MARCO VINÍCIUS DE SIQUEIRA CÔRTES
SOBRE O ESTATUTO DA NOÇÃO DE SUJEITO EM KANT
Projeto de mestrado apresentado ao
Departamento de Filosofia, do setor de Ciências
Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do
Paraná, para o processo de seleção, sob orientação do
Professor Dr. Marco Antônio Valentim
Curitiba, setembro de 2010.
I-Apresentação introdutória do tema:
Para Kant o argumento do qual Descartes extrai sua noção de sujeito, segundo a
qual o pensamento é tido como ato de um sujeito real, é paralogística. Ou seja, Kant
constrói silogismos que estabelecem a veracidade sobre a substancialidade do sujeito do
ponto de vista racionalista, porém tais silogismos são inferências falsas quanto à forma,
mas têm uma aparência de verdade. Kant argumenta que o termo “sujeito” (ser
pensante), tal qual é explicado na premissa menor: “Ora, um ser pensante, considerado
unicamente como tal, só pode ser pensado como sujeito”1(B411), é ambíguo. Qual é o
significado de um paralogismo, que mostra a falsidade da doutrina cartesiana, tal qual
fora construído por Kant? Significa mostrar a ambiguidade do termo “sujeito” no
paralogismo exposto por Kant, pois “sujeito” pode ser erroneamente tomado como
substância, enquanto substrato real como pretende Descartes.
Porém, para Kant, a consciência de si é uma unidade, que visa ordenar as
representações, e na medida em que isso ocorre estabelecemos uma conexão necessária
entre a consciência de si e o sujeito, pois sujeito não significa um substrato real, mas
sim o princípio de uma conexão necessária de representações. Assim toda representação
está necessariamente submetida a uma regra, e tal regra posta pelo sujeito oferece o que
é preciso para termos, não o conhecimento do sujeito, mas sim algo que nos permite
submeter o que é dado a uma “unidade originária”, que é a própria consciência de si.
Descartes pretendia, erroneamente segundo Kant, extrair da proposição “Eu
penso, logo existo”2 os alicerces do que ele, Kant, chama de uma doutrina racional da
alma. Tal doutrina racional pretende conhecer alguns aspectos da alma, que dizem
respeito à sua substancialidade e à sua imortalidade, tal como ressalta Kant. Pode-se
dizer que Descartes teve a pretensão de fundamentar uma ciência, porém se enredou na
“armadilha” de juízos analíticos que não consideram a experiência, e estabeleceu por
conceitos a verdade, o que é para Kant uma ilusão inevitável. Tal ilusão segundo Kant,
que estabelece por meros conceitos um critério de verdade, tem um fundamento na
natureza da razão humana, na medida em que desconsidera a experiência e procura por
1
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
2
DESCARTES, René. Discurso do Método, Meditações, Objeções e respostas. Introdução de Gilles-Gaston Granger,
prefácio e notas de Gérard Lebrun, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. 3ª. ed. São Paulo: Abril Cultural
(Os Pensadores), 1983.
meros conceitos alcançar um conhecimento válido. Porém Kant não rejeita
completamente a proposição cartesiana, mas a toma em um sentido distinto, pois
assume a proposição “eu penso” como fundamento da sua análise do sujeito e dá uma
conotação bastante diversa a essa proposição, quando diz: “O „eu penso‟ deve poder
acompanhar todas as minhas representações”3(B132).
Cumpre examinar qual é precisamente o conteúdo da crítica de Kant a Descartes,
que nos ajuda a entender o papel exercido pela proposição “eu penso” em Kant, e a
partir disso, estabelecer o estatuto da noção de sujeito em sua filosofia. Tal estatuto, da
proposição “eu penso” em Kant, é tomada pelos comentários, e pelo próprio Kant, não
univocamente, mas sim em acepção distinta. Explicar dois possíveis sentidos,
excludentes entre si, da proposição “eu penso” é nosso principal objetivo, e, a melhor
maneira de fazê-lo é recorrendo à noção de existência que subjaz à proposição “eu
penso”. Consistem as duas interpretações em um sentido ontológico e lógico-formal
como veremos a seguir.
No parágrafo (§25) da Dedução Transcendental, momento que procede a
Dedução Metafísica, Kant toma a proposição “Eu penso”, como ato de uma
“existência”, que lhe é inerente. Tal proposição já fora anteriormente tomada, no
parágrafo (§16) da Dedução metafísica, como aquela noção que segundo Kant: “deve
poder acompanhar todas as minhas representações” 4(B132). Há uma aderência entre a
proposição “Eu penso”, na medida em que exprime o ato da existência, e o conjunto das
nossas representações, na medida em que são intuições puras ou empíricas.
Nesses contextos, da Dedução Transcendental e da Dedução Metafísica,
podemos entender a proposição “Eu penso” sob um duplo aspecto. Como proposição
“lógico-formal”, ou seja, destituída de qualquer elemento empírico ou objetivo, e
portanto, não condizente com aquilo que Martin Heidegger chama de um “sentido
ontológico”. E podemos entender que há uma “necessidade ontológica” na proposição
“Eu penso”, pois, ela implicitamente faria uma referência necessária a uma modalidade
de ser que não pode ser considerada uma condição lógico-formal contingente. O ato da
proposição “Eu penso” expressa, segundo Raul Landim Filho, a consciência de si e é
anunciada por Kant, no parágrafo §(25), nos seguintes termos:
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
“O „eu penso‟ exprime o ato de determinar minha existência. A existência é pois, assim,
já dada, mas não ainda a maneira pela qual devo determiná-la, isto é, por em mim o
diverso que lhe pertence. Para tal requer-se uma intuição de si mesmo, que tem por
fundamento uma forma dada a priori, isto é, o tempo, que é sensível e pertence à
receptividade do determinável.”(B158)5
Nessa proposição, extraída da Dedução Transcendental, vemos uma ligação
necessária entre, por um lado, a condição lógico-formal e, por outro, a forma do sentido
interno ou o “tempo” como intuição formal a priori. Nessa proposição aparece aquilo
que Kant vai denominar de “Esquema transcendental”, que segundo o mesmo, é assim
definido: “É claro que tem de haver um terceiro termo, que deva ser por um lado,
homogêneo à categoria e, por outro, ao fenômeno e que permita a aplicação do primeiro
ao segundo”(B177)6. Kant define esse terceiro termo como “imaginação”, porém, não
vamos nos deter nesse termo agora. Tal definição de “Esquema transcendental” permite
que deixemos mais claro a interpretação defendida por Heidegger.
Basicamente Heidegger quer mostrar que Kant compreende o “eu” do juízo “eu
penso” de forma inadequada, pois o concebe como ontológico na medida em que é “a
mesmidade e a constância de algo já sempre simplesmente dado” (pág 404)7, segundo
Heidegger. Podemos dizer que algo “ser simplesmente dado” significa aos olhos de
Heidegger, que Kant deu ao eu uma posição fundamental, no processo do conhecimento
do mundo, e por isso esse eu permaneceu ontologicamente inadequado, ou seja, Kant
não conseguiu ultrapassar o eu como realidade da “res cogitans”, tal como se dá em
Descartes, pois, há como pressuposto no seu projeto crítico uma subjetividade
irrevogável.
Porém, podemos mostrar a partir da consideração sobre o juízo “Eu penso”, tal
como aparece no §25 da Dedução Transcendental, uma possibilidade de leitura, que
segundo Raul Landim Filho é diferente do que Kant entende por consciência sensível,
5
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
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HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução revisada e apresentação de Marcia Sá Cavalcante Schuback, posfácio
de Emmanuel Carneiro Leão. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.
ou sentido interno. E também difere do conhecimento de si, que por sua vez requer
intuições e conceitos, ou ainda, que o sentido interno (intuição sensível) esteja
relacionado ao ato de pensar (num sentido lógico do termo “pensar”). Landim procura
mostrar no texto, “Do eu penso cartesiano ao eu penso kantiano”, que o juízo “eu
penso” deve ser entendido no (§25) da Dedução Transcendental como uma condição
lógico-formal e corrobora tal posição a partir de trechos selecionados dos Paralogismos
da Razão Pura, e ainda de uma interpretação, bem particular, do sentido do termo
existir.
Tais leituras são inconciliáveis entre si por darem sentidos distintos ao juízo “eu
penso”. Pois se Heidegger por um lado, dá ao termo “existir”, um sentido ontológico
(transcendental), quando se relaciona ao sujeito kantiano, há também outra
interpretação, que defende a não-aderência do termo existir à categoria esquematizada,
ou ainda, encontra um sentido lógico-categorial para o termo existir pautando-se no
sentido originário de “ser” como “posição relativa”, ou seja, como a forma da cópula do
juízo S é P, por exemplo.
A pergunta é: Por qual sentido do termo existir temos de optar? Lógicocategorial ou esquematizado no sentido transcendental? Precisamos examinar com mais
detalhe como Heidegger chega a definir, a noção de existência em Kant, como
esquematizada, e ainda, de que maneira isso faz de Kant um “refém” da ontologia.
Devemos examinar tais questões sem deixar de lado o sentido de ontologia em Kant,
pois, é preciso considerar esse termo para entender a crítica de Heidegger, e por outro
lado, a leitura de Landim que permite libertar o idealismo transcendental kantiano
levando-o a máxima radicalização, enquanto projeto crítico.
Resumidamente quero esclarecer qual é a controvérsia sobre o sentido do juízo
“eu penso”, a partir da consideração sobre o sentido implícito do termo ser, presente em
Kant (na sua variante como existência), e interpretado por Landim, e tomado
posteriormente por Heidegger. Porém, tal esclarecimento deve se dar à luz de uma
compreensão prévia da crítica que Kant dirige a Descartes no primeiro paralogismo da
razão pura. Pois é a partir dessa crítica, que incide sobre a substancialidade do sujeito
pensante, que podemos estabelecer qualquer vínculo ou diferença entre o juízo “eu
penso”, na sua forma kantiana ou cartesiana, e mostrar como foi interpretado
posteriormente tal juízo.
II- Objetivo:
Primeiro se trata de uma explicação da crítica que Kant dirige a Descartes no
primeiro paralogismo da razão pura, e depois queremos mostrar que há duas leituras
possíveis sobre o juízo “eu penso” em Kant, que consistem numa determinação lógicoconceitual, que procura mostrar a coerência da sua tese, a partir de um sentido
específico do termo existência, que o toma como uma posição relativa do termo ser, ou
seja, a mera forma da cópula de um juízo S é P, por exemplo. Onde o sentido de “é” não
ultrapassa o de justapor um sujeito e um predicado, divergindo assim de uma posição
absoluta, que toma o termo ser como existir, não apenas logicamente, mas também
esquematicamente, ou ainda, objetivamente.
A leitura de Heidegger traduz, em termos ontológicos, aquilo que Landim
pretende que seja uma forma meramente lógica. Tal leitura é fundada em uma
compreensão da indissociável ligação entre a forma lógica, admitida por Heidegger, do
juízo “eu penso”, que segundo Kant: “deve poder acompanhar todas as minhas
representações” (B132)8, mas que porém conserva uma ontologia, na medida em que
não consegue se desvencilhar do “ser simplesmente dado”, que é a relação que o próprio
Kant assume quando fala do juízo “eu penso” como posição subjetiva irrevogável e
ainda relacionada com nossas representações.
Nossa hipótese aqui é a de que a elucidação de tal questão deve se feita à luz de
uma explicação sobre o significado do termo “ser” para Kant, pois é isso que
fundamenta a leitura de Landim e também a de Heidegger. Assim, Landim traduz em
termos lógicos e Heidegger em termos ontológicos (quando relacionado ao sujeito), o
mesmo termo “ser”. Essa tradução do termo é a principal questão, pois se tivermos com
clareza o seu significado, conseguiremos mostrar qual sentido da proposição “eu penso”
é mais coerente.
III – Justificativa teórica e desenvolvimento:
Queremos assim, como condição para elucidar o sentido do “eu penso” em Kant,
mostrar a crítica que Kant dirige a Descartes, no “Primeiro Paralogismo da Razão
Pura”, onde Kant mostra como Descartes cai em uma ilusão inevitável ao procurar
conhecer aspectos referentes à alma tal como sua substancialidade. Considerar tal crítica
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
significa mostrar duas fundações distintas, com relação à teoria do conhecimento, ou
seja, Kant aposta que os juízos sintéticos a priori são um bom critério para o
conhecimento, por outro lado, acusa os filósofos dogmáticos, notadamente Descartes,
de considerar que o conhecimento se dá por meros conceitos, ou seja, por juízos
analíticos.
Descartes, ao considerar que o sujeito tem um substrato substancial que lhe é
inerente, acaba por tomar um juízo analítico, a proposição “Eu penso”, por um juízo
sintético, que obedece ao critério kantiano de verdade. O juízo “Eu penso” não pode,
aos olhos de Kant, ser considerado conhecimento, por se tratar de uma forma lógicocategorial, ou seja, não constitui as duas fontes necessárias para haver conhecimento,
intuições e conceitos, mas só uma delas (conceitos). Porém, tal leitura, da proposição
“Eu penso” em Kant não é a única, pois há uma interpretação que se faz a partir da
noção de existência em Kant, que procura mostrar que o juízo “Eu penso” em Kant traz,
mesmo que implicitamente, um conhecimento, pois já haveria nessa noção de existência
um juízo sintético. Tal leitura se fundamenta no fato de Kant declarar que o juízo “Eu
penso” determina a existência, e assim Kant não conseguiria se desvencilhar de uma
posição metafísico-cartesiana fundamental, e ainda seria reincidente no paralogismo que
pretende criticar. Qual posição é mais plausível de ser tomada? É o que procuraremos
explicitar nesse projeto. Para isso, vamos ver tal trecho da Crítica da Razão Pura, que a
primeira vista corrobora a leitura lógico-conceitual da proposição “eu penso”:
“Não podemos dar-lhe outro fundamento que não seja a representação eu, representação
simples e, por si só, totalmente vazia de conteúdo, da qual nem sequer se pode dizer que
seja um conceito e que é apenas uma mera consciência que acompanha todos os
conceitos”(B404)9.
Podemos perguntar para Kant: Dar a quem tal representação do eu vazia de
conteúdo? Para Kant tal representação deve ser dada à pretensão dos filósofos
dogmáticos, que pretenderam conhecer a partir dessa unidade lógica “eu” aspectos
referentes à alma, tais como sua substancialidade, por exemplo. E quiseram com isso
que tal unidade lógica, anunciada por Kant, fosse passível de conhecimento, enquanto
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
Kant a considera um dos elementos que possibilitam o conhecimento, porém não o
único. Podemos dizer que na primeira proposição Kant dá ao termo “eu” uma
característica pura e destituída de qualquer conteúdo, ou seja, é uma forma lógica
simples que é contingente por sua natureza. Ou seja, trata-se de um termo que por ser
usado, sem qualquer propriedade que lhe seja subjacente tem a característica de ser uma
mera consciência que acompanha todos os conceitos. Quais argumentos se têm para
dizer que Kant traz, implicitamente, uma posição metafísica fundamental? Já falamos
disso na introdução e retomaremos isso mais adiante.
Antes disso cumpre mostrar que recorrendo ao texto de Kant, quando se fala do
juízo “eu penso”, não encontramos uma noção unívoca desse termo, pois ele parece ser,
ora empiricamente determinado, envolvendo uma intuição interna, como na frase: “essa
proposição é empírica e só contém a determinabilidade da minha existência
relativamente as minhas representações no tempo”(B420), ou seja, o tempo é, como
uma forma da intuição pura a priori, condição de possibilidade do juízo “eu penso”. Ora
parece exprimir a consciência de si, que não envolve nem o sentido interno ou o estado
de nós mesmos na forma pura do tempo, enquanto intuição interna. E não envolve um
conhecimento de si, que por sua vez, requer dois elementos, a saber: intuições e
conceitos. Landim mostra a plausibilidade da leitura que considera que a consciência de
si, exprime a “condição da unidade dos atos do pensamento”, ou seja, não necessita de
algo que lhe seja subjacente, e é por isso, meramente lógica. O que nos dá aval para tal
leitura, é uma interpretação do termo existência em Kant, que não pode ser submetido a
um esquema transcendental, é tido como uma forma lógica do tipo “S é P”, na medida
em que essa forma de ser (é) serve somente para justapor dois elementos, a saber, um
sujeito e um predicado.
Porém, podemos perguntar: E se tomarmos o sentido de “eu penso”, tal qual
aparece na proposição que envolve uma intuição empírica, ou seja, uma referência
necessária ao sentido interno? Podemos levar adiante a leitura de Landim? Passaremos
agora para outra possível interpretação.
III-1- Sobre a leitura de Heidegger
Heidegger, por sua vez, não nega que Kant tenha avançado ao afirmar a
proposição “eu penso” como uma estrutura lógica, porém, ele não concorda que tal
proposição seja obtida por via lógica, pois: “O eu, ao contrário, é o sujeito da atitude
lógica, qual seja, da combinação. O „eu penso‟ significa: eu combino.” ( pág 403)10 Tal
combinação é o atrelamento necessário do termo eu, com uma representação que lhe
seja subjacente, que por sua vez não significa uma estrutura meramente lógica, mas sim,
no caso de Kant, a relação necessária entre a atitude lógica e as representações.
Pode-se ter uma estranheza inicial, ao considerar a crítica de Heidegger a Kant,
e tal estranheza tem origem na possível reincidência de Kant no sujeito substancial que,
o próprio Kant, quer criticar quando constrói os paralogismos. Assim, quando
Heidegger dá ao sujeito kantiano um estatuto de “subjectum”, ele considera tal sujeito
ontologicamente determinado. Ser ontologicamente determinado significa que Kant dá
um passo decisivo ao substituir uma ontologia que pretendia conhecer as coisas-em-simesmas (alma), por uma analítica dos conceitos, que por sua vez, se limita a nos
oferecer regras para ordenar as intuições. Porém Kant não consegue, mesmo com uma
analítica dos conceitos, se desvencilhar de uma posição cartesiana fundamental, que se
dá na afirmação da própria existência e, portanto, permanece na mesma perspectiva
sobre a qual se fundamentou a filosofia cartesiana, ou seja, em uma filosofia da
subjetividade.
Heidegger, porém, justifica sua tese não negando o estatuto lógico do sujeito,
mas sim, mostrando que o sujeito é sujeito da atitude lógica e, portanto, traz junto de si
uma combinação necessária. Tal questão, em Heidegger, deve ser esclarecida com a
interpretação que Heidegger dá ao termo ser em Kant.
III- 2 – Sobre a análise lógica da proposição “eu penso”
Raul Landim Filho prepara a análise lógica do juízo “eu penso” recorrendo a
um sentido negativo e outro positivo, respectivamente. O sentido negativo consiste em
diferir, por um lado, da consciência sensível e, por outro, do conhecimento de si, uma
vez que ambas exigem uma intuição subjacente ao “eu penso”.
Positivamente podemos corroborar a posição defendida por Landim com as
seguintes passagens de Kant, quando se refere ao juízo “eu penso”: “Facilmente se vê
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HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução revisada e apresentação de Marcia Sá Cavalcante Schuback,
posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São
Francisco, 2007.
que esse conceito é o veículo de todos os conceitos em geral,”(B399) 11. E ainda, Kant
diz: “serve somente para representar todo pensamento como pertencente à consciência”
(B400)12. Com tais afirmações, de Kant, vemos a não necessidade de aderência entre,
por um lado, o juízo “eu penso”, e por outro, as nossas representações, pois tomamos tal
juízo como forma lógica contingente.
Porém, Landim se vê às voltas com uma proposição de Kant que anunciei no
início da introdução, para dar um aval à sua leitura da proposição “eu penso”. Tal
proposição diz que a consciência de si “expressa o ato de determinar a minha
existência”. E Landim faz a seguinte pergunta: “Mas, será possível considerar a
existência como dada através de um ato exclusivo do entendimento?” 13(pág 284).
Tal qual na interpretação de Heidegger, aqui se deve recorrer ao significado
mais próximo do termo existência, para clarear tal questão. Pois Landim vê a
possibilidade de se interpretar o sujeito contendo um “substrato real”, ou seja, contendo
aquilo que Kant pretende criticar nos filósofos dogmáticos. E tal interpretação se dá
quando se assume como esquematizada, e conferindo realidade de um objeto o termo
existência.
III – 3 – Sobre as duas leituras possíveis.
Consideramos a crítica que Kant dirige a Descartes, no primeiro Paralogismo da
razão pura, onde Kant mostra a não possibilidade de conhecer aspectos referentes à
alma como sua substancialidade, por exemplo. Indicamos que, tal crítica, se dá a luz da
consideração específica que Kant dá ao juízo “eu penso”, diferindo por isso de
Descartes. Porém consideramos também que tal juízo “eu penso”, não se dá
univocamente em Kant, pois parece ser passível de interpretações distintas dependendo
de qual trecho da Crítica da razão Pura que se utiliza e por qual sentido do termo “ser”
se opta. Tal sentido de ser é a base da discussão sobre qual incide a noção kantiana de
11
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
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KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
13
LANDIM FILHO, Raul. “Do Eu penso cartesiano ao Eu penso kantiano”. In: LANDIM FILHO, R.
sujeito. Pois, tanto Landim, quanto Heidegger, discutem a princípio o sentido de ser
originário em Kant para defender suas interpretações do juízo “eu penso”, em Kant.
Vimos também que tal discussão não pode ser empreendida, sem uma
compreensão prévia da crítica que Kant dirige a Descartes, no primeiro paralogismo da
razão pura. Pois é nesse momento que em Kant emerge, na sua completude, o sentido da
noção de sujeito. Assim, tenho como hipótese que a leitura do juízo “eu penso”, em
Kant, se dá a partir de uma compreensão prévia sobre o sentido de ser na filosofia
crítica, e a relevância de tal assunto se mostra quando Heidegger e Landim retomam tal
questão a partir do sentido de ser.
IV- Bibliografia principal:
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Alexandre Fradique Morujão e
Manuela Pinto dos Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
DESCARTES, René. Meditações, Objeções e respostas. Introdução de Gilles-Gaston
Granger, prefácio e notas de Gérard Lebrun, tradução de J. Guinsburg e Bento Prado
Júnior. 3ª. ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1983.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução revisada e apresentação de Marcia Sá
Cavalcante Schuback, posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes;
Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.
HEIDEGGER, Martin. A tese de Kant sobre o ser. Trad. Ernildo Stein.1° Ed.São Paulo:
Abril Cultural ( Os Pensadores), 1973.
V- Bibliografia secundária:
LANDIM FILHO, Raul. “Do Eu penso cartesiano ao Eu penso kantiano”. In: LANDIM
FILHO, R. Questões disputadas de metafísica e de crítica do conhecimento. São Paulo:
Discurso Editorial, 2009.
LONGUENESSE, Beatrice. “Cogito kantien et cogito cartésien”. In: FICHANT, M.,
MARION, J.-L. Descartes en Kant. Paris: Presses Universitaires de France, 2005.
CAYGILL, Howard. Dicionário Kant; tradução, Álvaro Cabral; revisão técnica, Valério
Rohden.- Rio de Janeiro:Jorge Zahar Ed., 2000.(Dicionário de Filósofos)
LONGUENESSE, Beatrice. Kant and the capacity to judge. Princeton: Princeton
university press.2000.
ALMEIDA, Guido Antônio de. Kant e o “escândalo da filosofia”.In: Kant no Brasil /
Daniel Omar Perez (org.). – São Paulo: Editora Escuta, 2005.
ALMEIDA, Guido Antônio de. Conciência de si e conhecimento objetivo na “Dedução
Transcendental” da “Crítica da Razão Pura”. In: Analytica: revista de filosofia. - vol.1,
n°.1 – Rio de Janeiro: UFRJ. Seminário de Filosofia da linguagem, 1993.
LEVY, Lia. O autômato Espiritual: A subjetividade moderna segundo a Ética de
Espinosa. Porto Alegre: L & PM editora, ano: 2005.
FRANKFURT, Harry G. Descartes‟s Discussion of his Existence in the Second
Meditation. In: The Philosophical Review, Vol. 75, N°03.( Jul.,1966), pp.329-356.
LOPES, Christiane. Kant an the bounds of psychology. In: Studia kantiana. São Paulo:
Revista da sociedade Kant brasileira. Vol 4, N° I, 2002.
DAVID-MÉNARD, Monique. A loucura na razão pura- Kant, leitor de Swedenborg/
Monique David- Ménard; tradução de Heloisa B.S. Rocha – 280 p. ( Coleção TRANS)
HATFIELD, Gary. Psicologia empírica, racional e transcendental: A psicologia como
ciência e como filosofia. In: Kant / Paul Guyer ( org ) ; tradução Cassiano Terra
Rodrigues. – Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2009. ( Coleção Companions &
Companions).
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