
outros, como pode se observar na fala de uma das entrevistadas.
O conceito de família, pai, mãe, filho [...] a sociedade já não é mais
assim [...] tem pai e filhos, mãe e filhos, casais homossexuais, babá e filhos
[...] a sociedade ser diferente não forma uma família. Existe família que tem
família, ela leva os filhos pra escola, conversa, existe família. Outros têm
pai, mãe e avó, mas não tem união, não forma uma família. Por mais que
tenha mudado ainda temos aquele conceito de família pai, mãe, filho. (M.
B.)
Esta percepção foi bastante recorrente entre o grupo focal como uma das
grandes problemáticas da família na atualidade, pois segundo elas, ainda hoje a
família é vista como o grande centro mantenedor das relações sociais entre os
indivíduos de um mesmo grupo.
Desta forma, os “novos arranjos” familiares, não devem ser considerados
“desvios” ou “disfunções”, ou “famílias desestruturadas”, mas, sim, outros modelos
de família que estão convivendo com a nuclear, ainda que colocando em questão a
hegemonia da mesma.
Segundo Calderón (1994, p. 33),
Qualquer projeto que realmente pretenda fortalecer a família
deverá estar imbuído de uma concepção que fuja a qualquer visão moralista
e preconceituosa. Deverá ter presente que cada família tratada possui
configuração e características próprias, constituindo-se em um caso
particular e específico. Em vez de compreender a família pela sua
composição, tomando como referência a família nuclear, deve-se procurar
compreendê-la pelos valores nela existentes, bem como pelas relações de
afeto, respeito, dependência, reciprocidade e responsabilidade que possam
existir.
31
Diante dos dilemas da família contemporânea, pertencentes às mudanças
que vem sofrendo nesta última década torna-se necessário conhecer os avanços
que a modernidade está lhe impondo para compatibilizar os investimentos teóricopráticos nesta área.
1.3 FAMÍLIA, ESPAÇOS SOCIAIS E REPRESENTAÇÃO DO COTIDIANO.
A família nas suas múltiplas dimensões e nas suas condições coletivas de
existência, sejam estas educacionais, culturais, de lazer, trabalho baseia-se na
lógica de proximidade do cotidiano em que se encontra inserida. Hoje as pessoas
pertencem mais aos bairros urbanos em que residem, pois mesmo as distâncias se
encurtando estas já não se deslocam pela cidade de ponta a ponta.
Em função dessa nova configuração urbana, reina absoluto o shopping
center, que passou a ser o novo local para compras de produtos e serviços,
entretenimento e refúgio, emblema da contemporaneidade onde "como numa nave
espacial, é possível realizar ali todas as atividades reprodutivas da vida: come-se,
bebe-se, descansa-se, consomem-se mercadorias e símbolos, segundo regras não
escritas, porém absolutamente claras, afirma Sarlo (2004).
Ninguém sabe mais sobre os shoppings do que os adolescentes que podem
praticar ali liberdade de trânsito e exibição, apoiados na desordem sem controle. As
marcas e etiquetas que constituem a paisagem do shopping coexistem com o elenco
dos velhos símbolos públicos ou religiosos, sendo a juventude um território onde
todos querem viver e usufruir da cultura juvenil, como uma cultura universal e tribal
ao mesmo tempo.
Nessa mesma lógica, a moda serve para captar as mudanças mais
insignificantes do ar dos tempos, devendo ser maleável o suficiente para permitir
jogar com seus mandamentos sempre efêmeros. A idéia do traje como diferenciação
entre as tribos culturais se desenvolve em todas as suas peripécias.
Assim, o mercado ganha relevo e corteja a juventude, depois de instituí-la
como protagonista da maioria dos seus mitos, onde a debilidade do pertencimento a
32
uma comunidade de valores e sentidos é compensada por um cenário mais abstrato,
porém igualmente forte: a insistência de um imaginário sem asperezas, brilhante,
assegurando a própria juventude como fonte dos valores com que esse imaginário
interpela os jovens.
Podemos dizer que o deslocamento, a descentralização ou a fragmentação
das identidades modernas a partir das mudanças estruturais experimentadas nas
ultimas décadas estão fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero,
sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido
sólidas localizações como indivíduos sociais.
Com Sodré (2002) entendemos que a prescrição (identitária) mediática é
difusa, sem linearidade discursiva ou regulamentação implícita, operando numa
lógica caótica e não sequencial, ao propor que o regime semiótico da mídia é o
indiciário, em que o signo não representa um significado universal ou abstrato, mas
sim uma apropriação no interior de um contexto de significação. Nessa nova
“ambiência existencial”, a postura mais adequada ao indivíduo, define o autor, é a da
“exploração interpretativa”, em vez da dedução de verdades.
Nesse sentido, os territórios socialmente construídos reconfiguram-se
alterando não somente fisicamente, mas também como novas formas de uso
conformatando novos estilos de vida, espaços múltiplos para atender as
necessidades da contemporaneidade, nos quais o jovem se identifica e se mescla.
As formas de sociabilidade e de subjetivação contemporâneas são,
consequentemente, atravessadas por vetores como a velocidade e a fluidez
resultantes desses processos, que imprimem, na experiência vivida, orientações no
sentido do efêmero e do flexível. Ao mesmo tempo, a vivência da grande cidade
juntamente com a cultura de consumo influi de maneira determinante sobre o modo
como as pessoas vivem. O particular e contraditório vínculo produtivo com a cultura
massiva e as inovações tecnológicas que os jovens estabelecem em seus processos
identitários estão nos novos modos de narrá-lo, no marco de processos sociais
complexos articulados pelo mercado, pela política e pela cultura. (MARTÍNBARBERO, 2003)
33
Nesse sentido, as sociedades modernas não apresentam qualquer núcleo
ou centro determinado que produza identidades fixas, mas uma pluralidade de
centros deslocados e sem aparente identificação, podendo-se argumentar que
nesse processo a classe social, segundo alguns autores pós-modernos não existe
mais como uma única força, determinante e totalizante, que molde todas as relações
sociais tal como no paradigma marxista, mas uma multiplicidade de centros, onde
todos se encontram inseridos na voragem do consumo e dos crediários.
Como exemplo desse deslocamento da classe social pode-se ilustrar a
relativa diminuição da importância das afiliações baseadas na classe, tais como os
sindicatos operários e o surgimento de outras arenas de conflito social, como as
baseadas no gênero, na “raça”, na etnia ou na sexualidade, presentes no cenário
contemporâneo.
Cabe esclarecer que a inferência acima não parte da compreensão de que a
luta de classes não esteja presente na sociedade, mas que não é mais possível
argumentar que a emancipação social esteja nas mãos de uma única classe,
podendo inferir que esta tenha a possibilidade de emergir de diferentes lugares, a
partir de novas identidades e sujeitos historicamente situados em determinado
contexto.
Por sua vez, as mudanças macrossocietárias nos marcos da economia, da
política e da cultura, bem como nas relações familiares, produziram uma crise da
identidade sem precedente, caracterizada pelo colapso das velhas certezas e pela
produção de novas formas de posicionamento, onde a luta e a contestação estão
concentradas na construção cultural das identidades, fenômeno que vem ocorrendo
em diferentes contextos dos quais a família, enquanto primeiro núcleo comunitário,
faz parte. Assim, enquanto nos anos 70 e 80 a luta política era descrita e teorizada
em termos de ideologias em conflito, agora ela se caracteriza pela competição e
pelo conflito entre as diferentes identidades, o que tende a reforçar o argumento de
que existe uma crise de identidade no mundo contemporâneo.
Dessa forma, característica de uma modernidade tardia, as “crises de
identidade” só tem sentido quando vistas no contexto das transformações globais
que têm sido definidas pelas particularidades da vida contemporânea, em que a
34
globalização impõe ruptura nas velhas estruturas dos estados e das comunidades
nacionais
que
entram
em
colapso,
cedendo
lugar
a
uma
crescente
“transnacionalização da vida econômica e cultural”.
Envolve assim, uma interação entre fatores econômicos (reconfiguração dos
mercados) e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as
quais produzem identidades novas e globalizadas, caricaturalmente simbolizadas,
formando grupos de “consumidores globais” que podem ser encontrados em
qualquer lugar do mundo e que mal se distinguem entre si. É a convergência de
culturas e estilos de vida - impactos aos quais estão expostas a família e seus
membros.
Consequentemente, as mudanças na economia global produzem dispersão
das demandas ao redor do mundo, por meio de um processo caracterizado por
grandes desigualdades, em que o movimento global do capital é muito mais livre que
a mobilidade do trabalho, ou seja, a expulsão de migrantes pelos países pobres
torna-se mais forte que a atração das sociedades pós-industriais e tecnologicamente
avançadas, surgindo identidades plurais que são ao mesmo tempo contestadas,
frente às barreiras culturais que obstacularizam as relações sociais.
Como parte desse processo macrossocial tem-se o colapso da ex-União
Soviética, onde o comunismo simplesmente deixa de existir como ponto de
referência na definição de posições políticas, enquanto que nos Estados Unidos
ocorre a busca de antigos valores (retorno aos velhos bons valores da família
americana). Concomitantemente, no Reino Unido surge uma retomada por uma
inglesidade
culturalmente
mais
homogênea,
movimento
nacionalista
e
de
reafirmação de uma nova identidade européia.
Assim, processam-se as lutas por reconhecimento de identidades étnicas no
interior dos antigos estados-nações, enfim, em todo o globo há busca por um local
percebido como território e terra natal, ao mesmo tempo em que ampliam as fissuras
e o espectro dessas lutas frente às disparidades de gênero, gerações, regiões e
meio ambiente, que enraizadas nas particularidades nacionais impõem novas
determinações históricas à
particularmente às famílias.
produção
e reprodução das relações sociais,
35
Nesse movimento está implícita a busca pela reconstrução de identidades a
partir da nova configuração da formação da sociedade em grupos sociais, sendo
cada grupo social formado em oposição a outro grupo, marcando a identidade pela
diferença, tanto simbólica quanto social. Assim, pode-se dizer que é por meio da
organização e ordenação das coisas que o significado é produzido dando ordem à
vida social, sendo afirmadas nas falas e rituais, ou seja, as identidades são
construídas através da oposição binária, oposições cristalinas – natureza/cultura,
corpo/mente, paixão/razão. (DURKHEIM, 1995)
Dessa forma, esses sistemas partilhados de significação são o que se
entende por cultura enquanto construção social, móvel, de fluxo contínuo, que se dá
a partir do que está além da língua. Em outros termos, tudo deve ser pensado dentro
do seu contexto sociohistórico possibilitando a existência de consenso entre os
membros de uma sociedade sobre como classificar as coisas a fim de manter
alguma ordem social na vida cotidiana.
Há assim a elaboração quase manipulada no sentido do que devemos fazer
ou ser, vez que a produção de sentido a partir da compreensão ativa dos bens
simbólicos é decisiva na construção de uma identidade coletiva que sobrevive na
contemporaneidade, ajustando-se aos mecanismos da sociedade, adquirindo
relevância no processo que a legitima por meio de seus dispositivos produtores de
subjetividade.
Por conseguinte, essa produção de subjetividades é resultado da dimensão
simbólica de um representante cultural, onde o simbolismo projeta imagens, gerando
uma prática social ajustada aos interesses de uma comunidade, onde representa
poder constitutivo de identidades.
Nas sociedades contemporâneas, os meios de comunicação e de
informação corporificam muitos elementos verificados na cena cultural e social, tais
como a fragmentação, o hibridismo, o pastiche, a colagem e a ironia. O que nos
interessa nesse contexto é perceber a cultura como um campo de luta, em que está
em jogo a definição da identidade cultural e social dos diferentes grupos. Para Sodré
(2002), o processamento dos conteúdos sócio-culturais da mídia pode ser
36
combinado com um trabalho contínuo dos materiais discursivos, o que aumenta a
indecibilidade quanto às relações de causa e efeito entre mídia e sociedade.
A partir dessa constatação, podemos pensar em apropriações e usos
diferenciados dos conteúdos midiáticos pelos indivíduos e grupos sociais,
principalmente em relação ao que nos interessa particularmente neste trabalho, ou
seja, a produção da identidade e da diferença. Esse processo, contudo, só pode ser
atualizado e verificado na experiência vivida cotidianamente pelos sujeitos
(CERTEAU, 1994).
Considerando
que
a
manifestação
cultural
contextualizada
na
contemporaneidade é atravessada, desconstruída e reconstruída dentro das novas
relações sociais e familiares com interferência da televisão, da modernização e da
urbanização, não se pode deixar de considerar os processos de individualização
capazes de reordenar definitivamente o posicionamento que a televisão tomará na
fragmentação da identidade do sujeito, na sua busca por antigos valores culturais e
tentativa de afirmação social, mesmo que a globalização o influencie diretamente.
Como os códigos de comportamentos sociais surgem pela cultura, são
institucionalizados pelo poder político e propagados/difundidos pelo poder simbólico
que os media representam, as implicações dessa relação na comunicação
contemporânea parece responsável por assinalar novas percepções do conflito
social e formação de novos sujeitos. Assim, com a consolidação do sistema
capitalista e as mudanças no mundo do trabalho houve alterações no plano
econômico, nas esferas social e cultural, inferindo diretamente na família e sua
condição objetiva e subjetiva de vida.
A partir dessa constatação, tem-se dois processos diferentes, o social e o
simbólico, sendo cada um deles necessário para a construção e a manutenção das
identidades. A mídia, explica Woodward (2000), é uma das instituições que podem
construir novas identidades, identidades das quais os sujeitos podem se apropriar e
reconstruir para seu uso. Dessa forma, os sujeitos são constrangidos não apenas
pelas identidades que a cultura oferece, mas também pelas relações sociais que se
estabelecem.
37
Nesse sentido, as mulheres se inserem nas diversas atividades das cidades
globais do mundo, independente do espaço público ou privado, e desenvolvem a
capacidade de gerar significados e imagens internas seja na fantasia ou no sonho,
seja no profissional ou no lazer, na ciência ou arte, na religião ou no entretenimento,
nos permitindo dizer que tudo ao seu redor é composto de imagens, formas, luzes e
cores, constituindo um universo, onde infinitas possibilidades apresentam-se em
nossa frente em desdobramentos e sequências inimagináveis.
Esses espaços configuram-se por contradição e conflito, numa perspectiva
de indagação das condições reais do consumo, entendido como conjunto de
processo sociocultural em que se realizam a apropriação (bens) e os usos dos
produtos, que vão além da racionalidade econômica. Há nesse espaço uma
racionalidade sociopolítica interativa, onde consumir significa participar de um
cenário de disputa por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo.
As mulheres constituem personagens-chave das transformações em um
cenário onde grande parte destas representam diferentes etnias, culturas e
personagens em múltiplos espaços sociais nas cidades globais, por meio de lugares
na produção estratégica dos setores econômicos dominantes e administração dos
processos políticos e identitários.
Nesta direção, a desterritorialização das culturas em tempo de globalização
imprime relações que abarcam o cotidiano das famílias onde as distâncias são
abolidas e as diferenças vão sendo amenizadas, havendo necessidade crescente de
distinção simbólica, de identificação representativa da particularidade diante do
outro, diante da massa, diante do todo. Nesta direção, reproduz um slogan de
progresso tecnológico em que as técnicas de comunicação e persuasão (CANCLINI,
2006) reforçam a atomização das pessoas, transformando a família em consumidora
e não cidadã, o que tem produzido consequências sobre os hábitos de consumo e
valores nos espaços privados.
Nesse sentido, a centralidade na representação feminina veiculada pela
mídia televisiva pode ser verificada em nível econômico, psicológico, cultural e
simbólico quando das discussões acerca do indicador família na contemporaneidade
junto aos grupos focais foi ressaltada pelas mulheres a importância da família na
38
transmissão de regras e valores culturalmente produzidos e determinados
historicamente, enquanto que a televisão pode agir como meio de divulgação dos
paradigmas científicos produzidos, da ideologia e da cultura em que a mulher está
inserida, sendo a televisão percebida como mediadora na relação família, vez que
instrumentaliza o espectador.
Em relação à representação da família nos meios de comunicação foi
expresso que:
A televisão influencia e naturaliza a violência nas famílias [...] (F.
M.)
Ela veicula brigas, mostra família desestruturada, dilacerada [...]
isso de certa forma está influenciando que as famílias continuem assim [...]
(M. B.)
Mostra geral, casamento, briga. Eu não acho certo. Já que vai
mudar, ter direitos iguais porque não fazer certo [...] é mais respeitado. (L.
L.)
A família mãe, pai que se matam não é família [...] família é união.
O que estão passando na TV é errado. (C. B.)
Mãe espancando filho e filho espancando mãe. Muita desunião. E
tudo tá na TV. (A. L.)
Família é união e não o que a gente vê na TV. (M. J.)
As falas acima que trazem à tona o conceito de família moderna histórica e
culturalmente construída, referendada nas características burguesas não partem do
princípio de que a mídia (re)apresenta o cotidiano, a realidade das famílias
brasileiras com suas novas reconfigurações, mas demonstram uma concepção de
que a família está sofrendo alterações a partir da influência direta da mídia.
É frequente na fala destas a necessidade de mudança na programação, bem
como o entendimento do motivo pelo qual a televisão insiste na abordagem de
naturalização da violência quase sempre voltada a membros menores da família,
mulheres e idosos, num eterno ciclo de retorno e reforço da imagem da família,
principalmente de baixa renda.
Em síntese sugerem que o imagético está influenciando o real, ou seja,
corroborando para a “desestruturação” da família. Notamos ainda nas falas a
importância do significado expresso pela igreja como sendo a célula básica da
39
família, quando, uma das partícipes dos grupos focais expressa que “a religião ajuda
muito na manutenção da família” (E. A.)
Nesse panorama, a televisão brasileira ao representar simbolicamente o
feminino, revisita narrativas predecessoras onde o elemento feminino encontra-se
caracterizado, não raras vezes, por atributos androcentricamente impostos às
mulheres, tais como a beleza, a fragilidade, a obediência ao pai e posteriormente ao
marido, recriando essas narrativas primeiras, a partir da proposta de um feminino
outro, transformando, redimensionando, metamorfoseando, instaurando o corpo
feminino como território não somente desejado, mas também desejoso.
Com o progresso tecnológico e novas relações ocorre a mudança de status
da mulher na sociedade, ao mesmo tempo em que é construída uma nova
consciência, da qual emerge uma “nova mulher” que evolui e muda com o passar do
tempo e sob a influência do mesmo, embora ainda se encontre em nossos dias a
mulher “eterna feminina”, que persiste através dos tempos, intimamente ligada a
crenças, valores, opiniões e ideologias, dentre outros aspectos.
Isto posto, a forma particular de pensar a questão da condição feminina e
sua individualidade social historicamente construída implica enfocar o interior do
casamento ao lado das relações travadas entre esposa e marido e as relações
estabelecidas entre mãe e filho. Nesse sentido, há que se considerar, além das
questões de ordem natural e biológica, a construção cultural do papel de “mãe”, de
trabalhadora e de mulher que traz imbricadas duas situações de notável recorrência:
primeiramente, como elemento envolvido pelas tramas do trabalho doméstico e da
reprodução da vida, num segundo momento, na prática plena, resoluta e
desembaraçada do erotismo. (FISCHER, 2001)
Apesar das mudanças nas relações de condição de gênero, perpetua-se
ainda no século XXI a cultura de estereótipo, que Wilson Bryan Key (1996) analisa
quando fala da influência da publicidade nas relações humanas exercida por meio
de diversas ferramentas de persuasão utilizadas nas campanhas publicitárias para o
prazer e deleite masculino, e por que não feminino.
40
Finalizando o esforço de síntese acerca da família, espaços e representação
do cotidiano, pode-se pontuar que a questão de gênero e o papel da mulher,
juntamente com as mudanças no modelo de família no decorrer da história passou
por significativas transformações, tendo como grande marco o desvelar de atitudes,
comportamentos e enfrentamentos nos diferentes espaços sociais, na busca pela
emancipação e superação da opressão e dominação, que na maioria das vezes
ainda se fazem presentes no cotidiano das famílias brasileiras.
Por outro lado, com as mudanças na contemporaneidade amplia-se o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia, corroborando para expansão da
comunicação em rede que articuladas às mudanças políticas, econômicas e
culturais trazem engendrados ideologias e mecanismos que vão sendo incorporados
por cada indivíduo no âmbito da família, e, no caso específico da presente
discussão, pela mulher que por meio da televisão influencia e é influenciada,
remodelando hábitos e costumes, fazendo emergir novas identidades.
41
CAPÍTULO II – AS IDENTIDADES DE GÊNERO: O LUGAR DA MULHER SOCIAL
CULTURALMENTE CONSTRUÍDO
2.1 RESIGNIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO E O EMERGIR DE UMA NOVA
CONDIÇÃO DA MULHER
O espaço privado reservado à mulher originou-se das várias faces das
relações humanas construídas por meio de processos materiais e históricos, a partir
das relações que homens e mulheres estabeleceram na produção e reprodução da
vida material e imaterial. Portanto, as práticas sociais de gênero foram sendo
processadas de forma que representações, normas, valores sociais e símbolos ao
materializarem-se nas sociedades, imprimiram a “diferença sexual”.
Entre as práticas socialmente construídas destaca-se o rompimento da
mulher com o “patriarcado familiar”, quando de forma mais efetiva esta se insere no
mundo do trabalho, de acordo com Castell (2000, p. 56) “tornando-se um dos atores
do processo de globalização da sociedade”. Isto ocorre em vista de dois fatores que
se contradizem frente às mudanças societárias que vão dando contornos à vida em
sociedade e, consequentemente às formas de relações sociais estabelecidas com e
pelas mulheres.
As guerras e o processo de deslocamento da produção agrícola para a
industrial contribuíram com a inserção das mulheres no processo produtivo, espaço
reservado inicialmente aos homens, ao mesmo tempo em que se ampliam a
escolarização e a urbanização. Nos países em processo de industrialização as
mulheres conseguiram espaço à época da Primeira Guerra Mundial, mas no caso
brasileiro sua inserção ocorrera na década de 40, período da Segunda Guerra
Mundial, quando da emergência do capitalismo tardio.
Para Bourdieu (2002) a dominação masculina é uma construção social – o
mundo social construído por e para o homem – que implica permanência de formas
de opressão difundidas pela divisão sexual do trabalho. Essas formas tendem a ser
reproduzidas a partir dos esquemas de percepção incorporados tanto em mulheres
42
quanto em homens: construção de significados vinculados implicitamente ao
princípio de diferenciação entre os sexos – o jogo da violência simbólica – sendo
suscetíveis de reproduzir os princípios de dominação masculina inadvertida e
cotidianamente.
Significa, pois, que a condição cívica feminina decorre da complexa dialética
entre os papéis e lugares socialmente atribuídos às mulheres, que Mitchell (apud
MORAES, 2000, p.90) aponta como “a dialética entre os ditames da produção
econômica e as contingências do processo de produção-reprodução social”, ao
definir o lugar da mulher nas sociedades de produção industrial.
Nesta direção destaca-se que o movimento feminista, consubstanciado por
interesse individual e posteriores necessidades coletivas contribuíra para a
superação da ideologia de subordinação feminina, surgindo a partir do processo
gerado pelas relações sociais e do trabalho no qual o capitalismo pós-revolução
francesa reserva para a mulher o lugar no espaço público, embora esta não tenha se
desvinculado do doméstico.
Nessa transição e tomada de consciência genérica e civil para entrar no
espaço público, criam-se, culturalmente,
marcas simbólicas impostas pela
necessidade que vão se recriando com as mudanças das comunidades pósindustriais. Assim, gradualmente, vão sendo substituídas as representações e a
imagem introjetada sobre si mesmas, derivando em movimento de manifestações
das suas particularidades culturais.
Assim, a mulher vai optando por superar o modelo imposto, inserindo-se no
mundo do trabalho dando surgimento a um novo modelo que vem contrapor ao de
submissão, substituindo aos poucos as obras beneméritas definidas até então, como
suas prerrogativas, de essência maternal na qual se apresenta essencialmente
solidária, e que seria o estigma de suas projeções simbólicas.
Antigamente a mulher era mãe, dona de casa, tinha que se
sujeitar ao marido. Mas isso não quer dizer que ela não fazia o que queria.
Já tinha muita mulher forte, de opinião e que não se deixava dominar.
Muitas trabalhavam na roça pra ajudar em casa, costurava pra fora, ou
trabalhavam em casa de família. Infidelidade mesmo já tinha e muito. Só
que era mais calado, escondido. (D. L.)
43
Me lembro das mulheres que freqüentavam o antigo Clube
Feminino em Cuiabá. Lá não se admitia negros. Era lugar da fina classe
cuiabana. Elas projetavam uma imagem de cuidado e bem estar familiar
que muitas vezes a gente sabia que não existia. Desfilavam e faziam
benemerência aos pobres. Coitadas, a gente que ia lá que sabia de suas
mazelas e dos problemas que enfrentavam em casa para sustentar
casamentos que já nasciam fracassados. Violência, homossexualidade,
infidelidade conjugal. (I. G.)
Na realidade, as relações sociais entre os sexos condicionados pelas
estruturas de classe, suas lutas e pelo lugar social das mulheres terminam por
desvelar as contradições que se materializam entre classe e sexo, pois se conjugam
a determinações, como a ideologia historicamente fluída, os valores morais da
família em diferentes épocas, até chegar às atuais questões étnico-raciais.
Dito de outro modo, a condição da mulher na sociedade passa por diversas
ressignificações a partir do aprendizado da noção de liberdade, do reconhecimento
da opressão e a importância da ação coletiva feminina, elementos que vão
processar os nexos necessários à construção de novas dimensões ontológicas.
Simultaneamente concretizam-se fatos sujeitos à ação da práxis3 feminista como a
queima do sutiã, evento simbólico realizado por 400 ativistas do Women’s Liberation
Movement, em 1968, em Atlantic City, assim como as alterações no modo de vestir,
similar ao masculino, apontando indícios de que determinadas simbologias da
indumentária podem estar associadas a modos de comunicar papéis sociais e de
gênero.
Portanto, a busca da autonomia traz intrínseca a conquista da liberdade e
emancipação, ou seja, dois movimentos concomitantes, particularmente no Brasil. O
movimento feminino a partir das manifestações das mulheres por melhores
condições de vida, entre elas saúde, trabalho, creche, entre outras, e o movimento
feminista caracterizado pelas lutas pela igualdade de gênero, de direitos e
emancipação socioeconômica.
Ambos os movimentos procuram o estabelecimento de novas práticas
sociais para homens e mulheres, superando as relações assimétricas entre os sexos
caracterizados como multidimensionais em que o processo de recuperação e
permanente busca do desenvolvimento de sua condição de mulher revela um
3
Conceito que indica ação criativa e potencialidade humana num contexto determinado.
44
redimensionamento na reavaliação de valores e funções sociais e determinados pela
hierarquia entre os sexos, sempre revistos com relação aos papéis da mulher na e
da família.
De acordo com Durham (1983, p.44) “pela primeira vez na história o sexo do
trabalhador passa a ser irrelevante”, muito embora se faça presente na atualidade a
acentuada ambiguidade acerca da igualdade no mercado de trabalho e a
permanência da desigualdade enquanto relação de gênero.
Coincidentemente, o processo de deslocamento da mulher do espaço
privado para o público ocorre sem desvincular-se um do outro, após a revolução
francesa e, de forma mais acentuada a partir da industrialização, quando se verificou
uma assimetria sexual em relação à condição feminina no capitalismo.
Isto ocorre em vista de dois fatores que se contradizem frente às mudanças
que vão dando novos contornos à vida em sociedade e, consequentemente, às
formas de relações sociais estabelecidas com e pelas mulheres um destes
referenciado anteriormente, é a inserção da mulher que se faz necessária para a
utilidade pública, após a segunda grande guerra.
Em contrapartida, tem-se o fator caracterizado pelo movimento das
mulheres, consolidado na década de 60 por interesses individuais vinculados ao
divórcio, à liberação sexual, à difusão do conhecimento científico e à liberação dos
estigmas religiosos, passando a configurar-se em necessidade coletiva de inserção
nos processos de produção, na política e nas lutas pela igualdade universal,
particularmente nos direitos de cidadania, não se deixando abater pelas censuras
decorrentes de discriminação, especialmente no período ditatorial, quando se
tornam mais fortes os movimentos emancipatórios.
Nesse sentido, a relação de gênero existe em todos os lugares e em todos
os níveis do social, porém variando de uma cultura para outra. Como afirma Lauretis
(1994, p. 212) “qualquer sistema de sexo-gênero está sempre intimamente
interligado a fatores políticos e econômicos em cada sociedade”. Dessa forma, a
construção cultural do sexo e gênero, passa a ser apreendida como sendo
“sistematicamente ligadas à organização da desigualdade social” (idem).
45
Embora a maioria das mulheres tenha conquistado liberdade e autonomia no
campo social, do trabalho, da política, ainda convive com emblemáticos aspectos a
serem superados frente às multifacetadas expressões da questão social. Ainda
temos presente a falta da equidade na participação da mulher nos diferentes
espaços da vida pública e inferiores níveis salariais, em comparação aos dos
homens na ocupação de cargos e funções, corroborando a manutenção da condição
da mulher na complexa realidade social de reprodução do capital e da cultura de
dominação entre os sexos, apesar das transformações ocorridas na condição
feminina na sociedade contemporânea e das conquistas alcançadas concernentes
às diferenças das relações de gênero.
Isto posto, as condições particulares de opressão construída e reconstruída,
em uma permanente dialética de produção, entraves étnico-raciais, classe/trabalho
com a de relações de poder perpassam pela imagem e estética, ao se mesclar e
fundir na iconografia, resignificando mitos e reproduzindo estereótipos.
Se por um lado, a subordinação da mulher engendrada pelo poder, não
vinculada exclusivamente ao Estado e aos seus aparatos, parece transparecer nas
relações de mercado e nos diferentes espaços sociais, por outro lado, manifesta-se
em uma rede invisível de práticas sociais cotidianas instituídas por meio do poder
simbólico4, arraigadas nas sociedades e que se mostram presentes em
determinadas culturas de preferência ocidentais.
Assim sendo, em meados do século XX a mulher abrange o mundo dos
múltiplos espaços profissionais, transita entre o privado e o público, porém, o
acirramento das desigualdades sociais se expressa na sua participação no mercado
de trabalho, na medida em que a remuneração é desigual, mesmo quando
executadas funções correlatas às do sexo oposto.
A quase ausência da presença feminina em determinados campos do
conhecimento, ainda caracteriza dicotomia entre as áreas ocupacionais de homens
e mulheres, visto que às primeiras são reservados postos de trabalho
tradicionalmente femininos como no ramo têxtil, alimentício, entre outros, muito
4
Não era considerado por ele como um puro e simples instrumento a serviço da classe dominante,
mas como algo que se exerce também através do jogo entre os agentes sociais. (BOURDIEU, 1989)
46
embora a conquista de espaços na informática e setores da indústria e tecnologia
venha, paulatinamente, rompendo com a supremacia do masculino.
Não há dúvida de que reconhecer direitos semelhantes aos do homem, de
fato implica criação de fissuras na base da unidade familiar e negociação dos
interesses entre iguais, características da esfera pública dos cidadãos, no entanto, a
mulher assume, para além do espaço público, as funções antes outorgadas apenas
aos homens, inclusive com pesquisas acadêmicas que indicam a feminilização da
família, nas quais mães solteiras e/ou responsáveis por filhos, com um ou mais filhos
de pais diferentes coabitando no mesmo espaço, sendo parcela significativa destas
mulheres chefes de famílias, invalidando e conformatando novas formas de
matrimônio, que se afasta do tradicional historicamente instituído.
Como resultado da dialética entre o poder instituído pelo Estado e o cogitado
pelas relações estabelecidas entre homens e mulheres na sociedade ocidental, se
articulam intensas alterações socioeconômicas, muitas das quais resultantes do
processo de globalização das economias capitalistas, intensificado a partir da
década de 80, no século XX.
Essa correlação de procederes pessoais e comunitários fica capitaneada
pelo incremento no volume e ritmo dos fluxos de comércios e investimentos, por
meio da integração dos sistemas em escala mundial, para além das fronteiras
nacionais, de interpretações folclóricas, artesanais, e linguagens chegando a se
traduzir em intensas alterações nas formas de comunicação e diversificação do
processo informativo.
Para tanto, a tecnologia da informação constitui-se num dos principais
potencializadores das mudanças comportamentais por gêneros nas suas complexas
dimensões culturais, sociais, políticas, e de valores morais, que associada à
necessidade de inserção multifacetada da mulher no mercado, reivindica e promove
novos comportamentos na identidade feminina.
A inserção da mulher no mercado de trabalho não ocorre somente por
necessidade
de
projeção
pessoal,
socioeconômica
ou
decorrente
do
movimento/pressão popular, mas, sim, pela iminente influência da nova configuração
47
nos mercados globais que se apropria das práticas cotidianas recriadas pela
tecnomídia nos diferentes espaços culturais, resultando na iconografia de modelos
estéticos prontos para o consumo, independendo da classe, esfera social ou idade.
Nesse sentido, as transformações ocorridas na condição feminina na
contemporaneidade e suas conquistas concernentes às diferentes relações de
gênero conferiram à mulher mudanças intrínsecas ao processo histórico-social de
seu contexto. Veja-se que uma vez partícipe das relações sociais e de produção, ela
fica inserida numa pluralidade de condutas, decisões e papéis em que o consumo de
determinados bens e produtos passa a compor sua imagem.
A propaganda é a alma do negócio [...] às vezes você não pode
ter, mas que dá vontade. Vamos lá fazer uma chapinha. (C. S.)
Roupa [...] você copia [...] influencia na moda. A Raqueli com seus
badulaques. Muita gente comprou. Um celular, câmera fotográfica. Você
acaba consumido. (M. F.)
Desta forma, a mercadoria penetra e transforma dimensões da vida social a
ponto de a própria subjetividade se tornar mercadoria, a ser comprada e vendida no
mercado, vez que no jogo do consumo qualquer coisa mercantilizável passa a ter
poder de representação ao ser transformada em objeto de interesse, frente ao
bombardeio contínuo de anúncios, graças a uma média diária de três horas de
exposição na TV, sendo no caso específico as mulheres persuadidas a precisarem
cada vez mais de coisas, a exemplo da fala a “gente consome [...] quando pode a
gente consome". (E. C.)
Portanto, a partir do cenário criado pela televisão como mediadora da
imagem e inclusão da mulher na contemporaneidade, o mercado com suas práticas
e lógicas, gera campos intencionados de sentidos e significados, que fazem emergir
novas identidades na mulher brasileira.
48
2.2 AS TRANSFORMAÇÕES NA COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA E O EMERGIR DE
UMA NOVA IDENTIDADE DA MULHER BRASILEIRA
Com a transição da sociedade feudal para a sociedade moderna, o conjunto
de mudanças econômicas transforma gradualmente o feudalismo europeu num
sistema capitalista de produção e intercâmbio. O marco dessa transição pode ser
caracterizado pelas mudanças políticas que favoreceram o reagrupamento de
sistemas denominados Estados-nações, onde cada Estado rege seu território
claramente delimitado, estabelece um sistema centralizado de administração
econômica, política e cultural, e fortalece o monopólio do uso legítimo da força
dentro de um determinado território.
Naquele contexto, surge uma série de inovações técnicas, entre elas a
invenção da imprensa, a codificação elétrica da informação e, posteriormente, a
liberação do conhecimento das academias ilustradas, com a capacidade de produzir,
reproduzir e distribuir as formas simbólicas em escalas sem precedentes. Tal
dinâmica e interação criam o que Thompson (2002) define como “mediação da
cultura” transformando e expandindo as organizações da mídia desde a segunda
metade do século XV.
As transformações acima descritas demarcam processos civilizatórios em
vários espaços geográficos cronologicamente organizados que chegam até as
concepções de divulgação nas sociedades modernas por meio de suas atividades e
produtos veiculados, a partir de três aspectos como destaca Thompson (2002, p.73)
o
“[...] crescimento e concentração do poder econômico e simbólico
nas mãos das grandes corporações hegemônicas; a globalização da
comunicação com o desenvolvimento das agencias internacionais e
expansão das redes de comunicação ligando as mais distantes regiões
periféricas aos grandes centros; e, o desenvolvimento das formas de
comunicação eletronicamente mediadas”.
No Brasil escravocrata e repleto de analfabetos, a imprensa somente
poderia ser acessada pela burguesia da qual era defensora de seus interesses
econômicos e políticos. Porém, com a intensificação da emigração européia que
substitui o trabalho escravo, logo após o advento da República, surge um público
razoável para a imprensa nacional, sendo que até os anos de 1920 o jornalismo
49
impresso constituía-se no único meio de comunicação de massa, nos países em
processo de industrialização.
Isto significa que nos períodos anteriores, como durante a Revolução
Burguesa na França, quando vigorou a liberdade de expressão assegurada pela
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, e, posteriormente, nos
Estados Unidos da América cujo desempenho nessa área foi notável colocando o
país na dianteira de todos os demais, o jornalismo que prevaleceu no período não
chegou a dar origem a uma indústria de comunicação de massa em países
subdesenvolvidos, a exemplo do Brasil.
Os avanços das mídias entre as década de 1920 e 1950 podem ser
considerados significativos, tendo como marco a forte influência dos Estados Unidos
que em uma atitude de preocupação quanto ao interesse do empresariado para com
este veículo de comunicação para geração de retorno de capital e uso em
programas nazistas, contribuiu para a criação da Lei de Comunicações de 1934, a
qual impediu o controle multimeios de rádio, jornais, revistas, televisão e outros, por
parte de um único conglomerado no mesmo Estado da União, o que nunca ocorreu
no Brasil.
Pode-se, no entanto afirmar que no mesmo período no Brasil, no governo
Vargas o rádio como veículo de comunicação processava a mediação de sua
ideologia por meio do programa “Hora do Brasil” com grande índice de audiência,
vez que o contexto que se desenhava era de um país em transição do modelo
agrário para urbano industrial, população com fortes traços rurais e de migrantes,
caracterizado pela alta taxa de analfabetismo, baixa tecnologia e ausência de
instituições educacionais voltadas para as classes trabalhadoras, que vão se
formando no entorno das emergentes indústrias.
O grande estímulo para o investimento e ampliação deste sistema estava
ligado ao seu potencial de geração de retorno de capital, crescendo inclusive nos
meios universitários uma preocupação com o uso e domínio dos meios de
comunicação tanto pelo Estado, como pela iniciativa privada. O mercado das novas
mídias (TVs fechadas, PPV, provedores, informações on-line, sites de serviços e de
dados, entre outros), associado aos recursos amplos dos serviços da telefonia,
50
tornou-se o grande palco da expansão do capital, como foram as manufaturas no
início do capitalismo e o petróleo no século XX.
Nesse período, o Brasil configurava-se por ser um país onde negros,
brancos, mestiços e migrantes encontravam-se submersos em quadros sociais
extremamente divergentes, situação que somente após a década de 60/70 vai tomar
novos rumos, pois entre as décadas de 30 e 60 a sociedade brasileira sofre forte
influência da cultura americana, no pensar e agir, principalmente por meio do
cinema, no qual somente após a diva Carmen Miranda e com o cinema novo, os
meios de comunicação brasileiros alcançam status no país e no mundo, com a MPB
e a Bossa Nova a Rede Globo e suas afiliadas passam a impor uma série de
produtos midiáticos para o país e o mundo.
É nesse processo que ocorre a inserção da mulher na mídia brasileira em
fins da década de 40 (TEMER, 2005) com transmissão pela TV Tupi de São Paulo,
inaugurando programas voltados para a mulher dona de casa. Entre eles podemos
destacar a “Revista Feminina” com Lolita Rios, “No Mundo Feminino” apresentado
por Maria de Lourdes Lebert, e, posteriormente, por Elizabeth Dary. Na década de
50 destaca-se a apresentadora Hebe Camargo com os programas “Maiôs à Beira
Mar” e “Com a Mão na Massa”.
Nesse mesmo período vai ao ar o programa “Faça Você Mesmo”
apresentado pela chefe de culinária Ofélia Anunciato, que ensinava corte e costura,
e que passou por remodelações até mesmo no título. Espaços fortemente marcados
pela cultura predominante da função ocupacional da mulher e a preocupação de
instruí-la para os cuidados do espaço privado.
Já a partir dos anos 60 ocorrem grandes avanços na sociedade moderna
brasileira, com a ampliação do mercado de produtos de bens e serviços, gerando
crescente volume de novas informações e acesso a novos consumidores, com
intensificação a partir dos anos 80, em decorrência do processo de globalização dos
mercados e de expansão da economia mundial.
Juntamente a esses processos, as crises econômicas e políticas
desencadeadas em meados dos anos 70 favorecem a despolitização e liberação de
51
economias dependentes que se consolidam a partir da década de 80 com a extinção
da guerra fria, o alargamento das fronteiras e as transposições da economia
mundial, resultando em transformações das relações de produção, de trabalho,
abertura de mercados e competitividade empresarial.
A partir do binômio entre capital e Estado há uma projeção internacional da
economia de mercado, com a larga expansão dos bancos privados, em função dos
deslocamentos do capital mundial, dos investimentos nas bolsas de valores e
carteira em valores imobiliários, da aplicação em fundos de empresas estatais, do
aumento de investimentos em tecnologia de informação, combinando mercado e
financeirização, substituindo a então política econômica mundial por uma política
monetária e financeira.
Com
essas
transformações
processadas
na
modernidade
ocorrem
mudanças políticas, econômicas e culturais que influenciadas pelo desenvolvimento
da ciência e da tecnologia corroboram o crescimento da comunicação e sua
expansão em rede, em especial de um arsenal ideológico que sinaliza novos lugares
de mercantilização, onde as mulheres passam a ter espaços estrategicamente
situados.
Entre os meios de comunicação, a televisão aberta constitui-se um
instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação da cultura,
assim o patrocínio da informação mediada se traduz na difusão ideológica do
consumo na sociedade, resultado do progresso tecnológico analisado por Canclini
(2006) como técnicas de comunicação e persuasão que reforçam a atomização das
pessoas, transformando-as em consumidoras e não cidadãs políticas, o que produz
consequências sobre os hábitos de consumo e valores nos espaços privados.
Ocorre, portanto uma diáspora entre mídia, cultura, processos produtivos e
consumo, na medida em que a multidimensionalidade das relações possibilitada
pela expansão da comunicação de massa imprime novas valorações sociais,
denominada de multiculturalismo 5, que ao serem inseridas nos meios de
5
termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem que uma
delas predomine, porém separadas geograficamente e até convivialmente no que se convencionou
chamar de “mosaico cultural”.
52
comunicação adquirem a condição de produto, podendo ser apropriado pelos
diferentes sujeitos das mais diversas esferas sociais.
Assim, as transformações do mundo globalizado contemporâneo, ao
influenciarem e serem influenciadas pelas múltiplas interações, interpretações,
mobilidade instantânea e significados padronizados produzem mudanças nas
estruturas
sociais,
nas
concepções
de
personalidade,
rápidos
contrastes
geracionais, como também no estilo de vida dentro das comunidades.
Desta forma, os meios de comunicação também detêm o poder de atingir a
formação de identidades6, desempenhando um papel fundamental para o encontro
de culturas, sua apropriação e ressignificação, ao mesmo tempo em que contribuem
para moldar nos indivíduos as maneiras de apreender o mundo, participando da
estruturação da sociedade e sendo por ela estruturada.
No entanto, este poder tem limites, já que a lógica da identidade que serve
de suporte à individualização do ser humano é relativa e, a cada momento da
história, ela se transforma. A identidade não é um valor universal e a-histórico. Os
indivíduos, no decorrer de suas vidas, vivendo e se fazendo na história, não são os
mesmos. Cada um, de acordo com os laços afetivos, familiares, profissionais,
sociais, culturais se recria e participa da recriação do mundo em que vive.
Torna-se evidente o fato de que a mídia ao realizar a mediação da cultura
produz seu desencaixamento ao transitá-la por diferentes “campos sociais”
(BOURDIEU, 2002), nos quais estão inseridos os indivíduos, a família, grupos de
amigos, instituições educacionais, de trabalho, partidos políticos, entre outros.
Por conseguinte, na efervescência do surgimento das novas tecnologias, as
mediações que se processam produzem alterações não somente na imagem, mas
também na incorporação de novos conhecimentos em que temas como gênero,
classe, sexualidade, geração e etnia contribuem para a construção de uma nova
identidade pública feminina.
6
Baseada em Hobsbawn (1996, p. 90) “as identidades coletivas se baseiam não no que seus
membros têm em comum: pode ser que tenham muito pouco, exceto não ser os outros [...] as
identidades [...] são intercambiáveis ou se podem levar em combinação, e não são únicas [...] se
deslocam de um lado e podem mudar, se necessário, mais de uma vez”.
53
Além disso, os modelos incorporados pela mulher no passado estão sendo
deslocados e, concomitantemente, revalorizando estruturas e dinâmicas das
sociedades no século XXI, haja vista que o processo de globalização e sua interrelação com as novas tecnologias possibilitaram a identidade de gênero e sua
permanente reconstrução por meio de distintas práticas sociais.
Desta forma, a identidade cultural não se apresenta mais como autêntica,
nem ligada a um determinado território, uma vez que fica circunscrita pela ação
sócio-comunicacional, na medida em que o território perde a sua significação e o
tradicional se funde e se mescla com o moderno e pós-moderno, na construção
histórica das sociedades contemporâneas. (CANCLINI, 2006)
Assim, com o redimensionamento das sociedades e da ampliação dos
espaços sociais, a mulher passa a fazer parte do modo de ordenamento cultural
vigente como um bem público comum, ao mesmo tempo em que novas culturas, em
especial dos grandes centros, ao serem incorporadas pela sociedade, fazem romper
com o tradicional, conduzindo homens e mulheres a uma “crise de identidade”, que
figurará como marca da aceleração dessa modernidade. (MATTELART & NEVEU,
2004)
Nesta perspectiva, uma cultura somente se torna efetiva ao concretizar-se
no cotidiano, e a forma privilegiada da sua inserção na modernidade se faz presente
mediante o consumo que, para além dos serviços, se erige como ética e como
conduta nesse novo estágio civilizatório da sociedade em formação.
Neste sentido, a globalização econômica constitui a forma mais avançada e
complexa de internalização da cultura, implicando certo grau de integração funcional
entre as atividades econômicas dispersas que se aplica à produção, distribuição e
consumo de bens e de serviços organizados a partir de uma estratégia mundial,
voltada para um mercado global que produz comportamentos, costumes, hábitos
ressignificados pelo consumo.
Assim, para Halbwachs (1970, in CUCHE, 2002, p.66) “as necessidades que
orientam as práticas culturais dos indivíduos são determinadas pelas relações de
produção”, que disseminadas pela mídia vão implementar o consumo e programar
54
as incidências do mercado, movimento que no contexto globalizado reproduz
diferentes manifestações culturais e, consequentemente, a ocorrência da interface
entre diferentes modos de vida, inclusive a econômica no contexto metropolitano
que é revestida de características próprias do processo de aceleração de
urbanizações, com expansão e recriação de modos de vida.
Diante do exposto, a forma como a sociedade administra, promove ou inibe
a cultura local em seu meio, reflete parte de seus valores que, de acordo com o
interesse em dialogar com outras sociedades, trazem mudanças culturais no âmbito
local e regional, condição essencial às trocas sociais.
Esses condicionantes tanto na estrutura midiática, quanto nas relações
produzidas pela sociedade, terminam por engendrar contradições entre a identidade
de subversão e a experiência de cooptação, implicando uma diversidade de
interesses no interior do feminino que, configurando-se como totalidade, constituem
o feminismo como uma coletividade total.
Assim, ao pensar a autonomia e liberdade, a mulher realiza composição
identitária que lhe permite processar o caráter coletivo de sua representatividade, de
forma particularizada, de acordo com sua superação, reificando ou coisificando a
sua condição de sujeito no emblemático cotidiano e rotina em que estabelecem suas
relações.
Para tanto, as mulheres têm buscado estratégias para fissurar o discurso
masculino construído e estabelecido socialmente, recriando um forte sentido de
identidade, reestruturando o seu mundo, procurando dar um novo significado,
ressignificando seu presente na dinâmica que se processa nas diferentes culturas.
Eu sou mulher. Gosto de ser mulher. (C. F.)
Destarte, o caráter singular da identidade feminina ao ser apropriado pelo
aparelho publicitário, em especial o televisivo, transfere modelos de representação
de imagem, linguagem e valores que desterritorializados do contexto local ganham
novas dimensões, ou seja, reterritorializando-se. Este movimento é explicado por
Deleuze e Guattari (2006, p.41):
55
Jamais nos desterritorializamos sozinhos, mas no mínimo com
dois termos: mão-objeto de uso, boca-seio, rosto-paisagem. E cada um dos
dois termos se reterritorializa sobre o outro. De forma que não se deve
confundir a reterritorialização com o retorno a uma territorialidade primitiva
ou mais antiga: ela implica necessariamente um conjunto de artifícios pelos
quais um elemento, ele mesmo desterritorializado, serve de territorialidade
nova ao outro que também perdeu a sua. Daí todo um sistema de
reterritorializações horizontais e complementares, entre a mão e a
ferramenta, a boca e o seio.
Por conseguinte, pode-se afirmar que a desterritorialização configura-se
como movimento pelo qual se abandona o território7, enquanto a reterritorialização
representa o movimento de reconstrução desse território ocorrendo, portanto, uma
constante reelaboração da identidade nos diferentes espaços sociais, locais e
global.
Partindo dessas considerações, a identidade é moldada e orientada
externamente e internamente, ao mesmo tempo em que infere na subjetividade,
conduzindo à fragmentação do indivíduo moderno, anteriormente visto como sujeito
unificado, significando que as mudanças identitárias levam tanto homens quanto
mulheres a afastarem-se do senso de pertencimento, a exemplo de culturas étnicas,
linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais.
Dessa forma, pode-se afirmar que individualmente ou a partir de
pertencimento a determinado grupo, a cultura partilhada tem valor de uso, mas na
medida em que ocorre sua difusão, esta socializa-se sendo apropriada pela
comunicação que a transforma em produção racionalizada, padronizada e
expandida, passando a ser denominada de produto.
Assim, a cultura ao ter lugar e se fazer presente na mídia institui
determinados padrões que terminam por modelar via cenários e imagens, quando
incorporada nas suas múltiplas formas de manifestação, ao mesmo tempo devolvida
de forma ressignificada ao movimento centro-periferia, ou inverso, periferia-centro. O
imaginário popular influenciando o comportamento do sujeito fragmentado vindo a
7
A noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem
dele a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam
e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um
espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. O
território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de
projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de
comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos
(GUATTARI e ROLNIK, 1986, p.323).
56
ser institucionalizado para o coletivo pelo poder da mídia, onde o instituído pelos
canais de comunicação vai se tornando instituinte dos mais diversos territórios,
rompendo fronteiras, revalorizando o regional e nacional, mundializando-se.
Portanto, no mundo moderno as culturas nacionais constituem uma das
principais fontes de identidade cultural, pois de acordo com Hall (1997), as culturas
nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de
símbolos e representações, influenciando e organizando tanto ações do cotidiano,
quanto concepção acerca de nós, identificação com a nação, assim como a
interpretação de significados a partir de nossa imaginação.
Por sua vez, parece necessária a compreensão mercantil de que nenhuma
nação possui uma identidade cultural unificada, pois esta se move no processo de
desenraizamento geográfico, remodelando todas as certezas até então conhecidas.
Assim, neste processo de desterritorialização e reterritorialização ocorre uma
“cultura de passagem“ regida por identidades sexuais, relações econômicas,
políticas e sociais, englobando objetos de consumo, moda, turismo, literatura, entre
outras formas de sociabilidade comercial.
Nesse contexto globalizado, ocorre a interface entre diferentes entornos,
tribos e sujeitos, culminando com o descentramento que produz a pluralidade
cultural dos grupos no âmbito de sua territorialidade, onde a cultura originalmente
construída convive ou mesmo perde sua identidade “exigindo implementação de
ações que façam emergir bandeiras multiculturais” (FEATHERSTONE, 1995, p. 9596).
Em síntese, todo o processo que produz o entrecruzamento da cultura com a
mídia nos diferentes espaços, em especial no processo de globalização e avanço
tecnológico, não apenas compreende a cultura pela sua materialidade ou imaginário,
mas também a impele a se constituir em produto de consumo, concretizando-se no
poder de criar e recriar diversos espaços de disseminação de culturas a partir da
apropriação de elementos do cotidiano.
De acordo com Sarlo (2004, pg. 116) “la universalización imaginária del
consumo material y la cobertura total del territorio por la rede audiovisual no
57
terminan con las diferencias sociales pero diluem algunas manifestaciones
subordinadas de esas diferencias”8.
Nesse desvelamento de recriação e difusão, a mulher tem lugar de destaque
na mídia, seja como produto, seja como sujeito de consumo ao fazer parte desse
processo cultural que transpõe fronteiras.
2.3 AS CATEGORIAS REPRESENTAÇÃO SOCIAL E GÊNERO EM ANÁLISE
O conceito de representação social surge em 1961 com Moscovici
objetivando ampliar a psicologia social que, até então, trabalhava com a dissociação
entre sociedade, indivíduo e grupo tendo por base os estudos de Émile Durkheim
acerca das representações coletivas, situando-se assim no campo intermediário da
psicologia e das ciências sociais.
No Brasil, apenas após a década de 80, o estudo das representações
sociais ganha escopo enquanto resposta aos problemas emergentes da vida
cotidiana diante dos quais pesquisadores foram chamados a se posicionar, quando
esta passa a ser vista como uma nova roupagem para o estudo das atitudes.
A definição da representação social como forma de conhecimento social
assenta-se em três aspectos importantes: a comunicação, a (re)construção do real e
o domínio do mundo, significando para Jodelet (2001):
Forma de conhecimento corrente, dito “senso comum”,
caracterizado pelas seguintes propriedades: 1. Socialmente elaborado e
partilhado; 2. Tem uma orientação prática de organização, de domínio do
meio (material, social, ideal) e de orientação das condutas e da
comunicação; 3. Participa do estabelecimento de uma visão de realidade
comum a um dado conjunto social (grupo, classe, entre outros) ou cultural.
Nesse sentido, as representações sociais são verdadeiras teorias do senso
comum, ciências coletivas pelas quais se procede à interpretação e mesmo à
construção das realidades sociais, concebendo-as como verbalização das
concepções que o homem tem do mundo real que o cerca, onde se percebe no
8
A universalização imaginária do consumo material e a cobertura total do território pela rede
audiovisual não terminam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações
subordinadas a essas diferenças. Beatriz Sarlo. Escenas de la vida posmoderna, 2004.
58
discurso os valores, a ideologia, as contradições, enfim, os aspectos importantes
para o entendimento do comportamento social, produto individual ou social, onde a
representação social do individuo é fortemente marcada pela influência do seu grupo
de referência. (LANE, 1993).
Assim, os três aspectos citados das representações sociais colocam em
evidência o papel que estas assumem na dinâmica das relações e nas práticas
sociais cotidianas e elucidam-se por meio das diferentes funções assumidas pelas
representações, permitindo aos indivíduos compreender e explicar a realidade,
construindo
novos
conhecimentos
fazendo
do
novo
algo
assimilável
e
compreensível, situando os indivíduos e os grupos no campo social, permitindo-lhes
a elaboração de uma identidade social e pessoal.
Ressalta-se que nas sociedades modernas, caracterizadas pelo seu
pluralismo e pela rapidez com que as mudanças econômicas, políticas e culturais
ocorrem, a teoria das representações sociais articula-se tanto com a vida coletiva de
uma sociedade, como com os processos de construção simbólica nos quais os
indivíduos lutam para dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar
por meio de uma identidade social.
Nesse sentido, a esfera pública, enquanto lugar de alteridade fornece às
representações sociais o terreno sobre o qual elas podem ser cultivadas e se
estabelecer, pois é no espaço público que estas se encontram radicadas e por meio
das quais o ser humano desenvolve uma identidade, cria símbolos e se abre para a
diversidade de um mundo de outros, ou seja, o significado que o social assume na
sua dimensão pública, no espaço do encontro e do confronto, de forma direta como
nas ruas, praças, rituais coletivos, ou por meio de mediações institucionais.
Assim, estabelecem as fronteiras que tanto ligam como separam as
pessoas, que tanto as unem como as impedem de tropeçar umas nas outras
(ARENDT, 1958, p.50-52), bem como transcendem o ciclo de vida de uma geração,
tendo como base o diálogo e a conversação os quais vão iluminar alguns dos
parâmetros normativos que definem a vida em comum.
59
A partir das fronteiras a comunidade desenvolve e sustenta saberes sobre si
própria, com base na ação dos sujeitos sociais agindo no espaço comum a todos,
trazendo para o centro das discussões a dialética entre um e o outro sublinhando a
importância das relações entre sujeitos-outros sujeitos-sociedade na busca de
possíveis significados, tanto da vida individual como da vida pública.
Portanto, a possibilidade real de confrontação é dada por um espelho na
vida cotidiana, onde seres humanos podem interrogar a si mesmos e utilizar
diferentes territórios para refletir sobre suas identidades, numa demonstração de que
para além de qualquer tipo de isolacionismo e individualismo a verdadeira
possibilidade de ter acesso à individualidade reside na presença de outros. É a
referência do mundo que garante a natureza criativa da atividade simbólica, de tal
forma que a experiência de um, ao se mesclar com a experiência de outros, cria
continuamente a experiência que constitui a realidade de todos. (JOVCHELOVITCH,
2008)
Ainda de acordo com o autor acima,
As representações sociais são uma estratégia desenvolvida por
atores sociais para enfrentar a diversidade e mobilidade de um mundo que,
embora pertença a todos, transcende a cada um individualmente [...] são
um espaço comum, onde cada sujeito vai além de sua própria
individualidade para entrar em domínio diferente, ainda que
fundamentalmente relacionados: o domínio da vida em comum, o espaço
público. Dessa forma elas não apenas surgem das mediações sociais, mas
tornam-se elas próprias mediações sociais. E enquanto mediação social,
elas expressam por excelência o espaço do sujeito na sua relação com a
alteridade, lutando para interpretar, entender e construir o mundo. (IDEM,
p.81)
Desse modo, podemos dizer que as representações emergem como
processo que ao mesmo tempo desafia e reproduz, repete e supera, que é formado,
mas que também forma a vida social de uma comunidade, influenciando e sendo
influenciado pelas dimensões culturais do desenraizamento e da mobilidade espacial
ligados à imigração e/ou a uma fragmentação crescente dos espaços de vida, como
lugar do confronto com novas mitologias sociais e o espaço da vida cotidiana.
Nesta direção, o espaço, ao globalizar-se na contemporaneidade, reforça a
crise de identidade e fragmentação do sujeito a partir da necessidade da distinção,
da particularidade, para que diante da generalização do mundo globalizado seja
60
identificável diante do todo, onde os discursos e os sistemas de representação
constroem os lugares de enunciação do falar, dos brasões familiares e dos
elementos culturais distintivos e simbólicos.
Nesse sentido, a representação social da mulher na televisão traz intrínseca
a intenção de convencer pelas imagens, sem exigências da verdade, onde o real é a
tecnologia, e por simulação se injeta sentido, à medida que ela se concretiza na
relação com o mercado. Segundo Baudrillard (1991), nada existe de profundamente
verdadeiro, no lugar da verdade uma aparência de verdade.
Captando este particular humano, os patrocinadores e seus adendos
publicitários encarregam-se de moldar o imaginário popular por meio de
propagandas onde utilizam imagens femininas agradáveis ao deleite do consumidor,
público majoritariamente masculino, embora se postule que as representações
sociais veiculadas pela televisão têm uma dimensão educativa e cultural ao
potencializar ou reprimir as mais diversas formas de veicular a imagem feminina em
seus programas.
Portanto, ainda que se afirme haver uma dimensão educativa na apropriação
das informações, estas ao fazerem parte do processo divulgação, enquanto um dos
instrumentos e meios para a objetivação da comunicação, terminam por reeditar o
preconceito de gênero contra a mulher, pois a produção imagética pela mídia tem
sido consumida, sem reflexão, o que a torna uma linguagem carregada de ideologia
para a confirmação da maior valia masculina.
O meio ambiente artificializado da televisão firmado pelos referentes
técnicos e pelos valores e símbolos sociais, ao iconografar determinada
modelização do real coisifica a imagem feminina, inspirando comportamentos
filosóficos e práticos.
No concreto das construções sociais, as telespectadoras vão construindo
sínteses que lhes permitam situar-se e agir: a formação recebida, com as
informações que se lhes associam, os conhecimentos estruturados em outras
experiências, os valores e símbolos que marcam seu cotidiano, vão se
reconfigurando, na prática, deslocados ou ratificados, com todas as noções e pré-
61
noções, pois conforme Lane (1993, p.55) “a realidade objetiva vivida pelo indivíduo
se torna subjetiva, a qual por sua vez se objetivará por meio de suas ações”. Ou
seja, de forma gradativa novos sentidos sociais, seus sujeitos, objetos e objetivos
vão sendo gestados, a partir das condições nas quais a mulher, em sua condição
feminina, objetiva-se como ser social.
Esses elementos ajudam a configurar o terreno em que se situa a sociedade
de consumo, no jogo binário entre espetáculo e realidade, da imagem e da práxis
social o espetáculo inverte o real até revalidá-lo como um produto, onde a atividade
social é a realidade vivida e invadida pela contemplação do espetáculo e só assim
ganha notoriedade de realidade.
Assim, o espetáculo torna real o que já é real, e o real que não se transforma
em espetáculo tampouco tem importância, vez que este “não é um conjunto de
imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD,
2006).
A crença na mensagem televisiva de um modo geral, implica consolidar a
dependência do espectador em relação à televisão, cuja consequência é a
transformação dos hábitos do telespectador, haja vista os valores morais, sociais,
econômicos e outros que, são inevitavelmente alterados.
Enquanto a sociedade está constantemente modelando e remodelando seus
sentimentos e gostos, expandindo os horizontes de suas experiências, também vai
se modificando por meio de mensagens e de conteúdos significativos oferecidos
pelos produtos da mídia, entre outras coisas. Esse processo de transformação não
é
um
acontecimento
súbito
e
singular,
ele
acontece
lentamente,
imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano. Nele algumas mensagens são
retidas e outras esquecidas, umas se tornam fundamento de ação e de reflexão,
tópico de conversação entre amigos, enquanto outras deslizam pelo dreno da
memória e se perdem no refluxo de imagens e ideias.
A linguagem e o imaginário tradicional usados como arma acentuam
simbolicamente o distanciamento dos contextos espaços-temporais da vida
cotidiana, não literalmente, mas imaginativamente a partir da concepção de que há
62
diferentes maneiras de viver e condições de vida diferentes do seu cotidiano “nos
oferece uma idéia do resto do mundo” – efeito de distanciamento simbólico. Servem
ainda, para consolidar relações estabelecidas de poder ou criar novas formas de
dependência.
Assim, ao invés de se partilhar um território físico, partilham-se imagens,
permitindo aos membros de um determinado grupo que se reconheçam dentro
desse território, independentemente das fronteiras geográficas tradicionais.
Por sua vez, a mídia televisiva veicula não apenas imagens e formas
lingüísticas, mas práticas sociais, ou seja, formas de ação e interação social, sujeitas
a diversos deslocamentos, aberturas e flexibilidades de configuração e construção,
pois enquanto prática social implica processos particulares de produção, distribuição
e consumo de imagens e textos.
Geralmente, as notícias midiáticas são resultantes de relatos conduzidos e
escolhidos, que constituem interpretações explicativas histórico-sociais dos eventos.
Nessa prática, a historicidade é “simbolicamente manipulada pela memória ou pelas
memórias coletivas”. Barbosa (2003, p. 117), discutindo a relação entre historicidade
e memória (mito, tradição) no contexto das comemorações brasileiras dos 500 anos,
aponta que “[...] a reconstrução de fatos históricos, quer seja pela recorrência à
história, quer seja pelo retorno ao mito, funciona como estratégia de que se vale a
mídia, na qualidade de instituição social, para intervir na produção não apenas da
informação, mas também de cultura”.
As negociações desenvolvidas nos eventos sociais constituem-se de vozes
incluídas e até mesmo excluídas. O reconhecimento de tais vozes depende
invariavelmente do contexto e do conhecimento partilhado, significando dizer que os
sujeitos tendem a dizer algo em função das experiências acumuladas ao longo das
práticas sócio-culturais e históricas (FAIRCLOUGH, 2001, p. 156).
No texto midiático, por exemplo, é interessante pontuar como ocorre o
movimento de vozes deslocadas de um contexto para o outro, verificando ainda
como é realizada a distribuição das informações entre a constituição das vozes
autorais e atribuídas e das vozes implicadas no momento da construção do discurso.
63
Essa distribuição de vozes implícitas ou explícitas na construção do texto e das
imagens nada mais é do que a recontextualização de informações e/ou ideias préconstruídas que circulam em moldes, ou seja, em enunciados cristalizados.
O fato é que, principalmente, em gêneros midiáticos, as pressuposições,
quando são retomadas anteriormente à instância de produção, podem ser
manipulativas, assim como sinceras. Manipulativas no sentido de que se configuram
como um exercício de poder, como uma influência que se consolida por meio do
discurso, enquanto um conjunto de conhecimentos culturais tácitos significam,
pressuposições estas que podem levar os leitores a considerarem as afirmações
como determinadas construções de realidades.
As representações midiáticas constroem de maneira informal e, às vezes,
caricatural a identidade das mulheres que estão conquistando posições de destaque
por meio da descrição sumária de acontecimentos relatados, resvalando para
construções de realidades genéricas e abstratas. Como exemplo, as mulheres são
descritas principalmente pela aparência e pelos domínios sociais ocupados, cargos
e posições de destaque, essa prática se funde à historicidade ou às construções
míticas, tácitas, trazendo à tona a voz do outro, das representações sócio-culturais
hegemônicas.
As mulheres são ainda representadas por meio dos processos mentais e
relacionais expressos por enunciados tais como “é, vem ganhando, estão ocupando,
tornou-se, não passa de” (grifo nosso), implicando que elas apenas “existem”, mas
não detêm o controle de suas ações, embora ocupem cargos de poder e risco não
são representadas como agentes de ações. Debatendo sobre a noção de diferença
sexual como a principal causa da desigualdade, Lacroix (2002) e Swain (2005, p.
345) afirmam que “os códigos [...] criam cidadãs de segunda categoria, nomeadas
mulheres, a partir de sua sexualização, a partir de uma definição atrelada a seu
corpo e a seu sexo biológico”.
Como argumenta Barbosa (2003, p. 122), a mídia utiliza a estratégia
discursiva característica da história para, por meio de textos, trazer “uma memória
social construída entre a temporalidade do mítico e a cronologia do histórico”,
estratégia esta que pode ser evidenciada no trecho a seguir extraído de uma
64
reportagem ao acaso que trata da inserção de uma mulher no espaço da política “e
desta vez não haverá boleros”. Tecendo considerações acerca da mídia, Fisher
(2001, p. 588) afirma que “a mídia é um lugar privilegiado de criação, reforço e
circulação de sentidos, que operam na formação de identidades individuais e
sociais, bem como na produção social de inclusões, exclusões e diferenças”.
2.4 A MÍDIA E REPRODUÇÃO DA IMAGEM SOCIALMENTE CONSTRUÍDA DA E
PELA MULHER
No mundo globalizado o conhecimento técnico-científico torna-se cada vez
mais intenso e complexo, ao mesmo tempo em que a mulher se constitui em
protagonista de suas próprias vivências, na fronteira entre o moderno e o pósmoderno. No entanto, ainda permanecem as diferenças de gênero frente à
multiplicidade dos acontecimentos e à fragmentação de suas funções, onde a partir
de seu deslocamento para o espaço público, ainda que transitando quase
exclusividade no espaço privado.
Todavia, a mulher no capitalismo associa os espaços privado e público,
reproduzindo atividades tradicionais como costurar, cozinhar, cuidado dos filhos,
típicas do seu confinamento anterior à inserção na vida social não por livre escolha,
mas porque ainda lhe é atribuída a necessidade de manutenção deste espaço,
conciliando essas atividades com a inserção no mercado e/ou na condição de
autônoma pela necessidade de geração de renda, de manter a família, de realização
pessoal e necessidade de consumo.
Assim sendo, se “o espaço doméstico está reservado à mulher para atender
as necessidades de reprodução da vida e da força de trabalho” (VIEIRA, 2001,
p.10), a comunicação realizada pelos programas televisivos voltados para o público
feminino ancorados no tripé: culinária, beleza e artesanato, este último também
voltado à geração de renda, ao fornecer um guia de como agir enquanto
consumidoras de produtos e serviços, perpetua as relações do espaço privado com
pouco aporte em direção aos direitos sociais e de gênero.
65
Porém, a partir da década de 80, a Rede Globo lança o programa “TV
Mulher” que, segundo Lima e Priolli (1985, p. 40), inaugura a exploração sistemática
e rentável do horário matinal na TV, redesenhando um formato para o público
feminino que mesclava informações e variedades, configurando naquele contexto
um novo estilo de vida: o da mulher moderna, não superando os modelos
historicamente construídos, mas associando a estes a disseminação de novas
formas de consumo voltadas para a mulher inserida no mercado de trabalho e
emancipada sexualmente.
A década de 90 no Brasil constituiu-se marco da inserção da mulher no
espaço público midiático, de forma mais contundente, haja vista que até pouco
tempo era impedida de ter sua imagem publicizada, sendo apenas receptora, a
exemplo da discriminação para com as mulheres pioneiras da rádio, passando de
segmento de público-alvo para tornarem-se muitas delas, produtoras, editoras de
publicações e apresentadoras.
Do mesmo modo, os canais de comunicação investem na força de trabalho
feminino, nos campos político, econômico e esportivo rompendo gradualmente o
paradigma de que essas esferas televisivas seriam exclusivas do homem, ou espaço
para referenciar assuntos domésticos.
Com as mudanças ocorridas na e da sociedade nas últimas décadas, a
mulher antes considerada apenas como mãe-esposa, passa a ser vista como mulher
mão-de-obra, originando aí suas multifacetadas funções, num processo que
romantiza a fragmentação do sujeito mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-objeto de
desejo,
mulher-trabalhadora,
mulher-consumidora,
mulher-produtora
de
conhecimento.
Sendo assim, o mercado global se volta à recriação de imagens onde a
mulher sofre forte ideologização mercadológica, além de encontrar espaço de
relativa empregabilidade que lhe permite simultaneamente tempo para autoconsumo. Influências e formas de mulheres, uma para cada necessidade, seja do
mercado, da família que se transforma e reforma numa recomposição de interesses
mercantilizados e em símbolos recriados em vista de necessidades, novas funções e
66
apropriação de comportamentos, a partir de uma iconografia cuja estética da
comunicação segundo Eco (1997, p.330)
[...] é capaz de instituir gestos e propensões [...] criar
necessidades de apreciação [...] em que ao estabelecer interação com a
recepção mediatizada pela linguagem e expressões próprias da
comunicação de massa, difunde bens simbólicos como o fetiche,
incorporando-os à vida cotidiana pública.
Em termos mundiais, a tendência contemporânea de ampliação das
tecnologias de comunicação volta-se para o intervalo comercial aproveitando-se dos
índices de audiência dos horários nobres, para mercantilização de produtos e
serviços para o consumo. Nessa batalha pela audiência vale tudo, desde o
sensacional até o brinde, a chamada promoção, associando à informação
promoções de bens supérfluos, além de utilidades e serviços.
Concomitantemente à dissolução das fronteiras transnacionais ficam difusas
as demarcações territoriais, seja entre a linha do urbano e rural, seja dos espaços
públicos transformados em não-lugares (AUGÉ, 1994), ou ainda do espaço privado
e subjetivo, não se fazendo mais necessário estar presente para realizar compras,
receber notícias do mundo, independente das instâncias físicas ou hierárquicas,
bastando ter acesso às tecnologias da informação, como cartão de crédito, conta
bancária, internet.
Constata-se assim, nos diferentes espaços da vida social entre estes a
medicina, ciência, arte e beleza, uma tendência à coisificação da imagem da mulher,
tomando-a como mercadoria pela lógica do mercado capitalista, onde a liderança
dos meios de comunicação de massa permite que o real e o imaginário se mesclem,
impondo à mulher sua aceitação como objeto de uso e produto.
Ao mesmo tempo, a inclusão da mulher nos diferentes espaços da vida
privada e pública passa a ocupar um lugar privilegiado, na medida em que a mídia
possibilita a criação e recriação do universo feminino, não apenas em relação ao
trabalho, mas do fascínio, dos sentimentos, do estético, como pode ser observado,
por exemplo, nas novelas.
Assim, o rompimento com o paradigma do ocultamento da mulher no
doméstico permite superar fronteiras à medida que esta se insere nos demais
67
campos como político, literário, estético, poético, vindo a fazer parte de um universo
organizado a partir da lógica do masculino. Mesma ótica pela qual emerge a
desigualdade, uma vez que a mulher interage no espaço público e é recolocada no
espaço privado mediante a imagem que dela se faz e aceita, mãe e esposa,
realizando um movimento de dupla mão, surgindo uma nova representação de
liberdade marcada pela emancipação de responsabilidades no lar, pela interação
com a vida profissional e a lógica do consumo, alimentada pela publicidade, que se
mescla nas múltiplas identidades da mulher contemporânea.
Cabe ressaltar que as novas relações sociais formatam um novo universo
feminino, onde se manifesta a produção da subjetividade submetida à lógica do
mercado, convivem entre o fetiche da modernidade e as práticas tradicionais dos
papéis historicamente marcados pelo espaço privado.
Tendo em vista as mudanças exógenas e endógenas na modernidade, a
imagem midiatizada e televisiva engendra uma lógica coletiva, que consumida e
incorporada pela mulher, produz alterações em seu processo perceptivo, tanto na
vida pública como na pessoal, recriando um imaginário que confunde e fascina,
numa experiência estética que naturaliza uma imagem estereotipada da mulher, mas
não responde às singularidades individuais.
Na busca da compreensão de como as participantes apreendem a
apresentação da imagem feminina veiculada na atualidade nos mais diversos canais
de televisão aberta, obteve-se as seguintes inferências:
Procuram mostrar o belo, magras, esbeltas, lindas e maravilhosas.
O namoro na TV não apresenta uma mais gordinha ou de idade, mas uma
linda que não precisa procurar namorado pelo amor de deus! Não mostra
mulher normal, só focam a parte bonita e não a verdade. Eu sou
discriminada porque sou gorda. (M. F.)
Eu gosto de novela. Você põe num canal tá chato, no outro tá
chato [...] daí eu fico com a novela que mostra de tudo um pouco. Como na
vida real. (C. S.)
Na novela você vê gente gorda, feia, velha, amor, desilusão,
tragédia, por isso a mulher assiste novela. É mais real. (M. L.)
É interessante observar que as falas trazem à tona a compreensão que as
mulheres captam da televisão quando esta enaltece a beleza de um corpo,
68
atribuindo-lhe os papéis principais, a vida idealizada, enquanto às negras, gordas,
feias são reservados nas novelas papéis secundários, geralmente de classe inferior
e vida difícil, ocorrendo uma valorização do estético e do reforço do imaginário
coletivo de que somente os bonitos, ricos e bons têm o privilégio da felicidade.
Nessa direção, ao produzir apelos que valorizam estilos de vida terminam
por construir determinado padrão aspiracional como mencionado pela psicóloga
Raquel Moreno (2008), o modelo feminino difundido é o da mulher musa “jovem,
magra, branca, de cabelo liso e burra, que é a que vende e representa os valores
tradicionais”, diz a psicóloga em entrevista na 2ª Conferência Nacional de Políticas
para as Mulheres.
Raquel afirma ainda que este padrão de beleza atinge todas as classes
sociais na contemporaneidade, ampliando o seu alcance ao interior das mulheres,
pois a beleza passa a refletir o estado da alma, estimulando o consumo de um
mundo de parafernálias, produtos, cirurgias, que prometem colocar este ideal de
beleza ao alcance de qualquer uma, até mesmo em suaves prestações mensais.
Tudo isso reforçado pelo fato de que a mulher se vê cercada de modelos de beleza
por todos os lados, em outdoors, revistas, jornais, programas de televisão,
propaganda, e se comparam inconscientemente com aqueles modelos, passando a
querer se parecer com eles e sofrem se não o conseguir.
Nesta perspectiva, de acordo com Baudrillard (2005), a fascinação estética
está em toda a parte, pairando uma paranóia não-intencional, de simulação técnica
de forma indefinível à qual está fixado o prazer estético captado pelas integrantes
dos grupos focais.
Ao mesmo tempo, as falas traduzem a ideologia moderna que apresenta a
feminilidade como uma totalidade abstrata, vazia da realidade que lhe dera sentido
inicialmente, pois a mulher em meio a marcas de beleza e produtos de estética já
não se apresenta produtora de sua vida real.
Não obstante, pode-se observar como a imagem comunica, embora
submeta a informação ao mundo das aparências, mas, justamente por isto,
possibilita a manipulação do imaginário produzindo nova objetivação e apropriação a
69
partir da mensagem capturada como dinâmica do processo da subjetivação, que se
manifesta pela linguagem, vestimenta, gestos, signos, símbolos, estética, estilos de
vida.
Nesse sentido, a forma como a imagem da mulher vem sendo construída
pela televisão e sua expansão na cotidianidade revela as tramas subliminares dos
discursos para a manipulação e multiplicação das subjetividades e identidades
capturadas no cotidiano e ressignificadas a partir de uma estética padronizada.
Como vimos, a informação é frequentemente veiculada por meio de
imagens, produzindo a consagração de uma cultura globalizada que incentiva o
consumo ao assumir sua importância e status de mercadoria. Por conseguinte, as
imagens oferecem uma visão capturada do outro, num lugar dinâmico onde muitos
olhares se interseccionam, recriando espaços de interlocução e difusão das
múltiplas relações interculturais.
Do ponto de vista da comunicação, Carmen Rial (1995, p. 95) aponta que há
muitos modos de se entender as relações interculturais na contemporaneidade,
[...] através de aspectos históricos, econômicos, políticos, mas quando se
pensa no aspecto cultural são as imagens transmitidas simultaneamente
para todo o planeta que primeiro vêm à mente. O mundo hoje é um sistema
interativo, em um sentido que é absolutamente inédito, pois se tratam de
interações de uma nova ordem e uma nova intensidade. E essas interações
se realizam principalmente através de imagens.
A busca de maior participação do segmento feminino no mercado amplia nas
últimas décadas a inserção da mulher no espaço televisivo, trazendo a centralidade
da ação comunicativa vinculada à produção e reprodução da cultura de massa,
numa dimensão contraditória, suplantando interesses da maioria destas e de suas
telespectadoras em prol dos interesses na ampliação do consumo voltado para este
segmento.
Ao mesmo tempo, a mídia apropria-se da imagem da mulher e a utiliza como
objeto de consumo para o público masculino e feminino, ao veicular os diversos
formatos de programa, como as campanhas de marcas de cerveja que celebram e
naturalizam um corpo feminino sem voz, um corpo-objeto do olhar. As imagens de
um comercial como esse supõem um espectador erotizado, um lugar de sujeito
70
sensual que ocupamos (fêmeas e machos) de forma quase óbvia e natural, sem
questionar ou pensar em outras possibilidades de apreciação.
Dessa forma, ao reproduzir o imaginário coletivo, a televisão conforma o
sentido da presença do homem no território em que ele habita, encenando uma
reforma cognitiva e moral necessárias à ordem do consumo, com implicações como
o narcisismo e a individualização. É o padrão identitário conectado a esses
comportamentos e valorizado pelos meios de comunicação que vai permitir ao
indivíduo atingir um reconhecimento social, na medida em que vende a forma ideal
de um estilo de vida, imprimindo um novo padrão de consumo e prazeres modelado
pela estética da comunicação.
No entanto, como adverte Sodré (2002), a mídia não determina coisa
alguma, apenas prescreve, o que nos permite vislumbrar a possibilidade de
instalação da diferença identitária, mesmo se considerarmos a ação padronizadora
dos meios de comunicação.
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global
dos estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens
da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais
as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos,
lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”.
Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual
nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós),
dentre as quais parece possível fazer uma escolha. Foi a difusão do
consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribui para
esse efeito de “supermercado cultural”. (HALL, 1997, p. 75)
Em contrapartida, ao ampliar a participação da mulher nos diversos formatos
de programas viabiliza-se a construção de diferentes linguagens, por meio de
estratégias discursivas, sonoras e visuais, constituindo espaços para difundir uma
nova cultura política e de gênero, contribuindo para a conformação do pensar e do
agir da mulher contemporânea, a exemplo das novelas brasileiras como Mulheres
Apaixonadas que traz características de relações de gênero e geracional; Jornal
Nacional com apresentação de Fátima Bernardes; programa Sem Censura, da TV
Cultura com Leda Nagle, uma das precursoras deste estilo de programa na TV
brasileira.
Portanto, o fato de ouvir ou ver uma mensagem implica uma interação, uma
alteração de comportamento, mesmo que ela tenha sido em fração de segundos.
71
Nesse sentido, ao proceder discussões sobre quais programas as integrantes dos
grupos focais consideram como positivo e negativo obteve-se:
A Leda Nagle no programa Sem Censura. Ela é muito boa [...] eu
devia assistir mais vezes. Sonia Abrão e os da tarde são todos negativos. A
Sandra Anhenberg acho ótima. A patrícia Poeta é linda. Admiro elas. Ana
Maria Braga lógico minha ídala, se bem que o programa anda meio sem
graça, antigamente era melhor. Ela tem uma historia de vida muito bonita. É
uma coisa que serve de exemplo, te deixa pra cima. (M. F.)
Fátima Bernardes, essa eu admiro. Aqueles programas tipo o da
Márcia que o cara vai brigar por uma galinha, acho ridículo. (M. B.)
Há boas impressões [...] jornal, novelas (C. B.)
Desenhos bons como a vila sésamo, não assisto jornal (M. J.)
Gosto do jornal nacional, novela a favorita, a grande família (L. L.)
Domingo legal, Silvio Santos, jornal Record News (D. L.)
Não gosto de jornal, assisto Tela quente e jogo da vida (A. C.)
De forma geral, as falas foram contempladas nas suas diferenças,
declarando em sua maioria o hábito de assistir telejornais. Observamos que as mais
jovens declararam não possuir este hábito.
Por sua vez, dentre as falas prevalece um canal como o mais assistido nas
categorias telejornal e novela, ficando evidenciado que o que atrai as mulheres ao
assistir aos programas referenciados são as respectivas apresentadoras destes,
características observadas ao mencionarem os nomes destas e não dos programas,
dos quais muitos destes nem lembram o nome.
Observa-se que dentre os programas mencionados estão os que possuem
maior índice de audiência sendo, em sua maioria, programas veiculados em horário
nobre, o que significa maior investimento do mercado de bens e serviços em
propaganda nos intervalos comerciais, constituindo estratégias para disseminação
do consumo por parte do mercado, ao utilizar a TV como canal estratégico de
comunicação.
Assim, nasce a cultura do efêmero one way, do descartável, com ênfase no
presente, processo de mercantilização de bens cambiáveis, para onde o mercado
72
passa a ditar as regras não somente econômicas, pois a política e o social têm que
se adequar ao capital, passando-se a vincular a cidadania ao consumo.
Ao mesmo tempo, a mulher passa a valorizar a linguagem feminina, os
atributos e os temas femininos, o que significa mais do que um simples retorno aos
seus valores próprios, um alargamento do campo conceitual, revelando suas
armadilhas e limitações. Mais do que nunca, passaram a pensar em si mesmas sob
uma ótica própria, dando visibilidade ao que antes fora escondido e recusado, o que
inevitavelmente levou a uma radicalização da potencialidade transformadora da
cultura feminista em contato com o mundo masculino. Trata-se então, de não mais
recusar o universo feminino, mas de incorporá-lo renovadamente na esfera pública,
o que se traduziu ainda por forçar um alargamento e uma democratização desse
mesmo espaço.
Desse modo, torna-se evidente que a mídia usufrui da condição feminina
como nicho de mercado, incorporando as conquistas alcançadas das relações de
gênero e colocando-as como necessidades de produção e reprodução da vida
material e imaterial, consequentemente objeto de consumo.
Nesta expansão de imagens do feminino, vão se reproduzindo fetiches
voltados para o consumo do feminino e do masculino, que tem suas imbricações no
espaço da família, ao naturalizar estereótipos e mitos criando uma hiper-realidade
que não respondendo à realidade concreta desta, impele ao excessivo consumo,
influenciando na civilidade e alterando comportamentos. Revela-se ainda, que a
construção da imagem masculina veiculada participa desta mesma lógica, na
medida em que esta tem como objetivo agradar visual, estética e eroticamente a
mulher.
Portanto, nas mudanças intrínsecas ao processo histórico-social da mulher
que participa das relações de produção e da vida em sociedade, ao mesmo tempo
em que se vê impelida pelo consumo de determinados bens e produtos, recebe sua
imagem remodelada. Assim, a televisão contribui como instrumento e meio
disseminador para além das fronteiras culturais, atribuindo-lhe um valor de uso que
se expande, consolidando-se em espaços sociais e midiáticos sem fronteiras.
73
Para compreendermos como vieram se processando as mudanças históricosociais das relações de gênero na televisão, é fundamental fazer uma breve
recapitulação desta mídia na contemporaneidade e como se processa a
representação da mulher e sua subjetivação a partir dos paradigmas da
comunicação e da cultura mediada pelo consumo.
74
CAPÍTULO III – A MÍDIA TELEVISIVA, GLOBALIZAÇÃO E CULTURA NA
CONTEMPORANEIDADE.
3.1 COMUNICAÇÃO E MÍDIA TELEVISIVA NO CENÁRIO ATUAL
A conjuntura atual traz imbricado um conjunto de transformações que afeta
fortemente a economia com a formação de blocos econômicos, a emergência de
novos países industrializados, a liberação dos mercados e do conseqüente
acirramento da competição intercapitalista, em um cenário globalizado. Nesse
processo de integração dos mercados, a cultura sofre impactos na medida em que a
comunicação mediada pela ideologia do consumo e pela difusão de mensagens faz
com que esta se funda ou se refaça produzindo diversidade cultural, novas
identidades ou ainda momentos pela preservação da cultura local conformatando o
multiculturalismo tão presente no cenário brasileiro.
Assim como os acontecimentos que marcaram a sociedade contemporânea
no final do século XX, as mudanças nos processos de produção e trabalho inferiram
também alterações na produção e reprodução da vida social, especialmente das
mulheres na medida em que estas transitam simultaneamente no privado e público,
redimensionando seus papéis e funções na sociedade.
Verifica-se no contexto em análise que a comunicação por meio da mídia
televisiva
decorrente
da
revolução
informacional
introduziu
modificações
substanciais no cotidiano da vida feminina, de tal modo que, ao gerar alterações no
conjunto das atividades exercidas pelas mulheres, ampliam-se suas funções
intermediárias, ou seja, aquelas que se situam entre a produção e o consumo, cada
vez mais massificadas para generalização da produção de mercadorias a fim de
assegurar produção e vendas contínuas.
Na mídia flui a informação carregada de sentido e intenções de sedução,
passando a representar não apenas meios e artefatos de discussão acerca da vida,
mas funcionando ao mesmo tempo, como poderosos ativadores de trocas sociais e
culturais. Esse processo garante os interesses do mercado a partir do modelo de
comunicação em que o foco se volta para uma tecnologia e estratégias cada vez
75
mais refinadas na difusão de mensagens, usando inúmeras linguagens persuasivas
para vencer espaços entre patrocínio e consumo.
Nesta direção, a publicidade busca assentar-se em temas aparentemente
consensuais e tendem a lograr o máximo de adesão, particularmente de seus
consumidores e não somente dos cidadãos. Como resultado das estratégias
elaboradas surgem os denominados grupos de audiência, para os quais são
produzidos modelos de comunicação generalizada divididos por idade, tempo de
ocupação e permanência em casa nos diferentes horários, a partir de classificação e
características próprias que configuram as identidades femininas.
Essa segmentação de público vem atender a demanda das particularidades
dos grupos que circulam pelas esferas sociais, que não possuem um território físico
partilhado nem se fixam a nacionalidades, mas, antes, são flutuantes e se
encontram dispersos pelo mundo. É se alimentando desta busca identitária que a
televisão passa a formatar programas direcionados a públicos específicos e torna-se
a dimensão essencial de nossa experiência contemporânea.
Assim, sob o impacto das transformações tanto na reprodução da vida
quanto do capital torna-se mais visível a lógica do lucro, bem como as mudanças no
âmbito da sociedade que impõem ao estado o atendimento ao cidadão e suas
necessidades de bens e serviços como habitação, eletricidade, saúde, educação.
Por outra parte, desdobra-se o mercado de trabalho e, por conseguinte, a
massificação do consumo em automóveis, eletrodomésticos, flats, de forma que a
facilidade da vida, frente ao aceleramento em tempos modernos, responda às novas
exigências.
Nesse decurso, a partir das condições que configuram a realidade mundial
e, particularmente, a brasileira, a nova configuração do desenvolvimento das forças
produtivas atinge o Estado na medida em que produziram a privatização e
terceirização, substituindo serviços por mercadorias, ao mesmo tempo em que a
sociedade incorpora novos itens de consumo que compõem e/ou respondem a
muitas vozes, incluídos os valores estéticos introjetados por valores simbólicos,
resultando numa massificação da adesão, que mascara as necessidades básicas do
cidadão perante seus direitos cívicos e constitucionais.
76
No bojo dos aspectos assinalados, emerge um cenário onde a ênfase está
na autorrealização do indivíduo, na demanda de comunicação entre as pessoas de
acordo com novos modelos de comunicação generalizada, programas interativos,
individualização crescente, os reality shows, nos quais se finge uma “comunicação
mais humana e espontânea”, enquanto induz à hiper-realidade, à ilusão da verdade
e do entorno e à ficção de autenticidade.
Na lógica do consumo, o discurso mediado pela ideologia do mercado e do
lucro, ao transitar pelos meios de comunicação, especialmente a televisão, induz
pelas imagens ultrapassando necessidades de bens de uso, pois vende a marca, a
maior preço que o aluguel decente de uma moradia e incomparável às condições de
sobrevivência num barraco na favela por valor superior ao de um aluguel de moradia
decente.
Por outro lado, ao imprimir o consumo de massa, produz ressignificação de
usos e costumes nos espaços sociais e, marcadamente, no comportamento do
segmento feminino que, independente da posição que ocupa, incorpora as
representações dos símbolos via informação e imagens que se materializam na
circulação e mercantilização do produto veiculado como consumir Copenhagen e
não simplesmente chocolate; a ideia de estilo urbano-ecológico de aventura por
meio de aquisição do EcoSport; Victoria Secret e toda a sua sensualidade, beleza e
erotismo feminino.
De acordo com Simone de Beauvoir (1949) “Ninguém nasce mulher, tornase mulher”. Neste sentido, tomamos como partida o território9 como sendo uma
construção social, onde a oralidade cria o efeito de interlocução sendo a televisão o
agente que transforma o espaço e o território em espaço abstrato. É nesse embate
que a mulher de nascimento se torna feminina por determinação da sociedade
brasileira que lhe atribui características intrínsecas ao que se iconografa como parte
9
A noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem dele a etologia e a
etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos
fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio da qual um
sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o
conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos,
de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos (GUATTARI e ROLNIK, 1986:323).
77
do universo feminino, reforçada pelas imagens veiculadas pelos canais televisivos
que criam modos e estilos de vida para a mulher moderna.
Veja bem, a palavra modos revela uma visão pós-moderna, onde o consumo
é um processo em que os desejos se transformam em demandas, em atos
socialmente regulados, divulgados pelos meios de comunicação e mediados pela
sociedade, ou seja, é a partir do consumo que os indivíduos interagem e se
comunicam em uma sociedade.
Tal
comunicação é
para Thompson
(2002,
pg. 32) “a produção
institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos através da fixação e
transmissão de informação ou conteúdo simbólico”.
Enquanto as representações audiovisuais alimentam-se de situações
domésticas e públicas e não se limitam a personificar o sujeito da representação,
promovem uma mutação mediante o representado, na medida em que faz surgir
necessidades antes não codificadas pelos sujeitos, reconstituindo e reforçando o
domínio do consumo, seja em programas ou produtos, como podemos observar a
seguir.
A minha vizinha fica elegante grávida de vestido. A Xuxa vestia
aquelas roupas com barriga de fora, mas eu não gostava e muita gente
usou. (D. M.)
Na fala dos grupos focais, foi informada a influência da imagem da mulher
na reprodução do consumo, passando o consumismo a constituir-se em um arranjo
social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros
(BAUMAN, 2008) que reforçados pela televisão impulsionam ao consumo, reificado
numa força externa que coloca a telespectadora em movimento e a mantém
enquanto forma de convívio humano e estilo de vida, baseados em padrões de
reprodução e em comportamentos individuais criados para seguir essas motivações.
“Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a síndrome consumista degradou
a duração e promoveu a transitoriedade. Colocou o valor da novidade acima do valor
de permanência” (idem, p.110).
Entre os meios de comunicação, a televisão aberta passa a constituir-se
num instrumento jornalístico, de entretenimento e de massificação da cultura, em
78
que o consumo termina ideologicamente difundido na sociedade. Assim, os meios
de comunicação criam produtos e serviços em tempos de globalização, onde se
integram tempo e espaço nas novas configurações societárias, ao mesmo tempo em
que impõem desafios ao mercado para romper barreiras ideológico-territoriais,
projetando competição acirrada pela ampliação do consumo, tendo na mulher um
dos focos de interesse, no cenário atual.
Portanto, com as transformações que vêm ocorrendo a partir da emergência
da modernidade processam-se mudanças políticas, econômicas e culturais que
influenciadas pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia corroboram com o
crescimento da comunicação e sua expansão em rede, em especial de um arsenal
ideológico que sinaliza novos lugares de mercantilização, onde as mulheres passam
a ter espaços estrategicamente situados.
Cabe ressaltar que o sistema brasileiro de difusão predominantemente
privado, constitui setor econômico dos mais dinâmicos e modernos, posiciona-se
entre as sete maiores mídias de TV aberta no ranking mundial, representando
instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação da cultura, a
partir do qual o consumo é difundido na sociedade. (Relatório final do Projeto de
Monitoramento da Mídia Global – GMMP, 2005)
Ao mesmo tempo, os dados gerados por meio televisivo influenciaM as
percepções e produzEM conhecimentos sobre o que aconteceu no mundo, as
informações são selecionadas de acordo com os fatos e interesses dos que detêm o
poder, seja econômico, político ou da comunicação, cujos interesses vão passar
pelas decisões da edição publicitária, a qual produz geralmente de acordo com
determinado ponto de vista ideológico e experiências acumuladas, o que corrobora
para que prioridades e valores transmitidos sejam dos que projetam, modelam e
dirigem a publicidade.
As decisões da edição são feitas geralmente de acordo com determinados
pontos de vista e experiências, o que corrobora para que não seja certamente uma
“janela ao mundo”, mas a que expressa somente as prioridades e os valores de
quem as dirige. Fica a interrogativa de qual é o impacto no público feminino quando
as notícias geralmente são comentadas constantemente sob o ponto de vista
79
masculino, quando entendemos que esse pensamento é próprio da formação
histórico-social da sociedade brasileira.
Considerando que os líderes de meios maciços são não somente líderes
nesta indústria, principalmente no Brasil onde os canais de comunicação estão nas
mãos da classe política e de grandes proprietários das indústrias haja vista que
atualmente, 1/5 dos congressistas são concessionários de rádio e TV. (Relatório
final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global – GMMP, 2005)
Sendo o gênero feminino a maioria da população mundial, este representa
somente uma fração pequena dos assuntos que cruzam meios de comunicação
mundiais, que segundo o relatório, as mulheres representavam 17% dos assuntos
na notícia, enquanto que cinco anos mais tarde esta representação cresceu apenas
1%, alcançando 18%. Nos anos seguintes, tais resultados continuaram sendo
material de investigação a níveis internacional, nacional e regional, cujas pesquisas
de 1995, de 2000 e de 2005 foram baseadas nos estudos feitos durante um período
de mais de 30 anos.
Como as mulheres brasileiras compõem fatia majoritária das audiências da
televisão (53%), do rádio (53%) e das revistas (55%), representando também 49%
dos leitores de jornais, essa participação relevante as coloca como preocupação
estratégica na formulação de conteúdos da publicidade por meio dos veículos de
comunicação, representando mais de 52% da população mundial. Contudo, no
tocante a sua participação enquanto protagonista da comunicação, estudos dos
últimos 30 anos indicam que esta constitui uma fração pequena nos espaços
midiáticos, enquanto sua imagem tem sido veementemente enfocada.
Quadro 1. Participação das Mulheres (com mais de 10 anos) na Composição da Audiência/Público,
em 1998
TV
53%
Rádio
53%
Revistas
55%
Jornais
49%
Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005.
Conforme mencionado acima, as mulheres são majoritárias na composição
das audiências dos meios de difusão, com exceção dos jornais, possuindo papel
80
estratégico na manutenção das audiências de alguns dos mais importantes veículos
do sistema privado de comunicação do país, como por exemplo, a revista Veja, o
Jornal Nacional e a Rede CBN de rádio.
Diante da importância dessa participação, é preciso ressaltar que as formas
de representação da mulher nos meios de comunicação não têm merecido a devida
atenção dos organismos públicos encarregados da área da mulher, bem como das
organizações não-governamentais. Observa-se que os esforços do movimento de
mulheres em sua relação com a mídia têm se voltado preferencialmente para
questões e temas específicos, como saúde, violência, entre outros.
Por sua vez, em um país onde a telenovela é gênero fortemente explorado
pela TV contando com uma expressiva audiência nacional, com relevância para
representatividade do público feminino, seria importante publicizar os resultados de
pesquisas realizadas acerca da imagem da mulher construídas e oferecidas para
consumo cotidianamente, bem como a representação da imagem feminina na ficção.
No que diz respeito à regulamentação dos meios de comunicação de massa,
a Constituição Federal de 1988 dedica todo um capítulo à comunicação social,
prevendo inclusive a criação do Conselho de Comunicação Social, que deveria
possuir papel regulador das concessões e da programação, instituído por lei em
dezembro de 1991. Entretanto, após uma década da promulgação da Constituição, o
Conselho de Comunicação ainda não foi instalado, haja vista os interesses de
grandes grupos econômicos e de grupos políticos que vêm impedindo avanços
desse debate.
Por sua vez, no Brasil existem mecanismos de defesa contra TVs que
exploram situações degradantes, violentas, de abuso sexual, racismo e outras
formas de discriminação, contudo não há registro de nenhum tipo de mecanismo,
regulamentação ou autorregulamentação enfocando a imagem de mulheres e
meninas nos meios de comunicação.
Quanto ao debate acerca da necessidade da elaboração de um código de
ética com regras claras para coibir e punir os excessos cometidos na programação,
especialmente no que diz respeito à violência, sexismo, racismo e pornografia, entre
81
outros, que caracterizam má qualidade na programação oferecida à população, este
ainda não fora elaborado e o CONAR, órgão criado há mais de duas décadas para
autorregulamentação da publicidade no país não tem sido alvo de diálogo, assim
como de denúncias sobre a imagem da mulher no meio televisivo.
Por sua vez, em um cenário de competitividade acirrada a mídia-espetáculo
e os chamados programas populares, onde são reforçados diversos tipos de
estereótipos de gênero, ganham cada vez mais espaço na grade de programação,
sendo os temas relevantes relacionados à condição feminina pautados de forma
frequentemente
preconceituosa,
e/ou
em
horários
inadequados
à
mulher
trabalhadora.
Ao mesmo tempo, ao longo da década de 90, o tema da justiça social foi se
impondo como pauta permanente nos diversos meios e veículos de comunicação,
evolução importante cujos investimentos por parte destes constituíram-se no
desenvolvimento de mecanismos de interlocução com suas audiências, buscando
antecipar as exigências ou cativar o público, particularmente o feminino.
Como exemplo mais completo tem-se a reformulação de telejornais locais,
que passaram a dedicar maior espaço para conteúdos de interesse regional e
comunitário. Nesses programas jornalísticos, no rádio e na TV, as principais fontes
de informação são levantadas nas comunidades e/ou bairros, a partir das
necessidades de melhorias destes e dos principais problemas da população,
ganhando credibilidade e audiência, encontrando-se em ritmo de expansão por todo
o país.
A tendência de reformulação editorial, aliada a um maior exercício de
cidadania e à busca da formação de opinião pública por meio da mídia, tem exigido
do sistema privado de mídia brasileiro uma maior capacidade de sintonia com a
sociedade, especialmente em relação a seus problemas e demandas, não no
sentido de justiça social, mas ainda como direcionamento de programas para
públicos cada vez mais específicos, na tentativa de alcançar e manter novos nichos
mercadológicos.
82
O resultado da pesquisa abaixo (GMMP, 2005) mostra a incidência de
mulheres fora do centro das notícias que não destacam claramente assuntos
relacionados à igualdade ou desigualdade entre mulheres e homens, ainda que não
desafiem e nem reforcem os estereótipos femininos e/ou masculinos, sendo que a
maior parte das notícias não foi alvo de análise adicional.
Quadro 2. Monitoramento realizado em 6 canais abertos de Televisão
EMISSORAS INDICADAS
MONITORAMENTOS REALIZADOS
Rede Globo – Jornal Nacional
TV Cultura – Jornal da Cultura
SBT – Jornal do SBT
TV Bandeirantes – Jornal da Band
TV Record – Jornal da Record
Rede Vida – Repórter Nacional
04
02
03
02
03
00
Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005.
Quadro 3. Questionamentos segundo os meios TV, Jornal e rádio.
QUESTÃO
As mulheres são o centro
da notícia?
A notícia destaca
claramente assuntos
relacionados à igualdade
ou desigualdade entre
mulheres e homens?
A notícia desafia ou reforça
claramente estereótipos
femininos e/ou masculinos?
Análise adicional
(recomendação)
TV
JORNAL
RÁDIO
Sim = 16
Sim = 10
Sim = 02
Não = 89
Não = 70
Não = 13
Não sei = 02
Sim = 15
Não sei = 06
Sim = 06
Não sei = 00
Sim = 00
Não = 95
Não = 71
Não = 15
Não sei = 00
Não sei = 07
Não sei = 00
Claramente desafia = 08
= 03
= 00
Claramente reforça =02
= 09
= 00
Não desafia, nem reforça = 99
= 72
= 13
Não sei = 01
Sim = 13
= 03
Sim = 16
= 02
Sim = 02
Não = 74
Não = 60
Não = 13
Não sei = 03
Não sei = 04
Não sei = 00
Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005.
83
Atualmente, a mulher é responsável por 80% das decisões de consumo,
sendo a televisão espaço que processa e socializa informações especialmente para
as mulheres das classes populares, muito embora estas possuam mínima
representação na mídia, exceto em situações de violência como nos jornais
sensacionalistas e em reality shows, os quais transitam entre a veiculação de
imagens e realidades alternativas ampliando o espectro para a formação da
subjetividade, na medida em que a realidade e a hiper-realidade se confrontam
mediadas pelo poder da renda e outras necessidades, vez que há um crescente
descrédito nas instituições públicas.
Disso decorre uma rápida expansão dos meios de comunicação no país,
agregando ao mesmo tempo interesses do capital e da mulher, impulsionando à
criação de estratégias voltadas para o atendimento de seus interesses enquanto
mulher, trabalhadora, intelectual, feminina, mãe, esposa, namorada, independente
da sua condição social, haja vista que a meta principal constitui-se em produzir lucro
para si e o mercado, que para tanto exige capacidade de processar o envolvimento
da espectadora com o produto midiático.
3.2 A TELEVISÃO COMO ESPAÇO DE RESSIGNIFICAÇÃO: O DISCURSO
FEMININO
Por muitas décadas o governo federal foi o único a deter amplo controle
sobre os meios de comunicação no Brasil e, por meio de legislações fizera uso do
poder das concessões daqueles, utilizando-os como arma política e eleitoreira.
Assim, a história brasileira aponta que as empresas de comunicação de massa
sempre se aliaram com as classes detentoras do capital econômico e/ou com as
principais autoridades nos diferentes níveis de governo, sendo raros os veículos de
comunicação que conseguiram fugir dos interesses oligárquicos do poder político.
Portanto, as Constituições brasileiras, ao tratarem das preocupações do
poder da mídia, imprimiram a esta prerrogativas do controle das empresas de
comunicação a brasileiros natos, prerrogativas instituídas na constituição de 1937
em seu artigo 131 e na Constituição de 1946 com maior rigor quanto às
prerrogativas de concessões a estrangeiros, conforme artigo 160 “é vedado a
propriedade de empresas jornalísticas, seja política ou simplesmente noticiosas,
84
assim como a de radiodifusão, às sociedades anônimas de ações ao portador
estrangeiro”. (Constituição de 1946)
Por sua vez, cabia aos brasileiros, conforme o artigo 129 da mesma lei
exclusiva responsabilidade, ou seja, a orientação intelectual e administrativa dos
meios de comunicação, sendo que as Constituições de 1967 e de 1988 consagram
os mesmos dispositivos de defesa nacional do setor, muito embora estas somente
venham reforçar a defesa dos interesses dos grandes conglomerados.
Sem entrar nas polêmicas e jogos de interesses que se confrontam na luta
pela mercantilização das informações, seja pela imprensa escrita, falada ou
televisada, a relação com as imagens tem propiciado um debate filosófico e
epistemológico centrado nas questões da objetividade/subjetividade do mundo
representado. Nesta direção, ressalta-se que os mesmos grupos defensores da
nacionalização dos meios de comunicação e os interesses políticos, financiam suas
campanhas via esquemas palacianos e passam a representar novos interesses.
Significa que os grupos tradicionais que até pouco tempo defendiam a
exclusividade do capital nacional e o controle dos meios de comunicação, por
deterem um imensurável poder econômico e político, consolidando o cartel
televisivo, atualmente enfrentam forte desaquecimento da demanda de seus
produtos frente à queda da receita publicitária e na busca de novos parceiros
defendem a reforma do artigo 222 da Constituição de 88, isto é, a entrada do capital
estrangeiro nas telecomunicações.
Portanto, a decisão de se associarem aos grandes grupos de mídia
internacional ganha cada vez mais adeptos no meio das famílias que detêm o
controle dos meios de comunicação no país. Tal interesse não resulta apenas dos
processos de globalização do capital, mas sim da possível incorporação de novas
tecnologias para a produção e oferta de novos produtos midiáticos, que só se
tornam acessíveis com a mundialização do capital.
Assim, por meio do poder de comunicação difundem-se opiniões, gostos
artísticos, culturais e estéticos, que imprimem diversidade e novos estilos de vida,
visto que as imagens reproduzidas pelo aparelhamento tecnológico, estruturam
sensibilidades, organizam socialmente comportamentos, percepções, sentimentos,
ideais e valores.
85
Juntamente com a compreensão das metamorfoses da noção de cultura, na
última metade do século XX, questiona-se tanto os modos como a cultura funciona
na época da globalização como os riscos de uma visão da sociedade reduzida a um
caleidoscópio de fluxos culturais que leve a esquecer que nossas sociedades
também são regidas por relações econômicas, políticas, uma armadura social que
não se reduz nem às séries de televisão de grande sucesso, nem ao impacto dos
reality shows. Atualmente, engloba objetos como consumo, moda, identidades
sexuais, museus, turismo, literatura.
Concomitantemente, na fronteira entre o moderno e o pós-moderno está
inserida a figura da mulher, sujeito e objeto de análise, mas, antes de tudo,
protagonista de suas próprias vivências. Globalizou-se a produção do conhecimento
e a intensificação das diferenças se fez mais presente, o conhecimento ainda se
encontra na fronteira do cotidiano, tão próximo e tão distante, que a multiplicidade
dos acontecimentos e a fragmentação das funções do sujeito nem sempre permitem
que o conhecimento interpenetre e adentre as portas da realidade cotidiana de todos
nós. O conhecimento está na fronteira, entre o saber e o saber fazer, é a distância
entre ambas que esbarra na fronteira do poder.
Todavia, a “cultura da passagem”, onde a remodelação das formas
desestabiliza todas as certezas e desterritorializam o sujeito, ao invés de lidar com
estas inadequações como força propulsora para a produção de novas formas, mais
adequadas à transitoriedade, tende a fixar alguns moldes enrijecidos.
Assim, a globalização da atividade econômica torna-se uma forma mais
avançada e complexa da internalização, implicando certo grau de integração
funcional entre as atividades econômicas dispersas, conceito este que se aplica à
produção, distribuição e consumo de bens e de serviços, organizados a partir de
uma estratégia mundial voltada para um mercado mundial. Contudo, nessa
construção teórica há o reflexo no espelho da globalização, segundo Morin (2003,
p.10):
Há uma mundialização de comunicações, de trocas e também de
civismo planetário, que permite unir humanos, ao mesmo tempo em que
respeita a diversidade das culturas e há uma mundialização de
homogeneização e de mecanização que tende a destruir esse tesouro que
constitui para a humanidade sua própria diversidade.
86
Nesse sentido, a forma como a sociedade administra, promove ou inibe a
cultura local em seu meio reflete parte de seus valores e hábitos culturais, como o
seu maior ou menor interesse em travar contato com outras sociedades, seu grau de
tolerância frente ao que lhe é distinto, sua vontade de compartilhar ou resguardar o
que é seu.
No bojo dessas mudanças, os meios de comunicação revelam-se como
formas culturais que contribuem para moldar nos indivíduos as maneiras de
apreender o mundo, participando da estruturação da sociedade e sendo por ela
estruturados. A cultura urbana também apresenta tais propriedades e reveste-se dos
caracteres da grande cidade expandida como modo de vida. (BRETAS, 2002, p.53
in CANCLINI, 2006), sendo que uma cultura só se torna efetiva ao concretizar-se no
cotidiano.
A forma privilegiada de inserção da cultura na modernidade ocorre mediante
o consumo que, para além dos bens e serviços, se erige como ética e como
conduta, em vista da grande influência dos meios de comunicação que têm papel
fundamental na formação da identidade e dos hábitos de consumo brasileiros, em
que novas culturas dos grandes centros, ao serem incorporadas pela sociedade,
podem levar à perda da identidade cultural de origem.
Dessa forma, a comunicação midiatizada pela produção de significação
intelectiva e da sensibilidade afetiva social e individual, imprime a prevalência da
mídia como esfera de publicização hegemônica da sociabilidade, dentre os
diferentes espaços socialmente existentes, os quais ampliam setores voltados para
a produção, circulação, difusão e consumo de bens simbólicos.
Nesse processo, o capitalismo se apropria das diferenças de gênero para,
por meio da mídia, criar produtos em que as mulheres passam a ser representadas
na e pela publicidade, dentro da indústria cultural.
Portanto, o enlace da globalização e internacionalização da economia de
mercado, da cultura, arte e política ganhou força na mesma proporção que o poder
da mídia consolida sua capacidade de estabelecer significações, por meio de
imagens que conectam a comunidade global e impactam a local. Nesse sentido, a
87
mídia, enquanto instância de imagem ao vivo, veicula a voz do mercado, imprimindo
a linguagem do consumo.
Isto posto, significa que a mídia produz, desde o estabelecimento da
comunicação de massa, quando da expansão da industrialização e início do
processo de globalização em meados de 1970, produtos voltados para o segmento
feminino, ao mesmo tempo em que este amplia sua inserção nos diferentes espaços
públicos, exercendo diferentes funções, as quais, por força do próprio mercado,
produzem novas exigências estéticas.
Ocupando uma posição cada vez mais destacada na vida de seus
espectadores (sempre mais numerosos), como fonte de informação e de
entretenimento, a televisão reorganizou os ritmos da vida cotidiana, os
espaços domésticos e, também, as fronteiras entre diferentes esferas
sociais. Como demonstrou Joshua Meyrowitz, a mídia eletrônica, sobretudo
a TV, rompeu a segmentação de públicos própria da mídia impressa e
contribuiu para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e
adultos, leigos e especialistas. Aprofundou as transformações no discurso
político, de certa maneira unindo o sentimento de intimidade, transmitido
pelo rádio, com o apelo imagético próprio do cinema. (MIGUEL, 2002)
Os produtos da mídia são disponíveis, em princípio, a uma pluralidade de
destinatários, na medida em que a comunicação de massa apresenta como
característica colocar à disposição de uma pluralidade de receptores, produtos que
por vezes circulavam apenas entre um pequeno e restrito setor da população.
(THOMPSON, 2002)
Portanto, a inserção da mulher na mídia televisiva ainda traz incorporada a
imagem socialmente construída por uma iconografia10 cuja estética da comunicação
vista por Eco (1997, p. 330) “é capaz de instituir gostos e propensões [...] criar
necessidades e tendências, esquemas de reação e modalidades de apreciação [...]”
em que ao estabelecer interação com a recepção, midiatizada pela linguagem e
expressão próprias da comunicação de massa, difunde bens simbólicos como um
fetiche, incorporando-os à vida cotidiana do público.
10
A palavra iconografia vem do grego eikon (imagem) e graphia (escrita), ou seja, literalmente:
"escrita da imagem". Aqui trataremos da referência a imagens ou signos que sejam significativos para
determinadas culturas. Essa discussão sobre as imagens como iconografia implica em uma "leitura"
crítica dessas imagens na tentativa de explorar valores socio-culturais. Um estudo iconográfico pode
ser feito através da identificação, descrição, classificação e interpretação do tema das representações
figurativas.
88
Quando da obtenção de informação junto aos grupos focais quanto à
reprodução da imagem feminina socialmente construída da e pela mulher na mídia
televisiva, temos as seguintes expressões:
Tem muito de interpretação [...] tem menina que vai sonhar em ser
uma Raqueli da vida [...] ser modelo [...] (F. M.)
Eu admiro mais a inteligência [...] outros exploram o corpo [...]
esse eu não gosto (D. M.)
Ela interfere no olhar do homem sobre a mulher. Você não vê um
homem elogiando uma mulher pela inteligência numa rodinha masculina,
mas falando de mulher gostosa (M. L.)
Às vezes as
descaracterizam. (D. L)
mulheres
se
mostram
por
prazer,
mas
A vulgaridade como a TV mostra denigre a imagem da mulher. (C.
S.)
Fica evidenciado nas falas que a imagem da mulher na mídia televisiva tem
sido carregada de sensualidade, com apelo erótico, voltada para o glamour, estética
que formata estilos de vida que determinam por emanar códigos de comportamentos
como na fala que se refere à personagem da novela das sete Raqueli, confirmando
por Hall (1997) quando informa que a
[...] cultura é composta não apenas de instituições culturais, mas também de
símbolos e representações, as quais influenciam e organizam tanto as
ações do cotidiano, como concepções acerca de nós, a identificação [...] e o
significado para nós, a partir de nossa imaginação.
Os estereótipos permanentes são da mulher símbolo da cultura da mulhermenina bela e burra, a exemplo da Raqueli, e da boa ou gostosa que emergem nas
falas acima, ou seja, a imagem feminina mercantilizada para vender qualquer coisa,
oferecida como troféu associado ao produto anunciado, de xampu à casa própria,
estilos de vida, alegria da indústria farmacêutica, dos médicos, cirurgiões, do botox,
silicone, do bisturi, dos hospitais, enfim, dos setores de bens e serviços.
Quanto aos resultados que podem advir a partir desse olhar, as mulheres
informam-nos:
A TV pode denegrir a imagem da mulher [...] a vulgaridade de
algumas [...] mas muitas mulheres fazem isso para ganhar as coisas dela, é
um trabalho [...] às vezes a mulher se mostra também para aparecer,
porque gosta (D. L)
89
Dependendo de como apresenta a imagem denigre [...] (A. B.)
Observa-se aqui que na primeira fala há uma indecisão quanto ao julgar
como “bom ou mau” o comportamento da mulher que se expõe. Não há um caráter
de julgamento no sentido de condenação da mulher que se expõe “vulgarmente”,
mas até uma admiração e certo desejo pela imagem representada, reforçada pela
observação durante o processo de coleta de informações, o que nos revela certa
ambiguidade entre a moral da sociedade e o desejo de querer para si, de consumo.
Se as formas de interação social entre produto midiático e espectador
educam o gosto do público receptor com bombardeio de mensagens, por mais
segmentados que sejam estes destinatários, com certeza a televisão com o seu
caráter espetacular, ao atravessar quaisquer possibilidades de fronteiras entre os
níveis sociais e culturais, ela, a tela mágica, que é tida como detentora de uma
verdade absoluta torna-se o espelho para toda e qualquer adulteração de
comportamento, sejam boas (e/ou más) como referências comportamentais.
Em síntese, a inserção da mulher na mídia representa não apenas um
avanço quanto a sua independência e autonomia, mas também sua exploração
comercial, ao produzir e atribuir às mercadorias veiculadas valor simbólico e
econômico. Assim, em vista da valorização econômica, as formas simbólicas se
tornaram mercadorias e o valor simbólico em bens de consumo, a exemplo dos
insumos utilizados nas artes domésticas, nas receitas, entre outras, em que o valor e
o significado se traduzem em sentimento de sucesso e prazer pelo resultado,
inclusive pela satisfação da família.
O entendimento de como as mulheres analisam os programas televisivos
veiculados na atualidade, foi demonstrado por meio das falas abaixo descritas:
Tem hora que ela ensina coisas boas. Tem programas culturais,
interessantes. O jovem não tem mais paciência de ver TV parado. Fica no
computador comunicando com o mundo inteiro ao mesmo tempo. Os
programas são os mesmos de acordo com o horário. O negocio é vender
produto [...] muita propaganda. (I. G.)
A TV na classe média já não é tão vista como a internet. Ela não
tem programas interessantes. Ela tá focando público de domingo, da tarde.
Fantástico por exemplo mudou a roupagem era de notícia agora tá
procurando agradar. A TV está em decadência e se continuar vai ser
substituída. A TV é quem tem o controle, na internet você tem o controle e
o jovem quer isso. (D. R.)
90
Tem coisa que a gente não pode deixar criança ver [...] tem que
ficar escolhendo. Tem muita coisa imoral. Ensina muita coisa boa, mas
outras ruins. As crianças ficam direto na TV (L. L.)
[...] sessão da tarde é um programa infantil. Não tem nada de
mais. Só passa coisa de criança (D. B.)
A TV traz coisas boas e coisas ruins (I. G.)
Em vista da diversidade de faixa etária e escolarização das participantes dos
grupos focais, estas apresentam diversificadas visões acerca da análise dos
programas veiculados nos canais da TV aberta havendo aquelas que são mais
críticas em relação às programações veiculadas e ao próprio futuro da televisão
como espaço de representação, confirmando a assertiva de Hall (1997) quando
expressa que o significado é construído a partir da localização, do posicionamento
do discurso.
Aqui
podemos
observar
novamente
a
ambiguidade
presente
nas
observações das partícipes dos grupos focais, a partir das falas a seguir.
Não tem muito programa bom pra criança, só de violência ou
então uns bobos pra criancinha (J. S.)
Programas como a grande família são bons, tem carinho (C. B.)
Em outros termos, o significado apresenta-se de forma diferente para cada
qual, vinculado ao seu próprio papel, ora de mãe, esposa, filha, avó, jovem, vez que,
a partir de cada conjunto de representações as falas vinculam-se à forma de pensar
e visualizar as imagens representadas pela televisão. Há uma dispersão tão grande
das identidades, fragmentação esta que torna difícil sua percepção mais apurada
acerca do dito e o não-dito, reforçando o binômio entre “bem e mal”.
Assim, na medida em que se desenvolveram os modos de produção, o
mercado consumidor volta seu olhar não mais para as massas em abstrato, pois
com a diversificação de produtos, novos nichos de mercados, bem como a
introdução de novas tecnologias, automação e fragmentação do mundo até então
conhecido, das novas redes informacionais e seus complexos dispositivos,
permitiram ao mercado abarcar as mais diversas faixas de renda, gostos,
possibilidades e comportamentos (cartão de crédito Mastercard, Riachuelo, C&A).
91
Nesta direção, o mercado de trabalho se amplia para a mulher ao mesmo
tempo em que se especializa, recriando estilos de vida e estereótipos femininos, de
acordo com as funções exercidas, sejam sociais, políticas, culturais e familiares, que
se transformam e reformam numa recomposição de interesses mercadológicos e
imagem que vão sendo criadas e recriadas no processo dinâmico da intersecção
entre realidade e idealização.
Desta forma, as múltiplas funções atribuídas à mulher passam a fazer parte
e compor sua imagem nos diferentes espaços da vida em sociedade com a
tendência de coisificação desta, tomando-a como mercadoria pela lógica do
mercado capitalista, entre estes a medicina, a ciência, arte, beleza que, mediados
pelos meios de comunicação, permitem que o real e o imaginário se mesclem,
imprimindo uma mulher de universo fragmentado, até se tornar objeto de uso e
produto ao mesmo tempo.
Nesta mesma direção, frente ao eixo de análise em relação às
transformações na comunicação midiática e o emergir de uma nova identidade da
mulher brasileira, a indagação trouxe à tona a percepção das partícipes em relação
à inserção feminina no espaço midiático, como apresentadora, redatora, diretora de
programas, entre outras; e como isso contribui para a mudança na identidade
destas.
Ela está incentivando a outras mulheres seguir o mesmo caminho
(D. R.)
É um fardo muito pesado para a mulher [...] ela saiu, mas ainda
volta pra casa pra cuidar [...] principalmente se for de classe social mais
baixa. (J. S.)
Além de trabalhar lá fora ainda cuida de casa (C. S.)
A independência (C. S)
Ela representa muito bem na mídia (A. B.)
Por terem acesso somente à TV de canal aberto com programas mais
populares e com pouca incidência de programas culturais, os mais acessados pelo
grande público são geralmente do tipo talk show, que têm por característica a
naturalização dos estereótipos marcadamente simbólicos, apropriação essa que faz
92
da imagem feminina objeto, símbolo de uma cultura e artefato de memória, algo
como um espetáculo a ser consumido.
De acordo com Debord (2006), muitos ritos já foram incorporados na cultura
popular, cujo processo de reconfiguração dos atos humanos implica dependência de
realidades espetacularizadas.
Outros aspectos observados referem-se à compreensão da visualização das
mulheres de que estes programas acabam por denegrir a imagem feminina, no
entanto, pela própria falta de alternativas de acesso a outras fontes de informação,
cultura e entretenimento, acabam por sucumbir à sedução da mídia televisiva,
mesmo que seja inicialmente para criticar ou assistir de forma passiva o espetáculo
da vida fabricada.
Com o aumento da inserção e do consumo por parte de mulheres nas
tecnologias de informação, o mercado especializa e cria novos produtos para
atendê-las em suas necessidades simbólicas em que o valor estético e o fetiche
marcam as tendências da moda, recriando o universo feminino em cores, detalhes e
proporções marcadamente subliminares, da feminização do mundo do trabalho e da
rua. Exemplo disso são os programas diários direcionados ao público feminino com
dicas de maquiagem, moda, comportamento, sendo o carro chefe as novelas em
horário nobre com suas personagens que representam universos de desejos.
Neste complexo mundo da subjetividade, e sua interlocução com a
objetividade do mundo moderno, do fast food, do full time, na medida em que ocorre
a apropriação por parte da mídia e a ressignificação dos arquétipos e dos mitos que
compõem o cotidiano, contribuem para a formatação do pensar o do agir da mulher
contemporânea, produzindo novos modos de vida.
Enquanto a ideologia moderna induz a feminilidade a uma totalidade
abstrata, vazia de toda realidade que lhe dera inicialmente sentido, a mulher em
meio a marcas de beleza e estética já não se apresenta produtora de sua vida real,
evidenciando que a mídia, para atender às lógicas do mercado, incorpora as
conquistas alcançadas, concernentes às relações de gênero, para atender às
necessidades de produção e reprodução da vida material e imaterial, permanecendo
93
a condição feminina como nicho de mercado, enquanto consumidoras de produtos e
produto de consumo.
“A cultura veiculada pela mídia induz os indivíduos a conformarem-se à
organização vigente da sociedade, mas também lhes oferece recursos que podem
fortalecê-los na oposição a essa mesma sociedade” (KELLNER, 2001, pp.12 e 13).
Com esse pensamento Kellner introduz uma discussão sobre o poder de
representação da mídia a partir da ressignificação do cotidiano da sociedade
contemporânea.
Evidencia-se então que as relações de poder na televisão vão muito além
das imagens explicitamente veiculadas, em que a cultura tem passado por uma recontextualização na sociedade contemporânea, que aponta para entender sua
natureza comunicativa. Portanto, este processo corrobora para novas percepções do
conflito social, a exemplo das mulheres que, posterior à criação dos filhos, retomam
os estudos, passando a viver um processo de rebeldia e resistência em relação à
formação de novas identidades e, por conseguinte, de novos sujeitos.
Nesse sentido, Martín-Barbero (2003, pg. 297), ao analisar a ampliação do
campo da comunicação, deslocando o espaço de interesse dos meios para o local
onde é produzido seu sentido, informa que “significa romper com a segurança
proporcionada pela redução da problemática da comunicação a das tecnologias”, um
retorno ao cotidiano vivenciado, ou seja, pensar a comunicação a partir do que se
vive, a partir da cultura e de gênero.
Nessa perspectiva, ganham expressão os movimentos originados nos
espaços periféricos, os papéis das minorias e as diversas formas culturais, as quais
passam a produzir suas próprias mensagens, independente do valor econômico,
uma vez que cria espaço de subjetivação apropriada pela mídia numa relação entre
o noticiável e o noticiado, mediado pelos meios de comunicação e difundido pela
indústria cultural.
94
3.3 A MÍDIA E O LUGAR DA CULTURA E DO CONSUMO A PARTIR DA
REPRESENTAÇÃO FEMININA
Há uma dinâmica entre mídia, cultura, processos produtivos e consumo, na
medida em que a multidimensionalidade de relações possibilitada pela expansão da
mídia imprime novas conformações sociais, que absorvidas pelos meios de
comunicação passam à condição de produto, retornando às diferentes esferas
sociais, já ressignificadas.
Portanto,
as
transformações
mais
gerais
do
mundo
globalizado
contemporâneo, ao influenciarem e serem influenciadas pelas múltiplas interações
produzem mudanças na estrutura social dos grupos e classe, como também no
modo de ser e estilo de vida das pessoas.
Assim, os meios de comunicação detêm forte influência na formação da
identidade, desempenhando um papel fundamental para o encontro de culturas, sua
apropriação e ressignificação, ao mesmo tempo em que contribuem para moldar nos
indivíduos as maneiras de apreender o mundo, participando da estruturação da
sociedade e sendo por ela estruturada.
Por sua vez, a televisão, ao disseminar elementos da cultura, produz seu
desenraizamento ao transitá-la por diferentes “campos sociais” (BOURDIEU, 2002),
nos quais estão inseridos os indivíduos, a família, grupos de amigos, instituições
educacionais, de trabalho, partidos políticos entre outros.
Com relação à mulher, ao processar sua ascensão econômica, política,
intelectual e social, estas optam por escapar do modelo imposto, substituindo as
representações ate então socialmente construídas de si mesma, e culturalmente
incorporadas no movimento de manifestações das suas particularidades culturais,
criando marcas simbólicas que recriam-se a partir da mudanças inerentes às
sociedades modernas.
Na cultura dominada pelos meios de comunicação de massa e pelas
estratégias de marketing, a publicidade utiliza as expectativas interpessoais
modeladas, a partir de estereótipos para obter maior compreensão de seu públicoalvo. A reprodução audiovisual trouxe a acessibilidade por meio dos signos que são
95
reconhecidos por toda a rede global, difundidos pela mídia e pela publicidade,
oferecendo a possibilidade de se tornar uma mercadoria-signo: um fetiche, pronto
pra ser consumido pelo olhar e pelo desejo, sendo na contemporaneidade tanto
masculino, quanto feminino.
No entanto, uma cultura somente se torna efetiva ao concretizar-se no
cotidiano, dessa forma a família está constantemente modelando e remodelando
seus sentimentos e gostos, expandindo os horizontes de suas experiências, assim
como também vai se modificando por meio de mensagens e de conteúdos
significativos oferecidos pelos produtos da mídia, entre outras coisas.
Esse processo de transformação
não é um acontecimento súbito e
singular, acontece lentamente, imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano, em
que algumas mensagens são retidas e outras esquecidas, umas se tornam
fundamento de ação e de reflexão, tópico de conversação entre amigos, enquanto
outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no refluxo de imagens e ideias.
Neste sentido, a globalização da atividade econômica é uma forma mais
avançada e complexa da internalização da cultura, implicando certo grau de
integração funcional entre as atividades econômicas dispersas e as condutas sociais
que de acordo com Hall (1997), as culturas nacionais são compostas não apenas de
instituições culturais, mas também de símbolos e representações, as quais
influenciam e organizam tanto ações do cotidiano, a concepção acerca de nós, a
identificação com a nação e o significado para nós, a partir de nossa imaginação.
Assim, no contexto globalizado ocorre a interface entre diferentes culturas,
culminando com o descentramento que produz a pluralidade dos grupos no âmbito
de sua territorialidade, onde a cultura originalmente construída convive ou mesmo
perde sua identidade “exigindo implementação de ações que façam emergir
bandeiras multiculturais” (FEATHERSTONE, 1995, p. 95-96).
Em outros termos, todo o processo que produz o entrecruzamento da cultura
com a mídia nos diferentes espaços, em especial com o processo de avanço
tecnológico, não apenas remete a cultura para os mais diversificados espaços, via
sua materialidade ou imaginário, mas também a impele para se constituir em
96
produto de consumo, ou seja, a mídia possui o poder de criar e recriar diversos
espaços de disseminação de significados a partir da apropriação de elementos do
cotidiano.
Nesta direção, o desvelamento de recriação e difusão da cultura transpõe
fronteiras, e a mulher, ao se fazer parte desse processo, tem lugar de destaque na
mídia, seja como produto, seja como sujeito de consumo, sem dúvida, transformado
pela mídia em sua essência, alterando elementos antes considerados como
ultrapassados em novos elementos de consumo que se remanejam como
intrínsecos dentro da modernidade e glamour da sociedade do espetáculo.
Quando indagadas acerca da relação que se estabelece entre imagem
feminina utilizada nos programas de TV e o consumo, as integrantes do grupo focal
informaram:
Eu acho que a mulher convence melhor na propaganda, convence
homens, outra mulher. Ela tem o poder de convencimento muito grande.
Você acaba acreditando porque é uma mulher e compra. (M. F.)
A mulher faz programas melhores (D. L.)
Identifica melhor, o público acaba comprando (A. C.)
As falas confirmam que a utilização da imagem feminina para o
convencimento e credibilidade na venda de mercadorias pelas agências de
publicidade como estratégia à efetivação da compra, apresenta correspondência
com a realidade, vez que a imagem da mulher é carregada de carisma,
confiabilidade, pois está diretamente relacionada com o cuidar do outro, da família,
proteção, solidariedade, carinho, vindo ao encontro do desejo humano da
materialização destes aspectos subjetivos, em um mundo onde as pessoas vivem
cada vez mais atomizadas.
Dessa forma o real deixa de existir para dar espaço a projeções a serem
consumidas, criando uma mulher tipo, imagens estas que geram discriminação ao
universo feminino, reafirmando o mito da mulher-objeto, o que pode ser refletido a
partir de Freire (1993) quando expressa que a necessidade de se adquirir a cosmo
visão, ou seja, atitude de ler o mundo fazendo vínculo entre linguagem e realidade,
vínculo este que não se realiza no imaginário popular, pois se criou uma imagem
97
feminina vista como objeto, atrelada a outro objeto de consumo, reflexo de uma
sociedade voltada para o consumo.
Desta forma, a televisão contribui diariamente para a construção do real,
sendo que para muitos a única informação disponível é aquela transmitida pela
televisão, o campo midiático ocupa um espaço central na divulgação dos grandes
temas nacionais: economia, política e cultura, tornando públicos os temas sobre os
quais o público falará e discutirá.
Porém, o caráter singular da produção de sentido, transmitido por todo o
aparelho publicitário patrocinador, que fala do corpo, dos sentidos, do frescor do
viver, e toda uma linguagem ideológica, cujo eixo é o tema das liberdades
individuais, resulta interessante em si mesmo, uma vez que nele têm origem os
sistemas de representação nos quais são informadas as categorias da identidade e
da alteridade. (AUGÉ, 1994).
Neste sentido, o fundamento da cultura se encontra no retorno a situações e
atos reforçados pela memória coletiva, onde a mídia televisiva convertida em
componente da realidade cotidiana adquire autonomia expressiva nos grupos
sociais. Assim, nesse processo a mulher vem tentando responder de diferentes
formas, ainda que desencontradas, queimando sutiãs, se masculinizando e vai para
o horário nobre, enquanto que nos comerciais de cerveja surge a imagem da
mulher-objeto, sujeito de desejo reafirmando-se como corpo-objeto erótico.
A importância que as imagens têm assumido em nosso cotidiano provocou
certa inquietação em nossas práticas cotidianas, despertando o desejo de discutir o
papel que as imagens como artefatos culturais têm desempenhado na constituição
de identidades culturais.
Na sequência das discussões em relação ao objeto de estudo, ao ser
solicitada uma reflexão sobre a influência da televisão nos modos de viver da
sociedade, da família e nas relações homem/mulher, as mulheres se colocaram
como a seguir:
Cada um faz o que dá na cabeça. Faz se der vontade. Não é
porque ela ta fazendo lá que eu vou fazer aqui não. (D. L.)
98
Tem muita gente que acredita [...] pessoas que o ator morre na
novela e acha que é verdade [...] as crianças acreditam no que ela mostra.
Os programas direcionados não têm valor cultural, moral. Essa
desvalorização é perigosa. (M. L.)
Ela influencia sim. Depende (E. C.)
Chama a atenção para problemas e violência. (A. C.)
Não gosto, a TV estraga. Não deixo crianças assistirem, muita
imoralidade, mudo horário porque as crianças são muito inteligentes (L. L.)
Separo horários, faltam mais programas educativos, não há
programa para a família. (M. J.)
A TV está errada, a violência natural, mau exemplo, confunde a
realidade com ficção. (L. A.)
A TV influencia no comportamento das pessoas [...] deseducam
crianças (I. F.)
Tem pessoa que não sabe o que é uma família. Outros que bater
em filhos não pode porque a lei não permite. Tem pessoas que deixa filho
solto porque não sabe interpretar a lei. (R. D.)
As falas demonstram quase uma unanimidade em relação à influência da
televisão nas relações familiares, comportamento e de consumo, havendo também
hegemonia com relação aos pontos desta reprodução que consideram negativos,
como a violência, imoralidade, contradição com a educação familiar. Lembramos
que o sentido de imoralidade expresso vem alicerçado de uma noção de certo e
errado de cunho religioso, como citado em falas anteriores.
Assim sendo, nos últimos anos diversas pesquisas de atitudes da população
vêm evidenciando o desagrado manifestado por um segmento considerável de
brasileiros quanto ao excesso de violência e as formas de representação das
mulheres na televisão. Pesquisa realizada pela CPM Research revelou, por
exemplo, que amplos setores da população brasileira possuem uma visão muito
crítica sobre vários aspectos da programação de TV.
Outro aspecto que chama a atenção é o debate sobre a qualidade dos
conteúdos veiculados pela TV, destacando como impulsionador deste a Secretaria
Nacional dos Direitos Humanos, em 1999, que ligada ao Ministério da Justiça,
estimulou acordo entre as emissoras de TV visando à elaboração de um protocolo
de controle de qualidade nas programações, a fim de firmar compromisso de tratar
99
com sutileza as cenas de sexo e violência, o que nos remete à classificação
obrigatória dos programas em rede nacional.
Segundo a pesquisa “Fala Brasil”, realizada pela Agência Propeg em 1998,
80% dos entrevistados concordavam com a ideia de que, “de uma maneira geral, a
mulher é tratada como objeto sexual na televisão”.
Nesse sentido, discutimos as fronteiras entre real e imaginário coletivo, e em
que condições o real alimenta-se da imagem e a imagem alimenta-se de real, a
partir da necessidade de interrogar o seu estatuto na cultura, com a suspeita de que
a proliferação dos ícones contemporâneos, mais do que representar a imagem,
oculta a sua ausência. A partir das novas imagens, sustentadas digitalmente,
procuramos apreender e avaliar a ferida ontológica que esta, desde os alvores da
nossa cultura, provocou, bem como as virtualidades que ainda possa ter para a
contemporaneidade.
A influência da televisão traz suas particularidades, haja vista que ao mesmo
tempo em que pode constituir-se em instrumento de democracia, cultura, informação
e formação cidadã, produz o que os críticos denominam de efeito real, qual seja, faz
ver e crer no que se faz ver, permeada pela informação e consumo. Rompe com a
segmentação de públicos própria da mídia impressa e contribui para redefinir as
relações entre mulheres e homens, crianças e adultos, leigos e especialistas,
aprofundando as transformações no discurso, unindo o sentimento de intimidade
transmitido pelo rádio com o apelo imagético próprio do cinema. (BOURDIEU, 1997)
A preocupação com a construção de um estilo de vida expressivo, de chegar
a alguma noção de ordem satisfatória a partir das mercadorias e práticas que
cercam o indivíduo geram uma demanda constante de informação sobre estilos de
vida, porém o individuo que tem “somente uma vida pra viver” encontra uma vasta
coleção de interpretações de bens culturais, experiências e estilos de vida, em que
todos enfatizam a capacidade para a transformação de si mesmo e do próprio estilo
de vida. (FEATHERSTONE, 1995)
Nesse
sentido,
torna-se
relevante
investigar
as
formas
como
a
representação sobre a mulher tem sido construída por meio da mídia televisiva, a
100
partir das tramas dos discursos da mídia que constroem e multiplicam as
subjetividades e identidades dos sujeitos. Ao analisar as imagens, percebemos que
não se trata apenas de uma visão capturada do outro, e por isso a importância de
explorar o significado da imagem televisiva para as relações interculturais e de
consumo.
Por sua vez, apenas em nome do valor individual pode ser superada a
questão da relação entre os sexos, haja vista que a individualização dos
procedimentos nem é tão surpreendente se nos referirmos às análises anteriores:
nunca as histórias individuais foram tão explicitamente referidas pela história coletiva
e os aspectos de identificação coletiva foram tão flutuantes. Assim, a produção
individual de sentido torna-se mais do que nunca necessária, ainda que a sociologia
possa perfeitamente por em evidencia as ilusões das quais procede essa
individualização dos procedimentos e os efeitos de reprodução e de estereotipia que
escapam, totalmente ou em parte, à consciência dos atores.
[...] os sujeitos humanos, por sua vez, carregam a marca dos
elementos objetivos que misturam-se inextrincavelmente à sua vida, e
assim por diante, ao longo de um processo em abismo no qual a
subjetividade é envolvida pelos objetos e a objetividade pelos sujeitos.
(PIERRE LÉVY, 1993, p.174)
Assim sendo, a construção das identidades está baseada na prática de dar
significado às formas concretas de representação, como o discurso, o que torna
possível a identificação feminina ser ou não reconhecida. O espectador está
ativamente modificando-se por meio dos conteúdos disponibilizados pelos produtos
da mídia, sendo que a passagem por esta torna-se obrigatória na sociedade atual, a
partir da sua apropriação das diferentes formas simbólicas de representação
cultural.
Segundo Thompson (2002, p.113), a mídia cria um novo tipo de publicidade,
que o autor descreve como o “espaço do visível”: ele é um espaço não localizado,
não dialógico e aberto, no qual as formas simbólicas mediadas podem ser
produzidas e recebidas por uma pluralidade de outros não presentes.
Para Baudrillard, o sentido é produzido no “intervalo”, no período entre o
recebimento de informações e sua elocubração.
101
Cualquier forma de seducción, que és un proceso enormemente
ritualizado, se borra cada vez más tras el imperativo sexual naturalizado,
tras la realización inmediata e imperativa de un deseo [...]. (BAUDRILLARD,
11
1986, pg. 41)
Trata-se de um decreto da ideologia moderna que denuncia a forma da
mulher em sua feminidade consumidora, escravizada por seu corpo que se
transformou em mercadoria, “la feminidad es el alienado de la mujer”, ou seja, a
feminidade aparece como uma totalidade abstrata, vazia de toda realidade que lhe
pertence em sentido próprio, “totalidad del ordem del discurso y la retórica
publicitária”12 (idem, p. 229-258).
Responde, portanto à ruptura dos sentidos, à fragmentação do tempo, do
vídeo clip, na Internet, meios onde há rapidez e superficialidade, criando dispositivos
técnicos, celulares, áudio, televisão, vozes e olhares que se fixam fora dos corpos
(na superfície) e exercem prazer aos seres humanos. Uma inclusão que se dá pela
negociação além de sua essência, coisificada, a partir de uma lógica masculina.
Lacroix (2002) diz que pesquisadores observam distorções importantes entre
os discursos pronunciados e veiculados na sociedade e as particularidades das vias
imaginárias e simbólicas que fazem ligações psíquicas entre um homem e uma
mulher, demonstrando a existência da diferença entre discurso e realidade concreta,
o que vem em contraponto com a linguagem televisiva que busca exacerbar os
estereótipos maximizando uma imagem de sensualidade da mulher brasileira. O que
tem correspondência direta na mulher ao, ainda que secretamente, cobiçar possuir
não somente os atributos físicos, mas também econômicos e o conhecimento que
deixam tantos homens e mulheres desejosos.
11
Qualquer forma de sedução, que é um processo grandemente ritualizado, se borra a cada vez, mas
traz o imperativo sexual naturalizado, traz a realização imediata e imperativa de um desejo. J.
Baudrillard, 1986, pg. 41.
12
Totalidade da ordem do discurso e a retórica publicitária. Idem, pg. 229-258.
102
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para que se possa elaborar as considerações finais desta dissertação,
necessária uma retrospectiva do caminho percorrido com o objetivo de retomar a
direção ao desvelamento do objeto de investigação “Mulher e sua interlocução com
a mídia televisiva: imagem e subjetivação”, uma vez que é a partir do processo
histórico do lugar da mulher na sociedade historicamente construído, sua vinculação
com os processos produtivos, inter relação privado-público e representação na
televisão, decorrente da alteração das forças produtivas, condições de trabalho e da
busca pela ruptura com sua condição de gênero construída a partir da lógica do
masculino que iniciamos a nossa trajetória.
Para tanto, procurou-se revisitar as mudanças processadas na família, em
que os modelos historicamente construídos apresentam uma conexão com as
alterações do modelo de produção feudal à consolidação do capitalismo, posterior
re-engenharia deste a partir do deslocamento de produção de massa quando as
classes trabalhadoras passam a obter maior poder de compra, inserindo a família na
esfera do consumo.
Nesse processo, a mulher na esfera pública ganha cada vez mais
visibilidade transpondo barreiras de valores, não apenas na relação homem-mulher,
mas de normas jurídicas instituídas pela Constituição de 88 e demais leis
posteriores; das normas sociais, mudanças de pensamento e comportamento, que
contribuíram sobremaneira para a democratização da sociedade brasileira, e
consequentemente para abertura dos múltiplos espaços sociais pelos quais a mulher
transita.
Nesse
sentido,
as
condições
sociais
são
também
condições
de
exterioridades do indivíduo e por meio delas cria-se, recria-se e amplia-se as
relações sociais, surgindo simultaneamente a consciência feminina quanto à sua
condição de gênero, e a rebeldia que se manifesta por meio de lutas e movimentos,
traduzidas em ação materializando e ressignificando as relações cotidianas.
103
Nesse caminhamento, a mulher vem procurando sua realização desde a
inserção no trabalho como atividade, onde a objetividade do processo produtivo
imprime uma subjetividade no indivíduo pela auto-realização, componente intrínseco
à humanidade, particularmente à mulher, haja vista as possibilidades de
emancipação.
A retrospectiva processada possibilitou inferir que, com a pós-modernidade,
a mulher passa a situar-se de forma mais expressiva na esfera pública, lugar de
expressão em que a sua condição de gênero passou a sofrer alterações mais
significativas, na medida em que a estruturação da esfera global da política,
economia e cultura, encontrou como principal mediador os meios de comunicação,
um dos grandes responsáveis pela difusão e criação de novos padrões e valores
objetivos e subjetivos.
Na articulação dos diferentes contextos, emergem diversas linguagens nos
discursos pronunciados e veiculados na sociedade, gerando campos de sentido e
significados publicizados pelas vias imaginárias e simbólicas da televisão que
acompanha a trama do consumo cultural, fazendo ligações psíquicas entre real e
imaginário coletivo, recriando diferenças entre o discurso e realidade concreta.
Tudo vale para a indústria midiática que procura na atualidade oferecer
consumidores para as empresas anunciantes. O espaço ou tempo publicitários de
onde provêm as maiores receitas para a indústria tornam-se mais valiosos do que o
produto midiático oferecido. Assim, a televisão ganha escopo ao mesmo tempo em
que substitui a informação formadora do cidadão a estratégias instrumentalizadas,
muitas vezes sensacionalistas e que inferem no comportamento das sociedade.
Assim, de acordo com Canclini (2005), o cidadão é hoje um cidadãoconsumidor, não somente portador de cidadania ativa, alguém que tem o direito de
ter direitos, mas estes não estão mais associados à noção de indivíduo, não
expressando o mito da igualdade da revolução francesa; os direitos não são mais
inerentes, mas deslocados para o plano das necessidades, para o campo do
particularismo, o que pode ser verificado a partir das representações capturadas por
meio dos grupos focais.
104
Distinta e contraditória, a história da mulher brasileira é densa de
determinações éticas, raciais, rurais e urbanas, regionais e culturais, portanto
carregada de particularidades que conformatam as suas relações nos diferentes
espaços da família, do trabalho, da cultura na contemporaneidade, imprimindo
traçados difusos ao novo reordenamento das práticas culturais.
A partir das considerações acima, podemos indagar se os programas
televisivos são baseados nos papéis desempenhados e construídos socialmente por
homens e mulheres, mas de forma generalizada, não colocando em xeque a
transitoriedade das identidades, não questionando os sistemas de representação
que dão sentido à marcação da identidade. Para se iniciar uma transformação de
conceitos, visões, concepções deve-se levar em conta o conteúdo das mensagens
veiculadas, e que a hegemonia que ela apresenta é temporária e precisa de
consentimento para ser mantida.
Acreditamos que o senso comum que permeia o conteúdo do que é
produzido pela televisão, suas mensagens e signos, predispõe o telespectador a
conservação de visões, conceitos e concepções, pois a representação audiovisual e
a linguagem do meio reforçam esse mesmo senso comum para chegar ao
consentimento do público. Dessa forma, estudos e discussões acerca da linguagem
em televisão constituem-se um dos pontos de estrangulamentos à abordagem da
cultura como espaço de negociação, conflito, inovação e resistência, delineadas
pelas relações de gênero.
As mulheres aqui representadas reforçam que a circularidade dos discursos
inseridos nas diversas esferas sociais e nos conteúdos midiáticos, reafirmam
estereótipos e constroem as bases para o estabelecimento do que é considerado
como “aceitável”, normal. As mensagens acerca do feminino registradas nas falas e
nas diversas situações vivenciadas estiveram apoiadas em sentimentos que
tradicionalmente permeiam a construção da imagem da mulher na sociedade atual.
Percebe-se que o modelo patriarcal de família foi incorporado nas
representações aqui apresentadas, o discurso é permeado pela necessidade de um
modelo pai, mãe, filho. Ainda que os novos arranjos familiares sejam citados, e que
muitas delas tenham optado pelo divórcio ou separação de seus cônjuges, sendo
105
chefas da família, ou mesmo as mais jovens solteiras, a ambigüidade se faz
presente ao citarem o modelo nuclear de família como o ideal.
Aqui surgem as instâncias de controle social como a religiosa traduzindo em
fator determinante para reificação das noções que explicariam as razões do
preconceito vivenciado por muitos que desafiam viver fora desses padrões, como
casais gays e mulheres separadas, algumas com filhos de casamentos diferentes.
Instâncias estas responsáveis pelo padrão de comportamentos fixos e supostamente
imutáveis.
A televisão não manda ninguém fazer o que faz, antes autoriza, como
espelho premonitório que seja feito o que já é feito, pois na sociedade do espetáculo
a dimensão do consumo prevalece, operando sobre o circuito da satisfação
pulsional, convidando o telespectador ao gozo dos objetos que estão no mercado e
supostamente para atender não à realização simbólica dos desejos, mas à
satisfação das necessidades.
Nota-se nas mensagens veiculadas pela televisão o afinamento com as
exigências do mercado que exalta a beleza e a juventude, corpos perfeitos como de
manequins, revestidos de sentido e compartilhados com a audiência, assimiladas
pelas mulheres representadas a partir de seu discurso. Percebe-se que as
mensagens deixaram muitas vezes de ser questionadas e problematizadas no
âmbito da manutenção de concepções, estereótipos, no desempenho dos papéis
sociais e preconceitos, e passam a ser idealizadas e desejadas, afinal, que mulher
não desejaria ser ou parecer uma Gisele Bünchen? É a feminilidade que surge,
aflora o momento em que o ser feminino supera a idéia feminista não de igualdade
de direitos, mas inserindo fortemente desejo de complementaridade do ser mulher.
Esclarecemos que a igualdade de direitos não se opõe à diferença dos
gêneros de vida e das relações consigo mesmo, é pouco provável a sociedade se
tornar unissex, mas o importante é que a sociedade inventada pelas mulheres não é
uma sociedade para as mulheres, mas para todos, em particular para homens e
mulheres. (TOURAINE, 2007)
106
Algo interessante é que a mulher transforma as reflexões de lutas e
liberação feminina em uma experiência de consciência de si, o que é completamente
diferente, conduzindo a criação de uma concepção nova da personalidade e da
cultura. Em parte porque o pensamento político lhe parece muito ligado a situações
ultrapassadas ou ainda de muita corrupção e jogo de interesses, ou porque a ação
coletiva está submersa por uma maré que leva todos em direção ao individualismo
consumidor. Atualmente, o pós-feminismo tende a dar novamente prioridade à
sociedade civil e, sobretudo, à vida pessoal.
Ressalta-se que as multifacetadas expressões da questão de gênero estão
presentes nos debates acadêmicos e na sociedade, buscando a superação do olhar
do senso comum. Se “a economia se insere nos processos da cultura da mídia e
como ela acaba por estruturar até mesmo o tipo de texto que é produzido na
indústria cultural” (KELLNER, 2001, p. 38) concordamos com Bourdieu (2002) que
“[...] a análise crítica do papel da televisão é um elemento capital da luta contra a
imposição da visão dominante do mundo social e do seu devir”.
Entre apocalípticos e integrados ficamos com a visão de que esses mesmos
espaços podem ser melhor utilizados se nos seus conteúdos houver a constante
atenção em rever e problematizar estigmas estéticos e condutas sociais, já que no
senso comum pode haver espaço para a conformação de subordinação mas
também de espaços para transformações e resistências.
107
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO, Clara. Marxismo, feminismo e o enfoque de gênero. In: Crítica Marxista.
São Paulo, Boitempo, nº11, 2000, p.70.
AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade.
Trad. Maria Lucia Pereira. Campinas; São Paulo: Papirus, 1994. Coleção Travessia
do Século.
ARENDT, H. A condição humana. Tradução: R. Raposo. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1958-1999.
ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978,
1981, 1986.
BARBOSA, P. L. N. O papel da imagem e da memória na escrita jornalística da
história do tempo presente. In: GREGOLIN, M. R Discurso e mídia: a cultura do
espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003. p. 111-124.
BAUDRILLARD, J. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o
surgimento das massas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
_______________. De La Seducción. Coleção Teorema. Série Mayor. Madrid, 1986.
_______________. Simulacros e Simulação. Tradução Maria João da Costa Pereira.
Lisboa: Relógio D’Agua, 1991.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em
mercadoria. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BILAC, E. D. Sobre as transformações nas estruturas familiares no Brasil. Notas
muito preliminares. In: Ribeiro, I. e Ribeiro, Ana Clara T. (orgs.) Família em
processos contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira. São Paulo,
Loyola, 2003.
BOURDIEU, Pierre. A dominação Masculina. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de
Janeiro. 2. ed. Bertrand Brasil. 2002.
_________. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
CALDERÓN, Adolfo Ignácio e GUIMARÃES, Rosamélia Ferreira. Família: a crise de
um modelo hegemônico. Revista Serviço Social e Sociedade, nº 46, ano XV, dez/94.
Cortez: São Paulo.
108
CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos: Conflitos Multiculturais da
Globalização. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 2006.
CASTELL, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. V.1. In A
sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano - Artes de Fazer. Petrópolis, RJ: Vozes,
1994.
CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. 2. ed. Tradução de Viviane
Ribeiro. Bauru: EDUSC, 2002.
DEBORD, G. a sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do
espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. 7. reimpressão. Rio de Janeiro:
contraponto, 2006.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Tradução Luiz Roberto Salinas Fortes. São
Paulo: Perspectiva, 2006.
DURHAM, Eunice. Família e reprodução humana. In: Perspectivas antropológicas da
mulher. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, v.3, p.44.
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1997.
ENGELS, Friederich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Coord. e pref. à ed.bras. de Izabel
Magalhães. Trad. Izabel Magalhães et al. Brasília: Editora UnB, 2001.
FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Studio
Nobel, 1995.
FISHER, R. M. B. Mídia e educação da mulher: uma discussão teórica sobre modos
de enunciar o feminino na TV. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 586-599,
2001.
FLAX, Jane. Pós-Modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In:
BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (org.). Modernismo e Política. Rio de Janeiro:
Rocco, 1991.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979
__________. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,
1998.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a pedagogia do
oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
109
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GOMES, Maria Carmen Aires. Mulheres e Política: analisando a representação
sociocultural midiática. Revista Linguagem em (Dis)curso, volume 7, n. 2, maio/ago.
2007. ISSN 1518-7632.
GUEIROS, Dalva Azevedo. Família e proteção social: questões atuais e limites da
solidariedade familiar. In: Revista Serviço Social e Sociedade. São Paulo: Cortez, nº
71, Ano XXIII, ESPECIAL, 2002, p.102 a 121.
HALL, Stuart. Identidades Culturais na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,
1997.
______. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998
HEIBORN, Maria Luisa. Gênero e Condição Feminina: uma abordagem
antropológica. In: Mulheres e políticas públicas. Rio de Janeiro: IBAM/UNICEF,
1991.
Hobsbawn E. A era dos extremos - o breve século XX. Companhia das Letras, São
Paulo, 1995.
JODELET, Denise (org.). As representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.
JOVCHELOVITCH, Sandra. Representações sociais e esfera pública: a construção
simbólica dos espaços públicos no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2000.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. São Paulo: Edusc, 2001
KEY, Wilson Bryan. A era da manipulação. São Paulo: Scritta, 1996.
LACROIX, Xavier. Homem e Mulher: a inapreensível diferença. Tradução Lúcia
Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 2002.
LANE, Silvia Tatiana Maurer. Usos e abusos do conceito de representação social. In:
SPINK, Mary Jane (org.). O conhecimento cotidiano: as representações sociais na
perspectiva da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1993.
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In HOLLANDA, Heloísa Buarque de
(org). Tendências e impasses: O feminino como crítica da cultura. Rio de Janeiro:
Rocco, 1994.
LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. São Paulo: Ed. 34, 2002.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades de São Paulo. São Paulo: Cia. das Letras,
1995.
LIMA, F. B. & PRIOLLI, Gabriel. Televisão e Vídeo. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.
110
MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e
hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.
MATTELART, Michele; MATTELART, Armand. O carnaval das imagens: a ficção na
TV. São Paulo: Brasiliense, 1989.
MATTELART, Armand; NEVEU, Érik. Introdução aos estudos culturais. São Paulo:
Parábola, 2004, 215p.
MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem. 14. ed.
São Paulo: Cultrix, 2005.
MELO, Jacira. Relatório sobre o Capítulo J: A Mulher e os Meios de Comunicação.
Plataforma de Ação de Pequim. IV Conferência Mundial sobre a Mulher. Janeiro,
2000.
MELO, José M., GOBBI, Maria C., BARBOSA, Sérgio. Comunicação LatinoAmericana: o protagonismo feminino. São Bernardo do Campo: UMESP;
Adamantina: FAI, 2003.
MIGUEL, Luis Felipe. Os Meios de Comunicação e a Prática Política. Lua Nova Nº
55-56, 2002.
MIOTO, Regina Célia Tomaso. Família e Serviço Social. Revista Serviço Social e
Sociedade, 55, XVIII, São Paulo: Cortez, novembro de 1997.
MORIN, Edgar. Cultura de Massas no século XX: necrose. Trad. Agenor Soares
Santos. 3.ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2003.
PASSOS, Elisabeth da Silva. Os estudos de “gênero” e algumas reflexões de caráter
espistemológico acerca das pesquisas históricas. Anais do VII Seminário Fazendo
Gênero, UFRJ. 28, 29 e 30 de 2006.
PRADO, D. O que é família. São Paulo: Brasiliense, 1985.
RIAL, Carmen. Os Charmes dos fast-foods e a globalização cultural. Florianópolis:
UFSC, 1995.
SARLO, Beatriz. Escenas de la vida posmoderna. Buenos Aires: Seix Barral, 2004.
SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis:
Vozes, 1999.
______. PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
SWAIN, T. N. Mulheres, sujeitos políticos: que diferença é esta? In: SWAIN, Tânia;
MUNIZ, Diva do Couto (Orgs.) Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas
políticas. Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2005.
111
TEMER, Ana Carolina R. P. Mais Você: uma análise da revista feminina na televisão.
Trabalho apresentado no XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação,
UERJ, 5 a 9 de setembro de 2005.
THERBORN, Goran. Sexo e Poder – A Família no mundo: 1900-2000. São Paulo,
Contexto, 2006.
THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia.
Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 1998; 2002.
TOURAINE, Alain. O mundo das mulheres. Trad. Francisco Morás. Petrópolis:
Vozes, 2007.
VIEIRA, Madalena R. Educar sem Discriminar: um desafio, uma conquista. In.
Gener(and)o na UFMT. Marluce Souza e Silva (org). Coleção Universidade e o
Mundo do Trabalho. Cuiabá, Adufmat, 2001.
VIEIRA, Vera. Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global 2005
(GMMP). São Paulo/Brasil, 16 de março de 2005.
WOODWARD, Katryn. Identidade e diferença: uma introdução teórico e conceitual.
In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença a perspectiva dos estudos
culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
Download

Clique aqui para realizar o