A MADEIRA E O
MERCADO DO AÇÚCAR
Séculos XV- XVI
ALBERTO VIEIRA
FUNCHAL-MADEIRA
EMAIL:[email protected]
http://www.madeira-edu.pt/ceha/
“…Vales todos cheios de açúcar que aspergiam muito pelo mundo”
[Gomes Eanes de Zurara, Crónica de Guiné, Cap. II]
A cana-de-açúcar está indissociavelmente ligada à afirmação do espaço atlântico a partir do século XV1. A rota
do açúcar, na transmigração do Mediterrâneo para o Atlântico, tem na Madeira a principal escala. Foi na ilha
que a planta se adaptou ao novo eco sistema e deu mostras da elevada qualidade e rendibilidade. Deste modo a
quem quer que seja que se abalance a uma descoberta dos canaviais e do açúcar na vetusta origem no século
XV, tem obrigatoriamente que passar pela ilha.
A Madeira manteve uma posição relevante, por ter sido a primeira área do espaço atlântico a receber a
nova cultura. E por isso mesmo foi aqui que se definiram os primeiros contornos desta realidade, que teve
plena afirmação nas Antilhas e Brasil. Foi na Madeira que a cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlântica. Aqui
surgiram os primeiros contornos sociais (a escravatura), técnicos (engenho de água) e político-económicos
(trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar. Por tudo isto torna-se imprescindível uma análise
da situação madeirense, caso estejamos interessados em definir, exaustivamente, a civilização do açúcar no
mundo atlântico.
O século XV foi assim um momento importante no processo de transmutação do mercado do açúcar. O
Centro de divergência das rotas transferiu-se do Mediterrâeno para o Atlântico. A Madeira ensaiou com
sucesso a cultura, que passou a fazer-se de uma forma intensiva, levando à elevada disponibilidade do produto.
Este facto chamou a atenção dos agentes e capitalismo europeu, que se lançou no assalto à ilha e aos novos
mercados que se sucederam2.
1 . Segundo Vitorino Magalhães Godinho [Mito e mercadoria, Utopia e prática de navegar. Séculos XIII-XVIII, Lisboa, Difel, 1990, p.478] “A génese do mundo
atlântico está pois, em grande parte, ligada àquilo a que Fernand Braudel chama muito apropriadamente as dinâmica do açúcar.”. A referência tem a ver com o livro O
Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na époda de Filipe II, Lisboa, 2 vols, 1983
2 . Afirma: “devastadora do antigo equilíbrio, a cana é tantao mais perigosa quanto é apoiada por um capitalismo poderoso, que, no século XVI, provém tanto de Itália,
como de Lisboa ou de Antuérpia, e ao qual ninguém consegue resistir”[ F. Braudel, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Filipe II, Lisboa, 1983, vol. I,
1
O COMÉRCIO ATLÂNTICO E O AÇÚCAR.
O desenvolvimento sócio-económico do mundo insular articula-se de modo directo, com as solicitações de
economia euro-atlântica: primeiro as regiões periféricas do centro de negócios europeus ajustaram o seu
desenvolvimento económico às necessidades do mercado europeu e às carências alimentares europeias, depois,
mercado consumidor das manufacturas de produção continental em condições vantajosas de troca para o velho
continente e, finalmente, intervém como intermediário nas ligações entre o Novo e Velho Mundo. Note-se que,
a partir de princípios do século XVI, 0 Mediterrâneo Atlântico define-se como centro de contacto e apoio ao
comércio africano, Índico e americano.
A tudo isto acresce que os interesses da burguesia e aristocracia dirigente peninsular se cruzam no
processo de ocupação e valorização económica das novas sociedades e economias insulares. Esta componente
peninsular é reforçada com a participação da burguesia mediterrânica, atraída por novos mercados e pela fácil
e rápida expansão dos seus negócios. Por isso, um grupo de italianos, mais ou menos ligados às grandes
sociedades comerciais mediterrânicas, participa activamente no processo de reconhecimento, conquista e
ocupação do novo espaço atlântico. Com efeito, eles interessaram-se pela conquista do arquipélago canário,
expedições portuguesas de exploração geográfica e o comércio ao longo da costa ocidental africana. A sua
penetração no mundo insular ficou assim facilitada o que os levou a alcançar uma posição muito importante na
sociedade e economia insulares. O investimento de capital de origem mercantil, nacional ou estrangeiro surgiu
apenas numa óptica da nova economia, afirmando-se como gerador de novas riquezas adequadas a um
aproveitamento comercial. Assim, o comércio foi o denominador comum para os produtos a introduzir, sendo
valorizados aqueles activadores da nova economia de mercado. Aqui, a cana-de-açúcar e o cobiçado produto
final, o açúcar, detém uma posição cimeira.
A Madeira foi no começo o mais importante entreposto. Os descobrimentos aliam-se ao comércio e,
por isso, desde meados do século XV, manteve-se um trato assíduo com o reino, activado com as madeiras,
urzela, trigo e, depois, com o açúcar e o vinho. Este movimento alargou-se às cidades nórdicas e
mediterrânicas, com o aparecimento de estrangeiros interessados no comércio do açúcar. O arquipélago
canário, tardiamente associado ao domínio europeu, manteve desde o século XVI um activo comércio com a
Península. Neste tráfico intervêm os peninsulares e italianos. Após a conquista, castelhanos, portugueses e
italianos repartem entre si o comércio das ilhas. Os flamengos e ingleses, que delinearão as rotas de ligação ao
mercado nórdico, surgem num segundo momento. Múltiplas descrições, de finais do século XVI, evidenciam a
posição dominante das Ilhas de Tenerife e Gran Canaria na economia do arquipélago.
O regime do comércio do açúcar madeirense nos séculos XV e XVI, segundo opinião de Vitorino
Magalhães Godinho, “vai oscilar entre a liberdade fortemente restringida pela intervenção quer da coroa quer
dos poderosos grupos capitalistas, de um lado, e o monopólio global, primeiro, posteriormente um conjunto de
monopólio cada qual em relação com uma escápula de outra banda”. Deste modo o comércio apenas se
manteve em regime livre até 1469, altura em que a baixa do preço veio condicionar a intervenção do senhorio,
que estipulou o seu exclusivo aos mercadores de Lisboa. Ao madeirense, habituado a negociar com os
estrangeiros, isto não agradou. Mesmo assim o Infante D. Fernando decidiu em 1471 estabelecer o monopólio
a uma companhia formada por Vicente Gil, Álvaro Esteves, Baptista Lomelim, Francisco Calvo e Martim
Anes Boa Viagem. Desta decisão resultou um aceso conflito entre a vereação e os referidos contratadores.
Passados vinte e um anos a ilha debatia-se ainda com uma conjuntura difícil no comércio açucareiro, pelo que
a coroa retomou em 1488 e 1495 a pretensão do monopólio, mas apenas conseguiu impor um conjunto de
medidas regulamentadoras da cultura, safra e comércio, que ocorrem em 1490 e 1496. Esta política, definida
no sentido da defesa do rendimento do açúcar, irá saldar-se mais uma vez num fracasso, pelo que em 1498 foi
tentada uma nova solução, com o estabelecimento de um contingente de cento e vinte mil arrobas para
p.178]
2
exportação, distribuídas por diversas escápulas europeias.
Estabilizada a produção e definidos os mercados do açúcar, a economia madeirense não necessitava de
tão rigorosa regulamentação, pelo que em 1499 o monarca acabou com algumas das prerrogativas estipuladas
no ano anterior, mantendo-se, no entanto, até 1508 o regime de contrato para a sua venda, pois só nesta data
foi revogada toda a legislação anterior, ficando o seu trato em regime de total liberdade. Assim o definiu o
foral da capitania do Funchal, em 1515, ao enunciar que “Os ditos açúcares se poderão carregar para o Levante
e Poente e pera todas outras partes que os mercadores e pessoas que os carregarem aprouver sem lhe isso ser
posto embargo algum”.
Nas Canárias depara-se-nos uma situação diferente, pois o comércio do açúcar fundamenta-se numa
política de abertura a todos os mercados e agentes. Apenas é de notar as restrições impostas pela conjuntura de
afrontamento político e religioso, que tem incidência particular no movimento com a Flandres e a Inglaterra,
no último quartel do século XVI. As condições especiais em que sucedeu o processo de conquista favoreceram
a abertura a todos os intervenientes interessados e, por consequência, facilitou o relacionamento das ilhas com
as cidades italianas e flamengas.
OS PREÇOS DO AÇÚCAR.
Não é fácil estabelecer com clareza a evolução dos preços do açúcar no mercado insular porque não existem
núcleos documentais que permitam a reconstituição de séries. Os dados disponíveis são avulsos e desconexos.
Se no caso da Madeira foi possível reunir o maior número de informações para a década de trinta do século
XVI, nas Canárias a situação é igual na Ilha de Tenerife. Além disso dever-se-ão juntar outras condicionantes
que influem de forma decisiva nos preços. Em primeiro lugar está a falta crónica de moeda nas ilhas e o
recurso ao açúcar como meio de troca, a que se associa nos séculos XV e XVI a sua insistente desvalorização.
O açúcar, como moeda de troca, é uma realidade quer na Madeira, quer nas Canárias, mas foi neste último
arquipélago que adquiriu melhor expressão3.
É necessário ter ainda em conta que a lei da oferta e da procura condicionava de forma evidente a
evolução do preço do açúcar ao longo do ano. Deste modo, é de notar uma variação mensal de acordo com o
período da safra do açúcar e da presença de embarcações interessadas no seu trato4. Daqui resulta que os
preços mais elevados surjam nos meses de Junho e Julho, precisamente no momento em que se disponibilizava
o primeiro açúcar do ano e, por isso, a afluência de mercadores era maior.
PREÇO MÉDIO MENSAL DA ARROBA DE AÇÚCAR BRANCO NA MADEIRA
JAN
FEV
MA
R
ABR
MAI
JUN
JUL
AGO
SET
OUT
NOV
DEZ
1508
-
-
315
-
320
320
290
-
283
286
501
305
1524
450
500
500
-
500
515
535
560
650
-
-
-
A par disso é de notar outras variações sazonais no próprio mês de acordo, como é óbvio, com a lei da oferta e
da procura. Destes temos o preço do açúcar branco no Funchal em 1508.
MÊS
DIA
PREÇO
3
. V. M. GODINHO, "Preços e conjuntura do século XV ao XIX" in Dicionário de História de Portugal, Vol. III, pp. 488-516;José Gentil da SILVA,
"Echanges et troc: l'exemple des Canaries au debut du XVI siécle" in Annales, XVI, nº 5, Paris, 1961, pp. 1004-1011; Manuel LOBO CABRERA, Monedas,
Pesos y Medidas en Canarias en el siglo XVI, Las Palmas, 1989, pp. 10-13; Benedicta RIVERO SUÁREZ, Ob. cit., pp. 147-148.
4
. Fernando Jasmins PEREIRA, Estudos sobre História da Madeira, Funchal, 1991, pp. 232-234.
3
Março
14
16-21
360
315
Abril
13
309
Maio
11
340
Junho
300-320
Julho
290
Setembro
275-310
Outubro
275-310
Novembro
15
Dezembro
300
300
Estas cotações são mais explícitas no registo de saída da alfândega de Santa Cruz em 1524.
MÊS
DIA
PREÇO
MÊS
DIA
PREÇO
Janeiro
11
15
400 - 500
400
Julho
7
12
600
520 - 550
Fevereiro
13
500
Agosto
12
520-600
Março
30
500
Setembro
2
600-660
Maio
4
500
9
660
Junho
22
30
500
530
13
16
640
610 - 640
O açúcar branco apresentava dois preços, consoante fosse de uma ou duas cozeduras. Na Madeira o
último preço correspondia em 1496 a quase o dobro do primeiro. Se tivermos em conta, que em 15 000 arrobas
da primeira cozedura ficava apenas 10 000 na segunda, nota-se uma forte valorização do produto final5. Esta
insistência no açúcar de segunda cozedura é considerada condição necessária para a valorização do produto,
impedindo que chegasse ao mercado europeu em más condições, mas acima de tudo era uma medida benéfica
que reduzia para metade a oferta do açúcar, o que favorecia a competitividade do produto numa altura que o
mercado se pautava por excedentes.
A partir da década de setenta o preço do açúcar entrou em quebra acentuada. Esta ideia está
testemunhada nas intervenções do senhorio a partir de 1469 que insiste na solução do monopólio para o
comércio. A negação dos madeirenses a semelhante solução levou o Duque D. Manuel a avançar com novas
medidas. Assim em 1496 fixa os preços em 350 réis para o açúcar da primeira cozedura e 600 ao da segunda, e
passados dois anos opta por estabelecer uma cota máxima de exportação que se cifrava em 120.000 arrobas.
Os dados disponíveis revelam este movimento de quebra do açúcar. O primeiro açúcar feito em Machico
vendeu-se a 2000 réis arroba. Já em 1469 o seu preço estava em 500 arrobas para o de uma cozedura e 750
para o de duas, Em 1472 temos a notícia que subiu para 1000 réis a arroba, mas esta deverá ser uma situação
particular resultante da quebra acentuada da moeda, pois que em 1478 regressou à normalidade. O movimento
de queda foi uma constante até princípios do século XVI e só a revolução dos preços inverteu a situação,
5
. Arquivo Histórico da Madeira, Vol XV, pp. 64, carta de 3 Setembro de 1472.
4
evidente na década de vinte em ambos os arquipélagos6.
A oferta não se resumia apenas ao açúcar branco, pois a ele devem juntar-se os subprodutos, como as
escumas, rescumas, mel, remel, mascavado e mel mascavado e depois alguns derivados, como as conservas e
casquinha, que em qualquer dos arquipélagos tiveram grande importância. Em Tenerife as escumas e rescumas
eram cotadas a metade do preço do branco, enquanto na Madeira e Gran Canaria essa relação só é possível
com as rescumas, uma vez que as escumas são muito mais valorizadas. É, ainda, possível estabelecer uma
relação entre estes subprodutos e o açúcar branco, expressa nos níveis de produção e preço. Em Gran Canaria
no século XVI essa relação fazia-se da seguinte forma: em 2500 arrobas de açúcar correspondem 60% ao
branco, 12% às escumas, 8% de rescumas e 20% de açúcar refinado. O mesmo sucede na Madeira no período
de 1520 a 15377.
MERCADORES, BOTICAS E CONSUMIDORES
A Madeira atraiu a primeira vaga de mercadores forasteiros, mercê da prioridade atribuída à cultura dos
canaviais no processo de ocupação. Só o impediram as ordenanças limitativas da sua residência na ilha.
Todavia, em meados do século XV a coroa facultou a entrada e fixação de italianos, flamengos, franceses e
bretões, por meio de privilégios especiais, como forma de assegurar um mercado europeu para o açúcar. Mas,
o impacto e a influência destes foi lesivo para os mercadores nacionais e coroa, pelo que se foi necessário
impedir que os mesmos pudessem “asy soltamente trautar todos”, pelo que o senhorio proibiu a sua
permanência na ilha como vizinhos. A questão foi levada às cortes de Coimbra de 1472-1473 e de Évora em
1481, reclamando a burguesia do reino contra o monopólio de facto, dos mercadores genoveses e judeus no
comércio do açúcar, propondo a sua exploração nesse regime a partir de Lisboa. O monarca comprometido
com esta posição vantajosa dos estrangeiros, mercê dos privilégios que lhes concedera actuou de modo
ambíguo procurando salvaguardar os compromissos anteriormente assumidos e as solicitações dos moradores
do reino ao estabelecer limitações à sua residência no reino e fazendo-a depender de licenças especiais. Quanto
à Madeira foi a impossibilidade da sua vizinhança sem licença expressa da coroa e a interditação da revenda
no mercado local. A Câmara, por seu turno, baseada nestas ordenações e no desejo expresso dos seus
moradores ordenara a sua saída até Setembro de 1480, no que foi impedida pelo senhorio. Somente em 1489
foi reconhecida a utilidade da presença dos mercadores estrangeiros na ilha, ordenando D. João II ao duque D.
Manuel, então Duque de Beja, que os estrangeiros fossem considerados como “naturaes e vizinhos de nossos
regnos”.
Na década de noventa, de novo, os problemas do mercado açucareiro conduziram ao ressurgimento
desta política xenófoba. Os estrangeiros passaram a dispor de três ou quatro meses, entre Abril e meados de
Setembro, para comerciar os seus produtos, não podendo ter loja e feitor na cidade. Somente em 1493 D.
Manuel reconheceu o prejuízo que as referidas medidas causavam à economia madeirense, afugentando os
mercadores, pelo que revogou todas interdições anteriormente impostas. As facilidades concedidas à estadia
destes forasteiros conduziram à sua assiduidade bem como à fixação e intervenção na estrutura fundiária e
administrativa.
A comunidade de mercadores estrangeiros na Madeira foi dominada pela presença de italianos,
flamengos e franceses, que surgem no Funchal atraídos pelo tão solicitado “ouro branco”. Os primeiros e de
entre eles os florentinos e genoveses foram, desde meados do século XV, os principais agentes do comércio do
açúcar alargando depois a sua actuação ao domínio fundiário, possível por meio da compra e laços matrimoniais. Na década de setenta, mediante o contrato estabelecido com o senhorio da ilha, detinham já uma
6
. Arquivo Histórico da Madeira, Vol XV, p. 46, 14 de Julho de 1469; p. 229, 11 de Janeiro de 1490; pp. 313, 318, 3 de Setembro de 1495; pp. 372-380;
Gaspar FRUTUOSO, Livro Primeiro das Saudades da Terra, p. 113; Armando de CASTRO, "O sistema monetário" in História de Portugal, Vol. III, Lisboa,
1983, pp. 236-238; Manuel LOBO CABRERA, El Comercio Canario Europeo bajo Felipe II, Funchal, 1988, pp. 117.
7
. Manuel LOBO CABRERA, ibidem, p. 116; Fernando Jasmins PEREIRA, Estudos sobre História da Madeira, Funchal, 1991, pp. 219-224.
5
posição maioritária na sociedade criada para o comércio do açúcar, sendo representados por Baptista
Lomellini, Francisco Calvo e Micer Leão. No último quartel do século juntaram-se Cristóvão Colombo, João
António Cesare, Bartolomeu Marchioni, Jerónimo Sernigi e Luis Doria. A este grupo seguiu-se, em princípios
do século XVI, outro mais numeroso que alicerçou a comunidade italiana residente, destacando-se, aqui,
Lourenço Cattaneo, João Rodrigues Castigliano, Chirio Cattano, Sebastião Centurione, Luca Salvago,
Giovanni e Lucano Spinola.
O estrangeiro para manter a amplitude de operações comerciais nas ilhas contava com um grupo de
feitores ou procuradores: Gabriel Affaitati, Luca Antonio, Cristovão Bocollo, Matia Minardi, Capella e
Capellani, João Dias, João Gonçalves e Mafei Rogell. Note-se que o grupo inicial é, na sua maioria,
constituído por italianos, ligados ao comércio do açúcar, e que os segundos pertencem a algumas famílias mais
influentes da ilha.
Os mercadores-banqueiros de Florença destacaram-se nas transacções comerciais e financeiras do
açúcar madeirense no mercado europeu. A partir de Lisboa, onde usufruíam uma posição privilegiada junto da
coroa, controlaram uma extensa rede de negócios que abrange a Madeira e as principais praças europeias:
primeiro conseguiram da Fazenda Real o quase exclusivo do comércio do açúcar resultantes dos direitos reais
por contrato directo a que se seguiu o exclusivo dos contingentes estabelecidos pela coroa em 1498. Assim,
tivemos Bartolomeu Marchioni, Lucas Giraldi e Benedito Morelli com uma intervenção marcante no trato do
açúcar, na primeira metade do século XVI. A manutenção desta rede de negócios foi assegurada pela acção
directa dos mercadores, dos seus procuradores ou agentes sub estabelecidos. Benedito Morelli em 1509-1510
tinha na ilha, como agentes para o recebimento do açúcar dos quartos, Simão Acciaiuolli, João de Augusta,
Benoco Amador Cristóvão Bocollo e António Leonardo. Marchioni em 1507-1509 fazia-se representar em
operações idênticas por Feducho Lamoroto. João Francisco Affaitati, cremonês, agente em Lisboa de uma das
mais importantes companhias comerciais da época, participou activamente neste comércio entre 1502 e 1526,
por meio de contratos de compra e venda dos açúcares dos direitos reais (1516-1518, 1520-1521 e 1529) e
pagamentos em açúcar a troco de pimenta. O mesmo actuou, ainda, em sociedade com Jerónimo Sernigi, João
Jaconde, Francisco Corvinelli e Janim Bicudo, quer isoladamente, tendo para o efeito como feitores e
procuradores na ilha, Gabriel Affaitati, Luca António, Cristóvão Bocollo, Capela de Capellani, João Dias, João
Gonçalves, Matia Manardi e Maffei Rogell.
A penetração deste grupo de mercadores na sociedade madeirense foi muito acentuada. O usufruto de
privilégios reais, o relacionamento familiar favoreceu a sua mistura com a aristocracia terra tenente e
administrativa. A sua intervenção é notada na estrutura administrativa, abrangendo os domínios mais
elementares do governo, como a vereação e as repartições da fazenda, todas com intervenção directa na
economia açucareira. São maioritariamente proprietários e mercadores de açúcar. Instalaram-se nas terras de
melhor e maior produção e tornaram-se nos mais importantes proprietários de canaviais. Assim, sucedeu com
Rafael Cattano, Luis Doria, João e Jorge Lomelino, João Rodrigues Castelhano, Lucas Salvago, Giovanni
Spinola, João Antão, João Florença e Simão Acciaiuolli e Benoco Amatori.
Também, os franceses e flamengos, a exemplo dos italianos, surgem na ilha, desde finais do século
XV, atraídos pelo rendoso comércio do açúcar. No entanto, não se enraizaram na sociedade insular, mantendo
uma condição errante. O seu interesse é única e exclusivamente a aquisição do açúcar a troco dos seus
artefactos, alheando-se da realidade produtiva e administrativa. O caso de João Esmeraldo é a excepção. Os
franceses afirmaram-se pelas operações de troca em torno do açúcar, enquanto os flamengos mantiveram uma
posição subalterna e mesmo como grupo interveniente no mercado madeirense. Os franceses tiveram uma
presença muito activa no comércio do açúcar, na primeira metade do século XVI. Eles surgem com frequência
nas comarcas do Funchal, Ponta do Sol, Ribeira Brava e Calheta, onde adquiram grandes quantidades de
açúcar que transportavam aos portos franceses nas suas embarcações. Neste trato evidenciaram-se mestre
António, Archelem, António Coyros, António Caradas e Francisco Lido. Os últimos aliavam à Madeira a rede
de negócios das Canárias, que surge como ramificação das praças nórdicas e andaluzas.
As escápulas, até 1504, e o produto dos direitos reais eram canalizados ao mercado europeu, quer por
6
carregação directa, quer ainda, por negócio livre ou a troco de pimenta. Este açúcar era arrendado por
mercadores ou sociedades comerciais, sedeados em Lisboa, sendo de destacar a actuação dos italianos, como
João Francisco Affaitati e Lucas Salvago.
As operações comerciais em torno do açúcar, no período de 1501 e 1504, estiveram centralizadas em
mercadores ou sociedades comerciais que, a partir de Lisboa, controlaram esse trato por meio de uma
complicada rede de feitores ou procuradores. A sua intervenção, que se apresentava dominante nos três
primeiros decénios do século, decresceu de forma acentuada na última década. Isto atesta que os mercadores
estrangeiros, em face da conjuntura de instabilidade do mercado açucareiro madeirense nos primeiros trinta
anos abandonaram o seu comércio fazendo-o substituir pelo de outras origens.
A comunidade italiana controlava a quase totalidade do comércio do açúcar com as principais praças
europeias sendo seguida da portuguesa e da castelhana. Os mercadores nórdicos não apresentam uma posição
de relevo nestas operações. Isto demonstra, mais uma vez, que a rota e mercado flamengo se mantiveram sob o
controlo da nossa feitoria. No período que decorre de 1490 a 1550, verifica-se que os italianos detiveram o
exclusivo do comércio na primeira década e uma posição dominante nas duas seguintes, sendo substituídos
pelos portugueses na década de trinta, e também por castelhanos e franceses. Ainda, no grupo dos mercadores
estrangeiros nota-se uma tendência concentracionista, pois apenas os cinco principais detêm 71% do açúcar
transaccionado. Todos eles apresentam valores superiores a dez mil arrobas, enquanto nos nacionais apenas
um tem mais de 1080 arrobas. João Francisco Affaitati, mercador cremonês de família nobre, chefe da sucursal
em Lisboa da companhia Affaitati, uma das principais dessa praça, surge no período de 1502 a 1529 como o
principal activador do comércio do açúcar madeirense, tendo transaccionado sete vezes mais açúcar que todos
os portugueses. Durante este período, arrematou em 1502, as escápulas de Águas Mortas, Liorne, Roma e
Veneza. Conjuntamente com Jerónimo Sernigi, João Jaconde e Francisco Cornivelli conseguiu a venda do
açúcar dos direitos (1512-1518, 1520-1521, 1529) e actuou em operações diversas de compra directa de açúcar
e da sua troca por pimenta ou dívidas. Para manter esta amplitude de actividades comerciais contava na ilha
com um grupo numeroso de feitores ou procuradores: Gabriel Affaitati, Luca Antonio, Cristóvão Bocollo,
Matia Manardi, Capella de Capellani, João Dias, João Gonçalves e Mafei Rogell. Por outro lado aceitou
procuração de Garcia Pimentel, Pedro Afonso de Aguiar e João Rodrigues de Noronha.
A rede de negócios funchalense, em torno do trato do açúcar, foi criada e incentivada pelo mercador
estrangeiro, alemão ou italiano, que aí aportou depois da reconfortante e vantajosa escala em Lisboa. Ele
controlou as principais sociedades intervenientes no comércio açucareiro, não obstante ter morada fixa em
Lisboa, Flandres ou Génova. O seu domínio atinge, não só, as sociedades criadas no exterior com intervenção
na ilha, mas também, o grupo de agentes ou feitores e procuradores sub estabelecidos no Funchal. A sua
escolha é criteriosa: primeiro os familiares, depois os compatrícios enraizados na sociedade e só, depois, os
madeirenses ou nacionais. As principais casas intervenientes no trato açucareiro madeirense podem ser
definidos de acordo com o número de representantes, destacando-se então, Baptista Morelli, B. Marchioni,
Welser, Claaes, Charles Correa, Pero de Ayala e Pero de Mimença. Os Welsers e Claaes actuaram na praça do
Funchal por intermédio de agente estabelecido em Lisboa, respectivamente, Lucas Rem e Erasmo Esquet, que
depois subestabelecem feitores. O primeiro tinha como interlocutores no Funchal, em princípios do século
XVI, João de Augusta, Bono Bronoxe, Jorge Emdorfor, Jácome Holzbuck, Leo Ravenspurger e Hans Schonid.
Os procuradores e feitores, na sua condição de interlocutores dos mercadores europeus não se ligam
apenas a uma sociedade, pois distribuíram a sua acção por um grupo numeroso de societários. E estes por sua
vez não se prendem apenas a um representante, concedendo-os a um grupo variado de feitores e procuradores.
Na primeira situação tivemos Benoco Amatori que representava B. Marchionni, B. Morelli, Álvaro Pimentel e
Jerónimo Sernigi. E, na segunda, João Francisco Affaitati que, entre 1500-1529, estava representado por
Gabriel Affaitati, Luca Antonio, Cristóvão Bocollo, Capella de Capellani, João Dias, João Gonçalves, Matia
Manardi, Mafei Rogell e Lucas Giraldi.
Na segunda metade do século XVII o açúcar madeirense foi paulatinamente substituído pelo brasileiro.
Neste circuito de escoamento e comércio é evidente a intervenção de madeirenses e açorianos. A oferta de
7
vinho ou vinagre era compensada com o acesso ao rendoso comércio do açúcar, tabaco e pau-brasil. Mas o
trajecto destas rotas comerciais ampliava-se até ao tráfico negreiro, cobrindo um circuito de triangulação. Para
isso os madeirenses criaram a sua própria rede de negócios, com compatrícios fixos em Angola e Brasil.
Diogo Fernandes Branco é o exemplo perfeito da nova situação. A sua actividade incidia,
preferencialmente, na exportação de vinho para Angola, onde trocava por escravos que, depois, ia vender ao
Brasil por açúcar. O circuito de triangulação fechava-se com a chegada à ilha das naus, vergadas sob o peso
das caixas de açúcar ou rolos de tabaco. Depois seguia-se outro processo de transformação do produto em
casca ou conservas. Esta era uma tarefa caseira que ocupava muitas mulheres na cidade e arredores. Os
mercadores, como Diogo Fernandes Branco, coordenavam todo o processo, de acordo com as encomendas que
recebiam, uma vez que o produto depois de laborado deveria ter rápido escoamento. Os principais portos de
destino situavam-se no norte da Europa: Londres, St Malo, Amburgo, Rochela, Bordéus. Ele foi o interlocutor
directo dos mercadores das praças de Lisboa, Londres, Rochela ou Bordéus, satisfazendo a sua solicitação de
vinho e derivados do açúcar a troco de manufacturas, uma vez que o dinheiro e as letras de câmbio, raramente
encontravam destinatário na ilha. A par disso manteve a sua rede de negócios, apoiado em alguns mercadores
de Lisboa, e das principais cidades brasileiras. São múltiplas as operações comerciais registadas na sua
documentação epistolar. À primeira vista parece-nos que o mesmo se especializou em duas actividades
paralelas: o comércio de vinho para Angola e Brasil e o de açúcar e derivados para adocicar os manjares dos
repastos da mesa europeia.
Estas actividades comerciais de Diogo Fernandes Branco não são de modo algum episódicas, no
contexto da estrutura comercial madeirense da segunda metade do século dezassete, pois comprovam uma das
dominantes estruturais: a ilha com intermediária entre os interesses da burguesia comercial do Novo e Velho
Mundo. Um dos componentes deste puzzle era o porto do Funchal, onde uma chusma de pequenos burgueses
que aguardam a oportunidade de singrar em tais negócios. Angola, Brasil são os outros dois vértices deste
triângulo. Episodicamente surge-nos Barbados, que só singrou a partir da afirmação hegemónica da burguesia
comercial britânica no mundo atlântico.
O CONSUMO DO AÇÚCAR.
O princípio fundamental que regeu o movimento de circulação do açúcar foi a necessidade de suprir as
carências de alguns mercados europeus, em substituição do oriental, cada vez mais de difícil acesso. Foi esta
conjuntura que impôs a nova cultura no espaço atlântico e ditou as regras do seu mercado. Deste modo o
consumo interno de açúcar é uma exigência tardia, gerada por novos hábitos alimentares ou das contingências
do mercado do produto. Neste último caso assume importância o dispêndio de açúcar na industria de conservas
e casca como resultado da solicitação dos veleiros que demandavam o Funchal. Acresce ainda que a
vulgarização do açúcar no quotidiano madeirense derivou da conjuntura que o mercado viveu em finais do
século XV: o aparecimento de novos mercados produtores, como a Madeira, fez baixar o preço, o que
provocou uma generalização do seu consumo.
A importância que o açúcar adquiriu na economia madeirense fê-lo assumir, por algum tempo, a situação
de medida de troca e de pagamento dos mais diversos serviços. Para isso contribuiu, não só, esta afirmação
dominante no quotidiano madeirense, mas também, a falta crónica de moeda na ilha.
AS CONSERVAS E DOÇARIA.
Parte significativa do açúcar produzido na ilha, e mais tarde importado do Brasil, era usado no fabrico de
conservas e de doçaria. São vários os testamentos denunciadores da mestria dos madeirenses no fabrico destes
produtos. Em meados do século quinze Cadamosto refere a feitura de "muitos doces brancos perfeitíssimos",
8
enquanto em 1567 Pompeo Arditi dá conta da "conserva de açúcar" que se fazia no Funchal "de óptima qualidade
e muita abundância". E, esta tradição perpetuou-se na ilha para além do fulgor da produção açucareira local pois,
segundo Hans Sloane em 1687, o madeirense produzia "açúcar indispensável aos gastos caseiros e ao fabrico de
doces, indo ainda comprá-lo ao Brasil". Dois anos após John Ovington refere a indústria da conserva de citrinos
que se exportava para França. Tal como se deduz de um documento de 1469 o fabrico de conservas era indústria
importante para a sobrevivência de muitas famílias, uma vez que ocupava "molheres de boas pesoas e muytos
pobres que lavraram os açuquares bayxos em tamtas maneyras de conservas e alfeni e confeitos de que am
grandes proveytos que dam remedio a suas vidas e dam grande nome a terra nas partes onde vam...". Os livros do
quarto e quinto do açúcar informam-nos sobre o dispêndio que dele se fazia no fabrico de conservas, frutas seca e
marmelada. Nisso gastaram-se cerca de quatrocentas arrobas de açúcar de vários tipos, sendo na sua maioria para
consumo dos proprietários do referido açúcar.
A fama da arte da confeitaria madeirense espalhou-se por toda a Europa e teve o seu expoente máximo na
embaixada enviada por Simão Gonçalves da Câmara ao Papa. Segundo Gaspar Frutuoso compunha-se de
"muitos mimos e brincos da ilha de conservas, e o sacro palácio todo feito de assucar, e os cardiais todos feitos de
alfenim, dornados a partes, o que lhes dava muita graça, e feitos de estatura de hum homem". São vários os
testemunhos denunciadores da mestria dos madeirenses no fabrico destes produtos. Segundo Hans Sloane em
1687 o madeirense produzia "açúcar indispensável aos gastos caseiros e ao fabrico de doces, indo ainda comprálo ao Brasil". Dois anos depois John Ovington refere a indústria da conserva de citrinos ou cidra que se
exportavam para a França e Holanda. A cidra existia em abundância na Ponta de Sol, Ribeira Brava, Machico e
Câmara de Lobos (Ribeira dos Socorridos), quase desaparecendo em finais do século XVIII e arrastando
inevitavelmente esta indústria para o seu fim.
Um dos factores de promoção desta indústria ao nível das conservas foi a importância assumida pelo
Funchal como porto de escala de abastecimento para a navegação atlântica. Muitas embarcações aportavam aí
com o intuito de se fornecerem de conservas de citrinos para a sua dieta de bordo. Mas, sem dúvida, o
consumidor preferencial das conservas e doçaria madeirense era a Casa Real portuguesa. D. Manuel foi o seu
consumidor preferencial e aquele que divulgou as suas qualidades na Europa. Assim ficaram como o seu
principal presente, dentro e fora do reino, sendo o seu exemplo seguido por Vasco da Gama, que também ofertou
o xeque de Moçambique com conservas da ilha. No período de 1501 a 1561 a Casa Real consumiu 1129 arrobas
e 58 barris de açúcar em conservas e frutas secas. A par disso o rei havia estabelecido a partir de 1520 o envio
anual de 10 arrobas de conserva para o feitor de Flandres.
Esta indústria manteve-se por todo o século XVII, suportada com o pouco açúcar da produção local ou
com as importações dele do Brasil. Neste último caso sabe-se que em 1680 foram importadas 2.575 arrobas para
o fabrico de casca. Aliás, de acordo com uma informação dada ao governador da ilha, D. António Jorge de Melo
referia-se que "é a casquinha negócio muito grande porque há anno que se carregão com aquella terra mais de 20
embarcações de hum so doce para o qual he necesareo comprar assucar da terra ou mandalo vir do Brasil". A
correspondência de William Bolton refere-nos que a conserva de citrinos estava em grande prosperidade na
década de noventa do século XVII, sendo usada para o abastecimento das embarcações que demandavam a ilha,
ou exportadas para Lisboa, Holanda e França. Parte significativa desse movimento comercial pode ser
reconstituída através da correspondência comercial de dois mercadores: Diogo Fernandes Branco (1649-1652),
William Bolton (1696-1715) e Duarte Sodré Pereira (1710-1712).
Diogo Fernandes Branco parece ter sido o principal interveniente do comércio com os portos nórdicos,
quase só baseado na exportação de casca e conservas. Para o curto período que dura a correspondência é evidente
a importância assumida pelo dito comércio. Assim em 1649, não obstante o açúcar da produção local ser de mau
qualidade, a falta de cidra e tardar a vinda dos navios do Brasil, a procura manteve-se activa, gerando dificuldades
aos fornecedores, como Diogo Fernandes Branco, que tiveram que socorrer-se de todos os meios para poder
satisfazer a encomenda. A conjuntura conduziu inevitavelmente ao aumento do preço do produto. Esta situação
continuou de modo que em Novembro de 1651 carregaram na ilha 9 navios franceses. No ano imediato inverteuse a situação: a casca abundou e em Outubro ainda tardavam em chegar os navios para a levar ao seu destino, o
9
que era motivo para preocupação.
A correspondência de William Bolton refere-nos, também, que a conserva de citrinos estava em grande
prosperidade na década de noventa do século XVII, sendo usada para o abastecimento das embarcações que
demandavam a ilha, ou exportadas para Lisboa, Holanda e França. Duarte Sodré Pereira surge, nos anos
imediatos, como o continuador do comércio deste produto. A sua actividade mercantil, neste lapso de tempo,
esteve dedicada, também ao comércio do açúcar do Brasil e à exportação de casca para o norte da Europa,
nomeadamente, Amesterdão.
No fabrico das conservas e doces variados merecem a nossa atenção as freiras do Convento de Santa
Clara, da Encarnação e Mercês. Aliás, em 1687 Hans Sloane referia-se de forma elogiosa aos doces e compotas
que comeu no Convento de Santa Clara, e ao referir que "nunca vi coisas tão boas". Num breve relance pelos
livros de receita e despesa do Convento da Encarnação, Misericórdia do Funchal, e Recolhimento do Bom Jesus,
constata-se as assíduas despesas com a compra de açúcar da ilha ou do Brasil para o consumo interno. A
Misericórdia do Funchal para além das esmolas que recebia em açúcar ou marmelada consumia açúcar que
comprava. Do primeiro tanto se poderia dar aos doentes ou vender para fora. Em 1636 gastaram-se 6.180 réis na
compra de 3 arrobas de açúcar para os doces da procissão das Encomendas. Ademais são conhecidas outras
despesas na compra de abóbora, ginjas, peras, marmelos para o fabrico de doce. Em 4 de Junho de 1700 a
Misericórdia do Funchal gastou 101.500 réis na compra de 34 arrobas para o fabrico de doces a serem
consumidos ao longo do ano. Para o período de 1694 a 1700 a mesma instituição gastou 634.400 réis na compra
de 227 arrobas de açúcar e 14 canadas de mel.
Maior e mais assíduo foi o consumo de açúcar no Convento da Encarnação no período de 1671 a 1693.
Aí, de acordo com o registo mensal dos gastos com as compras de produtos para a dispensa do convento pode-se
ficar com uma ideia da sazonalidade do consumo da doçaria, que consistia em coscorões, batatada, talhadas,
queijadas, arroz-doce e bolos. No caso deste convento destacam-se a Quinta-Feira de Endoenças, Páscoa, Espírito
Santo, Nossa Sra. Encarnação e do Carmo, Natal. Nesta última festividade distribuía-se a cada freira, para a
Consoada, 8 libras de açúcar. Além disso parte significativa do açúcar de várias qualidades, era usado para o
"tempero do comer" e fazer conserva. No total despenderam-se 190 arrobas de açúcar por estes vinte e dois anos
para um total aproximado de seis dezenas de recolhidas.
Extintos os conventos quase que também desapareceu a tradição da doçaria. Hoje, o único testemunho
que resta dessa importante industria do doce madeirense é o bolo de mel. O alfenim manteve-o a tradição dos exvotos das festas do espírito Santo na ilha Terceira, único local onde ainda persiste esta tradição.
O DISPENDIO DO AÇUCAR DOS DIREITOS
O açúcar e derivados dele que se produziam na Madeira tinham um consumo variado. Assim a maior e
melhor qualidade era canalizada para a exportação aos principais mercados estrangeiros. Do açúcar laborado
há que distinguir aquele que pertence aos proprietários de canaviais e engenho e o que é da coroa, por
arrecadação do almoxarifado dos quartos ou da Alfândega, resultante dos direitos que oneravam a produção
(quarto/quinto/oitavo) e saída na Alfândega (dízima). Enquanto a cobrança deste último era feita directamente
nas alfândegas do Funchal e Santa Cruz, o primeiro poderia ser recolhido pela estrutura institucional criada
para o efeito - o almoxarifado dos quartos (1485-1522) - ou a cargo da anterior. Ainda nesta situação poderia
suceder a sua arrecadação por contratadores, maioritariamente estrangeiros8, que oscilava entre as 18.507 e
31.876 arrobas entre 1497 e 1506.
Este açúcar arrecadado pela coroa, tal como nos elucida F. J. Pereira9, era gasto em despesas ordinárias, na
carregação directa e nas vendas feitas aos mercadores e/ou sociedades comerciais. Na primeira despesa
8. F. Jasmins Pereira, O Açúcar Madeirense de 1500 a 1537. Produção e Preços, Lisboa, 1969, pp.55-69.
9. Ibidem, pp.69-9
10
estavam incluídos, a redízima dos capitães, os gastos pessoais do monarca, da Casa Real, as esmolas, para
além das despesas com os soldos dos funcionários, do transporte e embalagem do açúcar. Esta despesa variou
entre as 1.070 e 2.114 arrobas, sendo a média anual no período de 1501 a 1537 de 1622 arrobas10. No caso das
esmolas é de realçar as que se faziam às Misericórdias - Funchal (1512), Ponta Delgada em S. Miguel (1515),
Todos os Santos em Lisboa (1506 ), Conventos - Santa Maria de Guadalupe (1485), Jesus de Aveiro (1502),
Conceição de Évora.
A par disso também se regista a utilização temporária dos lucros arrecadados pela Coroa na ilha com o
açúcar, no custeamento das despesas com os socorros às praças africanas11 ou no provimento das armadas12.
Acresce, ainda, a política de ofertas estabelecida por D. Manuel I, que em muito contribuíram para o
enriquecimento do património artístico da Madeira13.
O dispêndio do açúcar do lavrador fazia-se de forma diversificada. As vendas directas aos mercadores,
muitas vezes de antemão, associam-se os pagamentos de dívidas ou por trocas de produtos e serviços. Na
Madeira, os livros do quarto e do quinto, como forma de controlo dos direitos em jogo, contabilizam o modo
como os lavradores despendiam o seu açúcar. Nas Canárias são os diversos contratos existentes nos protocolos
notariais. A partir daqui poderá saber-se quem eram os principais compradores, como testemunhar do seu uso
no pagamento de serviços14. Apenas para a Madeira, na primeira metade do século dezassete é possível
estabelecer com clareza essa forma de dispêndio do açúcar conseguido por proprietários de canaviais e
engenhos. No global tivemos cerca de 81.280 arrobas distribuídas por 2.492 compradores. A tendência é para a
disseminação pelos pequenos compradores, acabando com os interesses monopolistas de algumas casas
comerciais, que haviam dominado o comércio na época de apogeu.
DISPENDIO DE AÇUCAR NA CAPITANIA DO FUNCHAL 1509-1537
COMARCA
DATA
COMPRADORES
ARROBAS
AÇÚCAR
Calheta
Funchal
Rª Brava
Ponta Sol
MÉDIA
1509
532
26360
49,5
1514
286
12795
44,7
1534
270
7886
29,2
1530
522
11453
21,9
1517
456
10177
22,3
1536
170
3499
20,5
1526
163
6727
41
1537
93
2383
25,6
2492
81280
32
10. Ibidem, p.79
11. No período de 1508 a 1514 gastaram-se 1000 arrobas com as despesas de socorro a Safim.
12. Cf. Alberto Vieira, O Comércio Inter-insular nos séculos XV e XVI, p.23; V. MAgalhães Godinho, Ensaios, II, Lisboa, 1978, pp. 29-71, 281-322.
13. De entre as suas ofertas à Madeira destacam-se uma cruz processional para a Sé, uma pia baptismal para a Ribeira Brava, uma escultura em Madeira e as colunas de
mármore do portal lateral da matriz de MAchico.
14
. Apenas para o Funchal em 1536, Ribeira Brava em 1517 e 1536, Ponta do Sol em 1526 e 1537 e Calheta em 1509, 1514 e 1534; veja-se Fernando Jasmins
PEREIRA, Livro de contas da ilha da Madeira 1502-1537, Vol. II, Funchal 1989.
11
TOTAL
Fonte: José Perreira da Costa, Livro de Contas da ilha da Madeira. 1504.1537, vol. II, Funchal, 1989.
O lavrador e o proprietário do engenho serviam-se usualmente do produto da sua safra para o
pagamento da mão-de-obra assalariada que necessitavam. Entre 1509 e 1537 há referência a diversos
pagamentos em açúcar por serviços prestados na lavoura e laboração do engenho e, mesmo na compra de
qualquer manufactura ou prestação de serviço artesanal. O pagamento dos serviços da safra do açúcar atingem
31,41%, sendo 16,62% no cultivo e apanha da cana e 14,59%, sendo dominados pelos sapateiros (27,62%) e
ferreiros (24,48%). Por fim, registe-se que esta distribuição diversificadora dos lucros acumulados por
proprietários de canaviais e mercadores de açúcar contribuiu para um manifesto progresso da sociedade
madeirense no século dezasseis, com evidentes reflexos no quotidiano e panorama artístico e arquitectónico15.
O COMÉRCIO DO “OURO BRANCO”.
O comércio do açúcar destaca-se no mercado madeirense dos séculos XV e XVI como o principal animador
das trocas com o mercado europeu. Durante mais de um século a riqueza das gentes da ilha e o fornecimento
de bens alimentares e artefactos dependeu do comércio do produto. O mesmo sucedeu nas Canárias, a partir do
século XVI. Todavia, neste período a sua venda e valor sofreram diversas oscilações, mercê da conjuntura do
mercado consumidor e da concorrência dos mercados insulares e americanos.
O dispêndio do açúcar do lavrador fazia-se de forma diversificada. As vendas directas aos mercadores,
muitas vezes de antemão, associam-se os pagamentos de dívidas ou por trocas de produtos e serviços. Na
Madeira, os livros do quarto e do quinto, como forma de controlo dos direitos em jogo, contabilizam o modo
como os lavradores despendiam o seu açúcar. Nas Canárias são os diversos contratos existentes nos protocolos
notariais. A partir daqui poderá saber-se quem eram os principais compradores, como testemunhar do seu uso
no pagamento de serviços. Apenas para a Madeira, na primeira metade do século dezassete é possível
estabelecer com clareza essa forma de dispêndio do açúcar conseguido por proprietários de canaviais e
engenhos. No global tivemos cerca de 81.280 arrobas distribuídas por 2.492 compradores. A tendência é para a
disseminação pelos pequenos compradores, acabando com os interesses monopolistas de algumas casas
comerciais, que haviam dominado o comércio na época de apogeu.
O lavrador de canas e o proprietário do engenho serviam-se usualmente do produto da sua safra para o
pagamento da mão-de-obra assalariada que necessitavam. Entre 1509 e 1537 há referência a diversos
pagamentos em açúcar por serviços prestados na lavoura e laboração do engenho e, mesmo na compra de
qualquer manufactura ou prestação de serviço artesanal. O pagamento dos serviços da safra do açúcar atingem
31,41%, sendo 16,62% no cultivo e apanha da cana e 14,59%, sendo dominados pelos sapateiros (27,62%) e
ferreiros (24,48%). Por fim, registe-se que esta distribuição diversificada dos lucros acumulados por
proprietários de canaviais e mercadores de açúcar contribuiu para um manifesto progresso da sociedade
madeirense no século dezasseis, com evidentes reflexos no quotidiano e panorama artístico e arquitectónico.
O açúcar foi, durante mais de um século, o principal activador das trocas da Madeira com o exterior.
Em face das dificuldades de afirmação do açúcar madeirense no mercado europeu a coroa foi obrigada a
intervir no sentido de manter um comércio controlado, que a partir de 1469 passou a ser feito sob o
permanente olhar do senhorio e coroa. A situação manteve-se até 1508, altura em que a coroa aboliu o regime
de contrato. A partir de uma das medidas tomadas pela coroa (o contingentamento de 1498) para defesa do
mercado do açúcar madeirense poder-se-á fazer uma ideia dos principais mercados consumidores. As praças
do mar do norte dominavam o comércio, recebendo mais de metade das escápulas estabelecidas: aqui a
Flandres adquire uma posição dominante, o mesmo sucedendo com os portos italianos para o espaço
15
. David Ferreira de GOUVEIA, "O açúcar e a economia madeirense (1420.1550). Consumo de excedentes", Islenha, nº 8, (1991), pp. 11-22.
12
mediterrânico. Se compararmos estas escápulas com o açúcar consignado às diversas praças europeias no
período de 1490 e 1550, verifica-se que o roteiro não estava muito aquém da realidade. As únicas diferenças
relevantes surgem nas Praças da Turquia, França e Itália, sendo de salientar na última um reforço acentuado de
posição, que poderá resultar da actuação das cidades italianas como centros de redistribuição no mercado
levantino e francês.
16 0 00 0 0 0
14 0 00 0 0 0
12 0 00 0 0 0
10 0 00 0 0 0
8 0 000 0 0
6 0 000 0 0
4 0 000 0 0
2 0 000 0 0
0
E spa n ha
Fl and r es
Fr an ç a
Itali a
P or tug al
Ou tr os
EXPORTAÇÃO DE AÇÚCAR DA MADEIRA. PRINCIPAIS MERCADOS (EM ARROBAS)
Os dados disponíveis para o comércio do açúcar na Madeira evidenciam a constância dos mercados
flamengo e italiano. O reino, circunscrito aos portos de Lisboa e Viana do Castelo surge em terceiro lugar com
apenas 10%. Observe-se que o porto de Viana do Castelo adquiriu, desde 1511, grande importância neste
circuito e daí com Espanha e Europa nórdica. Aliás, no período de 1581 a 1587 Viana é o único porto do reino
mencionado nas exportações de açúcar, mantendo, todavia, uma posição inferior à 1490-1550. Esta função
redistribuidora dos portos a norte do Douro ficara, já evidenciada entre 1535 e 1550, pois das cinquenta e seis
embarcações entradas no porto de Antuérpia com açúcar da Madeira, dezasseis são do norte e apenas uma de
Lisboa. Na primeira 50% são provenientes de Vila do Conde, 31% do Porto e 19% de Viana do Castelo. Aliás,
em 1505 o monarca considerava que os naturais desta região tinham muito proveito no comércio do açúcar da
ilha. Em 1538 este trato era assegurado por um numeroso grupo de grupos de mercadores daí oriundos. Entre
eles estavam Aires Dias, Baltazar Roiz, Diogo Alvares Moutinho e Joham de Azevedo. O mesmo sucede nas
trocas com o mundo mediterrânico onde se contava com os entrepostos de Cádis e Barcelona, que surgem no
período de 1493 a 1537 com os portos de apoio ao comércio com Génova, Constantinopla, Chios e Águas
Mortas.
Os dados da exportação para o período de 1490 a 1550, testemunham esta realidade: a Flandres surge
com 39% e a Itália com 52%. Todavia, é de salientar a posição dominante dos mercadores italianos na
condução deste açúcar, uma vez que eles foram responsáveis pela saída de 78% do açúcar. Note-se que no
início foram inúmeras as dificuldades para a presença de estrangeiros. Somente a partir da década de oitenta do
13
século XV surgiram os primeiros como vizinhos, que se comprometeram com a cultura e comércio do açúcar.
Para a segunda metade do século dezasseis escasseiam os dados sobre o comércio do açúcar madeirense.
Somente entre 1581 e 1587 temos nova informação. Neste período a ilha exportou 199.300 arrobas de açúcar
para o estrangeiro e 4830 para o porto de Viana do Castelo.
250000
200000
150000
100000
50000
1581-87
1541-50
1531-40
1521-30
1511-20
1501-10
1490-501
0
EXPORTAÇÃO E AÇÚCAR –em arrobas
A partir de princípios do século XVI o comércio do açúcar diversifica-se. A Madeira que na centúria de
quatrocentos surgira como o único mercado de produção debater-se-á, a partir de finais desse século, com a
concorrência do açúcar das Canárias, de Berbéria, de S. Tomé e, mais tarde, do Brasil e das Antilhas. Esta
múltipla possibilidade de escolha, por parte dos mercadores e compradores, condicionou a evolução do
comércio açucareiro. Todavia, o açúcar madeirense manteve uma situação preferencial no mercado europeu
(Florença, Anvers, Ruão), sendo o mais caro. Talvez, devido a este favoritismo encontramos com frequência
referências à escala na Madeira de embarcações que faziam o seu comércio com as Canárias, Berbéria e S.
Tomé. Esta situação deveria, de igual modo, explicar a venda de açúcar madeirense em Tenerife, no ano de
1505.
O comércio açucareiro na primeira metade do século XVI era dominado na Europa do Norte pelas ilhas
e litoral do Atlântico, nomeadamente, entre as primeiras, a Madeira, Tenerife, Gran Canaria e La Palma.
Assim, na década de trinta os navios normandos ocupados neste comércio dirigiam-se preferencialmente a esta
área. Convém anotar que a maioria das embarcações que rumavam a Marrocos, com escala na Madeira à ida e
no regresso, o que valorizou a Madeira no comércio com a Normandia. A situação dominante do mercado
madeirense perdurou nas décadas seguintes, não obstante a forte concorrência da ilha de S. Tomé que se
firmou, entre 1536 e 1550, como o principal fornecedor de açúcar à Flandres. Todavia, esta posição cimeira da
ilha de São Tomé só é patente a partir de 1539.
A Madeira, que até à primeira metade do século dezasseis havia sido um dos principais mercados do
açúcar do Atlântico, cede lugar a outros (Canárias, S. Tomé, Brasil e Antilhas). Deste modo as rotas desviam14
se para novos mercados, colocando a ilha numa posição difícil. Os canaviais foram abandonados na quase
totalidade, fazendo perigar a manutenção da importante indústria de conservas e doces. O porto funchalense
perdeu a animação que o caracterizara noutras épocas. É aqui que surge o arquipélago vizinho. O comércio
canário, baseado nos mesmos produtos que o madeirense, será um forte concorrente na disputa dos mercados
nórdico e mediterrânico. Os produtos dos dois arquipélagos surgem, lado a lado, nas praças de Londres,
Anvers, Ruão e Génova. A única vantagem do madeirense resultava de ter sido o primeiro a penetrar com o
açúcar e o vinho no mercado europeu, ganhando a preferência de muitos vendedores e consumidores.
A solução possível para debelar a crise da indústria açucareira madeirense, desde a segunda metade do
século dezasseis, foi o recurso ao açúcar brasileiro, usado no consumo interno ou como animador das relações
com o mercado europeu. Por isso os contactos com os portos brasileiros adquiriram uma importância
fundamental nas rotas comerciais madeirenses do Atlântico Sul. Tal como o refere José Gonçalves Salvador as
ilhas funcionaram, no período de 1609 a 1621, como o “trampolim para o Brasil e Rio da Prata”. É o mesmo
quem esclarece que este relacionamento poderia ter lugar de modo directo, ou indirecto, sendo este último
rumo através de Angola, S. Tomé, Cabo Verde ou Costa da Guiné. Aqui definia-se um circuito de
triangulação, de que são exemplo as actividades comerciais de Diogo Fernandes Branco, no período de 1649 a
1652. Note-se que desde finais do século dezasseis estava documentado o comércio do açúcar, servindo os
portos do Funchal e Angra como entrepostos para a sua saída legal ou de contrabando para a Europa.
Este comércio do açúcar do Brasil, por imperativos da própria coroa ou por solicitação dos
madeirenses, foi alvo de frequentes limitações. Assim em 1591 ficou proibida a descarga do açúcar brasileiro
no porto do Funchal, medida que não produziu qualquer efeito, pois em vereação de 17 de Outubro de 1596 foi
decidido reclamar junto da coroa a aplicação plena de tal proibição. Desde 1596 é evidente uma activa
intervenção das autoridades locais na defesa do açúcar de produção local, prova evidente de que se promovia
esta cultura. Em Janeiro deste ano os vereadores proibiram António Mendes de descarregar o açúcar de
Baltazar Dias. Passados três anos o mesmo surge com outra carga de açúcar da Baía, sendo obrigado a seguir o
seu porto de destino, sem proceder a qualquer descarga. O não acatamento das ordens do município implicava
a pena de 200 cruzados e um ano de degredo. Esta situação repete-se com outros navios nos anos subsequentes
até 1611: Brás Fernandes Silveira em 1597, António Lopes, Pedro Fernandes o grande e Manuel Pires em
1603, Pero Fernandes e Manuel Fernandes em 1606 e Manuel Rodrigues em 1611.
A constante pressão dos homens de negócio do Funchal envolvidos neste comércio veio a permitir uma
solução de consenso para ambas as partes. Em 1612 ficou estabelecido um contrato entre os mercadores e o
município em que os primeiros se comprometiam a vender um terço do açúcar de terra. Note-se que desde
1603 estava proibida a compra e venda deste açúcar, sendo os infractores punidos com a perda do produto e a
coima de 200 cruzados. Mas a partir de Dezembro de 1611 ficou estipulado que a venda de açúcar brasileiro só
seria possível após o esgotamento do da terra. Para assegurar este controlo, os escravos e barqueiros foram
avisados que, sob pena de 50 cruzados ou dois anos de degredo para África, não poderiam proceder ao
embarque de açúcar sem autorização da câmara. Em 1657 a proporção de cada açúcar era de metade.
Após a Restauração da independência de Portugal o comércio com o Brasil foi alvo de múltiplas
regulamentações. Primeiro foi a criação do monopólio do comércio com o Brasil, através da Companhia para o
efeito criada, depois o estabelecimento do sistema de comboios para maior segurança da navegação. A esta
situação, estabelecida em 1649, ressalva-se o caso particular da Madeira e Açores, que a partir de 1650
passaram a poder enviar, isoladamente dois navios com capacidade para 300 pipas com os produtos da terra,
que seriam depois trocados por tabaco, açúcar e madeiras. Mais tarde, ficou estabelecido que os mesmos não
podiam suplantar as 500 caixas de açúcar. O movimento das duas embarcações da Madeira fazia-se com toda a
descrição, conforme recomendava o Conselho da Fazenda, mediante as licenças e a sua entrega deveria ser
feita no sentido de favorecer todos os mercadores da ilha. Alguns destes navios, fora do número estabelecido
para a ilha, declaram sempre serem vítimas de um naufrágio ou de ameaças de corsários, o que não os
impedem de descarregarem sempre algumas caixas de açúcar. Será esta uma forma de iludir as proibições
estatuídas? Todavia os infractores sujeitavam-se a prisão.
15
Após a Restauração da independência de Portugal o comércio com o Brasil foi alvo de múltiplas
regulamentações. Primeiro foi a criação do monopólio do comércio com o Brasil, através da Companhia para o
efeito criada, depois o estabelecimento do sistema de comboios para maior segurança da navegação. A esta
situação, estabelecida em 1649, ressalva-se o caso particular da Madeira e Açores, que a partir de 1650 passaram
a poder enviar, isoladamente dois navios com capacidade para 300 pipas com os produtos da terra, que seriam
depois trocados por tabaco, açúcar e madeiras. Mais tarde, ficou estabelecido que os mesmos não podiam
suplantar as 500 caixas de açúcar.
O açúcar foi, durante mais de um século, o principal activador das trocas da Madeira com o exterior.
Para acatar as dificuldades sentidas com a introdução no mercado europeu a coroa a intervir no sentido de
manter um comércio controlado, que a partir de 1469 passou a ser feito sob o permanente olhar do senhorio e
coroa. A situação manteve-se até 1508, altura em que a coroa aboliu o regime de contrato. A partir de uma das
medidas tomadas pela coroa (o contingentamento de 1498) para defesa do mercado do açúcar madeirense
poder-se-á fazer uma ideia dos principais mercados consumidores. As praças do mar do norte dominavam o
comércio, recebendo mais de metade das escápulas estabelecidas: aqui a Flandres adquire uma posição
dominante, o mesmo sucedendo com os portos italianos para o espaço mediterrânico. Se compararmos estas
escápulas com o açúcar consignado às diversas praças europeias no período de 1490 e 1550, verifica-se que o
roteiro não estava muito aquém da realidade. As únicas diferenças relevantes surgem nas Praças da Turquia,
França e Itália, sendo de salientar na última um reforço acentuado de posição, que poderá resultar da actuação
das cidades italianas como centros de redistribuição no mercado levantino e francês.
DESTINO
ESCÁPULAS.1498
ARROBAS
FLANDRES
MERCADO.1490-1550
%
ARROBAS
MERCADORES.1490-1550
%
ARROBAS
%
40.000
33
1O5896,5
39
11375,5
2
FRANÇA
9.000
13
500
-
8469,5
2
INGLATERRA
7.000
6
1438
1
1072
-
21.000
30
140626
52
407530,5
80
7.000
6
20657
10
23798
5
15.000
13
2372,5
1
-
-
32
-
68185
13
ITÁLIA
PORTUGAL
TURQUIA
OUTROS
Os dados disponíveis para o comércio do açúcar na Madeira evidenciam a constância dos mercados
flamengo e italiano. O reino, circunscrito aos portos de Lisboa e Viana do Castelo surge em terceiro lugar com
apenas 10%. Observe-se que o porto de Viana do Castelo adquiriu, desde 1511, grande importância neste
circuito e daí com Espanha e Europa nórdica. Aliás, no período de 1581 a 1587 Viana é o único porto do reino
mencionado nas exportações de açúcar, mantendo, todavia, uma posição inferior à 1490-1550. Esta função
redistribuidora dos portos a norte do Douro ficara, já evidenciada entre 1535 e 1550, pois das cinquenta e seis
embarcações entradas no porto de Antuérpia com açúcar da Madeira, dezasseis são do norte e apenas uma de
Lisboa. Na primeira 50% são provenientes de Vila do Conde, 31% do Porto e 19% de Viana do Castelo. Aliás,
em 1505 o monarca considerava que os naturais desta região tinham muito proveito no comércio do açúcar da
ilha. Em 1538 este trato era assegurado por um numeroso grupo de grupos de mercadores daí oriundos. Entre
eles estavam Aires Dias, Baltazar Roiz, Diogo Alvares Moutinho e Joham de Azevedo. O mesmo sucede nas
trocas com o mundo mediterrânico onde se contava com os entrepostos de Cádis e Barcelona, que surgem no
período de 1493 a 1537 com os portos de apoio ao comércio com Génova, Constantinopla, Chios e Águas
16
Mortas16.
Os dados da exportação para o período de 1490 a 1550, testemunham esta realidade: a Flandres surge
com 39% e a Itália com 52%. Todavia, é de salientar a posição dominante dos mercadores italianos na
condução deste açúcar, uma vez que eles foram responsáveis pela saída de 78% do açúcar. Note-se que no
início foram inúmeras as dificuldades para a presença de estrangeiros. Somente a partir da década de oitenta do
século XV surgiram os primeiros como vizinhos, que se comprometeram com a cultura e comércio do açúcar.
Para a segunda metade do século dezasseis escasseiam os dados sobre o comércio do açúcar madeirense.
Somente entre 1581 e 1587 temos nova informação. Neste período a ilha exportou 199.300 arrobas de açúcar
para o estrangeiro e 4830 para o porto de Viana do Castelo.
A partir de princípios do século XVI o comércio do açúcar diversifica-se. A Madeira que na centúria de
quatrocentos surgira como o único mercado de produção, debater-se-á, a partir de finais desse século, com a
concorrência do açúcar das Canárias, de Berbéria, de S. Tomé e, mais tarde, do Brasil e das Antilhas. Esta
múltipla possibilidade de escolha, por parte dos mercadores e compradores, condicionou a evolução do
comércio açucareiro. Todavia, o açúcar madeirense manteve uma situação preferencial no mercado europeu
(Florença, Anvers, Ruão), sendo o mais caro. Talvez, devido a este favoritismo encontramos com frequência
referências à escala na Madeira de embarcações que faziam o seu comércio com as Canárias, Berbéria e S.
Tomé. Esta situação deveria, de igual modo, explicar a venda de açúcar madeirense em Tenerife, no ano de
150517.
O comércio açucareiro na primeira metade do século XVI era dominado na Europa do Norte pelas ilhas
e litoral do Atlântico, nomeadamente, entre as primeiras, a Madeira, Tenerife, Gran Canaria e La Palma.
Assim, na década de trinta os navios normandos ocupados neste comércio dirigiam-se preferencialmente a esta
área. Convém anotar que a maioria das embarcações que rumavam a Marrocos, com escala na Madeira à ida e
no regresso, o que valorizou a Madeira no comércio com a Normandia. A situação dominante do mercado
madeirense perdurou nas décadas seguintes, não obstante a forte concorrência da ilha de S. Tomé que se
firmou, entre 1536 e 1550, como o principal fornecedor de açúcar à Flandres. Todavia, esta posição cimeira da
ilha de São Tomé só é patente a partir de 1539.
NAVIOS PORTUGUESES COM AÇÚCAR PAR ANTUÉRPIA 1536-155018
ORIGEM
AÇÚCAR
CARGA
MIXTA
TOTAL
CABO GUER
1
1
2
CANÁRIAS
1
5
6
CABO VERDE
1
7
8
MADEIRA
28
28
56
SÃO TOMÉ
88
38
16
LISBOA
16
16
A Madeira, que até à primeira metade do século dezasseis havia sido um dos principais mercados do
16
. Joel SERRÃO, "Nota sobre o comércio do açúcar entre Viana do Castelo e o Funchal...", in Revista de Economia, III, 209-212;Virginia RAU, A
Exploração e o comércio de sal em Setúbal, Lisboa, 1951;A.R.M., RGCMF, T. I, fls. 301-301vº, Lisboa, 15 de Março de 1505, carta régia, publ. in Arquivo
Histórico da Madeira, XVII, 453-454;Domenico GEOFFRÉ, Documenti sulle relazioni fra Genova ed il Portogallo del 1493 al 1539, Roma,1961, 18-20,
266-265, 268-270, 277-279, 284-285, 290-292, 309-310, José Maria MADURELL MARIMÓN, art. cit., 486-487, 493-494, 497-499, 501-502, 521-522, 564564.
17
. Acuerdos del cabildo de Tenerife, I, p. 83. nº 447, 26 de Março de 1505.
18
. V. M. GODINHO, ob.cit., vol. IV, pp. 98-99.
17
açúcar do Atlântico, cede lugar a outros (Canárias, S.Tomé, Brasil e Antilhas). Deste modo as rotas desviamse para novos mercados, colocando a ilha numa posição difícil. Os canaviais foram abandonados na quase
totalidade, fazendo perigar a manutenção da importante indústria de conservas e doces. O porto funchalense
perdeu a animação que o caracterizara noutras épocas. É aqui que surge o arquipélago vizinho. O comércio
canário, baseado nos mesmos produtos que o madeirense, será um forte concorrente na disputa dos mercados
nórdico e mediterrânico. Os produtos dos dois arquipélagos surgem, lado a lado, nas praças de Londres,
Anvers, Ruão e Génova. A única vantagem do madeirense resultava de ter sido o primeiro a penetrar com o
açúcar e o vinho no mercado europeu, ganhando a preferência de muitos vendedores e consumidores.
INVESTIMENTO E OSTENTAÇÃO
O Funchal foi, no decurso dos séculos XV e XVI, o principal centro do arquipélago. Desde os primórdios da
ocupação da ilha que o lugar como vila e desde 1508 como cidade foi o centro de divergência e convergência dos
interesses dos madeirenses. À sua volta anichou-se um vasto hinterland agrícola, ligado por terra e mar.
O povoado, traçado por João Gonçalves Zarco, começou por ser a sede da capitania do mesmo nome mas,
a riqueza do vasto hinterland projectou-o para ser a primeira e única cidade e porto de ligação ao mundo.
Machico perdeu a batalha, porque os seus capitães não foram capazes de acompanhar o ritmo dos funchalenses.
O progresso e importância do Funchal foi rápido. De vila passou a cidade e sede do primeiro bispado e,
depois arcebispado, das terras atlânticas portuguesas.
Tudo isto levou a que no terreno evoluí-se o traçado urbanístico e a construção de imponentes edifícios.
As palhotas, dispostas de modo anárquico, vão dando lugar a casas assoalhadas, alinhadas ao longo de
arruamentos paralelos à costa e em torno da praça que domina o templo religioso. O capitão, de Santa Catarina,
avançou encosta acima até se fixar no alto das Cruzes, no espaço dominado pelo actual Museu da Quinta das
Cruzes. Do outro lado, no Cabo do Calhau, surgiu o burgo popular, dominado pelo mar e pela rua que o ligava a
ermida de Nossa Senhora da Conceição de Baixo. Foi a partir daí que avançou aquilo a que mais tarde veio a ser
a cidade. Do nicho do cabo do Calhau, passou-se a Ribeira Santa Maria (hoje de João Gomes) e aos poucos
conquistou-se espaço aos canaviais para traçar ruas e erguer casas de sobrado. O próprio duque, D. Manuel, deu o
exemplo, doando em 1485 o seu chão de canaviais, conhecido como campo do Duque, para nele ser traçada uma
praça, construir-se a igreja, Paços do Concelho, de tabeliães e Alfândega. Ligando tudo isto estava a Rua dos
Mercadores, hoje da Alfândega, donde partiram novos arruamentos que deram espaço e vida ao quotidiano dos
mercadores. São exemplo disso a Rua do Sabão, João Esmeraldo.
AGENTES E SOCIEDADES
A Madeira atraiu a primeira vaga de mercadores forasteiros, mercê da prioridade atribuída à cultura dos
canaviais no processo de ocupação. Só o impediram as ordenanças limitativas da sua residência na ilha.
Todavia, em meados do século XV a coroa facultou a entrada e fixação de italianos, flamengos, franceses e
bretões, por meio de privilégios especiais, como forma de assegurar um mercado europeu para o açúcar. Mas,
o impacto e a influência destes foi lesivo para os mercadores nacionais e coroa, pelo que se foi necessário
impedir que os mesmos pudessem "asy soltamente trautar todos", pelo que o senhorio proibiu a sua
permanência na ilha como vizinhos. A questão foi levada às cortes de Coimbra de 1472-1473 e de Évora em
1481, reclamando a burguesia do reino contra o monopólio de facto, dos mercadores genoveses e judeus no
comércio do açúcar, propondo a sua exploração nesse regime a partir de Lisboa. O monarca comprometido
com esta posição vantajosa dos estrangeiros, mercê dos privilégios que lhes concedera actuou de modo
ambíguo procurando salvaguardar os compromissos anteriormente assumidos e as solicitações dos moradores
do reino ao estabelecer limitações à sua residência no reino e fazendo-a depender de licenças especiais. Quanto
18
à Madeira foi a impossibilidade da sua vizinhança sem licença expressa da coroa e a interditação da revenda
no mercado local. A Câmara, por seu turno, baseada nestas ordenações e no desejo expresso dos seus
moradores ordenara a sua saída até Setembro de 1480, no que foi impedida pelo senhorio. Somente em 1489
foi reconhecida a utilidade da presença dos mercadores estrangeiros na ilha, ordenando D. João II ao duque D.
Manuel, então Duque de Beja, que os estrangeiros fossem considerados como "naturaes e vizinhos de nossos
regnos"19.
Na década de noventa, de novo, os problemas do mercado açucareiro conduziram ao ressurgimento
desta política xenófoba. Os estrangeiros passaram a dispor de três ou quatro meses, entre Abril e meados de
Setembro, para comerciar os seus produtos, não podendo ter loja e feitor na cidade. Somente em 1493 D.
Manuel reconheceu o prejuízo que as referidas medidas causavam à economia madeirense, afugentando os
mercadores, pelo que revogou todas interdições anteriormente impostas20. As facilidades concedidas à estadia
destes forasteiros conduziram à sua assiduidade bem como à fixação e intervenção na estrutura fundiária e
administrativa.
A comunidade de mercadores estrangeiros na Madeira foi dominada pela presença de italianos,
flamengos e franceses, que surgem no Funchal atraídos pelo tão solicitado "ouro branco". Os primeiros e de
entre eles os florentinos e genoveses foram, desde meados do século XV, os principais agentes do comércio do
açúcar alargando depois a sua actuação ao domínio fundiário, possível por meio da compra e laços matrimoniais. Na década de setenta, mediante o contrato estabelecido com o senhorio da ilha, detinham já uma
posição maioritária na sociedade criada para o comércio do açúcar, sendo representados por Baptista
Lomellini, Francisco Calvo e Micer Leão. No último quartel do século juntaram-se Cristóvão Colombo, João
António Cesare, Bartolomeu Marchioni, Jerónimo Sernigi e Luis Doria. A este grupo seguiu-se, em princípios
do século XVI, outro mais numeroso que alicerçou a comunidade italiana residente, destacando-se, aqui,
Lourenço Cattaneo, João Rodrigues Castigliano, Chirio Cattano, Sebastião Centurione, Luca Salvago,
Giovanni e Lucano Spinola.
O estrangeiro para manter a amplitude de operações comerciais nas ilhas contava com um grupo de
feitores ou procuradores: Gabriel Affaitati, Luca Antonio, Cristovão Bocollo, Matia Minardi, Capella e
Capellani, João Dias, João Gonçalves e Mafei Rogell. Note-se que o grupo inicial é, na sua maioria,
constituído por italianos, ligados ao comércio do açúcar, e que os segundos pertencem a algumas famílias mais
influentes da ilha.
Os mercadores-banqueiros de Florença destacaram-se nas transacções comerciais e financeiras do
açúcar madeirense no mercado europeu. A partir de Lisboa, onde usufruíam uma posição privilegiada junto da
coroa, controlaram uma extensa rede de negócios que abrange a Madeira e as principais praças europeias:
primeiro conseguiram da Fazenda Real o quase exclusivo do comércio do açúcar resultantes dos direitos reais
por contrato directo a que se seguiu o exclusivo dos contingentes estabelecidos pela coroa em 1498. Assim,
tivemos Bartolomeu Marchioni, Lucas Giraldi e Benedito Morelli com uma intervenção marcante no trato do
açúcar, na primeira metade do século XVI. A manutenção desta rede de negócios foi assegurada pela acção
directa dos mercadores, dos seus procuradores ou agentes sub estabelecidos. Benedito Morelli em 1509-1510
tinha na ilha, como agentes para o recebimento do açúcar dos quartos, Simão Acciaiuolli, João de Augusta,
Benoco Amador Cristóvão Bocollo e António Leonardo. Marchioni em 1507-1509 fazia-se representar em
operações idênticas por Feducho Lamoroto. João Francisco Affaitati, cremonês, agente em Lisboa de uma das
19
. F. MAURO, ibidem, p. 225; ARM, RGCMF, T, I, fls. 5vº-6, Lisboa 6 de Octubro de 1471, carta régia sobre o trauto do açúcar, in Arquivo Histórico da
Madeira, Xv, 57; ibidem, fls. 148-148vº, Breja, 5 de Março de 1473, carta da infanta C. Beatriz acerca dos estrangeiros, in Arquivo Histórico da Madeira,
XV, 68; H, Gama BARROS, Ibidem, X, 152-153; Ibidem, Vol. 330; V. RAU, O açúcar na Madeira /.../, p. 26, nota 27; Monumenta Henricina, XV,
Coimbra, 1974, 87-89;ARM, CMF, nº 1298, fl. 37, 22 Dezembro de 1484; Ibidem, fl. 68, 15 de Abril de 1486; Ibidem, fl 87vº, 7 de Junho de 1486; ARM,
RGCMF, T. I, fls. 292.293, Lisboa, 7 de Agosto de 1486; ANTT, Gavetas, XV-5-8. Évora, 22 de Dezembro de 1489, sumariado in As Gavetas da Torre do
Tombo, IV, Lisboa, 1964, 169-170.
20
. H. Gama BARROS, ibidem, X, 155; Fernando Jasmins PEREIRA, Alguns elementos para o estudo da Historia económica da Madeira [...], 139-162;
ARM, RGCMF, T. I, fls. 262vº, Torres Vedras, 12 de Outubro de 1496, in Arquivo Histórico da Madeira, XVII, 350-358; ibidem, nº 1302, fls. 83-83vº, 26 de
Novembro de 1496; ARM, RGCMF, T. I, fls. 291vº-292, Lisboa 22 de Março de 1498 in Arquivo Histórico da Madeira, XVII, 369. Veja-se Alvaro Rodrigues
de AZEVEDO "Anotações", in Saudades da Terra, Funchal, 1873, 681-682.
19
mais importantes companhias comerciais da época, participou activamente neste comércio entre 1502 e 1526,
por meio de contratos de compra e venda dos açúcares dos direitos reais (1516-1518, 1520-1521 e 1529) e
pagamentos em açúcar a troco de pimenta. O mesmo actuou, ainda, em sociedade com Jerónimo Sernigi, João
Jaconde, Francisco Corvinelli e Janim Bicudo, quer isoladamente, tendo para o efeito como feitores e
procuradores na ilha, Gabriel Affaitati, Luca António, Cristóvão Bocollo, Capela de Capellani, João Dias, João
Gonçalves, Matia Manardi e Maffei Rogell.
A afirmação deste grupo de mercadores na sociedade madeirense foi evidente, sendo resultado do
usufruto de privilégios reais e do relacionamento familiar. A sua intervenção é notada na estrutura
administrativa, abrangendo os domínios mais elementares do governo, como a vereação e as repartições da
fazenda, todas com intervenção directa na economia açucareira. São maioritariamente proprietários e
mercadores de açúcar. Instalaram-se nas terras de melhor e maior produção e tornaram-se nos mais
importantes proprietários de canaviais. Assim, sucedeu com Rafael Cattano, Luis Doria, João e Jorge
Lomelino, João Rodrigues Castelhano, Lucas Salvago, Giovanni Spinola, João Antão, João Florença e Simão
Acciaiuolli e Benoco Amatori.
Também, os franceses e flamengos, a exemplo dos italianos, surgem na ilha, desde finais do século
XV, atraídos pelo rendoso comércio do açúcar. No entanto, não se enraizaram na sociedade insular, mantendo
uma condição errante. O seu interesse é única e exclusivamente a aquisição do açúcar a troco dos seus
artefactos, alheando-se da realidade produtiva e administrativa. O caso de João Esmeraldo é a excepção. Os
franceses afirmaram-se pelas operações de troca em torno do açúcar, enquanto os flamengos mantiveram uma
posição subalterna e mesmo como grupo interveniente no mercado madeirense. Os franceses tiveram uma
presença muito activa no comércio do açúcar, na primeira metade do século XVI. Eles surgem com frequência
nas comarcas do Funchal, Ponta do Sol, Ribeira Brava e Calheta, onde adquiram grandes quantidades de
açúcar que transportavam aos portos franceses nas suas embarcações. Neste trato evidenciaram-se mestre
António, Archelem, António Coyros, António Caradas e Francisco Lido. Os últimos aliavam à Madeira a rede
de negócios das Canárias, que surge como ramificação das praças nórdicas e andaluzas.
As escápulas, até 1504, e o produto dos direitos reais eram canalizados ao mercado europeu, quer por
carregação directa, quer ainda, por negócio livre ou a troco de pimenta. Este açúcar era arrendado por
mercadores ou sociedades comerciais, sedeados em Lisboa, sendo de destacar a actuação dos italianos, como
João Francisco Affaitati e Lucas Salvago.
As operações comerciais em torno do açúcar, no período de 1501 e 1504, estiveram centralizadas em
mercadores ou sociedades comerciais que, a partir de Lisboa, controlaram esse trato por meio de uma
complicada rede de feitores ou procuradores. A sua intervenção, que se apresentava dominante nos três
primeiros decénios do século, decresceu de forma acentuada na última década. Isto atesta que os mercadores
estrangeiros, em face da conjuntura de instabilidade do mercado açucareiro madeirense nos primeiros trinta
anos abandonaram o seu comércio fazendo-o substituir pelo de outras origens.
A presença de italianos na Madeira deriva, não só, da sua forte implantação na península e manifesto
empenho na revelação do novo mundo, mas também, da ilha se tornar numa importante área de produção e
comércio do açúcar. Em Portugal e Castela eles procuraram os portos ribeirinhos de maior animação
comercial, e aí se evidenciaram como mercadores, mareantes e banqueiros. Aqui, os oriundos de Génova e
Florença, cidades de grande animação comercial e marítima, abriram, nos locais de fixação, novas vias para o
comércio com o mercado mediterrânico. A partir de Lisboa ou Cádis intervém, primeiro, no comércio
peninsular, e, depois, nas navegações e actividades de troca no espaço atlântico. Esta situação torna-se
evidente com a intervenção de António de Noli e Alvise de Cadamosto.
Os italianos, para além de divulgadores de novas técnicas comerciais, foram, também, quem, depois dos
árabes, esteve na origem da expansão de algumas culturas, como a cana-de-açúcar. A posição charneira da
península itálica propiciara a hegemonia no mercado Mediterrâneo, aí foram eles principais interessados no
comércio de açúcar oriental. Por isso era inevitável a sua presença na expansão para Ocidente da cultura e
comércio: primeiro em Chipre e Sicília e, depois, em Valença e no Algarve.
20
O maior ou menor impacto da sua presença, depende da dimensão adquirida por esta cultura. Deste modo
no Mediterrâneo Atlântico  mais elevada a sua presença na Madeira e nas Canárias, do que nos Açores21.
Note-se que em ambos os arquipélagos eles adquiriram uma posição proeminente na agricultura e comércio,
sendo o açúcar o principal interesse.
De acordo com a informação de Jerónimo Dias Leite, o Infante D. Henrique havia mandado buscar à
Sicília, na década de vinte, canas "pera se possarem na ilha"22, mas Valentim Fernandes23 referia em 1506 que
elas teriam vindo de Valença, onde então se cultivavam. Cadamosto24 ao descrever, em meados do século XV,
a ilha estabelece inúmeras comparações entre a Madeira e a Sicília, mas em relação ao açúcar refere apenas
que "o dito senhor mandou pôr nesta ilha muitas canas,...".será que ele se esqueceu de referir a relação entre
ambas as ilhas através da referida cultura?
A par disso convém salientar que no Algarve25 ou em Valença a esta cultura se encontravam associados os
italianos, nomeadamente genoveses. De certo modo, poder-se-á considerar que os genoveses acompanharam o
périplo da cana-de-açúcar para Ocidente e depois além-Atlântico. Por outro lado este empenho genovês no
mercado atlântico terá a ver com a perda de posição mo mercado mediterrânico, mercê da rivalidade com
Veneza e das ameaças propiciadas com o avanço turco. A perda de influência no mercado açucareiro cipriota
foi compensada com a intervenção privilegiada nas ilhas atlânticas26. Esta situação é evidente na Madeira e nas
Canárias, onde a comunidade italiana será dominada, desde o princípio, pelos genoveses. A eles associaramse, na primeira ilha, os florentinos 27. Os venezianos continuaram até meados do século XVI empenhados no
mercado do Mediterrâneo Oriental, de que Chipre foi, a partir de 1489, um dos principais pilares.
A rede de negócios estabelecida pelos italianos no Novo Mundo, mantêm as mesmas características das
que detinham na Europa do Norte e Mundo Mediterrânico. A família foi a chave do sucesso, a garantia da sua
execução em plena segurança e a continuidade das referidas operações28. A partir daqui foi possível
estabelecer a estrutura dos seus negócios, que tinha como porto de divergência a cidade de origem. No caso do
espaço atlântico podia ser Cádis ou Lisboa, importantes centros de confluência e divergência das rotas
comerciais do Novo Mundo.
Tendo em conta a importância que a Madeira e as Canárias assumiram no comércio do açúcar nos séculos
XV e XVI, parece-nos inevitável a presença da comunidade italiana, nomeadamente genovesa, nos principais
portos de ambas as ilhas29. As representações em Lisboa e Cádis de algumas casas ramificaram-se até aos
portos do Funchal, Las Palmas e Santa Cruz de Tenerife e, a partir daí, surgiu uma nova rede de negócios. 
de realçar a existência em ambos os arquipélagos de agentes ou familiares da mesma casa: os Adornos,
Lomelinos, Jutinianos, di Negros, Salvagos, Espindolas e Dorias30. Todavia, não se deverá esquecer que não
existe perfeita consonância entre a afirmação da cultura em ambos os arquipélagos. As Canárias surgiram no
momento de crise do mercado madeirense, podendo ser esta uma forma clara de acompanharem a evolução da
cultura e comércio. Acresce, ainda, que o comércio do açúcar madeirense esteve, quase sempre, sujeito a um
apertado sistema de controlo por parte da coroa, o que não sucede nas Canárias, onde as operações estavam
21
.Alberto VIEIRA, O Comércio Inter-Insular nos Séculos XV e XVI, Funchal, 1987, 79.
.Descobrimento da Ilha da Madeira (...), Lisboa, 1947, 102.
. O manuscrito de Valentim Fernandes, Lisboa, 1940, p. 111.
24
. "Navegações...", in A Madeira vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, 36-37.
25
. Note-se que em 1404 é referenciado em Quarteira um João da Palma, mercador genovês, com terras de canas, veja-se H. Gomes de Amorim PARREIRA,
"História do Açúcar em Portugal", in Anais (Junta de Investigações do Ultramar, vol. VII, t. 1, 1952, 18-19.
26
. Confronte-se F. C. LANE, Venise une République maritime, Paris, 397-398.
27
. Confornte-se Alberto VIEIRA, ob. cit., quadros ni 1 e 3, 8-9-10.
28
. F. C. LANE, ob. cit., 198; Manuel LOBO CABRERA, El Comercio Canario Europeo Bajo Felipe II, Funchal, 1988, 197.
29
. Sobre os italianos em Canrias veja-se I. M. Gomez GALTIER, "El genoves Francisco de Cerca, prestamista y comerciante de orchilla en Las Palmas de Gran
Canaria en el decenio 1517-1526", in Revista de Historia, XXIX, La Laguna, 1963-64; L. de LA ROSA OLIVEIRA, "Francisco Riberol y la colonia genovesa en
Canarias", in Estudos Históricos sobre las Canarias Orientales, Las Palmas, 1978, 169-289; M. LOBO CABRERA, "Los mercadores italianos y el comercio azucarero
canario en la primera metad del siglo XV", in Aspecti della vita economica medieval, Firenze, 1985, 268-282; M. MARRERO RODRIGUES, "Genoveses en la
colonización de Tenerife 1496-1509", in Revista de Historia, XVI, La Laguna, 1960, 52-65; H. SANCHO DE SOPRANIS, "Los Sopranis en Canarias 1490-1620", in
Revista de Historia, La Laguna, 1951, 318-336.
30
. Confornte-se Alberto VIEIRA, O Comércio Inter-Insular (...), quadros nis. 1 e 3; Manuel LOBO CABRERA, El Comercio Canario Europeo Bajo Felipe II, pp.
188-198.
22
23
21
mais facilitadas31.
A presença da comunidade italiana na ilha, não obstante as resistências iniciais, foi salutar, porque eles,
para além de propiciar o maior desenvolvimento das relações de troca em torno do açúcar, foram portadores
das novas técnicas e meios de comércio. A eles se deve o incremento das companhias e sociedades comerciais
e o uso das letras de câmbio nas vultuosas operações comerciais. Os florentinos experientes nas transacções
financeiras, surgem aí com grande destaque, sendo de realçar a acção de Feducho Lamoroto e de Francisco
Lape32. A par disso a rede de negócios em torno do açúcar, foi recriada e incentivada por estes mercadores, que
através de familiares e amigos lançaram uma forte rede de negócios.
O seu domínio atingiu, não só, as sociedades criadas no exterior e com intervenção na ilha, mas também, o
numeroso grupo de agentes ou feitores e procuradores sub estabelecidos no Funchal. são várias as sociedades,
em que intervém os italianos, para o comércio do açúcar ou arrendamento dos direitos reais. Aí destacaram-se
Bendito Morelli e Bartolomeu Marchioni, sobrinho e tio, que viviam em Lisboa e actuavam em conjunto no
trato do açúcar por meio de outros italianos, que foram na ilha seus agentes, como Feducho Lamoroto, Benoco
Amador. A par disso participaram em sociedade com outros italianos - Simão Acciauolli, luís Dória e António
Spínola - no arrendamento dos direitos de 1516.1518 33. Entretanto, no período de 1506 a 1508, Benoco
Amador, tio de Simão Acciauolli, que foi procurador destes, havia participado noutras duas sociedades para
arrendamento dos direitos do açúcar e da alfândega, com outros compatricios - Quirino Catanho, Feducho
Lamoroto.
Quanto ao comércio de açúcar, desde a década de setenta, que estes vinham actuando em sociedades para
tal fim. Na primeira que conhecemos participavam Batista Lomelino, Francisco Calvo e Micer leão, tendo
como objectivo o comércio de todo o açúcar produzido na ilha. A partir de 1498 com o estabelecimento das
escápulas de comércio surge, em 1502, uma sociedade em que intervém António Salvago, João Francisco
Affaitati, Jerónimo Sernigi, Francisco Corvinelli e João Jaconde, todos italianos, para a venda das trinta mil
arrobas das escápulas para os portos mediterrâneos - águas Mortas, Liorne, Roma e Veneza. Note-se que o
primeiro destes detinha na ilha uma importante rede de feitores ou procuradores, de que se destacam Gabriel
Affaitati, Luca António, Cristóvão Bocollo, Capello de Capellani, João Dias, Matia Manardi e Maffei Rojel34.
Tudo isto girava em torno do comércio do açúcar de que o mundo mediterrânico, dominado pelos italianos,
deveria consumir 43% do valor exportado da ilha, conforme o estabelece a escápula de 1498. Aqui 30% ficava
em Itália, sendo 42% para Veneza, 36% para Génova e os restantes 22% para porto Liorne e Roma.
ITÁLIA
arrobas
ESCAPULAS
MERCADO
MERCADORES
OUTROS DESTINOS
%
arrobas
%
36.000
30
78.000
70
140.626
52
130.896
49
407.530,5
80
112.900
21
Numa análise comparada, entre o valor das escápulas, o açúcar exportado e a intervenção dos mercadores
desta origem, constata-se uma plena afirmação dos italianos no comércio deste produto. Note-se que eles, de
acordo com o valor estabelecido para as escápulas, apenas tinham direito a 30% do açúcar exportado, mas na
realidade receberam no período de 1490 a 1550, mais de metade do açúcar que saiu da ilha, deste 97% foi para
aí enviado na década de 1501 a 1510. Para o período em que vigoraram as escápulas (1498-1499) apenas se
conhece a saída de 2.909 arrobas para tal destino, isto é, apenas 8% do total de arrobas para aí consignadas.
31
.Confronte-se Alberto VIEIRA, O comércio inter-insular nos s culos XV e XVI, Funchal, 1987, pp.27-40,129-137; Manuel LOBO CABRERA, El Comercio
Canario Europeo Bajo Filipe II, Funchal, 1988, pp.108-120,141-150
32
. Alberto VIEIRA, ob. cit., 59.
33
. Fernando Jasmins PEREIRA, O Açúcar Madeirense (...), 68-93.
34
. Alberto VIEIRA, ob. cit., quadros nis. 13 e 14, pp. 204-205.
22
O comércio de açúcar madeirense para Itália se processou com maior incidência no período de 1490 a
1510, momento em que este mercado e mercadores daí oriundos encontraram condições favoráveis junto da
coroa nos diversos contratos de compra de açúcar.
A par disso as operações de comércio em torno do açúcar, envolvendo italianos têm o seu apogeu na
década inicial de quinhentos, decaindo de forma acentuada nas seguintes. Aí merece destaque especial a acção
de quatro italianos que controlaram 64% do açúcar transaccionado.
ACÚCAR
MERCADORES
João Francisco Affaitati
Feducho Lamoroto
Bartolomeu Marchioni
Benedito Morelli
Matia Manardi
Outros
TOTAL
ARROBAS
%
177.907,5
28,5
32.039,5
5
51.238
8
50.348
8
134.423,5
21,5
179.604
29
625.559,5
João Francisco Affaitati, mercador cremonês de família nobre, chefe da sucursal em Lisboa da companhia
Affaitati, uma das principais da praça, surge no período de 1502 a 1529 como o principal activador do
comércio do açúcar madeirense, tendo transaccionado sete vezes mais açúcar que todos os portugueses.
Durante este período, arrematou, em 1502, as escápulas de águas Mortas, Liorne, Roma e Veneza. Ainda,
conjuntamente com Jerónimo Sernigi, João Jaconde e Francisco Corvinelli arrematou a venda do açúcar dos
direitos (1512-1518, 1520-1521, 1529) e actuou em operações diversas de compra directa de açúcar e da sua
troca por pimenta ou dúvidas35.
Para manter esta amplitude nas suas operações comerciais na ilha ele contava com um grupo numeroso de
feitores ou procuradores: Gabriel Affaitati, Luca António, Cristóvão Bocollo, Matia Minardi, Capella e
Capellani, João Dias, João Gonçalves e Mafei Rogell. Por outro lado aceitou procuração de Garcia Pimentel,
Pedro Afonso de Aguiar e João Rodrigues de Noronha. O grupo inicial era constituído, na sua maioria por
italianos, ligados ao comércio do açúcar, e os segundos a algumas famílias madeirenses mais influentes.
Também Cristóvão Colombo fora atraído pelo ouro branco e beleza das donzelas madeirenses, pois cá
esteve, certamente em Agosto de 1478, ao serviço de uma sociedade de Ludovico Centurione, por intermédio
do seu representante em Lisboa, Paolo di Negro, para comprar 2400 arrobas de açúcar e conduzi-las a Génova.
Depois disso envolveu-se matrimonialmente com uma filha de Bartolomeu Perestrelo, este também de origem
italiana, capitão do donatário no Porto Santo. A segunda situação fá-lo permanecer nas ilhas da Madeira e
Porto Santo, por algum tempo, até  sua saída para Castela, retornando às ilhas, em 1498, aquando da terceira
viagem.
Diz a tradição madeirense, baseada no testemunho de Álvaro de Azevedo36 que o mesmo, aquando da sua
35
36
. Sabe-se disso a partir de um acto notarial de 25 de Agosto de 1479 sobre o não cumprimento de um contrato de remessa de açúcar da Madeira.
. Confornte-se Manuel C. de Almeida CAYOLLA ZAGALLO, Cristóvão Colombo e a Ilha da Madeira. A casa de João Esmeraldo, Lisboa, 1945, 34-35;
23
estância no Funchal, teria repousado nos aposentos de João Esmeraldo, no Funchal. Esta dedução, sem
qualquer prova documental, parece-nos estranha pois Cristóvão Colombo nunca trocaria o convívio dos seus
compatrícios pelo fausto dos aposentos do referido mercador flamengo. Note-se que num e noutro momento
havia já no Funchal uma importante comunidade de italianos, onde predominavam os genoveses. Em 1478,
quando Colombo se deslocou pela primeira vez ao Funchal, deveria ter contactado com os seus compatrícios
Francisco Calvo, Baptista Lomelino e António Spínola. Aquando da sua segunda estância, já casado, poderia
associar-se ao convívio de outros patrícios seus, como João António Cesare, os Dórias. E, finalmente, em
1498, na terceira viagem que fez às Índias, à sua passagem pelo Funchal a comunidade italiana era muito
importante, tendo-se juntado aos já existentes, os florentinos Bartolomeu Marchioni, Jerónimo e Dinis
Sernigi37.
Em face da presença desta comunidade de italianos, dominada pelos genoveses, na ilha da Madeira com
maior destaque para o Funchal, parece-nos estranho que este se tenha alojado na casa de um flamengo, recémchegado, a quem não o ligavam quaisquer laços de convívio ou comércio. O navegador não podia ignorar os
seus compatrícios, como Baptista Lomelino e António Spínola, que já se encontravam na ilha há algum tempo,
envolvidos no comércio de açúcar. Além disso, como mercador que era deveria preferir o convívio da Rua do
mesmo nome e nunca a vivenda de João Esmeraldo, considerado geonvês por Gaspar Frutuoso38.
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37
. Manuel C. de Almeida CAYOLLA ZAGALLO, ob. cit., 34-36.
38
. ob. cit., p. 124 e 260.
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25
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A MADEIRA E O MERCADO DO AÇÚCAR Séculos XV