TEORIA CRÍTICA NA ADMINISTRAÇÃO
ENSAIO
Paulo Roberto Belomo de Souza
Mestrando do curso de Administração da Universidade Estadual de Maringá –
UEM.
Bolsista do Programa Capes.
E-mail: [email protected]
Recebido em: 23/10/2003
Aprovado em: 04/02/2004
Anaís Naomi Kasuya Saldanha
Mestranda do curso de Administração da Universidade Estadual de Maringá – UEM.
Bolsista do Programa Capes.
E-mail: [email protected]
Elisa Yoshie Ichikawa
Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina –
UFSC. Docente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade
Estadual de Maringá – UEM e da Universidade Estadual de Londrina - UEL.
E-mail: [email protected]
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo fazer uma reflexão a respeito da teoria crítica na Administração e nos
estudos organizacionais, apresentando seus principais conceitos e seu enquadramento conceitual. A teoria
crítica aborda basicamente a dominação que determinados grupos exercem sobre outros, dentro ou fora das
organizações. Sua finalidade básica é livrar os “oprimidos” dessa dominação através do esclarecimento e da
auto-reflexão. Inspirada nos escritos de Marx, Nietzsche e Freud, entre outros, a teoria crítica deve à Escola
de Frankfurt a maior parte de seu arcabouço conceitual, destacadamente aos trabalhos de Adorno,
Horkheimer, Marcuse e Habermas. Para a Administração, a teoria crítica pode ser importante para fomentar
decisões que considerem um número maior de critérios, fornecer recursos intelectuais que permitam um
questionamento de tendências totalitárias, etc. Nos estudos organizacionais, a teoria crítica ainda não foi
amplamente explorada e, especialmente no Brasil, os estudos críticos ainda são escassos e limitados a poucos
centros de universitários, apesar de aparentemente promissores.
Palavras-chave: teoria crítica, administração, estudos organizacionais, dominação.
ABSTRACT
Critical theory in administration and organizational studies is reviewed to present the main concepts and
conceptual framework involved. This theory deals with the domination that certain groups exert on others
inside or outside of the organizations. The purpose is to liberate the “oppressed” from this domination by
means of explanation and reflection. Inspired by writings of Marx, Nietzsche, Freud and others, critical
theory derives its conceptual framework from the Frankfurt School stressing the works of Adorno,
Horkheimer, Marcuse and Habermas. For administration, critical theory can be important to foment
decisions that take into account a larger number of criteria so as to provide intellectual means to counter
totalitarian tendencies. Critical theory has not been widely explored in organizational studies, especially in
Brazil, and, although apparently promising, critical studies are still not usual and limited to only a few
academic centers.
Key words: critical theory, administration, organization studies, domination.
Caderno de Pesquisas em Administração, São Paulo, v. 11, nº 3, p. 1-9, julho/setembro 2004
Paulo Roberto Belomo de Souza, Anaís Naomi Kasuya Saldanha e Elisa Yoshie Ichikawa
1. INTRODUÇÃO
Desde a Revolução Industrial (séculos XVII e
XVIII) observa-se no mundo uma grande evolução
tecnológica, econômica e social, baseada nos
pressupostos
modernistas
do
laissez-faire,
compatíveis com a lógica capitalista da acumulação
de riquezas. Ocorre que esse modelo, assim como
fez anteriormente o Feudalismo (HUBERMAN,
1986), acaba favorecendo determinados grupos (os
dominantes) em detrimento de outros (os
dominados). Essa desigualdade, apesar de
freqüentemente maquiada pelas diversas teorias
(sobretudo na teoria organizacional), em um
momento ou outro acaba evidenciando-se.
É bem provável que “todos os períodos históricos
tiveram
seus
equivalentes
tradicionalistas,
modernistas, teóricos críticos e pós-modernistas”
(ALVESSON e DEETZ, 1999: 230). A teoria
crítica e a teoria pós-moderna são diferentes de
outras abordagens nos estudos organizacionais, bem
como diferentes entre si (como será visto mais
adiante). Contudo, é importante destacar que tais
abordagens são relativamente novas nos estudos de
gestão e que os textos dessas duas teorias cruzam
com freqüência fronteiras disciplinares tradicionais,
o que, por um lado, contribui para a relevância
dessas teorias e, por outro, faz com que elas
algumas vezes se apresentem de forma confusa
(ALVESSON e DEETZ, 1999; WOOD JR., 1999).
Muito da atual compreensão da crítica aplicada
aos estudos sociais e organizacionais baseia-se nas
específicas posições ideológicas atribuídas a certos
indivíduos e seus escritos (como os autores da
Escola de Frankfurt, em especial). As propostas
críticas procuram mostrar racionalmente que as
coisas não são como as pessoas as vêem. Elas
oferecem uma nova perspectiva e uma diferente
interpretação para a realidade idealizada e que está
sendo retratada. Considerando que várias
perspectivas teóricas podem ter desenvolvido
teorias críticas em épocas diferentes, pode-se supor
então que as diferentes formas de crítica refletem
diferentes observações e interesses, em diferentes
períodos de tempo (ANTONACOPOULOU, 1999).
O presente trabalho visa fazer uma reflexão sobre
a teoria crítica nos estudos organizacionais. Está
dividido basicamente em quatro partes, além desta
introdução e das considerações finais: surgimento e
discurso da teoria crítica nas organizações;
2
enquadramento conceitual da teoria crítica;
conceitos principais da teoria crítica; teoria crítica e
Administração.
2.
SURGIMENTO E DISCURSO DA
TEORIA CRÍTICA NOS ESTUDOS
ORGANIZACIONAIS
A Teoria Crítica, como corrente filosófica,
consolida-se com a Escola de Frankfurt, que foi
fundada em 1924 por iniciativa de Félix Weil, filho
de um grande negociante de grãos de trigo na
Argentina. Nos estudos organizacionais, a teoria
crítica apareceu bem mais tarde (final da década de
1970 e início da década de 19801), para evidenciar o
conflito que, de uma forma ou de outra, ocorre nas
organizações. A teoria crítica ganhou espaço nos
estudos organizacionais em razão, particularmente,
da desilusão com os pressupostos referidos
genericamente como modernistas. De fato, o ataque
à tradição modernista (baseada no iluminismo) é
central nos estudos críticos (ALVESSON e DEETZ,
1999).
O modernismo surgiu com o propósito de liberar
o mercado da prisão em que estava submetido até o
momento da revolução industrial (HUBERMAN,
1986; RAMOS, 1989). Dessa forma, nos últimos
300 anos a racionalidade funcional tem orientado os
esforços da humanidade para dominar a natureza e
aumentar a capacidade de produção (RAMOS,
1989). Na abordagem modernista, a administração
trabalha na base do controle, da racionalização e da
dominação progressiva das pessoas, sejam elas
trabalhadores, consumidores potenciais ou a
sociedade em geral.
Não é de espantar, assim, que os primeiros
estudos organizacionais, no início do século XX,
estivessem fortemente embasados nas abordagens
modernistas. A racionalização e a burocratização de
Taylor e Weber revelam que a empresa é um local
onde imperaria a lógica moderna e o raciocínio
instrumental. Mesmo as relações humanas e os
recentes estudos sobre cultura apresentam como
objetivo principal o estabelecimento de condições
para uma maior racionalização do trabalho e,
1
WOOD JR. (1999: 267) diz que a teoria crítica surgiu no
início da década de 1960, mas não aponta os estudos, como
fazem Alvesson e Deetz.
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Teoria Crítica na Administração
conseqüentemente, um maior retorno sobre os
investimentos dos acionistas.
Em resposta ao discurso modernista e no intuito
até de recuperar alguns de seus conceitos2, a teoria
crítica é composta por uma ampla gama de
trabalhos que adotam uma posição crítica e radical
em relação à sociedade. Para MARCUSE (1968), a
sociedade moderna é essencialmente totalitária,
reprimindo o comportamento dos indivíduos. Nesse
sentido, MARCUSE (1968) lembrou bem o
princípio de Freud, segundo o qual a história do
homem é a história de sua própria repressão, pois,
se os homens tivessem liberdade para buscar seus
objetivos individuais, seus instintos básicos seriam
incompatíveis com toda associação e preservação
duradouras. Sendo assim, a mesma cultura que
coage o homem é condição necessária para seu
progresso.
Para MARCUSE (1968), as organizações têm um
papel central e essencialmente repressor na
sociedade. Elas (organizações) são representações
micro da macroestrutura da sociedade e local onde a
repressão do princípio do prazer pelo princípio de
realidade3 se dá de forma mais completa. Ou seja, é
na organização que o trabalho alienado seria, em
mais alto grau, explorado em nome da racionalidade
do sistema.
Na mesma linha de pensamento, FOUCAULT
(1979) afirmava que todas as organizações se
assemelham a prisões, visto que reduzem as pessoas
ao cargo que elas ocupam. Mais recentemente,
MORGAN (1996), em um capítulo de seu livro
Imagens da Organização, mostra como ao longo da
história as organizações têm sido associadas a
processos de dominação social nos quais indivíduos
2
É importante frisar que, para RAMOS (1989: 9), por exemplo,
o que ocorre na teoria crítica da escola de Frankfurt é uma
retomada dos pressupostos marxistas e uma aversão aos
pressupostos iluministas. Ocorre que alguns conceitos de Marx
(como o de razão) estão relacionados ao iluminismo, “na
medida em que ele acreditava que o processo histórico das
forças de produção é racional em si mesmo e, portanto,
emancipatório” (RAMOS, 1989: 9). Contudo, tais conceitos
marxistas são, para RAMOS (1989), também refutados pela
escola de Frankfurt.
3
De forma simplificada, pode-se dizer, segundo DRAGO
(1992), que o princípio do prazer prega a luta para a obtenção
unicamente do prazer individual e o princípio de realidade
corresponde à renúncia a esse prazer momentâneo e incerto, e
sua substituição pelo prazer adiado, restringido, mas garantido.
ou grupos encontram formas de impor a própria
vontade aos outros. As pirâmides do Egito, segundo
MORGAN (1996), representam metáforas da
exploração humana, simbolizando como as vidas e
o trabalho pesado de milhares de pessoas foram
usados para servir e glorificar uns poucos
privilegiados. Assim, em vários casos reais, desde a
construção das pirâmides até as empresas
familiares, é possível encontrar a dominação.
Historicamente, os grupos dominantes sempre
procuraram narrativas que fossem facilmente
compradas pelos grupos dominados, pois a
ideologia dominante era feita para consumo geral,
apresentando justificativas plausíveis para a
existência de dominantes e dominados (BURRELL,
1999). Assim, no decorrer da história as sociedades
criaram mecanismos institucionais para que os
governantes (em geral ligados ao grupo dominante)
pudessem tomar (e fazer aceitar) decisões sobre as
ações coletivas. Dessa forma, a população foi sendo
disciplinada a aceitar decisões sociais, mesmo que
algumas delas frustrassem claramente seus desejos e
preferências imediatos, bastando para isso que tais
decisões fossem reconhecidas como legítimas. Para
GEUSS (1988), as pessoas consideram as decisões
legítimas se:
a) elas as admitem como “formalmente” ou
“processualmente” corretas, isto é, elas aceitam
que as instituições que tomam decisões básicas
atuam de seu modo costumeiro, de acordo com
suas regras de procedimento, admitidas para
gerar essas decisões;
b) elas aceitam que as instituições que tomam
decisões básicas (e as regras sobre as quais elas
operam) são legítimas.
Sendo assim, uma instituição (organização) ou
prática social pode ser extremamente repressiva –
ela pode bloquear ou frustrar as pessoas na busca de
seus mais fortes desejos – e mesmo assim ser aceita
pelos membros de uma sociedade (organização),
pois eles a consideram legítima. E eles a vêem
como legítima por causa de certas convicções
normativas que já estão histórica e profundamente
arraigadas em sua visão de mundo.
Assim sendo, os principais teóricos da Escola de
Frankfurt – Adorno, Horkheimer, Marcuse e
Habermas – sugerem que, na sociedade moderna, a
racionalidade se transformou em um instrumento
disfarçado de perpetuação da repressão social, ao
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3
Paulo Roberto Belomo de Souza, Anaís Naomi Kasuya Saldanha e Elisa Yoshie Ichikawa
invés de em razão verdadeira – que liberta. “Esses
autores pretendem restabelecer o papel da razão
como uma categoria ética e, portanto, como
elemento de referência para uma teoria crítica da
sociedade” (RAMOS, 1989: 8). A teoria crítica tem
como interesse principal a emancipação do homem
por meio da conscientização e da auto-reflexão.
Com a auto-reflexão, as pessoas podem perceber
que sua consciência é ideologicamente falsa e que a
coerção que sofrem é auto-imposta – pelas próprias
pessoas que a sofrem. Uma vez percebido isso, a
coerção perde seu poder e os agentes podem se
tornar emancipados.
3.
ENQUADRAMENTO CONCEITUAL DA
TEORIA CRÍTICA
Para ajudar no esclarecimento dos pressupostos
que orientam a teoria crítica, ALVESSON e
DEETZ (1999) afirmam que ela se enquadra, não
sem alguma confusão4 conceitual, ao paradigma do
humanismo radical de BURRELL e MORGAN
(1979). O humanismo radical é um dos quatro
paradigmas (veja a Figura 1) que se formam a partir
da sobreposição de duas dimensões diferentes – a
sociologia da regulação-sociologia da mudança
radical e o ponto de vista subjetivo-ponto de vista
objetivo –, constituindo uma matriz 2x2.
Nessa tipologia, o paradigma Humanismo
Radical caracteriza-se por adotar a sociologia da
mudança radical e o ponto de vista subjetivo. As
abordagens das ciências sociais são, nesse
paradigma, as seguintes: nominalista, voluntarista,
antipositivista e ideográfica5. O idealismo alemão, a
noção kantiana de que a realidade fundamental do
universo é mais racional que material e também as
idéias da filosofia social radical de Marx
influenciaram fortemente o Humanismo Radical
(esses são alguns dos estudos que originaram a
teoria crítica, como será mostrado a seguir).
4
A confusão conceitual surge porque os autores não
consideram adequada a dimensão objetivo/subjetivo e propõem
que ela seja substituída por outra, que chamam de local
(emergente)/elite (a priori) (ALVESSON e DEETZ, 1999).
Para DRAGO (1992: 59), uma das idéias centrais
do Humanismo Radical (e da teoria crítica) é a de
que o homem é dominado por uma “superestrutura
ideológica” à qual está fortemente ligado e que
impede a relação dele com sua própria consciência.
Sendo assim, o pleno desenvolvimento do homem é
prejudicado por sua alienação. O Humanismo
Radical, como mostra Drago, revela a existência de
uma sociedade anti-humana, da qual o ser humano
precisa se libertar. Assim sendo, o Humanismo
Radical enfatiza temas como a mudança radical,
formas de dominação, emancipação, contradição,
privação e potencialidade.
É importante destacar que, para BURRELL e
MORGAN (1979), um paradigma é uma forma de
ver e estudar o mundo compartilhada por um grupo
de pessoas (em geral cientistas) que vivem em uma
comunidade marcada por uma linguagem conceitual
comum, que buscam um edifício conceitual comum
e que possuem uma postura muito defensiva em
relação aos de fora do grupo.
As fontes de inspiração da teoria crítica não são
tão diversas quanto as pós-modernistas, mas tanto
aquelas quanto estas, segundo ALVESSON e
DEETZ (1999), buscam sua essência basicamente
em quatro desenvolvimentos específicos do
pensamento ocidental, que são: a relação
poder/conhecimento (embasada em Nietzsche); o
construcionismo não dualista, segundo o qual a
experiência e a linguagem são fundamentais para o
conhecimento (tal como propõe a fenomenologia de
Husserl6); a teoria do conflito social da luta de
classes (historicamente embasada em Marx); o ser
humano complexo (proveniente de Freud). A
diferença entre a teoria crítica e outras teorias, em
especial o pós-modernismo, a ela muito semelhante,
é a forma pela qual os autores combinam e reagem a
esses desenvolvimentos.
Os pós-modernistas, por exemplo, rejeitam a
reflexão e o consenso iluminista por considerar que
estes não farão outra coisa senão substituir uma elite
por outra. A teoria crítica afirma que sem reflexão e
consenso não há política e nem alternativas
construtivas. Os pós-modernistas se opõem a isso
5
Nominalista: não aceita a existência da realidade independente
da observação humana; antipositivista: a ciência não pode gerar
conhecimento objetivo, indissociável das pessoas; voluntarista:
o homem é completamente livre e autônomo, criador do meio e
não o contrário; ideográfico: o conhecimento só pode surgir se
pessoalmente experimentado (BURRELL e MORGAN, 1979).
4
6
É importante destacar que, para HABERMAS (1980), o
conhecimento crítico deveria investir contra a aparência da
teoria pura pregada, tal como propõe a fenomenologia de
Husserl, no sentido de buscar a relação existente entre o
conhecimento e uma efetiva ação de libertação.
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Teoria Crítica na Administração
dizendo que as políticas são necessidades locais e a
responsabilidade é mais importante do que qualquer
planejamento sistemático. Os teóricos críticos
afirmam que as políticas locais são muito fracas
para combater dominações de amplitude global
como a pobreza. Os pós-modernistas afirmam que a
luta organizada contra a dominação somente
proporciona suas próprias formas de dominação. A
teoria crítica prega a ação e que ela seja planejada.
Já o pós-modernismo propõe uma orientação mais
subjetiva e natural para a ação (ALVESSON e
DEETZ, 1999).
Figura 1: Os quatro paradigmas sociológicos de Burrell e Morgan
Sociologia da Mudança Radical
Humanismo Radical
Estruturalismo Radical
Teoria
Social
Russa
Fenomenologia
Objetivo
Subjetivo
Teoria
Crítica
A maior parte das teorias
da Administração
Sociologia Interpretativa
Sociologia Funcionalista
Sociologia da Regulagem
Fonte: Adaptado de BURRELL e MORGAN (1979).
4.
PRINCIPAIS CONCEITOS DA TEORIA
CRÍTICA
Dentre os estudos críticos, dois tipos principais
podem ser encontrados: a crítica ideológica e a ação
comunicativa. A crítica ideológica é mais antiga e
tem sua inspiração inicial nos trabalhos de Marx.
Trata-se de uma crítica voltada para as práticas de
exploração econômica por meio de coerção e para
as diferenças estruturais entre os donos do capital e
os donos do trabalho. A “dominação e a exploração
por proprietários e depois por gerentes tem sido
central para a crítica ideológica do local de trabalho
neste século pelos teóricos organizacionais de
inspiração marxista” (ALVESSON e DEETZ, 1999:
239).
A ideologia é produzida em diversos lugares,
como no trabalho, na escola e na mídia. O
crescimento da cultura do consumidor e o Estado do
bem-estar social (welfare state) até o final da
década de 1980 demonstraram o fracasso dos
trabalhadores em agir conforme seus próprios
interesses e contra a ideologia opressora. Nesse
sentido, é válido acrescentar que aqueles que
estudam Administração são vistos freqüentemente
como ideólogos que servem aos grupos dominante.
Essas pessoas, para os teóricos críticos, são
responsáveis pelo fornecimento do arcabouço
teórico e lingüístico necessário ao controle social no
interior das organizações.
Na
perspectiva
da
crítica
ideológica,
ALVESSON e DEETZ (1999) afirmam que quatro
são
os
temas
recorrentes
nos
escritos
organizacionais: a naturalização da ordem social, a
universalização dos interesses administrativos e a
supressão dos interesses conflitantes, o domínio
através da racionalidade instrumental e a hegemonia
e o modo pelo qual o consentimento é controlado. O
tema da naturalização faz referência à reificação das
organizações sociais, processo em que elas são
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5
Paulo Roberto Belomo de Souza, Anaís Naomi Kasuya Saldanha e Elisa Yoshie Ichikawa
consideradas como entidades fixas e concretas,
desconsiderando-se sua formação muitas vezes
conflituosa. Em resposta a isso, a crítica ideológica
recupera as organizações como construções
histórico-sociais que sofrem influência de
acontecimentos internos e externos a ela.
O tema da universalização dos interesses
considera que os interesses são freqüentemente
universalizados e tratados como se fossem de todos.
Os interesses conflitantes devem então ser
suprimidos. O interesse da organização pode, com
muita freqüência, ser igualado ao interesse
específico das gerências7, e ambos, em geral, estão
relacionados diretamente com o desempenho
financeiro da organização. Os estudos críticos
analisam como a articulação dos interesses é
distorcida e também como a produtividade, o
consumo e a busca pelo dinheiro suprimem valores
tais como a autonomia, a criatividade e o prazer.
O tema da primazia da racionalidade instrumental
(técnica) refere-se ao fato de que a compreensão e
determinação dos interesses (objetivos, fins) são
restritas a poucas pessoas, enquanto a maior parte
dos indivíduos da organização realiza suas
atividades alienada desses interesses. Este tema é
apresentado inicialmente por Habermas, que
contrapõe à racionalidade técnica a racionalidade
prática, a qual envolve o processo de compreensão
ampla, e por todas as pessoas, dos fins a serem
alcançados, com uma clara tendência à ação (no
sentido de as pessoas buscarem seus objetivos). O
tema da hegemonia diz respeito ao fato de que os
arranjos organizacionais favorecem sempre os
grupos dominantes na sua relação com os grupos
dominados, apesar de reconhecer que mesmo os
dominados têm algum tipo de poder. Teóricos
críticos mostraram que as estratégias de controle
por parte da gerência raramente atingem sucesso
total, pois sempre existe algum tipo de resistência e
diversidade cultural.
7
COVRE (1989) refere-se também ao fato de que as escolhas
dos elementos para os postos de cúpula, aqueles relacionados
aos interesses da corporação no nível macroestrutural, dão-se
de acordo com a aproximação dos elementos com o capital.
Mesmo assim, conforme a mesma autora, não sendo donos do
capital, os gerentes não passam de assalariados de alto nível
servindo ao capital, ou uma forma mais bem acabada de
exploração e maximização de lucros por aqueles que detêm o
capital.
6
Ao lado da crítica ideológica, a ação
comunicativa também se destacou como uma das
principais linhas dos estudos críticos. Ela foi
desenvolvida principalmente por Habermas, a partir
do final dos anos 1970, e tem reduzido o significado
da crítica ideológica tradicional, ao mesmo tempo
em que busca construir uma filosofia sistemática
que tem como eixo mais importante a teoria e a
prática da comunicação. Para HABERMAS (1989),
a ação comunicativa é uma forma de criar
convicções comuns, orientadas para um mesmo
objetivo definido por todos previamente. Para o
autor, o que não deve ocorrer é o favorecimento de
um grupo em particular. Nessa concepção, os
entendimentos seriam alcançados por meio da
comunicação, ao invés de o serem por imperativos
provindos do dinheiro, do poder formal ou da
reprodução não reflexiva dos valores culturais.
A
comunicação
não
distorcida,
para
HABERMAS (1989), proporciona a base para a
mais alta forma de racionalidade, denominada
racionalidade comunicativa. Com a racionalidade
comunicativa, não é o poder, o prestígio, a
ideologia, a manipulação ou qualquer outra forma
repressiva que fornecem as bases para as decisões.
A tomada de decisão passa a ser baseada no
argumento que provém de um foro aberto, onde
todos os envolvidos participariam. Isso é
proporcionado pela situação ideal de fala, que
ocorre quando a estrutura de comunicação não sofre
nenhum constrangimento. Ou seja, como afirmam
FARIA e MENEGHETTI (2000), não deve haver a
tentativa de limitar aqueles que estão na ação
comunicativa, uma vez que o objetivo principal é o
consenso, que favorece a maioria.
É evidente que essa ausência de constrangimento
só seria possível se todas as pessoas de uma
organização tivessem chances iguais de aplicar a
ação comunicativa. Ocorre que, de maneira geral,
nas organizações “as palavras não podem ser ditas à
revelia; devem seguir um padrão lógico e coerente
com as intenções de cunho político, econômico ou
ideológico das elites organizacionais”, ou seja, não
podem “questionar a validade das relações de poder
estabelecidas e aceitas entre as camadas sociais
definidas e reproduzidas no contexto social
organizacional” (FARIA e MENEGHETTI, 2000:
6). Em outras palavras, não há quase espaço para a
racionalidade prática.
Caderno de Pesquisas em Administração, São Paulo, v. 11, nº 3, p. 1-9, julho/setembro 2004
Teoria Crítica na Administração
5.
TEORIA CRÍTICA E ADMINISTRAÇÃO
Na ausência da racionalidade prática de
Habermas, ocorrem na organização, em virtude da
racionalidade instrumental, vários tipos de
problemas, tais como: condições de trabalho
constrangidas
e
subordinadas
a
valores
instrumentais; reforço das relações assimétricas,
principalmente
entre
especialistas
e
não
especialistas; preconceito sexual; amplo controle
sobre o intelecto do empregado; controle de longo
alcance através de meios de comunicação em massa
e lobbies; destruição do meio natural em razão do
desperdício e da poluição (ALVESSON e DEETZ,
1999).
O conflito entre a remoção da repressão
enfatizada pela racionalidade prática e a
maximização da produção enfatizada pela
racionalidade instrumental é tratado como
naturalmente evitável, por meio de “métodos
gerenciais otimizantes, tais como enriquecimento do
cargo”, o Ciclo de Controle de Qualidade (CCQ) e o
Total Quality Management (TQM). Dessa forma, os
assuntos políticos são simplificados e transformados
em questões técnicas. Partindo-se de uma
perspectiva de comunicação, as organizações
podem ser avaliadas por sua proximidade com o
dogma (comunicação fechada) ou com o diálogo
(comunicação aberta); como visto, na visão da
teoria crítica ocorre mais freqüentemente o
predomínio do dogma sobre o diálogo
(ALVESSON e DEETZ, 1999: 246-247).
Nos estudos organizacionais, especificamente, a
finalidade da teoria crítica é o reconhecimento da
repressão e a criação de locais de trabalho livres de
qualquer tipo de dominação, e nos quais seus
membros tenham oportunidades iguais. Além disso,
essa teoria defende que os arranjos organizacionais
venham ao encontro das necessidades humanas e
conduzam ao desenvolvimento progressivo da
sociedade como um todo e não simplesmente de
uma elite. Os teóricos críticos, com freqüência,
voltam seus estudos para a defesa de grupos
específicos considerados socialmente oprimidos,
como mulheres, negros e pobres.
Com a teoria crítica, surgiram também metáforas
úteis à s organizações, tais como: organização como
tecnocracia, mistificação, entorpecimento cultural e
poder colonizador. Essas metáforas chamam a
atenção para como a passividade dos trabalhadores
é ocasionada pela competência gerencial, como as
ambigüidades e contradições são mascaradas e
como o dinheiro e o poder formal exercem
hegemonia sobre os demais aspectos do ambiente
de trabalho.
Dessa forma, a teoria crítica não é antiadministração. Ela somente revela que a
administração é um instrumento de dominação que
serve (e historicamente serviu) à classe dominante.
RAMOS (1983: 47), nesse sentido, diz que a ação
administrativa (na maioria das organizações) “é
modalidade de ação social, dotada de racionalidade
funcional8, e que supõe estejam seus agentes,
enquanto exercem, sob a vigência predominante da
ética da responsabilidade”9. Portanto, a teoria crítica
é importante para as práticas administrativas
porque, por exemplo, fomenta a reflexão sobre a
escolha da carreira, fornece recursos intelectuais
para o questionamento das tendências totalitárias e
estimula uma tomada de decisão que leve em conta
um número maior de critérios.
Adotando uma perspectiva crítica, a teoria
organizacional teria como preocupação central “o
trabalho herético nas e das organizações” nas quais
a racionalidade funcional predomina (DRAGO,
1992: 64). Assim, os conceitos da teoria crítica
tenderiam a transformar gradativamente essas
organizações funcionais naquilo que RAMOS
(1983) chama de organizações normativas –
organizações com máximo grau de consenso e de
ética de valor absoluto: organizações da sociedade
civil, algumas cooperativas, a maior parte das
organizações não-governamentais, entre outras. É
evidente que essas organizações também precisam
de administradores com conhecimentos gerenciais
que garantam sua sobrevivência. De qualquer
8
Para RAMOS (1983), a Racionalidade Funcional é aquela
relacionada a um fim preestabelecido por um ou poucos
indivíduos, que pode possuir efeito paralisador sobre a
capacidade média de apreciação e entendimento das demais
pessoas, individualmente. E esse fim não é necessariamente
coincidente com os objetivos de todas as pessoas envolvidas. O
oposto da racionalidade funcional é a Racionalidade
Substancial (ou substantiva), que diz respeito à conduta livre e
individual das pessoas, resguardando sua liberdade.
9
A ética da responsabilidade é aquela que valida socialmente as
atitudes individuais voltadas para os fins da organização. Seu
oposto é a ética do valor absoluto ou da convicção, que é
vinculada a valores pessoais, com forte carga emocional e não
relacionada exclusivamente aos fins (de outrem) (RAMOS,
1983).
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7
Paulo Roberto Belomo de Souza, Anaís Naomi Kasuya Saldanha e Elisa Yoshie Ichikawa
forma, mesmo que num contexto mais participativo,
tem-se que é possível e até necessária a existência
de administradores em organizações regidas por
princípios mais próximos aos da teoria crítica, sem
que para isso eles deixem de ser administradores.
6.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A crítica é o ponto central nos esforços para
entender o fenômeno organizacional, motivando a
percepção da falsa realidade e o entendimento da
natureza humana em sua total complexidade.
Contudo, a compreensão da crítica dentro da teoria
crítica é de fundamental importância para que a
crítica continue fazendo diferença no fenômeno
organizacional estudado. A crítica é a arte de
pensar, porque faz as pessoas questionarem a
realidade, que lhes é apresentada de uma
determinada
maneira
e
não
de
outra
(ANTONACOPOULOU, 1999).
É importante destacar, nesse sentido, que a teoria
crítica tenderá a se tornar facilmente não reflexiva
em relação ao elitismo cultural e à s condições
modernas de poder se não considerar, em alguma
medida, alguns temas pós-modernos. Contudo, sua
influência no sentido de fornecer uma orientação e
relevância social a outras teorias, tal como o próprio
pós-modernismo, eleva-a a uma posição singular
dentro das Ciências Sociais. A teoria crítica vê as
organizações e as teorias sociais como dependentes
(e isto de forma crescente) da razão instrumental,
que privilegia os meios em detrimento dos fins e
ajuda os grupos dominantes a alcançarem seus
objetivos egoístas de forma invisível, por meio da
alienação dos grupos dominados.
A teoria crítica e, em especial, a Escola de
Frankfurt, na visão de RAMOS (1989), têm o
mérito de retomar e rever alguns dos conceitos de
Marx,
sobretudo
aqueles
referentes
ao
desenvolvimento das forças produtoras e suas
conseqüências para a racionalização da sociedade.
Os teóricos da Escola de Frankfurt revelam os
problemas ocasionados pela transferência da razão
do indivíduo para a sociedade (o que gera os mais
diferentes tipos de dominação) e também como as
forças produtoras modelam, nas sociedades
industriais, toda a vida humana. Contudo, à exceção
de Habermas (ainda que de forma incipiente), a
Escola de Frankfurt, na visão de Guerreiro Ramos,
8
deixa de elaborar as soluções efetivas para os males
teóricos e sociais que critica.
Talvez a maior crítica à teoria crítica seja a
escassez de estudos empíricos. É de destacar,
contudo que, segundo ALVESSON e DEETZ
(1999), muitas pesquisas empíricas têm sido feitas
recentemente tendo como referência a teoria crítica.
A teoria crítica não é tão nova, como sugere WOOD
JR. (1999: 267) com a metáfora das “Frutas
Maduras”, mas especialmente nos estudos
organizacionais, a exemplo de algumas modernas
teorias, ela carece de maior discussão para se
consolidar.
Especificamente no Brasil, justamente em razão
do fato de o funcionalismo haver fincado aqui raízes
profundas, a teoria crítica não se desenvolveu, mas
se mostra muito promissora no âmbito
organizacional. Contudo, segundo WOOD JR.
(1999), os estudos nessa área são escassos, restritos
à Universidade Federal da Bahia, à Escola de
Administração de Empresas de São Paulo e à Escola
Brasileira de Administração Pública, ambas da
Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV e
EBAP/FGV). A esses centros destacados por
WOOD JR., poderia também ser acrescentada a
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP), que serviu de reduto de intelectuais com
tendências de esquerda durante a ditadura militar.
Mesmo com a escassez de trabalhos, a
importância da teoria crítica é evidente porque ela
proporciona caminhos únicos e importantes para a
compreensão da sociedade, da Administração e das
organizações. Diferentemente de outras teorias, ela
busca genuinamente garantir o bem-estar dos
grupos social e historicamente inferiorizados. Cabe
ressaltar, contudo, que essa garantia não deve
prescindir da reflexão, para que a sociedade não
assista somente a uma troca de controle do poder e
nem continue sendo subjugada em sua maior parte.
7.
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