1 A BRINCADEIRA NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL Patrícia Costa da Silva1 Profa Dra Sheila Maria Rosin2 RESUMO O presente artigo tem como objetivo compreender o papel da brincadeira como ferramenta pedagógica no desenvolvimento infantil, em crianças de 0 à 6 anos de idade. Metodologicamente realizamos uma pesquisa bibliográfica a partir da qual apresentamos, segundo os autores de referência sobre o assunto, posições favoráveis acerca do brincar como fonte de lazer e de conhecimento. Neste sentido ele assume papel didático e deve ser explorado no processo educativo. Para isso, primeiramente definirmos o surgimento do conceito de infância e, em seguida, analisamos a importância da brincadeira para o desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional da criança, com a finalidade de compreender o seu papel no desenvolvimento infantil. Palavras–chave: Brincadeira. Criança. Desenvolvimento infantil. 1 INTRODUÇÃO Ao falarmos em brincadeira, jogos, movimentação, logo pensam os em alegria, horas de diversão, muita bagunça e, em seguida, relacionamos com infância, embora não se restrinja apenas às crianças, mas é predominante nesta fase da vida. Entretanto, é necessário diferenciarmos o significado de brinquedo, brincadeira e jogos, pois embora tenham em comum a ludicidade, apresentam algumas especificidades. Segundo Kishimoto (1996), o brinquedo é o objeto que a criança utiliza na brincadeira, a ação exercida sobre o brinquedo, é o brincar, e o jogo pode ser definido como as regras que organizam as ações da brincadeira. Por exemplo, um menino ao brincar que está dirigindo um caminhão está tendo as mesmas ações observadas no adulto, deste modo, obedece às regras estabelecidas na sociedade. 1 2 Acadêmica do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá-Paraná. Orientadora. Professora do Departamento de Teoria e Prática da Universidade Estadual de Maringá. 2 Essas diversas ações lúdicas praticadas espontaneamente pelas crianças incluem sempre a experiência de quem brinca. Dessa maneira, as crianças menores reproduzem as ações do seu cotidiano, como por exemplo, brincar de casinha, ou andar a cavalo. A brincadeira é uma forma natural da criança se divertir. A criança brinca para conhecer a si mesma e aos outros em suas relações recíprocas e para aprender as normas sociais de comportamento, que não implica em compromissos e assim, envolve comportamentos espontâneos e geradores de prazer. Brincando a criança se diverte, faz exercícios, constrói seu conhecimento, aprende a conviver com outras pessoas, enfim, descobre o mundo, se realiza e aprende. Assim, o brincar faz com que a criança se desenvolva com mais identidade, autonomia, saúde, aumente sua criatividade e a sua sensibilidade. Desse modo, nosso objetivo neste trabalho é de compreender o papel da brincadeira como ferramenta pedagógica no desenvolvimento infantil, em crianças de 0 à 6 anos de idade.Para tanto, fomos buscar em autores de referência sobre o tema: Postman (2002), Vygotski (2007), Leontiev (2006), Kishimoto (2001), entre outros, subsídios teóricos para fundamentar nossa investigação. Para alcançarmos nossa finalidade, apresentamos ao longo deste artigo, alguns aspectos referentes ao brincar, à infância e seus aspectos históricos, a influência do mundo contemporâneo sobre o brincar, na psicologia histórico-cultural e no âmbito escolar. 2 O BRINCAR E A INFÂNCIA: ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS Desde a Antiguidade as atividades lúdicas ocupavam um lugar significativo na sociedade. No entanto, embora essas atividades façam parte da vida do ser humano desde os primórdios da humanidade, nem sempre apresentaram aspectos positivos. Segundo Postman (2002), no período Medieval, as crianças eram consideradas invisíveis, inexistentes. O autor postula que a infância terminava aos sete anos, uma vez que nessa idade elas podiam dizer e compreender as mesmas 3 coisas que os adultos. O menino aos sete anos já era considerado homem em todo o feitio, menos para o amor e para guerra. As crianças compartilhavam os mesmos jogos com adultos, os mesmos brinquedos, as mesmas histórias de fadas. Viviam juntos, nunca separados. A festa vulgar de aldeia pintada por Brueghed, mostrando homens e mulheres embriagados, apalpando–se com luxúria desenfreada, inclui crianças comendo e bebendo com os adultos (POSTMAN, 2002, p.30). As crianças viviam no mesmo meio social dos adultos, que não tinham nenhum pudor com as mesmas, consideradas como “adultos em miniatura”. Dessa maneira, podemos dizer que no mundo Medieval não havia nenhuma concepção de desenvolvimento infantil e nem um entendimento de educação como forma de preparação para o mundo adulto, sobre pré-requisitos necessários para uma aprendizagem sequencial. Conforme Postman (2002), todas as importantes interações sociais aconteciam oralmente, por meio da fala, o que facilitava a entrada das crianças no mundo dos adultos. A partir do século XVI, com o surgimento da imprensa e da alfabetização socializada, um novo ambiente comunicacional ganhou forma, pois: [...] a tipografia criou um novo mundo simbólico que exigiu, por sua vez, uma nova concepção de idade adulta. A nova idade adulta, por definição, exclui as crianças. E como as crianças foram expulsas do mundo que elas pudessem habitar. Este outro veio ser conhecido como infância (POSTMAN, 2002, p. 34). O conceito de infância surgiu no século XVIII quando os adultos passaram a ver as crianças como uma classe diferente, que necessitava de proteção e separação do mundo deles. Uma classe única que possuía modos próprios de vestir, de falar, de pensar e aprender. Quando o modelo de infância tomou forma, o modelo de família moderna também foi transformado. Conforme Postman (2002), a tarefa do adulto passou a ser preparar a criança para a administração do seu mundo simbólico, ou seja, a criança não se define sozinha, o adulto vai cuidar e prepará-la ela para o seu amadurecido. Na década de 1850, a infância não era apenas um princípio, mas um fato social. Diante deste novo cenário, abre-se espaço para o surgimento da psicologia infantil. Conforme Kishimoto (1996) foi Froebel, reconhecido como “psicólogo da infância,” um dos primeiros teóricos a considerar o brincar a atividade mais importante da infância, pois, além de favorecer o desenvolvimento humano, é 4 fonte libertadora de prazer e autodeterminação. A psicologia iniciada no século XIX desabrochou no século XX, com inúmeras pesquisas que discutiam a importância do brincar. A infância torna-se tema discutido por vários segmentos da sociedade, inclusive no âmbito legal, como na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB): Art. 29 A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem com finalidade o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Art. 30 A educação infantil será oferecida em: I-creches ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – pré – escolas para crianças de quatro a seis anos de idade. Art. 31 Na educação infantil a avaliação far–se–á mediante acompanhamento e registro de seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental (BRASIL,1996). Da leitura desses artigos, é importante destacar, além do que já comentamos a respeito da educação infantil como primeira etapa da educação básica, que: torna–se imprescindível às funções de ensinar e cuidar, que o educador infantil desenvolva capacidade de observação e de registro do desenvolvimento da criança e que reflita permanentemente sobre sua prática, aperfeiçoando-a. Destacamos também a Constituição do Brasil, que no seu artigo 227 afirma: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988, 142, grifo nosso). Reafirmando a Constituição do Brasil de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é dever da família do poder público e da sociedade em geral, assegurar à criança e ao adolescente o direito à vida, a educação, ao lazer, e de brincar, salvo de qualquer negligência, ou seja, tais documentos são importantes conquistas obtidas, que colocam a ação de brincar como prioridade. Após todas essas conquistas em 2009 é fixado as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil onde enfatiza a importância da brincadeira nas propostas pedagógicas que podemos observar no artigo 8° abaixo: a proposta pedagógica das instituições de Educação Infantil deve ter como objetivo garantir à criança acesso a processos de apropriação, 5 renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças(BRASIL,2009 P.20). Contudo como vimos nos documentos citados à cima o lazer, a aprendizagem, a saúde, a proteção e a brincadeira na vida das crianças são motivos de preocupação de vários segmentos da sociedade. 3 O BRINCAR E A CRIANÇA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO Com as inovações ocorridas na sociedade, a inversão de valores sociais, e a saída da mulher para o mercado de trabalho, que se vê obrigada a deixar seus filhos em casa ou em Centros de Educação Infantil, muda-se a família e, inevitavelmente a vida das crianças que ficaram desprovidas de situações que favorecem o brincar. Borba (2006) nos leva a refletir que no mundo contemporâneo não há espaço para as crianças brincarem de pipa, bolinha de gude, polícia e ladrão, elástico, entre outras brincadeiras que exigem tempo e espaço. Isso ocorre, principalmente, nas grandes cidades, em virtude da violência, do excesso de trabalho dos pais, da competição e das novas cobranças da vida moderna, que acabam atingindo a vida das crianças. O meio encontrado por muitos pais para contornar a falta de espaço e de tempo foi o de colocar seus filhos na frente da televisão, que ficou conhecida como a babá eletrônica. Segundo Postman (2002), com a televisão, a hierarquia da informação desmorona, e acabam as barreiras entre adultos e crianças, pois ao contrário dos livros, na televisão não há hierarquia de compreensão, a imagem é para todos. O autor especifica o ano de 1950, quando a televisão instalou-se na maioria das casas, como início do processo do “desaparecimento da infância”. Inevitavelmente, a infância veio a ser definida como uma categoria biológica, não um produto da cultura. Assim, é uma fascinante ironia verificar que durante esse mesmo período, a ambiência simbólica que deu vida á infância começou a ser desmontada vagorosa e imperceptivelmente (POSTMAN, 2002 p.81). 6 Postman (2002) postula que a televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta por três motivos: primeiro porque não necessita de uma aprendizagem específica, segundo porque não faz exigências complexas ao pensamento ou ao comportamento, ou seja, não é necessário pensar, as informações já estão prontas e, terceiro, porque não segrega o público. A televisão continua o autor, ameaça a infância, pois as crianças absorvem muitas informações que não deveriam, porque não condizem com seu universo infantil. Sem os segredos do mundo adulto não pode haver a infância. A televisão coloca a público o que antes era do domínio privado. Com a televisão torna dispensável a distinção entre adultos e crianças, já que a mesma visa homogeneizar as mentalidades. Como podemos perceber, o brincar passou a ter outro formato na vida das crianças. Dessa maneira, muitas vezes os pais com a intenção de proteger seus filhos acabam privando as crianças de brincarem ao ar livre, deixando-as dentro de casa, na frente da televisão, videogame ou computador. No mundo contemporâneo as crianças brincam com bonecas que fala que anda, com carrinho de controle remoto, que na realidade os brinquedos acabam brincando sozinhos e ela apenas fica olhando. Não podemos assegurar que o brincar no mundo contemporâneo seja pior que as brincadeiras do passado, mas sim como aquelas brincadeiras podem propiciar outros aprendizados, que os pais muitas vezes desconhecem a sua importância para formar seres criativos, críticos e aptos. É fundamental o enriquecimento do cotidiano infantil, inserindo contos, lendas, brinquedos e brincadeiras. 4 O BRINCAR SEGUNDO A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL Segundo Vygotski (2007), um dos representantes mais expressivos da psicologia histórico-cultural, desenvolvimento infantil. é Porém, enorme do a influência brinquedo da brincadeira desempenhar importância no desenvolvimento da criança, o autor afirma que: uma no grande 7 [...] definir o brinquedo como uma atividade que dá prazer á criança é incorreto por duas razões. Primeiro muitas atividades dão à criança experiência de prazer muito mais intensas do que o brinquedo, como por exemplo, chupar chupeta, mesmo que a criança não se sacie. E segundo, existem jogos nos quais a própria atividade não é agradável, como, por exemplo, predominante no fim da idade préescolar, jogos que só dão prazer esportivos(não somente os esportes atléticos, mas também outros jogos que podem ser ganhados ou perdidos ) são, com muita freqüência, acompanhados de desprazer, quando o resultado é desfavorável para a criança (VYGOTSKI, 2007, p.107). Todavia, mesmo a brincadeira não sendo considerada como uma atividade que sempre dá prazer, a criança, por meio dela, pode satisfazer seus desejos imediatos podendo dar outro sentido aos objetos, com a criação de situações imaginárias. A imaginação é uma função da consciência que vai surgir por meio da ação. Para Vygotski (2007), a imaginação é inexistente em crianças menores de três anos, pois a criança muito pequena quer a satisfação imediata de seus desejos e não consegue agir de forma independente daquilo que está vendo, devido à fusão entre o significado e o que é visto. Podemos observar a seguinte situação em um dos experimentos realizados por Vygotski (2007, p.114) “[...]quando se pede para que uma criança de dois anos que repita a sentença Tânia está de pé, (quando Tânia esta sentada na sua frente), ela mudará a frase para Tânia está sentada”, pois a mesma não consegue afirmar uma coisa que ela esteja vendo o contrário. Dessa maneira, o autor situa o começo da imaginação humana na idade de três anos, mas é na idade pré-escolar que vai ocorrer a separação entre o campo de significado e o campo de visão. No brinquedo, o pensamento esta separado dos objetos e a ação surgem das idéias, e não das coisas: um pedaço de madeira torna-se um cavalo. A ação regida por regras começa a ser determinada pelas idéias e não pelos objetos. Isso representa uma tamanha inversão da relação da criança com a situação concreta, real e imediata, que é difícil subestimar seu pleno significado. A criança não realiza toda essa transformação de uma só vez porque é extremamente difícil para ela separar o pensamento (o significado de uma palavra) dos objetos (VYGOTSKI, 2007, p.115). Dessa forma, o objeto torna-se o pivô da separação entre o pensamento e o objeto real, devido a criança ainda não conseguir fazer esta separação. Na brincadeira, os objetos perdem seu significado e passam atuar com o significado que 8 lhe é atribuído pela criança, portanto, nesse caso, então, um cabo de vassoura vira um “cavalo”. O brinquedo então pode ser compreendido como uma forma de satisfazer os desejos não realizáveis imediatos da criança, envolvendo em um mundo imaginário onde os desejos não realizáveis podem se concretizar e possam suprir a necessidade que ela tem de agir em relação ao mundo adulto. A menina, por exemplo, ao imaginar-se como mãe de sua boneca, faz questão de obedecer às regras do comportamento maternal. No entanto, a brincadeira propicia à criança uma liberdade ilusória, pois suas ações são subordinadas ao objeto. Afirma Vygotski (2007) que criar situações imaginárias é um meio para desenvolver o pensamento abstrato. Contudo, toda situação imaginária contém regras, assim como todo jogo de regras contém uma situação imaginária. Para Vygotski, a criança se desenvolve, essencialmente, através da atividade de brinquedo. E mais à frente na idade escolar, [...] o brinquedo não desaparece, mas permeia a atitude em relação a realidade. Ele tem sua própria continuação interior na instrução escolar e no trabalho (atividade compulsória baseada em regras). A essência do brinquedo é a criação de uma nova relação entre o campo da percepção visual, ou seja, entre situações no pensamento e situações reais (VYGOTSKI, 2007, p.124). Neste sentido, o professor como mediador pode usar o lúdico como uma forma de complementar as aulas expositivas, favorecendo assim o desenvolvimento afetivo e cognitivo da criança. Postula Vygotski (2007) que a brincadeira de faz de conta cria uma zona de desenvolvimento proximal. Isso ocorre devido a criança representar um objeto por outro, passando a relacionar-se com o significado atribuído e não mais com o mesmo. Leontiev (2006), precursor da teoria histórico-cultural de Vygotski, vê a brincadeira da criança como uma atividade objetiva, que constitui a base da percepção que a criança tem do mundo e dos objetos humanos. No período pré – escolar da vida de uma criança, o desenvolvimento das brincadeiras é um processo secundário, redundante e dependente, enquanto moldagem da atividade – fim que não é uma brincadeira constitui a linha principal do desenvolvimento. Durante o desenvolvimento ulterior, todavia, e precisamente na transição para o estagio relacionado com o período pré –escolar da infância a relação entre a brincadeira e as atividades que satisfazem os motivos não – lúdicos torna – se diferente–eles trocam de lugar, por assim dizer. O 9 brinquedo torna-se agora o tipo principal de atividade (LEONTIEV, 2006, p.120). Essa mudança que ocorre na brincadeira que passa de um processo secundário para dominante se dá, segundo Leontiev (2006), no mundo objetivo do qual a criança é consciente: [...] este mundo inclui não apenas os objetos que constituem o mundo ambiental próximo da criança, dos objetos com os quais ela pode operar, e de fato opera, mas também os objetos com os quais os adultos operam, mas a criança ainda não é capaz de operar, por estarem ainda alem de sua capacidade física (LEONTIEV, 2006, p.120). Entretanto, a criança só vai tomar consciência do extenso mundo de artefato dos adultos no período pré–escolar, no qual, segundo Leontiev (2006), é criada a fórmula “eu mesmo”, “me deixa”. Neste momento a criança converte o modo de ação do adulto em sua própria ação. Leontiev (2006) afirma que, quando uma criança está brincando com cubos de madeira, o alvo da brincadeira não consiste em construir uma estrutura, mas sim em fazê-la, isto é, no conteúdo da própria ação. Para ela, não importa o objeto com o qual esteja operando, como por exemplo, quando usa uma cadeira para fazer de conta que está dirigindo um carro, mas sim a ação exercida sobre ele. Dessa maneira, ao exercer as ações que ocorrem na brincadeira, a criança é levada à descoberta da realidade. Segundo Leontiev (2006, p.127), a atividade lúdica ocasiona o surgimento de uma situação imaginária, assim “não é a imaginação que determina a ação, mas são as condições da ação que tornam necessária a imaginação e dão origem a ela”. A situação imaginária surge, de acordo com Leontiev (2006), da ação que a criança produz no brinquedo que torna indispensável o uso da imaginação e da origem a situação imaginária, na qual existem dois aspectos: a ação e o conteúdo. Por exemplo, quando a criança utiliza a vara como se fosse um cavalo, a vara retém o significado real, ou seja, há uma ação real de objetos reais no qual a vara adquire um sentido lúdico de um cavalo. Dessa forma, o papel da atividade lúdica é determinar as relações entre as crianças e os objetos, assim como as relações estabelecidas entre participantes de uma brincadeira. Todavia, os jogos de enredo, com o papel de expressar, dão início a fase escolar da criança. No entanto o elemento mais importante que ocorre nos jogos de enredo é a subordinação do comportamento da criança durante certas 10 regras reconhecidas de ação, afirma Leontiev (2006). Os jogos de enredo com situações imaginárias passaram para jogos com regras, como [...] “esconde – esconde”, diferem muito de jogos, como “teatrinho”, onde se brinca de medico, de explorador polar etc. Eles não parecem estar relacionados uns com os outros por qualquer tipo de sucessão genética, e parecem constituir diferentes linhas no desenvolvimento do brinquedo infantil. Na realidade, porem, uma forma de se desenvolver a partir da outra, em virtude de uma necessidade inerente à própria atividade lúdica da criança, pela qual os jogos” com regras” surgem em um estágio posterior (LEONTIEV, 2006, p. 134). Os jogos de regra surgem com conteúdos fixos, ou seja, a regra do objeto. Podemos observar como exemplo o jogo de esconde–esconde, onde o objetivo do jogo é uma criança contar para as demais se esconderem e depois as acharem. A criança, todavia, se desenvolve em virtude de uma necessidade própria a atividade lúdica. Sendo assim, os jogos com regras surgem em um estágio posterior, de crianças entre 3 e 4 anos. 5 O BRINCAR E A ESCOLA A escola tem papel de transmitir o saber sistematizado, sendo uma atividade direta e intencional, porém, o brincar é sugerido em muitas propostas pedagógicas com crianças e adolescentes, como um instrumento para o ensino de conteúdos, afirma Lara (2000). Segundo Picelli e Gomes (2005) o professor, por entender um pouco mais da importância do brincar, deve utilizar adequadamente na sua ação pedagógica ajudando os seus alunos no processo de aprendizagem. O professor, por meio da brincadeira, tem a possibilidade de tornar as aulas mais dinâmicas despertando assim um maior interesse das crianças, pois o brincar abre caminho para a integração, para a curiosidade intelectual, como por exemplo, “os travas línguas, jogos de rima, lotos como palavras, jogos de memória, palavras cruzadas, língua do pê e outras línguas que podem ser inventadas entre outras atividades, constituem formas interessantes de aprender brincando ou brincar de aprender” (BORBA, 2006 p. 44). Mas, segundo Kishimoto (2001, p. 235), o que ocorre é que muitos educadores utilizam os brinquedos de forma inadequada. Os quebra-cabeças são sempre os mesmos, não havendo diferenciação para atender níveis de dificuldades, variando de 11 quantidade e tamanho de peças conforme a faixa etária, competências e interesses das crianças. Não seriam os valores relacionados às funções pedagógicas dos quebra-cabeças e encaixes quanto a possibilidades de adquirir noções de parte-todo, percepção de cores, formas, habilidades motoras finas para encaixes e a preocupação em escolarizar mais rapidamente a criança as razões dessa escolha? A autora afirma que o brincar está inserido de forma inadequada na educação infantil devido a inúmeros fatores, entre eles: a falta de espaço, de brinquedos, de materiais pedagógicos e da forma como alguns professores atuam. Kishimoto (2001) questiona se os cursos de formação inicial e continuada dão subsídios ao professor de como trabalhar com o brincar dentro da sala de aula. É necessário, afirma Kishimoto (2001), analisar o cotidiano dentro de uma pedagogia crítica e ultrapassá-la, buscando uma pedagogia transformadora. Muitos educadores desconsideram a importância do brincar para o desenvolvimento infantil, afirmando que a brincadeira deva ser utilizada apenas como distração ou até mesmo para passar o tempo. Conforme estes educadores “a criança vai à escola para aprender, e não para se divertir”. De acordo com esse ponto de vista, a brincadeira é pura diversão e, portanto, só deve ser permitida na hora do recreio. Outras concepções é que a criança tem a necessidade de brincar, mas que na escola é preciso separar brincadeiras e “tarefas sérias” (FONTANA; CRUZ, 2004, p.119). Contudo, muitas pesquisas vêm mostrando a importância do brincar para a infância. Neste sentido, afirma Borba (2006, p.35), o brincar é uma “atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de interpretação, de expressão e de ação pelas crianças, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos, criança e adulto”. Darróz, Salomão e Rosin (2007), postulam que o ato de brincar se encontra presente no ser humano desde o período de gestação, quando o feto chuta a barriga da mãe ou chupa o dedo. Desde bebê a criança dedica grande parte de seu tempo à exploração do mundo material no qual está inserida de forma que possa compreendê-lo e utilizá-lo. CONSIDERAÇÕES FINAIS 12 Por meio do brincar as crianças aprendem muitas coisas, como por exemplo, regras, valores, aspectos culturais, entre outras. Nesse sentido, o brincar deve ser utilizado pelos professores dentro da sala de aula como ferramenta de aprendizado pedagógico. O professor tem que notar durante a brincadeira livre as atitudes das crianças, individualmente ou em grupos, não achar que aquele momento é simplesmente para passar o tempo. O docente deve também criar a metodologia, o procedimento e os recursos a serem utilizados com os alunos para que a brincadeira seja empregada de forma que possa ajudar o sujeito a pensar o conteúdo que está sendo ensinado, de forma que o aprendizado promova o seu. Vygotski (2007) ressalta a importância da brincadeira no desenvolvimento infantil e para a aprendizagem da criança. Desta forma verificamos a extrema importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil, pois quando as crianças brincam estão em constante processo de construção, buscando compreender o mundo a partir de suas representações. O educador pode averiguar, através das atividades lúdicas infantis, diferentes informações fundamentais a respeito das crianças como suas emoções, sua formação moral, seu pensamento abstrato, seu nível linguístico, a forma como interage com seus amiguinhos, seu desempenho físico-motor, ou seja, por meio da brincadeira é desenvolvido todos os sentidos da criança. Todavia, estes sentidos não são apenas para o desenvolvimento escolar, mas sim para a elaboração da construção de toda sua vida. REFERÊNCIAS BORBA, Ângela Meyer. O brincar como modo de ser e estar no mundo. In: BRASIL. Ensino fundamental de 9 anos: orientações para inclusão da criança de 6 anos de idade. 2. ed. Brasília,DF: MEC, 2006. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da Republica Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. 13 ______.Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Parecer CNE/CEB n°20/2009. ______. Lei Nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolesente e dá outras providências. Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm>. Acesso em: 5 ago. 2010. ______.Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.Lei 9394, de 20 de dezembro de1996. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf>. Acesso em: 5 ago. 2010. 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