UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES CURSO DE LETRAS DEPARTAMENTO DE LITERATURA LITERATURA CEARENSE II DOCENTE: DR. EDUARDO LUZ O elemento temporal em Horácio Dídimo1 Leonildo Cerqueira Miranda2 O Ceará da década de 60 viu despontar em seu campo artístico um grupo de intelectuais que tinha por propósito revolucionar o modo de pensar a literatura. Assim, em 1967, é dado início ao SIN, grupo que depois iria entrar na historiografia literária como uma geração de grande importância para o desenvolvimento artístico do Estado e até mesmo do país, uma vez que muitos de seus artistas alcançaram renome nacional e internacional. Isto por conta da qualidade técnica, estética e de conteúdo dos trabalhos destes representantes culturais do Ceará daquela época – e de hoje -, pois há de se chamar a atenção para o fato de que muitos destes artistas continuam produzindo vigorosamente. O grupo SIN gozou de breve existência quanto agremiação literária (1967 – 1968), mas a geração que se formou com ele permaneceu ativa. Sobre o destaque alcançado pelo grupo, Roberto Pontes (2008), um dos integrantes mais engajados da tal geração deu seu testemunho ocular do qual extraímos o seguinte: A poesia do Ceará foi consolidada pelo Grupo SIN, dada a consciência operacional dos meios de construção do poema, como até então não havia ocorrido [...] Hoje há nomes de expressão nacional e até internacional, entre os integrantes do Grupo SIN, os quais já tiveram textos traduzidos para os seguintes idiomas: francês, inglês, esperanto, espanhol, galego e russo, entre outros (p.12). Por isso, encontramos muitas referências a esta agremiação na fortuna crítica local, nacional e internacional, dentre elas, a de Carlos Nejar em sua História da Literatura Brasileira (2011) e no volume de número XVI do Roteiro da Poesia Brasileira (2011), editado e prefaciado por Pedro Lyra, ambos citando vários nomes de destaque da geração. Dos vários artistas que despontaram após a década de 60 no Ceará, destacamos neste trabalho, o poeta Horácio Dídimo, cuja atuação no grupo também foi de grande importância e dele participou desde o início. Nascido em Fortaleza, aos 23 de março de 1935, viveu a infância na capital cearense, onde estudou o primário e o secundário no Colégio Cearense, seguindo depois para o Rio de Janeiro, onde se bacharelou em Direito. Voltando para o Ceará, fez licenciatura em Letras 1 Ensaio apresentado na disciplina de Literatura Cearense II, ministrada pelo Professor Dr. Eduardo Luz, no período 2012.1. 2 Graduando em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Contato: [email protected] pela Universidade Federal do Ceará, e depois fez o mestrado em Literatura Brasileira, na Paraíba. Ocupou vários cargos públicos, foi professor em escolas de Fortaleza até que se tornou professor do Departamento de Literatura da universidade onde se licenciara. Em meio a uma agitada e produtiva vida do ponto de vista acadêmico, Horácio Dídimo encontrou tempo para externar sua poesia. Tanto assim que são dele as obras: Tempo de chuva (1967), Tijolo de barro (1968), O chão dos astronautas (1969), A palavra e a PALAVRA (1980) – grafado aqui conforme a capa do próprio livro3 -, e A nave de prata/livro de sonetos & Quadro verde (1991). E por conta de sua produção, ele ocupa hoje a cadeira nº 8 na Academia Cearense de Letras, tendo por patrono Domingos Olímpio, além de também ser membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa. Em relação ao seu fazer poético, que é o que nos interessa, de fato, percebemos a influência do movimento concretista paulistano da geração de 50. Dídimo teve contato e até experimentou produzir poemas nesta linha, contudo, talvez não enveredou mais no poema concreto porque o próprio movimento, tão rápido e diretamente – como pregava dever ser a poesia – definhou quanto vanguarda. Nas palavras de Pedro Lyra (1975, p. 90): “o movimento, apesar de seu radicalismo, revolucionou o fazer poético nacional, mas logo virou história, não conseguindo firmar uma prática duradoura”. Pedro Lyra, aliás, contemporâneo de Horácio Dídimo e também integrante do SIN, divide a obra do poeta em seis vertentes principais, para ele, reveladoras de sua literatura. A saber: I- a experiência concretista, da qual já falamos no parágrafo anterior; II- a efabulação lendária, onde vemos a reinvenção das lendas clássicas (“o espelho mágico”); III- a elocução proverbial, numa espécie de reelaboração dos provérbios populares, e também no tom proverbial em alguns poemas que não são em essência provérbios; IV- o poema em linha reta, poemas que semanticamente são constituídos apenas de um verso, mas estruturalmente não, como o poema: “a/ma/nhe/ce/re/mos”. Lembra-nos, inclusive, o poema concreto - certamente a influência ainda pulsando; V- o discursivo lírico, com poemas em que surge a realização de um ideal amoroso; VI- o discursivo social, em que o poeta aparece mais engajado em relação à realidade social do mundo e, portanto, à existência humana. A divisão feita por Pedro Lyra é, de fato, bastante aplicativa, pois corresponde à essência dos poemas de Dídimo. No entanto, cremos que ainda há uma instância maior que estas seis vertentes. Parece haver no conjunto um elemento conector, sempre pairando sobre a obra do poeta 3 Neste livro, HD reúne poemas de suas obras Tempo de chuva, Tijolo de barro e Passarinho carrancudo. Todos os poemas têm seus títulos grafados com iniciais minúsculas, justamente para fazer contraste entre eles, que são “a palavra” – minúscula – e “A PALAVRA”, que é o Verbo divino. Cada poema é relacionado a uma passagem bíblica, a uma passagem da Palavra. Explicamos isto para justificar a obediência às minúsculas mantidas neste trabalho quando nos referirmos aos títulos, pois que os poemas aqui utilizados foram retirados da mencionada obra. como um denominador comum e ao qual todas as coisas se subordinam e não podem escapar: o tempo. Podemos notar que mesmo num poema como “a fumaça”, de intenção moralista, conforme declarou Pedro Lyra, encaixando-o na vertente I (concretista), há referência ao passar das coisas, à efemeridade e ao fato de que tudo se acaba e se esvai tal qual a própria fumaça. Impedir isto acontecer é impossível. Tudo deve seguir o curso normal, até mesmo um simples cigarro; com o passar dos minutos, deve extinguir-se, transformando-se em outra coisa: em cinza, em sarro. Observemos o poema na íntegra: cigarro cigarr cigar ciga cig ci c cinza sarro Este é apenas um exemplo de como o tempo surge na poesia de Horácio Dídimo. No caso, é um tempo ligeiro, breve, efêmero. Enquanto isso, há poemas em que o tempo vem investido de sapiência e respeito, como em “o homem da cadeira de balanço”, no qual vemos esse tempo personificado, dando-nos a ideia de um senhor de idade, sentado na cadeira de balanço a ver tudo o que se passa no mundo e, daquela posição, emitindo suas opiniões com base em seu viver, em sua experiência já tão grande. Assim, como uma espécie de avô das gerações, o senhor nos aconselha: “precisamos criar juízo”. No entanto, é na terceira estrofe que o tom de experiência vivida por quem já passou por muito ao longo do tempo fica mais patente: precisamos ficar calados diante de certas coisas porque assim é melhor Aqui até nos aproximamos da vertente III (elocução proverbial), cujo tom lembra as palavras atribuídas a Pitágoras: “Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio”. No entanto, há o tempo que demora – a chegar e a passar -, como no caso de outros dois poemas sobre os quais nos debruçaremos mais detidamente: “o banco do jardim” e “a solução”. Ambos pequenos, não mais que três versos, porém neles encontramos justamente o tempo longo, duradouro e até doloroso por isso. É doloroso porque, conforme Sadoc de Araújo (2002), no prefácio ao livro A palavra e a PALAVRA, bem coloca: Há algo que fica em tudo que passa [...] Tudo é transitório, instável e provisório, exceto a Palavra eterna [...] A palavra humana se dissolve no tempo, mas pode se impregnar da Palavra Divina e dar ao homem a certeza de que mesmo passando lhe ficam marcas indeléveis (pp. 15-16, negrito nosso). É exatamente esta impregnação do eterno na palavra humana que vemos no poema “o banco do jardim”, em que as palavras da amada permanecem longo tempo ainda conversando com o eulírico: ela foi embora mas as palavras que ela disse ficaram e conversaram muito tempo ainda Provavelmente, trata-se do fim de um relacionamento, quando ela lhe diz algo indesejado (o adeus?), e aquilo o marca tanto (“marcas indeléveis”, conforme Araújo, 2002) a ponto de ele continuar ouvindo as palavras por “muito tempo ainda”. Não se sabe quanto; tem-se ideia de que seja muito, pode ser eternamente, como as palavras divinas que nunca passam haja o que houver. Aliás, não podemos falar em Horácio Dídimo sem nos referirmos ao Verbo divino, dada a sua relação de fé na Palavra, a qual traz para seus poemas, como diz Araújo (2002, p. 15): “na sua vivência de fé, descobre a beleza da Palavra guardada no significado de todas as palavras” e, por isso, este poema remete diretamente às palavras de Jesus Cristo, segundo seus apóstolos: “O céu e a terra desaparecerão, mas as minhas palavras não desaparecerão (Lc, 21, 33). Isto se torna válido, sobretudo, se retomarmos as palavras de Araújo (2002), ao dizer: “A palavra humana se dissolve no tempo, mas pode se impregnar da Palavra Divina” (p. 16). Neste poema, as palavras da amada tomam a consistência temporal da Palavra divina, uma vez que, mesmo depois de ela partir, as palavras permaneceram e continuaram surtindo os seus efeitos dolorosos no eu-lírico que as ouviu. Mas como afirmar ter sido negativo aquilo dito pela amada? Aliás, como garantir que “ela” seja uma amada de fato? Nada disto fica explícito no poema, contudo, é possível perseguirmos algumas pistas que nos levam a crer nisto. Primeiro, o título “o banco do jardim” já nos leva a um contexto bucólico, em meio às flores, ao ar livre, provavelmente agradável, próprio do contexto lírico-amoroso desde as mais remotas trovas provençais. Obviamente, o encontro pode dar-se entre ele e uma grande amiga, por exemplo, mas havemos de convir ser esta ideia demasiado ingênua, além de o cenário ser muito mais apropriado para o acontecimento amoroso, o qual neste poema é o fim da relação. Segundo, sobre o conteúdo do que foi dito por ela, notemos o primeiro verso: “ela foi embora”. Ir embora tem uma carga semântica muito forte quando se trata de relacionamentos amorosos, pois denota a partida do(a) amado(a). Não é uma ideia costumeiramente expressa em poemas que falem da realização plena do amor, mas sim quando da crise, do término deste. É caminho sem volta. Então, por que a amada estaria partindo para sempre? Por que ela teria ido embora se a relação não estivesse arruinada fosse qualquer o motivo? Além disso, se o eu-lírico estivesse satisfeito, ou seja, fosse bom o que ouvira, por que tais palavras o marcariam tanto, ecoando por longo tempo sentadas ao seu lado? Por isso, o poeta usa a conjunção adversativa “mas” no segundo verso para dar ideia de que o dito permaneceu, martirizando o amado. Por mais que ela partisse para sempre, as palavras ficariam eternizadas como lembrança do momento amargo vivido por ele, fixadas por outra conjunção, desta vez aditiva, encabeçando o terceiro verso: “e conversaram muito tempo ainda”. É o tempo que demora passar. Portanto, neste pequeno poema – em extensão de forma, jamais de conteúdo -, Horácio Dídimo consegue estabelecer três categorias temporais: no primeiro verso, aquilo que passa, que se vai; no segundo, a permanência inevitável de resquícios do que um dia passou e se foi; no terceiro, a duração, a eternização. Passemos agora ao próximo poema, “a solução”: daqui a cem anos todos os nossos problemas nos terão resolvido De antemão, percebemos o tempo futuro, distante, que demora chegar, mas ao mesmo tempo é imediato porque a vida se torna breve, mesmo ela durando cem anos, uma vez que os nossos problemas permanecerão os mesmos até os fins de nossos dias, numa espécie de estagnação, de insolubilidade – mais uma vez o elemento duradouro. A existência humana resume-se, neste poema, à submissão aos problemas. E diante deles, podemos atentar para duas possíveis atitudes diversas: O eu-lírico sabe da natureza solucionadora do tempo, por isso, mostra-se impassível, conformado com a vida. Ele aceita as coisas como são, inclusive, a submissão eterna aos “nossos problemas”, já que um dia, “daqui a cem anos” tudo estará resolvido de um modo ou de outro. Portanto, não adianta se desesperar, melhor deixar o tempo encarregar-se de tudo. Qualquer ato no sentido de intervir sobre os empecilhos será tomado em vão. Esta conformidade para com o mundo pode ser também vista em versos de outro poema, “um dia”: um dia quando as coisas melhorarem eu vou me deitar em algum lugar onde haja um céu bem grande sobre a minha cabeça e a lua apareça de repente sem cerimônia um dia quando as coisas melhorarem eu vou morrer de achar graça Percebamos o tom despreocupado do eu-lírico. Ele está à espera de as coisas melhorarem, no entanto, não vemos nenhum posicionamento ativo da parte dele em relação a isto. Sua atitude é passiva, está aguardando que o mundo melhore por si só, que os problemas nos resolvam – conforme “a solução”. Esta é uma primeira forma de se colocar diante dos problemas. Outra seria justamente o oposto e, sob essa ótica, o poema transforma-se em uma crítica à passividade que ora encontramos nele mesmo. Assim, já sentimos até o tom premonitório, e, portanto, de ameaça. Existe um tempo que nos é dado e durante ele é preciso aprender a resolver os problemas com sapiência, ou seremos suplantados por eles, porque deixamos de viver o nosso tempo – a vida, de “céu bem grande sobre a minha cabeça” – para mergulharmos no emaranhado das dificuldades que nos permeiam a existência. E aprender com sapiência, em se tratando de Horácio Dídimo, é aprender à luz da Palavra de Deus, conforme constatamos no excerto bíblico correspondente ao poema “a solução” em A palavra e a PALAVRA: “Ensinai-nos a bem contar os nossos dias/ Para alcançarmos o saber do coração (Sl 89, 12)” (p. 59). Com esta atitude, notamos certa confiança, pois ainda há tempo para aprender, uma vez que o limite é “daqui a cem anos”. É o tempo que demora a chegar. Independentemente do posicionamento o qual venhamos tomar – passividade ou enfrentamento -, sempre estaremos rumando ao fim último: a morte. Se quisermos nos manter na condição de espera, a morte será a solução para nós, porque “todos os nossos problemas nos terão resolvido”, nos terão aniquilado. Vejamos até mesmo no já mencionado “um dia”: quando a espera dos tempos melhores findar, o eu-lírico é bem irônico e deixa-nos a desconfiança de que não terá tempo para aproveitar o que sempre almejou – “as coisas melhorarem” -, pois ele simplesmente vai “morrer de achar graça” (negrito nosso), parecendo até não crer no que estará vendo nesse dia. E mesmo que nosso posicionamento seja o de enfrentar e tentar solucionar, devemos estar certos de não escapar da morte, mesmo conseguindo acabar com os nossos problemas. Tanto que, na passagem bíblica relacionada, pede-se: “Ensinai-nos a bem contar os nossos dias”; a morte é o limite de tempo dado a nós para que resolvamos todas as pendências. Nos dois poemas, cuja análise priorizamos aqui (“o banco do jardim” e “a solução”), além dos poemas de apoio (“a fumaça”, “o homem da cadeira de balanço” e “um dia”) para melhor ilustrar o que se quis comprovar neste ensaio, vimos a recorrência patente do elemento temporal. Como dito anteriormente, apesar da divisão da poesia de Horácio Dídimo em seis vertentes temáticas, proposta por Pedro Lyra, reafirmamos haver um elemento em comum que rege o seu fazer poético de modo mais dominante: o tempo. E acreditamos ter alcançado êxito nesta comprovação. Voltamos a explicar que a poesia de Horácio Dídimo não se resume a este único fator. O tempo é uma recorrência geral em sua poética; as vertentes identificadas por Pedro Lyra são divisões mais detalhadas. O fato é que o eu-lírico está em constante relação com o tempo e isto tem sempre algum significado. Dos poemas aqui em estudo: em “a solução” – a depender de como se encara o tempo, duas atitudes: passividade, se o tempo parece pouco, ou enfrentamento, se ainda há tempo para aprender à luz da Palavra; em “o banco do jardim”: a eternidade das dolorosas palavras ouvidas pelo eu-lírico. Referências bibliográficas ARAÚJO, P. e F. Sadoc de (pref.). “A mensagem de um poeta místico”. In: Dídimo, Horácio. A palavra e a Palavra. Fortaleza: Editora UFC, 2002. BARROSO, Oswald. “A modernidade na literatura cearense: dos novos ao Grupo Siriará”. In: BARROSO, Oswald; BARBALHO, Alexandre (org.). Letras ao sol: antologia da literatura cearense. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1998. BRASIL, Assis. “Horácio Dídimo”. In: A poesia cearense no século XX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996. LYRA, Pedro. “Poesia e esperança em Horácio Dídimo”. In: Poesia cearense e realidade atual. Petrópolis: Vozes; Fortaleza: Fundação Edson Queiroz, 1975. 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