Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e
I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas
27 e 28 de setembro de 2011
ISSN 1982-0178
EDUCAÇÃO ARISTOCRÁTICA E O PERFIL DO EDUCADOR
Felipe Adaid
Samuel Mendonça
Direito
Centro de Ciências Humanas Sociais e Aplicadas
[email protected]
Programa de Pós-Graduação em Educação
Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas
[email protected]
Resumo: O presente trabalho foi parte dos
resultados produzidos pelo grupo de pesquisa
Direito à Educação da
Pontifícia Universidade
Católica de Campinas. A questão essencial do
trabalho foi: como pensar na educação aristocrática
e no perfil do educador? Assim, pretendeu-se
discutir se o surgimento de uma depende da outra e
sua efetiva importância. O objetivo foi realizar um
paralelo, de forma crítica, entre a figura do educador,
tendo em vista o ideal de educação na sociedade
atual, e o aristocrata de Nietzsche. O método foi a
revisão
bibliográfica,
principalmente
dos
interlocutores nietzcheanos. Neste sentido, o artigo
organizou-se de tal forma que, inicialmente, foram
apresentados os conceitos de educação e educador
numa perspectiva histórica. Também foi apresentado
o paradoxo entre as ideias de aristocracia e a
grande massa, segundo as ideias de Nietzsche. Em
seguida, discutiu-se os elementos para o
desenvolvimento
da
excelência
e
sua
caracterização, traçando as diferenças com o
educador comum.
portanto, refletir sobre o perfil do mesmo, tendo em
vista as contribuições de Nietzsche e alguns de seus
comentadores. Ademais, pretendeu-se analisar se o
desenvolvimento desta aristocracia nietzschiana
depende da figura de um educador também
aristocrático, ou seja, se a educação aristocrática é
necessária ao surgimento dele. Além disto, cogitouse sobre a importância desta educação de
excelência.
Ao analisar as raízes da palavra “educação”
já foi possível encontrar elementos que
fundamentem a essência da ideia de educação
aristocrática. O sentido romano dado à tal expressão
era de: “conduzir para fora, fazer sair, intimar,
produzir, exaltar, elevar, criar” [1]. Neste sentido, a
etimologia apontou a educação como um processo
humano que pode resumir-se em duas grandes
balizas: transformação e emancipação. Esta
transformação, adquirida pela educação, sugere as
mudanças
de
comportamentos
objetivos,
pensamentos e percepções, os quais refletem na
vida profissional e social do indivíduo. É como se,
após cada etapa de aprendizado, este indivíduo se
tornasse uma nova pessoa, com outra consciência
sobre o mundo e sobre si mesmo. Enquanto que,
por outro lado, a questão emancipatória pode ser
pensada como uma preparação do educando à vida
social e profissional, de forma crítico, autodidata e
consciente.
Até aqui tratou-se de forma sucinta da
educação como é trivialmente entendida. Ou seja,
aquela que, grosso modo, aprende-se sozinho
através da própria experiência, ou aquela que as
crianças recebem de seus pais, ou ainda aquela
aprendida nos bancos escolares e universitários.
Sendo assim, aqui já se diferencia a educação
formal – aprendida nas instituições de ensino – da
educação vulgar – desenvolvida a todo momento,
por toda a vida.
Não obstante, refletir sobre a educação
aristocrata não se resume apenas em pensar nestes
aspectos pertinente à educação citados alhures.
Esta educação de excelência pressupõe um nível
Palavras-chave: educação aristocrática, perfil do
educador, Nietzsche.
Área do Conhecimento: Ciências Humanas Educação – Fundamentos da Educação.
1. INTRODUÇÃO
Em aderências às demandas do grupo de pesquisa
Direito à Educação da Pontifícia Universidade
Católica de Campinas, o presente trabalho buscou
responder à questão: como se pode pensar na
educação aristocrática e no perfil do educador?
Logo, pretendeu-se discutir, além destes dois
elementos, se o surgimento de uma depende da
outra. Esta produção teve por objetivo apontar a
questão do perfil do educador e da educação
aristocrática, lembrando que a ideia de aristocracia é
um termo imigrado da filosofia nietzschiana. Neste
sentido, os esforços da pesquisa apontaram para
uma tentativa de se poder identificar e destacar este
educador de excelência dos demais. A intenção foi,
muito
mais
alto
de
transformação
e,
consequentemente,
criticidade,
autonomia
e
emancipação individual. Neste sentido, o estudo
revelou que a aristocracia aponta para um indivíduo
intelectualmente à frente de seu tempo, consciente
de sua própria existência e desvinculado dos valores
superegoicos impostos à sociedade hodierna.
2. MÉTODO
A metodologia utilizada para esta pesquisa foi a
qualitativa, através da revisão bibliográfica de
Nietzsche e de alguns de seus interlocutores, neste
sentido citou-se: Mendonça [2], Sobrinho [3] e
Azeredo [4]. Na parte dos resultados e discussão foi
primeiramente realizada uma introdução ao conceito
de educação, posteriormente foi proposta uma
análise às ideias de aristocracia e educação
aristocrática segundo a filosofia de Nietzsche.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Antes de se discutir propriamente as questões
pertinente à educação aristocrática e do perfil deste
educador, faz-se necessário uma introdução às
ideias de aristocrata segundo a filosofia de
Nietzsche. Para tanto, inicia-se a discussão fazendo
a ressalva de que, pelo próprio legado deste filósofo,
estabelecer conceitos derradeiros e traçar perfis
precisos e dogmáticos constitui uma leviandade. Por
este motivo, as tentativas de conceitualização do
aristocrata, da educação aristocrática e do perfil do
educador, representam mera conjectura baseada
nas produções nietzschianas e em seus
comentadores.
A ideia de aristocrata, aqui colocada, em
nada se relaciona com a acepção sócio-histórica, a
qual se opõe aos escravos e plebeus do período
clássico ou os proletários da hodiernidade. Ela está
relacionada ao radical grego άριστος – lê-se “aristós”
–, que, segundo os romanos, significava aquele que
se destaca entre muitos, o que se diferencia do
comum, o que foge da massificação e do
nivelamento [2].
Esta aristocracia se caracteriza por sua
independência, auto-referência e autodomínio em
relação a todos os outros homens. Logo, ser
aristocrata significa o distanciamento e oposição ao
populacho [3]. Por este motivo que as ideias
nietzschianas
sugeriram
uma
superioridade
intelectual, o que resultaria em um indivíduo a frente
de seu tempo.
Neste sentido, a aristocracia de Nietzsche
representa uma nova classe de homens superiores,
afastados da moral dominante vigente. O
aristocracismo está fundado na ideia de que os
homens eram por natureza desiguais: guias e
rebanhos,
homens
completos
e
homens
fragmentados, homens bem-sucedidos e homens
fracassados [3]. Por este motivo, seria inútil uma
tentativa de se igualar os homens, uma vez que se
entendeu o homem como um ser idiossincráticos, ou
seja, cujas potências e características apresentamse de forma singular.
E como surgiria um aristocrata? Pôde-se
compreender, segundo as ideias nietzschianas, que
as pessoas não nascem aristocratas, não existe um
aristocrata inato. É através do trabalho árduo no
exercício intelectual que o homem ganha a
emancipação do aristocrata. Este desenvolvimento
das faculdades intelectivas se daria possivelmente
na juventude através de suas experiências e contato
com o conhecimento. Iniciado durante a meninice,
este processo nunca terminaria, visto que o homem
tem a capacidade de aprender e se superar a cada
dia.
Uma vez que só se atingiria este grau de
superioridade mediante um penoso e difícil trabalho
de transformação e emancipação intelectual, a
aristocracia deveria ser vista como uma atividade
para poucos. Já que a grande maioria das pessoas
assume sua fraqueza e debilidade, preferindo
continuar sendo passivos partícipes de suas vidas
na sociedade.
Através da revisão bibliográfica, pôde-se
entender também que a aristocracia a que Niezsche
se referia não representava um estado de apogeu
humano. Este patamar de sabedoria e emancipação
intelectual aristocrático seria um processo contínuo,
devendo ser exercitado e melhorado pari passu.
Além disso, o aristocrata deveria ter a
autossuperação como uma característica peculiar,
no sentido de que ele deveria ter consciência de
seus limites e tentar se superar.
Se o aristocrata representa esse homem de
excelência, superior à massa, como seria possível
pensar em uma educação aristocrática? Esta
espécie de educação deveria ser tão especial e
superior
quanto
esta
categoria
humana.
Provavelmente ela tenderia a possuir como
princípios básicos a busca da máxima emancipação
e transformação. Então, um ensino de excelência
representaria uma busca pelo pensamento crítico e
autodidático, em uma tentativa de se distanciar da
massificação.
E como isso seria possível? De acordo com
Nietzsche, uma forma segura de propagar o
pensamento aristocrático poderia ser a atuação dos
próprios aristocratas servindo-se de professores uns
dos outros[4]. Em analogia a este pensamento, seria
razoável pensar que a atuação de um professor
aristocrata bastaria para garantir uma educação
aristocrata? Não seria o professor, consciente de
sua função de educador, um aristocrata inato?
Pôde-se cogitar que a educação vigente
está muito distante do ideal de educação
aristocrática. Por mais que a função de todo
educador seja a transformação de seu aluno,
entendeu-se aqui que nem todos os educadores se
preocupam com esta transformação emancipatória e
crítica da aristocracia. Talvez devido a suas próprias
limitações, muitos educadores se sujeitam à mera
transferência de saber.
Com base nas fontes pesquisadas, sugeriuse que a educação aristocrática está vinculada
necessariamente à figura de um aristocrata, caso
contrário ela realmente fosse uma educação de
excelência. Neste sentido, não se pôde conceber a
ideia da existência de uma educação de excelência
proferida por um educador qualquer.
Outro aspecto revisado na aristocracia, que
influenciaria esse tipo de educação, foi a questão da
individualidade. O aristocrata se distanciaria do
popular prosaico por este ser uma atividade
individual de superação e desenvolvimento. Logo,
não seria possível uma total proliferação de
aristocratas, pois este nivelamento populacional
levaria à própria massificação.
Destarte, a educação aristocrática também
não poderia ser vista com forma de paradigma
pedagógico, ou mesmo ter questionada sua
democratização. Tornar os indivíduos igualmente
emancipados, críticos e autodidatas resultaria em
um nefasto
processo de nivelamente e
massificação.
Assim, a educação aristocrática nomearia a
“diferença” como possibilidade de emancipação do
homem, estimulando o desenvolvimento de suas
potências, ao contrário da educação ordinária que
privilegiava o adormecimento humano e firma-se na
igualdade como nivelamento social [2]. Por este
motivo, os resultado apontaram que, da mesma
forma que a aristocracia, a educação de excelência
também deveria ser entendida como uma atividade
elitista e para poucos.
Uma instituição poderia então se valer de
possuir um educador aristocrata para lecionar
determinada disciplina, entretanto, isto não
significaria que seus alunos se tornariam
aristocratas. Pois, como mencionado algures, esta
atividade era para a minoria e um desenvolvimento
das potências intelectuais, somente seria alcançado
através de exaustiva transformação individual.
A educação formal não deveria se restringir
na singela transmissão de conhecimentos técnicos,
sem a adequada transformação dos educandos em
seres pensantes e conscientes. Por este motivo
pôde-se imaginar que possivelmente um educador
de excelência possa proporcionar maiores
possibilidades de formação dentro de uma
instituição de ensino.
5. CONCLUSÕES
Através das ideias de Nietzsche e de alguns de seus
comentadores citados no decorrer deste trabalho,
pôde-se concluir que esta aristocrata sugeria um
desenvolvimento intelectual que torna o indivíduo
distinto de seu meio. Neste diapasão, a educação
aristocrática
também
representou
igual
superioridade. Esta também se distinguiu das
demais espécies de educação pela preocupação
com a excelência de ensino.
Como já discutido, o desenvolvimento da
aristocracia era inerente à educação aristocrática,
uma vez que esta depende das aptidões e do
desenvolvimento pessoal. Não obstante, isto não
significaria que uma educação aristocrática de nada
adiantaria aos educandos.
Provavelmente
uma
educação
de
excelência seja muita mais proveitosa e
transformadora do que um processo educativo
comum. Uma vez que esta desenvolveria muito mais
as habilidades críticas e reflexivas. Em suma, os
educandos poderiam se tornar intelectualmente
muito mais emancipados, autodidatas e conscientes.
Além disso, pôde-se concluir que talvez as chances
de alguém vir a se tornar um aristocrata
aumentariam, caso ele se valesse de tal educação
de excelência.
REFERÊNCIAS
[4] Azeredo, V. D. (org.) (2008). Nietzsche: filosofia e
educação. Ijuí: Unijuí.
[1] Dicionários Acadêmicos.(2008) Latim-Português;
Português-Latim. Porto Editora: Porto, Portugal.
[2]
Mendonça,
Samuel.
(2009)
Educação
artistocrática em Nietzsche: perspectivismo e
autossuperação do sujeito. (Doutorado em
Educação). Universidade Estadual de Campinas,
Campinas.
[3] Sobrinho, N. C. M. (2007). Apresentação. In
Nietzsche, F. Escritos sobre Política. RJ: PUC Rio.
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