CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ARTE E DA VONTADE NO PENSAMENTO DE NIETZSCHE Bruna Dutra Fernandes (Bolsista do Grupo PET-Filosofia UFSJ) Profa. Dra. Glória Maria Ferreira Ribeiro (Orientadora - Tutora do Grupo PET Filosofia) Agência financiadora: MEC/SESu Resumo: Esse artigo tem por objetivo compreender as relações entre arte e vontade no pensamento do filósofo Friedrich W. Nietzsche. Sendo a vontade entendida por Nietzsche como impulso de liberdade e sinônimo de vida; um conjunto de afetos de comandos, pensamentos e sentimentos responsáveis pelas ações dos indivíduos, capaz de produzir arte. Vontade simboliza a força capaz de se apropriar dos fenômenos e lhes conferir sentido. Palavras-chave: Arte, Vontade, Vida. O objetivo principal desse trabalho é evidenciar as relações entre arte e vontade visando compreender, numa última instância, as principais características da arte. Para cumprir este objetivo utilizaremos como obra base A Gaia Ciência, escrita em 1882 e ampliada substancialmente alguns anos depois, com a acréscimo do quinto capítulo, pelo filósofo alemão Friederich W. Nietzsche (1844-1900). Esta obra faz parte do que convencionalmente é denominado de seu “período positivista”, surgido com a obra Humano, demasiado humano (1878) - trazendo percepções e questões que caracterizam o chamado “perspectivismo” de Nietzsche. Na obra A Gaia Ciência o filósofo utiliza aforismos, versos humorísticos, textos argumentativos, diálogos, parábolas, alegorias e poemas em prosa, para descrever questões importantes e freqüentes em suas obras - tais como arte, moral, história, conhecimento, ilusão e verdade. Essa obra visa livrar-se da moral judaico-cristã, uma moral em que a vontade se volta contra si; na qual há uma negação da própria vontade. Esta moral emerge a partir do fenômeno de interiorização da vida se caracterizando por uma busca incessante de sentido (um sentido metafísico, espiritual, em que tudo é determinado). Esse tipo de moral é considerada por Nietzsche como um tipo de degeneração da vida. Como contraposição a esse tipo de postura face ao fenômeno vital, ele (Nietszche) irá se dedicar a evidenciar a vida no seu sentido mais autêntico. Para se compreender a noção de vida em Nietzsche é de extrema importância compreender as questões da arte e da vontade. Uma vez que a arte é tida como algo “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008. FERNANDES, Bruna Dutra -2- que acrescenta e completa a existência, o que possibilita ao homem “forças” para prosseguir e persistir vivendo. Por seu lado, a vontade se mostra como um afeto elementar: “como um afeto de comando, um querer interno, um comando de criar, de introduzir interpretações sempre novas, sempre transformadoras e formadoras dos existentes”. Mas o que leva essa vontade a criar a arte? Ora, considerando que vontade para Nietzsche pode ser entendida como impulso de liberdade e sinônimo de vida, um conjunto de afetos de comandos, pensamentos e sentimentos responsáveis pelas ações dos indivíduos; ela (vontade) acaba por simbolizar a força que se apropria dos fenômenos e lhes confere sentido. Poderíamos a princípio dizer que: a vontade se manifesta como forma criadora da arte, através da qual a “existência ainda nos é suportável”. Nietzsche oferece três teses em relação a vontade: 1- para que surja a vontade é necessário antes uma idéia de prazer e desprazer; 2- o fato de um estímulo ser sentido como prazer ou desprazer está ligado ao intelecto interpretante que, em geral, trabalha nisso de modo inconsciente, sendo que o mesmo estímulo pode ser interpretado como prazer ou desprazer; 3- apenas nos seres inteligentes há prazer, desprazer e vontade, a imensa maioria dos organismos não tem nada disso. Porém, para esse pensador prazer e desprazer não são coisas distintas. Ele entende o prazer, ou o mínimo de desprazer possível, como ausência de dor, e diz que na dor há tanta sabedoria como no prazer – porque como este (prazer) a dor se situa entre as forças de primeira ordem na conservação da espécie. Por seu lado, a vontade é tida como símbolo da soberania e da força, com isso Nietzsche distingue homens superiores dos inferiores. Sendo os superiores os homens com poder de criação, “ele é o verdadeiro e incessante autor da vida” (NIETZSCHE, 2001,pág.204). Este, porém, pode cair numa ilusão quando acredita ser apenas mais um indivíduo que assiste ao espetáculo da vida. Ele designa sua natureza de contemplativa, e cai na ilusão justamente quando não percebe que é o responsável, que é aquele que não cessa de criar sua própria vida. Nietzsche também compara tais homens com aqueles que possuem característica superior, ou seja, aos poetas, pois “lhe pertence como o poeta o poder de contemplação e o olhar retrospectivo sobre a obra, mas também e sobretudo o poder criador”. (NIETZSCHE, 200, pág.204). “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ARTE E DA VONTADE NO PENSAMENTO DE NIETZSCHE -3- Os superiores sofrem de abundância de vida, buscam uma arte dionisíaca, ou seja, uma arte que representa a realidade, em que mesmo diante da visão do terrível, da destruição, e decomposição da vida, esta arte “permite” ver o feio, o mau, porque nela existe um excedente de forças, capaz de transformar essa realidade. Contrariamente, o homem inferior, o pobre de vida busca uma arte da aparência, da bondade, ele não possui esse excedente de força que permite encarar a vida como de fato ela é. Este busca o que tranqüiliza, busca a ilusão como forma de suportar a vida. Os homens inferiores são aqueles que buscam quietudes, redenções, seguranças. Esses dois tipos de homens agem de formas ditintas. Para Nietzsche, o homem inferir é aquele cuja ação tende para uma determinada direção, visando um objetivo particular – é uma ação previamente determinada uma finalidade. Por sua vez, o homem superior age de acordo com a vontade (de acordo com o lado mais autêntico da vida). Esse tipo de ação possui energias contidas que se auto-afirmam sem necessidade de uma finalidade que as oriente – a única orientação possivel é aquela oriunda da própria dinâmica vital. Sendo assim, o homem superior possui como objetivo do seu agir apenas uma força que orienta e não a força que move. Ora, se mantivermos em mente que, a ação que se encontra de acordo com a vontade é aquela própria dos poetas, nos será dado afirmar que a falta e a abundancia são fenômenos criadores da arte. Isto porque toda criação implica na “destruição” de um sentido que já se encontra previamente estabelecido para que um outro possa se afirmar. Essa “destruição” acaba por evidenciar uma “falta” que deverá ser preenchida por um novo sentido. Assim, toda ação genuína, toda ação poética implica na afirmação dessa falta (daquilo que sempre deverá ser preenchido ou melhor dito, afirmado) e na comemoração da abundância que se deixa entrever a cada falta preenchida. A arte é para Nietzsche uma expressão e interpretação da vida. Ela é um tipo de instrumento que ajuda o homem a compreender sua existência, ela consegue levar o homem a raciocinar sobre sua vida: sobre esse excesso e essa falta que a constitui; evidenciando que a ilusão e o erro fazem parte da existência humana; e que a dor e o prazer são fenômenos inerentes a vida. Com isso ele nos diz que, “como fenômeno estético a existência ainda nos é suportável, e por meio da arte nos são dados olhos, “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008. FERNANDES, Bruna Dutra -4- mãos e, sobretudo, boa consciência, para bem poder fazer de nós mesmos um tal fenômeno”(NIETZSCHE, 2001,pág.132). Nietzsche faz um questionamento a respeito dos meios que possuímos para tornar as coisas atraentes, belas, desejáveis, quando elas não o são. Na obra Nietzsche e a Verdade de Roberto Machado1, “a beleza é tida como uma intensificação das forças da vida que aumenta o prazer de existir”. Sendo assim, no pensamento de Nietzsche os artistas são considerados como aqueles que permanentemente se dedicam a buscar tais meios – é para ele (Nietzsche) ser sábio nessa busca consiste em ser sempre criadores da própria vida. Aos artistas é dada a característica de prover aos homens olhos e ouvidos para ver e ouvir com algum prazer, o próprio real. Apenas eles “nos ensinaram a estimar o herói escondido em todos os seres cotidianos, e também a arte de olhar a si mesmo como herói, à distancia e como que simplificado e transfigurado – a arte de se “pôr em cena” para si mesmo” (NIETZSCHE, 2001, pág.106). Para Nietzsche somente dessa maneira, na tentativa de compreensão de nós mesmos, podemos lidar com minúcias, particularidades em nós, o que possibilita com que vejamos o mais próximo, a mais vulgar não como algo distante, separado de nossa existência. Sem a arte e sem a criação do culto do não-verdadeiro, a ação ou faculdade de perceber a inverdade ( ou seja, a mentira, o erro e a ilusão) como cláusula da existência seria insuportável para nós. Dessa forma “a apologia da arte já significa, como sempre significará para Nietzsche, uma apologia da aparência como necessária não apenas à manutenção, mas à intensificação da vida”2, isto é, a arte atua como “boa vontade da aparência”. Essa boa vontade da aparência pode ser melhor entendida pelo fato de que eventualmente, segundo o autor aqui tratado, precisamos descansar de nós mesmos, necessitamos descobrir um homem notável pelos feitos, pela valentia, e também a futilidade que se manifesta de vez em quando, para assim continuar nos alegrando. Portanto, seria uma regressão cair integralmente na moral. A arte para Nietzsche é “superior” a moral porque ela representa uma manifestação 1 Roberto Machado é professor titular o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 2 Roberto, M. Nietzsche e a Verdade. “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ARTE E DA VONTADE NO PENSAMENTO DE NIETZSCHE -5- mais autêntica da vida. Ela não se constitui numa prática, numa experiência de dominação, pois quando e onde há alguém que domina, consequentemente existe massas, o que faz com que haja uma necessidade de escravidão. E onde há escravidão os indivíduos possuem contra si o instinto de rebanho, isto é, impulso natural de fraqueza. Já a arte é algo que se sabe como “não-verdadeira”, porém ao contrário da moral não tem desejos ou vontade de criar-se como absoluta, como algo determinante. A moral funciona como algo que de certa forma impede, dificulta a entrada, o conhecimento do próprio ser do indivíduo, impedindo o conhecimento das paixões e da desordem que também o constitui. A desordem, o caos, são fatores inerentes ao ser humano. No pensamento nietzschiano, a verdadeira realidade do homem é a dor. O sofrimento, no entanto é o que nos liberta dessa desordem e desse caos impostos pela própria vida. É no sofrimento que essas coisas (caos, desordem) que vulneram muito fácil e que nos atingem intimamente, se mostram como fatores de humanização do homem. É nessa “fragilidade” humana, exposta pelo sofrimento, que entra a arte como uma forma de suportar a realidade. Através dela pode-se ver a crueldade e a condição de ser humano de forma bela e prazerosa. O homem é um ser de vontade, seja ela degenerativa ou afirmativa. Nietzsche compara a vontade com as ondas, o que fica claro na passagem em que diz: (...) com que avidez esta onda se aproxima, como se houvesse algo a atingir! Com que pressa aterradora se insinua pelos mais íntimos cantos das falésias! É como se quisesse chegar antes de alguém; como se ali se ocultasse algo que tem valor, muito valor. – E agora ela recua, um tanto mais devagar, ainda branca de agitação – estará desiludida? Terá encontrado o que buscava? Toma um ar desiludido? – Mas logo vem outra onda, ainda mais ávida e bravia que a primeira, e também sua alma parece cheia de segredos e do apetite de desencavar tesouros. Assim vivem as ondas – assim vivemos nós, 3 seres de vontade! Conclui-se que o homem sente a necessidade, “assim como as ondas” de buscar, de criar o tempo todo. Sendo a arte e a vontade, no seu sentido mais autêntico, modos de afirmação da vida - uma vez que a arte é tida como algo que acrescenta e completa a existência, como o que encanta e impulsiona a prosseguir, e persistir vivendo. Enquanto que a vontade revela-se como uma ação ou efeito de impelir o agir diante da vida, um conjunto de sentimentos de atos de comandar, desígnios e sensibilidades 3 FRIEDRICHE, N. A gaia Ciência “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008. FERNANDES, Bruna Dutra -6- responsáveis por ações de indivíduos. Ou seja, a vontade se revela como algo de primário a vida, como um querer que leva a ação e criações transformadoras. São estas características da vontade que permitem a criação da arte - fenômeno que torna a existência suportável. Referências Bibliográficas: MACHADO, Roberto Cabral de Melo. Nietzsche e a Verdade, São Paulo: Paz e Terra, 1999. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A gaia e ciência. Tradução, notas e prefácio: Paulo César de SOUZA. São Paulo: Companhia das letras, 2001. ____________. Humano, demasiado humano. Tradução, notas e prefácio: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2005. ____________. Genealogia da Moral: Uma Polêmica. Tradução, notas e prefácio: Paulo Cde Souza. São Paulo: Companhia das letras, 1998. . “Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008.