1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE UNIDADE ACADÊMICA DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUAGEM E ENSINO VALCÊMIA FREIRE MONTEIRO CAMPINA GRANDE - PB 2011 2 Valcêmia Freire Monteiro POESIA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA: estudo de poemas e vivência em sala de aula Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em linguagem e ensino, da área de literatura e ensino da Universidade Federal de Campina Grande como requisito para obtenção do título de mestre em Letras, sob a orientação da profa. Dra. Maria Marta dos Santos Silva Nóbrega CAMPINA GRANDE 2011 3 FOLHA DE APROVAÇÃO ___________________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Marta dos Santos Silva Nóbrega (Orientadora) UFCG Prof. Dr. José Hélder Pinheiro Alves (examinador) UFCG Profa. Dra. Francisca Zuleide Duarte de Souza (examinadora) UEPB Fevereiro de 2011 4 RESUMO A reflexão sobre as obras literárias produzidas em língua portuguesa nos países africanos, com grande atenção para o lugar que a literatura ocupa na constituição da vida nacional, vem sendo amadurecida ao longo das últimas décadas por um número cada vez mais expressivo de estudiosos brasileiros. Os trabalhos realizados atestam o interesse crescente pelo tema, muito embora os projetos nessa área ainda se vejam dispersos, o que tem dificultado bastante a circulação de dados e a discussão de ideias em torno dos problemas que a atividade literária suscita. Reflexo dessa situação é a quase, para não dizer completa, invisibilidade de estudos voltados para a contribuição africana na cultura brasileira e, mais especificamente, no contexto de ensino. Esta pesquisa discute a poesia africana de língua portuguesa e a vivência da leitura de poemas africanos de língua portuguesa em sala de aula. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa, pelo fato de ter havido a inserção ativa da pesquisadora na comunidade escolar, colhendo dados a partir de entrevistas, questionários, visita à biblioteca e observação participante. Quanto ao método de abordagem do texto literário utilizado para a coleta dos dados, utilizamos o recepcional de ensino, no qual provocamos situações que propiciaram o questionamento do horizonte de expectativas dos alunos. A análise foi subsidiada com base nos referenciais teóricos de Abdala Júnior e Paschoalin (1985), Abdala Júnior (2006), Augel (2007), Bernd (1987), Candido (2005), Bosi (1993) e (1996), Chaves (2006), Gomes (2006), Laban (2006), Margarido (1980), Mariano (1991), Martin (2007), Mata (1993), Remédios (2007), Serrano e Waldman (2008) e outros, que nos permitiram compreender o peso das mutações sociais, políticas e culturais no âmbito dessa poesia. Os resultados apontam para uma espécie de consciência política visto que, após a leitura dos textos, o desejo da turma é combater o racismo e os estereótipos em torno do continente africano através da valorização de seus povos, de sua cultura e do conhecimento de sua literatura. Diante do exposto, percebe-se que a pesquisa baseada em torno dos temas preferenciais dos alunos parece ser metodologicamente a mais recomendada, pois desperta o interesse deles e abre caminhos para questionamentos, debates e reflexões. Palavras-chave: leitura literária, poesia africana, ensino de poemas 5 ABSTRACT The reflection on the literary works produced in Portuguese language in the African countries, with great attention for the place that the literature occupies in the constitution of the national life, it has been matured along the last decades by a more and more expressive number of Brazilian specialists. The accomplished works attest the growing interest for the theme, although the projects in that area are still dispersed, what has been hindering plenty the circulation of data and the discussion of ideas around the problems that the literary activity raises. Reflex of that situation is almost, for not saying a complete invisibility of addressed studies for the African contribution in the Brazilian culture and more specifically in teaching context. This research discusses the African poetry of Portuguese language and the existence of the reading of African poems of Portuguese language in classroom. From the methodological point of view, it is treated of a qualitative research, for the fact of the activate insertion of the researcher in the school community, collecting data based on interviews, questionnaires, visits to the library and participant observation. In relation to the method of approach of the literary text used for the collection of the data, we used the teaching recepcional, which provoked situations that propitiated the questioning of the horizon of the students' expectations. The analysis was subsidized with base in theoretical referential of Abdala Júnior and Paschoalin(1985), Abdala Júnior (2006), Augel (2007), Bernd (1987), Candido (2005), Bosi (1993) e (1996), Chaves (2006), Gomes (2006), Laban (2006), Margarido (1980), Mariano (1991), Martin (2007), Mata (1993), Remédios (2007), Serrano and Waldman (2008) and other, which allowed us to understand the importance of the social mutations, politics and cultural in the extent of that poetry. The results appear for a type of political conscience seen that, after the texts reading, the desire of the group is to combat the racism and the stereotypes around the African continent through the valorization of their people, of their culture and the knowledge of their literature. After that, it is noticed that the research which is based on the students' preferential themes seems to be the most methodologically recommended, because it arouse their interest and open ways for questionings, debates and reflections. Keywords: literary reading, African poetry, teaching of poems 6 AGRADECIMENTOS A minha orientadora, Profa. Dra. Maria Marta dos Santos Silva Nóbrega, pela sensibilidade e paciência na condução deste trabalho. À CAPES, pelo apoio financeiro, fundamental para viabilizar a existência desta pesquisa. Em especial à professora Dra. Francisca Zuleide Duarte de Souza pela alegria, carinho e empréstimo de livros preciosos sobre literatura africana. Seus livros e sugestões de leituras teóricas e procedimentos analíticos foram substanciais para o desenvolvimento dessa pesquisa. Ao professor Dr. José Hélder Pinheiro Alves, pelas contribuições apresentadas por ocasião do exame de qualificação. À secretaria da POSLE, pela cordialidade no atendimento. Aos alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Major Veneziano Vital do Rêgo e a professora Maria Anunciada de Brito Leal, que acolheram com carinho a nossa proposta e os poemas que lhes apresentamos. À minha mãe, Maria Cícera Freire, que sempre me fez acreditar que conseguiria. À Nadja Pereira Laurentino pelo toque especial na preparação dos slides. Ao amigo, Marcelo Medeiros da Silva, que me auxiliou na construção do projeto e compartilhou suas experiências de vida e de leitura. A todos que direta e indiretamente participaram desta trajetória acadêmica, especialmente ao meu amor Wellington Lopes dos Santos, pelo carinho, apoio e envio de energias positivas nesses momentos tão importantes. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO..........................................................................................................09 1. ALGUMAS PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE A LEITURA LITERÁRIA, LEITURA DE POESIA E POESIA NEGRA .............................................................15 1.1. A formação do leitor competente....................................................................16 1.2. A estética da recepção e o método recepcional na leitura literária.............18 1.3. A leitura de poesia em sala de aula.................................................................22 1.4.Poesia negra e resistência...............................................................................26 1.5. O estudo da literatura africana a partir da Lei 10.639/03 ..............................29 2. POESIA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA: estudo e análise de poemas...............................................................................................................33 2. 1. O drama e o desassossego do mar na poesia do Cabo Verde...................39 2. 2. Da alienação à afirmação identitária.............................................................43 2. 3.Saudosismo e a importância da oralidade e da infância como aprendizado ...................................................................................................................................61 2. 4. A opressão colonial.........................................................................................68 2. 5.O despertar do desejo: amor, denúncia e emancipação feminina...............76 2. 6. A África Mãe......................................................................................................83 2. 7. A luta armada e o desespero da separação...................................................87 2. 8. Vínculos e complementos entre África e Brasil............................................89 3. INTERAGINDO COM POEMAS AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA NA ESCOLA....................................................................................................................96 3.1.Inserindo-se no universo dos estudantes: a observação participante e a visita à biblioteca ....................................................................................................97 3.2.A entrevista com a professora .......................................................................101 3.3. Em busca das preferências dos alunos: a aplicação do questionário......103 3.4 .A seleção dos poemas e o planejamento dos encontros...........................105 3.5.Preconceito racial, abuso de poder e a conquista de autonomia e respeito..................................................................................................................106 3.6. O amor e o poder da fala...............................................................................113 3.7.A escravidão e o desejo de uma vida digna.................................................122 8 3.8. A infância: descoberta do sobrenatural e o aprendizado para a vida......135 3.9. A Guerra.......................................................................................................141 3.10. A Mãe-África...............................................................................................145 3.11.Avaliando a experiência ............................................................................149 CONCLUSÃO.....................................................................................................155 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................159 ANEXOS..............................................................................................................164 ANEXOS DAS ATIVIDADES DOCUMENTOS 9 INTRODUÇÃO A cultura africana, apesar de estar na base de nossa formação cultural, em decorrência de uma série de fatores ideológicos, durante muito tempo, segundo Dantas (2007, p.09) foi recalcada pela política colonizadora. As sequelas oriundas desse processo culminam com uma espécie de esquecimento de nossas raízes afro. De acordo com Dantas (2007), ao longo dos últimos anos surgiu uma série de reivindicações de agentes culturais ligados ou não aos movimentos negros, os quais encontraram respaldo na Lei 10.639, sancionada em 09 de Janeiro de 2003. Essa lei estabelece que os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e História Brasileiras, no ensino fundamental e médio. A Lei 10.639/03 visa, exatamente, “ao resgate das nossas raízes africanas para melhor compreensão da identidade cultural brasileira, já que conhecer a História e a Cultura Africanas é, sem dúvida, aprofundar o conhecimento de nós mesmos” (DANTAS, 2007, p.10). Com isso, a leitura dos textos africanos de Língua Portuguesa corresponde, portanto, a uma viagem em torno de uma grande diversidade cultural, percorrendo cenas imaginárias em espaços poéticos ainda pouco navegados por nós. Por isso, torna-se imprescindível construirmos um olhar crítico sobre o horizonte multicultural africano. Amâncio (2008) acredita que é fundamental a insistência nas condições de produção dos aspectos socioculturais africanos “para que não se perca de vista o fato de que, em África, a oralidade se apresenta como uma característica essencial” (AMÂNCIO, 2008, p.42). Todavia, destaca a autora, essa essencialidade oral não exclui outros sistemas de registro como, por exemplo, a escrita. Como uma dominante africana, a oralidade manifesta-se principalmente através das relações com o outro, em atividades manuais ou intelectuais, nos gestos, nos ritmos, enfim, nas mais diversas atitudes individuais ou coletivas. Acreditamos que o estudo relativo à literatura da África de língua portuguesa permite que alunos e professores compartilhem do universo, da vida e da sociedade africana, conhecendo o modo africano de compreender as coisas, seus comportamentos, suas atividades manuais e intelectuais, bem como as relações que 10 certos povos africanos tem com a natureza, com seus antepassados e suas práticas tradicionais no plano da oralidade. Essa nova visão sobre a África, além de cumprir com o que determina a Lei 10.639/2003, contribuirá para dar visibilidade às tradições africanas, além de possibilitar a elevação da autoestima do alunado negro, de forma a abrir-lhe espaço para uma vivência escolar que o respeite como sujeito de uma história de valor, que é também a do povo brasileiro. Devido à existência de várias possibilidades de articulações relativas à implantação da Lei 10.639/03, não há como abordá-los todos em um único momento, por isso destacamos, em especial, um dos caminhos possíveis para a efetivação da referida Lei no cotidiano escolar a partir da leitura de poemas africanos de língua portuguesa. O estudo da poesia africana de língua portuguesa torna-se relevante pois, além de colaborar para que os alunos desenvolvam sua sensibilidade com relação ao texto poético, contribuirá também para a formação de sua identidade, através da compreensão da linguagem literária como representação da experiência humana. Partindo da importância do contexto social, Alfredo Margarido (1980) acredita que “a poesia não surge do nada, não é afirmação etérea, antes se radica num determinado contexto social. Quer dizer que a obra se nos apresenta como a expressão da relação existente entre um sujeito individual e um objeto, nesse caso constituído pelo mundo social e natural que o engloba”. (MARGARIDO, 1980, p.505). Para o autor, qualquer poema há de ser marcado pela opção a que o seu autor procedeu em relação aos valores e categorias intelectuais da sociedade de que faz parte. Segundo esse autor, se o poema surgir como uma afirmação independente e autosuficiente, constatamos, nele, a ação de um indivíduo que direta ou indiretamente se refere ao conjunto de relações inter-humanas, dos quais o autor não pode se divorciar. O observador apressado pode decidir que “a obra, o poema” são acima de tudo manifestações individuais, sem nenhuma relação com a estrutura do grupo a que o poeta pertence e muito menos à sociedade global que determina a cultura particular onde se radica esse mesmo poeta. É tudo ilusão. O poema e o poeta, acredita Margarido (1980), estão diretamente ligados à ação coletiva, pois “o poeta é um ente que age, que pertence a uma sociedade que ele pensa e sobre a qual age” (MARGARIDO, 1980, p.505). Theodor Adorno (2003) apresenta a mesma concepção ao afirmar que um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Para Adorno (2003, p.66), “qualquer obra de arte só se 11 torna artística quando conquistam sua participação no universal, por isso só entende o que o poema diz aquele que escuta na sua solidão a voz da humanidade”. Para o trabalho com os poemas africanos de língua portuguesa em sala de aula, propusemos, então, os seguintes objetivos: 1) Abordar a poesia africana em sala de aula; 2) Verificar a recepção dos alunos a partir da leitura desses poemas; 3) Realizar uma experiência de leitura de poesia africana de língua portuguesa com alunos do nono ano, de uma escola pública no município de Campina Grande. Como o público-alvo da nossa pesquisa é composto por alunos de rede pública de ensino, nos propusemos em realizar uma pesquisa de natureza qualitativa e quantitativa. É qualitativa por conter os mais variados métodos de pesquisa como entrevista, observação participante e aplicação de questionário. E quantitativa porque necessitou de meios quantificáveis, como os índices de atração dos alunos pelos poemas, a fim de estabelecer a frequência das ocorrências e nada melhor que a estatística para auxiliar nesse intento. Sendo uma pesquisa de natureza qualitativa incluímos também um planejamento de delimitação dos objetivos pretendidos inserindo-se no rol da pesquisa-ação. A Pesquisa-ação, conforme Chizzotti (2008), se inicia com o planejamento ou projeto a partir da ideia global de uma situação problema ou de um objetivo que se quer alcançar. Como a delimitação do objetivo e o meio de alcançá-lo nem sempre são muito claros, é preciso, quando necessário, recorrermos a essa vertente teórica para buscar maiores informações sobre o problema que se quer resolver ou sobre o objetivo que se pretende atingir, para se chegar à identificação ou descoberta do fato, quando então se define a natureza do problema e as finalidades de ação, a fim de que o agir tenha uma base objetiva e eficaz para que os agentes obtenham resultados satisfatórios. Quanto ao método a ser empregado em nossa pesquisa, utilizamos o recepcional de ensino que se funda na atitude participativa do aluno em contato com os diferentes textos. De acordo com Bordini e Aguiar (1988), partindo do horizonte de expectativa do grupo, o professor provoca situações que propiciem o questionamento desse horizonte, oferecendo diferentes leituras que, por se oporem às experiências anteriores, problematizam o aluno, incitando-o a refletir e instaurando a mudança através de um processo contínuo. O sucesso desse método é assegurado na medida em que seus objetivos em relação ao aluno sejam alcançados. 12 Nessa perspectiva, a pesquisadora foi a campo para desenvolver o seu projeto, trabalhando diretamente com a comunidade escolar. Para isso, os dados da pesquisa foram coletados dentro do programa escolar. Para o trabalho em sala de aula foram escolhidos poemas contidos em três corpus consultados: textos poéticos africanos de língua portuguesa e afro-brasileiros, Literaturas africanas e afrobrasileira na prática pedagógica e a antologia intitulada 50 poetas africanos: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. As atividades foram desenvolvidas através de sete encontros nos quais traçamos os seguintes procedimentos metodológicos: 1) Aplicação de questionários visando descobrir as preferências de leitura dos alunos e seus conhecimentos sobre a cultura africana; 2) Leitura de poemas africanos de língua portuguesa, com a observação da recepção dos alunos, dando espaço para que eles se expressem livremente; 3) Solicitação de registros escritos e desenhos, de modo a avaliar a compreensão dos poemas pelos alunos. Para a abertura do nosso encontro escolhemos o poema “Essa negra fulô” do poeta Jorge de Lima, seguido dos seguintes poemas de autores africanos: “Canção do Mestiço” (Francisco José Tenreiro – São Tomé e Príncipe); “Namoro” (Viriato da Cruz – Angola); “Carta dum contratado” (Antonio Jacinto – Angola); “Monangamba” (António Jacinto – Angola); “Serão do Menino” (Viriato da Cruz – Angola); “Reza, Maria!” (José Craveirinha – Moçambique); “Negra” (Noémia de Sousa – Moçambique); “Chuva em Cabo Verde” (Ovídio Martins – Cabo Verde) e “O último adeus dum combatente” (Vasco Cabral – Guiné-Bissau). Com esses poemas, pretendíamos que os alunos percebessem peculiaridades da cultura africana, tais como: a oralidade, a opressão colonial, a discriminação racial, a afirmação da identidade e a presença de elementos da natureza. A dissertação encontra-se dividida em três capítulos: o primeiro retoma conceitos sobre a leitura literária, leitura de poesia e algumas considerações sobre a poesia negra. Para nortear nossa experiência de leitura recorremos às orientações de Colomer (2007), Freire (1982) e Zilberman (2008), incluindo também uma metodologia de trabalho que libere a obra das amarras a que a escola a condenou, a partir do universo teórico da estética da recepção, formulado por Jauss (1994) tendo como base o método recepcional de ensino, de acordo com Bordini e Aguiar (1988) e Zilberman (2005). A respeito da leitura de poesia enfatizamos a importância de se trabalhar com textos poéticos, recorrendo às orientações iniciais de Averbuck (1996) 13 e Pinheiro (2007), visto que esses autores apontam aspectos essenciais para introdução do texto poético em sala de aula. Por ser uma poesia que se coloca como resposta à repressão cultural e colonial, recorremos ainda às orientações de Bosi (1993) e Zilá Bernd (1987), cujas considerações sobre a poesia desencadeiam um processo de resistência e construção identitária. Para encerrar o capítulo destacamos a importância da Lei 10.639/03 e o estudo da literatura africana de acordo com as reflexões de Silva (2007). O segundo capítulo é dedicado ao estudo de alguns poemas africanos de língua portuguesa. Inicialmente realizamos uma abordagem sobre a poesia africana, mostrando que essa poesia está inserida no quadro de resistência e luta pela libertação política de seus países e de afirmação de uma cultura própria, que contribuiu para que os problemas das massas populares fossem assumidos pelos núcleos de leitores em situação de ruptura com a escravidão. Após essas abordagens, percorremos o universo literário dessa poesia com base nos seguintes temas: 1) O drama e o desassossego do mar na poesia do Cabo Verde; 2) Da alienação à afirmação identitária; 3) Saudosismo e a importância da oralidade e da infância como aprendizado; 4) A opressão colonial; 5) O despertar do desejo: amor, denúncia e emancipação feminina; 6) A África mãe; 7) A luta armada e o desespero da separação e 8) Vínculos e complementos entre África e Brasil. Na construção desse capítulo utilizamos as orientações de Amâncio (2008), Augel (2007), Chaves (2006), Gomes (2006), Abdala Júnior e Paschoalim (1985), Abdala Júnior (2006), Laban (2006), Margarido (1980), Martin (2007) Mata (1993), Remédios (2007), Secco (2006), Serrano e Waldman (2008) e outros, os quais nos possibilitaram compreender as peculiaridades dessa poesia diante do impacto da realidade. No terceiro e último capítulo apresentamos o relato da nossa experiência intitulada “Interagindo com poemas africanos de língua portuguesa na escola”, experimento realizado com os alunos do nono ano, aos quais já fizemos referência. O experimento foi precedido pela coleta de informações através de dois questionários a fim de identificarmos o universo de leitura dos alunos e o conhecimento deles acerca da cultura africana na escola. Utilizamos a observação participante como formas de abordagem do trabalho de campo, no qual a coleta de dados foi realizada a partir da verificação da recepção dos alunos diante da leitura dos poemas escolhidos, dando espaço para que eles se expressassem livremente. A aplicação de atividades a partir de registros escritos também objetivou a coleta de 14 dados. Dentre os autores mencionados neste capítulo, destacamos Amâncio (2008), Bosi (1996), Candido (2005), Serrano e Waldman (2008), Spina (2002), entre outros. Como a antologia trabalhada com a turma continha poemas variados das cinco nações africanas de língua portuguesa, pretendíamos verificar se os alunos identificariam aspectos estéticos e socioculturais entre os poemas, proporcionando a eles uma experiência que suscitasse emoção e reflexão acerca da cultura africana através da leitura da poesia. 15 1 – ALGUMAS PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE LEITURA LITERÁRIA, LEITURA DE POESIA E POESIA NEGRA A capacidade de enriquecer nossas experiências e organizar nosso mundo interior justifica a presença do texto literário no currículo escolar. Para Iser (Apud ZILBERMAN, 2008), a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona a fantasia, colocando frente a frente dois imaginários e dois tipos de vivência interior ( do texto e do leitor), mas também suscita um posicionamento intelectual, uma vez que o mundo representado no texto, mesmo afastado no tempo ou diferenciado enquanto invenção, produz uma modalidade de reconhecimento no leitor. Logo, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado da rotina, leva o leitor a refletir sobre seu cotidiano e a incorporar novas experiências. Nesse sentido, a leitura do texto literário permite ao indivíduo penetrar no âmbito da alteridade, sem perder de vista sua subjetividade e história. Zilberman (2008) acredita que o leitor não esquece suas próprias dimensões, mas expande as fronteiras do desconhecido, que absorve através da imaginação e as decifra por meio do intelecto. Isso ocorre porque a leitura estimula o diálogo, por meio do qual se trocam resultados e confrontam-se gostos. Mesmo que a leitura seja realizada individualmente, para a autora ela tem o poder de aproximar as pessoas colocandoas em condições de igualdade. Dessa forma, “o exercício da leitura é o ponto de partida para o acercamento à literatura (Zilberman, 2008, p.54)” e quando esse exercício é realizado em sala de aula, devido ao caráter emancipador da literatura, pode libertar o leitor dos constrangimentos e da rotina cotidiana. Isso ocorre porque a percepção do leitor é ampliada, o que favorece a descoberta de novos modos de experimentar a realidade ou propor alternativas para ela. Infere-se, pois, que a literatura adquire outro sentido educativo, talvez não o que responde a intenções de alguns grupos, mas o que auxilia o leitor a ter outras alternativas de compreender a si e ao mundo em que está inserido. A sobrevivência da escola enquanto instituição, conforme Zilberman (2008), não depende do fato de se adequar às necessidades das camadas dominantes, mas de posicionar-se na vanguarda dos fatos históricos, solidarizando-se aos seus usuários e servindo-lhes de veículo para manifestação pessoal e para sua 16 autoafirmação. Como o ensino de literatura está atrelado à leitura, o desafio da escola é ensinar mais do que “literatura” e sim ensinar a “ler literatura”. 1.1 –A formação do leitor competente Diferentes abordagens acerca da leitura literária têm priorizado a formação do leitor competente. Jouve (2002) define esse tipo de leitor como aquele que sabe “construir um sentido” nas obras lidas. E, para fazê-lo, deve desenvolver uma competência específica e possuir alguns conhecimentos determinados que tornem possível sua interpretação no seio de uma cultura. Para Colomer (2007), é através desse valor formativo do leitor que se pode afirmar que o principal objetivo da leitura literária é contribuir para a formação da pessoa. Um tipo de formação que aparece ligada indissoluvelmente à construção da sociabilidade e realizada através da confrontação com textos que explicitam a forma em que as gerações anteriores e as contemporâneas abordaram a avaliação da atividade humana através da linguagem. Colomer (2007) acredita que o confronto com textos literários distintos oferece ao aluno a oportunidade de enfrentar a diversidade social e cultural, pois o mundo passa por profundas transformações, o que resulta na descentralização do indivíduo de forma que este não é visto como um produto da consciência individual, mas como um processo, sempre em perpétua construção, contraditório e aberto a mudanças. Desse modo, os grandes questionamentos realizados no século XX resultaram em novos caminhos de exploração do mundo, criando novas tendências para se refletir acerca da literatura que é dirigida aos nossos alunos. Logo, a formação de um leitor competente pressupõe, inicialmente, a de cidadãos preparados para enfrentar a época atual, gerida por uma espécie de diálogo entre o indivíduo e a cultura. Por outro lado, a formação do leitor literário, segundo Colomer (2007), também está no fato de oferecer um tempo de prática leitora na sala de aula ou na biblioteca escolar para que os alunos exercitem as habilidades de rapidez, concentração, autocontrole, etc, implicadas no ato da leitura. Outra alternativa que a autora considera interessante é a leitura autônoma, (o ler sozinho) continuada, silenciosa, de gratificação imediata e livre, escolha que é imprescindível para o desenvolvimento das competências leitoras. Essa forma de leitura também 17 possibilita aos alunos a formação de sua autoimagem como leitores, aprendendo a avaliar antecipadamente os livros, a criar expectativas, a arriscar-se a selecionar, acostumando-se a abandonar um livro que decepciona e a levar emprestado aquele que lhe parece atraente. A leitura autônoma, mesmo sendo uma prática satisfatória, ainda não será suficiente para o desenvolvimento da competência leitora, posto que acontece de maneira isolada. É importante, pois, o compartilhamento com outros leitores, de modo que seja possível experimentar a literatura em sua dimensão socializadora, em que os sujeitos se sintam participantes de uma comunidade de leitores com referências e cumplicidades mútuas. Aceitar a leitura literária como uma atividade socializadora exige pensar alternativas de expandir essa prática na escola através de múltiplas atividades, que permitam a interação e conferência com outros tipos de aprendizado. Para o sucesso dessa etapa, deve existir uma espécie de acordo escolar em que os saberes referentes tanto ao funcionamento interno do texto quanto às suas relações com diferentes tipos de contextos e sistemas artísticos e culturais, sejam apresentados de maneira que dialoguem com as experiências do leitor dentro e fora do contexto da sala de aula. Enfim, para se formar um leitor competente, é importante que a escola considere esses procedimentos para que, no final, o aluno atinja o objetivo pretendido que será: “ler as obras com a intenção específica de aumentar a capacidade de interpretá-las” (COLOMER, 2007, p.179). A abordagem de obras literárias em contexto de ensino com vistas ao desenvolvimento da competência leitora, segundo Colomer (2007), é uma prática considerada como a mais difícil e problemática. Exige, sobretudo, que o professor conduza os alunos oferecendo informações imprescindíveis para que eles possam vencer as dificuldades encontradas na construção de sentido para a obra. Diante do exposto, não se pode formar um leitor competente apenas com a leitura de um único livro. A tarefa do professor é, pois, proporcionar aos alunos o maior número de leituras possíveis, mas com o devido cuidado, visto que faz-se necessário atentar para as especificidades de cada texto. A esse respeito, Paulo Freire (1982) alerta: A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a serem compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita. Visão que urge ser superada. A mesma, ainda que encarada desde outro ângulo, que se encontra, por 18 exemplo, em que escreve, quando identifica a possível qualidade de seu trabalho, ou não, com a quantidade de páginas escritas. (FREIRE, 1982, p.19). Neste sentido, o aproveitamento que um aluno terá em um texto, depende das suas leituras anteriores. Essas leituras não são apenas das obras que ele leu, mas também da leitura que fez de sua vida. Por isso, é preciso priorizar um maior número de leituras, para que através da interlocução do aluno com o texto, seja possível um maior número de informações. Além do trabalho do professor é preciso que o aluno faça o seu próprio mergulho através do diálogo com o texto/autor. Por fim, ler não é apenas apreender o que se está lendo, mas, e principalmente sobre si mesmo. Desse modo, a leitura competente deve ser entendida como aquela que implica em aprendizagem, cujo princípio fundamental é a subjetividade do leitor, desenvolvida quando ele se aceita como um sujeito que ora perde, ora refaz, ora ganha sua identidade no confronto com o texto. Por fim, podemos considerar que o leitor competente é aquele capaz de dialogar com novos textos, posicionando-se de forma crítica e criativa diante deles, através de um processo interativo que envolve compreensão, interpretação e aplicação. 1.2 – A estética da recepção e o método recepcional na leitura literária A estética da recepção, corrente crítica literária liderada por Hans Robert Jauss (1994) e delineada pela Escola de Constança, concebe a recepção, segundo Aguiar (2008), como uma concretização pertinente a estrutura da obra, tanto no momento de sua produção como de sua leitura que pode ser estudada esteticamente. Desse modo, a estética da recepção prioriza a função ativa e criadora do leitor como primeiro destinatário da obra literária. A noção de concretização, segundo Bordini e Aguiar (1988), é derivada dos trabalhos do polonês Roman Ingarden, na década de 30, e do tcheco Felix Vodička na década de 40. De acordo com as autoras, Ingarden considerava que a obra literária é uma estrutura linguístico-imaginária permeada de pontos de indeterminação e de esquemas potenciais de impressões sensoriais os quais, no ato da criação ou da 19 leitura, são preenchidos e atualizados, transformando o que era trabalho artístico do criador em objeto estético do leitor. Na década de 70, as idéias de Ingarden e Vodička foram reformuladas por teóricos que passaram a entender o processo de concretização como a interação do leitor com o texto. Nesse processo, o texto atua como pauta e tudo o que não é compreendido, a princípio, vai criando vazios, que forçam o leitor a interferir criadoramente nele, a dialogar com ele, de igual para igual, num ato de comunicação legítimo. Isso significa que, com a leitura não há uma situação face-a-face, pois o leitor nunca pode saber se suas apreensões sobre o texto são realmente precisas, porque não há quadro de referências que governe a relação entre o texto e o leitor. Bordini e Aguiar (1988) garantem que, apesar de a obra literária oferecer pistas para o leitor, ela deixa muitos espaços em branco em que ele não encontra orientação e para continuar o contato com a obra precisa mobilizar o seu imaginário. No universo da estética da recepção, o primeiro pressuposto colocado por Jauss (1994) é o de que a historicidade da literatura depende do diálogo da obra literária com seus leitores. Segundo Aguiar (2008) as diferentes atualizações do texto pelo leitor modificam o texto literário e esse processo de produção e recepção estética determina a história da literatura. Nesse caso, a obra permanece viva enquanto pode se relacionar com o leitor. Sua medida de aceitação é denominada de “horizonte de expectativas, formado a partir da tradição do gênero, da forma e matéria das obras anteriores conhecidas e da oposição entre as linguagens poética e prática” (AGUIAR, 2008, p. 19). Esse horizonte de expectativas, conforme Jauss (1994) é o sistema de referências que resulta do conhecimento prévio que o leitor possui do gênero, da forma, da temática das obras já conhecidas/lidas e da oposição entre as linguagens poética e pragmática. O horizonte de expectativas reside, pois, na consciência individual como um saber que se constrói no social (AGUIAR, 2008). Zilberman (2005) compreende o horizonte de expectativas como integrante de um processo emancipatório que, durante o momento de leitura literária, o leitor precisa liberar a obra das amarras que a escola a condenou. É o que se denomina “salvação” da obra de arte, possível de ser obtida se a atividade de interpretação (a hermenêutica) recuperar o elemento emancipatório do texto. Dessa forma, a “emancipação”, segundo Zilberman (2005) é a palavra-chave no universo teórico da estética da recepção, em particular de Hans Robert Jauss. Por isso a literatura se 20 produz em nome dela, cujo efeito “compete à emancipação da humanidade de suas amarras naturais, religiosas e sociais” (ZILBERMAN, 2005, p. 82). Esse papel emancipatório é consequência de uma experiência da leitura, que segundo Jauss (Apud Zilberman, 2005) pode libertar o leitor de adaptações, prejuízos e apertos de sua vida prática, obrigando-o a uma nova percepção das coisas. Logo, garante Zilberman (2005) que o horizonte de expectativas da literatura distingue-se do horizonte de expectativas da vida prática histórica, porque não só conserva experiências passadas, mas também antecipa a possibilidade irrealizada, alarga o campo limitado do comportamento social com novos desejos, aspirações e objetivos e com isso, abre caminho à experiência futura. Mas, para que ocorra o atendimento desse horizonte de expectativas através do qual autor/leitor concebam e interpretem a obra, é preciso segundo Zilberman (Apud por Bordini e Aguiar, 1988) que sejam considerados fatores de ordem social, intelectual, ideológica, linguística e literária, acrescentando-se ainda aqueles de ordem afetiva, que para a autora provocam adesões ou rejeições dos demais. Dessa forma, no ato da produção/recepção, a fusão de horizontes de expectativas se dá obrigatoriamente, pois as expectativas do autor se traduzem no texto e as do leitor são a ele transferidas; nessa relação de troca, o texto é que se torna o campo em que esses dois horizontes podem identificar-se ou estranhar-se. Assim, a valorização das obras pelo leitor se dá a medida em que, em termos temáticos e formais, elas produzem alteração ou expansão do seu horizonte de expectativas por se oporem às convenções conhecidas ou já aceitas por ele. Para Bordini e Aguiar (1988), a obra literária é perene enquanto consegue contribuir para o alargamento dos horizontes de expectativas de leitores de sucessivas épocas. Nesse caso, o processo de recepção só se completa quando o leitor, após ter comparado a obra emancipatória com a tradição e os elementos de sua cultura e seu tempo, a inclui ou não como componente de seu horizonte de expectativas mantendo esse horizonte como era, ou preparando-o para novas leituras da mesma ordem, para novas experiências de ruptura com os esquemas estabelecidos. Quanto mais leitura um leitor tiver, maior será a propensão para a modificação de seus horizontes. Bordini e Aguiar (1988) propuseram a transferência dos pressupostos teóricos da estética da recepção para a prática escolar da leitura literária. Entendendo que o fenômeno literário é compreendido a partir da ótica do leitor, 21 como ser atuante do processo, as autoras formularam um método de ensino fundado na atitude participativa do aluno em contato com os diferentes textos, denominado de método recepcional. Para aplicar esse método, segundo as autoras, o professor parte do horizonte de expectativas do grupo, verificando seus interesses, suas vivências anteriores e provocando situações que propiciem o questionamento desse horizonte. A fim de evitar o distanciamento do aluno, uma vez que haverá uma revisão crítica do seu comportamento, Bordini e Aguiar (1988) sugerem “a oferta pelo professor de diferentes leituras que, por se oporem as experiências anteriores problematizam o aluno incitando-o a refletir e instaurando a mudança através de um processo contínuo” (BORDINI E AGUIAR, 1988, p. 85). Como o aluno é um ser social, a sua transformação acarretará a alteração do comportamento de todo o grupo, atingindo a escola e a comunidade. O processo de recepção textual implica a participação ativa e criativa daquele que lê. Diferentes tipos de textos e de leitores interagem de modos imensamente variados. O aluno, ao entrar em contato com o texto, traz consigo toda a sua bagagem de experiências linguísticas e sociais, que deve ser acionada a partir das provocações e lacunas que a obra lhe propõe. A obra, por ser uma estrutura organizada de sentidos possíveis, permite ao leitor uma interação direcionada na qual ele reconhece os significados que lhe são familiares ou enfrenta os desconhecidos, mas com indicações que o auxiliam a aceitar ou pelo menos criticar o novo e ao mesmo tempo situar esse novo em relação ao que já aceita ou passa a rejeitar. Priorizando as transformações do horizonte de expectativas dos alunos, principais alvos do método recepcional de ensino de literatura, Bordini e Aguiar (1988) planejaram cinco etapas para a aplicação desse método que são: determinação do horizonte de expectativas, atendimento, ruptura, questionamento e ampliação desse horizonte. Na sala de aula, o primeiro passo do professor seria efetuar a determinação do horizonte de expectativas da turma a fim de prever estratégias de ruptura e transformação desse horizonte. Para tanto, seria necessária a observação do comportamento da turma, as reações às leituras por realizadas, além de verificação de respostas a entrevistas, questionários e outras manifestações quanto à experiência com as obras lidas. A segunda etapa consiste no atendimento desse horizonte, que para Bordini e Aguiar (1988) seria proporcionar à classe experiência 22 com textos literários que satisfaçam as necessidades dos leitores no que diz respeito ao objeto e às estratégias de ensino. Nessa etapa, o professor irá perceber os elementos temáticos ou estruturais que mais atraem a atenção e o prazer dos alunos. A terceira etapa é a ruptura do horizonte de expectativas. Consiste na introdução de textos e atividades de leitura que abalem as certezas e costumes dos alunos, de modo que eles percebam estar ingressando em um campo desconhecido, mas também não se sintam inseguros nessa experiência. Essa estratégia deve representar um desafio por caminhos, possivelmente, nunca percorridos anteriormente pela turma. A seguir, ocorrerá a etapa do questionamento do horizonte de expectativas. É o momento em que os alunos irão verificar que conhecimentos, sejam escolares, religiosos, políticos ou vivências pessoais, proporcionaram a eles o entendimento do texto, ou abriram caminhos para elucidar as dúvidas encontradas. Por fim, na última etapa do processo, a ampliação do horizonte de expectativas, os alunos tomam consciência das alterações e aquisições obtidas através da experiência com a literatura. Após o cumprimento de todas as etapas, Bordini e Aguiar (1988) sugerem confrontar o horizonte inicial de expectativas do aluno com seus interesses atuais, buscando verificar se suas exigências tornam-se maiores, como também a capacidade de decifrar o conhecido e o desconhecido. Assim, é possível compreender que o aluno torna-se agente da aprendizagem, determinando ele mesmo a continuidade do processo, num constante enriquecimento cultural e social. 1.3 - A leitura de poesia em sala de aula Mostrar a poesia como um gênero literário que tem um papel de grande importância na formação do leitor não tem sido tarefa fácil. Octávio Paz (1982) entende o poema como um produto histórico e social, pois sem ele não haveria nem história nem sociedade. Nesta perspectiva, o poema pode ser considerado uma obra inacabada, sempre disposta a ser completada e vivida por um novo leitor. A idéia de que o poema é um produto histórico e social põe em evidência uma das mais importantes funções desempenhadas pela poesia: a sua função social. A esse respeito, Eliot (Apud Pinheiro, 2007, p.22) declara que 23 Para além de qualquer intenção específica que a poesia possa ter, [...] há sempre comunicação de uma nova experiência, ou uma nova compreensão do familiar ou a expressão de algo que experimentamos e para o que não temos palavras – o que amplia nossa consciência ou apura nossa sensibilidade. A experiência interativa que a poesia pode suscitar no leitor permite compreender que ela estimula uma vivência prazerosa, sobretudo, pelo poder de conduzir o leitor a uma sensação nova, fazendo com que sentimentos e emoções sejam transmitidos com mais facilidade. Averbuck (1986, p.67) considera que a poesia possui um caráter libertador, por proporcionar “um livre fluxo de fantasia, de elemento condutor de camadas do inconsciente, capaz de enriquecer a vida interior do leitor. Pela alta carga de conotação do texto, toda a leitura de poesia é um ato de recriação”. Nesse sentido, pode-se notar que a leitura de poesia está completamente atrelada ao desenvolvimento da sensibilidade poética do leitor, o que contribuirá para aumentar sua criatividade. José Paulo Paes (1996) refletindo acerca do entendimento que Ezra Pound tem de literatura e, sobretudo, da poesia , entende que há uma função libertadora no cerne da expressividade poética, posto que atiça a imaginação das pessoas, propiciando novas experiências diferentes daquelas vivenciadas rotineiramente. Permite que o leitor estabeleça uma correspondência entre os novos significados apreendidos através da vivência poética, de modo que possa “ligar entre si o imaginário e o vivido, o sonho e a realidade como partes igualmente importantes da nossa experiência de vida” (PAES,1996, p.27). Apesar de a poesia ser dotada desse poder de emancipar o sujeito das amarras ideológicas, sociais e religiosas, nem sempre a escola favorece que se construa um espaço de leitura significativo a partir da convivência com textos poéticos. Essa situação é decorrente de, pelo menos, dois fatores: a desmotivação e despreparo do docente e avaliação realizada a partir da leitura de poemas. Com relação ao primeiro fator, é necessário que o professor tenha entusiasmo para trabalhar com tais textos de modo que o aluno se sinta instigado para partilhar da experiência. Se o docente não for sensível ao texto poético, permeável à comunicação do artista, indiferente e fechado ao apelo da arte, “a descarga emocional provocada pela sensibilidade a um texto poético [terá] seu circuito 24 interrompido antes de chegar ao aluno [...]” (AVERBUCK, 1986, p.69). A formação do gosto é, pois, o ponto crucial para a realização da experiência leitora em sala de aula. A autora acredita que é preciso o docente gostar inicialmente, para poder criar no aluno um trabalho de emoção e afeto. Com relação ao segundo fator, o que comumente acontece no espaço escolar é a aplicação de atividades que, na maioria das vezes, funcionam como preâmbulo para a resolução de exercícios gramaticais. A partir destes dois fatores, percebe-se, pois, que a ausência de um trabalho interativo com a poesia em sala de aula, deve-se a falta de uma perspectiva metodológica que possibilite aos sujeitos integrantes do processo entenderem a leitura de poesia como um ato social capaz de unificar, simbolicamente, o poeta com o leitor. Faz-se necessário, pois, que a poesia tenha seu valor destacado e reconhecido pelos professores e pela escola e ambos continuem na busca de estratégias que conquistem cada vez mais leitores. A falta de leitura com o texto poético em sala de aula, segundo Pinheiro (2007), permanecerá até que se compreenda que a poesia tem um valor, que ela não é um mero joguinho ingênuo com as palavras e deve ser considerada como a primeira visão direta das coisas, como veículo para a formação teórica e moral dos alunos, de forma a incentivar sua criatividade. Embora seja importante o trabalho com textos poéticos em sala de aula, não se pode realizá-lo de qualquer forma. Pinheiro (2007) mostra algumas sugestões e critérios que devem ser seguidos na escolha das obras ou na confecção de antologias que priorizem, sobretudo, o humor e a afetividade – elementos que podem ser do interesse de muitos alunos, mas cabe ao professor não ficar apenas por aí. Ele deve também oferecer textos que possibilitem uma ampliação dos horizontes dos alunos, levando-os a descobrir coisas novas que explorem seu interesse e aumentem a sua criatividade. Mas isso ainda não é o suficiente. Além de o professor procurar desenvolver o gosto pela poesia, é essencial que ele faça inicialmente uma pesquisa sobre o interesse de seus alunos. Segundo Pinheiro (2007), o fato de o professor atentar para o universo de interesse dos alunos pode contribuir na seleção dos poemas que serão apreciados com mais facilidade. Mas não se pode descartar a perspectiva de que as experiências em sala de aula são singulares e realizadas em espaços plurais; deste modo o que deu certo com uma turma num determinado período letivo, não poderá funcionar com outra na mesma escala de tempo ou nas subsequentes. 25 Diante dessas observações, Pinheiro (2007) destaca algumas condições indispensáveis para o trabalho com a poesia. Inicialmente, o método mais comum seria o da pergunta de forma direta em que o docente ouve, anota, grava a fala dos alunos para posteriormente elaborar pequenas fichas. Outra forma, para o autor, seria descobrir os filmes, programas de rádio, televisão, sites e blogs que os discentes mais apreciam. Após esse levantamento o professor poderá organizar os dados e selecionar os textos que realmente atendam àquele universo apontado em sua pesquisa. Mesmo o pesquisador tendo uma visão global do interesse aos alunos, Pinheiro (2007) mostra que esse fato não garantirá a conquista do leitor. Por isso, é aconselhável não ficar apenas nos temas que foram sugeridos pelos alunos, e é aí que se evidencia o gosto e a sensibilidade do professor como leitor de poesia. Outra condição indispensável para o trabalho com o texto poético, de acordo com Pinheiro (2007), é a criação de um ambiente adequado, sobretudo nos primeiros anos de estudo, de forma a favorecer o interesse e o gosto pela poesia. O professor poderá tomar algumas medidas que propiciem esse interesse como ler uma pequena antologia no pátio da escola, colocar uma música de fundo enquanto se lê, e incentivar os alunos a recitarem livremente poemas que conhecem. Essas pequenas coisas poderão criar uma experiência mais rica e significativa. Essas atividades devem ser constantes. A escola, enquanto espaço oficial para efetivação da prática docente, também pode colaborar com o trabalho do professor, através do sistema de biblioteca, disponibilizando os livros para serem emprestados aos alunos. Diante do exposto, é preciso que todos se comprometam a realizar esse trabalho, avaliando o acervo existente na biblioteca, procurando renová-lo, preocupando-se também com a conservação dos livros. Já os professores devem estar sempre atualizados, seja através de treinamentos oferecidos pelas escolas, como também pela leitura de livros que estão disponibilizados na própria biblioteca da escola, avaliando quais os textos poéticos mais significativos para serem trabalhados. Na procura de proporcionar ao aluno o prazer através da leitura do texto poético, uma condição essencial para Pinheiro (2007) será “iniciar a criança [ou o jovem] o mais cedo possível no mundo da leitura; seduzi-la (lo) desde cedo para a riqueza interior que a leitura pode nos proporcionar” (PINHEIRO, 2007, p.31). 26 Dessa forma, o trabalho com o texto poético em sala de aula não tem como objetivo formar poetas nem críticos literários, mas “desenvolver no aluno (leitor) sua habilidade para sentir a poesia, apreciar o texto literário, sensibilizar-se para a comunicação através do poético e usufruir da poesia como uma forma de comunicação com o mundo” (AVERBUCK, 1986, p.67). Sendo assim, somente a partir da “sensibilização (do professor e do aluno) é que se cumpre o caminho da poesia. Ela não pode simplesmente ser ensinada mas vivida, por isso que “o ensino da poesia, é, assim, o de sua descoberta” (AVERBUCK, 1986, p.70). 1.4 - Poesia negra e resistência Articular a construção de poesia negra com a de resistência exige pensar que as possibilidades de criação ideais são muito limitadas. De acordo com Bosi (1993, p.143), “a poesia, há muito que não consegue integrar-se feliz nos discursos correntes da sociedade”. Considerando a perspectiva consumista dos tempos modernos, o interesse da propaganda é pelo que dá lucro, pois os estilos capitalista e burgueses de viver, pensar e dizer se expandem a ponto de dominar à terra inteira. Nesse cenário, “a poesia moderna foi condenada a tirar só de si a substância vital” (Bosi, 1993, p.166). Apesar de todas as dificuldades, Bosi (1993) afirma que o poético sobrevive nesse meio hostil, criando formas de resistência no interior do processo capitalista. Essa resistência, segundo Bosi (1993), tem muitas faces: “ora propõe a recuperação do sentido comunitário perdido, ora a melodia dos afetos em plena defensiva, ora a crítica direta ou velada da desordem estabelecida”. Seja crítica nostálgica ou utópica, a realidade é que a poesia moderna conseguiu abrir aos poucos seu caminho. Mas, o desespero dos poetas ainda consiste exatamente no fato de não poderem realizar o sonho de se fazer entender por todos, pois eles sabem que a poesia só entrará no coração dos homens a partir do momento em que a experiência poética representada for recíproca. Dessa forma, a poesia resiste à falsa ordem: “quer refazendo zonas sagradas que o sistema profana; quer desfazendo o sentido do presente em nome de uma liberação futura, o ser da poesia contradiz o ser dos discursos correntes” (Bosi, 1993, p. 169). 27 Na tentativa de recompor arduamente o universo mágico que os novos tempos (re)negaram, a verdadeira poesia, conforme Bosi (1993), seguiu o caminho percorrido pelos românticos e pelos simbolistas inventando mitologias libertadoras como resposta consciente e desamparada às tensões violentas que se exercem sobre a estrutura mental do poeta. Hegel (Apud Bosi, 1993, p. 177) mostrou que o espírito poético “soube reencontrar no meio das complicações preexistentes da vida moderna, a independência individual perdida”. Isso ocorre, porque o contato com a poesia proporciona uma espécie de comunhão com à natureza, com os homens e com Deus, representando a unidade entre a pessoa e o mundo, o estar com a totalidade. Nesse cenário, o mito apresenta uma função primordial, pois a poesia mítica, de acordo com Bosi (1993), recupera na figura e no som os raros instantes de plenitude espiritual contribuindo para que o indivíduo recupere a inocência perdida no compromisso com as ideologias dominantes. Além da poesia mítica, no entendimento de Bosi (1993), tem-se a poesia da natureza, que não significa nenhum retorno à animalidade. Ela representa a saudade e favorece a socialização do homem com à natureza exercendo um papel humanizador das carências primárias do corpo. Nessa perspectiva, o ato de reinventar imagens da unidade perdida foi o modo que a poesia encontrou para resistir à dor das contradições e do tumulto do mundo atual. As maiores formas de resistência, conforme Bosi (1993), são encontradas em momentos sofridos e insofridos. Tais momentos são capazes de gerar poesia. Segundo ele, desde “ os profetas bíblicos até Maiakóvski, Brecht e Neruda, a recusa irada do presente com vistas ao futuro, tem criado textos de inquietante força poética” (Bosi, 1993, p. 185). Nesses textos, as palavras dos poetas são lançadas como flechas de impaciência contra uma sociedade dominante que insiste em ser cada vez mais esmagadora. É nessa perspectiva que se configura a poesia negra, em que “situações de crise e opressão desencadeiam forças profundas de resistência que, por sua vez, geram movimentos sociais e formas simbólicas de teor radicalmente mito poético” (Bosi, 1993, p. 204). Para o poeta maior da Negritude, Aimé Césaire (Apud Bernd, 1987, p. 57), a poesia negra pode ser considerada a verdadeira poesia porque não se restringe à retórica dos poetas que permanecem na superfície de si próprios: “ela emana das ‘profundezas’ do ser que toma consciência de si mesmo e de sua condição”. Bernd 28 (1987) considera essa poesia como verdadeira, pois nasce da verdade do encontro do poeta consigo mesmo. Sendo o espaço privilegiado do engendramento de uma identidade negra, ela será necessariamente revolucionária por desencadear um processo de conscientização no público leitor. Em Césaire (Apud Bernd, 1987, p. 57) “o processo de (re)construção da identidade é referido pelo neologismo naturação, que remete ao reencontro do próprio eu, à volta à natureza profunda de si mesmo”. Dessa forma, a poesia negra é considerada o território da redescoberta do eu que será o princípio organizacional de uma poética que não está separada da realidade circundante. Todos os traços presentes na poesia da Negritude, propagada por Cesáire, também encontram-se na poesia negra da América Latina. Isso ocorre, porque a poesia negra se origina do gosto solidário do poeta com a “comunidade de sofrimento” do povo negro. Por ser “a boca dos que não tem boca”, Césaire (apud Bernd, 1987) reafirma sua crença na missão do poeta de ser o intérprete do destino coletivo de seu povo, sendo ainda considerado o adivinho e o profeta. Apesar de a poesia negra ser utilizada como uma forma de combater a discriminação praticada contra o povo negro, não é preciso ser negro para se fazer poesia negra. Segundo Bernd ( 1987, p. 151) “é preciso situar-se como negro para que a poesia possa exprimir-se com uma dicção própria, reveladora de uma intenção negra”. Ainda conforme Bernd (1987), a poesia negra viabiliza o trânsito de uma condição de alheidade, caracterizada por uma situação em que “as bases do mundo e do ser se desvanecem” para uma condição em que a consciência se reconstrói e na qual o poeta se institui pela linguagem. Logo, é pela poesia, que o poeta desvenda sua autoimagem buscando transcendê-la através da reconquista de sua fala. Contra toda forma de inferiorização do negro em relação ao branco, a poesia negra revela-se como forma de resistência e ao mesmo tempo de forma apaixonada, manifestando seu desejo intenso de construir uma imagem positiva do negro, uma vez que o poeta não se limita a descrever os fatos de fora, mas sente-se engajado na mesma aventura de seu povo. Nesse sentido, o lirismo negro não é construído por imagens idealizadas, as quais alimentaram a artificiosa poesia da Europa. Seu mérito está no fato de ser uma poesia aberta para o homem, na qual o poeta negro perde o medo de si próprio e assume sua total natureza, enfrentando os desafios e 29 vencendo seus opressores, pois “o poeta depois de ter conhecido o sepulcro, reergue-se e refaz com o verbo a Terra e os Tempos” (BOSI, 1993, p. 219). 1.5 - O estudo da literatura africana a partir da Lei 10.639/03 Com a aprovação da Lei 10.639, sancionada em 9 de janeiro de 2003, tornou-se obrigatório no Ensino Fundamental e Médio o ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira e Africana, o que assinala a necessidade de estabelecer novas diretrizes nacionais para a educação das relações étnico-raciais no Brasil. Para Serrano e Waldman (2008), um fato pouco conhecido pelos educadores é que essa legislação vincula-se a uma segunda Lei, bem mais detalhada. Trata-se do Decreto nº 4.886 (20/11/2003), que estabelece a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial ou abreviadamente, PNPIR. Nesses dois instrumentos jurídicos, a questão do destaque efetivo da pluralidade racial brasileira no processo educativo tem como objetivo atender à população negra do Brasil. Por ser uma reivindicação fortemente pautada por entidades relacionadas à causa negra, a lei está objetivamente articulada a propostas de ação afirmativa. As políticas de ação afirmativa de acordo com Serrano e Waldman (2008, p. 17) “constituem um rol de proposições e de medidas, cujo objetivo é garantir às minorias sociais e étnicas o justo espaço que lhes compete na sociedade De acordo com Amâncio (2008), em 1999, José Sarney apresentou o argumento de que a realidade de exclusão da população negra no Brasil deve ser encarada com objetividade e não ficar somente no aspecto étnico. Na visão daquele político, o problema consiste em atraso social. Nesta perspectiva, a promoção humana ficou estagnada, dando aos negros uma posição de marginalidade dentro de nossa sociedade. Com base em levantamentos estatísticos divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 1996, o Senador Sarney (Apud AMÂNCIO, 2008, p.31) afirma que os negros brasileiros: Enfrentam maiores dificuldades de acesso a escola e de permanência nela. Seus índices de analfabetismo, atraso escolar e reprovação são superiores em relação à população classificada como branca. Dessa forma, enquanto a probabilidade de os brancos entrarem no ensino superior, dado que começaram a cursar o ensino médio, era de 43%, para os negros era de apenas 18%. 30 Por essa argumentação, percebe-se que o analfabetismo, o atraso escolar e a reprovação são ocorrências predominantes dos estudantes negros brasileiros. Mesmo sendo constantemente negado, o racismo tem raízes profundas na sociedade brasileira e se manifesta de forma enfática no cotidiano da população negra. No âmbito da educação, Nilma Lino Gomes (Apud AMÂNCIO, 2008, p.39) considera: Os movimentos sociais, as lutas da comunidade negra exigem da escola posicionamento e a adoção de práticas pedagógicas que contribuam para a superação do racismo e da discriminação [...] é necessária uma formação político-pedagógica que subsidie um trabalho efetivo com a questão racial na instituição escolar. Boa vontade só não basta! Essa posição de Gomes, segundo Amâncio (2008) resulta em uma breve reflexão sobre dois aspectos que inicialmente comprometem a efetividade plena da lei 10.639: o primeiro diz respeito a reduzida disponibilidade de material didático adequado no mercado editorial e o segundo, consiste na carência de profissionais especializados para o tratamento das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras. Diante disso, Amâncio (2008) acredita que a produção autoral e a formação de educadores devem assumir elevada importância nesse processo de superação de preconceitos e da discriminação social e racial, devendo ser iniciado dentro da escola. Maurício Pedro da Silva (2007), propondo alternativas para o estudo da literatura africana de língua portuguesa, considera como fundamentais a abordagem de três tópicos ligados à cultura africana. O primeiro tópico diz respeito aos estudos da história sóciopolítica da África, da língua portuguesa no continente africano e da literatura africana de língua portuguesa, todos eles num primeiro momento. O segundo prioriza a relação interdisciplinar, em que história, língua e literatura interajam de forma mais dinâmica e abrangente. Por fim, o autor defende a relação intercultural para que essas áreas do conhecimento humano (história, língua e literatura) estabeleçam conexões com a realidade nacional. No que se refere à história da África, Silva (2007) aconselha estudar, numa perspectiva ampla e generalista, tanto o processo de formação do continente, como a ocorrência de culturas locais e universais (como a cultura egípcia). O autor inclui, também, os processos políticos mais recentes, como o contato dos europeus com os 31 estados costeiros do continente, o desenvolvimento do comércio e a exploração econômica a partir do século XV. Numa perspectiva mais restrita, Silva (2007) afirma que é preciso tratar em particular, de cada um dos cinco países do continente que têm na língua portuguesa uma de suas principais marcas identitárias. Além disso, o autor também considera a pertinência de se atentar para a ocorrência do português nessas regiões, não apenas discutindo conceitos pertinentes à política linguística nelas adotadas, mas apresentando dados que demonstrem a verdadeira situação do português falado nos países africanos, principalmente, às tensas relações existentes entre à língua portuguesa e os idiomas nativos. Como exemplo dessas relações lingüísticas conflitantes pode-se citar Angola (onde se falam o quimbundo, o umbundu, o ovimbundo, etc.), Moçambique (onde se falam diversas línguas do grupo bantu), Cabo Verde (onde existem o barlavento, crioulo do norte, crioulo do sul e sotavento), Guiné Bissau (Bissau e cacheu), São Tomé e Príncipe (forro e angolar). Especificamente sobre a literatura africana lusófona, Santilli (Apud Silva, 2007) acredita que se deve estudar não apenas os fatores de conformação, desenvolvimento e consolidação dessa literatura, mas também o complexo universo da relação intertextual com as demais literaturas de língua portuguesa. Para tanto, deve-se considerar a historiografia literária dessas literaturas, abarcando desde os momentos de formação das narrativas populares e folclóricas, ligadas à experiência da oralidade, até o surgimento no século XIX, de condições propícias ao aparecimento dos primeiros textos em língua portuguesa no continente africano. Por esse caminho, acredita o autor, que as manifestações literárias lusófonas poderão ser estudadas a partir de uma perspectiva mais autônoma considerando as peculiaridades de cada país. Por fim, com o objetivo de enriquecer as discussões, Silva (2007) acrescenta a importância da realidade histórico-social dos cinco países africanos, mencionados anteriormente e que falam língua portuguesa, partindo do processo de formação de suas respectivas literaturas. Para isso, torna-se imprescindível a inclusão de conceitos de anticolonialismo, identidade cultural e consciência nacional. Conceitos que, segundo Santilli (Apud Silva, 2007), têm como desdobramentos necessários, idéias tão diversas quanto as de literatura militante ou negritude. 32 Dessa forma, a Lei 10.639/03 torna-se um importante instrumento capaz de gerar uma série de iniciativas voltadas para a valorização da cultura africana e afrobrasileira, bem como um estímulo à reconstrução da identidade afro-descendente. 33 2 – A POESIA AFRICANA DE LÍNGUA PORTUGUESA: estudo e análise de poemas A poesia africana de língua portuguesa está inserida no quadro de resistência e luta pela libertação política de seus países e de afirmação de uma cultura própria. Por isso encontramos, importantes líderes revolucionários entre os principais poetas. Para Abdala Júnior e Paschoalin (1985), essa poesia tem estreitos pontos de contato com as poesias de Portugal e do Brasil e, nesse sentido, a transmissão cultural é bastante intensa, seja por afinidades ideológicas, seja pela tradição cultural semelhante, seja pela utilização da mesma língua. Sob uma perspectiva política, a poesia africana de língua portuguesa aparece ligada inicialmente ao movimento negro de libertação (a negritude, de Aimé Césaire e Léopold S. Senghor) e também pelo grande significado da luta social em prol da valorização de uma identidade cultural e étnica. Apesar da grande influência política, essa poesia é muito mais do que produto de um momento histórico. Conforme Leite (1998), ela transporta em si uma matriz da oralidade na forma como se escreve, o que constitui a marca de culturas em que a palavra dita se impõe. Ao fazer referência à poesia africana da época colonial, Mário de Andrade (1980) destaca as condições materiais, sociais e ideológicas que presidiram o seu surgimento: um espaço de audiência limitado, [com] utilização quase exclusiva da língua do colonizador (...). Decerto ela não atingiu directamente as largas massas populares, mas contribuiu para que os seus problemas fossem assumidos pelos núcleos de leitores em situação de ruptura com o assimilacionismo. (p.10) Nesse sentido, a poesia africana de língua portuguesa constitui-se em poesia militante produzida por uma elite politizada e letrada, articulando-se com os movimentos de libertação nacional e desempenhando funções de denúncia e de protesto. Segundo Andrade (1980, p.10), o impacto dessa poesia resultou “na proibição da edição de obras que encarnavam de perto ou de longe os sentimentos populares”. Como as atividades literárias tornaram-se difíceis após a Segunda Grande Guerra fortalece-se o movimento de resistência ao colonialismo e intensifica-se, em 34 sentido contrário, a ação da censura política. Nesse período, muitos escritores e intelectuais são presos e obrigados a se exilarem. Conforme Abdala Júnior e Paschoalin (1985), entre os principais núcleos de resistência estava a Associação dos Naturais de Angola, situada em Luanda que editou uma Antologia dos novos poetas de Angola (1950) e a revista Mensagem (1951-1952). Porém, o núcleo mais abrangente foi a Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Lisboa. A CEI fortaleceu a luta pela liberdade em vários países africanos. Por esse núcleo de resistência passaram líderes como Amílcar Cabral, Alda do Espírito Santo, Marcelino dos Santos, além de Agostinho Neto, todos engajados na luta pela independência africana. No plano cultural, conforme Abdala Júnior (2006), cabe destacar, entre os feitos dessa casa, a antologia Poesia negra de expressão portuguesa, organizada por Mario Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro, como vimos anteriormente, e a publicação da coleção “Autores Ultramarinos”, sob a direção de Costa Andrade e Carlos Ervedosa. Com a CEI, a ligação entre literatura e resistência ia se fortalecendo principalmente na edição de seu boletim cultural intitulado Mensagem, uma publicação que, segundo o autor, mudou os rumos da literatura em Angola revelando novos caminhos para as literaturas africanas de língua portuguesa. As atividades da CEI contribuíram para consolidar o movimento dos “Novos intelectuais de Angola”, constituído em torno da frase “Vamos descobrir Angola!”. Apesar de sua importância, foi apenas no ano de 1948, que foram criadas as condições para a emergência de uma atividade literária mais enraizada. Os autores consideram que a CEI transformou-se no principal centro de resistência à política colonialista do salazarismo, editando antologias, uma coleção de autores africanos e uma revista de grande importância: Mensagem (1949-1964). As atividades da CEI foram encerradas pelo governo, em 1965. Mário de Andrade (Apud ABDALA Júnior e PASCHOALIN, 1985, p.190), no prefácio à Antologia temática de poesia africana, registra importantes ocorrências dessa situação histórica: O colonialismo reagiu ao impacto provocado pela poesia de denúncia e de protesto tanto junto do círculo restrito do público africano como junto dos leitores da sociedade colonial ou da sua metrópole que recebiam uma outra imagem dos africanos, ocultada ou deformada pelas instituições opressivas. (...) Tais problemas, cuja superação resultou duma intervenção extraliterária, foram afrontados e continuam a sê-lo por outros criadores em situação de dominação, quer se trate de maiorias ou minorias étnicas. A 35 particularidade do nosso caso reside no fato de que a maturação ideológica concomitante com a radicalização das formas de luta, a própria explosão do instrumento linguístico tendendo a uma independência semântica, e sobretudo o comprometimento do sujeito-poeta nas batalhas populares permitiram lançar as bases de identificação do autor com o seu público. Com essa descrição, Mario de Andrade admite que a poesia africana de língua portuguesa acompanha a construção de um novo poder político, primeiro clandestino, depois triunfante, voltado para a afirmação identitária. Neste contexto, os homens que escrevem são os mesmos que pensam e fazem política, reagindo às arbitrariedades impostas pelo colonialismo, no qual utilizam a língua portuguesa submetendo-a às suas finalidades, criando literaturas nacionais em uma língua estrangeira. Mesmo sendo produto de uma elite, a poesia africana se opõe à alienação provocada pelo sistema colonial. Esse sistema apresenta uma série de contradições, cuja aculturação e estratégias de assimilação refletiram-se na poesia. Logo, a tomada de consciência do papel subalterno que essa elite ocupava resultou em produções poéticas que exigem uma identidade cultural e uma consciência nacional. Manuel Ferreira (1989b), baseado nas circunstâncias políticas, sociais e culturais, indica quatro momentos da evolução da poesia africana de língua portuguesa em relação ao fenômeno da dependência e individualidade. No primeiro momento, se destaca a alienação e os modelos europeus; no segundo momento, embora ainda marcada pela alienação, já ocorre uma consciência regionalista, com descrições do meio social, geográfico e cultural; no terceiro, predomina a tomada de consciência do poeta da sua condição de colonizado. É nesse período que os autores trazem para suas poesias a dureza da realidade social e nacional entendidas dialeticamente, na qual se insere a produção dos autores militantes. E, no quarto e último momento, com a independência nacional, ocorrida após 1975, é eliminada a dependência dos escritores africanos e reconstituída a sua plena individualidade. Observamos que Manuel Ferreira (Op. cit) utiliza a opressão colonial como maior ponto de referência para descrever esses quatro momentos definidores da poesia africana. Apesar das fortes lutas pela independência e do apelo à diversidade e à identidade cultural e étnica, pelas várias forças políticas e intelectuais, os textos africanos de língua portuguesa, em geral, não circulam em grande escala nos países 36 de língua portuguesa. Isso ocorre devido a uma série de fatores de ordem política, social, cultural, além do preconceito de certos especialistas literários, uma vez que a história dessa literatura é marcada por um forte “ocultamento” (MARGARIDO 1980), visto que os estudiosos consideravam a literatura europeia mais expressiva. Desse modo, a literatura africana ficava confinada a segundo plano, o que seria uma contradição, já que os valores culturais representados não correspondia aos da África. Segundo Margarido (1980, p. 09), as literaturas africanas de língua portuguesa “começaram a constituir-se no fim da primeira metade do século XIX, quando as alterações políticas em Portugal permitem uma abordagem diferente dos valores africanos”. Mas, devido ao mau tratamento por parte das elites literárias incentivadas pelas grandes potências coloniais, essas literaturas ficaram por um longo período limitadas ao continente africano. Margarido (Op. cit, p.106) defende que “as literaturas africanas de [língua] portuguesa não podem estar em atraso, pois elas precedem as outras literaturas anglófonas e francófonas”. Como essas literaturas não estão em atraso, o autor considerou vários fatores que foram responsáveis pelo seu retardo. Entre esses fatores estão a ausência de traduções, o uso da oralidade e a lentidão na criação de uma rede escolar nas colônias. Com relação à ausência de traduções, boa parte das elites literárias anglófonas e francófonas acreditavam que “se não há traduções elas estão autorizadas ao desconhecimento”. Outro motivo dessa exclusão seria a predominância da oralidade. Para Serrano e Waldman (2008, p.145), em muitas sociedades que não conheciam a escrita, “formas não-orais de comunicação eram entendidas como parciais e incompletas”. Por isso, o conhecimento era transmitido pelos griots, homens de memória privilegiada pelo fato de armazenar na mente milhares de histórias, contos e provérbios. Conforme apresenta o historiador Djibril Tam Sir Niane (Apud SERRANO e WALDMAN, 2008, p. 145): Há povos que se servem da linguagem escrita para fixar o passado; mas acontece que essa invenção matou a memória entre os homens: eles já não sentem mais o passado, visto que a língua escrita não pode ter o calor da voz humana. Dessa forma, para as sociedades tradicionais africanas que cultivavam a oralidade, a transmissão da herança cultural tornou-se de extrema importância para 37 unir o indivíduo à palavra. Nessa perspectiva, é, pela palavra, que se reconstitui a história tradicional de um povo. A própria coesão da sociedade também depende do valor e respeito que impregnam a palavra. Apesar da importância da oralidade, essa questão sempre foi considerada complicada, principalmente pelo valor que o mundo ocidental atribuía à escrita, estando presente como lugar preferencial, ou mesmo único, para a aquisição do conhecimento. Para o mundo ocidental, não podia existir história ou civilização sem a escrita. Além disso, a Europa representava o estado “evoluído” da civilização e as culturas africanas eram encaradas como primitivas cuja tradição oral não estava sujeita ao trabalho reflexivo, enquanto a literatura escrita era tida como mais elaborada, sendo um processo de desenvolvimento complexo. Anos mais tarde, os portugueses ainda permaneciam muito lentos na criação de uma rede escolar, o que tornou muito difícil a passagem da oralidade à escrita. De acordo com Margarido (1980), a criação de uma rede de escolas primárias públicas nas colônias, só ocorreu a partir de 1845. Mesmo com o surgimento de escolas em alguns povoados, elas ainda eram raras. A primeira escola primária de Moçambique data de 1907. Com relação ao sistema de ensino superior, os portugueses queriam forçar os universitários das colônias a passar para o território europeu, para lhes impor os valores “civilizacionais” portugueses. Além dos problemas existentes, a dominação colonialista procurou impor, nos países que foram colônias de Portugal, o idioma português como oficial. Para tanto, a Metrópole desenvolveu sua política linguística e cultural, encontrando diferentes formas de resistência, mas vencendo-as até mesmo pela força. Para Benjamin Abdala Júnior (Apud REMÉDIOS, 2007), os colonialistas não admitiam qualquer prática fora de seu controle ideológico. Assim, o ensino do código oficial era tido como uma forma de aliciamento e de inculcação da norma e dos valores que ela carrega, sendo apropriada apenas pela ideologia dominante. Por estar apoiada no eixo da opressão e liberdade, a linguagem do colonizador, conforme Remédios (2007), recebeu status de pureza e de verdade inquestionável. Para essa autora, é, por esse caminho, que o sentido do mito apresenta-se completo, porque postula que o idioma português é uma realidade inquestionável: pertence ao dominador e está ligado à história, ao passado. Entretanto, a autora percebe que, se avaliarmos a sua relação com a forma, o sentido e todo o sistema de valores que ela representa (a história de Portugal e suas 38 conquistas, as suas aventuras coloniais e suas dificuldades presentes), a presença dessa língua, considerada pelos portugueses como imagem rica, espontânea e indiscutível, passa a ser vista como uma presença emprestada. Por isso, aqueles que aprendiam a língua portuguesa eram conhecidos por assimilarem a cultura do dominador e tornavam-se propagadores dessa cultura. Mas, apesar da força física do colonizador, atualmente existe um grande esforço para que os costumes e as tradições dos povos subjugados sejam perpetuadas. Diante do exposto, entendemos que a formação de uma literatura depende de produções, em língua nacional, constituídas a partir das estruturas mentais mais específicas desse país. Tal como defende Abdala Júnior e Paschoalin (1985), essas estruturas formam a consciência nacional, promovida pelos grupos sociais mais típicos e dinâmicos. Mesmo com as fortes reações de certos núcleos de resistência ao sistema colonial, a consciência nacional dos países africanos de língua portuguesa ainda está em fase de afirmação. Por isso, a mentalidade colonialista ainda persiste na forma do subdesenvolvimento em quase todos os setores de atividade. Os autores comentam que, em Angola e Moçambique existem grandes dificuldades linguísticas pela existência de um grande número de línguas diferentes. A pequena exceção está em Cabo Verde, onde o crioulo caboverdiano (dialeto do português) é falado pela totalidade da população. Apesar da existência de muitos crioulos regionais, o idioma português continua a ser o oficial permitindo uma comunicação mais geral. Nesse sentido, utilizar a língua portuguesa consiste em evitar que haja uma soberania linguística de uma região sobre outras. E, além disso, “o português e os vários crioulos dele decorrentes são as formas linguísticas dominantes nos grandes centros urbanos, onde estão os grupos sociais mais dinâmicos desses países” (ABDALA JÚNIOR E PASCHOALIN, Op. cit, p. 187). Porém, em relação à utilização didática da literatura em língua portuguesa, Agostinho Neto (Apud ABDALA Júnior e PASCHOALIN, 1985, p. 188), em discurso na União dos Escritores Angolanos, observou que: O uso exclusivo da língua portuguesa, como língua oficial, veicular e utilizável atualmente na nossa literatura, não resolve os nossos problemas. E tanto no ensino primário, como provavelmente no médio, será preciso utilizar as nossas línguas. E dada a sua diversidade no país, mais tarde ou mais cedo deveremos tender para a aglutinação de alguns dialetos, a fim de facilitar o contato. Todo o desenvolvimento do problema linguístico, 39 naturalmente, dependerá também da extinção das barreiras regionais, da consolidação da unidade nacional [...]. Na tentativa de resolver tais problemas, atualmente é comum encontrarmos textos africanos bilíngues seguidos de uma tradução em língua portuguesa, de forma a facilitar a comunicação e valorizar as tradições. Dessa forma, o colonialismo incontestavelmente alterou o curso da história desses povos, impondo sua língua e sua cultura. Na verdade, as nações africanas de língua portuguesa trazem em sua poesia, como veremos a seguir, as marcas da presença de um poder dominador tornando-se impossível apagar a herança colonial. Tais influências ainda persistem, pois fazem parte da história dessas nações, independentemente das circunstâncias em que tenham ocorrido e de suas consequências. A poesia africana de língua portuguesa, como foi vista anteriormente, é marcada por uma série de contradições internas que, para sua compreensão, é imprescindível conhecermos as estruturas sociais em que ela apareceu. Marcada pela opressão colonial, pela escravidão, discriminação e pelas grandes disparidades culturais, econômicas e climáticas, essa poesia, na sua maior parte, traduz a real situação a que está submetido o povo africano das nações de língua portuguesa. Noutros casos, encontramos um grande número de poemas que expressam as tradições da oralidade, o romance, os flagelos climáticos, o aprendizado da infância, entre outros temas, mas a maioria das produções, conforme Margarido (1980), relatam a violência do sistema colonial e a tomada de consciência do problema da discriminação racial. Com base nos assuntos mais recorrentes, examinaremos agora alguns poemas das cinco nações africanas de língua portuguesa. 2.1 – O drama e o desassossego do mar na poesia do Cabo Verde Durante muito tempo, a literatura de Cabo Verde tem revelado as especificidades geográficas do arquipélago e a realidade do seu povo. Os poetas relatam fatos modestos, incluindo o flagelo provocado pelo Vento Leste proveniente do Saara e a forte tensão vivenciada pelo caboverdiano em sua condição insular. A inquietação, provocada pela instabilidade econômica do arquipélago, motivada pela 40 escassez de chuvas, resultam na fome e no desejo de evasão. Por isso, o homem de Cabo Verde é um ser inquieto, atormentado pelo desejo e pela esperança da partida para outras localidades em busca de uma vida melhor, mas, ao mesmo tempo, a impossibilidade da partida torna-se ilusória devido às condições econômicas da ilha. Nessa perspectiva, a temática do mar tornou-se portadora de um significado evasionista e expansionista que decorre da própria atitude de espírito do homem português. Para Mata (1993), a relação umbilical entre o homem português e o mar se radicou não só na realidade exterior, mas também na própria psique da raça lusa, uma vez que a aventura marítima estruturou a hibridização sociocultural das populações colonizadas pelos portugueses. Impregnado de curiosidades geográficas, sensação de distância e isolamento do homem ante as forças da natureza, o mar tornou-se um provocador de expectativas traduzidas no desejo de partir para descobrir novas civilizações. A dificuldade de sobrevivência em sua terra nutre, na imaginação do caboverdiano, o sonho de encontrar uma vida nova do outro lado fazendo com que ele viva na permanente expectativa da partida. No “Poema do Mar”, Jorge Barbosa descreve os detalhes existentes em torno dessa tensão, fazendo com que a partida do caboverdiano para outras localidades, seja motivo de sonho, desespero e esperança: Poema do Mar 1 O drama do Mar 2 O desassossego do Mar, 3 sempre 4 sempre 5dentro de nós! 6 O Mar! 7 Cercado 8 prendendo as nossas Ilhas, 9 desgastando as rochas das nossas Ilhas! 10 Deixando o esmalte de seu salitre nas faces dos pescadores, 11 roncando nas areias das nossas praias, 12 batendo a sua voz de encontro aos montes, 13 baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas... 14 O Mar! 41 15 pondo rezas nos lábios, 16 deixando nos olhos dos que ficaram 17 a nostalgia resignada de países distantes 18 que chegam até nós nas estampas das ilustrações 19 nas fictas de cinema 20 e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros 21 quando desembarcam para ver a pobreza da terra! 22 O Mar 23 a esperança na carta de longe 24 que talvez não chegue mais!... 25 O Mar 26 saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos [passados, 27 histórias da baleia que uma vez virou a canoa... 28 de bebedeiras, de rixas, de mulheres, 29 nos portos estrangeiros... 30 O Mar! 31 dentro de nós todos, 32 no canto da Morna, 33 no corpo das raparigas morenas, 34 nas coxas ágeis das pretas, 35 no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente! 36 Este convite de toda a hora 37 que o Mar nos faz para a evasão! 38 Este desespero de querer partir 39 e ter que ficar! Arquipélago, 1941 (BARBOSA, Jorge. “Poema do mar”, Apud FERREIRA, 1989, p.168-169) Nesse poema, Jorge Barbosa, além de colocar o mar como símbolo de desassossego, desgaste, nostalgia, saudade e esperança, destaca a simplicidade quotidiana do caboverdiano de maneira artística e direta. A primeira estrofe marca um período inicial do drama (versos 1 e 2) que está sempre perseguindo o caboverdiano expressando o desejo de partir e o dilema de não ter para onde ir. Este sentimento é reforçado por uma sonoridade expressiva em que a sugestão de ir e vir, presente no balanço das ondas, é representada por meio da repetição “sempre/sempre/dentro de nós” (versos 3 e 4). Na segunda estrofe, o mar apresenta uma conotação negativa, sendo um signo de hostilidade ao oprimido, deixando suas marcas impressas nas “rochas das 42 nossas ilhas” (verso 9), “deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores” (verso 10) , “roncando na areia das praias” (verso 11) e na violência ao balançar “os barquinhos de pau que vão por estas costas” (verso 13). Nessa estrofe, a presença de todos os verbos no gerúndio (cercando, prendendo, desgastando, deixando, roncando, batendo e baloiçando) que, embora destaquem uma ação que ocorre no exato momento da fala, aponta referência ao passado e, ao mesmo tempo, é apoiada em ocorrências do presente funcionando como contraste. É, nesse contraste que suscita a situação dramática do poema, visto que os sujeitos representados vivem e trabalham sob o peso da insularidade que os castiga dolorosamente, agravando o pesadelo de seu contínuo isolamento. Esse pesadelo também é transferido para a terceira estrofe, em que o mar torna-se responsável pela saudade e nostalgia. Versos como “rezas nos lábios”, “nostalgia resignada de países distantes que chegam até nós nas estampas das ilustrações nas fitas de cinema” e “ar de outros climas” contribuem para o isolamento do caboverdiano ilhado no interior do próprio poema. Esse aprisionamento pode ser percebido a partir da repetição (oito vezes) da expressão “O Mar” que contribui para que o poema fique cercado pelo mar de todos os lados. Percebe-se também que na imagem “mar” se conjuga a temática da viagem que, segundo Mata (1993, p. 146), “é o princípio estruturante, a continuidade espacial portuguesa, sugerindo uma tendência evasionista na literatura portuguesa”. O verso “e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros quando desembarcam para ver a pobreza da terra” sugere a liberdade de espírito que a viagem proporciona e, principalmente, o constrangimento do poeta em ver exposta para os passageiros a pobreza de sua terra, de paisagem árida que tem o mar ameaçador como única porta de acesso. Na quarta e quinta estrofes, através do binômio esperança/saudades, o poeta sintetiza todo o mundo da ilha, presente na “esperança na carta de longe, que talvez não chegue mais!...” e nas “saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados...”. Aqui temos um mundo complexo de esperanças, incertezas e saudades cuja população, castigada pelo clima e prisioneira do isolamento, vive em função de pequenas ocorrências como notícias de entes queridos e histórias de marinheiros de longe. O mar como desejo de evasão, viagem e isolamento, gera o deslocamento dos personagens e expõe um outro tema - a saudade que, de acordo com Jacinto do 43 Prado Coelho (Apud Mata, 1993, p.150), “compreende a lembrança melancólica, dum bem ausente, algo que está longe ou que passou na carreira do tempo, lembrança a que se junta o desejo de reaver esse bem perdido”. Essa saudade, no poema, torna-se mais evidente a partir das histórias contadas: “histórias da baleia que uma vez virou a canoa”, “de bebedeiras”, “de rixas”, “de mulheres nos portos estrangeiros”. Observamos que o elemento saudade está atrelado a uma tradição oral contida nas histórias dos marinheiros mais velhos e experientes, aqueles que possuem o conhecimento e o segredo dos mares. Na sexta estrofe encontramos uma ruptura. O mar, como símbolo de evasão, saudade e isolamento, agora assume uma postura positiva e inovadora. O mar passa a ser a representação mais fiel do caboverdiano estando presente “no canto da morna”, “no corpo das raparigas morenas”, “nas coxas ágeis das pretas”. Nesses versos, o mar torna-se símbolo de celebração expressando desejos eróticos e exaltando a juventude das pretas e morenas, identificando-as com a alegria de viver. Nessa perspectiva, o mar acompanha um impulso alegre, erótico e envolvente que fornece uma nova perspectiva para o leitor. Nos versos finais (35 ao 39), o desespero de querer partir novamente é retomado, como a própria onda do mar que vai e retorna. Nos versos ”Este convite de toda a hora/ que o mar nos faz para a evasão!/ Este desespero de querer partir/ e ter que ficar”, a associação (mar, desejo de evasão, viagem, isolamento e saudade) remete para uma comparação entre duas vidas, a passada e a presente. Nessa segunda, percebe-se que não houve mudanças significativas no modo de pensar, continuando o desespero de querer partir, como única forma de libertação para o aprisionamento do caboverdiano. 2.2 – Da alienação à afirmação identitária Nas literaturas africanas de língua portuguesa, o tema da identidade cultural é recorrente, mesmo quando não expressamente nomeado. Para Bernd (1987), a busca de identidade pelo negro é uma busca de autodefinição, pois ele se encontra alienado de sua cultura de origem e cercado pelos valores vitoriosos de um mundo branco que o discrimina. Nesse sentido, o conceito de identidade é tomado como um processo, isto é, como dinâmica que se constroi e se desconstroi, e sempre junto com o conceito de alteridade, pois só existe identidade pela consciência da diferença 44 que é posta por uma situação de estranhamento. A poesia negra, de acordo com a autora (Op. cit, p. 39) é, em geral, pontuada por metáforas de “invisibilidade”, “inaudibilidade”, reveladoras desta procura de identidade que corresponde a “uma exigência viva e poderosa do homem ser visto e ouvido, reconhecido e encarado como um indivíduo com uma opção”. Dessa forma, a identidade, então, não é fim, nem começo; ela situa-se no próprio processo de sua construção. Nessa construção, as partes vão se agregando para constituir o todo. Na mesma linha situa-se a reflexão de Manuela Carneiro da Cunha (Apud BERND, 1987, p. 40) que, em seus estudos sobre a etinicidade, parte da aceitação de que “a identidade é constituída de forma situacional e contrastiva, ou seja, que ela constitui resposta política a uma conjuntura, resposta articulada com as outras identidades em jogo, com as quais forma um sistema. É uma estratégia de diferenças”. Por isso, a poesia africana de língua portuguesa está vinculada à questão da identidade: “ela se origina da consciência de sua perda, da fenda que se cria quando o poeta se descobre desenraizado, e se desenvolve pela busca de sua reconstrução” (BERND, 1987, p. 40). Logo, a voz do poeta nasce de um desacordo com o mundo ou consigo mesmo, sendo a expressão da vertigem ante a identidade que se desagrega. Poetas como Costa Alegre, Francisco José Tenreiro, Ovídio Martins e Hélder Proença seguem essa linha e mostram aspectos relevantes de uma poesia construída em torno da tensão entre a alienação e a afirmação identitária. Caetano da Costa Alegre é um dos primeiros poetas africanos de língua portuguesa a ter não apenas a consciência, mas a intuição da diferenciação social da cor, núcleo de outras formas de conflito. Esse conhecimento, conforme Mata (1993, p.110), é expresso “sob a forma de lamentação, embora plasmada de uma matriz irônica e salpicada de signos nativistas e até de ufanismo acompanhado de revolta perante a injustiça de ser negro cuja cor indica luto e pena”. Sua obra mostra, com exatidão, a amplitude do preconceito contra o homem de cor que tenta sobreviver na sociedade portuguesa. O drama do preconceito racial contra o poeta corresponde a uma imensa dor, um fardo que tem que ser carregado, no qual ele não consegue reagir. Mata (Op. cit, p. 110) informa que a poetisa Alda do Espírito Santo entendia que o drama psicológico presente em Costa Alegre “não atingiu as profundas desigualdades das contradições socioeconômicas do sistema colonial implantado no 45 país de sua origem”. Mas, apesar de ser acusado de propagar uma espécie de alienação de Ser negro, Mata (1993) verifica que sua poesia não é linear, pois não se esgota numa leitura sobre a atitude contemplativa do sujeito de enunciação. A ironia e a ambiguidade perpassam sua escrita e sugerem um pioneirismo no campo da problemática da cor em São Tomé e Príncipe. Para a autora, Costa Alegre perturba, em certa medida, os cânones literários da época por eleger a beleza negra como motivo poético, embora traduzida de forma alienante. A atmosfera lírica presente no soneto a seguir é construída a partir de um amor não correspondido, sendo marcado pela combinação de uma série de elementos visuais entrelaçados: dia, noite, flor, luz, sombra, carvão, diamante, torrente, fera, pantera. Mais que qualquer outro recurso expressivo associado à lírica, prevalece o apelo às imagens construídas por metáforas, aliterações e assonâncias: Aurora 1 Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora, 2 Tu és o dia, eu sou a noite espessa, 3 Onde eu acabo é que o teu ser começa. 4 Não amas!... flor, que esta minha alma adora. 5 És a luz, eu a sombra pavorosa, 6 Eu sou a tua antítese frisante, 7 Mas não estranhes que te aspire formosa, 8 Do carvão sai o brilho do diamante. 9 Olha que esta paixão cruel, ardente, 10 Na resistência cresce, qual torrente; 11 É a paixão fatal que vem da sorte, 12 É a paixão selvática da fera, 13 É a paixão do peito da pantera, 14 Que me obriga a dizer-te <<amor ou morte!>> Versos, 1916 (ALEGRE, Caetano da Costa. “Aurora”, Apud FERREIRA, 1989, p. 436) No primeiro quarteto, o poeta parece ser amordaçado pela sua própria pele, incorporando estereótipos em que a cor negra, de acordo com Serrano e Waldman (2007), é considerada como mácula, culpa, castigo e mancha pela sociedade branca discriminadora. Vale salientar, que a cor negra para o africano não é motivo de 46 complexo ou preocupação. Ela só passa a ser encarada como elemento de perturbação, a partir do momento que o negro africano deixa seu território de origem e passa a conviver com a sociedade branca discriminadora. Segundo Mata (1993), quando os filhos da terra iam estudar em Lisboa enfrentavam, entre outros, os problemas de adaptação e aceitação de sua cor visto que a sociedade apresenta-se, culturalmente, fechada para africanos. Costa Alegre foi vítima desse preconceito. As primeiras produções poéticas desse santomense abordam esse conflito etnocultural. A cor negra, considerada bela pelos africanos, torna-se a própria síntese da situação conflitual do poeta que passa a sentir o fardo que ela representa para a sociedade lisboense. Nesse sentido, a cor da pele, representada nos dois primeiros quartetos como imagens de “noite espessa”, “sombra vaporosa” e “antítese frisante”, é, pois, a barreira que impede o poeta de ingressar socialmente no mundo com o qual se identifica, o mundo branco. Com relação à cor negra, os autores Serrano e Waldman (2007) esclarecem que, no período medieval, a teoria camita estigmatizava os negros enquanto descendentes do personagem bíblico Cam, como indignos, por isso havia o pressuposto de que os africanos estariam condenados à escravidão. No Antigo Testamento (cf. Gênesis 9:23-27) Cam, um dos filhos de Noé, era considerado ancestral bíblico das populações africanas. Por ter zombado do pai, teria recaído sobre ele o estigma da escravidão. No entanto, os autores afirmam que não consta nenhuma indicação bíblica de que Cam fosse negro. É interessante observarmos que Aurora, a musa inspiradora que rejeita o poeta pela cor negra de sua pele, é associada ao elemento da natureza - Aurora - o período antes do nascer do sol, quando este já ilumina a parte da superfície terrestre ainda na sombra. Nesse sentido, a mulher amada (Aurora) de pele clara, assume as características do nascer do dia (aurora), encarada no soneto como princípio e origem (verso 3): “Onde eu acabo é que o teu ser começa”. A complexidade obtida, nesse verso a partir da combinação de elementos aparentemente tão simples (mulher/natureza), age como uma armadilha traiçoeira para o leitor apressado. A esse respeito Andrade (1996, p. 131) alerta que é inútil buscar uma chave interpretativa que traduza o poema em um sentido unívoco, direto e claro. Para esse autor, a força do poema provém exatamente da indeterminação, que pode ser confundida com arbitrariedade. 47 Ainda no primeiro quarteto, a presença da flor (verso 4), segundo Candido 1 (2005), vem geralmente marcar a paz, a suspensão da discórdia e da violência. Mas, nesse contexto, seu poder se torna nulo, indiferente, igual à Aurora, indiferente ao amor do poeta. Com relação ao par dia/noite, marcam dois espaços nitidamente delimitados: no mundo do dia e no mundo da noite, segundo Bernd (1987), são criados principalmente no poema “Banzo” de Raimundo Correia, a partir de uma simbologia tradicional “onde dia é associado ao que é positivo, ao ideal, à felicidade e à esperança, e noite ao que é negativo, ao sofrimento, à dor e a desesperança” (p.105). Estar na noite, aqui, é voltar ao indeterminado onde se mesclam pesadelos e monstros, as ideias negras. Nesse jogo de antíteses (dia/noite, claro/escuro) sobre o qual se constroi sua poética, podemos perceber até que ponto Costa Alegre introjetou um simbolismo estereotipado. Apesar do peso que a cor negra representa, percebe-se que ele tenta superar ou reverter esta dialética, (no verso 8: “do carvão sai o brilho do diamante”), atribuindo-lhe novos sentidos. Embora o carvão esteja associado ao rude e ao escuro, esse verso traz um elemento inovador e inesperado: o brilho da pedra mais preciosa e cobiçada das jazidas africanas. Nesse nível, o fazer poético de Costa Alegre representa uma ruptura, uma inovação. Além do elemento narrativo, há, no soneto, um elemento dramático. O poeta se dirige a uma musa que o repudia pela sua pele negra. Essa figura feminina a quem apela o poeta é particularmente significativa. Seu poder de sedução é determinante. O uso de metáforas para descrever essa paixão avassaladora ( “paixão cruel, ardente”, “paixão fatal”, “paixão selvática da fera”, “paixão do peito da pantera”) é associado a elementos nativos da fauna africana. Entre esses elementos, os substantivos “fera” e “pantera” descrevem o seu caráter sedutor e, ao mesmo tempo, destruidor, excluindo o poeta de suas pretensões amorosas. Percebe-se também que, nos dois tercetos, Costa Alegre descreve essa paixão sob a forma de angústia sexual, que se associa ao desespero da rejeição. A cada nova rejeição da mulher amada, a paixão cresce “qual torrente” (enxurrada 1 É oportuno esclarecer que Candido, em seu livro Na sala de aula , não faz a leitura do poema “Aurora”, nem de qualquer outro poema escrito por poetas africanos; entretanto, acreditamos que a percepção que ele tem da imagem “flor” pode ser aplicada a força expressiva do poema de Costa Alegre. A partir de então, todas as vezes que fizermos referência a Candido estamos considerando, tão somente, a visão que ele tem das imagens contidas nos poemas dos autores brasileiros por ele estudado na obra acima. 48 provocada por uma chuva forte que arrasta tudo por onde passa). Diante desse dilema ele sente-se obrigado a escolher entre “amor ou morte”. Esse par, segundo Candido (2005), foi cultivado pelo Romantismo nas variações mais diversas, inclusive a famosa “morte por amor”. Nesse caso, o poeta sonha em poder realizar o seu desejo e sofre numa tensão cruel, tudo tão violento e perigoso que pode causar a sua destruição. Em uma leitura mais superficial, nota-se que Caetano da Costa Alegre não consegue encontrar, em sua pele e em seu sangue, meios de integração no mundo. Ele aceita forçadamente sua condição e sofre com ela. Em uma leitura mais detalhada percebemos que esse poema traduz uma africanidade ainda que embrionária. Por isso, Margarido (Apud Mata, 1993, p. 111) aconselha prudência na análise e interpretação de Costa Alegre, uma vez que ele tem a percepção do caráter abominável da discriminação racial e não parece sentir a cor como injustiça, mas, como uma atitude do indivíduo. Como a identidade, conforme Bernd (1997), define-se em relação a algo que lhe é exterior, ela é uma diferença. Esta consciência da diferença para o poeta é um elemento sobre o qual se funda um projeto de superação, o primeiro passo para uma afirmação identitária. Nesse sentido, a cor passa a ser considerada como elemento de ação, de autonomia para o negro, recusando a marginalização. Assim, o poeta vai passar a encarar a noção de cor como uma qualidade positiva. Este princípio pode ser visto na obra de Francisco José Tenreiro que, segundo Margarido (1980), caracteriza-se pela descoberta da magnificência da pele negra não mais condenada pelas sociedades colonizadoras. Para tanto, ele apresenta um vasto conhecimento histórico sobre os sofrimentos e humilhações pelos quais passaram os negros. Os poemas de Tenreiro inserem-se na linha da negritude que, a partir de 1935, vinha sendo divulgada no campo particular da poesia negra e malgache de expressão francesa por Leopold Sedar Senghor e Aimé Césaire. A negritude é compreendida por Bernd (1987, p. 27) como (1) estado ou condição das pessoas de raça negra e (2) ideologia característica da fase de conscientização, pelos povos negros africanos, da opressão colonialista, a qual busca reencontrar a subjetividade negra, observada objetivamente na fase précolonial e perdida pela dominação da cultura ocidental. Em um sentido restrito, a Negritude, com “N” maiúsculo, representou “um momento pontual na trajetória de construção de uma identidade negra, dando-se a conhecer ao mundo como um 49 movimento que pretendia reverter o sentido da palavra negro dando-lhe um sentido positivo” (BERND, 1987, p. 28). A negritude, para Dantas (2009, p.14), faz “da poesia um canal de luta em prol da desalienação do negro, condição sine qua non, não só para sua reabilitação como também para a construção de um amanhã sem discriminação”. Independente da divergência de interpretações, a negritude, na visão de Bernd (1987), repercutiu na África, principalmente como movimento literário. Foi continuada de forma mais implícita do que explícita, pela geração de escritores africanos em um período anterior às independências. Pelo viés da negritude, observa-se uma preocupação de Francisco José Tenreiro em trazer, para a literatura, a questão dos negros e mestiços, que são retratos de uma África de várias formas e perspectivas etno-culturais. O fato de Tenreiro ter nascido em São Tomé e Princípe e ser filho de português com uma negra e quando jovem ir viver em Portugal para finalizar seus estudos, revela muito sobre sua obra. Em alguns momentos, pode-se identificar um caráter autobiográfico, já que alguns de seus poemas possuem, como tema, o saudosismo em relação ao país de origem e à posição do negro e do mestiço numa sociedade marcada pela colonização europeia. Segundo Colleti (2007), as origens desse autor se refletem diretamente em sua obra, pois, vivendo em Lisboa, Tenreiro pôde ter contato com intelectuais da época, que integraram o movimento neo-realista, e também teve maior acesso no que se refere às produções e aos movimentos artísticos dos negros na América (Estados Unidos, Cuba, Haiti). Nessa perspectiva, o poeta absorve e foca seus conhecimentos na África, mudando a visão racial que se tinha, até então, do continente. Sua contribuição dá-se por meio de sua produção literária, que, de maneira agressiva e revolucionária, aborda e posiciona-se contra a opressão efetuada pelos colonizadores perante os colonizados. Sua condição de mestiço, presente na cor e na cultura, explicita-se no poema “Canção do mestiço”. A construção da matéria poética de “Canção do mestiço” (transcrito a seguir) se caracteriza por ser imune à oscilação e à angústia, apresentando o máximo de autonomia e resistência a qualquer ameaça de desequilíbrio. Afastada a “desordem da alma” que encontramos em “Aurora”, esse poema apresenta uma luz reveladora que atua sobre objetos (tabuleiro de xadrez, cabelo, cigarro), seres (mestiço, branco, branca e negra) e cenas (reação positiva do mestiço diante da discriminação racial). 50 A questão da afirmação da identidade lírica é colocada como um peso máximo de recusa da alienação imposta pela sociedade branca, conforme pode-se ler no poema: Canção do Mestiço 1 Mestiço! 2 Nasci do negro e do branco 3 e quem olhar para mim 4 é como que se olhasse 5 para um tabuleiro de xadrez: 6 a vista passando depressa 7 fica baralhado cor 8 no olho alumbrado de quem me vê. 9 Mestiço! 10 E tenho no peito uma alma grande 11 uma alma feita de adição. 12 Como 1 e 1 são 2. 13 Foi por isso que um dia 14 o branco cheio de raiva 15 Contou os dedos das mãos 16 fez uma tabuada e falou grosso: 17 - mestiço! 18 a tua conta está errada. 19 Teu lugar é ao pé do negro. 20 Ah! 21 Mas eu não me danei... 22 e muito calminho 23 arrepanhei o meu cabelo para trás 24 fiz saltar fumo do meu cigarro 25 26 27 cantei do alto a minha gargalhada livre que encheu o branco de calor!... 28 Mestiço! 29 Quando amo a branca 30 sou branco... 31 Quando amo a negra 32 sou negro 33 Pois é... (TENREIRO, Francisco José. “Canção do mestiço” Apud AMÂNCIO, 2008, p.63-64) 51 Nesse poema, as estrofes são diferentes umas das outras e há, intercalada entre elas, a interjeição Mestiço! que, repetida várias vezes, destaca o que é ser mestiço numa sociedade discriminadora. Pela indicação do próprio título, trata da mestiçagem fazendo uma apologia incondicional à mistura das raças, utilizando o tabuleiro de xadrez, símbolo de raciocínio lógico, centralizado e inteligente, para representar a mistura do branco e do negro de forma positiva. Um fato muito interessante encontrado no poema é a presença de expressões da oralidade, muito frequentes na linguagem falada como: “baralhado cor”, “ao pé do negro”, “me danei”, “arrepanhei”, “fiz saltar fumo do meu cigarro”. Expressões como essas, conforme Colleti (2007), são muito comuns nas poesias africanas, principalmente naquelas que possuem um caráter de protesto e crítica em relação à colonização. Nesse sentido, a linguagem do poema “transforma a língua do colonizador, misturando-a com elementos da oralidade para criticar e fazer com que ele, o próprio colonizador, não compreenda muito bem sua própria língua, [sem perceber] que está sendo criticado, zombado” (Idem, op. cit, p. 17). Para situar essa influência da cultura oral na escrita africana, Chaves (Apud COLLETI, 2007, p. 17) afirma que: De um lado os sinais da oralidade; do outro a sedução da escrita. A tradição e a modernidade são, portanto variáveis de um mesmo problema que transparece na relação entre vida e literatura, entre realidade e linguagem. Os primeiros versos (“Nasci do negro e do branco/e quem olhar para mim/é como que se olhasse/para um tabuleiro de xadrez/a vista passando depressa/fica baralhado cor/no olho alumbrado de quem me vê/;”) são utilizados pelo poeta para representar a magnificência da pele, não mais condenada pelos germes da inferioridade ancestral impostos pelo homem branco. Com relação ao jogo de xadrez, sabe-se que o objetivo dessa competição é eliminar o “rei” do adversário, o que nos remete a ideia do embate que há no processo de colonização, em que o “rei” representa a figura do colonizador. Nesse sentido, o jogo de xadrez é uma estratégia, no poema, para “atingir” o adversário e acabar com o seu plano de inferiorizar o mestiço. O que caracteriza a inferioridade ancestral é o racismo que tem como faceta a mixofobia “o horror à mistura das raças” (BERND, 1997, p.27) que imperou nas 52 teorias científicas do século XIX. A partir desta teoria, os mais pessimistas chegaram a prever que a mestiçagem teria, por consequência inevitável, a degeneração das raças e dos povos que a praticassem. Em “Canção de mestiço”, o poeta percebe que a única maneira de superar a alienação que a sociedade branca quer impor à mestiçagem consiste em inverter a situação, mostrando que a cor mestiça não é uma cor alienante e, sim, uma cor que reforça a consistência do homem. Se alguns poetas reproduzem o estereótipo da cor negra associada ao caos, ao luto, às trevas e ao mal, um maior número, conforme Bernd (1987), principalmente de autores atuais, procura inverter esse simbolismo. Nesse poema, a cor é ligada ao belo e ao harmônico, uma vez que o preto pode representar não só a ausência como a soma das cores; não só a sua negação, mas também a sua síntese. Por isso, o mestiço percebe-se como representante máximo dessa mistura de cores, emoção e experiência. Essa consistência e grandeza são reforçadas nos versos 10,11 e 12: “E tenho no peito uma alma grande/uma alma cheia de adição/como 1 e 1 são 2;”. Aqui temos o primeiro momento de afirmação da identidade, pois, como já foi comprovado pela ciência moderna, “a mestiçagem existe desde os primórdios da humanidade e favorece as variações físicas e psíquicas” (BERND, 1997, p.29). Do ponto de vista biológico, sabe-se que não existe nem superior nem inferior; o que existe são diferenças nas características pessoais dos indivíduos que se submetem ao cruzamento. Nesse sentido, a “alma grande” remete à bondade, à beleza e à solidariedade. O ensinamento maior propagado pela negritude está presente nos versos 13 ao 17. Nesses versos, o poeta não se limita apenas a narrar os fatos “de fora”, ele está engajado na aventura, por ele, narrada. Nessa aventura é mostrado o estereótipo negativo de que o mestiço, por ser considerado como um cruzamento inferior, é incapaz de desenvolver um raciocínio lógico: “mestiço/a tua conta está errada/teu lugar é ao pé do negro”. Diante dessa afirmação, o branco atribui ao mestiço uma natureza primitiva, reduzindo-o ao trabalho doméstico, excluindo-o da esfera intelectual, como mostra a expressão: ”teu lugar é ao pé do negro”. Apesar dos estereótipos, o poeta não se perde num cenário de angústias e inferioridades. Ele foge da pura lamentação diante das injustiças profundas de que o povo negro e o mestiço foram vítimas. A presença da interjeição “Ah!” faz com que ele opte pelas modalidades discursivas da crítica e da afirmação, manifestando sua 53 não conformidade com o modo pelo qual negros e mestiços são representados nos discursos dominantes: “Mas eu não me danei/ e muito calminho/arrepanhei o meu cabelo para trás/fiz saltar fumo do meu cigarro/...cantei do alto/a minha gargalhada livre/ que encheu o branco de calor...”. Em “Canção do mestiço” observa-se que tanto no nível das características físicas (cabelo, cor da pele) quanto no nível dos referenciais históricos e culturais, tudo que era motivo de vergonha recebe uma conotação positiva, tornando-se objeto de exaltação. Constata-se também que o mestiço, de observado, transita para a esfera de observador. Pois a poesia torna-se o palco onde se encena um jogo de olhares recíprocos, através dos quais o poeta procura desconstruir uma imagem estereotipada que se cristalizara como verdadeira e por meio da qual a sua alteridade era negada. Esse poema irá também produzir uma imagem do branco que ocupa uma posição secundária no discurso, tornando-se, por sua vez, o outro: “cantei do alto/a minha gargalhada livre/ que encheu o branco de calor!..”Temos, assim, a imagem do branco que de dominador passa a ser dominado pela atitude positiva do poeta. Nos versos finais, a primeira impressão que temos é que não há uma posição reivindicativa, mas uma situação ambígua quando o poeta diz: “Quando amo a branca sou branco... Quando amo a negra sou negro”. Porém, essa ambiguidade é desfeita pelo verbo amar, pois o amor é uma forma de liberdade. Conforme Margarido (1980), a escravidão e as relações sexuais eram controladas pelo senhor, que as determinava de acordo com as conveniências do trabalho; por consequência, o amor não era livre. O amor só pode ser livre quando nasce do homem livre e, para isso, é necessário ultrapassar a condição de dominado e adquirir uma vida humanizada. Ao amar a branca e a negra, o poeta atinge um nível superior, tornando-se igual aos outros, sem distinção de cor devido ao poder humanizador do amor. Dessa forma, a poesia de Tenreiro, como considera Margarido (1980, p.530), é “uma poesia em que se encontra um humanismo negro que se baseia no conhecimento profundo do seu próprio valor”. Assim, a necessidade de autoafirmarse é uma exigência imposta, uma vez que a posição do colonizador é racista e excludente e os poemas que seguem a orientação da Negritude, de certa forma, procuram recuperar a força e a dignidade do negro. Outra forma de afirmação da identidade negra ocorre a partir da valorização 54 da mestiçagem e de certos padrões culturais oriundos da sociedade caboverdiana. Gomes (2006) esclarece que, enquanto a função de líder e de mestre (encarregado de comandar os acontecimentos locais) nas sociedades de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, até mesmo, no Brasil, era atribuída ao português. Em Cabo Verde, o mulato adquiriu, desde cedo, a liberdade de movimentos e a condição de mestre e líder na estruturação da sociedade caboverdiana. Vale salientar que esse fato aconteceu porque o mestiço nunca foi um elemento de perturbação, cheio de desajustes psíquicos, nem nunca permaneceu indeciso entre o negro e o branco, ao contrário: aproximou-os, integrou-os em uma paisagem cultural dissolvendo preconceitos de pureza racial entre as famílias caboverdianas. A miscigenação, nesse caso, não se propagou apenas no sangue, mas na alma e nos esquemas de comportamento. Mariano (1991, p.75) considera que “o mestiço caboverdiano revelou-se um elemento essencialmente catalizador, mas também inovador e plástico”. A ausência do regime da grande plantação, ou da roça, devido aos flagelos climáticos, foi um elemento bastante positivo. Para Mariano (1991, p.73), “foi o que nos valeu”, pois, por trás da grande plantação, a exemplo do que ocorreu em outros territórios africanos e no Brasil, viriam diretores, capatazes que fariam dos produtos cultivados matéria de exploração exclusiva para o mercado europeu. Tal fato descaracterizaria a região, provocaria a estagnação cultural e provocaria, no negro e no mestiço, desajustes psíquicos, como ocorreu com algumas produções poéticas de São Tomé e Príncipe. Logo, o humor, a humildade, a pequena propriedade, a alegria e a liberdade desses habitantes traduzem a mestiçagem e a hibridização que fizeram, da literatura de Cabo Verde, um veículo de afirmação identitária e ascensão social. No poema “Chuva em Cabo Verde”, Ovídio Martins apresenta essa postura esperançosa e renovadora ao enfatizar a satisfação de ver molhada a terra selvagem, na qual poderá se tornar um paraíso futuro: Chuva em Cabo Verde 1 Choveu 2 Festa na terra 55 3 Festa nas Ilhas 4 Soluçam os violinos choram os violões 5 nos dedos rápidos dos tocadores 6 <<Dança morena 7 dança mulata 8 menininha sabe como vocês não tem>> 9 E elas sabinhas 10 dão co’as cadeiras 11 dão co’as cadeiras 12 Choveu 13 Festa na terra 14 Festa nas Ilhas 15 já tem milho pa cachupa 16 já tem milho pa cuscuz 17 nas ruas nos terreiros 18 por toda banda 19 as mornas unem os pares 20 nos bailes nacionais 21 mornas e sambas 22 mornas e marchas 23 mornas e mornadas 24 Choveu 25 Festa na terra 26 Festa nas Ilhas 27 que cantam e dançam 28 e riem e choram de contentamento 29 Soluçam os violinos choram os violões 30 nos dedos rápidos dos tocadores 31 <<Dança morena 32dança mulata 33meninha sabe como você não tem>> 34 E elas sabinhas 35 dão co’as cadeiras 36 dão co’as cadeiras 37 dão co’as cadeiras 100 poemas, 1974 (MARTINS, Ovídio. “Chuva em Cabo Verde”, Apud FERREIRA, 1989, p.228-229) Ao realizarmos a leitura deste poema, percebemos que ele foi construído para proporcionar ao leitor um efeito encantatório e de profunda interação. Estamos diante de um poema que, de acordo com Jorge Luis Borges (Apud NUNES, 1996, p. 177), “não quer dizer nada e à maneira da música diz tudo”. De fato, o encanto é motivado pela chuva que traz a festa, a dança e a música. A interação dos caboverdianos é realizada mediante uma série de movimentos oriundos de ritmos musicais. Esses ritmos são construídos pela repetição de palavras, presença de rimas e, principalmente, pela repetição do verbo “choveu” e do substantivo “dança”, 56 principais fatores da intensidade rítmica. Na celebração da chuva, os caboverdianos cantam, dançam, tocam instrumentos musicais, unem os pares e se divertem. No poema, a festa é representada através de imagens que remetem à música (violinos, violões, dança, baile, sambas, mornas, mornadas), como sugestão da mobilidade presente nas danças. Essa mobilidade também pode ser sentida pelo leitor que, por meio da visão, incorpora a imagem da festa criando um quadro mental das ações ali ocorridas. Isso ocorre porque a experiência da imagem é anterior à da palavra e, segundo Bosi (1993, p.13), “vem enraizar-se no corpo. A imagem é afim a sensação visual”. Dessa forma, o ser vivo tem, a partir do olho, as formas da festa, do movimento dos instrumentos musicais, os passos da dança, o movimento dos pares. Por isso, “a imagem é um modo da presença que tende a suprir o contato direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós” (BOSI, 1993, p.13). O ato de ver, para o autor, apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência. Nessa perspectiva, a imagem que o leitor faz da festa ao ler o poema é uma síntese que oferece traços, cores e outros elementos visuais em simultaneidade. Após contemplar essa síntese é possível explorá-la aos poucos, só então emerge a totalidade da imagem. A festa contida no poema é uma reverência dos caboverdianos pela chegada da chuva. Esse ato de festejar caracteriza-se em uma ação celebratória. A chuva tão ausente nesse território renova a esperança de seus habitantes destacando o mito da fertilização, que transformará a terra estéril em planícies cobertas de espigas de milho, como no verso: “...já tem milho pa cachupa/já tem milho pa cuscuz”. Com a chuva, o sentimento de viver, estado intensivo de ânimo e origem da admiração que motiva esse habitante, constitui a tônica dos versos. Assim, o verbo “choveu”, repetido três vezes, exalta a festa como chuva e a chuva como festa. Realizando uma leitura em voz alta desse poema, constata-se que a imagem forma o primeiro elo de uma cadeia de associações. Ao repetirmos “festa na terra, festa nas ilhas”, também se repetem as imagens “soluçam os violinos, choram os violões/ dança morena/dança mulata/dão co’as cadeiras”, que são elementos do cenário festivo associados à chuva. As aliterações “mornas e sambas/ mornas e marchas/mornas e mornadas” 57 completam o espaço da ação celebratória da chuva e são identificadas como a alegria de viver, posto que remetem à ideia de molejo corporal, presente nos movimentos da dança. Nos versos finais ocorre a continuidade da expansão erótica contida no balançar do quadril das morenas e mulatas (dão co’as cadeiras, versos 35,36 e 37), mostrando que a celebração da chuva, associada ao sentimento de viver, não cessam. Nesse poema, a festa também representa a exaltação dos valores da mestiçagem que o poeta Ovídio Martins evidencia como elemento integrador, cuja grandeza ultrapassa os problemas econômicos e a irregularidade das chuvas. A festa na ilha corresponde a uma harmonização ou fusão de estilos diferenciados e do equilíbrio de forças antagônicas que, em outros territórios africanos, ficariam irredutíveis ou em conflito. Como enfatiza Mariano (1991), “o negro é o verdadeiro filho dos climas tropicais e o mestiço viria a revelar-se o elemento capaz ou mais habilitado para renovar e enriquecer as paisagens tropicais ou sub-tropicais tanto de Cabo Verde como do Brasil e de São Tomé e Príncipe” (p.70). Apesar dos problemas climáticos da ilha e do peso da dominação cultural que durou cinco séculos, o caboverdiano começou, desde cedo, a resistir reivindicando sua identidade. Essa resistência expressava-se tanto pela fala caboverdiana (o crioulo) como pela música revolucionária que, conforme Gomes (2006), entoava na maioria das vezes: ...mornas, as cantigas de trabalho, os repiques do batuque, a euforia do funaná dançando, dos poemas engajados, dos cantos “di bóka de tardi” que, com as manifestações coletivas como a Tabanca, [festas em homenagem aos santos populares, Santa Cruz, Santo Antônio, São João e São Pedro] somavam-se à resistência organizada que desencadeou as lutas de libertação nacional. (p.161) Assim, o poema “Chuva em Cabo Verde” traz, ao abordar a festa e os ritmos musicais, o fortalecimento da identidade negra e mestiça resgatada a partir de suas próprias raízes populares, com o objetivo de dar ao mestiço a dignidade que lhe foi negada. Logo, elementos como a sensualidade das morenas e mulatas situam-se tanto no contexto africano como no universal, como personalidade sociocultural, autônoma e singular. Como o indivíduo está constantemente em busca de autodefinição, a procura plural do equilíbrio identitário e de uma sintonia interna, leva o indivíduo, inserido 58 num espaço social, a também procurar harmonizar, a se inserir em uma comunidade ou grupo. É o que Augel (2007) denomina de “Identidade Compartilhada”, pois a reciprocidade aliada à consciência da diferença são elementos importantes quando se trata de identidade. Nessa perspectiva, o discurso literário guineense também é construído em torno da afirmação identitária e das preocupações sociais. Podemos encontrar poemas que expressam sentimentos de pertença, de identidade compartilhada e de consciência coletiva, como é o caso do poema “Nós Somos” de Hélder Proença: Nós somos 1 Nós somos 2 aqueles que dia e noite 3 fazem com suas mãos 4 os alicerces da vida. 5 Nós somos 6 lágrimas, suor e sangue 7 que desconfiando mortes e séculos... 8 fundiram esperanças e fé! 9 Nós somos irmãos 10 a florir, a madrugada 11 e o verde selvagem dos maquis 12 que em noites sombrias 13 trazem a canção da vida. 14 Nós somos 15 dança, música e ritmo 16 que em anos 40 17 sobreviveram a tempestade da fome. 18 Nós somos irmãos 19 terra, chuva e arado 20 que alimentam vidas 21 e alicerçam o homem! 22 Nós somos 23 o tantã da verdade 24 em místicas noites do fanado 25 nós somos irmãos 26 a certeza e o porvir! Não posso adiar a palavra, 1982 (PROENÇA, Hélder. “Nós somos”, Apud FERREIRA, 1989, p.296) 59 Neste poema Hélder Proença assume um papel social, identificando-se com seu povo. Quando utiliza a expressão “Nós somos” e “Nós somos irmãos”, assume a função de porta-voz, ou ainda tcholonadur, expressão guineense que, de acordo com Augel (2007, p.248), é apropriada para designar o mensageiro, ou intérprete. Em “Nós somos”, o poeta, além de mostrar as dificuldades que afligem o povo, ele faz referência à natureza, aos ritmos musicais, à terra, à chuva e a tudo aquilo que lhes pertence. Desse modo, Proença evidencia que o povo guineense é a representação mais viva dos sofrimentos, da dança, da alegria e da esperança. Se a história do povo guineense é uma história feita de opressão e luta, a arte produzida pelo poeta cria uma forma de literatura que busca o contato com a massa, estabelecendo um novo tipo de comunicação com o leitor. O poema é dividido em seis estrofes, contendo versos impregnados de amor pelas tradições africanas e afirmação de uma identidade genuinamente guineense, expressa por repetições e gradações. Os verbos na primeira pessoa do plural indicam a inclusão do poeta e do seu povo no discurso poético, caracterizando um desejo coletivo de (re)estabelecer vínculos com essas tradições. A vida do poeta adquire sentido porque ele exprime no poema o sentimento de responsabilidade pelo destino coletivo de seu povo. A dinâmica na produção desse poema permite que o eu/nós se revele e se construa literariamente. A primeira estrofe refere-se ao trabalho duro, evocando trabalhadores braçais e sofredores: “aqueles que dia e noite/ fazem com suas mãos/ os alicerces da vida”. Nesta estrofe, o poeta atua como agente participante dessa história, mostrando que uma real identidade só é construída na medida em que o povo toma as rédeas do seu destino histórico. Na segunda estrofe (versos 5,6,7 e 8), o poeta refere-se às dificuldades sociais do povo de sua terra, que inspiram no escritor um profundo sentimento de sensibilidade e respeito: “Nós somos/ lágrimas, suor e sangue/ que desafiando mortes e séculos.../ fundiram esperanças e fé!” Os versos exprimem o tempo sombrio da opressão colonial e da guerra quando os valores africanos foram desqualificados. Sugerem, ainda, a identificação do poeta com o sofrimento de seres marginalizados, feridos, humilhados e mortos. Nesse cenário, o papel do escritor, que expressa repúdio e denúncia, é da maior importância para a retomada da autoestima e da valorização das coisas da terra. Como esse poema é datado de 1982, época pós-independência, ele desempenha um papel essencial na construção da identidade coletiva. A cultura, que 60 no poema é memória e trabalho, também evoca e invoca a natureza, conforme pode-se depreender dos versos “...o florir, a madrugada/ e o verde selvagem dos maquis/ que em noites sombrias trazem a canção da vida”. Tem-se, também, a paixão expressa pela terra, pelo verde selvagem dos maquis, pelos elementos típicos da paisagem africana e especificamente guineenses, caracterizando o seu amor à pátria livre, louvando as belezas concretas de seu país e glorificando a resistência ao colonizador. Esses versos ainda estão impregnados pelos aromas e cores dos campos (“florir”, “verde selvagem” e “noites sombrias”). O verso “fundiram esperanças de fé” mostra que, diante da dor, da morte e do espanto frente ao desenraizamento do presente há um grito de esperança. Vale ressaltar que o lirismo desse poema, pois, pode ser compreendido como emoção, mas, ao mesmo tempo, como um caminho em que se exalta a memória de uma coletividade. Na quarta estrofe, temos o ritmo musical, indicado pela presença de violões, violas e guitarras, que, para Augel (2007), são mais apreciáveis pelas camadas populacionais crioulizadas. No verso 19 o poeta exprime a ideia de que o povo guineense também está representado na terra que com a chuva torna-se sagrada, pois fornece o alimento material, que “alicerçam o homem”. Na última estrofe, temos a importância do simbolismo do tantã - tipo de instrumento que, segundo Augel (2007, p.252), “relembra o don-don, espécie de pequeno tambor fula que serve para enviar mensagens”. Para os guineenses, ele corresponde a uma das formas culturais mais representativas do seu povo, devido ao seu poder de ser utilizado para anunciar as notícias. De modo geral, o tantã tornou-se símbolo não só do sentimento de pertença à cultura ancestral, como, também, da memória coletiva. O ressoar do tantã, segundo Bernd (1987, p. 135), “simboliza, em poesia negra, o chamamento à conscientização”. No último verso (“a certeza e o porvir!”), a consciência resistente vai gerar a “poesia-redenção”, na qual a temática dominante é o enaltecimento do povo guineense. A ampliação do sentimento de solidariedade aos demais oprimidos passa pela elaboração de uma imagem positiva do negro. De um modo geral, a preocupação maior de Hélder Proença nesse poema é a de restaurar o ser coletivo. O eu engloba, aqui, o nós; daí surge a vocação para a construção de uma identidade comunitária que, de acordo com Bernd (1987), torna-se proeminente nos momentos dramáticos da história, como guerras perseguições, ou períodos de 61 afirmação Nacionalista. Pelo fato de terem sido marcados pela ferida da dominação (na condição de escravos) é natural que a preocupação identitária coletiva preceda à individual. 2.3 –Saudosismo e a importância da oralidade e da infância como aprendizado O tema da infância revela um período tranquilo, o lugar onde as diferenças raciais não eram percebidas com muita intensidade e o mundo do trabalho ainda não era visto como uma atividade excludente de imposição e exploração. A consciência dos problemas raciais não estava formada, logo não atingia o mundo idealizado de sonhos, brincadeiras e traquinagens. O mundo infantil, conforme Margarido (1980), ainda não é constituído por humilhados, ofendidos e sem-terras, mas por crianças que dispõem da mesma relação com o mundo, pois ainda não se separaram da natureza. Essa idealização da infância como uma fase que busca um tempo de alegria e sonhos, quando representada em poemas, pode ser considerada como uma forma de resistência. É o que nos sugere o poema “Rua da Maianga” de Mário Antônio, transcrito a seguir. Rua da Maianga 1 Rua da Maianga 2 que traz o nome de um qualquer missionário 3 mas para nós somente 4 a rua da Maianga. 5 Rua da Maianga às duas da tarde 6 lembrança das minhas idas para a escola 7 e depois para o liceu 8 Rua da Maianga dos meus surdos rancores 9 que sentiste os meus passos alterados 10 e os ardores da minha mocidade 11 e a ânsia dos meus choros desabalados! 12 Rua da Maianga às seis e meia 13 Apito do comboio estremecendo os muros 14 Rua antiga da pedra incerta 15 que feriu meus pezitos de criança 16 e onde depois o alcatrão veio lembrar 17 velocidade aos carros 18 e foi luto na minha infância passada! 19 (Nenê foi levado prHospital 62 20 meus olhos encontraram Nenê morto 21 meu companheiro de infância de olhos vivos 22 seu corpo morto numa pedra fria!) 23 Rua da Maianga a qualquer hora do dia 24 as mesmas caras nos muros 25 (As caras da minha infância 26 nos muros inapagados!) 27 as moças nas janelas fingindo costurar 28 a velha gorda faladeira 29 e a pequena moeda na mão do menino 30 e a goiaba chamando dos cestos 31 à porta das casas! 32 (Tão parecido comigo esse menino!) 33 Rua da Maianga a qualquer hora 34 o liso alcatrão e as suas casas 35 as eternas moças de muro 36 Rua da Maianga me lembrando 37 meu passado inutilmente belo 38 inutilmente cheio de saudade! Poesias, 1956 (ANTÔNIO, Màrio. “Rua da Maianga”, Apud FERREIRA, 1989, p.67-69) Esse poema de Mário Antônio pode ser visto como episódio de sua vida, por exprimir momentos marcantes da sua infância que nunca serão esquecidos. A Rua da Maianga representa muito mais do que uma simples homenagem feita a algum missionário. Para o poeta, ela é parte de um passado belo, cheio de recordações. O retorno ao passado, segundo Candido (2005), é uma das características mais típicas do Romantismo. De um modo bem individualista, Mário Antônio aborda, em “Rua da Maianga”, a morte, a tristeza e a angústia diante da vida que leva, comparada à que tinha na infância. A paisagem urbana da rua composta pela escola, pelo liceu, pelo liso alcatrão e suas casas são elementos que definem o eu-lírico como menino da cidade; inversamente, os sentimentos, as ações e os propósitos deste são ajustados à paisagem dessa rua. O espaço no poema é, pois, modificado essencialmente pelo tempo e se torna algo dinâmico, na medida em que foi vivido pelo menino. No verso “ Rua antiga de pedra incerta/ que feriu meus pezitos de criança/ e onde depois o alcatrão veio lembrar/ velocidade aos carros”, temos a antiga rua que mesmo asfaltada pelo alcatrão, não apaga a lembrança das pedras que feriam seus pequenos pés. Essas pedras ainda permanecem duras, cortantes, reforçando esse jogo entre passado e presente. 63 Essa ligação entre cena e agente mostra que a Rua da Maianga tem um sentido humano que acompanha as etapas da vida do poeta, sendo sucessivamente as de plenitude (na evocação da infância e na descrição dos acontecimentos rotineiros), catástrofe (na morte do amigo de infância Nenê, vítima de atropelamento) e redenção (o sonho que faz o poeta visualizar as mesmas pessoas, os mesmos rostos). É fácil verificar que o tempo cronológico é minuciosamente demarcado nos versos 5,12,23 e 33: “Rua da Maianga às duas da tarde/ Rua da Maianga às seis e meia/ Rua da Maianga a qualquer hora do dia/Rua da Maianga a qualquer hora”. Esses versos determinam a divisão do poema em quatro partes, caracterizando um efeito de mobilidade. Essa mobilidade é construída da seguinte forma: às duas da tarde (lembranças das minhas idas para a escola/e depois para o liceu); às seis e meia (o apito do comboio estremecendo os muros); a qualquer hora do dia (as mesmas caras nos muros/as caras da minha infância nos muros inapagados); a qualquer hora (o liso alcatrão e as suas casas/as eternas moças de muro). Os movimentos representados no poema penetram o subconsciente do leitor, deslocando-o para o passado e depois remetendo-o para a realidade do presente. Os verbos (“veio lembrar”, “foi” e “encontraram”) marcam o cunho patético de um bem perdido, que existiu apenas no passado, isto é, na recordação conflituosa do poeta. A morte do seu companheiro de infância (versos 17 ao 22) marca a extrema fragilidade do destino em que o garoto de olhos vivos é visto, por ele, morto em uma pedra fria. A antítese expressa pelo garoto morto que tinha os olhos vivos está presente tanto no ambiente fúnebre do hospital que agrega silêncio e mobilidade quanto no brilho e na vivacidade dos olhos desse menino enquanto vivo. Mas, para Mário António, em lugar de um morto, existia ali um ídolo. Essa atmosfera solitária, fria, silenciosa e sombria representada pela morte resulta em um extraordinário efeito dramático, a descrição do tormento do eu-lírico. É interessante notarmos que o poeta descreve essas ações simples e rotineiras, colocando-as como ações grandiosas: “as idas para a escola e depois para o liceu, o apito do comboio às seis e meia, a morte do companheiro de infância, as moças nas janelas, a velha gorda faladeira, a goiaba chamando dos cestos”. Tais ações representam uma resistência contra a pressão social agindo artisticamente, através do indivíduo e de sua espontaneidade, colocando-se para além de uma 64 situação social limitada e limitante, na direção de uma situação digna do homem. Esse atitude de não expor o fardo da colonização e seus efeitos nefastos fazem com que o poeta tente recuperar, no universo infantil,o sonho de um mundo diferente, um mundo sem opressão e prepotência: “meu passado inutilmente belo,/ inutilmente cheio de saudade!” Ao contrário de Mario António, Viriato da Cruz, em seu poema “Serão de menino”, evoca a infância, mas, em uma outra direção, voltada para a aquisição de conhecimentos e valores culturais como a oralidade: Serão de menino 1 Na noite morna, escura de breu, 2 enquanto na vasta sanzala de céu 3 de volta de estrelas, quais fogaréus, 4 os anjos escutam parábolas de santos... 5 na noite de breu, 6 ao quente da voz 7 de suas avós, 8 meninos se encantam 9 de contos bantus... 10 <<Era uma vez uma corça 11 dona de cabra sem macho... *********************** 12 ...Matreiro, o cágado lento 13tuc... tuc... foi entrando 14para o conselho animal... 15(<< – Tão tarde que ele chegou!>>) 16 Abriu a boca e falou – 17 deu a sentença final: 18 << – Não tenham medo da força! 19 Se o leão o alheio retém 20 – luta ao Mal! Vitória ao Bem! 21 tire-se ao leão, dê-se à corça.>> 22 Mas quando lá fora 23 o vento irado nas frestas chora 24 e ramos xuaxalha de altas mulembas 25 e portas bambas batem em massembas 26 os meninos se apertam de olhos abertos: 27 – Eué 28 – É casumbi... 29 E a gente grande – 30 bem perto dali 65 31 feijão descascado para a quitanda – 32 a gente grande com gosto ri... 33 Com gosto ri, porque ela diz 34 que o casumbi males só faz 35 a quem não tem amor, aos mais 36 seres buscam, em negra noite, 37 essa outra voz de casumbi 38 essa outra voz – Felicidade... Poemas, 1961 (CRUZ, Viriato da. “Serão de menino”, Apud FERREIRA, 1989, p.51-52) Podemos constatar que o poeta não exclui os fatos vivenciados pelas crianças: “a noite escura de breu” e a “vasta sanzala do céu”, são elementos que fazem parte da realidade deles. Os indivíduos atuam ao mesmo tempo como sujeitos e objetos de suas ações, porém eles se opõem à condição de objeto ultrapassando-o, o que corresponde à negação da alienação. Diferentemente do menino de “Rua da Maianga”, as crianças de “Serão de Menino” vivenciam uma unidade africana. Eles “se encantam de contos bantus...” que a moda das fábulas lhe oferece lições valiosíssimas de vida que, partindo do universo da oralidade, expressam, no poema, a beleza e singeleza dos contos bantus. O poema é dividido em seis estrofes de 38 versos em que os fatos são narrados de forma pessoal e criativa. A maneira das fábulas, o poema rodeado de uma cadeia de imagens, parece esconder um único sentido, uma moral a ser desvendada. Na primeira estrofe, a “noite morna, escura de breu” e a “noite de breu” estão ajustadas a uma corrente que, segundo Candido (2005), valoriza o mistério, respeita o inexplicável e aprecia os sentimentos indefiníveis. Daí, o gosto pela noite como hora em que as crianças se reúnem para apreciar as histórias contadas pelos mais velhos. A escuridão reina e se associa na imaginação do leitor a acontecimentos anormais ou sobrenaturais, pontilhados de espíritos como Casumbi. Mas também “o gosto pela noite da alma, modo de ser melancólico ou lutuoso, dominado pelas emergências do inconsciente” (Idem, Op. cit, p. 44). À noite, segundo Candido (2005), liga-se o sono, como estado que conduz a um mundo próprio, às vezes, tocado pelo sobrenatural, por causa do sonho e da sua manifestação extrema, o pesadelo. Para Novalis (Apud CANDIDO, 2005, p. 45), a noite: 66 Não é apenas o momento benéfico da solidão da natureza, no qual as lembranças refluem no coração. Ela aparece ao poeta como a grande reveladora, a fonte oculta, tanto dos nossos sentimentos quanto das coisas, o tesouro infinito no qual um mundo inteiro de imagem desperta sob o passo do explorador. Nessa perspectiva, a noite no poema domina o pensamento das crianças tornando-se um subterrâneo vago que se ilumina pouco a pouco e onde se desprendem figuras imóveis que habitam o outro lado do mundo. Nos versos (8 e 9) “meninos se encantam de contos bantus”, observa-se que a socialização das crianças é realizada por meio da oralidade, incluindo os ensinamentos dos provérbios. Conforme Leite (1988, p. 16), a oralidade “é uma atitude perante a realidade e não a ausência de uma habilidade”. Para os mandingas, uma das etnias da Guiné-Bissau, “uma coisa que é dita é mais importante que coisa que foi escrita” (PORTUGAL, 1999, p.35). Isso ocorre porque, nas literaturas africanas de língua portuguesa e outras existentes na África, encontramos um uso extraordinário dos recursos da oralidade como técnica singularizante dessas literaturas. Essa valorização da palavra justifica a posição privilegiada dos griots como “contadores de histórias”, função geralmente atribuída aos membros mais velhos do clã. Os griots possuem um status social especial, conferido pela tradição e honrado desde tempos imemoriais. Por isso, Portugal (1999) considera brilhante a afirmação de que “quando um velho morre é uma biblioteca que se perde”. Segundo esse autor, não é por acaso que os africanos que se incorporam à escrita se consideram os continuadores do griot como forma de perpetuar seu trabalho criativo. Além disso, os griots atuavam como mediadores nos conflitos inter-familiares e interclânicos, entre os chefes e os súbditos. Assim, o conhecimento que possui esses “mestres da palavra” se revela como fundamental, não só para o conhecimento das sociedades ditas tradicionais africanas, como também para as novas gerações. Foi por meio de sucessivas gerações de griots que o passado de muitas sociedades do continente foi fixado, em alguns casos remontando a tempos longínquos, um registro prodigioso nos termos da sua factualidade. Conforme sugere o poema, os mais velhos armazenam um vasto repertório de contos, provérbios e relatos históricos, possuindo um status social e especial conferido pela tradição através dos tempos. Para Serrano e Waldman (2008), a 67 atuação dos griots reveste-se de importância primordial em termos de perpetuação da memória. Em “Serão de menino”, a importância da palavra falada sugere que, além de seu valor primordial, ela possui um caráter sagrado que a associa com uma origem divina e com as forças ocultas nela depositadas. A palavra é agente mágico por excelência e, segundo a tradição africana, pode retirar do sagrado o seu poder criador e operacional, encontrando-se em relação direta tanto com a manutenção quanto com a ruptura da harmonia, seja do homem, seja do mundo que o cerca. O conto “bantu” aparece no poema como uma imagem que revela a fonte oculta dos ensinamentos, um tesouro infinito no qual um mundo inteiro de imagens e sons, (representado pelas onomatopeias tuc...tuc..) auxiliam as crianças a encararem a vida com coragem, astúcia e determinação. O conto narra a história do cágado que chega atrasado ao conselho animal. Essa história corresponde a um provérbio e traz uma moral revelada: a força não deve ser temida e, sim, enfrentada, não importando se o outro está em uma posição de desvantagem. No caso do cágado que, mesmo sendo lento e chegando atrasado ao conselho animal, expressa com autoridade a sua sentença final, comprovando que a astúcia e a inteligência sempre vencem; “ – luta do Mal! Vitória do bem!”. Esse conto representa um dos momentos de maior beleza para o leitor mostrando que a aprendizagem na infância é, também, a aprendizagem do mundo e que vai além do mundo dos mortos e dos espíritos. Os versos “Mas quando lá fora/ o vento irado nas frestas chora/ e ramos xuaxalha de altas mulembas/ e portas bambas batem em massembas/ os meninos se apertam de olhos abertos:/ – Eué/ – É casumbi.../”, trazem da noite escura um ser que representa a ira dos ventos, balança as árvores e faz as portas baterem. Nesse momento, uma espécie de quadro se forma na mente do leitor, trazendo um fato que movimenta os meninos. Esse fato é uma aparição bizarra, o mundo dos espíritos que se abre para nós: a presença de Casumbi. As crianças acreditam que os espíritos são os provocadores do “xuaxalhar”, das mulembas. Para Serrano e Waldman (2008, p. 78), o caso das célebres árvores sagradas como a múlèmba, do antigo Reino Ndongo (Angola), representam simbolicamente “as ligações do mundo dos vivos com o dos mortos e o poder instituído. À sua sombra se reuniam os chefes e os soberanos. Coerentemente eram plantadas no centro de cada aldeia do Ndongo”. Por simbolizarem a identidade local, 68 essas árvores eram alvo de destruição sistemática pelos colonizadores portugueses. Com relação à referência feita ao espírito Casumbi, corresponde ao termo chamado de animismo. O animismo para E. B. Taylor (1903) designa a crença segundo a qual a natureza é regulada por espíritos ou divindades. Segundo os povos animistas, alguns destes espíritos são mais poderosos que outros, mas qualquer um será sempre mais forte do que o homem. No poema, os humanos e os espíritos são considerados partes independentes do mesmo mundo. Os humanos acreditam que os espíritos estariam presentes não apenas nos seres vivos, como também nos inanimados, controlando a temperatura, as colheitas, a reprodução, até o balançar das árvores, influenciando a vida e os acontecimentos do mundo. Alguns seriam generosos, mas outros malignos, por essa razão as crianças se assustam quando o vento irado balança as árvores e as portas. Elas apertam os olhos de medo, pois sabem que os espíritos malignos devem ser apaziguados através de cerimônias ou pelo uso de amuletos. Em “Serão de menino”, as crianças deduzem que os animais e as plantas possuiriam igualmente um espírito, dado que, à semelhança do homem, eles também conhecem a vida, a doença e a morte. Os versos 29 a 38 mostram um adulto que ri diante do medo dos meninos. Nesse intervalo, os garotos, a partir das lições contidas nos contos e nos provérbios, aprendem a diferenciar o som humano da presença do espírito e tomam conhecimento que Casumbi só faz mal a quem não tem amor. Nesse sentido, a busca dos seres humanos é pela outra voz de Casumbi, a voz da felicidade. Como observamos, esse poema não é sufocado pelo peso da Cidade Grande, ele mostra um espaço autônomo, cheio de tradições e genuinamente africano, em que a criança aprende, com os mais velhos (griots), a reconhecer os homens, as árvores e os espíritos. 2.4 - A opressão colonial O Colonialismo, de acordo com Ianni (1997), pode ser definido como a teoria caracterizada pelo estabelecimento de uma colônia. A expressão colônia para Chacon (1998) designa um agrupamento de pessoas que abandonou a pátria originária por motivações econômicas, designadamente demográficas, em execução de um plano de expansão comercial que procura estabelecer uma rede, em resultado de convulsões políticas que obrigam os vencidos a partir. Nessas 69 condições, o povoamento resultante da migração provoca naturais conflitos relacionados inicialmente com a posse da terra, mas a defesa da identidade é o valor principal. Segundo Chacon (1998), os territórios são em regra habitados por populações com identidades diferentes dos colonizadores, o que rapidamente implica a organização de um sistema de domínio sobre os nativos, com base na força e na superioridade econômica. Dessa forma, surge o movimento colonizador que se traduz em várias formas de apropriação das terras e pela organização do poder formal e informal de domínio do grupo imigrante sobre os grupos nativos. É nesse contexto que a evolução da emigração portuguesa para Angola entre 1937 até 1958 trouxe vários portugueses interessados em acumular rapidamente dinheiro para se impor no quadro da sociedade colonialista. Para conseguirem seus objetivos, passaram a explorar a força de trabalho dos habitantes africanos, obrigando-os a trabalhar nas lavouras ou nas indústrias, recebendo muito pouco pelo seu trabalho e em outros casos nada, alimentando-se mal e alojados em péssimos lugares. Para obterem o enriquecimento às custas do trabalho miserável dos africanos, os agentes brancos tinham o apoio das autoridades administrativas que utilizavam os argumentos mais absurdos para incentivarem essa situação. Segundo Margarido (1980, p.277), “o crescente aumento da mão-de-obra contratada, em Angola, a partir de 1945 (o ano chave da valorização dos chamados produtos coloniais) é acompanhado pelo florescimento de empresas poderosas e pela concentração de capitais”. A cobiça dos proprietários brancos portugueses resultava no trabalho forçado de muitos africanos que viviam em situação lamentável com a tendência de tornarse ainda pior, pois, em alguns casos, o trabalhador que vivia sob o regime do contrato deveria partir para o arquipélago de São Tomé e Príncipe para trabalhar nas lavouras de café e cacau sem ter a certeza de regressar. É nesse cenário que se verifica a ação brutal do homem branco colonizador no mundo do trabalho. No poema “Monanganba”, António Jacinto traz, simbolicamente, um exame detalhado da situação do contratado levando o leitor a ter consciência da sua miséria e de suas necessidades: Monangamba 70 1 Naquela roça grande não tem chuva 2 é o suor do meu rosto que rega as plantações: 3 Naquela roça grande tem café maduro 4 e aquele vermelho-cereja 5 são gotas do meu sangue feitas seiva. 6 O café vai ser torrado, 7 pisado, torturado, 8 vai ficar negro, negro da cor do contratado. 9 Negro da cor do contratado! 10 Perguntem às aves que cantam, 11 aos regatos de alegre serpentear 12 e ao vento forte do sertão: 13 Quem se levanta cedo? Quem vai a tonga? 14 Quem traz pela estrada longa 15 a tipóia ou o cacho de dendém? 16 Quem capina e em paga recebe desdém 17 fuba podre, peixe podre, 18 panos ruins, cinquenta angolares, 19 <<porrada se refilares>>? 20 Quem? 21 Quem faz o milho crescer 22 e os laranjais florescer 23 - Quem? 24 Quem dá dinheiro para o patrão comprar 25 máquinas, carros, senhoras 26 e cabeças de pretos para os motores? 27 Quem faz o branco prosperar, 28 ter barriga grande – ter dinheiro? 29 - Quem? 30 E as aves que cantam, 31 os regatos de alegre serpentear 32 e o vento forte do sertão 33 responderão: 34 <<Monangambééé...>> 35 Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras 36 Deixem-me beber maruvo, maruvo 37 e esquecer diluído nas minhas bebedeiras 38 <<Monangambééé...>> Poemas, 1961 71 (JACINTO, Antônio. “Monangamba”, Apud FERREIRA, 1989, p.39-41) Nestes versos o homem contratado é totalmente marginalizado e explorado, tudo que se refere a sua pessoa como o sangue, o suor e o seu corpo é anulado para se transformar no café, o produto mais significativo, que encherá os bolsos do patrão. O fubá e o peixe podre, além dos panos ruins, estão associados à sujeira, uma forma de corrupção não só do homem, mas de todo o conjunto social, pois viver na sujeira e entre trapos é um fato que corroi a sua dignidade e a relação entre o homem e seu próprio corpo. Dessa maneira, quando o homem não tem acesso às principais necessidades como higiene e alimentação, ele animaliza-se desistindo de lutar contra seus opressores. Com isso, seu corpo torna-se não só torturado, mas alienado, por ser um elemento do duro trabalho. Quanto ao aspecto formal, o poema destaca-se pela linguagem clara e direta que expõe a situação do contratado. Nesse cenário, o leitor tem contato com um discurso despojado e sem mistério. A predominância de verbos no presente reforça as reflexões do escravizado e aumenta o seu desejo de ter uma vida mais humanizada. Mas a presença do verbo “responderão”, no futuro, marca um destino cruel, patético e entregue à bebida (maruvo), o que corresponde a uma extrema fragilidade do destino, de um fracasso real, como se o monangamba tivesse condenado a permanecer naquele destino cruel. O poema é dividido em três momentos. No primeiro, o eu-lírico expõe suas dificuldades na roça de café (versos 1,2,3,4 e 5); no segundo, faz uma série de questionamentos à natureza sobre a sua condição de escravizado (versos 13 a 16, 20 a 34) e, no terceiro e último momento, ele se queixa da vida, sem nenhuma esperança de um futuro melhor (versos 35 a 38). Percebemos também que o eulírico faz uma série de questionamentos à natureza marcados pela repetição do pronome interrogativo quem. Outro fato interessante seria a força expressiva de alguns recursos sonoros, como as rimas perfeitas: “dendém/desdém, angolares/refilares, palmeiras/bebedeiras, tonga/longa, crescer/florescer”. Além disso, temos a presença de aliterações “fubá podre, peixe podre, panos ruins, porrada se refilares”. A batida do fonema p sugere a dureza do trabalho e a difícil situação do trabalhador contratado que fica totalmente entregue nas mãos do destino. 72 A exploração do monangamba, que só recebe como pagamento apenas cinquenta angolares e surra, também é transmitida para o leitor através de metáforas (versos 3 a 5, 6 a 8). Nessas metáforas, o vermelho-cereja do café está associado ao sangue do trabalhador, já o processo de pisar e torrar o café está associado à tortura do contratado. Este fato é reforçado ainda pela anáfora: “Negro da cor do contratado”. A presença dos verbos no particípio (pisado, torrado, torturado) indica que a ação foi concluída, ficando subentendido que nada foi feito para reparar tanta injustiça. Com relação ao termo “cabeça de pretos”, Laban (2006) esclarece que não pode ser entendido no sentido figurado, mas, sim, no sentido próprio. Ao entrevistar António Jacinto, Laban (2006) descobriu que o termo refere-se às lendas que corriam sobre os crimes cometidos por certos salteadores do interior. Segundo o autor, a lenda diz que os salteadores cortavam as cabeças dos caminhantes para as máquinas industriais. A lenda pode ter surgido de antigos engenhos de açúcar que usavam ossos para suprir a falta de cal (cálcio) para branquear o açúcar. Diante de tanto sofrimento, a única saída possível para suportar a miséria de uma vida sem esperanças é entregar-se à bebida, nesse caso ao maruvo, um vinho de palma feito da seiva da palmeira dem-dem, ou com o vinho de caju. Para compreender o final do poema, Laban (2006) esclarece que os colonos tentavam proibir o consumo de maruvo, e isso por duas razões principais: a primeira, porque era necessário favorecer a venda dos vinhos da metrópole nas colônias e, a segunda, porque, ao recolher a seiva da palmeira em grande quantidade, a árvore poderia morrer, prejudicando os interesses do próprio colono. A bebida aparece no poema como saída para o devaneio, para o sonho acordado, na tentativa de apagar uma vida de sofrimento. No que se refere ao termo Monangambééé, a repetição das letras finais, segundo Laban (2006), sugere o insulto, a troça que as crianças dirigiam aos contratados quando os viam passar transportados nos caminhões. No poema, esse termo corresponde principalmente à indiferença da natureza (aves, regatos, ventos) que reforça essa troça a partir da imagem da personificação. A natureza apresenta vida própria, sendo única testemunha do sofrimento do trabalhador, que recorre a ela, relatando suas dificuldades. Mas a natureza permanece indiferente diante das queixas do monangamba. Mesmo apresentando fatos desagradáveis que depreciam a imagem do 73 contratado, o poema apresenta uma resistência do eu-lírico contra as barbaridades impostas pelo sistema colonial, encorajando os leitores a desafiarem as leis miseráveis e sem sentido que reduzem muitos africanos à servidão. Devido à característica original e reivindicativa desse poema, Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro o escolheram, em 1953, para fazer parte do caderno de Poesia negra de expressão portuguesa, tendo a Negritude como principal suporte. O poeta moçambicano José Craveirinha também exprime, de maneira exemplar, as ocorrências da opressão colonial. Para Chaves (2006), o percurso de sua poesia sempre afirmou a sua integração num espaço cultural marcado por transformações e rupturas. Desde os anos de 1950, quando se intensificou sua atividade literária, o homem moçambicano sofreu, na pele e na alma, as amarguras do sistema colonial. A ilusão de que a independência mudaria a situação do país e a dureza das guerras fizeram com que o poeta recolhesse essas realidades para transformá-las em poesia, fazendo suas reflexões de acordo com a realidade por ele vivenciada. Margarido (1980) afirma que a construção poética de Craveirinha não é apenas constituída de palavras, mas também por “mais linguagens” que funcionam por si próprias e se refletem na poesia. Por ser um poeta com a “missão de contar coisas”, conforme observou Chaves (2006), Craveirinha “narra”, no poema “Reza, Maria!”, de forma crítica, os conflitos culturais, mostrando o sofrimento do povo moçambicano e abrindo espaços políticos para o rápido crescimento do movimento anticolonial, influenciado pelos ideais triunfantes de liberdade. Nesse poema, verificamos um desabafo forte e indignado que contesta, principalmente, os métodos do colonizador português: Reza, Maria! 1 Suam no trabalho as curvadas bestas 2 e não são bestas 3 são homens, Maria! 4 Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos 5 e não são cães 6 são seres humanos, Maria! 7 Feras matam velhos, mulheres e crianças 8 e não são feras, são homens 9 e os velhos, as mulheres e as crianças 10 são os nossos pais 74 11 nossas irmãs e nossos filhos, Maria! 12 Crias morrem à mingua de pão 13 vermes nas ruas estendem a mão à caridade 14 e nem crias nem vermes são 15 mas aleijados meninos sem casa, Maria! 16 Bichos espreitam nas cercas de arame farpado 17 curvam cansados dorsos ao peso das cangas 18 e também não são bichos 19 mas gente humilhada, Maria! 20 Do ódio e da guerra dos homens 21 das mães e das filhas violadas 22 das crianças mortas de anemia 23 e de todos que apodrecem nos calabouços 24 cresce no mundo o girassol da esperança. 25 Ah, Maria 26 pões as mãos e reza. 27 Pelos homens todos 28 e negros de toda parte 29 põe as mãos 30 e reza, Maria! (CRAVEIRINHA, José. “Reza, Maria!”, Apud AMÂNCIO, 2008, p.80-81) Neste poema, Craveirinha dá uma espécie de ênfase narrativa, na qual o leitor poderá presenciar imagens fortes devido à dimensão visual que os versos apresentam. O poeta se apropria de uma coletividade de sofredores, denunciando e descrevendo esse mundo de iniquidades que o colonialismo constroi e de que se alimenta, o que confirma a trajetória de um sofrido povo, castigado pelo trabalho forçado e mal remunerado, pela miséria, morte prematura e pela espoliação de corpos e mentes. São todos os personagens de uma tragédia, uma realidade dura que contamina o olhar do poeta tornando-o indignado. O uso constante do imperativo afirmativo “Reza, Maria!” assegura uma significativa carga dramática, neutralizando todo o lirismo que é utilizado na maioria dos poemas convencionais. O movimento das personagens “seres humanos”, “nossos filhos”, “meninos sem casa”, “gente humilhada”, “filhas violadas”, “crianças mortas de anemia”, descreve essa situação dramática, criando, na mente do leitor, imagens que levam à construção de uma poesia objetiva que, segundo Chaves (2006), é um dos sinais da modernidade do poeta. O poema é dividido em três momentos seguindo a sequência: animalização, 75 negação e humanização. É interessante observarmos que os versos 1,4,7,12, 13 e 16 se caracterizam pela animalização do ser humano através dos substantivos: “bestas”, “cães”, “feras”, ”crias”, “vermes” e “bichos”. Em seguida, temos a negação dessa animalização (versos 2,5,8,14 e 18) que ocorre a partir da conjunção aditiva e ( que marca um recomeço) acrescida do não, do nem e do também:” e não são cães/ e não são feras/ e nem crias nem vermes são/ e também não são bichos”. Por fim, ocorre a humanização tanto dos oprimidos como dos opressores (versos 3,6, 10,11,15 e 19): “são seres humanos, Maria!/...são nossos pais/ nossos irmãos e nossos filhos, Maria!/ mas aleijados meninos sem casa, Maria!/ mas gente humilhada, Maria!” Como podemos verificar, as cenas e expressões violentas são resultado do ódio e da guerra dos homens. Episódios como “a humilhação das mães e das filhas violadas, das crianças mortas de anemia e de todos que apodrecem nos calabouços” transmitem uma sobrecarga de acontecimentos, caracterizando “Reza, Maria!” como um poema de movimento. Vale ressaltar que o movimento das personagens é articulado de forma vagarosa, uma espécie de câmera cinematográfica, que vai revelando, aos poucos, o cenário destruidor causado pelos homens. Nota-se que o eu-lírico assume o papel de observador ideal e que não conta algo ocorrido, mas mostra o que está ocorrendo, numa apresentação de tipo dramático realçada pela ação dos figurantes e expressa por verbos no presente (suam, corre, matam, morrem, espreitam). Contudo, toda a agitação, todo o desespero e a angústia são suavizados no verso 24: “cresce no mundo o girassol da esperança”. A presença da flor de acordo com Antonio Candido (2005, p.14), marca a suspensão provisória da violência superando as tensões. A simbologia do girassol, segundo Prieto (2004, p.142), é uma flor que “dá as boas vindas e atrai as bênçãos do sol com fartura, fertilidade e riquezas”. Com relação à imagem de Maria, sabe-se que, no contexto do catolicismo, ela é importante e poderosa, a rainha de todas as mães e mulheres, cujo poder é capaz de interceder pelos povos do mundo inteiro. Porém, no contexto africano, o poeta mostra que o seu poder é limitado, pois ela é convocada em quase todas as estrofes para reconhecer o suplício vivenciado pelo povo africano, mas permanece impotente para amenizar tanto sofrimento. 76 Por reconhecer os sofrimentos asiáticos, europeus, africanos e de toda uma população de aflitos, Chaves (2006) considera Craveirinha como o poeta do “multirracialismo”. Nesse sentido, “o universalismo negro torna-se universalismo humano, a negritude volve-se em humanismo: homem que sofre e canta para os que sofrem...” (CHAVES, 2006, p.148). Por reconhecer que a guerra e o ódio tiram as coisas do lugar gerando um sentimento de perplexidade no sujeito, para escapar dessa desordem, o poeta apega-se à possibilidade de construção a partir da simbologia da flor, acreditando que é possível surgir um novo mundo capaz de abrigar o coração e a mente intranquila. 2.5 – O despertar do desejo: amor, denúncia e emancipação feminina O amor é um sentimento que implica introversão. Os sentimentos, contrastantes por natureza, levam ao desequilíbrio, ao paradoxo, à anarquia, pois só a razão parece ser capaz de oferecer uma visão equilibrada do universo. Para Candido (2006), a confissão de intimidades sentimentais corresponde, para o poeta lírico, a descoberta de sensações ligadas à fragilidade e ao mistério dos destinos humanos. Noutros casos, as imagens utilizadas para descrever o amor possibilitanos aproximá-lo de uma experiência mais humana e mais significativa: o amor é considerado como um jogo, uma espécie de “competição”, na qual só vencerá aquele/a que estiver disposto(a) a submeter-se aos erros e acertos que essa experiência acarreta. Identificamos esse tema, com base no poema “Namoro”, de Viriato da Cruz, que trata das dificuldades e desacertos de um rapaz para conquistar uma moça exigente e determinada: Namoro 1 Mandei-lhe uma carta em papel perfumado 2 e com letra bonita eu disse ela tinha 3 um sorrir luminoso tão quente e gaiato 4 como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias [floridas 5 espalhando diamantes na fímbria do mar 6 e dando calor ao sumo das mangas 7 Sua pele macia – era sumaúma... 8 Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas 9 sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo 10 tão rijo e tão doce – como o maboque... 77 11 Seus seios, laranjas – laranjas do Loge 12 seus dentes... – marfim... 13 Mandei-lhe essa carta 14 e ela disse não. 15 Mandei-lhe um cartão 16 que o amigo Maninho tipografou: 17 <<Por ti sofre o meu coração>> 18 Num canto – SIM, noutro canto – NÃO 19 E ela o canto do NÃO dobrou. 20 Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete 21 pedindo rogando de joelhos no chão 22 pela senhora da Cabo, pela Santa Ifigênia, 23 me desse a ventura do seu namoro... 24 E ela disse que não. 25 Levei à avó Chica, quimbanda de fama 26 a areia da marca que o seu pé deixou 27 para que fizesse um feitiço forte e seguro 28 que nela nascesse um amor como o meu... 29 E o feitiço falhou. 30 Esperei-a de tarde, à porta da fábrica, 31 ofertei-lhe um colar e um anel e um broche, 32 paguei-lhe doces na calçada da Missão, 33 ficámos num banco do largo da Estátua, 34 afaguei-lhe as mãos... 35 falei-lhe de amor... e ela disse que não. 36 Andei barbado, sujo e descalço, 37 como um mona-ngamba. 38 Procuraram por mim 39 << - Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim!>> 40 E perdido me deram no morro da Samba. 41 Para me distrair 42 levaram-me ao baile do sô Januário 43 mas ela lá estava num canto a rir 44 contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário. 45 Tocaram uma rumba – dancei com ela 46 e num passo maluco voámos na sala 47 qual uma estrela riscando o céu! 48 E a malta gritou: <<Aí, Benjamim”>> 49 Olhei-a nos olhos – sorriu para mim 50 pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim. Poemas, 1961 (CRUZ, Viriato da. “Namoro”, Apud FERREIRA, 1989, p. 49-50) O poema é dividido em três segmentos: o primeiro, aborda as tentativas frustradas de conquista, o segundo, mostra o abalo na autoestima do rapaz diante 78 do canto do NÃO e o terceiro, revela a grande surpresa. Esses três segmentos são, na verdade, unificados pelo fluir do ritmo. Podemos dizer que as estrofes, mesmo sem estarem seguindo esquemas de versificação tradicional devidamente rimadas, são bem estruturadas, bem amarradas, solidamente arquitetadas. Nos primeiros versos, o eu-lírico utiliza o recurso da carta em papel perfumado como forma de enaltecer seu sentimento, tal qual os poetas românticos faziam, mas a carta apresentada não descreve um amor idealizado e, sim, expressa o sentimento real, arrebatador e intenso que percorre o coração do rapaz, fazendo-o sentir-se aprisionado. Observamos que, na carta, o eu-lírico descreve a garota como a musa que lhe inspira desejos ardentes e provocantes. Esse desejo é expresso a partir de metáforas que comparam a mulher amada ao jambo, às rosas, ao maboque e à laranja. (versos 8,9,10 e 11): “Sua pele macia, da cor de jambo, cheirando a rosas/ sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo tão rijo e tão doce - como o maboque.../ Seus seios, laranjas – laranjas do Loge...”. Nesses versos percebe-se, ainda, que a mulher incorpora a imagem demoníaca da sedução deixando o rapaz louco de desejo. A presença de verbos no passado (mandei-lhe, esperei, levei, andei) mostra que o eu-lírico narra fatos já ocorridos que marcaram, por completo, a sua vida amorosa. Cada tentativa de conquista frustrada é reforçada pela repetição “e ela disse que não”, processando, na mente do leitor, um movimento de tensão. De um lado, a realidade cruel do presente e a nostalgia do passado devido às tentativas frustradas, de outro, a projeção irreal sobre o futuro incerto. Mas é no cruzamento do passado e do futuro que está situado o drama atual do rapaz. Esses elementos de tensão contribuem para aumentar a expectativa do leitor em relação ao desfecho da história. O poema é escrito em forma de narrativa no qual o eu-lírico assume um papel de narrador, falando na primeira pessoa, dirigindo-se diretamente ao leitor. Ele narra atos e fatos confirmando a sua presença no discurso, mostrando que “Namoro” é um poema com características de narrativa devido à presença do narrador, personagens (amigo Maninho, Zefa do Sete, avó Chica, moças mais lindas do bairro operário), ambientes (porta da fábrica, calçada da missão, largo da Estátua, morro do samba, baile do Sô Januário, Bairro operário) e tempo corrente. Todas essas ações obedecem uma sequência bem estruturada, narrando a tentativa de conquista passo a passo, sendo iniciada pela carta de amor, em seguida pelo cartão tipografado, pelo 79 recado, feitiço e oferta de presentes. Em seguida, o rapaz parte para outras tentativas, acompanhadas por ações que caracterizam a importância do chamado mundo da tradição (versos 22,25,26,27,28 e 29): “pela senhora do Cabo, pela santa Ifigênia”, “Levei à avó Chica, quimbanda de fama/ a areia que marca que o seu pé deixou/ para que fizesse um feitiço forte e seguro/ que nela nascesse um amor como o meu... E o feitiço falhou”. Ao utilizar força da tradição religiosa para conquistar a garota, temos um exemplo de que a sociedade africana sustenta uma constante relação recíproca entre os vivos e os antepassados, explicitada, de acordo com Serrano e Waldman (2008), no culto aos ancestrais. Nessa concepção, seu aspecto mais relevante reside na importância do chefe, ou da mulher mais velha e experiente da comunidade/clã, no caso da avó Chica, a intermediária entre o mundo visível e o invisível, intercedendo junto aos ancestrais, para atender o pedido do rapaz que, embora falhe no início, depois se concretizará. No poema também há um momento decisivo contido nos versos 36 e 37, nos quais a atmosfera amorosa remete ao sofrimento por amor: “Andei barbado, sujo e descalço/como um mona-ngamba”. Nesse trecho, o eu-lírico se compara ao monangamba, trabalhador contratado que vive em condições miseráveis, conforme vimos anteriormente, depreciando sua imagem e alimentando uma ternura melancólica. Um fato muito interessante é a presença da voz feminina, que aparece expressando sua autonomia, algo que não é comum na sociedade africana, marcada pela submissão da mulher em todos os níveis. A esse respeito, Benjamin (2006, p.25) nos informa que nas sociedades africanas o namoro e a estruturação da família estão condicionados por fatores sociais, culturais e econômicos, tais como: “o número de pessoas dos dois sexos em idade de gerar filhos, a divisão das atribuições do trabalho (inclusive do trabalho doméstico); as condições de obtenção do sustento (alimento e habitação); as normas religiosas e outros”. Além disso, essa sociedade é marcada por relações tradicionais, predominando a dominação masculina e a desvalorização da mulher. A mulher é delineada de forma autônoma, inteligente e criativa, ela representa o centro de todas as atenções e não admite ser tratada como um simples objeto. Assume uma postura positiva, desconstruindo a visão estereotipada do homem que trata a mulher africana como objeto. Pelo contrário, mostra-se esperta e cheia de atitude, aqui o homem é 80 que assume o papel de objeto, rastejando e implorando seu amor. No desfecho, o rapaz vai ao baile do sô Januário para se distrair e lá encontra a amada. No salão, os dois começam a dançar uma rumba. No movimento da dança (versos 46 e 47), os dois “voam na sala qual uma estrela riscando o céu”. Nesses versos, percebe-se que a dança é a responsável pela aproximação e envolvimento do casal. De acordo com Benjamin (2006), a dança para o povo africano possui caráter sagrado, influenciando a atração física a partir do contato corporal. Outro dado interessante é que, uma das características das danças africanas é ser de roda, em que o passo é quase sempre o mesmo, variando conforme o andamento da música. Em algumas variantes, o casal sai da roda e dança no centro do círculo. Uma coreografia muito frequente é a perseguição da dama pelo cavalheiro, como ocorre na rumba. Nesse sentido, o movimento rítmico dos corpos acompanhado pela música desperta sensações físicas no leitor, reforçadas pelo olhar diretamente nos olhos da amada e pelo pedido de um beijo. Por meio dessas sensações, o poema atinge a emoção, o sentimento e o subconsciente do leitor, que é preparado para um final surpreendente, contido no verso 50: “Pedi-lhe um beijo e ela disse que sim”. Esse efeito de surpresa, segundo Candido (2005, p. 86), é visto “como um dos fatores de constituição da linguagem poética, sendo um conceito básico dos modernos teóricos de que a poesia causa surpresa, espanto”. Esse efeito de surpresa e espanto contido no final de “Namoro” também é encontrado no poema “carta dum contratado” de António Jacinto. Ao realizarmos sua leitura, percebemos que a divisão das estrofes e a forma com que o eu-lírico narra oralmente os fatos servem de base para a construção da tão desejada carta: Carta dum Contratado 1 Eu queria escrever-te uma carta 2 amor, 3 uma carta que dissesse 4 deste anseio 5 de te ver 6 deste receio 7 de te perder 8 deste mais que bem querer que sinto 9 deste mal indefinido que me persegue 10 desta saudade a que vivo todo entregue... 81 11 eu queria escrever-te uma carta 12 amor, 13 uma carta de confidências íntimas, 14 uma carta de lembranças de ti, 15 de ti 16 dos teus lábios vermelhos como tacula 17 dos teus cabelos negros como dilôa 18 dos teus olhos doces como macongue 19 dos teus seios duros como maboque 20 do teu ardor de onça 21 e dos teus carinhos 22 que maiores não encontrei por aí... 23 eu queria escrever-te uma carta 24 amor, 25 que recordasse nossos dias na capôpa 26 nessas noites perdidas no capim 27 que recordasse a sombra que nos caía dos jambos 28 o luar que se coava das palmeiras sem fim 29 que recordasse a loucura 30 da nossa paixão 31 e a amargura da nossa separação... 32 Eu queria escrever-te uma carta 33 amor, 34 que a não lesses sem suspirar 35 que a escondesses de papai Bombo 36 que a sonegasses a mamãe Kieza 37 que a relesses sem a frieza 38 de esquecimento 39 uma carta que em todo o kilombo 40 outra a ela não tivesse merecimento... 41 Eu queria escrever-te uma carta 42 amor, 43 uma carta que ta levasse o vento que passa 44 uma carta que os cajús e cafeeiros 45 que as hienas e palancas 46 que os jacarés e bagres 47 pudessem entender 48 para que se o vento a perdesse no caminho 49 os bichos e plantas 50 compadecidos de nosso pungente sofrer 51 de canto em canto 52 de lamento em lamento 53 de farfalhar em farfalhar 54 te levassem puras e quentes 55 as palavras ardentes 56 as palavras magoadas da minha carta 57 que eu queria escrever-te amor... 58 Eu queria escrever-te uma carta... 59 Mas ah amor, eu não sei compreender 60 por que é, por que é, meu bem 61 que tu não sabes ler 82 62 e eu – Oh! Desespero! Não sei escrever também! Poemas, 1961 (JACINTO, Antônio. “Carta dum contratado”, Apud AMÂNCIO, 2008, p. 75-76) Inicialmente, vamos partir do problema vivenciado pelo contratado que tanto quer escrever uma carta à amada falando de seus sentimentos. Em um jogo inteligente, ele se apropria da oralidade ancestral e da utilização estilística de repetições e paralelismos que juntamente com o seu imenso desejo de escrever, vai, passo a passo, no plano do discurso marcando a construção efetiva de várias declarações de amor que vão se unindo e formando a tão desejada carta. A sua memória vai recuperando um passado de relações idealizadas e de plenitude, relembrando momentos de grande importância vivenciados pelo casal. Conforme Martin (2007), a carta de amor que ele tanto quer escrever acaba paradoxalmente sendo escrita pelas mãos do poeta que se faz porta-voz do sofrimento e da indignação do trabalhador contratado. O trabalhador contratado, conforme vimos anteriormente, é semi-escravizado e deslocado de sua terra original. Nessas condições, o eu-lírico manifesta seu desejo de escrever uma carta à amada mediando sentimentos como a saudade, a solidão e a reflexão. O verbo composto “queria escrever-te”, que funciona como futuro, manifesta a expectativa de uma ação que o eu-lírico não pode praticar. Outro fato interessante, conforme Martin (2007), é que o poeta recusa a assimilação imposta pelos valores europeus utilizando vários termos em quimbundo com o objetivo de valorizar a cultura angolana, juntamente com a mulher negra e a natureza que nessa poesia assumem papel de destaque. Percebemos que mulher e natureza se complementam a partir de metáforas que juntas expressam beleza e fascínio: “lábios vermelhos como tacula/, cabelos negros como dilôa,/ olhos doces como macongue,/ seios duros como maboque...”. A cada nova declaração de amor, a carta vai sendo construída oralmente utilizando-se do princípio vital e criando uma linguagem figurada de grande importância na caracterização do discurso literário em geral, do poético em particular. A humanização de bichos e plantas (cajus, cafeeiros, hienas, palancas, jacarés e bagres) ocorre tanto pela presença das forças vitais, como pela presença do verbo “entender” (verso 47) e do adjetivo “compadecidos” (verso 50) que, nesse contexto, atribuem razão e sentimentos a esses seres. Nessa perspectiva, a necessidade de associação entre a pessoa humana e o 83 mundo natural caracteriza a existência de forças vitais que, para Serrano e Waldman (2008), correspondem a uma noção de totalidade da criação: animais e plantas que, juntos, garantem relações de reciprocidade e de harmonia, contribuindo para o equilíbrio do meio-ambiente. Por isso, “a carta” que o contratado pretendia escrever deveria percorrer todos esses ambientes, para que fortalecesse essa corrente vital construindo, assim, palavras cheias de energia. Após a construção oral da carta, a esfera do sonho se rompe e o eu-lírico faz um movimento de volta à realidade propriamente dita, quando percebe que a amada não sabe ler e ele não sabe escrever. Esse fato está contido no verso 58 (Eu queria escrever-te uma carta...), em que as reticências indicam o corte da ilusão, um desvio de volta para a realidade, também marcado pelas interjeições ah e oh!. A carta, já construída a partir da naturalidade do discurso do eu-lírico, é apresentada para o leitor como uma forma de comunicação que supera totalmente as suas dificuldades de leitura e escrita, desconstruindo o mito do “analfabetismo africano”. Dessa forma, a palavra falada nas tradições africanas, tal como nos ensina Serrano e Waldman (2008, p.146), “além do seu valor moral fundamental, possui caráter sagrado, que a associa com uma origem divina e com as forças nela depositadas”. É por meio da oralidade que o trabalhador contratado transmite seus sentimentos, através da emoção e da experiência que se transformam em objeto estético aguçando a sensibilidade do leitor. 2.6 - A África Mãe Apesar das arbitrariedades impostas pelo colonizador português, muitos poetas africanos já apresentavam uma visão renovadora e libertária. Entre esses poetas, destaca-se Noémia de Souza que reivindica a condição de negra assumindo a representação integral da “Mãe África”. Margarido (1980) destaca que é importante notar que os poetas mestiços de Moçambique empregam sempre a expressão “MãeÁfrica”, - temática que percorre toda a poesia africana – como transposição do mito da Mãe Universal. A Grande Mãe é cultuada desde a Idade da Pedra e representa o símbolo arquetípico da fertilidade e do caráter elementar acolhedor, protetor e nutridor. Há, 84 ainda, segundo Newman (2004), traços do “Uroboros maternal” e da “Grande Mãe Urobórica”, em que residem essencialmente três formas do elemento Feminino: a Mãe bondosa, a Mãe Terrível e a Mãe Bondosa-Má. No poema “Negra”de Noémia de Souza, transcrito a seguir, tem-se a sugestão da força expressiva desse elemento feminino primordial da Grande Mãe: Negra 1 Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos 2 quiseram cantar teus encantos 3 para eles só de mistérios profundos, 4 de delírios e feitiçarias... 5 teus encantos profundos da África. 6 Mas não puderam. 7 Em seus formais e rendilhos cantos, 8 ausentes de emoção e sinceridade, 9 quedaste-te longínqua, inatingível, 10 virgem de contatos mais fundos. 11 E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual, 12 jarra etrusca, exotismo tropical, 13 demência, atracção, crueldade, 14 animalidade, magia... 15 e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias. 16 Em seus formais cantos rendilhados 17 foste tudo, negra... 18 menos tu. 19 E ainda bem. 20 Ainda bem que nos deixaram a nós, 21 Do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma 22 sofrimento, 23 a glória única e sentida de te cantar 24 com emoção verdadeira e radical, 25 a glória comovida de cantar, toda amassada, 26 moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE Sangue Negro, 1951 (SOUZA, Noémia. “Negra”, Apud AMÂNCIO, 2008, p.83-84) O poema canta os mistérios e as belezas da Mãe África mostrando a angústia de seus filhos quando estavam submetidos ao domínio do invasor estrangeiro, mais especificamente ao colonizador português. Pode-se dizer que esse poema é uma descrição pura, sem nenhuma voz na primeira pessoa do singular. Situado de fora, o leitor vê a descrição do coletivo de uma forma autônoma, sem vínculos de individualidade. O poema é dividido em três estrofes que parecem sugerir os momentos 85 históricos nele descritos. A primeira estrofe, focaliza a presença de exploradores estrangeiros cujo objetivo é tomar posse dos encantos profundos da África. A segunda estrofe, a maior do poema, descreve a impossibilidade de esses exploradores captarem os encantos africanos, por serem povos ausentes de emoção e sinceridade. Essa impossibilidade é construída através de adjetivos como ”longínqua” e “intangível”. Nessa estrofe (nos versos 11,12,13 e 14), ocorre ainda a reação desses povos a partir de palavras positivas (“amante sensual, exotismo tropical, atração,) e negativas ““demência, crueldade, animalidade”) atribuídas ao continente. Em seguida, temos a conscientização do eu-lírico diante de uma história construída em torno de uma assimilação. Nessa assimilação, a Mãe África (ou negra) deixou de ser ela mesma para assumir forçadamente características da cultura do colonizador. Esse fato é expresso nos versos 17 e 18: “foste tudo, negra.../ menos tu”. Por fim, a terceira estrofe mostra a partida dos exploradores e a emoção de continuar cantando em homenagem à Grande Mãe. No poema, como um todo, esse processo de assimilação também encontra-se representado através de um esquema pronominal em que eu/eles estão sempre em oposição. Enquanto eu representa o polo de positividade, eles corresponde ao da negatividade. O eu (a poetisa/a comunidade) está ligado a “cantar seus encantos” e “expulsar o opressor”; enquanto eles (gentes estranhas) a “discriminar”, “maltratar”, “roubar nossos encantos”, “devastar”. Nas imagens associadas à “Negra”, correlato da África, (versos 11,12,13 e 14), há termos que necessitam de atenção especial. No verso 11- “e te mascararam de esfinge de ébano...” - temos um par interessante. A esfinge, de acordo com Candido (2005, p.58), é um símbolo tradicional de enigma e mistério. “Por vezes sentinela dos jazigos faraônicos, incorporada nos tempos modernos à escultura dos sepulcros, como se pode ver nos nossos cemitérios”. Ao ser ligada ao ébano, seu caráter misterioso torna-se mais acentuado. O ébano, segundo Candido (2005), é o material de que eram feitos os cetros dos reis do oriente e as varas com que os magos egípcios operavam seus prodígios. Para Bernd (1987, p. 136), o ébano, “madeira negra de grande resistência e típica de certas regiões da África, aparece na maioria dos poemas, simbolizando o orgulho da cor e da resistência do povo negro”. Logo, a “esfinge de ébano” no poema, além da função de guardar, defender e livrar do medo e dos invasores, é também símbolo de autonomia e resistência. A expressão “jarra etrusca” mostra o gosto pela antiguidade e o desejo de 86 distanciamento. A arte etrusca refere-se à arte da antiga civilização da Etrúria, localizada na Itália central (atual Toscana) e que teve o seu apogeu artístico entre os séculos VIII e II aC. Na confecção de seus vasos, urnas cinerárias e caldeirões, os etruscos tinham o hábito de esculpir animais, serpentes e homens em suas habitações, o que corresponde às primeiras representações humanas na arte da Itália. A jarra remete ainda ao “vaso” que, para Newmann (2004, p.111), é tanto um atributo como um símbolo da natureza feminina. “O vaso de argila e mais tarde o vaso em geral, é um atributo característico e bastante antigo da mulher que a substitui e a complementa”. Por ser um símbolo da divindade feminina, é compreensível que o feminino seja visualizado e vivenciado como o vaso por excelência. A mulher como corpo-vaso, de acordo com Newmann (2004), é a expressão natural da experiência humana do Feminino que traz a criança dentro de si, e do homem que a penetra durante o ato sexual. No que se refere ao continente, à terra ou ainda à África, é o recipiente onde se forma a vida, o continente de seus filhos, todos os seres vivos que habitam o seu solo. Por todos esses atributos, a “Jarra etrusca” pode ser compreendida como recipiente de vida, beleza, originalidade e mistério. Com a partida dos invasores, os filhos dessa mãe adquirem liberdade. Eles se tornam os filhos nascidos, conforme a progressão ascendente: “do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma, sofrimento”. Mas, para atingir a glória de cantar os encantos dessa mãe, sua filha teve que passar por determinadas etapas, tais como sofrimento, luta e libertação. Essas etapas são metaforizadas nas palavras “amassada, moldada e vazada” que, além de expressarem uma musicalidade motivada pela repetição do sufixo ADA, funcionam como estágios (igual a um objeto de cerâmica, primeiro amassado, em seguida moldado e depois fundido) que todo ser humano deve enfrentar para atingir uma vida plena de realizações, que, nesse contexto, seria celebrar a Mãe. Nesse poema a força do mito é recuperada visto que a ação do conquistador não é tão completa a ponto de aniquilar a Mãe África. Daí a importância da poetisa que resgata a memória e a força das tradições e, com as suas “armas miraculosas” – as palavras –, expulsa os dominadores e transforma os elementos negativos em elementos de autorepresentação positiva dos povos africanos. 87 2.7 – A luta armada e o desespero da separação Na literatura da Guiné-Bissau, o tema do repúdio à guerra vem geralmente acompanhado do predomínio da crítica à má governança e a ambição pelo poder, cujas consequências desastrosas caem sobre a população. No poema “O último adeus dum combatente”, Vasco Cabral mostra que a Guiné-Bissau não foi apenas destruída nos seus alicerces, com o incêndio e o fogo dos canhões, mas também com o extermínio do amor que separa pessoas, destrói vidas e as esperanças daqueles que porventura sobreviverem. No soneto, transcrito a seguir, tem-se a descrição da dor de um combatente ao ter que deixar a mulher amada e partir para a guerra: O último adeus dum combatente 1 Naquela tarde em que eu parti e ti ficaste 2 Sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade. 3 Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade 4 Sofri na alma um amargor quando choraste. 5 Ao despedir-se eu trouxe a dor que tu levaste! 6 Nem só o teu amor me traz a felicidade. 7 Quando parti foi por amar a Humanidade 8 Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste! 9 Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste 10 será a dor e a tristeza de perder-me 11 unicamente um pesadelo que tiveste. 12 Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me 13 e se fui aquele a quem tu mais quiseste 14 que se conserve em ti a esperança de rever-me! A luta é a minha primavera, 1981 (CABRAL, Vasco. “Último adeus dum combatente”, Apud FERREIRA, 1989, p.290) O soneto narra um drama interior vivido pelo próprio emissor. O sentimento de saudade intensa expresso pelo eu-lírico, mesmo antes de sua partida, alimenta uma terrível angústia que é transformada em insuportável desespero, conforme sugere a repetição do verso “eu parti e tu ficaste”. A grandiosidade da declaração de 88 amor marca um contraste e revela como esse poeta, presente em um cenário belicoso (compreendido pela palavra combatente), é capaz de sentir um grande amor, entre os tumultos da guerra e a agitação geral da vida. No primeiro quarteto, a expressão “naquela tarde”, acompanhada de verbos no passado, marca um encontro que aconteceu. Embora a ação se dê no período vespertino, o espaço em que ela ocorre não aparece, pois não há nenhuma descrição de lugares nem paisagens. Isso porque o poeta não quer se prender a determinados detalhes narrativos, posto que está devidamente concentrado no seu tema: a dor da despedida. Nesse encontro, o eu-lírico, mergulhado no caos da despedida, vai descrevendo seu desespero em forma de metáforas: “Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade” (verso 3), “sofri na alma um amargar quando choraste” (verso 4). Nesses versos, palavras simples como “alma”, “lágrimas”, “amargar”, ao mesmo tempo em que sugerem a preservação de qualidades individuais, dão origem a um sentimento comum, vivenciado pelos dois personagens. A ordem em que essas palavras estão dispostas, é responsável pelo efeito dramático e desesperado. No segundo quarteto, a dor adquire um movimento inclusivo e coletivo, sendo trazida pelo poeta que a repassa para a mulher amada: “Ao despedir-se eu trouxe a dor que tu levaste”. Apesar do desespero, o poeta reconhece a importância e a necessidade de sua partida. Ao utilizar a conjunção “nem só”, no verso “Nem só o teu amor me traz felicidade” (verso 6), ele reconhece que só o valor da razão poderá oferecer uma visão mais equilibrada da realidade, amenizando a tensão entre partida e sofrimento. Lidar com uma concepção dessa ordem sugere uma atenção voltada para as coisas essenciais. O olhar do poeta desgarra-se do banal e dirige-se para o cósmico, aquilo que diz respeito à humanidade. Nesse poema, a vida parece que só adquire sentido a partir do momento em que o eu-lírico exprime o sentimento de responsabilidade pelo destino coletivo de seu povo. Analisando os versos “Quando parti foi por amar a Humanidade/ Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!”, percebe-se que a dinâmica da produção do texto poético africano, segundo Bernd (1987), permite que o eu/nós se revele e se construa literariamente. Para a autora, se a história do povo negro é uma história feita de opressão e luta, a arte, por ele produzida, não pode ser gratuita: “cria-se uma forma de literatura que busca o contato com a massa, estabelecendo um novo tipo de comunicação” (BERND, 1987, p. 49). 89 O valor da razão também prevalece nos dois tercetos, expressos pela adversativa mas, presente no início dos versos 9 e 12. Esse valor indica a seriedade com que o poeta trata essa questão: caso a amada pense que o combatente não partiu, seu único pesadelo será apenas o da dor e da tristeza de perdê-lo (versos 9,10 e 11). Porém, se houver amor verdadeiro entre eles, a esperança de revê-lo será conservada (versos 12,13 e 14). Esses tercetos apresentam uma característica muito forte de profecia, sugerindo que onde existe amor verdadeiro há sempre esperança, como no verso: “que se conserve em ti a esperança de rever-me”. Embora Vasco Cabral tenha utilizado palavras simples para descrever essa despedida, despertou no leitor, imagens complexas, que abdicam da vontade de representar o mundo de maneira clara. A vantagem de tudo isso foi a criação de uma realidade nova através de um poema que traz amor e guerra para um mesmo cenário. Nesse ambiente bélico, o poeta prestigiador de palavras e realidades, fazse maior que o comum dos mortais, adquirindo uma grandeza quase mítica que o aproxima de um Deus. 2.8 – Vínculos e complementos entre África e Brasil Nas literaturas de língua francesa, segundo Bernd (1987), há num primeiro momento uma preferência por noir. Após o movimento da Negritude por nègre, e nas literaturas de língua inglesa, usa-se atualmente mais Black do que negro. Já no Brasil, não há diferenças entre negro e preto; pois não existe referência à literatura preta. O que ocorre é a utilização paralela de cultura/literatura/poesia negra e cultura/literatura/poesia afro-brasileira, desde a década de 30, ocorrendo, inclusive, o fato de um mesmo autor empregar ora um, ora outro termo. Para Bernd (1987), isso ocorre porque há uma dificuldade em estabelecer um conceito de literatura negra no Brasil. Optar por literatura negra implica reconhecer que há um estilo, uma temática que particulariza um discurso literário de forma marcante e definitiva; optar por literatura afro-brasileira corresponde a reconhecer uma literatura empenhada em resgatar uma ancestralidade africana. Porém, os elementos que caracterizam essa literatura não são unicamente formados por suas raízes afros, mas toda uma série de outros elementos observáveis à nível do próprio 90 discurso literário. Por essa razão, Bernd (1987) prefere a designação de literatura negra, por ser menos limitada e por transcender os limites de nacionalidade, época, idioma, geografia, etc. Nessa perspectiva, analisamos o poema “Essa negra Fulô” de Jorge de Lima, em que há, na matéria poética, alguns elementos propagados pela Negritude, tais como: a lembrança do sofrimento infligido ao negro e o compromisso do poeta com a denúncia dessa situação de opressão. As amarguras de um passado de escravidão estão de tal modo coladas à memória do poeta que afloram em seu texto a cada estrofe em forma de depoimento. Ao relatar a dura vida da escrava Fulô, o poeta não somente expõe uma tomada de consciência da situação das escravas em casa de seus senhores, como também procura levar ao leitor uma forma de conscientização. Trata-se de um poema que pretende suprir uma lacuna na literatura brasileira, na qual houve sempre pouco espaço para que “os profundos sentimentos do negro” fossem veiculados. Nesse contexto, Jorge de Lima assume o papel de porta-voz dos que não tem voz. A partir do exame de seus versos, constatamos que eles apontam para o caráter engajado da poesia, que deve constituir-se sempre num “ato políticosocial”: Essa negra Fulô 1 Ora, se deu que chegou 2 (isso já faz muito tempo) 3 No bangüê dum meu avô 4 Uma negra bonitinha, 5 Chamada negra Fulô. 6 Essa negra Fulô! 7 Essa negra Fulô! 8 Ó Fulô! Ó Fulô! 9 (Era a fala da Sinhá) 10– Vai forrar a minha cama 11pentear os meus cabelos, 12vem ajudar a tirar 13a minha roupa, Fulô! 14Essa negra Fulô! 15Essa negrinha Fulô! 16ficou logo pra mucama 17pra vigiar Sinhá, 91 18pra engomar pro Sinhô! 19Essa negra Fulô! 20Essa negra Fulô! 21 Ó Fulô! Ó Fulô! 22 (Era a fala da Sinhá) 23vem me ajudar, ó Fulô, 24 vem abanar o meu corpo 25 que eu estou suada, Fulô! 26 vem coçar minha coceira, 27 vem me catar cafuné, 28 vem balançar minha rede, 29 vem me contar uma história, 30 que eu estou com sono, Fulô! 31Essa negra Fulô! 32 “Era um dia uma princesa 33 que vivia num castelo 34 que possuía um vestido 35 com os peixinhos do mar. 36 Entrou na perna dum pato 37saiu na perna dum pinto 38 o Rei-Sinhô me mandou 39 que vos contasse mais cinco”. 40 Essa negra Fulô! 41 Essa negra Fulô 42 Ó Fulô? Ó Fulô? 43 Vai botar para dormir 44 esses meninos, Fulô! 45 “Minha mãe me penteou 46 minha madrasta me enterrou 47 pelos figos da figueira 48 que o Sabiá beliscou”. 49 Essa negra Fulô! 50 Essa negra Fulô! 51 Fulô? Ó Fulô? 52 (Era a fala da Sinhá 53 chamando a negra Fulô!) 54 Cadê meu frasco de cheiro 55 Que teu Sinhô me mandou? 56– Ah! Foi você que roubou! 57 Ah! Foi você que roubou! 92 58 O Sinhô foi ver a negra 59 levar couro do feitor. 60 A negra tirou a roupa, 61 O Sinhô disse: Fulô! 62 (A vista se escureceu 63 que nem a negra Fulô). 64 Essa negra Fulô! 65 Essa negra Fulô! 66 Ó Fulô? Ó Fulô? 67 Cadê meu lenço de rendas, 68 cadê meu cinto, meu broche, 69 cadê o meu terço de ouro 70 que teu Sinhô me mandou? 71 Ah! Foi você que roubou 72 Ah! Foi você que roubou 73 Essa negra Fulô! 74 Essa negra Fulô! 75 O Sinhô foi açoitar 76 sozinho a negra Fulô. 77 A negra tirou a saia 78 e tirou o cabeção, 79 de dentro dele pulou 80 nuinha a negra Fulô. 81 Essa negra Fulô! 82 Essa negra Fulô! 83 Ó Fulô? Ó Fulô? 84 Cadê, cadê teu Sinhô 85 que nosso Senhor me mandou? 86 Ah! Foi você que roubou, 87 foi você, negra Fulô? 88 Essa negra Fulô! (LIMA, Jorge de. Os melhores poemas de Jorge de Lima, 2001, p. 43-45) O poema é dividido em 88 versos, de sete sílabas (ou redondilha maior), repletos de imperativos, interrogações e exclamações. Nele, o poeta descreve dois mundos através de antíteses: o mundo da sinhá e do sinhô – repleto de mordomias, “histórias”, “frasco de cheiro”, “lenço de rendas”, “cinto”, “broche”, “terço de ouro”; o mundo da negra Fulô – de silêncio e de violência física e sexual. O poema é construído a partir da predominância do discurso dos senhores fazendo inúmeras exigências: “vai forrar a minha cama”, “vem pentear os meus 93 cabelos”, “vem ajudar a tirar a minha roupa”. Os verbos no imperativo afirmativo (vai, vem) são utilizados para descrever as atividades mais absurdas e humilhantes que a escrava deve desempenhar tais como: “vem abanar o meu corpo que estou suada”, “vem coçar minha coceira”, “vem me catar cafuné”, “vem balançar minha rede”. Nesse cenário, a voz da escrava não aparece, não havendo nenhum protesto contra as injustiças praticadas pelos seus donos. Ela permanece silenciosa cumprindo todas as ordens deles. Essa atitude, para Erikson (Apud BERND, 1987, p.99-100), pode ser denominada de identidade resgatada na medida em que a preocupação com o silêncio e a invisibilidade, por parte dos poetas, pode ser interpretada “como uma exigência superlativamente ativa e poderosa de serem vistos e ouvidos, reconhecidos e encarados como indivíduos com uma opção, em vez de pessoas marcadas pelo que é superficialmente visível, isto é, a sua cor”. Para um leitor apressado esse fato pode até ser encarado como racismo. No entanto, percebe-se que Jorge de Lima está em busca de uma identidade que existe em estado latente, mas sente dificuldades de emergir devido à força dos estereótipos de ladra e prostituta associados á negra: “Cadê meu frasco de cheiro que teu sinhô me mandou? – Ah, Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou!” (versos 54 ao 57). Bernd (1987) ao refletir uma elaboração de uma imagem positiva do negro no texto literário, a partir da poesia de Solano Trindade, apontou seis marcas linguísticas2 como fator primordial para a fabricação de uma identidade autônoma. Dentre estas marcas, selecionamos duas delas para refletirmos sobre o poema de Jorge de Lima, em análise. A primeira marca é o orgulho, o enaltecimento das características da raça negra, principalmente sua capacidade de resistir. No poema, ao colocar os signos que estigmatizam a negra Fulô, tais como “couro do feitor” e o “açoite do Sinhô”, o poeta destaca essa resistência. Na segunda, ocorre a predominância quase exclusiva das modalidades discursivas de afirmação e injunção, o que remete à preocupação de Jorge de Lima, verificável através das exclamações. Nessa perspectiva, o conflito existencial do poeta é dado pela tensão entre os dois mundos aos quais se sente ligado: o mundo branco (da sinhá e do sinhô) e o mundo negro (da escrava Fulô). 2 As marcas a que a autora se refere são: eu-enunciador que apresenta-se porta-vos do negro; expressões lexicais que apontem para orgulho e enaltecimento da raça negra; temas sugestivos de auto-reconhecimento do negro e de seu desejo de libertação; uso de imperativo, subjuntivos e exclamações para intensificar as modalidades discursivas de afirmação e injunção; uso da subjetificação; tom geral de otimismo e entusiasmo, reforçado pelo bicromatismo do preto e do branco. 94 Cumpre frisar que a atração que exerce a cultura do branco sobre o poeta não coincide de modo algum com o racismo. Trata-se, bem ao contrário, de um momento em que a sua consciência crítica revisa esta delicada questão ao expor as atitudes e a cultura do dominador. Por isso, seus conflitos originam-se da tentativa de apropriação desses dois universos. Por essa razão, Bernd (1987, p. 102) considera que “o poeta é um ‘andarilho’ em permanente busca de ‘ser si mesmo’ e de ‘ser outro’”. Conforme Bernd (1987), enquanto alguns consideram que a poesia negra é a que é feita por negros, pois só um negro pode ter a “experiência negra”, outros afirmam que o que caracteriza a poesia não é a cor da pele do autor, mas o fato de retratar o negro enquanto raça possuidora de determinada cultura e valores. Outro dado importante é a repetição constante do verso “Essa negra Fulô”. O demonstrativo “essa” mostra que ela é apenas mais uma vítima entre tantas negras exploradas fisicamente e sexualmente. Para Oswaldo Camargo (Apud Bernd, 1987), isso ocorre porque, na medida em que o resgate da identidade individual está voltado principalmente para o negro, está estreitamente vinculado ao resgate da identidade comunitária. Logo, é possível afirmar que o eu-lírico singular interpreta também o nós do grupo. Nota-se ainda que, no verso 4, “uma negra bonitinha”, o poeta não exclui a beleza e o fascínio da mulher negra. Essa beleza provoca desejos intensos no senhor- “...a negra tirou a roupa. O sinhô disse Fulô! (a vista escureceu que nem a negra Fulô)” e desperta os ciúmes e a ira da sinhá- “Cadê, cadê teu sinhô/que nosso Senhor me mandou? Ah! Foi você que roubou”. A esse respeito, algumas escritoras contemporâneas africanas ou brasileiras têm se voltado para o questionamento do próprio sentido e lugar do feminino. Conforme Souza e Silva (2006), nesse questionamento, o corpo assume papel significativo, se não principal. Trazendo inscritos, em si, signos históricos, verdades e sutilezas das experiências de vida. Com seu sofrimento, exuberância, vitalidade, o corpo da mulher negra, para Souza e Silva (2006, p. 339), revela “os caminhos trilhados, as mudanças vivenciadas, as escorificações dos tempos e do coração”. Nesse sentido, a negra Fulô representa a mulher a quem, na maior parte das tradições, tem sido negado o direito de decidir sobre o que fazer com o seu corpo, por ser silenciada e marcada pelas tentativas de descorporificação. Dessa forma, o poema “Essa negra Fulô” representa, no âmbito da literatura 95 negra brasileira, um marco importante, uma vez que ilustra um momento de ruptura, de fragmentação de um estado de exploração física e sexual, dando lugar à angústia da tomada de consciência de sua implicação simultânea em dois sistemas culturais diferentes. À guisa de conclusão acerca do olhar em torno dos vínculos e complementos entre África e Brasil, convém refletir sobre a expressividade dos poemas africanos de língua portuguesa. Ao longo das leituras, compreendemos como esses textos representaram situações de conflito, alienação, opressão e resistência e , ao mesmo tempo, a partir do viés da palavra, puderam ser interpretados em favor de uma autodefinição identitária. Aprendemos também que a libertação dos preconceitos só é possível a partir do momento que o poeta assume a singularidade da sociedade e a ultrapassa, não se deixando embaraçar por formas idealizadas, devendo estar integrado no conjunto de problemas reais e práticos. 96 3 - INTERAGINDO COM POEMAS AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA NA ESCOLA A experiência de leitura de poemas africanos de língua portuguesa com alunos do nono ano, turno da manhã, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Major Veneziano Vital do Rêgo, no bairro da Catingueira, município de Campina Grande, ocorreu no período de 08 de Março a 05 de Abril de 2010. Antes de escolhermos os poemas a serem trabalhados com os alunos, planejamos a montagem de uma antologia poética cujos temas fossem do interesse deles. Na leitura dos poemas percebemos que os temas predominantes eram: a Mãe África; o contrato que mostrava a situação dos trabalhadores das roças que viviam em condições deploráveis; a infância -período de saudosismo e aprendizado; a afirmação da identidade e, por fim, a opressão colonial -tema abordado pela maioria dos poetas. A partir desses temas mais recorrentes, a escolha dos poemas foi realizada priorizando os interesses dos alunos. Procuramos poemas cuja temática interessava os adolescentes. Conforme Silva (2009, p.97), “os poemas para adolescentes identificam, na maioria das vezes, desabafos, confidências, dúvidas e questionamentos, medos, lembranças e alguns sonhos dos jovens.” Selecionamos os temas e escolhemos poemas, sem deixar de lado aqueles que falam de racismo e afirmação da identidade, que foram utilizados na abertura do nosso encontro como forma de preparar os alunos para um envolvimento com a nossa proposta. A nossa antologia foi montada com base na seleção de poemas publicados em três obras: Textos poéticos africanos de língua portuguesa e afro-brasileiros, organizado por Elisalva Madruga Dantas; 50 poetas africanos, de Manuel Ferreira, e alguns poemas presentes no livro Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica, organizado por Íris Maria da Costa Amâncio. Nossa experiência docente foi realizada com base nos seguintes objetivos: 1) Abordar a poesia africana em sala de aula; 2) Verificar a recepção dos alunos a partir da leitura desses poemas; e 3) Realizar uma experiência de leitura de poesia africana de língua portuguesa com esses alunos. 97 Partindo do pressuposto de que os poemas a serem lidos pelos alunos devem atender ao seu horizonte de expectativas, Zilberman (2005) esclarece que o horizonte de expectativas do leitor é um conceito proveniente da hermenêutica de Gadamer, amplamante divulgado por Hans Robert Jauss no universo teórico da Estética da Recepção. Para Zilberman (Op. cit), o horizonte de expectativas do leitor é tomado por Jauss como um parâmetro para medir as possibilidades de recepção que, por sua vez, trata-se de um fato social. Dessa forma, cada leitor reage individualmente diante de um texto, e isso ocorre porque a leitura, além de conservar experiências passadas, alarga o campo limitado do comportamento social, fazendo surgir novos desejos, aspirações e objetivos que abrirão caminho para uma experiência futura. Por isso, as obras retomam o horizonte para, depois, contrariá-lo. Isso pode ser explicado devido ao fato de o horizonte de expectativas ser composto por experiências de leituras passadas, e, as quais possibilitam ao leitor reconstruir um novo universo, no momento que se debruçar sobre um novo texto. Para identificar o horizonte de expectativas dos alunos da Escola Major Veneziano, recorremos (com base na pesquisa qualitativa) aos seguintes instrumentos de pesquisa: 1) Observação participante; 2) Entrevista com a professora; 3) Questionários e 4) Leitura de poemas com espaço para que os alunos se expressassem livremente. Tais instrumentos de pesquisa auxiliaram para o encaminhamento do experimento. 3.1 – Inserindo-se no universo dos estudantes: a observação participante e a visita à biblioteca A viabilidade desse experimento só foi possível graças ao interesse inicial da professora titular da disciplina, que acolheu a proposta com satisfação, além do apoio da diretora da escola, caracterizando, assim, uma ação cooperativa, cujos efeitos são bastante significativos. Procuramos deixar claro que a experiência com a poesia africana só viria a colaborar para ampliar as reflexões dos alunos acerca de si mesmos, da vida e do mundo. A professora demonstrou interesse pela ideia, uma vez que, segundo ela, nunca havia trabalhado com textos africanos em sala de aula por não ter o devido 98 conhecimento e não se sentir preparada para aplicar o que determina a Lei 10.639/03. Iniciamos pela observação participante, importante componente da realização da pesquisa qualitativa. De acordo com Neto (1994), a técnica de observação participante se dá “através do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado para obter informações sobre a realidade dos atores sociais em seus próprios contextos” (p.60). A importância dessa técnica está “no fato de podermos captar uma variedade de situações ou fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas, uma vez que, observadas diretamente na própria realidade, transmitem o que há de mais imponderável e evasivo na vida real” (Idem, p.60). No dia 08 de março de 2010 iniciamos essa observação. Nesse dia havia três aulas. A professora titular da turma esteve presente em todos os encontros. A partir de uma conversa informal, ela relatou a necessidade de estar presente em todos os encontros, pois estava sendo cobrada a ministrar a literatura africana na outra escola em que trabalhava e não tinha, no momento, nenhum preparo para atuar nessa área. Para ela, a grande dificuldade é que o próprio Estado só faz cobranças, mas não disponibiliza cursos de capacitação. Nesse primeiro dia, fui apresentada à turma, e relatamos sobre a importância da Lei 10.639/03 e da leitura dos poemas que iríamos fazer. Na sala estavam matriculados 47 alunos, mas 43 frequentavam assiduamente as aulas. Os adolescentes se mostraram tímidos e desconfiados com a presença da pesquisadora. A aula foi iniciada com uma atividade de leitura do texto “Tentação”, de Clarice Lispector, contido no livro didático. A leitura e os comentários já tinham sido feitos na aula anterior, só estava sendo realizada uma breve retomada do assunto. Em seguida, a professora solicitou que eles fizessem as atividades de compreensão sugeridas no livro. Situações de indisciplina e desinteresse ocorreram nesse momento: poucos alunos faziam a atividade enquanto a maioria conversava. Logo depois, ela exigiu que entregassem as atividades para atribuir uma pontuação. O desespero tomou conta da sala, como a maioria não estava fazendo a atividade, começaram às pressas a “tentar” fazer alguma coisa. Alguns alunos copiavam as respostas dos colegas. A esse respeito, Libâneo (1994, p. 195) esclarece que “a avaliação é uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e atribuição de notas, ela é uma reflexão sobre o nível de qualidade do trabalho escolar tanto do professor como dos alunos”. 99 Nesse primeiro dia de observação, percebemos que as atividades eram realizadas mediante cobranças de leitura com o objetivo de apenas atribuir uma pontuação. Dessa forma, esse contexto reflete um público que não costumava partilhar leituras em sala de aula e nem demonstrava o incentivo e o interesse por elas. Enfim, os alunos colaboradores da nossa experiência pareciam estar acostumados a uma prática recorrente de cobrança da leitura que explora os aspectos formais e estruturais dos textos. Após o término da terceira aula, estávamos muito desanimadas e nos dirigimos para a biblioteca da escola. Como só iríamos retornar na 5ª aula, aproveitamos para fazer um rápido levantamento. Ao verificar as fichas dos alunos, público alvo de nossa pesquisa, tivemos uma surpresa: 80% deles eram leitores assíduos, tomavam emprestado, no mínimo, dois livros por semana. A bibliotecária informou que a frequência na biblioteca era boa; eles procuravam ler de tudo e só não levavam mais livros para casa porque a direção proibia, com o pretexto de que eles iriam se entreter na leitura e não estudavam. Na concepção de Zilberman (2005), é a escola que deve ser o espaço de interação de diferentes tipos de leitura, pois o leitor só será proficiente se estiver habilitado a interagir com os conteúdos de outras disciplinas. Nesse sentido, “a leitura constitui elemento fundamental na estruturação do ensino brasileiro porque forma sua base: está no começo da aprendizagem e conduz às outras etapas do conhecimento” (ZILBERMAN, Op. cit, p.79). Ao observarmos as estantes da biblioteca (Anexo 1), encontramos vários livros da coleção Literatura em minha casa, já gastos pelo uso, e uma variedade de livros da nova coleção Literatura para todos, que estava disponível para empréstimo. Essa coleção continha uma série de exemplares incluindo poesia, conto, crônica, teatro, novela, biografia, romance e até a tradição oral. Além dessa coleção, encontramos vários livros didáticos, dicionários de língua portuguesa e inglesa, livros de literatura infantil, culinária, poesia infantil e revistas. A biblioteca também tinha uma pequena sala de leitura (Anexo 2) com quatro mesinhas e cadeiras. Nessa visita, constatamos que a biblioteca da escola não era um mero depósito de livros, era um espaço agradável e motivador da leitura. Um fato surpreendente foi uma estante com inúmeros exemplares novíssimos (Anexo 3) de uma coleção que abordava a África desde os aspectos gerais, incluindo geopolítica, heranças culturais, a música, dança e oralidade. Na parte 100 destinada à literatura, havia dois contos: “O vento, a hiena e a tartaruga”, parte de um conto popular Senufo, da Costa do Marfim, e “O homem que pescou o diabo”, um conto narrado por Conceição de Oliveira Cavalcanti (Ceça) em Arcoverde (PE), em 12 de novembro de 1977. Encontramos também o poema “Cutchdêra lâ de fora”, de Jorge Pedro, um texto bilíngue colocado do lado esquerdo da página em língua crioulo caboverdiano e, do lado direito, havia a tradução em língua portuguesa. A presença de livros que abordam a cultura africana e a sua literatura na escola, para Amâncio (2008), objetiva tornar possível o cumprimento da Lei 10.639/03, pois as atividades neles apresentadas criam mais oportunidades de inovação para a prática pedagógica de professores ao trazer uma temática que, por muito tempo, tem sido ignorada ou marginalizada nas práticas escolares, além de possibilitar novas relações entre a escola e a comunidade. Apesar da importância dessas obras, ainda estavam aguardando a leitura dos alunos e o incentivo dos professores. Esse fato, segundo Amâncio (Op. cit), comprova que a literatura e a cultura africanas já estão presentes na escola, mas a maioria dos professores alegam não se sentirem preparados para colocar em prática a literatura de um continente múltiplo em culturas e organizações sociais. Ao retornarmos na 5ª aula, observamos que o barulho e a indisciplina contagiavam os alunos. Eles não estavam dispostos nem a aprender e, muito menos, a ouvir a professora. Ao serem avisados que seriam liberados mais cedo por causa de uma reunião de docentes; alguns alunos nem esperaram, saíram muito contentes e correndo pelos corredores da escola. Saímos da escola nesse dia com um desânimo e um sentimento de frustração tão acentuados que duvidávamos da viabilidade de nosso experimento. Perguntávamos a todo instante como aquela turma, marcada pela dispersão, indisciplina e desinteresse, seria capaz de apreciar os poemas africanos e, sobretudo, atribuir sentido a eles? Para isso, necessitávamos nos aproximar ainda mais dos alunos e tentar estabelecer uma relação de respeito mútuo e sinceridade. O desafio era imenso. 101 3.2 – A entrevista com a professora A entrevista, de acordo com Neto (1994), é um dos procedimentos mais usuais na observação participante, razão pela qual optamos também por essa forma de abordagem técnica. Através dela, garante o autor, “o pesquisador busca obter informações contidas na fala dos atores sociais”, não significando uma conversa despretensiosa e neutra, “uma vez que se insere como meio de coleta dos fatos relatados pelos atores, enquanto sujeito-objeto da pesquisa que vivenciam uma determinada realidade que está sendo focalizada” (p.57). As entrevistas podem ser estruturadas (que pressupõem perguntas previamente formuladas) e não-estruturadas (nas quais o informante aborda livremente o tema proposto). A entrevista realizada com a professora de Língua Portuguesa da escola na qual realizamos o experimento, caracteriza-se como nãoestruturada, pois os temas propostos foram livremente abordados e registrados por meio de anotações. Essa entrevista visava verificar questões importantes sobre o ensino de literatura e também o conhecimento da docente sobre o trabalho com textos africanos em sala de aula. Com relação ao primeiro aspecto, a professora deixou claro que quando trabalha com textos literários, não se limita apenas ao gênero narrativo; com relação à forma com que ela trabalha esses textos, respondeu-me da seguinte maneira: Quando vou trabalhar conto, crônica... eu solicito uma leitura individual, silenciosa, depois uma leitura coletiva... acho que a leitura individual é super importante para a compreensão de qualquer texto... as questões eu não elaboro, trabalho com aquelas que tem no livro didático. Com relação ao romance, solicito a leitura em casa... depois a discussão em sala, a maioria não faz a leitura, mas eu procuro cobrar... a leitura só é realizada em sala de aula quando estou presente... não gosto de trabalhar romance do livro didático porque só tem fragmentos(...) No que se refere à poesia, a professora ficou mais animada; relatou que apesar de ser um gênero textual difícil, os alunos adoram e se interessam bastante pela leitura, e acrescentou: A poesia é gênero mais difícil de se trabalhar... pela subjetividade do texto faz com que eles não compreendam... Quando trabalho com o poema, uso as questões do livro... eles gostam do poema, mas não entendem como 102 responder as questões... para compreender o que tem no poema, eu tenho que direcionar... Isso é em qualquer série... São poucos os alunos que conseguem. A leitura, faço do mesmo jeito, primeiro individual, depois coletiva em forma de jogral, cada um lê um verso... mas só quando a turma é menor... a maioria não entende... Mas eles adoram e solicitam muita leitura... na minha opinião trabalhar poesia é bem mais dinâmico porque eles se interessam pela leitura(...) O depoimento da professora proporcionou o direcionamento de que a poesia, apesar de ser um gênero difícil, ganhou a preferência do público daquela escola e, atualmente, não está mais ausente na sala de aula, ela encontra-se em grande número tanto no livro didático daquela turma (Português: linguagens de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, da editora Atual), como nas antologias que estão disponíveis na biblioteca para empréstimo. Ao consultarmos o livro, constatamos a presença desse gênero de forma satisfatória. Quando perguntei se a professora já havia trabalhado textos literários africanos, ela afirmou: Nunca trabalhei. Uma vez vi um texto de José Craveirinha... desde 2001 que estou trabalhando em sala de aula, o único poema africano que eu lembrei foi “Grito Negro” de José Craveirinha em um livro didático do 1º ano do ensino médio... Com relação ao livro didático deles... tem, na 7ª série, um poema de Armênio Vieira, poeta africano do Cabo Verde(...)[a professora foi buscar o livro para me mostrar]. A professora mostrou, com esse depoimento, estar bastante confusa em relação ao modo como trabalhar esse tipo de texto. Ela admitiu inicialmente nunca ter trabalhado, logo depois, foi lembrando que já havia trabalhado dois poemas. O seu posicionamento reflete que aos poucos o texto africano de língua portuguesa vem sendo trabalhado na escola. Na consulta ao livro didático da turma do nono ano, constatou-se que não havia poemas africanos, ele só foi encontrado no livro da 7ª série (8º ano). O poema africano contido nesse livro estava sendo abordado de forma tradicional, pois as questões foram elaboradas com o pretexto de trabalhar a “oração sem sujeito na construção do texto”. Das 6 perguntas relacionadas ao “estudo do texto”, nenhuma foi elaborada com o objetivo de explorar aspectos relativos à África. Nessa perspectiva, observamos que, apesar de a professora gostar de trabalhar com o texto poético, segue a direção do modelo do livro didático que, na maioria das vezes, apresenta uma abordagem pragmática do texto literário. Nesse modelo, o aluno é solicitado a ler o poema indicado para, em seguida, demonstrar 103 sua compreensão através de exercícios de interpretação, numa perspectiva que Pinheiro (2007) caracteriza de ora racional, ora instrumental, numa abordagem que não valoriza o horizonte de expectativa dos leitores. 3.3 – Em busca das preferências dos alunos: aplicação do questionário No dia 02 de março de 2010 voltamos à escola para aplicação de dois questionários: o primeiro, visava coletar dados sobre o conhecimento deles acerca da cultura africana e se já teriam lido algum texto que abordasse essa temática. O segundo, objetivava conhecer o universo de leitura dos alunos. Os questionários foram respondidos por 43 alunos dos 47 que compunham a turma. Das quatro perguntas que compunham o primeiro questionário, a primeira foi com a intenção de averiguar se os alunos tinham algum contato com textos africanos, mesmo que através de outras disciplinas. As respostas foram do tipo: “Não”, Não sei”, “Nenhuma”. Já outras respostas diziam ter tido algum contato com esses textos, mas não lembravam com detalhes. Diante dessas respostas, percebemos uma grande contradição, pois, mesmo que os alunos não tivessem trabalhado com esses textos na aula de língua portuguesa, o contato deveria ter ocorrido pelo menos na disciplina de história. Apesar de muitos terem afirmado não saber, ou nunca ter tido conhecimento desse continente quanto à cultura e sociedade, alguns alunos mostraram ter conhecimento principalmente da pobreza do continente, da fome, das mortes, das crianças desnutridas e sem oportunidades de estudar, da falta de recursos tecnológicos, do apartheid e do preconceito racial. Tais respostas, para Amâncio (2008), revelam que o imaginário sobre a África na escola continua reduzido a imagens que depreciam o continente e o reduzem a uma série de estereótipos equivocados. Embora tenham apontado muitos elementos negativos com relação ao continente, dois alunos fizeram referência à alegria dos seus habitantes. O primeiro aluno afirmou que o pouco que sabia sobre o continente era que ele é muito parecido com o Brasil, devido à preferência pelas danças. Enquanto o segundo destacou que, apesar da discriminação, os africanos não deixam de ser felizes e de sorrir. 104 Ao analisarmos todas as respostas referentes ao primeiro questionário, constatamos que a maioria dos alunos realmente não tinha conhecimentos sobre essa cultura. Na escola, o único contato que tiveram foi nas disciplinas de História, Geografia e Educação Artística, cujos textos lidos eram sobre a escravidão e o fim do apartheid. Quando perguntamos se haviam lido algum texto que abordasse esse tema na disciplina de língua portuguesa, todos responderam que nunca haviam lido ou não lembravam de nada parecido. Diante desses dados, constata-se o vazio quanto à sistematização e à veiculação de informações relacionadas ao continente africano e sua literatura. Tal lacuna é evidente quando observamos a ausência de uma visão mais realista, renovadora e positiva do continente. Com relação ao questionário “conhecimentos sobre práticas de leitura”, pretendíamos saber qual o tipo de texto preferido deles e se liam poemas na escola, durante as aulas de língua portuguesa. Além dessas perguntas, procuramos saber também se eles iam à biblioteca com frequência. Esperávamos com esse questionário identificar temas da preferência dos alunos que nos ajudassem a montar uma antologia de textos africanos que poderia ser apreciada por eles. Pinheiro (2007) acredita que a pesquisa sobre o interesse de leitura dos alunos é essencial, pois, através dela, podemos perceber quais os poemas que poderão ser apreciados com mais facilidade. Analisando as respostas dadas pelos alunos nesse segundo questionário, obtivemos os seguintes resultados: 24 alunos assinalaram que a poesia era o texto que eles mais gostavam de ler; em segundo lugar, obtivemos 20 alunos que escolheram o romance, em terceiro, 09 alunos escolheram o conto; em quarto lugar, 07 alunos que preferiam ler revistas; e o restante citou outros gêneros literários como o cordel e o jornal. Vale salientar que, nas respostas dadas, a maioria dos alunos não escolheu (não marcou) apenas um gênero literário, grande parte deles afirmava gostar de ler mais de um tipo de texto. Noutros casos, houve contradição nas respostas, pois o aluno marcava que lia poesia e na questão seguinte afirmava que não gostava de ler nada. Diante desses dados, ficou constatado que a maioria dos alunos foi categórica ao afirmar que lia poemas e romances e o contato com esses textos era através da biblioteca e nas aulas de língua portuguesa. Quanto aos temas, deram prioridade ao amor, aventura, suspense, romance, guerra, comédia, histórias de terror e lendas urbanas, 105 o que comprova que as respostas foram suficientes para nos indicar os assuntos preferidos. A aplicação dos questionários foi um momento de extrema importância para o andamento de nossa pesquisa, pois, a partir dessa estratégia, tivemos a oportunidade de estar mais próximos dos alunos, conversar com eles sobre suas preferências e ouvi-los. Nessa atividade conhecemos também a realidade deles com mais profundidade, pois, apesar de ser uma turma numerosa e barulhenta, tinha uma certa experiência de leitura e mostrava uma carência de ampliar essa prática. Só restava criar uma proximidade com os alunos que possibilitasse a motivação necessária para um trabalho em sala de aula a partir da poesia africana, proporcionando, assim, um encontro efetivo entre essa poesia e o aluno. 3.4 – A seleção dos poemas e o planejamento dos encontros Diante da diversidade de temas que os alunos indicaram através do questionário, acreditamos que a leitura de poemas africanos de diferentes assuntos, enriqueceria e ampliaria o universo cultural deles. Por essa razão, escolhemos os temas mais recorrentes na poesia africana de língua portuguesa como a infância como fase de aprendizado, o contrato, a opressão colonial, a discriminação racial, a afirmação da identidade, o amor e a guerra. Na abertura do nosso encontro, pretendíamos que os alunos percebessem a discriminação racial sem a necessidade de falarmos nada a respeito; por isso escolhemos o poema “Essa Negra Fulô” de Jorge de Lima. Os demais poemas foram de autores africanos, entre os quais selecionamos os seguintes: “Canção do Mestiço”, “Namoro”, “Carta dum Contratado”, “Monangamba”, “Serão de Menino”, “Reza, Maria!”, “Negra”, “Chuva em Cabo Verde”, e “O último adeus dum combatente”. A experiência foi realizada com base no método recepcional de ensino, que, conforme Bordini e Aguiar (1988), tem, como base, a atitude participativa do aluno quando se encontra em contato com uma variedade de textos. A partir desse método, oferecemos, à turma, poemas com temas diferenciados, objetivando incitar os alunos a refletir para que a modificação de seus horizontes fosse realizada. A experiência de mundo (e de leitura) que os alunos já possuíam foi fundamental para 106 que eles pudessem atribuir sentido aos poemas, conseguindo realizar interpretações que nem sequer suspeitavam. O experimento denominado “vivências com a poesia africana na escola” ocorreu durante os meses de Março e Abril de 2010. Passamos, a partir de agora, à descrição das etapas do experimento. 3.5 – PRECONCEITO RACIAL, ABUSO DE PODER E A CONQUISTA DE AUTONOMIA E RESPEITO Na primeira etapa do experimento, iniciada em 08 de março de 2010, sentimos a necessidade de introduzir os alunos no universo da cultura africana. Para tanto, retomamos uma pergunta feita no questionário para que os alunos respondessem oralmente: Qual o conhecimento de vocês sobre a África no que se refere à religiosidade, cultura e sociedade? Obtivemos os seguintes comentários: AN: Sei que as pessoas lá morrem de fome...é um lugar muito miserável EM: têm muitas pessoas analfabetas, sem condições de sobreviver e muito doentes... MA: São doentes de AIDS e de fome, morre muita gente todos os dias... PESQUISADORA: Onde vocês conseguiram essas informações? AL: No jornal nacional, do SBT, no fantástico... RO: Mas lá também tem muitas riquezas, pedras preciosas e muitos animais selvagens... MU: E as pessoas são muito animadas...mesmo com as doenças e a fome eles são muito alegres...gostam de dançar, cantar, se enfeitar... Como a maioria das respostas associava o continente africano a coisas negativas, percebemos o pouco conhecimento deles devido à falta de leitura e informação através de outros meios, como filmes, documentários, livros e outros que lhes fornecessem informações mais detalhadas. Segundo eles, as informações conhecidas eram obtidas através da televisão, em telejornais como Jornal Nacional, Jornal do SBT e outros programas como o Fantástico. Porém, outros alunos possuíam uma visão menos pessimista, pois acreditavam que, apesar dos problemas enfrentados, essas pessoas sabiam resistir por meio da alegria e da música. 107 Após a exposição dos alunos, demos início efetivamente à primeira etapa de nossa experiência na qual os alunos leram e discutiram os poemas “Essa negra Fulô” de Jorge de Lima; “Canção do mestiço” de Francisco José Tenreiro; e “Chuva em Cabo Verde” de Ovídio Martins. Como nosso objetivo era observar a recepção dos poemas pelos alunos, não pretendíamos discutir de modo profundo sobre racismo, discriminação, escravidão ou valorização da identidade. A intenção era que eles percebessem esses temas a partir da leitura dos poemas. Para isso, o primeiro poema escolhido foi “Essa Negra Fulô” de Jorge de Lima. Inicialmente solicitamos uma leitura silenciosa, depois a leitura oral. Uma aluna se dispôs a ler o poema em voz alta. Após a leitura explicamos que se tratava de um poema escrito por um autor brasileiro, e que os demais poemas a serem trabalhados seriam africanos de língua portuguesa. Antes de perguntarmos a respeito do tema, sugerimos que os alunos lembrassem as lições sobre a escravidão e como era abordada nas disciplinas de História, Geografia e Educação Artística. A intenção era fazer com que o texto poético dialogasse com a experiência individual de cada aluno. No início, eles ficaram muito tímidos, com vergonha de se expressarem na frente dos colegas, mas sempre tem aquele que está disposto a iniciar e, quando perguntei: “De que trata o poema?”, um aluno respondeu: “Preconceito”. A partir dessa resposta, conduzimos os diálogos da seguinte maneira: PESQUISADORA: Como esse preconceito se encontra no poema? J.S: É quando ele chama a negra de ladra e prostituta. PESQUISADORA: Quais os versos que mostram esse preconceito? A.C: “Cadê meu frasco de cheiro... que teu sinhô me mandou? Ah! Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou...” MU: Também tem outro... “Cadê meu lenço de rendas, cadê meu cinto, meu broche, cadê o meu terço de outro que teu sinhô me mandou? Ah! Foi você que roubou...”Eles pedem várias coisas ao mesmo tempo e querem ser atendidos na hora. PESQUISADORA: E os versos em que o patrão submete a negra Fulô à prostituição? GA: É quando o senhor vai bater nela... e ela tira a saia e fica nua... PESQUISADORA: O que mais vocês perceberam? GL: Que o poema fala de abuso PESQUISADORA: Que tipo de abuso? DA: Abuso sexual e abuso de poder, os donos da escrava pediam muitas coisas ao mesmo tempo, como contar histórias, pegar objetos e, quando não encontravam seus objetos, chamavam à negra Fulô de ladra. 108 Com base nesses comentários, percebemos que os alunos sentiram o peso da dominação dos patrões sobre a escrava, a principal vítima desse sistema opressor. Nessa discussão, a turma expressou muito bem a posição de oprimida da escrava e a revolta contra as injustiças de que ela é vítima, mostraram que ela não possuía direitos de comandar nem o seu próprio corpo, pois sofria todo tipo de abuso de seus donos. O fato de perceberem tais injustiças está na base da negritude que atua, na leitura desse poema, como um fator desencadeante de um processo de libertação dos negros. Após os comentários perguntamos aos alunos: PESQUISADORA: Como vocês resumem o tema do poema com base no que o autor colocou? AM: Preconceito, a negra Fulô é muito discriminada por aquelas pessoas. O poema mostra isso. A respeito do preconceito e da discriminação racial em relação a pessoas e nações, Valente (1998) faz a seguinte distinção: preconceito racial é idéia (sic!) preconcebida suspeita de intolerância e aversão de uma raça em relação a outra, sem razão objetiva ou refletida. Normalmente, o preconceito vem acompanhado de uma atitude discriminatória; Já a discriminação racial é atitude ou ação de distinguir, separar as raças, tendo por base idéias (sic!) preconcebidas. Nesse sentido, percebe-se, a partir da fala dos alunos, que o poema teve uma importância primordial por mostrar o modo preconceituoso como os patrões se escondem atrás das máscaras para praticar atrocidades, dando, assim, um novo rumo para a poesia negra brasileira. Apesar de os alunos terem revelado acentuada dificuldade de leitura e concentração, além da timidez da maioria que estava com vergonha de se expressar durante a atividade, consideramos a experiência satisfatória, pois os alunos perceberam a difícil situação da escrava e as injustiças dos patrões. Não houve nenhum acréscimo de informações de nossa parte, os alunos chegaram sozinhos a essas conclusões. Nesse segundo momento, iniciamos com uma leitura individual e silenciosa do poema “Canção do Mestiço”. Em seguida, solicitamos a leitura em voz alta. O aluno que se dispôs a realizá-la teve dificuldades, como já era esperado, em pronunciar as palavras estranhas do seu vocabulário como “alumbrado” e “arrepanhei”. Esse fato fez com que alguns percebessem que se tratava de um poema de uma cultura diferente da sua, devido aos seguintes comentários: “que 109 palavras diferentes... é estranho... nunca vi por aqui”. Após a leitura, solicitamos que os alunos observassem a relação do título com o poema, qual o assunto abordado, e obtivemos as seguintes respostas: CL: O poema fala que mistura de raças não é ruim. KA: Fala da mistura de raças e usa o tabuleiro de xadrez para falar da união do branco e do negro. JO: O título tem a ver com que o poema diz, que o mestiço deve exigir respeito. Para aproveitarmos esse viés de leitura seguido pelos alunos, ampliamos o diálogo criando espaço para que eles se expressassem. A conversa foi conduzida da seguinte forma: PESQUISADORA: Além da mistura de raças, que outros temas são abordados no poema? CL: O preconceito PESQUISADORA: Preconceito racial... certo, e que verso fala sobre isso? CL: ...é... que o negro é tão burro que não sabe fazer conta WE: Ele também exige respeito PESQUISADORA: Muito bem... exigir respeito é o que todos nós desejamos... Agora pergunto a vocês... nesse poema existe a tentativa de inferiorizar o mestiço? MA: Sim, “Teu lugar é ao pé do negro” PESQUISADORA: Como ele reage no poema? MA: Roda a baiana e dá uma tragada e uma gargalhada... PESQUISADORA: E essa atitude... da tragada e da gargalhada o que diz a vocês? JO: Que ele é feliz e tem orgulho de sua cor. O aluno CL percebeu que o preconceito estava presente nos versos: “mestiço! A tua conta está errada. Teu lugar é ao pé do negro”. Segundo ele, esses versos indicavam que o negro não sabia fazer contas. Esse raciocínio, segundo Serrano e Waldman (2008), foi subjacente a diversas manifestações intelectuais do mundo ocidental. Por exemplo, expressões incontestáveis do iluminismo, tais como Voltaire (França), Hume (Escócia), Kant (Alemanha) e Jefferson (Estados Unidos), mesmo enfatizando a universalidade da razão, segundo os autores, negaram, aos africanos e a sua descendência, a posse de capacidades intelectuais. Apesar da timidez dos alunos no início da aula, eles perceberam que uma das temáticas presentes envolvia questões relativas ao preconceito racial e o quanto o poeta tinha orgulho de sua cor (conforme pode se depreender da fala de JO), não se deixando intimidar por expressões grosseiras e preconceituosas, mostrando que 110 a reação ao preconceito é o primeiro passo para assegurar a dignidade dos povos negros e mestiços. A próxima etapa dessa experiência consistiu em observar como os alunos compreenderam a diferença entre os poemas “Essa negra Fulô” e “Canção do Mestiço”, atentando para as pistas que apontavam para o preconceito e para a afirmação da identidade. Para chegarmos a esse objetivo foi feita a pergunta básica: Qual a diferença entre os dois poemas? Eles responderam da seguinte forma: DA: No segundo poema não há preconceito, o poeta tem orgulho de sua cor. EL: Há uma tentativa de preconceito quando o poeta fala que “a conta do mestiço está errada e que seu lugar é ao pé do negro”, mas ela é desfeita com a reação do mestiço, através da gargalhada e da vontade de amar a negra e a branca ao mesmo tempo. JE: O primeiro poema mostra a discriminação e os abusos contra a negra Fulô e nada se faz para mudar a sua situação. TH: Se eu pudesse, professora, acabava com o racismo de uma vez e obrigava as pessoas a se respeitarem. Esses comentários nos davam a certeza de que a leitura de poesia, segundo Eliot (Apud BOSI, 1996, p. 31), “pode ajudar a romper o modo convencional de perceber e de julgar [...] e faz ver às pessoas, o mundo com olhares novos ou descobrir novos aspectos deste”. Por isso, está conquistando cada vez mais o lugar de destaque que ela merece, afinal, a poesia nos ensina a olhar para nós mesmos nos tornando mais conscientes. Nessa etapa, percebemos o quanto é importante a troca de experiência entre os alunos e como uma “leitura compartilhada” contribui para alargar o horizonte de expectativa deles. Para Colomer (2007, p.143), “compartilhar as obras é importante porque torna possível beneficiar-se da competência dos outros para construir o sentido e obter o prazer de entender mais e melhor os livros”. O segundo encontro, que também focalizava a temática da identidade, ocorreu no dia 09 de março de 2010. Nesse dia, trabalhamos com o poema “Chuva em Cabo Verde” de Ovídio Martins. Antes da leitura, solicitamos que os alunos levantassem algumas expectativas com relação ao título. As sugestões limitavam-se apenas a decodificar o título do poema (que vai chover em Cabo Verde), com exceção de uma aluna que percebeu que a chuva não seria tratada como um momento ruim. Segundo ela, no nordeste do nosso país, a seca era motivo de 111 tristeza e preocupação para muitos agricultores e a chegada da chuva fazia com que todos ficassem alegres, porque proporcionava boas colheitas e prosperidade, sendo assim, o mesmo devia acontecer com o povo do Cabo Verde. A abordagem desse poema foi iniciada com a nossa orientação, na qual solicitamos que os alunos observassem se o poema tinha alguma coisa a ver com as expectativas que eles haviam levantado anteriormente. Apesar de a maioria da turma ter destacado a alegria e a euforia dos caboverdianos com a chegada da chuva, outros temas de grande importância foram abordados, tais como a mestiçagem, o preconceito racial, a sensualidade da mulata e as comidas. Os temas sobre o preconceito racial e a mestiçagem, abordados nos primeiros poemas, foram retomados com mais ênfase. Através desses depoimentos notamos que os poemas anteriores realmente contribuíram para um compartilhamento de experiências, pois os alunos demonstraram muito interesse em falar sobre as peculiaridades percebidas. Os comentários sobre o poema ocorreram da seguinte maneira: MA: A seca no Cabo Verde é tão forte que quando chove eles comemoram... AL: O poema fala da chegada da chuva e, além disso, fala da alegria das pessoas que comemoram a chuva com dança, canto e muita festa. LU: ...Porque a chuva traz tudo de bom... muita comida como o milho para fazer cuscuz... EL: Eles comemoram, rebolam, brincam, fazem danças sensuais...tocam violinos PESQUISADORA: O que vocês acharam mais interessante no poema? VA: As mulheres selvagens, sensuais, de corpo escultural, pernas grossas, bunda grande ...(risos) TH: Eu gostei do requebrado da morena e da mulata PESQUISADORA: Vocês acham que a alegria dos brasileiros e a animação nas festas foram herdadas dos africanos? AL: Foram sim, herdamos a capoeira, o ritmo do axé, da Timbalada...os africanos são bem mais animados que os outros povos da Europa, a música deles tem mais animação, mais ritmo...o europeu é muito lento, frio, não tem animação para nada, é muito formal... RE: Também temos as comidas...a cocada, o acarajé, feijoada... TH: A gente tem tudo isso...mas o preconceito ainda é muito forte, professora...não sei por que...se tirar a pele de qualquer pessoa o esqueleto é o mesmo... FE: As mulheres negras são mais bonitas que as brancas...elas têm a pele mais firme, envelhecem menos...os donos das escravas procuravam mais as negras pelos seus atributos, elas tinham o corpo mais perfeito do que as esposas deles. RO: Mesmo achando as negras bonitas, muitos homens ainda hoje preferem se casar com as brancas... o preconceito racial sempre dominou 112 o mundo...a mulher branca e loira ainda é a mais escolhida...a negra é objeto sexual como a negra Fulô... Os alunos, cuja maioria é de origem mestiça, foram os que ficaram mais à vontade para falar sobre o preconceito e discriminação racial. Fato que pode comprovar que eles são vítimas desse tipo de preconceito, mesmo que não tenham revelado alguma experiência frustrante a esse respeito. Por se sentirem vítimas do preconceito e da discriminação racial, algumas alunas mestiças afirmaram com toda convicção que a mulher negra ainda é vista, em nossa sociedade, como objeto sexual, pois o homem branco, na maioria das vezes, prefere se casar com a branca, principalmente as loiras. Apesar de todos concordarem que a negra e a mulata são as mais bonitas, além da vantagem de não envelhecerem rapidamente, afirmaram que a preferência é sempre pelas brancas, segundo eles, até os próprios negros preferem mulheres loiras. Após essa abordagem, os alunos reconheceram aspectos positivos e interessantes da cultura africana a partir da leitura do poema, como a preferência de seus habitantes pela música, a dança e os dotes culinários. Na culinária, eles destacaram a cocada, o acarajé e a feijoada como as comidas mais populares que herdamos dos africanos. Conforme Benjamin (2006, p. 112), a culinária tem a sua importância reconhecida e é “tomada como uma indicação da identidade de cada grupo humano. A sua variedade revela os recursos naturais de que dispõe o homem na região onde vive e, também a cultura que desenvolveu”. Para esse autor quando os africanos foram arrancados de seu ambiente para serem escravizados no Brasil, eles se apropriaram de alguns materiais que garantissem os sabores que caracterizam as suas comidas e, em sua falta, procuraram fazer substituições para que os novos alimentos se aproximassem dos tradicionais, tais como o acarajé e a cocada. No que se refere à animação, à alegria contagiante da negra e da mulata, destacada pelos alunos, Mariano (1991) aponta esse fato como efeito da mestiçagem do Cabo Verde, encarada como uma forma de harmonização, fusão de estilos diferenciados e equilíbrio de forças antagônicas que garantiram a esses habitantes a ascensão social e o privilégio de dissolverem manias de pureza racial nas famílias. Por isso, a miscigenação nesse território, de acordo com Mariano (Op. 113 cit, p. 75), propagou-se não apenas no sangue, mas principalmente na alma e nos esquemas de comportamento. A partir dos questionamentos dos alunos, percebemos que essas temáticas bastante abrangentes estão bem próximas do cotidiano deles, pelo fato de se sentirem à vontade para se expressarem e pelo prazer que alguns tiveram em falar dos assuntos destacados. 3.6 – O AMOR E O PODER DA FALA O amor, enquanto tema literário, trabalhado entre alunos com faixa etária entre 14 e 20 anos suscita euforia e entusiasmo para leitura e discussão de textos. Diante desse tema, percebemos que os alunos passam a revelar suas opiniões e emoções mais intensas, mostrando que não importa a época ou a cultura. Os poemas trabalhados nesse encontro realizado no dia 15 de março de 2010 foram “Namoro” e “Carta dum Contratado”. Iniciamos com a distribuição do poema “Namoro”. A reação da turma começou imediatamente, pois ficaram repetindo: “Namoro? Namoro? Oba, Namoro! Eh! Eh! Namoro!” Como era um poema longo, solicitamos a leitura silenciosa e, em seguida, a leitura oral realizada por vários alunos. As meninas se dispuseram a ler, ao final da leitura de cada estrofe, outro aluno retomava, fazendo um “circuito de leitura”, demonstrando grande interesse pelo tema. A atuação da turma na leitura do poema ocorreu da seguinte maneira: JR: ...Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete...pedindo rogando de joelhos...que me desse a ventura de seu namoro... TURMA: E ela disse que não... DA: Ficamos num banco no largo da Estátua...afaguei-lhe as mãos... TURMA: E ela disse que não... JO: ...Olhei-a nos olhos, sorriu para mim pedi-lhe um beijo... TURMA: E ela disse que sim (Aplausos) Ao observarmos a performance da turma a partir da leitura desse poema, constatamos o prazer que eles demonstravam ao repetir o verso: “E ela disse que não”. Nesse caso, a repetição, além de produzir um toque ornamental na leitura, mostrava o nível de concentração e participação da turma. Segismundo Spina (2002, p. 47), ao analisar o efeito da repetição em diferentes formas poéticas, 114 observou que “a repetição significa a expressão mais simples da concentração do espírito, em virtude da qual se espera poder provocar o efeito desejado”. Nessa perspectiva, a eficácia e o encantamento provocados pela leitura do poema não residiu apenas no poder mágico das palavras mas, sobretudo, na repetição. Spina (2002) ainda esclarece que a repetição comparece também nas formas de magia imitativa, uma vez que a força mágico-mimética reside na insistência das solicitações. Depois da leitura todos aplaudiram o poema e o diálogo foi conduzido dessa forma: DA: Que menina difícil!!! A.C: Ele utilizou todo tipo de coisa... para conquistar ela, mas ela só dizia não... PESQUISADORA: Que recursos eles utilizou para conquistá-la? VA: Foi carta perfumada... carta tipografada... recado... pediu aos santos... fez feitiço... RI: E os presentes... teve presentes... ele trouxe anel, broche, colar, doces... CL: Ele ficou com depressão... de tanto ser rejeitado... passou a andar sujo, rasgado DA: Se ele andava limpo dava presente e ela não queria... agora que ele anda sujo e rasgado é que ela não quer mesmo... J.A: É porque ele é pobre... se tivesse um carrão.. fosse rico ela queria... LI: Se eu fosse ele desistia...não sou saco de pancada... Al: Desistir nada... o amor é a coisa mais importante da vida e ele deve continuar tentando conquistá-la (Aplausos) Os alunos estavam alegres, tinham muitos comentários, percebíamos o quanto eles vibravam, mexiam os braços, riam e aplaudiam. Os aplausos justificam essa emoção e encantamento, assegurando que a poesia, como afirma Koshiyama (1996, p.95), “não pode ser procurada em formas exteriores ao sentimento que se quer exprimir, uma vez que ela é, enquanto lirismo, aquilo que dá nome à nossa identidade humana”. A emoção em forma de aplausos foi despertada, segundo Candido (2005), pela voz lírica desse EU, que, ao construir os poemas, nos acompanha a cada passo, dando a cada verso o seu timbre e a sua vida. Pela reação deles concordamos que, entre todas as funções que o texto poético possui, sua função essencial, segundo Eliot (Apud PINHEIRO, 2007, p. 22), “é assegurar que a poesia nos dê prazer”. Nesse caso, a experiência que o poeta nos comunica, dependendo do modo como é transmitida ou estudada, pode possibilitar, ou não, uma assimilação significativa pelo leitor. No caso da recepção 115 dos alunos diante do poema “Namoro”, percebemos que a poesia tem a ver fundamentalmente com a expressão do sentimento e da emoção. Ao verificarmos que os alunos passaram a identificar elementos peculiares da poesia como a divisão em estrofes e a repetição do verso “ela disse que não” que, segundo eles, dava um certo ritmo, além da receptividade do poema (com expressões de “bom”, “legal”, “irado”, “interessante”), percebemos que a proposta ia atingindo um grande resultado: proporcionar aos alunos um contato com a poesia de forma que eles sentissem prazer diante de sua leitura. Essa constatação nos leva também a concordar com Pinheiro (2007, p.20) quando afirma que “é evidente que vale a pena trabalhar a poesia em sala de aula. Mas não qualquer poesia, nem de qualquer modo”. O aluno DA apresentou uma posição interessante ao perceber que a atitude incorreta e desfavorável do rapaz (andar sujo e rasgado como um monangamba, trabalhador das roças que vivia em situação lastimável), só iria contribuir para que a moça ficasse cada vez mais distante. Andar sujo e rasgado, nesse contexto, corresponde ao sofrimento por amor, uma das características mais típicas do Romantismo. Para Candido (2005), imerso no caos interior, o romântico acaba por sentir melancolia e tristeza que, cultivadas durante a introversão, o levam ao tédio. Repetindo o tédio sobrevém uma terrível angústia logo transformada em insuportável desespero. Dando continuidade a nossa experiência de leitura de poesia, observamos que especialmente as meninas, que tinham permanecido caladas no primeiro encontro, mostravam-se mais à vontade para se manifestarem acerca da leitura do poema, chegando até a fazer alguns depoimentos pessoais. Vejamos o posicionamento de algumas alunas sobre essa questão: VA: Ela dizia não, só pra saber se ele realmente gostava dela... LI: ...Ela era esperta... tranquila... não queria expressar seus sentimentos... J.A: Mas essa é a atitude certa... ela pensou bem antes de aceitá-lo... JE: ...Só que ela não pensou nas consequências... não pensou que ele iria sofrer... e depois andar sujo e rasgado CL: Mas ela tava certa... ela queria ter certeza do amor dele... mulher gosta de homem que tem atitude PESQUISADORA: Diante de todas as tentativas que ele fez para conquistá-la... vocês perceberam que ela só dizia não... por que vocês acham que ela mudou de ideia? P.L: É porque ele só mandava as cartas por outra pessoa... ele não ia lá e falava pessoalmente... nada arranjado dá certo... 116 PESQUISADORA: Mas por que ela resolveu aceitá-lo? Ele tentou tudo, cartas, recados e até feitiço... nada funcionou... por que deu certo dessa vez? AL: Foi o olhar professora... quando eles se olharam... ela foi conquistada... a dança e o olhar. Os alunos desvendaram os detalhes de várias tentativas frustradas de conquista apontando os erros e as atitudes equivocadas praticadas pelo rapaz como “mandar cartas e recados por outras pessoas em vez de ir pessoalmente”. As opiniões em torno do comportamento da moça, elogiada pelos alunos pela sua atitude, é um aspecto bastante relevante. Em nossa cultura, de acordo com Benjamin (2006), a mulher apesar de estar incluída nos círculos modernizadores e se beneficiar com as mudanças ocorridas na saúde, educação e mercado de trabalho, atualmente tornou-se símbolo de prazer fácil e sem compromisso, fato que banaliza o amor. A atitude da moça africana é bastante elogiada pelos alunos e alunas, segundo eles, é essa expectativa que “dá mais vontade de ler o poema, pois a moça era forte, tranquila e muito especial, se valorizava e ainda não se iludia com qualquer conquista”. No final, a aluna AL concordou que o efeito do olhar foi mais poderoso que qualquer declaração de amor ou qualquer presente, foi pelo olhar que ela descobriu que gostava dele. Para Santo Agostinho (Apud BOSI, 1993, p.24) “o olho é o mais espiritual dos sentidos”. Segundo Bosi (1993, p. 24), o olho “capta o objeto sem tocá-lo, degustá-lo, cheirá-lo, degluti-lo”. Isso ocorre porque ele constroi a imagem não por assimilação, mas por similitudes, daí o fascínio com que o homem procura achegar-se a sua enganosa substancialidade. Ao término da aula seria o intervalo. Quando recolhíamos o material para sair da sala, um aluno nos revelou que esse poema tinha trazido mais autoestima e coragem, para que ele lutasse pelo amor de uma menina do 7º ano que, segundo ele, também gostava de “fazer charme” igual à moça do poema, mas ele tinha a certeza do seu amor. Essa revelação foi interessante, não só pelo interesse que despertava o tema, mas também pela prova concreta da função especial da poesia que, segundo Pinheiro (2007, p.23), “trata-se de uma experiência íntima que muitas vezes captamos pelo brilho do olhar de nosso aluno na hora de uma leitura, pelo sorriso, pela conversa de corredor”. Retornamos à sala na quinta aula e discutimos o poema “Carta dum contratado”. Uma aluna se dispôs a entregar os textos para os colegas, eles já 117 estavam ansiosos para saber que tipo de carta seria essa, “será carta de amor?” Muitos estavam dispostos a ler, por isso, iniciamos o “circuito de leitura” da aula anterior, cada aluno lia uma estrofe do poema. Vejamos, agora, como a turma se portou para fazer essa leitura: AL: ...Eu queria escrever-te uma carta amor...dos teus olhos doces como macongue...dos teus seios duros como maboque...do teu ardor de onça... TURMA: Ah! ...oooooh! VA: ...eu queria escrever-te uma carta, amor...que recordasse nossos dias na capópa...nessas noites perdidas no capim... TURMA: Hummmmm... GL: ...eu não sei compreender por que é, por que é, meu bem que tu não sabes ler e eu oh! Desespero não sei escrever também! TURMA: (aplausos) Durante a leitura, a turma estava atenta, ria e se movimentava bastante nas carteiras. Quando um colega leu sobre a descrição dos lábios, dos cabelos e dos seios da amada, eles repetiam uma espécie de coral “ooooh”. Ao ler o verso “nessas noites perdidas no capim”- (Hummmm)- fizeram uma euforia que foi difícil controlálos. Estavam ansiosos para conhecer o final do poema. Franz Boas (apud SPINA, 2002, p. 63) esclarece que ” na África a narração de um conto (ou poema) se torna ainda mais viva com as exclamações do auditório, que repete, batendo palmas, a palavra de sentido dominante nos segmentos do conto, à maneira do estribilho”. Com relação às interjeições, segundo Spina (2002), representa o período primário da superioridade do ritmo ou da melodia sobre as palavras do conto. No poema, as interjeições, para o autor, são colocadas como expedientes orais para marcar o compasso e sustentar a melodia. Esse aspecto musical foi tão motivador para os alunos que, após a leitura, alguns atentaram que forma e conteúdo são indissociáveis, e assim se expressaram: LA: Amei! CL: Irado!! Isso é que é poema!! LU: Começa como romance... depois vira comédia... Terminada a leitura, todos aplaudiram o poema. Para conter a euforia perguntamos o que eles tinham achado e quais os assuntos que eram tratados no poema. A conversa ocorreu da seguinte forma: 118 JE: Ele sempre diz “eu queria escrever uma carta” e depois fala do que devia ter na carta... MI: Ele tá triste por estar longe da pessoa amada NI: Ele tá apaixonado!!! FE: Ele tem saudades pela separação PESQUISADORA: Que outros elementos vocês perceberam... além da paixão, saudade e separação? DR: A mulher desse poema é forte e selvagem, mas é diferente daquela do outro poema...ela aqui aparece só para dar mais prazer ao homem FE: A mulher aqui é como uma onça... espera o ataque AL: O poema fala muito de animais... tem jacaré, hiena, bagre... e plantas também... pé de caju... pé de café... AN: Aqui fala de Farfalhar... que é isso? PESQUISADORA: Observe quando o vento balança as árvores, qual o som que ele emite? AN: O barulho do vento nas árvores PESQUISADORA: É isso mesmo... RO: Ele quer escrever uma carta falando da intimidade dele... e ainda vê a mulher como uma onça... depois diz que ela parece com maboque... tacula... como se fosse coisa de comer... uma fruta... É a mulher fruta DR: Ele diz que a mulher tem “ardor de onça”... então ela é uma fera que espera o momento de dá o bote... AL: A mulher pode ser tudo isso, mas, no fundo, ela é sensível... nunca perde o seu lado feminino TURMA: (aplausos!!) O comentário do aluno JE sobre a repetição do verso “Eu queria escrever-te uma carta, amor” para, em seguida, falar do conteúdo da carta, mostra que o paralelismo e a repetição são as chaves das estrofes desse poema. Spina (2002) acrescenta que o paralelismo na poesia dos povos antigos é um processo tão espontâneo que pode surgir fora das condições corais do canto. Dessa forma, os fenômenos repetitivos da poesia folclórica tornaram-se expedientes formais da poesia culta, que os aproveitou alterando, porém, o valor poético do recurso. Na poesia não-letrada, o autor acrescenta que esses fenômenos poéticos se explicam por condições mágico-religiosas ou coreográficas, já, na poesia culta, esses mesmos processos apresentam um mero efeito artístico, visto que suas condições extra-poéticas desaparecem. Nos depoimentos, percebemos também que os alunos descobriram certas peculiaridades da cultura africana, destacando a diversidade da fauna, devido à presença de hienas, palancas, jacarés e bagres. A presença de plantas como o cajueiro, as plantações de café e a comparação da mulher com características da onça. Nesse contexto, mulher e natureza contribuem para afirmação da identidade africana. 119 A presença dos animais e plantas, destacados pelos alunos como elementos importantes, corresponde, segundo Serrano e Waldman (2008, p.139), a um “conceito fundamental na filosofia africana, denominado de força vital”. Para os autores, essa força vital está presente nos homens, animais, vegetais, e até nos seres inanimados proporcionando o equilíbrio, uma visão de mundo, na qual o homem ocupa lugar central. Com relação à posição da mulher, os diálogos foram conduzidos da seguinte maneira: DR: A mulher do poema é colocada de forma diferente... PESQUISADORA: Como é essa diferença? MI: É como uma onça, algo selvagem que desperta desejo PESQUISADORA: Baseados nessa afirmação, o que vocês acham da mulher africana? Ela é valorizada ou não? JE: Ela não tem direito a nada e muitas gostam de ser assim... PESQUISADORA: E a respeito do termo “mulher fruta” que vocês colocaram? PE: O corpo da mulher africana é apetitoso, tem formas redondas...por isso o poeta comparou as partes do corpo dela com vários nomes que parecem até frutas PESQUISADORA: Essas palavras diferentes são termos em quimbundo, um dialeto falado em Angola. A esse respeito, Benjamin (2006, p.28) destaca que a situação da mulher em algumas culturas africanas é marcada pela desvalorização, sendo guiadas, na maioria das vezes, pelos costumes da sociedade tradicional, estando ainda sujeitas à violência doméstica e a mutilações nos órgãos sexuais e na pele. Contudo, essa prática já é considerada ilegal em muitos países (inspirada pela Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana). Apesar disso, ainda existem mulheres que a praticam espontaneamente “a fim de realizarem a sua identidade africana de forma plena, considerando que tais práticas não constituem nenhum sofrimento nem repressão sexual” (Idem, Op. cit, p.30), confirmando a declaração do aluno de que “muitas gostam de ser assim”. Perguntamos a respeito do termo “mulher fruta”, um aluno respondeu que o corpo da africana é “apetitoso, tem formas redondas e dá vontade de comer”, por isso o poeta comparou as partes de seu corpo com vários nomes, (tacula, diloa, macongue, maboque) que, segundo Martin (2007, p. 233), “são termos em quimbundo e valoriza uma formação mitológica negra em que a mulher e a natureza assumem papel de destaque”. Esse momento foi bastante proveitoso por destacar 120 elementos importantíssimos como a fauna com seus animais exóticos e a posição da mulher africana. Dando prosseguimento à discussão, a aluna JÁ muito participativa fez um comentário revelador e inesperado. Quando solicitamos que os alunos retomassem a leitura do poema focalizando sua atenção na carta que o contratado pretendia escrever para sua amada, essa aluna se posicionou da seguinte forma: BI: Ele era analfabeto e sua namorada também JÁ: Se ele não sabe ler nem escrever, mas sabe falar, através da fala ele pode falar do seu amor até para outra pessoa e mandar dar o recado a namorada, sem necessidade de carta...”quem tem boca vai à Roma”. Com essa afirmação, a aluna fazia alusão a um elemento base da poesia africana, a adoção da oralidade, que foi considerada, durante muito tempo, como um sinal de “analfabetismo”. Serrano e Waldman (2008, p.95) destacam que “a expressão ‘analfabetismo’ não faz sentido para o homem africano, pois suas opções culturais sempre permitiram comunicação eficiente dispensando, inclusive em muitos contextos, a palavra escrita”. Dessa forma, nas muitas sociedades africanas, a oralidade é uma modalidade socialmente condensada em comunicação, não podendo ser desvinculada da consciência tradicional. No final dos diálogos, todos os alunos perceberam (através do comentário da colega) a importância da “fala” como instrumento para expressar sentimentos que, nesse caso, dispensava a carta escrita. A escolha desse poema foi meio duvidosa, pois temíamos que eles percebessem o “analfabetismo” do contratado como algo negativo, o que podia provocar uma espécie de desvalorização do homem africano e sua cultura, no entanto, eles priorizaram o poder da palavra realizando uma interpretação bastante significativa. Faltando poucos minutos para o término da aula, solicitamos que a turma comentasse por escrito a atividade de leitura desse encontro. Para tanto, orientamos que eles destacassem, nos poemas “Namoro” e “Carta dum contratado”, os elementos que mais chamaram a sua atenção: 3 O poema “namoro” conta uma história bem diferente, que causa bastante suspense, por conta que o homem está sempre a procura de agradar a pessoa que ele ama verdadeiramente, mas sempre acaba se dando mal, 3 Convém esclarecer que, esses textos escritos pelos alunos foram reproduzidos da forma em que foram escritos. Logo, desconsideramos a revisão linguística dos mesmos. 121 apesar de que ela está se mostrando difícil, determinada mas no fundo ela também está sentindo o mesmo por ele, só não quer demonstrar e no fim acaba cedendo, ou seja se entregando. Já no poema “Carta dum contratado” a pessoa que se expressa se mostra bastante apaixonado mas não sabe escrever e a pessoa a quem ele se refere não sabe ler, mas da mesma maneira ele não desistiu de se expressar e mostrou que não e preciso ler ou escrever para demonstrar o que sente! (J.R). O poema “namoro” fala do quanto a mulher pode ser difícil de conquistar, o rapaz tem que ter atitude e nunca desistir para ter uma chance de fazer a mulher feliz (...) ele merece uma chance de recomeçar ao lado de quem ele mais ama. O poema “Carta dum contratado” fala sobre romance, comédia, tristeza, mas mostra como um verdadeiro amor pode tirar uma pessoa da solidão. Eu posso estar longe da pessoa que eu amo mas nem por isso fico triste, porque sei que ela vai estar no meu coração sempre. (Em) O que me chamou atenção no primeiro, foi o jeito cafona de se expressar, com uma carta, depois um cartão e depois com Dona Zefa, mas o que eu gostei mais foi o final: ela cedeu e beijou ele e foram felizes... no segundo foi o jeito do autor se expressar, comparando a mulher com frutas, gostei muito! E também do amor no capim, quando tem amor não importa o lugar, na hora tudo fica bom, na medida do possível. Gostei também do jeito dele se expressar falando, já que ele não sabia escrever, não deixou se abater! (Ma) Os poemas retratam romances quase impossíveis, sendo que um deu certo no final e o outro ficou um caso aberto. No poema ‘namoro’ eu gosto do fato que ele não desiste, mesmo levando um não continua tentando, também gosto da forma como ele descreve a mulher, que é forte e determinada, se valoriza. No poema “Carta dum contratado” eu gosto do fato em que ele não sabe escrever nem ela sabe ler, mas ele tem vontade de mandar-lhe uma carta falando do seu sentimento. Gosto também de como descreve a mulher, comparando-a com frutas e animais. Só lembrando que mesmo que a mulher seja feroz demais ela não perde a essência feminina ou seja, ela nunca vai deixar de ser mulher porque é feroz. (Al) A partir desses textos, percebemos o quanto esses adolescentes se encantaram com temas que envolvem amor e sensualidade. O aluno MA considerou cafona a maneira de demonstrar sentimentos por meio de carta ou cartão, mas destacou a importância de dar uma chance ao rapaz e recomeçar ao lado de quem se ama. Com relação ao segundo poema, prevaleceu à força da palavra e do desejo expresso na afirmação “amor no capim”. Os depoimentos heterogeneidade das destacaram manifestações uma pluralidade culturais. Mesmo e uma vigorosa abordando questões sentimentais, os poemas trabalhados trouxeram para a turma informações sobre a organização do espaço africano, além de temas importantes como a posição da 122 mulher e a oralidade, o que constitui um poderoso instrumento de compreensão, permitindo aos alunos a identificação de temas que compõem o núcleo mais peculiar da africanidade, assegurando uma visão unificadora do continente. De acordo com a visão dos autores Serrano e Waldman (2008), o contato com textos oriundos da cultura africana, além de promover o conhecimento do referido continente na ótica de uma metodologia diferenciada, capacita os alunos a apreenderem a realidade africana sob o prisma das especificidades que lhe são inerentes. Isso implica um conhecimento solidamente vinculado à preocupação em “compreender a realidade africana a partir dos próprios pressupostos civilizatórios, pensando o outro não como um objeto e sim sujeito de um dado processo social” (SERRANO E WALDMAN, 2008, p.16). 3.7 – A ESCRAVIDÃO E O DESEJO DE UMA VIDA DIGNA Por se tratar de uma temática que expressa sofrimento, associado a muita ação (tema proposto pelos alunos através de questionários), realidade e denúncia, escolhemos para trabalhar com a turma dois poemas: “Monangamba” de António Jacinto e “Reza, Maria” de José Craveirinha. Tais poemas foram trazidos com intuito de contribuir para ampliar a reflexão dos alunos em torno de aspectos culturais africanos. Os poemas selecionados para esse encontro, realizado no dia 22 de março de 2010, tinham como objetivo fazer com que os alunos percebessem que a poesia africana aborda temas variados, por isso, escolhemos textos que contemplassem a opressão colonial, através da triste situação das vítimas da fome, do regime de trabalho forçado nas roças e outras formas de violência imposta pelo sistema colonial. Quanto aos procedimentos metodológicos, esclarecemos que a leitura dos poemas seguia os passos dos encontros anteriores. Após a leitura do poema “Monangamba”, foram lançadas perguntas que pretendiam captar mesmo que superficialmente a recepção dos textos pela turma. A abordagem foi encaminhada da seguinte forma: PESQUISADORA: O que o poema aborda? MI: Fala da escravidão e exploração... 123 AN: ... Sofrimento, massacre e desumanidade das pessoas... MA: Ele mostra a escravidão de forma muito forte... PESQUISADORA: E, como vocês se sentem diante da situação do monangamba? DA: Muito triste, professora, ele não tem direito a nada, recebe para comer só peixe podre, fubá podre e porrada RO: Eu fiquei revoltado! Esses depoimentos mostraram que os alunos estavam empenhados em falar da verdadeira situação do monangamba. A “revolta” expressa pelo aluno RO sugere o desejo de recompor uma história marcada pela escravidão e indiferença, para que o negro apareça como gente. O fato de reconhecer que o monangamba “não tinha direito a nada”, trata-se, portanto, de recuperar um passado de hostilidades, de modificar o presente para poder acreditar no futuro. Nessa perspectiva, a revolta é contra esse passado de humilhações, cujo compromisso é a denúncia dessa situação absurda. Ao perceberem que o poema abordava a escravidão, marcada pelo sofrimento, pela humilhação de consumir alimentos podres e pela desumanidade, a turma criticava o sistema de exploração colonial e a dominação de uma classe sobre outra, fazendo ressurgir um discurso engajado na luta contra qualquer tipo de discriminação. Diante dessas considerações, nota-se que a linha de raciocínio percorrida pelos alunos para exporem suas opiniões, está na base da Negritude. De acordo com Bernd (1987), sabe-se que só a partir da Negritude se pode exprimir os sentimentos profundos dos negros, os quais se constituíram em um processo de questionamento. Nesse momento, sentimos que boa parte da turma estava à vontade para se manifestar. Vamos observar, agora, outros posicionamentos de alguns alunos: PESQUISADORA: ... A primeira pergunta foi como vocês se sentiam diante da situação do monangamba... Agora, como o monangamba se sente? A.P: Mal... insatisfeito de sua situação... PESQUISADORA: Por que vocês acham que ele está insatisfeito? IL: Ela fica pensando... se perguntando: “quem faz o milho crescer; os laranjais florescer, Quem? PESQUISADORA: Muito bem! Ele fazia questionamentos diante de sua situação... por que ele fazia isso? DA: Porque sofria muito... levava uma “vida de cão”, era escravizado, se alimentava mal e só tinha direito à comida podre e surra P.F: Ele queria ser tratado com igualdade 124 RO: Queria um dia ficar no lugar do senhor... queria casa, comida, roupas limpas... trabalhar e ganhar bem para ter uma vida digna A.K: Queria liberdade... MA: Ele sabe da importância do seu suor... do seu trabalho mas quem se manifestasse era castigado... RO: O trabalho dele era importante porque deixava a plantação maravilhosa e enriquecia os brancos... mas ele continuava humilhado e na miséria. A partir desses posicionamentos, os alunos descreveram a “vida de cão” que o monangamba levava e o seu desejo de ser tratado com mais igualdade e respeito, pois ele reconhecia o valor do seu trabalho, cuja contribuição fazia o homem branco prosperar. A turma também percebeu que os questionamentos do escravo já é uma forma de reivindicar respeito e uma condição de vida melhor. Mesmo sem terem conhecimento de detalhes acerca da exploração do colonizador português, eles compreenderam, por meio da poesia, o dilema dos trabalhadores das roças africanas durante o regime da colonização. Ao destacarem a importância do trabalho e do suor do monangamba, a turma concordou que a construção de uma verdadeira identidade só se dá na medida em que os negros conseguirem assumir o seu valor e tomarem as rédeas de seu destino histórico. Nesse sentido, a tomada de posição do valor do monangamba, expressa na fala dos alunos a partir do desejo de ter casa, comida, roupas limpas, trabalhar e ganhar bem para ter uma vida digna, faz com que o negro oprimido pelo sistema colonial procure negar o discurso dominante e tente recuperar a dignidade perdida durante séculos em que foram vítimas da escravidão. A leitura e análise do poema “Monangamba” teve a duração de duas aulas, logo depois chegou o momento do intervalo, em seguida, retornamos na quarta aula, para trabalhar o segundo poema desse encontro “Reza, Maria!” : Especificamente em relação a esse poema, perguntamos o que ele expressava. O que nos chamou mais a atenção foi à perplexidade deles diante das cenas. Cada verso lido provocava espanto diante de uma realidade tão cruel. Os comentários foram bem espontâneos, pois não houve necessidade da nossa intervenção, que tomou o seguinte direcionamento: RO: Muita violência! RE: Achei bom! AN: ...é muito realista...parece até cena de filme. 125 TH: Morreram muitas pessoas vítimas de fome... assassinato... maldades... LA: ...o poema pede que Maria reze por todos... para impedir que eles sofram nas mãos dos europeus. J.A: Ele compara as pessoas... homens como bestas... mais adiante coloca um elemento positivo: não são cães são humanos, não são feras, são homens. AM: Apesar das “diversidades” (a aluna queria dizer adversidades), eles acreditam na melhoria... EM: O Girassol é colocado para simbolizar essa melhoria... FE: ...O poeta também pede que todos rezem para amenizar o sofrimento do seu povo que é muito grande, alguma coisa tem que ser feita. O comentário de que o poema “é muito realista e parece até cena de filme” é um dado bastante curioso. Segundo Candido (2005), há poemas cujos níveis de sentido são articulados por um movimento vagaroso, uma espécie de traveling de câmara cinematográfica que, nesse caso, vai aos poucos revelando um cenário de morte, assassinatos e atrocidades. Isso ocorre, de acordo com o autor, porque não é um movimento do poema, e sim da observação do leitor, que se confunde com a voz neutra do narrador. Apesar de não terem muito conhecimento acerca da literatura angolana, os alunos responsabilizaram o dominador europeu que sempre procurou impor, pela força, seus “valores” culturais e ideológicos ao dominado. O tratamento de seres humanos como animais, segundo a turma, já é uma forma de se instalar a violência. A partir do momento que esses seres são vistos como pessoas, surge um desejo de libertação pelo qual começa a ganhar vulto todo um processo de conscientização, de melhoria, conforme eles comentaram. O girassol, para a aluna EM, “é colocado para simbolizar essa melhoria”, uma vez que a simbologia da flor, como vimos anteriormente nas palavras de Candido (2005), tem o poder de amenizar a violência abrindo caminho para um mundo mais humanizado. Outro comentário importante foi da aluna AM. Ela destacou que, “apesar das adversidades, eles acreditam na melhoria”. A esse respeito, Margarido (1980, p. 362) esclarece que a literatura africana, [nesse caso a angolana], descreve o estado de coisas, mas procura ao mesmo tempo superá-lo, a partir do anúncio de uma transformação”. Um dado interessante que deveria ter sido abordado com mais detalhes foi a posição de Maria no poema. Apesar de a turma ter compreendido que “o poema pede que Maria reze por todos para impedir que eles sofram”, os alunos não perceberam que sua posição torna-se inútil. Embora essa santa seja bastante 126 poderosa para o contexto do catolicismo, nesse cenário seu poder não é suficiente para acabar com tanta violência. Como já estávamos no final da quarta aula e já observávamos os sinais de cansaço e muita fome, decidimos solicitar uma atividade diferente para encerrarmos esse encontro. Pedimos que os alunos desenhassem o que eles haviam aprendido nos poemas lidos, depois que, entregassem-nos os desenhos, poderiam ir embora. Apesar da singeleza das ilustrações, eles expressaram informações interessantes, criativas e repletas de emoções. No primeiro desenho (figura 1), temos a expressão triste e cansada do monangamba: Figura 1 - Desenho elaborado por TH referente Ao poema “Monangamba” 127 Embaixo de um sol forte, de pés descalços, vestindo uma calça com remendos e uma enxada na mão. Ele encontra-se pensativo e sem esperanças de ter um futuro melhor. Em seu corpo há as marcas da violência física, do suor e da fome. Essa imagem reflete um homem que aceita a vida e se encontra em profunda nostalgia e alienação. O segundo desenho refere-se ao poema “Reza, Maria!” (Figura 2), Figura 2 – Desenho elaborado por AL como representação do poema “Reza, Maria” Aqui a miséria, a seca e a morte são responsáveis pelo dilaceramento dos seres. O desenho apresenta um extraordinário efeito dramático, trazendo, na face de cada personagem, a descrição do seu tormento. Temos uma imagem forte de uma mãe triste e abatida com um bebê nos braços em um cenário de seca e miséria. A lágrima do bebê, vítima da fome e da tristeza, revela seu desespero ao ver o irmão morto em um caixão aberto. Apesar de aparentar poucos meses de vida, a criança parece compreender o sofrimento de sua família. O pai descalço, magro e 128 sem camisa repassa para o contemplador do desenho um semblante sem perspectivas. No terceiro desenho, uma menina reza ajoelhada (Figura 3). Figura 3 – Desenho elaborado pela aluna AR do nono ano, como representação do poema “Reza Maria” Percebe-se que a menina não está apoiada no chão. É como se estivesse flutuando, o que indica que sua oração a levou a um estado tão profundo de meditação que resultou em uma levitação, caracterizando o poder da oração e o contato com o divino. Ao seu lado, há um grande girassol, cuja simbologia, de acordo com Claudia Carsughi (2007, p. 34), “remete ao sol, fazendo parte do elemento fogo e tem como atributo a realização de desejos e a fertilidade”. O interessante nesse desenho é a ligação do cristianismo (na imagem da menina rezando) com o paganismo (na imagem do girassol e no que ele representa simbolicamente), caracterizando o fim da discriminação e a união de crenças diferentes. No quarto desenho temos uma grande surpresa: a imagem do monangamba feliz. (Figura 4). 129 Figura 4 - Desenho elaborado pela aluna JA referente ao poema "Monangamba" Mesmo embaixo do sol forte seu semblante está tranquilo, inspirando confiança. Ele está bem vestido e bem calçado, usa chapéu para se proteger do sol, mostrando que executa seu trabalho com proteção e dignidade. Suas ferramentas de trabalho estão largadas no chão e ele repassa uma energia de superioridade, de vitória diante da opressão colonial. Esse desenho comprova uma possível superação de uma condição de escravizado para a construção de uma identidade autônoma. O próximo desenho (Figura 5) mostra três monangambas dentro de uma roça de milho e café, cujas plantas estão em período de colheita. Eles estão vestidos com roupas de cores fortes e calçam sandálias. 130 Figura 5 - Desenho elaborado pelo aluno PA referente ao poema "Monangamba" Percebe-se, que o grupo compartilha dos mesmos sentimentos e esperanças, além do desejo de furar o bloqueio imposto por uma ideologia de dominação. Constatamos no desenho, traços marcantes que identificamos como uma identidade coletiva, identificada, segundo Bernd (1987), na tentativa de atingir a comunidade e de atuar sobre ela como fator de unificação de seus membros e como esteio para uma ação política. Na figura 6, temos a plantação de milho e café substituída pela plantação de feijão, talvez pelo fato de estar presente no cotidiano dessa aluna. 131 Figura 6 - Desenho elaborado pela aluna JO referente ao poema "Monangamba" Ao lado da plantação, temos a pequena imagem de um monangamba que se dirige para executar seu trabalho com satisfação. Ao repetir a frase “vou trabalhar”, ele reconhece que é o seu trabalho que faz a plantação de feijão prosperar. Essa atitude também corresponde a uma maneira de impor respeito e valorização do seu trabalho. No sétimo desenho não há a ação do trabalho humano para fazer a plantação de milho e feijão se desenvolver (Figura 7). 132 Figura 7 - Desenho elaborado pela aluna DE referente ao poema "Monangamba" No desenho da aluna, a plantação está sujeita à força da natureza, denominada, na África tradicional, de Princípio Vital, e se desenvolve no desenho, por meio do calor do sol e da fina chuva. Para Serrano e Waldman (2008), o Princípio Vital está presente em toda a natureza, proporcionando vida e equilíbrio. Na figura 8, mais uma vez, temos a expressão do monangamba feliz. 133 Figura 8 - Desenho elaborado pela aluna LA referente ao poema "Monangamba" Diferentemente da figura 1, na qual temos um homem insatisfeito com a vida, nessa ele já mostra resistência ao trabalho na roça. Os pés descalços, os remendos na roupa, além de segurar um pesado instrumento de trabalho, mostram que sua vida não é fácil. Apesar de tudo, ele expõe, com orgulho, uma plantação de café, cereja e flores. A plantação de flores já indica um estado de superação de sua condição de explorado. No nono desenho, como representação do poema “Reza, Maria!”, a aluna desenhou uma cena de violência. Um rapaz usando boné, camiseta e bermuda, dispara vários tiros matando um garoto (Figura 9). 134 Figura 9 - Desenho elaborado pela aluna RE referente ao poema "Reza, Maria" Nessa cena, o que nos chamou mais a atenção foram à zombaria e as gargalhadas do assassino, no momento em que matava a vítima, mostrando que o fato de tirar uma vida é sinônimo de diversão e deboche. Mesmo estando fora do contexto dos poemas, a frase “A violência cada vez mais está abalando o mundo” mostra que algo precisa ser feito, pois a violência está presente em todos os contextos e em todas as culturas. Ainda representando o poema “Reza, Maria!”, o décimo desenho (Figura 10) expõe um mundo em que o ser humano é comparado a um animal. Figura 10 - Desenho elaborado pelo aluno AL referente ao poema "Reza, Maria 135 O trabalho forçado, nesse contexto, é exposto como uma forma de escravidão que inferioriza o homem, como consta na fala do trabalhador: “homens trabalhando como desgraçados como bestas”. Ao lado de um cão marrom escuro, existem alguns ossos da mesma cor do animal que podem representar os ossos dos trabalhadores vítimas da violência do sistema colonial. Além disso, temos um girassol sem pétalas, simbolizando a continuação da violência e a ausência de esperanças. Do lado direito do desenho, temos a imagem de Maria que aparece rezando um pai-nosso com um semblante feliz e tranquilo, mas com os olhos fechados. Ao fechar os olhos, a santa pode estar entrando em contato com o divino, mas, principalmente, pode estar fechando os olhos diante das injustiças, deixando que as coisas aconteçam permanecendo impotente. O desenho da figura 10 contém uma reflexão muito interessante: anteriormente, refletimos sobre a ausência de comentários referentes à posição de Maria no poema, achamos que os diálogos deveriam ter sido conduzidos em torno da representação da santa no contexto do catolicismo e no contexto africano, pois pensávamos que os alunos não haviam compreendido sua atuação. Porém, a aluna AL expressou, em forma de desenho, a impotência de Maria, que não podia fazer milagres para ajudar aquele povo tão sofrido, fechando seus olhos. Tais desenhos nos remetem para o que diz Armindo Trevisan (apud SILVA, 2009, p.130) sobre o poema: “é o produto de emoção destinado a acionar a fonte que o produziu: a emoção. Só a emoção pode mover o homem. O pensamento move-o na medida em que é movido”. Os desenhos elaborados pelos alunos testemunham o potencial criativo que a leitura de poesia é capaz de despertar. A multiplicidade cultural e religiosa nos fazem perceber que estamos diante de duas realidades nas quais as analogias predominam sobre as diferenças, materializando caminhos comuns possíveis de serem trilhados por africanos e brasileiros. 3.8 – A INFÂNCIA: descoberta do sobrenatural e o aprendizado para a vida Nesse encontro, realizado no dia 23 de março de 2010, os alunos perceberam o quanto as histórias contadas na infância poderiam despertar a sua curiosidade para a leitura, contribuindo para aumentar o interesse de ler os clássicos da literatura universal. Além disso, eles reconheceram também que a infância das 136 crianças africanas é um momento de aprendizado para a vida. A partir da distinção do ser humano e do espírito, os alunos aprenderam a valorizar os ensinamentos da cultura do outro. Nessa perspectiva, foi realizada a leitura do poema “Serão de Menino”, seguindo a mesma metodologia de leitura descrita nos encontros anteriores. Após a leitura, a abordagem foi iniciada da seguinte forma: PESQUISADORA: Qual o tema do poema? AL: É uma historinha contada pra crianças que fala de um cágado e de um leão. PESQUISADORA: Quando vocês eram crianças alguém da família contava histórias pra vocês? DA: Minha tia contava histórias da Branca de Neve e Cinderela. Foi nessa época que me interessei a aprender a ler logo...queria ler todas as histórias de contos de fadas. Hoje, gosto muito de ler, agora leio romances, contos, poemas, revistas...todo final de semana levo um livro da biblioteca para ler em casa. PESQUISADORA: Muito bom, alguém mais contava histórias pra vocês? FE: Contava, mas não lembro mais de nada. (Silêncio) Nesses comentários tivemos a oportunidade de vivenciar o quanto as histórias contadas na infância contribuem para a formação de um leitor. Colomer (2007, p. 52) acrescenta que “os primeiros contatos com a leitura se produzem em grande parte, através de formas orais e, inclusive, mediante narrativas audiovisuais”. Para a autora, os livros para crianças que ainda não sabem ler são uma realidade bem consolidada na atual produção de literatura infantil. No Brasil, sabe-se que os livros infantis estão presentes em creches e na fase pré-escolar. Diante disso, Colomer (2007) considera que é, através de distintos canais, tais como dos livros infantis e das atividades proporcionadas pelos adultos, que as crianças começam a fixar as bases de sua educação literária. A ideia de perguntar sobre a infância foi uma tentativa de relacionar o poema com a experiência de mundo deles. Como apenas uma aluna participou desse primeiro momento, compreendemos que eles não estavam acostumados a uma prática de leitura que resgatasse ou partisse de suas vivências pessoais, postura baseada em uma prática pedagógica que não favorece o diálogo, portanto, não influencia o debate. 137 Continuando nossa abordagem, perguntamos se eles haviam gostado ou não do poema, quais os versos ou estrofes que mais chamaram a atenção deles e qual o assunto abordado pelo poeta. Os alunos iniciaram os debates da seguinte maneira: DA: ...Achei interessante o Casumbi, a alma... o fantasma PESQUISADORA: Com a aparição do fantasma, como as crianças ficaram? AR: Se apertavam umas nas outras.... elas ficaram apavoradas com medo do fantasma EM: ... mas não era um fantasma, o ruído era do vento. PESQUISADORA: A partir desses comentários, qual o tema desse poema? TH: Fala de fantasmas... o sobrenatural causa medo, professora... PESQUISADORA: O que mais vocês perceberam? LA: A historinha do leão e do cágado...o leão tem a força... JA: ...o jabuti é lento e fraco... DA: ...mas o jabuti é esperto... ele se esconde no casco quando vê o perigo... PESQUISADORA: O que mais vocês aprenderam com tudo isso? AL: “Nem sempre a força vale mais do que a esperteza” PESQUISADORA: Ótimo... e quanto ao sobrenatural, o que vocês compreenderam? Se fosse vocês que lá estivessem... teriam medo ou não? PA: Eu morria de medo... JE: Eu não... é que o Casumbi causa medo às crianças... mas não há o que temer... o bem sempre vence o mal...É isso que as crianças precisam aprender. GL: ...as pessoas que têm medo, não têm segurança dos seus sentimentos...não têm condições de assumir os grandes desafios da vida, ficam com medo de tudo e acabam sendo perdedoras. Encerrados os comentários, constatamos que o medo do Casumbi, a esperteza do jabuti, o amor no coração para eliminar o medo e a necessidade de adquirir segurança para assumir os desafios da vida foram as tônicas de um diálogo que foi travado a partir da leitura desse poema. Apesar de ser um poema difícil (fato que nos deixou com certa dúvida, se trazíamos ou não para a sala de aula), aceitamos o desafio de trazê-lo para os alunos. O poema só foi bem compreendido a partir dos comentários dos alunos, os quais identificaram o fantasma e a história sobre o leão e o jabuti. Tudo isso desencadeou diálogos em torno da importância da esperteza e da presença do espírito Casumbi, o que corresponde a uma forma de religião denominada de animista. O fato de os alunos terem ligado o animismo ao “sobrenatural”, mostra-nos um ponto de vista bastante proveitoso. Eles compreenderam o poema utilizando termos do seu cotidiano tais como “fantasma” e “alma penada”, sem a necessidade 138 da interferência do professor, favorecendo, assim, a recepção deles e afastando a ideia de conduzir o aluno a uma leitura já pronta. Quanto à “historinha”, a qual a aluna fez referência, a turma compreendeu que, apesar da força do leão, o jabuti, cágado ou tartaruga (eles deram esses nomes para o jabuti chamando ora de cágado, ora de tartaruga), é esperto e tem condições de vencer o leão, pois, no final de tudo, “o bem sempre vence o mal”, conforme a aluna JE afirmou. A compreensão dessas informações pela turma favoreceu a ampliação do horizonte de expectativa, pois os alunos perceberam que a leitura realizada diz respeito não só a uma tarefa escolar, mas ao modo como veem seu mundo. Aqui, os alunos tomaram consciência das alterações e aquisições obtidas através da experiência com a literatura. De acordo com Bordini e Aguiar (1988), ao compararmos o horizonte inicial de expectativas da turma com os seus interesses atuais, verificamos que suas exigências tornaram-se maiores, pois a capacidade de decifrar o que não é conhecido foi aumentada. Nessa etapa, eles também reconheceram a importância da autoestima elevada para vencer os desafios da vida, mostrando o quanto o medo de enfrentar os perigos e adversidades pode ser prejudicial para a formação do indivíduo. Nesse sentido, o cágado e o leão correspondem a duas metáforas, para alertar as crianças de que nem sempre aquele que aparenta ter a força e o devido respeito pode se sair bem em todos os momentos. Os desenhos singelos deles também são outras formas de leitura revelando novas interpretações. Para representar o poema “Serão de menino”, a aluna EL desenhou um jabuti e um leão (Figura 11) como representação da inteligência e da força. Figura 11 - Desenho elaborado pela aluna EL referente ao poema "Serão de menino" 139 Os próprios animais se expressam transmitindo para o leitor seus atributos: “eu sou inteligente”, ”Eu sou forte”. Aqui, não há posição de destaque para nenhum deles, os dois animais aparecem em posições iguais independentemente de seu tamanho. Na figura 12, a imagem do leão é reproduzida pela aluna FE indicando que ele “tem força e agilidade, mas não tem a capacidade de pensar”. Figura 12 - Desenho elaborado pela aluna FE referente ao poema "Serão de menino" Ao fazer essa afirmação, a aluna acredita que todos os animais são irracionais. Observamos, ainda, que ela não atribuiu no desenho nenhuma fala para o animal, como ocorre na figura 11. Ele aparece sentado, não executa nenhum movimento e aparece sozinho, mostrando que está longe de seu bando e também dos jabutis. A ausência da linguagem pode simbolizar para o homem negro longe de sua cultura e de seus valores, a perda da língua e a perda da noção de identidade, entregando-se à alienação. Na figura 13, a aluna DA coloca evidencia a importância do trabalho em equipe, valorizando a esperteza e criticando a força. 140 Figura 13 - Desenho elaborado pelo aluno DA referente ao poema "Serão de menino" O desenho mostra uma corrida em que a tartaruga, embora lenta, vence o leão, pelo fato de ter contado com outras tartarugas, suas colaboradoras. Já o leão, apesar da força, aparece sozinho como perdedor e questiona: “como é que pode essa tartaruga lenta me ganhar”. Dessa forma, o desenho traz uma grande lição: a união de todas as tartarugas desencadeou na construção de uma identidade compartilhada, que compreende a vitória a partir de uma consciência solidária. Como foi visto, esses desenhos também tiveram grande relevância para a leitura e análise dos poemas. Embora singelos e alguns não muito bem elaborados, transmitiram informações importantes sobre os poemas lidos. Tais informações destacaram aspectos culturais, sociais e naturais do território africano, fato que contribuiu para um grande envolvimento da turma, pois favoreceu “à tomada de posição do leitor que, no cotejo da tradição com o inusitado da obra, introjeta novos valores, deslocando seu horizonte” (AGUIAR, 2008, p.19). Dos 41 desenhos obtidos, analisamos apenas 13 desenhos para representar os poemas “Monangamba”, “Reza, Maria!” e “Serão de menino”, pelo fato de contemplarem temáticas variadas, não ficando apenas presos aos limites do poema. Dos 41 desenhos, 13 alunos desenharam a respeito do poema “Monangamba”, o que representa 59% do total. Já 12 alunos desenharam sobre o poema “Serão de menino” (23%); 09 alunos contemplaram os três poemas em um só desenho (10%) e, por fim, apenas 07 alunos desenharam sobre o poema “Reza, Maria!” (8%). O gráfico, abaixo, mostra como se configuraram esses números: 141 3.9- A GUERRA A ação destrutiva de militares nacionais e estrangeiros, a desorientação das pessoas, a morte, o pânico e, principalmente, o desespero diante da separação definitiva dos entes queridos foram os momentos extremos percebidos pelos alunos durante a leitura do poema “O último adeus dum combatente”, realizada no dia 29 de março de 2010. A turma conduziu a análise do soneto, forma em que se apresenta o texto, para os problemas vivenciados pelos africanos devido aos horrores da guerra, destacando a dor do combatente que parte e da namorada que fica. Além disso, eles realizaram uma discussão acerca dos sérios problemas que uma guerra pode ocasionar para um país e para o destino dos habitantes que porventura sobreviverem. No momento da entrega do poema, antes de sua leitura, os alunos, sem a necessidade de nossa orientação, começaram a levantar 142 expectativas com relação ao título. Os meninos, principalmente, perceberam que, a partir da palavra “combatente”, o poema iria fazer alguma referência à guerra. Já outros alunos mencionaram que o poema iria se referir à partida de um combatente para a guerra, à partida sem volta, à partida para a vitória ou para a morte e também à partida definitiva e com muita tristeza. O desejo de valorizar a vida, de mostrar que a guerra traz perdas humanas materiais e afetivas, além da tensão psicológica, saudade e tristeza, foram os assuntos mais evidenciados pelos alunos em torno desse tema. Vejamos, então, seus diálogos: PESQUISADORA: O que vocês perceberam com essa leitura? BI: Que o combatente dá adeus a uma pessoa que ele ama...e o rapaz é um grande guerrilheiro. PESQUISADORA: Qual o verso ou os versos que identificam a condição desse rapaz como combatente? LA: “quando parti foi por amar a humanidade”...ele partiu por amor ao país dele, por isso ele é um combatente TH: O mais importante para ele é a tarefa de amar o seu país...ele acha a partida positiva para o país, embora traga muita saudade para a namorada que ficou... AL: Ele acha que a partida dele é importante pelo desejo de lutar pelo seu país. PESQUISADORA: O que mais vocês perceberam? RO: O poema é bem arrumadinho, professora... tem rima, é diferente dos outros, parece até poema brasileiro PESQUISADORA: O “arrumadinho” que você fala é a disposição dos versos e estrofes...vocês sabem qual o nome que se dá a esse tipo de poema? (silêncio) PESQUISADORA: Creio que vocês já viram um poema dessa forma (continua o silêncio)...Bom, esse poema é composto de duas estrofes com quatro versos e duas estrofes com três versos, que nome tem? NI: Ah! É um soneto... dois quartetos e dois tercetos PESQUISADORA: Muito bem! Agora que vocês lembraram vamos dar continuidade ao tema do poema...com relação à guerra mais alguma coisa a acrescentar? DA: A guerra traz muitas conseqüências, professora, muita morte, o país gasta dinheiro com armamentos...tem perda de pessoas, depressão, tristeza para os que partem e os que ficam e até loucura. NL: Na guerra é cada um por si e Deus por todos... a loucura dos soldados é por ver tantas mortes PA: É muita pressão do governo...dos militares, pressão psicológica, fome... IT: Ele teme pela vida dele e também teme por não ver mais a amada, mas ainda tem esperança quando diz:”se jamais do teu amor posso esquecerme e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste que se conserve em ti a esperança de rever-me” LI: A esperança ocorre por parte dos dois... ele tem esperança de voltar e ela tem esperança de revê-lo. 143 JO: Eu acho que a guerra só é importante para o país na questão da liberdade, da independência, mas é muito injusta porque tem muita morte. Diante de uma análise tão significativa, percebemos o quanto os alunos estavam entusiasmados em falar de um tema tão difícil que traz consequências diversas para o país atingido. Todo esse interesse comprova o quanto esse tema emociona os alunos e, principalmente, os meninos, que já possuíam uma opinião formada sobre a importância da guerra para garantir a independência do país e, ao mesmo tempo, o quanto ela torna-se injusta, a partir do momento que ceifa vidas, cidades, separa pessoas e destroi esperanças. Além do entusiasmo da turma pelo tema, constatamos que eles tinham embasamento e experiência para se expressarem em torno dessa questão, pois afirmaram ter assistido a muitos filmes e alguns confirmaram que já haviam lido alguns textos sobre o assunto. Esse fato comprova que realmente proporcionamos o atendimento do horizonte de expectativas deles, uma vez que o poema escolhido correspondeu ao esperado, e as estratégias de interpretação foram guiadas pelos próprios alunos, que se basearam em referências textuais já conhecidas e do seu agrado. Com relação à forma do soneto, o aluno RO fez um comentário muito interessante, ao destacar que o poema é bem “arrumadinho, tem rima, é diferente dos outros, parece até poema brasileiro”. Nesse caso, ele percebeu que o soneto apresenta uma estrutura fixa, bem amarrada, bem ordenada ( boa parte dos poemas encontrados no livro didático deles, segue esse esquema), diferente dos outros poemas lidos, os quais não se prendiam a sistemas de versificação tradicional. A esse respeito, Andrade (1996, p. 127) acrescenta que “entre todas as formas fixas da expressão lírica, o soneto chama a nossa atenção pela capacidade de resistir às idas e vindas do gosto poético”. Para esse autor, ainda hoje, “apesar da marca forte da recusa modernista das formas fixas, a moldura dos quatorze versos é a tradução gráfica mais comum da idéia de ‘poesia’ para os ocidentais”. (Op. cit.). Essa informação mostra a capacidade de adaptação do soneto, que conservou sua forma durante séculos e ainda continua encantando leitores de diferentes gerações. 144 Muitos depoimentos apontavam as consequências provocadas pela guerra, destacando a pressão psicológica, a depressão e a loucura daqueles que porventura sobreviviam, conforme destacam as falas de NL e PA. Embora o poema não permita tal leitura, é possível que os alunos tenham associado esse estado a dor provocada pela partida, o sentimento de perda e de nostalgia, uma vez que, o louco “define-se por faltas, por carências, por uma retração frente ao mundo” ( Koshiyama, 1996, p. 91). Outra categoria identificada pelos alunos foi a esperança. Segundo eles, a esperança conduz a uma libertação do sofrimento. Em meio à dor, à solidão, ao espanto e à morte, surge um grito de vida e de esperança. A partir desses dados, a turma compreendeu que a sequência, separação, saudade e esperança são traços marcantes do soneto e, ao mesmo tempo, um caminho para a libertação dos tormentos, pois a poesia também possibilita a afirmação de uma identidade. O ar de comovidos que identificamos já nos indicava a boa recepção do poema pela turma. Ao final da aula, alguns alunos, sem a necessidade de nossa orientação, entregaram-nos pequenos registros escritos comentando o que haviam identificado no poema: Achei o poema muito bonito, ele revela como é grande o amor do rapaz pela pátria e também pela namorada. É um poema romântico e complexo. Mostra que o amor deve vencer distâncias e barreiras. Já a questão social é bem crítica porque se gasta muito para realizar uma guerra, a família do combatente fica desesperada sem saber notícias e mesmo se ele voltar vivo não será mais o mesmo pelo resto da vida (DA). A maioria dos soldados que vão para a guerra e retornam acabam enlouquecendo por causa da pressão que eles sentem, por ver tantos colegas mutilados. Além disso, o governo gasta muito dinheiro com armamentos e compras de aliados para unir suas forças. Na minha opinião, a guerra não leva a lugar nenhum porque os dois lados perdem vidas e bem materiais e para recomeçar tudo de novo é muito difícil (RU). Quando o combatente dá o seu último adeus e deixa sua amada ele fica desesperado e com saudades. Ele sabe que pode morrer ou viver e é muito triste ter que deixar o seu amor. Mas por outro lado, ele também ama o seu país e tem o desejo de lutar pela independência de seu povo. Ele fica dividido entre a guerra e sua amada, mas dá o seu último adeus e vai para a luta (BI). Os comentários mostraram opiniões diversificadas e bastante relevantes em torno desse tema. Embora alguns alunos não tenham apresentado argumentos 145 pautados dentro dos limites que o poema permite, suas análises foram levadas em consideração, uma vez que a poesia oferece novas formas de ver e compreender o mundo. 3.10 - A MÃE-ÁFRICA A homenagem à Mãe-África foi o fator de maior relevância identificado pelos alunos nesse encontro. Seja a mãe negra, mãe africana ou mãe universal, eles perceberam que a mãe é invocada no poema como a representação do Grande Continente que abriga todos os africanos oprimidos pela sociedade branca. O poema “Negra”, explorado nesse encontro, que ocorreu no dia 30 de março de 2010, objetivou mostrar aos alunos que a poesia africana aborda temas e situações variadas. Os procedimentos metodológicos para a análise do poema foram os mesmos realizados em encontros anteriores. Finalizada a leitura silenciosa e oral, formulamos a pergunta: “O que o poema ‘Negra’ aborda?” Anotamos o título do poema no quadro e solicitamos que a turma o observasse. Em seguida, perguntamos se o título tinha a ver com o assunto. A partir daí, percebemos que o sentimento de valorização da África foi logo identificado por um aluno, enquanto que os demais passaram a apreciar o poema da seguinte maneira: LI: É uma homenagem à África... à mãe de todos os negros... AL: Fala das gentes estranhas que queriam explorar os negros e as suas riquezas... como ouro, diamantes... PESQUISADORA: Que gentes estranhas seriam essas? RO: São pessoas diferentes... maldosas... de outros países... os brancos... ingleses...portugueses... europeus... e outros... que queriam explorar os negros. AM: Eles queriam explorar os encantos da África... PESQUISADORA: Que encantos seriam esses? PA: Negras bonitas, professora... (risos). A África é muito animada e seus habitantes também são animados... TH: O negro é “bicho ruim”... é animado e resistente PESQUISADORA: Além desses encantos que vocês falaram... que outros encantos podemos encontrar? WE: A música é sensual, alegre... O ritmo da capoeira... VA: Os africanos dançam com mais emoção... explosão de alegria... AL: Os africanos são mais soltos descontraídos... o europeu tem um ritmo musical ruim... lento... sem graça, é muito formal e o africano é mais descontraído. AM: A África também é cultura... 146 JO: Como não tinha mais riquezas para eles explorar... foram embora... só depois que mataram e escravizaram muita gente... MA: ... Os negros resistiram e lutaram pela liberdade, através da música... da guerra... da dança. AL: A revolta... a dança era a única maneira que eles tinham para protestar... MI: Eles ganharam porque os brancos foram embora... houve muita luta e vitória... Diante dessa explanação, observamos que os alunos perceberam que o poema “Negra” tinha muito mais a dizer do que a simples relação com a Mãe-África. Eles observaram que, a temática presente era bastante abrangente e próxima do cotidiano deles. O contato com a disciplina de história (apontada no questionário como a disciplina que mais introduziu as informações sobre a África) fez com que eles tivessem condições de identificar peculiaridades como a opressão colonial e a alienação a que estavam submetidos os africanos pelos colonizadores. Estes eram identificados pela turma como “gentes estranhas” que só pretendiam explorar o povo, as riquezas do continente e a cultura. Também abordaram a força de vontade dos africanos que, através de sua tradição e expressões culturais, passaram a resistir, e lutar pela liberdade. Essa resistência e luta, segundo Bernd (1987), corresponde ao compromisso primeiro do poeta em denunciar e protestar contra as situações de opressão impostas pelos colonizadores, despertando, por meio da palavra poética, a consciência do povo africano para seus próprios valores. Nesse poema, os alunos também compreenderam que a riqueza da África estava presente, principalmente, no seu povo, a sua expressão mais marcante. Esse povo, segundo eles, apresenta uma capacidade de adaptação admirável, sendo capazes de demonstrar resistência, alegria e animação, vencendo as adversidades pelo seu poder de luta, esperança e renovação. Esse fato está expresso na fala do aluno TH, ao afirmar que o negro é “bicho ruim”, não por ser uma pessoa má, mas por ser animado e resistente. Serrano e Waldman (2008, p.280) destacam que “é dessa forma que a África, apoiada na tradição pode refazer a sua compreensão do mundo, criativamente repensando o seu passado e o seu futuro”. No resgate e na confirmação da força da memória e alegria de seus habitantes, “pauta-se o reconhecimento dos valores de um vasto continente, que, mesmo oprimido e 147 desqualificado como nenhum outro, ainda assim teima em sobreviver, em construir a própria história”. Como forma de expressarem o poder da tradição africana, os alunos fizeram menção à importância da música e da dança como elementos de alegria, resistência e liberdade. Para Benjamin (2006), a música, a dança e outras tradições africanas no Brasil, conservaram-se graças às associações de escravos e ex-escravos, com finalidades recreativas e religiosas. Algumas tiveram importância política e chegaram a promover revoltas. Com relação à capoeira, citada pelo aluno WE como forma de resistência à opressão colonial, esclarecemos que sua origem não é africana. Benjamin (2006, p. 59) acrescenta que “a denominação capoeira-de-angola era o que parecia indicar uma origem africana”. Segundo o autor, pesquisas realizadas na África não localizaram qualquer tipo de dança, jogo ou luta que se assemelhasse à capoeira, embora, em diversas regiões daquele continente, haja danças, rituais de caça e modalidades de defesa pessoal que podem indicar para uma raiz longínqua da manifestação brasileira. Benjamin (op. cit.) acrescenta, ainda que, nas rodas-decapoeira, se alimenta a informação de que o desporto foi inventado por Zumbi, como técnica de luta para defesa do quilombo dos Palmares. Um dado bastante significativo foi à constatação da turma de que a África é um reservatório de pedras preciosas, como ouro e diamantes cuja remuneração é aviltada pelo mercado internacional. A respeito das pedras preciosas, Serrano e Waldman (2008, p.282) acrescentam: “nunca a África exportou tanto para os mercados estrangeiros; ao mesmo tempo, nunca recebeu tão pouco pelo que vende”. Ao final dos comentários, a aluna MI destacou a vitória dos africanos e a retirada dos invasores: “Eles ganharam porque os brancos foram embora...houve muita luta e vitória...”. Com esse depoimento, a aluna destacou que não houve passividade dos africanos diante dos dominadores europeus, apesar da escravidão e opressão, eles resistiram bravamente. Essa resistência da Mãe África e o amor da poetisa por ela, segundo à turma, corresponde à principal temática do poema. De acordo com Serrano e Waldman (2008, p. 227), nas lutas pela independência, os exércitos de libertação, “uma vez bem armados, dispondo de treinamento adequado e motivados ideologicamente para enfrentar o aparato 148 colonialista, tornaram insustentável a continuidade do domínio europeu, infligindo-lhe duras derrotas nos campos político e militar”. No momento em que estávamos encerrando a aula, não era nossa pretensão para esse dia solicitar nenhuma atividade escrita, mas alguns alunos estavam comprometidos com a leitura do poema e bastante motivados, não se contentaram apenas em falar, entregaram pequenos comentários, alegando que era para colocarmos na dissertação: Adorei esse poema, percebi que a poetisa ama a África. A África é tudo para ela. Geralmente a África é acolhedora como uma mãe, por isso ela se sente tão bem falando da África. Não me admira isso, pois até eu que não nasci lá, não moro lá e quase não conheço, já estou apaixonada pela África. (EL). Chamar a África de mãe é uma forma de respeito e consideração. É também uma homenagem a todas as mulheres. Ela chama a África de mãe porque ela tem um super significado para ela. É o coração da poetisa. (MI). A África é a sua cultura, a sua mãe guerreira. Depois de várias guerras e conflitos ainda está em pé, com suas características emocionantes, como a dança e alegria que contagia todas as nações. (MS) Ela vê a África como uma guerreira, pois apesar de todos os preconceitos vividos por ela, ela continua alegre e procurando vencer os preconceitos que os outros países tem com ela. (IL). Ela admira a África em todos os aspectos. Seu povo não deixou se abalar e nem perdeu o sorriso do seu rosto apesar das grandes tribulações, como as explorações tanto das pessoas como das riquezas. Ela permaneceu forte em meio às desigualdades, mostrou sua cultura para o mundo, sofrendo e brilhando. É por esses e outros aspectos que a poetisa Noémia de Souza chama a África de Mãe! (Da). A apreensão desse sentimento de valorização da África pelos alunos, seguida da consciência dos problemas e do preconceito vivenciado pelo seu povo, permitenos dizer que houve uma assimilação bastante significativa da experiência transmitida pela poetisa. O que comprova que compreender a África é puramente um exercício crítico. De acordo com Serrano e Waldman (2008), a África, para o imaginário europeu, foi e continua sendo condenada ao papel de espaço periférico da humanidade, além de considerada desprovida de interesse para a civilização, por ser alheia a ela. (p.21). 149 Conforme esses autores, na África atual, independente da frágil legitimidade de muitos Estados africanos, das suas subvalorizadas economias formais e dos seus simulacros de autoridade institucional, os seus povos agarram-se à vida e à esperança, ignorando prognósticos negativos e sobrevivendo à margem de instituições, organismos e poderes que procuram acorrentá-los. Nesse sentido, compreendemos que a desconstrução das imagens negativas do continente é possível através de estudos, conhecimento e compreensão de seus valores culturais. Através da leitura dos poemas, os alunos apresentaram uma nova África, vibrante e esperançosa. Uma África que associa-se também as expectativas de muitos milhões de brasileiros excluídos e privados de segurança social, política e econômica. Portanto, acreditamos que a leitura de poemas africanos de língua portuguesa pode conduzir os alunos para a melhor compreensão do mundo e da sociedade brasileira, contribuindo para a sua transformação rumo a uma sociedade justa e em equilíbrio consigo mesma. É esse o nosso objetivo e a nossa pretensão. 3.11 – AVALIANDO A EXPERIÊNCIA Uma reflexão importante feita a partir da realização dessa experiência referese à constatação de que não basta ter o conhecimento de teorias e correntes críticas se o planejamento do trabalho com a poesia e, por extensão, o texto literário, não levar em consideração o universo de interesses dos alunos. Consideramos fundamental a observação participante que realizamos como preparação para a realização do experimento, bem como o levantamento de informações através de entrevistas e aplicação de questionários que visaram conhecer o horizonte de expectativa dos alunos. Apesar das condições adversas que nos deparamos no momento da observação participante, além da aparente inviabilidade de realizarmos uma experiência em uma turma de 47 alunos matriculados, realidade da escola pública brasileira, nossos alunos receberam positivamente os poemas africanos. Durante as aulas, eles participaram tanto oralmente, como na parte escrita, identificaram nos poemas trabalhados aspectos relevantes da cultura africana, como 150 a presença da oralidade, a posição da mulher, a situação lamentável dos habitantes vítimas do sistema colonial, além de aspectos como a fauna, música e culinária. Por isso, podemos afirmar que todas as ideias compartilhadas por aquela turma favoreceu, e muito, na motivação necessária para o trabalho com as literaturas africanas nas escolas do Brasil, uma vez que possibilitamos o contato com poemas de temáticas diferenciadas, além de estimularmos o interesse e o desejo de conhecer culturas de matriz africana. No encerramento de nosso encontro realizamos uma sondagem para avaliarmos a recepção deles diante das leituras realizadas. Pretendíamos verificar quais eram os poemas mais apreciados e quais os elementos que fizeram com que a turma se identificasse com eles. Para isso, entregamos uma atividade com a seguinte pergunta: Dos poemas lidos em sala de aula, se tivesse que eleger um, qual elegeria? Justifique sua escolha destacando os aspectos que mais chamaram sua atenção no poema selecionado. Nesse dia 05 de abril de 2010, estavam presentes na sala 45 alunos. Dos dez poemas trabalhados, o poema “Namoro” foi o mais citado pela turma, escolhido por 11 alunos, o que correspondeu a 30% da aceitação. O envolvimento deles com esse poema se deu pela presença de elementos como o amor, o desejo e a atração sexual, uma experiência comum muito vivenciada na adolescência. O entusiasmo pela leitura foi intenso, principalmente por proporcionar a chance de discutir um assunto do interesse deles, pois, nas aulas de Língua Portuguesa, não havia espaço para isso. No segundo lugar, 07 alunos, cerca de 19% da turma, justificaram a escolha de mais de uma opção, pois afirmaram ter gostado de todos os poemas e não sabiam quais escolher. O terceiro poema mais citado foi “Essa negra Fulô” escolhido por 6 alunos, 16% da turma. Mesmo abordando a face cruel da escravidão e do preconceito racial, tal poema encantou os alunos por funcionar como uma espécie de poema reflexivo. Segundo a turma, “uma espécie de alerta para termos cuidado com o preconceito racial, procurando eliminá-lo”. Já o poema “Carta dum contratado” ficou em quarto lugar, escolhido por 5 alunos, correspondendo a 13% da turma. Foi nesse poema que alguns alunos identificaram a oralidade, o tema mais predominante na literatura africana que, segundo eles, valorizava a descrição oral dos sentimentos. 151 No quinto lugar, houve empate na escolha de três poemas: “Canção do Mestiço”, “O último adeus dum combatente” e “Monangamba”. Cada um foi escolhido por 4 alunos, cerca de 11% da turma, o que nos mostra que eles não ficaram presos apenas a temas predominantes na adolescência. Mesmo abordando aspectos sociais como o preconceito racial, a guerra e a opressão colonial, esses poemas foram qualificados como “muito importantes”, os quais sensibilizaram alguns alunos que se deixaram tocar pela beleza e pelo aprendizado que eles proporcionaram. Em seguida, no sexto lugar, veio o poema “Negra” escolhido por 3 alunos, 8% da turma, os quais destacaram principalmente o entusiasmo da poetisa pela sua terra Mãe. Em último lugar, ficou o poema “Chuva em Cabo Verde” escolhido por apenas 1 aluno, 3% dos alunos. Os poemas “Serão de Menino” e “Reza, Maria!” não foram contemplados nas escolhas, talvez, porque seus temas fugissem um pouco do cotidiano deles. Esse fato alerta-nos para que os dois poemas, mesmo tratando de temas relevantes, ainda carecem de elementos que possibilitem um maior envolvimento, por isso sempre devemos rever nossas posturas metodológicas. Diante desses dados, podemos constatar que o envolvimento da turma pelos poemas foi satisfatório, pois eles tiveram a oportunidade de discutir e se emocionar diante dos os assuntos tratados. Observemos, no gráfico abaixo, como se configuraram os números de atração pelos poemas: 152 Apesar do pouco tempo de experiência com a leitura de poemas africanos em sala de aula, consideramos bastante positiva e acreditamos ter atingido os objetivos pretendidos. Fato que podemos comparar a partir dos depoimentos abaixo, sobre o valor que eles atribuíam aos momentos de leitura da poesia africana: Os momentos de leitura para mim, foram ótimos porque me incentivaram a acabar com os preconceitos e ser mais objetiva em meus propósitos. Isso tudo me ensinou os dois lados da vida, o qual eu não teria descoberto sem a ajuda dessa aula. Adorei! (MI) Eu gostei muito e estou gostando. Esses poemas não só trazem outra cultura mas abrem as portas para a discriminação sumir. Os poemas são muito bons, os poetas capricharam. (MA) Especial, interessante. Conheci poemas que nunca li. Agora vou querer ler sempre a poesia africana e outros livros. (AL) 153 Eu adorei, foi muito bom é uma experiência que vou levar pra toda vida. (FE) Eu gostei bastante pois me revelaram coisas que eu não sabia sobre os africanos. Foi muito produtivo para mim, são poemas bem elaborados, cheios de vida e emoção. Amei! (DA) É uma forma bem diferente de aprendizado que nos ensina diversas coisas diferentes, de modo que nos ensina também a ver os outros países ou pessoas com outros olhos. (JO) Foram todos muito bons, pois a maioria das pessoas, participaram da interpretação dos poemas e também da leitura. (LI) Muito bons e bem trabalhados, e valeu a pena porque eu conhecia muito pouco e passei a conhecer mais. (MI) Legal, mas ao mesmo tempo estranhos, porque as linguagens são diferentes, os costumes. (DR) Aprendi que à África não tem apenas tristezas, mas tem os seus divertimentos, os momentos de festa e alegria. (RO) Os depoimentos mostraram o quanto a poesia africana ampliou o horizonte de expectativas deles, pois passaram a conhecer uma nova cultura e a valorizá-la, desconstruindo estereótipos e respeitando outras formas culturais que, antes das leituras, consideravam inferiores. Tudo isso ajudou a promover a construção de imagens positivas dos negros e, por consequência, de outras minorias étnicas, mostrando também que a experiência de leitura, segundo Jauss (1994, p. 52), “objetiva libertar o leitor das opressões e dos dilemas de sua vida cotidiana, na medida que o obriga a ter uma nova percepção das coisas”. Dessa forma, o horizonte de expectativas da literatura, conforme ensina Jauss (1994, p.52), além de conservar as experiências vividas, “antecipa possibilidades não concretizadas, expandindo o espaço limitado do comportamento social, rumo a novos desejos, pretensões e objetivos, abrindo assim novos caminhos para a experiência futura”. Quando indagamos sobre a possibilidade de continuação da experiência, solicitamos que sugerissem o que deveríamos mudar nas aulas. Alguns alunos solicitavam a presença de mais materiais, incluindo principalmente o DVD. Já outros acharam que nada deveria ser mudado e expressaram o desejo de continuidade das aulas: 154 Acho que não há nada para mudar. Foi tudo muito maravilhoso. (JO) O nosso comportamento em geral, deixar de conversar e de brincar, eu não faço isso, eles deveriam fazer o mesmo. (MA) Gostaria que trouxessem mais poemas românticos. (BI) Acho que deveria utilizar mais materiais, trazer um DVD para podermos entender melhor. (RU) Nada, para mim está ótimo! Mas é uma pena gostaria que continuasse as aulas, pelo menos não teríamos mais aulas tão chatas de gramática. Obrigada! Felicidades! (AL) Nada, pois foi tudo muito bacana, legal, eu queria ter mais aulas, foi bem Produtivo! (DA) Nada, pois esse mês, aprendi bastante e me interesso muito em saber coisas novas. Eu adoraria continuar com a pesquisa. (LU) Esses e outros depoimentos nos dão a certeza de que os alunos que participaram de todos os encontros foram sensibilizados pela poesia africana. A recepção positiva dos poemas dá a garantia de termos alcançado um dos principais objetivos dessa experiência de leitura: levar os alunos a manterem contato com a poesia de qualidade estética a partir da cultura africana. Certamente ao entrarem em contato com novos poemas ou outros gêneros textuais oriundos dessa cultura, esses adolescentes se lembrarão dessa experiência e já terão condições de realizar uma leitura mais crítica e inovadora, pois, nessa fase da adolescência, acreditamos que o contato com o estético é indispensável. 155 CONCLUSÃO A necessidade de transformar o conhecimento sobre poemas produzidos no continente africano em uma prática de leitura real de sala de aula, com base na força da Lei 10.639/03 e de seus pressupostos de interdisciplinaridade entre história, literatura e educação artística a princípio, foi a grande motivação que norteou a realização desta pesquisa. Na busca de estratégias metodológicas que auxiliassem a efetivação dessa necessidade, percebemos que um trabalho de recepção com poemas africanos de língua portuguesa carece de reflexões sobre alguns elementos externos, a exemplo de teorias sobre a escrita poética africana, contexto de produção e de circulação dos textos estudados em sala de aula. As reflexões que envolvem o contexto sócio cultural africano fez-se necessária, nessa pesquisa, haja visto que mesmo em se tratando de um trabalho com poemas escritos na mesma língua falada no Brasil, há valores culturais presentes nos textos que mobilizam o olhar do leitor, enquanto pesquisador, a buscar, na própria cultura africana, formas de compreensão da realidade representada poeticamente. Esse olhar nas fontes culturais possibilita um diálogo entre a realidade brasileira e a africana, na busca de apontar alguns pontos de similaridades e diferenças. Compreender essa dualidade cultural implica na busca de um aprofundamento nos valores humanos, sugeridos pela implantação da Lei 10.639/03, uma vez que instiga a necessidade de mostrar de uma forma diferenciada o tratamento dado aos negros. Cumpre esclarecer que, no processo de escolha dos poemas africanos de língua portuguesa não pensamos os textos sob uma perspectiva panfletária, mas partimos do princípio que a escrita literária é uma das mais significativas para atender a essa necessidade de re-significação do homem no contexto atual. Ao estruturarmos a dissertação em três capítulos procuramos dar uma ordem que refletisse a leitura literária, a análise de poemas de autores africanos de língua portuguesa e a prática da leitura desses poemas em sala de aula. No primeiro capítulo, intitulado “Algumas perspectivas teóricas sobre a leitura literária, leitura de poesia e poesia negra”, centramos nosso olhar sobre a formação do leitor 156 competente, entendida, no contexto da pesquisa, como aquele capaz de construir sentido para os textos, de modo que a realidade representada no texto interaja com a do próprio leitor, modificando, assim, sua forma de pensar a si mesmo e o mundo. Nessa perspectiva, também, buscamos refletir acerca do modo como a poesia negra africana apresenta-se como uma forma de resistência, não só ao colonialismo, mas a todas as sequelas de apagamento de uma etnia que esse regime provocou. Desse modo, a poesia negra constitui-se uma espécie de veículo de luta e resistência visto que o leitor é instigado a reagir contra alguns estereótipos criados em torno do negro e de sua vivência em sociedade. No segundo capítulo, intitulado “Poesia africana de língua portuguesa: estudo e análise de poemas” buscamos realizar uma leitura interpretativa dos poemas, atentando, sobretudo, para a recorrência de temas e recursos estéticos que conferem a poesia africana um lugar específico nos estudos literários sob uma perspectiva temático-cultural. Dentre os poemas estudados, algumas temáticas universais como a do amor e da infância ganham força expressiva na busca de uma identidade poética. O amor é visto como uma espécie de jogo em que cada um dos participantes se sente desafiado a vivenciar a experiência no exato momento em que ela se apresenta. A infância é vista como uma fase de aprendizado e de aquisição de valores culturais. Para representar esta fase, os poetas se valem de procedimentos da oralidade como uma forma de sugerir tanto o estado pueril da infância quanto o da sabedoria ancestral, visto que é na figura do griot que reside todo o saber mnemônico africano. Com este procedimento, evidencia-se, assim, a concepção sagrada dada ao continente africano, que tem seu reconhecimento representado poeticamente na figura materna do País como a Grande Mãe. No terceiro capítulo intitulado “Interagindo com poemas africanos de língua portuguesa na escola”, ao descrevermos os resultados das atividades realizadas com leitura de poemas em sala de aula, ressaltamos que a teoria precisa de articulação com o trabalho crítico, visto que, para a realização da experiência feznecessário uma leitura analítica dos textos antes de serem levados para o contexto escolar. Na busca de alcançarmos resultados satisfatórios, no tocante á atuação em sala de aula, um aspecto bastante positivo que realizamos foi à observação participante, técnica da pesquisa qualitativa que utilizamos para nos aproximar da turma e conhecer mais de perto sua realidade. Por meio dessa técnica, nos 157 inserimos em diversos espaços da escola, a fim de recolhermos o maior número de informações possíveis acerca dos alunos colaboradores da pesquisa. Dentre estes espaços destacaram-se a 1. sala de aula em que observamos a aula da professora titular e das rápidas conversas informais nos corredores da escola; 2. A biblioteca, visto que as informações colhidas nas fichas de leituras dos alunos nos ajudaram na seleção dos poemas que foram explorados nos encontros. Nesse sentido, compreendemos também, que o fato de nossa pesquisa ter sido baseada em torno das preferências dos alunos facilitou muito a recepção, abrindo caminhos para debates e questionamentos. A partir dessas observações preliminares, acreditávamos que estaríamos conquistando a confiança dos alunos. O trabalho planejado a partir dos interesses dos alunos foi essencial para o bom desempenho do nosso experimento. Essa prática, conforme Pinheiro (2007), é indispensável para a leitura de poesia. Com relação á experiência propriamente dita, apesar de os alunos não estarem acostumados a uma prática de leitura em que a participação deles fosse fundamental, a turma teve a oportunidade de se expressar livremente, expondo suas opiniões, dúvidas e desejos de ver um mundo em que todas as culturas fossem respeitadas pelos seus valores. No campo da língua, da religião, da cultura, da sociedade, da economia e da relação com o meio ambiente, a partir da leitura dos poemas, os alunos perceberam que a África surge como um amplo manancial de esperanças, de criatividade e de releituras acerca dos aspectos mencionados acima. Os resultados comprovam que os poemas selecionados contribuíram para que a turma refletisse que a literatura possibilita novas formas do sujeito pensar acerca de si mesmo e de sua atuação no mundo. Com isso acreditamos que a leitura de textos poéticos africanos de língua portuguesa ampliou o horizonte de expectativa dos alunos visto que, a partir dos depoimentos colhidos durante a leitura dos poemas, uma espécie de consciência política estava sendo formada, pois, o desejo da turma foi o de combater o racismo e os estereótipos em torno do continente africano, através da valorização de seus povos, de sua cultura e do conhecimento de sua literatura. Com relação a nossa atuação pedagógica, diante do aprendizado que adquirimos com a realização desse experimento, restou uma grande lição: é necessário aprender a ouvir mais o nosso aluno, mudar a metodologia e respeitar a indicação de materiais sugeridos pelo próprio discente. Cumpre ressaltar que não 158 basta apenas mudar a metodologia, mas, sim estar disposto a se envolver profissional, pessoal e literariamente, visto que a literatura desperta no leitor não só o conhecimento de expressão de língua ou de uma cultura, mas, sobretudo, o de valor humano. Neste sentido, a lição maior é a de que a demonstração de afeto e respeito pelo potencial do aluno poderá trazer contribuições extraordinárias para quem se aventura a fazer da literatura um objeto de pesquisa (sem o fardo de avaliação quantitativa) em sala de aula. 159 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALA Júnior, Benjamin; PASCHOALIN, Maria Aparecida. História social da literatura portuguesa. 2.ed. São Paulo: Ática, 1985 ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Panorama Histórico da literatura angolana. In: CHAVES, Rita (Org.). Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006 ADORNO, Theodor. Palestra sobre lírica e sociedade. In: Notas de literatura. 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