I MARLI BARBOZA DA SILVA A MULHER E SUA INTERLOCUÇÃO COM A MÍDIA TELEVISIVA: IMAGEM E SUBJETIVAÇÃO Dissertação apresentada ao programa de Mestrado em Estudos de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagens. Área de Concentração: Estudos Literários e Culturais Orientador: Prof. Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT Instituto de Linguagens – IL Cuiabá 2009 II MARLI BARBOZA DA SILVA A MULHER E SUA INTERLOCUÇÃO COM A MÍDIA TELEVISIVA: IMAGEM E SUBJETIVAÇÃO Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT Instituto de Linguagens – IL Cuiabá 2009 III UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE LINGUAGENS COORDENAÇÃO DE PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM – MESTRADO ___________________________________________ Professora Drª Gisela Grangeiro da Silva Castro Examinadora Externa (ESPM/SP) ___________________________________________ Professor Dr. Yuji Gushiken Examinador Interno (ECCO/UFMT) ____________________________________________ Professor Dr. Mario Cezar Silva Leite Suplente (MeEL/UFMT) ____________________________________________ Professor Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos Orientador (MeEL/UFMT) Cuiabá, ___/___/______ IV AGRADECIMENTOS A Edson Santanna da Silva, meu pai, pelo exemplo de que o importante na vida é amar e deixar que cada um cometa os próprios erros, mas que encare a vida com honestidade. A minha mãe, irmãos e familiares que me acompanharam e apoiaram, mesmo, às vezes, sem entender o porquê da minha paixão pela academia. As amigas Ana Paula, pelo retorno e pela convivência e Ângela por iluminar nossos caminhos com sua doçura e lealdade. Irmãs de alma. Ao Professor Dr. Juan Felipe Sánchez Mederos, amigo e orientador, que me permitiu errar quantas vezes fosse necessário para que encontrasse o meu caminho. Ao nosso Programa de Mestrado MeEl, na pessoa das professoras Doutoras Claudia Graziano e Maria Rosa Petroni, que sempre nos ouviram e tentaram acalmar nos momentos de ansiedade e a todos os secretários que por lá passaram. E a FAPEMAT, pelo apoio que me permitiu realizar esta etapa de minha carreira. Aos professores Doutores do nosso curso, Mario Cezar, Sirlei Silveira, Yuji Gushiken, Ludmila Brandão que me iniciaram na busca pelo conhecimento durante esses dois anos. Um agradecimento especial a Deus, por meus filhos e sua compreensão. Um dia eles vão entender as ausências da mamãe. Fica minha dívida para com as amigas Delma Rosa e Maria de Fátima. Um dia vou poder retribuir o carinho, a atenção e todo o trabalho que dei a vocês. Às maravilhosas mulheres que se tornaram amigas durante o processo do fazer. Aqui está meu retorno a vocês. V DEDICATÓRIA Ao meu pai e aos meus filhos, lados de uma mesma história. VI RESUMO SILVA, Marli Barboza. Mulher e sua interlocução com a Mídia Televisiva: imagem e subjetivação. Dissertação de Mestrado. Cuiabá, 2009. A presente dissertação tem como objetivo refletir sobre a representação feminina transmitida pela mídia televisiva, capaz de ditar as normas de comportamento a serem incorporadas no cotidiano da mulher brasileira. Tomando por base a mídia audiovisual como espaço de ressignificação do feminino na busca pelo processo de incorporação e subjetivação dos bens simbólicos pelas mulheres telespectadoras e da imagem feminina como produto e veículo de consumo. O trabalho fundamenta-se em pesquisa documental e bibliográfica, em publicações de diversos focos científicos na perspectiva de gênero e mídia televisiva brasileira, cujas categorias de análise possibilitaram atingir os objetivos da investigação e os resultados da presente dissertação. Como método se utiliza a perspectiva empírica, e como método de procedimento a descritiva. A observação de comportamentos por grupos focais permite um levantamento de dados com os elementos que visam à interlocução mulher e mídia, subjetividades coletivas sem enfatizar perfis femininos. Em síntese, a compreensão da representação se dá numa interlocução dialética entre categorias e instrumentos da pesquisa, a partir dos eixos temáticos definidos. Palavras-chaves: mídia. gênero. consumo. espaço público. identidade. VII ABSTRACT SILVA, Marli Barboza. Women and their communication with the television media: image and subjectivity. The Master's Thesis. Cuiabá, 2009. This thesis aims to reflect on the representation of women transmitted by the television media, able to dictate standards of behaviour to be incorporated into the daily life of the Brazilian woman. Based on audio visual media like area for remeaning females images in search of the subjectivity’s incorporation process trough symbolic goods consumers in mass media using women as vehicle for consumption of products. This analyses is based on documentary research, literature and publications from various scientific outbreaks in the perspective of gender, even considers Brazilian television, whose questioning categories make possible the achievement of research, resulting in this dissertation. The approach method focuses the comprehensive perspective, and permits some procedures to be descriptive, when considering focus group by technical for data collection. The understanding of the representation gets sense in a dialogue and dialectic between searching tools categories extracted and applied in defined thematic axes. Key words: media. gender. consumption. public space. identity. VIII SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 9 OBJETIVOS ....................................................................................................................... 12 PROBLEMA ....................................................................................................................... 13 METODOLOGIA ................................................................................................................ 13 CAPÍTULO I – A FAMÍLIA E SUA INTERLOCUÇÃO COM O LÓCUS MIDIÁTICO: RELAÇÕES EMBLEMÁTICAS ........................................................................................ 17 1.1 HISTÓRIA DA FAMÍLIA ............................................................................................. 17 1.2 FAMÍLIA E RELAÇÕES SOCIAIS: IDENTIDADE E COMPORTAMENTO .......... 24 1.3 FAMÍLIA, ESPAÇOS SOCIAIS E REPRESENTAÇÃO DO COTIDIANO. ............ 31 CAPÍTULO II – AS IDENTIDADES DE GÊNERO: O LUGAR DA MULHER SOCIAL CULTURALMENTE CONSTRUÍDO ................................................................................ 41 2.1 RESSIGNIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO E O EMERGIR DE UMA NOVA CONDIÇÃO DA MULHER ................................................................................................ 41 2.2 AS TRANSFORMAÇÕES NA COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA E O EMERGIR DE UMA NOVA IDENTIDADE DA MULHER BRASILEIRA ................................................ 48 2.3 AS CATEGORIAS REPRESENTAÇÃO SOCIAL E GÊNERO EM ANÁLISE ...... 57 2.4 A MÍDIA E REPRODUÇÃO DA IMAGEM SOCIALMENTE CONSTRUÍDA DA E PELA MULHER ................................................................................................................. 64 CAPÍTULO III – A MÍDIA TELEVISIVA, GLOBALIZAÇÃO E CULTURA NA CONTEMPORANEIDADE. ............................................................................................... 74 3.1 COMUNICAÇÃO E MÍDIA TELEVISIVA NO CENÁRIO ATUAL ........................... 74 3.2 TELEVISÃO COMO ESPAÇO DE RESSIGNIFICAÇÃO: O DISCURSO FEMININO.......................................................................................................................... 83 3.3 A MÍDIA E O LUGAR DA CULTURA E DO CONSUMO, A PARTIR DA REPRESENTAÇÃO FEMININA ...................................................................................... 94 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 102 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 107 9 INTRODUÇÃO Como parte constitutiva do processo de busca de uma identidade coletiva e de igualdade de gênero, desde o século XIX inicia-se o movimento pela igualdade de direitos políticos, quando a mulher procura ampliar seus espaços para além do privado, processando sua inserção nos espaços políticos e de produção na busca pela superação das desigualdades de gênero historicamente e culturalmente construídas. Durante séculos, o espaço da mulher fora circunscrito à esfera doméstica, devido à cultura de dominação e submissão imposta pelo homem, que estabelecera papéis sociais a partir da divisão sexual do trabalho. Nesse sentido, a definição de papéis, inicialmente fruto da distinção da biologia, foi sendo construída e desconstruída, tendo como parâmetro a cultura e modificada de acordo com cada contexto social. Portanto, a cultura de gênero imbricada por um conjunto de representações teve rebatimento no cotidiano da sociedade a partir dos paradigmas que antes pressupunham a construção de ser mulher em oposição a ser homem. Em se tratando da relação homem-mulher, historicamente alicerçada por relações desiguais que perpassam pela diferença sexual, a construção do modelo igualitário moderno foi sendo concebida a partir da transgressão e ultrapassagem da ordem antiga e do imaginário masculino, fundamentado na recusa de uma vida conjugal subalterna, vindo a mulher a assumir seu lugar como ator social, colocando-se como sujeito humano e específico. Por sua vez, a história de mudanças e lutas da mulher na sociedade não pode ser pensada desvinculada da realidade ou em etapas rígidas de desenvolvimento, mas, sim, a partir de processos relacionais e dialéticos decorrentes das transformações econômicas, políticas, sociais e culturais impulsionadas pela ciência e tecnologia da informação. Assim, o processo de desconstrução da cultura hegemônica criado pela sociedade masculina com a divisão dos papéis e deslocamento das relações de 10 gênero para o campo das relações entre sexo, com a dualidade entre superioridade e inferioridade ocorrera de forma mais expressiva a partir do século XX, com a industrialização/urbanização as quais contribuíram para que a contradição existente nas relações de poder do masculino sobre o feminino fosse questionado. Por conseguinte, corroboraram as alterações da condição social e política da mulher, o desenvolvimento e consolidação do capitalismo, a revolução das técnicas dos meios de produção, de transportes e comunicação, bem como o crescimento acelerado das cidades, conjunto de determinantes que imprimiram novas conformatações nas relações na e da sociedade, quando a família começa a ser remodelada. Ao mesmo tempo em que desenvolvem e reorganizam a produção, as relações de trabalho, desenvolvimento científico e tecnológico, ampliam-se os meios informacional e de comunicação, constituindo um sistema que ultrapassa as relações sociais, antes pautadas simplesmente nos espaços físicos sociais, denominado terceira onda. Como parte constitutiva desse processo, a mulher, na busca incessante pela sua inserção no espaço público, seja por necessidade material ou imaterial, vê na televisão um local de projeção de seus desejos e necessidades. Esse novo espaço de visibilidade da imagem feminina pode ser utilizado na luta pela igualdade de gênero, ainda que se constituem instrumento que incorpora com maior ênfase o imaginário coletivo calcado em preconceitos e no valor de uso incorporado pelo capital, atribuindo à imagem da mulher uma nova representação fundada no mercado e no consumo. A partir dessa assertiva pode-se inferir que entre os anos de 1950 e 1970 a mulher amplia sua relação para além do mercado, se projetando nos demais campos da vida social, a exemplo da política, educação, cultura, artes, sem, contudo, superar as práticas tradicionais atribuídas pela sua condição de gênero. Por sua vez, o divisor de águas concernente a mudanças significativas por parte da mulher em termos de comportamento, atitudes, valores ocorre nos anos 80 e 90 quando, coincidentemente, acontece o deslocamento do capital monopolista 11 para a financeirização da economia, a reconfiguração dos mercados globais e expansão da mídia como mediadora das relações do mercado e do consumo, capturando-a, ao mesmo tempo, nas malhas dessa nova cultura, no jogo binário entre espetáculo e realidade. Assim, o mundo interior humano e a realidade objetiva são dominados pela imagem e suas linguagens na era da comunicação, sendo por meio destas que se constrói o pensar e se organizam os produtos de interesse do capital que, articulados aos interesses introjetados no segmento feminino reconstroem significados e interpretações, originando novas representações femininas. Desta forma, entre os meios de comunicação a televisão aberta constitui-se num instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação cultural, em que o consumo ideologicamente difundido na sociedade de forma subjetiva, torna-se imprescindível à sobrevivência dos estilos de vida da sociedade, a medida que o consumo passa a constituir valores intrínsecos aos modos de viver de parte significativa das mulheres. Nesse sentido, a mídia tem assumido fundamental importância na representação do cotidiano das mulheres, a partir do visual, gestual, sonoro induzindo à construção de identidades plurais em diferentes espaços sociais. Portanto, a mulher no deslocamento e redimensionamento do espaço privado, ao mesmo tempo que conquista projeção social, civil, jurídica, sexual, erótica, estética, também rompe fronteiras que ultrapassam territórios, contexto em que a televisão é grande colaboradora na construção de uma identidade feminina porque possui mecanismos que levam a mulher a ressignifica-se material, espiritual, funcional e esteticamente. Assim, a utilização de imagens femininas por esta mídia traz imbricada a construção de novos comportamentos e atitudes que formatam estilos de vida, criando uma hiper-realidade que reflete no espaço subjetivo da família a partir da naturalização de estereótipos e mitos, ao mesmo tempo que imprime na mulher o estabelecimento de novos padrões de conduta, impelida pelo excessivo consumo, reivindicações sociais e valores estéticos estereotipados. 12 Nesta perspectiva, a categoria gênero1 ainda continua concebida como construção social do masculino, especificamente tratada como símbolo cultural evocadora de representação, conceitos normativos numa teia de interpretações, significados, organizações e instituições sociais, em identidades subjetivas concomitantes. (SCOTT, 1988) Assim, a partir da recriação que a mídia faz da mulher como instrumento de branding, consegue inclusive reinterpretá-la como artefato de memória coletiva disfarçada em símbolo de uma cultura. Papel primordial para tal iconografia acontece via mídia televisiva, onde para além de uma remodelação cultural, ou um espetáculo a ser consumido, constitui-se em instrumento e meio disseminador que extrapolam fronteiras regionais e culturais. Em síntese, todo o processo que produz o entrecruzamento de culturas com a mídia nos diferentes espaços geográficos, no processo de globalização e avanço tecnológico, assume uma compreensão cultural impelindo-a a constituir-se em produto de consumo pelo seu imaginário materializado. Os meios de comunicação criam e recriam diversos espaços a partir da apropriação de elementos do cotidiano, submetendo-os a uma disseminação de culturas. Nesse desvelamento desaparecem fronteiras, e a mulher, dentro desse processo, adquire destaque, seja como produto, ou como sujeito de consumo. OBJETIVOS Objetivo Geral A escolha da temática procura compreender a representação feminina mediada pela televisão, focalizando o papel desta e os objetivos que esclarecem a questão de gênero, as desigualdades construídas socialmente entre homens e mulheres, juntamente com um possível vínculo da interlocução mediada na construção de novas identidades orientadas para o consumo. 1 Constitui uma ferramenta para desconstruir a ligação entre mulher e natureza, e, assim, possibilitar o entendimento de igualdade entre homens e mulheres, servindo também para produzir efeitos práticos. 13 Objetivos Específicos: - Compreender as mudanças nas relações familiares nos diferentes contextos e sua emblemática interlocução com o lócus midiático; - Analisar as mudanças intrínsecas ao processo histórico-social da mulher nas relações gênero, produção e vida em sociedade, e de ressignificação identitária; - (Re)construir o cenário da televisão enquanto espaço de ressignificação do feminino, a partir das imagens como artefatos interculturais e das relações de mercado; - Compreender a representação da mulher telespectadora e sua interlocução com a televisão, por meio das categorias gênero, identidade, família, globalização e cultura, sob a ótica do consumo. PROBLEMA Como se representa e se vê representada a mulher do município de CuiabáMT, na mídia televisiva brasileira. METODOLOGIA A presente dissertação está organizada em três capítulos que incluem interseções temporais e encaminhamentos concomitantes que se correspondem com um diálogo dialético entre o resultado das entrevistas no trabalho de campo. A pesquisa teórica admite um estudo de caráter exploratório, estabelecido para responder aos objetivos específicos da linha de estudos selecionada que aborda os grupos focais, nela descritos. As categorias de análise nos permitiram a interlocução das referências teóricas com os resultados da pesquisa a partir dos sujeitos, como opção didáticometodológica de organização da presente dissertação. 14 Assim, a partir das categorias trabalhadas, criam-se os eixos temáticos de identidade, espaço público e gênero, os quais formatam a instrumentalidade necessária aos procedimentos teórico-metodológicos adotados. Para tanto, constitui-se de revisão do marco teórico de referência norteadora do objeto de pesquisa “mulher e sua interlocução com a mídia televisiva: imagem e subjetivação” para análise da família, consumo e representação social que, num movimento de articulação com as categorias posteriores, possibilitaram compreender as imbricações decorrentes das novas tecnologias acessadas pelos atores sociais partícipes do processo de validação de realidades e subjetividades questionadas neste trabalho. Para tanto, respalda-se nos autores Ariès (1978, 1981, 1986); Engels (2000); Gueiros (2002); Canclini (2006); Levi-Strauss (1995); Therborn (2006); Sodré (1999, 2002); Calderón (1994); Bilac (2003), Spink (1993); Jodelet (2001); Jovchelovitch (2000); Lacroix (2002); Bourdieu (2002) entre outros, enquanto principais representantes das discussões acerca daquelas categorias. A segunda fase se respalda no enfoque dos estudos culturais latinoamericanos buscando os novos olhares da mídia, sobre a temática da mulher nos estudos culturais. Para tal articulação, as categorias de referência foram espaço público, privado, gênero; comunicação e identidade; imagem e mídia. Respaldam-se em autores como Fischer (2001); Vieira (2001); Rial (1995); Augé (1994); Sarlo (2004); Lauretis (1994); Lacroix (2002); Beauvoir (1949); Saffiotti (1987); Foucault (1998). Na realização da terceira fase abordam-se as produções dos autores Thompson (2002); Eco (1997); Hall (1997); Featherstone (1995); Pierre Levy (2002); Baudrillard (1986); Foucault (1979); Willians (2000) nas quais se visualizam estudos categoriais sendo estes: globalização, cultura e contemporaneidade, sendo as duas primeiras partes constitutiva do instrumental de pesquisa. Faz-se necessário registrar que outros autores foram referenciados na medida em que complementam reflexões e interlocuções das categorias, tendo a pesquisadora tido o cuidado de fundamentar naqueles que apresentam conexões 15 entre si complementando-se, partindo do pressuposto de que o objeto de estudo não pode ser compreendido deslocado do conjunto teórico e da base real, num movimento dialético, por conseguinte, histórico-social. Para tanto, apoiou-se no método reflexivo referenciado nas ciências humanas que permite compreender os aspectos intrínsecos à vida social e seus determinantes culturais nos diferentes contextos e interpretações, ancorado nos enfoques de gênero e nas marcações simbólicas socialmente construídas nos múltiplos espaços sociais para além das fronteiras na contemporaneidade. A abordagem metodológica qualitativa menos estruturada para lidar com as informações mais subjetivas (CALDER, 1977), permitiu a maleabilidade de seu caráter exploratório, utilizando-se para tanto a técnica de grupo focal por possibilitar aprofundar o conhecimento sobre o objeto e mapear as perspectivas de entendimento dos temas (GONDIM, 2002) constitutivos dos eixos temáticos que conformatam o instrumental da investigação. A relevância da utilização desta técnica está na possibilidade de se permitir identificar percepções, sentimentos, atitudes e ideias dos participantes a respeito dos eixos de análise. Do ponto de vista do universo da pesquisa, escolheram-se mulheres de diferentes espaços e esferas sociais para participar do grupo focal, tendo como critério: professoras universitárias, estudantes universitárias, donas de casa que não atuam no mercado formal de trabalho com diversos níveis de escolaridade. Com os três grupos que totalizaram 18 mulheres procurou-se contemplar as diferenças de faixas etárias, conhecimento, formação acadêmica e poder aquisitivo. As partícipes dos grupos focais se encontram na faixa etária entre 19 e 60 anos. Possuem renda entre um e três salários mínimos e escolaridade que vai do Ensino Fundamental Incompleto ao Superior completo, sendo que a maioria (65%) possui apenas o Ensino Médio incompleto. As demais (23%) recebem em média, de 6 a 7 salários mínimos, possuem Ensino Superior completo e/ou Mestrado, em sua maioria. São moradoras de bairros das regiões do Moinho, Parque Cuiabá, Tijucal, CPA, Centro, Jardim Vitória, Jardim Guanabara, Pedregal e área rural pertencente 16 ao município de Cuiabá. Os grupos são compostos de mulheres casadas, viúvas, solteiras que, na maior parte, tem dois filhos. Como estratégia, agrupamos os eixos temáticos para discussão junto a cada grupo focal, elencando questões que se encontram diretamente vinculadas aos indicadores, sendo eles o arcabouço que direciona o alcance dos objetivos e a consequente organização e sistematização da presente dissertação. O método descritivo procede visto que se propôs compreender os discursos processados pelas mulheres partícipes da pesquisa, conjugando o marco teórico com os resultados do grupo focal com base na reflexão do coletivo das mulheres, no sentido de repensar a imagem e a representação feminina veiculadas na e pela televisão e sua apropriação nas práticas cotidianas. Ou seja, verificar o processo de subjetivação nas atrizes sociais e sua compreensão da representação feminina na contemporaneidade por meio da televisão. Na sequência, a dissertação em tela traz as considerações finais e as principais conclusões da pesquisa, que não ambicionam ser completas e exaustivas, mas pretendem contribuir para o desvelamento da representação feminina mediada pela televisão e as desigualdades socialmente construídas por homens e mulheres, e os possíveis vínculos da interlocução na construção de identidades orientadas para o consumo. 17 CAPÍTULO I – A FAMÍLIA E SUA INTERLOCUÇÃO COM O LÓCUS MIDIÁTICO: RELAÇÕES EMBLEMÁTICAS 1.1 HISTÓRIA DA FAMÍLIA Para compreender a família, de sua gênese à contemporaneidade, torna-se necessário entender as mudanças historicamente ocorridas nesta instituição, situando as problemáticas nos diferentes contextos socioeconômico e político. Partindo da premissa de que é no desenvolvimento das relações sociais que “as famílias” tomam forma e que se estruturam por meio de suas interações, sua história encontra-se vinculada às transformações exógenas (estruturais e societais) ocorridas a partir da produção e reprodução da existência humana, as quais determinam as relações que homens e mulheres mantêm entre si nas diferentes instâncias da vida. A perspectiva histórico-social é, portanto, a mais adequada para apreendermos as alterações na estrutura econômica, política e social e seus rebatimentos na organização, estrutura e comportamento da família decorrente do movimento do processo civilizatório, engendradas de diferentes formas no tempoespaço. Nessa direção, entre as primeiras formas de organização da sociedade temse a matriarcal constituída na era primitiva, quando as formas de produção agrícola eram comunitárias. Caracterizava-se pelo equilíbrio entre os gêneros e pela difusão da justiça e igualdade, onde o poder não era vitalício e nem hereditário, e que ainda subsiste em algumas regiões do mundo. (PASSOS, 2006) Significa que, a princípio, o monopólio dos lotes de terras era das mulheres, enquanto os homens se dedicavam às atividades de caça, de pesca, vindo a ser alterado, à medida que os sistemas econômicos e os modelos de produção vão sendo desenvolvidos. Com o desenvolvimento dos modos de produção agrícola impulsionados pelas inovações tecnológicas, segundo Engels (2000), a sociedade 18 matriarcal vai sendo substituída pelo patriarcado, ancorado no advento da propriedade privada. Assim, com o fortalecimento e disseminação da propriedade privada, ocorrem a expansão do comércio e o êxodo para as cidades, a população urbana passa a crescer mais que a rural e as cidades tornam-se o centro de comando das atividades agrárias, quando as relações de parentesco (casamento, família) são reformatadas e o desenvolvimento das formas produtivas reconfigurado. Como família patriarcal, denomina-se genericamente, a família em que o papel feminino e masculino e as fronteiras entre público e privado são rigidamente definidos. O amor e o sexo são vividos em ordem separada, até com tolerância do adultério por parte do homem, cabendo a este último, exclusivamente a atribuição de chefe de família. (GUEIROS, 2002) Autores clássicos como Freyre (2001) destacam que a família patriarcal é o tipo de família que existiu no Brasil do século XVI ao XIX e da qual deriva toda a formação social do país. A estrutura doméstica patriarcal caracterizava-se pela importância central do núcleo conjugal e da autoridade masculina, retratada na figura do patriarca, chefe ou coronel dono do poder econômico e comando político. A predominância do modelo patriarcal brasileiro traz como característica a família monogâmica, caracterizada pelo poder da propriedade, controle de bens, recursos financeiros e visibilidade social, prevalecendo um padrão de autoridade do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos e dos mais velhos sobre os mais novos. Com o início do processo de industrialização, caracterizado por uma série de inovações que revolucionaram as técnicas de produção, os meios de transportes e de comunicação, o acelerado crescimento das cidades contribuiu para a formação de uma nova classe social, a operária, ao mesmo tempo que com o desenvolvimento industrial, ocorre a introdução da mulher no processo de trabalho produtivo. Até esse momento, as formas de inserção das mulheres nos espaços públicos se deram com estas na condição de voluntárias em instituições 19 filantrópicas, em decorrência das primeiras formas de expressão da questão social 2, e com o processo de industrialização e urbanização, estas paulatinamente ocupam espaço no mercado de trabalho. Nesse sentido, pode-se pontuar que um dos marcos importantes que deram origem às mudanças na e da família ocorre a partir de fins do século XVIII com o processo de industrialização, urbanização e escolarização que alterou as relações endógenas na família. Como afirma Ariès (1986), a família começou a se manter distante da sociedade, organizando-se cada vez mais em espaços limitados, remodelando-se no âmbito privado. Segundo o autor, a disseminação da escola decorre do processo de mudança de comportamento e sentimento em relação à criança, que passa a ser vista sob duas dimensões que são compatíveis, afeição e ambição. Essas transformações tornaram-se mais evidentes no século XIX, quando se instaura a burguesia, a qual ganha força com modificações na relação entre o homem e os meios de produção, com o acúmulo de propriedade e riquezas que leva à busca incessante pelo lucro, conformatando as duas classes fundamentais na moderna sociedade capitalista, a burguesia que detinha as máquinas e ferramentas e o proletariado industrial, proprietária apenas de sua força de trabalho. Engels (2000, p. 72) afirma que [...] a família patriarcal individual moderna promove o desenvolvimento da propriedade privada por um lado, e por outro, faz com que se perca o caráter público da família antiga. E a premissa para a cisão histórica, própria da era burguesa, entre esfera pública e privada; essa última se desenvolve simultaneamente com a propriedade e a família. Portanto, com a Revolução Industrial e o desenvolvimento das forças produtivas amplia-se o espaço da mulher no mercado de trabalho, embora esta ainda permanecesse responsável pelas atribuições no espaço privado, surgindo as profissões e a disputa sexual do trabalho, quando a atividade feminina foi caracterizada como mão-de-obra barata e menos produtiva devido às múltiplas ocupações a que a mulher se submetia, e à sua condição de mulher. 2 Tem sua base na produção e distribuição de riqueza, traduzida pela erosão pelos sistemas de proteção social voltados à família, pela vulnerabilidade das relações sociais e pelo questionamento da intervenção estatal. 20 Assim, a inserção da mulher no setor econômico, produto da Revolução Industrial, mudou a estrutura e organização da família, imprimindo a separação casa/trabalho, família/economia particularidades trouxeram consequências para a vida de homens e mulheres. Como afirma Bourdieu (1997, p.135) o Estado por meio de um longo trabalho jurídico-político, do qual a família moderna é resultado, tornou o privado um negócio público, na medida em que este passou a se constituir regulador das relações de produção e de trabalho. Apesar das normas sociais e religiosas nas quais imperavam a obediência e a sujeição ao pai ou marido, muitas mulheres ousaram contrapor-se aos usos e costumes de sua época. Como marco desse processo tem-se a absorção da sua força de trabalho na indústria emergente, no final do século XIX e início do século XX, que apesar de constituir uma força de reserva, desvalorizada e explorada em longas jornadas com baixa remuneração, ampliou o mercado durante a segunda guerra mundial. Em relação às mulheres brasileiras, uma das primeiras lutas empreendidas foi pelo direito à educação e direito ao voto, e como resultado incluíram, à época, a reivindicação de trabalho igual para salário igual, surgindo dentre a minoria das mulheres instruídas as primeiras defensoras da emancipação feminina. O resultado de todo esse processo foi a incorporação de uma nova consciência acerca da discriminação e opressão da mulher na sociedade, e a busca por caminhos para sua superação. Embora a mulher no decorrer da história venha conquistando significativos avanços na sua condição de cidadã, na política e no mercado de trabalho, há discrepância de salário em relação ao gênero, com dupla jornada de trabalho frente à ausência da equidade nos papéis sociais na vida privada, perpetuando a condição de discriminação de gênero. Nesse sentido, os processos de modernização e o movimento feminista passaram a ser responsáveis por outras mudanças na família, contribuindo para a construção de diferentes modelos na atualidade, que mesmo sendo questionados devido às alterações de valores morais e produção de novos comportamentos, continuam se mantendo enquanto instituição fundante na e da sociedade. 21 Desse modo, a família como modelo de instituição sofre rebatimentos da nova ordem capitalista que afeta a dinâmica da vida societária e repercute na vida familiar, conforme expressa Prado (1985, p. 08) “as famílias, apesar de todos os seus momentos de crise e evolução, manifesta até hoje, uma grande capacidade de sobrevivência e também porque ela subsiste sob múltiplas formas”. No decorrer da história, a família, ao mesmo tempo em que se constitui mola mestra da construção da sociedade, recebe seus rebatimentos a partir de um conjunto de valores, normas e ideologia, que historicamente incorpora valores, de forma a constituir-se em regras gerais, influenciando a forma de vida, o modus vivendi destas, particularizadas dentro de um mesmo contexto. Por sua vez, como parte da história, a dominação do homem sobre a mulher traz intrínseca a cultura de posse por meio da qual as relações de poder se manifestam nos diferentes contextos, visto que ao naturalizar o machismo, há tempos presenciam-se atos de domínio masculino e submissão feminina, com a anuência da sociedade. Desta forma, em uma retrospectiva dos aspectos até então pontuados, Ariès (1986) deixa evidente que as mudanças na família medieval se restringiam às classes abastadas, enquanto que na família moderna as mudanças atingiram todas as camadas sociais. A compreensão de família moderna, de modo geral é subentendida com a separação entre o público e o privado, com ênfase na intimidade familiar, privacidade individual na própria família, inclusive com a separação de cômodos, objetivando garantir a sua privacidade. (GUEIROS, 2002) Assim, enquanto a família patriarcal extensa traz consigo características originárias da formação tradicional aristocrata, aquisição, acúmulo e herança de bens, a nuclear moderna se caracteriza por sua composição familiar burguesa, construída nos diferentes contextos, tendo a figura do pai, da mãe e dos filhos alicerçada no casamento e educação dos filhos, a partir de valores e hábitos predominantes no modo de viver da sociedade capitalista. Cabe ressaltar que até o século XX perduram alguns traços da família patriarcal na família conjugal moderna, vindo Therborn (2006, p.431) a afirmar que 22 “a mudança na família no século XX não foi nem revolucionária nem unilinear, o que contraria a modernização e o evolucionismo proposto”. Assim, mesmo com as mudanças na família em âmbito mundial, verifica-se que valores, normas e práticas antigas e novas convivem, com predominância de um ou outro dependendo da dinâmica de mudança dos contextos sociais, políticos e ideológicos, numa demonstração do poder de resistência e da capacidade de adaptação da família frente às mesmas. Como nos demais países, o Brasil foi e é constituído por vários modelos de família desde o Brasil-Colônia, mas a matriz inicial que permeou todas as esferas sociais ancorava-se no modelo de família patriarcal (FREYRE, 2001), porém este não era hegemônico na sociedade tradicional, mas sim um instrumento que o Estado e a Igreja utilizaram para a perpetuação de seus interesses na sociedade patriarcal. Nesse sentido, Bilac (2003, p.44) afirma que a análise de Freyre concentrase nas classes dominantes e presta especial atenção aos “modelos culturais que informariam as configurações familiares: “familismo” “patriarcalismo” a família estudada, a partir das classes dominantes projeta-se na sociedade, seus valores e padrões”. Por conseguinte, a família é compreendida por diferentes autores como um lugar de produção e reprodução das práticas sociais do habitus desde a infância, configurando-se como um princípio importante para a construção da realidade social (BOURDIEU, 1997). Mas esse “espírito de família”, segundo o autor, é resultado de um trabalho simbólico e prático realizado pelas instituições com o objetivo de construir valores e normas de comportamento estabelecido em cada tempo-espaço, pois a família sendo um universo social é dinâmica e mutante. (SARTI, 1996). Com as novas reconfigurações da família nas últimas décadas, o modelo e a concepção de família são alterados na Constituição de 1988 de forma a responder a sua nova materialidade e organização, antes baseadas no modelo nuclear, como expresso nas Constituições anteriores. Entre as mudanças processadas no âmbito da família, que contribuem significativamente para o desenvolvimento da condição de igualdade entre homem e mulher, no que diz respeito aos direitos e deveres na sociedade, além das 23 prerrogativas da Constituição de 88, tem-se os avanços no campo jurídico, entre eles a Lei Maria da Penha e as alterações no Código Civil Brasileiro de 2002. No entanto, apesar do reconhecimento da não-distinção entre gênero, as diferenças evidenciam-se como fenômeno generalizado, independente da condição étnico-racial, de classe social ou religião, muito embora as leis assegurem os direitos e a igualdade entre homem e mulher, prevalece a reprodução de mitos e estereótipos, imprimindo na sociedade a naturalização da dominação e a diferença de gênero. Retomando o fio condutor acerca dos novos re-arranjos familiares, que alteram a organização e a estrutura familiar, para Bilac (2003), a função de provedor não é mais monopólio do homem, à medida que cresce a inserção das mulheres no mercado de trabalho indicando que o papel feminino tradicional vem mudando rapidamente sem que o masculino tenha se alterado, uma vez que as mulheres já não estão tão disponíveis para cuidar dos seus dependentes, tornando-se necessárias redefinições de responsabilidade por parte da sociedade, particularmente com relação aos cuidados com crianças e idosos. Apesar dos avanços no marco legal formal e da incorporação de diferentes arranjos familiares, estes não se processam sem conflitos, preconceitos e estereótipos, pois como informam Calderón e Guimarães (1994), há uma forte tendência em se atribuir a um tipo ideal de família, porém devemos, a partir da materialidade do real, apreender as novas formas de família em suas diferentes maneiras, entre elas as recombinadas, recompostas, arranjos familiares, entre outras. Nesta direção, Prado (1985, p. 61) expõe que “não há transformação e uma só direção”, ou seja, os interesses socioeconômicos de uma determinada sociedade vão se modificando e se moldando em busca da manutenção econômica e emocional da instituição familiar. Nesta perspectiva, a Organização das Nações Unidas, quando do ano da família em 1994 concebeu a família como sendo duas ou mais pessoas que partilham recursos e responsabilidades e têm um tipo de compromisso uma com as outras, independente de laços de sangue, adoção ou casamento. 24 Neste sentido, a construção da história da família instituída, denominada de moderna, traz imbricada uma cultura que se altera com a capacidade dos homens e mulheres ao fazer suas escolhas, pois ao escolher (livre arbítrio), atribuem significado as suas escolhas, “a família não é mais vista como organizada por normas dadas, mas fruto de contínuas negociações e acordos, entre seus membros e nesse sentido sua duração de tempo depende da duração dos acordos”. (GOLDANI apud BILAC, 2003, p. 91) Levi-Strauss (1995) aponta a família como estrutura que contém em si a esfera da cultura e a esfera da nobreza, entendendo como cultura a atividade criadora determinada pelos homens e mulheres em seu significado antropológico, por meio do conjunto de valores e experiências partilhadas. Em outros termos, representa o conjunto explícito e implícito dos modos de pensar, sentir e agir da sociedade. Um dos pontos que ressaltamos é o de que a família também pode ser vista como uma instituição social contraditória e conflitiva, na qual, ao mesmo tempo em que se produzem as relações sociais, torna-se possível instituir espaço de construção de valores e ideias que permitem a formação e constituição de uma sociabilidade, possibilitando ao grupo familiar criar padrões de comportamento e cultura. (MOTA, 2008) 1.2 FAMÍLIA E RELAÇÕES SOCIAIS: IDENTIDADE E COMPORTAMENTO Antes do século X, a família ocidental viveu relações primitivas com características nômades baseadas em normas de sobrevivência, necessidades imediatas, sem governo sendo regida unicamente por leis naturais. A partir do século XII, com o surgimento da concepção e consequente organização do Estado, respaldado em Hobbes e Rousseau este vai se conformatando e, a partir do Contrato Social, institui-se a propriedade privada cujas diferentes modalidades de sociedade vão dando materialidade ao Estado. [...] a propriedade começa como propriedade tribal e a sociedade tem forma de uma comunidade baseada na família [...] essa forma de propriedade se transforma em outra, a propriedade estatal, ou seja, a propriedade do Estado [...] em certos casos o Estado é o proprietário único. O Estado cede 25 mediante certas regras às grandes famílias, constituindo a propriedade privada. (CHAUÍ, 2001, p. 413) Decorrente da organização e das relações de produção social fundadas na família e propriedade outorga-se às mulheres grande parte das funções como educação, criação dos filhos, alimentação, entre outras, contudo os avanços tanto no âmbito político, social, laboral como legal-formal no percurso histórico da família possibilitaram a construção de uma nova sociabilidade em que a identidade destas foram sendo reconstruídas. Em uma retrospectiva quanto à periodização e evolução da família, verificouse que do século XVI ao XVII, a identidade era insignificante, e somente na Idade Média foi considerado necessário completar o primeiro nome com o sobrenome da família. De acordo com Sodré (1999), somente no século XIX os párocos passaram a manter seus registros de identidade com exatidão, sendo exigido o registro civil com a instauração do Estado Moderno. Portanto, no contexto das transformações compreendendo as relações como um conjunto de vínculos recíprocos entre as pessoas, um conjunto de ligações ou associações oficiais entre grupos ou países, no tocante à família estas distinguemse pelo modo exclusivo de viver a diferença de gênero, forma peculiar de relacionarse, da cultura e das relações geracionais. Segundo Ariès (1981), a afetividade foi socialmente construída no decorrer do século XVIII, quando emerge a cumplicidade das famílias que se transformaram em espaço de carinho e afeição entre casais, entre pais e filhos, jamais vistos anteriormente, relações que contribuíram para o surgimento da importância da educação, transmitindo conhecimentos de uma geração à outra, quando as crianças adquirem participação na vida dos adultos, superando, paulatinamente, o isolamento destas e as relações baseadas na honra e perpetuação de bens materiais. Surge então, a partir do século XVIII, um sentimento novo dos pais em relação aos filhos, como pela vida escolar destes à medida que procuravam acompanhá-los com solicitude habitual, que para Ariès (idem) representa o ingresso na modernidade e, consequentemente as exigências de conhecimento na preparação para a vida assegurada por meio da educação escolar. No entanto, a 26 escola era privilégio de poucos e posteriormente para homens, vindo a mulher a inserir-se neste processo somente a partir do século XIX. Assim sendo, no que se refere à família torna-se necessário compreendê-la sob uma nova concepção, na qual as relações de afeto, respeito e responsabilidade são referências básicas para sua configuração. A família é entendida e trabalhada como unidade natural, que oferece proteção aos seus membros independente de seus desenhos, recuperando o espaço protetivo e formativo da mesma, bem como o de interlocução e convivência. Como nas demais sociedades, a família brasileira também passou por transformações nos diferentes contextos, com suas particularidades de país colônia, sofrendo os rebatimentos dos acontecimentos exógenos e endógenos decorrentes da ordem administrativa e do embricamento entre a dimensão patrimonialista e burocrática que, dialeticamente, operava a dominação patriarcal, vindo a ser partícipe das mudanças históricas na sua formação histórica, política e cultural. Nesta direção, a família apresenta-se como um sistema interpessoal constituído por pessoas que interagem com intuito diverso, como o atendimento às necessidades afetivas e de reprodução, sofrendo interferências ambientais, de crenças, valores e normas presentes no próprio grupo familiar e na esfera social a que pertence, definindo assim sua forma peculiar de ser família. (GUEIROS, 2002) Na contemporaneidade, as questões do mundo privado, da subjetividade, da sexualidade e das linguagens corporais concernentes à mulher ganharam visibilidade e dizibilidade, tanto no cotidiano da família, quanto nos debates acadêmicos e nos múltiplos espaços sociais e políticos, em decorrência da construção sócio-histórica do feminino-masculino e relações sociais de gênero estabelecidas a partir de valores e identidades reconstruídas, as quais projetam novas culturas. Assim sendo, a afirmação da mulher no campo político, do trabalho e dos direitos, amplia a área das enunciações feministas, ao mesmo tempo em que ocorre a valorização de sua imagem, linguagem, atributos e temas concernentes ao feminino. 27 Nesta lógica intensifica-se a dinâmica das relações da mulher nas diferentes esferas da sociedade, a partir das transformações ocorridas ao longo da história social da família, quando na contemporaneidade é recolocada a questão do afeto que, associado ao princípio organizativo da intersubjetividade, cria símbolos e representações, ao mesmo tempo em que redimensiona as experiências femininas e reinventa novas formas de relações familiares, conforme expressa Gentilli et. al. Marcada pela lógica do sujeito consumidor, alimentada pela propaganda e pela publicidade, sobrepuja a identidade do sujeito cidadão [...] a vantagem tornou-se o grande diferencial das práticas competitivas da vida cotidiana [...] atingiu a família, as relações sociais, de amizade e vizinhança. (2004, p. 53-54) Significa que as novas formas de relações familiares e sociais atingiram a produção da subjetividade feminina, fazendo emergir novos comportamentos, atitudes e estilos de vida que serão apropriados e ressignificados pela família e pelo mercado, alterando as identidades individuais, familiares e culturais. Conforme significado expresso pelas mulheres, na indagação acerca da imagem atual da família em sua opinião, quais espaços ela ocupa na sociedade, e como ela vem sendo veiculada nos meios de comunicação, família, espaços sociais e representação do cotidiano, foi expresso que: [...] ter uma família desestruturada está se tornando comum. (M. B.) Filhos esquecem até aniversário de pai e mãe. A família tá se perdendo. (F. M.) Verdade. Tem preconceito, tá faltando união na família. (E. C.) [...] famílias sem pai [...] (A. C.) É muito difícil a família ficar unida porque filho hoje em dia tem muita liberdade, não tem comportamento, diálogo, muita briga. Gente que responde ao pai, hoje em dia não tem como pai chamar atenção porque tem os direitos. (A. L.) Ao mesmo tempo, presencia-se um período em que a fragmentação do tempo e espaços culturais propicia a afirmação de múltiplos comportamentos sociais, de novas visualidades e tendências de valores antes não admitidos pelo sujeito moderno. Características como banalização, popular, emocional, passageiro, subjetivo definem a atualidade. 28 Nesse movimento, os espaços urbanos como lugares de constituição identitária ressignificam os sentidos provenientes da televisão em complexos processos mediados pelas particularidades das instituições que o configuram propondo distintos modos de subjetivação, rebatendo diretamente na família e seus membros, contribuindo para a elaboração de uma identidade social e pessoal cujas representações trazem engendradas atitudes e comportamentos incorporados e reificados na cultura e no cotidiano da sociedade. Para Martín-Barbero, “pensar os processos de comunicação neste sentido, a partir da cultura, significa deixar de pensá-los a partir das disciplinas e dos meios. Significa romper com a segurança proporcionada pela redução da problemática da comunicação à das tecnologias” (2003, p.297). Nessa perspectiva, defende a ampliação do campo da comunicação, deslocando o espaço de interesse dos meios para o lugar onde é produzido seu sentido, na interlocução entre o telespectador e o meio de comunicação. No entanto, referendar a mídia televisiva como mediadora das relações entre os membros da família, espaço de interlocução objetiva, constitui-se um equívoco, na medida em que ao centrar-se na imagem a comunicação se faz de mão única, não estabelecendo o diálogo, característica dos “meios frios” (MCLUHAN, 2005) e da contemporaneidade na qual a individualidade se faz presente, o que fragiliza cada vez mais a construção da sociabilidade e, por conseguinte, as relações familiares. Como resultado do processo de modernização da e na sociedade Mioto (1997) informa que na década de 90 a família foi marcada por significativas mudanças, apresentando como características Número reduzido de filhos [...] Concentração da vida reprodutiva das mulheres nas idades mais jovens (até trinta anos) [...] Aumento da concepção em idade precoce [...] Aumento da co-habitação e da união consensual... Predominância nas famílias nucleares[...] Aumento significativo das famílias monoparentais[...] Aumento das famílias recompostas[...] População proporcionalmente mais velha[...] Aumento de pessoa que vive só. (p.118-119) Dentre as mudanças citadas está também o empobrecimento acelerado das famílias brasileiras, resultado do modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Estado brasileiro, a partir da década de 80, que atinge particularmente crianças 29 e adolescentes, uma vez que estes convivem com as necessidades humanas e a ilusão do consumo mediada pelo mercado. Nesses moldes temos a maioria das famílias marcadas pelas desigualdades sociais, construídas historicamente como núcleo de pessoas que convivem por vezes de forma conflitante, possuindo laços sanguíneos ou não, encontrando-se inseridas na estrutura social à qual pertencem, cuja tarefa principal é orientar e proteger seus membros. Em decorrência do empobrecimento acelerado das famílias ampliam-se as múltiplas expressões da questão social, com a deteorização das condições de vida da maioria da população que recebe baixos salários, sem especialização, sem perspectivas futuras e/ou na condição de desemprego estrutural, subemprego, fatores que não as impedem de figurar entre os consumidores de bens e produtos na busca incessante pela inserção social dentre os membros de sua comunidade. Frente ao quadro socioeconômico e cultural das famílias que se apresentam desprovidas de acesso a bens e serviços, em especial aquelas com baixa escolaridade, com mínima ou nenhuma qualificação profissional, que ao buscar a inserção na sociedade de consumo passam maior parte do tempo fora do lar, na tentativa de responder a essas demandas, sofrendo por sua vez com sua condição de pobreza, e, por conseguinte, contribuindo para a constituição do estranhamento nas relações familiares. Além das questões de consanguinidade, semelhanças, simpatias, preferências e das complexas relações familiares, para o entendimento da representação social, a percepção da trajetória de vida de cada membro desta exige releitura contextualizada do modelo de família moderna elaborado por Ariès (1978) que coloca na arena das discussões os conflitos entre gerações e contradições identitárias, frente aos problemas cotidianos da vida familiar. Dessa forma, há uma reformulação dinâmica de valores e mudanças nessas inter-relações que não se apóiam num modelo tradicional e hierárquico, mas antes no valor da família como referência social fundamental para a constituição da identidade social de cada indivíduo, passando pelo nascimento, infância e 30 adolescência, pelo casamento, formal ou informal e pela coabitação de membros solteiros, coexistindo com as intermediações dos pais e sua função socializadora e disciplinar, mediando e fazendo parte dos conflitos intergeracionais, a partir da conjunção e disjunção de seus membros. Nesse sentido, diferentes modelos de família estão presentes no cotidiano, da nuclear aos novos arranjos e novas dinâmicas familiares, tais como: pais casados e separados construindo outras uniões para nascimento de outros filhos; filhos de diversas uniões convivendo em uma mesma residência; mãe solteira/produção independente, moradores de rua que se agrupam por afetividade e segurança, entre outros, como pode se observar na fala de uma das entrevistadas. O conceito de família, pai, mãe, filho [...] a sociedade já não é mais assim [...] tem pai e filhos, mãe e filhos, casais homossexuais, babá e filhos [...] a sociedade ser diferente não forma uma família. Existe família que tem família, ela leva os filhos pra escola, conversa, existe família. Outros têm pai, mãe e avó, mas não tem união, não forma uma família. Por mais que tenha mudado ainda temos aquele conceito de família pai, mãe, filho. (M. B.) Esta percepção foi bastante recorrente entre o grupo focal como uma das grandes problemáticas da família na atualidade, pois segundo elas, ainda hoje a família é vista como o grande centro mantenedor das relações sociais entre os indivíduos de um mesmo grupo. Desta forma, os “novos arranjos” familiares, não devem ser considerados “desvios” ou “disfunções”, ou “famílias desestruturadas”, mas, sim, outros modelos de família que estão convivendo com a nuclear, ainda que colocando em questão a hegemonia da mesma. Segundo Calderón (1994, p. 33), Qualquer projeto que realmente pretenda fortalecer a família deverá estar imbuído de uma concepção que fuja a qualquer visão moralista e preconceituosa. Deverá ter presente que cada família tratada possui configuração e características próprias, constituindo-se em um caso particular e específico. Em vez de compreender a família pela sua composição, tomando como referência a família nuclear, deve-se procurar compreendê-la pelos valores nela existentes, bem como pelas relações de afeto, respeito, dependência, reciprocidade e responsabilidade que possam existir. 31 Diante dos dilemas da família contemporânea, pertencentes às mudanças que vem sofrendo nesta última década torna-se necessário conhecer os avanços que a modernidade está lhe impondo para compatibilizar os investimentos teóricopráticos nesta área. 1.3 FAMÍLIA, ESPAÇOS SOCIAIS E REPRESENTAÇÃO DO COTIDIANO. A família nas suas múltiplas dimensões e nas suas condições coletivas de existência, sejam estas educacionais, culturais, de lazer, trabalho baseia-se na lógica de proximidade do cotidiano em que se encontra inserida. Hoje as pessoas pertencem mais aos bairros urbanos em que residem, pois mesmo as distâncias se encurtando estas já não se deslocam pela cidade de ponta a ponta. Em função dessa nova configuração urbana, reina absoluto o shopping center, que passou a ser o novo local para compras de produtos e serviços, entretenimento e refúgio, emblema da contemporaneidade onde "como numa nave espacial, é possível realizar ali todas as atividades reprodutivas da vida: come-se, bebe-se, descansa-se, consomem-se mercadorias e símbolos, segundo regras não escritas, porém absolutamente claras, afirma Sarlo (2004). Ninguém sabe mais sobre os shoppings do que os adolescentes que podem praticar ali liberdade de trânsito e exibição, apoiados na desordem sem controle. As marcas e etiquetas que constituem a paisagem do shopping coexistem com o elenco dos velhos símbolos públicos ou religiosos, sendo a juventude um território onde todos querem viver e usufruir da cultura juvenil, como uma cultura universal e tribal ao mesmo tempo. Nessa mesma lógica, a moda serve para captar as mudanças mais insignificantes do ar dos tempos, devendo ser maleável o suficiente para permitir jogar com seus mandamentos sempre efêmeros. A idéia do traje como diferenciação entre as tribos culturais se desenvolve em todas as suas peripécias. Assim, o mercado ganha relevo e corteja a juventude, depois de instituí-la como protagonista da maioria dos seus mitos, onde a debilidade do pertencimento a 32 uma comunidade de valores e sentidos é compensada por um cenário mais abstrato, porém igualmente forte: a insistência de um imaginário sem asperezas, brilhante, assegurando a própria juventude como fonte dos valores com que esse imaginário interpela os jovens. Podemos dizer que o deslocamento, a descentralização ou a fragmentação das identidades modernas a partir das mudanças estruturais experimentadas nas ultimas décadas estão fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Com Sodré (2002) entendemos que a prescrição (identitária) mediática é difusa, sem linearidade discursiva ou regulamentação implícita, operando numa lógica caótica e não sequencial, ao propor que o regime semiótico da mídia é o indiciário, em que o signo não representa um significado universal ou abstrato, mas sim uma apropriação no interior de um contexto de significação. Nessa nova “ambiência existencial”, a postura mais adequada ao indivíduo, define o autor, é a da “exploração interpretativa”, em vez da dedução de verdades. Nesse sentido, os territórios socialmente construídos reconfiguram-se alterando não somente fisicamente, mas também como novas formas de uso conformatando novos estilos de vida, espaços múltiplos para atender as necessidades da contemporaneidade, nos quais o jovem se identifica e se mescla. As formas de sociabilidade e de subjetivação contemporâneas são, consequentemente, atravessadas por vetores como a velocidade e a fluidez resultantes desses processos, que imprimem, na experiência vivida, orientações no sentido do efêmero e do flexível. Ao mesmo tempo, a vivência da grande cidade juntamente com a cultura de consumo influi de maneira determinante sobre o modo como as pessoas vivem. O particular e contraditório vínculo produtivo com a cultura massiva e as inovações tecnológicas que os jovens estabelecem em seus processos identitários estão nos novos modos de narrá-lo, no marco de processos sociais complexos articulados pelo mercado, pela política e pela cultura. (MARTÍNBARBERO, 2003) 33 Nesse sentido, as sociedades modernas não apresentam qualquer núcleo ou centro determinado que produza identidades fixas, mas uma pluralidade de centros deslocados e sem aparente identificação, podendo-se argumentar que nesse processo a classe social, segundo alguns autores pós-modernos não existe mais como uma única força, determinante e totalizante, que molde todas as relações sociais tal como no paradigma marxista, mas uma multiplicidade de centros, onde todos se encontram inseridos na voragem do consumo e dos crediários. Como exemplo desse deslocamento da classe social pode-se ilustrar a relativa diminuição da importância das afiliações baseadas na classe, tais como os sindicatos operários e o surgimento de outras arenas de conflito social, como as baseadas no gênero, na “raça”, na etnia ou na sexualidade, presentes no cenário contemporâneo. Cabe esclarecer que a inferência acima não parte da compreensão de que a luta de classes não esteja presente na sociedade, mas que não é mais possível argumentar que a emancipação social esteja nas mãos de uma única classe, podendo inferir que esta tenha a possibilidade de emergir de diferentes lugares, a partir de novas identidades e sujeitos historicamente situados em determinado contexto. Por sua vez, as mudanças macrossocietárias nos marcos da economia, da política e da cultura, bem como nas relações familiares, produziram uma crise da identidade sem precedente, caracterizada pelo colapso das velhas certezas e pela produção de novas formas de posicionamento, onde a luta e a contestação estão concentradas na construção cultural das identidades, fenômeno que vem ocorrendo em diferentes contextos dos quais a família, enquanto primeiro núcleo comunitário, faz parte. Assim, enquanto nos anos 70 e 80 a luta política era descrita e teorizada em termos de ideologias em conflito, agora ela se caracteriza pela competição e pelo conflito entre as diferentes identidades, o que tende a reforçar o argumento de que existe uma crise de identidade no mundo contemporâneo. Dessa forma, característica de uma modernidade tardia, as “crises de identidade” só tem sentido quando vistas no contexto das transformações globais que têm sido definidas pelas particularidades da vida contemporânea, em que a 34 globalização impõe ruptura nas velhas estruturas dos estados e das comunidades nacionais que entram em colapso, cedendo lugar a uma crescente “transnacionalização da vida econômica e cultural”. Envolve assim, uma interação entre fatores econômicos (reconfiguração dos mercados) e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais produzem identidades novas e globalizadas, caricaturalmente simbolizadas, formando grupos de “consumidores globais” que podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo e que mal se distinguem entre si. É a convergência de culturas e estilos de vida - impactos aos quais estão expostas a família e seus membros. Consequentemente, as mudanças na economia global produzem dispersão das demandas ao redor do mundo, por meio de um processo caracterizado por grandes desigualdades, em que o movimento global do capital é muito mais livre que a mobilidade do trabalho, ou seja, a expulsão de migrantes pelos países pobres torna-se mais forte que a atração das sociedades pós-industriais e tecnologicamente avançadas, surgindo identidades plurais que são ao mesmo tempo contestadas, frente às barreiras culturais que obstacularizam as relações sociais. Como parte desse processo macrossocial tem-se o colapso da ex-União Soviética, onde o comunismo simplesmente deixa de existir como ponto de referência na definição de posições políticas, enquanto que nos Estados Unidos ocorre a busca de antigos valores (retorno aos velhos bons valores da família americana). Concomitantemente, no Reino Unido surge uma retomada por uma inglesidade culturalmente mais homogênea, movimento nacionalista e de reafirmação de uma nova identidade européia. Assim, processam-se as lutas por reconhecimento de identidades étnicas no interior dos antigos estados-nações, enfim, em todo o globo há busca por um local percebido como território e terra natal, ao mesmo tempo em que ampliam as fissuras e o espectro dessas lutas frente às disparidades de gênero, gerações, regiões e meio ambiente, que enraizadas nas particularidades nacionais impõem novas determinações históricas à particularmente às famílias. produção e reprodução das relações sociais, 35 Nesse movimento está implícita a busca pela reconstrução de identidades a partir da nova configuração da formação da sociedade em grupos sociais, sendo cada grupo social formado em oposição a outro grupo, marcando a identidade pela diferença, tanto simbólica quanto social. Assim, pode-se dizer que é por meio da organização e ordenação das coisas que o significado é produzido dando ordem à vida social, sendo afirmadas nas falas e rituais, ou seja, as identidades são construídas através da oposição binária, oposições cristalinas – natureza/cultura, corpo/mente, paixão/razão. (DURKHEIM, 1995) Dessa forma, esses sistemas partilhados de significação são o que se entende por cultura enquanto construção social, móvel, de fluxo contínuo, que se dá a partir do que está além da língua. Em outros termos, tudo deve ser pensado dentro do seu contexto sociohistórico possibilitando a existência de consenso entre os membros de uma sociedade sobre como classificar as coisas a fim de manter alguma ordem social na vida cotidiana. Há assim a elaboração quase manipulada no sentido do que devemos fazer ou ser, vez que a produção de sentido a partir da compreensão ativa dos bens simbólicos é decisiva na construção de uma identidade coletiva que sobrevive na contemporaneidade, ajustando-se aos mecanismos da sociedade, adquirindo relevância no processo que a legitima por meio de seus dispositivos produtores de subjetividade. Por conseguinte, essa produção de subjetividades é resultado da dimensão simbólica de um representante cultural, onde o simbolismo projeta imagens, gerando uma prática social ajustada aos interesses de uma comunidade, onde representa poder constitutivo de identidades. Nas sociedades contemporâneas, os meios de comunicação e de informação corporificam muitos elementos verificados na cena cultural e social, tais como a fragmentação, o hibridismo, o pastiche, a colagem e a ironia. O que nos interessa nesse contexto é perceber a cultura como um campo de luta, em que está em jogo a definição da identidade cultural e social dos diferentes grupos. Para Sodré (2002), o processamento dos conteúdos sócio-culturais da mídia pode ser 36 combinado com um trabalho contínuo dos materiais discursivos, o que aumenta a indecibilidade quanto às relações de causa e efeito entre mídia e sociedade. A partir dessa constatação, podemos pensar em apropriações e usos diferenciados dos conteúdos midiáticos pelos indivíduos e grupos sociais, principalmente em relação ao que nos interessa particularmente neste trabalho, ou seja, a produção da identidade e da diferença. Esse processo, contudo, só pode ser atualizado e verificado na experiência vivida cotidianamente pelos sujeitos (CERTEAU, 1994). Considerando que a manifestação cultural contextualizada na contemporaneidade é atravessada, desconstruída e reconstruída dentro das novas relações sociais e familiares com interferência da televisão, da modernização e da urbanização, não se pode deixar de considerar os processos de individualização capazes de reordenar definitivamente o posicionamento que a televisão tomará na fragmentação da identidade do sujeito, na sua busca por antigos valores culturais e tentativa de afirmação social, mesmo que a globalização o influencie diretamente. Como os códigos de comportamentos sociais surgem pela cultura, são institucionalizados pelo poder político e propagados/difundidos pelo poder simbólico que os media representam, as implicações dessa relação na comunicação contemporânea parece responsável por assinalar novas percepções do conflito social e formação de novos sujeitos. Assim, com a consolidação do sistema capitalista e as mudanças no mundo do trabalho houve alterações no plano econômico, nas esferas social e cultural, inferindo diretamente na família e sua condição objetiva e subjetiva de vida. A partir dessa constatação, tem-se dois processos diferentes, o social e o simbólico, sendo cada um deles necessário para a construção e a manutenção das identidades. A mídia, explica Woodward (2000), é uma das instituições que podem construir novas identidades, identidades das quais os sujeitos podem se apropriar e reconstruir para seu uso. Dessa forma, os sujeitos são constrangidos não apenas pelas identidades que a cultura oferece, mas também pelas relações sociais que se estabelecem. 37 Nesse sentido, as mulheres se inserem nas diversas atividades das cidades globais do mundo, independente do espaço público ou privado, e desenvolvem a capacidade de gerar significados e imagens internas seja na fantasia ou no sonho, seja no profissional ou no lazer, na ciência ou arte, na religião ou no entretenimento, nos permitindo dizer que tudo ao seu redor é composto de imagens, formas, luzes e cores, constituindo um universo, onde infinitas possibilidades apresentam-se em nossa frente em desdobramentos e sequências inimagináveis. Esses espaços configuram-se por contradição e conflito, numa perspectiva de indagação das condições reais do consumo, entendido como conjunto de processo sociocultural em que se realizam a apropriação (bens) e os usos dos produtos, que vão além da racionalidade econômica. Há nesse espaço uma racionalidade sociopolítica interativa, onde consumir significa participar de um cenário de disputa por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo. As mulheres constituem personagens-chave das transformações em um cenário onde grande parte destas representam diferentes etnias, culturas e personagens em múltiplos espaços sociais nas cidades globais, por meio de lugares na produção estratégica dos setores econômicos dominantes e administração dos processos políticos e identitários. Nesta direção, a desterritorialização das culturas em tempo de globalização imprime relações que abarcam o cotidiano das famílias onde as distâncias são abolidas e as diferenças vão sendo amenizadas, havendo necessidade crescente de distinção simbólica, de identificação representativa da particularidade diante do outro, diante da massa, diante do todo. Nesta direção, reproduz um slogan de progresso tecnológico em que as técnicas de comunicação e persuasão (CANCLINI, 2006) reforçam a atomização das pessoas, transformando a família em consumidora e não cidadã, o que tem produzido consequências sobre os hábitos de consumo e valores nos espaços privados. Nesse sentido, a centralidade na representação feminina veiculada pela mídia televisiva pode ser verificada em nível econômico, psicológico, cultural e simbólico quando das discussões acerca do indicador família na contemporaneidade junto aos grupos focais foi ressaltada pelas mulheres a importância da família na 38 transmissão de regras e valores culturalmente produzidos e determinados historicamente, enquanto que a televisão pode agir como meio de divulgação dos paradigmas científicos produzidos, da ideologia e da cultura em que a mulher está inserida, sendo a televisão percebida como mediadora na relação família, vez que instrumentaliza o espectador. Em relação à representação da família nos meios de comunicação foi expresso que: A televisão influencia e naturaliza a violência nas famílias [...] (F. M.) Ela veicula brigas, mostra família desestruturada, dilacerada [...] isso de certa forma está influenciando que as famílias continuem assim [...] (M. B.) Mostra geral, casamento, briga. Eu não acho certo. Já que vai mudar, ter direitos iguais porque não fazer certo [...] é mais respeitado. (L. L.) A família mãe, pai que se matam não é família [...] família é união. O que estão passando na TV é errado. (C. B.) Mãe espancando filho e filho espancando mãe. Muita desunião. E tudo tá na TV. (A. L.) Família é união e não o que a gente vê na TV. (M. J.) As falas acima que trazem à tona o conceito de família moderna histórica e culturalmente construída, referendada nas características burguesas não partem do princípio de que a mídia (re)apresenta o cotidiano, a realidade das famílias brasileiras com suas novas reconfigurações, mas demonstram uma concepção de que a família está sofrendo alterações a partir da influência direta da mídia. É frequente na fala destas a necessidade de mudança na programação, bem como o entendimento do motivo pelo qual a televisão insiste na abordagem de naturalização da violência quase sempre voltada a membros menores da família, mulheres e idosos, num eterno ciclo de retorno e reforço da imagem da família, principalmente de baixa renda. Em síntese sugerem que o imagético está influenciando o real, ou seja, corroborando para a “desestruturação” da família. Notamos ainda nas falas a importância do significado expresso pela igreja como sendo a célula básica da 39 família, quando, uma das partícipes dos grupos focais expressa que “a religião ajuda muito na manutenção da família” (E. A.) Nesse panorama, a televisão brasileira ao representar simbolicamente o feminino, revisita narrativas predecessoras onde o elemento feminino encontra-se caracterizado, não raras vezes, por atributos androcentricamente impostos às mulheres, tais como a beleza, a fragilidade, a obediência ao pai e posteriormente ao marido, recriando essas narrativas primeiras, a partir da proposta de um feminino outro, transformando, redimensionando, metamorfoseando, instaurando o corpo feminino como território não somente desejado, mas também desejoso. Com o progresso tecnológico e novas relações ocorre a mudança de status da mulher na sociedade, ao mesmo tempo em que é construída uma nova consciência, da qual emerge uma “nova mulher” que evolui e muda com o passar do tempo e sob a influência do mesmo, embora ainda se encontre em nossos dias a mulher “eterna feminina”, que persiste através dos tempos, intimamente ligada a crenças, valores, opiniões e ideologias, dentre outros aspectos. Isto posto, a forma particular de pensar a questão da condição feminina e sua individualidade social historicamente construída implica enfocar o interior do casamento ao lado das relações travadas entre esposa e marido e as relações estabelecidas entre mãe e filho. Nesse sentido, há que se considerar, além das questões de ordem natural e biológica, a construção cultural do papel de “mãe”, de trabalhadora e de mulher que traz imbricadas duas situações de notável recorrência: primeiramente, como elemento envolvido pelas tramas do trabalho doméstico e da reprodução da vida, num segundo momento, na prática plena, resoluta e desembaraçada do erotismo. (FISCHER, 2001) Apesar das mudanças nas relações de condição de gênero, perpetua-se ainda no século XXI a cultura de estereótipo, que Wilson Bryan Key (1996) analisa quando fala da influência da publicidade nas relações humanas exercida por meio de diversas ferramentas de persuasão utilizadas nas campanhas publicitárias para o prazer e deleite masculino, e por que não feminino. 40 Finalizando o esforço de síntese acerca da família, espaços e representação do cotidiano, pode-se pontuar que a questão de gênero e o papel da mulher, juntamente com as mudanças no modelo de família no decorrer da história passou por significativas transformações, tendo como grande marco o desvelar de atitudes, comportamentos e enfrentamentos nos diferentes espaços sociais, na busca pela emancipação e superação da opressão e dominação, que na maioria das vezes ainda se fazem presentes no cotidiano das famílias brasileiras. Por outro lado, com as mudanças na contemporaneidade amplia-se o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, corroborando para expansão da comunicação em rede que articuladas às mudanças políticas, econômicas e culturais trazem engendrados ideologias e mecanismos que vão sendo incorporados por cada indivíduo no âmbito da família, e, no caso específico da presente discussão, pela mulher que por meio da televisão influencia e é influenciada, remodelando hábitos e costumes, fazendo emergir novas identidades. 41 CAPÍTULO II – AS IDENTIDADES DE GÊNERO: O LUGAR DA MULHER SOCIAL CULTURALMENTE CONSTRUÍDO 2.1 RESIGNIFICAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO E O EMERGIR DE UMA NOVA CONDIÇÃO DA MULHER O espaço privado reservado à mulher originou-se das várias faces das relações humanas construídas por meio de processos materiais e históricos, a partir das relações que homens e mulheres estabeleceram na produção e reprodução da vida material e imaterial. Portanto, as práticas sociais de gênero foram sendo processadas de forma que representações, normas, valores sociais e símbolos ao materializarem-se nas sociedades, imprimiram a “diferença sexual”. Entre as práticas socialmente construídas destaca-se o rompimento da mulher com o “patriarcado familiar”, quando de forma mais efetiva esta se insere no mundo do trabalho, de acordo com Castell (2000, p. 56) “tornando-se um dos atores do processo de globalização da sociedade”. Isto ocorre em vista de dois fatores que se contradizem frente às mudanças societárias que vão dando contornos à vida em sociedade e, consequentemente às formas de relações sociais estabelecidas com e pelas mulheres. As guerras e o processo de deslocamento da produção agrícola para a industrial contribuíram com a inserção das mulheres no processo produtivo, espaço reservado inicialmente aos homens, ao mesmo tempo em que se ampliam a escolarização e a urbanização. Nos países em processo de industrialização as mulheres conseguiram espaço à época da Primeira Guerra Mundial, mas no caso brasileiro sua inserção ocorrera na década de 40, período da Segunda Guerra Mundial, quando da emergência do capitalismo tardio. Para Bourdieu (2002) a dominação masculina é uma construção social – o mundo social construído por e para o homem – que implica permanência de formas de opressão difundidas pela divisão sexual do trabalho. Essas formas tendem a ser reproduzidas a partir dos esquemas de percepção incorporados tanto em mulheres 42 quanto em homens: construção de significados vinculados implicitamente ao princípio de diferenciação entre os sexos – o jogo da violência simbólica – sendo suscetíveis de reproduzir os princípios de dominação masculina inadvertida e cotidianamente. Significa, pois, que a condição cívica feminina decorre da complexa dialética entre os papéis e lugares socialmente atribuídos às mulheres, que Mitchell (apud MORAES, 2000, p.90) aponta como “a dialética entre os ditames da produção econômica e as contingências do processo de produção-reprodução social”, ao definir o lugar da mulher nas sociedades de produção industrial. Nesta direção destaca-se que o movimento feminista, consubstanciado por interesse individual e posteriores necessidades coletivas contribuíra para a superação da ideologia de subordinação feminina, surgindo a partir do processo gerado pelas relações sociais e do trabalho no qual o capitalismo pós-revolução francesa reserva para a mulher o lugar no espaço público, embora esta não tenha se desvinculado do doméstico. Nessa transição e tomada de consciência genérica e civil para entrar no espaço público, criam-se, culturalmente, marcas simbólicas impostas pela necessidade que vão se recriando com as mudanças das comunidades pósindustriais. Assim, gradualmente, vão sendo substituídas as representações e a imagem introjetada sobre si mesmas, derivando em movimento de manifestações das suas particularidades culturais. Assim, a mulher vai optando por superar o modelo imposto, inserindo-se no mundo do trabalho dando surgimento a um novo modelo que vem contrapor ao de submissão, substituindo aos poucos as obras beneméritas definidas até então, como suas prerrogativas, de essência maternal na qual se apresenta essencialmente solidária, e que seria o estigma de suas projeções simbólicas. Antigamente a mulher era mãe, dona de casa, tinha que se sujeitar ao marido. Mas isso não quer dizer que ela não fazia o que queria. Já tinha muita mulher forte, de opinião e que não se deixava dominar. Muitas trabalhavam na roça pra ajudar em casa, costurava pra fora, ou trabalhavam em casa de família. Infidelidade mesmo já tinha e muito. Só que era mais calado, escondido. (D. L.) 43 Me lembro das mulheres que freqüentavam o antigo Clube Feminino em Cuiabá. Lá não se admitia negros. Era lugar da fina classe cuiabana. Elas projetavam uma imagem de cuidado e bem estar familiar que muitas vezes a gente sabia que não existia. Desfilavam e faziam benemerência aos pobres. Coitadas, a gente que ia lá que sabia de suas mazelas e dos problemas que enfrentavam em casa para sustentar casamentos que já nasciam fracassados. Violência, homossexualidade, infidelidade conjugal. (I. G.) Na realidade, as relações sociais entre os sexos condicionados pelas estruturas de classe, suas lutas e pelo lugar social das mulheres terminam por desvelar as contradições que se materializam entre classe e sexo, pois se conjugam a determinações, como a ideologia historicamente fluída, os valores morais da família em diferentes épocas, até chegar às atuais questões étnico-raciais. Dito de outro modo, a condição da mulher na sociedade passa por diversas ressignificações a partir do aprendizado da noção de liberdade, do reconhecimento da opressão e a importância da ação coletiva feminina, elementos que vão processar os nexos necessários à construção de novas dimensões ontológicas. Simultaneamente concretizam-se fatos sujeitos à ação da práxis3 feminista como a queima do sutiã, evento simbólico realizado por 400 ativistas do Women’s Liberation Movement, em 1968, em Atlantic City, assim como as alterações no modo de vestir, similar ao masculino, apontando indícios de que determinadas simbologias da indumentária podem estar associadas a modos de comunicar papéis sociais e de gênero. Portanto, a busca da autonomia traz intrínseca a conquista da liberdade e emancipação, ou seja, dois movimentos concomitantes, particularmente no Brasil. O movimento feminino a partir das manifestações das mulheres por melhores condições de vida, entre elas saúde, trabalho, creche, entre outras, e o movimento feminista caracterizado pelas lutas pela igualdade de gênero, de direitos e emancipação socioeconômica. Ambos os movimentos procuram o estabelecimento de novas práticas sociais para homens e mulheres, superando as relações assimétricas entre os sexos caracterizados como multidimensionais em que o processo de recuperação e permanente busca do desenvolvimento de sua condição de mulher revela um 3 Conceito que indica ação criativa e potencialidade humana num contexto determinado. 44 redimensionamento na reavaliação de valores e funções sociais e determinados pela hierarquia entre os sexos, sempre revistos com relação aos papéis da mulher na e da família. De acordo com Durham (1983, p.44) “pela primeira vez na história o sexo do trabalhador passa a ser irrelevante”, muito embora se faça presente na atualidade a acentuada ambiguidade acerca da igualdade no mercado de trabalho e a permanência da desigualdade enquanto relação de gênero. Coincidentemente, o processo de deslocamento da mulher do espaço privado para o público ocorre sem desvincular-se um do outro, após a revolução francesa e, de forma mais acentuada a partir da industrialização, quando se verificou uma assimetria sexual em relação à condição feminina no capitalismo. Isto ocorre em vista de dois fatores que se contradizem frente às mudanças que vão dando novos contornos à vida em sociedade e, consequentemente, às formas de relações sociais estabelecidas com e pelas mulheres um destes referenciado anteriormente, é a inserção da mulher que se faz necessária para a utilidade pública, após a segunda grande guerra. Em contrapartida, tem-se o fator caracterizado pelo movimento das mulheres, consolidado na década de 60 por interesses individuais vinculados ao divórcio, à liberação sexual, à difusão do conhecimento científico e à liberação dos estigmas religiosos, passando a configurar-se em necessidade coletiva de inserção nos processos de produção, na política e nas lutas pela igualdade universal, particularmente nos direitos de cidadania, não se deixando abater pelas censuras decorrentes de discriminação, especialmente no período ditatorial, quando se tornam mais fortes os movimentos emancipatórios. Nesse sentido, a relação de gênero existe em todos os lugares e em todos os níveis do social, porém variando de uma cultura para outra. Como afirma Lauretis (1994, p. 212) “qualquer sistema de sexo-gênero está sempre intimamente interligado a fatores políticos e econômicos em cada sociedade”. Dessa forma, a construção cultural do sexo e gênero, passa a ser apreendida como sendo “sistematicamente ligadas à organização da desigualdade social” (idem). 45 Embora a maioria das mulheres tenha conquistado liberdade e autonomia no campo social, do trabalho, da política, ainda convive com emblemáticos aspectos a serem superados frente às multifacetadas expressões da questão social. Ainda temos presente a falta da equidade na participação da mulher nos diferentes espaços da vida pública e inferiores níveis salariais, em comparação aos dos homens na ocupação de cargos e funções, corroborando a manutenção da condição da mulher na complexa realidade social de reprodução do capital e da cultura de dominação entre os sexos, apesar das transformações ocorridas na condição feminina na sociedade contemporânea e das conquistas alcançadas concernentes às diferenças das relações de gênero. Isto posto, as condições particulares de opressão construída e reconstruída, em uma permanente dialética de produção, entraves étnico-raciais, classe/trabalho com a de relações de poder perpassam pela imagem e estética, ao se mesclar e fundir na iconografia, resignificando mitos e reproduzindo estereótipos. Se por um lado, a subordinação da mulher engendrada pelo poder, não vinculada exclusivamente ao Estado e aos seus aparatos, parece transparecer nas relações de mercado e nos diferentes espaços sociais, por outro lado, manifesta-se em uma rede invisível de práticas sociais cotidianas instituídas por meio do poder simbólico4, arraigadas nas sociedades e que se mostram presentes em determinadas culturas de preferência ocidentais. Assim sendo, em meados do século XX a mulher abrange o mundo dos múltiplos espaços profissionais, transita entre o privado e o público, porém, o acirramento das desigualdades sociais se expressa na sua participação no mercado de trabalho, na medida em que a remuneração é desigual, mesmo quando executadas funções correlatas às do sexo oposto. A quase ausência da presença feminina em determinados campos do conhecimento, ainda caracteriza dicotomia entre as áreas ocupacionais de homens e mulheres, visto que às primeiras são reservados postos de trabalho tradicionalmente femininos como no ramo têxtil, alimentício, entre outros, muito 4 Não era considerado por ele como um puro e simples instrumento a serviço da classe dominante, mas como algo que se exerce também através do jogo entre os agentes sociais. (BOURDIEU, 1989) 46 embora a conquista de espaços na informática e setores da indústria e tecnologia venha, paulatinamente, rompendo com a supremacia do masculino. Não há dúvida de que reconhecer direitos semelhantes aos do homem, de fato implica criação de fissuras na base da unidade familiar e negociação dos interesses entre iguais, características da esfera pública dos cidadãos, no entanto, a mulher assume, para além do espaço público, as funções antes outorgadas apenas aos homens, inclusive com pesquisas acadêmicas que indicam a feminilização da família, nas quais mães solteiras e/ou responsáveis por filhos, com um ou mais filhos de pais diferentes coabitando no mesmo espaço, sendo parcela significativa destas mulheres chefes de famílias, invalidando e conformatando novas formas de matrimônio, que se afasta do tradicional historicamente instituído. Como resultado da dialética entre o poder instituído pelo Estado e o cogitado pelas relações estabelecidas entre homens e mulheres na sociedade ocidental, se articulam intensas alterações socioeconômicas, muitas das quais resultantes do processo de globalização das economias capitalistas, intensificado a partir da década de 80, no século XX. Essa correlação de procederes pessoais e comunitários fica capitaneada pelo incremento no volume e ritmo dos fluxos de comércios e investimentos, por meio da integração dos sistemas em escala mundial, para além das fronteiras nacionais, de interpretações folclóricas, artesanais, e linguagens chegando a se traduzir em intensas alterações nas formas de comunicação e diversificação do processo informativo. Para tanto, a tecnologia da informação constitui-se num dos principais potencializadores das mudanças comportamentais por gêneros nas suas complexas dimensões culturais, sociais, políticas, e de valores morais, que associada à necessidade de inserção multifacetada da mulher no mercado, reivindica e promove novos comportamentos na identidade feminina. A inserção da mulher no mercado de trabalho não ocorre somente por necessidade de projeção pessoal, socioeconômica ou decorrente do movimento/pressão popular, mas, sim, pela iminente influência da nova configuração 47 nos mercados globais que se apropria das práticas cotidianas recriadas pela tecnomídia nos diferentes espaços culturais, resultando na iconografia de modelos estéticos prontos para o consumo, independendo da classe, esfera social ou idade. Nesse sentido, as transformações ocorridas na condição feminina na contemporaneidade e suas conquistas concernentes às diferentes relações de gênero conferiram à mulher mudanças intrínsecas ao processo histórico-social de seu contexto. Veja-se que uma vez partícipe das relações sociais e de produção, ela fica inserida numa pluralidade de condutas, decisões e papéis em que o consumo de determinados bens e produtos passa a compor sua imagem. A propaganda é a alma do negócio [...] às vezes você não pode ter, mas que dá vontade. Vamos lá fazer uma chapinha. (C. S.) Roupa [...] você copia [...] influencia na moda. A Raqueli com seus badulaques. Muita gente comprou. Um celular, câmera fotográfica. Você acaba consumido. (M. F.) Desta forma, a mercadoria penetra e transforma dimensões da vida social a ponto de a própria subjetividade se tornar mercadoria, a ser comprada e vendida no mercado, vez que no jogo do consumo qualquer coisa mercantilizável passa a ter poder de representação ao ser transformada em objeto de interesse, frente ao bombardeio contínuo de anúncios, graças a uma média diária de três horas de exposição na TV, sendo no caso específico as mulheres persuadidas a precisarem cada vez mais de coisas, a exemplo da fala a “gente consome [...] quando pode a gente consome". (E. C.) Portanto, a partir do cenário criado pela televisão como mediadora da imagem e inclusão da mulher na contemporaneidade, o mercado com suas práticas e lógicas, gera campos intencionados de sentidos e significados, que fazem emergir novas identidades na mulher brasileira. 48 2.2 AS TRANSFORMAÇÕES NA COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA E O EMERGIR DE UMA NOVA IDENTIDADE DA MULHER BRASILEIRA Com a transição da sociedade feudal para a sociedade moderna, o conjunto de mudanças econômicas transforma gradualmente o feudalismo europeu num sistema capitalista de produção e intercâmbio. O marco dessa transição pode ser caracterizado pelas mudanças políticas que favoreceram o reagrupamento de sistemas denominados Estados-nações, onde cada Estado rege seu território claramente delimitado, estabelece um sistema centralizado de administração econômica, política e cultural, e fortalece o monopólio do uso legítimo da força dentro de um determinado território. Naquele contexto, surge uma série de inovações técnicas, entre elas a invenção da imprensa, a codificação elétrica da informação e, posteriormente, a liberação do conhecimento das academias ilustradas, com a capacidade de produzir, reproduzir e distribuir as formas simbólicas em escalas sem precedentes. Tal dinâmica e interação criam o que Thompson (2002) define como “mediação da cultura” transformando e expandindo as organizações da mídia desde a segunda metade do século XV. As transformações acima descritas demarcam processos civilizatórios em vários espaços geográficos cronologicamente organizados que chegam até as concepções de divulgação nas sociedades modernas por meio de suas atividades e produtos veiculados, a partir de três aspectos como destaca Thompson (2002, p.73) o “[...] crescimento e concentração do poder econômico e simbólico nas mãos das grandes corporações hegemônicas; a globalização da comunicação com o desenvolvimento das agencias internacionais e expansão das redes de comunicação ligando as mais distantes regiões periféricas aos grandes centros; e, o desenvolvimento das formas de comunicação eletronicamente mediadas”. No Brasil escravocrata e repleto de analfabetos, a imprensa somente poderia ser acessada pela burguesia da qual era defensora de seus interesses econômicos e políticos. Porém, com a intensificação da emigração européia que substitui o trabalho escravo, logo após o advento da República, surge um público razoável para a imprensa nacional, sendo que até os anos de 1920 o jornalismo 49 impresso constituía-se no único meio de comunicação de massa, nos países em processo de industrialização. Isto significa que nos períodos anteriores, como durante a Revolução Burguesa na França, quando vigorou a liberdade de expressão assegurada pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, e, posteriormente, nos Estados Unidos da América cujo desempenho nessa área foi notável colocando o país na dianteira de todos os demais, o jornalismo que prevaleceu no período não chegou a dar origem a uma indústria de comunicação de massa em países subdesenvolvidos, a exemplo do Brasil. Os avanços das mídias entre as década de 1920 e 1950 podem ser considerados significativos, tendo como marco a forte influência dos Estados Unidos que em uma atitude de preocupação quanto ao interesse do empresariado para com este veículo de comunicação para geração de retorno de capital e uso em programas nazistas, contribuiu para a criação da Lei de Comunicações de 1934, a qual impediu o controle multimeios de rádio, jornais, revistas, televisão e outros, por parte de um único conglomerado no mesmo Estado da União, o que nunca ocorreu no Brasil. Pode-se, no entanto afirmar que no mesmo período no Brasil, no governo Vargas o rádio como veículo de comunicação processava a mediação de sua ideologia por meio do programa “Hora do Brasil” com grande índice de audiência, vez que o contexto que se desenhava era de um país em transição do modelo agrário para urbano industrial, população com fortes traços rurais e de migrantes, caracterizado pela alta taxa de analfabetismo, baixa tecnologia e ausência de instituições educacionais voltadas para as classes trabalhadoras, que vão se formando no entorno das emergentes indústrias. O grande estímulo para o investimento e ampliação deste sistema estava ligado ao seu potencial de geração de retorno de capital, crescendo inclusive nos meios universitários uma preocupação com o uso e domínio dos meios de comunicação tanto pelo Estado, como pela iniciativa privada. O mercado das novas mídias (TVs fechadas, PPV, provedores, informações on-line, sites de serviços e de dados, entre outros), associado aos recursos amplos dos serviços da telefonia, 50 tornou-se o grande palco da expansão do capital, como foram as manufaturas no início do capitalismo e o petróleo no século XX. Nesse período, o Brasil configurava-se por ser um país onde negros, brancos, mestiços e migrantes encontravam-se submersos em quadros sociais extremamente divergentes, situação que somente após a década de 60/70 vai tomar novos rumos, pois entre as décadas de 30 e 60 a sociedade brasileira sofre forte influência da cultura americana, no pensar e agir, principalmente por meio do cinema, no qual somente após a diva Carmen Miranda e com o cinema novo, os meios de comunicação brasileiros alcançam status no país e no mundo, com a MPB e a Bossa Nova a Rede Globo e suas afiliadas passam a impor uma série de produtos midiáticos para o país e o mundo. É nesse processo que ocorre a inserção da mulher na mídia brasileira em fins da década de 40 (TEMER, 2005) com transmissão pela TV Tupi de São Paulo, inaugurando programas voltados para a mulher dona de casa. Entre eles podemos destacar a “Revista Feminina” com Lolita Rios, “No Mundo Feminino” apresentado por Maria de Lourdes Lebert, e, posteriormente, por Elizabeth Dary. Na década de 50 destaca-se a apresentadora Hebe Camargo com os programas “Maiôs à Beira Mar” e “Com a Mão na Massa”. Nesse mesmo período vai ao ar o programa “Faça Você Mesmo” apresentado pela chefe de culinária Ofélia Anunciato, que ensinava corte e costura, e que passou por remodelações até mesmo no título. Espaços fortemente marcados pela cultura predominante da função ocupacional da mulher e a preocupação de instruí-la para os cuidados do espaço privado. Já a partir dos anos 60 ocorrem grandes avanços na sociedade moderna brasileira, com a ampliação do mercado de produtos de bens e serviços, gerando crescente volume de novas informações e acesso a novos consumidores, com intensificação a partir dos anos 80, em decorrência do processo de globalização dos mercados e de expansão da economia mundial. Juntamente a esses processos, as crises econômicas e políticas desencadeadas em meados dos anos 70 favorecem a despolitização e liberação de 51 economias dependentes que se consolidam a partir da década de 80 com a extinção da guerra fria, o alargamento das fronteiras e as transposições da economia mundial, resultando em transformações das relações de produção, de trabalho, abertura de mercados e competitividade empresarial. A partir do binômio entre capital e Estado há uma projeção internacional da economia de mercado, com a larga expansão dos bancos privados, em função dos deslocamentos do capital mundial, dos investimentos nas bolsas de valores e carteira em valores imobiliários, da aplicação em fundos de empresas estatais, do aumento de investimentos em tecnologia de informação, combinando mercado e financeirização, substituindo a então política econômica mundial por uma política monetária e financeira. Com essas transformações processadas na modernidade ocorrem mudanças políticas, econômicas e culturais que influenciadas pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia corroboram o crescimento da comunicação e sua expansão em rede, em especial de um arsenal ideológico que sinaliza novos lugares de mercantilização, onde as mulheres passam a ter espaços estrategicamente situados. Entre os meios de comunicação, a televisão aberta constitui-se um instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação da cultura, assim o patrocínio da informação mediada se traduz na difusão ideológica do consumo na sociedade, resultado do progresso tecnológico analisado por Canclini (2006) como técnicas de comunicação e persuasão que reforçam a atomização das pessoas, transformando-as em consumidoras e não cidadãs políticas, o que produz consequências sobre os hábitos de consumo e valores nos espaços privados. Ocorre, portanto uma diáspora entre mídia, cultura, processos produtivos e consumo, na medida em que a multidimensionalidade das relações possibilitada pela expansão da comunicação de massa imprime novas valorações sociais, denominada de multiculturalismo 5, que ao serem inseridas nos meios de 5 termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem que uma delas predomine, porém separadas geograficamente e até convivialmente no que se convencionou chamar de “mosaico cultural”. 52 comunicação adquirem a condição de produto, podendo ser apropriado pelos diferentes sujeitos das mais diversas esferas sociais. Assim, as transformações do mundo globalizado contemporâneo, ao influenciarem e serem influenciadas pelas múltiplas interações, interpretações, mobilidade instantânea e significados padronizados produzem mudanças nas estruturas sociais, nas concepções de personalidade, rápidos contrastes geracionais, como também no estilo de vida dentro das comunidades. Desta forma, os meios de comunicação também detêm o poder de atingir a formação de identidades6, desempenhando um papel fundamental para o encontro de culturas, sua apropriação e ressignificação, ao mesmo tempo em que contribuem para moldar nos indivíduos as maneiras de apreender o mundo, participando da estruturação da sociedade e sendo por ela estruturada. No entanto, este poder tem limites, já que a lógica da identidade que serve de suporte à individualização do ser humano é relativa e, a cada momento da história, ela se transforma. A identidade não é um valor universal e a-histórico. Os indivíduos, no decorrer de suas vidas, vivendo e se fazendo na história, não são os mesmos. Cada um, de acordo com os laços afetivos, familiares, profissionais, sociais, culturais se recria e participa da recriação do mundo em que vive. Torna-se evidente o fato de que a mídia ao realizar a mediação da cultura produz seu desencaixamento ao transitá-la por diferentes “campos sociais” (BOURDIEU, 2002), nos quais estão inseridos os indivíduos, a família, grupos de amigos, instituições educacionais, de trabalho, partidos políticos, entre outros. Por conseguinte, na efervescência do surgimento das novas tecnologias, as mediações que se processam produzem alterações não somente na imagem, mas também na incorporação de novos conhecimentos em que temas como gênero, classe, sexualidade, geração e etnia contribuem para a construção de uma nova identidade pública feminina. 6 Baseada em Hobsbawn (1996, p. 90) “as identidades coletivas se baseiam não no que seus membros têm em comum: pode ser que tenham muito pouco, exceto não ser os outros [...] as identidades [...] são intercambiáveis ou se podem levar em combinação, e não são únicas [...] se deslocam de um lado e podem mudar, se necessário, mais de uma vez”. 53 Além disso, os modelos incorporados pela mulher no passado estão sendo deslocados e, concomitantemente, revalorizando estruturas e dinâmicas das sociedades no século XXI, haja vista que o processo de globalização e sua interrelação com as novas tecnologias possibilitaram a identidade de gênero e sua permanente reconstrução por meio de distintas práticas sociais. Desta forma, a identidade cultural não se apresenta mais como autêntica, nem ligada a um determinado território, uma vez que fica circunscrita pela ação sócio-comunicacional, na medida em que o território perde a sua significação e o tradicional se funde e se mescla com o moderno e pós-moderno, na construção histórica das sociedades contemporâneas. (CANCLINI, 2006) Assim, com o redimensionamento das sociedades e da ampliação dos espaços sociais, a mulher passa a fazer parte do modo de ordenamento cultural vigente como um bem público comum, ao mesmo tempo em que novas culturas, em especial dos grandes centros, ao serem incorporadas pela sociedade, fazem romper com o tradicional, conduzindo homens e mulheres a uma “crise de identidade”, que figurará como marca da aceleração dessa modernidade. (MATTELART & NEVEU, 2004) Nesta perspectiva, uma cultura somente se torna efetiva ao concretizar-se no cotidiano, e a forma privilegiada da sua inserção na modernidade se faz presente mediante o consumo que, para além dos serviços, se erige como ética e como conduta nesse novo estágio civilizatório da sociedade em formação. Neste sentido, a globalização econômica constitui a forma mais avançada e complexa de internalização da cultura, implicando certo grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas que se aplica à produção, distribuição e consumo de bens e de serviços organizados a partir de uma estratégia mundial, voltada para um mercado global que produz comportamentos, costumes, hábitos ressignificados pelo consumo. Assim, para Halbwachs (1970, in CUCHE, 2002, p.66) “as necessidades que orientam as práticas culturais dos indivíduos são determinadas pelas relações de produção”, que disseminadas pela mídia vão implementar o consumo e programar 54 as incidências do mercado, movimento que no contexto globalizado reproduz diferentes manifestações culturais e, consequentemente, a ocorrência da interface entre diferentes modos de vida, inclusive a econômica no contexto metropolitano que é revestida de características próprias do processo de aceleração de urbanizações, com expansão e recriação de modos de vida. Diante do exposto, a forma como a sociedade administra, promove ou inibe a cultura local em seu meio, reflete parte de seus valores que, de acordo com o interesse em dialogar com outras sociedades, trazem mudanças culturais no âmbito local e regional, condição essencial às trocas sociais. Esses condicionantes tanto na estrutura midiática, quanto nas relações produzidas pela sociedade, terminam por engendrar contradições entre a identidade de subversão e a experiência de cooptação, implicando uma diversidade de interesses no interior do feminino que, configurando-se como totalidade, constituem o feminismo como uma coletividade total. Assim, ao pensar a autonomia e liberdade, a mulher realiza composição identitária que lhe permite processar o caráter coletivo de sua representatividade, de forma particularizada, de acordo com sua superação, reificando ou coisificando a sua condição de sujeito no emblemático cotidiano e rotina em que estabelecem suas relações. Para tanto, as mulheres têm buscado estratégias para fissurar o discurso masculino construído e estabelecido socialmente, recriando um forte sentido de identidade, reestruturando o seu mundo, procurando dar um novo significado, ressignificando seu presente na dinâmica que se processa nas diferentes culturas. Eu sou mulher. Gosto de ser mulher. (C. F.) Destarte, o caráter singular da identidade feminina ao ser apropriado pelo aparelho publicitário, em especial o televisivo, transfere modelos de representação de imagem, linguagem e valores que desterritorializados do contexto local ganham novas dimensões, ou seja, reterritorializando-se. Este movimento é explicado por Deleuze e Guattari (2006, p.41): 55 Jamais nos desterritorializamos sozinhos, mas no mínimo com dois termos: mão-objeto de uso, boca-seio, rosto-paisagem. E cada um dos dois termos se reterritorializa sobre o outro. De forma que não se deve confundir a reterritorialização com o retorno a uma territorialidade primitiva ou mais antiga: ela implica necessariamente um conjunto de artifícios pelos quais um elemento, ele mesmo desterritorializado, serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. Daí todo um sistema de reterritorializações horizontais e complementares, entre a mão e a ferramenta, a boca e o seio. Por conseguinte, pode-se afirmar que a desterritorialização configura-se como movimento pelo qual se abandona o território7, enquanto a reterritorialização representa o movimento de reconstrução desse território ocorrendo, portanto, uma constante reelaboração da identidade nos diferentes espaços sociais, locais e global. Partindo dessas considerações, a identidade é moldada e orientada externamente e internamente, ao mesmo tempo em que infere na subjetividade, conduzindo à fragmentação do indivíduo moderno, anteriormente visto como sujeito unificado, significando que as mudanças identitárias levam tanto homens quanto mulheres a afastarem-se do senso de pertencimento, a exemplo de culturas étnicas, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais. Dessa forma, pode-se afirmar que individualmente ou a partir de pertencimento a determinado grupo, a cultura partilhada tem valor de uso, mas na medida em que ocorre sua difusão, esta socializa-se sendo apropriada pela comunicação que a transforma em produção racionalizada, padronizada e expandida, passando a ser denominada de produto. Assim, a cultura ao ter lugar e se fazer presente na mídia institui determinados padrões que terminam por modelar via cenários e imagens, quando incorporada nas suas múltiplas formas de manifestação, ao mesmo tempo devolvida de forma ressignificada ao movimento centro-periferia, ou inverso, periferia-centro. O imaginário popular influenciando o comportamento do sujeito fragmentado vindo a 7 A noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem dele a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos (GUATTARI e ROLNIK, 1986, p.323). 56 ser institucionalizado para o coletivo pelo poder da mídia, onde o instituído pelos canais de comunicação vai se tornando instituinte dos mais diversos territórios, rompendo fronteiras, revalorizando o regional e nacional, mundializando-se. Portanto, no mundo moderno as culturas nacionais constituem uma das principais fontes de identidade cultural, pois de acordo com Hall (1997), as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações, influenciando e organizando tanto ações do cotidiano, quanto concepção acerca de nós, identificação com a nação, assim como a interpretação de significados a partir de nossa imaginação. Por sua vez, parece necessária a compreensão mercantil de que nenhuma nação possui uma identidade cultural unificada, pois esta se move no processo de desenraizamento geográfico, remodelando todas as certezas até então conhecidas. Assim, neste processo de desterritorialização e reterritorialização ocorre uma “cultura de passagem“ regida por identidades sexuais, relações econômicas, políticas e sociais, englobando objetos de consumo, moda, turismo, literatura, entre outras formas de sociabilidade comercial. Nesse contexto globalizado, ocorre a interface entre diferentes entornos, tribos e sujeitos, culminando com o descentramento que produz a pluralidade cultural dos grupos no âmbito de sua territorialidade, onde a cultura originalmente construída convive ou mesmo perde sua identidade “exigindo implementação de ações que façam emergir bandeiras multiculturais” (FEATHERSTONE, 1995, p. 9596). Em síntese, todo o processo que produz o entrecruzamento da cultura com a mídia nos diferentes espaços, em especial no processo de globalização e avanço tecnológico, não apenas compreende a cultura pela sua materialidade ou imaginário, mas também a impele a se constituir em produto de consumo, concretizando-se no poder de criar e recriar diversos espaços de disseminação de culturas a partir da apropriação de elementos do cotidiano. De acordo com Sarlo (2004, pg. 116) “la universalización imaginária del consumo material y la cobertura total del territorio por la rede audiovisual no 57 terminan con las diferencias sociales pero diluem algunas manifestaciones subordinadas de esas diferencias”8. Nesse desvelamento de recriação e difusão, a mulher tem lugar de destaque na mídia, seja como produto, seja como sujeito de consumo ao fazer parte desse processo cultural que transpõe fronteiras. 2.3 AS CATEGORIAS REPRESENTAÇÃO SOCIAL E GÊNERO EM ANÁLISE O conceito de representação social surge em 1961 com Moscovici objetivando ampliar a psicologia social que, até então, trabalhava com a dissociação entre sociedade, indivíduo e grupo tendo por base os estudos de Émile Durkheim acerca das representações coletivas, situando-se assim no campo intermediário da psicologia e das ciências sociais. No Brasil, apenas após a década de 80, o estudo das representações sociais ganha escopo enquanto resposta aos problemas emergentes da vida cotidiana diante dos quais pesquisadores foram chamados a se posicionar, quando esta passa a ser vista como uma nova roupagem para o estudo das atitudes. A definição da representação social como forma de conhecimento social assenta-se em três aspectos importantes: a comunicação, a (re)construção do real e o domínio do mundo, significando para Jodelet (2001): Forma de conhecimento corrente, dito “senso comum”, caracterizado pelas seguintes propriedades: 1. Socialmente elaborado e partilhado; 2. Tem uma orientação prática de organização, de domínio do meio (material, social, ideal) e de orientação das condutas e da comunicação; 3. Participa do estabelecimento de uma visão de realidade comum a um dado conjunto social (grupo, classe, entre outros) ou cultural. Nesse sentido, as representações sociais são verdadeiras teorias do senso comum, ciências coletivas pelas quais se procede à interpretação e mesmo à construção das realidades sociais, concebendo-as como verbalização das concepções que o homem tem do mundo real que o cerca, onde se percebe no 8 A universalização imaginária do consumo material e a cobertura total do território pela rede audiovisual não terminam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações subordinadas a essas diferenças. Beatriz Sarlo. Escenas de la vida posmoderna, 2004. 58 discurso os valores, a ideologia, as contradições, enfim, os aspectos importantes para o entendimento do comportamento social, produto individual ou social, onde a representação social do individuo é fortemente marcada pela influência do seu grupo de referência. (LANE, 1993). Assim, os três aspectos citados das representações sociais colocam em evidência o papel que estas assumem na dinâmica das relações e nas práticas sociais cotidianas e elucidam-se por meio das diferentes funções assumidas pelas representações, permitindo aos indivíduos compreender e explicar a realidade, construindo novos conhecimentos fazendo do novo algo assimilável e compreensível, situando os indivíduos e os grupos no campo social, permitindo-lhes a elaboração de uma identidade social e pessoal. Ressalta-se que nas sociedades modernas, caracterizadas pelo seu pluralismo e pela rapidez com que as mudanças econômicas, políticas e culturais ocorrem, a teoria das representações sociais articula-se tanto com a vida coletiva de uma sociedade, como com os processos de construção simbólica nos quais os indivíduos lutam para dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar por meio de uma identidade social. Nesse sentido, a esfera pública, enquanto lugar de alteridade fornece às representações sociais o terreno sobre o qual elas podem ser cultivadas e se estabelecer, pois é no espaço público que estas se encontram radicadas e por meio das quais o ser humano desenvolve uma identidade, cria símbolos e se abre para a diversidade de um mundo de outros, ou seja, o significado que o social assume na sua dimensão pública, no espaço do encontro e do confronto, de forma direta como nas ruas, praças, rituais coletivos, ou por meio de mediações institucionais. Assim, estabelecem as fronteiras que tanto ligam como separam as pessoas, que tanto as unem como as impedem de tropeçar umas nas outras (ARENDT, 1958, p.50-52), bem como transcendem o ciclo de vida de uma geração, tendo como base o diálogo e a conversação os quais vão iluminar alguns dos parâmetros normativos que definem a vida em comum. 59 A partir das fronteiras a comunidade desenvolve e sustenta saberes sobre si própria, com base na ação dos sujeitos sociais agindo no espaço comum a todos, trazendo para o centro das discussões a dialética entre um e o outro sublinhando a importância das relações entre sujeitos-outros sujeitos-sociedade na busca de possíveis significados, tanto da vida individual como da vida pública. Portanto, a possibilidade real de confrontação é dada por um espelho na vida cotidiana, onde seres humanos podem interrogar a si mesmos e utilizar diferentes territórios para refletir sobre suas identidades, numa demonstração de que para além de qualquer tipo de isolacionismo e individualismo a verdadeira possibilidade de ter acesso à individualidade reside na presença de outros. É a referência do mundo que garante a natureza criativa da atividade simbólica, de tal forma que a experiência de um, ao se mesclar com a experiência de outros, cria continuamente a experiência que constitui a realidade de todos. (JOVCHELOVITCH, 2008) Ainda de acordo com o autor acima, As representações sociais são uma estratégia desenvolvida por atores sociais para enfrentar a diversidade e mobilidade de um mundo que, embora pertença a todos, transcende a cada um individualmente [...] são um espaço comum, onde cada sujeito vai além de sua própria individualidade para entrar em domínio diferente, ainda que fundamentalmente relacionados: o domínio da vida em comum, o espaço público. Dessa forma elas não apenas surgem das mediações sociais, mas tornam-se elas próprias mediações sociais. E enquanto mediação social, elas expressam por excelência o espaço do sujeito na sua relação com a alteridade, lutando para interpretar, entender e construir o mundo. (IDEM, p.81) Desse modo, podemos dizer que as representações emergem como processo que ao mesmo tempo desafia e reproduz, repete e supera, que é formado, mas que também forma a vida social de uma comunidade, influenciando e sendo influenciado pelas dimensões culturais do desenraizamento e da mobilidade espacial ligados à imigração e/ou a uma fragmentação crescente dos espaços de vida, como lugar do confronto com novas mitologias sociais e o espaço da vida cotidiana. Nesta direção, o espaço, ao globalizar-se na contemporaneidade, reforça a crise de identidade e fragmentação do sujeito a partir da necessidade da distinção, da particularidade, para que diante da generalização do mundo globalizado seja 60 identificável diante do todo, onde os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares de enunciação do falar, dos brasões familiares e dos elementos culturais distintivos e simbólicos. Nesse sentido, a representação social da mulher na televisão traz intrínseca a intenção de convencer pelas imagens, sem exigências da verdade, onde o real é a tecnologia, e por simulação se injeta sentido, à medida que ela se concretiza na relação com o mercado. Segundo Baudrillard (1991), nada existe de profundamente verdadeiro, no lugar da verdade uma aparência de verdade. Captando este particular humano, os patrocinadores e seus adendos publicitários encarregam-se de moldar o imaginário popular por meio de propagandas onde utilizam imagens femininas agradáveis ao deleite do consumidor, público majoritariamente masculino, embora se postule que as representações sociais veiculadas pela televisão têm uma dimensão educativa e cultural ao potencializar ou reprimir as mais diversas formas de veicular a imagem feminina em seus programas. Portanto, ainda que se afirme haver uma dimensão educativa na apropriação das informações, estas ao fazerem parte do processo divulgação, enquanto um dos instrumentos e meios para a objetivação da comunicação, terminam por reeditar o preconceito de gênero contra a mulher, pois a produção imagética pela mídia tem sido consumida, sem reflexão, o que a torna uma linguagem carregada de ideologia para a confirmação da maior valia masculina. O meio ambiente artificializado da televisão firmado pelos referentes técnicos e pelos valores e símbolos sociais, ao iconografar determinada modelização do real coisifica a imagem feminina, inspirando comportamentos filosóficos e práticos. No concreto das construções sociais, as telespectadoras vão construindo sínteses que lhes permitam situar-se e agir: a formação recebida, com as informações que se lhes associam, os conhecimentos estruturados em outras experiências, os valores e símbolos que marcam seu cotidiano, vão se reconfigurando, na prática, deslocados ou ratificados, com todas as noções e pré- 61 noções, pois conforme Lane (1993, p.55) “a realidade objetiva vivida pelo indivíduo se torna subjetiva, a qual por sua vez se objetivará por meio de suas ações”. Ou seja, de forma gradativa novos sentidos sociais, seus sujeitos, objetos e objetivos vão sendo gestados, a partir das condições nas quais a mulher, em sua condição feminina, objetiva-se como ser social. Esses elementos ajudam a configurar o terreno em que se situa a sociedade de consumo, no jogo binário entre espetáculo e realidade, da imagem e da práxis social o espetáculo inverte o real até revalidá-lo como um produto, onde a atividade social é a realidade vivida e invadida pela contemplação do espetáculo e só assim ganha notoriedade de realidade. Assim, o espetáculo torna real o que já é real, e o real que não se transforma em espetáculo tampouco tem importância, vez que este “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 2006). A crença na mensagem televisiva de um modo geral, implica consolidar a dependência do espectador em relação à televisão, cuja consequência é a transformação dos hábitos do telespectador, haja vista os valores morais, sociais, econômicos e outros que, são inevitavelmente alterados. Enquanto a sociedade está constantemente modelando e remodelando seus sentimentos e gostos, expandindo os horizontes de suas experiências, também vai se modificando por meio de mensagens e de conteúdos significativos oferecidos pelos produtos da mídia, entre outras coisas. Esse processo de transformação não é um acontecimento súbito e singular, ele acontece lentamente, imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano. Nele algumas mensagens são retidas e outras esquecidas, umas se tornam fundamento de ação e de reflexão, tópico de conversação entre amigos, enquanto outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no refluxo de imagens e ideias. A linguagem e o imaginário tradicional usados como arma acentuam simbolicamente o distanciamento dos contextos espaços-temporais da vida cotidiana, não literalmente, mas imaginativamente a partir da concepção de que há 62 diferentes maneiras de viver e condições de vida diferentes do seu cotidiano “nos oferece uma idéia do resto do mundo” – efeito de distanciamento simbólico. Servem ainda, para consolidar relações estabelecidas de poder ou criar novas formas de dependência. Assim, ao invés de se partilhar um território físico, partilham-se imagens, permitindo aos membros de um determinado grupo que se reconheçam dentro desse território, independentemente das fronteiras geográficas tradicionais. Por sua vez, a mídia televisiva veicula não apenas imagens e formas lingüísticas, mas práticas sociais, ou seja, formas de ação e interação social, sujeitas a diversos deslocamentos, aberturas e flexibilidades de configuração e construção, pois enquanto prática social implica processos particulares de produção, distribuição e consumo de imagens e textos. Geralmente, as notícias midiáticas são resultantes de relatos conduzidos e escolhidos, que constituem interpretações explicativas histórico-sociais dos eventos. Nessa prática, a historicidade é “simbolicamente manipulada pela memória ou pelas memórias coletivas”. Barbosa (2003, p. 117), discutindo a relação entre historicidade e memória (mito, tradição) no contexto das comemorações brasileiras dos 500 anos, aponta que “[...] a reconstrução de fatos históricos, quer seja pela recorrência à história, quer seja pelo retorno ao mito, funciona como estratégia de que se vale a mídia, na qualidade de instituição social, para intervir na produção não apenas da informação, mas também de cultura”. As negociações desenvolvidas nos eventos sociais constituem-se de vozes incluídas e até mesmo excluídas. O reconhecimento de tais vozes depende invariavelmente do contexto e do conhecimento partilhado, significando dizer que os sujeitos tendem a dizer algo em função das experiências acumuladas ao longo das práticas sócio-culturais e históricas (FAIRCLOUGH, 2001, p. 156). No texto midiático, por exemplo, é interessante pontuar como ocorre o movimento de vozes deslocadas de um contexto para o outro, verificando ainda como é realizada a distribuição das informações entre a constituição das vozes autorais e atribuídas e das vozes implicadas no momento da construção do discurso. 63 Essa distribuição de vozes implícitas ou explícitas na construção do texto e das imagens nada mais é do que a recontextualização de informações e/ou ideias préconstruídas que circulam em moldes, ou seja, em enunciados cristalizados. O fato é que, principalmente, em gêneros midiáticos, as pressuposições, quando são retomadas anteriormente à instância de produção, podem ser manipulativas, assim como sinceras. Manipulativas no sentido de que se configuram como um exercício de poder, como uma influência que se consolida por meio do discurso, enquanto um conjunto de conhecimentos culturais tácitos significam, pressuposições estas que podem levar os leitores a considerarem as afirmações como determinadas construções de realidades. As representações midiáticas constroem de maneira informal e, às vezes, caricatural a identidade das mulheres que estão conquistando posições de destaque por meio da descrição sumária de acontecimentos relatados, resvalando para construções de realidades genéricas e abstratas. Como exemplo, as mulheres são descritas principalmente pela aparência e pelos domínios sociais ocupados, cargos e posições de destaque, essa prática se funde à historicidade ou às construções míticas, tácitas, trazendo à tona a voz do outro, das representações sócio-culturais hegemônicas. As mulheres são ainda representadas por meio dos processos mentais e relacionais expressos por enunciados tais como “é, vem ganhando, estão ocupando, tornou-se, não passa de” (grifo nosso), implicando que elas apenas “existem”, mas não detêm o controle de suas ações, embora ocupem cargos de poder e risco não são representadas como agentes de ações. Debatendo sobre a noção de diferença sexual como a principal causa da desigualdade, Lacroix (2002) e Swain (2005, p. 345) afirmam que “os códigos [...] criam cidadãs de segunda categoria, nomeadas mulheres, a partir de sua sexualização, a partir de uma definição atrelada a seu corpo e a seu sexo biológico”. Como argumenta Barbosa (2003, p. 122), a mídia utiliza a estratégia discursiva característica da história para, por meio de textos, trazer “uma memória social construída entre a temporalidade do mítico e a cronologia do histórico”, estratégia esta que pode ser evidenciada no trecho a seguir extraído de uma 64 reportagem ao acaso que trata da inserção de uma mulher no espaço da política “e desta vez não haverá boleros”. Tecendo considerações acerca da mídia, Fisher (2001, p. 588) afirma que “a mídia é um lugar privilegiado de criação, reforço e circulação de sentidos, que operam na formação de identidades individuais e sociais, bem como na produção social de inclusões, exclusões e diferenças”. 2.4 A MÍDIA E REPRODUÇÃO DA IMAGEM SOCIALMENTE CONSTRUÍDA DA E PELA MULHER No mundo globalizado o conhecimento técnico-científico torna-se cada vez mais intenso e complexo, ao mesmo tempo em que a mulher se constitui em protagonista de suas próprias vivências, na fronteira entre o moderno e o pósmoderno. No entanto, ainda permanecem as diferenças de gênero frente à multiplicidade dos acontecimentos e à fragmentação de suas funções, onde a partir de seu deslocamento para o espaço público, ainda que transitando quase exclusividade no espaço privado. Todavia, a mulher no capitalismo associa os espaços privado e público, reproduzindo atividades tradicionais como costurar, cozinhar, cuidado dos filhos, típicas do seu confinamento anterior à inserção na vida social não por livre escolha, mas porque ainda lhe é atribuída a necessidade de manutenção deste espaço, conciliando essas atividades com a inserção no mercado e/ou na condição de autônoma pela necessidade de geração de renda, de manter a família, de realização pessoal e necessidade de consumo. Assim sendo, se “o espaço doméstico está reservado à mulher para atender as necessidades de reprodução da vida e da força de trabalho” (VIEIRA, 2001, p.10), a comunicação realizada pelos programas televisivos voltados para o público feminino ancorados no tripé: culinária, beleza e artesanato, este último também voltado à geração de renda, ao fornecer um guia de como agir enquanto consumidoras de produtos e serviços, perpetua as relações do espaço privado com pouco aporte em direção aos direitos sociais e de gênero. 65 Porém, a partir da década de 80, a Rede Globo lança o programa “TV Mulher” que, segundo Lima e Priolli (1985, p. 40), inaugura a exploração sistemática e rentável do horário matinal na TV, redesenhando um formato para o público feminino que mesclava informações e variedades, configurando naquele contexto um novo estilo de vida: o da mulher moderna, não superando os modelos historicamente construídos, mas associando a estes a disseminação de novas formas de consumo voltadas para a mulher inserida no mercado de trabalho e emancipada sexualmente. A década de 90 no Brasil constituiu-se marco da inserção da mulher no espaço público midiático, de forma mais contundente, haja vista que até pouco tempo era impedida de ter sua imagem publicizada, sendo apenas receptora, a exemplo da discriminação para com as mulheres pioneiras da rádio, passando de segmento de público-alvo para tornarem-se muitas delas, produtoras, editoras de publicações e apresentadoras. Do mesmo modo, os canais de comunicação investem na força de trabalho feminino, nos campos político, econômico e esportivo rompendo gradualmente o paradigma de que essas esferas televisivas seriam exclusivas do homem, ou espaço para referenciar assuntos domésticos. Com as mudanças ocorridas na e da sociedade nas últimas décadas, a mulher antes considerada apenas como mãe-esposa, passa a ser vista como mulher mão-de-obra, originando aí suas multifacetadas funções, num processo que romantiza a fragmentação do sujeito mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-objeto de desejo, mulher-trabalhadora, mulher-consumidora, mulher-produtora de conhecimento. Sendo assim, o mercado global se volta à recriação de imagens onde a mulher sofre forte ideologização mercadológica, além de encontrar espaço de relativa empregabilidade que lhe permite simultaneamente tempo para autoconsumo. Influências e formas de mulheres, uma para cada necessidade, seja do mercado, da família que se transforma e reforma numa recomposição de interesses mercantilizados e em símbolos recriados em vista de necessidades, novas funções e 66 apropriação de comportamentos, a partir de uma iconografia cuja estética da comunicação segundo Eco (1997, p.330) [...] é capaz de instituir gestos e propensões [...] criar necessidades de apreciação [...] em que ao estabelecer interação com a recepção mediatizada pela linguagem e expressões próprias da comunicação de massa, difunde bens simbólicos como o fetiche, incorporando-os à vida cotidiana pública. Em termos mundiais, a tendência contemporânea de ampliação das tecnologias de comunicação volta-se para o intervalo comercial aproveitando-se dos índices de audiência dos horários nobres, para mercantilização de produtos e serviços para o consumo. Nessa batalha pela audiência vale tudo, desde o sensacional até o brinde, a chamada promoção, associando à informação promoções de bens supérfluos, além de utilidades e serviços. Concomitantemente à dissolução das fronteiras transnacionais ficam difusas as demarcações territoriais, seja entre a linha do urbano e rural, seja dos espaços públicos transformados em não-lugares (AUGÉ, 1994), ou ainda do espaço privado e subjetivo, não se fazendo mais necessário estar presente para realizar compras, receber notícias do mundo, independente das instâncias físicas ou hierárquicas, bastando ter acesso às tecnologias da informação, como cartão de crédito, conta bancária, internet. Constata-se assim, nos diferentes espaços da vida social entre estes a medicina, ciência, arte e beleza, uma tendência à coisificação da imagem da mulher, tomando-a como mercadoria pela lógica do mercado capitalista, onde a liderança dos meios de comunicação de massa permite que o real e o imaginário se mesclem, impondo à mulher sua aceitação como objeto de uso e produto. Ao mesmo tempo, a inclusão da mulher nos diferentes espaços da vida privada e pública passa a ocupar um lugar privilegiado, na medida em que a mídia possibilita a criação e recriação do universo feminino, não apenas em relação ao trabalho, mas do fascínio, dos sentimentos, do estético, como pode ser observado, por exemplo, nas novelas. Assim, o rompimento com o paradigma do ocultamento da mulher no doméstico permite superar fronteiras à medida que esta se insere nos demais 67 campos como político, literário, estético, poético, vindo a fazer parte de um universo organizado a partir da lógica do masculino. Mesma ótica pela qual emerge a desigualdade, uma vez que a mulher interage no espaço público e é recolocada no espaço privado mediante a imagem que dela se faz e aceita, mãe e esposa, realizando um movimento de dupla mão, surgindo uma nova representação de liberdade marcada pela emancipação de responsabilidades no lar, pela interação com a vida profissional e a lógica do consumo, alimentada pela publicidade, que se mescla nas múltiplas identidades da mulher contemporânea. Cabe ressaltar que as novas relações sociais formatam um novo universo feminino, onde se manifesta a produção da subjetividade submetida à lógica do mercado, convivem entre o fetiche da modernidade e as práticas tradicionais dos papéis historicamente marcados pelo espaço privado. Tendo em vista as mudanças exógenas e endógenas na modernidade, a imagem midiatizada e televisiva engendra uma lógica coletiva, que consumida e incorporada pela mulher, produz alterações em seu processo perceptivo, tanto na vida pública como na pessoal, recriando um imaginário que confunde e fascina, numa experiência estética que naturaliza uma imagem estereotipada da mulher, mas não responde às singularidades individuais. Na busca da compreensão de como as participantes apreendem a apresentação da imagem feminina veiculada na atualidade nos mais diversos canais de televisão aberta, obteve-se as seguintes inferências: Procuram mostrar o belo, magras, esbeltas, lindas e maravilhosas. O namoro na TV não apresenta uma mais gordinha ou de idade, mas uma linda que não precisa procurar namorado pelo amor de deus! Não mostra mulher normal, só focam a parte bonita e não a verdade. Eu sou discriminada porque sou gorda. (M. F.) Eu gosto de novela. Você põe num canal tá chato, no outro tá chato [...] daí eu fico com a novela que mostra de tudo um pouco. Como na vida real. (C. S.) Na novela você vê gente gorda, feia, velha, amor, desilusão, tragédia, por isso a mulher assiste novela. É mais real. (M. L.) É interessante observar que as falas trazem à tona a compreensão que as mulheres captam da televisão quando esta enaltece a beleza de um corpo, 68 atribuindo-lhe os papéis principais, a vida idealizada, enquanto às negras, gordas, feias são reservados nas novelas papéis secundários, geralmente de classe inferior e vida difícil, ocorrendo uma valorização do estético e do reforço do imaginário coletivo de que somente os bonitos, ricos e bons têm o privilégio da felicidade. Nessa direção, ao produzir apelos que valorizam estilos de vida terminam por construir determinado padrão aspiracional como mencionado pela psicóloga Raquel Moreno (2008), o modelo feminino difundido é o da mulher musa “jovem, magra, branca, de cabelo liso e burra, que é a que vende e representa os valores tradicionais”, diz a psicóloga em entrevista na 2ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Raquel afirma ainda que este padrão de beleza atinge todas as classes sociais na contemporaneidade, ampliando o seu alcance ao interior das mulheres, pois a beleza passa a refletir o estado da alma, estimulando o consumo de um mundo de parafernálias, produtos, cirurgias, que prometem colocar este ideal de beleza ao alcance de qualquer uma, até mesmo em suaves prestações mensais. Tudo isso reforçado pelo fato de que a mulher se vê cercada de modelos de beleza por todos os lados, em outdoors, revistas, jornais, programas de televisão, propaganda, e se comparam inconscientemente com aqueles modelos, passando a querer se parecer com eles e sofrem se não o conseguir. Nesta perspectiva, de acordo com Baudrillard (2005), a fascinação estética está em toda a parte, pairando uma paranóia não-intencional, de simulação técnica de forma indefinível à qual está fixado o prazer estético captado pelas integrantes dos grupos focais. Ao mesmo tempo, as falas traduzem a ideologia moderna que apresenta a feminilidade como uma totalidade abstrata, vazia da realidade que lhe dera sentido inicialmente, pois a mulher em meio a marcas de beleza e produtos de estética já não se apresenta produtora de sua vida real. Não obstante, pode-se observar como a imagem comunica, embora submeta a informação ao mundo das aparências, mas, justamente por isto, possibilita a manipulação do imaginário produzindo nova objetivação e apropriação a 69 partir da mensagem capturada como dinâmica do processo da subjetivação, que se manifesta pela linguagem, vestimenta, gestos, signos, símbolos, estética, estilos de vida. Nesse sentido, a forma como a imagem da mulher vem sendo construída pela televisão e sua expansão na cotidianidade revela as tramas subliminares dos discursos para a manipulação e multiplicação das subjetividades e identidades capturadas no cotidiano e ressignificadas a partir de uma estética padronizada. Como vimos, a informação é frequentemente veiculada por meio de imagens, produzindo a consagração de uma cultura globalizada que incentiva o consumo ao assumir sua importância e status de mercadoria. Por conseguinte, as imagens oferecem uma visão capturada do outro, num lugar dinâmico onde muitos olhares se interseccionam, recriando espaços de interlocução e difusão das múltiplas relações interculturais. Do ponto de vista da comunicação, Carmen Rial (1995, p. 95) aponta que há muitos modos de se entender as relações interculturais na contemporaneidade, [...] através de aspectos históricos, econômicos, políticos, mas quando se pensa no aspecto cultural são as imagens transmitidas simultaneamente para todo o planeta que primeiro vêm à mente. O mundo hoje é um sistema interativo, em um sentido que é absolutamente inédito, pois se tratam de interações de uma nova ordem e uma nova intensidade. E essas interações se realizam principalmente através de imagens. A busca de maior participação do segmento feminino no mercado amplia nas últimas décadas a inserção da mulher no espaço televisivo, trazendo a centralidade da ação comunicativa vinculada à produção e reprodução da cultura de massa, numa dimensão contraditória, suplantando interesses da maioria destas e de suas telespectadoras em prol dos interesses na ampliação do consumo voltado para este segmento. Ao mesmo tempo, a mídia apropria-se da imagem da mulher e a utiliza como objeto de consumo para o público masculino e feminino, ao veicular os diversos formatos de programa, como as campanhas de marcas de cerveja que celebram e naturalizam um corpo feminino sem voz, um corpo-objeto do olhar. As imagens de um comercial como esse supõem um espectador erotizado, um lugar de sujeito 70 sensual que ocupamos (fêmeas e machos) de forma quase óbvia e natural, sem questionar ou pensar em outras possibilidades de apreciação. Dessa forma, ao reproduzir o imaginário coletivo, a televisão conforma o sentido da presença do homem no território em que ele habita, encenando uma reforma cognitiva e moral necessárias à ordem do consumo, com implicações como o narcisismo e a individualização. É o padrão identitário conectado a esses comportamentos e valorizado pelos meios de comunicação que vai permitir ao indivíduo atingir um reconhecimento social, na medida em que vende a forma ideal de um estilo de vida, imprimindo um novo padrão de consumo e prazeres modelado pela estética da comunicação. No entanto, como adverte Sodré (2002), a mídia não determina coisa alguma, apenas prescreve, o que nos permite vislumbrar a possibilidade de instalação da diferença identitária, mesmo se considerarmos a ação padronizadora dos meios de comunicação. Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global dos estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha. Foi a difusão do consumismo, seja como realidade, seja como sonho, que contribui para esse efeito de “supermercado cultural”. (HALL, 1997, p. 75) Em contrapartida, ao ampliar a participação da mulher nos diversos formatos de programas viabiliza-se a construção de diferentes linguagens, por meio de estratégias discursivas, sonoras e visuais, constituindo espaços para difundir uma nova cultura política e de gênero, contribuindo para a conformação do pensar e do agir da mulher contemporânea, a exemplo das novelas brasileiras como Mulheres Apaixonadas que traz características de relações de gênero e geracional; Jornal Nacional com apresentação de Fátima Bernardes; programa Sem Censura, da TV Cultura com Leda Nagle, uma das precursoras deste estilo de programa na TV brasileira. Portanto, o fato de ouvir ou ver uma mensagem implica uma interação, uma alteração de comportamento, mesmo que ela tenha sido em fração de segundos. 71 Nesse sentido, ao proceder discussões sobre quais programas as integrantes dos grupos focais consideram como positivo e negativo obteve-se: A Leda Nagle no programa Sem Censura. Ela é muito boa [...] eu devia assistir mais vezes. Sonia Abrão e os da tarde são todos negativos. A Sandra Anhenberg acho ótima. A patrícia Poeta é linda. Admiro elas. Ana Maria Braga lógico minha ídala, se bem que o programa anda meio sem graça, antigamente era melhor. Ela tem uma historia de vida muito bonita. É uma coisa que serve de exemplo, te deixa pra cima. (M. F.) Fátima Bernardes, essa eu admiro. Aqueles programas tipo o da Márcia que o cara vai brigar por uma galinha, acho ridículo. (M. B.) Há boas impressões [...] jornal, novelas (C. B.) Desenhos bons como a vila sésamo, não assisto jornal (M. J.) Gosto do jornal nacional, novela a favorita, a grande família (L. L.) Domingo legal, Silvio Santos, jornal Record News (D. L.) Não gosto de jornal, assisto Tela quente e jogo da vida (A. C.) De forma geral, as falas foram contempladas nas suas diferenças, declarando em sua maioria o hábito de assistir telejornais. Observamos que as mais jovens declararam não possuir este hábito. Por sua vez, dentre as falas prevalece um canal como o mais assistido nas categorias telejornal e novela, ficando evidenciado que o que atrai as mulheres ao assistir aos programas referenciados são as respectivas apresentadoras destes, características observadas ao mencionarem os nomes destas e não dos programas, dos quais muitos destes nem lembram o nome. Observa-se que dentre os programas mencionados estão os que possuem maior índice de audiência sendo, em sua maioria, programas veiculados em horário nobre, o que significa maior investimento do mercado de bens e serviços em propaganda nos intervalos comerciais, constituindo estratégias para disseminação do consumo por parte do mercado, ao utilizar a TV como canal estratégico de comunicação. Assim, nasce a cultura do efêmero one way, do descartável, com ênfase no presente, processo de mercantilização de bens cambiáveis, para onde o mercado 72 passa a ditar as regras não somente econômicas, pois a política e o social têm que se adequar ao capital, passando-se a vincular a cidadania ao consumo. Ao mesmo tempo, a mulher passa a valorizar a linguagem feminina, os atributos e os temas femininos, o que significa mais do que um simples retorno aos seus valores próprios, um alargamento do campo conceitual, revelando suas armadilhas e limitações. Mais do que nunca, passaram a pensar em si mesmas sob uma ótica própria, dando visibilidade ao que antes fora escondido e recusado, o que inevitavelmente levou a uma radicalização da potencialidade transformadora da cultura feminista em contato com o mundo masculino. Trata-se então, de não mais recusar o universo feminino, mas de incorporá-lo renovadamente na esfera pública, o que se traduziu ainda por forçar um alargamento e uma democratização desse mesmo espaço. Desse modo, torna-se evidente que a mídia usufrui da condição feminina como nicho de mercado, incorporando as conquistas alcançadas das relações de gênero e colocando-as como necessidades de produção e reprodução da vida material e imaterial, consequentemente objeto de consumo. Nesta expansão de imagens do feminino, vão se reproduzindo fetiches voltados para o consumo do feminino e do masculino, que tem suas imbricações no espaço da família, ao naturalizar estereótipos e mitos criando uma hiper-realidade que não respondendo à realidade concreta desta, impele ao excessivo consumo, influenciando na civilidade e alterando comportamentos. Revela-se ainda, que a construção da imagem masculina veiculada participa desta mesma lógica, na medida em que esta tem como objetivo agradar visual, estética e eroticamente a mulher. Portanto, nas mudanças intrínsecas ao processo histórico-social da mulher que participa das relações de produção e da vida em sociedade, ao mesmo tempo em que se vê impelida pelo consumo de determinados bens e produtos, recebe sua imagem remodelada. Assim, a televisão contribui como instrumento e meio disseminador para além das fronteiras culturais, atribuindo-lhe um valor de uso que se expande, consolidando-se em espaços sociais e midiáticos sem fronteiras. 73 Para compreendermos como vieram se processando as mudanças históricosociais das relações de gênero na televisão, é fundamental fazer uma breve recapitulação desta mídia na contemporaneidade e como se processa a representação da mulher e sua subjetivação a partir dos paradigmas da comunicação e da cultura mediada pelo consumo. 74 CAPÍTULO III – A MÍDIA TELEVISIVA, GLOBALIZAÇÃO E CULTURA NA CONTEMPORANEIDADE. 3.1 COMUNICAÇÃO E MÍDIA TELEVISIVA NO CENÁRIO ATUAL A conjuntura atual traz imbricado um conjunto de transformações que afeta fortemente a economia com a formação de blocos econômicos, a emergência de novos países industrializados, a liberação dos mercados e do conseqüente acirramento da competição intercapitalista, em um cenário globalizado. Nesse processo de integração dos mercados, a cultura sofre impactos na medida em que a comunicação mediada pela ideologia do consumo e pela difusão de mensagens faz com que esta se funda ou se refaça produzindo diversidade cultural, novas identidades ou ainda momentos pela preservação da cultura local conformatando o multiculturalismo tão presente no cenário brasileiro. Assim como os acontecimentos que marcaram a sociedade contemporânea no final do século XX, as mudanças nos processos de produção e trabalho inferiram também alterações na produção e reprodução da vida social, especialmente das mulheres na medida em que estas transitam simultaneamente no privado e público, redimensionando seus papéis e funções na sociedade. Verifica-se no contexto em análise que a comunicação por meio da mídia televisiva decorrente da revolução informacional introduziu modificações substanciais no cotidiano da vida feminina, de tal modo que, ao gerar alterações no conjunto das atividades exercidas pelas mulheres, ampliam-se suas funções intermediárias, ou seja, aquelas que se situam entre a produção e o consumo, cada vez mais massificadas para generalização da produção de mercadorias a fim de assegurar produção e vendas contínuas. Na mídia flui a informação carregada de sentido e intenções de sedução, passando a representar não apenas meios e artefatos de discussão acerca da vida, mas funcionando ao mesmo tempo, como poderosos ativadores de trocas sociais e culturais. Esse processo garante os interesses do mercado a partir do modelo de comunicação em que o foco se volta para uma tecnologia e estratégias cada vez 75 mais refinadas na difusão de mensagens, usando inúmeras linguagens persuasivas para vencer espaços entre patrocínio e consumo. Nesta direção, a publicidade busca assentar-se em temas aparentemente consensuais e tendem a lograr o máximo de adesão, particularmente de seus consumidores e não somente dos cidadãos. Como resultado das estratégias elaboradas surgem os denominados grupos de audiência, para os quais são produzidos modelos de comunicação generalizada divididos por idade, tempo de ocupação e permanência em casa nos diferentes horários, a partir de classificação e características próprias que configuram as identidades femininas. Essa segmentação de público vem atender a demanda das particularidades dos grupos que circulam pelas esferas sociais, que não possuem um território físico partilhado nem se fixam a nacionalidades, mas, antes, são flutuantes e se encontram dispersos pelo mundo. É se alimentando desta busca identitária que a televisão passa a formatar programas direcionados a públicos específicos e torna-se a dimensão essencial de nossa experiência contemporânea. Assim, sob o impacto das transformações tanto na reprodução da vida quanto do capital torna-se mais visível a lógica do lucro, bem como as mudanças no âmbito da sociedade que impõem ao estado o atendimento ao cidadão e suas necessidades de bens e serviços como habitação, eletricidade, saúde, educação. Por outra parte, desdobra-se o mercado de trabalho e, por conseguinte, a massificação do consumo em automóveis, eletrodomésticos, flats, de forma que a facilidade da vida, frente ao aceleramento em tempos modernos, responda às novas exigências. Nesse decurso, a partir das condições que configuram a realidade mundial e, particularmente, a brasileira, a nova configuração do desenvolvimento das forças produtivas atinge o Estado na medida em que produziram a privatização e terceirização, substituindo serviços por mercadorias, ao mesmo tempo em que a sociedade incorpora novos itens de consumo que compõem e/ou respondem a muitas vozes, incluídos os valores estéticos introjetados por valores simbólicos, resultando numa massificação da adesão, que mascara as necessidades básicas do cidadão perante seus direitos cívicos e constitucionais. 76 No bojo dos aspectos assinalados, emerge um cenário onde a ênfase está na autorrealização do indivíduo, na demanda de comunicação entre as pessoas de acordo com novos modelos de comunicação generalizada, programas interativos, individualização crescente, os reality shows, nos quais se finge uma “comunicação mais humana e espontânea”, enquanto induz à hiper-realidade, à ilusão da verdade e do entorno e à ficção de autenticidade. Na lógica do consumo, o discurso mediado pela ideologia do mercado e do lucro, ao transitar pelos meios de comunicação, especialmente a televisão, induz pelas imagens ultrapassando necessidades de bens de uso, pois vende a marca, a maior preço que o aluguel decente de uma moradia e incomparável às condições de sobrevivência num barraco na favela por valor superior ao de um aluguel de moradia decente. Por outro lado, ao imprimir o consumo de massa, produz ressignificação de usos e costumes nos espaços sociais e, marcadamente, no comportamento do segmento feminino que, independente da posição que ocupa, incorpora as representações dos símbolos via informação e imagens que se materializam na circulação e mercantilização do produto veiculado como consumir Copenhagen e não simplesmente chocolate; a ideia de estilo urbano-ecológico de aventura por meio de aquisição do EcoSport; Victoria Secret e toda a sua sensualidade, beleza e erotismo feminino. De acordo com Simone de Beauvoir (1949) “Ninguém nasce mulher, tornase mulher”. Neste sentido, tomamos como partida o território9 como sendo uma construção social, onde a oralidade cria o efeito de interlocução sendo a televisão o agente que transforma o espaço e o território em espaço abstrato. É nesse embate que a mulher de nascimento se torna feminina por determinação da sociedade brasileira que lhe atribui características intrínsecas ao que se iconografa como parte 9 A noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem dele a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio da qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos (GUATTARI e ROLNIK, 1986:323). 77 do universo feminino, reforçada pelas imagens veiculadas pelos canais televisivos que criam modos e estilos de vida para a mulher moderna. Veja bem, a palavra modos revela uma visão pós-moderna, onde o consumo é um processo em que os desejos se transformam em demandas, em atos socialmente regulados, divulgados pelos meios de comunicação e mediados pela sociedade, ou seja, é a partir do consumo que os indivíduos interagem e se comunicam em uma sociedade. Tal comunicação é para Thompson (2002, pg. 32) “a produção institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos através da fixação e transmissão de informação ou conteúdo simbólico”. Enquanto as representações audiovisuais alimentam-se de situações domésticas e públicas e não se limitam a personificar o sujeito da representação, promovem uma mutação mediante o representado, na medida em que faz surgir necessidades antes não codificadas pelos sujeitos, reconstituindo e reforçando o domínio do consumo, seja em programas ou produtos, como podemos observar a seguir. A minha vizinha fica elegante grávida de vestido. A Xuxa vestia aquelas roupas com barriga de fora, mas eu não gostava e muita gente usou. (D. M.) Na fala dos grupos focais, foi informada a influência da imagem da mulher na reprodução do consumo, passando o consumismo a constituir-se em um arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros (BAUMAN, 2008) que reforçados pela televisão impulsionam ao consumo, reificado numa força externa que coloca a telespectadora em movimento e a mantém enquanto forma de convívio humano e estilo de vida, baseados em padrões de reprodução e em comportamentos individuais criados para seguir essas motivações. “Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a síndrome consumista degradou a duração e promoveu a transitoriedade. Colocou o valor da novidade acima do valor de permanência” (idem, p.110). Entre os meios de comunicação, a televisão aberta passa a constituir-se num instrumento jornalístico, de entretenimento e de massificação da cultura, em 78 que o consumo termina ideologicamente difundido na sociedade. Assim, os meios de comunicação criam produtos e serviços em tempos de globalização, onde se integram tempo e espaço nas novas configurações societárias, ao mesmo tempo em que impõem desafios ao mercado para romper barreiras ideológico-territoriais, projetando competição acirrada pela ampliação do consumo, tendo na mulher um dos focos de interesse, no cenário atual. Portanto, com as transformações que vêm ocorrendo a partir da emergência da modernidade processam-se mudanças políticas, econômicas e culturais que influenciadas pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia corroboram com o crescimento da comunicação e sua expansão em rede, em especial de um arsenal ideológico que sinaliza novos lugares de mercantilização, onde as mulheres passam a ter espaços estrategicamente situados. Cabe ressaltar que o sistema brasileiro de difusão predominantemente privado, constitui setor econômico dos mais dinâmicos e modernos, posiciona-se entre as sete maiores mídias de TV aberta no ranking mundial, representando instrumento jornalístico, cultural, de entretenimento e de massificação da cultura, a partir do qual o consumo é difundido na sociedade. (Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global – GMMP, 2005) Ao mesmo tempo, os dados gerados por meio televisivo influenciaM as percepções e produzEM conhecimentos sobre o que aconteceu no mundo, as informações são selecionadas de acordo com os fatos e interesses dos que detêm o poder, seja econômico, político ou da comunicação, cujos interesses vão passar pelas decisões da edição publicitária, a qual produz geralmente de acordo com determinado ponto de vista ideológico e experiências acumuladas, o que corrobora para que prioridades e valores transmitidos sejam dos que projetam, modelam e dirigem a publicidade. As decisões da edição são feitas geralmente de acordo com determinados pontos de vista e experiências, o que corrobora para que não seja certamente uma “janela ao mundo”, mas a que expressa somente as prioridades e os valores de quem as dirige. Fica a interrogativa de qual é o impacto no público feminino quando as notícias geralmente são comentadas constantemente sob o ponto de vista 79 masculino, quando entendemos que esse pensamento é próprio da formação histórico-social da sociedade brasileira. Considerando que os líderes de meios maciços são não somente líderes nesta indústria, principalmente no Brasil onde os canais de comunicação estão nas mãos da classe política e de grandes proprietários das indústrias haja vista que atualmente, 1/5 dos congressistas são concessionários de rádio e TV. (Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global – GMMP, 2005) Sendo o gênero feminino a maioria da população mundial, este representa somente uma fração pequena dos assuntos que cruzam meios de comunicação mundiais, que segundo o relatório, as mulheres representavam 17% dos assuntos na notícia, enquanto que cinco anos mais tarde esta representação cresceu apenas 1%, alcançando 18%. Nos anos seguintes, tais resultados continuaram sendo material de investigação a níveis internacional, nacional e regional, cujas pesquisas de 1995, de 2000 e de 2005 foram baseadas nos estudos feitos durante um período de mais de 30 anos. Como as mulheres brasileiras compõem fatia majoritária das audiências da televisão (53%), do rádio (53%) e das revistas (55%), representando também 49% dos leitores de jornais, essa participação relevante as coloca como preocupação estratégica na formulação de conteúdos da publicidade por meio dos veículos de comunicação, representando mais de 52% da população mundial. Contudo, no tocante a sua participação enquanto protagonista da comunicação, estudos dos últimos 30 anos indicam que esta constitui uma fração pequena nos espaços midiáticos, enquanto sua imagem tem sido veementemente enfocada. Quadro 1. Participação das Mulheres (com mais de 10 anos) na Composição da Audiência/Público, em 1998 TV 53% Rádio 53% Revistas 55% Jornais 49% Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005. Conforme mencionado acima, as mulheres são majoritárias na composição das audiências dos meios de difusão, com exceção dos jornais, possuindo papel 80 estratégico na manutenção das audiências de alguns dos mais importantes veículos do sistema privado de comunicação do país, como por exemplo, a revista Veja, o Jornal Nacional e a Rede CBN de rádio. Diante da importância dessa participação, é preciso ressaltar que as formas de representação da mulher nos meios de comunicação não têm merecido a devida atenção dos organismos públicos encarregados da área da mulher, bem como das organizações não-governamentais. Observa-se que os esforços do movimento de mulheres em sua relação com a mídia têm se voltado preferencialmente para questões e temas específicos, como saúde, violência, entre outros. Por sua vez, em um país onde a telenovela é gênero fortemente explorado pela TV contando com uma expressiva audiência nacional, com relevância para representatividade do público feminino, seria importante publicizar os resultados de pesquisas realizadas acerca da imagem da mulher construídas e oferecidas para consumo cotidianamente, bem como a representação da imagem feminina na ficção. No que diz respeito à regulamentação dos meios de comunicação de massa, a Constituição Federal de 1988 dedica todo um capítulo à comunicação social, prevendo inclusive a criação do Conselho de Comunicação Social, que deveria possuir papel regulador das concessões e da programação, instituído por lei em dezembro de 1991. Entretanto, após uma década da promulgação da Constituição, o Conselho de Comunicação ainda não foi instalado, haja vista os interesses de grandes grupos econômicos e de grupos políticos que vêm impedindo avanços desse debate. Por sua vez, no Brasil existem mecanismos de defesa contra TVs que exploram situações degradantes, violentas, de abuso sexual, racismo e outras formas de discriminação, contudo não há registro de nenhum tipo de mecanismo, regulamentação ou autorregulamentação enfocando a imagem de mulheres e meninas nos meios de comunicação. Quanto ao debate acerca da necessidade da elaboração de um código de ética com regras claras para coibir e punir os excessos cometidos na programação, especialmente no que diz respeito à violência, sexismo, racismo e pornografia, entre 81 outros, que caracterizam má qualidade na programação oferecida à população, este ainda não fora elaborado e o CONAR, órgão criado há mais de duas décadas para autorregulamentação da publicidade no país não tem sido alvo de diálogo, assim como de denúncias sobre a imagem da mulher no meio televisivo. Por sua vez, em um cenário de competitividade acirrada a mídia-espetáculo e os chamados programas populares, onde são reforçados diversos tipos de estereótipos de gênero, ganham cada vez mais espaço na grade de programação, sendo os temas relevantes relacionados à condição feminina pautados de forma frequentemente preconceituosa, e/ou em horários inadequados à mulher trabalhadora. Ao mesmo tempo, ao longo da década de 90, o tema da justiça social foi se impondo como pauta permanente nos diversos meios e veículos de comunicação, evolução importante cujos investimentos por parte destes constituíram-se no desenvolvimento de mecanismos de interlocução com suas audiências, buscando antecipar as exigências ou cativar o público, particularmente o feminino. Como exemplo mais completo tem-se a reformulação de telejornais locais, que passaram a dedicar maior espaço para conteúdos de interesse regional e comunitário. Nesses programas jornalísticos, no rádio e na TV, as principais fontes de informação são levantadas nas comunidades e/ou bairros, a partir das necessidades de melhorias destes e dos principais problemas da população, ganhando credibilidade e audiência, encontrando-se em ritmo de expansão por todo o país. A tendência de reformulação editorial, aliada a um maior exercício de cidadania e à busca da formação de opinião pública por meio da mídia, tem exigido do sistema privado de mídia brasileiro uma maior capacidade de sintonia com a sociedade, especialmente em relação a seus problemas e demandas, não no sentido de justiça social, mas ainda como direcionamento de programas para públicos cada vez mais específicos, na tentativa de alcançar e manter novos nichos mercadológicos. 82 O resultado da pesquisa abaixo (GMMP, 2005) mostra a incidência de mulheres fora do centro das notícias que não destacam claramente assuntos relacionados à igualdade ou desigualdade entre mulheres e homens, ainda que não desafiem e nem reforcem os estereótipos femininos e/ou masculinos, sendo que a maior parte das notícias não foi alvo de análise adicional. Quadro 2. Monitoramento realizado em 6 canais abertos de Televisão EMISSORAS INDICADAS MONITORAMENTOS REALIZADOS Rede Globo – Jornal Nacional TV Cultura – Jornal da Cultura SBT – Jornal do SBT TV Bandeirantes – Jornal da Band TV Record – Jornal da Record Rede Vida – Repórter Nacional 04 02 03 02 03 00 Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005. Quadro 3. Questionamentos segundo os meios TV, Jornal e rádio. QUESTÃO As mulheres são o centro da notícia? A notícia destaca claramente assuntos relacionados à igualdade ou desigualdade entre mulheres e homens? A notícia desafia ou reforça claramente estereótipos femininos e/ou masculinos? Análise adicional (recomendação) TV JORNAL RÁDIO Sim = 16 Sim = 10 Sim = 02 Não = 89 Não = 70 Não = 13 Não sei = 02 Sim = 15 Não sei = 06 Sim = 06 Não sei = 00 Sim = 00 Não = 95 Não = 71 Não = 15 Não sei = 00 Não sei = 07 Não sei = 00 Claramente desafia = 08 = 03 = 00 Claramente reforça =02 = 09 = 00 Não desafia, nem reforça = 99 = 72 = 13 Não sei = 01 Sim = 13 = 03 Sim = 16 = 02 Sim = 02 Não = 74 Não = 60 Não = 13 Não sei = 03 Não sei = 04 Não sei = 00 Fonte: Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global (GMMP), 2005. 83 Atualmente, a mulher é responsável por 80% das decisões de consumo, sendo a televisão espaço que processa e socializa informações especialmente para as mulheres das classes populares, muito embora estas possuam mínima representação na mídia, exceto em situações de violência como nos jornais sensacionalistas e em reality shows, os quais transitam entre a veiculação de imagens e realidades alternativas ampliando o espectro para a formação da subjetividade, na medida em que a realidade e a hiper-realidade se confrontam mediadas pelo poder da renda e outras necessidades, vez que há um crescente descrédito nas instituições públicas. Disso decorre uma rápida expansão dos meios de comunicação no país, agregando ao mesmo tempo interesses do capital e da mulher, impulsionando à criação de estratégias voltadas para o atendimento de seus interesses enquanto mulher, trabalhadora, intelectual, feminina, mãe, esposa, namorada, independente da sua condição social, haja vista que a meta principal constitui-se em produzir lucro para si e o mercado, que para tanto exige capacidade de processar o envolvimento da espectadora com o produto midiático. 3.2 A TELEVISÃO COMO ESPAÇO DE RESSIGNIFICAÇÃO: O DISCURSO FEMININO Por muitas décadas o governo federal foi o único a deter amplo controle sobre os meios de comunicação no Brasil e, por meio de legislações fizera uso do poder das concessões daqueles, utilizando-os como arma política e eleitoreira. Assim, a história brasileira aponta que as empresas de comunicação de massa sempre se aliaram com as classes detentoras do capital econômico e/ou com as principais autoridades nos diferentes níveis de governo, sendo raros os veículos de comunicação que conseguiram fugir dos interesses oligárquicos do poder político. Portanto, as Constituições brasileiras, ao tratarem das preocupações do poder da mídia, imprimiram a esta prerrogativas do controle das empresas de comunicação a brasileiros natos, prerrogativas instituídas na constituição de 1937 em seu artigo 131 e na Constituição de 1946 com maior rigor quanto às prerrogativas de concessões a estrangeiros, conforme artigo 160 “é vedado a propriedade de empresas jornalísticas, seja política ou simplesmente noticiosas, 84 assim como a de radiodifusão, às sociedades anônimas de ações ao portador estrangeiro”. (Constituição de 1946) Por sua vez, cabia aos brasileiros, conforme o artigo 129 da mesma lei exclusiva responsabilidade, ou seja, a orientação intelectual e administrativa dos meios de comunicação, sendo que as Constituições de 1967 e de 1988 consagram os mesmos dispositivos de defesa nacional do setor, muito embora estas somente venham reforçar a defesa dos interesses dos grandes conglomerados. Sem entrar nas polêmicas e jogos de interesses que se confrontam na luta pela mercantilização das informações, seja pela imprensa escrita, falada ou televisada, a relação com as imagens tem propiciado um debate filosófico e epistemológico centrado nas questões da objetividade/subjetividade do mundo representado. Nesta direção, ressalta-se que os mesmos grupos defensores da nacionalização dos meios de comunicação e os interesses políticos, financiam suas campanhas via esquemas palacianos e passam a representar novos interesses. Significa que os grupos tradicionais que até pouco tempo defendiam a exclusividade do capital nacional e o controle dos meios de comunicação, por deterem um imensurável poder econômico e político, consolidando o cartel televisivo, atualmente enfrentam forte desaquecimento da demanda de seus produtos frente à queda da receita publicitária e na busca de novos parceiros defendem a reforma do artigo 222 da Constituição de 88, isto é, a entrada do capital estrangeiro nas telecomunicações. Portanto, a decisão de se associarem aos grandes grupos de mídia internacional ganha cada vez mais adeptos no meio das famílias que detêm o controle dos meios de comunicação no país. Tal interesse não resulta apenas dos processos de globalização do capital, mas sim da possível incorporação de novas tecnologias para a produção e oferta de novos produtos midiáticos, que só se tornam acessíveis com a mundialização do capital. Assim, por meio do poder de comunicação difundem-se opiniões, gostos artísticos, culturais e estéticos, que imprimem diversidade e novos estilos de vida, visto que as imagens reproduzidas pelo aparelhamento tecnológico, estruturam sensibilidades, organizam socialmente comportamentos, percepções, sentimentos, ideais e valores. 85 Juntamente com a compreensão das metamorfoses da noção de cultura, na última metade do século XX, questiona-se tanto os modos como a cultura funciona na época da globalização como os riscos de uma visão da sociedade reduzida a um caleidoscópio de fluxos culturais que leve a esquecer que nossas sociedades também são regidas por relações econômicas, políticas, uma armadura social que não se reduz nem às séries de televisão de grande sucesso, nem ao impacto dos reality shows. Atualmente, engloba objetos como consumo, moda, identidades sexuais, museus, turismo, literatura. Concomitantemente, na fronteira entre o moderno e o pós-moderno está inserida a figura da mulher, sujeito e objeto de análise, mas, antes de tudo, protagonista de suas próprias vivências. Globalizou-se a produção do conhecimento e a intensificação das diferenças se fez mais presente, o conhecimento ainda se encontra na fronteira do cotidiano, tão próximo e tão distante, que a multiplicidade dos acontecimentos e a fragmentação das funções do sujeito nem sempre permitem que o conhecimento interpenetre e adentre as portas da realidade cotidiana de todos nós. O conhecimento está na fronteira, entre o saber e o saber fazer, é a distância entre ambas que esbarra na fronteira do poder. Todavia, a “cultura da passagem”, onde a remodelação das formas desestabiliza todas as certezas e desterritorializam o sujeito, ao invés de lidar com estas inadequações como força propulsora para a produção de novas formas, mais adequadas à transitoriedade, tende a fixar alguns moldes enrijecidos. Assim, a globalização da atividade econômica torna-se uma forma mais avançada e complexa da internalização, implicando certo grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas, conceito este que se aplica à produção, distribuição e consumo de bens e de serviços, organizados a partir de uma estratégia mundial voltada para um mercado mundial. Contudo, nessa construção teórica há o reflexo no espelho da globalização, segundo Morin (2003, p.10): Há uma mundialização de comunicações, de trocas e também de civismo planetário, que permite unir humanos, ao mesmo tempo em que respeita a diversidade das culturas e há uma mundialização de homogeneização e de mecanização que tende a destruir esse tesouro que constitui para a humanidade sua própria diversidade. 86 Nesse sentido, a forma como a sociedade administra, promove ou inibe a cultura local em seu meio reflete parte de seus valores e hábitos culturais, como o seu maior ou menor interesse em travar contato com outras sociedades, seu grau de tolerância frente ao que lhe é distinto, sua vontade de compartilhar ou resguardar o que é seu. No bojo dessas mudanças, os meios de comunicação revelam-se como formas culturais que contribuem para moldar nos indivíduos as maneiras de apreender o mundo, participando da estruturação da sociedade e sendo por ela estruturados. A cultura urbana também apresenta tais propriedades e reveste-se dos caracteres da grande cidade expandida como modo de vida. (BRETAS, 2002, p.53 in CANCLINI, 2006), sendo que uma cultura só se torna efetiva ao concretizar-se no cotidiano. A forma privilegiada de inserção da cultura na modernidade ocorre mediante o consumo que, para além dos bens e serviços, se erige como ética e como conduta, em vista da grande influência dos meios de comunicação que têm papel fundamental na formação da identidade e dos hábitos de consumo brasileiros, em que novas culturas dos grandes centros, ao serem incorporadas pela sociedade, podem levar à perda da identidade cultural de origem. Dessa forma, a comunicação midiatizada pela produção de significação intelectiva e da sensibilidade afetiva social e individual, imprime a prevalência da mídia como esfera de publicização hegemônica da sociabilidade, dentre os diferentes espaços socialmente existentes, os quais ampliam setores voltados para a produção, circulação, difusão e consumo de bens simbólicos. Nesse processo, o capitalismo se apropria das diferenças de gênero para, por meio da mídia, criar produtos em que as mulheres passam a ser representadas na e pela publicidade, dentro da indústria cultural. Portanto, o enlace da globalização e internacionalização da economia de mercado, da cultura, arte e política ganhou força na mesma proporção que o poder da mídia consolida sua capacidade de estabelecer significações, por meio de imagens que conectam a comunidade global e impactam a local. Nesse sentido, a 87 mídia, enquanto instância de imagem ao vivo, veicula a voz do mercado, imprimindo a linguagem do consumo. Isto posto, significa que a mídia produz, desde o estabelecimento da comunicação de massa, quando da expansão da industrialização e início do processo de globalização em meados de 1970, produtos voltados para o segmento feminino, ao mesmo tempo em que este amplia sua inserção nos diferentes espaços públicos, exercendo diferentes funções, as quais, por força do próprio mercado, produzem novas exigências estéticas. Ocupando uma posição cada vez mais destacada na vida de seus espectadores (sempre mais numerosos), como fonte de informação e de entretenimento, a televisão reorganizou os ritmos da vida cotidiana, os espaços domésticos e, também, as fronteiras entre diferentes esferas sociais. Como demonstrou Joshua Meyrowitz, a mídia eletrônica, sobretudo a TV, rompeu a segmentação de públicos própria da mídia impressa e contribuiu para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e adultos, leigos e especialistas. Aprofundou as transformações no discurso político, de certa maneira unindo o sentimento de intimidade, transmitido pelo rádio, com o apelo imagético próprio do cinema. (MIGUEL, 2002) Os produtos da mídia são disponíveis, em princípio, a uma pluralidade de destinatários, na medida em que a comunicação de massa apresenta como característica colocar à disposição de uma pluralidade de receptores, produtos que por vezes circulavam apenas entre um pequeno e restrito setor da população. (THOMPSON, 2002) Portanto, a inserção da mulher na mídia televisiva ainda traz incorporada a imagem socialmente construída por uma iconografia10 cuja estética da comunicação vista por Eco (1997, p. 330) “é capaz de instituir gostos e propensões [...] criar necessidades e tendências, esquemas de reação e modalidades de apreciação [...]” em que ao estabelecer interação com a recepção, midiatizada pela linguagem e expressão próprias da comunicação de massa, difunde bens simbólicos como um fetiche, incorporando-os à vida cotidiana do público. 10 A palavra iconografia vem do grego eikon (imagem) e graphia (escrita), ou seja, literalmente: "escrita da imagem". Aqui trataremos da referência a imagens ou signos que sejam significativos para determinadas culturas. Essa discussão sobre as imagens como iconografia implica em uma "leitura" crítica dessas imagens na tentativa de explorar valores socio-culturais. Um estudo iconográfico pode ser feito através da identificação, descrição, classificação e interpretação do tema das representações figurativas. 88 Quando da obtenção de informação junto aos grupos focais quanto à reprodução da imagem feminina socialmente construída da e pela mulher na mídia televisiva, temos as seguintes expressões: Tem muito de interpretação [...] tem menina que vai sonhar em ser uma Raqueli da vida [...] ser modelo [...] (F. M.) Eu admiro mais a inteligência [...] outros exploram o corpo [...] esse eu não gosto (D. M.) Ela interfere no olhar do homem sobre a mulher. Você não vê um homem elogiando uma mulher pela inteligência numa rodinha masculina, mas falando de mulher gostosa (M. L.) Às vezes as descaracterizam. (D. L) mulheres se mostram por prazer, mas A vulgaridade como a TV mostra denigre a imagem da mulher. (C. S.) Fica evidenciado nas falas que a imagem da mulher na mídia televisiva tem sido carregada de sensualidade, com apelo erótico, voltada para o glamour, estética que formata estilos de vida que determinam por emanar códigos de comportamentos como na fala que se refere à personagem da novela das sete Raqueli, confirmando por Hall (1997) quando informa que a [...] cultura é composta não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações, as quais influenciam e organizam tanto as ações do cotidiano, como concepções acerca de nós, a identificação [...] e o significado para nós, a partir de nossa imaginação. Os estereótipos permanentes são da mulher símbolo da cultura da mulhermenina bela e burra, a exemplo da Raqueli, e da boa ou gostosa que emergem nas falas acima, ou seja, a imagem feminina mercantilizada para vender qualquer coisa, oferecida como troféu associado ao produto anunciado, de xampu à casa própria, estilos de vida, alegria da indústria farmacêutica, dos médicos, cirurgiões, do botox, silicone, do bisturi, dos hospitais, enfim, dos setores de bens e serviços. Quanto aos resultados que podem advir a partir desse olhar, as mulheres informam-nos: A TV pode denegrir a imagem da mulher [...] a vulgaridade de algumas [...] mas muitas mulheres fazem isso para ganhar as coisas dela, é um trabalho [...] às vezes a mulher se mostra também para aparecer, porque gosta (D. L) 89 Dependendo de como apresenta a imagem denigre [...] (A. B.) Observa-se aqui que na primeira fala há uma indecisão quanto ao julgar como “bom ou mau” o comportamento da mulher que se expõe. Não há um caráter de julgamento no sentido de condenação da mulher que se expõe “vulgarmente”, mas até uma admiração e certo desejo pela imagem representada, reforçada pela observação durante o processo de coleta de informações, o que nos revela certa ambiguidade entre a moral da sociedade e o desejo de querer para si, de consumo. Se as formas de interação social entre produto midiático e espectador educam o gosto do público receptor com bombardeio de mensagens, por mais segmentados que sejam estes destinatários, com certeza a televisão com o seu caráter espetacular, ao atravessar quaisquer possibilidades de fronteiras entre os níveis sociais e culturais, ela, a tela mágica, que é tida como detentora de uma verdade absoluta torna-se o espelho para toda e qualquer adulteração de comportamento, sejam boas (e/ou más) como referências comportamentais. Em síntese, a inserção da mulher na mídia representa não apenas um avanço quanto a sua independência e autonomia, mas também sua exploração comercial, ao produzir e atribuir às mercadorias veiculadas valor simbólico e econômico. Assim, em vista da valorização econômica, as formas simbólicas se tornaram mercadorias e o valor simbólico em bens de consumo, a exemplo dos insumos utilizados nas artes domésticas, nas receitas, entre outras, em que o valor e o significado se traduzem em sentimento de sucesso e prazer pelo resultado, inclusive pela satisfação da família. O entendimento de como as mulheres analisam os programas televisivos veiculados na atualidade, foi demonstrado por meio das falas abaixo descritas: Tem hora que ela ensina coisas boas. Tem programas culturais, interessantes. O jovem não tem mais paciência de ver TV parado. Fica no computador comunicando com o mundo inteiro ao mesmo tempo. Os programas são os mesmos de acordo com o horário. O negocio é vender produto [...] muita propaganda. (I. G.) A TV na classe média já não é tão vista como a internet. Ela não tem programas interessantes. Ela tá focando público de domingo, da tarde. Fantástico por exemplo mudou a roupagem era de notícia agora tá procurando agradar. A TV está em decadência e se continuar vai ser substituída. A TV é quem tem o controle, na internet você tem o controle e o jovem quer isso. (D. R.) 90 Tem coisa que a gente não pode deixar criança ver [...] tem que ficar escolhendo. Tem muita coisa imoral. Ensina muita coisa boa, mas outras ruins. As crianças ficam direto na TV (L. L.) [...] sessão da tarde é um programa infantil. Não tem nada de mais. Só passa coisa de criança (D. B.) A TV traz coisas boas e coisas ruins (I. G.) Em vista da diversidade de faixa etária e escolarização das participantes dos grupos focais, estas apresentam diversificadas visões acerca da análise dos programas veiculados nos canais da TV aberta havendo aquelas que são mais críticas em relação às programações veiculadas e ao próprio futuro da televisão como espaço de representação, confirmando a assertiva de Hall (1997) quando expressa que o significado é construído a partir da localização, do posicionamento do discurso. Aqui podemos observar novamente a ambiguidade presente nas observações das partícipes dos grupos focais, a partir das falas a seguir. Não tem muito programa bom pra criança, só de violência ou então uns bobos pra criancinha (J. S.) Programas como a grande família são bons, tem carinho (C. B.) Em outros termos, o significado apresenta-se de forma diferente para cada qual, vinculado ao seu próprio papel, ora de mãe, esposa, filha, avó, jovem, vez que, a partir de cada conjunto de representações as falas vinculam-se à forma de pensar e visualizar as imagens representadas pela televisão. Há uma dispersão tão grande das identidades, fragmentação esta que torna difícil sua percepção mais apurada acerca do dito e o não-dito, reforçando o binômio entre “bem e mal”. Assim, na medida em que se desenvolveram os modos de produção, o mercado consumidor volta seu olhar não mais para as massas em abstrato, pois com a diversificação de produtos, novos nichos de mercados, bem como a introdução de novas tecnologias, automação e fragmentação do mundo até então conhecido, das novas redes informacionais e seus complexos dispositivos, permitiram ao mercado abarcar as mais diversas faixas de renda, gostos, possibilidades e comportamentos (cartão de crédito Mastercard, Riachuelo, C&A). 91 Nesta direção, o mercado de trabalho se amplia para a mulher ao mesmo tempo em que se especializa, recriando estilos de vida e estereótipos femininos, de acordo com as funções exercidas, sejam sociais, políticas, culturais e familiares, que se transformam e reformam numa recomposição de interesses mercadológicos e imagem que vão sendo criadas e recriadas no processo dinâmico da intersecção entre realidade e idealização. Desta forma, as múltiplas funções atribuídas à mulher passam a fazer parte e compor sua imagem nos diferentes espaços da vida em sociedade com a tendência de coisificação desta, tomando-a como mercadoria pela lógica do mercado capitalista, entre estes a medicina, a ciência, arte, beleza que, mediados pelos meios de comunicação, permitem que o real e o imaginário se mesclem, imprimindo uma mulher de universo fragmentado, até se tornar objeto de uso e produto ao mesmo tempo. Nesta mesma direção, frente ao eixo de análise em relação às transformações na comunicação midiática e o emergir de uma nova identidade da mulher brasileira, a indagação trouxe à tona a percepção das partícipes em relação à inserção feminina no espaço midiático, como apresentadora, redatora, diretora de programas, entre outras; e como isso contribui para a mudança na identidade destas. Ela está incentivando a outras mulheres seguir o mesmo caminho (D. R.) É um fardo muito pesado para a mulher [...] ela saiu, mas ainda volta pra casa pra cuidar [...] principalmente se for de classe social mais baixa. (J. S.) Além de trabalhar lá fora ainda cuida de casa (C. S.) A independência (C. S) Ela representa muito bem na mídia (A. B.) Por terem acesso somente à TV de canal aberto com programas mais populares e com pouca incidência de programas culturais, os mais acessados pelo grande público são geralmente do tipo talk show, que têm por característica a naturalização dos estereótipos marcadamente simbólicos, apropriação essa que faz 92 da imagem feminina objeto, símbolo de uma cultura e artefato de memória, algo como um espetáculo a ser consumido. De acordo com Debord (2006), muitos ritos já foram incorporados na cultura popular, cujo processo de reconfiguração dos atos humanos implica dependência de realidades espetacularizadas. Outros aspectos observados referem-se à compreensão da visualização das mulheres de que estes programas acabam por denegrir a imagem feminina, no entanto, pela própria falta de alternativas de acesso a outras fontes de informação, cultura e entretenimento, acabam por sucumbir à sedução da mídia televisiva, mesmo que seja inicialmente para criticar ou assistir de forma passiva o espetáculo da vida fabricada. Com o aumento da inserção e do consumo por parte de mulheres nas tecnologias de informação, o mercado especializa e cria novos produtos para atendê-las em suas necessidades simbólicas em que o valor estético e o fetiche marcam as tendências da moda, recriando o universo feminino em cores, detalhes e proporções marcadamente subliminares, da feminização do mundo do trabalho e da rua. Exemplo disso são os programas diários direcionados ao público feminino com dicas de maquiagem, moda, comportamento, sendo o carro chefe as novelas em horário nobre com suas personagens que representam universos de desejos. Neste complexo mundo da subjetividade, e sua interlocução com a objetividade do mundo moderno, do fast food, do full time, na medida em que ocorre a apropriação por parte da mídia e a ressignificação dos arquétipos e dos mitos que compõem o cotidiano, contribuem para a formatação do pensar o do agir da mulher contemporânea, produzindo novos modos de vida. Enquanto a ideologia moderna induz a feminilidade a uma totalidade abstrata, vazia de toda realidade que lhe dera inicialmente sentido, a mulher em meio a marcas de beleza e estética já não se apresenta produtora de sua vida real, evidenciando que a mídia, para atender às lógicas do mercado, incorpora as conquistas alcançadas, concernentes às relações de gênero, para atender às necessidades de produção e reprodução da vida material e imaterial, permanecendo 93 a condição feminina como nicho de mercado, enquanto consumidoras de produtos e produto de consumo. “A cultura veiculada pela mídia induz os indivíduos a conformarem-se à organização vigente da sociedade, mas também lhes oferece recursos que podem fortalecê-los na oposição a essa mesma sociedade” (KELLNER, 2001, pp.12 e 13). Com esse pensamento Kellner introduz uma discussão sobre o poder de representação da mídia a partir da ressignificação do cotidiano da sociedade contemporânea. Evidencia-se então que as relações de poder na televisão vão muito além das imagens explicitamente veiculadas, em que a cultura tem passado por uma recontextualização na sociedade contemporânea, que aponta para entender sua natureza comunicativa. Portanto, este processo corrobora para novas percepções do conflito social, a exemplo das mulheres que, posterior à criação dos filhos, retomam os estudos, passando a viver um processo de rebeldia e resistência em relação à formação de novas identidades e, por conseguinte, de novos sujeitos. Nesse sentido, Martín-Barbero (2003, pg. 297), ao analisar a ampliação do campo da comunicação, deslocando o espaço de interesse dos meios para o local onde é produzido seu sentido, informa que “significa romper com a segurança proporcionada pela redução da problemática da comunicação a das tecnologias”, um retorno ao cotidiano vivenciado, ou seja, pensar a comunicação a partir do que se vive, a partir da cultura e de gênero. Nessa perspectiva, ganham expressão os movimentos originados nos espaços periféricos, os papéis das minorias e as diversas formas culturais, as quais passam a produzir suas próprias mensagens, independente do valor econômico, uma vez que cria espaço de subjetivação apropriada pela mídia numa relação entre o noticiável e o noticiado, mediado pelos meios de comunicação e difundido pela indústria cultural. 94 3.3 A MÍDIA E O LUGAR DA CULTURA E DO CONSUMO A PARTIR DA REPRESENTAÇÃO FEMININA Há uma dinâmica entre mídia, cultura, processos produtivos e consumo, na medida em que a multidimensionalidade de relações possibilitada pela expansão da mídia imprime novas conformações sociais, que absorvidas pelos meios de comunicação passam à condição de produto, retornando às diferentes esferas sociais, já ressignificadas. Portanto, as transformações mais gerais do mundo globalizado contemporâneo, ao influenciarem e serem influenciadas pelas múltiplas interações produzem mudanças na estrutura social dos grupos e classe, como também no modo de ser e estilo de vida das pessoas. Assim, os meios de comunicação detêm forte influência na formação da identidade, desempenhando um papel fundamental para o encontro de culturas, sua apropriação e ressignificação, ao mesmo tempo em que contribuem para moldar nos indivíduos as maneiras de apreender o mundo, participando da estruturação da sociedade e sendo por ela estruturada. Por sua vez, a televisão, ao disseminar elementos da cultura, produz seu desenraizamento ao transitá-la por diferentes “campos sociais” (BOURDIEU, 2002), nos quais estão inseridos os indivíduos, a família, grupos de amigos, instituições educacionais, de trabalho, partidos políticos entre outros. Com relação à mulher, ao processar sua ascensão econômica, política, intelectual e social, estas optam por escapar do modelo imposto, substituindo as representações ate então socialmente construídas de si mesma, e culturalmente incorporadas no movimento de manifestações das suas particularidades culturais, criando marcas simbólicas que recriam-se a partir da mudanças inerentes às sociedades modernas. Na cultura dominada pelos meios de comunicação de massa e pelas estratégias de marketing, a publicidade utiliza as expectativas interpessoais modeladas, a partir de estereótipos para obter maior compreensão de seu públicoalvo. A reprodução audiovisual trouxe a acessibilidade por meio dos signos que são 95 reconhecidos por toda a rede global, difundidos pela mídia e pela publicidade, oferecendo a possibilidade de se tornar uma mercadoria-signo: um fetiche, pronto pra ser consumido pelo olhar e pelo desejo, sendo na contemporaneidade tanto masculino, quanto feminino. No entanto, uma cultura somente se torna efetiva ao concretizar-se no cotidiano, dessa forma a família está constantemente modelando e remodelando seus sentimentos e gostos, expandindo os horizontes de suas experiências, assim como também vai se modificando por meio de mensagens e de conteúdos significativos oferecidos pelos produtos da mídia, entre outras coisas. Esse processo de transformação não é um acontecimento súbito e singular, acontece lentamente, imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano, em que algumas mensagens são retidas e outras esquecidas, umas se tornam fundamento de ação e de reflexão, tópico de conversação entre amigos, enquanto outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no refluxo de imagens e ideias. Neste sentido, a globalização da atividade econômica é uma forma mais avançada e complexa da internalização da cultura, implicando certo grau de integração funcional entre as atividades econômicas dispersas e as condutas sociais que de acordo com Hall (1997), as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações, as quais influenciam e organizam tanto ações do cotidiano, a concepção acerca de nós, a identificação com a nação e o significado para nós, a partir de nossa imaginação. Assim, no contexto globalizado ocorre a interface entre diferentes culturas, culminando com o descentramento que produz a pluralidade dos grupos no âmbito de sua territorialidade, onde a cultura originalmente construída convive ou mesmo perde sua identidade “exigindo implementação de ações que façam emergir bandeiras multiculturais” (FEATHERSTONE, 1995, p. 95-96). Em outros termos, todo o processo que produz o entrecruzamento da cultura com a mídia nos diferentes espaços, em especial com o processo de avanço tecnológico, não apenas remete a cultura para os mais diversificados espaços, via sua materialidade ou imaginário, mas também a impele para se constituir em 96 produto de consumo, ou seja, a mídia possui o poder de criar e recriar diversos espaços de disseminação de significados a partir da apropriação de elementos do cotidiano. Nesta direção, o desvelamento de recriação e difusão da cultura transpõe fronteiras, e a mulher, ao se fazer parte desse processo, tem lugar de destaque na mídia, seja como produto, seja como sujeito de consumo, sem dúvida, transformado pela mídia em sua essência, alterando elementos antes considerados como ultrapassados em novos elementos de consumo que se remanejam como intrínsecos dentro da modernidade e glamour da sociedade do espetáculo. Quando indagadas acerca da relação que se estabelece entre imagem feminina utilizada nos programas de TV e o consumo, as integrantes do grupo focal informaram: Eu acho que a mulher convence melhor na propaganda, convence homens, outra mulher. Ela tem o poder de convencimento muito grande. Você acaba acreditando porque é uma mulher e compra. (M. F.) A mulher faz programas melhores (D. L.) Identifica melhor, o público acaba comprando (A. C.) As falas confirmam que a utilização da imagem feminina para o convencimento e credibilidade na venda de mercadorias pelas agências de publicidade como estratégia à efetivação da compra, apresenta correspondência com a realidade, vez que a imagem da mulher é carregada de carisma, confiabilidade, pois está diretamente relacionada com o cuidar do outro, da família, proteção, solidariedade, carinho, vindo ao encontro do desejo humano da materialização destes aspectos subjetivos, em um mundo onde as pessoas vivem cada vez mais atomizadas. Dessa forma o real deixa de existir para dar espaço a projeções a serem consumidas, criando uma mulher tipo, imagens estas que geram discriminação ao universo feminino, reafirmando o mito da mulher-objeto, o que pode ser refletido a partir de Freire (1993) quando expressa que a necessidade de se adquirir a cosmo visão, ou seja, atitude de ler o mundo fazendo vínculo entre linguagem e realidade, vínculo este que não se realiza no imaginário popular, pois se criou uma imagem 97 feminina vista como objeto, atrelada a outro objeto de consumo, reflexo de uma sociedade voltada para o consumo. Desta forma, a televisão contribui diariamente para a construção do real, sendo que para muitos a única informação disponível é aquela transmitida pela televisão, o campo midiático ocupa um espaço central na divulgação dos grandes temas nacionais: economia, política e cultura, tornando públicos os temas sobre os quais o público falará e discutirá. Porém, o caráter singular da produção de sentido, transmitido por todo o aparelho publicitário patrocinador, que fala do corpo, dos sentidos, do frescor do viver, e toda uma linguagem ideológica, cujo eixo é o tema das liberdades individuais, resulta interessante em si mesmo, uma vez que nele têm origem os sistemas de representação nos quais são informadas as categorias da identidade e da alteridade. (AUGÉ, 1994). Neste sentido, o fundamento da cultura se encontra no retorno a situações e atos reforçados pela memória coletiva, onde a mídia televisiva convertida em componente da realidade cotidiana adquire autonomia expressiva nos grupos sociais. Assim, nesse processo a mulher vem tentando responder de diferentes formas, ainda que desencontradas, queimando sutiãs, se masculinizando e vai para o horário nobre, enquanto que nos comerciais de cerveja surge a imagem da mulher-objeto, sujeito de desejo reafirmando-se como corpo-objeto erótico. A importância que as imagens têm assumido em nosso cotidiano provocou certa inquietação em nossas práticas cotidianas, despertando o desejo de discutir o papel que as imagens como artefatos culturais têm desempenhado na constituição de identidades culturais. Na sequência das discussões em relação ao objeto de estudo, ao ser solicitada uma reflexão sobre a influência da televisão nos modos de viver da sociedade, da família e nas relações homem/mulher, as mulheres se colocaram como a seguir: Cada um faz o que dá na cabeça. Faz se der vontade. Não é porque ela ta fazendo lá que eu vou fazer aqui não. (D. L.) 98 Tem muita gente que acredita [...] pessoas que o ator morre na novela e acha que é verdade [...] as crianças acreditam no que ela mostra. Os programas direcionados não têm valor cultural, moral. Essa desvalorização é perigosa. (M. L.) Ela influencia sim. Depende (E. C.) Chama a atenção para problemas e violência. (A. C.) Não gosto, a TV estraga. Não deixo crianças assistirem, muita imoralidade, mudo horário porque as crianças são muito inteligentes (L. L.) Separo horários, faltam mais programas educativos, não há programa para a família. (M. J.) A TV está errada, a violência natural, mau exemplo, confunde a realidade com ficção. (L. A.) A TV influencia no comportamento das pessoas [...] deseducam crianças (I. F.) Tem pessoa que não sabe o que é uma família. Outros que bater em filhos não pode porque a lei não permite. Tem pessoas que deixa filho solto porque não sabe interpretar a lei. (R. D.) As falas demonstram quase uma unanimidade em relação à influência da televisão nas relações familiares, comportamento e de consumo, havendo também hegemonia com relação aos pontos desta reprodução que consideram negativos, como a violência, imoralidade, contradição com a educação familiar. Lembramos que o sentido de imoralidade expresso vem alicerçado de uma noção de certo e errado de cunho religioso, como citado em falas anteriores. Assim sendo, nos últimos anos diversas pesquisas de atitudes da população vêm evidenciando o desagrado manifestado por um segmento considerável de brasileiros quanto ao excesso de violência e as formas de representação das mulheres na televisão. Pesquisa realizada pela CPM Research revelou, por exemplo, que amplos setores da população brasileira possuem uma visão muito crítica sobre vários aspectos da programação de TV. Outro aspecto que chama a atenção é o debate sobre a qualidade dos conteúdos veiculados pela TV, destacando como impulsionador deste a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, em 1999, que ligada ao Ministério da Justiça, estimulou acordo entre as emissoras de TV visando à elaboração de um protocolo de controle de qualidade nas programações, a fim de firmar compromisso de tratar 99 com sutileza as cenas de sexo e violência, o que nos remete à classificação obrigatória dos programas em rede nacional. Segundo a pesquisa “Fala Brasil”, realizada pela Agência Propeg em 1998, 80% dos entrevistados concordavam com a ideia de que, “de uma maneira geral, a mulher é tratada como objeto sexual na televisão”. Nesse sentido, discutimos as fronteiras entre real e imaginário coletivo, e em que condições o real alimenta-se da imagem e a imagem alimenta-se de real, a partir da necessidade de interrogar o seu estatuto na cultura, com a suspeita de que a proliferação dos ícones contemporâneos, mais do que representar a imagem, oculta a sua ausência. A partir das novas imagens, sustentadas digitalmente, procuramos apreender e avaliar a ferida ontológica que esta, desde os alvores da nossa cultura, provocou, bem como as virtualidades que ainda possa ter para a contemporaneidade. A influência da televisão traz suas particularidades, haja vista que ao mesmo tempo em que pode constituir-se em instrumento de democracia, cultura, informação e formação cidadã, produz o que os críticos denominam de efeito real, qual seja, faz ver e crer no que se faz ver, permeada pela informação e consumo. Rompe com a segmentação de públicos própria da mídia impressa e contribui para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e adultos, leigos e especialistas, aprofundando as transformações no discurso, unindo o sentimento de intimidade transmitido pelo rádio com o apelo imagético próprio do cinema. (BOURDIEU, 1997) A preocupação com a construção de um estilo de vida expressivo, de chegar a alguma noção de ordem satisfatória a partir das mercadorias e práticas que cercam o indivíduo geram uma demanda constante de informação sobre estilos de vida, porém o individuo que tem “somente uma vida pra viver” encontra uma vasta coleção de interpretações de bens culturais, experiências e estilos de vida, em que todos enfatizam a capacidade para a transformação de si mesmo e do próprio estilo de vida. (FEATHERSTONE, 1995) Nesse sentido, torna-se relevante investigar as formas como a representação sobre a mulher tem sido construída por meio da mídia televisiva, a 100 partir das tramas dos discursos da mídia que constroem e multiplicam as subjetividades e identidades dos sujeitos. Ao analisar as imagens, percebemos que não se trata apenas de uma visão capturada do outro, e por isso a importância de explorar o significado da imagem televisiva para as relações interculturais e de consumo. Por sua vez, apenas em nome do valor individual pode ser superada a questão da relação entre os sexos, haja vista que a individualização dos procedimentos nem é tão surpreendente se nos referirmos às análises anteriores: nunca as histórias individuais foram tão explicitamente referidas pela história coletiva e os aspectos de identificação coletiva foram tão flutuantes. Assim, a produção individual de sentido torna-se mais do que nunca necessária, ainda que a sociologia possa perfeitamente por em evidencia as ilusões das quais procede essa individualização dos procedimentos e os efeitos de reprodução e de estereotipia que escapam, totalmente ou em parte, à consciência dos atores. [...] os sujeitos humanos, por sua vez, carregam a marca dos elementos objetivos que misturam-se inextrincavelmente à sua vida, e assim por diante, ao longo de um processo em abismo no qual a subjetividade é envolvida pelos objetos e a objetividade pelos sujeitos. (PIERRE LÉVY, 1993, p.174) Assim sendo, a construção das identidades está baseada na prática de dar significado às formas concretas de representação, como o discurso, o que torna possível a identificação feminina ser ou não reconhecida. O espectador está ativamente modificando-se por meio dos conteúdos disponibilizados pelos produtos da mídia, sendo que a passagem por esta torna-se obrigatória na sociedade atual, a partir da sua apropriação das diferentes formas simbólicas de representação cultural. Segundo Thompson (2002, p.113), a mídia cria um novo tipo de publicidade, que o autor descreve como o “espaço do visível”: ele é um espaço não localizado, não dialógico e aberto, no qual as formas simbólicas mediadas podem ser produzidas e recebidas por uma pluralidade de outros não presentes. Para Baudrillard, o sentido é produzido no “intervalo”, no período entre o recebimento de informações e sua elocubração. 101 Cualquier forma de seducción, que és un proceso enormemente ritualizado, se borra cada vez más tras el imperativo sexual naturalizado, tras la realización inmediata e imperativa de un deseo [...]. (BAUDRILLARD, 11 1986, pg. 41) Trata-se de um decreto da ideologia moderna que denuncia a forma da mulher em sua feminidade consumidora, escravizada por seu corpo que se transformou em mercadoria, “la feminidad es el alienado de la mujer”, ou seja, a feminidade aparece como uma totalidade abstrata, vazia de toda realidade que lhe pertence em sentido próprio, “totalidad del ordem del discurso y la retórica publicitária”12 (idem, p. 229-258). Responde, portanto à ruptura dos sentidos, à fragmentação do tempo, do vídeo clip, na Internet, meios onde há rapidez e superficialidade, criando dispositivos técnicos, celulares, áudio, televisão, vozes e olhares que se fixam fora dos corpos (na superfície) e exercem prazer aos seres humanos. Uma inclusão que se dá pela negociação além de sua essência, coisificada, a partir de uma lógica masculina. Lacroix (2002) diz que pesquisadores observam distorções importantes entre os discursos pronunciados e veiculados na sociedade e as particularidades das vias imaginárias e simbólicas que fazem ligações psíquicas entre um homem e uma mulher, demonstrando a existência da diferença entre discurso e realidade concreta, o que vem em contraponto com a linguagem televisiva que busca exacerbar os estereótipos maximizando uma imagem de sensualidade da mulher brasileira. O que tem correspondência direta na mulher ao, ainda que secretamente, cobiçar possuir não somente os atributos físicos, mas também econômicos e o conhecimento que deixam tantos homens e mulheres desejosos. 11 Qualquer forma de sedução, que é um processo grandemente ritualizado, se borra a cada vez, mas traz o imperativo sexual naturalizado, traz a realização imediata e imperativa de um desejo. J. Baudrillard, 1986, pg. 41. 12 Totalidade da ordem do discurso e a retórica publicitária. Idem, pg. 229-258. 102 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para que se possa elaborar as considerações finais desta dissertação, necessária uma retrospectiva do caminho percorrido com o objetivo de retomar a direção ao desvelamento do objeto de investigação “Mulher e sua interlocução com a mídia televisiva: imagem e subjetivação”, uma vez que é a partir do processo histórico do lugar da mulher na sociedade historicamente construído, sua vinculação com os processos produtivos, inter relação privado-público e representação na televisão, decorrente da alteração das forças produtivas, condições de trabalho e da busca pela ruptura com sua condição de gênero construída a partir da lógica do masculino que iniciamos a nossa trajetória. Para tanto, procurou-se revisitar as mudanças processadas na família, em que os modelos historicamente construídos apresentam uma conexão com as alterações do modelo de produção feudal à consolidação do capitalismo, posterior re-engenharia deste a partir do deslocamento de produção de massa quando as classes trabalhadoras passam a obter maior poder de compra, inserindo a família na esfera do consumo. Nesse processo, a mulher na esfera pública ganha cada vez mais visibilidade transpondo barreiras de valores, não apenas na relação homem-mulher, mas de normas jurídicas instituídas pela Constituição de 88 e demais leis posteriores; das normas sociais, mudanças de pensamento e comportamento, que contribuíram sobremaneira para a democratização da sociedade brasileira, e consequentemente para abertura dos múltiplos espaços sociais pelos quais a mulher transita. Nesse sentido, as condições sociais são também condições de exterioridades do indivíduo e por meio delas cria-se, recria-se e amplia-se as relações sociais, surgindo simultaneamente a consciência feminina quanto à sua condição de gênero, e a rebeldia que se manifesta por meio de lutas e movimentos, traduzidas em ação materializando e ressignificando as relações cotidianas. 103 Nesse caminhamento, a mulher vem procurando sua realização desde a inserção no trabalho como atividade, onde a objetividade do processo produtivo imprime uma subjetividade no indivíduo pela auto-realização, componente intrínseco à humanidade, particularmente à mulher, haja vista as possibilidades de emancipação. A retrospectiva processada possibilitou inferir que, com a pós-modernidade, a mulher passa a situar-se de forma mais expressiva na esfera pública, lugar de expressão em que a sua condição de gênero passou a sofrer alterações mais significativas, na medida em que a estruturação da esfera global da política, economia e cultura, encontrou como principal mediador os meios de comunicação, um dos grandes responsáveis pela difusão e criação de novos padrões e valores objetivos e subjetivos. Na articulação dos diferentes contextos, emergem diversas linguagens nos discursos pronunciados e veiculados na sociedade, gerando campos de sentido e significados publicizados pelas vias imaginárias e simbólicas da televisão que acompanha a trama do consumo cultural, fazendo ligações psíquicas entre real e imaginário coletivo, recriando diferenças entre o discurso e realidade concreta. Tudo vale para a indústria midiática que procura na atualidade oferecer consumidores para as empresas anunciantes. O espaço ou tempo publicitários de onde provêm as maiores receitas para a indústria tornam-se mais valiosos do que o produto midiático oferecido. Assim, a televisão ganha escopo ao mesmo tempo em que substitui a informação formadora do cidadão a estratégias instrumentalizadas, muitas vezes sensacionalistas e que inferem no comportamento das sociedade. Assim, de acordo com Canclini (2005), o cidadão é hoje um cidadãoconsumidor, não somente portador de cidadania ativa, alguém que tem o direito de ter direitos, mas estes não estão mais associados à noção de indivíduo, não expressando o mito da igualdade da revolução francesa; os direitos não são mais inerentes, mas deslocados para o plano das necessidades, para o campo do particularismo, o que pode ser verificado a partir das representações capturadas por meio dos grupos focais. 104 Distinta e contraditória, a história da mulher brasileira é densa de determinações éticas, raciais, rurais e urbanas, regionais e culturais, portanto carregada de particularidades que conformatam as suas relações nos diferentes espaços da família, do trabalho, da cultura na contemporaneidade, imprimindo traçados difusos ao novo reordenamento das práticas culturais. A partir das considerações acima, podemos indagar se os programas televisivos são baseados nos papéis desempenhados e construídos socialmente por homens e mulheres, mas de forma generalizada, não colocando em xeque a transitoriedade das identidades, não questionando os sistemas de representação que dão sentido à marcação da identidade. Para se iniciar uma transformação de conceitos, visões, concepções deve-se levar em conta o conteúdo das mensagens veiculadas, e que a hegemonia que ela apresenta é temporária e precisa de consentimento para ser mantida. Acreditamos que o senso comum que permeia o conteúdo do que é produzido pela televisão, suas mensagens e signos, predispõe o telespectador a conservação de visões, conceitos e concepções, pois a representação audiovisual e a linguagem do meio reforçam esse mesmo senso comum para chegar ao consentimento do público. Dessa forma, estudos e discussões acerca da linguagem em televisão constituem-se um dos pontos de estrangulamentos à abordagem da cultura como espaço de negociação, conflito, inovação e resistência, delineadas pelas relações de gênero. As mulheres aqui representadas reforçam que a circularidade dos discursos inseridos nas diversas esferas sociais e nos conteúdos midiáticos, reafirmam estereótipos e constroem as bases para o estabelecimento do que é considerado como “aceitável”, normal. As mensagens acerca do feminino registradas nas falas e nas diversas situações vivenciadas estiveram apoiadas em sentimentos que tradicionalmente permeiam a construção da imagem da mulher na sociedade atual. Percebe-se que o modelo patriarcal de família foi incorporado nas representações aqui apresentadas, o discurso é permeado pela necessidade de um modelo pai, mãe, filho. Ainda que os novos arranjos familiares sejam citados, e que muitas delas tenham optado pelo divórcio ou separação de seus cônjuges, sendo 105 chefas da família, ou mesmo as mais jovens solteiras, a ambigüidade se faz presente ao citarem o modelo nuclear de família como o ideal. Aqui surgem as instâncias de controle social como a religiosa traduzindo em fator determinante para reificação das noções que explicariam as razões do preconceito vivenciado por muitos que desafiam viver fora desses padrões, como casais gays e mulheres separadas, algumas com filhos de casamentos diferentes. Instâncias estas responsáveis pelo padrão de comportamentos fixos e supostamente imutáveis. A televisão não manda ninguém fazer o que faz, antes autoriza, como espelho premonitório que seja feito o que já é feito, pois na sociedade do espetáculo a dimensão do consumo prevalece, operando sobre o circuito da satisfação pulsional, convidando o telespectador ao gozo dos objetos que estão no mercado e supostamente para atender não à realização simbólica dos desejos, mas à satisfação das necessidades. Nota-se nas mensagens veiculadas pela televisão o afinamento com as exigências do mercado que exalta a beleza e a juventude, corpos perfeitos como de manequins, revestidos de sentido e compartilhados com a audiência, assimiladas pelas mulheres representadas a partir de seu discurso. Percebe-se que as mensagens deixaram muitas vezes de ser questionadas e problematizadas no âmbito da manutenção de concepções, estereótipos, no desempenho dos papéis sociais e preconceitos, e passam a ser idealizadas e desejadas, afinal, que mulher não desejaria ser ou parecer uma Gisele Bünchen? É a feminilidade que surge, aflora o momento em que o ser feminino supera a idéia feminista não de igualdade de direitos, mas inserindo fortemente desejo de complementaridade do ser mulher. Esclarecemos que a igualdade de direitos não se opõe à diferença dos gêneros de vida e das relações consigo mesmo, é pouco provável a sociedade se tornar unissex, mas o importante é que a sociedade inventada pelas mulheres não é uma sociedade para as mulheres, mas para todos, em particular para homens e mulheres. (TOURAINE, 2007) 106 Algo interessante é que a mulher transforma as reflexões de lutas e liberação feminina em uma experiência de consciência de si, o que é completamente diferente, conduzindo a criação de uma concepção nova da personalidade e da cultura. Em parte porque o pensamento político lhe parece muito ligado a situações ultrapassadas ou ainda de muita corrupção e jogo de interesses, ou porque a ação coletiva está submersa por uma maré que leva todos em direção ao individualismo consumidor. Atualmente, o pós-feminismo tende a dar novamente prioridade à sociedade civil e, sobretudo, à vida pessoal. Ressalta-se que as multifacetadas expressões da questão de gênero estão presentes nos debates acadêmicos e na sociedade, buscando a superação do olhar do senso comum. Se “a economia se insere nos processos da cultura da mídia e como ela acaba por estruturar até mesmo o tipo de texto que é produzido na indústria cultural” (KELLNER, 2001, p. 38) concordamos com Bourdieu (2002) que “[...] a análise crítica do papel da televisão é um elemento capital da luta contra a imposição da visão dominante do mundo social e do seu devir”. Entre apocalípticos e integrados ficamos com a visão de que esses mesmos espaços podem ser melhor utilizados se nos seus conteúdos houver a constante atenção em rever e problematizar estigmas estéticos e condutas sociais, já que no senso comum pode haver espaço para a conformação de subordinação mas também de espaços para transformações e resistências. 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Clara. Marxismo, feminismo e o enfoque de gênero. In: Crítica Marxista. São Paulo, Boitempo, nº11, 2000, p.70. AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad. Maria Lucia Pereira. Campinas; São Paulo: Papirus, 1994. Coleção Travessia do Século. ARENDT, H. A condição humana. Tradução: R. Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1958-1999. ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978, 1981, 1986. BARBOSA, P. L. N. O papel da imagem e da memória na escrita jornalística da história do tempo presente. In: GREGOLIN, M. R Discurso e mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003. p. 111-124. BAUDRILLARD, J. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. São Paulo: Brasiliense, 1985. _______________. De La Seducción. Coleção Teorema. Série Mayor. Madrid, 1986. _______________. Simulacros e Simulação. Tradução Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D’Agua, 1991. BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. BILAC, E. D. Sobre as transformações nas estruturas familiares no Brasil. Notas muito preliminares. In: Ribeiro, I. e Ribeiro, Ana Clara T. (orgs.) Família em processos contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira. São Paulo, Loyola, 2003. BOURDIEU, Pierre. A dominação Masculina. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro. 2. ed. Bertrand Brasil. 2002. _________. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. CALDERÓN, Adolfo Ignácio e GUIMARÃES, Rosamélia Ferreira. Família: a crise de um modelo hegemônico. Revista Serviço Social e Sociedade, nº 46, ano XV, dez/94. Cortez: São Paulo. 108 CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos: Conflitos Multiculturais da Globalização. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 2006. CASTELL, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. V.1. In A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000. CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano - Artes de Fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. 2. ed. Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru: EDUSC, 2002. DEBORD, G. a sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. 7. reimpressão. Rio de Janeiro: contraponto, 2006. DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Tradução Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 2006. DURHAM, Eunice. Família e reprodução humana. In: Perspectivas antropológicas da mulher. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, v.3, p.44. DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1995. ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1997. ENGELS, Friederich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Coord. e pref. à ed.bras. de Izabel Magalhães. Trad. Izabel Magalhães et al. Brasília: Editora UnB, 2001. FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995. FISHER, R. M. B. Mídia e educação da mulher: uma discussão teórica sobre modos de enunciar o feminino na TV. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 586-599, 2001. FLAX, Jane. Pós-Modernismo e relações de gênero na teoria feminista. In: BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (org.). Modernismo e Política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979 __________. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1998. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993. 109 FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2001. GOMES, Maria Carmen Aires. Mulheres e Política: analisando a representação sociocultural midiática. Revista Linguagem em (Dis)curso, volume 7, n. 2, maio/ago. 2007. ISSN 1518-7632. GUEIROS, Dalva Azevedo. Família e proteção social: questões atuais e limites da solidariedade familiar. In: Revista Serviço Social e Sociedade. São Paulo: Cortez, nº 71, Ano XXIII, ESPECIAL, 2002, p.102 a 121. HALL, Stuart. Identidades Culturais na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. ______. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998 HEIBORN, Maria Luisa. Gênero e Condição Feminina: uma abordagem antropológica. In: Mulheres e políticas públicas. Rio de Janeiro: IBAM/UNICEF, 1991. Hobsbawn E. A era dos extremos - o breve século XX. Companhia das Letras, São Paulo, 1995. JODELET, Denise (org.). As representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. JOVCHELOVITCH, Sandra. Representações sociais e esfera pública: a construção simbólica dos espaços públicos no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2000. KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. São Paulo: Edusc, 2001 KEY, Wilson Bryan. A era da manipulação. São Paulo: Scritta, 1996. LACROIX, Xavier. Homem e Mulher: a inapreensível diferença. Tradução Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 2002. LANE, Silvia Tatiana Maurer. Usos e abusos do conceito de representação social. In: SPINK, Mary Jane (org.). O conhecimento cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1993. LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org). Tendências e impasses: O feminino como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. São Paulo: Ed. 34, 2002. LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades de São Paulo. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. LIMA, F. B. & PRIOLLI, Gabriel. Televisão e Vídeo. Rio de Janeiro, Zahar, 1985. 110 MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003. MATTELART, Michele; MATTELART, Armand. O carnaval das imagens: a ficção na TV. São Paulo: Brasiliense, 1989. MATTELART, Armand; NEVEU, Érik. Introdução aos estudos culturais. São Paulo: Parábola, 2004, 215p. MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem. 14. ed. São Paulo: Cultrix, 2005. MELO, Jacira. Relatório sobre o Capítulo J: A Mulher e os Meios de Comunicação. Plataforma de Ação de Pequim. IV Conferência Mundial sobre a Mulher. Janeiro, 2000. MELO, José M., GOBBI, Maria C., BARBOSA, Sérgio. Comunicação LatinoAmericana: o protagonismo feminino. São Bernardo do Campo: UMESP; Adamantina: FAI, 2003. MIGUEL, Luis Felipe. Os Meios de Comunicação e a Prática Política. Lua Nova Nº 55-56, 2002. MIOTO, Regina Célia Tomaso. Família e Serviço Social. Revista Serviço Social e Sociedade, 55, XVIII, São Paulo: Cortez, novembro de 1997. MORIN, Edgar. Cultura de Massas no século XX: necrose. Trad. Agenor Soares Santos. 3.ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2003. PASSOS, Elisabeth da Silva. Os estudos de “gênero” e algumas reflexões de caráter espistemológico acerca das pesquisas históricas. Anais do VII Seminário Fazendo Gênero, UFRJ. 28, 29 e 30 de 2006. PRADO, D. O que é família. São Paulo: Brasiliense, 1985. RIAL, Carmen. Os Charmes dos fast-foods e a globalização cultural. Florianópolis: UFSC, 1995. SARLO, Beatriz. Escenas de la vida posmoderna. Buenos Aires: Seix Barral, 2004. SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999. ______. PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002. SWAIN, T. N. Mulheres, sujeitos políticos: que diferença é esta? In: SWAIN, Tânia; MUNIZ, Diva do Couto (Orgs.) Mulheres em ação: práticas discursivas, práticas políticas. Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2005. 111 TEMER, Ana Carolina R. P. Mais Você: uma análise da revista feminina na televisão. Trabalho apresentado no XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, UERJ, 5 a 9 de setembro de 2005. THERBORN, Goran. Sexo e Poder – A Família no mundo: 1900-2000. São Paulo, Contexto, 2006. THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 1998; 2002. TOURAINE, Alain. O mundo das mulheres. Trad. Francisco Morás. Petrópolis: Vozes, 2007. VIEIRA, Madalena R. Educar sem Discriminar: um desafio, uma conquista. In. Gener(and)o na UFMT. Marluce Souza e Silva (org). Coleção Universidade e o Mundo do Trabalho. Cuiabá, Adufmat, 2001. VIEIRA, Vera. Relatório final do Projeto de Monitoramento da Mídia Global 2005 (GMMP). São Paulo/Brasil, 16 de março de 2005. WOODWARD, Katryn. Identidade e diferença: uma introdução teórico e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.