Abertura Boas Vindas Tema do Congresso Comissões Sessões Programação Áreas II Congresso Nacional de Formação de Professores XII Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores Títulos Trabalho Completo DO “APRENDER A PROFISSÃO”: NARRATIVAS DE UMA EXPERIÊNCIA DIALOGADA Lucia Helena Pena Pereira, Bruna Sola Da Silva Ramos Eixo 1 - Formação inicial de professores para a educação básica - Relato de Experiência - Apresentação Oral A presente narrativa se constitui a partir de uma proposta de estágio vivenciada por duas professoras-orientadoras e um grupo de formandos em Pedagogia, em uma universidade pública do interior de Minas Gerais, no ano de 2013. Buscou-se desenvolver uma experiência de estágio fundamentada no diálogo, considerando-se este como princípio básico para o “aprender a profissão”. Revisitando-se o percurso vivido, destacam-se os cinco momentos que compõem a experiência. O primeiro deles se relaciona à elaboração coletiva do projeto de estágio apresentado à escola-campo, evidenciando-se as intencionalidades do trabalho a ser realizado como contribuição efetiva para o estreitamento das relações entre a Universidade e a Escola. Em seguida, narram-se as especificidades de um processo compartilhado de observação e análise da sala de aula. O terceiro momento refere-se à proposição de um minievento que procura superar moldes burocráticos e repetitivos de intervenção do estagiário no cotidiano escolar. O quarto momento se relaciona à análise de planos de aula coletados ao longo do estágio, no intuito de gerar uma reflexão crítica sobre o planejamento como um processo dinâmico e flexível, orientador do trabalho docente. Por fim, o último momento marcou-se pela reflexão acerca da docência como um fenômeno intencional, a partir da troca com professoras convidadas a compartilhar suas experiências bem-sucedidas, bem como a forma como lidam com os percalços da profissão. Acredita-se que a experiência narrada traduza o compromisso com o desenvolvimento crítico-reflexivo do professor e se constitua como oportunidade de compartilhar escolhas e apostas por uma formação construída em inter(ação) e diálogo. Palavras-chave: Formação de professores. Prática de estágio. Experiência dialogada. 0392 Ficha Catalográfica DO “APRENDER A PROFISSÃO”: NARRATIVAS DE UMA EXPERIÊNCIA DIALOGADA Bruna Sola da Silva Ramos; Lucia Helena Pena Pereira. UFSJ Neste texto, nos propomos a narrar o encontro entre duas professoras da disciplina Estágio Supervisionado nos anos iniciais do Ensino Fundamental II e quarenta e dois graduandos do oitavo período do Curso de Licenciatura em Pedagogia de uma universidade pública do interior de Minas Gerais. Em encontros como este, evidencia-se de imediato um dos maiores desafios aos que formam professores: mediar o processo de “aprender a profissão” (PIMENTA & LIMA, 2012), processo que encontra nos estágios curriculares campo fértil para uma aproximação crítica e reflexiva com a prática pedagógica. Com base neste desafio, o que vamos contar aqui é o que chamamos por uma experiência dialogada de estágio. Ao estilo benjaminiano, encontramos na narrativa um poderoso instrumento que nos permite “contar” esta história, e recontá-la a nós mesmos, como se a víssemos “de fora” – ou como prefere Bakhtin (2000), em posição exotópica. Desse modo, nos propomos a assumir certo distanciamento reflexivo em torno da experiência vivenciada no estágio, percebendo aí oportunidade de compartilharmos escolhas e apostas por uma formação constituída em inter(ação) e diálogo. 1. Narrativas para (re)contar o vivido... Ela (a narrativa) não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão de um oleiro na argila do vaso. BENJAMIN, 1994, p. 205 Na bela metáfora construída pelo autor divisamos o lugar único a partir do qual se narra o mundo e o vivido: em uma narrativa está impressa a marca do narrador tal qual a “mão de um oleiro na argila do vaso”. Isso significa dizer que, quando narramos, imprimimos o nosso “ser” naquilo que é contado, mergulhamos as palavras nas experiências vividas, em toda a sua concretude e acepções, movimentando a racionalidade e a subjetividade individual nos liames de uma composição coletiva. Na concepção benjaminiana, é justamente na arte de narrar que se encontra o espaço para o intercâmbio de experiências – ações refletidas, rememoradas, compartilhadas e que permanecem para além do vivido –, apostando que na relação do narrado com o vivido se escova a história a contrapelo e abre-se espaço para a 1 0393 transformação dos sujeitos e da própria história. Desse modo, a narrativa é concebida por Benjamin como transmissão de experiências, não havendo possibilidade de narrativa sem memória: a memória é a “Musa da narrativa”. Benjamin (1994) aposta na necessidade de um olhar para o passado em sua totalidade, ao mesmo tempo em que atesta a impossibilidade de o “capturarmos” como ele de fato existiu. O passado se faz presente para nós através de reminiscências, que se fazem instrumentos de ação sobre o nosso presente. Com base nessas ideias, entendemos que é justamente no entrecruzamento de reminiscências – nossas e de nossos alunos – que reside a possibilidade de narrarmos a trajetória compartilhada no estágio, resgatando o vivido em confronto com a reflexão. 2. O diálogo como princípio constitutivo da experiência do estágio A narrativa de nossa prática se compõe e fortalece diante da problemática que atinge frontalmente os estágios supervisionados em muitos de nossos cursos de formação. Conforme denunciam Pimenta e Lima (2012), há uma “tendência de transformar o estágio em uma atividade meramente instrumental” (p. 100), considerandose para esse entendimento: o aumento considerável da carga horária do estágio, as condições institucionais precárias, o “fardo” que o estágio acaba por se tornar para muitos professores (especialmente em função do grande número de alunos a serem orientados), os projetos abreviados a um “agregado de atividades técnicas e burocráticas” (p. 101) e a falta de intencionalidade no que diz respeito ao caráter formativo do estágio. Soma-se a isso o histórico distanciamento entre a universidade e a escola e a ausência de uma orientação mais efetiva e dialogada quanto às práticas do estágio, estas resumindo, muitas das vezes, a miniaulas na própria universidade. De acordo com as autoras, diante de tantas variáveis, o estágio vem se configurando como “algo fluido, etéreo, diletante, em que toda e qualquer atividade é válida” (p. 101). Na contramão dessa tendência, temos nos empenhado firmemente no reconhecimento do estágio como um momento privilegiado do aprendizado da prática pedagógica, como espaço/tempo da reflexão, da mediação e do confronto com teorias, da resignificação de teorias e práticas, da construção de formas outras de se enxergar a realidade, em busca de “pistas” que ajudem o professor a enfrentar os dilemas e os tantos desafios colocados pelo trabalho pedagógico. Como componente curricular, o estágio pode não ser uma completa preparação para o magistério, mas é possível, nesse espaço, professores, alunos e comunidade escolar e universidade trabalharem questões básicas de alicerce, a saber: o sentido da profissão, o que é ser professor a sociedade em que vivemos, como ser professor, 2 0394 a escola concreta, a realidade dos alunos nas escolas de ensino fundamental e médio, a realidade dos professores nessas escolas, entre outras. (PIMENTA e LIMA, 2012, p. 100). Partindo dessa premissa, buscamos desenvolver uma experiência de estágio fundamentada no diálogo, aquele que consideramos o princípio básico para que se faça significativo o “aprender a profissão”. Junto a Paulo Freire (1987, p. 122), compreendemos que isso não é possível com “verbalismos” ou com “ativismos”, apenas com práxis, portanto, com reflexão e ação incidindo sobre a formação para a docência. Isso significa, de antemão, nos colocarmos predispostos a dialogar, abertos às inquietações e às curiosidades de nossos educandos, pois, como bem denuncia Freire, como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, a vejo sempre no outro, nunca em mim? (...) Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto puro, de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos o que estão fora são “essa gente”, ou são “nativos inferiores”? (...) Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela? (1987, p. 81). Tendo no diálogo uma exigência radical em nossos processos de formação, podemos entrevê-lo em múltiplos aspectos do trabalho proposto na disciplina de estágio. A princípio, pelo fato de que a disciplina foi ministrada, não por uma, mas, por duas professoras, que assumiram um planejamento dialogado, e, em lugar da tradicional divisão de turmas, realizaram todo o trabalho de orientação de forma colaborativa. Com isso, podemos dizer que a proposta do estágio nasce e se realiza no encontro entre olhares, conceitos e experiências que se complementam, ampliando as possibilidades de diálogo acerca do que foi observado/vivido na escola. Podemos dizer, ainda, que há um direcionamento dialógico explícito na composição da proposta de estágio. Primeiro, pelo fato de que solicitamos aos estagiários que se organizassem em grupos de quatro alunos, a fim de que cada dupla pudesse observar uma sala de aula de mesmo ano de ensino, em uma determinada unidade escolar. Acreditamos firmemente que esse agrupamento, quando bem orientado, é capaz de ampliar as possibilidades de interação e diálogo na formação de nossos professores. A partir daí, vemos o diálogo presente na própria negociação com a escola-campo, feita por meio de um projeto de estágio elaborado colaborativamente. Ao ser apresentado à escola, este projeto evidenciou as intencionalidades do trabalho a ser realizado, facilitando o entendimento da proposta e de suas reais contribuições à escola. Ainda, para superarmos a perspectiva de uma intervenção “burocrática” e como forma de incentivar o diálogo entre os estagiários, e entre estes e os sujeitos observados, propusemos, com base na troca entre as observações realizadas nas duas classes, bem como no diagnóstico realizado junto aos educandos, que os estagiários realizassem um 3 0395 minievento educativo que reunisse as duas turmas e professoras observadas em atividades coletivas. Todo esse processo resultou em um rico movimento no cotidiano escolar, problematizando o discurso e as práticas que se fundam na impossibilidade de um trabalho coletivo em nossas escolas. Enfim, não poderíamos deixar de mencionar a riqueza do processo de orientação do estágio realizado na universidade, feito de um constante diálogo entre as professoras e os estagiários, que compartilharam, em apresentações e debates intensos e muito produtivos, aquilo que viram, ouviram e experimentaram ao longo do estágio. E por que não mencionar a própria constituição deste texto, feito também em diálogo? Para compor esta narrativa partimos não apenas de nossas reminiscências, mas da voz dos próprios sujeitos em formação, que aqui se fazem presentes através dos relatórios e dos depoimentos construídos em momentos de avaliação do percurso. Como se vê, diálogos por toda a parte... 3. Revisitando o percurso do estágio 3. 1 Do planejamento à negociação com a escola Para que se fizessem claras as intencionalidades do estágio, e dele se pudesse extrair um efetivo exercício de prática docente reflexiva, detivemo-nos rigorosamente ao planejamento das ações. Para nós, professoras, isso se configurou como oportunidade ímpar de diálogo entre pares, o que, nos parece, anda escasso nestes tempos paradoxais de produtividade limitante. Conforme explicitam Pimenta e Lima (2012, p. 181), na tradição da universidade e nos órgãos que normatizam o ensino superior, “os docentes são valorizados pela quantidade de pesquisas e publicações muito mais do que por suas atividades e qualidade destas na graduação”, criando-se uma distorção e uma fragmentação que se reflete “nas condições objetivas para a efetivação de estágios coletivos, integrados e colaborativos”. O fato de tecermos juntas o desenho didático do estágio nos permitiu “enxergar”, de forma mais abrangente, os sentidos de se “ensinar e aprender a profissão”, no cruzamento de nossos saberes e experiências no campo da formação de professores. Para os alunos, esse movimento se materializou na elaboração do projeto de estágio apresentado às escolas. Com base nas orientações gerais do Plano de Curso discutidas pelo coletivo, cada grupo de alunos redigiu seu plano de ações. Desse modo, em lugar de se apresentarem às escolas munidos apenas de cartas de apresentação ou formulários de estágio, fizeram-se portadores de um “documento” que, no dizer dos próprios alunos, “oferece muito mais segurança” para a negociação com a escola, na 4 0396 medida em que tanto expõe com clareza os objetivos e ações pretendidas, quanto se formaliza a perspectiva de contribuição efetiva do estágio à escola-campo. Cumprida esta etapa, nos dedicamos às orientações das atividades de observação da sala de aula, conforme a narrativa que segue. 3.2 Na sala de aula: observações sobre o vivido Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. José Saramago A epígrafe de Saramago é bastante elucidativa para refletirmos acerca das observações da sala de aula realizadas durante o estágio. Aos professores em formação não bastaria apenas “ver” a realidade, mas, sobretudo, nela “reparar”, em um confronto crítico-dialógico que lhes permitisse reconhecer experiências bem-sucedidas em nossas salas de aula (e, nelas, encontrar inspiração!), bem como analisar as dificuldades e problemas investigados, com vistas à proposição de mudanças. Em ambos os casos, tomamos por base uma reflexão fundamentada à luz das teorias estudadas e dos conhecimentos produzidos ao longo do curso. A análise da aula assim se constitui em processo de pesquisa a partir da mobilização dos conhecimentos das áreas específicas e da Didática, configurando-se como um laboratório pedagógico de aprendizagem da profissão docente (PIMENTA e LIMA, 2012, p. 159). Nesse sentido, para que o estagiário possa “reparar” na realidade da prática pedagógica, acreditamos ser mister o processo de orientação desse olhar. Em nosso trabalho, isso se anunciou imediatamente na composição de alguns focos de observação, visto que temos percebido, em nossa experiência com as aulas de estágio, certa dispersão da observação realizada, que se configura em um olhar meio que “disparatado” para esta realidade que fascina, ao tempo em que também amedronta. Por isso, na experiência aqui narrada optamos por orientar a observação a partir de três enfoques centrais da prática pedagógica: a relação professor-aluno; a composição da metodologia de ensino-aprendizagem e o processo de avaliação. Para refletirmos sobre a iniciativa desta proposta, é muito significativa a fala de uma aluna-estagiária ao avaliar o processo de observação das aulas realizado no estágio, conforme transcrita a seguir. A questão da observação já deixa a gente à mercê do imprevisto. Quando tem o foco a gente começa a prestar atenção em situações que já foram delimitadas pelo próprio 5 0397 projeto de estágio. Às vezes quando a gente só está observando sem foco nenhum passa muita coisa e a gente não anota, a gente nem percebe... (depoimento). O que podemos inferir a partir de sua fala é que a ausência de focos de observação e análise causa certa sujeição à imprevisibilidade dos acontecimentos e, em consequência, muito do que se passa na dinâmica da sala de aula pode se tornar imperceptível. Desse modo, entendemos, junto aos alunos, que a composição de enfoques de observação se configurou em uma estratégia importante no processo de condução do estágio. Tendo em vista os focos de análise, destaque se faz para a percepção da mesma aluna-estagiária quanto ao que foi percebido em termos da avaliação realizada nas aulas observadas, o que consideramos ter sido uma aprendizagem significativa no contexto do “aprender a profissão”. O que chamou muito minha atenção foi a questão da avaliação, porque a gente começa a “caçar” aonde tem avaliação ali no cotidiano. (...) A avaliação, às vezes a gente pensa que não vai pegar um período que vai ter a avaliação, porque não vai estar presente na sala, mas aí quando você vai escrever, quando você vai relatar e passar isso para os colegas em sala, a gente vê que a professora observava os alunos enquanto eles faziam o exercício, a professora falava com o aluno “olha, excelente, parabéns”. Então quando a gente tem foco é muito mais bacana. Por fim, trazemos a transcrição da fala de outra aluna-estagiária, em sua percepção sobre o trabalho coletivo realizado durante o processo de observações na sala de aula. Os grupos de quatro alunos foram divididos em duas salas diferentes do mesmo ano e nós percebemos que as duas professoras trabalharam de forma totalmente diferente uma da outra, e depois nós tivemos que reunir essas duas salas e fazer um trabalho conjunto. Então essa observação ficou muito rica porque ela não ficou só para minha subjetividade ali observando, fui trocando experiências com minha colega que estava na mesma sala e quando reuni com as outras duas que estavam na outra sala, trocamos mais experiências e observamos que as metodologias que elas utilizaram eram totalmente diferentes. Foi um trabalho muito rico mesmo. Para além do fértil diálogo entre o grupo de estagiários, que permitiu o confronto reflexivo entre diferentes práticas e modos de ensinar, o processo se enriqueceu sobremaneira com a produção de um relatório analítico acerca das situações observadas no interior de cada enfoque, culminando no debate coletivo realizado nos momentos de aula na universidade. Assim, ao transitar da universidade para a escola e desta para a universidade, os estagiários podem tecer uma rede de relações, conhecimentos e aprendizagens, não com o objetivo de copiar, de criticar apenas os modelos, mas no sentido de compreender a realidade para ultrapassá-la. (PIMENTA e LIMA, 2012, p. 111). 6 0398 3.3 A reflexão do vivido e a produção de conhecimentos: o minievento Para apresentar a proposta do minievento, logo no início das aulas na universidade, discutimos com nossos estagiários o texto A aula como acontecimento, de João Wanderley Geraldi, como um detonador de ideias e reflexões, que permitissem uma discussão mais ampla, sem respostas prontas, mas com interrogações, como uma forma de “ultrapassar o senso comum” e de “pensar o ensino não como aprendizagem do conhecido, mas como produção de conhecimentos, que resultam, de modo geral, de novas articulações entre conhecimentos disponíveis” (GERALDI, 2010, p. 97-98). A nossa proposta era que se planejasse e executasse um minievento, logo que as observações fossem concluídas, envolvendo as duas turmas de uma mesma escola observadas pelo grupo das quatro estagiárias e as professoras regentes. As atividades ocupariam, durante um dia, o tempo de aula das crianças ou seriam divididas em dois dias, de acordo com a preferência da escola. A temática para a realização desta atividade seria escolhida mediante as necessidades ou desejos dos alunos da escola-campo, e suas singularidades, de forma a contribuir com seu desenvolvimento e com as atividades mais amplas de ensino-aprendizagem das turmas. Feita a escolha da temática, a proposta seria discutida e organizada com as professoras regentes, o que poderia se configurar, como de fato ocorreu, em uma rica possibilidade de trocas de conhecimento. Eu acho que foi essencial a gente analisar e fazer um projeto direcionado para suprir uma necessidade da turma. (...) É muito fácil pegar qualquer projetinho e aplicar em qualquer turma, mas quando você tem um direcionamento fica muito mais rico para o seu estágio e para a turma (depoimento). Como já era de se esperar, nem tudo ocorreu como o previsto. Houve necessidade de levar à sala de aula da universidade a discussão de situações inesperadas e ainda não pensadas, que exigiram de todos nós flexibilidade e, até mesmo, criatividade. Os problemas foram os mais diversos, de problemas de suspensão de aulas por falta de água na escola à não aceitação da proposta de unir as turmas pelas professoras ou supervisoras, passando por acúmulo de tarefas das professoras regentes e pressões da direção sobre elas, o que impedia a realização do minievento nos moldes desejados. Houve casos, inclusive, da falta de um espaço capaz de acolher duas turmas reunidas. Algumas alterações tiveram um cunho muito positivo, como o caso da coordenadora de uma das escolas que fez questão que as três turmas da mesma série (3º ano) fossem beneficiadas pela atividade, que considerara muito produtiva e interessante, e o grupo se dividiu pelas três turmas, uma estagiária em cada sala, ficando a quarta como “itinerante”, contribuindo com as colegas na discussão dos pontos a serem analisados nas turmas. Terminado o período de realização dos minieventos, estes foram apresentados ao longo de três encontros na universidade, durante os quais os grupos foram divididos. 7 0399 Cabia a eles, além da apresentação oral, ilustrar com fotos as situações vividas, e entregar um relato do ocorrido. Tanto a exposição oral quanto o relato deveriam privilegiar os seguintes aspectos: como foi o planejamento e a construção do evento, as dificuldades e problemas enfrentados nas diversas etapas, a realização do evento e o envolvimento dos alunos da escola-campo, e as aprendizagens obtidas para a prática docente futura. Em alguns casos, o tema foi sugerido pelas professoras ou supervisoras a fim de que o minievento se inserisse nas atividades que seriam realizadas na escola como uma feira de ciências ou a comemoração pelo centenário de Vinicius de Moraes. Em outros, o tema a ser trabalhado foi imposto, não sendo permitido, através do diálogo entre estagiárias e alunos, que estes se tornassem autores de sua própria prática. Apesar dos percalços encontrados no caminho, os minieventos foram muito ricos, englobando atividades diversificadas e adaptadas à idade das crianças e visando seu envolvimento. As atividades ludo-artísticas estavam sempre presentes, envolvendo muita criatividade e interação: contação de histórias, produção de textos, confecção de cartões, livros e murais, entre outros. As atividades lúdicas e artísticas, essencialmente lúdicas, são fundamentais para o desenvolvimento da criatividade, da imaginação, autonomia e sensibilidade da criança, entretanto, como se mostra nos estágios e nas pesquisas que temos desenvolvido, têm estado pouco presentes, ou até mesmo ausentes, do cotidiano escolar. Entretanto, reconhecer o lúdico é reconhecer a especificidade da infância: permitir que as crianças sejam crianças e vivam como crianças; é ocupar-se do presente, porque o futuro dele decorre; é esquecer o discurso que fala da criança e ouvir as crianças falarem por si mesmas; é redescobrir a linguagem de nossos desejos e conferir-lhe o mesmo lugar que a linguagem da razão (OLIVIER, 2003, p. 23). O minievento trouxe uma rica aprendizagem para nossos estagiários como mostram trechos retirados das análises feitas, apresentadas no Relatório do Minievento: “foi essencial ver no campo o significado de reconhecer as especificidades de cada aluno e respeitá-las”; “um dos pontos fundamentais para nossa futura prática docente foi perceber a importância de um bom planejamento [...] mas que não precisa ser rigorosamente cumprido, pois sempre há imprevistos”; “foi perceptível que é possível a criança aprender de forma lúdica e sem imposições”; “pudemos refletir sobre como a arte instiga a imaginação e a criatividade”; “a partir de uma história contada, muitos aspectos podem ser trabalhados de forma interdisciplinar”. Em relação ao fato de abrirmos espaços para a apresentação dos minieventos e das fotos, nossas alunas consideraram positivo, uma forma de terem seu trabalho valorizado e de poderem ver outras possibilidades mostradas pelas colegas, como 8 0400 atestam os depoimentos: “Ver o trabalho da gente ajuda a pensar sobre ele, a ver que houve dificuldades também com os outros grupos e coisas que deram certo e errado fazem a gente aprender muito, poder olhar as dificuldades como desafios...”; “a gente vê formas diferentes de trabalhar o mesmo tema, outras possibilidades”. Na análise da aprendizagem adquirida para a futura prática, vale pontuar alguns aspectos trazidos: “o trabalho em grupo está fazendo falta, pois é uma forma de trabalhar o coletivo, de aprender a conviver e a respeitar o outro. Estas aprendizagens são possíveis no exercício da convivência”; “atitudes diferentes das professoras geram atitudes diferentes dos alunos, professoras mais cuidadosas e presentes têm respostas mais significativas”; “quando a criança tem dificuldades, trabalhos diferenciados ajudam a aprendizagem”; “quando a criança é estimulada em sua curiosidade e a professora procura envolvê-la na atividade, ela aprende mais fácil”; “deu pra ver que a professora muito controladora, tirava a autonomia da criança”; “a arte não pode faltar”. Muitos pontos referentes às crianças trazidos nos comentários dos alunosestagiários, também, foram significativos por surgirem de uma análise fundamental para a sua prática docente e, por isso, enumeramos alguns: a criatividade das crianças está muito podada e a dificuldade de fazer diferente do coleguinha se tornou evidente em vários casos, assim como a dificuldade de expressarem suas opiniões; as professoras não proporcionam espaços e tempos para atividades artísticas e a brincadeira da criança, formas por excelência da expressão infantil; materiais e técnicas simples como a modelagem com barro, recorte e colagem, origami, pintura com tinta guache, entre outros, em alguns casos nunca haviam sido experimentados. Para nós, professoras-orientadoras do estágio, foi uma experiência muito valiosa, em que ficou evidente o envolvimento da turma, a alegria e o orgulho de exporem para os colegas o que havia sido feito, a visão crítica de situações de sala de aula sendo exercitada, as relações teoria-prática se estabelecendo, assuntos estudados e dinâmicas vivenciadas ao longo do curso sendo resgatados, e um momento ímpar para que pudéssemos avaliar nossa proposta e repensar o estágio num momento em que nosso Curso de Pedagogia procura reorganizar seu Projeto Político Pedagógico. A proposta foi acolhida por nossos estagiários que dela se apropriaram, dando-lhe suas próprias cores e tons. E, como afirma Geraldi, é importante que alunos e professores se tornem autores, refletindo sobre o seu vivido, escrevendo seus textos e estabelecendo novas relações com o já produzido. Isto exige repensar o ensino como projeto, e para dar conta de um projeto não se pode esporadicamente conceder lugar ao acontecimento. O projeto como um todo tem que estar voltado para as questões do vivido, dos acontecimentos da vida, para sobre eles construir compreensões, caminho necessário da expansão da própria vida (2010, p. 100). 9 0401 3.4 A busca do mapeamento de um espaço imprevisível: análise dos planos de aula Como nos provoca Larrosa, nós sabemos ou tentamos saber o que são as crianças, e buscamos uma forma de linguagem que as faça entender o que desejamos quando estamos com elas, nos lugares próprios para recebê-las. Entretanto, “a infância é um outro, aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento”. E é com esta infância que nos defrontamos, nós, formadores, e nossos estagiários. A alteridade da infância não se limita apenas à sua resistência a serem capturadas por aquilo que delas sabemos, pelo que realizamos em nossas sala de aula, “é algo muito mais radical: nada mais nada menos que sua absoluta heterogeneidade em relação a nós e ao nosso mundo, sua absoluta diferença” (LARROSA, 2006, p. 184-185). Planejar uma aula é como tentar mapear este espaço do imprevisível, um espaço aberto à experiência da criança como um outro. As estagiárias, em seu processo de observação, deveriam coletar planos de aula das professoras para, posteriormente, analisá-los em duplas, duplas estas que, como já dito, estariam juntas na sala de aula do campo. Como nas outras etapas do estágio, as análises foram norteadas pelas professoras-orientadoras, e dúvidas que foram surgindo iam sendo respondidas, assim como sugestões foram dadas para trabalhar com planos que não apresentavam muitas possibilidades de análise, por se resumirem, por exemplo, ao número das páginas dos exercícios ou a atividades mimeografadas. Nosso objetivo era que pudessem refletir sobre o significado do planejamento não como algo estanque, mas como um processo dinâmico e flexível que propicie clareza do que será trabalhado para atingir determinados objetivos, mas que atenda às possibilidades de mudanças em função de dificuldades ou possibilidades que surjam no dia a dia da escola. Ou seja, um instrumento que aponta o rumo, mas oferece flexibilidade, uma vez que planejar não significa determinar os limites do homem circundando-o num viver estabelecido. Trata-se, antes, de planejar para que o homem possa, com coragem, encaminhar-se para o desconhecido, com lucidez e autonomia, como uma pessoa liberta que é capaz de escolher seus caminhos. Devemos planejar não para formar um tipo exclusivo de homem, ao contrário, para que o homem possa determinar suas escolhas, a partir de seus direitos e suas possibilidades. (SANT’ANNA e MENEGOLLA, 1999, p. 24-25). Através da análise dos planejamentos e o acompanhamento de aulas das professoras da escola-campo, os professores em formação puderam constatar que os planejamentos são diferenciados e trazem marcas de quem os constroem, que denotam a rigidez ou maleabilidade do profissional docente, que priorizam determinados aspectos 10 0402 em detrimento de outros, como do cognitivo sobrepondo-se à afetividade, à motricidade e ao social, dependendo de crenças adquiridas, conhecimentos ou preconceitos; que se mostram criativos ou fechados para o novo em função de seu envolvimento com seu fazer. Puderam perceber que aulas bem planejadas denotam cuidado e respeito com aqueles a quem se destinam, e que estes têm, desta forma, maior envolvimento nas atividades. Enfim, puderam compreender um pouco mais da complexa teia da sala de aula, e que práticas bem-sucedidas têm uma estreita relação com os objetivos, planejamento, implementação e com a vontade de fazer o melhor. Afinal, a infância é portadora de uma verdade à qual devemos nos colocar à disposição de escutar; nunca é aquilo apreendido pelo nosso poder (é o outro que não pode ser submetido), mas ao mesmo tempo requer nossa iniciativa; nunca está no lugar que a ela reservamos (é o outro que não pode ser abarcado), mas devemos abrir um espaço para recebê-la (LARROSA, 2006, p. 186). 3.5 Ouvindo quem já faz: relatos de experiência A última etapa de nosso Plano de Ensino previa uma discussão coletiva das práticas narradas por professoras da rede de ensino da cidade, que notadamente desenvolvem experiências bem-sucedidas. Com isto, objetivávamos que tais experiências pudessem ser relacionadas a possibilidades de ação para a futura prática de sala de aula de nossos formandos. Além disso, esperávamos propiciar a reflexão acerca da docência como um fenômeno marcado pela intencionalidade daqueles que a exercem. Se a intenção for apenas “ensinar conteúdos”, há o risco de que as aulas se tornem tarefas rotineiras, com atividades mecânicas e sem sabor, marcadas pelo cansaço e a frustração. Se, porém, a intenção é se tornar um professor melhor a cada dia, ciente de que, como afirma Freire (2004), o ser humano é inacabado, e que, portanto, se constrói interminavelmente, e “que meu ‘destino’ não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir” (p. 53), a busca do novo estará presente, assim como a busca de crescimento. Como nos lembra Freire, “ensinar exige a convicção de que a mudança é possível”, e, afinal, “o mundo não é, o mundo está sendo” (p. 76). A possibilidade de nossos estagiários, em seu espaço de formação, terem um contato mais próximo com profissionais com experiência, de saberem de seu percurso, de seus medos, de suas dificuldades, de como lidam com as pressões institucionais, de poderem fazer perguntas, de saberem que passaram pelas mesmas angústias e temores por que passam agora, ao final de sua formação, lhes trouxe um fôlego renovado. 11 0403 Finalizando... Na prática do estágio, os professores em formação muitas vezes entendem que sua atividade na escola tem por finalidade colher dados para denunciar suas falhas e insuficiências. Ao contrário, consideramos, junto a Fontana e Pinto (apud PIMENTA e LIMA, 2012) que é preciso que eles reconheçam sua própria presença e papel na escola, num exercício de participação, conquista e negociação de seu lugar. Acreditamos que a experiência aqui narrada traduza o nosso compromisso com a formação crítico-reflexiva do professor, assim como que tenha trazido reflexões importantes, não só as que ocorreram no espaço-tempo das trocas, mas aquelas que continuarão reverberando por um longo tempo, para além do fechamento do estágio e do próprio curso, no momento em que nossos alunos assumirem suas salas de aula e se tornarem responsáveis pela formação de crianças. Por isso, como na feliz expressão cunhada pelo professor José Tancredo Lobo (apud PIMENTA e LIMA, 2012), arriscamos dizer que, em lugar de um estágio supervisionado, realizamos o que se poderia chamar de um estágio “intervisionado”. Isso porque em lugar da visão super, que nos encheria de um poder maior, procuramos ser uma visão entre, colocando-nos, a todo momento, no enredo dos alunos, da prática e da teoria, em confronto permanente com a realidade. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. 29. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004. _________. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1987. GERALDI, J. W. A aula como acontecimento. São Carlos: Pedro & João editores, 2010. LARROSA, J. Pedagogia profana. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. OLIVIER, G. G. F. Lúdico na escola: entre a obrigação e o prazer. In: MARCELINO, N. C. Lúdico, educação e educação física. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2003, p. 15-24. PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e Docência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012. SANT’ANNA, Ilza Martins; MENEGOLLA, Maximiliano. Por que planejar? Como planejar? 7. ed. São Paulo: Vozes, 1999. 12 0404