1 FACULDADES INTEGRADAS MARIA THEREZA CURSO DE PSICOLOGIA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: DA DOR À ESPERANÇA JOSANI GOULART RODRIGUES DE BARROS NITERÓI 2006 2 FACULDADES INTEGRADAS MARIA THEREZA CURSO DE PSICOLOGIA JOSANI GOULART RODRIGUES DE BARROS VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: DA DOR À ESPERANÇA Monografia apresentada à Coordenação do Curso de Psicologia, sob orientação da Professora Ms. Maria Lúcia Duarte Geloski para obtenção do título de Psicólogo. NITERÓI 2006 3 FACULDADES INTEGRADAS MARIA THEREZA CURSO DE PSICOLOGIA JOSANI GOULART RODRIGUES DE BARROS Monografia apresentada ao Curso de Psicologia para obtenção do título de Psicólogo. Banca Examinadora Prof. Ms Maria Lúcia Duarte Geloski (0**21) 9538-9862 Prof. Ms. Ana Cláudia Lima Monteiro (0**21) 9438-7031 Prof. Ms. Sueli de Fátima Ourique de Ávila (0**21) 9991-8166 Conceito: 10(dez) Aprovado em: 11 /12/ 2006 4 RESUMO Este trabalho trata de uma investigação da extensão da violência e sua origem, um fenômeno presente na raça humana desde os tempos mais remotos. Tem como objetivo localizar o principal foco de violência perpetrada contra a criança e o adolescente, seja dentro da residência da família ou fora, a violência doméstica. A violência é um conjunto de atitudes agressivas do ser humano contra outro ser humano, seja pela força física ou não. A violência doméstica é acima de tudo uma relação desigual de poder, onde o mais forte subjuga e abusa do mais fraco. Torna-se importante o conhecimento do que venha a ser a violência doméstica, como fenômeno protegido por um muro de silêncio, adentrar nesta realidade, entender os transtornos causados à personalidade da criança e do adolescente e com isto buscarmos soluções. Abordamos também, os tipos de violência doméstica, bem como o perfil da vítima, do agressor, as possíveis causas e conseqüências decorridas desta violência. Apontamos a importância da família como uma base sólida para o desenvolvimento saudável da personalidade da criança, o que vem a ser resiliência, os atributos básicos para a formação de uma personalidade resiliente, os tipos de proteção que a criança dispõe internamente ou o que ela capta do meio em que vive. E finalizando este trabalho, falamos sobre a importância do papel do psicólogo dentro deste contexto, no sentido de promover junto à vítima e sua família, a restauração da personalidade que foi destruída e abalada por situações imprevisíveis e dolorosas. Palavras-chave: Violência Doméstica – Resiliência – Psicologia. 5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 06 CAPÍTULO I – O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA ............................................................08 CAPÍTULO II – DEFINIÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.....................................16 CAPÍTUILO III – TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES........................................................................................24 3.1 – Violência Física ..............................................................................................................24 3.2 – Violência Sexual ............................................................................................................30 3.3 – Violência Psicológica .....................................................................................................47 3.4 – Maus-Tratos: Negligência e Abandono.............................................. ............................49 CAPÍTULO IV – RESILIÊNCIA... DA DOR À ESPERANÇA........................................53 CAPÍTULO V – O PAPEL DO PSICÓLOGO JUNTO À CRIANÇA OU ADOLESCENTE QUE SOFRE OU SOFREU VIOLÊNCIA DOMÉSTICA..................59 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................62 REFERÊNCIAS......................................................................................................................64 ANEXOS 6 INTRODUÇÃO O desejo de investigar sobre o tema deste trabalho, surgiu a partir de um curso que fiz em São Paulo sobre Violência Doméstica perpetrada contra crianças e adolescentes. Uma vez que, em nosso país, crianças e adolescentes tem sido alvo dessa cruel realidade de violência doméstica, que tem afetado abruptamente a subjetividade dessa geração que pede socorro à sociedade, com isto, mergulhei neste tema para ganhar conhecimentos e, a partir destas informações, encontrar caminhos para uma possível atuação dentro do campo da Psicologia. De acordo com o Ministério da Saúde (2006), violências e acidentes causados contra crianças menores de seis anos é a principal causa de morte no Brasil. Estudos da Universidade de São Paulo (15/07/2006) apontam que nos últimos cinco anos a violência doméstica contra menores cresceu 75%. Só em 2004, foram 19.552 casos registrados. Segundo o estudo da UNESCO (2006), a violência contra a infância acontece em todos os países e está presente em todas as culturas, faixa de renda, níveis de escolaridade e grupos étnicos. O estudo ressalta que nenhum tipo de violência contra crianças é justificável e que todas as formas de agressão devem ser prevenidas. A criança e o adolescente não podem ser tratados apenas como o futuro, mas como o presente, porque é hoje que eles estão em formação física e mental. É por isso que eles precisam de proteção e amor para que possam crescer saudáveis e confiantes na humanidade e em seu futuro como cidadãos. De acordo com o Estatuto da Infância e do Adolescente (2006), nos casos de violação a violência psicológica precede a agressão física, a negligência e o abuso sexual. No dia-a-dia das vítimas, a tortura psicológica, acompanhada de ofensas, humilhações e palavras que denigrem a imagem da criança podem durar anos. Em muitos casos, este tipo de violência não é denunciado, bem como alguns casos de abuso sexual. De acordo com Oliveira(2005), 90% dos casos dos agressores são pessoas próximas da criança e a maioria das vítimas têm entre 7 quatro à dez anos de idade. A psicóloga relata que muitas vítimas não conseguem denunciar a violência sexual porque sofrem ameaças dos abusadores. E em casos como este, a posição da mãe é fundamental para garantir a integridade da criança, uma vez que muitas delas acobertam a violência por terem medo de perder o companheiro ou não terem como sustentar a família. Nosso estudo fala sobre a investigação da extensão desta violência e sua origem, objetivando localizar o principal foco de violência contra a criança e o adolescente, seja dentro ou fora de casa, suas conseqüências e qual o papel da família, da sociedade e dos órgãos competentes diante de tal fenômeno. O presente trabalho identifica e busca conscientizar as pessoas sobre os danos causados à personalidade das crianças e dos adolescentes que sofrem violência doméstica. Portanto, o objetivo deste trabalho é apresentar aos pais e educadores a árdua luta que a criança e o adolescente travam consigo mesmos e com os outros para formar a sua identidade. No primeiro capítulo, apresentamos um panorama geral da violência, através de uma resumida abordagem histórica. No segundo capítulo, trazemos algumas informações sobre o que é a violência doméstica e como esta ocorre. No terceiro capítulo, descrevemos os tipos de violência doméstica perpetrada contra crianças e adolescentes. No quarto capítulo, abordamos o potencial que cada sujeito possui, isto é, a resiliência, onde o mesmo indivíduo desenvolve em si a capacidade de superar as adversidades e forças para viver novamente uma nova experiência. No quinto capítulo, discorremos sobre a função do psicólogo junto à criança ou adolescente que sofre ou sofreu violência doméstica. 8 CAPÍTULO I – O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA Para Waksman (2003), pensar na violência implica considerar as bases e o desenvolvimento histórico que determinam as formas que ela assume ao longo da organização das sociedades. As raízes histórico-sociais da violência consistem em inserirmos a discussão do homem como um sujeito em que a história e a violência imprimiram suas marcas. O homem tem necessidade de organizar sua vida em relação ao outro e como coletividade em sociedade. Em sociedade, criam-se normas de comportamento, que não só determinam esferas específicas de ação para os homens, mas consagra os limites de violência permitida a cada sociedade. O homem na história tem sido o que a sua sociedade é, ele é o produto de sua sociedade. Se ela é injusta, ele também é, se ela é violenta, ele não faz por menos, mas também é a consciência que o homem tem de quem ele é, que o tem levado a lutar contra as injustiças, as violências, as discriminações, os privilégios. Só assim, ele poderá chegar um dia a uma sociedade em que a violência, se não for abolida integralmente, pelo menos não flua tão abundantemente de estruturas societárias que a tem como uma condição de sobrevivência. A violência que caracterizava o homem antigo e no início da vida, era a violência que o homem usava como forma de defesa, proteção, e esta perdeu a sua forma natural, onde o homem passou a utilizá-la para organizar sua vida em comum com outros homens. Não se deve esquecer que, a tradição clássica grego-romana, onde orgulhosamente a cultura ocidental vai buscar suas raízes, é tão carregada de violência, quanto os impérios que a precederam. Com isto, não se pode deixar de reconhecer que uma das condições básicas de sobrevivência do homem, num mundo natural, hostil, foi exatamente sua capacidade de produzir violência. Segundo Michaud (1989), atualmente as definições para violência contra criança e o adolescente variam de acordo com as visões culturais e históricas acerca da criança, de seus 9 cuidados, direitos, cumprimento de regras sociais para com ela e com os modelos explicativos usados para a violência. Mas o que é a violência? Tentar defini-la é correr o risco de aprisioná-la num esquema formal estreito. A violência não é evidente por si mesma em todas as suas manifestações algumas das quais tão sutis e tão bem manejadas que podem passar por condições normais e naturais do viver humano. Segundo Minayo (1994), o termo violência tem sido empregado em diversas ciências para se referir às situações de força (sobretudo a procedência exterior à pessoa que a sofre) que se opõem à espontaneidade, à naturalidade, à responsabilidade jurídica, à liberdade moral, etc. Esta pode ser entendida também como, a “força material, ativa, vertida para o exterior e causa de prejuízo físico. Implica a relação energia física - prejuízo físico”. Para a autora, a violência traz implícita a noção de controle, uma vez que, por seu intermédio, uma pessoa submete-se a outra, seja pela força física ou não, numa demonstração de poder ou não, isto é, a violência também pode ser empregada para designar aquele fenômeno em que uma pessoa impõe o seu poder a outra através de meios persuasivos, abatendo a resistência do que a ela se opõe. A violência nos impede fundamentalmente de nos realizarmos como homens e será vencida quando a sociedade for organizada de tal maneira que as diferenças entre homens sejam cada vez menos sensíveis. Neste trabalho, falamos sobre a violência perpetrada contra crianças e adolescentes, pois é um fenômeno presente na raça humana, desde os tempos mais remotos. Na história vemos violências na forma de escravidão, abandono e negligência, mutilações e espancamentos. Em Ariès (1975), a sociedade humana nem sempre percebeu a criança como hoje ela é vista. Tradicionalmente, a duração da infância reduzia-se a seu período mais frágil. A 10 adolescência, por sua vez não existia. A criança ao longo do tempo adquiria desembaraço físico, misturava-se aos adultos, partilhando de seus jogos e trabalhos. A família não era tão responsável pela socialização da criança, que afastada dos pais, tinha a educação ministrada por outros adultos de famílias diversas. Essa educação visava apenas aquisição de conhecimentos referentes às atividades realizadas pelos mais velhos. Assim, a passagem da criança pela família e pela sociedade era breve e insignificante, resultando na fragilidade dos laços afetivos. Nos primeiros anos de vida, as crianças eram vistas pelos adultos como um “animalzinho de estimação”, com o qual se divertiam; se por acaso a criança viesse a morrer, a regra geral era não se dar muita importância a esse ato, porque outra logo a substituiria. Essa fase, denominada “paparicação”, não durava muito e assim, de imediato, a criança era afastada de seu núcleo familiar, passando a viver em outra casa. As trocas afetivas e as comunicações sociais eram realizadas, portanto, fora da família, num meio muito denso e quente, composto de vizinhos, amigos, amos e criados, crianças e velhos, mulheres e homens, onde se podia manifestar mais livremente. As famílias conjugais se diluíam nesse meio (...) (Aires, 1975, p. 103). Segundo o autor, a criança da idade antiga e média, até o século XII, ainda não tinha sido descoberta. As expressões artísticas não retratavam o mundo da criança, que era representada na arte medieval como um adulto, só que de proporções reduzidas, omitindo-se suas formas e expressões peculiares. Neste século ainda, ocorreu à exibição da nudez infantil, através da pintura gótica, que representava a morte e a alma. Hoje em dia, a nudez infantil é muito usada na mídia televisiva, na linguagem da propaganda. Nos séculos XV e XVI surge uma iconografia leiga, substituindo a religiosa e a criança passa a ser uma personagem freqüente das pinturas anedóticas. A criança com sua família, a criança com seus companheiros de jogos, muitas vezes adultos, a criança na multidão, mas “ressaltada”, no colo da 11 mãe ou segura pela mão, ou brincando, no meio do povo assistindo aos milagres ou aos martírios, ouvindo prédicas, acompanhando apresentações e circuncisões, aprendendo com ourives, com o pintor, etc.. (Ariès, 1975, p. 55). As cenas descritas não se consagraram à infância exclusivamente; as crianças eram protagonistas principais ou secundárias; na vida cotidiana elas misturavam-se aos adultos e os pintores as representavam por sua graça, pelo lado pitoresco, “engraçado”. Para Ariès (1981), a descoberta da infância começou sem dúvida no século XIII, e sua evolução pode ser acompanhada na história da arte e na iconografia dos séculos XV e XVI. Mas os sinais de seu desenvolvimento tornaram-se particularmente numerosos e significativos a partir do fim do século XVI e durante o século XVII. No final do século XVII, houve uma mudança considerável, alterando o quadro acima descrito. A escola passou a ser responsável pela formação da criança através do processo educativo. A partir daí, a criança separa-se daqueles núcleos sociais passando por um período de “enclausuramento”, assim relatado por Ariès: Essa separação (...) das crianças deve ser interpretada como uma das fases do grande movimento: de moralização dos homens promovidos pelos reformadores, católicos ou protestantes ligados à Igreja, às Leis ou ao Estado. Mas ela não teria sido realmente possível sem a cumplicidade sentimental das famílias, e esta é a 2ª abordagem do fenômeno (...). A família tornou-se o lugar de afeição necessária entre os cônjuges e entre pais e filhos, algo que ela não era antes. Essa afeição se exprimiu sobretudo através da importância que se passou a atribuir à educação. (In: op.cit. p.11/12). No século XVII, a criança passa a ser o centro da composição familiar, aparece nas pinturas sendo abraçadas ou demonstrando carinho. A evolução iconográfica correspondeu à descoberta da linguagem infantil que manifesta as descobertas da 1ª infância, do corpo, dos hábitos e da fala da criança pequena. No século XIII, a família burguesa, tinha a criança como centro das atenções e cuidados. No século XIX, surgiu uma preocupação mais consistente com a criança, passando a mesma a ser encarada como um ente importante, possuidor de valores e sentimentos. Essa 12 nova forma que visualiza a criança se deveu ao surgimento de ciências como a psicologia, psicanálise e a pediatria que se firmaram como formas autônomas de saber e cujo um dos principais objetos de estudo era o público infantil. Nesse século, as crianças e adolescentes sofriam todo tipo de violência. Segundo o autor, antigamente as crianças eram particularmente úteis, quando os adultos se encontravam diante de possibilidades de insucessos. Sempre que se iniciava uma nova aventura ou desafio, crianças eram sacrificadas para afastar os maus presságios ou agradar aos deuses. Os sacrifícios de bebês, com propósitos religiosos existem desde a antiguidade, quando eram atirados em rios. Havia um entendimento comum de que atos de violência impostos ou praticados contra criança por seus pais, inclusive os abusos sexuais, eram inofensivos e não trariam quaisquer tipos de conseqüências às suas formações, uma vez que brincar com os órgãos genitais das crianças era um hábito tradicional. Diante de muitos acontecimentos de violência impostos à criança pelos seus pais, segundo Guerra (1995), a medicina começou a se interessar e a pesquisar sobre tais acontecimentos. Aos poucos os pediatras começaram a tomar consciência de que havia um certo número de crianças atendidas por eles, que na verdade eram crianças maltratadas pelos pais ou adultos que por elas se responsabilizavam. Com isto, em fins do século XVIII, início do século XIX, o Estado e a Medicina, fazem intervenção sobre a infância, influenciando assim, uma nova concepção sobre a criança e sobre as modificações na organização das famílias. Em meados do século XX, começa a se esboçar uma preocupação com a criança, ou seja, ela é descoberta “como ser humano autônomo”, percebendo-se com mais profundidade seus valores, seus sentimentos. Segundo Guerra (1995), o primeiro relato medido sobre violência física contra a criança, surgiu em 1860, no século XIX, na França, quando o professor Ambroise Tardieu no 13 período em que desenvolveu sua pesquisa em relação aos acontecimentos de violências apresentados na ocasião, escreveu um artigo com 32 casos de espancamentos, das quais 19 crianças morreram queimadas ou asfixiadas – crianças estas, mortas por seus pais de forma violenta. Após este trabalho, outros fatos surgiram no meio intelectual denunciando os abusos contra crianças e adolescentes nas escolas, fábricas, mas não obtiveram muita repercussão no meio científico. Segundo Guerra (1995), em 1871, uma criança chamada Mary Ellen, após sofrer agressão física, precisou recorrer à Sociedade Protetora dos Animais, em busca de proteção, uma vez que não existiam leis que protegessem as crianças. Esse fato deu origem, na Europa, à criação de uma sociedade de prevenção, da crueldade contra crianças, assim como a organização de instituições públicas e privadas, cujo objetivo era providenciar vestuário, alimento e atendimento médico para as crianças que necessitassem. Segundo Paiva (1997), Caffey publicou em 1946, seis observações acerca da presença de hematomas subdurais associados à fratura de membros em crianças de tenra idade, invocando, então a hipótese de maus-tratos como geradores dessas lesões, descrevendo como uma síndrome caracterizada por hematoma subdural, embora sem identificar sua causa. Segundo Guerra (1995), F. Silverman em 1953 estudou radiologicamente uma série de casos semelhantes relatados por Caffey, onde constatou a presença de fraturas não tratadas corretamente e com datas de ocorrências diversas. Investigando os informes dos pais acerca do fenômeno, ele concluiu que, as lesões foram decorrentes de maus-tratos. Já em 1962, surge um trabalho de autoria e F. Silverman e H. Kemper, onde eles batizam a questão dos maus-tratos à criança, na área da medicina, como a, “Síndrome da Criança Espancada”. Segundo Azevedo e Guerra (1989), o quadro clínico descrito por esta síndrome refere-se a: Crianças de baixa idade que sofreram sofrimentos inusitados, fraturas ósseas, queimaduras, etc., ocorridas em épocas diversas, bem como em diferentes etapas e sempre inadequadas e inconsistentemente explicadas pelos pais. O 14 diagnóstico tem que se basear em evidências radiológicas dos ferimentos repetidos. (Azevedo e Guerra, 1989, p. 38). Após a configuração da “Síndrome da Criança Espancada”, a medicina passou a ter interesse especial pelas crianças, na segunda metade do século XIX, quando a pediatria se estabeleceu como um campo de saber autônomo dentro da área médica, onde com os avanços tecnológicos, foi capaz de ir aos poucos distinguindo as lesões apresentadas pelas crianças em decorrência de sevícias. É importante salientar também que, a medicina, fez progressos nos estudos sobre a relação violenta entre pais e filhos. Segundo Azevedo (1995), em 1994, o neurocirurgião F.D. Ingraham apontou as origens traumáticas de hematomas subdurais de lactentes, levantando a hipótese de “pancada na cabeça” como causa dos mesmos. Muitas lesões derivadas de sevícias físicas impostas às crianças tiveram melhor possibilidade de detecção e de diagnóstico na medida em que a radiologia foi introduzida na área pediátrica, o que ocorreu no século XX. Este fato possibilitou que este fenômeno fosse estudado amplamente por diversos ramos do conhecimento, registrando e nos proporcionando uma idéia de como este fenômeno ocorria, uma vez que em função da escassez de publicações, não se tinha como provar ou até mesmo atestar esta violência que era perpetrada à criança ou ao adolescente. A associação dessas duas instituições: Estado e Medicina – favoreceu, ao longo dos séculos, a construção do estatuto de direitos da criança e do adolescente, mudando seu estatuto social e reduzindo, legalmente, embora não culturalmente, o poder das famílias sobre elas. A medicina com o suporte do Estado desenvolveu seu poder normatizador sobre as famílias, dirigindo-se especialmente à criança, à sua formação, reforçando a idéia da criança como detentora das características futuras do adulto. A criança sai do seu anonimato para tornar-se instrumento de poder do Estado e de legitimação da medicina. 15 Segundo Ariès (1975), o século XX é considerado o século da criança. A mesma passa a ter valor inestimável e insubstituível. Neste século surgem os principais documentos jurídicos nacionais, visando proteger os direitos das crianças e dos adolescentes, como a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei dos Crimes Hediondos (crimes de estupro e atentado violento ao pudor). Desde que a violência existe, também existiam sistemas que se desenvolveram para evitá-la ou restringi-la, nem sempre bem sucedidos, é verdade. Mas podemos afirmar que todos contribuíram de alguma forma, para conscientizar o ser humano sobre os riscos e as conseqüências da violência. Para Pelzer (1999), a violência gera sentimentos como o desamparo, o medo, a culpa ou raiva, que não podendo ser manifestos, se transformam em comportamentos distorcidos, perpetuando-se por várias gerações. Portanto, todo o tipo de violência é condenável e criminosa. E quando cometida contra um ser desprotegido, fisicamente e emocionalmente, deixa muito mais do que seqüelas físicas, marca a sua alma. No capítulo seguinte, falaremos sobre a violência doméstica, perpetrada contra crianças e adolescentes podendo acontecer dentro do âmbito familiar ou não. 16 CAPÍTULO II – DEFINIÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA A violência doméstica contra crianças e adolescentes, segundo Guimarães (1994), acompanha a trajetória humana desde os acontecimentos mais primitivos de que se tem registro e poucos conhecem a intensidade e abrangência desse fenômeno. Com isto, quanto mais atrás regressarmos na história, mais reduzido o nível de cuidado com as crianças, maior a probabilidade de que houvessem sido assassinadas, aterrorizadas psicologicamente, agredidas fisicamente e abusadas sexualmente, pois a criança era tida como mercadoria de pouco valor. A violência doméstica costuma produzir três tipos preferenciais de vítimas: crianças/adolescentes, mulheres e idosos. Como já foi dito, somente consideraremos a violência doméstica perpetrada contra crianças e adolescentes. Segundo Guerra (1998), pode se classificar as modalidades de violência doméstica em: violência física, violência psicológica, abuso sexual, negligência e abandono. A violência doméstica está presente em todas as camadas sociais, raças e níveis educacionais em diferentes momentos históricos. Mas, nas camadas populares ela se torna pública, em virtude da denúncia e do decorrente acompanhamento ou intervenção dos órgãos públicos. As camadas altas da sociedade mantêm o anonimato e compram a discrição através dos atendimentos particulares, quando o fazem. A violência doméstica, não se caracteriza apenas pela agressão física, envolve também a violência sexual e psicológica, incluindo agressões verbais e humilhações que afetam a auto-estima e a capacidade de reação e decisão da pessoa agredida. A violência doméstica tem sido responsável pelo alto índice de desajustamento social e familiar. Crianças que vivem sob uma situação de violência aprendem a usá-la como forma de vida e tem grande possibilidade de reproduzi-la nos seus relacionamentos, seja na condição de criança, jovem ou adulto. 17 A autora descreve a violência doméstica como violência intersubjetiva, aquela que consiste na violência interpessoal, com abuso do poder disciplinador, ocasionando um processo de vitimização e imposição de maus-tratos. A violência doméstica é acima de tudo uma relação desigual de poder, onde o mais forte subjuga e abusa do mais fraco. O adulto, devido ao seu “completo” desenvolvimento físico e emocional, tem o poder de proteger a criança e o adolescente. Quando essa relação (adulto e criança/adolescente) acontece dentro de um ambiente familiar, além de ter o poder de proteção, o adulto passa a ter o dever de exercer essa proteção. Quando esse poder/dever é transgredido, se instaura uma das formas mais terríveis de violência. Uma das características mais marcantes do agressor de violência doméstica é enxergar a criança, não como um sujeito de direitos, mas sim como um objeto que lhe pertence e que existe para executar todas as suas ordens e vontades, implicando assim, numa transgressão do poder/dever de proteção do adulto em relação à criança/adolescente, transformando numa coisificação a infância, a adolescência. As crianças/adolescentes são tidas como “depósitos para todos os males” e é sobre elas que o agressor projeta as partes indesejáveis de seu psiquismo, a fim de controlar seus sentimentos em outro corpo, sem riscos para si e protegendo-se da opressão determinada por sua ansiedade. Segundo Azevedo e Guerra (2000), esta violência pode existir na forma comissiva (ações) ou passiva (ação), vejamos alguns exemplos para compreendermos melhor: a) Violência na forma comissiva: V.M.S. vítima de estupro pelo padrasto. A criança foi encaminhada ao hospital, pois apresentava seqüelas da violência. A mãe encontrou a filha sangrando e em estado de choque. (Caso CECOVI1, denúncia recebida em 13/03/2000). b) Violência na forma passiva: 1 CECOVI – Centro de Combate à Violência Infantil. 18 Uma criança de dez meses de idade morreu em Ribeirão Preto depois de ficar quase quatro horas trancada dentro de um carro estacionado no sol. Rafaela foi encontrada morta pelo pai, Rodrigo Maurino, dentro do carro da família, às 17h40min. Maurino disse à polícia que “esqueceu” o bebê trancado dentro do carro enquanto trabalhava. (Folha de São Paulo. 31/10/1997). Portanto, a violência doméstica, é aquela exercida dentro da própria família e que reduz a criança a condição de objeto de maus tratos, de sujeição ao poder coercitivo dos pais, causando sérios danos mentais e físicos, levando muitas vezes a morte da criança. Adotamos aqui a definição de Guerra (1995) sobre violência doméstica: A violência doméstica contra crianças e adolescentes representam todo ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis e/ou instituições, contra crianças e/ou adolescentes que, sendo capaz de causar dano físico, moral, psicológico e sexual à vítima, implica de um lado numa transgressão do poder/dever de proteção do adulto e, de outro, numa coisificação da infância, isto é, numa negação do direito que crianças e adolescentes tem de ser tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. (Guerra,1995, p.23) Portanto, a violência é uma relação de forças caracterizada num pólo pela dominação e no outro pela coisificação. O pressuposto dessa definição é a idéia de liberdade desenvolvida por Spinoza. Segundo ele: ...a liberdade não é a escolha voluntária ante várias opções, mas a capacidade de auto-determinação para pensar, querer, sentir e agir. É autonomia. Não se opõe à necessidade (natural ou social), mas trabalha com ela, opondo-se ao constrangimento e à autoridade. Nessa perspectiva, ser sujeito é construir-se e constituir-se como capaz de autonomia numa relação tal que as coisas e os demais não se ofereçam como determinantes do que somos e fazemos, mas como o campo no qual o que somos e fazemos pode ter a capacidade aumentada ou diminuída, segundo nos submetemos ou não à força e à violência ou sejamos agentes dela. (Spinoza,apud Chauí,1985,p.36). 19 Para o autor, a liberdade é também um direito fundamental do ser humano. Neste sentido, violência é sempre uma violação do direito de liberdade de ser sujeito constituinte de sua própria história. Segundo Chauí (1985): Entendemos por violência uma realização determinada das relações de forças tanto em termos de classes sociais quanto em termos interpessoais. Em lugar de tomarmos a violência como violação e transgressão de normas, regras e leis, preferimos considerá-la sob dois outros ângulos. Em primeiro lugar, como conversão de uma diferença e de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, de exploração e opressão. Isto é, a conversão dos diferentes em desiguais e a desigualdade em relação entre superior e inferior. Em segundo lugar, como a ação que trata um ser humano não como sujeito, mas como coisa. Esta se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo silêncio de modo que, quando a atividade e a gala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência.(Chauí,1985,p.43). Segundo Lefèvre (1992), há uma distinção entre violência e violação, compreendendo esta última, um conjunto maior de fenômenos onde a violência estaria incluída de forma explícita ou não, comprometendo o desenvolvimento e o crescimento da criança e limitando o exercício da sua cidadania. A violência se constituiria em uma violação explícita e clara dos direitos da criança. A violência doméstica baseia-se em gritos, choros, sons desagradáveis de socos, móveis caindo, pratos sendo quebrados e ocorrências como essas são angustiantes, principalmente se vindas da casa vizinha ou até mesmo da nossa própria casa. A violência na modernidade designa o conjunto de atitudes agressivas do ser humano em relação a outro ser humano, e isto se tornou uma naturalidade, uma banalidade do nosso cotidiano. A violência tem estado presente em todas as classes sociais. Para o autor, a violência doméstica contra a criança e o adolescente interrompem sonhos, destrói a inocência e provoca marcas emocionais que influenciarão na vida de quem ainda mal começou a vivê-la. Isso sem contar que muitas das agressões são cometidas pelos pais ou por pessoas próximas das vítimas, como parentes, vizinhos e empregados, que deveriam zelar pelo bem estar dos menores. Assim, em que tipo de adulto se transformará 20 uma criança ou um adolescente que recebem pancadas e sofrem abusos por parte de quem só deveria lhe dar amor e confiança? A nossa questão é: o que faz com que as pessoas mantenham essa atitude de silêncio frente a um problema tão grave? A literatura freqüentemente aponta para a existência do medo de se envolver na situação e colher problemas. Entretanto, sabemos que quando se percebe que a criança está sendo vítima de violência doméstica, este silêncio ocorre e se ocorre é porque tem razões que desconhecemos. Sabemos que tais seres humanos são levados a se comportar de forma tão cruel, contra a criança ou adolescente, não se importando com os seus direitos, sua integridade física ou conseqüências psico-afetivas em situação de inferioridade, onde são submetidos e tutelados por estes que deveriam ser seus guardiões e não seus algozes. Por causa deste véu de silêncio, acaba-se por alimentar e incentivar ainda mais o ciclo de violência e impunidade. Diante deste quadro de silêncio, a família tem todo o interesse de manter-se oculta, preservando assim sua imagem de “santuário”. Ao nos depararmos, muitas vezes, com a violência doméstica, sentimos revolta, dor, medo e principalmente impotência para agir, devido a toda estrutura familiar negar os fatos acontecidos. Segundo Azevedo (1985), na Idade Média, os castigos físicos, a flagelação e as torturas eram legitimadas pelos poderes civis e eclesiásticos. Não se questionava o direito que os homens tinham de bater em suas mulheres e crianças, direito esse reconhecido e sancionado por tribunais civis e religiosos. O direito do homem de bater era aceito como um propósito pedagógico para “corrigi-los de seus erros”. Foi só a partir do século XIX que as leis e os tribunais deixaram de reconhecer o direito do marido de castigar a mulher e filhos e passaram a considerar esse comportamento como criminoso e como tal, passível de punição legal. Mas apesar disso, na privacidade dos 21 lares, a violência doméstica continuou acontecendo e os agressores continuaram impunes, protegidos pelo silêncio de suas vítimas. Com isto, para entendermos melhor os motivos que fazem as vítimas da violência doméstica silenciarem, Azevedo e Guerra (2000), elucidam os mitos que regem as relações intrafamiliares e muitos desses mitos foram transmitidos por várias gerações até chegarem a nós. Os mitos são considerados verdades absolutas e romper com os mesmos, constituem uma tarefa árdua, exigindo de cada um, coragem para quebrar paradigmas e assumir uma nova forma de ver o mundo. Mas afinal, o que são mitos? Mitos são convicções que, mesmo diante de provas concretas ao contrário, continuam sendo aplicados por desinformação ou pretensões ideológicas ocultas. Segundo os autores acima, todos nós somos frutos das crenças e costumes do meio em que vivemos. O profissional que trabalha no enfrentamento da violência doméstica necessita ter um senso crítico para discernir as verdadeiras motivações das regras que dirigem as relações familiares. Precisamos enxergar e desconstituir, para nós mesmos e para os que nos cercam, tudo que for fruto de preconceitos historicamente constituídos. Vejamos abaixo alguns desses mitos que regem as relações intrafamiliares: a) O mito da criança malvada: Segundo Santos (1987), acredita-se que, ao nascer, a criança traz dentro de si uma índole perversa que precisa ser domada o mais cedo possível. A teologia judaico-cristã reforça esse mito. Contudo Santo Agostinho, um dos teólogos mais respeitados pela Igreja, afirmava que: Toda criança é uma pessoa má em potencial e deve ser submetida a castigos corporais moderados e severos, para que possa ter um crescimento adequado e uma personalidade boa, do mesmo modo como uma árvore para crescer frondosa e retilínea deve estar amarrada ao poste. (Santos, 1987, p. 24) Segundo o autor, essa linha de pensamento foi incorporada pelas igrejas católicas e evangélicas. Baseando-se no princípio do pecado original, a teologia da maldade intrínseca da 22 criança, buscou seu fundamento em alguns versículos do antigo testamento, elegendo, dessa forma, a violência física como modelo ideal de disciplinamento de crianças e adolescentes. É preciso analisar as escrituras bíblicas levando em conta o contexto histórico em que ela foi escrita. No antigo e no novo testamento encontramos práticas e costumes, que hoje já não são executados da mesma forma do que na época em que foram escritos. Isso acontece porque tais preceitos foram instituídos para um determinado povo, dentro de um contexto histórico e cultural específico. Mas mesmo assim, o mito da criança malvada, vem sendo apregoado desde a antigüidade. A idéia de que a criança nasce com o mal dentro de si e que por isso deve ser domada, quebrada a sua vontade, fustigada com a vara para que não se rebele, não permita que sua índole pervertida e caída aflore, não tem respaldo nas ordenanças de Deus. b) O mito da bondade dos pais: Segundo Azevedo e Guerra (2000), a maioria das pessoas acredita que “todos” os pais amam seus filhos. Por conta disso, lhes é dado o direito absoluto sobre a prole. Logo, se um pai ou mãe espanca sua criança, a comunidade não intervém, pois existe a crença de que estão exercendo um direito e que se estão agindo assim é para o bem da mesma. A realidade tem demonstrado que nem toda mãe tem dentro de si o amor maternal, da mesma forma, nem todo pai possui estrutura emocional para exercer a paternidade. A maternagem e a paternagem estão longe de ser sentimentos automáticos. Eles são sentimentos construídos, alimentados e desenvolvidos diariamente. c) O mito da família perfeita: Esse mito é fruto do conservadorismo de direita que sempre alimentou a falsa crença de que a família é por natureza harmoniosa e imune a contendas, não admitindo que se atribua à mesma, qualquer falha ou defeito. 23 Segundo Gelles (1979) e Pôster (1979), este mito pode ser desfeito quando comprovaram em seus estudos que a família nuclear é campeã em gerar toda sorte de violência em seu interior. Segundo eles, isso ocorre devido a certas características peculiares, próprias da família, tais como as diferenças de gênero e de gerações. Essas diferenças de gênero e de geração produzem muitos conflitos dentro da família, principalmente por ser ela um espaço privado e secreto por natureza. d) O mito da violência doméstica ser fruto da miséria: Segundo Azevedo e Guerra (2000), acreditam-se que os pobres cometem mais a violência doméstica, pois as ocorrências nas delegacias são em sua grande maioria proveniente dessa classe social. A visibilidade do fenômeno se faz mais presente na camada pobre da população, entretanto isso não significa que nas classes média e alta não exista violência. Na verdade o que se observa é a capacidade das classes mais favorecidas de esconder e dissimular seus conflitos. e) O mito de que pais que maltratam seus filhos são raros: Segundo Azevedo e Guerra (2000), imagina-se que casos de maus-tratos contra crianças e adolescentes provocados por seus pais ou parentes são raros. A violência no lar é um fenômeno universal, freqüente e geralmente cíclico, ou seja, se reproduz por várias gerações. Portanto, para entendermos melhor as relações familiares, precisamos identificar os mitos que as famílias se identificam e o que as levam a praticar a violência doméstica. No capítulo seguinte, falaremos sobre os tipos de violência perpetrada contra crianças e adolescentes, bem como suas causas, conseqüências, perfil do agressor, perfil da vítima e perfil da família. 24 CAPÍTULO III - TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES Segundo Guerra (1998), a violência contra crianças e adolescentes sempre existiu, mesmo assim não era considerada por se tratar de práticas históricas e/ou culturais, como a pedofilia entre os gregos e os romanos, ou a utilização de crianças em rituais sexuais, como entre os Marquesans na Polinésia. Atualmente, tais práticas seriam consideradas violentas e abusivas, em decorrência de uma conscientização maior acerca do bem-estar da criança e do adolescente. Hoje se define abuso ou maus-tratos como aqueles atos em que está presente um sujeito em condições de superioridade – por autoridade, inteligência, posição social ou econômica, força ou idade – que produz um dano físico, emocional ou sexual contra a vontade da criança ou do adolescente, ou até com seu consentimento, obtido, porém, a partir de indução, sedução ou engodo. É importante que se diga que todas essas formas de violência podem ocorrer em todas as classes sociais, grupos culturais ou religiosos. Guerra (1998), cita quatro tipos de modalidades de violência perpetrada contra a criança e o adolescente, são elas: violência física, violência sexual, violência psicológica e maus-tratos: negligência e abandono. 3.1 – VIOLÊNCIA FÍSICA Segundo Guerra (1998), a violência física é caracterizada por atos violentos que empregam o uso da força física de forma intencional, não acidental, praticada por pais, responsáveis, familiares ou pessoas próximas das crianças e dos adolescentes, com o objetivo evidente ou não de ferir, lesar ou destruir a vítima, deixando ou não marcas evidentes em seu corpo. Há vários graus de gravidade que a vítima pode apresentar e vão desde tapas, 25 beliscões, fraturas ósseas, hematomas, lesões cerebrais e traumas causados por gestos que atingem partes muito vulneráveis do corpo. Utiliza também, objetos e instrumentos para ferir o corpo, como: líquidos ou objetos quentes causando vários tipos de queimaduras, sufocação e mutilações, podendo ocorrer a morte da criança ou adolescente. Portanto, abuso físico (violência física) consiste em castigos extremos e inapropriados à idade e compreensão da criança, que resulta ou não em lesões físicas independente da sua natureza. A violência física consiste na coação que se processa através de maus-tratos físicos ou negligência em termos de cuidados corporais. Para Azevedo e Guerra (1989), a violência física é um fenômeno que se caracteriza pelo seu caráter repetitivo, ou seja, quando não há tratamento, e os riscos de permanência da criança ou do adolescente com os pais, familiares, responsáveis ou pessoas próximas é de 50% à 60% e há risco de chegar à morte. A violência física é utilizada como ação disciplinadora e coercitiva por parte dos pais e/ou responsáveis cometida contra a criança/adolescente. Estes autores citados descrevem algumas manifestações incomuns de abuso físico em crianças: a “Síndrome da Criança Espancada”, a “Síndrome do Bebê Sacudido” e a “Síndrome de Münchausen por procuração”, sendo que esta última pode ser incluída também na categoria de violência psicológica. Vejamos abaixo o significado das síndromes: a) Síndrome da Criança Espancada A Síndrome da Criança Espancada se refere a espancamentos em crianças menores de 3 anos de idade, freqüentemente causando graves lesões, deixando importantes seqüelas, quando não resultam em óbito. Crianças de baixa idade que sofreram sofrimentos inusitados, fraturas ósseas, etc., ocorridas em épocas diversas, bem como em diferentes etapas e sempre inadequada e inconsistentemente explicadas pelos pais. O diagnóstico tem que se basear em evidências radiológicas dos ferimentos repetidos. (Azevedo e Guerra, 1989, p. 38). 26 b) Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome) A Síndrome do bebê sacudido refere-se a lesões de gravidade variável e esta é causada pelo ato de sacudir bruscamente a criança, geralmente um lactente. Podendo causar as seguintes seqüelas: hematoma subdural, atraso no desenvolvimento, lesões cerebrais, hemorragia retiniana, cegueira, convulsões, lesões na espinha, fraturas ósseas e morte. c) Síndrome de Münchausen por procuração A Síndrome de Münchausen por procuração consiste na simulação de doenças na criança por parte dos seus responsáveis. A criança é trazida para cuidados médicos, mas os sintomas e sinais que apresentam são inventados ou provocados por seus pais ou responsáveis. Esses adultos acabam por meio de uma patologia relacional, vitimando a criança, impingindo-lhe sofrimentos físicos, como por exemplo: fazendo exigências de exames complementares desnecessários, uso de medicamentos, ingestão forçada de substâncias, provocando-lhes danos psicológicos. Tal é o caso da multiplicação de consultas e internações sem motivo clínico por parte da vítima. Esta síndrome é caracterizada pela fabricação intencional ou simulação de sintomas, sinais físicos ou psicológicos em uma criança ou adolescente pelos pais ou responsáveis, gerando inúmeros procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários, causando graves danos à criança, tanto físico como psicológico. Todas estas formas de violências quando não detectadas, além de graves danos psicológicos, podem e com freqüência o fazem resultar em óbito. Vale ressaltar que, todos os castigos físicos aplicados às crianças menores de 12 meses são atos abusivos. Segundo Azevedo e Guerra (1989), possuem duas modalidades de castigos corporais: os castigos cruéis e os castigos que resultam em ferimentos. 27 Castigos cruéis: são castigos extremos e incompatíveis com a idade e discernimento da criança. Ex.: Mãe que mergulha a mão da filha canhota de cinco anos em água fervendo para ensiná-la a usar a mão direita. Castigos que resultam ferimentos: são castigos onde o agressor utiliza objetos ou a força física até resultar em ferimento. Ex.: Pai que espanca o filho com chicote ou vara de marmelo deixando vergões em sua pele. As conseqüências orgânicas da violência física podem acontecer através de danos físicos leves, graves e gravíssimos. Exemplos de danos leves: esquimose2, edema traumático, torcicolo traumático, hematoma, etc. Exemplos de danos físicos graves: perda de um dente, dedo, ouvido, etc. Exemplos de danos físicos gravíssimos: perda de um braço, mão, deformidade na pele que cause desagrado, repulsa ou piedade, etc. As conseqüências psicológicas da violência física em crianças e adolescentes que sofrem, são: dificuldade de confiar nos outros, sentimento de raiva e medo, sofre depressão, autoritarismo, provavelmente serão pessoas que praticarão violência doméstica, uso de drogas, delinqüência, parricídio3 e múltiplas personalidades. A descoberta mais consistente em termos os homicídios perpetrados por jovens é que estes especialmente os que matam membros da sua própria família, em geral testemunharam episódios de violência doméstica ou foram diretamente atingidos por ela (Ewing, 1995). Segundo Azevedo e Guerra (1989), crianças ou adolescentes vítimas de violência doméstica, geralmente apresentam os seguintes comportamentos: temor exagerado dos pais, excessiva preocupação em agradar, está sempre em estado de alerta, sofre habitualmente mudanças severas de humor, busca chegar cedo à escola e dela sair bem mais tarde, faltas freqüentes na escola, fica tensa e apreensiva quando outra criança começa a chorar, apresenta comportamentos extremos: agressividade ou timidez excessiva, baixo rendimento escolar, 2 3 Equimose – ferida na pele. Parricídio – crime de parricida, pessoa que matou pai, mãe, ou qualquer dos ascendentes. 28 tentativa de ocultamento das lesões, alega sofrer agressões dos pais, fugas constantes de casa, baixo auto-estima, isolamento e tristeza. Quem é o agressor? Podemos dizer que, a maioria absoluta dos agressores é de pais biológicos, isto é, a mãe é a agressora mais freqüente, porém quando o pai é o agressor, este causa lesões mais graves. É freqüente o agressor ter como alvo principal, um determinado filho, que geralmente é o primogênito – este é o bode expiatório – foi eleito para ser a descarga. Segundo Gelles (1973) e Kemper (1978), 10% dos agressores físicos são portadores de perturbações psiquiátricas graves. No mais, são pessoas portadoras de “sociopatias4”, ou seja, são pessoas desempregadas com dificuldades de relacionamento. Os agressores de violência física em sua grande maioria são pessoas comuns que acreditam estar educando seus filhos para a vida. É importante, entretanto, que os pais se conscientizem que não são donos dos corpos dos filhos e que estes são sujeitos de direitos protegidos pela lei. Admite-se que, os agressores são pessoas que possuem potencial agressivo reprimido, que se tornam manifestos sob certas condições, tais como desajustes sociais agudos ou pelo uso de álcool/drogas ou por condição de pobreza. Sendo que, o álcool, a droga e a pobreza, embora possam ser fatores desencadeantes, não são, contudo, fatores etiológicos diretos, isto é, havendo, por exemplo, agressores alcoólatras/drogadícios ou não, pobres ou ricos. Contudo, famílias desprotegidas socialmente acabam por tornar as crianças mais vulneráveis e, assim, aumentam o risco de virem a sofrer violência. Contudo, ocorre na família cumplicidade silenciosa entre os cônjuges, dificultando, a intervenção. Assim, segundo Guerra (1995), podemos identificar o comportamento do agressor, quando o mesmo vê a criança como um objeto de sua prioridade, quando vê a 4 Sociopatias – patologia de origem social e cultural. 29 criança como má, preguiçosa e causadora de problemas, quando culpa a criança por problemas existentes no lar, quando tem pouca preocupação com a criança, sendo raro o comparecimento a reuniões e a entrevistas com coordenação pedagógica da escola, quando exige da criança um desempenho superior às suas forças intelectuais ou físicas, quando defende a disciplina severa, quando muitas vezes a vítima se encontra gravemente ferida e ocorre uma demora em buscar atendimento médico ou mesmo hospitalização, quando oculta ou mente a respeito das causas das lesões da criança e quando abusa de álcool e/ou drogas. Geralmente o agressor alimenta uma imagem ideal do filho, o qual não correspondeu à realidade, e com isto, tudo pode representar um motivo para a rejeição da criança, seja seu aspecto físico (feia, magra, etc.), temperamento (calada, alegre, etc.), ou sexo (masculino/feminino), ocorrendo então a violência contra a criança ou adolescente. Segundo a autora, podemos identificar se a criança ou adolescente é vítima da violência física quando, vermos se esta é bem cuidada ou não, pois a sua aparência física logo diz. Se vermos marcas e hematomas em partes do corpo que geralmente não são atingidos nas quedas, tais como: olhos, boca, regiões genitais, peito, etc., podemos suspeitar. Geralmente os agressores utilizam objetos para provocarem ferimentos, por exemplo: o local mais acometido pela violência física no corpo da criança e do adolescente é a pele. Tipos de lesão que incluem desde vermelhidão, equimoses ou hematomas até queimaduras de 3º grau. As marcas e hematomas no corpo são provocados por: fivela de cinto, escova de cabelo, fio elétrico, corda, chicote, barra de ferro, pedaço de pau, etc. Pequenas queimaduras circulares no rosto, nos braços, nas mãos, nas nádegas, na planta dos pés causadas por cigarro. Marcas de dentadas humanas adultas. Pode ocorrer também, envenenamento, desnutrição, queimaduras no formato de uma luva nas mãos ou no formato de uma bota nos pés ou marcas estranhas nas nádegas, indicando que a criança foi submersa ou obrigada a sentar-se em líquidos quentes. Queimaduras provocadas por líquidos quentes ou produtos químicos. As queimaduras 30 revelam em sua forma o tipo de objeto que as produziu: ferro elétrico, chapa de fogão, colher, faca, etc. Fraturas mal explicadas no nariz, rosto, braços, pernas, etc. Ferimentos causados por corda, fio ou corrente usados para amarrar braços, pés, pescoço, etc. Feridas em diferentes estágios de cicatrização que surgem em forma uniforme ou em grupos ocasionados por espancamentos constantes. As imagens dos objetos usados para causar violência encontram-se em (ANEXO I). De acordo com a ABRAPIA5, (1999): O local mais acometido pelos maus tratos no corpo da criança e do adolescente é a pele. Tipos de lesão incluem desde vermelhidão, esquimose ou hematomas até queimaduras de 3º grau. É comum haver marcas do instrumento utilizado para espancar criança ou adolescente: elas podem apresentar forma de vara, de fios, de cinto ou até mesmo da mão do agressor. As causas da violência física contra crianças e adolescentes, segundo a ABRAPIA (1999), CECOVI (2000) são variadas, mas citaremos algumas, como por exemplo: desemprego, problemas financeiros, miséria, baixa resistência ao estresse, problemas psicológicos e psiquiátricos, fanatismo religioso, abuso de drogas e/ou álcool, filhos não desejados, pais que quando criança foram vítimas de violência doméstica. Fazem parte do grupo de risco, crianças que nasceram de gravidez indesejada, recém-nascido, lactente ou deficiente físico, crianças nascidas de parto prematuro que ficam longe da mãe nos primeiros dias de vida, crianças adotadas apenas para atender as necessidades de seus pais e as que vivem em ambientes miseráveis ou em famílias desajustadas. Fotos cedidas pelo CECOVI – fotos de crianças que sofreram violência física em (ANEXO 2). 3.2 – VIOLÊNCIA SEXUAL Para Guerra (1998), o abuso sexual contra uma criança ou adolescente, consiste num dos atos mais vis e cruéis que o ser humano é capaz de praticar. A criança ou 5 ABRAPIA – Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e a Adolescência 31 adolescente, pela peculiar condição de estar em desenvolvimento, é indefeso e frágil por natureza. A violência sexual ou abuso sexual é quando o abuso de poder através do qual uma criança ou adolescente é usado para satisfação sexual de um adulto ou adolescentes mais velhos que a criança, sendo a mesma induzida ou forçada a atos ou práticas de cunho sexual, com ou sem violência física. Pode variar de atos em que não ocorre o contato sexual (voyeurismo, exibicionismo), em que o contato sexual, se dá sem penetração (intercurso anal ou genital). Inclui também, a participação de crianças em atividades de prostituição e pornografia. Atinge crianças de ambos os sexos e de todas as faixas etárias, provocando, além de graves repercussões psíquicas, a ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis e muitas vezes gravidez. Formas de abuso contra a criança ou adolescentes: carícias, manipulação dos órgãos genitais, masturbação, voyeurismo, exibicionismo, estupro, penetração anal e vaginal, prostituição infantil e pornografia. A violência sexual envolve atos hetero ou homossexuais entre o adulto e uma criança ou adolescente e tem por finalidade estimular sexualmente essa criança ou adolescente para obter estimulação sexual para si ou para outrem. Segundo Guerra (1998), o abusador sexual, ou seja, aquele que utiliza uma criança ou adolescente para sua satisfação sexual, é antes de tudo, um doente. O abuso sexual é freqüente e ocorre em todas as classes sociais, em todos os países do mundo. Abaixo, veremos algumas citações de autores sobre este fenômeno: uma situação em que uma criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, baseado numa relação de poder que pode incluir desde carícias, manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual, ‘voyeurismo’, pornografia e exibicionismo, até o ato sexual, com ou sem penetração, com ou sem violência.(ABRAPIA, 1999, p.7). 32 a falta de consentimento do menor na relação com o adulto. A vítima é forçada fisicamente ou coagida verbalmente a participar da relação, sem ter necessariamente capacidade emocional ou cognitiva para consentir ou julgar o que está acontecendo, pois o afeto do adulto é usado como isca para um relacionamento sexual, sem que o menor tenha a condição adequada de avaliar esse processo. (Guarderer, 1996, p. 163). o uso de uma criança como objeto de gratificação de necessidades ou desejos sexuais adultos. O incesto refere-se à exploração sexual de uma criança por outro membro da família. A definição legal de incesto é a coabitação entre pessoas aparentadas em um grau no qual o casamento seria proibido por “lei”. (Lewis,1995,p.1032; apud Cunha,2000, p. 9). Todo ato ou jogo sexual, numa relação heterossexual ou homossexual entre um ou mais adultos e uma criança menor de 18 anos, tendo por finalidade estimular sexualmente a criança ou utiliza-la para obter uma estimulação sexual sobre sua pessoa ou de outra pessoa. (Azevedo e Guerra, 2000) Caracteriza-se como abuso sexual qualquer contato ou interação (visual, verbal ou psicológica) entre uma criança ou adolescente e um adulto, na qual a criança ou adolescente esteja sendo usada para a estimulação sexual daquele que comete o ato, ou de outra pessoa. (Allender, 1999.p.80). Diante destas definições, sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, este tipo de violência/abuso é comumente denominado pela expressão “incesto6”. Segundo Kornifield (2000), o incesto, esta grave violência e violação dos direitos humanos da criança ou adolescente, pode ocorrer de forma intra-familiar, extra-familiar ou exploração sexual comercial. O incesto intra-familiar é aquele em que o abusador é uma pessoa ligada à vítima por laços de consangüinidade ou afinidade, como, pai, mãe, avós, tios, irmãos, padrasto, madrasta, cunhados, etc. O abuso sexual intra-familiar inicia-se geralmente muito cedo, quando a criança tem cerca de quatro, cinco anos de idade, e é um ato progressivo, com carinho e afagos, com ameaças, por exemplo: não conte nada à mamãe, você é a filha de que mais gosto, você é minha preferida, ou, não conte para ninguém, é um segredo nosso, ou, ainda, se falar para sua mãe, ela vai te castigar e botar você na rua. Com medo e remorso, mas 6 Incesto – união sexual ilícita entre parentes. 33 também com prazer, a criança vai aceitando a relação com o pai agressor, porque na maioria das vezes, o abuso sexual é praticado pelo pai biológico, contra a filha - e às vezes contra o filho. É uma situação patológica de toda a família e é progressiva, pois pode chegar, na adolescência, à penetração vaginal e à gravidez. Raramente é acompanhada de violência física, ou deixa marcas evidentes. Contudo, as conseqüências para a vida social e sexual da criança serão sérias. Freqüentemente, o abusador sexual de crianças e adolescentes é um pedófilo. A pedofilia é um distúrbio do desenvolvimento psicológico e sexual, que leva indivíduos, aparentemente normais, a buscarem de forma compulsiva e obsessiva o prazer sexual com crianças e adolescentes. As conseqüências do abuso sexual para crianças e adolescentes são graves, às vezes com repercussões para toda a vida. O pedófilo deve, portanto ser excluído do convívio social, indo para um local especializada, onde será submetido a tratamento. As vítimas devem ser apoiadas pela família e por profissionais especializados. O incesto extra-familiar ou incesto “polimorfo” é aquele em que o abusador pode ser qualquer pessoa que ocupe um papel significante na vida da criança, vindo assim a ganhar a confiança desta e, conseqüentemente, levar uma vantagem psico-emocional em sua vida. Podem ser amigos, vizinhos, religiosos, comerciantes do bairro, médicos, dentistas, professores, etc. O incesto geralmente não consiste de um ato isolado, podendo se estender por meses e até anos. Nem todas as pessoas reagem ao abuso sexual da mesma forma. Cada caso deve ser analisado individualmente. De uma maneira geral, o incesto pode destruir de forma violenta a personalidade da criança e do adolescente. A exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é uma forma de violência que se expressa pelo uso do corpo numa relação de poder e sexo, que beneficia alguém (na maioria dos casos um adulto) e visa à obtenção tanto de lucro quanto de prazer por pessoas maiores. A criança é tratada como objeto sexual e mercadoria. A exploração 34 comercial sexual de crianças e adolescentes acontecem através da prostituição infantil, da pornografia infantil, do tráfico de crianças e do turismo sexual. Segundo Langberg (2002), a violência sexual doméstica contra crianças e adolescentes, consiste em: “Todo ato de natureza erótica, com ou sem força, entre um adulto ou adolescente mais velho e uma criança ou adolescente, unidos por vínculos de consangüinidade, afinidade ou responsabilidade”. A violência sexual pode ocorrer com ou sem contato físico, onde as modalidades variam quanto ao grau de intensidade e danos. O abuso sexual com contato físico ocorre de três formas. A primeira - abuso sexual gravíssimo – podendo ocorrer através de relação genital (com ou sem violência), sexo anal (com ou sem violência), sexo oral (com ou sem violência). A segunda – contato sexual grave – podendo ocorrer o contato manual com os órgãos sexuais descobertos, com ou sem penetração de dedos (forçada ou não), contato com os seios desnudos (forçado ou não), simulação de relação sexual inter-femoral. E a terceira - contato sexual menos grave – podendo ocorrer com beijos eróticos (forçados ou não), toque sexualizado nas nádegas, coxas, pernas ou genitais e seios cobertos. O abuso sexual sem contato físico, pode ocorrer de duas formas. A forma verbalizada, que se dá através de sedução sutil, descrição de práticas sexuais, uso contínuo de linguagem sexual, uso de termos sexuais codificados que só a vítima discerne o significado(palavras de duplo sentido) e a forma visualizada, ou seja, colocar a vítima em contato com materiais de cunho pornográfico(objetos eróticos, revistas ou filmes), deixar a vítima presenciar relações sexuais, exibição sensual dos órgãos genitais, espionar ou olhar de forma ostensiva partes do corpo da vítima causando-lhe constrangimento. Segundo Langberg (2002), a violência sexual pode se apresentar sob diversas formas, por exemplo: 35 Voyeurismo – é definido como a necessidade que o abusador tem de ficar apenas olhando a criança ou adolescente “nu”. Exibicionismo – é definido como a necessidade irresistível que alguns indivíduos sentem de expor suas partes sexuais a outrem. Todo exibicionista precisa de pelo menos um espectador, sem o mesmo, não se satisfaz sexualmente. Nessa modalidade, um adulto ou um adolescente mais velho abre suas vestes ante a criança e exibe seu pênis (ou, no caso de agressoras, os seios, por exemplo). A intenção, neste caso, é chocar a vítima. Em parte, o exibicionista é motivado pela reação da pessoa que o assiste. Estupro – é o crime que consiste em constranger mulher, de qualquer idade ou condição, à conjunção carnal, por meio de violência ou grave ameaça. Desta forma, o estupro é a situação em que ocorre penetração vaginal com uso da violência ou grave ameaça, sendo que, em crianças e adolescentes de 14 anos a violência é presumida. O termo é usado somente quando a vítima é do sexo feminino e o agressor sexual do sexo masculino. Ele pode ser realizado por uma pessoa ou por um grupo de pessoas, podendo ainda ser ou não a primeira relação sexual da vítima. Atentado violento ao pudor – Ocorre quando alguém é constrangido a praticar atos libidinosos, sem penetração, utilizando violência ou grave ameaça. Pornografia – Ocorre através da arte pornográfica (fotografias), isto é, fotografias que são mostradas às crianças, adolescentes e/ou praticadas com elas. Para Vaz (1997), os métodos usados para obrigar a vítima a ceder diante da violência sexual variam no diz que respeito à forma e podemos classificar em: sadismo, ameaças e indução da vontade. Sadismo – que significa “perversão dos que, para atingirem o prazer sexual, praticam atos de crueldade.” Varia em grau, indo desde uma simples fantasia até uma flagelação bárbara. Pode se manifestar através de duas modalidades distintas: a modalidade física onde a intenção é 36 causar dor física através de tortura ou flagelação e a modalidade verbal onde a intenção é provocar dor emocional através de insultos e humilhações. Ameaças - apesar de não usar a violência física, o método de ameaçar a vítima mostra-se extremamente eficaz e cruel. A criança é crédula por natureza e leva a sério as palavras dos adultos. O abuso sexual mediante ameaça causa grande sofrimento psicológico. Geralmente as ameaças têm como alvo a própria pessoa da vítima ou de seus entes queridos. Indução da vontade – a indução da vontade, geralmente é feita através de presente, promessas e concessões de privilégios. Quanto mais hábil for o abusador, mais ele usará esse método a fim de enganar a criança ou adolescente. A culpabilidade deverá sempre recair sobre a pessoa do adulto que tem o dever e o poder de proteger a mesma. Isso se justifica plenamente devido a peculiar condição de ser humano, ainda em desenvolvimento atribuída as crianças e adolescentes, não tendo, portanto, ainda maturidade, nem estrutura psicológica, o suficiente para se defenderem das investidas sedutoras de um ser adulto e já plenamente formado. Segundo Vaz (1997), as principais características do abuso sexual doméstico, contra crianças e adolescentes são: presença de abuso de poder onde o mais forte subjuga o mais fraco a fim de satisfazer seus desejos e vontades; existência do elo “confiança e responsabilidade” unindo a criança à pessoa do abusador; sendo a traição da confiança um dos aspectos mais marcantes desse tipo de violência. A ocorrência da violência psicológica, associada ou não a violência física e o silêncio imposto à vítima. Segundo Azevedo e Guerra (2000), os agressores de abuso sexual em sua grande maioria são bastante conhecidos das crianças. Alguns estudos mostram que apenas 25% dos abusadores são estranhos para as crianças e sua família. A criança e o abusador são geralmente do mesmo grupo étnico e nível sócio-econômico. 37 Destacamos alguns motivos para que ocorra a ausência das notificações: o silêncio da família motivado pela presença do envolvimento de familiares figurando no papel do agressor, o silêncio da vítima motivado pelo medo de sua segurança pessoal, reprovação por parte de terceiros, ficar separada dos parentes, do agressor fazer mal às pessoas amadas e de ninguém acreditar na história. Segundo Vaz (1997), o abuso sexual se desenvolve através de seis fases específicas, podendo ocorrer concomitantemente ou de forma separada, não existindo padrão fixo a ser observado. 1ª Fase – Fase do envolvimento e desenvolvimento da intimidade – O abusador inicia o assédio à criança através da estratégia de sedução-prêmio, possivelmente apresentando atividades como se fossem jogos ou algo “especial e divertido”. A essência da primeira fase é a oferta de um relacionamento de intimidade, de privilégios especiais e recompensas. Essa fase pode ter a duração de minutos, arrastar-se por meses, por anos até a consumação física do abuso sexual, sendo que, embora raramente, esse nunca acontece. 2ª Fase – Fase da interação sexual e toque físico (sem contato físico) – Nesta fase a interação sexual é iniciada através do contato visual e verbal, podendo existir a presença de toque. São toques leves e que, na maioria das vezes, a criança sente dificuldade em diferenciar se os mesmos são bons ou abusadores. Por exemplo: abraços que duram mais do que o comum, carícias no cabelo, etc. Entretanto, esses toques são progressivos e avançam gradualmente para outras formas de contato sexualizado. 3ª Fase – Fase do abuso sexual - Nesta fase, estão presentes as formas de contato sexuais físicos, que poderão variar de acordo com o nível, podendo assumir a forma gravíssima (quando a relação genital, oral ou anal, seja forçada ou não), grave(quando há contato com a genitália descoberta, incluindo toques manuais, contatos com o seio descoberto ou a simulação de uma relação sexual, seja forçada ou não) e menos grave(existem nessa 38 modalidade, toques com conotação sexual nas nádegas, coxas, pernas. Podem haver ainda toques nos genitais ou nos seios cobertos, seja forçada ou não). 4ª Fase – Fase do sigilo ou manutenção do abuso – Após a prática do abuso sexual, o agressor utiliza toda sua capacidade de persuasão e intimidação a fim de obter o silêncio da criança, possibilitando, na maioria dos casos, a repetição do comportamento incestuoso. Exemplos de ameaças e intimidações: Ameaças de irritação a uma terceira pessoa: “Se você contar a sua mamãe ela ficará muito zangada”; Ameaça de separação: “Se você contar para alguém, vão te mandar embora”; Ameaça de auto-prejuízo: Se você contar para alguém, eu me mato.”; Ameaça de fazer mal a outra pessoa: Se você contar para alguém, eu machuco sua irmã”: Ameaça contra a criança:” Se você contar para alguém, eu te machuco ou te mato.”. 5ª Fase – Fase da revelação – A revelação acontece de forma acidental ou propositadamente. A revelação acidental acontece através de: flagrante da prática incestuosa por uma terceira pessoa, observação na mudança de comportamento da criança, presença de danos físicos sofridos pela criança, como por exemplo, sangramento anal/vaginal, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, etc. Na revelação proposital, um dos participantes envolvidos (geralmente a criança) decide contar a alguém o “segredo”. 6ª Fase – Fase da supressão – Na maioria das vezes os familiares reagem com a tentativa de esconder a prática incestuosa. A criança geralmente é pressionada a mentir sobre os fatos e retirar a acusação. O agressor, quase sempre, é acobertado e protegido pelo muro de silêncio erguido pelos parentes. Tal prática se fortalece devido ao tratamento dispensado em nosso sistema penitenciário aos abusadores sexuais, que são desumanos e estão longe de recuperálos. Com isto, os agressores, muitas vezes, ficam anos a fio privados em sua liberdade, sem, entretanto, um acompanhamento terapêutico que os reabilitem e são devolvidos para o convívio social pior do que quando foram apenados. 39 Segundo Allender (1999), a dinâmica do abuso sexual não segue obrigatoriamente uma seqüência pré-definida. O fenômeno pode ser típico (quando as fases ocorrem em ordem crescente, ou seja, fase 1, depois fase 2 e assim sucessivamente) ou atípico (quando as fases ocorrem de forma desordenada). Segundo Azevedo e Guerra (1994), o comportamento do agressor no incesto comum é muito possessivo, impedindo a criança ou adolescente de ter contatos sociais e possivelmente, se este enfrenta dificuldades conjugais, acusa a criança ou adolescente de promiscuidade ou sedução sexual, crê que o contato sexual é a forma de amor familiarmente consentido, quando é descoberto aponta outros agressores, usa de autoridade, de manipulação ou superioridade física para subjugar a criança, abusa de drogas e/ou álcool e são pessoas aparentemente normais capazes de serem bem sucedidas profissionalmente e gozam de boa reputação no meio social. A idéia padrão de família é pervertida e não conseguem manter um relacionamento saudável com o cônjuge e filhos, possuem ausência de maturidade e estrutura emocional para construir e alimentar relacionamentos saudáveis. Segundo Marshall (1990), o agressor no incesto comum não são pessoas confiáveis. Eles podem transgredir normas sociais sem se sentirem culpados. Temem ser descobertos, não por se envergonharem de seus atos, mas sim por temer sofrer o castigo decorrente de seus crimes. Os pais incestuosos, com raras exceções, são homens bem integrados socialmente e exibem uma fachada de respeitabilidade. Por isso mesmo é difícil enquadrà-los nas classificações psiquiátricas tradicionais. A estrutura psiquiátrica desses homens parece estar a meio caminho entre paranóia, a perversão e a psicopatia com clivagens significativas. Violência como forma de resolver conflitos, insensibilidade quanto aos interesses e preocupações dos outros e uma tendência a violar normas com um mínimo de sentimento de culpa são algumas das características mais freqüentes constatadas no perfil de pais incestuosos. A tomada de consciência da real gravidade de seus atos geralmente lhe é interditada, quase sempre por força da completa obliteração do traumatismo (físico ou sexual) por ele próprio sofrido na infância e/ou adolescência. (Azevedo e Guerra, 1994.p.48). 40 O agressor não conseguirá parar sozinho o abuso, pois precisa de um tratamento especializado, uma vez que não tem estrutura psicológica para cumprir suas promessas. Segundo Azevedo e Guerra (1994), o comportamento do agressor no incesto polimorfo, a pessoa tem a aparência normal, geralmente amável, gosta de ficar com a criança longe da vigilância de outros adultos, usa de manipulação, presentes, privilégios ou violência para conseguir o que quer, possui medo de relacionamento e intimidade com outros adultos, usa do efeito surpresa para efetuar o abuso, pode ser dependente de drogas e/ou álcool, pode ser doente mental ou ter problemas emocionais graves. Segundo Langberg (2002) no perfil da família incestogênica, existem cinco tipos de famílias abusivas: 1. Pai ou padrasto dominador, machista, Mãe quieta, passiva, medrosa, também autoritário, geralmente alcoólatra. vítima. 2. Mãe dominadora, cujos filhos são Pai passivo e com baixa auto-estima. obrigados a satisfazer suas vontades e caprichos. 3. Família desorganizada. Ambos os pais viciados. Filhos cuidam de si mesmos. 4. Pai dominador e machista Mãe egoísta, narcisista e manipuladora. As vezes também, abusa dos próprios filhos. 5. Pai ausente Mãe-dominante que perde o controle e desorganiza a família. Segundo o autor, nas estruturas familiares incestogênicas, estão presentes algumas características, são elas: 1 - Padrões de dominação e submissão - A estrutura familiar mais freqüente é a patriarcal rígida, onde o pai mantém um controle arbitrário sobre os membros da família usando força e coerção. Alguns desses pais incestuosos, cujo perfil é autoritário e dominador, costumam agir com violência física a fim de manter o controle despótico sobre o núcleo familiar. Entretanto, é importante ressaltar, que nem todos os pais incestuosos se valem da violência física, alguns preferem agir usando a coação ou induzimento da vontade da vítima. Quanto maior for o grau 41 de maturidade e experiência do abusador, menor será a violência física utilizada. O padrão oposto, no qual a mãe é dominadora e o pai passivo, pode vir a acontecer também. Nesses casos, o pai, cuja auto-estima é muito baixa, este se sente poderoso no relacionamento incestuoso com os filhos. Existe um desequilíbrio significativo de poder na maioria dos relacionamentos existentes dentro das famílias incestuosas. 2 - Problemas sexuais - O relacionamento conjugal nas famílias incestogênicas é muito problemático do ponto de vista sexual. Geralmente a esposa não é sexualmente ativa para seu cônjuge devido a preconceitos na área sexual, doenças físicas ou ginecológicas, depressão, etc. 3 - Isolamento Social - A maioria das famílias incestogênicas é extremamente fechada, sendo os estranhos vistos com desconfiança e suspeita. Logo, o isolamento social é bem pronunciado. Finkelhor (1979), descreveu um tipo de pai incestuoso “endogâmico”, incapaz de estabelecer relacionamentos sociais gratificantes fora da família. Quando sexualmente frustrados, ao invés de buscar relacionamentos extraconjugais, estes pais buscam as filhas. 4 - Ausência de limites - Na família incestuosa, os limites pessoais e inter-relacionais não são respeitados. Ou seja, os direitos individuais como privacidade ao uso do banheiro, trocar de roupa longe da vista de observadores, manter sigilo na correspondência pessoal, e conversas ao telefone são sistematicamente ignorados. A vítima é cercada no que lhe é mais íntimo, e precioso, que é seu próprio corpo, pois é objeto de constantes violências físicas e sexuais. 5 - Confusão de papéis - A confusão de papéis é uma característica sempre presente nas famílias incestuosas. Geralmente a filha assume as funções da mãe, ou o filho assume a responsabilidade sobre os pais, ou os pais passam a cuidar de seus próprios interesses deixando os filhos abandonados a sua própria sorte. Infelizmente, os relacionamentos incestuosos podem ser a única fonte de intimidade e afeto para a criança. Em geral, o pai trata 42 da sua filha como esposa substituta, esperando que ela lhe proporcione gratificação sexual e apoio emocional, dependendo dela para desempenhar as tarefas de manutenção doméstica. 6 - Uso de drogas ilícitas e abuso de álcool - O uso de drogas ilícitas e o abuso de álcool têm figurado seguidamente como fator incentivador da prática incestuosa. Pesquisas revelam uma elevada incidência de uso indevido de drogas e alcoolismo em pais incestuosos. 7 – Negação - A negação é o principal mecanismo de defesa utilizado pela família incestogênica. Ela pode variar de acordo com os atores envolvidos. O pai considera o incesto como “educação sexual” para seus filhos. Quando o abusador é o pai ou a mãe na maioria dos casos ficamos sabendo. Entretanto a mãe é incapaz de reconhecer e processar os óbvios sinais do incesto pelas seguintes razões: medo que sente da violência do marido, receio de causar um escândalo na comunidade onde está inserida, medo de perder seus filhos, de não ser capaz de proteger sua criança que está sendo vitimizada, por ter também sido vitimizada em sua infância e não ter tido apoio, quando necessitou da dependência financeira do marido para sua sobrevivência pessoal e de sua prole e por recear colocar em risco seu relacionamento amoroso com o cônjuge. A criança utiliza a negação para diversos propósitos: como proteção contra a vergonha e culpa, para obscurecer a perversão do pai e preservar a família intacta. A persistência da negação da criança sobre o abuso sexual previsivelmente complica sua avaliação e tratamento. Como exemplo, citamos um caso de negação do agressor, informado por uma criança atendida pelo CECOVI (2000): Quando ele me viu gritar, deu-me uma surra e me ameaçou, dizendo que, se eu contasse a minha mãe o que tinha visto, ele iria fazer o mesmo comigo. Mandou-me então parar de chorar, porque ele não tinha feito nada demais. Disse que estava apenas ensinando a minha irmã o que mais tarde também iria me ensinar. (Fabiana de Andrade, 2000). Até aqui, conhecemos o perfil do agressor de incesto comum e polimorfo, o perfil da família incestogênia e agora vamos conhecer o perfil da vítima de abuso sexual. Segundo 43 Saffiotti (1995), quando o abuso sexual se inicia na primeira infância, a criança pode pensar que aquilo que está acontecendo é uma forma de carinho, entretanto, mesmo assim, trará seqüelas dentro de si, ao perceber que foi usada e traída em sua confiança. O grau de traumatização pode oscilar de acordo com os seguintes fatores: a idade que a vítima tinha quando se iniciou o abuso, a intensidade de violência empregada quer seja sadismo, ameaça ou indução da vontade, o grau de intimidade e parentesco entre a vítima e o agressor e a duração do abuso. Existem sinais que nos ajudam a identificar a criança ou adolescente vitimizados, pois ocorre uma mudança repentina de comportamento e isto pode indicar uma situação de violência sexual. Os sinais emocionais, ao contrário dos físicos, são mais difíceis de serem identificados, por isso é preciso estar atento aos indicadores do comportamento. Os indicadores físicos de possível abuso sexual, em criança ou adolescentes são: roupas rasgadas ou manchadas de sangue, erupções na pele, vômitos e dores de cabeça sem qualquer explicação médica, dificuldades em caminhar. Apresentar nas áreas genitais ou anais, dor, edema, lesão ou sangramento, infecção urinária, secreções vaginais ou penianas, doenças sexualmente transmissíveis e auto-flagelação. Mas, mesmo assim, os sinais descritos, são insuficientes para sozinhos indicarem a existência de abuso sexual. Os indicadores de mudança de comportamento da criança ou adolescente vitimizados são: o comportamento passa a ser agressivo, raivoso, com alternâncias de humor, comportamento sexual inadequado para a sua idade: vergonha excessiva de mudar roupa na frente de outras pessoas, desagrado ao ser deixada sozinha (o) em algum lugar ou com alguém, regressão a um comportamento muito infantil, tal como fazer as necessidades fisiológicas na roupa, chupar dedo, choro excessivo. Alega ter sido molestada (o) sexualmente por parentes ou responsáveis, apresenta idéias e tentativas de suicídio, depressões crônicas, psicoses7, fugas constantes de casa e medo 7 Psicoses – múltiplas 44 de retornar, faltas freqüentes à escola, distúrbios no sono, medo do escuro, suores, gritos ou agitação noturna, distúrbio no aprendizado, masturbação visível e contínua, brincadeiras sexuais agressivas e conhecimento sexual inapropriado para idade, são arredios em demasia com os adultos, especialmente os que lhe são próximos, mantêm segredo e brincadeiras isoladas com um adulto. As suspeitas desses sinais aumentam quando vários sinais ocorrem juntos ou parecem inapropriados para a idade. Segundo Saffiotti (1995), a vítima de abuso sexual pode vir a reproduzir, na sua próxima geração, o abuso que sofreu em sua infância, alimentando dessa forma o ciclo de violência. Entretanto, o tipo de abuso sofrido na infância, não será obrigatoriamente o mesmo tipo de abuso reproduzido na fase adulta. A vítima, ao tornar-se adulta, poderá realizar o abuso das seguintes formas: a vítima abusa de seus filhos diretamente, a vítima casa com um abusador sexual, a vítima reproduz o mesmo comportamento disfuncional e neurótico em seus relacionamentos, principalmente com os familiares. Existem fatores agravantes do abuso sexual contra crianças e adolescentes, que são: a prática abusiva freqüente e de longa duração, a presença de sadismo e violência na prática incestuosa, a diferença acentuada da idade entre o abusador e a criança, o grande grau de intimidade e parentesco entre o agressor e a vítima, abuso sexual envolvendo contato físico e qualquer tipo de penetração, desamparo e desprezo demonstrado à criança quando o abusador é revelado e falha no atendimento institucional, provocando a revitimação da criança. Segundo Langberg (2002), o abuso sexual sofrido na infância geralmente deixa marcas profundas em suas vítimas e descreve feridas que se manifestam de formas interligadas nos planos: físico, emocional e espiritual. No plano físico – as vítimas são sobreviventes com tendências de autodestruição, isto é; a vítima busca através do consumo exagerado de drogas, álcool, comida, sexo e 45 esbanjamento de dinheiro compensar ou diminuir o medo e a ansiedade. Tem idéias e/ou tentativa de suicídio. As vítimas que foram violentadas muitas vezes em tenra idade, têm a prática de auto-mutilação e esta prática consiste em atos externos contra o próprio corpo, tais como: queimar-se, cortar-se, flagelar-se, morder-se, arranhar-se, raiva, baixa auto-estima, etc. Esse comportamento destrutivo trás consigo humilhação e tem suas raízes no sentimento profundo de auto-rejeição. A dor tem o poder de aliviar o medo e angústia da vítima, que se considera um ser repugnante e merecedor de punição. Como conseqüência do abuso, tem problemas evidenciados na área sexual e são eles: o prazer sexual é obtido através da prática de atos e cenas bizarras, tem vício por sexo manifesto através da necessidade de múltiplos parceiros, aversão à prática do ato sexual, sadomasoquismo, prática compulsiva da masturbação, prostituição, mudanças e conflitos relacionados à orientação sexual, homossexualismo ou desejo sexual por crianças, quando se tornam adultos. Esses comportamentos relacionados à área sexual são usados como válvulas de escape quando a ansiedade e a angústia aumentam. O sexo é praticado de forma compulsiva na tentativa de acalmar o turbilhão de emoções e frustrações que teimam em vir à tona, ameaçando explodir como um vulcão. No plano emocional – Os sobreviventes do abuso sexual possuem sentimentos de vergonha e profunda rejeição por si mesmo. Muitos sobreviventes se culpam pelo abuso, acham que o mesmo ocorreu devido a maldade presente em seus corações. Os sobreviventes também possuem medo de investir em relacionamentos, isto é; temem se envolver e criar vínculos duradouros. Confiar nas pessoas é algo extremamente difícil já que experimentaram a dor da traição por parte daqueles que mais amava. Logo o medo e a desconfiança estão sempre presentes em seus corações. Segundo Langberg (2002) tais sentimentos produzem uma sensação de isolamento, transtorno da identidade. Alguns tentam enfrentar seus temores 46 buscando desenvolver relacionamentos onde desempenhem papéis controladores, já outros adotam a postura submissa e dependente. No plano espiritual – O abusador distorce a figura de Deus. O abuso sexual de uma criança produz seqüelas profundas em sua vida, principalmente na área espiritual. O sofrimento que elas carregam é imenso e acredita-se que, em grande parte, o processo de cura está na possibilidade delas descobrirem que são profundamente amadas por Deus. Entretanto, para um sobrevivente de abuso sexual, acreditar no amor divino é algo extremamente difícil, isso porque, geralmente nutrem dentro de si uma imagem distorcida do caráter de Deus. O relato de uma vítima demonstra este sentimento: Às vezes até mesmo nos domingos quando estávamos na igreja, ele me levava até a sala da caldeira e me violentava ali. Ele me dizia que Deus lhe ordenou que fizesse isso, que era correto. Que era isso o que eu precisava para aprender a ser uma verdadeira mulher. Ele me disse que Deus lhe ordenou que me ensinasse sobre essas coisas. À noite eu chorava no travesseiro. Clamei a Deus para que parasse com tudo. Mas o abuso nunca parou. Perguntei: Quem era Deus? Com certeza não era um Deus de amor, e ele certamente não me amava. Ele amava mais meu papai, é o que parecia. Papai sempre conseguia o que queria. (Langberg, 2002). Segundo Langberg (2002), as conseqüências do abuso sexual em crianças e adolescentes podem fazer com que os mesmos, tenham uma visão muito diferente do mundo, ao contrário daquelas crianças e adolescentes que cresceram em um ambiente familiar, amoroso e protetor. Com isto os meninos e meninas vítimas, sentem-se traídos e tem dificuldade em confiar nas pessoas ao seu redor e podem ter graves problemas de relacionamento social e sexual quando adultos. A criança vítima de abuso sexual não esquece a experiência. Ela pode até não lembrar do ocorrido, mas trás a marca do drama vivenciado. O primeiro passo para combater o abuso sexual é a sociedade ser informada sobre a sua freqüência, ensinar as crianças precocemente sobre o seu corpo e conscientizar os pais 47 sobre a importância de seu papel na construção da personalidade de seus filhos. Foto cedida pelo CECOVI – foto de criança que sofreu violência sexual em (ANEXO 3). 3.3 – VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA A violência psicológica é uma forma sutil e perversa de causar dor na alma humana. Por não deixar marcas físicas, ela tende geralmente a ser ignorada, entretanto os estragos produzidos naqueles que a sofrem são de difícil cicatrização. A criança, pela sua peculiar condição de ser humano em desenvolvimento, é completamente indefesa a esse tipo de ataque. A rejeição, o isolamento, o medo, as humilhações, mutilam psicologicamente seu ser indefeso e causam feridas terríveis que irão sangrar até a vida adulta. Segundo Guerra (1998), a violência ou abuso psicológico ocorre quando constantemente o adulto faz ameaças de abandono, rejeição, discriminação, desrespeito, cobranças exageradas, punições humilhantes, a utilização da criança como objeto para atender as suas necessidades psicológicas, depreciação de suas características, insultos, tudo isto depreciando a criança e bloqueando seus esforços de auto-aceitação, causando-lhe grande sofrimento mental. O abuso psicológico consiste também na perturbação do desenvolvimento afetivo da criança com prejuízo da sua auto-estima e auto-confiança. É também designada de tortura psicológica. A violência psicológica, por ser uma forma subjetiva de violência, torna-se difícil de detectar a não ser através das manifestações mais graves e continuadas de rejeição e negligência. Por outro lado, encontra-se presente em todas as formas de violência, uma vez que qualquer dano físico causado a uma criança pode resultar, e geralmente, o faz, em danos psicológicos. Com isto, todas essas formas de maus-tratos psicológicos causam danos ao desenvolvimento e crescimento biopsicossocial da criança e do adolescente, podendo provocar efeitos muito deletérios na formação de sua personalidade e na sua forma de encarar 48 a vida. Esse tipo de violência é um dos mais difíceis de ser identificado, por ser menos visível que a física, sendo responsável pela manutenção de uma relação de opressão e de total desqualificação da criança ou adolescente, enquanto pessoa, anulando a sua auto-estima e capacidade de reagir ou mudar a relação. Segundo Guerra (1998), criar filhos é uma missão singular e maravilhosa. Entretanto, nem todas as pessoas estão aptas para exercer essa tarefa. A paternidade e maternidade exigem compromisso, responsabilidade, paciência, tolerância, tempo, maturidade e acima de tudo amor. Nada é mais gratificante do que ajudarmos uma criança a se desenvolver de forma saudável e completa. Cremos que a maioria dos pais quer verdadeiramente que seus filhos sejam felizes, entretanto muitos desconhecem o processo de como tornar isso possível. Às vezes as experiências negativas da sua própria infância são reproduzidas na pessoa daqueles que mais amam, ou seja, na própria prole. A criança que sofre violência psicológica apresenta sentimentos que são decorrentes de uma baixa auto-estima, de uma falta de ânimo para realizar tarefas e encarar desafios. Possui ódio por si mesmo, tentativa de suicídio, falta de confiança em seu desempenho pessoal em todas as áreas da vida e estão em estado de permanente depressão. Quando as crianças sofrem este tipo de agressão psicológica, acabam ficando com feridas irreparáveis, culminando na vida adulta. Às vezes essas experiências negativas da infância são reproduzidas mais tarde inconscientemente com os seus próprios filhos. Segundo Cunha (2000): Todo ser humano sente desejo de ser amado, notado e valorizado. A criança tem necessidade e fome de amor. Ela mais do que ninguém, precisa ter sua auto-estima alimentada, pois sua personalidade ainda está em processo de formação. E a criança pela sua peculiar condição de ser humano em desenvolvimento, é completamente indefesa a esse tipo de ataque. (Cunha, 2000, p. 54). A criança e o adolescente não podem ser tratados apenas quanto a seu futuro, mas com relação ao seu presente, porque é hoje que eles estão em formação física e psicológica. E 49 é por isso que eles precisam de proteção e amor para que possam crescer saudáveis e confiantes na humanidade e em seu futuro como cidadãos. 3.4 – MAUS-TRATOS: NEGLIGÊNCIA E ABANDONO Segundo Guerra (1998), a negligência caracteriza-se por atos de omissão dos pais ou dos responsáveis para com uma criança em atender suas necessidades básicas para o seu desenvolvimento, podendo resultar em danos físicos, emocionais, psicológicos ou mesmo na morte da criança. A negligência física ocorre quando a criança não é adequadamente vestida, alimentada ou não se providenciam os cuidados higiênicos mínimos, inclusive com relação à obediência ao calendário de vacinação e à segurança. Por exemplo: uma criança deixada só, em casa, fica em situação de risco, podendo ingerir medicamentos, água sanitária, tomar choques elétricos, queimar-se no fogão, cortar-se ou até cair de uma janela. Enquanto que, na negligência emocional a criança não recebe atenção, carinho, proteção ou outros estímulos necessários ao desenvolvimento de um indivíduo. Para Deslandes (1994), os maus-tratos contra crianças e adolescentes são ações, omissões ou tratamento negligente, não acidental, que privam uma pessoa menor de 18 anos de seus direitos e bem estar, que colocam em perigo ou interferem em seu adequado desenvolvimento físico, psíquico, moral ou social e cujos autores podem ser pai, mãe, irmãos, pessoas de instituições ou a própria sociedade. Com isto, acidentes, por definição, são situações casuais, eventuais, imprevisíveis. Traumas com graves conseqüências ocorrem freqüentemente e são considerados acidentais. Na realidade, na maioria das vezes, se a situação fosse investigada, caracterizaria negligência dos próprios pais. 50 Para Guerra (1998), é responsabilidade dos pais ou responsáveis pela criança e pelo adolescente prover as necessidades básicas para seu desenvolvimento físico, emocional, psicológico e social. A negligência representa a falta ou omissão dos pais ou responsáveis em prover as satisfações físicas e emocionais dos filhos, desde que a falha não seja mero resultado das condições de vida que estão fora do seu domínio. Bringiotti (2000) postula que as definições sobre maus tratos infantis devem englobar tanto aspectos teóricos, como uma definição operacional, com vistas a facilitar a identificação do fenômeno. A autora seleciona a seguinte definição de maus-tratos infantis: Qualquer dano físico ou psicológico não acidental contra uma criança menor de dezesseis ou dezoito anos – segundo o regime de cada país – praticado por seus pais ou cuidadores e que ocorre como resultado de ações físicas, sexuais ou emocionais de omissão e que ameaçam o desenvolvimento normal tanto físico quanto psicológico da criança. (Fuster e Ochoa, 1991, p. 35 apud Bringiotti, 2000). Para o autor, o abandono é considerado uma forma extrema de negligência, mas é classificado por dois tipos: parcial ou total. O abandono parcial trata da ausência temporária dos pais ou responsáveis que expõe a criança ou adolescente a situações de risco. O abandono total, é quando há afastamento do grupo familiar no qual as crianças e adolescentes ficam sem moradia e qualquer forma de atenção por parte da família, colocando-as em situação de risco. Segundo Guerra (1998), existem alguns fatores associados à negligência, tais como: o isolamento dos pais da comunidade, dificuldade dos pais quanto à utilização de uma rede de apóio formal e informal, dependência química, graves problemas de saúde física e mental dos pais, violência doméstica na infância dos pais, troca constante de parceiros, desconhecimento dos pais quanto às necessidades infantis e seus estágios de desenvolvimento, problema de personalidade dos pais: apatia, impulsividade, stress, e estado de miserabilidade da família. 51 As modalidades de negligência ocorrem por negligência médica, dentária, higiênica, alimentar e no vestuário. A negligência é caracterizada em dois níveis: a negligência severa e a negligência moderada. Para a autora, podemos dizer que, a negligência severa é aquela onde nas famílias existe o caos em todos os setores: econômico, social, familiar, emocional. Não há preparação de refeições, as crianças ficam abandonadas à própria sorte, não há roupas limpas, lixo se espalha no chão da casa, há fezes e urina pela casa, não há rotinas para as crianças, as crianças são deixadas a sós por muitos dias e geralmente, ocorre o uso de drogas assim como quadros psiquiátricos complicados, como retardo mental dos pais, entre outros. Estas crianças podem chegar ao serviço médico apresentando desnutrição grave ou vítimas de acidentes como queimaduras, fraturas, etc., fruto da indiferença e omissão dos seus pais. Na negligência moderada, as famílias partilham de muitas características e normas de comportamento das famílias severamente negligentes, mas num grau menor. Em alguns aspectos, estas famílias podem apresentar maior organização. Por exemplo, as crianças talvez freqüentem a escola regularmente e as refeições talvez sejam preparadas. As principais características da negligência moderada são: a existência de alimentos, a casa não é suja, há algumas roupas limpas, as crianças são deixadas por algumas horas, os pais ignoram os resfriados crônicos, mas levam os filhos ao hospital em casos de emergência médica. Segundo Guerra (1998), o perfil da família negligente é que, a interação dos pais com seus filhos são muito precários e quando ocorre se faz através de voz em alto tom (gritos), nas situações em que o comportamento das crianças é irritante. O contato através da atenção, de conversas e brincadeiras é inexistente. Estas famílias esquivam-se de problemas e transmitem um modelo de fracasso aos filhos, gerando comportamento de dependência. As crianças mais velhas freqüentemente assumem os cuidados dos filhos menores. As crianças 52 destas famílias buscam atenção e afeição de pessoas estranhas, sem a reserva normal de uma criança mais segura. Finalmente, o perfil da criança vítima da negligência e do abandono é ser uma criança carente, triste, sedenta por amor e cuidados, tímida, sem esperança, sem sonhos. De uma maneira geral, diante de todas as modalidades de violência abordada, podemos identificar uma criança ou adolescente que sofre de violência doméstica, por apresentar algumas das características tais como: aparência descuidada e suja, desnutrição, hiperatividade, que tenham doenças não tratadas, que sofrem de distúrbios no sono8, que tenham distúrbios na alimentação9, que tenham problemas de aprendizagem, tem dificuldade de concentração, tem enurese noturna10, tem comportamento extremamente tenso, em estado de alerta, que tenham comportamento muito agressivo ou apático, que procuram se afastar ou se isolar, choro sem causa aparente, regressão a um comportamento muito infantil, tem poucos amigos, tristeza, abatimento profundo, auto-flagelação, excessiva preocupação em agradar, comportamento sexualmente explícito11, masturbação visível e contínua, brincadeiras sexuais agressivas, relutância em voltar ou fuga de casa, não freqüentar a escola (ter constantes faltas), não participar das atividades escolares, não confiar em adultos, especialmente os que lhe são próximos, relacionamentos entre crianças e adultos com ares de segredo e exclusão dos demais, idéias e tentativas de suicídio. Diante das informações obtidas sobre os tipos de violências perpetradas contra crianças e adolescentes, no próximo capítulo abordaremos a resiliência, que é a capacidade que todo o indivíduo possui para superar as adversidades e com isto ganhar forças para viver novas experiências, saindo da dor e tendo a esperança de viver dias melhores. 8 Distúrbio do sono – sonolência, pesadelos; Distúrbio do apetite – perda ou excesso de apetite; 10 Enurese noturna – urinar na cama. 11 Comportamento sexualmente explícito – mostrar conhecimento inapropriado à sua idade; 9 53 CAPÍTULO IV – RESILIÊNCIA... DA DOR À ESPERANÇA Segundo Yunes & Szymanski (2001), a resiliência12 é um fenômeno psicológico construído, e não é tarefa do sujeito sozinho. As pessoas resilientes contam com a presença de figuras significativas, com as quais estabelecem vínculos, seja de apoio, seja de admiração. Tais experiências de apego permitem o desenvolvimento da auto-estima e autoconfiança. A humanidade sempre passou por tragédias que marcaram suas vidas, tais como a morte dos pais ou de filhos, perda da casa por incêndio ou deslizamentos, guerras, acidentes, separação dos pais ou do cônjuge, abuso sexual, estupro, dentre outros. Muitas pessoas que passaram por algumas destas situações conseguiram refazer sua vida e seguir em frente ao invés de ficarem se lamentando inertes, tornarem-se usuários de drogas e álcool ou mesmo chegarem ao extremo de cometerem suicídio. Denominamos a estas pessoas de resilientes. Para os autores, a noção de resiliência foi inaugurada pelas ciências exatas, a física e a engenharia, que a definiram como a energia de deformação máxima que um material é capaz de armazenar sem sofrer alterações permanentes. Quando adaptado para as ciências humanas e da saúde, essa característica deve ser sempre relativizada e entendida dentro de um conjunto amplo de fatores intrínsecos e extrínsecos ao indivíduo. Segundo Tavares (2001), desde o final da década de 60 e 70 a resiliência começou a ser estudada com mais afinco pela psicologia e psiquiatria, designando a capacidade de resistir às adversidades, a força necessária para a saúde mental estabelecer-se durante a vida, mesmo após a exposição a riscos. Significa a habilidade de acomodar-se e reequilibrar-se constantemente frente às adversidades. Segundo o autor, a forma como uma pessoa percebe e elabora os problemas é um aspecto importante para reforçar o potencial de resiliência. Ao lidar com um problema, a pessoa precisa lhe dar um significado singular, fruto de sua capacidade de compreensão e 12 Resiliência – significa pré-disposição individual para resistir frente às conseqüências negativas das situações de risco e desenvolver-se adequadamente. 54 elaboração. O resultado desse processo se manifesta em gestos e narrativas. O relato de um problema pode variar radicalmente se contado por duas pessoas que vivenciaram tal situação, pois na narrativa importam os significados específicos experienciados e atribuídos às percepções, eventos e à vida de cada pessoa. Cada um tem seu sistema de significados, que está sempre se transformando, dependendo do grau de maturidade e da experiência individual. Segundo Placco (2001), a resiliência está ancorada em dois grandes pólos: o da adversidade, representado pelos eventos de vida desfavoráveis; e o da proteção, que aponta para a compreensão das formas de apoio – internas e externas ao indivíduo que o conduzem a uma reconstrução singular diante do sofrimento causado por uma adversidade. Em momentos de graves adversidades na vida, pode existir certa desorientação no sentimento de si. Embora esse “senso de demolição” abale as estruturas individuais e possa levar à fuga, loucuras ou à perspectiva de desistência da vida, existe certa estabilidade ou mesmo uma constante luta para criar ou manter um sentimento de si estável frente ao caos que pode se instalar. Nesse sentido, ter a capacidade de contar com os “golpes da vida” contribui para dar significado à existência e ao sofrimento, criando narrativas dinâmicas que tornem sensato e coerente o que parece ser o caos da existência humana. Segundo Cyrulnik (2004), os atributos básicos ao desenvolvimento da resiliência estão presentes em todas as fases do ciclo vital, cada uma delas passando por diferentes metamorfoses do potencial de resiliência. Nos primeiros anos, a resiliência é fácil, todavia, frágil. Conforme as reações do meio, as centelhas de resiliência poderão se apagar, se desviar ou se reforçar até se tornarem uma sólida maneira de agir. O potencial de resiliência de uma pessoa inicia-se antes mesmo de sua concepção e é fortalecido durante a gravidez por meio das fantasias, das expectativas, dos desejos que desperta no núcleo familiar e da trajetória de vida dos pais. Os primeiros meses e anos de vida são comprovadamente decisivos para o padrão de desenvolvimento da criança e seu potencial de resiliência, que é definido pelas 55 interações e pela riqueza de estimulação disponível. No período de 0 aos 3 anos se instala a capacidade de encarar com otimismo as novidades e dificuldades que surgem. A consciência, o significado dos limites, e o sentimento de confiança (em si e no mundo) também são formados nessa fase, o que afeta a capacidade de tolerar frustrações. Crianças cujos cuidados iniciais tenham sido erráticos ou ásperos podem desenvolver desconfiança e insegurança e se elas experimentaram fracassos repetidos e sentimentos negativos com suas ações, os resultados serão de vergonha e dúvida. No período de 4 aos 7 anos, as relações afetivas são estendidas a um ciclo mais amplo, mas cabe aos pais ou cuidador, o papel fundamental para o desenvolvimento da resiliência, especialmente a esfera afetiva, fazendo-a se sentir aceita e querida por algumas de suas particularidades. A criança dos 8 aos 11 anos, necessita receber aprovação por sua produtividade, já que desenvolve um repertório maior de habilidades específicas. Neste período as mudanças emocionais e corporais se aceleram e acentua-se o processo de identificação e a criança costuma se separar mais das figuras dos pais, pois caminham para uma maior independência. Pela ebulição das mudanças, as crises emocionais afetam a confiança, provocando inseguranças e incertezas. Para o autor, na adolescência, os afetos e conflitos são ampliados. O adolescente reexamina sua identidade e os papéis que deve desempenhar. É preciso que surja um adulto significativo para contrabalançar os conflitos com os pais, freqüentes nesta fase da vida. As relações são valorizadas e o sentimento de confiança é cambaleante, principalmente dependendo de seu histórico de vida. Segundo Trombeta & Guzzo (2002), dentre as circunstâncias consideradas mais lesivas para as crianças e adolescentes, existe a vitimização provocada por conflitos armados, graves desastres e catástrofes naturais. Outros acontecimentos são difíceis de serem enfrentados pelas crianças e adolescentes como abuso físico, psicológico, abuso sexual, negligência, ocorrência de doenças e mortes na família, conflitos de separação dos pais, sua 56 própria hospitalização, convivência com a pobreza associada à instabilidade da moradia e ao desemprego do principal provedor da casa. Segundo Koller (1999) e Vicente (1996), os mecanismos de proteção que um indivíduo dispõe internamente ou que capta do meio em que vive são elementos cruciais para estimular o potencial de resiliência ao longo da vida. Existem três tipos principais de proteção atuando desde a infância e adolescência. A primeira está na própria capacidade individual de se desenvolver de forma autônoma, com auto-estima positiva, auto-controle e com características de temperamento afetuoso e flexível. É o modelo de desafio, onde o sujeito consegue entender a dimensão do problema, o reconhecimento das possibilidades e enfrentamento, e o estabelecimento de metas para sua resolução. A segunda é dada pela família quando provê estabilidade, respeito mútuo, apoio e suporte, isto é, vínculos afetivos, aceitação incondicional do indivíduo enquanto pessoa, principalmente pela família. E a terceira é o apoio oferecido pelo ambiente social, através do relacionamento com amigos, professores e com outras pessoas significativas que tem papel de referência, reforçando o sentimento de ser uma pessoa querida e amada – sentido de propósitos no futuro – estabelecimento de metas, fé num futuro melhor. Os fatores que oferecem proteção são, portanto, influências que modificam, melhoram ou alteram a resposta de uma pessoa a algum evento de vida que lhe desencadeou sofrimento. São mais que fatores isolados, são encadeados numa engenharia em que se sustentam os mecanismos ou processos de proteção. Segundo Bowlby (1990), a importância de uma base familiar sólida para o desenvolvimento saudável da criança, principalmente na primeira infância, é um importante fator de proteção. A família tem como função básica o apoio e a proteção de seus filhos, e para que isso ocorra precisa estar emocionalmente equilibrada. Embora toda e qualquer família não esteja isenta de problemas, algumas são mais capazes de encontrar alternativas para solução dos conflitos, conseguindo reduzir os efeitos destrutivos trazidos pela vida. É na 57 família onde se encenam romances trágicos, dramáticos, aventureiros, felizes e contraditórios, com personagens amados e odiados. Segundo Cyrulnik (2004), o ser humano se defronta com circunstâncias adversas mesmo antes de nascer e delas se defende ao longo de todos os anos de sua existência, transformando-se interminavelmente, dependendo de sua capacidade de elaborar e superar problemas e reformular-se cotidianamente. Os traumas podem ser revertidos depois de ocorridos, isto é, eles podem ser reelaborados e re-significados, reduzindo o impacto provocado por estresse ou infortúnios ocorridos com crianças, adolescentes e suas famílias. Já para Cury (2003), o registro diário nas matrizes da memória de uma criança, é feito através de milhares de estímulos externos (visuais, auditivos, táteis) e internos (pensamentos e reações emocionais). Anualmente arquivamos milhões de experiências. Diferentemente dos computadores, o registro em nossa memória é involuntário, produzido pelo fenômeno RAM13. Nos computadores decidimos o que registrar; na memória humana, o registro não depende da vontade humana. Todas as imagens que captamos são registradas automaticamente. Todos os pensamentos e emoções – negativos ou saudáveis – são registrados involuntariamente pelo fenômeno RAM. Tudo que é registrado não pode mais ser deletado, apenas reeditado através de novas experiências sobre experiências antigas. Reeditar é um processo possível, mas complicado. Outro papel importante da memória é que a emoção define a qualidade do registro. Todas as experiências que possuem um alto volume emocional provocam um registro privilegiado. O amor e o ódio, a alegria e angústia provocam um registro intenso. Para o autor, é através do fenômeno RAM que a criança vítima da violência doméstica memoriza todas as cenas vividas, que geraram nela um alto volume de tensão emocional, as quais são carregadas de dor e sofrimento. As agressividades, rejeições e 13 RAM – Registro Automático da Memória. 58 atitudes impensadas criam um alto volume de tensão emocional gerando cicatrizes para sempre. A memória da criança vitimada é um depósito cheio de pensamentos negativos, manias, medos e reações impulsivas. Tudo aquilo que atinge frontalmente a emoção atinge drasticamente a memória e constituirá a personalidade da criança. O fenômeno RAM registra e o realimenta, gerando um desgaste violento de energia cerebral, prejudicando drasticamente a qualidade de vida desta. Uma experiência dolorosa é registrada automaticamente no centro da memória, a partir daí ela é lida continuamente, gerando milhares de outros pensamentos. Estes pensamentos são novamente registrados, gerando as chamadas zonas de conflitos. Por esta razão, é importante estar atento como a construção da personalidade de uma criança está se dando, tudo que as crianças e adolescentes arquivam controlará suas personalidades. A memória é um canteiro de informações e experiências. Existem pessoas que apesar de terem sofrido a violência doméstica, conseguem superar a experiência com mais facilidade do que outras. Na verdade elas são o que chamamos de resilientes, ou seja, possuem a capacidade de vivenciar histórias de dor e sofrimentos, sem se desestruturarem internamente. Por esta razão, Luft (2004) diz que, encontrar significado positivo para as adversidades e ser capaz de obter “escuta” de outras pessoas para os problemas pessoais é uma das características mais presentes em pessoas muito resilientes. As pessoas resilientes são pessoas que conseguem superar as dificuldades, sair da dor e caminhar em rumo à esperança. 59 CAPÍTULO V – O PAPEL DO PSICÓLOGO JUNTO À CRIANÇA OU ADOLESCENTE QUE SOFRE OU SOFREU VIOLÊNCIA DOMÉSTICA A violência doméstica precisa ser encarada como um problema social que urge um olhar mais que especial. Segundo Amencar (1999), podemos dizer que a violência contra crianças e adolescentes é uma realidade dolorosa em nosso país, responsável por altas taxas de mortalidade e morbidade nessa faixa etária, ou seja, boa parte de nossas crianças e adolescentes estão morrendo mais por conflitos sociais do que por doenças. Isso exige uma resposta séria e urgente de nossa sociedade, pois o número de crianças e adolescentes a cada dia cresce e o número de registros de crianças vítimas de maus-tratos, de abusos físicos, sexuais e psicológicos ou de abandono e negligência também cresce. A problemática da violência contra crianças e adolescentes, é uma tarefa bastante árdua, pois envolve não só aspectos emocionais do profissional que está atendendo a criança, como também estruturais, tais como o apoio legal, a existência de órgãos e serviços de apoio bem como treinamento para detectar e mapear tais situações. Como dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente, lei nº 8069 de 13/07/1990, está prevista a obrigatoriedade da notificação, até mesmo dos casos de suspeita, de maus-tratos contra crianças, onde o ECA vê a criança e o adolescente como cidadãos e “seres em desenvolvimento”, e dessa forma são passíveis de direitos e necessitam de proteção integral. Segundo Deslandes (1994), profissionais que atuam em um posto de saúde, geralmente localizado em comunidades carentes e onde o contato com a população são muito próximos, acrescentado à dificuldade relativa de exposição que podem acabar sofrendo, temem represálias ou ameaças por parte do agressor. Segundo, as equipes de saúde, a alternativa encontrada por muitas instituições, principalmente hospitais, foi a criação de comitês interdisciplinares. Dessa forma, além de haver maior compreensão do caso, propiciada pela colaboração dos profissionais de diversas áreas, a responsabilidade pela 60 denúncia ao Conselho Tutelar não fica personificada apenas em um profissional (geralmente psicólogo ou assistente social), preservando as integridades individuais. Lidar com crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, pode provocar dúvidas, angústias, medos, impotência, mas ninguém quer que a criança seja vítima de novo, quando chegar à casa. E fingir não tem como. O importante é saber que sua intervenção como psicólogo pode livrar a criança/adolescente de conseqüências maiores ou piores e o que torna gratificante é saber que, quanto mais rápido se agir, menos riscos a criança/adolescente correrá. Torna-se importante a participação do psicólogo dentro deste contexto, no sentido de promover junto à vítima e a família da mesma, a restauração da sua personalidade que foi destruída e abalada por situações imprevisíveis e dolorosas. E para tanto é indispensável ao psicólogo habilidade no lidar com essa questão. A intervenção só deve ser feita depois de ouvir, perceber e apreender cada criança como um ser singular que é e capaz de mudanças e conquistas. Como psicólogos, não podemos deixar que o solo da memória de crianças e adolescentes se transforme numa terra de pesadelos, mas sim num jardim de sonhos e conquistas. A medida que nós psicólogos integramos um sistema terapêutico, e consideramos que, por meio de suas construções narrativas, a família constrói significados para seus problemas e para os contextos que vivencia, possibilitamos a reinterpretação de suas experiências e atos. Isto traz o entendimento de seu contexto sócio-histórico favorecendo uma mudança radical na história de vida dessas famílias, rompendo o ciclo de violência instalado desde gerações anteriores, permitindo vislumbrar outras formas de vida e novas formas de atuação como pai, mãe e como sujeitos de direito. 61 O psicólogo com o intuito de averiguar as causas da violência nas crianças, tem como objetivo auxiliar essas famílias, buscando facilitar o convívio desses indivíduos e o resgate do vínculo dessas vítimas com seus familiares, influenciando assim no seu desenvolvimento orgânico, cognitivo e emocional. Segundo Walsh (1996), a elaboração de um projeto de vida possibilita definirem metas para serem alcançadas e conseqüentemente irem à busca da realização das mesmas, potencializando assim as suas vidas e crendo na esperança de um futuro melhor. Portanto, é nosso papel como psicólogo desenvolver a resiliência na criança ou adolescente, ajudando-o a elevar sua auto-estima, a desenvolver autonomia, independência, novas alternativas para resolução de situações, novas reflexões para suas atitudes, aprender a lidar com as frustrações, desenvolver a criatividade, aceitar e respeitar a si mesmo e aos outros, transformando suas experiências negativas em novas aprendizagens para tornar-se alguém melhor, seja no campo pessoal, social ou profissional, levando-os a viver uma vida melhor num mundo conturbado. Segundo Visca (1991), a aprendizagem, para uma pessoa, abre os caminhos da vida, do mundo, das possibilidades até de ser feliz. Sendo assim, não podemos deixar que o aprendizado nos leve apenas ao conhecimento, mas que nos leve à ação. 62 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho tentamos apresentar como a violência sempre existiu, desde a forma como a criança era considerada em tempos remotos até como é vista, a família que não é mais sagrada, nem intocável, e que pode em alguns momentos oferecer grandes riscos à integridade física da criança. Os relatos demonstraram ter havido uma mudança radical no enfoque dado à criança. De “adulto em miniatura”, visto na antiguidade, a um “ser especial” que precisa de cuidados e de carinho. O salto foi expressivo e importante. Muitos teóricos, psicanalistas e psicólogos contemporâneos trouxeram contribuições valiosas para a compreensão do mundo infantil, surpreendente e misterioso, os quais muitos adultos não conseguem entender, devido à sua magnitude e complexidade psicológica. Para tanto, é importante conhecermos as reações das crianças no dia-a-dia, as relações entre pais e filhos e principalmente como é o relacionamento familiar. Quando percebermos que algo aconteceu à criança ou ao adolescente, nos cabe como profissionais verificarmos onde ocorreu a falha. Um provérbio africano diz que “para criar uma criança é necessário uma aldeia toda”. Assim, considerando, cada vez que uma criança é torturada, maltratada, abusada, assim podemos dizer que a rede de proteção das crianças formada pelos adultos falhou. Isto é, falhou a família, a sociedade, os órgãos competentes que compõem a rede de proteção à criança e ao adolescente. Nenhuma explicação justifica a violência perpetrada contra uma criança. Os adultos devem ser responsabilizados por seus atos, ainda que em níveis diferentes, tanto quem praticou a tortura, quanto quem falhou em proteger a criança. Lidar com a questão da violência doméstica, contra crianças e adolescentes, é uma tarefa muito complexa. O enfrentamento do fenômeno exige uma conscientização da 63 sociedade, a cooperação e especialização de grupo formado por diferentes profissionais e uma boa articulação entre as instituições que desempenham papéis de retaguarda, para que a criança, o adolescente, bem como a família, possam ser assistidos. A violência deixa marcas, mas as marcas mais difíceis de cicatrizar, no entanto, não estão no corpo, mas na alma. Como no mito de Pandora, é preciso que a caixa (memória) seja aberta para que todas as tristezas e tragédias vivenciadas pela criança se libertem, lá do fundo e assim possa surgir a esperança. A violência doméstica precisa ser encarada como um problema social, que urge um olhar mais que especial de nossos governantes. Mas enquanto, psicólogos, podemos contribuir em nosso âmbito de trabalho, desenvolvendo em nossos pacientes a resiliência, que os levará a viver uma vida melhor em um mundo conturbado. Sabemos que romper estas cadeias, não é fácil, porque o modo violento de viver está entranhado em nosso cotidiano. Entretanto, mesmo que a luta seja difícil, vale a pena enfrentá-la, assim como vale a pena seguir vivendo, lutando e tendo sempre a esperança de vermos dias melhores. Esperamos que este trabalho possa trazer uma série de reflexões sobre a violência que permeia a vida das crianças e de suas famílias e que possam surgir novas idéias que busquem romper as cadeias desta violência que nos intimida, que nos castra diariamente. 64 REFERÊNCIAS ABRAPIA . Associação Brasileira de Multiprofissional de Proteção à Infância e a Adolescência, Rio de Janeiro, 1999. _____.Disponível em: <http:// www.abrapia.org.br> acesso em: 22/07/2006. ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. _____. História Social da Criança e da Família. 2ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981. ALLENDER, D. Lágrimas secretas: cura para as vítimas de abuso sexual na infância. p. 80. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. AMENCAR. Violência doméstica. p.p. 32-42. Brasília: UNICEF, 1999. AZEVEDO, M. A. Mulheres Espancadas – A violência denunciada. São Paulo: Cortez, 1985. AZEVEDO, M. A. & GUERRA, V. N. A. Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu, 1989. _____. Infância e violência doméstica: Perguntello (o que os profissionais querem saber). IPUSC/LACRI / Laboratório de Estudos da Criança da Universidade de São Paulo: Iglu, 1994. _____. Telecurso de Especialização na área de Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes. São Paulo: Iglu, 2000. BOWLBY, J. Apego e perda: apego. 2ª ed. São Paulo: Martins Afonso, 1990. 65 BRINGIOTTI, M. I.. La escuela ante los ninõs maltratados p.p.15-76 Buenos Aires: Piados, 2000. CECOVI. Curso de Capacitação no enfrentamento à violência doméstica contra crianças e adolescentes. Curitiba: CECOVI, 2000. _____. Folha de São Paulo. São Paulo, 1997. CHAUÍ, M. Participando do debate sobre mulher e violência. In: Perspectivas Antropológicas da mulher. p.p. 4:25-62. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. CYRULNIK, B. Os patinhos feios. São Paulo: Martins Fontes, 2004. CUNHA, M. L. C. Capacitação no Enfrentamento à violência doméstica contra crianças e adolescentes. 1ªed. Curitiba: CECOVI, 2000. CURY, A. Pais brilhantes. Professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. DESLANDES, S. F. Atenção a Crianças e Adolescentes vítimas de violência doméstica: Análise de um Serviço. (sup. 1): p. 177-187. Rio de Janeiro: Caderno de Saúde Pública, 1994. EWING, C.P. Watever mother says. In: Clarkson, W. New York: St. Martin´s Press, 1995. FINKELHOR, D. Child Sexual Abuse. New York. The Free Press, 1979. GELLES, J. TEORIA Crítica da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. GUERRA, V.N.A. Violência Física Doméstica contra Crianças e Adolescentes e a Impressa: Do Silêncio à Comunicação. Tese de Doutorado em Serviço Social. PUC. São Paulo, 1995. _____. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. São Paulo: Cortez, 1998. 66 GELLES, R. J. Child abuse as psychopathology: a sociological critique and reformulation.p.p.43: 611-621. American journal: Orthopsyvhiatry, 1973. GUADERER, C. Sexo e sexualidade da criança e do adolescente. Rio de Janeiro: Record Rosa dos Tempos, 1996. GUIMARÃES, R. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo: Cultrix, 1994. KEMPER, R. S. Child abuse. Londres: Fontana Open Books, 1978. KOLLER, S. H. Violência doméstica: uma visão ecológica. p.p. 32-42 In: AMENCAR (Org.). Violência doméstica. Brasília: UNICEF, 1999. KORNIFIELD, D. Vítima, sobrevivente, vencedor! São Paulo: Sepal, 2000. LANGBERG, D. M. Abuso Sexual – Aconselhando vítimas. trad. Werner Fuchs. Título em original: Couseling Survivors of Sexaul Abuse, Tyndale House, Wheaton. Curitiba: Evangélica Esperança, 2002. LEFÈVRE, F. Violação e violência: Resgatando a violação como fato cultural. In: Revista Brasileira Crescimento Desenvolvimento Humano.v. II. n. 2. São Paulo,1992. LUFT, I.. Perda e ganhos. Rio de Janeiro: Record, 2004. MARSHALL, W. L. e Org. Handbook of Sexual Assault. Plenum Press: New York, 1990. MICHAUD, Y. A violência. São Paulo: Ática, 1989. MYNAYO, M.C.S. A Violência Social sob a perspectiva da Saúde Pública. In: Cadernos de Saúde Pública. n. 10. supl. 1. p.p. 7-18. Rio de Janeiro, 1994. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Notificação de maus-tratos contra crianças e adolescentes pelos profissionais de saúde. Brasília/DF, 2006 67 OLIVEIRA, T. Folha do Paraná. p. 1., 2005 www.ciranda.org.com PAIVA, L. A. S. Síndrome da Criança Negligenciada: Considerações Gerais e Apresentação de caso. vol. 73. p.p.19-33. JBM, 1997. PELZER, D. Uma criança tratada como “coisa”. – Uma lição de sobrevivência, 1 ed. São Paulo: Manole, 1999. POSTER, M. Crítica da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. PLACCO, V. Resiliência e educação. Prefácio In: TAVARES, J. Org. p.p. 7-12. São Paulo: Cortez, 2001. SANTOS, H. Crianças espancadas. Campinas: Papirus, 1987. SAFFIOTTI, H. A exploração sexual de meninas e adolescentes: aspectos históricos e conceituais. In: BONTEMPO, Enza Bosetti et alli. Exploração sexual de meninas e adolescentes no Brasil. Brasília: UNESCO/CECRIA, 1995. TAVARES, J. (Org.). A resiliência na sociedade emergente. In_________. (Org.) Resiliência e Educação. São Paulo: Cortez, 2001. TROMBETA, L. H. & GUZZO, R. S. L. Enfrentando o cotidiano adverso: estudo sobre resiliência em adolescentes. Campinas/SP: Alínea, 2002. UNESCO. Organização das Nações Unidas para a Educação, a ciência e a Cultura.Rio de Janeiro, 2006. VAZ, M. A. Situação do abuso sexual e da exploração sexual comercial contra crianças e Adolescentes no Brasil. In: COSTA, J. J. Rompendo o silêncio: seminário Multiprofissional de capacitação sobre abuso e exploração de crianças e adolescentes. Textos e anotações. São Luís, 1997. 68 VICENTE, C. M. Resiliência: Palestra proferida no Centro de Treinamento de Recursos Humanos de Ponte Formosa. Espírito Santo, 1996. VISCA, J. Psicopedagogia: Novas contribuições. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. YUNES, M. A. M. & SZYMANSKI, H. Resiliencia: Noção, conceitos afins e considerações críticas. In: TAVARES, J. (Org.). Resiliência e Educação.p.p.13-42. São Paulo: Cortez, 2001. WALSH, F. The concerpt of family resilience. p.p. 35, 261-281.Crisis and chadlenge. Family Process , 1996. WAKSMAN, R. D. Segurança na Infância e Adolescência. 1ªed.. São Paulo: Atheneu, 2003. 69 ANEXO I NO QUADRO ABAIXO TEMOS ALGUMAS MARCAS QUE SINALIZAM A VIOLÊNCIA FÍSICA: MARCAS DE QUEIMADURAS MARCAS DE OBJETOS 70 ANEXO II VIOLÊNCIA FÍSICA - FOTOS CEDIDAS PELO CECOVI Criança acorrentada para não sair de casa. Criança com coleira 71 Hematoma palpebral por espancamento. Hemorragia interna por espancamento, seguido de óbito. 72 Queimadura por submersão da mão em água fervendo. Bebê com 8 meses. Queimadura com água fervendo. 73 Queimadura com panela quente. Queimadura nas nádegas com chapa de fogão por fazer xixi na cama 74 Criança espancada por cinto. Paulada na cabeça com cabo de vassoura. 75 ANEXO III VIOLÊNCIA SEXUAL - FOTO CEDIDA PELO CECOVI Manipulação digital do órgão sexual do bebê. 76 Parecer O encaminhamento da monografia intitulada “Violência Doméstica: Da dor à esperança” de Josani Goulart Rodrigues de Barros se deu em função de ter sido esta uma cuidadosa pesquisa por parte da orientanda que resultou numa contribuição à exposição de um dos mais sérios problemas que incidem sobre a nossa sociedade: a desenfreada violência contra o ser humano. Em seu trabalho, a autora, com determinação e coragem, adentra nas filigranas da dor e do desamparo das crianças e adolescentes submetidas à violência, que em seu silêncio, onde os erros não são apontados, buscam ainda o caminho do resgate para se sentirem vivos. A importância do seu trabalho vai se tecendo à medida em que percebemos a ocultação dos atos e dos autores da violência e o quanto passamos ao largo desta situação sentindo-nos impotentes e medrosos dentro da nossa própria incapacidade para buscar soluções. Até quando? diz-nos a autora. Até onde podemos suportar o silêncio dos inocentes? Até onde podemos exercitar a ausência de julgamento para criar condições de rever e resgatar nos dois eixos da questão o que ainda resta de humano? O trabalho de Josani nos instiga ao desafio, ao impenetrável, à face oculta de nossa própria humanidade. Alavanca a Psicologia para além dos consultórios, dos lugares reservados. Devasta a nossa covardia, ao mesmo tempo que nos deixa vislumbrar a consciência de que é através da resiliência que habita em cada um de nós, que podemos encontrar um sentido maior para trilharmos a nossa trajetória profissional e existencial ,onde ainda seja possível reconhe- cer o tempo e o espaço para a esperança. Prof. Ms. Maria Lúcia Duarte Geloski - Orientadora