A FORMAÇÃO DA CULTURA TECNOLÓGICA E O PAPEL DA
EDUCAÇÃO
Vilma Vitor Cruz
Elena Mabel Brutten
Doutoras em Educação
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
O estudo acerca da cultura tecnológica, nos remete aos estudos sobre as transformações
que ocorrem na base de produção material e nos impactos que estas provocam na dinâmica das
relações sociais. Assim, para se compreender melhor a questão, faz-se necessário que o estudo
remonte épocas, estruturas políticas, econômicas e sociais, na qual surgem e se desenvolvem as
tecnologias. A pesquisa que ora realizamos sobre a cultura tecnológica e a educação, privilegia a
discussão sobre a absorção das linguagens, processos e procedimentos tecnológicos aplicados à
educação, de maneira que possamos levantar subsídios para impulsionar a produção cientifica na
área educativa, na perspectiva de contribuir para a discussão sobre a concepção dos professores
e alunos acerca dos métodos e técnicas de ensino , mais compatível com as exigências da
sociedade regida pelos objetos técnicos e tecnológicos.
Discutir educação e cultura tecnológica é discutir a transformação de hábitos e valores da
tradição cultural da população frente aos hábitos e valores advindos com a lógica formal e a
racionalidade dos processos técnicos e tecnológicos embutidos nos objetos técnicos e/ou
tecnológicos, que se manipula cotidianamente na sociedade em geral e particularmente no
contexto escolar. O ponto de partida para essa análise, situa-se na disparidade existente entre os
padrões de desenvolvimento econômico e de educação formal dos países técnica e
tecnologicamente desenvolvida e os países em via de desenvolvimento.
A importação de tecnologias dos países centrais pelos países periféricos, implica na
adoção de ritmos de vida e de formas de produção da existência, assim como de produção da
ciência compatíveis com o ritmo que os processos e os sistemas tecnológicos imprime.
Discussão essa que via de regra é permeada de ambigüidades, pois as estruturas modernas das
sociedades desenvolvidas não só vêem o mundo tecnológico como dado, mutável mais infalível,
concepção e imagem que é utilizada para vender os processos, as máquinas e os sistemas
operacionais, como remédio para todos os males, da erradicação do analfabetismo à pobreza eles
operaram com eficácia e eficiência.
A tecnologia e seus processos, assumem assim, uma condição social que ultrapassa as
suas reais possibilidades de dar respostas aos graves problemas sócios - políticos, educacionais e
culturais ais acumulados ao longo da formação histórica das sociedades. Nessa perspectiva os
dados parciais da pesquisa revelam que: Mesmo estando no nordeste do Brasil, região
economicamente pouco desenvolvida e culturalmente ligada às tradições agrárias, o ritmo de
vida está cada dia mais acelerado e as pessoas dizem que uma das vantagens do uso das
máquinas é a liberação do tempo. O que significa dizer, que mesmo estando numa realidade que
até bem pouco tempo era constituída por uma população analfabeta e a atividade principal de
trabalho era para subsistência, a lógica da sociedade dos letrados, endienraidos e consumidores
em potencial de uma cultura refinada como teatro, cinema, opera dentre outras (sociedade do
tempo livre), já se encontra entre nós.
Ora a base dessa estrutura não é outra senão a criação e difusão da informação por
diferentes canais, como então essa população, que até bem pouco tempo tinha como única forma
de passagem de informação a oralidade está sendo incorporada a essa lógica? Segundo os dados
que dispomos a televisão transformou-se na principal fonte de aquisição de informação, seguido
do sistema de som, do rádio e a internet em escala inferior, todos os entrevistados têem
consciência da importância de entrar na engrenagem dessa nova onda. De onde vem então as
informações que imprime essa necessidade e como elas são diluídas na sociedade?
A cultura tradicionalmente foi definida como valores imersos na sociedade resultado de
ações coletivas dos indivíduos, contrariando assim os pressupostos psicológicos que tratam os
indivíduos como: unidade isolada nos seus próprios pensamentos e ações. Goldman no seu
estudo dialética e cultura, diz que o pressuposto do sujeito como unidade absoluta é falso, pois
“quase nenhuma ação humana tem por sujeito um indivíduo isolado”, (1) para nós no entanto,
outra questão deve ser acrescida a esta discussão que é a da cultura definida em função da sua
organização, das estruturas políticas e das relações econômicas.
Assim nos conduzimos na direção dos rumos que rege a sociedade, se ela é concebida
como uma estrutura fechada, imutável, conservadora dos hábitos e valores, a cultura vai ser
vista como um meio importante de manutenção desta estrutura, mesmo que isto de fato não
ocorra, exercendo assim na ótica de alguns teóricos uma função de reprodução. Se a sociedade é
vista de forma aberta,ousada, arrojada nas decisões políticas e sociais, a cultura vai ser vista na
sua dinâmica criativa e transformadora, se realiza sob a ótica dos princípios democráticos,
portanto acessível a um número significativo de pessoas. Neste contexto, a cultura funcionará
como um canal de expressão livre dos indivíduos e dos grupos sociais.
Desta forma, compreendemos que as análises da cultura desvinculadas da dinâmica
social, das decisões políticas e do modo como se produz à existência, não nos permite ver a
ciência como um dos suportes mais eficazes do desenvolvimento econômico e em última
instância transformadora da sociedade. Assim assumimos uma postura de análise meramente
sócio-histórica para situar a cultura tecnológica que hoje permeia o sistema educacional e a
conjuntura que permitiu a sua evolução em diferentes etapas da sua formação.
As sociedades que até bem pouco tempo chamávamos de modernas, hoje são chamadas
de tecnológicas ou de pós-modernas. Estas são assim chamadas por caracterizam-se pelos
avanços Científicos; econômicos; sociais; políticos; culturais e educacionais; nas transformações
e nos processos de produção; na organização das estruturas de trabalho, permitindo assim que as
transformações socias ocorressem naquilo que afligiam as populações como: a precariedade e
/ou ausência de trabalho, fome, deficiência e/ou falta de moradia e orientação educacional a
crianças, jovens e adultos.
Entendemos que o avanço no plano econômico e nas questões sociais por extensão,
deveu-se fundamentalmente ao desenvolvimento da tanto da ciência fundamental como da
aplicada em todos os ramos do conhecimento. Avanço que por vezes nos deixa a impressão que
o homem esgotou as fontes de exploração da natureza e do próprio homem, esgotamento que
levou a criação de um outro mundo, o imaginário, mantendo-se contudo as velhas bases de
exploração do trabalho e das relações humanas, apenas acrescentaram-se alguns meios de
intermediação, que por si só dão o tom de complexidade dessa nova era. O que isto significa em
termos de mudança social-cultural? Isso muda radicalmente as formas dos homens conceberem
o mundo, o trabalho e as relações entre si, mudam também as configurações sociais e o fazer
cultural, vejamos como isto se dá.
Comecemos pela análise da importação de tecnologias. Aqui podemos afirmar que
qualquer perspectiva de se estudar, analisar, trabalhar ou mesmo de assumir politicamente uma
decisão de importar tal ou qual tecnologia, implica numa decisão que certamente repercuterá nas
relações de trabalho e por extensão no ambiente social como um todo. Para tanto, deve-se ter um
certo domínio dos princípios culturais onde os aparelhos ou instrumentos serão alocados, sob
pena de sermos irresponsáveis com a sociedade na qual vivemos, pois em vez de soluções,
somaremos aos problemas já existentes tantos outros problemas. Aqui gostaria de chamar
atenção para nossa entrada no processo de global da economia e na utilização massiva das
tecnologias da comunicação de massa e da instrução. Entramos nessa era com problemas que de
tão repetitivos já são considerados crônicos, temos as fibras óticas, as redes veloz da
informática, mas nos faltam ainda as redes de esgoto, de saneamento básico, de eletricidade, de
educação e saúde com qualidade, de solidariedade e seriedade política, fato que outras
sociedades já conseguiram bem ou mal avançar; então digo grotescamente que estamos tentando
entrar na rede da virtualidade sem termos entrado na rede do real.
Essa constatação leva-nos a questionarmos enfim o que são as redes? Ironicamente são
redes que conduzem água, eletricidade, saneamento, saúde, conhecimento e sabedoria, não?
Então o que fazer com os excluídos desse processo, e os novos analfainfos? Esses que estão fora
como é que vão ficar por dentro desse processo? Situa-se aí uma das nossas preocupações, dado
ao fato de nessa analise tratarmos da cultura. Ora se a concebemos não como coisa do
individual, mas como resultado do esforço individual traduzido no coletivo, aumentamos nossos
questionamentos tentando saber como então se produz a cultura tecnológica desconhecendo esse
conjunto? Sobra então uma guerra entre as estruturas antigas e novas de expressão e produção
da cultura, formas rudimentares e simples de expressão não encontram espaço ao lado da
sofisticação dos novos processos de expressão e produção da existência.
Para os mais cépticos a imposição de formas e padronização cultural é a norma resta
saber qual a resposta de uma realidade que não comporta essas inovações? Aí nós precisamos
compreender como é que essas questões se colocam e como é que elas vão ser analisadas a luz
das contradições desse mesmo processo. O primeiro ponto que eu coloco para analise é a
dualidade entre a cultura vista como cultura erudita em oposição a cultura popular, então nos
reportamos ao fato da televisões, por exemplo, ter de forma generalizada reduzido os espaços
das poucas coisas que se fazia de maneira refinada, erudita. Não é porque a televisão perdeu
aquela conotação, ela apenas criou outros mecanismos, o público consumidor dessa estrutura foi
transferido para as televisões a cabo. E o restante? Ficou vendo a televisão convencional que
hoje não se agüenta ver, então se fica com as estórias do ratinho, do leãozinho, santinhos e
bruxas travestidas de fada madrinha não? Por que então para este público só isto é oferecido?
Será que não existe outra alternativa?
Então esse confronto, essa dualidade ela continua presente, nós é que de certa forma a
perdemos de vista. A discussão sobre isso ficou numa esfera meramente técnica, agora interessa
mais como entrar e sair da rede, do site, como se comunicar com A e com Z, quando na
realidade o importante não é essa questão técnica, mas é o que estar sendo colocado como
informação para alimentar esse sistema; essa nos parece ser a grande questão. Discussão essa
que necessariamente passa pela dualidade entre a cultura erudita e a cultura popular. A Segunda
coisa é que pra ir por esse caminho é necessário remontar algumas questões que são de ordem
político-social e econômica, dado ao fato dessas culturas se formarem dentro de estruturas
sociais determinadas por componentes políticos que permitem que elas se produzam,
reproduzam e se transformem. Daí ao falarmos de tecnologias, falarmos também do contexto
onde elas se desenvolvem.
Então numa globalidade, onde não existe fronteira, onde as especificidades culturais são
vistas como exóticas, onde o particular, o diferente deve ser relegado, entrar na rede mundial
talvez seja um bom negócio, internet para os países onde as pessoas já estão habituadas a
conviverem com a solidão talvez seja uma saída, mas para as pessoas que vivem ainda na
camaradagem das relações primárias, familiares e dos grupos de convivência é no mínimo
preocupante essa incorporação repentina. Então essas especificidades precisam ser
compreendidas. Essa história dos impactos tecnológicos hoje nos remete para observações de
situações corriqueiras e da dimensão que elas podem tomar do ponto de vista cultural, tomemos
como exemplo a vedete do momento o microondas, imaginemos uma feijoada para 30, 40, 50
pessoas feita no forno microondas, não conhecemos forno microondas com essa capacidade,
estou falando de tamanho mesmo, como seria feito uma panelada, uma buchada no forno
microondas? Até para esquentar não dá, mesmo que esteja congelada não dá pra esquentar, até
porque são pratos típicos e feitos para quantidades enormes de pessoas, então isso entra na
especificidade da vida cotidiana do povo brasileiro. Para alterar essa especificidade é só colocar
a noção de praticidade da culinária que vem com o hambúrguer americano, as massas Italianas,
os frios e as pastas francesas e por aí vai. A norma é apressar a vida, facilitar as trocas.
Assim a cultura tecnológica não pode ser discutida no vazio e nem tão pouco numa
globalidade, ela tem que ser discutida nos espaços determinados de sua absorção cultural, seja
como produtor e/ou importador de tecnologia, ela se insere em um espaço determinado e em um
tempo, reflete-se portanto nos comportamentos que com elas interagem. Via de regras essas
discussões são permeadas de ambigüidades porque elas desconhecem esse processo, então
vamos democratizar o microondas, o celular, vamos democratizar tudo para todo mundo.
Acreditamos que o acesso o acesso a essas coisas são importantes, mas não descartamos uma
discussão sobre o seu uso e sua utilidade, meio pelo qual saberemos se não passam de
desperdício.
Se democratizar certamente uma multidão vai entrar, então a questão passa a ser outra,
está democratizado o acesso e a informação? Está democratizado comprar, e as possibilidades de
crescer dentro deste sistema de forma utilitária? Então está aí a grande questão, a que isso vai
servir? Onde queremos chegar com esse tipo de utilização? Quais são os pontos a serem
estabelecidos entre os indivíduos e essa parafernália? Neste ponto podemos concluir que essas
diferenciações vão impulsionar as concepções de ciência, do desenvolvimento cientifico que vai
permitir as possibilidades tecnológicas cumprirem um papel mais afinado com a cultura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBER, Bejamim R. Djihad Versus McWord. Título Original em Inglês, Pela tradução
Francesa Desclée de Brouwer, Paris 1996.
CRUZ, Vilma Vitor. Rationalité technologique et la modernization de l’éducation: le cas du
Brésil. Université de Caen / França, tese de doutorado, fev. 1998.
JAMESON, Fredric. A Cultura do Dinheiro. Ensaios sobre a globalização. Editora Vozes.
Petrópolis. 2001.
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