CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL NAYANE FELIX DOS SANTOS “TRIBUNAL DE RUA: DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO TODOS NO BAIRRO JÁ CONHECEM ESSA LIÇÃO”. O OLHAR DOS ADOLESCENTES AUTORES DE ATOS INFRACIONAIS SOBRE CONDUTA POLICIAL FORTALEZA/ CE 2013 NAYANE FELIX DOS SANTOS “TRIBUNAL DE RUA: DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO TODOS NO BAIRRO JÁ CONHECEM ESSA LIÇÃO”. O OLHAR DOS ADOLESCENTES AUTORES DE ATOS INFRACIONAIS SOBRE A POLÍCIA Monografia apresentada ao Centro de Ensino Superior do Ceará, mantenedora da Faculdade Cearense (FaC), como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Serviço Social. Orientadora: Moíza Siberia Silva de Medeiros FORTALEZA – CE 2013 S237t Santos, Nayane Felix dos Tribunal de rua: de geração a geração todos no bairro já conhece essa lição. O olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre conduta policial / Nayane Felix dos Santos. Fortaleza – 2013. 69f. Orientador: Profª. Ms. Moíza Sibéria Silva de Medeiros. Trabalho de Conclusão de curso (graduação) – Faculdade Cearense, Curso de Serviço Social, 2013. 1. Adolescentes – atos infracionais 2. Polícia - violência. 3. Ronda do Quarteirão I. Medeiros, Moíza Sibéria Silva de II. Título CDU 347.157 Bibliotecário Marksuel Mariz de Lima CRB-3/1274 Aos meus pais, familiares, noivo e amigos que me deram apoio constante em minha caminhada acadêmica. E aos adolescentes, que confiaram a compartilhar suas histórias de vida, mostrando receptividade e espontaneidade a expor suas experiências. AGRADECIMENTOS A Deus, primeiramente, pela presença constante em minha vida, por guiar meus caminhos e me auxiliar em minhas escolhas. Por ter colocado em meu caminho pessoas iluminadas e de coração bondoso que me deram apoio durante essa longa e árdua jornada acadêmica. A meus pais, José Ferreira e Maria Nilda Felix, meu exemplo, maior amor de minha vida, por todo amor cedido a mim e pela confiança depositada, o que me fez ter bravura de chegar até aqui. A eles devo tudo que sou! Agradeço pelo dom da vida e por viver comigo a cada decisão, por me apoiar sempre em minhas escolhas. A minha irmã Nilian Felix (Jornalista), que mesmo eu fazendo algumas criticas a mídia, como aqui também mencionadas, contribuiu para minhas reflexões e torceu por mim. Ao meu noivo Robson Almeida, que me acompanha deste o ensino médio, pelo amor, amizade, paciência que teve comigo durante todos esses anos. Pelo apoio em cada decisão tomada e pelas cobranças naqueles dias que eu estava com “preguicinha”. Obrigada por me motivar e me ouvir falando por horas e horas minhas experiências no universo acadêmico e de estágio, porque quando eu me empolgo né amor? (Risos) Ao meu amigo peludo Toy, que mesmo em forma canina expressa todos os dias o seu amor, o que mesmo diante das dificuldades do dia-a-dia me fazia rir e transbordava sua lealdade e seu carinho. A meus familiares, avós, tios, tias, primos e primas pelo carinho e apoio constante, e por estarem sempre na torcida da minha felicidade. A família do meu noivo por todo carinho que tem por mim e por estarem sempre na torcida. As minhas amigas lindas Ná (Nágela Onofre), Lo (Lorena Suelly) e Ita (Itamara Firmino) pelo companheirismo fiel durante todos esses anos na faculdade, por estarmos sempre juntas compartilhando alegrias e dificuldades. Obrigada meninas pela sólida amizade que construímos. A minha inesquecível amiga Suzana Nobre (in memorian), mãe de Nágela Onofre, no qual eu não poderia deixar de mencionar, por ter acompanhado de perto e ter vivido com a gente esse árduo e lindo período de faculdade, com toda sua intensidade, amizade e amor. Pelas palavras sábias que nos confortava nos dias tristes. Obrigada por tudo Suh, mesmo não estando mais entre nós, sentimos sua presença de proteção e cuidado a nós. A minha queridíssima amiga Maria de Jesus, pelos momentos compartilhados durante todos esses anos na faculdade, pelos conselhos, pelas conversas, pelos momentos de alegria que convivemos juntas. Ao Iago Rodrigues, meu amigo, meu irmão, que sempre torceu por mim, que mesmo sendo filhos de pais diferentes, nossa ligação de “irmandade” é verdadeira. Por todo amor, cuidado e amizade que tem por mim. Ao meu amor lindo, Jesquinha (Jéssica Andrade) por toda lealdade e amizade que temos. Por compartilhar comigo momentos especiais em minha vida, por me ouvir, por cuidar de mim, por ser essa amiga especial que você é. Ao Glailton Bezerra, meu grande amigo, por estar sempre torcendo pela minha felicidade, por me acompanhar e compartilhar comigo momentos tão importantes em minha vida. Obrigada por tudo amigo. Aos meus amigos Débora Matias, Marcio Ferreira e Tamires Ferreira, pela amizade e carinho de sempre, pela amizade que se sustenta a cada dia. Vocês com certeza são presentes encaminhados por Deus para trazer mais alegria ainda a minha vida. A Jê (Jeniusa Alencar) minha técnica de apoio, que me acompanhou diariamente no meu processo de aprendizagem durante todo período de estágio. Que me instigou, que me motivou, que me instruiu para minha vida profissional. Que me ensinou que eu não posso me calar e abrir mão dos meus direitos. As minhas friends lindas que compõe o meu quarteto, Grazielle Valente, Anna Berlly Daniel e Bruna Suellen, pelas tantas historias compartilhadas, os tantos risos compartilhados, que mesmo diante do excesso de trabalho e de uma dinâmica conturbada, conseguia me alegrar e juntas resolver qualquer situação. Obrigada pelo companheirismo, amizade, que se fortaleceu a cada dia, pela confiança e por outras tantas coisas que vivemos juntas. A minha queridíssima amiga “Maaax” (Maxsuana Lima), pela sua alegria, pela sua luz que iluminava meus dias no CESF, pela sua energia que me empolgava diante dos fatos mais simples da vida, pela sua confiança, amizade e carinho, que nos deu confiança em compartilhar ideias e segredos. Ao meu amigo Emanú (José Emanuel), por toda leveza e tranquilidade que transmite, pelo carinho e pelas gargalhadas que compartilhamos ouvindo as histórias de Max. Ao Sr. Joaquim diretor do CESF por ter me recebido tão bem na Unidade, e por se pôr a disposição sempre que precisar, estabelecendo uma relação profissional amigável entre a direção e os estagiários. A todos os amigos do CESF. Em especial a minha orientadora Moíza Sibéria, por ter aceitado percorrer este caminho comigo, me orientando, me tranquilizando e me permitindo fazer novas reflexões. Obrigada pela paciência e dedicação. As professoras que participaram da banca examinadora, Mônica Duarte, a qual eu tenho uma enorme admiração, por ser uma excelente profissional e pela sua capacidade intelectual, onde se tornou referencia para mim e todos os alunos de serviço social. E Priscila Nottingham, pela sua delicadeza, criticidade que certamente trará contribuições relevantes à construção deste trabalho. Enfim, a todos que de alguma forma contribuíram para a execução desse trabalho, seja pela ajuda constante ou por uma palavra de amizade! [...] “Era só mais uma dura / Resquício de ditadura / Mostrando a mentalidade/ De quem se sente autoridade/ Nesse tribunal de rua”. O RAPPA- Tribunal de Rua. RESUMO Tendo em vista as especificidades das práticas punitivas para adolescentes autores de ato infracional, assim como as ações repressoras como forma “pedagógica” ou de “recuperação” que se fazem presentes no discurso da mídia através dos programas policiais, bem como, nas condutas de agentes de segurança pública, o presente trabalho monográfico discute acerca das condutas policiais na apreensão de adolescentes autores de atos infracionais. Tem como objetivo geral investigar as relações vivenciadas por adolescentes autores de atos infracionais com a figura policial em seu processo de apreensão e, especificamente, compreender a abordagem policial, analisar os aspectos da comunicação verbal e comportamental manifestados entre eles; traçar o perfil dos adolescentes; compreender as representações das tatuagens de palhaço (Coringa) para os adolescentes autores de atos infracionais frente à figura policial e identificar qual a representação da autoridade policial para estes. A pesquisa, de natureza qualitativa, foi realizada no Centro Educacional São Francisco – CESF compreendendo a fase de campo, que foi integrada pelas pesquisas bibliográfica e documental, que possibilitaram coletar dados e aprofundar os questionamentos elencados na pesquisa, através da realização de grupos focais com 14 adolescentes internos provisoriamente no CESF, e entrevistas semi-estruturadas com 4 adolescentes que participaram do grupo focal. Os resultados da pesquisa podem ser expressos da seguinte forma: pode-se perceber que o processo conflituoso entre policiais e adolescentes se dá antes mesmo da apreensão e comprovação da autoria do ato infracional cometido, ou seja, desde as abordagens de rua e vivências nos territórios; abordagens de caráter repressor baseadas nos estereótipos dos adolescentes e dos bairros em que residem ditos “perigosos”; das condutas arbitrárias e corruptas dos agentes de segurança pública, bem como, a exigência da mídia sobre a punição para adolescentes que cometem ações ilícitas. Desta forma, chegamos a conclusão de que as práticas punitivas exercidas pela autoridade policial são executadas a fim de “fazer justiça com as próprias mãos” e dar uma resposta para a sociedade sobre a punição, exercendo força como meio de “correção” dos adolescente autor de atos infracionais. Palavras-Chave: Adolescentes; Atos infracionais; Violência; Polícia (Ronda do Quarteirão). ABSTRACT In view of the particularities of punitive practices for adolescents authors of delinquent acts, as well as the repressive actions as a way "pedagogical" or "recovery" that are present in the discourse of the media through the programs police, as well as, in the ducts of agents of public security, the present work monographic discusses about the ducts in police apprehension of offende. Has as main objective to investigate the relationships experienced by adolescents authors of infraction acts with the figure police in their process of apprehension and, specifically, to understand the approach to policing, to analyze the aspects of verbal communication and behavioral manifested among them; trace the profile of adolescents; understand the representations of tattoos clown (Wildcard) to the offenders ahead to figure police and identify what the representation of police authority for these. The research of a qualitative nature, was performed at an Educational Center San Francisco - CESF comprising the phase of field that was complemented by surveys and bibliographic records, which allowed collect data and deepen the inquiries catalogd in research, through the realization of focal groups with 14 adolescents provisionally in internal CESF, and semi-structured interviews with 4 adolescents who participated in the focus group. The search results can be expressed as follows: you can realize that the conflicting process between police and adolescents if the even before the seizure and prove the authorship of delinquent acts committed, i.e. since the approaches of street and experiences in the territories; approaches to character repressors based stereotypes of adolescents and the neighborhoods in which they reside so-called "dangerous"; the ducts of arbitrary and corrupt agents of public security, as well as the requirement of the media about the punishment for adolescents who commit illegal actions. In this way, we have come to the conclusion that the punitive practices exercised by police authority are executed in order "to make justice with their own hands" and give a response to society on the punishment, exerting force as a means of "correction" of adolescent author of infraction acts. Key Words: Adolescent offenders; Violence; Media; Police; Round the block. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CESF – Centro Educacional São Francisco COE- Comando de Operações Especiais CONANDA- Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente COTAM- Policiais do Comando Tático Motorizado CV- Comando Vermelho DCA – Delegacia da Criança e do Adolescente ECA- Estatuto da Criança e do Adolescente FTA- Força Tática de Apoio GATE - Grupo de Ações Táticas Especiais LA – Liberdade Assistida PCC – Primeiro Comando da Capital PM- Polícia Militar PSC – Prestação de Serviço a Comunidade RAIO- Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas RQ ou RONDA- Ronda do Quarteirão SINASE – Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo STDS – Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social SUSP- Sistema Único de Segurança Pública SSPDS- Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................13 2 O ENCANTO PELA PESQUISA E OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 2.1 Por que discutir a temática?.................................................................................16 2.2 O percurso metodológico.....................................................................................22 2.3 O espaço da pesquisa: Centro Educacional São Francisco – CESF....................26 2.4 O cotidiano dos adolescentes no CESF...............................................................29 2.5 O perfil dos interlocutores...................................................................................30 3 SUJEITOS SUSPEITOS E ESPAÇOS “VIGIADOS” 3.1 As novas configurações de violência urbana........................................................34 3.2 Pela Lei da Punição: o discurso da violência contra a violência ........................37 3.3 O Ronda do Quarteirão: “a policia da boa vizinhança”........................................40 4 VOZES POLICIADAS: O OLHAR DOS ADOLESCENTES AUTORES DE ATO INFRACIONAL SOBRE A CONDUTA POLICIAL 4.1 O encontro cotidiano ...........................................................................................45 4.2 O Coringa: de um desenho da infância a um conflito na adolescência ...............52 4.3 Entre a Lei e a Prática..........................................................................................55 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................59 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................62 APÊNDICES...................................................................................................65 ANEXOS .........................................................................................................68 13 1 INTRODUÇÃO A viatura foi chegando devagar / E de repente, de repente resolveu me parar/ Um dos caras saiu de lá de dentro/ Já dizendo, ai compadre, você perdeu/ Se eu tiver que procurar você ta fudido/ Acho melhor você ir deixando esse flagrante comigo/ No início eram três, depois vieram mais quatro/ Agora eram sete samurais da extorção/ Vasculhando meu carro/ Metendo a mão no meu bolso/ Cheirando a minha mão./ De geração em geração/ Todos no bairro já conhecem essa lição/ Eu ainda tentei argumentar/ Mas tapa na cara pra me desmoralizar/ Tapa na cara pra mostrar quem é que manda/ Pois os cavalos corredores ainda estão na banca/ Nesta cruzada de noite encruzilhada/ Arriscando a palavra democrata/ Como um santo graal/ Na mão errada dos homens/ Carregada de devoção./ De geração em geração/ Todos no bairro já conhecem essa lição/ O cano do fuzil, refletiu o lado ruim do Brasil/ Nos olhos de quem quer/ E me viu o único civil rodeado de soldados/ Como se eu fosse o culpado/ No fundo querendo estar/ A margem do seu pesadelo/ Estar acima do biótipo suspeito/ Mesmo que seja dentro de um carro importado/ Com um salário suspeito/ Endossando a impunidade a procura de respeito./ Mas nesta hora só tem sangue quente/ E quem tem costa quente/ Pois nem sempre é inteligente/ Peitar um fardado alucinado/ Que te agride e ofende para te/ Levar alguns trocados/ Era só mais uma dura/ Resquício de ditadura/ Mostrando a mentalidade/ De quem se sente autoridade/ Nesse tribunal de rua. Esse texto é uma música da banda O Rappa chamada Tribunal de Rua, a qual, desde os meus projetos de pesquisa, de Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, eu citava como retrato da nossa realidade, vivenciada principalmente por pessoas de bairros periféricos de Fortaleza. A música expõe em sua letra, realidades que, enquanto estagiária de uma unidade de internação provisória de adolescentes autores de atos infracionais, pude ouvir por diversas vezes, “cantadas” com outras palavras pelos adolescentes em atendimentos realizados no período que estes ficam ou ficavam privados de liberdade. Naquele momento, exercendo atividades de estágio, conhecendo a realidade de cada adolescente em seus atendimentos, pude perceber que a violência estava entrelaçada em sua vida cotidiana, fazendo parte dos seus territórios, da sua 14 comunidade, em algumas vezes, dentro da sua composição familiar, e no mais, como forma de reeducar sua conduta. Por algumas vezes, os adolescentes chegavam até a sala de atendimento ainda com os olhos “roxos e avermelhados”, com cortes, além de vários hematomas espalhados pelo corpo. O que por vezes comprometia o próprio atendimento, tanto pelo fato de os adolescentes não ficarem confortáveis ao se locomoverem, ou, por nós como pessoa física, em nossa particularidade, “não conseguirmos ver” esta situação. O que me causou momentos de reflexões e questionamentos sobre tais situações. Após ouvir as declarações dos adolescentes, me questiono que tipo de segurança pública desejamos e que modelo de policiamento esta sendo executado em Fortaleza? Desta forma, o objetivo da pesquisa era descobrir o olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre a polícia. Assim, a partir das experiências vivenciadas por cada adolescente, poderíamos então fazer uma análise de como a nova proposta de policiamento, criado em 2007 pelo Governador do Estado do Ceará, Cid Gomes, o Programa Ronda do Quarteirão: “A polícia da boa vizinhança” estava sendo vista pelos adolescentes autores de atos infracionais. Já que o novo modelo de policiamento tinha como objetivo ações de caráter comunitário, e não repressor. Ainda em atendimentos realizados aos adolescentes, muitos relataram o símbolo da tatuagem de palhaço, especificamente o Coringa, como código utilizado entre os policiais para identificar facções ou pessoas relacionadas à criminalidade. Assim, compreender o significado dessas tatuagens tornou-se relevante para o estudo, haja vista que os adolescentes relataram abusos de autoridade e torturas por terem essas marcas registradas em seus corpos. Para isso, lancei mão de estudos sobre o novo modelo de policiamento, sobre as práticas de policiamento tradicional, sobre o discurso da mídia para combater a violência, sobre os direitos da criança e do adolescente preconizadas no Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, e sobre os significados das tatuagens para assim compreender a relação vivenciada pelos adolescentes autores de atos infracionais e a autoridade policial. A partir deste contexto, busquei empreender minha pesquisa monográfica com os seguintes objetivos: de modo geral, investigar as relações vivenciadas por adolescentes autores de atos infracionais com a figura policial em seu processo de apreensão e, especificamente, compreender a abordagem policial, analisar os aspectos 15 da comunicação verbal e comportamental manifestados entre eles; traçar o perfil dos adolescentes; compreender as representações das tatuagens de palhaço (Coringa) para os adolescentes autores de atos infracionais frente à figura policial e identificar qual a representação da autoridade policial para estes. Neste sentido, os resultados da pesquisa estão dispostos nos capítulos desta monografia da seguinte forma: o primeiro capítulo intitulado “O encanto pela pesquisa e os procedimentos metodológicos”, refere-se ao percurso metodológico utilizado para a concretude da pesquisa, aos passos percorridos, os sentimentos do pesquisador, a grande trilha de desafios e alegrias caminhados para a execução e o resultado da pesquisa. Além de conter as motivações e o desejo de discutir tal temática, a apresentação do campo - o Centro Educacional São Francisco – CESF, a caracterização da instituição e o perfil dos interlocutores. No segundo capítulo, intitulado “Sujeitos suspeitos e espaços vigiados”, é contextualizado as formas de violência a partir das reflexões sobre o adolescente autor e vítima da violência, bem como os espaços estigmatizados da cidade, os territórios “vigiados” pela polícia. Busca então fazer uma reflexão sobre o “novo modelo de policiamento” implantado pelo Programa Ronda do Quarteirão: A polícia da boa vizinhança. Este capítulo também conta com um tópico referente à mídia e seu processo de formação de opinião, com o discurso da violência para romper com a violência. O terceiro e último capítulo, intitulado “Vozes Policiadas” traz de forma mais clara as falas dos adolescentes, as entrevistas, as vivências e experiências compartilhadas nos grupos focais, o silêncio, os olhares que transpareceram suas falas, a emoção, a dor, as angústias e inquietações, as anotações silenciosas observadas cuidadosamente a cada fala, a cada gesto, no caderninho de campo. Trata-se dos sentimentos, as percepções, os relatos e o olhar dos adolescentes sobre as condutas policias e sobre os significados das tatuagens de palhaço frente à figura policial. Contudo, é valido ressaltar que os nomes utilizados para identificar as falas, são fictícios a fim de resguardar à identidade dos adolescentes. 16 2 O ENCANTO PELA PESQUISA E OS PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS 2.1 Por que discutir a temática? A prática de ato infracional cometida por adolescentes é um fenômeno complexo que vem ganhando destaque na sociedade atual. As motivações são diversas, há determinações sociais e condições individuais embutidas nos casos que viabilizam um adolescente a torna-se um autor de ato infracional. No entanto, a mídia reforça a ideia para a sociedade e justifica as praticas policiais violentas, como algo positivo, exigindo que “esses violadores de direitos” tenham um meio de punição mais severo e torturador, como forma de disciplina e recuperarão de adolescentes autores de atos infracionais, fazendo críticas à própria legislação em vigor – o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Segundo Trassi, [...] Esta mentalidade acaba por propor medidas de equacionamento desde adolescente- problemas que se caracterizam por práticas repressivas, excludentes, pela convivência com o extermínio dos jovens, por justificar práticas cruéis, como o encarceramento e a tortura nos equipamentos destinados ao processo socioeducativo, por aderir as propostas equivocadas como a redução da idade penal, sempre retirando a credibilidade da legislação em vigor – o Estatuto da Criança e do Adolescente [...]. (2006. p.17). O ato infracional pode ter inúmeros significados, todavia torna-se no mínimo ingênuo afirmar que a prática do ato infracional cometido por crianças e adolescentes é um acontecimento determinado por um único aspecto, sejam eles, pobreza, uso de drogas, desejo ao consumo etc, e utilizar-se de força, repressão ou tortura para apreender, expor e “aquietar” o adolescente, como meio de exterminar ou romper com a violência. Quando verificada a prática do ato infracional cometido por adolescentes, a legislação brasileira, por via do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Lei 8.069/90) estabelece a aplicação das medidas socioeducativas, como forma de reparar as condutas tipificadas como crime ou contravenção penal, praticadas por adolescentes (Art.103), que o Estatuto considerada a pessoa entre 12 a 18 anos incompletos. Sendo assim, é imposta ao adolescente autor de ato infracional, uma das seguintes medidas socioeducativas: Advertência, Obrigação de Reparar o Dano, Prestação de Serviço a 17 Comunidade – PSC, Liberdade Assistida (LA), que são medidas em meio aberto, não ficando o adolescente privado de sua liberdade. Como também, a medida socioeducativa de Semiliberdade e Internação, sendo estas medidas de regime semiaberto ou fechado, onde os adolescentes são privados de liberdade. (Art. 112). Antigas práticas discriminatórias, repressoras e estigmatizantes, preconizadas nas legislações menoristas, passaram a dar lugar à construção de uma nova posição da infância e da juventude como sujeitos de direitos, tendo prioridade absoluta em suas garantias. Isto causou um avanço nas políticas públicas de atenção à infância e à juventude, porém, por outro lado, surgiram diversas críticas a essa nova legislação, pois passou a ser divulgada como uma política ineficaz e sem efetivação, protegendo apenas o adolescente “criminoso”. Haja vista que, aos olhos de quem critica o ECA, as punições não são suficientes para a recuperação dos adolescentes neste perfil. Portanto, para Tella, (2008) a pena que satisfaz a sociedade é aquela que: [o] Estado intencionalmente causa um sofrimento, desprazer, dor ou mal ao ofensor como fim ou como um meio para um fim [...]. A ideia de dor manipulada não se concretiza exclusivamente na dor ou no sofrimento físico, mas também abarca todas as situações imagináveis de frustração de desejos pessoais de algum tipo. (TELLA, 2008, p.33 apud LIMA, 2010, p.54) O que traduz na fala do adolescente, quando se referiu à conduta policial em seu processo de apreensão: Assim mesmo, na hora, na hora né? (da apreensão) eles tacaram bala em nós, pediram pra nós deitar no chão. Deita no chão! Aí nos ficamo deitado. Aí quem tava com a bolsa, eles ficaram em cima dele, pisando, pisando pra dizer onde é que tava as arma. Aí eu fui olhar pra eles, e os policial já ficaram me batendo já, queria que nos olhasse pro rosto deles não, começou logo a bater. Aí os outro policial achou. Aí eles disseram: Uhu ta boa a apreensão e tal, nos tamo de parabéns, e o povo lá tudo batendo palma. (Diego) Apesar de uma legislação destinada à infância e à juventude, tendo como premissa básica que crianças e adolescentes devem ser vistos como pessoas em desenvolvimento, sujeitos de direitos e com proteção integral garantida, as práticas cotidianas de parte da população, bem como dos agentes de segurança pública do Estado parecem distorcer essas teorias, exercendo em suas práticas cotidianas condutas não condizentes ao que lhes foi garantido por lei, fazendo uso de força e arbitrariedade para resolver os conflitos existentes entre população, polícia e adolescentes. Tornandose assim, seus diálogos cada vez mais difíceis. 18 Incoerência e abordagens baseadas em estereótipos do “perfil do infrator”, traduzidas através das gírias, das falas arrastadas, do corte de cabelo, do estilo das roupas, das tatuagens e a maneira de se locomover, são por diversas vezes praticadas de forma violenta. Compreendendo que a categoria violência é composta por múltiplos significados, não podemos utilizar o termo no singular, pois: "(...) não existe violência, mas violências, múltiplas, plurais, em diferentes graus de visibilidade, de abstração e de definição de suas alteridades" (MISSE, 1999, p. 38). Portanto, não se limita ou se trata apenas de violência física, mas também, como forma de humilhar, de inferiorizar, de esnobar, que afirma com mais intensidade o estigma de adolescente autor de ato infracional, estereótipo de transgressor das normas sociais, violador de direitos e normas socialmente estabelecidas. O termo “menor” como foi rotulado nas antigas legislações torna-se o discurso enraizado até hoje, referente ao Código de Menores, conhecido por Código Mello Mattos, entra em vigor no decreto nº 17.943-A, datado do ano de 1927, foi instituído em 12 de outubro de 1927, era destinado às crianças e aos adolescentes abandonados que não possuíam condições de habitação adequada, muito menos, condições de subsídios. Em 1979 foi instituído um novo Código de Menores (lei 6697 de 10/10/1979) instituído pelo governo, construído por um grupo de juristas selecionados, com o intuito de substituir o Código de Menores anterior. Contudo, é notório que não apresenta em si mudanças expressivas, apresenta pressupostos e características que colocam a criança e os adolescentes pauperizados como ameaça à ordem vigente. A partir das minhas inquietações presenciando todos os dias nos programas policiais de Fortaleza, as mais diversas formas de violência: a violência na cidade, a violência dos crimes e a violência como forma de romper com a violência. Percebi, que a cada dia aumentava o número de notícias envolvendo adolescentes como praticantes de atos ilícitos, ênfase dos meios de comunicações em relação a estes casos, e que isso repercutia muito, chamava atenção dos telespectadores, que ficavam vidrados frente à televisão observando as noticias. Durante as apresentações dos programas policiais, os próprios apresentadores faziam uma “reflexão” sobre as tais práticas cometidas por adolescentes, reflexões que estimulavam a prática da violência, da tortura, baseadas em punições de outros países como forma de solucionar tal problema. Por várias vezes, mostrava a tortura e o “linchamento” como algo sensacionalista, que justificasse a conduta violenta da figura 19 policial ou da própria população, ainda em outras vezes, motivavam para que essas práticas violentas fossem de fato efetivadas, para que desta maneira esse público fosse penalizado de forma “justa”, além disto, “alertavam” os telespectadores quanto ao perfil desses infratores, bem como estereotipavam seu território. O discurso da mídia era que crianças e adolescentes eram os maiores responsáveis pelo aumento da violência, contudo, defendiam a redução da maioridade penal, colocava que a punição como o meio mais eficaz para a redução da violência. Porém, segundo os dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) revelam que o aumento de crianças e adolescentes envolvidos em práticas ilícitas aumentaram 79.6% em 2013 em comparação ao ano de 2012, sendo 2.860 adolescentes apreendidos no referido Estado, enquanto houve um aumento de 38,5% de adultos presos por práticas ilícitas, sendo totalizadas 7.752 prisões em 2013, e 5.597 em 2012. Assim, não se pode negar que existe um aumento dos números de crianças e adolescentes envolvidos em práticas infracionais, mas, esses não são os maiores responsáveis pelo aumento da criminalidade. O sentimento de horror quando um adolescente comete um ato infracional na sociedade, é despertado na população e representado pela mídia de forma escandalosa que coloca esse sujeito como grande violador de direitos e sujeitos de índole má. No qual transfere para a sociedade essa ideia, sem que haja uma reflexão do fato, sem que se tenha uma sensibilidade de perceber que este sujeito é uma pessoa em desenvolvimento, em construção da identidade. Sensibilidade não no sentido de sentir “pena” do autor do ato infracional, e não o responsabiliza-lo pelo seu ato ilícito, mas de compreender o meio social que este está inserido e as motivações ao cometimento do ato infracional. Assim, transparece a ideia de que a punição é o meio mais eficaz para reeducar o adolescente que comete ato infracional. Que a tortura, a violência, a negação é o meio pelo qual o adolescente evitará reincidir nos atos ilícitos. Contudo, como explica Ferreira “[...] indivíduos submetidos a torturas, espancamentos e ameaças de morte poderiam vir a alertar os demais membros das classes populares para o risco da delinquência.” (2002, p.130). Desta forma, manifestando o sofrimento a quem comete ações ilícitas, diminuiria o índice de violência. Neste aspecto, é importante ressaltar a natureza repressiva dos mecanismos de controle social e segurança pública, haja vista que utilizam regras próprias no desejo de desenvolver medidas práticas para coibir a violência. E é neste contexto que a polícia, 20 através de imposição de uma ordem pautada no autoritarismo, apresenta a resposta para a sociedade de garantir a paz social. Tendo refletido de forma geral acerca das modificações de mecanismo sociais, tais como, adolescência, violência, a violência praticada por adolescentes, a importância da mídia no processo de reflexão da sociedade, a representação das autoridades policiais e mecanismos de segurança pública sobre os direitos da infância e da juventude, me encontrei em total inquietação acerca de tais questionamentos. Assim, fez-se necessário meu processo de pesquisa específico, para compreender tais fenômenos. Contudo, as reflexões acerca das expressões da questão social fundamentadas no curso de Serviço Social, fizeram-me compreender que este fenômeno não é algo imediato, mas que possui uma construção social de alta relevância particularizada em cada caso, em cada adolescente, em cada história de vida, compreendendo cada um em sua realidade. A partir deste olhar, senti a necessidade de aproximar-me destes adolescentes autores de atos infracionais e de identificar e analisar sua realidade e experiências vivenciadas em seu meio social, de ouvir o que sentem, o que pensam, o que fazem, o que sonham, o que planejam, o que desejam, enfim, conhecer as motivações pelas quais cometem um ato infracional ou se envolvem em práticas delituosas, e como esses adolescentes percebem as práticas policiais em suas abordagens de rua e em suas apreensões. Essas indagações surgiram a partir das reflexões, dos questionamentos, que falavam sobre a redução da maioridade penal, da inexistência de uma lei severa, da existência de uma lei que “só protege vagabundo” e ao mesmo tempo contradizendo a ineficácia de uma legislação que garante direitos a criança e ao adolescente. Então, busquei participar de eventos que discutissem tais questionamentos, para assim compreender e me posicionar diante de tal temática. Diante do exposto, a aproximação com o tema e o interesse em discutir essa temática surgiu a partir da inserção ao campo de estágio nos Centros Educacionais e a aproximação com adolescentes internos provisoriamente e em cumprimento de medidas socioeducativas. Onde no primeiro momento realizei estagio no Centro Educacional Cardel Aloísio Lorchieder – CECAL, que atende jovens de 18 a 21 anos de idade sentenciados com a medida socioeducativa de internação. E no Centro Educacional São Francisco- CESF, unidade de internação provisória que atende adolescentes de 16 e 17 anos, onde acompanhei casos de adolescentes aos quais era atribuída a autoria de atos 21 infracionais, onde relatavam em seu processo de apreensão a violência sofrida por parte da autoridade policial que realizava as abordagens e apreensões, os estereótipos “da cara do ladrão”, as representações das tatuagens, por fim, a relação vivenciada entre eles. Contudo, não deixando de ouvi-los e levando em consideração também os adolescentes que relatavam suas experiências nas quais a autoridade policial aparecia como meio protetor impedindo que a própria população agisse com violência contra eles. Assim, a partir das reflexões sobre essas práticas policiais no processo de apreensão por eles mencionados, percebi a necessidade de analisar mais sobre esses relatos sob a ótica dos próprios adolescentes envolvidos nesse processo, identificar como se dá a relação dos adolescentes autores de atos infracionais e os policiais que realizam a sua apreensão na cidade de Fortaleza. Assim, a pesquisa que deu base a este trabalho monográfico teve como objetivo identificar o sistema de relações vivenciais pelos adolescentes autores de atos infracionais e a autoridade policial em seu processo de apreensão, considerando os aspectos de comunicação verbal e comportamental manifestados entre eles. E especificamente mapear o perfil e as condições sociais dos adolescentes internos provisoriamente; identificar qual a representação da autoridade policial para um adolescente autor de ato infracional: proteção ou repressão? Contudo, compreender o referencial das tatuagens de palhaço para o adolescente autor de ato infracional, o que significam e o que representam frente à figura policial. Visto que parece haver certo significado atribuído às tatuagens quanto à identificação com prática infracional, como explicita a fala de um adolescente em um atendimento realizado no Centro Educacional São Francisco – CESF, quando indagado sobre sua apreensão: “eu tava lá na praça, de boa... e só porque eu tenho essa tatuagem aqui de palhaço, eles me trouxeram preso” (Lucas). O que me chamou atenção e despertou o interesse pela pesquisa. Desta forma surgiu o interesse de aprofundar as reflexões sobre as condutas policiais de Fortaleza referente ao público juvenil. Onde conhecendo a realidade vivenciada por estes adolescentes em atendimento, observações, trabalho de grupo, realizados dentro da Unidade de privação de liberdade, podemos compreender as práticas delituosas como peças de jogo de tabuleiro, onde essas peças referem-se a diversos fatores sociais, expressões da questão social embutidas nesta realidade. 22 2.2 O percurso metodológico e a realização da pesquisa Ao iniciar este estudo sobre o olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre a figura policial e sua conduta, me deparei com a primeira dificuldade: a ausência de estudos científicos mais aprofundados sobre essa temática. Pois muito se refere ao adolescentes envolvidos em práticas infracionais, à violência dentro das unidades de privação de liberdade, do sistema socioeducativo, às relações de conflitos com outros adolescentes internos, no entanto, não aos conflitos existentes a partir das abordagens de rua e apreensões de adolescentes autores de atos infracionais e a autoridade policial. Contudo, a partir da prática de estágio em um Centro Educacional, e dos atendimentos realizados diariamente aos adolescentes internos, pude fazer um estudo especifico sobre a temática. A pesquisa de campo foi realizada nos meses de abril e maio de 2013, tendo como campo de empírico o Centro Educacional São Francisco – CESF, que atende em regime de internação provisória, adolescentes do sexo masculino autores de atos infracionais, enquanto aguarda a conclusão do processo de apuração do ato infracional pelo Juizado da Infância e da Juventude, e seja aplicada a este alguma medida socioeducativa. Vale salientar, que a medida de internação provisória não é uma medida socioeducativa. Adotei a pesquisa qualitativa de campo, bibliográfica e documental, uma vez que todas me possibilitariam coletar dados relevantes para a investigação, utilizando o campo onde pretendia aprofundar os questionamentos com os adolescentes internos em um Centro Educacional da Comarca de Fortaleza, para que eu pudesse identificar as percepções e ouvir as experiências dos próprios adolescentes envolvidos nesse processo, a bibliográfica que me embasaria aos conceitos dos autores que discutissem a temática, e a documental, onde através dos vídeos, dos programas policiais, pude perceber como esses interlocutores são vistos, e por fim, as legislações e prontuários dos adolescentes onde pude coletar dados específicos. Contudo, vale salientar que apenas os adolescentes autores de atos infracionais internos provisoriamente no CESF foram ouvidos nesta pesquisa, que em nenhum momento a figura policial expôs aqui suas opiniões, haja vista, que o objetivo da pesquisa é ouvir as experiências dos adolescentes com a polícia. Com relação às técnicas utilizadas para coletar dados da pesquisa, realizei dois grupos 23 focais em momentos distintos com diferentes interlocutores. Pois, como refere-se a autora Carey (1994), este método é [...] utilizado para estudos de temas complexos que envolvem muitos níveis de sentimentos e experiências; [...] não é um processo de educação nem de terapia para o grupo e sim de relatos de experiências e crenças sobre o tópico escolhido; [...] Poderão surgir outras categorias adicionais que devem ser consideradas e relacionadas com o grupo em si e com as respostas individuais. Além de que, podemos, [d]esenvolver ou redefinir os instrumentos – identificar domínios, conhecer o vocabulário específico para se montar questionários e ter acesso a apropriações culturais; [...] Enriquecer e explorar os resultados da interpretação de uma pesquisa, sobretudo as contradições. (CAREY, 1994, p.). Portanto, executar o grupo focal possibilitou registrar a riqueza das falas e experiências compartilhadas dos adolescentes. Contudo, a investigação não se limitou ao preenchimento de formulários ou questionários de forma objetiva. O instrumental utilizado para dar norte a minha pesquisa foi baseado no rigor científico, porém, de forma que possibilitou identificar a riqueza das falas dos adolescentes, sendo assim utilizados diários de campo para registrar falas que não seriam previstos em instrumentais, como também foram realizadas entrevistas semi-estruturadas. Nesse sentido, trata-se de um estudo qualitativo, onde o que é relevante não é o numero de interlocutores pesquisados, mas, como refere-se Martinelli, (1999) “ [...] é o significado que esses sujeitos têm em função do que estamos buscando com a pesquisa” (p.24). A escolha de analisar como se dá a relação policial com os adolescentes aos quais foi atribuída a prática de atos infracionais durante todo período de apreensão até o encaminhamento ao Centro Educacional, não partiu de uma curiosidade particular, mas sim de relatos de violência expostos por vários adolescentes internos no CESF. Uma vez que se compreende que os adolescentes são sujeitos de direitos, e, no entanto devem ter seus direitos garantidos conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Segundo Velho, (1978) no ato de pesquisar devemos transformar o “exótico em familiar e o familiar em exótico”. O autor refere-se ao distanciamento necessário para realizar a pesquisa, no entanto, explica que devemos olhar para o “familiar”, ou seja, o que já se conhece, como algo novo, para assim rompermos com nossos pré-conceitos, pré- ideias e pré-noções do que vamos estudar, como classifica: O que sempre vemos e encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido e o que vemos e encontramos pode ser exótico, 24 mas, ate certo ponto, conhecido. No entanto estamos sempre pressupondo familiaridades e exotismo como fontes de conhecimento ou desconhecimento, respectivamente (1978, p.5). Levando em consideração também as reflexões de Sousa, (2010). Se quiser atravessar um muro, há que se tomar certa distância. É só lembrar de menino quando quer pular o muro para pegar a bola que caiu do outro lado: ele se afasta, toma fôlego, pega carreira e vai. Até chegar do outro lado (2010, p. 27). Desta forma, para “atravessar” o muro do universo que escolhi pesquisar precisei fazer praticamente a mesma coisa do menino. Depois de um longo período de envolvimento com atendimentos de adolescentes privados de liberdade provisoriamente, tive que me distanciar do meu “pensar-saber” sobre as coisas, para assim, “tomar fôlego” e me lançar neste espaço novamente, porém, com um novo olhar, o da pesquisadora. O contato e a aproximação com os adolescentes se deu a partir de um aprofundamento teórico, sobre a garantia de direitos e deveres de crianças e adolescentes atribuídas no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, bem como um estudo sobre as tradicionais condutas policias e sobre o novo modelo de polícia, “A polícia da boa vizinhança”. Tendo realizado tais leituras, utilizei alguns critérios para a escolha dos meus interlocutores. Sendo selecionados quatorze adolescentes para os grupos focais, oriundos da Comarca de Fortaleza, primários e reincidentes, que respondem judicialmente a atos infracionais tipificados como roubo, tráfico ilícito de drogas e porte ilegal de arma de fogo, pois estes são os atos infracionais de maior índice cometidos por adolescentes que dão entrada no CESF. Nas entrevistas, foram selecionados quatro adolescentes que participaram dos grupos focais, utilizando os mesmos critérios, bem como a diversidade de experiências expostas por cada entrevistado nos grupos. Quando adentrei no campo, o sentimento era de alegria, empolgação, descoberta, medo e ansiedade. Era uma mistura de sentimentos que me moviam, que me davam ânimo para pesquisar. Iniciei, então, meu primeiro grupo focal, com as pernas trêmulas de tanta ansiedade em saber como seria aquela tarde de sexta-feira, ouvindo as experiências de cada adolescente, e quais os resultados eu traria à minha pesquisa. Ainda com as pernas um pouco trêmulas e o frio na barriga, contando com a participação de sete adolescentes, deu-se início a nossa discussão. Inicialmente, eu, a assistente social e também a estagiária da Unidade nos apresentamos, estas me deram 25 suporte para a realização do grupo, fazendo questionamentos acerca da temática para que assim eu pudesse perceber com a riqueza de detalhes cada gesto, ação e falas dos adolescentes, que se traduziam também em seus silêncios, expressões faciais e gestuais. Após nossa apresentação, explicamos os motivos pelos quais seriam realizados os grupos focais, o intuito e objetivos da pesquisa. Assim, deixamos claro que a participação dos interlocutores seria voluntária, tendo dito uma resposta positiva do grupo o que aceitou participar e compartilhar conosco suas histórias de vida. Logo apresentamos o ECA aos adolescentes e indagamos se os mesmos já conheciam ou tinham ouvido falar sobre o Estatuto. A resposta imediata foi não de quase todos os participantes. Em seguida, um adolescente reincidente relata: “eu já ouvi... os orientador vive falando mal, dizendo que isso aí, né? é coisa ruim... que vive protegendo a gente” (Fernando). Contudo, a fala do adolescente destacou a ideia deturpada que se tem do ECA, onde os próprios operadores de direitos do sistema socioeducativo não compreendem os objetivos da legislação, reproduzindo as falas do senso comum, que esta lei só garante direitos a quem comete infrações e não penaliza os responsáveis. Seguimos então com a apresentação do ECA, explicando a Parte Geral do Estatuto. Os olhares dos adolescentes eram de surpresa, pois existia uma lei que garante direitos e deveres a eles, e que os próprios sujeitos de direitos dessa lei não a conheciam. Os olhos eram atentos aos slides que iam passando em conjunto com imagens que traduziam seus direitos. Depois da apresentação do ECA chegou a hora da apresentação que tanto me inquietava, a exibição de um vídeo e a discussão da temática. Mostramos o vídeo clip d’O Rappa – Tribunal de Rua, que retrata cenas reais de uma blitz policial em Diadema em 1997 mesclada com cenas dos filmes Tropa de Elite. Escolhemos o vídeo, pois mostrava cenas reais de abordagens policias, e cenas fictícias do filme Tropa de Elite, que retrata modelos de ações policiais. Rapidamente já começaram a surgir os relatos de suas experiências em seu processo de apreensão. Assim, para uma melhor organização do desenvolvimento do grupo, propomos que cada um contasse um pouco como se deu o seu processo de apreensão, de apreensões caso reincidente, e o seu ponto de vista diante do vídeo. Com isso, foi possível coletar dados que serão apresentados durante o desenrolar da monografia registrados através de observações diretas e registros em 26 diário de campo, ciente de que o método utilizado para coletar dados encontra-se enraizados na sutileza dos detalhes que tecem o cotidiano. A autorização para a realização desta pesquisa com os adolescentes internos no CESF foi concedida pelo Diretor da Unidade, no qual exerço estágio, tendo sido apresentado a ele um projeto de pesquisa, contextualizando tais reflexões e objetivos nas quais seria realizada a investigação. Sendo feito isto, foi assinado um Termo de Compromisso entre as partes, resguardando o sigilo das identidades dos interlocutores da pesquisa. Foi elaborado um questionário para traçar o perfil dos entrevistados (naturalidade, renda, escolaridade, sexo, etc.) tendo em vista a credibilidade exigida na pesquisa, porém os dados serão sigilosos, explicitados através de nomes fictícios. Tendo em vista, que estes dados são indispensáveis à pesquisa. Também lancei mão de entrevistas semi-estruturada, que foram gravadas com autorização dos interlocutores, o que possibilitou registrar as falas dos adolescentes. A partir da realização das entrevistas e da coleta de dados atribuídas a este processo, deu-se início a sistematização dos dados, no qual, analisei a realidade social vivenciada por estes adolescentes, realizando uma leitura crítica da prática e das legislações que garantem direitos e deveres que envolvem o público de crianças e adolescentes. 2.3 O espaço da pesquisa: o Centro Educacional São Francisco – CESF O Centro Educacional São Francisco (CESF) é uma unidade de privação de liberdade vinculada à Proteção Social Especial, que atualmente está sob responsabilidade do Programa de Proteção Social e Medidas Sócio-Educativas da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS). Segundo a Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004) a Proteção Social Especial é: [...] a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio-educativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, entre outras (PNAS, 2004, p.31). 27 Tais serviços demandam acompanhamento individual e apoio que assegure “qualidade na atenção protetiva e efetividade na reinserção almejada” (PNAS, p.31, 2004). Os serviços da proteção especial podem ser considerados de Média Complexidade e Alta Complexidade. Os de Média Complexidade proporcionam atendimentos às famílias e sujeitos que tem seus direitos violados, porém que seus vínculos familiares e comunitários não foram rompidos. Dessa forma, necessitam de uma estruturação operacional especializada e individualizada, através de acompanhamentos contínuos, nos seguintes serviços e medidas: Serviço de orientação e apoio sóciofamiliar; Plantão Social; Abordagem de Rua; Cuidado no Domicílio; Serviços de Habilitação e Reabilitação na comunidade das pessoas com deficiência; Medidas socioeducativas em meio aberto (Prestação de Serviços à Comunidade – PSC e Liberdade Assistida – L.A). Já os serviços relacionados à alta complexidade têm por objetivo a proteção integral englobando famílias e indivíduos com vínculos familiares e comunitários rompidos, sem referência e em situação de ameaça, necessitando afastar-se do convívio sóciofamiliar. Temos os seguintes espaços que contribuem para esse processo: Atendimento Integral Institucional; Casa Lar; Abrigos; Casa de Passagem; Albergue; Família Substituta; Família Acolhedora; Trabalho protegido e Medidas socioeducativas de privação de liberdade (semiliberdade, internação provisória, internação sanção e internação sem prazo). Através da Coordenadoria de Proteção Social Especial da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento do Estado, busca-se garantir o atendimento e a proteção integral aos adolescentes em conflito com a lei, estando pautado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). O ECA dispõe dos procedimentos técnico–operativos e jurídicos que deverão ser aplicados a crianças e adolescentes, estabelecendo os direitos fundamentais desse público e tendo como princípio primordial a prioridade absoluta. Vale salientar, que o Estatuto deixa evidente, em seus capítulos referentes aos atos infracionais, que os adolescentes autores de alguma ação ilícita possuem direitos individuais e garantias processuais, entendendo esses atores como sujeitos em desenvolvimento e que qualquer medida a ser aplicada deve considerar essa peculiaridade, bem como primar por ações 28 de caráter socioeducativo que possibilite o adolescente um retorno ao convivo sóciofamiliar. Já o SINASE, documento que foi aprovado em 2006 pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), constitui-se como um guia de auxílio para a implementação das medidas socioeducativas, possuindo um conjunto de regras, critérios e princípios, de caráter jurídico–pedagógico, que prima por um processo educativo que oportunize aos adolescentes construções de novas atitudes, valores e de uma postura reflexiva e crítica diante de sua situação, possibilitando que mesmo elabore e construa um novo projeto de vida. As ações dos Centros Educacionais devem ser norteadas por esses três documentos (Proteção Especial, ECA e SINASE), pois neles constam os objetivos e ações que precisam ser implementadas para um efetivo desenvolvimento dos adolescentes no seu processo de privação de liberdade. O CESF foi inaugurado em 16 de dezembro de 1996. Ao ser construído, tinha o objetivo de atender adolescentes em conflito com a lei que estavam cumprindo medida de Internação Provisória. Entretanto, atendendo as necessidades de outras Unidades de cumprimento de medidas socioeducativas, passou a receber adolescentes sentenciados à internação definitiva, Internação/Sanção e internação provisória, passando por várias modificações em seu público-alvo. Porém, atualmente, é destinada a atender o público inicialmente proposto, adolescentes do sexo masculino, que cumprem medida de Internação Provisória (Art. 108 do ECA), que compreende “a internação, antes da sentença, podendo ser pelo máximo de quarentena e cinco dias”, onde o juiz deverá julgá-los e aplicar a medida socioeducativa necessária. A Unidade foi construída com capacidade para atender sessenta adolescentes, mas devido à superlotação, o número de adolescentes internos, normalmente, contabiliza o dobro de sua capacidade. Durante o período de Janeiro a Maio de 2013, o Centro trabalhou com cerca de 120 a 150 adolescentes, mensalmente sendo 70% a mais de sua capacidade. Os adolescentes são admitidos no CESF através de uma determinação judicial, que de acordo com o ato infracional praticado encaminha-os à Internação Provisória (Art. 108). O adolescente na ocasião de sua apreensão é encaminhado a Delegacia da 29 Criança e do Adolescente (DCA), para prestar esclarecimentos, logo, ouvido pela autoridade Judiciária que atua no “Projeto Justiça Já1”. Após a implementação do “Projeto Justiça Já”, foi criado uma Vara de Execuções especializada nas medidas socioeducativas (5ª Vara), esta também é a Vara responsável por adolescentes oriundos de outras Comarcas, ficando as demais Varas (1ª, 2ª, 3ª e 4ª) da Infância e da Juventude responsáveis em apurar os procedimentos dos adolescentes em conflito com a lei da comarca de Fortaleza- CE. Após a promulgação da sentença, os processos passam a adquirir o caráter de execução e são redistribuídos para a Vara especializada, como foi citado acima. Os procedimentos legais estabelecidos pelo “Projeto Justiça Já”, vão desde a apreensão do adolescente onde este é encaminhado para as Unidades de privação de liberdade para cumprir a medida de Internação Provisória (Art. 108 do ECA), enquanto aguarda a apuração do ato infracional. 2.4 O cotidiano dos adolescentes no CESF Ao ser encaminhado pelo Juizado da Infância e da Juventude e admitido na Unidade, os adolescentes passam pelo atendimento da Direção e/ou, pelo Coordenador de Disciplina, função criada pela Coordenação das Medidas Socioeducativas da STDS, que objetiva auxiliar a Direção dos Centros Educacionais no que se refere aos problemas disciplinares dos adolescentes. No qual, neste atendimento é esclarecido sobre as normas da Instituição, da dinâmica e o cotidiano estabelecido dentro do Centro. O adolescente é orientado sobre as “regras de convivência”, tanto com os outros adolescentes internos, instrutores educacionais e equipe técnica. Logo, é informado o dormitório que será engajado. Esta decisão da Direção é estabelecida através dos critérios de compleição física do adolescente, localidade ou bairro em que reside e ato infracional cometido. 1 O “Projeto Justiça Já” foi implantado em Julho de 1997 pela Diretoria do Fórum Clóvis Beviláqua, portaria Nº 267/97, tinha como objetivo a agilidade nos processos pertinentes a crianças e adolescentes no que diz respeito à garantia de seus direitos previstos no ECA, bem como, a implantação de uma justiça imediata na simplificação de procedimentos infracionais. 30 Após o atendimento com a Direção, o adolescente é atendido pelo Setor Social, onde neste momento a Equipe preenche uma ficha sumária contendo seus dados de identificação e de telefone para que o mesmo possa manter contato com seus familiares. Neste atendimento, é esclarecido ao adolescente acerca da Internação Provisória, sobre as audiências que deverá comparecer e as medidas socioeducativas que o Juiz pode aplicar para que este cumpra a medida socioeducativa correspondida ao ato infracional cometido. Ao decorrer dos dias na Unidade, o adolescente é atendido novamente pela Equipe de Serviço Social, para que seja realizado o atendimento mais aprofundado sobre a situação do adolescente, neste atendimento, lhe é permitido ao adolescente expor um pouco acerca de sua infração, de seu relacionamento sociofamiliar, seus envolvimentos em outras situações de risco e uso de substâncias entorpecentes. Onde a partir das demandas sociais requerentes a eles, a equipe possa tomar as providências cabíveis e apresentar ao Juiz competente caso necessário, solicitado ou determinado. A Unidade é composta por uma equipe multidisciplinar que acompanha o adolescente durante todo período de internação provisória, composta por advogados que prestam atenção jurídica, psicólogas que realizam atividades e encaminhamentos, pedagogos responsável por inscrever os adolescentes nas atividades pedagógicas e oficinas profissionalizantes dentro da unidade, como também assistentes sociais, responsáveis por realizar atendimentos sistemáticos aos adolescentes e as famílias. 2.5 O Perfil dos Interlocutores De janeiro á maio de 2013, o CESF contabilizou um número de 50% a 70% de adolescentes a mais de sua capacidade, desta maneira o número de adolescentes contabilizou cerca de aproximadamente 120 a 140 atendidos mensalmente, o que totalizou um número de 643 adolescentes atendidos na Unidade durante esse período. Destes 72% respondiam pelo ato infracional tipificado como Roubo, Tráfico Ilícito de Drogas e Porte Ilegal de Arma de Fogo, totalizando 442 adolescentes apreendidos por atos infracionais destas tipificações, ficando assim, os demais adolescentes encaminhados por furto, homicídio, latrocínio, lesão corporal, estupro, formação de quadrilha, dentre outros. 31 Desta forma, o critério utilizado para escolher os adolescentes dos grupos focais e entrevistas, se deu a partir da tipificação dos atos infracionais cometidos, onde o Roubo, o Tráfico Ilícito de Drogas e o Porte Ilegal de Arma de Fogo representaram os maiores números de adolescentes admitidos na Unidade. Assim, o grupo focal foi realizado com o total de 14 adolescentes oriundos da Comarca de Fortaleza, no qual foram encaminhados ao CESF pelos atos infracionais acima mencionados. Sendo, oito adolescentes reincidentes e seis primários, dentre eles dois já tinham passagens pela DCA de onde tinham sido liberados e entregues a seus familiares com remissão judicial, o que compreende o “perdão judicial”, onde o adolescente é liberado e seu processo é arquivado antes ou durante a internação provisória. E um deles tendo sido apreendido por várias vezes, sendo esta a sua décima apreensão em um Centro Educacional. Mesclados entre 16 e 17 anos de idade e tipificações infracionais, sendo seis adolescentes encaminhados por Roubo; três por Tráfico Ilícito de Drogas; um por Porte Ilegal de Arma de Fogo; três por Roubo e Porte Ilegal de Arma de Fogo; e dois por Tráfico Ilícito de Drogas e Porte Ilegal de Arma de Fogo foram selecionados os adolescentes que compuseram os grupos focais. Dentre eles, quatro participaram das entrevistas semi-estruturadas, sendo estes escolhidos a partir de alguns critérios, como primários e reincidentes, tipificação do ato infracional, e posicionamento diante do grupo, que apresentou de maneira diversificada suas experiências. Contudo, os nomes para identificar as falas dos adolescentes serão fictícios como o intuito de resguardar a imagem dos adolescentes que compartilharam de suas experiências vividas, respeitando assim o sigilo de suas identidades. Sendo assim, apresento-lhes os interlocutores da pesquisa que participaram das entrevistas: Fernando, 16 anos, reincidente, é filho de pais separados há aproximadamente 15 anos, onde segundo o adolescente a genitora mudou-se para Recife, quando ele ainda tinha três meses de idade. Desde então, passou a residir apenas com o genitor, a avó paterna e o irmão. Relata que aos 15 anos, seu genitor deu início a um novo relacionamento amoroso, no qual sua madrasta não gostava dele e de seu irmão. O genitor lhe expulsou de casa relatando que não gostaria que os filhos residissem com sua nova família, porém, que lhes ajudaria financeiramente sempre que pudesse. Desde então, Fernando passou a morar com sua companheira de 13 anos e seu cunhado de 15 anos, sendo a 32 renda familiar provida pelo dinheiro adquiridos pelos cometimentos de atos infracionais, como Roubos e Tráfico Ilícito de Drogas. Tendo sido este o motivo pelo qual, segundo o adolescente relatou, ter se envolvido na criminalidade e passar a cometer atos infracionais, sendo esta sua décima apreensão em Centro Educacional, e encaminhado ao CESF pelo ato infracional tipificado como Tráfico Ilícito de Drogas. Daniel, 16 anos, reincidente, filho de pais separados há aproximadamente 15 anos, reside com sua genitora e seu padrasto no bairro Pirambu de Fortaleza, relata ser positiva a relação familiar, que o padrasto representa a figura paterna. Daniel é estudante da 5ª serie do Ensino Fundamental e foi encaminhado ao CESF pelo ato infracional tipificado como Tráfico Ilícito de Drogas. Segundo o adolescente, os planos e projetos de vida são outros, relatando que passou a cometer atos infracionais logo quando passou a fazer uso de substancias ilícitas, porém, que deseja mudar de vida. Thiago, 16 anos, primário, filho de pais separados há 7 anos, reside com seu genitor e sua irmã no bairro Sapiranga de Fortaleza. Relata que desde a separação dos seus genitores passou a residir com o pai, mantendo contato eventualmente com sua genitora. Relata que parou de estudar na 6ª série do Ensino Fundamental, que não possuía interesse em assistir aula, uma vez que não conseguia compreender o que era passado em sala de aula. Porém, relatou que gostava de fazer aula de violão, e que continuar as aulas de violão seria talvez o seu projeto de vida, além de trabalhar. Thiago foi encaminhado ao CESF pelo ato infracional tipificado como Roubo. Diego, 16 anos, primário, filho de pais separados há 10 anos, reside com sua genitora, seus dois irmãos e sua avó no bairro Serrinha, em Fortaleza. O adolescente relatou que parou de estudar na 8ª serie do Ensino Fundamental. Foi encaminhado ao CESF pelo ato infracional tipificado como Roubo, o que segundo o adolescente foi a primeira vez que cometeu um ato infracional. Diego relata não possuir envolvimentos infracionais, sendo esta sua primeira apreensão, onde segundo o adolescente o valor roubado seria em grande quantidade o que daria para reformar a casa da avó e organizar a sua vida já que estava prestes a ser tornar pai, haja vista, que sua companheira estava gestante de sete meses e ainda não possuía o enxoval do bebê, como orientou “os maior de idade” (Diego) que juntamente cometeu o roubo. 33 Desta forma, podemos perceber um misto de histórias compartilhadas pelos adolescentes internos provisoriamente no CESF, de forma breve conhecer um pouco desses sujeitos que se tornaram autores principais da pesquisa. Ouvi-los e compreender a partir de suas experiências que foram expostas de forma tão espontânea. 34 3 SUJEITOS SUSPEITOS E ESPAÇOS “VIGIADOS” 3.1 As novas configurações de violência urbana A partir do final da década de 1980, de acordo com Adorno, (2002) a sociedade brasileira experimentou pelo menos quatro tendências relativas ao problema de violência. Segundo o autor, 1. O crescimento da delinquência urbana, em especial dos crimes contra o patrimônio (roubo, extorsão mediante sequestro), e de homicídios dolosos; 2. A emergência da criminalidade organizada, em particular em torno do tráfico nacional de drogas [...]; 3. Graves violações de direitos humanos que comprometeram a consolidação de uma ordem política e democrática; 4. A explosão de conflitos nas relações intersubjetivas, mas propriamente conflitos de vizinhos, com tendências a convergir para despachos fatais (2002,p). Adorno, (2002) explica que essa nova configuração de violência causou uma modificação ao longo da década de 1990 até os dias atuais, principalmente porque reforçaram a distância entre ricos e pobres. Onde os primeiros “se trancavam” cada dia mais em condomínios e residências de muros altos, disponíveis de sistema de segurança, protegidos por mecanismos de segurança eletrônica e particular, enquanto, os pobres passaram a sofrer duplamente com a nova configuração de violência, tanto por a violência estar entrelaçada em seus espaços residenciais e de convívio social, como também por processos de exclusão social reforçado por estigmas que fortalecem a ideia de que esses eram responsáveis por este novo cenário de violência. As causas da desigualdade social são referidas por Schwartzman (2004) como resultado de um sistema excludente que: (...) se desenvolve através de um processo denominado ‘modernização conservadora’, cuja característica principal é, precisamente, a nãoincorporação de grandes segmentos da população aos setores modernos da economia, da sociedade e do sistema político (SCHWARTMAN, 2004, p.32). O que o sociólogo Pedrazinni (2006) chamou de “era dos acessos”, traduzida nas possibilidades de consumo, ou seja, onde em determinados setores mais ricos da população adquirem acessos a um sistema de saúde, de educação, de habitação, de segurança, dentre outros, que são negados ou efetivados de forma ineficiente e precária a população mais pobre que não possui um padrão econômico para poder consumir de forma igualitária. 35 Desta forma, como explica Rusche e Kirchheimer (2001): [...] praticamente desde que a pessoa nasce, é programada para o consumo. Esta é a base do sistema econômico vigente: consumir o máximo possível ainda que não sejam produtos necessários. O jovem sem condições econômicas que propiciem tal consumo sente a necessidade, mas não pode satisfazê-la de forma aceita pela sociedade. Importante lembrar também que nesta fase a roupa que se usa, os bens que se possui ou os lugares que se frequentam têm um peso brutal na aprovação ou não do individuo em determinado grupo; [...] principalmente nessa. Tudo isso demanda dinheiro. Dinheiro que o jovem não tem por viver, muitas vezes, em estado de pobreza relativa. Isso não o abrigará a praticar delitos. Não é possível afirmar que este seja um determinante; mas sem dúvida é um estímulo considerável (RUSCHER; KIRCHHEIMER, 2001, p.). Em geral, segmentos da elite e de classe média desfrutam das benesses favorecidas pelo seu poder econômico ou pelo seu poder de consumo, enquanto outra parte da população fica a mercê das medidas assistenciais dos poderes públicos institucionalizados, ou de meios ilícitos para se inserir no sistema de consumo. Contudo, não se torna um problema apenas de política, mas sim, de polícia. Este fato se caracteriza principalmente pela construção de “territórios estigmatizados”, na distinção e discriminação de moradias que ocupam cenários desprivilegiados do cenário social e cultural da cidade. Assim, dá a emergência de estratégias de repressão das classes consideradas perigosas, que são penalizadas e estigmatizadas pela sua própria condição. Nessa perspectiva, segundo Paiva (2007), [...] as áreas mais pobres dos grandes centros urbanos são, naturalmente, vistas como os lugares mais perigosos das cidades. Estudos realizados em outras grandes cidades do Brasil revelam que as periferias têm sido locus privilegiados de ações que envolvem o uso da violência como forma de coerção dos moradores locais [...] ou como forma de resolução de conflitos pessoais (Paiva, 2007, p.6). Em uma entrevista concedida por um adolescente do CESF, ele relata que em abordagem policial: Eles me viram sentado em frente ao aeroporto, porque eu moro naquela favela lá em frente... Eles pegaram meus dois celular e ficou dizendo que meu celular era de roubo, de roubo, de roubo. Aí eu pedi pra minha vó pegar os documento pra provar que eles era comprado, que não era de roubo...aí minha vó trouxe os documento, né? Quando eles (policiais) viram que tinha os documento né, jogaram meu celular no chão e começaram a me bater, tacaram minha cabeça na parede... aí minha vó disse assim: - “ó, vocês num podem fazer isso não, vocês não podem fazer isso não”... aí eles: ó senhora, a senhora fique calada que aqui é um bandido, aqui é um bandido, aqui é só abordagem da polícia, é nosso trabalho...aí minha vó: - “não, o trabalho de vocês é abordar, se tiver armado, ou com droga, ou então se tiver roubando, 36 aí vocês tem ‘o direito’ de fazer isso, mas ele num ta com nada, ele tá só sentado aí na calçada, o quê que custa ele ficar aí sentado na calçada”... aí minha vó começou a chorar lá mah, e eles num parava não, aí eu falava e quanto mais eu falava, eles me batiam, e minha vó lá vendo tudo, sendo destratada, com ignorância, né? Vendo tudo”. (Diego). Deste modo, percebemos que ações policiais estão sendo desenvolvidas a partir do “perfil do suspeito”, dos espaços periféricos estereotipados como violentos e perigosos. Assim, a própria dimensão da violência não pode ser pensada de forma dissociada ao público juvenil nos bairros da periferia de Fortaleza. Acontece que usar roupas de marcas, cordões de prata, sandálias e tênis da moda, assim como, possuir celulares modernos dentro de um bairro da periferia é diferenciar-se, é ganhar destaque, moral, diante dos outros adolescentes, é estar na moda, acompanhando a tendência. Contudo, como se referiu o adolescente que esteve no CESF, andar produzido e possuir “as coisas” dentro de um bairro pobre, é levantar suspeita de que o que possui é fruto de roubos, de trafico ilícito de drogas ou de outros atos ilícito. Já que o “cara” não tem dinheiro pra comprar, então ele roubou. Segundo Zaluar (1994), O consumismo é uma ideologia da busca do prazer que acabam por valorizar e criar de fato uma ausência de limites aos desejos individuais marcam também a sua presença no quadro de incoerências da cultura predominante que estimula o jovem a tudo isso através da publicidade constante na mídia, especialmente a televisionada. O aqui e agora da realização dos desejos individuais, alguns dos quais impossíveis no atual quadro de baixos salários, diminuição do crescimento industrial e valorização da qualificação para uma carreira profissional de ascensão social, alia-se ao vazio criado pela desmoralização das palavras e das regras de convivência respeitosas e equânimes no país (ZALUAR, 1994, p. 115). Ou seja, consumir em uma sociedade a qual foram banidos de seus direitos fundamentais e básicos e do poder de consumo, se torna quase impossível. Desta forma, a autora relata que a violência pode ser definida como “uma agressão à integridade física ou psíquica de alguém. A violência acontece quando subjugamos uma pessoa, quando a obrigamos a fazer alguma coisa que lhe cause danos físicos ou morais” (GONÇALVES; WYSE, 1997, p.49). Segundo Almeida (2009), o fato violento em si sempre existiu, porém, é reconhecido muitas vezes e acrescido por estereótipos, da imagem do pobre, negro, drogado, dentre outras conotações discriminatórias. Contudo, Adorno (2002) ajuda a compreende-se que essas conotações precisam ser reavaliadas. A mídia, ainda segundo o autor, é “[...] de certa forma, porta-voz das conversas sobres crimes de toda ordem, 37 ampliando as práticas criminosas e, geralmente, diluindo para o público a representação estereotipada do pobre, do mendigo, do jovem e do negro, geralmente como autores do mal absoluto” (ALMEIDA, 2009, p.32). Como se refere o autor, os crimes sempre existiram, o que mudou foram os crimes que terminam em desfecho total, ou seja, em homicídios, motivadas muitas vezes por motivos banais. Isso, não quer dizer que a violência é algo novo na sociedade atual, contudo, esses crimes “revelam quanto o tecido social encontra-se sensível a tensões e confrontos que, no passado, não pareciam convergir tão abruptamente, para um desfecho fatal” (ADORNO, 2002, p.100). Para Almeida (2009), o espaço urbano está cada dia mais sensível ao crime, o que revela a ausência de autoridade, onde percebe-se uma crise nas instituições de controle, que deveriam mediar tais conflitos, como também nas instituições sociais como um todo, no campo familiar, educacional, político, dentre outros, deixando os conflitos de toda ordem, seja na rua, no trabalho, na escola a mercê das relações interpessoais. Portanto, é necessário compreender que a autoridade não é autoritarismo, como no regime militar, e como enfatiza Almeida “[...] também não é quando penso em pessoas que se investe de autoridade como ‘manda-chuva do pedaço’” (ALMEIDA, 2009, p. 33). 3.2 Pela Lei da Punição: O discurso da violência contra a violência. Quem decide um caso sem ouvir a outra parte não pode ser considerado justo, ainda que decida com justiça (Sêneca). Os que vivem nos bairros periféricos, sobretudo, são os que mais sofrem com o abuso de autoridade, de insegurança, pois o tratamento se faz a partir dos estereótipos que “traduzem” marginalidade, delinquência, daquele que não é visto como cidadão. Os programas policiais se tornaram responsáveis por apresentar o ECA como o maior responsável pelo aumento da violência, da impunidade, o que causa medo e assusta a sociedade. No entanto, não se faz uma análise de todo contexto em que este público esta inserido e não se questiona acerca dos direitos não garantidos a estes cidadãos que são negados desde o nascimento, direitos fundamentais a pessoa humana, como saúde, habitação, educação e moradia. Reproduz-se no senso comum, que o 38 próprio Estatuto dá direito a cometer atos infracionais e os adolescentes não serem punidos por isto, onde a polícia “faz o seu trabalho” e que não pode bater, reproduzindo sempre o argumento senso-comum “se bater, num instante chega o pessoal dos direitos humanos para defender o bandido”. O que de certa forma ocorre, é que nos programas policiais a violência é discutida não apenas como um problema social que amedronta a sociedade, mas é tratada também como a solução para este problema. Resume-se, portanto na defesa da repressão. A exemplo do que está sendo discutido, apresento uma reportagem que foi exibida por um programa policial televisivo em Fortaleza, onde ao tratar o caso de um policial que foi assassinado no bairro Pio XII, o apresentador defendeu: Nós temos que fazer tipo Nova Iorque, Los Angeles [...] Hoje, a tolerância lá é zero [...] Escreveu não leu, o pau comeu [...] Em Nova Iorque, era chibatazol por um lado e opção por outro; quem queria ir ‘pro bom’: ‘venha pro bom’; quem queria pro cacete: ‘vai pro cacete’ [...] Criaram campeonatos de madrugada para que o jovem, no lugar de tá roubando, matando, assaltando, tava praticando futebol de salão, futebol de campo, voleibol, basquetebol, handebol [...] E aula integral, e tolerância zero [...] Era acariciando com uma e batendo com a outra. ‘Quem quiser carinho, é carinho: quem quiser pancada, é pancada’ [...] Carinho pra cá, pancada no pé do ouvido pra acolá’. Resolveram o problema. ‘Você é que sabe, meu amigo, o pé do ouvido é seu. Ou você vai trabalhar ou vai querer esquentar as orelhas aqui. (Idem) Complementou sua fala, relatando que: Não tem esse negócio de direitos humanos lá não. Lá a turma acertava no pé do ouvido, no meio dos olhos, onde pegasse. O cara que viesse dos ‘direitos humanos’ levava a pancada na cara. [...] Direitos Humanos é para humanos direitos; tem que inverter a coisa, pra proteger o cidadão (Comando 2216.4.2010). O discurso apresentado acima desvirtua o real conceito de direitos humanos que é o direito igualitário para todos, o reconhecimento que todos são iguais perante a lei, e que devem ter seus direitos básicos e fundamentais garantidos. Reforçando a ideia deturpada de que direitos humanos são pessoas e movimentos defendendo “os bandidos”, o crime, a permissividade das ações ilícitas e criminais. Assim, as “cobranças” feitas por estes apresentadores são de um Estado Penal, onde se aumente o encarceramento ou o aprisionamento, e não de um Estado de bemestar social onde todos tenham direitos iguais, como refere-se Wacquant (2001), “[...] o desinvestimento social implica no superinvestimento carcerário, pois este representaria 39 o único instrumento capaz de fazer frente às atribulações suscitadas pelo desmantelamento do Estado social” (WACQUANT, 2001, p.80). Contudo, a violência passa a ser desconsiderada ou relativizada se for praticada por “um cidadão” ou pela autoridade policial, que possui porte legal de arma e autoridade para “fazer o seu trabalho”. Desta forma, os excessos dos argumentos dos apresentadores não são questionados, apenas reproduzidos de forma a fortalecer declarações controvertidas de autoridades de segurança pública. Em uma entrevista dada por um Cabo no programa Comando 22, o mesmo relatou que “[...] em outros tempos a polícia usava a força para obter informações. Hoje em dia, não tem mais acocho pra dizer nada, tem que esperar a boa vontade do cidadão dizer o que aconteceu”. Referindo-se de maneira irônica a um rapaz, no qual o repórter e próprio policial não tinham certeza do caso que ele estava envolvido, havendo dúvida se o rapaz havia realizado um assalto, ou tinha sido vítima de um roubo. Em outro programa televisivo, “Os malas e a lei”, o apresentador expressava o “modelo ideal” de policiamento e segurança pública. Para ele, o modelo ideal de polícia que reduziria a violência na cidade era o modelo de atuação empregado pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), do Batalhão de Polícia de Choque; Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas (RAIO), grupo de elite do Pelotão de Motos do 5º Batalhão da Polícia Militar e o antigo Comando de Operações Especiais (COE), criado no período do regime militar com o intuito repressor, não deixando de praticar abusos de poder, haja vista que surgiu com o objetivo de desenvolver ações contraguerrilha, sufocando o movimento de oposição. “Eu só entendo segurança pública como era o COE, como é o GATE, como é o RAIO”. Apresentando assim, criticas ao novo modelo de policiamento criado, o ‘Programa Ronda do Quarteirão: A polícia da boa vizinhança’, expressando repulsa a este novo modelo de policiamento, “meu amigo, polícia é polícia. Esse negócio de Polícia Comunitária é pra dar satisfação aos direitos humanos”. Ou seja, mostrando o uso da força bruta como efeito pedagógico e disciplinar. Para Foucault, (1999) a disciplina, é uma “fórmula geral”, que a modernidade descobriu, de trabalhar os corpos, de adestrá-los de forma a torná-los mais eficientes, mais previsíveis, mais obedientes, de forma a controlar suas forças. Segundo Foucault (1979), “a estratégia adotada nessas instituições procura estabelecer uma relação de obediência-utilidade, na qual se pretenderá chegar a um corpo dócil. A docilidade é o produto de uma disciplina aplicada com sucesso. O termo, no 40 caso, pode tanto abranger a obediência, quanto à facilidade ao se lidar com o corpo” (FOUCAULT, 1979, p. 126). Diante disto, é valido pensar que tipo de reflexões esses programas policiais buscam fazer sobre algumas problemáticas, tais como, violência, adolescência, punição, bairros perigosos, dentre outras. Segundo Paiva (2007), assim, sem dúvida, estes programas têm um papel relevante na produção de uma imagem negativa sobre o Bairro. O que é valido ressaltar, o discurso estereotipado dos sujeitos que vivem em bairros “com a fama do lugar violento”, como se refere o autor. Enfim, os programas policias mostram muitas formas de violência, no entanto, uma delas é minimizada, não que não exista, mas que leva a um questionamento: será que é uma violência que pouco é exercida ou é pouco valorizada pelos programas policiais? Sendo esta a violência exercida pela autoridade policial. 3.3 Ronda do Quarteirão: “a polícia da boa vizinhança” O programa Ronda do Quarteirão veio com uma proposta inovadora de policiamento e segurança pública. “A polícia da boa vizinhança”, onde a proposta trouxe grandes repercussões na mídia, como também para a sociedade que confusa foi apresentada a este novo modelo de policiamento. Baseada em um novo modelo de polícia, com reformulações de estratégias de segurança, o Ronda do Quarteirão ganhou destaque no Ceará. Trata-se então, de uma proposta de policiamento que desenvolve ações ostensivas e preventivas. A proposta do “RONDA”, como foi denominado popularmente, agir de forma pacífica e próxima da comunidade, a fim de conhecer as suas demandas e propor estratégias de policiamento conforme a realidade de cada comunidade, cujo seus objetivos são: Diminuir os índices de criminalidade e violência; Melhorar a satisfação da população com o atendimento policial por meios das ações de polícia comunitária; Promover a cidadania através da participação dos integrantes das comunidades do diagnostico, analise e solução dos problemas de segurança; Fortalecer a confiança da comunidade nos órgãos de segurança pública; Melhorar a qualidade de vida das comunidades assistidas; Reduzir a sensação de insegurança nas comunidades atendidas pelo programa. (CEARÁ, Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. Projeto Ronda do Quarteirão, 2008). Em 2003, foi criado o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que foi gerenciado pela União com programas de reforma de instituições de segurança pública, 41 com o objetivo de reformular a imagem policial, bem como, criar uma nova estrutura policial, com novo comando e diretrizes para integração das ações policiais, assim como com a comunidade. Pois, diante de um cenário de aumento da criminalidade, de ações policias conduzidas por abuso de autoridade e violência, sobretudo, de sentimento de insegurança da população, a proposta do Ronda do Quarteirão foi lançada pelo atual governador do Estado do Ceará, Cid Gomes em 2006 em sua campanha eleitoral. Inclusive, com a proposta de incentivo à participação da sociedade no combate às práticas de corrupção e violação de direitos. Baseado neste novo modelo de policiamento, foi que em 2006, o Governador do Estado do Ceará propôs para a sociedade “a polícia da boa vizinhança”. Alguns acreditavam que era apenas mais uma proposta eleitoral do governador, e isso causou alguns questionamentos dos políticos adversários, que diziam que era um modelo impossível de policiamento, haja vista, que a proposta era de que os “novos policiais” atenderiam as ocorrências em apenas cinco minutos, e que era um modelo de policiamento participativo com a comunidade, onde os policiais iriam interagir com os moradores, levando segurança e confiança entre polícia e a comunidade. Assim, no final do mês de novembro de 2007, o Ronda do Quarteirão foi às ruas, e iniciava suas estratégias de segurança pública em alguns bairros de Fortaleza, tais como, Aldeota, Centro, Messejana e Bom Jardim, caracterizados como especificidade de cada localidade, como bairros residenciais com grande fluxo de pessoas e estabelecimentos comerciais, tipificações criminais, e aspectos sociais. Desta forma, estas reformulações no papel da polícia, possibilitariam a construção de uma nova cultura de paz e compromisso com os direitos humanos. Porém, o governo não conseguiu romper com o modelo de policiamento tradicional, onde a mentalidade é baseada na repressão e força bruta. Ou seja, se por um lado o governo demonstrou interesse ao lançar uma proposta de reformulação da área de segurança pública, houve assim, um reconhecimento das falhas e condutas que inibiam e afastavam a relação policial com a comunidade, o sentimento de medo e insegurança, não era apenas com quem participava das ações criminosas, mas sim com quem (co)participava diretamente ou indiretamente com a violência. Contudo, os relatos dos adolescentes mostram como os policiais do Ronda do Quarteirão estão agindo em suas comunidades: 42 “Esses policial aí tudim bate...eles não bate, espanca!” (Fernando / Diário de Campo: 10/05/13). “Nas abordagens mesmo é assim... eles chamam a gente de vagabundo... trata como vagabundo... até então eu não era, eu era cidadão... mas agora eu passei a ser.” (Wagner/ Diário de Campo: 10/05/13). “São tudo errado...quase tudo, né? Quando eles param e acham alguma coisa, eles querem dinheiro... eu já dei R$100,00... eles querem qualquer coisa, o que tiver eles querem, eles levam...” (Breno/ Diário de Campo: 10/05/13). “E quando eles pegam a gente com arma... eles pegam o revolver pra eles e coloca droga pra nós...como se a droga fosse nossa...e a gente responde por 33” (Thiago/ Diário de Campo: 10/05/13). “Nessa abordagens mesmo, eu já apanhei na cara na frente da minha vó... eles chegaram me batendo, aí minha vó disse que eles não podia fazer isso, que isso era errado, que eles só me levasse preso... aí eles disseram assim: cala boca minha senhora, empurraram ela assim, né? E disse assim: cala a boca que ele é quem é errado, ele que é vagabundo” (Diego/ Diário de Campo: 17/05/13). Contudo, o que se tem observado é que a política de segurança pública tem apresentado pouca eficácia das forças policias e das estratégias de policiamento frente ao combate da criminalidade e da violência urbana. Os policiais mostram cada vez menos capazes de estabelecer uma ordem social de paz, violando direitos humanos da comunidade, com abuso de autoridade, tortura e corrupção. Rolim (2006) explica que, “[...] essas práticas causam efeitos mais destrutivos à imagem da policia [...] além de comprometer os laços de confiança com uma parcela da população que é afetada pelo medo da brutalidade policial”. O que não podemos deixar de considerar é a formação que estes policiais recebem, em seu processo de formação profissional. Além, de considerar uma jornada extensiva de trabalho como também uma reduzida remuneração salarial. Porém, a sociedade não pode sofrer com essas respostas dadas pelas autoridades policiais que tem em seu processo de formação capacitações deficitárias. O que ainda se percebe, é que mesmo diante de um novo modelo de polícia, ainda assim, não se consegue responder aos preceitos do Estado democrático de direitos, pois a polícia se apresenta para a população como ainda uma instituição distante, que não conhece as pessoas, os moradores a quem devem oferecer segurança. Deixando assim, os moradores ainda sem referência de segurança pública. Diante disto, objetivei aprofundar a pesquisa sobre o Ronda do Quarteirão, haja vista, que este é considerado pelos agentes de segurança pública “um novo e inovador” 43 modelo de policiamento, que, no entanto, por não serem suas características repressoras, mas sim, comunitárias e pacificadoras, levanta questionamentos a serem abordados. De acordo com Lopes (2010), referenciando-se a Anistia Internacional para demonstrar essa situação, relatou: A falta de presença policial dentro das comunidades distancia os policiais das atividades diárias da comunidade, limita sua capacidade de criar laços com os moradores, enfatiza o aspecto coercitivo do policiamento e reforça a impressão de que as operações policiais são, na verdade invasões da comunidade (ANISTIA INTERNACIONAL, 2005, p.17). No entanto, para que sejam efetuadas abordagens de forma considerada positiva sem ações repressoras, Soares, (2006) reforça que se realize e se considere relevante fazer um: [...] diagnóstico local sobre a dinâmica da criminalidade, será sempre indispensável reconhecer a multiplicidade de dimensões envolvidas: desde a economia à saúde, da estrutura familiar às escolas, do cenário urbano à disponibilidade de transporte, das condições habitacionais ao acesso ao lazer, das oportunidades de emprego às relações comunitárias, do perfil psicológico predominante, em cada situação típica, ou potencial cultural presente nos movimentos musicais ou estéticos da juventude. Nada disso deve ser examinado de uma perspectiva genérica e abstrata, mas de modo bem concreto, segundo as manifestações específicas do território em questão – e de seus habitantes (2006, p.96). Ou seja, é necessário conhecer a comunidade, ter acesso aos moradores e participantes daquele meio social, para que assim possa intervir de forma positiva e legitimar a autoridade e confiança. Segundo Almeida (2009) “[...] a instituição policial é autorizada pelo Estado para agir em prol da segurança, usando da autoridade legítima, podendo usar da força para frear um ato contrário à lei e a ordem” (ALMEIDA, 2009, p.34). Porém, o que ocorre é que nem sempre a policia utiliza da sua autoridade que seria do seu poder de mediar conflitos, agindo de forma a exercer a força, mostrando que a sua autoridade nada mais é que reprimir. Ou seja, confundindo o termo autoridade com violência. Arendt, (1994) revela que a autoridade existe quando há obediência consentida, quando há o “[...] reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam; nem coerção nem persuasão são necessárias” (ARENDT, 1994, p. 37). O que através das ações do Ronda do Quarteirão, percebe-se que o uso da violência, não dá autoridade. O que representam as falas dos adolescentes: “O RONDA só quer mostrar serviço... eles andam sempre com uma garrafinha de água pra dar choque, eles jogam logo água na cabeça do cara e 44 dão choque. Eles querem ser os bichão” (Fernando/ Diário de Campo: 10/05/13). “Eu sofri pressão psicológica... eles disseram que iam me matar, que era pra mim ficar calado se não eu ia morrer, eu fiquei, né? Fiquei com medo, porque só quem tem a perder é nós” (Wagner/ Diário de Campo: 10/05/13). “A vítima pagou os policias, a vitima era rica... os policiais fazia tudo por elas só porque elas era rica” (Diego/ Diário de Campo: 17/05/13). Desta forma, podemos analisar que a autoridade se dá pelo respeito que é construído, portanto não pelo uso da força física ou da imposição. Contudo, a fala do adolescente acima mencionado, retrata as contradições de classe, onde o adolescente percebe que por as vítimas serem ricas, fazer parte da classe social média alta, à atenção que se dar é outra, onde elas passam a serem reconhecidos como cidadãs. E que pelo adolescente ser de bairros periféricos são vistos como perigosos e merecem punições, pois por ser pobre analisa que os policiais agem como se fossem “bandidos”, e que diante disto, o abuso de autoridade é maior. Diante dessas inúmeras condutas policiais realizadas com abuso de autoridade dentro dos espaços públicos, mostram que a população revela não acreditar e a confiar nas instituições de segurança pública. “Eu fui forjado pelo RAIO, eles colocaram droga pra mim... Eu acho que eles queria era só achar o culpado, eu num tinha nada a ver, eles sabem que eu não tinha” (Felipe/ Diário de Campo: 17/05/13). “Pra mim, a policia é como se fosse alguém com quem eu tivesse treta... não me protege nunca... nunca me protegeu” (Fernando/ Diário de Campo 10/05/13). “A polícia é como se fosse meu segundo inimigo, qualquer hora dessa aí, pode me roubar, pode me matar” (Breno/ Diário de Campo 10/05/13. Contudo, os relatos dos adolescentes nos fazem perceber o quão está desgastada a relação de autoridade que se estabelece entre a população e a figura policial em seu cotidiano e em seus espaços territoriais. Para Telles (2006), a “sociabilidade cotidiana no bairro [...] o jogo de distância-proximidade é outro. E a violência, a experiência da violência cotidiana, ganha figurações concretas. E é aí que conseguimos saber um pouco mais como as coisas acontecem”. (TELLES, 2006, p.158). Daí, analisando as falas dos adolescentes, podemos ver que o “conflito” não começa do ponto de partida da apreensão, mas, das relações cotidianas com a polícia, assim, como no próprio território. 45 4 VOZES POLICIADAS: O OLHAR DOS ADOLESCENTES AUTORES DE ATO INFRACIONAL SOBRE A CONDUTA POLICIAL Neste capítulo apresento-lhes as “Vozes Policiadas” dos adolescentes autores de atos infracionais quanto à sua relação com a polícia. Aqui, explano como um cidadão “violador de direitos” têm em seu cotidiano seus direitos violados, por um sistema capitalista desigual, egoísta que não garante condições de saúde, moradia, educação, lazer dentre outros direitos a todos de forma equivalente, justa e igualitária. Portanto, neste ambiente, os adolescentes vão poder “ter voz”, gritarem suas angústias, sentimentos, compartilhar suas experiências e externalizar o seu olhar diante das práticas policias. 4.1 O encontro cotidiano Eles chegam e diz assim: Ó mão na cabeça, né? Ai nós bota a mão na cabeça. Aí eles fazem o baculejo, aí começa a fazer pergunta... (Diego). Muitos de nós já presenciamos cenas desse tipo, estando em casa, no trânsito ou andando pelas ruas da cidade. Às vezes paramos para presenciar de perto a ação policial, outras, buscamos rapidamente deixar o local por medo, insegurança do que pode acontecer ali, naquela ocasião. O fato, é que sempre saímos com algum questionamento do que presenciamos. Será que a forma de como a polícia agiu está certa? Será que aquele “cara” ou aquele adolescente estava fazendo alguma coisa errada? Será que a polícia encontrou alguma coisa com ele? Talvez, quando a polícia realmente verifica, faz a abordagem e encontra algo como droga, arma, o sentimento seja de segurança. Mas, e quando não se encontra? Quando é só um suspeito? Será que o sentimento é de segurança? Ou, a forma que a polícia agiu é grotesca e violenta? Talvez essas reflexões você possa fazer durante o desenrolar das falas dos adolescentes. Vamos, lá? As falas aqui expostas são “as vozes” dos adolescentes apresentadas nos grupos focais e nas entrevistas realizadas no CESF. Onde, o grupo focal possibilitou registrar a riqueza das falas dos adolescentes, tendo em vista, que todos se mostraram receptíveis ao grupo e o sentimento de conforto e confiança foi confirmado quando a equipe 46 (assistente social e estagiárias) propôs ao grupo uma pausa para o intervalo, para logo retomar a discussão, os próprios adolescentes solicitaram a continuidade do grupo para poder contar as suas experiências, afirmando ser importante este momento para eles. Com isso, o sentimento de alegria se fez presente e o desejo de ouvi-los tornou-se ainda mais especial, instigando aprofundar os questionamentos da pesquisa. Iniciamos ouvindo como se deu o procedimento das apreensões de cada adolescente, no qual relataram, O RAIO foi logo mão na cara, nas costas... Ó eu já apanhei um monte de vezes da policia... era ‘peia’, choque, eles batiam com o cassetete nas mãos nos pés, nesse ossinho aqui dos pés... E na população! Quando a população chegava lá perto pra ver, eles metiam era bala lá (Fernando). Dessa vez eles não bateram não. Teve outras vezes que eles bateram, mas essa vez não... Das outras vezes, eles me quebraram (Felipe). Ora... eles me quebraram, deu choque, soco... Eles me levaram para uma ruazinha esquisita e me quebraram, disseram que iam me matar... eles me colocaram no saco pra dizer onde tava a arma (Thiago). Eles me levaram pra uma casa lá, numa casa abandonada. Era mão na cara, nas costas (Daniel). O RAIO que me pegou... eu ia fugindo né? Aí eles me pararam, e pegaram. Eles não me bateram, só ficavam me ameaçando... dizendo que ia me levar para o IML fazer o exame de corpo e delito e depois ia me quebrar... (Antônio). Eles me deixaram em cima do formigueiro... Eles queriam também, era arrancar meu dedo com um facão (Natanael). Eles ficava, né? Só fazendo pressão psicológica... eles disseram que iam me matar, que era pra mim ficar calado se não eu ia morrer, foi o tempo todo só assim, não batia não, era só dizendo que ia me matar (Bruno). O que se percebe nas falas dos adolescentes são as condutas abusivas por parte dos agentes de segurança pública, ou seja, da figura policial. Onde mesmo diante de uma situação que comprove as ações ilícitas dos adolescentes, fazem uso de tortura, violência, e abuso da autoridade para “fazer justiça”. O que infelizmente, essa violência praticada por parte da autoridade policial, não se resume apenas no ato de apreensão, como também nas abordagens de rua dos adolescentes em bairros, fazendo parte do seu cotidiano. Como relata, As abordagem é assim também. O RAIO é que bate, mas o RONDA também bate (Fernando). Nas abordagens de rua também é assim... eles chamam a gente de vagabundo, trata como vagabundo (Antônio). 47 Eles age com ignorância sem você tá fazendo nada, não tá com nada... Em uma abordagem mesmo, né? Essa daí de rua... eles me bateram sem eu ter nada (Diego). Eles chegam batendo, chamando de vagabundo, depois pergunta o nome e se é ‘de menor’... se não tiver nada eles libera (Thiago). Contudo, Almeida (2009) releva que existe, “confusão entre autoridade, poder e violência é algo sério, portanto. Por exemplo, a um policial não é dado o ‘poder’ de matar, de usar a força sem que isso seja absolutamente necessário para a restauração da ordem. Desta forma o policial se iguala ao criminoso quando transpõe a lei, sai da condição de instituição pública que prioriza o entendimento e adere à violência pelo uso desenfreado da arma. O poder declina e dá lugar à violência, dá lugar à ausência das instituições” (ALMEIDA, 2009, p.36). Ainda sobre os procedimentos das abordagens, indagamos se existia diferença entre a conduta policial da PM (Polícia Militar), do RAIO (Ronda de Ações Intensivas Ostensivas), FTA (Força Tática de Apoio), COTAM (Policiais do Comando Tático Motorizado) e o RQ (Ronda do Quarteirão) o que por eles foram mencionados no grupo focal. Assim, responderam, Tudim bate... eles não bate, espanca! (Antônio). O RONDA só quer mostrar serviço... eles dão choque... eles andam sempre com uma garrafinha de água pra dar choque, eles jogam logo água na cabeça do cara e aponta a pistola de choque (Thiago). Existe. O RAIO e o COTAN qualquer suspeita ele para, faz o baculejo, e quando ele pega, ele mete ‘peia’... O Ronda só faz ‘charlar’ mermo, se ele achar alguma coisa, ele faz é pedir dinheiro, e se não tiver, aí é ‘peia’ (Daniel). Menina... a polícia quando pega tudo bate, principalmente o RAIO , COTAN e FTA... O FTA quando pega eles quer levar lá pra pista nova alí no Edson Queiroz, por que lá, né, não passa carro, é esquisito, ai eles bate lá (Thiago). Ó existe. O COTAN e o RAIO quando pegam eles querem logo é matar, né? Já o RONDA é só ‘come-troco’... ó se tiver dinheiro muita coisa assim, eles levam, os veterano leva e libera o cara. O RAIO e o COTAN já é mais complicado (Fernando). O RAIO, o RAIO eles sabe trabalhar, eles abordam, quando tão com arma né, as apreensão dele é fica de joelho mão na cabeça, aí já algema e pronto... as vezes nem bate nem nada. Mas o RONDA não, agora o RONDA não, toda vida que quer abordar, quer bater, quer botar algum motivo pra poder espancar... parece que o RONDA num sabe trabalhar não, eles querem mostrar serviço sabe, pra população (Diego). Portanto, a partir dessas falas, pode-se perceber que o nome modelo de policiamento, “A polícia da boa vizinha” de caráter comunitário e “inovador”, se compara ao policiamento tradicional com ações repressoras, o que não consegue estabelecer confiança com a comunidade, não levando o sentimento de paz e segurança. 48 As próprias falas dos adolescentes explanam que existem diferenças em ações realizadas por cada grupo policial. O Ronda para eles, apesar de estar comparado a um modelo tradicional repressor e não comunitário, difere dos demais grupos, por “ficar charlando na viatura”, onde aparece vigiando os bairros, observando a movimentação das ruas e espaços urbanos. O que Cerqueira (1999) também destaca: o desenvolvimento tecnológico como fator de distanciamento entre público e polícia, como por exemplo, as viaturas e os patrulhamentos motorizados, substituíram o patrulhamento a pé, por meio do qual havia maior aproximação entre policiais e comunidade. Apesar de que não se pode negar, que o uso do telefone, bem como das viaturas e motos favorecem uma rápida resposta às chamadas para auxílio policial, o que levou à priorização de respostas em detrimento da prevenção de ocorrências. Porém, acabou por também contribuir para a diminuição dos contatos entre polícia e público. Os relatos dos adolescentes também mostram o policiamento do Ronda do Quarteirão como “come-troco”, expressão utilizada pelos adolescentes para caracterizar os policiais que realizam extorsão, que recebem dinheiro ou objetos de valor para não fazer os procedimentos necessários de apreensão, tendo obtido algo para seu bem pessoal. Já, dos demais grupos policiais, os adolescentes relatam a violência e apesar disto, respeitam suas abordagens de caráter repressor, haja vista, que já possuíam a ideia deste policiamento tradicional. Este tipo de policiamento ganhou legitimidade entre os adolescentes por ser uma prática socialmente aceita como afirma Bittner, [...] o papel da policia é tratar de todos os tipos de problemas humanos quando, e na medida em que, sua solução necessita, ou pode necessitar, do uso da força, no lugar e no momento em que eles surgem. É isto que dá uma homogeneidade a atividades tão variadas quanto conduzir o prefeito ao aeroporto, deter um malfeitor, expulsar um bêbado de um bar, regular a circulação, conter uma multidão, cuidar de crianças perdidas, administrar os primeiros cuidados e separar casais que brigam (apud MONET, 2001, p.25). Sobre a sensação de segurança e o que a polícia representa para eles, relataram, Pra mim, às vezes é segurança, eles livra às vezes, né... de bala, de linchamento. Mas é às vezes... é difícil. Eles parecem que já tem raiva, que bate porque já tem raiva. A polícia diz assim: bandido bom é bandido morto (Thiago). Às vezes eles representa segurança mesmo. Porque quando a população pega... faz é matar... a gente fica rezando pra polícia chegar e levar nós (Pedro). 49 Pra mim né, tem horas que eu acho que é pra segurança. Mas tem horas que eu acho que isso... a violência, não serve pra nada (Daniel). Tem horas que eu acho que o trabalho deles é certo, por que eles querem acabar com bandidagem. Prender marginal... As vezes tem marginal que é ‘goeludo’, que quer ‘pagar alto pros policial’, sabe que tá errado, mas quer ta certo, né ‘mah’? As vezes tem uns que faz mal a vítima, aí eu acho errado, eu acho que se já ta roubando, pra que vai fazer mal a vítima. Aí eu acho errado! E acho certo se eles bater. Acho que o RAIO também ia bater, mas o RONDA eles querem bater é por tudo, por tudo eles arranja motivo pra bater (Diego). Eles nunca me protegeram de nada, sempre foi assim... ‘Hãn’, eu tenho é raiva de policial... ‘Óóó’, a bandidagem começa pela polícia, os colete que eu tava é os policias que da pra nós... e em troca eles pegava dinheiro... ó, tinha colete de todo preço, eles pegava R$ 300,00, R$350,00... R$500,00... valia o calibre que suporta, eles arranjavam de todo jeito. A polícia é mais errada que nós, eles num agem certo não, a maioria é corrupto, só quer saber de ganhar dinheiro (Fernando). Eu não confio não, eu fui forjado pelo RAIO... eles colocaram droga pra mim só porque eu tava sentado na esquina mais os menino, e um deles já me conhecia porque eu já tinha sido ‘preso’, mas foi só uma vez...mas agora eu tava é quieto (Felipe). Desta forma, podemos analisar as falas dos adolescentes de duas formas. A primeira, a figura policial realmente como agente de segurança pública, garantindo a integridade física dos adolescentes em seus processos de apreensões, onde a polícia se apresenta de forma a preservar os direitos dos adolescentes e fazer os procedimentos corretos e necessários da apreensão, não exercendo uso de força, arbitrariedade e violência em sua conduta profissional, manifestando proteção e segurança ao realizar seu trabalho. Em contrapartida, no segundo momento, percebemos nas falas dos adolescentes a polícia como “comparsa do crime”, onde não legitima segurança por suas ações corruptas, de garantir a liberdade de alguém que comete atos ilícitos em troca de dinheiro ou objetos de valor. O que, causa medo e desconfiança para a comunidade, marcados por inibir a verdade, São tudo errado... quase tudo, né? Quando eles param e acham alguma coisa, como droga, eles querem dinheiro... eu já dei R$ 100,00... eles querem qualquer coisa, o que tiver eles querem, eles levam (Bruno). Eles são quem repassa pra nós essas coisas, esses colete... e em troca recebe droga ou dinheiro (Fernando). A maioria são corruptos (Thiago). Eles tiraram um monte de foto nossa... no celular dele, no celular dele... ó, eles deram foi meu nome, minha foto e meu endereço pras vitimas... eles disseram que me meu pescoço ia valer mais de milhões (Diego). 50 Segundo estes adolescentes citados acima, a polícia aparece como próprio violador da lei, onde em seu exercício profissional, suborna, recebe dinheiro em troca do seu silêncio e da liberdade de quem exerce atividades ilícitas. Para estes, se existe uma polícia que é “comparsa no crime”, eles não podem confiar e legitimar realmente que exista segurança. A partir dessas colocações, indagamos: e quando vocês não dão dinheiro, ou algo que os policiais pedem o que acontece? É ‘peia, é peia, é peia (Todos os participantes do grupo focal/ Dia 10/05/13). E quando eles pegam a gente com arma... eles pegam o revólver pra eles e coloca droga pra nós... como se a droga fosse nossa... e a gente responde por 33 (referente a Tráfico Ilícito de Drogas, art.33 Código Penal Brasileiro), se não der o revolver e não tiver dinheiro, né? (Fernando). Isso mostra a extrema irresponsabilidade, incompetência e corrupção de alguns policiais que atuam em alguns territórios de Fortaleza, nos quais a corrupção está entrelaçada em seu exercício profissional, a fim de benefícios próprios. Contudo, não podemos afirmar que só existem profissionais da área de segurança pública que de certa forma “participam ou (co)participam” da criminalidade diretamente e indiretamente, como afirma um entrevistado: Tem uns que são pai de família, que trabalha direitim... tem também uns que são evangélicos... e que num gosta de bater não... e nem gosta dessas coisas (João). Porém, o que não se pode negar, é que existe uma polícia despreparada atuando nas ruas da cidade, e que não “veste” seu fardamento honrando, seu papel de agente de segurança pública, a fim de combater ações ilícitas, diminuir os índices de violência, e combater a criminalidade. Ainda sobre a sensação de segurança e o olhar dos adolescentes sobre a polícia, um adolescente relata, ah, mas antes (de serem conduzidos a DCA) Levaram a gente pras vítima, pras vítima reconhecer, aí quando eles nos ‘alevantaram’, as vítima começou a bater em nós. Tapa na cara... tapa nas nossas cara...começou a bater em nós. Aí os policial: foi esses daí, foi esses daí? Aí a vitima: foi, foi tudim. Aí começou a pegar nossas coisa, que tava com nós, nosso celular, nosso relógio, cordão... isso os policiais. A vítima disse que tudo que tava com nós era dele, mas tinha umas coisas que não era deles... As coisas deles, já tavam com ‘os policial’, mas ‘os policial’ não ‘amostraram’, só ‘amostraram’ quando chegou na DCA. Ah, a vitima também. Perguntou pelo cordão que nós tinha pegado deles, mas o cordão já tava com os policial. Os policial não devolveram o cordão, ganharam... eles ficaram com o cordão da vítima... só o cordão eu acho que era uns R$ 15.000 ou R$10.000 porque era bem grandão todo de ouro. Até nossas coisas foi no embalo, eles pegaram, relógio, cordão. 51 [...] Eles foram foi pago pra bater em nós...a vitima deu dinheiro pra eles, pra antes do corpo de delito. Eles pegar nós, pra poder matar nós. Aí eles (policiais): Não, eu num posso entregar mais eles não, porque eu já relatei lá na DCA, já fiz os procedimentos lá na DCA e agora nós vamo fazer o exame de corpo de delito... Aí na volta, quando a gente tava saindo, assim mermo na hora que nós sai, um policial já dar um chute na ‘espinha’ do outro, o que é doente, por que ele tava andando devagar, aí o policial: anda ligeiro! Aí deu um chute na espinha dele, aí ele fica três horas sem mexer os braços e as pernas, e já leva logo pro Frotão (IJF), aí nos passamo foi tempo lá... Aí quando chegamo na DCA, [...] as vítima deram dinheiro pra eles baterem em nós, e eles bateram e disse que só não entregava a gente pra vitima matar nós, porque já tinha feito os procedimento na DCA, porque nossas cabeça valia ouro (Diego). O depoimento do adolescente citado acima retrata tudo que estamos discutindo neste capítulo. Diego foi um dos participantes do grupo focal e da entrevista que mais relatou seu relacionamento com a polícia e expressou de forma clara como se deu os procedimentos. Contanto não apenas como se deu o seu processo de apreensão, mas o seu relacionamento com a autoridade policial em seu cotidiano, fazendo parte da sua comunidade, e interagindo com os moradores. Antes de iniciar o grupo focal e a entrevista, sempre esclarecia que os nomes aqui supramencionados seriam fictícios, o que me chamou atenção em Diego foi que afirmou, “pode dizer que fui eu, se quiser pode até colocar meu nome aí, eu num to mentindo, eles sabem”, assim, contava minuciosamente cada experiência sua vivenciada com a polícia, através de gestos, de falas, dramatizava as cenas por ele vivenciadas para que nós pudéssemos compreender cada detalhe. Diego relatou suas experiências nas abordagens de rua, o que se configurava pelos estereótipos dos adolescentes, do bairro no qual residia, o que formulava para a polícia a seu ver a “imagem do ladrão”. O que ocasionava em abordagens tendenciosas, embasadas de pré-conceitos. Enfatizando sua fala, “os policiais fazia tudo por elas, pelas vítima, né? só porque elas era rica”. Contudo, fazia reflexões de que a polícia só agia de forma correta quando iria atender ocorrências de pessoas de classe média ou classe média alta, pois quando se referia a pessoas de bairros periféricos o tratamento que se recebia era outro. Segundo Pinheiro (1998) a polícia utiliza deste meio por dois objetivos, sendo estes, demonstrar às classes possuidoras que a polícia estava zelando pela segurança e tranquilidade, e aterrorizar as “classes perigosas”, para que assim, não se envolvessem com o “mundo do crime”. 52 Mas, não é apenas na rua que a violência acontece e se expressa, a violência ultrapassa os ambientes externos e é exercida onde melhor pode ser executada e não ser registrada, Diego contou sua própria experiência, A minha também foi lá dentro da sala da DCA ‘mermo’, lá naquela sala dos ‘ferrinzim’ que fica algemado, né? Pronto, naquela sala ali ‘mermo’, eles ficava lá dando tapa nas nossa cara, chute, pra gente dizer cadê os outro que fugiram, sem a gente saber, tinha policial que passava e ficava só rindo da nossa cara (Diego). Assim, outros adolescentes puseram casas e ruas abandonadas como espaços de agressões. 4.2 O Coringa: de um desenho da infância a um conflito na adolescência As tatuagens também são meios utilizados pela polícia para identificar ou relacionar pessoas ou grupos relacionados a desenvolver atos infracionais ou ações criminosas. O palhaço Coringa é uma das características segundo a polícia, como se refere os adolescentes, Se eles... os policial... vê a gente com essa tatuagem, eles querem arrancar, querem cortar nossa pele para tirar... porque eles acham que é ‘Matador de Polícia’, e não tem nada a ver... Eles forjam, porque eles não gostam, né? (Daniel) Quando eles ver gente com essa tatuagem aí, eles fazem é tudo... bate mais forte e tudo, aí é bem pior (Fernando). Uma vez, ele pegou um amigo meu que tinha a tatuagem de palhaço, né? Eles furaram a ‘tattoo’ do cara todinha... eles pegaram o punhal, né?... que eles usa... e furou o cara todinho, tacou a faca no braço dele, ficou cheio de buraquim, quase o cara perde o braço (Natanael). Tatuagem de coringa e jogo tipo xadrez, baralho essas coisa, né? Eles diz que é a vida dele ta em jogo (Felipe). A partir desses relatos e de atendimentos realizados aos adolescentes no CESF, pude perceber que entre inúmeros casos os adolescentes relatavam a violência policial por conta da tatuagem de palhaço, onde o que parecia representar um código de ações criminais, identificadas pelos policiais. Contudo, os relatos explicavam os motivos pelos quais os policias tinham essa compreensão. Segundo os adolescentes, tudo isso começou por conta do filme Batman- O Cavaleiro das Trevas, onde no filme existia um palhaço identificado como Coringa, vilão da trama, que se tornou ídolo de muitos adolescentes pela forma como agia. O coringa era ousado, irônico, onde conseguia “escapar” da polícia e do protagonista 53 Batman, sempre com um sorriso no rosto, que é marca de sua cicatriz, onde na trama contava sempre várias histórias a suas vítimas para esclarecer o que tinha acontecido para ter a cicatriz e viver sempre com um sorriso no rosto, logo, após contar sua história, cortava a boca de suas vítimas usando um canivete. Umas das histórias do palhaço Coringa foi contada por um adolescente no grupo focal: Uma vez o coringa disse assim: Sabe por que é que eu vivo sorrindo? Porque uma vez meu pai chegou em casa drogado, bêbado, muito doido e começou a discutir com a minha mãe, aí ele pegou uma faca e começou a brigar com ela... Depois ele me viu, foi até onde eu tava e perguntou porque eu tava triste... aí ele disse assim: vamo botar um sorriso nesse rosto? Aí pegou a faca e fez assim (sinalizando em direção boca que estava sendo cortada), cortou (João). Porém, essa é uma dentre várias histórias contadas pelo palhaço nos filmes, o que ninguém confere qual história é a verdadeira. Portanto, para o entendimento da polícia, a tatuagem de palhaço refere apologia ao crime, pois, no filme, o palhaço Coringa matava policiais e pessoas comuns por dinheiro, sempre utilizando crueldade em seus crimes. Neste sentido, tatuar a figura de um palhaço que se assemelhe ao Coringa se torna uma ameaça para os policiais. Porém, alguns adolescentes discordam desses pensamentos, Eu acho que isso não tem nada a ver... isso é mentira, eles entendem como ‘Matador de Policia’... mas não tem nada a ver... Eu tenho varias tatuagens, os desenhos são porque eu gosto, não tem nada a ver (Fernando). É tudo mentira! Isso é coisa de PCC (Primeiro Comando da Capital)... isso num é verdade não... o palhaço significa alegria, né? (Daniel). Eles tatua isso aí porque tem uns e outro que querem ser maior que os outro e tatua isso aí, pra chegar aqui mandar em tudo (Bruno). Segundo Daniel, a polícia também tem outra compreensão das tatuagens, o mesmo relata que em São Paulo existia uma facção criminosa que utilizava o palhaço como símbolos de identificação dos participantes da facção, do PCC – Primeiro Comando da Capital. O PCC é portanto considerado a maior facção criminosa do país, onde seus integrantes são detentos e ex-presidiários dos presídios dos Estados do Brasil. O PCC, deu início em São Paulo, na Casa da Custodia de Taubaté em 1993, onde o objetivo era combater a opressão dentro do sistema penitenciário paulista e vingar a morte dos detentos que sofreram o massacre do Carandiru em 1992, quando a Polícia Militar invadiu o pavilhão 9 e matou os detentos da Casa de Detenção de São Paulo. 54 O PCC tornou-se a mais perigosa facção criminosa no Brasil, pela sua organização e planejamento dos crimes. A facção utilizava tatuagens como forma de identificar seus participantes, o símbolo utilizado entre eles inicialmente era o símbolo chinês do equilíbrio, denominado yin-yang em preto em branco, que significa a maneira de se equilibrar o bem e o mal com sabedoria. Ao passar dos anos, o PCC ganhou destaque na mídia, onde os agentes de segurança pública dos Estados passaram a conhecer o planejamento e estratégicas utilizadas pela facção, para tanto, foi através dessas características que iniciaram seus trabalhos para identificar os criminosos e combater a violência. Atentados contra policias, identificados pela polícia e transmitido pela mídia televisiva através de algumas escutas telefônicas realizadas pelos criminosos dentro dos presídios, estavam no planejamento do grupo, onde os integrantes se organizavam dizendo que iriam fazer um planejamento com o endereço dos policiais que seriam suas próximas vítimas, pra assim, fazer os atentados e aterrorizar dentro de suas próprias casas. Contudo, como forma de organização e planejamento, o grupo passou a optar por novos modelos de tatuagens para dificultar o trabalho dos agentes de segurança pública, tendo como uma de suas opções o palhaço Coringa, como forma de coragem e fidelidade à facção. Segundo relatos dos adolescentes, as características do PCC são mais localizadas e identificadas no Estado de São Paulo, porém, afirmam, A gente num ta nem em São Paulo...Rio de Janeiro, isso é coisa do PCC, porque quem é ‘latro’ de policial lá, tem tatuagem lá... quem mata policial lá tem a tatuagem de palhaço, por causa lá do filme do batiman, né? O Coringa lá que mata policial (Fernando). Eu não sei não, mais quando eles pega eles matam né, pegam a faca, o punhal que eles andam e cortam... eu já vi... eles tacam a faca. Eles tem ‘mó’ raiva (Thiago). Contudo, não se pode deixar de salientar que esta característica tornou-se também significativa para as corporações policiais de outros Estados, incluindo o Ceará, já que essas características embasam abordagens e apreensões. Outros significados também foram mencionados acerca das tatuagens de palhaço, Todo policial que vê isso aí, eles para e mete a ‘peia’, mas eu num sei não, conheço ninguém que disse que é isso não, que é esse significado não... eu sei 55 que eles dizem que é 157 (art 157- referente a roubo), mas eu também não sei não (Diego). Uns querem ser maior que os outro e tatua isso aí, pra chegar aqui mandar em tudo (Fernando). Assim, como no sistema penitenciário que atua o PCC, com organização, códigos e leis próprias, o sistema socioeducativo que atende adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e de Internação Provisória, também existe códigos e leis próprias criadas pelos próprios adolescentes que regem seus relacionamentos em seus espaços de convivência social dentro das Unidades. A tatuagem de palhaço referida na fala do adolescente Fernando acima mostra que esse código também é utilizado pelos adolescentes nas Unidades, possibilitando a exercer poder e autoridade sobre outros. Um código estabelecido por eles, que possui um caráter legítimo, o que torna um adolescente com esse símbolo, poderoso, temido e respeitado. Para Diego, mesmo sem compreender de fato o que significa e sendo primário em uma Unidade de privação de liberdade, o significado pode ter outra dimensão. Conforme, foi mencionado em sua fala, o adolescente relata que a tatuagem de palhaço simboliza o ato infracional tipificado como roubo (art.157- Código Penal Brasileiro), o que a seu ver, esse código é utilizado entre adolescentes que cometem Roubo, para se destacar e mostrar para os demais internos que essa simbologia não representa algo tão sério, que o ato infracional que cometeu não é considerado hediondo, como por exemplo, o crime de estupro. No qual, o adolescente que cometer esse ato infracional, é denominado por eles de “duzentão” referente ao art.221 do Código Penal Brasileiro que atribui ao crime de estrupo. Portanto, possuir a tatuagem de palhaço é afirmar que não responde por atos graves desse estilo, e que nada mais é que um praticante de roubos. 4.3 Entre a Lei e Prática Por fim, os adolescentes relataram como avaliam a conduta policial, manifestando suas opiniões sobre a polícia: Pra mim, a bandidagem começa pela policia... Pra mim é como se fosse alguém com quem eu tivesse treta... não me protege nunca...nunca me protegeu. (Fernando). 56 Eles são os primeiros que são errados, eles não tem esse direito de bater... eles tinham que prender (João). A polícia é como se fosse meu segundo inimigo (Bruno). Por ações marcadas de abuso de autoridade, violência, corrupção, que fazem parte do cotidiano dos adolescentes internos no CESF, a figura policial não representa segurança, no entanto é possível perceber a falta de confiança nas falas dos adolescentes. O olhar dos adolescentes traduz tudo que aqui foi discutido, a segurança pública pautada em ações arbitrárias, principalmente com quem ocupa espaços desprivilegiados na cidade. Pois a conduta policial se dá a partir de pré-conceitos, de estigmas sociais e territoriais que gera violência, desta forma, a proposta de segurança pública não chega aos ambientes periféricos de forma a garantir direitos, relacionar-se de forma harmoniosa com a comunidade, e garantir segurança e tranquilidade. A figura policial enfim, representa um agente da lei, agente de segurança pública, que deveria resguardar e assegurar confiança e tranquilidade, como combater a criminalidade. Um agente que viola a própria lei, que em alguns casos se compara ao “bandido”, que favorece ou participa da criminalidade, caso contrário, não exerce apenas o seu dever de tomar os procedimentos necessários da apreensão, mas que faz uso de força, para mostrar autoridade e contornar as situações de violência ou ações ilícitas, que favorecem a criminalidade. Segundo o ECA (1990), no Capítulo II- Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade, crianças e adolescentes possuem, Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais. Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Ainda sobre as apreensões, o ECA (1990) confere, Art. 106. Nenhum adolescente será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente. Parágrafo único. O adolescente tem direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão, devendo ser informado acerca de seus direitos. O que segundo os adolescentes, não ocorre em suas apreensões, Eles não se identificaram não (Thiago). 57 Eles disseram que eram policial, mas o nome deles... o nome eles num disseram não (Daniel). ‘Nã’ (Fernando). Não. Eles num queria nem que a gente olhasse pro rosto deles (Diego). Outro ponto relevante no processo de apreensão do adolescente autor de ato infracional, é que a família deste deverá ser comunicada no ato de sua apreensão, Art. 107. A apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada. Onde o que ocorre é que a maioria dos procedimentos estão se realizando sem que a família seja comunicada, e acompanhe judicialmente o adolescente em todo seu processo jurídico. Como pode ser conferido nas falas dos adolescentes, Não, só uma vez que eles me levaram em casa pra pegar meus documento. Dessas dez vezes que eu fui preso, só uma vez eles me levaram em casa (Fernando). Eles me levou em casa, pediu meus documentos e disseram que iam me levar pra DCA (Daniel). Fui não, fui levado em casa não. Eles não queriam ligar nem pra minha mãe pra avisar, eu fiquei pedindo mais ele num queria ligar não... só liguei quando cheguei na DCA, que na hora que eu tava dando o depoimento eu fiquei pedindo, pedindo, pedindo, ai eles me botaram pra ligar (Diego). Levaram nada. Meu pai que foi ver se eu tava na DCA (Thiago). Assim, com todas as falas que foram apresentadas neste capítulo, podemos ver uma série de violação de direitos que foram garantidos em lei, contidos no Estatuto da Criança e do Adolescente. Onde, essa legislação prioriza o atendimento realizado a criança e ao adolescente, em qualquer situação de violação de direitos. No entanto, é uma legislação que vem sendo violada, não sendo realizada em toda sua efetividade pelos próprios agentes da lei. Há pouco mais de duas décadas, o ECA surgiu a fim de reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e deveres, com garantias integral ao seu desenvolvimento. Tornando responsáveis, como refere-se o seu art.4º do ECA (1990), É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à 58 convivência familiar e comunitária. (ECA, Título I, Das Disposições Preliminares, art 4º) Contudo, o objetivo do ECA de tornar o adolescente sujeito de direitos, rompendo práticas baseadas nas sociedades “menoristas”, não foram ainda desmitificadas por alguns seguimentos do Estado, que ainda veem a criança e o adolescentes como delinquentes, violadores de direito, e não como sujeitos de direitos violados. O que ocasionam em abordagens e apreensões de forma violenta como meio de reeducar ou punir a quem comete atos ilícitos. Neste sentido, o que vimos através das falas dos adolescentes e podemos perceber é que o novo modelo de policiamento, nada mais é uma polícia com características visualmente diferentes, com novas fardas e viaturas, porém com as mesmas características repressoras e estigmatizastes que não conhecem a população dos territórios da cidade, e que, portanto, “vigia” espaços estigmatizados e preconizados em pré-conceitos. Não garantindo confiança e segurança das classes pobres, mas, abusando de autoridade frente a essas classes por suas próprias condições. 59 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os casos de violência cometidos por crianças e adolescentes causam forte indignação à população, mas os sentimentos que a mídia apresenta contribuem para aflorar a vingança e a violência como meio de erradicar a violência. Tratando assim o efeito da expressão e não as suas causas. Setores conservadores da sociedade fazem críticas ao Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, que garantem direitos e deveres a esse público juvenil e que também responsabiliza o adolescente que comete ato infracional, com medidas socioeducativas de meio aberto, semiaberto e fechado com o período máximo de três anos. O que a mídia acaba por colocar para a população, é que o ECA, é o principal defensor de “bandidos”, que não permite que crianças e adolescentes sejam penalizados pelos atos ilícitos que cometem. O que não se pode negar, é que existe envolvimento de crianças e adolescentes em ações criminosas, porém, é preciso considerar que ao analisar a violência, deve ser intensificado o trabalho a fim de combater ações criminosas, contudo, com a criação de redes institucionais de inteligência policial capazes de interceptar as fontes que alimentam o tráfico de drogas e armas na cidade. Nos quais, favorecem e dão apoio aos adolescentes cometerem atos infracionais e participarem de ações ilícitas. Ao contrário de solicitar o aumento da punição com a redução da maioridade penal, como propõem certos segmentos que acreditam ser à saída para o problema. A realização deste trabalho não se deu apenas por ser uma temática relevante, mas pelas “mudanças” que ocorreram com a conquista do ECA e sobre as “mudanças operadas na segurança pública com a criação do novo modelo de policiamento com o Programa Ronda do Quarteirão: A polícia da boa vizinhança no Estado do Ceará, buscando refletir acerca dessas “mudanças”. Diante de uma atuação policial marcada por autoritarismo, intolerância e violência tornou-se necessário à criação de um novo modelo de policiamento na esfera pública, que com feições mais cidadãs, interagiria com a comunidade, levando o sentimento de segurança e confiança para a comunidade. No entanto, podemos perceber que as ações desenvolvidas por este “novo” modelo de policiamento se compararam as ações repressoras do policiamento tradicional. Foucault, (1983) mostra que no século XVII, o soldado era alguém que se reconhecia pela valentia e coragem. Era alguém que se reconhecia de longe, pelos sinais 60 naturais do seu vigor e coragem, exercendo sua honra, e este deveria ser o modelo ideal de policiamento, de formação profissional de policiais. Mas, o que ainda se percebe é que existem poucas estratégias por parte dos órgãos de segurança pública que possibilitem interação entre polícia e comunidade. O que causa ações baseadas no sentimento de “fazer justiça com as próprias mãos”, regidas pelo “poder de autoridade”. Contudo, o objetivo deste trabalho era identificar o olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre a polícia. No início, acreditei que as práticas de violência e abuso de autoridade era exercida pelos policiais tradicionais, no entanto, ouvindo as falas dos adolescentes nos grupos focais, nas entrevistas, bem como nos atendimentos realizados no CESF, pude compreender que este novo modelo de policiamento com características cidadãs, não se difere dos modelos tradicionais de policiamento, fazendo uso de força e repressão em suas apreensões, abordagens de rua e relações com a comunidade. A pesquisa também buscava compreender as representações das tatuagens de palhaço (Coringa) frente a figura policial, o que podemos compreender como códigos utilizados como “disputa de poder”, o adolescente frente a outros adolescentes dentro das Unidades de internação provisórias e medidas socioeducativas, de facções criminosas frente a figura policial, e policial x adolescentes autores de ato infracionais. No entanto, podemos perceber através das falas dos adolescentes juntamente com as reflexões de Adorno, (2008) que a população dos bairros periféricos de Fortaleza são os que mais sofrem com o abuso de autoridade e violência, haja vista, que essa própria classe é penalizada pela sua condição social. Sendo esta, o modelo de polícia que vigia os espaços estigmatizados de criminalidade. Arendt (1994) afirma que, ao policial é dada a autoridade legítima de defender a população dos crimes e, inclusive, de matar em nome da lei e da organização da ordem e da segurança pública. Porém não é dada a autorização para agir, primeiramente, com violência que, para a autora, é “instrumental”, já que é praticada com instrumentos violentos, como armas. Portanto, a violência é bruscamente indigna e arbitrária. Sendo assim, quando não existe mais a fala, reina a violência, pois ao perder a palavra, passase ao ato, ao crime. Contudo, a leitura atenta das análises dos casos mostra; violência, tortura como meios para romper com a violência trazida pela criminalidade, como também, ações 61 policiais de corrupção e desastrosas, associadas à sua formação deficitária. O que não consegue legitimar segurança e confiança para a comunidade. Portanto, as instituições policiais não conseguem legitimar junto à sociedade admiração e confiança, pela própria falta de confiança dos serviços prestados pela polícia. Assim, os resultados encontrados na pesquisa traduzem esses sentimentos marcados pela desconfiança, pela relação conflituosa que existem entre os adolescentes autores de atos infracionais e a polícia. Não apenas como uma “disputa de poder” de “quem garante a lei” e “quem infraciona a lei”, mas como sujeitos de direitos, que tem seus direitos violados pelos próprios agentes públicos, responsáveis por garantir segurança e serem agentes pacificadores de conflitos. Por fim, trata-se de um panorama, que para Soares, (2006) pode se agravar, se duas condições persistirem. Primeiro, a existência de um sistema institucional de segurança pública fragmentado, sem eficiência, marcado pela corrupção, sem a confiança da sociedade, alimentador do circuito da violência e da própria criminalidade. Segundo, o “investimento” do tráfico (armas e drogas) que se beneficia da precariedade das condições de vida e da vulnerabilidade dos jovens com oportunidades e perspectivas de integração fragilizadas. Desta forma, esperamos que este trabalho venha a contribuir para reflexões sobre os temas aqui abordados e que as reflexões aqui trazidas não sejam naturalizadas, mas que seja instrumento de reflexões e luta por direitos que devem ser garantidos. Direitos básicos e fundamentais à pessoa humana, como saúde, educação, moradia, lazer, profissionalização, e mais, uma segurança pública que legitime confiança e que façam parte do nosso cotidiano, não como ameaça, e violação de direito, mas com agente de honra, de verdade, de confiança e de segurança. 62 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, S. Exclusão socioeconômica e violência urbana. In: Sociologias. Porto Alegre: ano 4, n. 8,jul/dez, 2002. ALMEIDA, R. O. Respeitar as diversidades e combater as desigualdades. Fascículo 4 – A cidade que devora./LIMA, F. J. P.; FREITAS, G. J.; PAIVA, L. F. S.; ALMEIDA, R. O. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora Ltda, 2009. ANISTIA INTERNACIONAL. Relatório Brasil: “Eles entram atirando”: Policiamento de comunidades socialmente excluídas, 2005. BRASIL, Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei Federal 8.069, 1990. CAREY, M. A. The Group Effect in Focus Groups: Planning, Implementing, and Interpreting Focus group Research. In: MORSE, Janice M. 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( )Sim ( )Não ( ) Advertência ( ) Obrigação de Reparar o Dano ( ) LA- Liberdade Assistida ( ) PSC- Prestação de Serviço a Comunidade ( ) Semiliberdade ( ) Internação 66 APÊNDICE II - Roteiro do Grupo Focal Exibição do vídeo clip do O Rappa – Tribunal de Rua 1) O que vocês acharam do vídeo? 2) Como se deu o processo de apreensão de vocês? 3) O que a polícia representa para vocês? 4) Existem casos de policiais que são subornados? 5) Por que vocês acham que a polícia age desta forma? 6) Sobre as tatuagens de palhaço: Mito ou Veracidade? 7) Vocês acham que esta conduta tem alguma relação com a tatuagem? 8) Como vocês percebem e avaliam a conduta policial? 9) Que tipo de polícia vocês acham que a sociedade deseja? 67 APÊNDICE III – Roteiro de Entrevista SOBRE A APREENSÃO POLICIAL: Quantas vezes você já foi apreendido? Como se deu o processo de apreensão? Desde a apreensão a condução a Delegacia da Criança e do Adolescente – DCA e o encaminhamento para a Unidade de Internação Provisória. Durante as apreensões você sofreu algum tipo de violência pela autoridade policial? Se sim, que tipo de violência sofreu? Durante as apreensões foram acompanhados até em casa, e/ou a família foi comunicada? A família sofreu algum tipo de violência? As agressões ocorriam somente nas apreensões ou também nas abordagens de rua? Em que local ocorriam às agressões? Você já ouviu falar sobre o que a tatuagem de palhaço e/ou coringa representa para a autoridade policial? Você sabe o que significa e o que representa? Por que você acha que a polícia age dessa forma? Como você percebe e avalia a conduta policial? 68 ANEXOS ANEXO I - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO - TCLE Caro participante, Sou Nayane Felix dos Santos, da Faculdade Cearense (FAC), estou desenvolvendo um estudo, cujo tema é “Tribunal de Rua: de geração em geração todos no bairro já conhecem essa lição. O olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre a conduta policial”. Esclareço que entrevistaremos adolescentes autores de atos infracionais que cumprem medida de internação provisória no Centro Educacional São Francisco – CESF localizado em Fortaleza. Neste sentido, estou solicitando sua contribuição nesse estudo. Nesta entrevista conversaremos sobre vários assuntos, como por exemplo: apreensão, abordagens de rua, relacionamento policial, tatuagens etc. Também será preenchido um questionário sobre dados pessoais e processuais. Gostaria de deixar claro que essas informações são sigilosas, e principalmente seu nome não será em nenhum momento divulgado. Caso se sinta constrangido, envergonhado, durante essa nossa entrevista, você tem o direito de pedir para interrompê-la, sem causar prejuízos. Informo ainda, que: - - - Mesmo tendo aceitado participar, se por qualquer motivo, durante o andamento da pesquisa, resolver desistir, tem toda liberdade para retirar o seu consentimento. Sua colaboração e participação poderão trazer benefícios para a compreensão do modelo de segurança pública que está sendo desenvolvido em Fortaleza frente ao público juvenil; violação de direitos; dentre outros. Estarei disponível para qualquer outro esclarecimento no CESF no período da manhã. Diante disso, gostaria muito de poder contar com sua colaboração. Atenciosamente, Nayane Felix dos Santos Pesquisadora Fortaleza, _____ de ___________________ de 2013. ____________________________________________________ 69 ANEXO II - TERMO DE CONSENTIMENTO PÓS – INFORMADO Declaro que tomei conhecimento do estudo que tem como objetivo identificar como se dá a relação dos adolescentes autores de atos infracionais e os policiais que realizam a sua apreensão na cidade de Fortaleza, bem como, compreender o referencial das tatuagens de palhaço (Coringa) frente à figura policial, cujo titulo é: Tribunal de Rua: de geração em geração todos no bairro já conhecem essa lição. O olhar dos adolescentes autores de atos infracionais sobre a conduta policial”, a ser realizado pela pesquisadora Nayane Felix dos Santos. Esclareço que compreendi seus propósitos e, concordo em participar da pesquisa, não me opondo a entrevista, e estou ciente que em qualquer momento posso retirar meu consentimento em participar da mesma. Fortaleza, _____ de ___________________ de 2013. ______________________________________ Assinatura do participante