Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 39, no. 3, de 2010 57 0004-2773/10/39 - 03/57 Arquivos Catarinenses de Medicina ARTIGO ORIGINAL Recuperação nutricional em programa de suplementação alimentar infantil em Florianópolis. Nutritional Recovery, in A Program of hildhood Feeding Supplementation. Jane Laner Cardoso1, Maria Marlene de Souza Pires2, Carlos Eduardo Pinheiro3, Sílvia Modesto Nassar4. Resumo: Abstract: Objetivo: O presente trabalho teve como objetivo avaliar a recuperação nutricional de crianças desnutridas expostas ao risco nutricional em um programa municipal de suplementação alimentar e identificar fatores de risco associados a este quadro clínico. Método: Trata-se de um estudo de coorte prospectivo, com acompanhamento de quatro meses de 86 crianças de 6 a 18 meses de idade, com peso para idade abaixo do percentil 10. As crianças que atingiram peso para idade em percentil maior que 10 foram consideradas recuperadas. Resultados: A recuperação ocorreu em 77,91% das crianças; 73,26% das crianças apresentaram peso adequado ao nascer e 26,74% dos casos tinham baixo peso quando nasceram. Em relação ao perfil materno observou-se que: 69,77% apresentavam fraco vínculo mãe-filho; 51,16% saúde mental comprometida; 32,55% tinham excesso de peso e 10% eram desnutridas. Conclusão: Somente o peso ao nascer indicou uma associação estatisticamente significante com a dificuldade de recuperação nutricional dessas crianças. Descritores: Objective: The present paper has the objective of evaluating the nutritional rehabilitation of children with malnutrition exposed to nutritional risks from a municipal program of supplementary feeding. Methods: It is a prospective cohort study which included 86 children from 6 to 18 months of age who had been accompanied for 4 months. Their relationship between weight-for-age was considered below the 10th percentile. The children who had their body weight above the 10th percentile were considered recovered. Results: The recovery process happened to 77,91% of the children; 69,77% were weakly attached to their mothers; 51,16% of the mothers presented some problems related to mental health; 32,55% of the mothers were overweight and 10% had malnutrition. The most common morbidity was the respiratory infection and anemia in 46,51% of the children. Conclusions: Only the birth weight indicated a statistical association with the difficulty in the nutritional rehabilitation. 1. Desnutrição; 2. Fatores de risco; 3. Recuperação nutricional; 4. Suplementação alimentar; 5. Avaliação de programas. Keywords: 1. Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis: pesquisador principal. 2. Departamento de Pediatria/Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC: orientadora. 3. Departamento de Pediatria-UFSC: co-orientador. 4 Departamento de Informática e Estatística- UFSC: análise estatística 57 1. Malnutrition; 2. Risk factors; 3. Nutritional rehabilitation; 4. Supplementary feeding; 5. Program evaluation. 58 Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 39, no. 3, de 2010 Recuperação nutricional em programa de suplementação alimentar infantil em Florianópolis. em risco nutricional ou com desnutrição, que realizaram consultas mensalmente em um Centro de Saúde do Município de Florianópolis. Os critérios de inclusão utilizados foram: (I) crianças com idade de 6 a 18 meses, cujos pais aceitaram participar do estudo; (II) peso para idade com percentil menor que 10 da curva-padrão do NCHS (critério adotado pelo SISVAN/ ICCN municipal para ingresso no programa de fornecimento de leite em pó integral); (III) todos os casos novos, inclusos nos critérios anteriores, não pertencentes a qualquer programa de suplementação alimentar; (IV) crianças , dentro dos critérios anteriores, ingressos no SISVAN entre 1º de março e 30 de junho de 2001; (V) participação efetiva no fornecimento mensal do leite do programa. Introdução A desnutrição energético protéica (DEP) na infância, segundo Monteiro1, continua existindo no Brasil, porém atualmente afeta contingentes populacionais mais limitados (entre os 30% mais pobres, a prevalência de desnutrição é de 12,2%). Os dados de 2006, oriundos da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), registraram prevalência de 7% de desnutrição em crianças menores de cinco anos - aferida pela proporção de crianças com déficit de crescimento. A distribuição espacial dessa prevalência indica frequência máxima do problema na região Norte (15%) e pouca variação entre as demais regiões (8% na região Sul). Avaliações da prevalência dos déficits de crescimento, em comparações preliminares das PNDS de 1996 e 2006, indicam redução de cerca de 50% na prevalência da desnutrição na infância no Brasil: de 13% para 7%. Nas regiões Sul e Sudeste, os dados indicam estabilidade estatística das prevalências. Comparações quanto à prevalência de déficits de peso para altura confirmam a reduzida exposição da população a formas agudas de desnutrição (3% em 1996 e 2% em 2006)2. O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), implantado no Brasil em 1984, é responsável por informações sobre o perfil nutricional da população e permite a reorganização e melhoria da assistência à saúde3. Em 1996, o sistema foi implantado em Florianópolis (SC). De 1994 a 1998 foi desenvolvido o “Programa de Atendimento a Crianças Desnutridas e Gestantes de Risco Nutricional”, que visava fornecer leite em pó integral e óleo de soja para ser acrescentado à preparação láctea como suplemento alimentar e, assim, promover a recuperação nutricional. Após esse período o referido programa foi substituído pelo programa de Incentivo de Combate às Carências Nutricionais (ICCN). Os dados relativos ao peso e estatura constituíam o banco de dados do SISVAN, que é o sistema responsável pelo monitoramento dos clientes oriundos dos Centros de Saúde4. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a recuperação nutricional de crianças de 6 a 23 meses de idade inscritas no referido Programa, desnutridas e em risco nutricional, bem como caracterizar a população estudada segundo fatores que outros estudos apontam como de risco para desnutrição infantil, especialmente os relativos à qualidade do cuidado materno e às morbidades apresentadas. Variáveis avaliadas: - idade, sexo e cor ou raça das crianças; - peso e estatura da criança com avaliação de peso para idade em percentil: entre 2,5 e 10 foram consideradas em risco nutricional e abaixo de 2,5 com desnutrição. Este ponto de corte é utilizado em pesquisas científicas porque está próximo de 2,3 que corresponde a -2 desvio-padrão 6. Estatura para idade abaixo do percentil 5 foi considerada como crianças no canal de vigilância para baixa estatura7. - variáveis relativas ao cuidado materno: idade e escolaridade materna, renda familiar, trabalho materno, presença do pai no cuidado com a criança, imunização, número de consultas do período pré-natal, peso de nascimento e aleitamento materno. Avaliou-se, ainda, estado nutricional materno classificado de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC); vínculo mãe-filho por meio de um instrumento de entrevista estruturada8 e, saúde mental da mãe com a aplicação do Self Report Questionnaire (SQR-20)9. - morbidades presentes: anemia considerada quando a hemoglobina menor que 11g/dl; deficiência de ferro quando ferritina menor que 10ng/dl, infecção respiratória e diarréia10. Peso e estatura da mãe e cálculo de IMC com classificação de estado nutricional11. Critérios de recuperação nutricional das crianças: 1. recuperadas: quando atingiram percentil 10 de peso para idade; 2. em recuperação: quando mudaram para um percentil maior que o inicial; 3. não recuperadas: quando o percentil manteve-se inalterado ou reduziu em relação ao inicial. Metodologia: Análise de Dados: O estudo de coorte prospectivo, com duração de 4 meses, contemplou 86 crianças de 6 a 23 meses de idade Foram utilizados os programas STATISTICA 6.0 e 58 Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 39, no. 3, de 2010 Recuperação nutricional em programa de suplementação alimentar infantil em Florianópolis. ANTRHO; um intervalo de confiança de 95% e nível de !"#!$!%&#%!'(%)*(+(,-(./.01(2 (3- 3- (4 ',) ($)5'*6(7- 3-( Qui-quadrado, correção de Yates, Mann-Whitney, Análise de Variância e Análise de Correspondência Múltipla. O estudo foi projetado segundo as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos (Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde) e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina. Resultados: Este estudo acompanhou 86 crianças durante quatro meses, sendo que antes da intervenção, 51 crianças (59,30%) tinham peso para idade em percentil entre 2,5 e 10, classificadas como em risco nutricional e 35 (40,70%) apresentavam peso para idade com percentil <2,5. A figura 1 apresenta a distribuição das crianças conforme o peso para idade em percentil inicial e final. Quanto à estatura, 36 (41,86%) crianças tinham estatura para idade abaixo do percentil 5 e destas 30 (83,33%) pertenciam ao grupo que recuperou o estado nutricional e 6 (16,67) entraram em recuperação conforme critérios adotados. Observou-se que a recuperação nutricional, avaliando o índice peso para idade em percentil, ocorreu em 67 casos (77,91%) da amostra (figura 2). As crianças do estudo foram 39 (45,35%) do sexo masculino e 47 (54,65%) do sexo feminino; 63 (72,29%) eram de raça/cor branca e 23 (27,71%) de raça/cor negra; 36 (41,68%) tinham idade menor que 12 meses e 50 (58,14%) maior ou igual a 12 meses. A idade média das crianças foi de 13,5 meses. As mães tinham em média 26,98 anos e 1,59 filhos. No aspecto escolaridade, 73,26% tinham o primeiro grau completo, 20,93% segundo grau e apenas 5,81% não frequentaram a escola. A renda per capta das famílias das crianças do estudo era em média meio salário mínimo; mais da metade das mães trabalhavam e o pai das crianças estava presente na maioria das famílias. Constatou-se também que: 86,05 % das mães haviam realizado acompanhamento pré-natal, com mais de 5 consultas; 73,26% das crianças apresentaram peso adequado ao nascer e 26,74% dos casos tinham baixo peso quando nasceram; 45,35% das mães não amamentaram seus filhos; a vacinação das crianças estava completa em 70,93% das crianças; 69,77% das mães tinham fraco vínculo com seus filhos e a saúde mental foi considerada alterada em 51,16%. As morbidades apresentadas pelas crianças durante o período de acompanhamento foram: a anemia esteve 59 presente em 46,51%, a deficiência de ferro em 25,58%; a infecção respiratória em 67,44 % e na maioria das vezes apareceu associada com outras morbidades; a diarréia também foi constatada em 36,05%. A Tabela 1 apresenta as frequências das variáveis estudadas em relação ao grupo que recuperou o estado nutricional e o grupo em recuperação (modificou o estado nutricional positivamente, porém não atingiu peso para idade acima do percentil 10). Verificou-se que somente o peso ao nascer teve uma associação estatisticamente significante com o grupo em recuperação. Discussão: Castro, ao avaliar o impacto do programa “Leite é Saúde” na recuperação de crianças com desnutrição no Município do Rio de Janeiro, verificou que ele foi maior nos casos com déficit ponderal inicial mais intenso. A presença de fatores adversos como baixo peso ao nascer, doenças crônicas e a existência de irmãos pequenos não comprometeu o sucesso da intervenção12. Estudo semelhante sobre “recuperação nutricional de crianças com desnutrição e em risco nutricional em programa de suplementação alimentar, no Município de Mogi das Cruzes em São Paulo”, também obteve melhores resultados de recuperação nutricional nas crianças com maiores déficits nutricionais13. Outro estudo realizado em 190 crianças com desnutrição em situação de pobreza, atendidas por um programa de suplementação alimentar, observou que 83% se recuperaram da desnutrição e deste percentual, 59% recuperaram crescimento14. Taddei ao avaliar a eficácia da creche na recuperação nutricional de crianças pertencentes a famílias de baixa renda, constatou que o percentual de crianças em risco nutricional diminuiu de 29,8 para 15,2% ; a maior parte das reduções ocorreram entre o terceiro e quarto meses de frequência e concluiu que é esse o tempo necessário para que os benefícios sejam identificados15. Pelos critérios adotados neste estudo, verificou-se que 67 (77,91%) das crianças recuperaram o peso para idade e que 19 (22,09%) estavam em recuperação, no final dos 4 meses de seguimento. No grupo considerado em risco nutricional (percentil entre 2,5 e 10) a recuperação foi maior e ocorreu em 48 (94,12%) crianças, enquanto no grupo com peso baixo (percentil <2,5) apenas 19 (54,29%) crianças se recuperaram. O peso da criança no momento do nascimento reflete as condições de nutrição intra-uterina, considerado como determinante da sobrevivência infantil e estado nutricional. Uma pesquisa sobre baixo peso ao nascer realizada em Florianópolis em 2001 detectou uma taxa regional de baixo peso da ordem de 7,7%16. A análise, neste estudo, 59 60 Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 39, no. 3, de 2010 Recuperação nutricional em programa de suplementação alimentar infantil em Florianópolis. tinham o primeiro grau, 20,93% o segundo grau e 5,81% não frequentaram escola. O vínculo mãe-filho também constitui fator de grande importância para o crescimento e desenvolvimento adequados da criança19. Nóbrega relaciona indicadores que têm associação com a desnutrição e afirma que outras pesquisas nesta área podem ajudar a melhor entender os fatores associados à desnutrição e a combatê-la com eficácia19. Com relação a análise de vínculo mãe-filho neste estudo, observou-se que 60 casos (69,77%) apresentavam fraco vínculo. O SRQ-20 foi aplicado em 86 mães das crianças desnutridas avaliadas, para verificar a presença de saúde mental alterada. Obteve-se um total de 44 (51,16%) mães com transtornos mentais e 42 (48,84%) não apresentavam tais sintomas. Naquelas com saúde mental alterada, 36 (81,82%) pertenciam ao grupo de crianças recuperado nutricionalmente e apenas 8 (18,18%) ao grupo em recuperação, sendo que neste todas as crianças foram inicialmente classificadas como portadoras de desnutrição. Outro estudo de Nóbrega avaliou o IMC das mães de crianças com desnutrição internadas em hospital. O resultado apontou que 13,7% das mães apresentavam desnutrição e 84,7%, não; destas, 53,0% eram eutróficas e 33,3% tinham sobrepeso ou eram obesas, evidenciando que o alimento chega à mesa destas famílias22. Nesta pesquisa, a avaliação do IMC das mães das crianças com desnutrição constatou que 10,47% estavam desnutridas (IMC abaixo de 18,5kg/m2), 56,98% eutróficas e 32,55% apresentavam sobrepeso ou obesidade. Os resultados obtidos são semelhantes à pesquisa anteriormente citada22. Outro fator importante refere-se à morbidade. O síndrome diarréico é frequente e quando associado à má absorção intestinal, induz à desnutrição, permitindo outros episódios de infecções. Muitos investigadores relatam que as infecções no trato respiratório e gastrointestinal intervêm negativamente no estado nutricional. A associação desses eventos com o hábito cultural de oferecer menos alimentos às crianças doentes pode favorecer a desnutrição23. Ao analisar a morbidade, neste estudo, encontrou-se uma prevalência de diarréia associada a outras doenças de 40,70% e isolada de 36,05%. A infecção respiratória apareceu isoladamente em apenas 9,30% dos casos, indicando que está, na maioria dos casos, associada com outras morbidades, por isso foi realizado reagrupamento para análise, totalizando 76,74% de casos. Em um estudo realizado em 2008, Al-Mekhlafi et al afirma que a anemia também tem papel importante na desnutrição e seus valores de prevalência são similares tanto em países desenvolvidos, em suas respectivas áreas de pobreza, como naqueles em desenvolvimento24. do peso de nascimento mostrou que 63 (73,26%) crianças apresentavam peso adequado ao nascer e a grande maioria, 54 (85,71%), se recuperou. Ainda, 23 (26,74%) casos foram considerados baixo peso ao nascer e destes 13 (56,52%) se recuperaram e 10 (43,48%) estavam em recuperação. Verificou-se uma associação com significância estatística (p<0,05) entre baixo peso ao nascer e a dificuldade de recuperação nutricional. O aleitamento materno é reconhecidamente o alimento mais adequado para as crianças devendo ser o único até o sexto mês. Uma pesquisa realizada em Florianópolis, em menores de um ano de idade, revelou 46,3% de amamentação exclusiva nas menores de 4 meses17. Nesta investigação, quase a metade das mães 39 (45,35%) não amamentaram seus filhos; 14 (16,28%) os amamentaram somente no primeiro mês, 20 (23,26%) até o sexto mês e destas apenas 13 (15,12%) continuaram amamentando os filhos até 12 meses de idade. A insuficiência de renda é um dos componentes que explicam a situação de privação de grande parte das crianças no Brasil, sendo fator determinante de pobreza infantil. As crianças, por serem mais vulneráveis, têm inúmeros prejuízos e um deles está relacionado ao déficit do estado nutricional. A renda per capita observada neste estudo apontou um valor médio de R$103,58 reais. Esse valor é semelhante à renda per capita por domicílio, para áreas metropolitanas de 40% das famílias mais pobres em Santa Catarina.18. O atendimento pré-natal considerado adequado possibilita o diagnóstico precoce dos problemas de saúde e aumenta as chances de a mãe ter um filho sadio19. Nesta pesquisa, o percentual de recuperação nutricional foi discretamente maior naquelas que fizeram mais de cinco consultas, mas não houve associação estatística significante. A escolaridade materna é um dos critérios mais frequentemente utilizados para avaliar a qualidade do cuidado no grupo materno-infantil, estando relacionada diretamente ao processo saúde-doença. Segundo o PNDS 2006, a estratificação da população infantil conforme nível de escolaridade das mães indica que a prevalência de déficits de crescimento diminui acentuadamente, conforme aumentam os anos de estudo da mãe, variando de 16% entre filhos de mães sem nenhuma escolaridade a 2% entre filhos de mães com 12 ou mais anos de escolaridade 2,20. Educação materna, inteligência e estados depressivos podem influenciar na qualidade da alimentação infantil podendo levar a um quadro de desnutrição21. Em suas análises sobre o fraco vínculo mãe-filho, Nóbrega refere que a educação materna inadequada se exterioriza nas formas inadequadas de preparo dos alimentos, oferta incorreta e possibilidade de contaminação19. De acordo com o presente estudo, 73,26% das mães 60 Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 39, no. 3, de 2010 Recuperação nutricional em programa de suplementação alimentar infantil em Florianópolis. Segundo Michele, Jaber e Piera, 2008, a anemia causa prejuízos para o desenvolvimento cognitivo infantil25 especialmente para crianças menores de 5 anos de idade e a OMS afirma que mais da metade de crianças com idade inferior a quatro anos, em países em desenvolvimento, apresenta anemia24,25,26. A frequência de anemia, nesta pesquisa, foi superior aos trabalhos acima citados, devendo-se considerar que a população objeto desse estudo é de crianças com desnutrição ou em risco nutricional. A anemia apareceu isolada em 46,51% das crianças e, em 30,23% dos casos associada a outras morbidades. A recuperação nutricional não se associou estatisticamente com nenhum dos fatores estudos, com exceção do peso ao nascer, talvez porque o grupo de crianças avaliado tinha acesso garantido a consultas mensais. Do mesmo modo, toda vez que fosse detectado algum agravo havia garantia da assistência integral à saúde, ações estas que não foram objeto deste estudo, mas que podem ter contribuído para o resulto obtido, uma vez que houve excelente adesão ao tratamento e orientações recomendadas. 61 6. Abrantes MM, Goulart EM, Colosimo EA. Avaliação Nutricional com EPINFO 2004. Rev. Med. Minas Gerias 2005;15(2 Supl 3):S160-S233. 7. Marcondes E. Normas para o diagnóstico e a classificação dos distúrbios do crescimento e da nutrição. São Paulo, Pediatria(SP)4: 307-326, 1982 8. Nascimento CL, Falcone VM, Spada PV, Mader CVN, Nóbrega FJ. Características psicológicas de mães de crianças desnutridas e a relação com o vínculo mãe-filho. Disponível em: <www.sbnpe.com.br/revista/18-3/01.htm>. Acesso em: 16/07/05. 9. Mari JJ, Williams P. A validity study of a psychiatric screening questionnaire (SQR-20) in primary care in the city of São Paulo. Br J Psychiatry, 1986 Jan;148:23-6. 10. World Helth Organization. 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Conclusão: Ao final da pesquisa pode-se afirmar que a recuperação nutricional ocorreu em 67 casos (77,91%) da amostra e que 19 casos (22,09%) estavam em recuperação. Dos fatores estudados, sejam os relacionados ao cuidado materno ou à morbidade apresentada, somente o peso ao nascer indicou uma associação estatisticamente significante com a dificuldade de recuperação nutricional. Referências 1. Monteiro CA, Benicio MHA, Iunes RF, Gouveia NC, Cardoso MAA. Evolução da desnutrição infantil. In: Monteiro CA, editor. Velhos e novos males de saúde no Brasil. 2 ed. São Paulo: Hucitec; 2000. p.93-114. 2. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde - PNDS 2006. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/ pnds/index.php>. 3. Castro IRR, Anjos LA. Vigilância nutricional e morbidade de crianças menores de 5 anos numa unidade básica de saúde: análise da série histórica 1987-91. Cad Saúde Pública 1993; 9(1):36-45. 4. 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