UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS A PROBLEMÁTICA DA DEPENDÊNCIA DO BRASIL EM RELAÇÃO A CHINA: UM ESTUDO DE CASO ROSA FERREIRA DI MIGUELI Florianópolis (SC), Junho de 2013 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS A PROBLEMÁTICA DA DEPENDÊNCIA DO BRASIL EM RELAÇÃO A CHINA: UM ESTUDO DE CASO Monografia submetida ao Departamento de Ciências Econômicas e Relações Internacionais para obtenção de carga horária na disciplina CNM 7280 – Monografia, como requisito obrigatório para a aquisição do grau de Bacharelado em Relações Internacionais. Por: Rosa Ferreira Di Migueli Orientadora: Prof. Helton Ricardo Ouriques Área de pesquisa: Economia Palavras-Chave: 1. Brasil 2. China 3. Indústria 4. Economia 5. Mercado Florianópolis (SC), Junho de 2013 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CURSO DE GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS A banca examinadora resolveu atribuir a nota 9,0 à aluna Rosa Ferreira Di Migueli na disciplina CNM 7280 – Monografia, como requisito obrigatório para a obtenção do grau de Bacharel em Relações Internacionais. Banca Examinadora: Prof. Helton Ricardo Ouriques Profª Patricia Fonseca Ferreira Arenti Prof. Marcelo Arend 3 Dedico este trabalho àqueles que sempre estiveram ao meu lado e que são os grandes mestres da minha vida, meus pais, Ulisses Veras Di Migueli e Wanda Maria Di Migueli. Assim como ao meu noivo, Fernando Duschenes por sempre me dar apoio, 4 AGRADECIMENTOS O desenvolvimento deste Trabalho de Conclusão de Curso e as conclusões finais da presente pesquisa demonstram o resultado de um processo que exigiu esforço e comprometimento pessoal. Tal dedicação não seria possível sem a imprescindível contribuição de algumas pessoas, as quais acompanharam de perto minha incansável jornada. É por este motivo, que escrevo com a mais profunda gratidão estas linhas de agradecimento. À minha mãe, Wanda Maria Piccoli Ferreira Di Migueli, por ser sempre paciente e pelo exemplo de dedicação e determinação. Ao meu querido pai, Ulisses Veras Di Migueli, pelo apoio e igualmente pela paciência e o exemplo que sempre me foi passado assim como pelas palavras de apoio nos momentos de dificuldade. E aos meus irmãos, Maria Ferreira Di Migueli, Joana Ferreira Di Migueli e Sebastião Ferreira Di Migueli por me incentivar e encorajar ao longo de todo o processo. À meu noivo, Fernando Lass Duschenes, pela paciência e apoio durante o período de elaboração da presente pesquisa. Ao Professor Doutor Helton Ricardo Ouriques, pelo seu trabalho de orientação realizado de forma tão paciente e eficiente, pela objetividade e rigor científico, por todas as suas orientações, as quais contribuíram de maneira determinante para o enriquecimento do presente trabalho e pela enorme disponibilidade com que sempre atendeu a todas às minhas dúvidas. À Universidade Federal de Santa Catarina por proporcionar um ambiente acadêmico ideal e um ensino de excelência para todos que ali buscam aprimorar seus conhecimentos. Aos meus professores que contribuíram integralmente para a minha formação profissional e pessoal, para meu desenvolvimento profissional e por sempre me abrirem novos horizontes. Aos meus colegas, por terem acompanhado de perto meu crescimento e proporcionado momentos de alegria. 5 A todos estes, e a todas as demais pessoas, que contribuíram para a elaboração e conclusão deste estudo, o meu profundo e sincero agradecimento, pois sem o vosso apoio certamente o mesmo não teria sido possível. “O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, suposta ou real, da Verdade, mas por seu sincero esforço para chegar à Verdade. Não é a posse da Verdade, mas a busca da Verdade que o leva a estender seus poderes e nela encontrar seu aperfeiçoamento constante. A posse torna a pessoa passiva, indolente e orgulhosa”. “Se Deus tivesse toda a Verdade guardada em sua mão direita, e em sua mão esquerda apenas o caminho seguro e diligente para a Verdade e me oferecesse a escolha, embora com a ressalva de que eu sempre e para sempre iria errar no processo, eu, com toda humildade, escolheria a esquerda.” Christopher Hitchens 6 RESUMO DI MIGUELI, Rosa Ferreira. A Problemática da dependência do Brasil em relação a China . Desafios impostos a indústria nacional frente a concorrência internacional: Uma Estudo Acerca Da Indústria na empresa Intelbras SA. Florianópolis, 2013. Monografia – Curso de Relações Internacionais, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio Econômico. A ascensão recente da China à condição de potência econômica em nível global e sua crescente presença no mercado mundial tem sido motivo de grande atenção nos debates acadêmicos assim como em debates internacionais. A acentuada expansão do numero de exportações de manufaturas do país levantam preocupações no sentido de a concorrência crescente vinda da China acarretarem consequências a mercados de países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Nesse sentido, este estudo busca, através de pesquisa realizada com embasamento em estudo de caso verificar as consequências que o aumento do comércio entre Brasil e China acarreta para a indústria Brasileira. A ênfase recai sobre pontos positivos a indústria brasileira advindos do crescente desenvolvimento do comércio entre os países, sobretudo no que diz respeito ao acesso à componentes vindos da China que alimentam as linhas de produções brasileiras. Palavras-Chave: Ascensão Chinesa, Indústria Brasileira, Comércio Bilateral, Comércio Exterior. 7 ABSTRACT The recent rise of China's economic power on a global level and its growing presence on the world market has been the subject of great attention in academic debates as well as in international debates. The marked expansion in the number of manufactured exports of the country raise concerns towards the growing competition from China would entail consequences for markets in developing countries, such as Brazil. Accordingly, this study seeks, through grounding in research with case study to verify the effects that the increase of trade between Brazil and China lead to Brazilian industry. The emphasis is on the Brazilian industry positives arising from the increasing development of trade between countries, especially with regard to access to components from China which supply lines Brazilian productions. Key-Words: Chinese Rise, Brazilian Industry, Bilateral Trade, Foreign Trade. 8 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Salário Médio Anual na Indústria ................................................................................ 29 Figura 2 - Exportações Brasileiras para o mundo e para a China (US$ bilhões) ......................... 36 Figura 3 - Pauta Exportadorado Brasil com a China por intensidade tecnológica do produto ... 37 Figura 4 - Pauta Importadora com a China por intensidade tecnológica do produto ................ 38 Figura 5 - Telefonia Fixa - Linhas em serviço ............................................................................... 45 Figura 6 - Estrutura da Empresa no mercado ............................................................................. 47 Figura 7- Presença Internacional da Empresa ............................................................................. 48 Figura 8 - Variação do Dólar 2012 - Real X Orçado ..................................................................... 50 9 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Evolução Exportações, Importações e correntes de comércio da China ................... 30 Tabela 2 - Participação do Brasil e da China no Mercado Mundial............................................. 35 Tabela 3 - Comparação preços Importados X Nacionais ............................................................. 51 10 SUMARIO 1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 12 1.1 Tema e Problematização ....................................................................................... 12 1.2 Objetivos............................................................................................................... 16 1.3 Justificativa ........................................................................................................... 17 1.4 Metodologia e Estrutura do Trabalho ................................................................... 19 2. A PROBLEMÁTICA DA DEPENDENCIA DO BRASIL EM RELAÇÃO À CHINA. DESAFIOS IMPOSTOS A INDÚSTRIA NACIONAL ................................. 21 2.1 As cadeias mercantis e a economia mundo .......................................................... 21 2.2 Expansão Chinesa no Período Recente ................................................................ 23 3. Relações Comerciais entre Brasil e China .............................................................. 32 3.1 Breve histórico...................................................................................................... 32 3.2 Indicadores Econômicos ....................................................................................... 34 4. ESTUDO DE CASO ............................................................................................... 42 4.1 Desafios impostos à indústria nacional frente à concorrência internacional: Um estudo de caso na empresa Intelbras. .......................................................................... 42 4.2 Breve histórico Mercado de Telefonia no Brasil. ................................................. 42 4.3 A Empresa Intelbras ............................................................................................. 46 4.4 Mercado ................................................................................................................ 47 4.5 Produto Estudado.................................................................................................. 49 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 57 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 61 11 1. INTRODUÇÃO 1.1 Tema e Problematização A recente ascensão da China e seu acelerado crescimento têm despertado curiosidades a respeito das mudanças ocorridas na Ordem Internacional, assim como as possíveis consequências que essa nova situação pode acarretar. A China ascendeu e se consolidou como segunda maior potencia econômica global e com isso introduziu interrogações sobre a natureza das relações internacionais, sobretudo no pós-guerra Fria. A forma e a rapidez com que o país se desenvolveu nas ultimas décadas fez surgir à crença de que uma nova Ordem internacional pode estar surgindo. “O modelo unipolar de poder instalado no mundo após do fim da Guerra Fria começa a dar sinais de esgotamento. A hegemonia segundo a qual um Estado dominante conduz o sistema de Estados numa direção desejada tende hoje a ser posta em dúvida ou pelo menos dá sinais de um início de acaso” (PRETO, 2011:13). A China ficou conhecida como “A fábrica do mundo” e nos últimos anos tem inundado o mundo com uma quantidade incrível de produtos com alta tecnologia e valor agregado. O aumento das trocas globais desse país esta acarretando efeitos transformadores sobre a economia mundial e as consequências desse efeito sobre o Brasil são de extrema importância para a presente pesquisa. A partir de 2004, mais precisamente 2007, com o acentuado aumento das exportações de manufaturados e eletrônicos de países asiáticos, sobretudo da China, a economia brasileira tem se defrontado com desafios frente à concorrência e os efeitos dessa entrada em massa de produtos no mercado tem desencadeado efeitos bastante transformadores. “Desequilíbrios e perdas importantes em vários setores industriais clamam por uma definição sobre o futuro e as escolhas possíveis de diversidade industrial” (MATTOS, 2011:9). Se por um lado a entrada de produtos chineses dificulta e até mesmo inviabiliza determinados setores da economia brasileira, por outro, eles serão determinantes para a sobrevivência frente à pesada concorrência internacional para alguns seguimentos industriais. Para determinados segmentos, os insumos vindos da China possibilitam a produção de produtos de alta qualidade no Brasil, com preços competitivos e tecnologia 12 nacional, o que impulsiona a economia, gera empregos, e contribuem para a consolidação de produtos produzidos no país no mercado internacional. As relações comerciais entre Brasil e China tem apresentado crescimento bastante acentuado nas últimas décadas. A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e seu crescimento gigantesco, assim como a recente expansão brasileira aproximam os dois países. É perceptível o considerável aumento das trocas comercais entre ambos. O Brasil exporta em quantidades crescentes commodities com pouco valor agregado ou de valor agregado insuficiente. Por outro lado, importa cada vez mais bens manufaturados da China com alto valor agregado. Essa situação preocupa no sentido de estar estabelecendo uma tendência em direção a “desindustrialização do país”. Uma das principais dificuldades que o empresariado brasileiro encontra para seu desenvolvimento é o conhecido1 “custo Brasil”, amplamente reconhecidos nos setores especializados. Os problemas no Brasil são muitos. Como mostram a tabela 1 e a figura 1, a logística deficitária do país e o sistema fiscal com uma carga tributária extremamente pesada são grandes entraves que as indústrias nacionais encontram. Tabela 1 - Comparação da infraestrutura brasileira e outros países Fonte: DECOMTEC/FIESP (2013) 1 Custo Brasil é um termo genérico utilizado para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, que encarecem o investimento no Brasil, dificultando o desenvolvimento nacional, comprometendo a competitividade e a eficiência da indústria Brasileira fazendo com que nossos produtos se tornem mais caros que os produtos importados de outros países. Isso reduz a competitividade externa das indústrias nacionais, contribui para o aumento do desemprego, trabalho informal, sonegação de impostos e evasão de divisas. 13 Figura 1 - Gráfico comparativo entre a taxa tributária brasileira e outros países Fonte: DECOMTEC/FIESP (2013) O custo de produção no Brasil torna-se muito alto com tantos detalhes, o que dificulta muito o aumento das exportações brasileiras de produtos manufaturados. A figura 2 mostra como este custo é elevado. Figura 2 - Gráfico comparativo entre preços de produtos manufaturados no Brasil e importados dos EUA Fonte: FIRJAN (2013) 14 A figura acima mostra que o produto brasileiro é em média 15% mais caro que o importado dos EUA. Segundo estudo realizado pela FIESP (2013), um bem manufaturado nacional é, em média, 34,2% mais caro que similar importado dos principais parceiros comerciais, e 34,7% em relação à China, já contando com as alíquotas de importação vigentes, unicamente em função do Custo Brasil, isto é, deficiências no ambiente de negócios do país, e devido à valorização do real em relação ao dólar. Apesar de as indústrias no Brasil terem de encarar dificuldades com relação aos seus custos de produção, existe uma percepção diferente em relação a esse problema, que é encarado, de maneira geral, como ponto chave à dificuldade de desenvolvimento. No país, os investimentos em P&D e desenvolvimento tecnológico são ainda muito pequenos. O investimento brasileiro em P&D atinge apenas 1% do Produto Interno Bruto do país, e essa realidade esta também estreitamente ligada às dificuldades de desenvolvimento que a indústria encara. Processos inovadores, expressos em novos produtos, processos e patentes, têm relação direta com o desenvolvimento econômico, a geração de emprego e renda, e o aumento da competitividade. Segundo Furtado (2010: 3) as empresas inovadoras têm 16% mais chances de se tornarem exportadoras. Outro ponto que merece atenção em relação aos processos e investimentos em inovações para a indústria nacional, é que, no Brasil, o governo é responsável por 63% do investimento total em pesquisa Desenvolvimento e Tecnologia, enquanto as empresas privadas investem somente 37%, justamente o oposto do que ocorre em países com grande índice de inovações. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem cerca de 800 mil cientistas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento, sendo que deste total 81% estão nas empresas, 4% no governo, e 15% em instituições de ensino superior. No Brasil, segundo dados da Pesquisa Industrial – Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, apenas 4% das indústrias com mais de dez funcionários lançaram produtos novos de 1998 a 2000. O Brasil carece de um sistema de inovações eficiente, assim como registra baixa taxa de transformação de pesquisa e desenvolvimento em aplicações comerciais. O país avança pouco em desenvolvimento tecnológico, o que acaba atrasando de certa forma seu desenvolvimento. A adoção de novas tecnologias e inovações aumenta a eficiência e produtividade e contribui para a conquista de novos mercados. Os investimentos, tanto públicos como privados, precisam ser elevados, para que o país possa se inserir no mercado mundial de forma mais competitiva. 15 É notório, a partir da ilustração exposta anteriormente, que os problemas e a preocupação referentes à recente expansão da China e as consequências da mesma sobre o mercado brasileiro tem sido amplamente discutido e estudado. Nesse sentido, é de interesse fundamental desta pesquisa demonstrar, através de análise e estudo de caso, a importância das importações de insumos vindos da China e a contribuição das mesmas para a Indústria Brasileira, uma vez que para muitos casos, somente através dessas importações a produção nacional torna-se vantajosa, viável e sustentável, além de proporcionar acesso a novas tecnologias Pretende-se aqui incentivar novos debates e reflexões, uma vez que, através de dados comparativos, pretende-se entender de maneira mais detalhada a atual conjuntura das relações comerciais entre Brasil e China e verificar o impacto das mesmas para a Indústria nacional e de que forma o intercâmbio crescente entre os países contribui para a competitividade e desenvolvimento de determinados setores no Brasil. 1.2 Objetivos 1.2.1 Objetivo Geral Compreender com maior clareza, os pontos centrais acerca dos impactos para a indústria brasileira da recente ascensão da China como segunda potencia econômica mundial e do crescente aumento da entrada de produtos deste país no Brasil e as consequências para a indústria nacional. 1.2.2 Objetivos Específicos i. Ressaltar a importância do intercambio comercial entre Brasil e China e apresentar argumentos favoráveis para a indústria Brasileira vindas das importações de insumos e tecnologias do país asiático. ii. Avaliar os impactos das importações para a indústria brasileira através de estudo de caso realizado em empresa Brasileira da área de telecomunicações, visando conhecer mais detalhadamente os benefícios advindos das importações chinesas. 16 1.3 Justificativa A atual posição da China como o centro mais dinâmico da economia mundial acentua a importância das relações com o país para o Brasil. Em 2009 a China ascendeu à condição de primeiro parceiro comercial brasileiro e principal fonte de investimentos estrangeiros do país. Cabe ressaltar que, apesar de as relações comerciais entre Brasil e China terem obtido crescimento considerável nas ultimas décadas, muito tem se discutido a respeito dessas relações no Brasil. Os críticos chamam a atenção para os possíveis sinais de desindustrialização, por conta da excessiva concentração da pauta de exportações brasileira em commodities. Por outro lado, em sentido oposto, outros apontam os benefícios de um maior estreitamento das relações com o país que mais cresce atualmente, não somente para promover ganhos de comercio, mas também para estimular a recepção de investimentos e a absorção de alta tecnologia. Assim, a problemática que envolve a dependência do Brasil em relação ao mercado Chinês vem sendo amplamente discutido. Não somente em relação às exportações de commodities, que têm grande representatividade na balança comercial brasileira, mas também em relação às importações, sobretudo de componentes baratos para suprir as linhas de produção brasileiras. Sabe-se que os componentes importados da Ásia contribuem ou, em alguns casos, são até mesmo fatores determinantes para a sobrevivência de indústrias brasileiras, devido a seus preços extremamente competitivos. “Determinantes” no sentido de que a indústria brasileira enfrenta muitas dificuldades, especialmente no que se refere ao “custo Brasil”. Nesse sentido, para que a produção no país se torne viável, os insumos com preços extremamente baixos contribuem para que os produtos produzidos no Brasil alcancem preços de produção competitivos, frente à massa de produtos importados que entram no mercado. A relação bilateral Brasil-China tem sido vista por alguns economistas, como uma parceria do tipo Norte-Sul (rico-pobre) entre duas economias em crescimento. A China ficou conhecida durante muitos anos por seus produtos de baixo valor agregado que eram comercializados pelo mundo afora. Os produtos, inclusive, eram vistos como produtos sem qualidade ou durabilidade. Essa visão mudou, e hoje a China vende para o mundo inteiro produtos com alta tecnologia agregada. 17 O país conseguiu, sobretudo nos anos de 1990, modificar sua pauta de exportações aumentando a venda de produtos manufaturados, modificando com isso o perfil das exportações do país, anteriormente calcado em produtos de baixo valor agregado. Nesse período presenciou-se uma mudança no perfil das exportações industriais antes concentradas em produtos de baixo valor agregado – como têxtil e confecções - , para uma gama cada vez mais diversificada de bens de consumo e de capital, que, de 20% em 1990, passaram a representar mais de 50% das exportações industriais Chinesas (YIN, 2006:35) O Brasil, em sentido contrario, concentra suas exportações em produtos intensivos em recursos naturais e pouco representa nas exportações mundiais de manufaturados. De acordo com estudos divulgados pelo Banco Central, o mercado Chinês absorveu 15,2% das vendas externas brasileiras em 2010, ante 2% em 2000, mostrando com isso que a relação Brasil-China tem apresentado crescimento bastante representativo. Em 2009 o principal parceiro comercial do Brasil passou a ser a China, destronando o então Estados Unidos. Diante do crescimento acentuado da China, o Brasil vem mostrando que depende em parte de sua relação com este país, sobretudo no que se refere as suas exportações. Uma possível desaceleração do crescimento chinês, por exemplo, afetaria a balança comercial Brasileira de forma significativa. Não somente as exportações interferem no mercado Brasileiro, mas também as importações asiáticas têm grande importância para o andamento da economia. Diversas indústrias nacionais, como é o caso da indústria analisada, dependem de componentes vindos da China para se tornarem competitivas frente à concorrência internacional. Alguns segmentos não sobreviveriam sem as importações Chinesas, pois não atingiriam preços atraentes para competir com os produtos importados que entram no mercado brasileiro. As indústrias no Brasil precisam lidar com diversos obstáculos para tornarem-se competitivas. O alto custo de produção torna a concorrência ainda mais acirrada e desafiadora, e os componentes de baixíssimo custo vindos da Ásia, sobretudo da China, contribuem para a sobrevivência e competitividade das indústrias no país. Desse modo, torna-se relevante investigar em que consiste a dependência que alguns setores industriais brasileiros têm em relação a componentes vindos da China para manterem sua produção interessante a sustentável. Esse será o foco da presente análise. Através de pesquisa realizada em uma empresa de capital 100% nacional 18 consolidada do ramo de telecomunicações no Brasil, a Intelbras, a presente pesquisa pretende mostrar a importância do intercambio comercial entre Brasil e China e os principais desafios que essa relação impõe a determinados setores neste país. O ponto chave da pesquisa será demonstrar os benefícios que as importações de componentes vindos da Ásia trazem para a sustentabilidade da indústria no Brasil. 1.4 Metodologia e Estrutura do Trabalho Esse capítulo tem como objetivo apresentar a metodologia de pesquisa utilizada e qual o tipo de pesquisa foi adotada. Antes de definir o tipo de pesquisa, no entanto, convém esclarecer o que vem a ser uma pesquisa. “[...] a pesquisa tem um caráter pragmático, e um processo formal e sistemático de desenvolvimento do método cientifico. O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de procedimentos científicos”. (GIL, 1999: 42) A metodologia de uma pesquisa, tem o objetivo de explicitar os procedimentos empreendidos durante a execução da pesquisa realizada. 1.4.1 Caracterização da pesquisa Para alcançar os objetivos propostos por este trabalho, foi importante a utilização de uma metodologia adequada, compreendendo métodos, técnicas e instrumentos utilizados nas etapas de desenvolvimento da pesquisa. Foram utilizados documentos honorários de Estado e organismos internacionais que estão disponíveis em suas respectivas paginas oficiais da web. Ademais, o presente trabalho procurou incluir entre suas bases de dados reportagens, artigos, teses e livros que trouxessem a problemática da recente ascensão Chinesa e suas consequências para o mercado brasileiro. A presente pesquisa é classificada como exploratória, pois segundo Gil (1999: 44), ela visa proporcionar maior familiaridade com o problema, buscando explicitá-lo e construindo hipóteses através de procedimentos bibliográficos. “O método quantitativo é utilizado, sobretudo, para o estudo de dados oriundos de um grande número de respondentes, com o uso de escalas numéricas, submetidas a análises estatísticas formais.“ (MATTAR, 2005: 36). 19 Já “a pesquisa qualitativa considera que existe uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, ou seja, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser apresentado em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são os fundamentos do estudo qualitativo. Não utiliza métodos e técnicas estatísticas, tem como ambiente natural a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave” (SILVA, 2001:56). Um estudo de caso se caracteriza como um tipo de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa profundamente. Visa ao exame detalhado de um ambiente, de um simples sujeito, ou de uma situação em particular. (GIL, 2002: 25) Para desenvolver a presente pesquisa, a mesma foi dividida em duas seções. A primeira apresenta uma análise das principais características a respeito do intercâmbio de mercadorias entre Brasil e China, assim como um breve histórico da evolução das relações entre estes países. A segunda seção, por seu turno, concentra-se no estudo de caso realizado em empresa brasileira do ramos de telecomunicações, que utilizou-se de coleta de dados. Também foi realizada pesquisa documental, por meio de consultas a relatórios, tabelas, gráficos e outros. Foi realizada também, entrevista informal com o objetivo de entender com maior riqueza de detalhes, as mudanças ocorridas na empresa após o processo de mudança em seu fornecimento. A pessoa escolhida para ser entrevistada foi por compreender o assunto abordado. Importante ressaltar que não foram elaborados questionários estruturados, apenas conversas informais com o intuito de enriquecer a presente pesquisa. 20 2. A PROBLEMÁTICA DA DEPENDENCIA DO BRASIL EM RELAÇÃO À CHINA. DESAFIOS IMPOSTOS A INDÚSTRIA NACIONAL Para entender de maneira mais detalhada a problemática proposta pela presente pesquisa, é importante descrever alguns conceitos e conhecer mais detalhadamente a relação entre os dois países. Para tanto será exposto a seguir uma breve explicação a respeito das cadeias mercantis seguido de breve histórico acerca das relações, sobretudo comerciais, entre Brasil e China e a ascensão do país asiático nas últimas décadas. 2.1 As cadeias mercantis e a economia mundo Para compreender o sistema produtivo como um todo, e o impacto da produção em larga escala de produtos chineses para a indústria brasileira e a inserção da mesma no mercado mundial, é necessária a compreensão de dois conceitos fundamentais para a análise: “economia-mundo” e “cadeia-mercantil”. Para a compreensão do funcionamento de uma cadeia mercantil, coloca-se a necessidade de compreender primeiramente o sistema de uma economia-mundo. Para tanto, nada melhor do que a explicação de seu próprio criador, Immanuel Wallerstein, que identifica uma economia-mundo da seguinte forma: “No final do século XV e começo do XVI, nasceu o que poderíamos chamar de uma economia-mundo europeia” (1999:22). Trata-se de uma única entidade econômica, que em seu espaço convive com diferentes formas de entidades políticas (império, cidades-estados, nações-estado), sendo maior que qualquer uma delas, e por isso constitui-se num “sistema mundial”. “E é uma <<economia-mundo>> devido a que o vínculo básico entre as partes do sistema é econômico, ainda que em certa medida seja reforçado por vínculos culturais e eventualmente, como veremos, por arranjos políticos, incluindo estruturas confederativas” (WALLERSTEIN, 1999:21 apud Vieira, 2010) Em outras palavras as economias-mundo representam um “fragmento do universo, um pedaço do planeta economicamente autônomo” (BRAUDEL, 1998: 35). Para Braudel as economias-mundo têm algumas características próprias. A primeira delas é quanto ao espaço que ocupam, pois sem um espaço não há economia-mundo. Esse espaço, em geral, é sempre bem delimitado, seus limites são facilmente detectáveis. Um segundo ponto é que uma economia-mundo necessariamente implica um centro. Além do centro, é necessário também que haja um sistema capitalista 21 dominante, pois o veículo para a economia se espalhar é o capitalismo. E o capitalismo não existe sem que haja desigualdade, então enquanto as economias-mundo forem baseadas no sistema do capitalismo, sempre existirá a diferença de classes, sempre existirão centros, semiperiferias e periferias. Com isso, fica clara também a presença da hierarquia nas economias-mundo. A concretização e a extensão de uma economia-mundo é medida pela variedade de suas redes de produção e trocas, que segundo Wallerstein e Hopkins (2000) são as “cadeias mercantis”. A ideia de Cadeias Mercantis como Wallerstein & Hopkins (2000) denominam, são processos produtivos interligados que têm cruzado múltiplas fronteiras nacionais e que sempre apresentam dentro deles diferentes formas de controle do trabalho. Dessa forma, uma cadeia mercantil se refere a uma rede de trabalhos e processos produtivos cujo resultado final é uma mercadoria. Dito isso, pode-se chegar a conclusão de que em uma cadeia mercantil há uma divisão do trabalho complexa, assim como uma interdependência transnacional das atividades produtivas. Em outras palavras, uma cadeia mercantil é composta por todas as fases necessárias à produção e comercialização de uma mercadoria, desde os insumos necessários a sua produção, até o consumo final. Vê-se, dessa forma, que para entendermos o dinamismo do moderno sistema mundo, se faz necessário compreender a dinâmica das cadeias mercantis, pois as mesmas encontram-se em diversos processos. A análise de uma cadeia mercantil permite conhecer quem são os produtores, os distribuidores, os consumidores, e também compreender a forma das relações sociais envolvidas. Além disso, a noção de cadeia mercantil é um instrumento de análise que permite compreender a forma de inserção de regiões e países nas redes de comércio internacional, que vai de encontro ao ponto da proposta de pesquisa. A ascensão recente da China e a forma como o sucesso desse país vem incomodando outros países, que até então, pareciam deter o “poder” da economiamundo, mostra que talvez haja uma nova hierarquia mundial de poder e riqueza, ou pelo menos demonstra que a hierarquia mantida por tanto tempo com os Estados Unidos como país mais influente do sistema-mundo pode estar em processo de mudança. Em 2005 a China ultrapassou os Estados Unidos na produção manufatureira, chegando a 13,1% da produção global. O PIB chinês teve um crescimento médio do Produto Interno Bruto de 10% entre 1980 e 2010. Os dados de crescimento e influencia que a China vem conquistando em relação à economia de outros países demonstra que o mundo começa a 22 depender cada vez mais do dinamismo chinês e que devido a tais mudanças é possível verificar uma nova dinâmica no sistema-mundo. Nas palavras de Arrighi: “As consequências da ascensão da China são grandiosas. A China não é vassala dos Estados Unidos, como o Japão ou Taiwan, nem é uma reles cidadeEstado como Hong Kong e Cingapura. Embora seu poderia militar empalideça quando comparado ao dos Estados Unidos e o crescimento de suas indústria ainda dependa das exportações para o mercado norte-americano, a riqueza e o poder dos Estados Unidos dependem igualmente, ou ainda mais, da importação de mercadorias chinesas baratas e da comprar, por parte da China, de títulos do Tesouro norte-americano. O mais importante é que, cada vez mais, a China vem substituindo os Estados Unidos como principal motor da expansão comercial e econômico na Ásia oriental e em outras partes do mundo (ARRIGHI,2008: 23).” Diversos autores consideram a China como sendo a “fábrica do mundo”. “A China é, no momento, umas das economias com crescimento mais acelerado no mundo, caracterizando-se por uma ampla diversificação econômica e por exportações que inundam todos os países” (GEREFFI, 2006:224). A China tem avançado como opção de fornecimento em praticamente todas as cadeias globais, sobretudo as cadeias de valor intensivas em trabalho. Diferente da ideia que se tinha a respeito dos produtos chineses em um passado recente, hoje a China vende produtos intensivos em tecnologia praticamente para o mundo inteiro. “ Sua atratividade não se restringe aos fabricantes de mercadorias de baixo preço; ela fornece para todos os produtores de marcas líderes que se voltam tanto para o mercado dos Estados Unidos, como para mercados globais” (GEREFFI, 2006:225). 2.2 Expansão Chinesa no Período Recente Nos últimos anos, o interesse a respeito da China, sua trajetória de internacionalização, seus indicadores de desenvolvimento, tem sido objeto de discussão e debate ao redor do mundo. Arrighi (2008) discorre a respeito do acelerado desenvolvimento Chinês. Certamente a ascensão desse país representa grande mudança para a ordem mundial. Nas palavras de Afonso Ouro Preto: “O crescimento da China nãoconstitui um simples fenômeno econômico mas repercute evidentemente no plano político. Vemos surgir uma nova grande potência, talvez ainda não uma superpotência, na medida em que, a superioridade norte-americana em matéria militar 23 se mantém. A China já projeta, todavia, a sua presença na Ásia central e em regiões da África.” (PRETO, 2011:21) Fala-se inclusive a respeito de uma nova ordem internacional. Em seu livro, Arrigui demonstra a forma como o mundo voltou sua atenção para a China: “Quem entender esse poderoso império, terá a chave da política do mundo pelos próximos quinhentos anos” (ARRIGHI, 2008:285). Existem formas diversas de interpretar o rápido crescimento Chinês e diferentes autores divergem em relação ao tema. Arrighi (2008), por exemplo, defende a tese de que o crescimento chinês se sustenta em pilares capitalistas, no entanto, ele acredita que esses pilares são essencialmente distintos dos vistos até então. Já para o autor Harvey (2005: 28), o crescimento chinês é sustentado essencialmente por políticas neoliberais. Os indicadores do crescimento chinês são extraordinários. Somente entre os anos de 1980 e 1990 o crescimento da China impressionou atingindo taxa de 9.5% aa, superando a observada nos demais países asiáticos. Entre 1985 e 1995 esta taxa foi ainda mais surpreendente chegando a atingir 10.2%. Atualmente o país emerge como o que mais cresce no mundo desde a década de 80. A China de 1979 era um país bastante diferente do observado nos últimos anos. Predominava o setor agrário, e no que se refere a tecnologia o país era considerado atrasado, com exceção da área bélica. O comércio exterior também era pouco desenvolvido assim como o setor de serviços. A China no séc. XXI é bastante diferente. O comércio exterior tornou-se extremamente dinâmico e o país detém grande avanço em tecnologia. Como citado anteriormente, a China chega a ser classificada por alguns autores como “fábrica do mundo”. Com um vasto território (cerca de 9.597.000 de km²) e uma população de praticamente 1,5 bilhão de pessoas a China lidera a produção de milhares de mercadorias. A ideia que se tinha de que os produtos vindos da China tratavam-se de quinquilharias mudou, e hoje o país produz tecnologias de ponta para o mundo afora. A trajetória do país asiático chama a atenção pelo acelerado crescimento chegando a alcançar países como Estados Unidos e Japão. Segundo dados da UNCTAD (2007), em 1995 a China respondia por apenas 5,4% da produção manufatureira mundial enquanto que Estados Unidos representavam 13,1% e Japão 12,1%. Já no ano de 2005 a representação Chinesa passou para 13,1% da produção global, deixando para 24 trás Estados Unidos com 10% e o Japão com 8,4% da produção Mundial (UNCTAD, 2007). Uma curiosidade a respeito da forma como o país abriu sua economia ao capitalismo foi a participação do Estado. Diferente das economias europeias e estadunidenses, o desenvolvimento chinês foi baseado no mercado, da mesma forma que o desenvolvimento europeu e estadunidense. A diferença foi a forma de inserção dos capitalistas no Estado Chinês. Nesse país os capitalistas não puderam botar o Estado a seu serviço. Na China as empresas estatais representam um papel de maior relevância no processo de desenvolvimento industrial. As empresas multinacionais, no entanto, estão assumindo um papel crescente na economia nos últimos anos. Mesmo que o país seja ainda considerado fechado, em 2004 a participação das multinacionais na produção de bens manufaturados alcançou o nível de 32% e as exportações de filiais estrangeiras como uma parte das exportações totais da China totalizaram 58%, mostrando gradiente positivo. Já as formas do setor privado são grandes em termos agregados, mas pequenas individualmente. As políticas governamentais chinesas procuram criar as bases de uma indústria internacional competitiva através de políticas para a consolidação das cadeias de suprimento, criação de marcas de comércio, suporte para internacionalização de empresas privadas chinesas e proteção do mercado local. Tais políticas desafiam a convencional trajetória esperada de países emergentes. Observa-se, por exemplo, o caso da Embraer, que para poder entrar no mercado chinês precisou realizar uma 2joint venture com uma empresa chinesa e abrir uma fábrica em Harbin. O caso da China é um caso de internacionalização planejada e com pesada participação do Estado. Dessa forma vale ressaltar a dominação das empresas Estatais na Internacionalização do país. Fica claro que o apoio do Estado desempenhou papel fundamental para a promoção do investimento chinês no Exterior. “A abertura ao mundo exterior deu-se em etapas. Inicialmente foram eleitas quatro regiões estratégicas para a introdução de um regime comercial e de atração de investimento direto estrangeiro, as chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEES) “(CUNHA & ACIOLY, 2011:15). O crescimento dos investimentos diretos externos da China é um dos fatores que possibilitaram seu alto grau de crescimento. No entanto, a entrada das Empresas Multinacionais no país faz parte de um processo cuidadosamente assistido pelo Estado, 25 de forma que em um primeiro momento as multinacionais dirigiam-se quase que exclusivamente para as ²ZEEs, onde recebiam diversos incentivos fiscais, terrenos e edificações; normalmente localizavam-se ao lado de fornecedores e de outras indústrias semelhantes, além de centro de pesquisa, incubadores de empresas, laboratórios de ponta, infraestrutura de energia e transporte. Essa forma de agrupamento regional das indústrias, especialmente daquelas mais intensivas em conhecimento, teve papel relevante no desenvolvimento tecnológico chinês e na alteração da pauta de exportações ao longo dos últimos vinte anos. As primeiras ZEEs foram escolhidas a dedo pelas lideranças Chinesas, de modo a atrair os investimentos chineses ou sino-descendentes residentes na região (CUNHA & ACIOLY, 2011:15) No entanto, a capacidade chinesa em atrair investimentos estrangeiros não se esgota nos incentivos e vantagens desfrutados pelas empresas multinacionais nas ZEEs. O capital externo consegue alta rentabilidade na China, pois no país encontra-se mãode-obra abundante e bastante barata ao mesmo tempo em que podem contar com uma taxa de câmbio desvalorizada. A produção dirigida ao mercado externo goza de isenção de impostos de importação para matérias-primas, peças e componentes. Dessa forma, as multinacionais, especialmente as do setor de eletrônicos e comunicações, que representam grande parte das exportações chinesas, podem instalar, no país, as etapas finais de produção, aproveitando as peças e componentes produzidos pelas filiais localizadas nos países vizinhos. O Setor Produtivo Estatal é considerado como a máquina de investimento e crescimento da China. A política econômica Chinesa induziu simultaneamente o desenvolvimento do mercado interno assim como a promoção das exportações, que cresceram números alarmantes nos últimos anos. As ZEEs, espalhadas em zonas costeiras, foram parte do regime de promoção das exportações. As empresas vinculadas às ZEEs possuem liberdade cambial e beneficiam-se de isenção de impostos. Em contrapartida, a liberdade de venda e comércio vai em sentido oposto das empresas que não se encontram vinculadas ao regime das ZEEs, pois as mesmas são submetidas a forte protecionismo tendo seu foco voltado ao desenvolvimento do mercado interno. Dessa forma fica claro dois regimes seguidos pelo país, de proteção ao mercado interno e promoção às exportações. O rápido crescimento e desenvolvimento da China demonstram profundas mudanças em um curto período de tempo. Essas mudanças foram possíveis devido a 26 grandes reformas econômicas e à abertura geral da economia. As mudanças tiveram início em 1979 e possibilitaram avanços surpreendentes. Entre os anos de 1978 e 1991 era o setor secundário que liderava a taxa de crescimento do PIB e do emprego. Um dos principais movimentos ocorridos na China nesse período, sobretudo entre 1980 e 1983, foi a excepcional expansão do setor primário. Também nos anos 80, o número de empregados nas atividades agrícolas sobre o emprego total teve queda bastante significativa em comparação do que o total da força de trabalho rural sobre o emprego total. Em 1994, a primeira relação era de 54,3% e a segunda 72,6% (WORLD BANK, 2009). Esses números demonstram a urbanização do campo com forte expansão do emprego rural agrícola. Na China, em 1978, 17,9% da população eram classificados como urbana, em 1990, a população urbana totalizava 26,4% (WORLD BANK, 2009). O avanço da industrialização Chinesa muito tem haver com a disponibilidade de mão-de-obra egressa do campo. Com o aumento da produtividade agrícola houve forte crescimento do emprego urbano. Entre 1978 e 1991 a população em idade de trabalhar cresceu 2,5%, o emprego total cresceu 2,9%, o emprego agrícola 1,6% e o não agrícola 5,4%. O número de trabalhadores vindos do campo teve crescimento notável com as reformas do campo do final dos anos 70, com as inovações e o crescimento da produtividade houve excedente da força de trabalho rural. Somente em 1982 as áreas urbanas registraram 2 milhões de migrantes das áreas rurais. Em 1993 os migrantes totalizaram 51 milhões, e em 1995, 80 milhões. Os números mostram a grande quantidade de força de trabalho disponível e o quanto esse excedente contribuiu para o desenvolvimento da economia do país. Outro fator que contribuiu para o crescimento do setor de exportações do mercado Chinês foi a política de desvalorização do Yuan. Em 1984 o Yuan foi desvalorizado e estabeleceu-se um mercado dual de câmbio. O câmbio oficial era administrado como uma taxa flutuante, e o 2 “mercado de swaps” com acesso restrito às empresas das ZEEs e tradings. A desvalorização cambial é uma das medidas propostas por Zhou Enlai, primeiro ministro de Mao Tsé Tung e por outros nomes importantes, como Deng Xiaoping, ainda em meados da década de 70. “As quatro modernizações” (agricultura; indústria; tecnologia e forças armadas) foi um projeto que tinha por objetivo tornar a China um mercado mais aberto às 2 O Mercados de Swaps consiste em um acordo para duas partes trocarem o risco de uma posição ativa (credora) ou passiva (devedora), em data futura,conforme critérios pré-estabelecidos. Essas trocas são bastante comuns com posições envolvendo taxas de jurus, moedas e commodities. 27 relações internacionais. A criação das Zonas Econômicas Especiais (ZZEs) faz parte do projeto de modernização. A dependência da China em relação a compradores globais cria uma pressão exercida sobre os salários, pois o país sustenta a imagem criada da sobrevivência do mais barato. O sucesso do país em relação às vendas internacionais esta muito atrelada aos preços bastante discrepantes em relação aos demais países, e nesse sentido existe uma poderosa pressão em relação aos salários dos trabalhadores chineses, pois somente com salários baixos a China consegue manter preços tão absurdamente inferiores. Tal situação cria condições de trabalho péssimas. “Uma firma industrial exportadora típica, no sul da China, paga um salário de quarenta dólares por mês, 40% inferior ao salário mínimo local (GEREFFI, 2006:225). Dessa forma, os trabalhadores acabam enfrentando jornadas de até dezoitos horas por dia, com péssimas condições de trabalho, além de sofrerem pressão em relação a produção, já que em muitos casos os salários estão atrelados ao desempenho do trabalhador. O gráfico a seguir demonstra a comparação dos salários das indústrias chinesas, brasileira, mexicana e colombiana. Como se pode ver é bastante complicado para países como Brasil, México e Colômbia competir frente aos níveis salariais praticados na China. No caso do Brasil em especial, além da pesada carga tributária o empresariado ainda precisa lidar com uma legislação trabalhista bastante complicada. É importante também notar que mesmo em um ano favorável, como foi o caso de 2002, momento de expressiva desvalorização cambial, os salários no Brasil eram o triplo dos salários praticados na China. 28 Figura 3 - Salário Médio Anual na Indústria Fonte: Pesquisas Indústriais Anuais No entanto, a questão da mão-de-obra praticamente “escrava” na China, pode estar com os dias contados. Recentemente o 12° Plano Econômico Quinquenal de Pequim anunciou um aumento anual de 13% do salário mínimo dos trabalhadores até 2015, nas províncias Chinesas. Essa medida pretende garantir a estabilidade social pela diminuição da diferença de renda entre ricos e pobres. Essa medida pode afetar muito indústrias no mundo inteiro. Com o aumento no salário mínimo dos chineses, consequentemente haverá aumento geral nos preços Isto ocorre porque o custo de mão de obra representa grande parte dos custos de produção, e, para manterem as margens de contribuição, as empresas acabam repassando este custo para o cliente final. A China vem atraindo a atenção do mundo com seu extraordinário dinamismo econômico. No último quarto de século a importância do país na Ordem Mundial chama à atenção, sobretudo com relação aos seus indicadores. As altas taxas de crescimento, avanços tecnológicos e capacidade de atrair investimentos externos surpreendem a cada ano. Com o esforço prévio de entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) e com o ingresso efetivo em 2001, o regime de investimento da China foi adaptando-se aos parâmetros usuais das economias de mercado (CUNHA & ACIOLY, 2011:16). De acordo com a Revista Britânica “The Economist”, desde que se juntou à Organização Mundial do Comércio em 2001, a China vem rapidamente se tornando uma força econômica, duplicando sua parcela na oferta mundial de manufaturas, provocando um boom no mercado de commodities e acumulando cerca de um trilhão de dólares em reservas. (ZIEGLER, 2007). A entrada do país para a Organização Mundial 29 do Comércio pode ser visto como um dos elementos para a mudança de inserção Chinesa do comércio internacional. Esse fato demonstra a importância da inserção internacional da China em seu processo de desenvolvimento. Nesse sentido, [...] a China, ao transformar o comércio internacional em ponto central da sua política de crescimento, necessitava da garantia das regras da OMCde que suas exportações não seriam descriminadas. Para os membros da OMC, a entrada da China significava a abertura de um vasto mercado, e a garantia de que um vasto mercado, e a garantia de que as regras existentes poderiam controlar a invasão a invasão dos produtos Chineses (THORSTENSEN, 2010-11:12) As aceleradas transformações ocorridas no início do século XXI no sistema econômico e político internacional estão estreitamente ligadas a ascensão da China. As modificações foram significativas na divisão internacional do trabalho e nas posições relativas de determinados Estados nacionais na hierarquia do sistema mundial. Apesar de os Estados Unidos ainda representarem bastante em termos de hierarquia no sistema internacional, o dinamismo econômico da China nas ultimas décadas têm incomodo esse país e até mesmo levantado suspeitas a respeito do sistema internacional e de possíveis mudanças. A participação da China no PIB global vem mostrando crescimento acelerado nas ultimas décadas. A partir da década de 1990, verificou-se aumento da participação da China no PIB global de 273% (de 1,8% em 1990 para 3,7% em 2000). Já entre 2000 e 2005, período de expansão da economia mundial, a participação chinesa deu um salto, passando de 3,7% para 5% (crescimento de 369%). A China também apresentou elevadas taxas referente a sua participação no comércio mundial. Entre 2000 e 2009 as exportações chinesas tiveram aumentos expressivos. De US$ 249 bilhões em 2000 para US$ 1,202 trilhões em 2009 – elevação de 38,2% em médias anuais (ACIOLY, CINTRA & PINTO, 2010:308). Os dados demonstram as mudanças significativas na participação da China no comércio mundial. O país passou à condição de maior exportador e segundo maior importador mundial. A tabela 1 mostra a rápida mudança de posição Chinesa em tão pouco tempo. Tabela 2 - Evolução Exportações, Importações e correntes de comércio da China Exportações Importações Corrente de Comércio 30 Valor % Valor % Valor % 1980 - 1989 31 1,4 35 1,6 66 1,5 1190 - 1999 129 2,9 114 2,6 243 2,6 2000 249 3,9 225 3,4 474 3,7 2001 266 4,3 244 3,8 510 4,1 2002 326 5,1 295 4,5 621 4,8 2003 438 5,9 413 5,3 851 5,6 2004 593 6,5 561 5,9 1155 6,2 2005 762 7,3 660 6,1 1422 6,7 2006 969 8 792 6,4 1761 7,2 2007 1218 8,8 956 6,7 2174 7,7 2008 1429 8,9 1132 6,9 2560 7,9 2009 1202 9,7 1004 7,9 2206 8,8 20101 990 10,4 886 9 1876 9,7 Fonte: Direção de Estatísticas Comerciais/FMI Elaboração: Elaborado pela autora A elevação das importações e das exportações chinesas, além de representarem uma boa parcela da alteração da participação mundial, também contribuíram para a transformação na corrente de comércio mundial. Entre 2000 e 2009, a corrente de comércio mundial aumentou 4,6 vezes entre a China e o mundo e 1,9 vezes em termos globais (ACIOLY, CINTRA & PINTO, 2011:309). Os números mostram a importância do comércio internacional para a estratégia de crescimento chinês, assim como a responsabilidade do país pela mudança recente dos fluxos comerciais mundiais. Existem diversos pontos que explicam o recente sucesso e dinamismo do mercado chinês. Entre esses elementos podemos destacar como impulsionadores do desenvolvimento a política cambial, que busca manter o Yuan desvalorizado em relação ao dólar tornando os produtos chineses ainda mais atraentes; os baixos salários e ganhos de produtividades da economia, que também contribuem para os preços chineses; e a entrada da China em novembro de 2011 na Organização Mundial do Comércio (OMC). A China conseguiu em pouco tempo (aproximadamente três décadas) mudar de forma significativa sua importância no sistema mundial, surpreendo com a velocidade e a forma com que alcançou tal êxito. 31 3. Relações Comerciais entre Brasil e China 3.1 Breve histórico Brasil e China são países que em um primeiro momento parecem bastante diferentes e passam a impressão de que pouco ou nada têm em comum. No entanto, os dois países na verdade tem bastantes pontos em comum. Nas palavras do autor Eduardo Villella: “Observando o Brasil e a China, ou outras sociedades orientais, parece ser difícil fazer uma comparação entre esses países com o Brasil. Pode-se imaginar que se tratam de países completamente diferentes, possuindo poucas semelhanças entre si. Fatores como distância geográfica e as diferenças histórico culturais são os responsáveis por tal visão. De fato, esses dois fatores são verdadeiros e servem para diferenciar os povos, no entanto, o Brasil e a China são mais parecidos do que diferentes” (VILLELA, 2004). Para a presente pesquisa é importante conhecer com mais detalhes as relações entre o Brasil e a China, sobretudo as comerciais e mais recentes. Como citado acima, os dois países, apesar de culturamente e geograficamente serem bastante distante, apresentam similaridades interessantes e importantes que serão discutidas em seguida. Um dos pontos de semelhança entre os países é a posição dos mesmos entre as principais economias em desenvolvimento do mundo. É evidente que o crescimento caminha em marcha diferente para o Brasil e a China. O crescimento chinês vem tendo enorme destaque e o Brasil é um país que também merece atenção quanto a sua evolução nos últimos anos. No entanto, Brasil e China são gigantes que caminham em velocidades diferentes. O tamanho e extensão de seus territórios é outra característica em comum entre eles. Brasil e china são países que se encontram na lista dos cinco maiores países do mundo. Nas palavras do ex-presidente Chinês Jiang Zemin “A China e o Brasil, apesar de serem geograficamente tão distantes, são unidos estreitamente pelo objetivo idêntico de vitalizar a economia nacional, elevar o nível de vida do povo, e salvaguardar a paz e a estabilidade do mundo”. (VILLELA, 2004). 32 As relações entre Brasil e China são bastante antigas, no entanto, são as relações mais recentes que terão maior atenção, pois as mesmas nos darão uma ideia do tamanho e importância das relações entre os dois países. Um dos primeiros contatos entre Brasil e China em termos de negociações foi ainda no final do século XIX. Naquela época, o governo brasileiro tentou estabelecer negociação com o Governo Chinês para recrutamento de mão-de-obra vinda da China para trabalhar no Brasil e suprir a demanda do país por trabalhadores, sobretudo nas plantações de café. O projeto de imigração chinesa não se concretizou por falta de interesse por parte do Governo Chinês e o Brasil acabou atraindo mão de obra de outros países, sobretudo do continente europeu. Mesmo sem sucesso na tentativa de atrair mão-de-obra, o Brasil assinou tratado com o país asiático. “Inicialmente a opção era por mão-de-obra chinesa, motivando o deslocamento de uma missão brasileira para a China em 1879. Mesmo com a não concretização dessa corrente migratória, pela proibição formal da China em permitir emigração para o Brasil, os dois países assinaram o Tratado de Amizade, comércio e Navegação em 1881, com o Brasil abrindo um consulado em Shangai em 1883” (OLIVEIRA,2002: 118). Entre os anos de 1911 e 1949 as relações Brasil e China foram praticamente somente no âmbito diplomático. Após a criação da Republica Popular da China, pelo líder comunista Mao Ze Dong o Brasil rompe relações diplomáticas com a China Continental, fecha o consulado em Shangai e abre uma embaixada em Taipei. O Brasil na mesma época reconhece a China nacionalista como a legitima representante do povo Chinês. Anos mais tarde, em 1974, o então Presidente Brasileiro Ernesto Geisel retoma as relações com o país asiático lançando as bases para um convívio e estreitamento das relações entre os governos. Desde então essas negociações e comercio tiveram crescimento bastante notável. A balança Comercial entre os dois países mostra o aumento das trocas comerciais ano após ano. O intercambio comercial com a China teve crescimento bastante notável nas ultimas décadas e esse mercado vem se mostrando bastante interessante para o Brasil. Tanto as exportações quanto as importações entre os países têm mostrado bastante 33 desenvolvimento. A China é para o Brasil um mercado que cresce e contribui notavelmente à inserção do país no mercado internacional. De acordo com Oliveria “Em seu projeto atual de inserção internacional, o Brasil delega à região Asiática um espaço especial, considerando-se a grande demanda por investimentos e por acesso a tecnologias de ponta, bem como por um mercado com alta capacidade de consumo” (OLIVEIRA, 2002: 120). A aproximação entre Brasil e China, principalmente pós 1974 vem mostrando ampla área de convergência. A China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil. “Igualmente no ano passado, investiu na economia brasileira US$ 12,7 bilhões” (PRETO, 2011: 25). O surpreendente desenvolvimento chinês, assim como a expansão brasileira das últimas décadas, aproximam os países, que foram incluídos no grupo de países denominado BRICS. Como mencionado anteriormente, as relações sino-brasileiras iniciaram de maneira lenta, no entanto, após o restabelecimento de relações diplomáticas em 1974 as relações adquiriram um grau bastante notável de desenvolvimento. Em 1993 foi estabelecido entre os países o Acordo de Parceria Estratégica. Em 1998 teve inicio o programa de satélite sino-brasileiro, que teve o primeiro satélite lançado em 1999. Outros lançamentos ocorreram nos anos de 2003 e 2007. Outro ponto importante foi a criação do COSBAN – Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Cooperação, em 2004, dividida em várias subcomissões. Os contatos bilaterais tiveram aumento bastante significativo nos últimos anos. “Os investimentos se multiplicam com grandes operações de firmas chinesas que alcançaram cifras elevadas. O Brasil também expandiu os seus investimentos na China com a Embraer, a Embraco, a Vale, a Marcopolo a Weg.” (PRETO, 2011: 26) Quanto à política, os países também convergem em inúmeras áreas. Brasil e China concordam em inúmeras questões internacionais, sobretudo na defesa do conceito de multipolar ismo. Confrontações políticas praticamente inexistem. 3.2 Indicadores Econômicos O PIB atual do Brasil é semelhante ao da Coréia e da Índia, no entanto, o PIB per capita tem diferenças relevantes. O PIB per capita Coreano, por exemplo, é três vezes superior ao do Brasil, que por sua vez, é quatro vezes maior do que o da Índia. O 34 PIB da China é, atualmente, duas vezes o tamanho das três economias e o seu PIB per capita está entre o do Brasil e o da Índia. É importante observar que entre 1990 e 2003 as economias chinesa e indiana cresceram cinco e duas vezes e meio mais do que a economia brasileira, mostrando com isso a diferença relativa no dinamismo dos três participantes do BRIC. O mercado brasileiro, que até 1990 era relativamente fechado e mantinha uma política de proteção à indústria doméstica, não obteve a taxa de crescimento esperada após sua liberalização, e seu mercado interno cresceu mais lentamente do que o resto do mundo. Além disso, o crescimento da indústria manufatureira brasileira foi mais lento do que o da maioria das outras regiões, inclusive do resto da América Latina. A ausência de dinamismo na estrutura das exportações e a forte dependência do mercado doméstico se mantiveram. Como consequência, a participação do Brasil no mercado internacional é ainda limitada, particularmente se comparada com a China. É possível evidenciar esta afirmação observando os dados da tabela a seguir. Tabela 3 - Participação do Brasil e da China no Mercado Mundial Ano 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Brasil Exportações (%) 0,8 0,9 0,9 0,9 1 1 1,1 1 1,1 1,2 1,2 1,3 China Importações (%) 0,9 0,9 0,9 0,7 0,6 0,7 0,7 0,8 0,9 1,1 1,1 1,1 Exportações (%) 3,4 3,9 4,3 5 5,8 6,4 7,3 8 8,7 8,9 9,6 10,4 Importações (%) 2,8 3,3 3,8 4,4 5,2 5,9 6,1 6,4 6,7 6,9 7,9 9,1 Fonte: WTO (2012) Elaboração: Elaborado pela autora Em contraste, a participação da China no mercado internacional teve aumento significativo nos últimos tempos, tendo como uma das justificativas sua participação em cadeias regionais, alavancada pelo numero crescente de acordos de comércio regionais. Em compensação, o Brasil mostra um padrão estável com quase dois terços das 35 importações originárias de economias da OECD, enquanto a parcela do comércio interregional se estabilizava pelos problemas do MERCOSUL e pelo fracasso da ALCA. Isso, de certa forma, deixa o país e as empresas isoladas. Pode-se observar aumento substancial no comércio bilateral entre Brasil e China na última década. Entre 1996 e 2003, as exportações do Brasil para a China cresceram quatro vezes e entre 2000 e 2003, a participação do Brasil no mercado Chinês aumentou 0,43% em 2000 para 1,27% em 2003. Porém, as importações brasileiras para a China estão crescendo rapidamente e a balança comercial, que, até 2003 representava um resultado positivo para o Brasil, está sendo invertida. No gráfico a seguir é possível observar a diferença do crescimento das vendas do Brasil para o mundo e do Brasil para a China. Fica evidente o salto das exportações brasileiras para a China. Figura 4 - Exportações Brasileiras para o mundo e para a China (US$ bilhões) Fonte: UnComtrade Elaboração: Ipea O Brasil exporta commodities e produtos intensivos em recursos naturais, tais como carvão, grãos, aço, carnes e importa manufaturados. A exportação brasileira de produtos manufaturados e semimanufaturados para a China representa apenas 5,5% do total das exportações para esse país. O aumento das exportações de commodities, se por um lado gera apreciação da moeda local, por outro traz obstáculos para o crescimento simultâneo. A pauta de exportações brasileiras se concentra em produtos básicos. Somente entre 2000 e 2009 os produtos básicos passaram de 68% para 83%. Os produtos de maior representação em 2010 foram minérios (40%), oleaginosas (23%) e combustíveis minerais (13%). De acordo com o gráfico a seguir pode-se observar que nos últimos 36 anos o grosso das exportações do país para a China foram de produtos primários e de manufaturas intensivas em recursos naturais. É possível observar que as exportações brasileiras de produtos com alta tecnologia representam muito pouco, e que o grande volume das exportações brasileiras esta calcado em produtos primários. Figura 5 - Pauta Exportadora do Brasil com a China por intensidade tecnológica do produto Fonte: UnComtrade Elaboração: Ipea Os indicadores macroeconômicos retratam o tamanho relativo dos dois países, Brasil e China, e como a velocidade relativa de ambos, em relação as condições macroeconômicas afetam as estratégias das empresas brasileiras e chinesas nos seus respectivos processos de internacionalização. Fica evidente que as trajetórias não são independentes. A ascensão da China já está influenciando a trajetória da economia brasileira em termos de participação no mercado mundial. No caso das importações do Brasil com a China o cenário é bastante diferente em relação as exportações. As importações de produtos de alta tecnologia aumentaram significantemente no período entre 2000 e 2010 (Figura 6). De acordo com dados extraídos do IPEA as importações de produtos de alta tecnologia em 2010 representava US$ 487 milhões. Já em 2008 esse número aumentou para US$ 8 bilhões chegando a quase US$ 10 bilhões em 2010. 37 Figura 6 - Pauta Importadora com a China por intensidade tecnológica do produto Fonte: UnComtrade Elaboração: Ipea Para a indústria Brasileira, parte importante do estudo proposto, as relações de compra e venda com países da Ásia, sobretudo a China, pode em um primeiro momento, parecer ameaçadoras, por conta das incontáveis mercadorias oferecidas em escala de produção por esses países. No entanto, o ponto chave deste estudo é mostrar, através de dados, que em alguns casos a industrial brasileira depende de insumos vindos de países como a China para tornar seus produtos competitivos. “A emergência da China no mercado mundial deixa no ar uma desconfortável dúvida sobre o futuro da América Latina na divisão internacional do Trabalho. Por varias vezes esse futuro foi imaginado como um futuro industrial” (MOREIRA, 2005: 10). As relações comercial entre Brasil e China mais recentes, mostram um crescimento bastante notável nos termos de trocas entre ambos. De acordo com os autores Acioly, Cintra e Pinto: “As relações comerciais Brasil-China, entre 2000 e 2010, tiveram crescimento superior à elevação do comércio entre o Brasil e o mundo”. Os dados mostram que “Entre 2000 e 2010 as exportações brasileiras para a China elevaram-se de US$ 1,1 bilhão – 2% do total das exportações do Brasil – para US$ 30,8 bilhões – 15% do total ao passo que as importações brasileiras da China cresceram de US$ 1,2 bilhão – 2% do total – para U$ 25,6 bilhões – 14% do total” (ACIOLY, CINTRA & PINTO; 2011: 308). 38 A parceria entre os dois países teve crescimento bastante elevado nas ultimas décadas. A ascensão Chinesa tem favorecido o mercado Brasileiro tanto em relação às exportações quanto às importações. Em 2010 os principais destinos das exportações brasileiras eram Estados Unidos, Argentina, Holanda, Alemanha, Japão, Itália, França, Bélgica, México e Reino Unido, que totalizavam 66% das exportações brasileiras. Em 2010 houve uma maior desconcentração geográfica, com os dez maiores destinos das exportações contabilizando 55,3% do total. Outra mudança importante ocorrida em 2010 foi a confirmação da China como maior destino das exportações brasileiras, que na verdade já em 2009 a China alcançou os Estados Unidos ultrapassando o mesmo na lista dos maiores compradores dos produtos brasileiros. Não somente as exportações brasileiras para a china tiveram aumento relevante, mas também as importações aumentaram substancialmente nas ultimas décadas. “Assim como nas exportações, a China tem avançado, desde 2001, como um dos principais países de origem das importações brasileiras”. (ACIOLY, CINTRA & PINTO, 2011: 317). No ano de 2001 o Brasil importou dos Estados Unidos US$ 13,1 bilhões, enquanto que da China o país importou somente 10% desse valor. Em 2010 houve mudança substancial. As importações vindas dos Estados Unidos somaram US$ 27,3 bilhões e da China US$ 25 bilhões. O grande volume das vendas do Brasil para a China esta em produtos intensivos em recursos naturais. Os principais produtos exportados para a China nos últimos anos foram: soja (óleo, farelo e grãos), minério de ferro, laminados e semifaturados e ferro e aço, automóveis, peças e acessórios para tratores e veículos, couro, madeira, celulose, e papeis. Apesar de ter havido uma ampliação no número de produtos vendidos pelo Brasil para o país asiático, as exportações concentram-se em poucos produtos. O que realmente representa o grosso das vendas brasileiras são a soja e os minérios. O Brasil ainda enfrenta grande dificuldade em aumentar o numero de produtos em sua pauta de exportações. Problemas como o denominado “custo Brasil” trazem dificuldades para o desenvolvimento do país e diversificação de sua pauta de produtos. Fatores como a alta carga tributária que encarem muito a produção, problemas de infraestrutura como estradas esburacadas, portos e aeroportos mais caros do mundo acabam gerando graves entraves a logística brasileira. Acrescendo a isso a complexa legislação trabalhista do país, fica difícil entrar no mercado internacional com produtos atraentes. 39 A China era, em 2008, o terceiro principal destino das exportações Brasileiras e o segundo mercado de origem das importações. Com a crise mundial em 2008, as exportações brasileiras sofreram queda de 23% em 2009 em relação ao ano de 2008, porém para o mercado Chinês houve aumento de 27%. Em 2009 a China passou a ser o principal mercado das exportações brasileiras, e o segundo nas importações. Com relação as importações brasileiras de produtos chineses, apesar de o país ter conseguido manter superávit durante diversos anos, o numero das importações tem crescido consideravelmente nos últimos anos. De 2002 para 2003 houve um crescimento aproximado de 38%. O Brasil importa da China produtos como máquinas, aparelhos e materiais elétricos, combustíveis, óleos e ceras minerais, produtos químicos orgânicos, caldeiras, máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos, tecidos e artigos para vestuário, brinquedos e outros supérfluos, alho e outros itens alimentares. Analisando os dados de intercambio entre Brasil e China, nota-se que as exportações e vice e versa tem aumentado nos últimos anos. Fica evidente que a relação entre os países torna-se cada vez mais intima e a dependência do mercado brasileiro em relação ao mercado chinês da mesma forma mostra aumento substancial. O objetivo principal do presente estudo é analisar, tendo como ponto de partida a análise de preço de um dos produtos de uma indústria brasileira do ramo de telecomunicações, a dependência que o Brasil têm, sobretudo a indústria, de insumos vindos do país asiático. Somente produzindo com produtos vindos a preços bastante inferiores aos mesmos produtos produzidos no Brasil, o produto final consegue se tornar competitivo frente a produtos similares importados. O Brasil enfrenta graves obstáculos, sobretudo no que se refere aos custos de produção no país, ou o denominado “Custo Brasil” para manter suas indústrias competitivas e até mesmo viáveis frente a incontável numero de produtos importados que entram no país. Nesse sentido o papel da China para o desenvolvimento do país torna-se fundamental até mesmo porque o país asiático demonstra grande potencial. A China torna-se cada vez mais um desafio para o Brasil e a América Latina como um todo. Por se tratar de um país com uma população de 1,3 bilhão de pessoas e uma força de trabalho de 640 milhões, vivendo e trabalhando em um ambiente com recursos naturais limitados, o país acaba tendo uma imensa vantagem comparativa em produtos intensivos em mão-de-obra. A vantagem advém da abundancia de oferta de trabalhadores que acaba possibilitando níveis salariais muito abaixo dos praticados no Brasil e em países da America Latina. Os salários no Brasil chegam a ser praticamente 40 o triplo dos salários praticados na China, tornando com isso o custo de produção no Brasil muito diferente em relação aos custos de produção nos países asiáticos. A China também tem como vantagem a produtividade e a produção em escala, tornando seus produtos ainda mais competitivos e atraentes. A seguir será ilustrado o estudo de caso realizado em uma grande indústria de telecomunicações brasileira que, assim como outras indústrias no país, somente consegue manter-se competitiva, expandir seus negócios e apresentar índices de crescimento satisfatórios porque compra grande parte dos componentes necessários à sua linha de produção de países asiáticos, sobreduto da China. 41 4. ESTUDO DE CASO 4.1 Desafios impostos à indústria nacional frente à concorrência internacional: Um estudo de caso na empresa Intelbras. O principal objetivo do presente estudo de caso é evidenciar, através de analises comparativas, as consequências que o aumento das relações de troca entre Brasil e China tem acarretado para a indústria Brasileira. O ponto de partida é evidenciar não somente os pontos negativos, que têm sido tema de diversos debates acadêmicos, mas também e, sobretudo, os pontos positivos que o intercâmbio tem como consequência para o Brasil. O foco principal e a proposta da presente análise é concentrar os estudos nas consequências das importações Brasileiras de produtos Chineses, sobretudo após o lançamento do Plano Real, em meados dos anos de 1990, quando o mercado Brasileiro foi inundado pela crescente oferta de produtos vindos da China. Para tanto, foi realizado estudo de caso em uma empresa consolidada do ramo de telecomunicações no Brasil,a Intelbras, que tem estreita relação com o intercambio entre Brasil e China e que de certa maneira depende deste intercâmbio para manter sua competitividade. É importante ressaltar que a análise será realizada com produto do ramo de telefonia da Empresa, que posteriormente será apresentado. O estudo será dividido em 5 etapas. Em um primeiro momento será apresentado breve histórico sobre o mercado de telefônica no Brasil. Em seguida dados da Empresa assim como números de seu crescimento são demonstrados. A terceira parte consiste na apresentação do produto estudado, seguido pela quarta parte que apresentará os dados coletados. A quinta e última parte do estudo de caso consiste nas conclusões do mesmo. 4.2 Breve histórico Mercado de Telefonia no Brasil. Em 15 de Novembro de 1879, surgia no Rio de Janeiro, o primeiro telefone construído para D. Pedro II nas oficinas de Western and Brazilian Telegraph Company. A companhia Britânica Western foi legalmente estabelecida como a única exploradora 42 dos serviços de telecomunicações no Brasil durante 60 anos. Embora o telefone tenha sido implantado no país por D. Pedro II em 1879, o serviço somente foi oferecido com alguma abrangência significativa na metade do século XX. Na década de 50 no Brasil, a comunicação telefônica era estabelecida quase sempre com o auxilio de telefonista. Dessa forma, a comunicação consistia na conexão manual de dois assinantes ligados à mesa de operação por um par metálico. Por conta da inexistência de diretrizes centralizadas, os serviços de telefonia nos anos 50 ocorria de forma ineficiente. A abrangência territorial era bastante pequena, além da baixa qualidade dos serviços. Para uma população de aproximadamente 70 milhões de Brasileiros, havia apenas 1 milhão de telefones instalados. Esse cenário resultava em um entrave ao desenvolvimento nacional, já que a integração regional era de extrema importância para o desenvolvimento. A importância da integração regional, e a perceptível necessidade de melhora no setor, resultaram em 27 de Agosto de 1972 na primeira ação governamental com a Lei 4.117, que instituía o Código Brasileiro de telecomunicações e disciplinava a prestação do serviço, colocando-o sob o controle de uma autoridade federal. Esta era o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel). A Lei criada definia as políticas de telecomunicações, como a sistemática tarifária, e o plano para integrar as companhias em um Sistema Nacional de Telecomunicações. Estabeleceu-se, também, a criação da Empresa Brasileira de Telecomunicações AS (Embratel). A Embratel tinha como finalidade implementar o sistema de telecomunicações a longa distância e para tanto instituiu o Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT), que destinava-se a financiar as atividades da Embratel. Com a criação destes órgãos ficou formalizada uma política pública nacional para o setor. Em 11 de Julho de 1972, dando sequencia a política governamental iniciada em 1962 criou-se uma sociedade de economia mista, por meio da Lei 5.792, denominada Telecomunicações Brasileiras AS (Telebrás),vinculada ao ministério das Telecomunicações, com atribuições de planejar, implantar e operar o SNT (Siqueira, 1997). A ideia da criação da Telebrás era suprir a grande necessidade por serviços de telecomunicações de qualidade. Ela seria a grande prestadora estatal dos serviços, que oferecia qualidade e quantidade suficiente de linhas. Com o objetivo de alcançar tais 43 façanhas, a Telebrás instituiu em cada Estado uma Empresa-polo e promoveu a incorporação das companhias telefônicas existentes. Essa mudança representou um marco, não somente para os serviços de comunicações, mas também para a indústria do país, já que até 1972, por exemplo, todo o equipamento de telecomunicações no país era importado, e a maior nacionalização da indústria traria pontos positivos para o país. No Brasil, com apoio a política de substituição das Importações, o avanço do setor deu inicio a necessidade de pesquisas e desenvolvimento. Com isso criou-se não somente o Centro de Pesquisa de Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), pertencente a Telebrás e voltada para o produto, mas também outras empresas vislumbraram oportunidades de negócios na área. O Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND, 1974) estabelecia metas de nacionalização dos equipamentos fabricados pelas multinacionais no país, e como consequência desta política as fabricante de centrais de comutação eletromecânicas alcançaram, até o final dos anos 70, índice de nacionalização de 90% (GORDINHO, 1997). O desenvolvimento do setor passou a enfrentar dificuldades a partir dos anos 80. A piora da situação econômica e social do país refletiu diretamente sobre o desenvolvimento das telecomunicações. Problemas como os reajustes de tarifas inferiores à inflação, a implantação de subsídios cruzados nos produtos, a politização dos cargos executivos das estatais e as restrições impostas pelo governo Federal ao uso do FNT e do lucro operacional da Telebrás, reduziram a capacidade de investir. Esse cenário apontava um possível esgotamento do modelo monopolista estatal para aquele setor. O resultado dessas mudanças na Telebrás acabou resultando na escassez de novas linhas telefônicas que vieram como resultado da estagnação no crescimento da Telebrás. Além da dificuldade em relação a novas linhas, problemas como a qualidade dos serviços prestados, os planos de expansão onerosos com prazos dilatados, o congestionamento das rotas de longa distância em horários de pico, as tarifas mais elevadas, e a descapitalização das empresas demonstravam a grande necessidade de novas mudanças para o setor, principalmente por ele ser determinante para a competitividade de outros setores da economia. A necessidade de mudança era bastante clara e necessária. Em 29 de Julho de 1998, a Telebrás foi privatizada, marcando com isso uma nova fase na história das 44 Telecomunicações no Brasil. O processo de privatização teve início antes do ano de 1998, com a mudança na Constituição Federal e prosseguiu com a Promulgação da Lei Mínima e da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), em 1997. A partir daí foi criado e implementado o órgão regulador (Anatel). As mudanças após a privatização são bastante expressivas. O número de acessos instalados na telefonia fica foi de 16,5 milhões em 1996 para 47,8 milhões em 2001. Outra mudança importante a ser apontada foi a mudança no número de postos de trabalho no período pós-privatização. Em 1990 havia 93,1 mil postos de trabalho, já em 1998 após a privatização esse número subiu para 153,1 mil, alcançando os 300 mil no primeiro semestre de 2001 (ANATEL, 2001). As mudanças no mercado de telefonia no Brasil advindas da privatização dos serviços, as operadoras realizaram investimentos significativos. Isso criou oportunidades de investimentos em indústrias de equipamentos de telecomunicações, o que acarretou na entrada de novos fabricantes no mercado nacional, assim como no aumento dos já existentes. Embora a chegada da telefonia móvel ao mercado Brasileiro tenha balançado o mercado de telefonia fixa, o número linhas telefônicas ainda cresce conforme gráfico abaixo: Figura 7 - Telefonia Fixa - Linhas em serviço Fonte: Anatel/Teleco (2012) O futuro do mercado de telefonia fica é ainda bastante incerto, visto que a cada dia novas tecnologias surgem. De acordo com analistas do setor, no futuro não haverá mais grandes expansões no setor. O Brasil conta com quase 48 milhões de linhas 45 instaladas, e a atual cobertura já abrange as principais regiões e os melhores clientes, chegando ao ponto de saturação. Nesse sentido, é bastante claro que empresas que atuam no ramo precisarão inovar e encontrar saídas para os desafios que o mercado tende a apresentar. 4.3 A Empresa Intelbras A Intelbras é uma empresa de capital 100% nacional, fundada e, 1976 em São José/ Santa Catarina. Atua na fabricação de produtos e soluções em telecomunicações, Redes e segurança eletrônica. Atualmente a empresa conta com quatro unidades fabris, sendo 43 mil metros quadrados de área construídos e 1.800 colaboradores diretos. As filiais encontram-se em São José-SC; Santa Rita do Sapucaí – MG e Manaus – AM. A empresa foi uma das primeiras no Brasil no ramo de telecomunicações e pioneira no lançamento de uma central telefônica do tipo PABX com tecnologia brasileira. A Intelbras é líder no mercado brasileiro de centrais telefônicas, telefones e centrais condominiais. Atualmente a empresa se tornou referência latino americana no segmento de telecomunicações. É a maior fabricante de telefones e centrais telefônicas de pequeno porte do país, com faturamento de 162 milhões de reais em 2001. Desde 1997, a Intelbras acumulou quase 25 milhões de reais em lucros. No mercado brasileiro detém 60% de participação nas vendas de centrais telefônicas; 40% nas vendas de telefones; e 62% nas de centrais condominiais. Na América Latina dos telefones e centrais telefônicas vendidos 21% e 38,5% respectivamente, são desta empresa. A empresa encontra-se presente em todo o território nacional e além de diversos países da América Latina e África. Possui um dos maiores centros de pesquisa e desenvolvimento privado da América Latina. Atualmente a empresa encontra-se entre as 500 maiores do Brasil. Em 2008 alcançou um faturamento de USD 349,2 milhões, além disso foi a quinta maior em rentabilidade (0,8%) e a oitava em liquidez corrente. 46 4.4 Mercado A Intelbras hoje esta presente no Brasil com mais de 9.500 pontos de vendas entre lojas de varejo e revendas para produtos de consumo e 6.000 pontos de vendas para produtos corporativos, espalhados por todos os estados nacionais. Realiza treinamentos anuais com os 5.000 técnicos que instalam seus produtos e com os 6.500 de vendas do varejo. Conta com 71 laboratórios de suporte técnico espalhados pelo Brasil, além de uma rede de assistência com 642 unidades, um centro de atendimento técnico e um para o consumidor. Figura 8 - Estrutura da Empresa no mercado Fonte: Intelbras Em 1994 a empresa iniciou o projeto de exportação de seus produtos para alguns países da América do Sul e esta hoje presente na maioria deles e até mesmo em outros continentes. As exportações chegaram a representar 25% do negócio, no entanto as vendas para o exterior foram abandonadas quando o mercado brasileiro de telefones aumentou a demanda e a Intelbras optou por consolidar a liderança nacional. Atualmente as exportações representam cerca de 5% do faturamento, e estão concentradas principalmente em países do Mercosul. 47 Figura 9- Presença Internacional da Empresa Fonte: Intelbras Trata-se de uma empresa com capital nacional, como mencionado anteriormente, que tem como concorrentes multinacionais de grande porte como Siemens e Panasonic. Mesmo com uma concorrência bastante acirrada, a empresa conta com forte presença no mercado nacional e internacional. Apesar de deter 40% de participação nas vendas de telefones, seu principal concorrente, a Siemens datem 36%. Os números demonstram uma disputa apertada, que a empresa Catarinense vem liderando. Seus produtos são reconhecidos por terem excelente qualidade e estão bastante consolidados no mercado. Antes da privatização dos serviços de telecomunicações, a Intelbras fornecia para o sistema Telebrás, produzindo de centrais a tomadas e pinos para telefones. Em 1990 a empresa passou por sérias dificuldades vindas da inadimplência das telefônicas estaduais das quais a Intelbras fornecia. De 560 funcionários na época, restaram somente 120. Depois da crise, a empresa se reestruturou e encontrou o caminho do crescimento e do lucro. Especializou-se em centrais de até 128 ramais, que representam 80% do mercado, e aparelhos telefônicos e passou a ampliar o leque de clientes e fornecer para a iniciativa privada. Com a abertura do mercado, e as privatizações, foi preciso inovar e lidar com a grande concorrência que passou a entrar com maior facilidade no mercado brasileiro. Mesmo diante do novo cenário desafiador a empresa não parou de crescer. Nas palavras de Paulo Gerahrdt, diretor de empresa especializada em treinamento na área de 48 telecomunicações “A Intelbras preparou-se para a competição que veio com a abertura do mercado”. Apesar de a empresa ter liderado as vendas de aparelhos telefônicos durante muitos anos sem maiores preocupações, a concorrência começou a jogar duro na disputa pelos consumidores de aparelhos telefônicos. A Intelbras fatura hoje 15 vezes mais do que no início do Plano Real, mas sabe que daqui para frente os desafios ao crescimento serão maiores. A abertura do mercado trouxe concorrentes de peso para disputar mercado. Siemens e Panasonic são exemplos de grandes empresas que pretendem disputar o nicho com a Intelbras. Além das gigantes multinacionais que entram no países, a empresa ainda precisa lidar com os produtos vindos da China com preços bastante competitivos. 4.5 Produto Estudado Com o intuito de preservar dados estratégicos da empresa, o produto analisado será denominado Telefone X. O mesmo encontra-se dentro do seguimento de telefones com fio da Empresa, e trata-se de um dos produtos com maior representatividade nas vendas. A seguir serão apresentadas características do produto, assim como de seu segmento. O seguimento com fio, como é denominado, é o segmento responsável pelo desenvolvimento, produção e comercialização de terminais para comunicação de voz (analógicos e digitais) com fio e de equipamentos de áudio conferencia para uso em ambientes residenciais e coorporativos. Dentro da empresa, esse segmento representa o 4º maior segmento em termos de faturamento e lucro. A produção deste segmento, assim como dos demais, esta fortemente vinculada as variações do dólar, já que a maior parte da matéria prima utilizada na linha de produção, vem de outros países. No gráfico a seguir é possível verificar as variações do dólar no ano passado e os impactos da mesma no custo das matérias primas utilizadas para o segmento. 49 Figura 10 - Variação do Dólar 2012 - Real X Orçado Fonte: Intelbras Mesmo tendo que contar com as variações cambiais e as altas do dólar, a opção por importar a matéria prima, sobretudo dos produtos vindos da China, ainda parece ser a melhor opção, se não a única, para manter a competitividade dos produtos da empresa frente aos concorrentes que entram no país com preços bastante atraentes. Atualmente a linha de telefomes com fio da empresa produz uma média de 56 produtos / hora por colaborador totalizando em médias 11.000 / 11.500 telefones por dia. O Telefone X representa boa parte das vendas da empresa, e no ultimo ano chegou a marca de 8 milhões de unidades vendidas. O Telefone X Trata-se de um telefone de mesa convencional com funções de 3 níveis de volume de campainha, 2 tipos de campainha, funções flash, rediscar, e mudo. Seu diferencial frente a alguns concorrentes, alem da boa qualidade que a empresa oferece, ele ainda possui a opção de chave de bloqueio, e a posição de mesa ou parede. O objetivo principal da presente pesquisa é analisar os impactos do grande número de produtos importados de países asiáticos, sobretudo da China para a Indústria Brasileira. Para tanto, foi escolhido um produto simples produzido pela empresa Intelbras, para que pudesse ser feita uma comparação dos preços dos componentes utilizados na montagem do mesmo quando comprados de fornecedor chineses, e o preços dos mesmos componentes comprados no mercado nacional, seja via produtores ou distribuidores. Os componentes que abastecem as linhas de produção da empresa nem sempre foram adquiridos de países como a China. Na realidade a mudança no fornecimento dessas peças teve início no ano de 2.000, contribuindo para o grande crescimento da empresa. Antes do início do processo de mudança no fornecimento de matérias primas, 50 a empresa comprava os componentes de fornecedores Brasileiros, que produziam ou apenas distribuíam os componentes. Com a abertura do mercado Brasileiro, ficou difícil manter a competitividade produzindo com insumos comprados dentro do país. A concorrência tornou-se muito acirrada e foi preciso buscar novas possibilidades para dar continuidade ao crescimento da Empresa. Dos 85 componentes utilizados na fabricação do telefone X, por exemplo, somente 7 são adquiridos de empresas brasileiras. Os itens adquiridos no país, representam de maneira geral a parte de embalagens e manuais. Dessa forma, somente para a produção do Telefone X, 9,98% dos insumos são brasileiros, contra 90,02% de insumos vindos principalmente da China, ou seja, de 85 componentes, 78 são importados. Atualmente a empresa, compra cerca de 1.811 componentes para abastecer suas linhas de produção. Desse total somente cerca de 460 itens são comprados de fornecedor nacionais que produzem no próprio país ou compram e revendem. A grande dificuldade em se manter fornecedores nacionais no fornecimento para a Empresa são os preços nada competitivos quando comparados aos preços Chineses. Outra dificuldade é a própria falta de oferta no país. Alguns dos componentes não são nem mesmo disponibilizados no Brasil. Por conta disso, na hora de comparar os preços para os casos em que não foi possível encontrar fornecedor no país, o preço foi calculado com base na diferença de componentes similares. Na tabela a seguir é possível verificar a lista de componentes utilizados na fabricação do Telefone X, e a diferença em porcentagem do preço Chinês em relação ao Preço nacional. Observa-se também o numero de itens nacionais VS importados. Por questões estratégicas, o nome dos componentes foram simplificados e os preços dos mesmos não serão divulgados, somente a diferença em porcentagem entre nacional/Importado. Tabela 4 - Comparação preços Importados X Nacionais Diferença entre Componentes Embalagem Embalagem Embalagem Origem Nacional Nacional Nacional Nacional/Importado 51 Microcontrolador Microcontrolador Chave Chave Chave Buzzer TOMADA TOMADA Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado 728% 535% 1337% 874% 1237% 321% 668% 756% 1219% 348% 2128% 242% 2128% 148% 696% 193% 385% 677% 3868% 3868% 3868% 3868% 2418% 2418% 193% 242% 251% 1934% 193% 166% 677% 4598% 697% 662% 2273% 20548% 635% 1732% 18369% 2082% 473% 2882% 994% 1095% 3044% 52 Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Varistor Varistor Placa Diodo Diodo Diodo Diodo Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor RESSONADOR Cordão TECLADO Resina Resina Resina Resina Etiqueta KIT MONO Anel de Borracha Cordão Cápsula Microfone TOMADA Resistor/capacitor / transistor Resistor/capacitor / transistor Placa Resistor/capacitor / transistor Resina Resina Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Importado Nacional Nacional Importado Nacional Importado Importado Importado Importado Importado Importado Nacional Importado Importado Importado 372% 2445% 1515% 387% 5051% 16414% 198% 5979% 929% 627% 1542% 1220% 96% 425% 375% 798% 50890% 1872% 327% 191% 700% 624% 100% 100% 308% 327% 327% 226% 242% 344% 3935% 1499% 1151% 541% Fonte: Intelbras Elaboração: Autora Através da análise da diferença no preço dos componentes importados, é possível entender a importância do intercâmbio entre Brasil e China, no caso da Indústria estudada. Com uma diferença de 541% no preço final dos insumos utilizados à 53 produção, certamente o preço final deste produto caso fossem adquiridos os componentes no Brasil, não seria competitivo e nem mesmo viável. A competição dos produtos ofertados pela empresa no mercado, se da através do acesso a insumos com menores preços. É importante notar que a comparação se fez com dados de preços de produtos importados já internados (FI), ou seja, o preço final do produto importado leva em consideração os custos com desembaraço aduaneiro, transporte, impostos, nacionalização, transporte dentro do país e demais taxas inclusas em processos de importação. Mesmo com todas as despesas que um processo de importação acarreta os preços dos produtos importados ainda são muito competitivos frente aos produtos nacionais. A diferença em reais entre os custos com matéria prima vinda da China versus matéria prima adquirida no Brasil chega a quase RS 25,00, o que tornaria o produto final inviável frente aos concorrentes que da mesma forma, têm acesso à insumos chineses, quando não são produzidos na Ásia. Como é possível observar, para alguns casos, a diferença chega a marca de 50890%, demonstrando a dificuldade que a indústria brasileira enfrenta com relação aos preços chineses. Dessa forma, a empresa somente consegue produzir e tornar-se competitiva porque pode contar com o acesso às importações de países asiáticos. A disputa de mercado e a liderança que a empresa conquistou esta estreitamente ligada ao acesso a matérias primas importadas. A principal proposta da presente pesquisa é demonstrar um ponto de vista diferente em relação aos produtos importados da China. Desde que a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil muito tem se falado sobre a preocupação da Indústria nacional em relação aos Chineses, no sentido de uma competição desigual. A pesquisa não é contrária a ideia de que a entrada dos produtos chineses trouxe grandes dificuldades à Industria Brasileira. Não há duvidas em relação a isso, inclusive esse ponto de vista fica bastante claro quando observamos a mudança no fornecimento de insumos para a produção do Telefone X. O objetivo é levantar pontos para um debate favorável à entrada destes produtos no mercado Brasileiro, ou pelo menos, demonstrar alguns pontos positivos. A China, além de comprar as commodities brasileiras em maior número, também aumentou consideravelmente suas vendas ao Brasil, e nesse sentido existe uma grande preocupação em relação ao futuro das indústrias brasileiras. De fato, com a 54 entrada de produtos chineses no mercado nacional, muitas industriais tiveram que fechar suas portas por não conseguirem se manter frente a pesada concorrência. Inclusive existem casos de empresas que forneciam insumos para a Intelbras, e que hoje já não existem mais. O Brasil é um país com um custo de produção muito alto. A enorme carga tributária e demais fatores como a infraestrutura logística deficitária dificultam a vida dos empresários brasileiros, como mostrado no item 1.1 deste trabalho. Fica muito difícil concorrer com um país que possui baixo custo de produção tributário além do baixo nível de barreiras comerciais, como é o caso da China. De acordo com a Comissão de Defesa da Indústria Brasileira, no ano de 2000 diversas empresas brasileiras fecharam as portas por conta da entrada de produtos chineses no mercado. A intenção aqui é levantar pontos para novos debates acerca da entrada massiva de produtos chineses nos mercados do mundo inteiro. No caso estudado, o acesso aos produtos Chineses não só trouxe benefícios e crescimento, mas também pode ser visto até mesmo como fator determinante à sobrevivência e a manutenção da competitividade dos produtos da Empresa. Hoje a Intelbras dispõe e tecnologia própria, e é bastante forte no Desenvolvimento de novos produtos. A empresa destina todo ano 4% de sua receita operacional liquida no desenvolvimento de processos e produtos. Seus produtos são reconhecidos no mercado por sua boa qualidade e a empresa tem conseguido se manter na liderança de alguns segmentos, mesmo frente a pesada concorrência. No entanto, a Intelbras é um caso de sucesso que conseguiu inovar e encontrar formas de sobreviver frente as mudanças ocorridas no mercado. Muitas empresas não conseguiram o mesmo êxito que a empresa estudada e vieram à falência. O processo de importação dos insumos que abastecem as fábricas teve início no ano de 2000. Como foi mencionado anteriormente, os insumos eram adquiridos, em sua grande maioria, de fornecedores nacionais, antes da mudança para fornecedores Chineses. Com a mudança no quadro de fornecimento, a empresa como um todo teve também um enorme crescimento e a partir daí começou a conquistar liderança em determinados segmentos. Com as margens de lucros melhores, devido a queda nos preços dos insumos, os produtos da empresa puderam ir para o mercado com preços mais competitivos e as vendas, consequentemente aumentaram. O objetivo da presente pesquisa foi demonstrar um caso em que a entrada de produtos Chineses trouxe melhorias e crescimento. Além de tornar os produtos da 55 empresa mais viável, em relação aos custos, a própria concorrência que a abertura acarretou, obrigou a empresa a se tornar mais exigente com seus produtos, assim como de estimular a inovação, para preservar seu lugar nos mercados onde atuava. Atualmente a empresa emprega quase 2000 funcionários, gerando empregos e contribuindo para o crescimento do país. Boa parte do sucesso da empresa esta atrelado as possibilidades que a abertura do mercado trouxe consigo e que a empresa soube administrar. 56 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Na análise anterior foram expostos argumentos a respeito das consequências que o aumento do comércio entre Brasil e China pode acarretar para a indústria nacional. A China é hoje a segunda potência econômica mundial e o seu crescimento continua de maneira praticamente ininterrupta. A emergência deste país é uma realidade com as quais economias do mundo inteiro estão tendo de lidar e se adaptar as novas características que esse crescimento trouxe. O mundo vive, e pelo menos por um tempo, não poderá deixar de conviver com a China. O crescimento chinês desempenha um papel de grande importância para países emergentes, inclusive tem grande importância para a economia Brasileira. Muito tem se debatido a respeito deste crescimento e principalmente a respeito das consequências que o mesmo pode acarretar para a indústria de países em desenvolvimento. Existe certo medo com relação ao acelerado incremento nas relações sino-brasileiras, e inclusive há quem defenda ações protecionistas. A criação de barreiras para o comercio bilateral, no entanto, muito provavelmente não atenderia ao interesse nacional brasileiro. O centro mais dinâmico da economia mundial, atualmente se encontra na China, e a criação de barreiras ou protecionismo certamente não traria benefícios à economia nacional. O receio que se tem em relação ao comércio entre os dois países é bastante compreensível, visto que em inúmero casos a entrada da concorrência chinesa no Brasil, levou muitas indústrias a encontrarem dificuldade quanto a concorrência e até mesmo quanto a sobrevivência frente a tamanha diversidade de novas tecnologias a preços bastante diferente dos preços praticados no Brasil. Em certos casos específicos e pontuais, o protecionismo talvez seja necessário, visto que é preciso preservar determinados setores e a concorrência fica impraticável, quando o empresariado brasileiro, por exemplo, se depara com os elevados custos de produção do país. Os chineses têm feito conquistas notáveis. As inovações aparecem em diferentes áreas como tecnologia espacial, supercomputadores, nanotecnologia, indústria mecânica e medicina. Com tamanho avanços científicos e tecnológicos, as exportações chinesas estão se movendo na cadeia de valor e já competem com países desenvolvidos. Basta notarmos a quantidade de produtos de alto valor agregado que as marcas chinesas oferecem no mundo inteiro. A China, que em um passado recente era conhecida por 57 vender produtos de baixa qualidade e pouca tecnologia, conhecidos como quinquilharias, hoje vende automóveis mundo afora. O rápido crescimento e desenvolvimento podem ser percebidos com muita facilidade. A interdependência econômica entre os países é bastante notável, especialmente em momentos de crise. Existe hoje uma noção de que não é mais possível um país ou uma economia crescer sozinho. Nesse sentido, o Brasil precisa se preparar para o crescimento chinês, e encontrar estratégias frente ao gigante asiático, até porque nas últimas décadas, esse país tem sido o grande consumidor das commodities brasileiras. Somente no ano de 2011, o superávit de comércio entre os países alcançou US$ 5 bilhões. No âmbito das exportações brasileiras, a China é bastante reconhecida como um parceiro estratégico e importante para o crescimento do Brasil. No entanto, para a presente pesquisa, são as importações chinesas para o Brasil que alimentam o debate. Se por um lado a entrada de produtos chineses no mercado Brasileiro preocupa e provoca debates no sentido de proteção à industria nacional, por outro, para determinados setores eles serão determinantes e contribuirão para o crescimento e desenvolvimento da indústria no país. A ideia de levantar as diferenças nos preços dos insumos utilizados na produção de um dos telefones da Empresa Intelbras, foi colocar em evidencia que, para essa indústria, que apesar de muitas dificuldades conseguiu alcançar taxas de crescimento bastante satisfatórias, a possibilidade de acesso a matérias primas vindas da China contribuiu par seu desenvolvimento e crescimento e para se tornar a empresa de sucesso que é hoje. Se por um lado determinados setores industriais no Brasil enfrentam dificuldades com as importações Chinesas e asiáticas em geral, outros segmentos ganham, pois conseguem produzir produtos mais sofisticados e competitivos, visto que têm acesso a tecnologias vindas da China com preços bastante baixos, conseguindo com isso manter seus produtos competitivos frente à acirrada competição que a abertura de mercado trouxe ao país. No caso da indústria e o produto estudado, o acesso ao mercado chinês trouxe vantagens bastante significativas e maiores possibilidades de crescimento. Com uma diferença de 541% entre os preços nacionais VS os preços chineses na soma dos preços dos insumos utilizados para a produção do Telefone, fica bastante claro a inviabilidade de concorrência, caso a empresa decidisse optar por adquirir seus insumos dentro do 58 próprio país. Graças ao acesso a tais preços, a empresa consegue competir com gigantes como Siemens e Panasonic, e inclusive consegue se manter líder de mercado. O crescimento da empresa, após o início do processo de homologação de fornecedores chineses, visando a troca dos fornecedores nacionais, foi bastante acentuado. Em entrevista informal realizada com um dos compradores mais antigos da Empresa a respeito da entrada de insumos chineses nas linhas de produção, pontos positivos como custo médio mais competitivo, eliminação de atravessadores, redução brusca nos impostos, qualidade assegurada na fonte além de melhores negociações entre as partes foram apontados por ele. Quando questionado a respeito das mudanças que ocorreram na empresa após o início do processo de mudança no fornecimento, pontos como maior especialização em logística, plano mestre para médio prazo, mais critérios na analise das necessidades e menos flexibilidade na mudança de plano de produção foram apontados. Em relação aos fornecedores nacionais que forneciam à empresa antes da mudança, ele afirma que alguns fecharam, por não acompanhar a evolução do mercado, e outros encaram o fato como oportunidade de mercado, e abriram novos clientes e novos segmentos, e hoje competem também com o mercado internacional. Ele acredita que o crescimento da empresa esta vinculado a possibilidade de acesso aos insumos vindos da China, já que os mesmos são mais competitivos e de acordo com ele, essa nova possibilidade fez com que a empresa enxergasse o mercados com novas oportunidades. Ele acredita ainda que o sucesso da empresa e o fato da mesma ser conhecida em toda América Latina com produtos com custos acessíveis e qualidade garantida também esta de certa forma ligada a mudança no fornecimento da Empresa. Ao avaliar a situação da empresa e as mudanças que ocorreram nos últimos anos, a presente pesquisa propõe novos debates no sentido de se enxergar uma nova visão a respeito da entrada de produtos chineses no país. A concorrência certamente dificulta o desenvolvimento de determinados segmentos, no entanto da mesma forma que ela dificulta, ela pode ser um determinante para melhorias. A ascensão da China é uma realidade com a qual as economias no mundo inteiro terão de aprender a lidar e não terão como fugir. Vislumbrar novas oportunidades a partir dessa nova realidade é uma forma de encarar o cenário que a ascensão Chinesa trouxe para as economias de todo mundo. Neste sentido, foi de interesse fundamental desta pesquisa levantar pontos do aumento no intercâmbio comercial entre Brasil e China e a relação de dependência do 59 Brasil em relação a esse país. A intenção principal foi incentivar novos debates e reflexões que permeiem a problemática das importações do Brasil de produtos chineses, e as consequências para a indústria nacional. 60 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACCIOLY, L.; CINTRA, M. A. M.; PINTO, E. C. As Relações Bilaterais BrasilChina: A Ascensão da China no Sistema Mundial e os Desafios para o Brasil. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2011. ARRIGHI, G. Adam Smith em Pequim: Origens e Fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008. BRAUDEL, F. “Civilização Material, Economia e Capitalismo, Séculos XV-XVIII – O Tempo do Mundo, São Paulo: Martins Fontes, 1998 CUNHA, A. & ACIOLY, A. China: ascensão à condição de potência global – características e implicações. In: CARDOSO, J. & ACIOLY, L. & MATIJASCIC, M. Trajetórias recentes de desenvolvimentos. Brasília; IPEA, 2009 DECOMTEC/FIESP, “Custo Brasil” e a Taxa de Câmbio na Competitividade da Indústria de Transformação Brasileira. São Paulo, 2013. 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