VALÉRIA MAIA SOARES BITTAR CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE PROFESSORES DE ARTES VISUAIS Juiz de Fora - 2007 Valéria Maia Soares Bittar CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE PROFESSORES DE ARTES VISUAIS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação, da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre. Orientadora: Profª. Drª. Déa Lúcia Campos Pernambuco Juiz de Fora 2007 TERMO DE APROVAÇÃO VALÉRIA MAIA SOARES BITTAR CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE PROFESSORES DE ARTES VISUAIS Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre no Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, pela seguinte banca examinadora: _______________________________________ Prof. Drª. Déa Lúcia Campos Pernambuco (Orientador) Programa de Pós-Graduação em Educação, UFJF _______________________________________ Prof. Drª. Maria Teresa de Assunção Freitas Programa de Pós-Graduação em Educação, UFJF _______________________________________ Prof. Drª. Mirian Celeste Ferreira Dias Martins Programa de Pós-Graduação em Educação, UNESP Juiz de Fora, 27 de junho de 2007. AGRADECIMENTOS Chegar a estas páginas pressupõe que etapas foram vencidas e em cada uma delas estiveram envolvidas muitas pessoas. Este é, portanto, o momento de agradecer àqueles que ajudaram a construir este trabalho com diálogos, idéias, leituras, observações, críticas, parcerias ... Agradecer primeiro a Deus, por toda a sua providência. Ao Marcus, querido esposo, companheiro dedicado e compreensivo e ao Filipe e ao Víctor, filhos amados, pela paciência nos momentos difíceis, pelo entendimento nas ausências, pelo carinho e apoio. Aos meus pais, Zoraida e Genaro , pelo exemplo de amor e fé. Aos meus irmãos que, mesmo distantes, torceram por mim. Ao meu sogro e meus cunhados, pelo apoio, assumindo tarefas para que eu pudesse trilhar meu caminho. À minha orientadora, Déa Pernambuco, professora experiente que acreditou em minhas idéias e sonhos. A Vilma Cristina, que conduziu com zelo e presteza o meu lar para que eu pudesse realizar meu trabalho. Aos professores, participantes deste estudo que se prontificaram, envolveram-se e contribuíram na construção desta pesquisa. À amiga e professora de Arte Neide Marinho, pelas informações relevantes, pela parceria intelectual e pela defesa da arte na educação. A Mariângela, pela paciência e dedicação na verificação técnica desta dissertação. À professora Maria Teresa, pelos apontamentos e contribuições durante a pesquisa. Aos colegas professores, alunos e funcionários da Escola Municipal Olinda de Paula Magalhães, pelas experiências que me levaram a este estudo e aos demais colegas de profissão pela força e pela torcida. Aos colegas do mestrado, em especial Ana Cristina e Rosangela Veiga, pela amizade, pelos desafios transformados em aprendizagem, pelas conversas e alegrias compartilhadas. À Prefeitura de Juiz de Fora, em especial à Secretaria de Educação, por possibilitar a continuidade de meu processo formativo. E a todos aqueles que, de alguma maneira, tornaram esta pesquisa possível de se realizar. RESUMO Este estudo tem como objetivo compreender as concepções de ensino de Arte de professores de Artes Visuais e suas práticas na escola. Para tal, fez-se uma pesquisa qualitativa de abordagem sócio-histórica, buscando uma interlocução entre autores e pesquisadores do ensino de Arte e da construção social do conhecimento, articulando-se as idéias dos autores Vygotsky e Bakhtin com a questão do ensino de Arte na atualidade. Nove professores de escolas públicas e particulares de Juiz de Fora, Minas Gerais, constituíram-se como sujeitos desta pesquisa, cujos instrumentos metodológicos foram entrevistas e grupos focais. A análise dos dados revelou que a concepção de ensino de Arte construída pelos professores pesquisados coincide com a concepção contemporânea que considera o ensino dessa disciplina como fonte de aquisição e construção de conhecimentos, incluindo a arte como um fenômeno da cultura humana que não pode ser sonegada no âmbito da educação Escolar. Além disso, pôde-se depreender que os professores de Arte realizam práticas que envolvem trabalhos interdisciplinares e integradores, fazendo uso da Abordagem Triangular com o objetivo de desenvolver no aluno capacidades de representar, interpretar, imaginar, compreender o que o cerca e a si mesmo. PALAVRAS-CHAVE: Professor de Formação de professores, Contexto. Artes Visuais, Concepções, Práticas, ABSTRACT This study is aimed at analysing the concepts of Art Teaching as shared by the teachers of Visual Arts as well as their classroom work. In order to do so, a socio- historical qualitative research was carried out, seeking for an interaction between authors and researchers in the field of Visual Art teaching and the social construction of knowledge, weaving the ideas proposed by Vygotsky and Bakhtin into the present issue of how to teach Visual Arts. Nine teachers from public and private schools of Juiz de Fora, in Minas Gerais, were selected as subjects for the research, which comprised interviews and focal groups. Data analysis revealed that the concept of Visual Art teaching as constructed by the subjects is the same as the contemporary view which considers Visual Art teaching as a phenomenon of human culture which cannot be overlooked within the school context. Apart from that, Visual Art teachers were found to develop interdisciplinary and integrating projects, making use of the Abordagem Triangular, aiming at making students develop the skills of acting, interpreting, imagining and understanding their surroudings as well as himself. Key words: Art teaching, Concepts, Classroom work, Teachers´formation, Context. SUMÁRIO 1. UM MEMORIAL...................................................................................................1 2. O PROCESSO METODOLÓGICO......................................................................7 2.1 As entrevistas do estudo piloto......................................................................8 2.2 A técnica do grupo focal.................................................................................9 2.3 A construção dos grupos focais..................................................................11 3. DIALOGANDO E INTERAGINDO COM OS AUTORES...................................16 3.1 A função da Arte na escola...........................................................................17 3.2 A formação dos professores de Arte...........................................................22 3.3 Arte: uma linguagem carregada de sentido................................................29 3.4 Artes Visuais: construções sígnicas portadoras de significado..............45 4.DIALOGANDO E INTERAGINDO COM ATORES E AUTORES.......................50 4.1 Diálogos singulares.......................................................................................50 4.2 Diálogos conjuntos......................................................................................56 4.3 O valor da disciplina de Arte na escola......................................................58 4.4 A formação do professor de Arte e a formação continuada de professores...........................................................................................................62 4.5 A Abordagem Triangular e sua aplicabilidade...........................................79 4.5.1- O vértice“Contextualizar”....................................................80 4.5.2 - O vértice“Fazer”..................................................................82 4.5.3- O vértice“Apreciar”..............................................................88 4.6 A experiência artística e a educação do olhar............................................92 4.7 O conteúdo interdisciplinar e o currículo integrado..............................................................................................................99 5. AMPLIANDO FRONTEIRAS...........................................................................108 REFERÊNCIAS...................................................................................................114 ANEXOS..............................................................................................................117 LISTA DE ANEXOS 1. Ofício da Secretaria de Educação...................................................................118 2. Ficha de identificação dos participantes dos grupos focais.............................119 3. Termo de compromisso dos participantes dos grupos focais..........................120 4. Auto-retratos....................................................................................................121 4.1. Auto-retrato I.......................................................................................122 4.2. Auto-retrato II......................................................................................123 4.3. Auto-retrato III.....................................................................................124 4.4. Auto-retrato IV....................................................................................125 4.5. Auto-retrato V.....................................................................................126 4.6. Auto-retrato VI....................................................................................127 5. Releitura da obra “O Grito” de Edward Munch realizada por uma aluna da professora Teresa................................................................................................128 6. Texto “Contexto Nacional: as principais mudanças políticas e conceituais na visão dos arte/educadores”..................................................................................129 7. Texto “PCN nas escolas: e agora?”.................................................................133 1. UM MEMORIAL A arte é uma mentira que nos faz ver a verdade. Pablo Picasso Entender a arte como uma dimensão de conhecimento humano que não pode ser negada no âmbito escolar foi a certeza que me trouxe até este trabalho investigativo. Por entendê-la como uma outra via para chegar ao conhecimento, busquei o caminho da pesquisa, por acreditar na arte como uma linguagem mediadora da aprendizagem. Daí a epigrafe instigante que reflete sobre esta linguagem simbólica que nos faz compreender a vida, os outros e a nós mesmos. É com este olhar que pretendo iniciar esta dissertação. Considero necessário trazer algumas lembranças significativas de minha vida e de minha formação a essas páginas iniciais, pois, para chegar a este trabalho, foi preciso passar por todo um processo pessoal e profissional que considero único. Na década de 1980, aos 17 anos, quando me preparava para o vestibular, tive a oportunidade de estudar com um professor de Ciências no ensino médio que, buscando sempre orientar e esclarecer as dúvidas da turma, debruçava-se em explicações sobre as diversas profissões, universidades e cursos. Foi ele que me falou sobre o curso de Design Industrial e o de Arquitetura, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, despertando meu interesse por essa área. No terceiro ano do ensino médio estava determinada a prestar o vestibular para Arquitetura. Não gostava da idéia de ser professora, queria uma “profissão de homem”. Nessa mesma época chegou às minhas mãos um currículo do Curso de Educação Artística da Universidade Federal de Juiz de Fora. Observei que poderia estudar desenho arquitetônico, desenho mecânico, aprenderia a fazer perspectivas de interiores e fachadas de casas. Além disso, teria aulas de desenho artístico e poderia cursar disciplinas opcionais de pintura em telas. Era uma boa opção, porém, continuaria a sonhar com a Arquitetura. Iniciei o curso de Educação Artística em 1984 e me formei em 1988, Bacharel em Desenho Arquitetônico. Logo consegui emprego numa empresa terceirizada dentro da Siderúrgica Mendes Júnior atual Belgo Mineira, em Juiz de Fora. Trabalhei como desenhista de projetos mecânicos e arquitetônicos. Ao perder o emprego, voltei para a UFJF para fazer a Licenciatura, formando-me em 1991. Como costumo dizer, caí de pára-quedas na Educação sem saber de sua importância, de seus fundamentos e de minha capacidade para ministrar aulas. Neste mesmo ano fui trabalhar numa escola da zona norte da cidade de Juiz de Fora, substituindo um professor, no turno da manhã e da noite, em turmas do ensino fundamental e médio. Talvez por isso, minha opção profissional tenha mudado tanto, acho que o desafio me encantou. Estava, a partir daí, definitivamente, envolvida com o magistério. O desejo de cursar Arquitetura foi deixado para trás. Minha vida estava tomando novo rumo. De 1991 em diante trabalhei em escolas estaduais, particulares e municipais. Conheci escolas com filosofias de trabalho diferentes, contextos e metodologias de ensino diversificadas, enfim, realidades e desafios os quais eu não imaginava que um professor tivesse de enfrentar. Tais desafios impulsionavam-me a permanecer na profissão e a querer vencê-los. Gostava de estar com os alunos, de falar sobre arte e, juntos, produzirmos trabalhos. Era um caminho que eu estava disposta a percorrer. A visão ingênua em relação à profissão do professor foi dando lugar a uma postura de inquietações, de questionamentos em relação ao trabalho do professor de Arte e da realidade da disciplina na escola. A escolha profissional foi, por assim dizer, transformando-se em esforço para entender a própria profissão. Atuando como professora de Arte nos ensinos infantil, fundamental e médio pude observar sempre a existência de uma realidade complexa. A imposição do conteúdo de desenho geométrico no planejamento das aulas, as cobranças feitas por coordenadores, colegas de trabalho e da própria direção da escola para que desenvolvesse atividades relacionadas às datas comemorativas, interferindo na autonomia do conteúdo a ser ministrado. A carga horária reduzida, a falta de espaço adequado e de materiais específicos, muitas vezes inexistentes, eram e são algumas das muitas situações enfrentadas pelos profissionais. Essa realidade apontava para a questão: qual é, afinal, a função da disciplina de Arte no processo de ensino e aprendizagem? Qual o motivo ou motivos de sua desvalorização na escola? Porém, foi em 1995, trabalhando na Escola Municipal Olinda de Paula Magalhães, em Juiz de Fora, MG, que pude, pela primeira vez, ver na prática um trabalho interdisciplinar envolvendo a arte. Essa experiência de trabalho tão singular foi de extrema importância para minhas escolhas teóricas e para criar as bases de meu trabalho de pesquisa. Na tentativa de resolver os problemas de evasão e repetência existentes, a Escola Municipal Olinda de Paula Magalhães, em 1995, implantou um projeto chamado “Trabalhando com Artes”. Sua criação foi de responsabilidade de três professoras de Língua Portuguesa que deram inicio a uma revisão intensa do conteúdo programático da disciplina de Português, cuja linha passou a voltar-se para o estudo de textos e a utilização de “meios que facilitassem”1 a produção, a leitura, a análise e a interpretação. Justamente nesse período fui designada para trabalhar nessa escola e logicamente passei a fazer parte de todo o processo desencadeado pelo projeto “Trabalhando Com Artes” ao longo dos anos seguintes. O projeto “Trabalhando com Artes” foi dividido em três semanas culturais: Semana de Artes, Semana de Estudos Folclóricos e Semana de Poesia, inicialmente com tema livre. Com o amadurecimento do projeto, os assuntos de cada semana passaram a ser estruturados tentando conciliar o artístico e o didático-pedagógico. O tema passou a ser escolhido e trabalhado, de forma interdisciplinar e artística, por professores e alunos, desde a educação infantil até a 8ª série, culminando com apresentações artísticas e culturais criadas a partir da temática eleita. Durante a elaboração dos trabalhos, professores e alunos se empenham em pesquisas, discussões em sala, execuções de trabalhos plásticos, dramatizações, produções de textos, cartazes, fotos, danças, desfiles, gincanas e outros tipos de apresentação sobre o tema proposto. A movimentação da escola, antes e durante os dias das semanas culturais, é intensa. Os resultados dos trabalhos são avaliados por alunos e professores e a escola possui dados estatísticos relativos à evasão e à repetência desde a implantação do projeto. Em 1997, os professores da escola participaram de um curso na Universidade Federal de Juiz de Fora, ministrado por Bernd Ficthner2. O curso 1 É importante observar que o meio utilizado pelas professoras foi a arte, no caso: artes visuais, arte popular e literária. 2 O Professor Dr. Bernd Ficthner, é profesor e pesquisador da Universität Siegen, UNI-SIEGEN, Alemanha. “Vygotsky: a aprendizagem como atividade” causou grande impacto nos professores, dada a semelhança entre a teoria apresentada por Ficthner e a prática da escola. O professor Ficthner foi convidado a visitar nossa escola e, nessa visita, uma conversa com o professor alemão marcou o início de minhas investigações e de meus estudos sobre Vygotsky. Ele disse: “Você faz o que Vygotsky fala”. Logo pensei: “Quem será esse tal de Vygotsky?” Para não demonstrar minha falta de conhecimento em relação ao autor, tratei de concordar com ele e mudei de assunto. Após esse acontecimento, ficamos sabendo que o professor alemão iria dar um curso sobre Vygotsky no Centro de Formação do Professor da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Participando do curso, pude conhecer um pouco sobre a teoria vygotskyana e passei a entender melhor por que minha prática e a de outros professores do projeto tinham relações com os conceitos trabalhados por ele. Como fora mencionado, a arte foi escolhida como elemento integrador das atividades desenvolvidas pelos professores do projeto “Trabalhando com Arte”. Percebíamos sua capacidade em fazer o elo entre as disciplinas, por ser uma linguagem que transitava pelos diversos conteúdos. As experiências vividas em minhas aulas proporcionavam aos alunos estabelecerem uma vinculação da realidade com a fantasia, o que Vygotsky(1987) considera como a primeira e principal lei a que se subordina a função imaginativa. Pude observar também que, principalmente nos dias das apresentações dos trabalhos, uma espécie de “sentimento social“ ou “efeito catártico” tomava conta da escola, outro ponto importante trabalhado por Vygotsky(1998) que se mostrava presente nas semanas culturais. Tendo Ficthner visitado e apreciado nosso trabalho reiteradas vezes, concluiu que havíamos criado “um modelo de escola diferenciada”. Este foi o primeiro reconhecimento que tivemos do trabalho que lutávamos para desenvolver. Nosso projeto ganhou, também, expressão em Juiz de Fora, tendo sido notícia da imprensa escrita e televisiva. Em 2001 fomos convidados a ministrar palestras em um seminário na Universidade de Siegen, na Alemanha. Eu e mais cinco professores participamos desse seminário, representando a E. M. Olinda de Paula Magalhães. Todo esse caminho percorrido, pela escola e seus membros, resultaram na busca pelo aperfeiçoamento e trazendo-me ao mestrado. Decorre de toda essa experiência, com o ensino de artes e do entrelaçamento de minhas idéias com diversos autores, o meu interesse em dialogar com outros profissionais da área, conhecer suas concepções de ensino e como desenvolvem suas práticas. Sempre tive um incômodo sentimento de impotência diante da desvalorização da disciplina de Arte nas escolas. Um sentimento que, embora fosse amenizado enquanto membro do projeto “Trabalhando com Arte”, estava presente quando comparava nossa realidade com a realidade da maioria das escolas que havia trabalhado e, também, quando conversava com outros professores de Arte. Até mesmo a minha escola deixava a desejar quando o assunto era, por exemplo, aumentar a carga horária dessa disciplina. Assim, e em função desses questionamentos, me propus desenvolver esta pesquisa, cuja questão é compreender as concepções e práticas de professores de Artes Visuais na escola. No segundo capítulo faço considerações sobre a metodologia utilizada e sobre alguns dados referentes aos interlocutores desta pesquisa. Também esclareço sobre a opção pelo grupo focal e de sua pertinência como método para a coleta de dados. No terceiro capítulo estabeleço um diálogo com os autores, observando a pertinência de suas idéias para a compreensão das concepções de Ensino de Arte na atualidade, volto um pouco no tempo e exponho algumas conquistas realizadas por educadores, pesquisadores em arte, buscando trazer para a atualidade as influências dessas lutas. Procuro esclarecer quais métodos estão sendo utilizados na aprendizagem artística, falando sobre o potencial da Abordagem Triangular como sistema metodológico, além de expor sobre a necessidade da experiência artística para a aquisição de conhecimento e das possibilidades de construção do saber artístico integrado a outros saberes. Procuro compreender, no quarto capítulo, as práticas de professores de Arte e as concepções de ensino dessa disciplina através das análises dos dados colhidos nos encontros dos grupos focais descritos nesta dissertação. Procuro apresentar minha questão de estudo como mais um elo na cadeia desses enunciados. Faço reflexões sobre a formação do professor de Arte e da formação continuada de professores a fim de evidenciar sobre a realidade vivida por esses atores, seus contextos, suas experiências. No quinto e último capítulo, teço algumas considerações sobre os achados desta pesquisa, apontando algumas respostas para as questões levantadas nesta dissertação. Penso que os resultados alcançados por esta investigação possam não só contribuir para uma visão ampliada do papel do professor de Arte e de sua disciplina, mas também de gerar reflexões em busca de renovação da prática pedagógica e da valorização da arte na escola. 2. O PROCESSO METODOLÓGICO A busca pelo conhecimento e pela compreensão das concepções dos professores de Artes Visuais sobre sua disciplina e do modo como estão sendo desenvolvidas as práticas dessa disciplina exigem uma proximidade do pesquisador com seu objeto de estudo. Minha experiência nessa função, atuando como professora de Arte, mostra que a realidade não é algo externo ao sujeito. O olhar e os significados atribuídos a ela fazem parte do universo do pesquisador. Optando pela pesquisa com abordagem qualitativa, organizei minha investigação em duas fases: a primeira foi realizada através de um estudo piloto composto por entrevistas individuais e a segunda, com a formação de grupos focais. A organização do trabalho nestas duas fases se consubstancia na posição de Morgan “a utilização de grupos focais em seqüência às entrevistas individuais facilita a avaliação do confronto de opiniões, já que se tem maior clareza do que as pessoas isoladamente pensam sobre um tema específico” (MORGAN, 1997 apud GONDIM, 2002, p.06). Este trabalho investigativo vai além da descrição dos acontecimentos observados, pois, extrapolando a superficialidade dos fatos, procurei compreendê-los em profundidade. Como assumi uma postura interativa durante a investigação nos grupos, o diálogo estabelecido constituiu-se fator fundamental para compreender as concepções e práticas dos professores pesquisados. Esses aspectos caracterizam a pesquisa desenvolvida dentro de uma abordagem sóciohistórica. De acordo com essa perspectiva, o diálogo estabelecido entre pesquisador e pesquisado é fundamental para a compreensão do fenômeno observado. Diz Freitas (2002): O pesquisador, portanto, faz parte da própria situação de pesquisa, a neutralidade é impossível, sua ação e também os efeitos que propicia constituem elementos de análise. Bakhtin contribui para complementar essas idéias afirmando que o critério que se busca numa pesquisa não é a precisão do conhecimento, mas a profundidade da penetração e a participação ativa tanto do investigador quanto do investigado. Disso também resulta que o pesquisador, durante o processo de pesquisa, é alguém que está em processo de aprendizagem, de transformações. Ele se ressignifica no campo. O mesmo acontece com o pesquisado que, não sendo um mero objeto, também tem oportunidade de refletir, aprender e ressignificar-se no processo de pesquisa. Bakhtin e Vygotsky tornam o processo de pesquisa um trabalho de educação, de desenvolvimento. (p.25-26) Atenta a essas características, organizei o trabalho da seguinte forma: na primeira fase da investigação realizei um estudo piloto composto de entrevistas individuais, semi-estruturadas com três professoras de Arte, selecionadas por sua participação constante em reuniões ocorridas no ano de 2005, promovidas pela Secretaria de Educação (SE), visando ao aprofundamento de discussões e debates acerca do Ensino de Arte nas Escolas Municipais de Juiz de Fora, observando também critérios subjetivos, tais como envolvimento com a prática pedagógica, disponibilidade para discussão e conhecimento teórico. 2.1 - As entrevistas do estudo piloto Considero as entrevistas individuais, realizadas através do estudo piloto em 2005, como um ensaio, um primeiro momento no campo como pesquisadora. As entrevistas individuais serviram de alicerce para a realização dos grupos focais. Entrevistar individualmente alguns professores de Arte, gravar, transcrever, analisar e relacionar suas falas com meu quadro teórico foi muito importante para garantir meu desempenho na segunda fase do trabalho, trazendo significativas contribuições para este estudo. No ano de 2005, ocorreram reuniões, promovidas pela SE, específicas para os professores do Ensino de Arte. Fui convidada a participar dessas reuniões, pois sou professora de três escolas públicas municipais. Ao mesmo tempo, percebia que esta era uma oportunidade única de estar envolvida com um número grande de profissionais das escolas municipais da área, debatendo sobre “a arte na escola” em seus vários aspectos. Portanto, era de fundamental importância iniciar um estudo, observando e registrando tais encontros. As reuniões da SE, que se estenderam por todo o ano de 2005, sempre contavam com um número razoável de participantes, cerca de 30 a 40 professores. Os professores manifestavam-se através de depoimentos e debates sobre os temas propostos pelas organizadoras. Muitos participantes não eram formados em Arte, porém estavam trabalhando com a disciplina de Arte em 2005. Algumas tinham assumido vagas em função de projetos das escolas envolvendo Arte e Literatura, sendo, em sua maioria, professoras formadas no magistério ou pedagogas. Para as entrevistas foram convidadas três professoras de Arte, selecionadas pela participação ativa nas reuniões da Secretaria de Educação (SE) em que se destacaram pela freqüência e pela participação nos debates e, também, pela disponibilidade em cederem um pouco de seus horários para fazerem as entrevistas. São professoras que possuem cargos efetivos (20 h) em escolas públicas municipais, sendo que uma delas trabalha paralelamente em uma escola particular de ensino superior. São elas: a professora Helena3 que trabalha com turmas de ensino fundamental, de 2ª a 8ª séries; a professora e artista plástica Débora que trabalha com crianças da educação infantil (3ºperíodo) numa escola de tempo integral (Caic - Centro de Atenção Integral à Criança) e turmas do 3º ano do Magistério Superior, e a professora Teresa que trabalha com turmas de 5ª a 8ª séries e com alunos da educação infantil (3º período). Através das entrevistas individuais, acredito que foi possível, não só, entender minha tarefa como pesquisadora, como também trazer reflexões importantes para as questões propostas por esta pesquisa, questões que foram aprofundadas nos grupos focais organizados na segunda fase da investigação. 2.2 – A técnica do grupo focal Acredito que a técnica do grupo focal possibilita uma coleta de dados que permite pensar, construir, compartilhar e discutir, em seu interior, temas relevantes para a compreensão da realidade do professor de arte e suas concepções acerca de seu trabalho, viabilizando, também, a auto-reflexão de cada colaborador e a ação emancipatória desse grupo diante dos demais profissionais. 3 Os nomes dos professores foram substituídos por nomes fictícios a fim de preservar suas verdadeiras identidades. A razão da escolha pelo trabalho com grupo focal se consolida na posição de Gatti (2005): O grupo focal permite fazer emergir uma multiplicidade de pontos de vista e processos emocionais, pelo próprio contexto de interação criado, permitindo a captação de significados que, com outros meios, poderiam ser difíceis de se manifestar.(p.9) O grupo focal é um método oral e grupal e identifica-se por ser uma técnica de investigação qualitativa/hermenêutica apoiada na descrição, no entendimento, na busca de significado, na interpretação, na linguagem e no discurso. A definição de Powell e Single (1996) é também esclarecedora desse método: “um grupo focal é um conjunto de pessoas selecionadas e reunidas por pesquisadores para discutir e comentar um tema, que é objeto de pesquisa, a partir de sua experiência pessoal” (1996, p. 449). Nessa técnica o pesquisador assume uma posição crítica de mediador/participante da discussão, em torno de um conjunto de questões relevantes para o grupo. De acordo com recomendações4, podemos reunir um mínimo de 3 grupos até 12 grupos com, geralmente, 6 a 10 membros: A quantidade de grupos deve considerar a homogeneidade da população em relação ao objeto da avaliação, variando de um mínimo de 3 a 4 grupos até 10 a 12 grupos no máximo. O importante é selecionar pessoas com diferentes opiniões em relação ao tema a ser discutido e o objetivo é obter não uma representação quantitativa de diferentes opiniões e setores, mas sim o relato de cada segmento sobre o objeto da avaliação. (2001) Em relação ao número de sessões, Gatti (2005) sugere que é possível conseguir os dados necessários com uma a duas sessões. Porém, esclarece que existem grupos que necessitam de ultrapassar esse número. Como minha intenção foi de formar apenas dois grupos focais, precisei estender o número de sessões a fim de obter respostas para as questões necessárias aos objetivos da pesquisa e criar, deste modo, um espaço propício de intervenção e de trocas. É importante destacar que esse tipo de trabalho permite a manifestação de uma diversidade de idéias, opiniões, conceitos, bem como perceber as normas e 4 Como operacionalizar um grupo focal (2001) Disponível em: http://www.bireme.br/bvs/adolec. Acesso em 27 de março de 2007 valores que governam o grupo. Perceber, respeitar, potencializar e valorizar tamanha riqueza, eis uma importante tarefa para o pesquisador. A presença de relatores para anotarem as discussões ocorridas durante os encontros e de equipamentos para o seu registro é fundamental nesse tipo de pesquisa. Através dos debates estabelecidos nos grupos focais, pude perceber as concepções dos professores em relação ao ensino de arte e, ao mesmo tempo, por meio desses relatos, pude compreender suas práticas. Acredito que dessa forma foi possível contribuir para a reflexão do professor, ampliando os modos como percebemos a arte e seu ensino. Criando uma interação natural nos grupos focais, pude dar voz aos professores para que resignificassem suas práticas, conforme Bakhtin (1995): “O centro organizador e formador da atividade mental não está no interior do sujeito, mas fora dele, na própria interação verbal. Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas a expressão que organiza a atividade mental, modelando e determinando a sua orientação” (Freitas,1995,p.138). Nesse sentido, diante do objetivo de conhecer as concepções e práticas de professores de Artes Visuais, a opção pela metodologia da pesquisa qualitativa parece ser a mais adequada. No dizer de Mazzoti: “o pesquisador se torna parte da situação observada, interagindo por longos períodos com os sujeitos, buscando partilhar o seu cotidiano para sentir o que é estar naquela situação”. Todo esse processo vivencial é subsídio para que a pesquisa possa construir compreensões sobre a complexidade de formas de pensar e agir em face das questões expostas levadas para os grupos e trazidas por eles. 2.3 - A construção dos grupos focais Conforme antecipado nas entrevistas individuais, muitos dos participantes das reuniões promovidas pela SE em 2005 não eram formados em Arte. Pude detectar esse problema quando, ao entrar em contato com os participantes por telefone com a finalidade de convidá-los para participar do grupo focal, vários comentaram o fato de não serem formados. Para me inteirar melhor sobre esse assunto, pedi à SE, em 2006, um documento5 em que constasse o número de professores de Artes atuantes na Rede Municipal de Educação, entre formados e não formados. Fiquei surpresa, pois o documento relatava que, naquela data, a maioria dos professores, entre efetivos e contratados, eram habilitados em Arte, realidade diferente da constatada por mim no ano anterior. Assim, foi através das listas de presença das reuniões de 2005, cedidas pelas organizadoras que, em 2006, entrei em contato com vários professores para convida-los a participarem do grupo focal, incluindo duas professoras que eu já havia entrevistado individualmente na primeira fase da investigação, são as professoras Teresa e Débora. Como não me propusera o estabelecimento de critérios rígidos em relação à escolha dos professores participantes do grupo focal, optei por trabalhar com os que haviam sido assíduos nas reuniões da Secretaria de Educação. Com o intuito de abarcar uma maior diversidade dos membros participantes, procurei trabalhar com professores que, pelo menos, atendesse ao critério de ser formado em Arte, estar trabalhando com a disciplina em sala de aula e pertencer à rede pública. Como se poderá perceber, os participantes atenderam, pelo menos, a um desses itens. Essa diversidade é saudável para as discussões e faz parte da constituição dos grupos6: O grupo deve ter uma composição homogênea, preservando certas características heterogêneas - um balanço entre uniformidade e diversidade - do grupo, o que permite que os participantes sintam-se confortáveis e livres para participar da discussão (aspectos como mesmo sexo, faixa etária aproximada, experiência profissional ou envolvimento/participação na atividade avaliada podem servir como variáveis). A escolha das variáveis vai depender do que se avalia e do para quê da avaliação (2001). Para formar dois grupos focais, tive que atender aos horários disponibilizados pelos professores e encontrar um local de fácil acesso para todos. Os encontros foram realizados no período de 15/05/06 a 07/07/06, no Centro de Educação de Jovens e Adultos – CEM, que se localiza no complexo do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas na região central da cidade de Juiz de 5 Tal documento consta do anexo 1. Como operacionalizar um grupo focal (2001) Disponível em: http://www.bireme.br/bvs/adolec. Acesso em 27 de março de 2007. 6 Fora. O grupo da noite reunia-se às quintas-feiras no horário de 18h e 30min `as 20h e o grupo da tarde às quartas-feiras no horário de 15h às 16h e 30min. O CEM atendia às nossas necessidades por ser de fácil acesso e disponibilizar uma sala de reuniões para a realização dos encontros. Sobre esse aspecto, a recomendação é que: O local para as reuniões deve favorecer a interação entre os participantes: uma sala com cadeiras confortáveis ou em volta de uma mesa é suficiente. Também recomenda-se que os encontros durem entre 1 e ½ a 2 horas e no máximo 3 horas”(2001). Organizei uma ficha de identificação7 para ser preenchida pelos membros dos grupos focais. Essas fichas continham e-mails e telefones e foram muito importantes para facilitar minha comunicação com o grupo entre um encontro e outro, enviar textos e esclarecer dúvidas. Junto com essa ficha entreguei um termo de compromisso8 que reforçava a importância da assiduidade e participação nos encontros. Acredito que esse documento dá segurança ao grupo, pois demonstra a seriedade com que nosso trabalho é feito. Ao mesmo tempo esse termo de compromisso ajuda a manter a freqüência dos membros em nossos encontros. O grupo da noite, o qual passarei a chamar de grupo N, formado por professores que trabalham ou são formados em Arte, é heterogêneo, sobretudo no que diz respeito a tempo de experiência, que varia de 4 a 23 anos. Pela diversidade dos professores, considero necessário destacar as características individuais de cada um para obtermos a devida compreensão dos dados. Interagindo como mediadora/facilitadora dos debates nos dois grupos, inicio as apresentações com meus dados: professora Valéria, formada em Educação Artística pela UFJF, mestranda em Educação pela UFJF, trabalha na rede municipal de ensino com turmas das séries finais do ensino fundamental (5ª a 8ª séries), 15 anos de magistério. Os demais membros do grupo N são: a professora Regina, formada em Arte pela UFJF, mestre em Literatura Brasileira, trabalha com Desenho Geométrico no Colégio Militar, oito anos de magistério; a professora Débora, formada em Pedagogia e formada pela vida em Arte, pai 7 8 No anexo 2 consta um modelo desta ficha. O modelo do termo de compromisso utilizado se encontra no anexo 3. artista plástico e professor de Desenho e Pintura, especialista em Arte e Educação Infantil pela UFJF, professora de Artes da rede municipal em turmas de educação infantil e professora de Arte do curso de Pedagogia da Faculdade Particular do Instituto Grambery, 23 anos de magistério; a professora Teresa, formada em Desenho e Plástica pela UFJF, trabalha com a disciplina de Artes na rede municipal de ensino com turmas de educação infantil e ensino fundamental, 23 anos de magistério; a professora Marta, formada em Educação Artística pela UFJF, trabalha com a disciplina de Artes na rede municipal de ensino com turmas de educação infantil, séries iniciais e projeto da 3ª idade, 4 anos de magistério; a professora Rosa, formada em Educação Artística pela UFJF, que trabalha com Desenho Artístico em oficinas do CEM, 11 anos de magistério. Além de Patrícia, aluna de 7º período do curso de Arte, que participou como redatora e tem experiência de estágio em escolas da rede pública municipal de ensino e Andressa, aluna do 3º período do curso de Arte, que ajudou nas filmagens dos encontros. O grupo focal da tarde, que passarei a chamar de grupo T, seria formado por seis professores, porém três não compareceram. Cheguei a fazer contato com os professores ausentes para me certificar se estariam presentes no próximo encontro. Uma das pessoas me disse que não poderia comparecer e as outras duas, embora tenham reiterado a intenção de participar do grupo focal, nunca apareceram. Optei por continuar trabalhando com um grupo menor, de apenas três membros, primeiro por respeito àqueles que se disponibilizaram em participar e, segundo, porque mesmo com um número reduzido esse grupo traria contribuições para nossos estudos e também para os próprios membros envolvidos. São membros do grupo T: André, que é artista plástico e professor da Rede Municipal de Ensino atuando de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, formado em Educação Artística pela UFJF, 6 anos de magistério, com projeto aprovado pela Lei Murilo Mendes: “Mestres das artes visitam a escola”; a professora Elisa, professora de Artes da rede municipal nas 1ª, 5ª e 6ª séries do ensino fundamental e nas escolas da rede estadual de ensino nas 7ªe 8ª séries do ensino fundamental e 1º ano do ensino médio, formada em Desenho e Plástica pela UFJF, 27 anos de magistério e a professora Rosane que trabalha nas 1ª, 3ª e 4ª séries do ensino fundamental na rede pública municipal e 5ª a 8ª séries do ensino fundamental nas escolas da rede Estadual de ensino, formada em Educação Artística pela Fundação Escola Guignard em Belo Horizonte, 18 anos de magistério. Essa composição dos grupos proporciona uma riqueza de pontos de vista. Ao mesmo tempo, percebe-se que os principais aspectos debatidos coincidem nos dois grupos, o que nos oferece uma dimensão global das questões que envolvem o Ensino de Arte. Realizei um número maior de sessões não apenas para compensar um número menor de grupos formados, mas também por sentir necessidade de um aprofundamento maior das questões propostas e proporcionar maior interação entre os membros dos grupos. Em tais sessões foram utilizados recursos variados, na seguinte ordem: um auto-retrato modelo para que cada membro participante elaborasse o seu próprio auto-retrato (nem todos fizeram o “dever de casa”), um texto sobre o contexto atual do ensino de arte, um texto sobre os PCN´s Arte, fichas com pequenos trechos de falas de Vygotsky, um questionário com perguntas direcionadas ao foco das questões debatidas e cenas de filmes que discutem a questão da educação e da arte. Os auto-retratos9 foram usados como dinâmica para conhecer o grupo, permitir espaços de falas no início dos encontros e, ao mesmo tempo, perceber como os professores fazem leituras de imagens. Nesse sentido, as cenas dos filmes apresentadas aos professores foram utilizadas exatamente com essa mesma intenção de observar como cada membro do grupo faz a leitura da imagem, como interpretam as cenas, como fazem a contextualização das obras. Concluídas as etapas de transcrição das falas dos interlocutores, organização e classificação do material coletado, mergulhei nas análises, sempre operando com conceitos do referencial teórico. Acredito que os procedimentos realizados, juntamente com os documentos anexados ao final deste estudo, garantem o rigor desta pesquisa. As transcrições das falas selecionadas e inseridas na análise dos dados são documentos que garantem ao leitor acesso ao “material bruto” para que possa tirar suas próprias conclusões, atitude que também contribui para a confiabilidade e a legitimidade das interpretações feitas e dos resultados alcançados nesta dissertação. 9 Os auto-retratos produzidos se encontram no anexo 4. 3. DIALOGANDO E INTERAGINDO COM OS AUTORES Para realizar a tarefa de compreender as concepções e práticas de professores de Artes Visuais, é preciso compreender o processo de Ensino de Arte na escola, o que torna necessário abordar não apenas uma questão, mas várias questões, as quais se mostram desafiadoras. Considero que a escola deve ser porta-voz de novos conceitos sobre a arte, conceitos que irão se refletir na aprendizagem e na sociedade. A responsabilidade pela descoberta das possibilidades da arte que podem ser realizadas na escola é do professor de Arte. Por isso, é preciso saber qual é a visão e a prática desses profissionais e qual é o espaço destinado a essa prática. O referencial teórico, alicerçado numa abordagem sócio-histórica, oferece as bases para a análise desse estudo sobre o Ensino de Arte e seus atores. Compreendo o professor como aquele que faz a mediação de conhecimentos por meio de um diálogo democrático, e não aquele que impõe conhecimentos de forma autoritária. O professor deve compreender que seus alunos têm, cada um, o seu tempo de aprendizagem. Uma aprendizagem que se dá na mediação entre professor e aluno, mas que pode acontecer através de colegas, livros, imagens, cinema, teatro, mídias. Uma aprendizagem que acontece no coletivo e que ganha novo sentido na individualidade de cada interpretação. O professor mediador é aquele que “está entre”, interagindo, propondo, considerando, construindo e aprendendo junto com seus alunos. Assim, o professor mediador em Artes Visuais deverá estar atento às possibilidades de incorporação do conteúdo artístico no dia-a-dia de seus alunos, intervindo no sentido de garantir encontros com o objeto de arte. Nessa perspectiva, o foco desta dissertação está relacionado a uma das linguagens artísticas, as Artes visuais, buscando analisar as concepções e práticas dos profissionais que trabalham essa linguagem na escola. Para tal, através da análise reflexiva do discurso dos professores de Arte, colocam-se as seguintes questões: (a) como ensinam arte?; (b) a quem ensinam arte?; (c) que tipo de arte ensinam? Esse diálogo está dividido em quatro sessões que se entrelaçam. Como existem idéias bastante comuns entre os autores, o trabalho torna-se coeso, viabilizando as análises e os debates. 3.1 - A Função da arte na escola Através de leituras, reflexões e diálogos sobre os fazeres pedagógicos em arte, pude ir construindo um pensar que desse suporte a este trabalho. Em diversos momentos desta pesquisa surgiram questionamentos sobre a função da arte na escola. Li e ouvi testemunhos do envolvimento de alunos com projetos de arte cujos resultados foram surpreendentes. Nestes momentos surgia a questão: se a arte é tão importante por que sua desvalorização na escola? Esta é minha indagação constante. Apresento algumas definições que ajudam a clarificar quais são às funções atribuídas à arte na escola. Podemos buscar a contribuição de Hernandez (2000): ...quando um estudante realiza uma atividade vinculada ao conhecimento artístico, a pesquisa evidenciou algo que, por óbvio, muitos esquecem: que não só potencia uma habilidade manual, desenvolve um dos sentidos (a audição, a visão, o tato) ou expande sua mente, mas também, e sobretudo, delineia e fortalece sua identidade em relação às capacidades de discernir, valorizar, interpretar, compreender, representar, imaginar, etc. o que lhe cerca e também a si mesmo. (p.42) Ainda poderíamos citar Barbosa (1991), quando diz: Arte não é apenas básico, mas fundamental na educação de um país que se desenvolve. Arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário, e é conteúdo. Como conteúdo, arte representa o melhor trabalho do ser humano. (p.4) Além desses autores que apresentam essas definições para a função da arte na escola, existem outros que, em seus postulados, reconhecem na arte uma linguagem complexa e fundamental para a vida do ser humano. Vygotsky (2004) escreveu um capítulo sobre a Educação Estética em seu livro Psicologia Pedagógica no qual faz análises e críticas às concepções do Ensino de Arte de sua época. Assim define Vygotsky: “Educar esteticamente alguém significa criar nessa pessoa um conduto permanente e de funcionamento constante, que canaliza e desvia para necessidades úteis a pressão interior do subconsciente”(p.338,339). Para reforçar ainda mais o papel da arte na educação como um potente instrumento para o desenvolvimento individual e cultural, podemos ressaltar o dizer de Barbosa (2005a): A arte como linguagem aguçadora dos sentidos transmite significados que não podem ser transmitidos por meio de nenhum outro tipo de linguagem, tal como a discursiva ou a científica. Dentre as artes, as visuais, tendo a imagem como matéria-prima, tornam possível a visualização de quem somos, de onde estamos e de como sentimos (p.99). Perceber a arte como uma “forma outra de chegar ao conhecimento” me levou a leituras diversas. Leituras que falavam sobre a função da arte na escola e questionavam sobre sua desvalorização. A despeito dessa desvalorização registram-se vários esforços no sentido de se buscar elevar a disciplina ao patamar que ela merece ocupar na escola, resgatando-a de uma posição marginalizada. A esse respeito, Biasoli (1999) assim se manifesta: A desvalorização da arte e de seu ensino é fruto de um processo histórico, uma herança de nossa colonização ora concebida como trabalho manual, ora como acessório cultural de refinamento da elite intelectual, exatamente pelo fato de a idéia da arte não ser considerada uma forma de conhecimento. O conhecimento, historicamente, está relacionado ao racional, à alma, e é tido como algo superior, ao passo que a arte está relacionada ao corpo, ao sensível e, por isso, é considerada algo inferior.(p.80) Na história do Ensino de Arte as contradições são constantes, os desvios conceituais estão presentes, tal como explica essa mesma autora (1999): Ao longo de sua trajetória histórica – e ainda hoje -, a arte e seu ensino sofrem a ação de dois fatores distintos: o político e o conceitual. O político, pelo preconceito da classe dirigente em relação ao ensino da arte nas escolas. E o conceitual, pela desvalorização da arte como área de domínio específico do conhecimento humano por parte da classe dominante e, talvez, por uma fração dominante – a dos próprios professores de arte ( p.80). Sobre esse aspecto, é importante ressaltar que as próprias instituições, Secretarias Municipais de Educação e Escolas desvalorizam a Arte como disciplina quando reservam a ela uma carga horária mínima. O professor de Arte tem um contato muito pequeno com as diversas turmas existentes na escola e uma produção bem menor do que a desejada. A partir da nova lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB nº 9394/96, sancionada em 20 de dezembro de 1996, o Ensino de Arte torna-se obrigatório, passando a constar do artigo 26, parágrafo 2º, nos seguintes termos: “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. Embora a disciplina conste como componente curricular obrigatório, segundo a lei, sabemos que apenas a prescrição legal não é certeza de sua legitimidade e consolidação no espaço escolar. Para que tal ocorra, é preciso que a instituição escolar esteja aberta à novas análises e abordagens interdisciplinares, instituindo-se como um campo predisposto a mudanças. Neste sentido, o papel desempenhado por professores e pesquisadores do Ensino de Arte tem sido fundamental, pois estão abrindo novas perspectivas para o reconhecimento da disciplina no currículo escolar. O Ministério da Educação (MEC) propõe, no final do ano de 1997 e início de 1998, os Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNs, sugerindo atividades artísticas para uma melhor assimilação do conhecimento nas diversas áreas do saber, revelando a natureza multidisciplinar da arte. A poesia, a música, as dramatizações, as leituras de imagens, o artesanato, entre outras atividades, são mescladas ao dia-a-dia de professores e alunos. Os PCN-Arte estabelecem três diretrizes que retomam, embora não especifiquem diretamente, os eixos da Abordagem Triangular. Essa abordagem será tratada nesta dissertação posteriormente. Importa saber no momento que essa proposta, defendida por Ana Mae Barbosa, é bastante conhecida pelos professores de Arte dos dois grupos focais desta investigação. Com a adoção dessas diretrizes, os PCN-Arte buscam estabelecer uma postura coerente com as investigações desenvolvidas no campo do Ensino de Arte, ajudando a fortalecer as especificidades da arte como área de conhecimento. Tais documentos propõem a utilização de quatro linguagens artísticas: Artes Visuais, Música, Dança e Teatro, porém não esclarecem como implantar estas quatro áreas dentro do currículo escolar. A falta de esclarecimento gera uma visão de professor polivalente, capaz de ensinar todas as linguagens. Assim afigura-se mais um dos desafios para o Ensino de Arte hoje: como operacionalizar a implantação das diversas linguagens artísticas nas escolas, principalmente nas escolas públicas? A esse respeito, esclarece Penna10: Uma questão crucial, portanto, é o professor que irá colocar em prática os PCN-Arte: qual deverá ser a sua qualificação? A característica geral da proposta, que se direciona para o resgate dos conhecimentos específicos da arte, a complexidade dos conteúdos nas diversas modalidades artísticas, tudo isso parece indicar a necessidade de professores especializados em cada linguagem. Mas, na verdade, não há definições claras sobre a formação do professor de Arte, nem nos PCN, nem na atual Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Por conseguinte, como muitas vezes a contratação de professores está submetida à lógica de custos e benefícios, acreditamos que dificilmente as escolas contarão - a curto ou médio prazo - com professores especializados em cada uma das quatro modalidades artísticas dos PCN-Arte. Como a própria autora irá afirmar em seu texto, será preciso que cada escola defina a melhor maneira de utilizar uma das linguagens artísticas, elaborando uma proposta pedagógica condizente com as necessidades da comunidade escolar, garantindo uma prática pedagógica de qualidade. 10 Artigo publicado no boletim Arte na Escola. Disponível em www.artenaescola.org.br . Acesso em 05/06/06. O Ensino de Arte na contemporaneidade tenta abarcar tanto o conceito de arte como experiência cognitiva quanto o conceito de arte como instrumento de mediação cultural. Pelo fato de vivermos em uma época em que a informática, os meios de comunicação, a publicidade estão presentes na vida cotidiana, é recorrente o uso da expressão de que estamos na era da imagem. Autores como Hernández (2000) fazem uma análise muito apropriada das mudanças educativas e do envolvimento da cultura visual nesse processo: Se o ensino de arte quiser chegar a ser um veículo de conhecimento e contribuir para uma visão intercultural e alternativa diante da homogeneização da atual cultura global e tecnológica, é necessária uma mudança que se vincule à transformação da formação dos professores e que possa voltar a pensar a função da escolaridade (p.89). Nesse aspecto, o autor sinaliza para a necessidade de levar em conta os debates em torno da cultura visual e do papel que a educação e a arte exercem na sociedade. Os diversos projetos de arte desenvolvidos nas escolas são resultados da necessidade de contemplar as propostas dos PCNs, estabelecendo uma inter-relação entre os códigos culturais dos diferentes grupos e atentos à pluralidade dos aspectos culturais do contexto escolar, buscam situar a arte como fenômeno da cultura humana que difere de um grupo cultural para outro. Delineado o quadro e partindo do princípio de que arte é conhecimento, de que arte é uma “linguagem aguçadora dos sentidos”, é possível reafirmar a questão proposta por essa pesquisa que tem como objetivo compreender as concepções e práticas de professores de artes visuais na escola. 3.2 - A Formação dos Professores de Arte Para abordar o trabalho de professores de Arte, é necessário entender os modos pelos quais se aprende arte, visto que muito daquilo que se ensina é reflexo de vivências pessoais e acadêmicas. Envolve valorizar o profissional, apostar no seu potencial inventivo, conhecer e debater sobre a sua formação e atuação. Portanto, procuro encaminhar esta dissertação no sentido de que possamos compreender o professor de arte, desvelando o sentido e a função do seu próprio trabalho. Considero que o Ensino de Arte seja modelado pelo mundo da arte em seu contexto mais amplo, constituindo-se como um reflexo dos valores do mundo da arte. Acredito que existe uma ligação entre o que reconhecemos como arte e as maneiras de ensiná-la. Nas últimas décadas as produções artísticas contemporâneas, as novas tecnologias e as discussões em torno do Ensino de Arte levaram a mudanças nas formas de ensinar essa disciplina. Como diz Wilson (in Barbosa, 2005a): “se quisermos saber o futuro do ensino da arte, a bola de cristal que devemos consultar é o mundo da arte contemporânea”(p.90). E qual é o delineamento do Ensino de Arte na atualidade? O perfil do Ensino de Arte hoje está intimamente ligado ao desenvolvimento cognitivo e a todas as operações envolvidas na cognição. E quais seriam os métodos adotados pelo professor de Arte para conseguir o desenvolvimento cognitivo do aluno? Para responder a tal questão, é importante destacar que há muito se vem discutindo sobre a questão da função exercida pelo Ensino de Arte nas escolas. Em 1989, organizou-se, em São Paulo, o III Simpósio Internacional de Ensino da Arte e sua História. Professores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros discutiram uma concepção de Ensino de Arte baseado na epistemologia da arte e no modo como se aprende arte, a metodologia do DBAE – discipline-based arteducation, ou seja, Arte/Educação como disciplina. Nessa metodologia estavam incluídas quatro disciplinas ou áreas distintas: 1) produção artística, 2) história da arte, 3) crítica de arte e 4) estética. Esse método faz parte do projeto Getty Center for Education in the Arts, Fundação Getty para Educação em Arte, criado para pesquisar as causas do fraco desempenho do ensino da arte nas escolas americanas” (Osinski, 2001, p.106). Dados de pesquisas realizadas no início da década de 1990 apontavam para o fato de que “a concepção do Ensino de Arte como expressão pessoal por meio do fazer artístico e para o desenvolvimento da criatividade e da autoliberação” (Biasoli 1994, p.28-68) ainda eram os objetivos principais dos professores de Arte. Porém, a Abordagem Triangular elaborada por Barbosa (1991) vem interferindo significativamente na qualidade do trabalho desenvolvido pelos profissionais de Ensino de Arte. A proposta metodológica da autora promove a fusão da crítica de arte e estética, defendida pela DBAE, num outro elemento educativo, a leitura da obra de arte. Portanto, a abordagem triangular apresenta três vértices metodológicos: 1) História da arte (ou contextualização); 2) Fazer Artístico (ou produção) e 3) Leitura da Obra de Arte (ou apreciar). Nas palavras de Barbosa (1991): Um currículo que interligasse o fazer artístico, a história da arte e a análise da obra de arte estaria se organizando de maneira que a criança, suas necessidades, seus interesses e seu desenvolvimento estariam sendo respeitados e, ao mesmo tempo, estaria sendo respeitada a matéria a ser aprendida, seus valores, sua estrutura e suas contribuições específicas para a cultura. (p.35) Dessa forma, uma nova concepção estava surgindo no Ensino de Arte, no Brasil dos anos 1990, incluindo conceitos ligados à cognição, à construção do pensamento a partir da imagem: “Como a matemática, a história e as ciências, a arte tem um domínio, uma linguagem e uma história”(Barbosa, 1991, p.6). Ensinar arte envolve trabalhar a criação (produção/fazer), a leitura da obra de arte (apreciação) e a contextualização, vértices do triangulo proposto por Barbosa a partir das condições estéticas e culturais da contemporaneidade. Hoje essa forma triangular vem sendo transformada, por professores e pesquisadores, em um verdadeiro zig-zag11: 11 Texto publicado em Diálogos e Reflexões:Mary Vieira. SP:Centro Cultural do Banco do Brasil , 2005. Hoje a metáfora do triângulo já não corresponde mais à sua estrutura. Nos parece mais adequado representá-la pela figura do zig-zag, pois os professores nos têm ensinado o valor da contextualização tanto para o fazer como para o ver. O processo pode tomar diferentes caminhos: /Contextualizar\ Fazer/ Contextualizar\ Ver ou Ver/Contextualizar\fazer/contextualizar\ ou ainda Fazer/ Contextualizar\ Ver/ Contextualizar\. O fazer sempre esteve presente nas aulas de arte, porém o que se deve questionar são os processos de criação desenvolvidos nessas aulas. Na abordagem triangular, o fazer (produção,criação) não acontece sozinho, ele vem acompanhado do apreciar e do contextualizar. A produção artística ajuda o aluno a pensar de forma inteligente sobre as imagens visuais. Suas criações podem conter força expressiva, coerência, inventividade. O domínio da técnica irá facilitar as possibilidades expressivas do aluno e estimular novas criações. Observo que, quando os alunos dizem não saber fazer, estão se referindo ao fazer estereotipado e não ao fazer que envolve sentir e perceber o mundo e os elementos que o compõem. O professor de Arte tem a possibilidade de capacitar alunos para reproduzirem estereótipos ou estimular-lhe a criação, a leitura e a fruição. O apreciar e o contextualizar acabam levando os professores de Arte a proporem releituras. Ana Amália Tavares Bastos Barbosa (in Barbosa,2005a) possui uma boa definição para a prática da releitura: O que quer dizer releitura? Reler, ler novamente, dar novo significado, reinterpretar, pensar mais uma vez...É olhar o mundo a nosso redor e criar a partir de tantas coisas que vemos no mundo, na arte, na TV... enfim tudo aquilo que nossa retina registra pode ser usado”(p.145) Na releitura o que importa é apropriar-se da maneira como os artistas realizam seu trabalho, apoderar-se dos elementos visuais contidos na composição e a partir daí criar seus próprios trabalhos. Dar aos alunos elementos para que possam conhecer arte, para que possam criticar e escolher aquilo que vão ver na TV, no cinema, nas ruas, nos sites, este é um objetivo que pode ser alcançado através da releitura. Entretanto, a prática de muitos professores tem sido de solicitar aos alunos para, simplesmente, copiarem o que vêem. Reduzindo o trabalho de releitura a cópia, os professores estão inviabilizando as possibilidades de criação, de estabelecerem relações com outros artistas. Utilizar elementos, cores, estilos, faz parte da interação entre o aluno e a obra apresentada. Ao proceder à releitura o aluno imprimirá novo significado ao trabalho, apoiado no artista observado. A leitura de imagens na atualidade é vista como apreciação, como uma interpretação cultural, uma leitura do mundo e de nós mesmos. Esse vértice do triângulo será analisado de forma mais ampla nesta dissertação, na medida em que o trabalho de pesquisa demonstrou uma necessidade maior de se exercer uma educação para o olhar. A tendência contemporânea de Ensino de Arte coloca a necessidade da leitura de imagens em sala de aula. A leitura é aqui entendida não apenas como contemplação, abrangendo, antes, uma função de interpretação, considerando a obra de arte como texto. Esse entendimento será aprofundado nos diálogos estabelecidos com os postulados de Bakhtin que serão discutidos, posteriormente, neste capítulo. É importante salientar, entretanto, que este trabalho pretende, não tratar profundamente a questão da leitura de imagens, mas sim salientar alguns pontos que tornarão visível o trabalho do professor de Arte no escopo desse vértice da abordagem triangular. O primeiro ponto a saber é como o professor de Arte está sendo preparado para fazer leitura de imagens e, conseqüentemente, como isso irá refletir em sua prática na escola. Percebo que, no curso de Arte, raramente são ofertadas disciplinas, com a finalidade de introduzir os licenciandos em processos de leitura de imagens. Isso dificulta as possibilidades de utilização e de entendimento do processo de leitura que podem e devem ser realizados na sala de aula. Um segundo ponto a ser analisado refere-se ao modo como as leituras são feitas em sala de aula. Em relação a essa leitura, a semiótica oferece uma analise da produção e apreensão de sentidos em textos diversos que podem fornecer subsídios para a interpretação de imagens no campo das artes e da educação. A semiótica busca descrever e analisar o que diz o texto e como esse enunciado acontece. São analisadas as qualidades sensíveis da imagem, cores, formas e conteúdos expressos pelo texto. O professor poderá fazer uso desses recursos para desenvolver no aluno um olhar sensível e critico em relação às imagens, ao mundo ou a si mesmo. Quando os alunos interpretam o que vêem, estão revelando os contextos por eles vivenciados, portanto o professor de Arte não deve impor sua interpretação. A compreensão estabelecida faz parte de uma construção social, gerada pelo contexto cultural do aluno. Assim, podemos ler obras de arte como expressões da generalidade humana, que são atuais em qualquer tempo e também podemos ler imagens efêmeras, produtos da mídia contemporânea, que são direcionadas à movimentação da engrenagem do consumo capitalista. Analisadas sob essa perspectiva as imagens fazem-nos compreender o homem como ser social, não apenas na sua condição de gênero, raça ou nação, mas em sua heterogeneidade cultural, como transformador do mundo e produtor de novas realidades. Como contextualizar e ler imagens são vértices muito próximos, não raro se confundem nas interpretações feitas pelos professores. Contextualizar é analisar a cultura circundante, o contexto, o campo de referências do artista e do aluno. A contextualização ajuda o aluno a conhecer um pouco do tempo e do lugar onde a obra se dá. A análise do contexto pode ser feita pela via histórica, social, política, cultural, etc, sempre que possível fazendo paralelos com as questões surgidas na contemporaneidade. Para que aluno e professor possam fazer leituras, é preciso inseri-las num contexto. Para educar é necessário estar atento ao contexto do aluno. Nesse sentido, podemos citar Freire (1982): Ler é adentrar nos textos, compreendendo-os na sua relação dialética com seus contextos. O contexto do escritor e o contexto do leitor. Ao ler eu preciso estar informando-me do contexto social, político, ideológico, histórico do autor. Eu tenho de situar o autor num determinado tempo.(p. 4-5) Assim algumas questões se nos afiguram: Como acontece a preparação do professor para lidar com essas novas concepções de ensino da Arte? E os profissionais que já estão trabalhando? Será que estão renovando seus modos de ensinar Arte? Observa-se que a prática da disciplina Arte, muitas vezes, está desvinculada de uma teoria, de uma história, contradizendo ao perfil exposto acima e provocando desconfianças de outras esferas da educação. Uma arte descontextualizada, baseada no fazer artístico. Uma possível causa para esse descompasso entre o que se define como Ensino de Arte e a prática no “chão da escola” é que nem todos os que estão trabalhando arte na escola são formados em Arte e, mesmo os que são formados, carregam consigo falhas na formação. A estrutura do curso de Arte, muitas vezes, está centrada no domínio da técnica, o que leva os alunos da licenciatura, ao chegarem à Prática de Ensino, a enfatizarem o fazer artístico envolvendo técnicas de pintura, mosaico, cerâmica,... e à utilização de instrumentos para a execução dos trabalhos artísticos, como ilustração e não como campo de conhecimento. Em relação ao fato de as aulas de Arte estarem sendo ministradas por professores de outras áreas, alega-se que não há professores formados em Arte em número suficiente para atender às necessidades das escolas, principalmente nas séries iniciais, resultando num ensino de pouca qualidade, assumido por pessoas que têm “boa vontade” e pouco conhecimento de Ensino de Arte, o que é extremamente desastroso, pois as séries iniciais e educação infantil são os períodos mais propícios para o estimulo à criação e ao desenvolvimento do gráfico como expressão. Sobre esse fato, Martins (1998) irá dizer: De fato, uma série de desvios vem comprometendo o ensino de arte. Ainda é comum as aulas de arte serem confundidas com lazer, terapia, descanso das aulas “sérias”, o momento para fazer a decoração da escola, as festas, comemorar determinada data cívica, preencher desenhos mimeografados, fazer o presente do Dia dos Pais, pintar o coelho da Páscoa e a árvore de Natal. Memorizam-se algumas “musiquinhas” para fixar conteúdos de ciências, faz-se “teatrinho” para entender os conteúdos de história e “desenhinhos” para aprender a contar. (p.12) Percebe-se que é fundamental que o professor que atua com crianças pequenas tenha um conhecimento maior sobre arte, mesmo que na escola exista o professor especialista. A escola cobra o “trabalhinho” do professor de Arte, espera dele atitudes como as descritas por Martins e, muitas vezes, o professor que se nega a realizar esse tipo de trabalho não é compreendido pela comunidade escolar. Nesse contexto, o professor de Arte precisa desmistificar os conceitos e pré-conceitos sobre a arte e seu ensino, na tentativa de mudar a visão de senso comum arraigada na escola. Isso envolve perceber uma arte que não está descontextualizada do mundo e de seus saberes. Como o professor é um agente de formação cultural, um construtor de relações entre arte e vida, o trabalho desse profissional envolve desenvolver na criança e no adolescente a capacidade de desvelar o que está contido na obra de arte, interagindo através da leitura, decodificando a gramática visual, transportando seus significados para o mundo real através da expressão. Sem dúvida, é fundamental que o professor conquiste um conhecimento que o faça sentir-se seguro frente ao conteúdo a ser trabalhado, uma vez que esse conhecimento deve ser subsídio para o desenvolvimento das percepções, interpretações e reflexões sobre o objeto artístico. Nesse sentido a formação continuada é a melhor maneira de se manter atualizado e consciente de suas atribuições, pois a arte está em constante mutação. Entretanto, faz-se necessário ressaltar que o fato de se sentir seguro não significa que o professor seja capaz de esgotar o assunto. Quando se trata de arte, isso é impossível, até porque as interpretações a respeito do objeto artístico são pessoais, impossibilitando ao professor abranger todas as interpretações possíveis. Na escola, podemos perceber que alguns significados são melhor expressos através de imagens visuais ou por trabalhos que envolvam movimento corporal, por exemplo. Aquilo que não podemos articular em palavras podem ser expressos pela arte. Como diz Eisner (2005b): “A arte nos ajuda a conhecer o que não podemos articular. À medida que as escolas queiram auxiliar os estudantes a conhecer, as artes tornam-se recursos educacionais potentes”(p.92). Dessa feita, afigura-se a importância de a proposta de ensino balizar-se em uma abordagem sócio-histórica, através da qual as práticas realizadas nos permitirão desvelar os processos implícitos nas obras de arte. É o que procuro apresentar ao longo deste estudo. 3.3 - Arte: uma linguagem carregada de sentidos Encontrei parceria nas idéias de Vygotsky e, através de um aprofundamento em suas obras, foi possível encontrar uma concepção de arte comprometida e engajada com sua visão sócio-histórica do desenvolvimento do ser humano. O autor vê a arte como um produto do social. Considero importante ressaltar que foi por intermédio da arte que Vygotsky chegou à psicologia: A Literatura e a Arte sempre foram a sua paixão e a elas se dedicou teórica e praticamente. Foi diretor de teatro, fundou uma revista dedicada à crítica e à Literatura de vanguarda e participava de círculos literários. Os trabalhos que empreendeu na primeira metade dos anos vinte relacionavam-se a temas de Estética, Crítica e Teoria da Literatura. Aos 19 anos, começou a escrever um artigo sobre Hamlet, notável por sua criatividade e sutileza crítica. Esse artigo foi incluído no livro que resume suas investigações dos anos de 1915 a 1922 no terreno artístico: Psicologia da arte. O ponto chave desse livro é o que faz uma obra de arte ser artística? (Freitas,1995,p.75) Os conceitos definidos por Vygotsky, em sua tese de doutorado Psicologia da Arte, são conceitos do mundo da arte e não especificamente da arte no processo educativo. Contudo, suas idéias são extremamente coerentes e podem ser relacionadas a outros textos escritos pelo autor especificamente voltados para a educação estética. Em sua tese, o autor faz uma análise das teorias psicológicas relativas à arte de sua época. Vygotsky determina três teorias de arte sujeitas a um exame crítico. A primeira delas é uma teoria puramente intelectual, que vê a arte como conhecimento. O ponto principal dessa teoria baseia-se no fato de que os mesmos elementos encontrados na palavra são encontrados, também, na obra de arte: Verifica-se, pois que a poesia ou a arte são modos específicos de pensamento, que acabam acarretando o mesmo que o conhecimento científico acarreta, só que o faz por outras vias. A arte difere da ciência apenas pelo seu método, ou seja, pelo modo de vivenciar, vale dizer, psicologicamente. (Vygotsky, 1999, p.34) Para fazer uma contraposição à teoria intelectual, surge outra teoria psicológica, uma teoria que vê a arte como procedimento. Seus teóricos tentam centralizar a forma artística pura independentemente de qualquer conteúdo. A composição ou construção do material é considerada procedimento em arte, subentendendo por forma toda disposição artística do material pronto, feita com a finalidade de causar um determinado efeito estético. Sobre esse mesmo aspecto, Vygotsky irá afirmar que a seleção do material para a construção, a escolha do tema e o conteúdo tratado, ou seja, a estrutura da obra de arte não é indiferente em termos de efeito psicológico do todo da obra. Segundo a corrente formalista, os elementos citados anteriormente não desempenhariam nenhum papel na obra de arte, baseando-se apenas nas propriedades externas da obra. Diz Vygotsky (1999): “De fato, o princípio básico do formalismo mostrou-se totalmente incapaz de revelar e explicar o conteúdo psicossocial historicamente mutatório da arte e a escolha do tema, do conteúdo ou do material condicionado àquele conteúdo” (p.79). A terceira teoria, analisada e criticada por Vygotsky, é aquela que fala da relação entre a arte e a psicanálise. As duas teorias psicológicas da arte já examinadas mostraram que, enquanto nos limitarmos à análise dos processos que ocorrem na consciência, dificilmente será encontrada a resposta para as questões fundamentais da psicologia da arte. As causas do efeito artístico estão ocultas no inconsciente e, penetrando nele, conseguiremos estudar os problemas da arte. Dois equívocos acometem essa teoria, o desejo de reduzir, a qualquer custo, todas as manifestações do psiquismo humano à mera atração sexual e o de desconsiderarem os momentos conscientes no ato de vivenciar a arte, apagando, dessa forma, o limite entre a arte como atividade carregada de sentido e a formação sem sentido da neurose e dos sonhos. A esse respeito afirma Vygotsky (1999) que: Só abandonando integralmente a psicologia social e fechando os olhos à realidade pode-se ter a ousadia de afirmar que o escritor, em sua criação, visa exclusivamente a conflitos inconscientes, que o autor em sua obra não cumpre nenhuma tarefa social consciente (p.96). Após essas considerações sobre as teorias psicológicas da arte, considero importante ressaltar um outro capítulo onde o autor faz análises sobre a arte como catarse. O autor esclarece que a teoria da arte depende do ponto de vista que se estabeleceu nas teorias da percepção, do sentimento e da imaginação. A teoria da percepção que desempenha um papel quase que auxiliar, contém uma visão ingênua de que a arte é apenas “alegria proporcionada por coisas belas”. O autor afirma que o imbricamento entre os outros dois campos, sentimento e imaginação, é que nos dará a correta compreensão da psicologia da arte. O sentimento que surge a partir do contato com a arte é complexo e exige grande esforço daquele que procura relacionar-se com ela. Vygotsky (1999) irá procurar na literatura exemplos para mostrar esse emaranhado de idéias sobre o sentimento e suas funções. Diz ele: Veremos que o poeta, ao contrário, recorre ao dispêndio extremamente não econômico das nossas forças quando dificulta artificialmente o desenrolar da ação, excita a nossa curiosidade, joga com nossas conjecturas, leva-nos a desdobrar a nossa atenção, etc (1999, p.256). Portanto, é possível concluir que sentimento e fantasia não são dois processos separados. A fantasia é a base dos jogos infantis, das emoções que sentimos ao ver uma cena no cinema, ou seja, da ilusão estética causada pela obra de arte. As vivências podem ser fantásticas e irreais, porém as emoções suscitadas por elas são absolutamente reais. A respeito desse aspecto Eisner (2005b) aponta que: A gramática da arte é o meio pelo qual experimentamos os significados que as obras destes artistas possibilitam. As obras de arte falam o inefável, cultivam a sensibilidade, para que o sutil possa ser visto, o secreto desvelado. Em resumo, a arte nos ajuda a conhecer o que não podemos articular. À medida que as escolas queiram auxiliar os estudantes a conhecer, as artes tornam-se recursos educacionais potentes. O desenvolvimento da mente e a introspecção são duas contribuições importantes da arte, mas onde está a mágica? Nenhuma análise da arte ou justificativa de seu papel seria adequada se negligenciasse os prazeres da arte em si. A arte tem a capacidade mágica de mandar-nos à lua.12 (p.92) O termo “gramática”, segundo o dicionário, significa o sistema dos fatos de uma língua, ou ainda, o complexo dos princípios que regem uma arte ou ciência. O conhecimento em arte implica o estudo e a utilização desses princípios. Eisner irá afirmar que um programa de Ensino de Arte só consegue cumprir sua missão contemplando tanto estrutura quanto mágica. Para Vygotsky (1999), o verdadeiro sentimento causado pela obra de arte é a catarse. Afirma que: “da fábula à tragédia a lei da reação estética é uma só: encerra em si a emoção que se desenvolve em dois sentidos opostos e encontra sua destruição no ponto culminante, como uma espécie de curto-circuito” (p.270). Assim, a arte estabelece um domínio do conteúdo através da forma, ponto onde ela atinge seu triunfo. Vygotsky (1999) faz uma definição de obra de arte na qual demonstra o triunfo do homem sobre o material escolhido para a construção da obra de arte. Em suas palavras: É essa máquina mais pesada que o ar que lembra uma obra de arte. Ela escolhe como material sempre a matéria mais pesada que o ar, (...) esse peso do material está sempre contrariando o vôo, sendo sempre arrastada para baixo, e só a partir da superação dessa oposição que surge o verdadeiro vôo (p.287). Observo esse fato, quando os alunos realizam seus trabalhos gráficos. O aluno experimenta essa sensação de triunfo quando consegue desenhar num espaço bidimensional e causar a sensação de estarmos diante de um objeto tridimensional. É exatamente nesse jogo de linhas na superfície do papel que consiste a peculiaridade do gráfico como arte. A escultura e a arquitetura nos mostram também a oposição entre o material e a forma. Na escultura, o artista procura em materiais como o metal e o mármore a representação do corpo humano ou dos animais, justamente em materiais que parecem menos 12 Trecho do texto publicado no Journal of Art & Design Education, Londres, 1988, v. 7, nº.2. Tradução Fundação Iochpe e que consta do livro Arte-Educação: leitura no subsolo, organizado por Barbosa, ed. Cortez, 2005. adequados para esculpi-los. Através desses exemplos, a lei da catarse se confirma e se torna clara. Vygotsky conclui seu trabalho, no livro Psicologia da Arte, com uma relação entre arte e vida. Inicia procurando fazer uma ligação da reação estética com o significado da arte no sistema geral do comportamento humano. Lembra que seria desolador se a arte só tivesse a finalidade de contagiar as pessoas através da expressão de sentimentos alegres, animados, de dor, de medo etc. A natureza da arte implica transformação, supera o sentimento comum: A arte está para a vida como o vinho está para a uva – disse um pensador, e está coberto de razão, ao indicar assim que a arte recolhe da vida o seu material mas produz acima desse material algo que ainda não está nas propriedades desse material.(1998, p.307,308) A partir dessa análise geral das funções exercidas pela arte postuladas por Vygotsky (1999), passaremos a refletir sobre a importância dada a ela, por esse autor, no processo educativo. “Tudo que a arte realiza, ela o faz no nosso corpo e através dele, (...) desde a remota Antiguidade, a arte tem sido um meio e um recurso da educação” (p.320,321). O autor, em seu livro Psicologia Pedagógica, expõe que algumas concepções estabelecem que o sentido da estética está na distração e na satisfação. Quando enxergam o sentido sério da emoção estética, ela, normalmente, é utilizada como meio para atingir resultados pedagógicos estranhos à estética. Diz Vygotsky (2004): “Essa estética a serviço da pedagogia sempre cumpre funções alheias e, segundo os pedagogos, deve servir de via e recurso para educar o conhecimento, o sentimento ou a vontade moral”.(p.324) Tourinho13, em seu texto Transformações no ensino da Arte: algumas questões para uma reflexão conjunta, reúne alguns argumentos que, ao contrário de defender o Ensino de Arte na escola, acabam escamoteando funções como o conhecimento e a mágica: 13 Texto que faz parte do livro Inquietações e Mudanças organizado por Ana Mae Barbosa, publicado em 2002 Dentre os mais conhecidos destes argumentos para a defesa do ensino de Arte na escola – não desprezíveis, porém, nem sempre educacional e artisticamente sustentáveis – encontramos: 1. aprendizagem da Arte para o desenvolvimento moral, da sensibilidade e da criatividade do indivíduo; 2. ensino da Arte como forma de recreação, de lazer e de divertimento; 3. Arte-Educação como artifício para a ornamentação da escola e como veículo para a animação de celebrações cívicas ou familiares naquele ambiente; 4. Arte como apoio da aprendizagem e memorização de conteúdos de outras disciplinas, e, finalmente; 5. Arte como benefício ou compensação oferecida para acalmar, resignar e descansar os alunos das disciplinas consideradas “sérias”, importantes e difíceis (p.31). A autora expõe que, embora tais argumentos tragam possibilidades educativas próprias da arte, não produzem uma fundamentação sólida para seu ensino. Essa descaracterização do Ensino de Arte faz parte dos questionamentos de Vygotsky. O autor critica uma literatura infantil falsa e de estilo artístico grotesco. Ressalta que eram retirados da obra de arte os seus elementos não artísticos, usando a obra como pretexto para fazer suposições acerca de algumas regras morais, perdendo seu valor autônomo. A obra de arte passava a ser “uma espécie de ilustração para uma tese moral de cunho geral” (2004, p.328). Dessa forma não só se impossibilita a construção de hábitos e habilidades estéticas, além de se desviar a atenção do aluno da própria obra para o seu sentido moral, criando uma aversão estética pela literatura clássica. Percebo que o professor de Arte deve estar atento ao fato de que os trabalhos artísticos possuem uma estrutura e um conteúdo que não podem ser camuflados. Aceitar e admitir que a educação estética servirá como meio de ampliação de conhecimento dos alunos não implica substituir o estudo dos fatos e leis estéticas pelo estudo dos elementos sociais contidos nas obras de arte. Sobre esse aspecto diz Vygotsky (2004): a obra de arte nunca reflete a realidade em toda a sua plenitude e verdade real mas é um produto sumamente complexo da elaboração dos elementos da realidade, de incorporação a essa realidade de uma série de elementos inteiramente estranhos a ela (p.329). Desse modo, percebe-se que a literatura é encarada, muitas vezes, como uma cópia da realidade, e muitos fatos, traços individuais e específicos são obscurecidos. A realidade da arte não coincide com a realidade vivida, que aparece na arte modificada, transformada por sentidos intransferíveis para a vida. O último equívoco discutido por Vygotsky (2004) é quando a pedagogia tradicional “reduz a estética ao sentimento do agradável, ao prazer pela obra de arte e vê nela um objetivo em si, noutros termos, reduz todo o sentido das emoções estéticas ao sentimento imediato de prazer e alegria que elas suscitam na criança” (p.331). Como resultado dessa visão torpe da arte, a escola deixa escapar o verdadeiro significado do Ensino de Arte, obtendo resultados contrários aos esperados. Portanto, o professor de Arte deve procurar contemplar conhecimento, estrutura e mágica, não deixando que a Arte se transforme em suporte para as outras disciplinas. Considero importante ressaltar um outro aspecto analisado pelo autor que está relacionado à vivência com a arte. A vivência artística é uma das categorias que serão analisadas no capítulo dedicado à análise dos dados desta dissertação. Compartilho das idéias de Vygotsky de que a vivência estética não é passiva, o contemplador é estimulado a elaborar uma resposta. O autor comenta que um quadro não representa um pedaço de pano quadrangular com tinta aplicada sobre ele e que quem o observa interpreta esse pano e essas tintas como a representação de pessoas, coisas ou animais. Esse trabalho de transformação do tecido pintado é um trabalho realizado pelo psiquismo do receptor. Diz Vygotsky (2004): Uma obra de arte vivenciada pode efetivamente ampliar a nossa concepção de algum campo de fenômenos, levar-nos a ver esse campo com novos olhos, a generalizar e unificar fatos amiúde inteiramente dispersos. É que, como qualquer vivência intensa, a vivência estética cria uma atitude muito sensível para os atos posteriores e, evidentemente, nunca passa sem deixar vestígios para nosso comportamento (p.342). Portanto, é possível afirmar que encontramos uma fonte de prazer pela catarse provocada pela obra de arte, sendo esse seu objetivo final. Colocar-se acima do feio no riso, vivenciar a tragédia para poder superá-la, enfim, a arte seria uma atividade extremamente complexa de luta interna que se conclui na catarse. Pude estabelecer um paralelo entre Vygotsky, neste capítulo dedicado à Educação Estética, e a proposta triangular defendida por Barbosa. As tarefas descritas pelo autor: educar a criação infantil, ensinar às crianças habilidades técnicas da arte e educar nas crianças o juízo estético podem ser contempladas na proposta triangular de contextualizar (história da arte), o produzir (fazer artístico) e apreciar (leitura da obra de arte). Diz Vygotsky que o desenho infantil ensina ascensão ao psiquismo, esclarecendo que a criança aprende, através do desenho, a dominar suas vivências, vencê-las e superá-las. A criação infantil tem suas peculiaridades e sua originalidade que devem ser aceitas e respeitadas pelo adulto, exigências básicas da psicologia. O que determina os caminhos da Educação Estética são os mesmos caminhos traçados pelo sistema geral, visam incluir a criança numa rede mais ampla possível da vida, ampliando o contato entre o psiquismo e as esferas mais amplas da experiência social. Nas palavras do autor: A humanidade acumulou na arte uma experiência tão grandiosa e excepcional que qualquer experiência de criação doméstica e de conquistas pessoais parece ínfima e mísera em comparação com ela. Por isso, quando se fala de educação estética no sistema da educação geral deve-se sempre ter em vista essa incorporação da criança à experiência estética da sociedade humana: incorporá-la inteiramente à arte monumental e através dela incluir o psiquismo da criança naquele trabalho geral e universal que a sociedade humana desenvolveu ao longo dos milênios, sublimando na arte o seu psiquismo. Eis a tarefa básica e o objetivo... Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida (Vygotsky, 2004, p.351,352). Nesse contexto, a arte não é uma coisa rara e fútil e, sim, uma exigência do dia-a-dia. O que devemos levar em conta é uma arte que tem como regra não o adornamento da vida, mas a elaboração criadora da realidade. A tarefa do Ensino da Arte é desenvolver e preservar as potencialidades criadoras do ser humano. Diz Vygotsky (2004): Em nenhum outro campo da psicologia essa idéia encontra confirmação tão nítida quanto na arte. A possibilidade criadora para que cada um de nós se torne um co-participante de Shakespeare em sua tragédia e de Beethoven em suas sinfonias é o indicador mais nítido de que em cada um de nós existem um Shakespeare e um Beethoven (p.363). Vygotsky, em seu livro La Imaginacion y el Arte em la Infância, ressalta que o processo criativo acontece com todo vigor desde a infância e o valor dessa criação está, justamente, onde o ser humano imagina, combina, modifica e cria algo novo, mesmo que pareça pequeno em comparação à criação dos grandes gênios. Desse modo, os professores de Arte e os professores que trabalham com alunos de séries iniciais e educação infantil deveriam ter mais informações sobre o processo criativo da criança, evitando muitos dos erros cometidos na escola. Saber da importância do entrelaçamento da fantasia com a realidade é fundamental na aprendizagem. Na prática esse entrelaçamento acontece quando, por exemplo, numa aula de Geografia, o professor comenta sobre os vulcões e a criança consegue visualizar mentalmente o fenômeno. Quando somos capazes de imaginar apenas baseados em relatos e descrições sobre fatos ou lugares, sem ter experimentado pessoalmente ou se deslocado até o local acontecido, é nossa imaginação quem nos ajuda a entender essa experiência. Quanto mais a criança vê, ouve e experimenta, quanto mais elementos reais ela dispõe, mais produtiva será a sua atividade criadora. Nesse sentido, a fantasia não se contrapõe à memória, apóia-se nela para obter novas combinações. A reciprocidade entre a imaginação e a emoção retoma e confirma as reflexões a respeito das emoções reais que sentimos ao ver um filme ou ao ler um livro e que, na verdade, são frutos da imaginação. É importante ressaltar que a base de toda ação criadora reside sempre na inadaptação, nas fontes de necessidades e desejos do homem. Esses fatos servem de impulso para criar: Diz Vygotsky(1987): “Todo inventor, por genial que sea, es simpre producto de su época y de su ambiente”(p.37). Assim, afirma que a atividade da imaginação criadora não pode ser idêntica em crianças, jovens e adultos. Observa-se que o adolescente perde a afeição pelo desenho, passando a fazer severas críticas a sua produção gráfica. Dois tipos de imaginação surgem nesse período: plástica (exterior) e emocional (interior). La imaginación plástica emplea preferentemente impresiones exteriores, construye con elementos tomados del exterior, lo emocional, por el contrario, construye con elementos tomados de adentro. Podemos designar a una objetiva y subjetiva a la otra (1987, p.45). Uma última questão dentro da temática da imaginação em crianças e jovens que considero importante destacar é a questão da vinculação da criação ao talento. Se considerarmos que a criação consiste em fazer algo novo, poderemos chegar à conclusão de que, em maior ou menor grau, todos podemos criar e que a criação acompanha normalmente o desenvolvimento infantil. Conhecer as etapas de desenvolvimento do desenho na criança é fundamental na formação do professor de Artes Visuais. As crianças têm um interesse natural pelo desenho, que permite a expressão de desejos e inquietações. Esse interesse diminui à medida que a criança cresce, e passa a ser substituído pela arte literária. A literatura é, portanto, a arte típica da idade escolar e o desenho é um modo de expressão típico da idade pré-escolar. Para despertar as reações criadoras de crianças e jovens, é necessário determinar tarefas ou temas, proporcionando o domínio de técnicas e diversas impressões musicais, pictóricas, tiradas da realidade. Vygotsky (1987) conclui, ressaltando a importância de estimular a criação artística na idade escolar: El hombre habrá de conquistar su futuro con ayuda de su imaginación creadora; orientar en el mañana, una conducta basada en el futuro y partiendo de ese futuro, es función básica de la imaginación y, por lo tanto, el principio educativo de la labor pedagógica consistirá en dirigir la conducta del escolar en la línea de prepararle para el porvenir, ya que el desarrollo y el ejercicio de su imaginación es una de las principales fuerzas en el proceso del logro de este fin. (p.108) Concluo, provisoriamente, esse diálogo com os textos de Vygotsky a respeito da arte, tendo a certeza de não estar esgotando todas as possibilidades de análise, muito pelo contrário. Reafirma-se a pertinência de alimentar discussões e criar grupos de estudos e pesquisas com educadores que estejam dispostos a repensar suas práticas, conhecer teorias e mudar os rumos da educação estética. Sem dúvida, a arte é uma linguagem ubíqua, produto da criatividade humana, que transmite uma visão de mundo, permitindo interpretações, leituras e diferentes formas de ver e conceber a vida. Vygotsky amplia os vínculos entre arte e educação, mostrando-nos caminhos, pontes para novas descobertas. Entender a arte como “uma linguagem aguçadora dos sentidos” irá nos levar a diálogos com outro autor, Bakhtin. Como Bakhtin é um filósofo da linguagem, a amplitude de relações que podemos estabelecer a partir de sua obra nesse contexto é extremamente rica e extensa. Reforçando esse conceito de arte, podemos citar: “O que distingue essencialmente a criação artística das outras modalidades de conhecimento humano é a qualidade de comunicação entre os seres humanos que a obra de arte propicia, por uma utilização particular das formas de linguagem” (PCN-Arte, v.6, p.37). Penso ser importante expor neste trabalho alguns dos muitos motivos que me levaram a estabelecer um diálogo sobre a arte com Bakhtin. Um diálogo que se iniciou no Mestrado em Educação, na disciplina: Processos de Pensamento e Linguagem, através da qual fomos sendo conduzidos a uma viagem fantástica pelo mundo de Bakhtin, envolvidos com suas análises sobre a literatura, sobre a linguagem e, conseqüentemente, sobre arte. Através de conceitos como os de enunciação, carnavalização, polifonia e dialogismo, Bakhtin constrói uma perspectiva nova para várias questões que envolvem a arte. Uma arte imanentemente sociológica: A arte, como todos os produtos da atividade humana, nasce na e para a sociedade, portanto ela é essencialmente social. O meio social afeta a arte, de fora, encontrando resposta direta e intrinsecamente dentro dela. Daí que seu estudo só poderá ser efetivo a partir de uma teoria sociológica. Considerou (Bakhtin) necessário transcender aquilo que é apenas o meio material da comunicação artística e se concentra no objeto estético como um sistema dinâmico de signos axiológicos, um conjunto de três elementos: criador, contemplador e tópico (Freitas, 1995, p.142). O pequeno texto, Arte e Responsabilidade, será o primeiro a ser analisado nesse percurso e, provavelmente, voltará a ser objeto de estudo em outros momentos desse diálogo. Nesse texto, Bakhtin (2003) coloca a vida e a arte lado a lado, unidas pela responsabilidade: Os três campos da cultura humana - a ciência, a arte e a vida - só adquirem unidade no indivíduo que os incorpora à sua própria unidade. Mas essa relação pode tornar-se mecânica: temporariamente o homem sai da “agitação do dia-a-dia” para a criação como para outro mundo “de inspiração, sons doces e orações”. O que resulta daí? A arte é de uma presunção excessivamente atrevida, é patética demais, pois não cabe responder pela vida que, é claro, não lhe anda no encalço. “Sim, mas onde é que nós temos arte – diz a vida -, nós temos a prosa do dia-a-dia (p. XXXIII). Sempre vi a arte como um reflexo do contexto histórico e cultural do ser humano, mas de qual arte estaríamos falando? A verdadeira arte deve comprometer-se com a vida e dela fazer parte, portanto, no ato da criação não me desvinculo dela. Parece óbvio, mas merece atenção. Reportemo-nos, nesse momento, à produção artística escolar e nos perguntemos: ela traduz a responsabilidade com a vida? Só desse pequeno texto já poderíamos iniciar uma investigação. Caminho para outro texto, Bakhtin: A Aventura Dialógica, escrito por Faraco. O contextualizar, vértice da Abordagem Triangular, justifica-se e se fortalece nas análises feitas por Bakhtin em relação a temporalidade dos textos. Aqui encontro, também, uma definição sobre o significado da palavra compreensão que nos orienta na prática do Ensino de Arte: a compreensão não é uma experienciação psicológica da ação dos outros, mas uma atividade dialógica que diante de um texto gera outro(s) texto(s). Compreender não é um ato passivo (um mero reconhecimento), mas uma réplica ativa, uma resposta, uma tomada de posição diante do texto que pode ocorrer na dimensão daquilo que Bakhtin chama de pequena temporalidade (o texto em sua realidade imediata ou contemporânea) ou na dimensão da grande temporalidade (o texto em contextos futuros e na história da cultura) (Faraco, 1993, p.200). Se, ao ler essa definição, pudermos compreender a obra de arte como um texto, se a obra de arte é linguagem e me comunico através dela, então, quando falamos em releitura de obras, na verdade, podemos estar gerando uma nova compreensão da obra. Na sala de aula, quando um aluno do ano de 2007 se surpreende ao ver a obra de Leonardo da Vinci, Mona Lisa, datada de 1505, é porque a grande temporalidade do texto ou obra causou-lhe sentimentos novos. Diz Bakhtin (2003) em relação ao contexto de interpretação da fala: (...) o grande tempo – o diálogo infinito e inacabável em que nenhum sentido morre (p.409). Ainda reforçando a idéia de arte essencialmente sociológica, Bakhtin irá contra o fetichismo da obra de arte, aspecto em que a arte está resumida a si mesma, sendo enfatizados apenas os aspectos formais e materiais da obra. Por outro lado, existe, também, a análise da arte limitada às experiências do criador ou do contemplador. Bakhtin (1926) entendia que, na verdade, a arte seria a interrelação dessas partes: “O artístico é uma forma especial de inter-relação entre criador e contemplador fixada em uma obra de arte” (Discurso na vida e discurso na arte, Bakhtin/Voloshinov, p.4). Portanto, é na interação entre esses três elementos, o autor (criador), a obra e o contemplador, que a obra de arte se dá. O papel do sujeito não é central, esse papel é substituído por diferentes vozes, ou seja, o dialogismo é o espaço de interação entre o eu e o tu ou entre o eu e o outro, no texto. O centro da interlocução é o espaço criado entre o eu e o tu, ou seja, a obra de arte. Uma obra de arte possui em seu interior vários textos que dialogam e polemizam entre si. Esse cruzamento de pontos de vista, através de várias vozes que dialogam, é definido por Bakhtin como polifonia. Vem daí nosso interesse pelas imagens, visto que existe uma variedade de idéias nelas contidas, além do fato de podermos contribuir com outras. O papel do enunciado na concepção bakhtiniana de linguagem é central. Assim, para compreender a comunicação artística ou o enunciado poético, Bakhtin faz uma análise dos enunciados cotidianos, “das falas da vida”. Em um enunciado concreto estão presentes duas partes: uma realizada em palavras e a outra presumida (o dito e o não dito). A parte presumida envolve os julgamentos de valor que são refletidos na obra de arte, ou seja, o artista revela seus presumidos em suas obras. Isso ocorre, principalmente, na literatura: “O estilo do poeta é engendrado pelo estilo de sua fala interior, que por sua vez, é o produto de sua vida social inteira. O fato é que nenhum ato consciente pode existir sem a fala interior, sem palavras, entonações e avaliações” (Freitas, 1995, p.147). Os presumidos revelados pelo artista são interpretados quando fazemos a leitura da obra de arte. Nesse caso, também devemos nos lembrar das produções feitas pelos alunos e que revelam seus presumidos. Outro ponto importante nesse percurso é o conceito de Carnavalização, como sendo a “segunda vida” do povo. Bakhtin desenvolve a questão ao descrever as festas medievais na obra de Rabelais. Nessas festas o mundo era colocado do avesso; leis, desigualdades sociais e hierarquias eram invertidas. As pessoas aproximavam-se e desenvolviam novas formas de convivência. Entender esse processo de carnavalização dentro do ambiente escolar, no desenvolvimento de projetos é perceber a importância da ambivalência que se instaura nas atividades realizadas pelos alunos, a cada desfile, a cada trabalho exposto, a cada vez que meninos e meninas sobem ao palco para dançar, teatralizar, recitar seus próprios versos. Os alunos são, nesse momento, o centro das atenções, e não o professor. Essa inversão de lugares dá aos alunos um sentimento renovador e, por que não dizer de identidade fortalecida. Esse simples ato de inversão faz com que os alunos reformulem o mundo que os rodeia, passando a ver a realidade sob novos prismas. O discurso artístico, como uma manifestação que tanto pode ser plástica, dramática, sonora, literária, ou utilizando-se de novas tecnologias, é um ponto de vista, um recorte, um olhar angular do artista. Esse olhar revelará sua maneira de interagir com os outros e consigo mesmo. Nesse sentido o artista, através de sua obra, constrói um discurso que tanto pode negar como afirmar os valores vigentes da sociedade em que vive. Transpondo essa análise para a produção escolar, em que o aluno produz sua obra e se comunica através dela, podemos dizer que essa ação é uma revelação do aluno, ela nos faz conhecê-lo e faz também com que ele passe a conhecer melhor a si mesmo e ao mundo em que vive. Para entendermos o artista e sua obra na sociedade atual, podemos citar as palavras de Nunes (2002), na obra Introdução à Filosofia da Arte: A criação perdeu a sua impulsividade, o seu primitivo ímpeto emocional. O artista torna-se um tipo reflexivo, como previa Hegel, interroga-se a si mesmo sobre o sentido e o destino de suas próprias criações. Sente-se responsável pelo destino da Arte e assume este destino, como risco de sua condição no mundo em que vive. Essa consciência de responsabilidade, que se associa com o sentido de risco, manifesta-se positiva ou negativamente, transformando-se para uns em tarefa social ou encargo político, e para outros em gesto de revolta e atitude de protesto. Estamos muito distantes do artista romântico, senhor de si e da Natureza, para quem a Arte era uma certeza incontestável. O artista do nosso tempo põe em discussão a própria Arte. Seu modo de produzir é polêmico: cria interrogando-se e interrogando a Arte, a qual deixou de ser para ele uma certeza vidente guiando as suas relações com o mundo. Agora a Arte é uma dúvida que o agita, uma interrogação que angustia, um resultado a alcançar, algo problemático, que ele está empenhado em possuir e conquistar e não mais um objetivo conquistado e possuído (p.107,108). Através da fala de Nunes, retomamos a questão da arte produzida com responsabilidade, uma arte ligada à vida, questão debatida por Bakhtin. Tentamos mostrar as possibilidades de diálogo entre os conceitos bakhtinianos e a arte para ampliar nossa forma de compreendê-la. Ainda que não tenhamos nos aprofundado nesse diálogo, são abordagens possíveis e que podem contribuir para outras pesquisas. Desse modo, podemos pensar novamente na questão da leitura, só que dessa vez na leitura da obra de arte e não na leitura da imagem. Pillar (2001) irá dizer que: Ler uma obra de arte seria, então, perceber, compreender, interpretar a trama de cores, texturas, volumes, formas, linhas que constituem uma imagem. Perceber objetivamente os elementos presentes na imagem, sua temática, sua estrutura. No entanto, tal imagem foi produzida por um sujeito num determinado contexto, numa determinada época, segundo sua visão de mundo. E esta leitura, esta percepção, esta compreensão, esta atribuição de significado vai ser feita por um sujeito que tem uma história de vida, em que objetividade e subjetividade organizam sua forma de apreensão e de apropriação do mundo (p.15). A leitura da obra de arte nos faz abordar um tema discutido nos grupos focais e que permeia toda a analise dos autores trabalhados até o momento, trata-se das relações que fazemos entre as situações reais vividas com o objeto de leitura, ou seja, a busca por significado. Para que haja aquisição de conhecimento é preciso que a experiência do leitor seja tocante. Para realizar esse diálogo podemos citar uma fala de Barbosa (2005) em que a autora faz uma análise das idéias de três grandes pensadores: John Dewey, Paulo Freire e Elliot Eisner: Para Dewey experiência é conhecimento, para Freire é a consciência da experiência que podemos chamar conhecimento. Já Eisner destaca da experiência do mundo empírico sua dependência de nosso sistema sensorial biológico, que é a extensão de nosso sistema nervoso (p.12). A esses autores poderia acrescentar Larrosa (2004) com a sua proposta de pensar a educação valendo-se da experiência: “A experiência é o que nos passa, ou o que nos acontece, ou o que nos toca. Não o que passa ou o que acontece, ou o que toca, mas o que nos passa, o que nos acontece ou o que nos toca” (p.154). Percebe-se, portanto, a necessidade de estudar os processos de significação como forma de atribuir sentido, tema tão bem explorado por Vygotsky. Assim, é tarefa do professor de Arte proporcionar experiências artísticas significativas. O aluno que entra em contato com uma obra de arte em galerias, museus, livros ou no atelier do artista irá desempenhar sua capacidade de interpretação e posteriormente de criação. As leituras são muitas, pois vêm carregadas dos presumidos do receptor. 3. 4 - Artes Visuais: construções sígnicas portadoras de significado Buscar compreender as concepções que os professores de Arte carregam sobre seu conteúdo, os modos pelos quais lidam com sua disciplina na escola e a maneira como propõem trabalhos aos alunos ainda nos coloca diante de um outro aspecto, o caráter universal da arte. Por serem as Artes Visuais uma linguagem que se localiza na intersecção de muitas outras instâncias, podemos trabalhar a arte integrada a outros conteúdos. Essa capacidade de mediar a aprendizagem faz da arte um meio integrador de projetos interdisciplinares. Em relação a projetos interdisciplinares, considero que a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas, no interior de um projeto específico de pesquisa. Penso que seja importante ressaltar neste estudo que, dentro da própria disciplina, instaura-se a possibilidade de diálogo com outros saberes, ou seja, o professor, dependendo da forma como encara o conhecimento, pode possibilitar ao aluno um pensamento integrado e não fragmentado do conteúdo. Vejamos a definição feita por Fazenda (1996): A interdisciplinaridade pressupõe basicamente uma intersubjetividade, não pretende a construção de uma superciência, mas uma mudança de atitude frente ao problema do conhecimento, uma substituição da concepção fragmentária para a unitária do ser humano (p.40). A interdisciplinaridade, portanto, busca as possibilidades de diálogos entre conteúdos. Nesse sentido, deve haver colaboração entre as diversas disciplinas para que o trabalho interdisciplinar aconteça. A integração seria o modo como as disciplinas se organizam num projeto de estudo. Esse currículo integrado é defendido por Parsons in Barbosa (2005a) que faz uma interpretação dessa expressão: O currículo integrado consiste, essencialmente, em ensinar para obter significado e compreensão. Não é uma questão de programar o dia da escola nem de usar determinados métodos de ensino, como o método de projetos. Trata-se de ensinar e de aprender determinados tipos de idéias com as quais nenhuma disciplina é capaz de lidar sozinha (p.296). O autor aponta três categorias de influências no currículo: a social, a psicológica e a epistemológica e descreve cada uma delas. Parsons argumenta, por exemplo, que alguns problemas sociais são grandes e que as disciplinas isoladas não são capazes de lidar com eles. O uso de vários saberes, ao mesmo tempo, pode ajudar na compreensão desses problemas, dando-lhes possíveis respostas. Os cuidados que o professor de Arte deverá ter com essa capacidade da arte de permear por essas questões é de não deixar transformá-la num simples instrumento como já foi debatido anteriormente. O Ensino de Arte deve assumir seu papel de propositor de experiências. A idéia de currículo integrado fez surgir algumas reflexões sobre a capacidade da arte de “estar entre”, no sentido de fazer a ligação entre os alunos e seus saberes. Através de minha experiência como professora de Arte e como membro de um projeto interdisciplinar14, que envolve a Arte e seu entrelaçamento com as demais disciplinas escolares, chamou-me a atenção um conceito criado por Vygotsky que é fundamental em educação: a mediação. Vygotsky é um autor que transita por várias áreas: psicologia, arte, crítica literária, filosofia, educação e linguagem. Ao analisar suas proposições acerca da questão da mediação, principalmente quando relacionada ao caráter semiótico, visto que a linguagem artística é um processo sígnico, foi possível fazer um paralelo com o caráter integrador da arte. Ainda que me exima de aprofundar-me acerca da questão semiótica, é necessário lembrar que o que caracteriza o signo é constituir-se como um meio inventado pelos homens para representar a realidade. A arte faz parte desse mundo simbólico construído pelo homem, “construções sígnicas portadoras de significado”. Os seres humanos criam instrumentos e sistemas de signos cujo uso lhes permite transformar e conhecer o mundo, comunicar suas experiências e 14 O projeto citado no início do texto: “Trabalhando com Artes”, desenvolvido pela Escola Municipal Olinda de Paula Magalhães, em Juiz de Fora. desenvolver novas funções psicológicas. A arte, seja pintura, literatura, música, dança, teatro, é um desses instrumentos por meio dos quais podemos transformar e conhecer o mundo em que vivemos. Uma instrumentalidade fundada no estético, conforme Barbosa (2001) afirma em seu livro John Dewey e o Ensino da Arte no Brasil : Dewey afirmara que os objetos estéticos “contêm sua própria razão de existência, não precisam de desculpas para existir, simplesmente porque são encarregados da tarefa de estimular a compreensão, de alargar o horizonte de visão, de refinar a discriminação, de criar padrões de apreciação, que são confirmados e aprofundados por experiências suplementares” (p.147). Observo que, na literatura específica de Ensino de Arte, não existem muitos autores que façam alguma referência a respeito da mediação em Vygotsky. Hernandez (2000) é um dos poucos que buscam fazer esse paralelo: Entendo por função mediadora uma derivação da idéia de Vygotsky de mediação que pressupõe que “o signo é possuidor de significado”. Isso implica que a arte, os objetos e os meios da cultura visual contribuem para que os seres humanos construam sua relação-representação com os objetos materiais de cada cultura. Nesse sentido, a cultura visual contribui para que os indivíduos fixem as representações sobre si mesmos e sobre o mundo e sobre seus modos de pensar-se. A importância primordial da cultura visual é mediar o processo de como olhamos e como nos olhamos, e contribuir para a produção de mundos, isto é, para que os seres humanos saibam muito mais do que experimentaram pessoalmente, e para que sua experiência dos objetos e dos fenômenos que constituem a realidade seja por meio desses objetos mediacionais que denominamos como artísticos (p.52). A mediação dos sistemas de signos corresponde ao que podemos chamar de mediação semiótica, através da qual podemos explicar os processos de internalização e objetivação, as relações entre pensamento e linguagem ou a interação entre sujeito e objeto do conhecimento. O conceito de mediação semiótica, trazido à tona pela obra de Vygotsky, observado por Pino, parece contemplar perfeitamente as expectativas de conceitualização do termo. Nas palavras de Pino (1991): Num sentido amplo, mediação é toda a intervenção de um terceiro “elemento” que possibilita a interação entre os “termos” de uma relação. Nesse trabalho, o termo mediação é utilizado para designar a função que os sinais desempenham nas relações entre os indivíduos e destes com o meio. Mais especificamente, é utilizado para designar a função dos sistemas de signos na comunicação entre os homens e na construção de um universo sócio-histórico (p.32,33). Estabelecendo uma ligação do conhecimento fornecido por esse conceito com a natureza sígnica da arte, torna-se clara sua compreensão como um sistema de signos, uma forma de linguagem capaz de mediar conhecimentos de um modo diferente, por uma outra via, a via do “elemento” arte. Para efeito de entendimento do papel mediador de conhecimentos exercido pela arte, podemos citar o dizer de Vygotsky (1999): os processos intelectivos que surgem em cada um de nós com a ajuda e por motivação da obra de arte não pertencem à psicologia da arte stricto sensu . São uma espécie de resultado, de efeito, de conclusão, de conseqüência da obra de arte (p.43). A partir disso é possível afirmar que a obra de arte provoca o surgimento de processos intelectivos, ou seja, a arte se torna mediadora da aquisição de conhecimentos. Através de um contato inicial, pareceu ser possível fazer uma leitura da experiência vivida como membro do projeto Trabalhando com a Arte, tendo como base o pensamento de Vygotsky, visto ser a arte elemento que permeia, que faz a relação entre o homem e o conhecimento. Vygotsky (2002), em seus postulados, designa à mediação papel central na aprendizagem. Nesse contexto, o papel do professor afigura-se como de importância fundamental no processo ensino-aprendizagem. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) expressa essa função mediadora entre docente e discente. A ZDP é: a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (p.112). A proximidade entre os termos integração e mediação está justamente no fato de que na mediação a arte é uma via diferente para chegar ao conhecimento. No caso da integração proposta por Parsons a arte seria um dos saberes que trabalharia junto a outros saberes para a obtenção de conhecimento. Essas proposições, que ainda demandam mais aprofundamento, fornecem pistas para a ampliação das fronteiras da Arte e seu ensino. Nesse panorama, a disciplina de Artes Visuais pode estar entre as demais disciplinas, alternando-se como propositora de experiências. Cabe aos professores de Arte articular as relações que podem e devem ser feitas com outros saberes, tomando os devidos cuidados para não deixar que ela seja utilizada como meio para atingir resultados pedagógicos estranhos à estética. 4. DIALOGANDO E INTERAGINDO COM ATORES E AUTORES Com o objetivo de compreender as concepções e as práticas de professores de Artes Visuais, procurei, nos diálogos construídos entre pesquisador e pesquisados, operando paralelamente com os conceitos do referencial teórico, a base para achar as respostas às indagações levantadas nesta pesquisa. Primeiramente me reportarei às entrevistas individuais desenvolvidas com o intuito de abrir caminho para entender o papel do pesquisador que até então não havia assumido. A partir da interação com os professores de arte, acabei elegendo-os como foco principal desta dissertação. O foco do estudo, naquele momento, era conhecer e compreender o papel da arte na escola. Porém, mesmo com foco voltado para o Ensino de Arte, estendi meu olhar para analisar o professor de Arte, esse profissional, esse “batalhador” que aparece nas falas das entrevistadas. 4.1 - Diálogos singulares Compreender as falas das professoras entrevistadas não parecia ser tarefa difícil, falavam de algo de que faço parte há 16 anos, tanto que, muitas vezes, elas pareciam ler meus pensamentos. As professoras falavam da importância da arte, de sua função na escola, de como ela é fundamental para a vida do ser humano. Enquanto davam depoimento de suas práticas, de seus projetos, pude fazer o entrelaçamento das concepções teóricas defendidas por autores que se debruçaram a pensar sobre a arte como conhecimento, como linguagem, como forma de expressão, capaz de abrir os caminhos para um mundo de imaginação, criação, sentimento e fruição. Quando procedemos a uma análise das concepções que os professores de Arte carregam, estamos refletindo, também, sobre as atitudes dessas pessoas como educadores e sobre seus saberes (sua formação). Portanto, nossa entrevista iniciava-se solicitando que os entrevistados falem sobre sua trajetória pessoal e profissional e seu envolvimento com o Ensino de Arte. Após esse primeiro contato, em que as entrevistadas tiveram oportunidade de falar de si mesmas, perguntei acerca de qual seria o papel da arte na escola e como essa instituição veria o ensino dessa disciplina. Respondendo sobre o papel da arte na escola, foi comum, nas três respostas, a referência à arte como promotora da integração entre as disciplinas. Individualmente, aparecem, nas respostas, referências à arte com o papel de educar o olhar, de promover conhecimento, de desenvolver a imaginação e de promover experiências significativas. Assim responde a professora Teresa: Eu vejo a arte como uma ponte, uma ligação com os demais conteúdos, justamente porque em toda civilização, toda civilização, é só você pegar a história...Então é isso, a arte é língua do mundo, é uma linguagem universal. Então vamos para o Português ou pro Inglês, a Música, quantas letras,... A arte na Língua Portuguesa, a arte na História e na Geografia, a arte nas Ciências, que agora foi essa última etapa que nós trabalhamos, o meio ambiente, com a reciclagem. Ao responderem sobre como a escola vê o Ensino de Arte, as entrevistadas fazem referência direta ao seu próprio trabalho e aos reflexos desse trabalho sobre a sua comunidade escolar. A professora Débora comenta que, através do trabalho por projetos, a arte passou a ter mais espaço e voz na escola e seu trabalho recebeu o apoio dos demais colegas. Normalmente, são trabalhos interdisciplinares cujos temas podem ser realizados em conjunto. Porém, os cuidados a serem tomados pelo professor de Arte são no sentido de que sua disciplina não seja usada apenas como suporte para os outros conteúdos. Sobre esse aspecto lembramos de Eisner (2005) quando diz: “Enfatizo que as conexões entre a arte e as outras disciplinas devem ser feitas quando possível, desde que os valores da arte não sejam diminuídos” (p.87). Vejamos a fala da professora Débora: Nós temos um projeto e atualmente a coisa está se encaminhando, acho que num crescendo, o grupo como um todo... A equipe amadureceu um pouquinho mais, além de enriquecer as aulas das crianças, nós começamos a colocar tudo o que fazíamos nos murais, colocamos pra fora. …E os professores começaram a perceber que houve muita diferença, os trabalhos dos meninos eram outros. Ao refletir sobre a maneira como a escola encara a disciplina de Arte, a professora Helena amplia a questão. Sua resposta não envolve apenas a formação precária do professor de Arte, mas de todos os demais professores, que passaram pela escola e que carregam uma visão deficiente em arte, uma visão de “aula de arte” como a descrita por Barbosa (2002): Em minha experiência tenho visto que as Artes Visuais ainda estão sendo ensinadas como desenho geométrico, seguindo a tradição positivista, ou continuam a ser utilizadas principalmente nas datas comemorativas, na produção de presentes muitas vezes estereotipados para o dia das mães ou dos pais. A chamada livreexpressão ainda é uma alternativa melhor que as anteriores, mas sabemos que o espontaneísmo apenas não basta, pois o mundo de hoje e a Arte de hoje exigem um leitor informado e um produtor consciente. A falta de uma preparação de pessoal para entender Arte antes de ensiná-la é um problema crucial, nos levando muitas vezes a confundir improvisação com criatividade (p.14,15). Essa falta de formação adequada para entender arte acaba acarretando um sentimento de resistência à disciplina. Vejamos, portanto, a resposta da professora Helena: Acho que existe uma resistência por parte dos professores em relação ao Ensino de Arte, e em outros casos, há uma deficiência na formação do professor de Arte, porque este professor também não sabe o que vai fazer na aula. Me pergunto:_Por que a internet entrou tão rápida e o Ensino de Arte não entra tão rápido na escola? Então, por que essa resistência? Por que um ser pensante não interessa, não é? E quem estuda arte, quem lê um livro de arte, tem um espírito crítico. Num livro de arte você está falando de História, está falando de Geografia, você localiza as coisas no espaço e no tempo principalmente. Então,...eu acho que ainda há uma má vontade nesse sentido, eu acho que fazer pensar ainda não é uma vontade política “lá de cima” não. A professora Teresa fala de paradigmas que estão sendo quebrados, de uma escola que começa a perceber a arte de uma outra forma. A resposta da professora em questão abre espaço para dois outros problemas: o espaço físico inadequado e a falta de materiais. Eu vi que a escola entende, agora, a arte de outra forma. Porém, a gente só muda ou quebra os paradigmas com o tempo, e a gente tem que ter paciência, e os frutos a gente vai colhendo, e vamos aprendendo com eles também. Existe uma troca e estamos sempre voltados a aprender, é um aprendizado. Eu fico feliz quando eu vejo que os colegas e que a escola tem dado apoio. As duas escolas em que eu trabalho não oferecem mais recursos por falta de condições. Infelizmente quando você entra numa escola, você não vê nem a sala de artes, nem a sala de teatro, nem a quadra de esportes. Você só vê salas de aula, carteiras enfileiradas, um quadro e giz, você vê a sala de professores, há uma biblioteca, muitas vezes está fechada e com poucos livros. Esses entraves (falta de infra-estrutura da instituição) e esses avanços (paradigmas quebrados) são aspectos que também aparecem nos debates implementados no grupo focal. Percebe-se que alguns comentários importantes, feitos pelas professoras entrevistadas, não estão diretamente ligados às perguntas desenvolvidas para a realização das entrevistas, sendo falas que demonstram como as professoras entrevistadas concebem o Ensino de Arte ou de situações esclarecedoras da realidade das professoras. Outros comentários permitem os diálogos com os autores desta pesquisa. Selecionei o trecho abaixo, no qual a professora Débora ressalta sobre o desenho infantil e a necessidade de que este desenho seja respeitado pelo adulto: Porque uma professora que poda, uma professora que faz com que todos os alunos coloram as flores de vermelho, os caules de marrom e as folhas de verde... Ela não está deixando ninguém dizer nada, ela esta fazendo uma “pseudoarte”. Porque está colorindo um desenho estereotipado. E colorindo tudo igual, então a criança não está criando nada. Ela não está deixando ter arte nenhuma ali. Agora se você realmente fala com as crianças para observarem umas flores lá no jardim de casa ou no jardim da escola e desenhar aquela flor que viu e colorir, você está deixando os meninos verem a sua imagem e colorirem da sua maneira. A preocupação em estimular a criança para a melhoria de sua capacidade criadora e desenvolver atividades que proporcionem experiências significativas aparece, novamente, no final da fala da professora Débora. O comentário revela a necessidade de formar professores esclarecidos do potencial integrador da arte no currículo: Você tem que fazer a imaginação dos meninos montarem cenas. Você pode fazer uma dramatização, fazer um teatro, e os meninos gostam de fazer teatro também, senão esquecem. A coisa é vivida, a coisa é vivida. Então olha só a professora que tem um pouquinho mais de arte, ela vai dar, a Geografia, a História, as Ciências, a Literatura, vai contar histórias, etc e tal. Vai ficar rico, vai ficar rico. No trecho abaixo a professora Helena comenta, no início, sobre a leitura da obra de arte, o contexto de interpretação da obra, o grande tempo revelado nas atividades de releituras. Outra questão apontada pela professora é a natureza integradora da arte e o seu incoerente isolamento vivenciado na escola: Você coloca um trabalho, começa a falar com eles sobre o trabalho e eles mesmos te chamam a atenção para um detalhe que você não tinha visto, isso é ótimo. É por isso que eu falo que seria importante que todo mundo trabalhasse junto, porque o menino te diz quem ele é a partir do momento que ele olha um quadro, que ele te chama a atenção para uma coisa que você não viu antes, é porque, de repente, aquilo que você não percebeu não faz parte do seu universo, mas faz parte do universo daquele menino. Quando se depara com a coisa prática, com a questão prática, que a arte ajuda muito nisso, você não tem com quem dividir... A relação entre fantasia e realidade, a materialização da fantasia e sua capacidade de influenciar efetivamente na realidade são características citadas pela professora Teresa que possibilitam promover um diálogo entre as considerações feitas por Vygotsky (2004) e as experiências vividas nas aulas de arte. Diz o autor: “Aqui reside a chave para a tarefa mais importante da educação estética: introduzir a educação estética na própria vida. A arte transfigura a realidade não só na construção da fantasia mas também na elaboração real dos objetos e situações”(p.352). Vejamos, portanto, o comentário da professora Teresa que demonstra esse fato: Se de repente aquilo se transforma numa peça de teatro,... Mesmo que ele não seja um ator ... ele vai trabalhar o cenário, por exemplo, ele vai ter que pesquisar, ler um livro, ele passa a falar e vivenciar aquilo como um agente, um pensador e não um receptor. Então por isso que eu não enxergo uma escola sem arte, porque ela fica morta. É uma entidade sem brilho, e o aluno na aula de artes ele enriquece o conhecimento dele, ele é critico e passa a ser mais critico, a auto-avaliar. Perceber que ele pode dar mais, ele mesmo reconhece que ele não desenvolveu aquilo que poderia, ele quer buscar mais. Numa atividade de auto-retrato proposta pela professora Débora em sala de aula é possível observar a preocupação do professor de Arte em desenvolver um trabalho relacionado com a multiculturalidade, muitas vezes, com o objetivo de fortalecer a identidade dos alunos: Aí eu disse: - Gente, olha aqui, olha para esse retrato e olha para ele, não é ele? Agora vocês vão me falar, se ele tivesse colorido o desenho de branquinho aqui, era ele? Não era, não é mesmo? Aí eu trabalhei em cima da diversidade, da identidade, da etnia, etc. Olha o cabelo dele, se ele fizesse ele com o cabelo escorrido igual ao meu, seria ele? Não, não seria ele. Ele fez o retrato dele, então eu repeti: - Está maravilhoso!! Gostei. Aí cada um começou a colorir o dele mais moreninho, porque realmente ele era moreninho, aí cada um teve que fazer o dele. - Olha como ficou bonito esse aqui? A auto-estima melhora, etc e tal. Mas identificam também as diferenças. E isso a gente pode trabalhar com a arte também. Essas diferenças de raça, de roupa, de lugares, você vai mostrando fotos diferentes, de coisas diferentes, não é? Inclusive mostrei Picasso também. Esse primeiro contato como pesquisadora colocou-me diante de um campo amplo de possíveis análises para a compreensão da função da arte na escola. Alguns aspectos levantados pelas professoras indicam uma prática comprometida, as professoras demonstram ter um conhecimento da teoria e dos debates sobre o Ensino de Arte realizados por Barbosa, principalmente os que se sucederam a partir da década de 1990. As principais impressões sobre o papel da arte na escola, levantadas pelas entrevistas individuais, levam-nos às seguintes relações possíveis para o desenvolvimento do Ensino de Arte: arte e linguagem, arte e conhecimento, arte e expressão, arte e imaginação, arte e conteúdo. Tais relações contribuem sensivelmente para o andamento das investigações desta pesquisa. Em relação à visão da escola sobre o trabalho desenvolvido pelas professoras, todas falam de preconceitos existentes e de mudanças que se fazem sentir. Falam de um “apoio” que ora parece ser de um trabalho interdisciplinar sério, ora parece ser da utilização da aula de arte para a aprendizagem e memorização de conteúdos de outras disciplinas, perdendo seu valor autônomo, argumento questionado por Tourinho e Vygotsky no quadro teórico realizado nesse estudo. Os dados produzidos nessas entrevistas consubstanciam-se como indicativos importantes para a consecução da estratégia metodológica adotada posteriormente, uma vez que apontaram as primeiras possibilidades de analise desta pesquisa. 4.2 - Diálogos conjuntos Na verdade, as entrevistas individuais sinalizaram questões que foram debatidas novamente e com mais intensidade nos grupos focais. Assim, as relações possíveis encontradas nas entrevistas individuais para o desenvolvimento do Ensino de Arte serão novamente expostas, agora de uma forma mais ampla e mais precisa nas discussões implementadas nos grupos. Para estabelecer as categorias de análise, analisei cada uma das videogravações dos encontros realizados com os grupos focais, anotando os aspectos mais significativos em relação aos objetivos de estudo. Fui buscar nas transcrições as falas dos membros dos grupos focais que melhor elucidavam cada aspecto detectado em cada encontro. Para ter certeza das categorias que se formavam resolvi verificar os aspectos que mais apareciam durante as discussões. Desse modo, estabeleci cinco categorias de análise, quais sejam: • O valor da disciplina de Arte na escola • A formação de professores de Artes Visuais e a formação continuada de professores. • A Abordagem Triangular e sua aplicabilidade. • A vivência artística e a educação do olhar • O conteúdo interdisciplinar e o currículo integrado. A proposta do primeiro encontro com os grupos formados foi de esclarecer o foco da pesquisa e deixar que os professores falassem livremente sobre suas práticas. Expus para o grupo sobre o objetivo dos encontros: conhecer o que os professores de Artes Visuais entendem sobre a disciplina que ministram e como acontecem suas práticas. Algumas perguntas estavam sempre em minha mente: o que os professores concebem sobre a arte na escola? Qual é o papel que esses professores exercem na função de arte/educadores? O que oferecem a seus alunos? Como conduzem suas aulas? Esclareci para os participantes o que era um grupo focal. Falei sobre minhas experiências profissionais e deixei que eles falassem um pouco sobre suas experiências. Vários assuntos foram levantados nesse primeiro encontro. No grupo N, pude destacar a queixa sobre a desvalorização da Arte/educação, a formação do professor de Arte (Licenciatura) e a formação continuada de professores, a importância da vivência em arte, a produção, a apreciação da obra de arte e a contextualização, que são os vértices da abordagem triangular de Barbosa. O grupo T acabou focando-se principalmente nos métodos de trabalho, suas últimas experiências. Pude perceber que as propostas de trabalho estavam voltadas para a Abordagem Triangular, porém senti nesse encontro uma ênfase maior para a leitura da obra de arte (a interpretação). Esses assuntos irão permear os demais encontros, com menor ou maior ênfase. Propus aos dois grupos uma atividade extra no primeiro encontro com o objetivo de nos conhecermos, de deixarmos cair as máscaras e transformarmos nossos encontros em confidências possíveis. Propus que fizéssemos autoretratos. Mas não seriam auto-retratos que expressassem nossa aparência física e sim auto-retratos que expressassem nosso interior, que expressassem o momento que estávamos vivendo, a forma como nos sentíamos. Levei o meu auto-retrato (anexo 4.1) e expus para o grupo, deixei que apreciassem e pedi que dissessem o que viam. Aos poucos os membros do grupo foram revelando o que eu sentia, meus anseios, meus problemas, meus conflitos internos. Também fui acrescentando idéias durante as falas, o que fez com que eles passassem a conhecer um pouco de mim. Após a análise do grupo, expus a visão que tinha de mim mesma e que, em muitos pontos, parecia-se com a leitura que haviam feito de meu auto-retrato. No segundo encontro alguns membros levaram seus auto-retratos e pudemos fazer uma análise dos mesmos. O auto-retrato foi exposto pelo autor e os outros membros presentes faziam seus comentários. Foram abordados, a partir da leitura do auto-retrato exposto, sentimentos, emoções e aspectos relativos à família, religião, profissão, futuro. Após as interpretações, o próprio autor fazia seus comentários, revelando o que sentia ao ver seu trabalho analisado pelos demais participantes. Considero que o trabalho proposto cumpriu o objetivo de fazer com que nos conhecêssemos melhor e através dele pude, também, perceber como, cada membro do grupo, fazia a leitura da imagem em questão. 4.3 - O valor da disciplina de Arte na escola Considero importante iniciar esta análise com uma categoria que aparece, implícita ou explicitamente, em diversos comentários dos professores participantes do grupo focal. Considero, também que ao partirmos da questão do valor do Ensino de Arte na escola, é possível obter uma visão mais concreta da realidade da disciplina e dos problemas enfrentados pelos professores. No primeiro encontro houve um desabafo, nos dois grupos formados, relativo à desvalorização do Ensino de Arte. Entendo essa desvalorização como uma conseqüência de uma educação que não prioriza a cultura, reflexo de um contexto político-econômico social e cultural da sociedade brasileira. Os avanços tecnológicos, a mundialização da economia e as novas concepções de trabalho e produção configuram o que se denomina sociedade da informação e do conhecimento, apontando para uma nova configuração global, na qual são ressaltadas novas concepções do saber articuladas à questão do poder entre as mais diversas culturas, povos e nações. Nesse sentido, a discussão sobre a multiculturalidade se faz necessária no espaço da educação escolar, porque essa impõe um sistema de trocas, interrelacionando diversas culturas e saberes, compreendendo a escola e a vida como instâncias não neutras e carregadas de complexidade. Entretanto, essas discussões e mudanças de paradigmas estão acontecendo de forma muito lenta no ambiente escolar. A desvalorização do Ensino de Arte, que é um exemplo claro dessa dificuldade em obter mudanças no espaço da educação escolar, é uma preocupação constante para os professores de Arte. A fala de uma das professoras do grupo N aponta a falta de reconhecimento do artista plástico como profissão, estabelecendo um paralelo desse fato com a desvalorização do professor de Arte: Rosa: Eu, quando fazia a minha declaração de imposto de renda, tinha que escolher a opção de pintor de paredes e correlatos, não tinha artista plástico, não tinha a figura do artista. Ou então desenho técnico, mas como eu não estava trabalhando mais como desenhista de projetos, na época, eu não ia colocar. É muito difícil isso. Realmente, um país que não existe como profissão o artista plástico, não vai existir o professor de Arte. Porque esse professor de Arte é o que afinal de contas? Porque quando você faz faculdade você tem como optar pela Licenciatura ou Bacharelado em Artes. Mas se você esta fazendo o bacharelado, você não vai ter uma profissão, porque essa profissão não existe. O descaso com o artista plástico e, conseqüentemente, com a arte e seu ensino apontado pela professora acaba trazendo para o debate uma outra questão que evidencia essa desvalorização. O professor de Arte na educação infantil e séries iniciais é visto e pensado, por muitos diretores, supervisores e professores, como um “folgador”, ou seja, aquele que dá folga ao professor regente, um prestador de serviço. Devemos levar em conta que a realidade da escola nas séries iniciais e na educação infantil é diferente da realidade nas séries finais do ensino fundamental, tanto do ponto de vista do papel do professor, da linguagem a ser trabalhada, quanto da rotina da escola. Nas séries iniciais os afazeres dos professores implicam colocar alunos em fila no horário de entrada e de saída, levar alunos para merendar, tomar conta do recreio, fazer um planejamento adequado à faixa etária e ter uma linguagem acessível aos alunos menores. Vejamos a fala que se segue: Teresa: Aí vocês estavam falando de quem está assumindo a disciplina de Arte de 1ª a 4ª séries. Então, a primeira escola que eu fui trabalhar, foi na sua (referindo-se à escola da Marta). Você chega, é um choque, porque você é encarado como folgador de professor. Marta: Isso é verdade. Teresa: É como se o professor de arte prestasse serviço para o colega, nós não somos, ali, alguém que foi com uma proposta de ensino, de educação para o aluno, para enriquecer a cultura dele, o conhecimento dele, a visão ou o ensino. Não. Nós estamos ali a serviço do colega regente. Você está entendendo, foi o primeiro impacto, a primeira forma que me assustou. Valéria: É o tapa buraco. A carga horária pode ser apontada também como um reflexo dessa desvalorização. Existe um sentimento de incômodo em relação à forma como a escola e seus profissionais encaram as aulas de arte e a maneira como manipulam com os horários para atender às necessidades das “disciplinas mais importantes” e facilitar a vida das professoras regentes. Ao analisar o horário de aulas de um professor de Arte é possível perceber que a questão da grade curricular é algo muito sério. Um professor de Arte, que tenha dois cargos nas escolas municipais, possui, em média, 25 turmas. Normalmente esse professor terá 1 aula de 50 minutos por semana em cada turma e, às vezes, em determinadas séries duas aulas. São 25 diários de classe para preencher, aproximadamente, 625 alunos para conhecer, ensinar e avaliar em Arte. Lembrar-se do aluno, de seu nome, acompanhar seu desenvolvimento é, no mínimo, uma tarefa bastante difícil. O trecho selecionado exprime bem essa situação: André: Sabe com quantos diários eu estou atualmente? 25. Risos. Valéria: 25 diários? André: É, 25 diários de classe. Você tem que tomar o maior cuidado pra não desvalorizar, porque a maioria dos alunos você não lembra o nome. A maioria dos alunos, que estão no diário, eu não sei quem são. Vocês vão me desculpar, eu não sei quem é o aluno. Você tem que ter uma memória, porque a gente tem uma aula em cada turma. Valéria: Você não tem que pedir desculpas. André: Vocês entendem o que eu estou falando, não é? 5ª série e 6ª séries são duas aulas, o resto é uma aula. Elisa: E você mudou de escola esse ano, não é? Ainda tem esse agravante. A minha vantagem é que eu acumulo anos na mesma escola. André: Não tem como, gente! Não tem! É difícil você lidar com isso. Eu tenho medo de ser injusto na hora de dar uma pontuação, às vezes você deixa de ver um trabalho de um aluno que é muito bom, é complicado. É difícil você avaliar em Arte. Além disso, para completar o cargo, esse professor provavelmente terá que trabalhar em 3 ou 4 escolas diferentes, pois o número de turmas oferecidas não são suficientes para fechar o cargo. Fica a pergunta: como conhecer o aluno, a comunidade escolar e a realidade do bairro num esquema como esse? Os professores acreditam que, para mudar essa situação, a escola deveria ser de tempo integral e os professores trabalharem em regime de dedicação exclusiva. Encaram esses dois aspectos como ideais, já que teriam tempo para fazer pesquisas, atualizar conhecimentos, levar alunos a exposições e museus, ter tempo para expor trabalhos realizados em sala, conhecer os alunos e sua realidade. Outra questão levantada diz respeito à maneira como, na escola, se evidencia a desvalorização do Ensino de Arte e, conseqüentemente, do profissional. O professor, ao ouvir comentários que desqualificam a disciplina, geralmente, mobiliza-se na sua defesa. Entretanto, quando isso é constante, os profissionais declaram-se, muitas vezes, cansados de precisar assumir tal posição. Manifestam-se desanimados pelo fato de terem sempre de reafirmar a importância de seu trabalho e, mesmo assim, freqüentemente só serem lembrados em ocasiões em que se faz necessária a decoração do ambiente escolar ou a promoção de atividades de lazer. “Somos um mero componente do currículo. Estou cansada, isso está me machucando, isso vai virar um câncer”, diz a professora Teresa Essa desvalorização da disciplina parece relacionar-se com o fato de não haver profissionais formados em Arte em número suficientes para atender às escolas na educação infantil e séries iniciais. Um fato que aponta para a desvalorização, também, na gestão do sistema, não só da escola. Como alegam não existirem esses profissionais, a Secretaria de Educação contrata professores de outras aulas para assumir, principalmente, os projetos de Arte e Literatura, hoje desenvolvidos em várias escolas municipais. Profissionais que não foram devidamente preparados para exercer o cargo, professoras de pedagogia ou mesmo de outras especialidades que tentam fazer um bom trabalho. Algumas participam de palestras, treinamentos, cursos de aperfeiçoamento e eventos na área de artes. Porém, na maioria das vezes, o resultado é desastroso. Repetemse as atividades prontas, mimeografadas, desenhos estereotipados, atividades descontextualizadas, priorizando a prática de técnicas. Observa-se essa realidade, tanto na rede pública quanto na rede particular. Muitas escolas têm utilizado a própria professora regente para realizar a tarefa de ensinar arte aos alunos pequenos. Verifica-se, também, que uma boa parte dos professores de Arte não tem uma linguagem e um manejo apropriado para lidar com crianças nas séries iniciais e na educação infantil. A falta de aprofundamento, de formação adequada traz conseqüências enormes na formação dos alunos e na própria visão do papel da arte pela comunidade escolar. Teresa: Tenho cinco anos de trabalho na rede municipal e nunca vi nenhum professor dando aula de Matemática que não seja formado em Matemática ou de Português que não seja licenciado. Rosa: Por que dar aula de Arte pode, não é? Teresa: Olha, é tão agressivo isso. E é isso que está fazendo a nossa desvalorização, as professoras não conhecem arte, as diretoras não conhecem arte, as coordenadoras não conhecem arte, então eles acham que arte é trabalhos manuais, eles estão vivendo, numa época de... Marta: Desenhos rodados no mimeógrafo para colorir, não é? A partir dessas falas fica evidente que a desvalorização do Ensino de Arte irá esbarrar no processo de formação do professor. A formação do professor de Arte é, sem dúvida, o tema mais debatido nos encontros realizados. 4.4 - A Formação do professor de Arte e a formação continuada de professores As referências à formação do professor de arte e à formação continuada foram temas que permearam a maioria de nossos encontros. A formação do professor aparece em todos os sete encontros do grupo N e em quatro dos seis encontros do grupo T, portanto é nítida a relevância desse tema para essa pesquisa. Em Juiz de Fora as disciplinas de licenciatura acontecem nos dois últimos períodos do Curso de Artes. Para um curso de quatro anos de duração, apenas um ano será dedicado à formação do professor de Arte. Além de ser um período curto de tempo de formação consideramos também o fato de ser no final do curso. Argumentou-se que o aluno deveria, logo no início do curso, ter uma disciplina básica que esclarecesse as questões do Ensino de Arte. A maioria dos alunos, ingressa no Curso de Arte com a intenção de serem artistas plásticos ou designers. Uma minoria tem a intenção de ser professor de arte. Depois de formados, ao caírem no mundo do trabalho, buscam o magistério como alternativa financeira. Sobre esse aspecto podemos citar Barbosa (2005): “A realidade é que a maioria dos/as artistas, quando ensinam Arte, o fazem para complementar o orçamento”. (p.101). Os trechos abaixo revelam esse fato: No grupo T: André: A gente percebe isso na própria faculdade, na realidade a gente faz o curso pra artes plásticas e ao mesmo tempo a gente vê que precisa de emprego, não é? Mesmo porque existe um contexto no curso que não condiz com a realidade que está aí no mundo, a gente precisa de trabalhar. A gente não é preparado pra enfrentar a sala de aula, aí você coloca a questão da arte-educação, na própria Faculdade de Arte existe o maior preconceito com a arte-educação. Eu sou artista plástico e nunca tive problema com isso. Eu acho fundamental, pra formação de público, que exista a arte nas escolas. O aluno ter contato com os artistas é a base de tudo, pra que um dia esse aluno tenha um pouco de interesse por arte. No grupo N: Teresa: Nós fazemos o curso com a intenção de nos aprofundarmos na arte, de sermos artistas, de sermos autônomos. Nós passamos muito tempo na Universidade com essa intenção, e aí nós caímos no mundo do trabalho, e por um acaso vamos para a educação, por um acaso. Eu não acho que a maioria dos alunos que estão saindo tenha a intenção de se tornar professor, ele gostaria se tornar um profissional da arte. A respeito dessa questão, foi unânime a opinião dos participantes de que não fomos preparados adequadamente para sermos professores de Arte. Os professores acreditam que uma parte desse despreparo tem relação com a própria estrutura do curso de Arte. A predominância do enfoque curricular do curso de Arte ainda está organizada a partir de uma lógica tecnicista: na fragmentação e compartimentalização do conhecimento. São as disciplinas que introduzem os alunos no saber fazer – desenho, pintura, escultura, mosaico, cerâmica etc. As disciplinas voltadas à contextualização, à interpretação da imagem são aquelas que abordam a História da Arte. Raramente são oferecidas disciplinas com a finalidade de introduzir os alunos, em processos de leitura de imagens. Quando estes chegam às disciplinas de Licenciatura, terão dois períodos para dominar a leitura da imagem e propor esse tipo de prática a seus alunos. Por outro lado, tenho observado uma movimentação maior no sentido de uma integração do Instituto de Arte e Design (IAD) com a Faculdade de Educação da UFJF. Esse interesse pode ser traduzido como um reflexo das discussões a respeito da interdisciplinaridade, da transdiscipinaridade que tem ocorrido no ensino nos últimos anos. A despeito de tais avanços demorarem a dar frutos, essa iniciativa já representa um bom começo. Outro questionamento envolvendo o curso de Arte da UFJF, observado pelos participantes do grupo focal (ex-alunos do curso de Arte), diz respeito ao objetivo dos professores do curso em formar artistas plásticos com visão e produção pós-modernas. Essa visão acaba demonstrando um preconceito em relação aos alunos que têm uma produção figurativa, que gostam dos clássicos, de fazer retratos por exemplo. O grupo vê nessa atitude uma forma de imposição, ou mesmo de permitir que o aluno faça o movimento inverso de iniciar com abstrações e terminar com trabalhos figurativos. Durante esse debate estávamos de posse de uma grade curricular do Curso de Arte e pudemos observar as disciplinas oferecidas atualmente, comparando-as com as experiências vividas pelo grupo. Conforme foi evidenciado anteriormente, a desvalorização do Ensino de Arte esbarra na questão da formação de professores. A falta de professores qualificados para dar aulas de Arte na educação infantil e séries iniciais, com desvio de função de professores de outras áreas, sem preparo para assumir a função dos arte/educadores, é uma preocupação evidenciada nos dois grupos focais, portanto penso ser importante fazer algumas considerações a respeito dessa questão. No texto da LDB de 1996, ficou assegurado o Ensino de Arte em todos os níveis do ensino fundamental. Trata-se de uma conquista que levou à ampliação da docência para a primeira fase do ensino fundamental. Nesta última década, várias escolas particulares e algumas prefeituras trouxeram para seus quadros professores de Arte com a finalidade de atuarem nessa fase. Outro avanço importante foi a mudança curricular, em boa parte dos cursos de pedagogia, visando a inclusão do Ensino de Arte na formação do pedagogo, mudança esta que beneficiou nossa área, com a abertura de concursos nas Faculdades de Educação e Cursos de Pedagogia para incluir o profissional de Ensino de Arte em seus quadros docentes. As discussões implementadas nos cursos de Pedagogia, referentes ao Ensino de Arte estão voltadas para uma formação cultural do pedagogo, objetivando a desmistificação dos conceitos e pré-conceitos sobre a arte e seu ensino. O trabalho do professor de Arte é na perspectiva de formar esse educador para ser um colaborador e agente da formação cultural das crianças, bem como para um trabalho que construa e não desconstrua a relação da criança com a arte, principalmente na Educação Infantil. O trecho selecionado retrata a importância dessa formação em arte nos primeiros anos de escolarização: Teresa: O meu interesse em buscar a arte na infância é porque eu percebia que o desenho é nato, é natural, isto é fácil para o início, para a criança. Porém, ele está sendo mal conduzido, mal trabalhado ou podado, como se fosse uma árvore, que vai cortando os galhos e ele fica tão fechado que chega na adolescência, pra você voltar isso, buscar essa forma de expressão, através de pequenos traços, pequenas linhas, o desenho, a imagem, fluir a imaginação, fazer ele gostar disso é muito difícil. Então eu fui conviver com uma escola de primeiras séries, fui ver o dia a dia de uma sala de aula e percebi que, e realmente posso dizer hoje, porque estou há cinco anos trabalhando com 1º, 2º, 3º período e 1ª a 4ªsérie, eu posso dizer hoje, sem medo de errar que está se fazendo um massacre nas escolas com as crianças. Vocês concordam? Débora: Concordo No final do 1º encontro do grupo N, a professora Teresa pediu para estender um pouco nosso tempo de encontro para mostrar alguns trabalhos de seus alunos. Observamos os trabalhos e passamos a analisá-los. Um dos desenhos analisados15 pela professora e pelo grupo revela pouca maturidade e apropriação da linguagem visual, como se tivesse parado no tempo, são as nuvens pintadas de azul e o céu branco, as árvores de formato de algodão cheias de maçãs e as figuras humanas inspiradas no personagem do quadro de Munch. O trecho selecionado abaixo registra o momento em que comentávamos sobre o referido trabalho. Considero importante destacá-lo, pois demonstra as dificuldades de nossos alunos para se expressarem graficamente, dando-nos pistas para encontrar as causas desse problema: Teresa: Olha, quando me deparei com este trabalho de uma aluna de oitava série. Eu levei um choque! Olha, isso aqui são aquelas folhas mimeografadas que passaram no sub-consciente dessa pessoa anos e anos. Você não apaga. Rosa: Eu vivo esse problema nas minhas aulas de desenho, inclusive eu orientei, no primeiro dia, sobre as nuvens, o sol, as cores. Débora: Mas depois de um tempo, não tem mais isso não. Teresa: Menina, escuta aqui, essa aluna está na oitava série, meu bem. Olha, turma 802, essa aluna passou pela 5ª, pela 6ª, pela 7ª, está na 8ª, meu bem! Rosa: Mas não é só isso não, eles desenham o céu branco, põem a nuvem azul e o sol amarelo. (mostrando desenho) Isso é uma questão de figura e fundo, não é? Quais foram os professores de Arte dessa aluna? Teresa: Isso que eu quero revelar. Aí que eu descobri o desastre que é a criança passar o 1º período, o 2º, o primeiro ano, que agora o 3º período chama primeiro ano, até a quarta série. Gente...olha... Valéria: A desconstrução... Teresa: Olha, menina, você tem que tirar leite da pedra. Porque o ser humano é uma planta, tem que cultivar. Marta: Me lembrei da fala de uma professora de história, que está dando aula de artes, ela reclamando:__Eu não sei o que é que eu faço com os meus alunos, porque eu não sei o que eu vou dar. Já dei aula de brincar, já dei aula de colorir e agora o que é que eu faço? O que quer dizer, ela estava numa angústia porque não é formada em Arte. A fala das professoras aponta para a questão da deficiência na formação em arte, tanto dos alunos quanto dos professores. Não só no 1º encontro, mas em quase todos os outros encontros, estávamos constantemente voltando ao tema da formação de professores. O desenho infantil desenvolve-se num crescendo e o professor pode ajudar a criança a desenvolver sua capacidade de expressão gráfica, estimulando sua percepção visual e sua imaginação criadora. A deficiência apontada pelos participantes do grupo N é justamente pelo fato de que os professores que estão sendo designados para exercer esse trabalho não conhecem as bases para o desenvolvimento das representações gráficas. 15 O desenho em questão se encontra no anexo 5. As falas, que se sucedem, esbarram num outro fato importante dentro do processo de desenvolvimento do desenho infantil e que está relacionado ao processo de aquisição da escrita. Na fase mencionada pela professora Teresa, educação infantil e séries iniciais, a escrita é a grande novidade, pois a criança está iniciando o processo de alfabetização. Tanto o professor quanto os pais estão direcionando toda a atenção para que a criança seja bem sucedida nessas novas habilidades de ler e escrever. As linguagens artísticas ficam em segundo plano neste momento. Paralelamente à valorização da escrita, acontecem julgamentos da produção artística do aluno, ou seja, o adulto avalia o trabalho, padroniza, cria estereótipos, o que faz com que o aluno passe a temer expressarse, temer expor-se. Regina: É, porque a partir do momento que se insere a cultura escrita, a ordem de entrada... Teresa: Eu digo porque é um pecado. Regina: Eles castram a expressão de desenho e padronizam. Rosa:_Tem que fazer assim. - Ah não, assim está feio. - Assim eu não quero. Teresa: Ela disse uma coisa hoje que é muito importante (apontando para a Regina). Você atinge a escrita, a decodificação disso aqui (apontou para o texto) porque se for um aluno do Japão a escrita é outra, se for na Rússia é outra, se for no Brasil é outra, quer dizer, as letras, o código é outro. Então, você diminui o potencial do aluno de dominar a língua, porque ele só alcança isso se ele estiver com o outro lado bem trabalhado, se ele combinar o desenho`a escrita, à expressão, isso é um trampolim pra ele conseguir a alfabetização... Regina: É o exercício da imaginação. Nessa perspectiva é fundamental que o professor que atua com crianças pequenas tenha um conhecimento maior sobre a imaginação criadora na infância. Conforme já exposto no quadro teórico desta dissertação, Vygotsky faz um estudo aprofundado dessa questão da imaginação e da fantasia na criança. Buoro (2001), ao analisar o trabalho desse autor, também irá dizer: A imaginação criadora antecede a razão e predomina em toda a ação infantil. Por esse motivo, percebemos a criança, desde pequena, como um ser potencialmente criativo e imaginativo. Por meio do jogo simbólico, da fantasia, da imaginação criadora, ela compreende o mundo e a si mesma, acumulando, na memória, um repertório próprio de conhecimento e de formas visuais (p.83). Porém, a promoção de eventos isolados de capacitação do professor para lidar com essas questões e outras que envolvam as linguagens artísticas não o torna capaz de exercer a função do professor de Arte, ou seja, não substitui a aula especializada de Arte na escola. Por isso, consideramos importante que esta disciplina faça parte da formação do pedagogo, assim como as demais disciplinas do currículo do curso de Pedagogia: Matemática, Geografia, História, Língua Portuguesa, Ciências, Ed. Física, Língua Estrangeira etc. Quando os pedagogos não possuem o contato com as linguagens artísticas e seu ensino, aparecem as dificuldades no momento de planejar e conduzir aulas nessa linguagem, correndo o risco de realizarem produções descontextualizadas e meramente técnicas que são comuns nas escolas. Assim, é motivo de preocupação quando os poderes públicos e executivos ameaçam retirar os professores especialistas em Arte que trabalham no ensino infantil e nas séries iniciais, com a alegação de que os pedagogos estão sendo preparados para assumir essas aulas. Outro aspecto debatido foi o fato de que muitos de nossos colegas professores não sabem o que é uma aula de Arte. Suas experiências, quando estudantes, foram, provavelmente, ligadas às aulas de desenho geométrico, técnicas manuais e a livre expressão ou nem isso. Preocupados com a conscientização dos demais profissionais da escola, os membros do grupo focal acreditam que é preciso promover palestras e reuniões para refletir sobre o Ensino de Arte e expor como a arte pode ser trabalhada na escola. Esse tema abre espaço para uma outra preocupação dos grupos, a formação continuada de professores. Reclamam sobre a falta de mestrados e doutorados em Ensino de Arte, falam da falta de opções de pós-graduações na nossa área. As iniciativas de formação partem do próprio professor que busca se atualizar através de livros e cursos. Teresa: São raríssimas as Universidades que têm alguém na nossa área, então fica complicado. Rosa: Eu já pesquisei num monte de sites, da USP, UFMG, UFRJ, mas é muito difícil de conseguir. Regina: Na área de educação tem. Eu não sei de arte-educação? Valéria: Mestrado e doutorado em Arte-educação na USP, com a Ana Mae Barbosa. Rosa: Eu acho que tem arte-educação, artes plásticas e tem uma outra área lá... Valéria: Eu acho que no Rio Grande do Sul agora tem mestrado em arte/educação. Teresa: Agora na UFMG eu não esperava, é só um item e muito fechado, eu fiquei triste de ver aquilo, é direcionado pra uma área, é muito restrito. Estes e outros comentários me ajudaram na escolha de um texto16 que trouxesse informações a respeito de entidades, associações de arte/educadores espalhadas pelo país. Falei sobre a Associação Mineira de Arte Educação – AMARTE e a Federação de Arte Educadores do Brasil – FAEB, sites e boletins específicos para a área de ensino de arte que alguns professores não conheciam. O texto escolhido é uma entrevista realizada pela jornalista, editora do boletim Arte na Escola e consultora de comunicação da Fundação Iochpe, Sylvia Bojunga Meneghett com o título “Contexto Nacional: as principais mudanças políticas e conceituais na visão dos arte/educadores”. (Boletim Arte na Escola, Número 20, março/1999) As Arte/educadoras entrevistadas são: Elizabeth Aguiar, Lucimar Bello, Rosa Iavelberg, Mariazinha Fusari e Heloisa Ferraz. Elisa: Por que isso não é divulgado? Eu acho engraçado que nós que somos professores, olha só... Valéria: Exatamente, exatamente por isso que eu coloquei esse texto na mão de vocês. Elisa: Mas eu vou falar pra você outra coisa, olha só, nós do Município, porque eu ainda sou do Estado e sou recente no Município, eu tenho 26 anos de Estado. O Estado não tem nada, não é André? Que você já passou por lá e sabe disso. O Estado não tem nada que nos una, que a gente converse. Através dessa fala é possível verificar a aplicabilidade da metodologia do grupo focal, principalmente quando se trata de uma pesquisa apoiada por autores sócio-históricos. O processo de interação oferecido pelo grupo focal apresentou resultados positivos. Como pesquisadora, e ao mesmo tempo como membro do grupo, marquei minha presença trazendo questões, fazendo comentários, levantando dúvidas, expondo minhas experiências. Estive envolvida nesse processo de pesquisa buscando compreender a complexidade das vozes de meus pares. Ou seja, assumi um papel ativo que permitiu a construção e reconstrução dos modos como o professor vê e pratica sua disciplina. Nesse sentido, o grupo funcionou como um espaço de formação, um espaço de intervenção junto aos sujeitos desta pesquisa. Selecionei alguns trechos que elucidam esse fato. Rosa: Valéria, eu acho que, sinceramente, eu acho que vai ser ótimo esta oportunidade da gente se reunir. Sinceramente, ultimamente, isso está vindo de encontro a uma 16 O texto em questão consta do anexo 6. vontade minha. Ultimamente o que eu mais estava querendo fazer é ver a experiência das outras pessoas da área, porque a gente não tem esse contato. Regina: Só esses encontros que eu tive aqui já me deram um envolvimento, uma argumentação suficiente, sabe? Fez com que esses dias todos eu estivesse pensando muito sobre as coisas da gente. André: Eu acho muito legal o que a Valéria está fazendo porque ela está abrindo uma porta. Rosane: Com certeza. André: Eu acho legal, Valéria, porque essa porta que você está abrindo é pra todo mundo que é professor de arte, principalmente. Porque aqui todo mundo pode fazer mestrado. Valéria: Olha eu... André: Eu quero fazer mestrado, um mestrado em Arte, na realidade. Rosa: Como você anotou o e-mail de todo mundo, você manda o e-mail pra gente e a gente vai fazendo a rede. Valéria: Ah, certo, isso mesmo. Teresa: Agora, eu fico olhando, o seguinte, como a gente tem sede de contato, irmanar, ... Marta: Estamos muito isolados. Teresa:Isolados, eu acho que o dia que você falar que acabou, eu vou chorar. Risos. Valéria: Aí vocês, a partir de agosto se reúnem aqui pra estudar para a prova de mestrado. Retomando o texto lido no 2º encontro, selecionei um trecho onde uma das entrevistadas do Boletim Arte na Escola, fala sobre a formação continuada. Nesse trecho, que recebeu o total apoio dos participantes dos grupos focais, Mariazinha Fusari diz: “Os arte/educadores reivindicam mais educação continuada, mais pesquisas, maior integração universidade-escola, mais publicações - além de livros e revistas, outras mídias como imagens, vídeos, CDRoms. Enfim, um ensino atualizado” (1999). Um assunto importante, discutido pelo grupo, principalmente no 4º encontro, foi os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino de Arte e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino de Artes Visuais. Em relação aos PCN-Arte, levei o texto: PCN nas escolas: e agora?17 Esse texto foi entregue a título de enriquecimento das discussões acontecidas no 3º encontro que já falavam sobre os PCN`s. Li com o grupo apenas alguns pontos que considerei necessários para serem debatidos e cujas opiniões dos participantes seriam 17 A autora, Maura Penna, é professora do Departamento de Artes da UFPB, lecionando no curso de Educação Artística e no Mestrado em Educação, coordenadora do Grupo Integrado de Pesquisa em Ensino das Artes, graduada em Música e em Educação Artística pela UNB, mestre em Ciências Sociais pela UFPB, doutora em Lingüística pela UFPE. O texto de Maura Penna consta do anexo 7 importantes. A autora elogia os PCN-Arte e também reafirma a qualidade da abordagem triangular como possibilidade para trabalhar o ensino de Arte. Porém, questiona os Parâmetros Curriculares no que diz respeito à abrangência da proposta na área de Arte. Os PCN-Arte propõem quatro modalidades artísticas: (1) Artes Visuais - com maior amplitude que Artes Plásticas, englobando artes gráficas, vídeo, cinema, fotografia e as novas tecnologias, como arte em computador; (2) Música; (3) Teatro; (4) Dança, que é demarcada como uma modalidade específica. A polivalência, questão antiga e já tão debatida no período da Educação Artística da década de 1980, volta a ser alvo de discussões com a proposta dos PCN-Arte. Para que tal proposta se efetivasse o ideal seria contratar quatro profissionais para as quatro linguagens artísticas propostas pelos PCN`s. A autora revela a complexidade desse problema, ao expor em seu texto: Diante deste quadro, vislumbramos três perspectivas, não muito promissoras: 1) Poderá ser exigida do professor uma polivalência ainda mais ampla - e mais inconsistente - que aquela promovida pela Educação Artística e já tão criticada. Inclusive as provas dos concursos para ingresso em redes públicas de ensino poderão ser elaboradas neste formato, abordando as diversas linguagens artísticas, como já acontece em muitos locais nos concursos para Educação Artística. 2) As propostas dos Parâmetros serão realizadas apenas na medida dos recursos humanos disponíveis. Assim, se o professor de Arte de uma dada escola for formado em Música, por exemplo, será esta a linguagem artística contemplada no currículo. Uma outra variante desta situação, que já começa a ter lugar em estabelecimentos particulares, é a escola escolher a(s) modalidade(s) artística(s) que considera mais conveniente(s) para os seus interesses, contratando um professor com formação adequada. Neste caso, podem pesar argumentos acerca da conveniência de evitar reclamações dos pais na hora de comprar material para as aulas de Artes Visuais, ou então sobre como determinado campo da arte pode contribuir para o marketing da escola - ao produzir apresentações teatrais, por exemplo. 3) Ou ainda - e pior - as propostas dos PCN poderão servir como base para planejamentos e relatórios que ficarão apenas no papel, sem mudanças efetivas na prática educativa em sala de aula. Enfim, acreditamos que, em termos de Brasil, serão poucas as escolas - de elite, certamente - que se empenharão em oferecer as quatro linguagens artísticas de modo consistente, contratando para tal diversos professores com formação específica. Como exemplo da dificuldade de implantação do PCN-Arte na escola pública atual, os professores citaram a falta de recursos materiais (instrumentos, sala ambiente) e a carga horária pequena. O trecho selecionado elucida essa discussão: Teresa: Deixa eu fazer uma pergunta: Vocês já viram um professor de música trabalhar? Imagina que ele vai trabalhar os sons. Vai ter uma hora que ele vai ter que colocar a mão na massa, os meninos vão ter que usar um instrumento, só de percussão, só de batuque. Quais são os instrumentos que a escola tem? Valéria: Então, falta material. Débora: Ainda pode ser que a escola tenha outro instrumento, as flautas. Teresa: Uma meia dúzia pode ser que tenha. É igual o nosso trabalho, de Artes Visuais, só tem giz de cera, lápis de cor e papel, não tem mais do que isso. Então vai ficar uma mesmice, uma coisa assim difícil pra ele e os meninos vão ficar só reconhecendo os sons. Imaginando, ouvindo. Valéria: O professor pode tentar formar um coral, alguma coisa assim. Mas... Rosa: Mas tem professor formado em Música que está dando aula de Artes Visuais? Trabalhando só com Música? Valéria: Tem projetos de música em algumas escolas. Débora: Aí sim, eu entendo que a Música, eu acho o seguinte um professor de Música, música mesmo, que sabe tocar um violino, que saiba tocar um piano, ele trabalha mais é com projetos. Porque imagina assim, você trabalhar piano, por exemplo, 50 minutos, você entrou agora na 7ª série, daí a 50 minutos você vai pra 8ªsérie, esse piano vai pra onde? Qual é o ambiente? Dessa forma, esses professores, que são habilitados em Artes Visuais, apontam as dificuldades em trabalhar as quatro áreas propostas pelos PCN-Arte, já que, não possuindo experiências significativas em outras modalidades artísticas, ao enveredarem num trabalho envolvendo Música, Teatro ou Dança, irão fazê-lo sem o aprofundamento necessário. Daí a dificuldade de se pensar a prática dessas quatro modalidades no âmbito escolar. Por outro lado, os PCNArte também não apresentam formas de viabilizar essa proposta, sugerindo que, "a critério das escolas e respectivos professores, (...) os projetos curriculares se preocupem em variar as formas artísticas propostas ao longo da escolaridade, quando serão trabalhadas Artes Visuais, Dança, Música ou Teatro" (PCN-Arte, p. 62-63). Em relação às Diretrizes Curriculares Nacionais - DCN´s, procedi a uma pesquisa18 no site do MEC e encontrei as DCN`s de outras linguagens Artísticas: Teatro, Música, Dança, Museologia. À época as Diretrizes para o ensino das Artes Visuais havia sido retirada para revisão. Na pauta de discussões do grupo 18 Disponível em http://portal.mec.gov.br/cne. Acesso em 20/06/06 focal estava a autonomia de escolhas no planejamento curricular dos professores de Artes. Alguns professores reivindicaram as diretrizes de Artes Visuais, outros questionaram sua necessidade. “Arte tem conteúdo, é uma disciplina, uma matéria como as outras”, estas são falas insistentes dos membros do grupo focal, das quais se servem como argumento para tentar amenizar os equívocos e discriminações por que passamos na escola. Os participantes fizeram comparações entre a disciplina de Arte e as demais disciplinas. Observamos que não possuímos livros didáticos ou um programa curricular relativo às séries que vamos trabalhar, com conteúdos definidos, pré-requisitos que um aluno deve ter para acompanhar a disciplina de Arte em qualquer lugar onde vá estudar. Somos autônomos para fazermos nossas escolhas, porém pagamos um preço por essa autonomia, principalmente, quando estamos iniciando a profissão. Não temos onde nos apegar. A escola nos cobra um planejamento anual e não temos com quem debater sobre o mesmo. Normalmente só existe um professor de Arte na escola em cada turno. Na hora de planejar, procuramos afinidades de trabalho integrado com outras disciplinas ou ficamos sós. Os professores acreditam que seria diferente se o Ensino de Arte tivesse um programa claro com conteúdos a serem cumpridos. Alguns reclamam que o trabalho de preparação das atividades artísticas é desgastante e cansativo. São muitas atividades anuais em cujo planejamento estão incluídas a seleção de conteúdos e metodologias apropriadas, continuidade com conteúdos anteriores, inter-relações significativas com as outras áreas do currículo e com a comunidade, além da procura por livros, por materiais a serem utilizados pelos alunos em suas produções, do ato de registrar as atividades, envolvendo inclusive questões financeiras. Selecionei a fala da professora Elisa do grupo T que expõe sobre esse fato: Elisa: - Pra preparar as minhas aulas de arte, independente de ser ensino médio, 1ª série ou 5ª, 6ª, 7ª e 8ª, porque eu dou aula pra isso tudo! Eu compro muito livro, eu gasto muito dinheiro. Gente, eu volta e meia estou dentro de livraria. Por quê? Porque a linguagem da arte muda, as técnicas de trabalho mudam. Os alunos têm outro comportamento e outros interesses hoje em dia, e olha que eu sou professora há muito tempo, dou aula há 27 anos, eu sou velha, comecei a dar aula antes de formar. Como pesquisadora, resolvi instigar esse debate para perceber melhor o que realmente pensavam sobre essa questão de um programa curricular específico para o ensino de Artes Visuais. Introduzi a seguinte pergunta: Valéria: Vocês não acham que existem dois lados de uma mesma moeda? Porque tem esse lado, assim, de ter um programa já elaborado pra você chegar e trabalhar, e tem um outro lado que é o da autonomia, que é de trabalhar aquilo que você tem maior domínio ou que você gosta mais de trabalhar e aí você tem essa liberdade de poder trabalhar aquilo que você tem maior gosto. Teresa: É aí que eu entro na formação da universidade, eu gostaria de visitar a universidade pra ver o histórico escolar, os conteúdos, as matérias que esses alunos estão desenvolvendo, pra ver se eles estão sendo preparados para ter esta facilidade de montar um planejamento anual, um projeto... Rosa: Essa autonomia, essa capacidade de discernir o que vão dar, eles não têm. Teresa:...na 5ª, na 6ª, na 7ª. Rosa: Eles não têm. Não têm. Portanto, existe uma preocupação, por parte dos membros do grupo, com os professores que estão iniciando a profissão. Observo que o grupo tem dúvidas a respeito da capacidade dos novos professores de Arte de programarem atividades para todas as séries do currículo com a competência necessária. Nesse sentido, são favoráveis às DCN`s de Artes Visuais que poderiam servir de alicerce para o planejamento das aulas. No 5º encontro, tanto do grupo T quanto do N, senti necessidade de tornar claros alguns tópicos debatidos, percebi que deveria introduzir questões estruturadas para direcionar as respostas e tirar dúvidas que estavam surgindo no debate aberto. Lancei 6 questões para o grupo pensar e responder: 1 – Qual o perfil do bom professor de Arte? 2– O que o professor deve fazer para não “engessar” o aluno? 3 – Quando o professor manda o aluno copiar uma obra de arte ele está reprimindo a criação da criança? 4 – Até que o ponto o professor deve interferir na produção da turma? 5 – O que uma criança perde quando não tem a chance de aprender o que é comunicação visual? 6 – Qual é a finalidade da disciplina de Arte? Entreguei as questões por escrito, permitindo que os participantes dos grupos focais levassem-nas para casa e refletissem sobre as perguntas com calma. Alguns escreveram por escrito, outros responderam oralmente no encontro seguinte. Lendo as questões para os participantes, obtive algumas respostas imediatas. Sobre a primeira questão que perguntava acerca do perfil do bom professor de Arte? No grupo N os participantes estabeleceram competências ou qualidades necessárias ao professor de Artes Visuais, tais como: o professor de Arte deve conhecer o que é arte, ter o olhar do artista, estimular sem engessar. Transcrevo abaixo duas respostas a essa questão: Marta: O primeiro passo, conhecer o conteúdo da arte para ensinar os alunos. Porque podemos partir do princípio de que o professor formado em Arte já saiba e conheça bastante de arte, não para conceituá-la para o aluno, mas para promover um diálogo sobre ela. Débora: É ter aquele olhar de artista. Porque o olhar do artista enxerga diferente! Enxerga diferente o mundo, enxerga diferente o aluno, enxerga diferente a criação do aluno. Nas respostas dadas por escrito pude observar que são apontadas como atribuições aos professores de um modo geral, características tais como: ser atualizado, ser alegre, comprometido, flexível, possibilitar descobertas. Considero que no escopo desse perfil do bom professor de Arte estão, também, embutidos os objetivos que os professores de Arte querem alcançar com seus alunos e que estes objetivos determinam suas ações. Algumas reflexões acerca de tais objetivos puderam ser realizadas pelo direcionamento dado pela atividade proposta no 6º encontro com o grupo N. Com esse grupo foi possível promover um encontro extra cuja intenção foi de oferecer uma atividade na qual se pudesse perceber como os participantes reagem às imagens, como as interpretam, enfim, como realizam a leitura da imagem. Para tanto organizei a exibição de trechos de dois filmes: Sonhos de Akira Kurosawa, episódio O Corvo e Sociedade dos poetas mortos de Peter Weir. Essa atividade acabou revelando, de forma espontânea, os objetivos dos professores de Arte. Procederei, portanto, à descrição das cenas apresentadas em ambos os filmes: No episódio O Corvo, o autor utiliza efeitos especiais através das quais a imagem se mistura com a pintura que tenta reproduzir as pinceladas de Van Gogh. Inicialmente o personagem central é um espectador que observa obras de Van Gogh em uma galeria de arte. Em dado momento o espectador se vê dentro do quadro e resolve seguir à procura do artista, passando por diversas de suas obras. O episódio retratado é um mergulho nas obras de Van Gogh. As professoras fazem uma verdadeira “viagem”, sorrindo enquanto acompanham as cenas e fazendo relações com suas próprias vivências como arte/educadoras. Vendo Van Gogh carregar seus instrumentos de trabalho, as professoras comentam sobre as sacolas de materiais que carregam quando vão dar suas aulas: “-Precisávamos ter um carrinho de supermercado para colocar os materiais”, disse a professora Marta. Tecendo relações com outros filmes, a professora Regina recomenda um outro que também leva o espectador a viajar na obra de um artista, nesse caso, a viagem é na vida de Pablo Neruda em O carteiro e o poeta. Após os comentários provocados pela exibição do episódio O corvo, iniciei a apresentação do trecho do filme Sociedade dos poetas mortos. Passo a descrever, agora, o filme e as cenas escolhidas: O filme Sociedade dos Poetas Mortos, (1989), do diretor Peter Weir não se trata de mera ficção descontextualizada, uma vez que põe em cena as representações e os valores sociais da sociedade contemporânea. O personagem principal é Keating, interpretado por Robin Williams, um professor de literatura que chega para trabalhar numa escola tradicional onde fora aluno, trazendo seu “moderno método de ensino”. Introduzindo na escola práticas educativas que levavam em conta as reais necessidades e aspirações dos alunos. Keating vai analisar a poesia além do rigor da composição, mostrando os impulsos e paixões dos poetas, buscando pela fruição da vida, por tornar extraordinárias as vivências do dia-a-dia. É nesse sentido que o professor vai buscar através da poesia, a via para chegar ao conhecimento, possibilitando ao indivíduo uma formação não só da racionalidade cientifica, objetivante e calculadora, mas uma formação plena para a vida, na qual expressar-se e conhecer-se se processam através do sensível. A primeira cena escolhida é uma aula em que o professor Keating pede para os alunos retirarem páginas de um livro de literatura e jogarem no lixo. O professor, nessa aula, faz uma relação da poesia com a vida, esclarecendo aos alunos que, para falar de poesia, é necessário ter paixão, dizendo: “-Vocês podem contribuir com um verso”. Essa cena é catártica, algo bem fora do comum para uma escola só para rapazes, conservadora, tradicionalista, que procura formar alunos que se encaixem num padrão cultural cujos valores são marcados pela competição e por interesses econômicos. Através da provocação estabelecida pela reprodução da cena do filme, surge a questão: -Essa escola favorece o questionamento acerca do sentido e do valor da vida para cada aluno? Primeiramente, as professoras do grupo N falaram sobre a escola que aparece no filme. Através de uma metáfora descrita pela professora Teresa, é possível resumir os comentários: “-Uma escola que pensa num ser humano como lápis dentro de uma caixa, todos de mesmo formato, organizados e bem apontados”. Analisam também, o objetivo do professor Keating de formar alunos livrepensantes. Percebem que a linguagem utilizada pelo professor para alcançar seu objetivo é a arte. Com essa análise partimos para uma das finalidades importantes da arte/educação: resgatar a magia e a sensibilidade na escola. As professoras lembraram das depredações que estão acontecendo na escola, observaram que o aluno não se identifica com a escola e a encara como um fardo para carregar, lugar de sacrifício e não de prazer. Falaram da necessidade de educar o aluno para respeitar trabalhos expostos, ser um espectador atento, fazer silêncio para assistir a uma peça de teatro, ter acuidade musical, enfim, educar o aluno para as linguagens artísticas e para captar a cultura. Após esses comentários, parti para a segunda cena escolhida. Novamente é uma cena que se passa na sala de aula. O professor Keating propusera numa aula anterior que os alunos compusessem um poema para recitar em sala de aula. E dirigindo seu olhar para um de seus alunos, questiona: “_Qual é o seu verso?” O aluno em questão se sente totalmente incompetente para executar a tarefa, se esforça-se para realizá-la mas é vencido pelo medo de se expor frente ao grupo de colegas. O professor, ciente da dificuldade do aluno, insiste que ele vá à frente e fale o que lhe vem à mente sobre um retrato exposto numa das paredes da sala. Pede que o aluno feche os olhos, que não ouça seus colegas, gira o aluno, provoca-o, instiga-o para que fale. O aluno, então, enuncia um poema, feito naquele momento, diante de todos. Quando o rapaz abre os olhos, toda a turma o aplaude. Os comentários sobre essa cena giram em torno do professor e de sua atitude. O professor Keating insiste em encorajar o aluno a se expressar com originalidade. A questão do protagonismo surge com a idéia de reforçar no aluno sua identidade. Observamos que o diretor, Peter Weir, propõe ao público uma questão muito séria a respeito da escola que vê o aluno como depósito de informações, cuja filosofia educacional não enxerga a Arte como conhecimento. Para esse tipo de educação, um advogado, médico ou engenheiro não precisa de poesia. Ao combater esse pensamento, os personagens, professor Keating e seus alunos, vão vivenciar vários problemas. Procurando instigar o grupo, questionei acerca do tipo de aluno que queremos formar. A professora Regina, respondendo à provocação, comenta ser papel do professor agir como um fomentador de idéias. As idéias se somavam, ao dizerem que buscamos formar alunos sensíveis que se emocionam, que sabem lutar por seus direitos, alunos críticos, que sabem polemizar, alunos criativos, que sabem se virar em qualquer situação, alunos cultos, que conhecem arte. Em relação à segunda questão, em que se interroga sobre as ações do professor para não “engessar” o aluno, pude observar respostas que se aproximam muito das já faladas na primeira questão, uma vez que se referiam ao professor de Arte como o que não engessa, que não tem o objetivo de colocar o aluno em uma forma, que não oferece o conteúdo pronto e apresenta as técnicas como arquivo básico de memória para contribuir na criação dos alunos. Marta: Hoje eu passei no centro de formação, tinha alguns trabalhos, de escolas, expostos lá. Chamou minha atenção o fato de estarem todos iguaizinhos, são trabalhos muito bonitos, muito bem feitos e tinha mais o nome da professora do que do aluno. Eram dobraduras de araras, umas diferentes das outras, mas a base do papel foi feita pela professora, então tinha um galho de árvore, todos têm esse mesmo galho e colaram as dobraduras sobre eles. Mas cadê a individualidade do aluno? Cadê a expressão do aluno? Cadê aquela liberdade de fazer um fundo diferente não é? Então eu acho que aí entra esse conhecimento que ela está falando, incentivar o aluno a ter a expressão, em cima de alguma coisa que você está direcionando, porém sem engessar. Débora: Porque é uma mentalidade do ensino tradicional que já foi formado. Nós viemos de uma escola tradicional, então sem querer você quer a coisa toda dentro de parâmetros, tudo certinho. E eu acho que a pessoa que tem aquela coisa de arte, ela não consegue ser igual e não consegue fazer com que seus alunos sejam iguais. Marta: E na hora de apresentar um trabalho coletivo, o professor fica preocupado com o acabamento. Às vezes ele vai matar o trabalho do aluno porque ele quer dar um acabamento bonitinho e acaba interferindo naquele trabalho: _Vamos fazer uma margem aqui. _Vamos corrigir aqui porque ficou torto. E acaba tirando a característica do aluno para aparecer tudo bonitinho no final. Novamente a questão da formação do professor é questionada pelos participantes do grupo N, ao perceberem que alguns professores utilizam repertórios tradicionais e que não condizem com a linguagem dos alunos. Sobre o fato do ajuste feito pelo adulto, “ajudando” nos trabalhos dos alunos, desrespeitando a espontaneidade da sua linguagem, é Martins(1998) quem nos fala: “No círculo vicioso, repetem-se as “mãos de gato”, repetem-se os desenhos copiados”(p.15). No grupo N, as respostas para as perguntas apresentadas no 4º encontro foram respondidas oralmente no 5º e 6º encontros, porém algumas professoras ainda fizeram um registro das respostas por escrito. No 7º encontro, e último, a professora Marta leu um pequeno texto contendo suas respostas, que foi bem aceito pelo grupo, visto que parecia resumir diversos pontos tratados durante nossos encontros. A partir destas falas é possível concluir que os professores percebem uma necessidade urgente de formação continuada tanto para nossos pares como para os professores de outras áreas a fim de ressignificar a arte na escola, desmistificando a idéia de arte como luxo, ornamentação ou disciplina não-séria no currículo escolar. Percebem, também, que o Curso de Arte precisa oferecer mais disciplinas que tenham como objetivo introduzir os alunos em processos de leitura de imagens e contextualização do objeto artístico para que os mesmos possam propor estas atividades em suas práticas pedagógicas. As quatro questões ainda não analisadas até aqui referem-se a aspectos que serão desenvolvidos durante o desenrolar deste capítulo. 4.5 - A Abordagem Triangular e sua aplicabilidade Os professores dos grupos focais trabalham a apreciação, a produção e a contextualização. Fazem também as releituras enquanto produção, realizada através da apreciação de obras de arte. A proposta metodológica baseada em ações de fazer, apreciar e contextualizar são, portanto, comuns na prática dos professores. Contudo, o movimento de zig-zag do contextualizar para fazer, do contextualizar para apreciar é comum entre os participantes. A metáfora do triângulo deu lugar ao zig-zag na prática dos professores. O contextualizar, o apreciar e o produzir através de releitura são elementos que podem ser observados nos trabalhos que a professora Teresa levou no 1º encontro e que acabaram sendo alvo de várias análises. Os trabalhos apresentados por ela, além da análise já mencionada anteriormente, eram releituras realizadas por suas turmas de 8ª séries do ensino fundamental. Ela expôs para o grupo N como havia realizado seu trabalho. Selecionei um trecho que nos dá uma visão dos três vértices da abordagem triangular, a leitura da imagem, o contextualizar e o fazer (aqui utilizando a releitura), vistos e trabalhados pela professora. Teresa: Eu posso mostrar pra vocês uma coisa, vocês me dão um tempinho pra eu mostrar uma coisa. Eu tenho isso aqui, pensei: - Eu vou levar e se tiver condições eu vou mostrar. Este ano de 2006, este ano agora no primeiro semestre, eu trabalhei o grafismo com os alunos de 8ª séries. Aqui na cidade, as obras de Picasso “Guernica”, de Munch “O Grito” e outros, estão sendo grafitadas nos pontos de ônibus. Nós fizemos um estudo histórico desde a época das cavernas, o primeiro grafismo da humanidade, fiz um histórico e tudo mais com os meninos. Aí fotografei essa pintura e fui mostrando para os meninos, (Mostrou para nós Guernica pintada no ponto de ônibus). É Guernica, os alunos olharam, levaram o maior susto: - Ah, não entendo aquilo, aquilo é uma loucura. Dentro do ônibus o motorista também estava perguntando sobre a obra quando tirei a foto. Aí dei um texto retirado do próprio livro de história deles para eles lerem, reconheceram Guernica. Foram estudar a obra, eles viram que era o símbolo da opressão e violência política, não é? Tudo bem. Esse trecho nos permite observar a sistematização da Abordagem Triangular na prática da professora em questão. Para dar maior clareza das possibilidades de aplicação da abordagem triangular como método de trabalho, esta sessão foi dividida em três sub-sessões, cada uma delas dando ênfase a um vértice da abordagem triangular em especial, estabelecendo, entretanto, as conexões necessárias entre elas. 4.5.1 - O vértice “Contextualizar” Conforme já foi dito no quadro teórico, contextualizar é analisar a cultura circundante, o contexto, o campo de referências do artista e do aluno. Contextualizar colabora com o ato de conhecer a imagem produzida pelos artistas e pelos alunos. Podemos analisar nesta sub-sessão dois aspectos que estão ligados ao ato de contextualizar, a leitura da imagem e, conseqüentemente, a educação do olhar. Todavia, precisamos ter em mente que se constituem como atos de natureza diferentes. Fazemos a leitura da imagem com a intenção de educar o olhar da criança, processo de aprendizagem no qual o ato de contextualizar também irá contribuir. Contextualizar a obra contando a história da vida do artista, falando de sua época, criando relações com as situações atuais são formas de ajudar a conhecer a obra. Porém, nos depoimentos dos professores, o ato de contextualizar e o ato de fazer a leitura da imagem são atitudes muito próximas. Sabemos que exercitar a leitura daquilo que está oculto na imagem é uma prática de buscar o sentido da obra e contextualizando também chegamos ao mesmo objetivo. Um exemplo foi dado a respeito das obras de Piet Mondrian. A professora Rosane, do grupo T, leva livros de imagens para trabalhar com seus alunos e analisa o fato de que, algumas vezes, as obras se confundem com as experiências de vida do artista. Rosane: Na turminha do 1º e 2º períodos, nós estamos aprendendo a ler imagens. Então no primeiro dia que eu cheguei nessa turma eu levei uns livrinhos, e falei: nós vamos ler. Um deles disse assim: - Mas eu não sei ler. Só que agora nós estamos aprendendo a ler desenhos, porque a imagem é uma leitura, e é claro que você sabe ler. Aí agora nós estamos vendo uma história de um macaquinho, aquela do Ronaldo Simão. Quando eu mostrei a capa do livro o Patrick, pequenininho, de cinco aninhos, gago, falou: - Essa história é do macaquinho. É a leitura da imagem feita pelo Patrick, e a gente vive num mundo extremamente imagético, não é? E eu permeio muito isso com poesia, o sentido oculto da poesia. As poesias infantis de Cecília Meireles. Que Cecília Meireles escreveu poema infantil o que menina! Olha a profundidade desses poemas dela, não é não? Valéria: Parecem ter sido feitas para os adultos. Rosane: Nossa! Mas é uma poesia que ajuda você a desenvolver, eu acho que o grande barato das artes é que exercita em você a leitura atrás da imagem, é um sentido, o sentido oculto daquilo. Olha Mondrian, aquelas árvores de Mondrian, aquelas imagens que parecem óculos, ou então que parece um monte de pedaços. Você vai ver aonde Mondrian passou a infância dele, não é? O quê que ele vivia, você vai ver que era tudo mágico no mundo dele, aquele olhar distante dele... Ao se contextualizar, pode-se fazê-lo de formas diversas: contextualização cronológica, social, histórica. Pelas falas dos professores que se constituem sujeitos desta investigação, embora se perceba uma tendência à contextualização histórica, aparecem outras formas de contextualização quando falam de cultura, em que enfatizam a necessidade de se trabalhar com a cultura da região, explorando o contexto social do aluno, relacionando-o com o conteúdo proposto. Além disso, percebi também, o fato do contexto político refletir-se nas análises das obras, na necessidade de se falar dos acontecimentos atuais, ou seja, estar conectado faz parte do contextualizar. Teresa: A contextualização é muito importante, gente. Talvez seja porque o que não faz sentido pra mim eu não aprendo, nada. Se isso aqui não fizer sentido, se eu não compreender aquela lógica. Primeiro eu dou aula pra mim mesma. Quando eu estou montando aula eu sou minha aluna, então de repente eu sempre tive necessidade de entender aquilo que eu estava estudando. Por que eu nunca aprendi química? Porque não fazia sentido. A professora entrava em sala, enchia com aqueles ccc, eu nunca entrei num laboratório. Aquilo não fazia sentido pra mim Teresa:...O professor tem que levar o aluno pra viajar com ele. Transportar. A riqueza está aí, então a pessoa tem que amar o que faz. Se o professor entra na sala, frio, com apenas aquele conteúdo que ele decorou, que ele viu, que ele gostou, que ensinou na Ana Maria Braga uma técnica lá, ele não leva ninguém com ele. Observei que muitas vezes os professores revelavam que o ato de ler a imagem está intimamente ligado à vivência do artista em dado tempo histórico. Em outras palavras, o ato de contextualizar ajuda na interpretação da imagem. Dessa forma, revelar o processo individual do artista, o seu meio social, seu momento histórico são fundamentais para que o aluno possa perceber o conteúdo contido na obra de arte. 4.5.2 - O vértice “Fazer” O professor André relatou que elaborara um projeto para trabalhar com seus alunos, descrevendo para o grupo os procedimentos de seu trabalho: elegeu quatro artistas brasileiros para trabalhar, escolheu algumas obras desses artistas, tirou cópias coloridas em transparências das obras escolhidas, projetou as obras para os alunos apreciarem, mostrou os elementos da composição, falou sobre a técnica usada pelo artista, desenhou ao lado da projeção os principais contornos da obra no quadro negro, comentou sobre o artista, sua vida, sua época, sobre a escolha do tema da obra, comparando com outros artistas de seu tempo. Solicitou, então, que os alunos pesquisassem sobre a bibliografia do artista e pediu-lhes que fizessem trabalhos inspirados no trabalho que estava ali projetado. Os alunos fizeram releituras das obras, aproveitando para usar materiais diferentes do usado pelo artista. Foram utilizados: giz de quadro, carvão, lápis de cor, jornais, papéis coloridos e outros materiais. Essa descrição sucinta do trabalho do professor do grupo T foi compartilhada no 2º encontro e transcrita no trecho abaixo: André: Então eu comecei a pesquisar a vida e a obra dos artistas, não é? Agora eu comecei a passar pra releitura da imagem. Eu mostro uma obra na transparência e eles vão fazendo. Ao mesmo tempo, que eu projeto, pra eles não ficarem muito perdidos, eu faço também um desenho olhando. E é interessante porque a gente pensa que ele vai ficar muito preocupado em copiar, então eu tiro um pouco isso da cabeça do aluno também. Eu acho que ele deve usar a obra como inspiração pra ele: - Nunca que eu vou conseguir fazer isso, professor. Isso é o que eu ouço e na verdade sai algo muito diferente, você sente que tem alguma coisa a ver com a obra do artista. Então isso é que é releitura. Eu acho assim, que é importante, a gente apresentar (mostrou a transparência) que esta é uma obra de Guignard, que o Guignard foi um artista importante e ir mostrando a obra para o aluno para que possa conhecer e comparar, fazendo essa conotação com a obra do artista já é muito bom pro aluno. Sabe por quê? Quando eu fui aluno, no meu tempo de ginásio lá no “Colégio dos Jesuítas”, eu não tive uma aula de artes desse jeito, então eu acho que eu já estou fazendo um papel muito bom para o meu aluno. Por outro lado, uma contextualização mal feita, uma análise superficial da obra ou apenas a apresentação de alguns dados biográficos do artista, seguidas de uma releitura que lembra cópia são problemas que podem interferir no desenvolvimento de um bom trabalho. Assim, o aluno não se identificará com o conteúdo proposto, resultando em uma experiência vazia. Nesse sentido, alguns autores fazem criticas severas à releitura, devido ao aspecto de cópia que lhe pode ser imprimido. Vejamos as palavras de Ana Amália Tavares Bastos Barbosa ( in Barbosa 2005a) Isso é abordagem triangular? Eu diria que é redução e não interpretação. Os resultados são trabalhos em que o aluno tenta agradar o professor copiando a obra ou o próprio professor acha que o melhor resultado é o que se encontra mais próximo representacionalmente da obra, em questão (p.144-145). Contudo, a releitura pode se constituir como um dos muitos recursos didáticos e metodológicos eficientes utilizados pelo professor de arte, desde que essa releitura seja conduzida de modo a analisar as obras sob pontos de vista estéticos, técnicos e conceituais. Nessa perspectiva, o professor deve abrir espaço para que o aluno possa criar com ela, apropriando-se dos elementos visuais da obra em questão, do jeito de trabalhar, das características do artista escolhido por ele. Uma forma para evitar cópias, pode ser o trabalho com a memória visual do aluno. Na verdade existem várias formas de propor um trabalho de releitura, ficando a cargo do professor a escolha pelo método de trabalho que melhor lhe convier. No 5º encontro do grupo T, os três professores participantes responderam sobre a terceira pergunta feita no 4º encontro: “Quando o professor manda o aluno copiar uma obra de arte ele está reprimindo a criação da criança?” Estávamos falando justamente sobre a questão da releitura e as respostas dos professores demonstram como essa questão está ligada diretamente às várias formas de propor um trabalho para o aluno. André: Ok. Deixa só eu tentar colocar aqui. Porque eu acho que são valores completamente diferentes, você mandar copiar é uma coisa, observar, copiar, é um valor do exercício artístico. Tá? Você mandar abstrair é outro valor do exercício artístico. Você mandar reler é outro valor. Entendeu o que eu estou falando? São valores que você deve explorar. Elisa: E quando você manda o aluno criar é outra coisa. André: É só você imaginar que você está dando uma aula de desenho e você pegou uma pessoa que não sabe nada de desenho, essa pessoa deve primeiro o quê? Deve fazer o que? Vamos colocar um objeto aqui e vamos observar como é que faz. Depois vamos começar a abstrair em cima desse objeto, e depois vamos começar a criar alguma coisa. Entendeu? Então o processo de sala de aula deve ser mais ou menos a mesma coisa. Agora, quando você pega uma criança, pequenininha não adianta colocar um objeto pra ela copiar não. Você tem que saber com que público você está lidando, não é? Você tem que fazer um diagnóstico desse público. Rosane: Mas você pode chegar e falar assim: - Gente, vamos desenhar essa obra de novo. Eu quero que vocês copiem essa obra, mas mudando cinco coisas. André: Ah, é legal bem. Rosane: Eu passo uma tarefa para o aluno criar sem perceber que está criando. Se eu der uma coisa e falar: - faça um desenho. Ele vai fazer uma bobeirinha, uma casinha, um solzinho e acabou. Portanto, a produção, o fazer estão intimamente ligados aos objetivos que o professor deseja alcançar com seus alunos. Nessa direção a releitura é uma das formas de propor trabalhos aos alunos que tem sido muito utilizada. Propor essa questão aos professores foi uma forma de clarificar como ela acontece na prática. Observo que os professores têm consciência de que seus alunos só poderão adquirir liberdade de escolhas para criarem seus trabalhos artísticos se tiverem conhecimento de materiais, suportes, técnicas artísticas e das possibilidades de articulações entre estes elementos. Para alcançar esse objetivo é necessário propor outras formas de trabalho e não se limitar à proposta de releitura. Os professores entendem que é necessário oferecer aos alunos uma diversidade de estímulos, dando-lhes os conceitos e as informações necessárias para o ato de criar. Em relação ao processo de criação, devemos levar em conta a faixa etária do aluno. Na adolescência, os alunos vão se tornando contempladores exigentes do mundo real e seus desenhos refletem essa característica. No trecho abaixo é possível observar essa preocupação em conhecer a fase em que o aluno se encontra para propor trabalhos que atendam aos seus interesses. Valéria: - A referência de arte é a clássica e a fonte de inspiração para a criação continua sendo a realidade. André: - Exatamente. Mas isso acontece quando? Acontece com os alunos mais maduros, quando vão chegando na 7ª, 8ª série e ensino médio. Por quê? Porque já perderam aquela coisa da criança, eles desenham e acham que... a criança tem uma liberdade de expressão e acabam fazendo coisas maravilhosas e os adolescentes são travados, porque já tem aquele senso crítico, acham que os outros vão criticá-los. Nessa fase, que corresponde aos 13, 14 anos, é necessária a orientação do professor para o desenvolvimento de técnicas que garantam uma representação mais complexa dos objetos. O problema da falta de treinamento para a criação leva o adolescente a abandonar a linguagem gráfica. Vygotsky, em seu livro: “ La imaginacion y el arte em la infância”, fala de 4 etapas do desenvolvimento do desenho infantil. Em relação a faixa etária do adolescente, o autor esclarece: La creación imaginativa del adolescente tiende en este período a la forma ilusória y naturalista, quiere hacer de modo tal como es en realidad, los órganos de la vista le permiten asimilar los métodos de la representación perspectiva del espacio (p.101). O desenho geométrico foi lembrado pelos dois grupos que percebem, nos alunos, um despreparo para o uso de instrumentos técnicos básicos como, por exemplo, a régua. Dificuldades que se revelam no traçado de linhas e formas, conhecimentos úteis para a execução de desenhos artísticos. Elementos do desenho que vão desde o ponto, a linha, plano, a superposição, figura e fundo, a perspectiva, a profundidade, a proporção, o volume, a sombra e a luz. Selecionei algumas falas dos grupos que elucidam a necessidade de elementos básicos de desenho, elementos estes que podem garantir uma melhora na produção da turma, ajudando a desenvolver a linguagem gráfica dos alunos: No segundo encontro do grupo N, pontuei a questão seguinte: Valéria: Eu fiz questão de convidar a Regina, porque é o outro lado, não é? Regina é professora do Colégio Militar, dá aulas de Desenho Geométrico e é formada em Arte pela UFJF. A Rosa comentou assim: - O aluno não tem mais a formação em Desenho Geométrico, nem o professor de Matemática, que tem seis aulas, não tira uma aula para dar Desenho Geométrico e o professor de Artes, que tem uma aulinha só, não vai priorizar o desenho Geométrico, ele vai priorizar a Arte. Graças a Deus, está é a minha posição. Porém o Desenho Geométrico ficou no ar. O menino, às vezes, não sabe pegar uma régua e medir três centímetros, você fala com ele, ele começa a medir do um, ele não começa do zero. Rosa: Eu falei sobre a parte do Desenho Geométrico, não é que eu ache que eles têm que sair da arte para uma coisa mais tecnicista não, mas é que isso... Teresa: É pré-requisito. Rosa: Isso é pré-requisito pra um monte de outras coisas. Regina: Na verdade as áreas estão muito próximas, a gente está vivendo um momento em que as pessoas estão tomando consciência de que uma coisa precisa da outra. No terceiro encontro do grupo N a questão aparece novamente: Rosa: Eu estou ensinando desenho para os meus alunos e eles não têm base, eu falo com eles na aula assim: _Sabe o que é perpendicular gente? _Não lembro mais não, professora. _ E um ângulo de 90º? Sabe o que é um ângulo de 90º? Eu tive que parar, ir no quadro e dar uma aulinha pra eles, fiz os símbolos, fiz os ângulos, fui mostrando, isso aqui tem 90º. Por que eu tive que fazer isso? Eu vou falar com eles que um rosto tem uma simetria, que a linha dos olhos é perpendicular à linha do eixo do rosto que eu estou fazendo ali. Como eu vou fazer você entender que se você inclina o rosto essa linha (mostrando o eixo de simetria de seu rosto) inclina? Eles estavam fazendo assim, um aqui e o outro aqui, mantendo a horizontal. Então é assim, uma coisa básica, mas numa turma de mais ou menos 15 alunos, eles estavam tendo dificuldade. O fazer envolve a técnica, aspecto pelo qual os professores do grupo T demonstraram maior interesse em debater que o grupo N. Na verdade os professores trocaram muitas informações de como trabalhar técnicas, ou seja, um queria saber como os outros desenvolviam seus trabalhos. O professor André expõe suas idéias e volta a comentar sobre os “valores” artísticos, que considero serem elementos da composição plástica que podem ser trabalhados na instancia do “fazer”. O trecho selecionado nos dá essa visão. André: Uma coisa muito legal pra trabalhar em artes que eu não sei se vocês já exploraram, é fundo e forma. Fundo e forma. Tipo assim, os meninos desenharam um jarro de flores. Usamos carvão no jarro, depois a gente recortou o jarro de flores e depois recortamos um pedaço de papel colorido e pegamos uma folha e viemos colocando, o papel colorido tipo uma mesa. Então veio o papel branco, o pedaço de papel colorido e depois o jarro em cima colocado. Essas coisas assim. Risos. Valéria: Interessante, eles vêem o que é o fundo, o que é a figura, o que é plano. André: Eu acho que essas coisas que têm volume, sombra e luz, perspectiva, você tem como trabalhar demais em arte. São os valores da arte que você pode estar passando para o aluno e eles descobrirem que é possível fazer isso. Perspectiva, quando eles descobrem que podem fazer uma perspectiva de um prédio de esquina, eles ficam babando, com ponto de fuga e tudo, que é mais ou menos uma geometria, mas não deixa de ser arte também. Quando eles descobrem que podem estar fazendo isso, que aquilo não tem nada de talento, que aquilo é técnica. E aí ele começa a achar que ele pode desenhar, entendeu? Rosane: Eu trabalho muito a perspectiva. Ainda dentro do vértice do fazer da abordagem triangular, que está sendo discutido neste capítulo, surgiu a questão da avaliação dos trabalhos produzidos em Arte e do resultado alcançado pelo aluno. Não falamos de métodos de avaliação, priorizamos a interferência no momento da produção como forma de avaliar visualmente o potencial do aluno e a necessidade de comentar sobre o trabalho executado individual ou coletivamente, dependendo da natureza do trabalho, no sentido de melhorar sua qualidade. Na verdade observei nos professores um impulso maior no sentido de falar dos resultados alcançados através da vivência com a arte. Os resultados alcançados são revelados no diaa-dia entre professor e aluno. Em arte os métodos de avaliação variam de professor para professor e no ensino fundamental a maioria das escolas utiliza conceitos e não notas numéricas para valorar os trabalhos realizados. Considero relevante na prática do professor de Arte o acompanhamento simultâneo dos trabalhos em sala de aula. Sobre esse aspecto surge a questão da interferência do professor no trabalho realizado pelo aluno, que se constitui como a quarta pergunta feita no 4ª encontro dos grupos focais: “Até que ponto o professor deve interferir na produção da turma?” Ao discutirem tal questão, os professores apontam diferentes posições, tais como a necessidade de não se estabelecer modelos, de estimular os alunos, de apresentar trabalhos diferentes, tanto de artistas renomados quanto da própria produção da turma. Nessa perspectiva, o ato de interferir deveria ser no sentido de buscar desabrochar, instigar, provocar, bastante diverso das “mãos de gato” citadas anteriormente. Nessa discussão, ressalta-se, inclusive, o papel da participação ativa dos colegas na produção, ou seja, o aluno mediador como o que ajuda o outro, explicando como elabora sua atividade, além de também opinar sobre o trabalho do colega. Nesse contexto, a aula de arte pode ter um clima diferente e proporcionar um maior entrosamento entre alunos, um clima de trocas, de movimentação, fato não raro, confundido com indisciplina. Nota-se que existe uma preocupação com a disciplina, por parte não apenas dos professores de Arte, mas também da direção da escola. Porém, o tumulto no início da aula pode ser transformado em quietude durante a produção. Quando o aluno interioriza o sentido do trabalho, ele se aquieta. Nesse momento alunos fechados e tolhidos saem da rotina e “fazem diferente”. Cantar, brincar, contar histórias, proporcionar momentos felizes, são atitudes próprias das professoras das séries iniciais e educação infantil. É bem mais difícil ver essas atitudes com alunos maiores. Os alunos confundem determinadas atividades com brincadeira e lazer, esquecendo-se do aprendizado proporcionado por essas ações. É preciso servir-se do caráter lúdico da arte tendo o cuidado de definir para os alunos quais são os objetivos da atividade proposta. Portanto, essa pode ser uma forma de demonstrar seriedade sem perder o encantamento que, certamente, não atinge a todos. Os professores do grupo T demonstraram um certo incômodo com a opinião dos outros professores e da direção a respeito do fato de haver barulho na sala de aula: André: A gente tem que entender os alunos também. Eles não trazem materiais, eu dou carvão, giz de professor, giz de cera, então tem aquela troca de material. Eu acho que tudo faz parte. Fazer uma colagem, por exemplo, a tesoura circula de mão em mão, é pedaço de papel colorido que gira pela sala, é cola. Então, gente, senão a aula de artes seria uma aula...uma aula... Elisa: Enquadrada, não é? André: Enquadrada, igual às outras aulas que você passa e está todo mundo em silêncio. Não pode ser, eles devem achar que eu sou louco, quando passam perto da minha sala e vêem aquele fuzuê. Elisa: Mas que eles acham um absurdo, eles acham. Eles falam que aula de Arte é assim mesmo, mas eu falo que no fundo eles estão te criticando. Eu acho que no fundo é uma crítica. As escolas municipais e estaduais de Juiz de Fora, em sua maioria, não possuem sala própria para a disciplina de Arte e os professores, geralmente, trabalham com escassez de materiais, driblando a sua ausência com criatividade, com a colaboração dos alunos e com um gasto extra do próprio orçamento. 4.5.3 - O vértice “Apreciar” A leitura da obra de arte tem sido chamada de apreciação, entretanto, nos grupos focais percebi que os participantes, muitas vezes, confundem o ler com o contextualizar. O exercício visual muitas vezes é considerado como o primeiro passo na aprendizagem da arte, apreciar as obras de arte. Apresentar o artista ao aluno através de algumas de suas obras, apreciar o trabalho do artista e depois analisar o contexto onde o processo se dá. As produções de trabalhos podem acompanhar esse processo, pois exercitam a leitura e a descoberta de novos significados. Esse início de contato com o mundo da arte é considerado pelo grupo como um pré-requisito para que daí em diante o aluno vá amadurecendo e buscando novas fontes de convívio com a arte. Levar os alunos aos museus, galerias, teatros, cinemas são atividades reconhecidas pelo grupo como uma necessidade, porém, se não for possível sair com eles, levamos até eles os museus e galerias, apreciando as reproduções de imagens em sala de aula, levando filmes, convidando artistas para mostrar seu trabalho na escola ou, quando possível, fazendo visitas virtuais na internet. Enfim, educar o olhar do aluno para as linguagens artísticas. A leitura da imagem não é considerada apenas como um ato contemplativo, mas, num sentido amplo, um ato de interpretação do objeto artístico. No ensino de Artes Visuais a busca por uma leitura crítica da obra de arte vem sendo ampliada para outras possibilidades. Ler as imagens das propagandas de TV, dos cartazes, dos outdoors. A professora do grupo T, Rosane, fala-nos de um “conteúdo oculto na imagem” publicitária. Rosane:... O segredo está nas aulas de Arte, essa leitura atrás da imagem, você contextualizar uma propaganda, uma imagem, você lembra até um tempo atrás tinha uma propaganda de revista, até daquele cara da “Bom-Bril” vestido com a roupa de Che Guevara, aí a frase era, esqueci. Como é a frase? Valéria: Hei de endurecer, mas perder a ternura jamais. Essa frase dele é bem conhecida. Rosane: Exatamente, olha bem a leitura atrás da imagem que aquilo traz, a gente precisa, a gente deve exercitar isso nos alunos da gente e é as artes que tem mais espaço pra isso. Uma novela na televisão, uma propaganda. Considero importante neste momento voltar à questão dos auto-retratos, lembrando que, conforme foi dito no início deste capítulo, os auto-retratos foram introduzidos, também, com a função de perceber como os professores dos grupos focais apreciam, analisam e interpretam desenhos. Enfim, verificar nos professores a sensibilidade para perceber o não dito em palavras, o dito através das imagens. Os professores fizeram uma verdadeira viagem nos auto-retratos e me deram um retorno bastante sensível nesse exercício, decifraram com muita sensibilidade e conseguiram com sucesso perceber o que os demais colegas sentiam através da leitura dos auto-retratos. Os trechos selecionados demonstram esse fato. A leitura de meu auto-retrato no grupo T: Valéria: Fiz um auto-retrato meu para servir de exemplo para que vocês façam o de vocês e a gente trocar idéias. Eu comecei a fazer um auto-retrato de como eu me sentia e não como eu me via no espelho e saiu esse desenho aqui. (mostrei o desenho) O que vocês estão vendo, como vocês conseguem ver a Valéria nesse auto-retrato? Rosane: Muito apaixonada pelo Picasso. Elisa: Não. Muito técnica, muito mecânica. Muito máquina, muito geométrica. Valéria: Também. Elisa: Acho que é a máquina, você está muito ligada à máquina. Rosane: Você sabe o que eu achei interessante, esse desenho olhando pro outro, meio nu. Você desnuda mesmo, exposta, você aberta, sem mascaras olhando pra Valéria que esta lá na engrenagem, não é? Elisa: Eu acho que a Valéria está muito triste, eu acho. Rosane: Eu acho esse negócio muito chique, esse negócio de imagem, de ler, olha o tanto que a gente leu. Elisa: A gente sofre um pouquinho pra se desenhar? Valéria: Essa semana eu gostaria que vocês fizessem esse esforço, de pegar uma folha de papel e se colocar, a Elisa vida, profissão, e a Rosane também. A leitura de meu auto-retrato no grupo N: Valéria: Eu fiz o meu auto-retrato assim ó! Está aqui, olha sou eu. (Mostrei o desenho) Risos Rosa: Meia engrenagem do tempo, ... Valéria: É. Aí cada um pode falar, o que você vê, Débora? Como você vê esse desenho? Débora: É você como ser humano e você, assim, no meio da luta, realmente, agora, de mestrado, da falta de tempo ou o tempo pressionando em cima, mas aí tem também um pouco da técnica de Picasso. Risos Teresa: É. O cubismo dela está retratando sabe o que? O lado direito, eu vejo o lado humano, você aquela pessoa simples, tranqüila, você uma pessoa leve e o outro, o lado esquerdo que é o da engrenagem, aquele ser humano movido ao tempo, e tendo que dar conta de um monte de coisas e isso está te sufocando, fazendo com que você mude até o seu olhar, seu olhar esta até puxado, sua pálpebra até desceu aqui, olha... Isso está te cansando. Valéria: Nossa, vocês estão fazendo um auto-retrato mesmo! Rosa: Um dia o meu aluno perguntou assim: - Você pode analisar a gente através do desenho? Eu disse: - Nossa e como, a gente consegue dissecar bem, não é? Concordam e sorriem. Teresa: Agora eu entendi esse seu auto-retrato. A leitura da imagem está vinculada à questão da cultura visual de uma forma mais ampla. Nesse sentido, ler a imagem parece ser inevitável para os tempos atuais. Observei esse fato na resposta à 5ª pergunta do questionário realizado no 4º encontro do grupo T: “O que uma criança perde quando não tem a chance de aprender o que é comunicação visual?” Apesar de a resposta envolver a questão da pessoa portadora de necessidades especiais e não ser do interesse desta pesquisa discutir o aspecto levantado pela professora Rosane, sua resposta define o conhecimento que pode ser adquirido através dos meios de comunicação visual. Rosane: Vivemos num mundo imagético, começamos assim. Você tem mais pena, hoje, de um deficiente visual ou de um deficiente auditivo? Hoje? Elisa: Ah. Rosane: Porque há um século atrás, o conhecimento que a gente recebia era muito maior através do processo auditivo, a oralidade, não é? Uma pessoa surda/muda tinha uma perda muito maior do que a pessoa que era deficiente visual. Hoje nesse mundo imagético que a gente vive, gente, é complicadíssimo. A pessoa ficar antenado sem... André: Ver Rosane: Sem conseguir usufruir essa quantidade de conhecimento através da visão que a gente recebe. Então essa leitura oculta que está na imagem, não é? A gente tem uma quantidade de imagens, de conhecimento, e o menino não dá conta de absorver isso tudo... André: Eu acho que o recurso da visão é tão amplo, mas tão amplo, que, realmente, é mais triste não ter a visão. Elisa: Mas existem tantos recursos hoje em dia. Vocês viram, naquele programa de TV, uma professora que está trabalhando com dança para pessoas cegas? Eu vi, também, uma propaganda de um cara, que está jogando futebol, que é cego. Nessa sociedade imagética, o acesso a vídeos, CDROM e DVDS nos coloca diante de novos desafios. Como diz Barbosa (2005a): Para compreender e fruir a arte produzida pelos meios eletrônicos, o público necessita de uma nova escuta e de um novo olhar. O aprimoramento da recepção da obra de arte produzida com a participação do computador e de outros meios eletrônicos é o que interessa agora. Saber ver e avaliar a qualidade do que passa na tela iluminada do computador é ser crítico e atual A consciência da tecnologia e da arte para a educação da recepção das artes tecnologizadas é o que deveríamos procurar desenvolver para ter um público crítico e informado (p.110). Assim, frente à expansão da comunicação visual com as tecnologias contemporâneas, a emergência de sua inserção no planejamento curricular vem se colocando como um dos muitos desafios para o professor de Arte. Evidencia-se, nestas análises, a aplicabilidade da Abordagem Triangular como um sistema metodológico que proporciona ao professor incorporar à atividade de produção artística, o exercício de reflexão acerca do contexto da obra de arte e da leitura da imagem no desenvolvimento da capacidade de interpretação visual, ou seja, essa abordagem introduz os alunos nas dimensões sociais, culturais e estéticas que envolvem as produções artísticas. Porém a Abordagem Triangular não é um método, ela nos ajuda a estruturar o conhecimento de nossa área e estabelece caminhos para a aprendizagem artística. 4. 6 - A experiência artística e a educação do olhar Proporcionar o contato com a arte, visitando ateliês e galerias de arte, feiras de artesanato, olhando a arquitetura da cidade, observando grafites nas paredes, outdoors, participando de eventos locais, indo ao cinema, ao teatro, discutindo sobre a vida na cidade e interagir com seus espaços, é tarefa do professor de Arte. Esse ato de “ver” é um estímulo para outras descobertas e tem um caráter de “iniciação”. Esse contato com as linguagens artísticas dá subsídios aos alunos para terem experiências artísticas significativas. Porém, para que essa experiência artística aconteça realmente, é necessário educar o olhar dos alunos. A vivência em arte é a experiência do individuo com a arte, conhecendo, fazendo e experimentando. A produção do aluno faz parte da instância da experiência artística, experiência que só será significativa se a leitura da imagem e a sua contextualização forem bem trabalhadas. A vivência em arte foi discutida em vários encontros, contudo no 5º encontro do grupo N esse tema dominou o debate. Quando se fala em vivência artística, surge uma análise relativa às questões econômicas e sociais dos alunos. A questão que se impõe é de que em nossa sociedade existe uma elite que tem acesso e domina a cultura e uma massa grande da população, da qual faz parte a maioria de nossos alunos, que vai à escola para comer, para adquirir hábitos de higiene, para não ficarem abandonados nas ruas. Esses alunos são influenciados apenas pela cultura do próprio meio em que vivem (bairro afastado dos centros culturais da cidade) e dos pequenos estímulos proporcionados pela família e pelos meios de comunicação. Face a tais dificuldades, essa vivência artística pode ser adquirida, através da sensibilização em sala de aula, levando obras e artistas à escola, estimulando a freqüência aos ambientes culturais oferecidos pela cidade através de visitas organizadas pela escola, passeios a cinemas e teatros. A professora Rosa trabalha com oficinas de Desenho Artístico no CEM e possui alunos de idades que variam entre 12 a 70 anos, oriundos dos bairros periféricos de Juiz de Fora. Para fazer um diagnóstico de suas turmas, Rosa resolveu criar um questionário19 19 O questionário elaborado pela professora consta nos anexos. com perguntas. Logo no primeiro encontro do grupo N, ela nos fala que um dos objetivos do questionário é saber qual e a vivência artística e cultural de seus alunos. Rosa: _ Eu tenho um questionário que aplico nos alunos do CEM desde quando comecei aqui, foi em 2003 que eu comecei a fazer esse questionário. Então, já passaram por mim, mais de 8 turmas, acho que essa é a nona ou a décima, de 2003 para cá. Então eu tenho esses questionários guardados. Eu ia até me desfazer deles, mas já vi que não vou me desfazer. Valéria: É a memória histórica. Rosa: É um documento. É um documento que eu tenho, porque nesse questionário eu estou perguntando se eles já tinham visto exposição de Artes Plásticas, qual é a vivência deles de teatro, de música, de cinema, se tocam algum instrumento, se conhecem museus, se conhecem o Cine Teatro Central. Perguntas básicas assim, mas dá pra gente perceber qual é a vivência artística e cultural deles. Valéria: Você pode trazer esse questionário para o próximo encontro? Rosa: Claro. Como eles são de vários bairros, o que acontece? Dá para você ter uma visão de Juiz de Fora com esse questionário. Temos consciência da realidade, convivemos com infinitos problemas relativos à estrutura familiar, social e econômica de nossos alunos. Sabemos que num modelo de organização social racionalista, fragmentado e excludente como o de nosso país, museus, teatros, livros, cinemas e a própria educação escolar de qualidade são bens que a maioria da população não tem acesso, mesmo sabendo que, de alguma forma todos nós pagamos através de impostos para a sua existência. Por outro lado, existe uma outra realidade, a dos alunos que possuem condições financeiras bem melhores, mas que também não conhecem, nem freqüentam os espaços culturais da cidade. Débora: Eu estou dando aula de Metodologia de Artes Visuais, no curso Normal Superior e um dos trabalhos que eu faço é isso, mandar em campo. Meus alunos devem pesquisar sobre as Galerias de Arte, os teatros, mando elas virem fazer pesquisas no Bernardo Mascarenhas, no Fórum da Cultura. A grande maioria nunca foi a esses locais. Não sabiam... Valéria: São meninas do Grambery que é um colégio tradicional e renomado em Juiz de Fora. Débora: Elas ficam encantadas com Juiz de Fora, com as pinturas, com as coisas, elas vão atrás, estão assim, oh, borbulhando, porque elas não sabiam, são adultas!! Valéria: Meninas que, em muitos casos, tem boas condições financeiras. Rosa: Mas por quê que existe... Débora: E a aluna que vai ser professora dos meninos de 1ª a 4ª séries, que não tem essa sensibilização para a arte, vai ser aquela que vai massacrar,... Teresa: Vai massacrar. Débora: Inclusive algumas falas das meninas são de que elas não sabiam que era de graça. Uma delas veio encantada e disse: - Eu posso ir ao teatro. Ela não sabia que ela podia ir ao teatro. Porque o grupo dela foi fazer a pesquisa nos teatros. Ela falou: - Eu posso ir ao teatro. Ela descobriu com quase 30 anos que podia ir ao teatro e que ele era franqueado, que não era de elite, que não era só de um grupo específico e que era de graça. Então uma professora que não tem esse conhecimento, como é que ela vai formar crianças? Promover a vivência em arte é, portanto, uma preocupação dos professores dos dois grupos focais. Para tanto, educar o olhar é fundamental porque envolve, como já foi dito, ler com competência os estímulos visuais apresentados. Mas a questão não se esgota, haja vista que as produções realizadas em sala de aula são igualmente importantes. Para que o aluno tenha competência em sua produção, é necessário sensibilizá-lo para o ato de ver, ou seja, educar o olhar. O trecho selecionado, é a descrição de um trabalho desenvolvido por duas professoras com alunos de faixas etárias diferentes, exemplifica o salto que o aluno dá quando consegue expressar-se através do desenho. A professora Débora realizou seu trabalho com alunos das séries iniciais do ensino fundamental e a professora Marta empreendeu uma atividade semelhante com alunos da terceira idade. Débora: Coisa que eu já fiz com os meninos, foi observação da natureza. Então eu já conversei com eles sobre as cores do céu? As cores e as formas das folhas? E a minha escola tem a boa qualidade de ser rodeada de montanhas, de ter árvores e tudo. Então eu já fui para fora da sala para que eles vissem que existem formas diferentes de árvores, de troncos e caules diferentes, tamanhos, de folhas e flores diferentes. Então eles ficavam observando tudo, céu, nuvem e quando eu voltei pra sala, falei: - Agora vocês vão desenhar pra mim as árvores que vocês viram. E nenhum fez aquela cópia que todo mundo desenha, e outra coisa este desenho ninguém deixou que eu ficasse, nenhuma turma que eu fiz esse trabalho, eles não me deram, eles quiseram o trabalho pra eles, de tanto que eles gostaram de fazer aquilo. Porque eles sabiam fazer, árvores diferentes, com cores diferentes e formas diferentes. Valéria: Então olha só o salto, não é? Esse momento é o que é mais interessante. Quando o aluno descobre que tem uma capacidade de expressão, que ele sabe fazer e que fica lindo. Marta: Eu tive uma experiência de uns três, quatro anos trabalhando com alunos da terceira idade, num projeto de extensão da terceira idade então aí eu pegava pessoas já de idade que nunca pegaram num lápis pra fazer um desenho, nunca pegaram num pincel pra nada. Analfabetos artísticos, totalmente, de desenho, de tudo. Eu tive uma aluna assim, com 70 anos. Eu fiz um trabalho parecido com esse da Débora. Pedi que, quando eles estivessem na rua, no bairro, olhassem as folhas. Porque na hora de fazer o desenho de paisagem, essa aluna não tinha noção, falei: - Vai olhar, vai observar. Ela veio maravilhada, porque ela começou a achar folhas amarelas, folhas, não é flor não. Folhas roxas, vermelhas, coloridas. Ela passou a fazer coleção de folhas, ela falou: - Gente, nunca tinha visto uma folha dessas! Risos. Marta: Mas foi uma descoberta. As falas das professoras são exemplos de como o exercício visual, acompanhado de atividades práticas de produção de trabalhos, pode contribuir para um conhecimento da linguagem artística e, ao mesmo tempo, ampliar o conhecimento de si e do mundo. Essa possibilidade de descobrir algo novo proporcionado pelas professoras faz com que os alunos exercitem o sentido de pertencimento, de ser cidadão. Tal possibilidade “de que algo nos toque”, de que ocorram mudanças na forma de olhar o mundo e de se olhar são fundamentadas na fala de Larrosa (2004): A experiência, a possibilidade de que algo nos passe ou algo nos aconteça ou nos toque requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorarse nos detalhes, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço (p.160). A arte requer dos alunos o desenvolvimento desses gestos, dessas atitudes tão bem ponderadas por Larrosa. Quando a experiência acontece, o resultado é um verdadeiro salto de qualidade do indivíduo. Para o aluno que conseguiu dominar a linguagem gráfica e mostrar através do desenho as observações feitas no ato de olhar a natureza, foi uma experiência tocante, foi um ato de superação de limites antes ainda não ambicionados por ele. Transportar suas idéias para um papel e ver surgirem formas, volumes, cores, paisagens é motivo de orgulho e satisfação e certamente do fortalecimento da auto-estima. No sentido de perceber o salto realizado pelo aluno quando domina a linguagem artística e consegue se expressar através dela, trago as palavras de Vygotsky (2004): O desenho infantil sempre é um fato alentador em termos educativos, embora vez por outra seja esteticamente feio. Ele ensina a criança a dominar o sistema das suas vivências, a vence-las e superalas e, segundo uma bela expressão, ensina ascensão ao psiquismo. A criança que desenha um cão vence, supera e coloca-se acima da vivência imediata (p.346). Outra experiência que pode ser destacada nesta pesquisa foi um trabalho descrito pela professora Rosane, do grupo T, que tocou seus alunos, tendo sido motivo de orgulho para a professora em questão: a atividade “cama de gato”. A preocupação da professora foi de transformar uma brincadeira em experimentação, é tornando a produção algo concreto para o aluno, “algo que tenha utilidade para o aluno” foram suas palavras. A professora coloca que nessa idade (séries iniciais do ensino fundamental) os alunos precisam começar suas atividades pelo concreto para depois abstrair. Rosane: Eu estou começando a trabalhar com geometria nas artes, abstração geométrica. Aí eu comecei a brincar com aquela “cama de gato”, aquele barbantinho, me deu um insight, eu tenho um livrinho que diz que tudo pode ser brinquedo... Valéria: Qual turma que você tá trabalhando isso? Rosane: Quarta série. Nós começamos e eu fiquei impressionada com aquele barbantinho, você sabe o que é cama de gato? Aquele barbantinho que você passa nos dedos e o outro tira, você sabe aquela brincadeira? Então, a princípio a aula era uma brincadeira: - Nós vamos brincar hoje. Menina quase ninguém sabia! Aquela brincadeira é folclórica. Como eu brincava com aquilo quando eu era criança! Quase ninguém sabia. Os que sabiam, se achavam os tais e ensinavam pra todo mundo. Nós ficamos uma aula brincando de cama de gato. Qual era o meu objetivo? Queria que os alunos observassem os desenhos que o barbante forma. Eu comecei com besteira, de olhar os desenhos que a cama de gato forma. Gente, eu não imaginei que isso fosse dar um furor, na escola, tão grande. O recreio, naquela semana, teve que ser estendido por dois dias. Os meninos das outras séries queriam aprender também, aí a diretora pediu aos meninos da quarta série para ensinar, foi um sucesso a cama de gato. E o objetivo..., não imaginei, a gente fica conversando assim: - Puxa se eu tivesse mais tempo! Agora vamos desenhar a cama de gato. Na medida em que os participantes iam descrevendo suas práticas, fui percebendo uma ligação entre a experiência de fazer arte e a necessidade de educar o olhar para saber vivenciar melhor a arte. Um olhar atento, um olhar demorado, um olhar mediado. Segundo Tiburi20: Ver está implicado ao sentido da visão. Costumamos, todavia, usar a expressão olhar para afirmar uma outra complexidade do ver. Quando chamo alguém para olhar algo espero dele uma atenção estética, demorada e contemplativa, enquanto ao esperar que alguém veja algo, a expectativa se dirige à visualização, ainda que curiosa, sem 20 TIBURI, Márcia. Aprender a pensar é descobrir o olhar. Jornal do Margs, Porto Alegre, n.103, set/out., 2004, p.8. Disponível em www.margs.org.br Acesso em: 08/04/2007. MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul que se espere dele o aspecto contemplativo. Ver é reto, olhar é sinuoso. Ver é sintético, olhar é analítico. Ver é imediato, olhar é mediado. A imediaticidade do ver torna-o um evento objetivo. Vê-se um fantasma, mas não se olha um fantasma. Vemos televisão, enquanto olhamos uma paisagem, uma pintura (2004, p.8). Observando a fala da professora Regina, do grupo N, percebo que é papel do professor de Artes Visuais, educar o olhar do aluno. O professor deve ter o olhar analítico de um pesquisador, o olhar sensível de um artista e deve exercitar esse olhar no aluno, para que ele possa compreender o mundo, os outros e a si mesmo. Regina: É, eu acho que a gente tem que bater nessa tecla, de que existe um conteúdo que é necessário para a formação integral do aluno e esse conteúdo está sendo perdido por algum motivo e as pessoas estão achando isso desnecessário, mas não é. É você ampliar a sua visão, o seu olhar, eu falo com os meus alunos: a gente nasce enxergando, a gente consegue andar e tudo agora saber ver é uma questão de você apurar o seu olho e isso é um processo muito mais profundo entendeu? Você pode ser um analfabeto visual, você olhar um desenho e não ver nada, e ficar ali e quando o seu olhar for trabalhado você consegue ver as nuances, fato igual acontece com a música. O trecho selecionado revela um pouco da própria formação da professora em questão. Como Regina é Mestre em Teoria da Literatura, comenta que a produção de textos está muito ligada ao pensamento imagético, que durante a leitura de um texto, seja ele de Geografia, História, Português, estamos criando imagens. O trecho selecionado elucida esse aspecto. Regina: Eu quero aproveitar a fala dela, porque eu achei muito importante e tem a ver com o meu trabalho de mestrado. Eu trabalhei essa questão da imagem dentro do texto literário, trabalhei o que existe de imagem na literatura poética. Eu trabalhei com Clarice Lispector. Acho muito importante os professores terem consciência, os professores de língua portuguesa, por exemplo, eles têm essa preocupação de alfabetizar, de fazer com que os alunos produzam textos, mas eles não percebem que a produção de texto está muito ligada ao pensamento imagético, à produção das imagens mentais. Se essas imagens não são produzidas e não se desenvolvem, o texto fica pobre, ele perde, ele fica totalmente abstrato, então existe uma riqueza de imagens a todo momento. Qualquer texto que você lê, até de Geografia ou de História, você está ali criando imagens, você compreende o texto através das imagens, aprecia o texto pelas imagens, e eu acho que aí é que entra o professor de artes. Se essas imagens não são trabalhadas fora da literatura, como é que depois elas vão entrar? Como é que o professor vai exigir que o aluno seja criativo num texto se ele trabalha a escrita simplesmente distante, desconectada das imagens? A respeito da importância da articulação entre imaginação e texto Vygotsky (1987) irá dizer: En tal sentido la imaginación adquiere una función de suma importancia en la conducta y en el desarrollo humano, convirtiéndose en medio de ampliar la experiencia del hombre que, al ser capaz de imaginar lo que no ha visto, al poder concebir basándose en relatos y descripciones ajenas lo que no experimentó personal y directamente, no está encerrado en el estrecho círculo de su propia experiencia, sino puede alejarse mucho de sus límites asimilando, con ayuda de la imaginación, experiencias históricas o sociales ajenas. En esta forma, la imaginación constituye una condición absolutamente necesaria para casi toda función cerebral del ser humano. Cuando leemos los periódicos y nos enteramos de miles de acontecimientos que no hemos podido presenciar personalmente, cuando de niños estudiamos la geografía o la historia, cuando conocemos por carta lo que sucede a otra persona, en todos estos casos nuestra fantasía ayuda a nuestra experiencia (p.20). O mecanismo da imaginação criadora é dotado de um processo complexo que Vygotsy irá trabalhar profundamente em seu livro. Os professores de Arte devem conhecer melhor esse processo para promover atividades que estimulem a imaginação. Evidencia-se nesta categoria o papel do professor de Arte como mediador cultural. Porém sua função não é só de proporcionar o contato do aluno com a obra de arte, sua função é bem mais complexa, envolve decifrar a linguagem artística, educar o olhar para que os alunos possam analisar, interpretar, fruir. Educar o olhar para que os alunos possam ter uma assimilação concreta de suas vivencias estéticas. Educar o olhar para promover experiências que toquem os alunos. 4.7 - O Conteúdo Interdisciplinar e o currículo integrado. No 3º encontro do grupo N, ao discutir as questões relativas aos PCN-Arte, surgiram questionamentos multiculturalidade. Não a entrarei respeito em da maiores interdisciplinaridade detalhes a e da respeito da multiculturalidade por ser um tema debatido com menor ênfase pelos grupos focais. O tema que aparece, inicialmente unido ao multiculturalismo, é a interdisciplinaridade que surge de diversas formas em vários encontros. Irei, portanto, apenas descrever o comentário do grupo a respeito do termo multiculturalidade, concentrando a análise na interdisciplinaridade e, conseqüentemente, na questão do currículo integrado. Existe uma preocupação, por parte dos professores, em trabalhar para atender aos objetivos da multiculturalidade. Esse interesse aparece com maior clareza no comentário da professora Teresa: Teresa: O que está pedindo nos PCN-Arte é a interdisciplinaridade e o multiculturalismo. Por quê? Porque durante muitos anos o domínio da cultura do branco sobressaiu nesse país. Era a cultura européia. Uma cultura elitista. Então hoje você trabalha com a cultura do negro, a cultura do índio e a cultura do branco, equiparadas, você não mais trabalha só a cultura do branco. O Ensino de Arte está visando o histórico-social, resgatando tudo o que veio com a nossa formação, mas realçando o outro lado, o mundo do aluno. O mundo de quem vem da periferia, você está entendendo? O lado social. Com certeza, os professores de Arte têm condições de trabalhar com os alunos dentro de um enfoque que priorize a formação cultural, que permita uma maior interação social, que fale sobre a diferença entre as pessoas, que explore sobre os estereótipos de beleza e outros tópicos que são comuns dentro de um currículo integrado. Observei que os professores falam em interdisciplinaridade para expressar a integração possível da arte com outros conteúdos, buscando parcerias com outros professores ou trabalhando essa integração diretamente com seus alunos. Conforme exposto no 3º capítulo desta dissertação, a interdisciplinaridade acontece quando existe uma integração real entre as disciplinas para a solução de problemas, levando o aluno a perceber as similaridades existentes entre os conteúdos. dizer: Parsons in Barbosa (2005a) irá A integração ocorre quando a aprendizagem faz sentido para os estudantes, especialmente quando a conectam com os próprios interesses, experiências de mundo e vida. Finalmente, é a mente do estudante que é integrada. É claro que, quando se diz “mente” incluímos emoções, intuições, valores e experiências sensoriais ( p.296). Acredito que a preocupação do professor em contextualizar a obra de arte, um dos vértices da abordagem triangular, leve-o a pensar de forma integrada. Ao perceber, na linguagem artística, seu caráter universal, sua ubiqüidade, provavelmente, o professor perceberá uma ampla variedade de temas proporcionados pelas obras de arte. No ato de interpretar, de buscar os “porquês” do trabalho do artista, o professor acaba percebendo que existe uma ligação direta entre a obra analisada e as questões sociais, culturais, políticas, religiosas, éticas, ecológicas. Enfim, os valores, as crenças que podem e devem ser trabalhadas com os alunos. Quando perguntamos: “- O que a obra nos diz?” Essa leitura da imagem certamente nos conduz a temas integradores. O professor pode ou não fazer as ligações com as outras disciplinas do currículo, isso é uma questão de escolha, de metodologia de trabalho. É ele quem deve escolher com que artista vai trabalhar, que obras, como e por quê. A professora Teresa tece o seguinte comentário: Não tem conteúdo mais rico do que a arte para se trabalhar a interdisciplinaridade. A arte está em todas as disciplinas. A primeira etapa neste ano eu trabalhei arte na História e Geografia, com o livro de História e Geografia, com o mapa-mundo, com tudo, e montei um trabalho sobre isso. A segunda etapa que eu estou terminando é a arte na Matemática, então eu trabalhei com o livro de Geometria, mas vendo a arte dentro daquele livro, no ano passado eu dei um enfoque, esse ano eu estou dando outro enfoque. Tentando encontrar uma função para o Desenho Geométrico, como uma das engrenagens que compõem o sistema educacional da escola em questão, a professora Regina procura estabelecer vínculos com outros conteúdos, demonstrando a aplicabilidade do desenho na vida do aluno. São vários os exemplos desencadeados a partir dessa fala que estabelecem uma relação entre aquilo que ensinamos e a possibilidade de uso desse conhecimento na prática: Eu tento trabalhar muito nesse sentido interdisciplinar. Porque a minha escola é tecnicista, é conteudista, é voltada mesmo para o vestibular, pra concurso, pro mercado de trabalho. Ninguém esta lá pra adquirir conhecimento espiritual, conhecer a arte oculta numa pintura, não. É nota, nota, nota, entendeu. Eu sinceramente, eu vejo em todas as profissões. Eu encontro com ex-aluno meu que faz Biologia e ele fala: - Professora, eu não dava muito valor para a aula de Desenho, mas agora quando eu vou estudar a borboleta, eu vejo que a borboleta é simétrica, e a noção que eu tenho de simetria me faz lá no curso de Biologia ser diferente daquele que não tem visão nenhuma. Essa capacidade da arte de permear por diversas áreas, proporciona, ao professor, uma infinidade de temas que podem ser desenvolvidos em sua prática. Inevitavelmente, em se tratando do Ensino da Arte essa capacidade irá se vincular aos outros conteúdos escolares. A contextualização demonstra a integração da obra com outros conteúdos. Os comentários dos professores do grupo T, ao verem a transparência da obra de Guignard, trazida por André, revela as ligações possíveis da obra com a História, com a Geografia, com a cultura local e com o artista, sua vida e sua obra, proporcionando, também, estabelecer relações com o contexto atual. André: É maravilhoso isso. Você faz as montanhas, as igrejas, os meninos soltando pipa, mais dá cada desenho maravilhoso.Talvez não com tanta complexidade, não é? Os alunos falam assim: - Professor, quantas igrejas é pra desenhar? Porque olha só tem 1,2,3,4,5,6,7,8,9, tem 9 igrejas nesse trabalho dele. Valéria: E se eles forem a Ouro Preto eles verão que existem várias igrejas, próximas umas das outras, acho que existem mais de 9. André: O universo de Guignard é esse. Ele se identificou muito com Minas Gerais, é o pintor mais mineiro que tem no Brasil, a gente pode dizer isso. Que ele pinta muitas igrejas, muita montanha, ele é lírico não é? Combina com a paisagem de Minas Gerais, é interessante que aqui tem um cemitério. Os alunos perguntam: -Vai desenhar o cemitério? Risos André: A gente está bem distante dessa questão histórica de Minas Gerais, desse toque do Barroco, não é? Juiz de Fora é uma cidade imperial, ela é ligada a Petrópolis, é ligada à corte do Rio de Janeiro. Valéria: Exatamente. Dentro dessa integração, também foi colocado que as Artes Visuais podem mediar conhecimentos que favoreçam o processo de letramento do aluno, ou seja, através da arte é possível dar contribuições para tornar o aluno competente na leitura e na escrita. Lembrando que, já na educação infantil, trabalhar com livros de imagens traz resultados eficientes para o desenvolvimento da interpretação e do gosto pela leitura. A educação do olhar deve começar desde a infância e os elementos que compõem o desenho (proporção, volume, superposição, textura, sombra e luz) devem ser desenvolvidos junto com a aprendizagem das letras. Rosane: Eu fiz um curso de Especialização em Psicopedagogia e, na mesma época, fui trabalhar com meninos de 1ª a 4ª séries para a Prefeitura. Porém, trabalhando pelo Estado, ganhei uma vaga no curso de Especialização em Alfabetização e Linguagem na UFJF. Inscrevi-me e acabei ficando, porque eu comecei a ver essa questão do letramento, essa condição sofrível dos meninos de 8ª série, dos meninos da 4ª série, em relação ao ato de ler um texto e interagir com ele, não é? Eu comecei a me questionar: - O que eu, como professora de Artes, o que eu posso fazer em relação a isso? Porque eu não fiz magistério, não sou professora alfabetizadora, porém com o curso pude conhecer um pouco mais de alfabetização, pude me envolver mais com isso e foi muito bom. Essa consciência de poder realizar um trabalho integrado revela que o conteúdo artístico é capaz de permear as demais disciplinas com facilidade. E mais, é capaz de promover a aprendizagem de uma forma outra, de chegar aos conteúdos tratados pelos demais professores por uma outra via. Atribuir significado àquilo que é aprendido, de forma concreta, decodificar o código artístico, promovendo, com isso, uma aprendizagem competente e prazerosa. Observei que alguns professores procuram fazer trabalhos interdisciplinares, objetivando demonstrar para os colegas professores de outras áreas, através do entrelaçamento de conteúdos, o valor da arte para a aprendizagem, acreditando que, fazendo essa integração, os professores entenderiam melhor o conteúdo artístico e sua dinâmica. Porém, é necessário tomar cuidado para não fazer da disciplina uma ferramenta que serve apenas para ensinar conteúdos que não pertencem ao Ensino de Arte. Isso acontece com freqüência e contribui com a desvalorização da disciplina e de seus objetivos. Teresa: vocês não queiram imaginar como é difícil, mas quando você consegue ser entendida, as pessoas passam a ter uma visão completamente diferente da disciplina. Marta: A luta é essa mudar a visão naquele meio onde você está, eu acho que a luta é essa. Teresa: Então agora nessa terceira etapa foi a arte na Língua Portuguesa, vou trabalhar o cordel. Então eu vou trabalhar inclusive com o professor da área, eu chamo o colega: Eu estou pensando em fazer isso, o que você vai trabalhar com seus alunos? Eu troco idéia com ele, eu vou até ele, eu busco. Agora ele já fala: - Teresa, você poderia fazer isso pra mim? Valéria: Aí é que tem que tomar cuidado, Teresa. Tem que tomar cuidado com essa frase. Teresa: Se eu não tivesse embasamento, tudo bem. Aí ele ia me levar no bico. Valéria: Se você não fosse esperta. Teresa: Mas como eu sei aonde eu quero ir e onde eu quero chegar, aí ele não me leva. Eu tenho meu domínio. Valéria: Mas um outro professor de Arte pode ser manipulado. É importante buscar, em Barbosa (2005a), as palavras de Michael Parsons, tecendo explicações sobre o aspecto discutido acima, pois usar a arte apenas como ferramenta para os conteúdos das outras disciplinas é o maior entreve para a prática de um currículo integrado. No texto intitulado “Currículo, arte e cognição”, o autor, que é professor da Universidade de Ohio State, Estados Unidos, revela que: Professores do ensino básico (elementary school) são com freqüência encorajados a integrar Arte em seus planos de aula e talvez se percam usando obras de arte apenas como ilustração de tópicos nãoartísticos. Mostram pinturas para ilustrar eventos históricos ou pedem aos estudantes que façam desenhos para ilustrar o que escreveram. Em tais casos, não existem idéias derivadas do mundo da arte, nenhuma discussão do caráter das imagens como imagens nem qualquer atenção às entrelinhas de seus significados visuais (p.310,311). Conclui-se que um currículo integrado pode fazer com que o Ensino de Arte desempenhe um papel importante no planejamento curricular da escola, tornando-o mais significativo aos olhos da comunidade escolar, porém devemos estar atentos aos modos de exercer essa prática. Como o próprio Parsons (2005a) irá dizer, não é fácil trabalhar um currículo integrado. Um currículo integrado não implica que os professores precisem entender menos dos assuntos do que na maneira tradicional de organizar conteúdos. Ao contrário. Para os professores de Arte, implica entender bem de arte e também de alguns aspectos de importantes questões que possam ser usadas para expressar questões que digam respeito à vida dos estudantes e a nossa vida comum numa democracia (p.311). Esta proposição nos coloca novamente diante do fato de que cada professor de Arte terá sua maneira de conduzir as aulas, buscando fortalecer seu conteúdo, tornando-o mais prazeroso e representativo para seus alunos. Vale, neste momento, analisar a última pergunta do 4º encontro dos grupos focais: “Qual é a finalidade da disciplina de Arte?” Em relação a tal questão, pode-se perceber que os professores parecem identificar a finalidade da disciplina aos objetivos do professor de Arte. Ao falarem de seus objetivos, os professores acabaram por resumir as cinco categorias de análise que compõem este trabalho de pesquisa. Portanto, no último encontro dos dois grupos, questionei-lhes acerca do objetivo central de cada participante, pedindo que refletissem acerca do que motivava suas ações, do objetivo a ser alcançado no planejamento das aulas de Artes visuais. Os professores do grupo T, embora tenham apontado para a dificuldade de se resumir em poucos objetivos, colocaram que um deles é fazer a leitura da imagem, despertar a linguagem oculta nas imagens, ler nas entrelinhas, sendo como dissecar um texto. Essa leitura da imagem soa como contextualização, pois interpreta o tema proposto na obra, o momento histórico da obra, a atemporalidade da obra. Porém, colocam que essa leitura pode ser subjetiva, não precisa ser clara, não é receita de bolo. A releitura tem o seu espaço garantido como produção do aluno. Insistem em dizer que não é cópia, não é para ficar igual, mas serve de inspiração, que existe uma unicidade, aquela história de que “eu não sou você”, de que cada mão faz diferente e de que, portanto, o resultado é individual. É reler, é ler de novo, não copiar. Ainda em relação à produção, o protagonismo é um dos objetivos expostos, ou seja, fazer com que o aluno saiba expressar-se com autoria. Estar presente no trabalho com sensibilidade, que seja levada em conta sua história de vida, de colocar-se no trabalho. O professor deve respeitar o protagonismo do aluno. Esse aspecto está presente na fala da professora Elisa em resposta ao questionário proposto no 5º encontro. Ligado a esse protagonismo, os professores do grupo T, ainda acrescentam que é preciso desenvolver a auto-estima do aluno, pois ele está escrevendo a sua história e na arte não existe errado, existe diferente. Assim, desenvolver a sensibilidade no aluno é um dos objetivos do professor de Arte. No grupo T a sensibilidade é importante no sentido de proporcionar a vivência com a arte, educando o olhar do aluno. Rosane: É triste quando alguém não consegue se emocionar numa cena dramática de um filme ou quando não consegue viajar num quadro. Privar o aluno do contato com a arte na escola é uma perversidade. O aluno de escola pública, muitas vezes, tem pouco contato com as linguagens artísticas. A aula de arte é quem faz esse papel. Ter compromisso com a profissão, ter consciência do conteúdo a ser ministrado, saber que existe um objetivo implícito a ser alcançado são fundamentos para que, aluno e comunidade escolar, não tenham um olhar pequeno em relação ao Ensino de Arte. É preciso ter em mente que as aulas de Artes Visuais têm seus domínios. Recordar conteúdos anteriores e fazer paralelos com outras disciplinas demonstra a relevância do assunto trabalhado, ou seja, são os pré-requisitos necessários aos alunos para prosseguirem a aprendizagem. Elisa:- Se você não tiver compromisso com o seu conteúdo os alunos perceberão o descaso e assim agirão também. Rosane: - O clima da aula propicia aquela aulinha de brincar. Não deixar que a aula de Arte seja um simples suporte para as outras disciplinas e reconhecê-la como uma disciplina que possui seus domínios e que esses domínios contribuem para a aprendizagem dos alunos, são estes os aspectos abordados pelo grupo T. No filme Sociedade dos poetas mortos o professor queria que seus alunos vivessem cada minuto de suas vidas intensamente. “Carpe Diem, rapazes! Aproveitem o dia! Façam de suas vidas algo extraordinário” e com esse objetivo ele desenvolvia seu trabalho inspirando seus alunos por meio da poesia (só podia ser através de uma linguagem artística). As professoras foram enumerando os objetivos: fazer com que os alunos sejam capazes de fazerem novas descobertas, ampliar a visão artística do aluno, ampliar, também, sua visão de mundo, perceber e desenvolver os sentidos (ver, ouvir, tatear), capacitar o aluno para se expressar através das linguagens artísticas, preparar para a vida, desenvolver a auto-estima para que o aluno possa reconhecer-se como individuo e como coletivo. Por fim, solicitei aos participantes que emitissem um parecer acerca dos encontros, dos assuntos debatidos, da experiência vivida como participante do grupo focal. As respostas revelam nossa carência de espaços de fala, espaços de trocas de idéias e experiências. Revelam nosso isolamento, revelam também nossa capacidade de superação de problemas e o quanto acreditamos naquilo que trabalhamos, ou seja, o quanto temos consciência da importância da arte na escola. Unir-se para defender a arte na escola passou a ser objetivo dos participantes do grupo focal. Sobre este aspecto destaco algumas frases significativas: Teresa: Gostaria de propor que não acabasse, adorei, fiz amizades foi muito rico... somos órfãos e precisamos de contato. Rosa: Vamos trocar e-mails e telefones para mantermos contato. Débora: Serviu para melhorar nossa própria didática. Marta: Os encontros proporcionaram uma energia nova, animo. Nós aqui no encontro falamos das mesmas angustias, não ficamos isolados, trocamos idéias. Regina: Tenho agora consciência de estar imersa, de descobrir o magistério mais forte em mim. Valéria: Vou tentar montar um grupo de estudo para manter o vínculo. Os participantes do grupo T falaram da importância de trocar experiências, reconheceram o grupo focal como um espaço para discutir sobre suas práticas pedagógicas e do enriquecimento pessoal e profissional adquirido a partir dos encontros. Foi muito recorrente a questão do isolamento. Como o professor de Arte se sente sozinho na escola, essa possibilidade de encontro com seus pares mostrou-se como altamente prazerosa e enriquecedora para os membros do grupo. Um aspecto comum aos dois grupos focais foi a solicitação para que os grupos não acabassem, para que criássemos um grupo de estudo em Ensino de Arte, que arranjássemos tempo e espaço para continuarmos nos encontrando. Percebi a necessidade de atualização dos participantes, um interesse em continuar estudando, de fazer um mestrado. Em relação a isso já estamos dando continuidade, pois foi formado um grupo de pesquisa, o Grupo Argo, no Instituto de Arte e Design (IAD) na UFJF e, por meu intermédio, 6 dos 11 membros envolvidos com os encontros do grupo focal estão participando desse grupo de pesquisa. Um retorno que me deixou lisonjeada foi a questão da admiração pelo trabalho que estava realizando nos grupos. Percebi que a minha luta como mestranda, como profissional e como pessoa servirá de estímulo para os participantes trilharem seus próprios caminhos em busca de formação. Na verdade como fazia parte do grupo e tinha participação no debate, pude colocar para o grupo minhas experiências profissionais, minhas angústias e minhas conquistas, com as quais se identificaram, assim como eu me vi em muitos dos relatos feitos pelos professores nos encontros. Os participantes expuseram o fato de que eu estaria plantando uma semente do Ensino de Arte no mestrado em Educação da UFJF. Neste sentido devo esclarecer que esta dissertação é a primeira investigação de Ensino de Arte aceita e desenvolvida no Mestrado em Educação da UFJF. 5. AMPLIANDO FRONTEIRAS Sem a nova arte não haverá o novo homem. Liev Semiônovitch Vygotsky Quando voltamos no tempo, percebemos o papel fundamental da arte na história do ser humano e nos damos conta de que a arte vem acompanhando a trajetória do homem, mesmo antes de outras formas de comunicação terem sido registradas. Considero que é com o mesmo grau de importância que a arte deve acompanhar o aluno em sua trajetória na escola. Com essa convicção, volto às questões que nortearam esta pesquisa: compreender as concepções e práticas dos professores de Artes Visuais. Para tentar responder a essas questões preciso voltar e tocar em alguns pontos significativos desta pesquisa, não com a pretensão de concluir, mas com a finalidade de expor minhas descobertas. Assim, retomo as cinco categorias que se formaram nesta pesquisa, quais sejam: (a) o valor da disciplina de Arte na escola; (b) a formação de professores de Artes Visuais e a formação continuada de professores; (c) a Abordagem Triangular e sua aplicabilidade; (d) a vivência artística e a educação do olhar; (e) o conteúdo interdisciplinar e o currículo integrado. Tais categorias demonstram a existência de um campo vasto de possibilidades de investigação dentro do Ensino de Arte. O presente estudo revelou que a concepção de Ensino de Artes Visuais dos professores pesquisados é voltada para a idéia de arte como conhecimento, uma arte carregada de significados. Concebem a arte como um fenômeno cultural que precisa ser apreendido pelos alunos. Os professores não abrem mão de ensinar sobre os elementos e valores estruturais do objeto artístico, todavia querem acrescentar a eles as interpretações e os contextos ali contidos, tornando-os visíveis aos alunos. Em relação aos conceitos que os professores de Arte possuem de sua própria função, foi possível observar que eles têm consciência de que são responsáveis pelo acesso dos alunos, principalmente os de escolas públicas, aos bens estéticos e artísticos da humanidade, ou seja, o professor de Arte é um mediador cultural. Essa postura do professor de Arte leva-o a buscar informações que garantam um domínio maior da gramática visual, visto que sua tarefa inclui tornar possível decifrar os códigos artísticos. No que tange à prática do professor de Artes Visuais, o presente estudo revela que será necessário repensar desde o simples planejamento de uma aula, a aplicação desse planejamento em sala de aula, a verificação dos resultados alcançados, até a viabilidade de estruturar cursos de formação continuada para nossos pares e para os colegas de outras áreas. O professor de Arte da atualidade deve estar munido de uma nova bagagem teórica que inclui os conhecimentos do mundo da arte, seus conceitos, sua magia, sua estrutura e uma nova bagagem procedimental, que inclui os métodos a serem adotados para tornar possível o aprendizado dos alunos. Em relação aos procedimentos metodológicos, a Abordagem Triangular com seus três vértices, fazer, apreciar e contextualizar, mostrou ser um eficiente sistema metodológico para alicerçar o trabalho do professor de Arte, observando as variações em zig-zag realizadas pelos professores. Com base nos diálogos e análises estabelecidos neste trabalho, espera-se que outras reflexões acerca das propostas metodológicas do fazer artístico sejam fomentadas, tendo em vista a existência de propostas que resumem este fazer a releituras de obras de arte. O vértice contextualizar, dessa Abordagem Triangular, especialmente, está sendo considerado, pelos professores pesquisados, como um elemento importante para que os alunos construam novos discursos sobre a arte, analisando o campo de referencias do artista, entrelaçando-o com o contexto atual. Portanto, para fazer essa contextualização, é preciso que o professor saiba, muito mais do que simplesmente dominar informações, trazer esses dados para a vida dos alunos. Assim sendo, espera-se que este trabalho possa alimentar outras discussões e pesquisas acerca da forma como o ato de contextualizar vem sendo exercido e dos seus desdobramentos na aprendizagem escolar. Promover o contato do aluno com o objeto artístico, educar o olhar dos alunos através de leituras de imagens para que possam desenvolver uma visão crítica do mundo e de si mesmos foram ações defendidas nos grupos focais e que devem ser assumidas pelo professor de Arte. Por isso, é preciso que o professor de Arte seja um mediador, aquele que “está entre”, ou seja, numa posição delicada. Sua tarefa é complexa e exige a reconstrução crítica do sentido e da função do seu próprio trabalho. No Brasil, o Ensino de Arte foi considerado ao longo da história da educação, por vezes como técnicas manuais, por vezes como um fazer espontâneo e livre. Essas formas de propor o Ensino da Arte fizeram com que a disciplina fosse considerada subalterna em relação às disciplinas “sérias” do currículo escolar, uma arte sem contexto e sem sentido. Assim, percebo que a estrutura do Curso de Arte é um reflexo da própria história do Ensino de Arte, oferecendo uma formação cuja ênfase é dada à técnica, ao fazer em detrimento da leitura da imagem e de sua contextualização. Este é um “nó” que precisa ser desfeito na Universidade. Assim, emerge a necessidade para os professores de Arte, que se encontram atuando na educação básica, de que lhes sejam oferecidas oportunidades de não apenas formação continuada, mas também de encontros, uma vez que o isolamento imputado a tais professores pelas próprias condições de trabalho tem-lhes sido altamente prejudicial. Como se pôde depreender pelas próprias falas dos sujeitos desta investigação, as trocas favorecem o amadurecimento de métodos e formas de conceber a disciplina. Nesse sentido, posso dizer que a participação desses sujeitos no grupo focal afigurou-se como uma possibilidade de formação continuada. Além dessa questão da formação, há ainda a prática de as escolas contratarem professores de outras áreas para as aulas de Arte. Tais profissionais, ainda que reproduzam trabalhos convenientes à manutenção da sistemática da escola, não condizem com a prática pedagógica do professor de Arte que se defende nesta dissertação. É necessário ressaltar que este estudo responde a um pensamento contemporâneo acerca do Ensino de Arte, que pretende incluir as dimensões artísticas, estéticas e sociais existentes no universo artístico aos trabalhos realizados no espaço escolar. Embora esse pensamento, se considerarmos os estudos realizados por teóricos e pesquisadores, já esteja se desenvolvendo há bastante tempo, parece que só agora começa a penetrar no chão da escola, onde ainda é muito presente a visão de arte vinculada à ornamentação, lazer, livre expressão e desenvolvimento de habilidades manuais. Como em outros setores, percebe-se que a escola ainda se mostra como um espaço resistente às mudanças, afeita às tradições com as quais está habituada. De acordo com as discussões estabelecidas nos Grupos Focais, a trama que o professor de Arte tem que construir para ressignificar a arte na escola envolve articular seus conhecimentos, desmistificar e combater preconceitos. A promoção de cursos, encontros, palestras relativas ao Ensino de Arte e a própria manifestação do professor de Arte sobre sua área em reuniões são elementos de transformação e de formação de uma consciência das funções do Ensino de Arte na escola. Na sala de aula a trama será ainda maior, porque envolve ressignificar sua disciplina junto aos alunos, incluindo aos conhecimentos sobre diferentes operações técnicas, estéticas, críticas, históricas e sociais, conteúdos que proporcionem experiências significativas. Como se pôde depreender pelos debates estabelecidos nos grupos focais, posso afirmar que tive como amostra um grupo seleto de profissionais, com atributos variados, tais como grande experiência profissional, compromisso, participação nas reuniões da Secretaria de Educação. Tais qualidades proporcionaram um debate de bom nível em que as questões sobre o Ensino de Arte puderam ser problematizadas e, pelo que vimos, contemplam os atuais debates acerca da disciplina. Pelo comprometimento dos grupos e pelo vigor dos debates, penso poder afirmar que teríamos muito a ampliar em nossas discussões, se assim o pudéssemos fazer. Outro aspecto importante a ser ressaltado diz respeito à utilização do grupo focal organizado de acordo com as concepções da abordagem sóciohistórica. Pela maneira como os grupos foram desenvolvidos, permitiu-se que os sujeitos, pesquisadora e pesquisados, pudessem interagir, ressignificando suas práticas. Nessa perspectiva, o grupo focal apresentou-se como espaço propício de formação e de trocas. Na condição de professora de Arte e pesquisadora, posso afirmar que a riqueza dos debates realizados nos grupos focais foi além de minhas expectativas, proporcionando um grande aprendizado. Como já fora anteriormente mencionado, os achados desta pesquisa evidenciam muitos dos debates estabelecidos por autores e pesquisadores do Ensino de Arte. Observa-se que as concepções de arte reveladas pelos professores nos grupos focais e as concepções defendidas pelos autores na atualidade coincidem. Ambos percebem um Ensino de Arte comprometido com a vida, relacionado a uma arte aguçadora de sentidos. Evidencia-se esse fato nos textos de Barbosa, citados no terceiro capítulo deste estudo. A arte desenvolve a cognição, facilita o aprendizado, estimula a expressividade e fortalece a identidade do aluno, qualidades da arte e de seu ensino que foram debatidas pelos professores dos grupos focais e paralelamente são respaldadas por pesquisas realizadas por Barbosa e por outros autores. Independente da obra de Vygotsky datar do início do século XX, seus pensamentos são extremamente atuais, suas pesquisas demonstraram a fundamental importância da educação estética para a construção da imaginação criadora na infância, fato percebido também pelos professores dos grupos focais em suas experiências profissionais. O autor trata da arte como algo capaz de equilibrar o ser humano com o mundo nos períodos mais difíceis de suas vidas, o que rejeita a concepção de arte como um fazer descontextualizado e acrítico, aspecto também defendido pelos professores pesquisados. Portanto esta pesquisa constitui-se como mais um elo na corrente para entender a arte na escola e para buscar respostas aos nossos entraves. Dessa forma, proporcionar a vivência artística, educar o olhar, proporcionar experiências que toquem, buscar a integração entre conteúdos são passos para se trilhar em direção a um Ensino de Arte renovado e transformador. A articulação entre o Ensino de Arte e as idéias postuladas por Vygotsky e Bakhtin amplia as fronteiras para a compreensão da linguagem artística e de sua dimensão social. Ambos percebem a capacidade da arte de transformar e decifrar a vida, evidenciam-na como uma forma particular de conhecimento humano, demonstrando as diversas formas de comunicação que podem ser estabelecidas pelas linguagens artísticas. Reafirma-se, portanto, a pertinência de alimentar discussões e criar grupos de estudos e pesquisas a fim de ampliar as relações possíveis com esses autores. Desse modo, considero que este estudo contribuiu para melhor compreender as concepções dos professores de Arte e de suas práticas na escola, que constituía seu principal objetivo. Porém, tenho consciência dos diálogos infinitos que se instalam quando as respostas estão comprometidas com o que somos, o que pensamos e o que fazemos. Diante das análises empreendidas, percebo que esta pesquisa propõe caminhos para a renovação da prática pedagógica em Artes Visuais e para a valorização da disciplina de Arte na escola. Portanto, considero que esta investigação pode contribuir para ampliar a visão sobre as concepções de Ensino de Arte e das práticas que podem ser empreendidas na instituição escolar. Assim como voltar no tempo foi a maneira encontrada para perceber o papel fundamental da arte para a história do ser humano, será tentando imaginar o papel da arte no futuro que pretendo concluir esta dissertação. Só não há dúvida de que ela continuará acompanhando a trajetória do novo homem. Portanto, acredito em um Ensino de Arte para todo o tempo e para além do tempo. REFERÊNCIAS BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte: anos oitenta e novos tempos. São Paulo: Perspectiva, 1991. __________. & Sales, Heloísa Margarido (org.) O ensino da Arte e sua História. São Paulo: MAC-USP, 1990. ________(org.) Arte/Educação Contemporânea: Consonâncias Internacionais. São Paulo: Editora Cortez, 2005a __________. John Dewey e o Ensino da Arte no Brasil. São Paulo: Editora Cortez, 2001 __________(org.) 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ANEXO Ficha de identificação dos participantes do Grupo Focal 1- Nome:___________________________________________________________ 2- Endereço:___________________________________________________________ _____________________________________________________________ 3- Telefone:_______________________________ 4- E-mail:_________________________________ 5- Formação Acadêmica: Graduação:____________________________________Instituição:_____________ Especialização:_________________________________Instituição:_____________ Mestrado:_____________________________________Instituição:_____________ 6- Vida Profissional: Tempo de magistério: ___________________________ Local de trabalho: ____________________________________________________ Telefone:_____________________________________ Função que exerce:____________________________________________________ 3. ANEXO Termo de compromisso dos participantes do Grupo Focal Eu, ___________________________________________________, portador(a) da CI: _______________________________, comprometo-me a participar do grupo focal coordenado pela professora e mestranda Valéria Maia Soares Bittar, matriculada no Mestrado em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora sob o nº 102040182, que será realizado no período de 18 de maio de 2006 a 29 de junho de 2006, às quintas-feiras no horário de 18:30 às 20:00, no Centro de Educação de Jovens e Adultos - CEM. Permito que os registros do grupo sejam utilizados na pesquisa da professora acima mencionada ou em publicações a cerca de sua pesquisa, se necessário. Assim sendo, __________________________________________________ 4. AUTO-RETRATOS 4.1 – Auto-retrato I Professora e pesquisadora Valéria 4.2- Auto-retrato II Professora Rosa 4.3 – Auto-retrato III Professora Marta 4.4 – Auto-retrato IV Professora Elisa 4.5 – Auto-retrato V Professora Rosane 4.6 – Auto-retrato VI Professora Teresa 5. ANEXO 6. ANEXO Contexto Nacional: As principais mudanças políticas e conceituais na visão dos arte-educadores Sylvia Bojunga Meneghetti Jornalista, editora do boletim Arte na Escola e consultora de comunicação da Fundação Iochpe O que mudou no cenário da arte-educação brasileira? Quais foram as principais conquistas no campo do ensino e da aprendizagem da Arte? O quanto avançamos? Esta matéria sintetiza o conteúdo de entrevistas realizadas em janeiro/99 com professores que pensam e fazer arte-educação no Brasil*. Como disse Ivone Richter, sem o resgate histórico, perdemos nossas raízes. "E esse resgate não pode ser feito de uma única visão - ele se completa no mosaico das lembranças". Sem a pretensão de abarcar todos os acontecimentos de um período pleno de realizações, com tantos e tão diversos cenários e atores, buscamos dar uma "pincelada" no contexto nacional em que nasceu e se desenvolveu o Projeto Arte na Escola. O mosaico das lembranças registra 1989 como marco de grandes transformações. Em agosto, aconteceu na Cidade Universitária da USP, em São Paulo, o Terceiro Simpósio Internacional sobre o Ensino da Arte e sua História, evento que reuniu mais de 2.000 pessoas, constituindo-se em contribuição teórica fundamental para o processo de reorientação curricular. O momento político era particularmente importante pois, no ano anterior, começara a ser reestruturada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e havia a ameaça de eliminação da Arte no currículo escolar de 1º e 2º graus. Preocupados em melhorar a qualidade do ensino, os arte-educadores buscavam aprofundar o pensamento teórico e explicitar os conteúdos da Arte para evitar sua retirada do currículo. O discurso oficial alegava que era necessário recuperar a educação brasileira "através dos conteúdos" e que "Arte não tem conteúdo". Se Arte tem conteúdo, isso chama para uma reflexão metodológica", convocava Ana Mae Barbosa, organizadora do Simpósio da USP, então diretora do MAC/USP e consultora do Projeto Arte na Escola que a Fundação Iochpe começava a desenvolver em Porto Alegre. Os anais desse Simpósio registram o desafio que se colocava para os educadores: "Precisamos continuar a luta política e conceitual para conseguir que a Arte seja não apenas exigida mas, também, definida como uma matéria, uma disciplina igual às outras no currículo. Como a Matemática e as Ciências, a Arte tem um domínio, uma linguagem e uma história. Constitui-se, portanto, num campo de estudos específicos e não apenas em mera atividade. A anemia teórica é um dos males da Arte-Educação no Brasil, mesmo na Universidade." As associações e núcleos de arte-educadores brasileiros, constituídos no início dos anos 80, prepararam a base da mobilização para vencer preconceitos e investigar, com maior profundidade, os modos como se ensina e se aprende Arte. Após o longo período sob regime militar, tornava-se possível mapear o que havia sido realizado no país durante a repressão. Os eventos da primeira metade da década tinham, portanto, o objetivo principal de conhecer a realidade, organizar os professores e constituir associações para representá-los regionalmente. Foram anos férteis no sentido da reconstrução do ego cultural dos arteeducadores e da identificação de lideranças. Em 1986, em Salvador, durante o II Simpósio Internacional de História da ArteEducação, as associações e núcleos de arte-educadores assumiram o compromisso de criar uma Federação Nacional. Em 1987, em Brasília, por ocasião do II Encontro LatinoAmericano de Arte-Educação, no I FLAAC (Festival Latino-Americano de Arte e Cultura), nasceu a FAEB (Federação dos Arte-Educadores do Brasil), com o propósito de congregar as associações e núcleos regionais, dando-lhes voz em âmbito nacional. Os maiores fóruns nacionais de debate e reflexão que se seguiram acompanharam e, de certa forma, promoveram a mudança de mentalidade dos arte-educadores, nos aspectos político e conceitual. Na segunda metade da década de 80, proliferaram pelo país encontros com os mesmos objetivos: reafirmar o papel do professor de arte, promover a articulação entre os profissionais, refletir e disseminar a produção científico-pedagógica e questionar a formação dos docentes. De 88 a 98, a FAEB realizou 11 congressos anuais. Os dois primeiros (Tabatinga e Brasília) tiveram discussões centradas na formação do professor e na LDB. A tônica do terceiro (1990), organizado em conjunto com a Associação dos Arte-Educadores de São Paulo (AAESP), foi a sensibilidade. A partir do quarto Congresso, realizado com a Associação Gaúcha de Arte-Educadores (AGA), em Porto Alegre (1991), a FAEB afirmou-se como entidade forte em nível nacional. Mais de mil professores participaram do evento, que reuniu 13 conferencistas internacionais, entre eles Elliot Eisner, então presidente da INSEA (International Society for Education Through Art). O V Congresso da FAEB, em Belém do Pará (1992), foi o primeiro na região Norte, organizado pela Associação de Arte-Educadores do Pará. Paralelamente às apresentações de conferencistas nacionais e internacionais, foi realizado o 1º Fórum sobre os Currículos dos Cursos de Artes. O primeiro Congresso da FAEB na região Nordeste aconteceu em Recife, em 1993, passando a chamar-se de CONFAEB. O 2º Fórum de Currículos desenvolveu-se no mesmo período, com a participação de representantes do MEC. Na ocasião foi solicitada a reativação da CEEARTES (Comissão de Especialistas de Ensino de Artes e Design) para debater a reformulação do Ensino Superior de Arte. Em 1994 foi a vez do Centro-Oeste. Campo Grande (MS) foi sede de três eventos paralelos: o VII CONFAEB, o III Encontro Latino-Americano de Arte-Educadores e o II Fórum Nacional de Avaliação e Reformulação do Ensino Superior das Artes. Em 1995, o VIII CONFAEB aconteceu em Florianópolis, sob responsabilidade da UDESC. Em 1996, a AAESP tornou a sediar o evento, em sua nona edição, com o apoio da PUC de Campinas. O encontro teve caráter científico, ao abordar metodologias, e histórico, ao promover uma mesa redonda com os presidentes da FAEB. A versão preliminar dos Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC (PCNs) foi discutida com os arte-educadores, num ano importante no cenário da luta política pelo ensino da Arte. Houve intensa mobilização, com manifestações em todas as cidades, culminando, em dezembro, com a aprovação da LDB no Congresso Nacional e sua sanção pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Macapá sediou o X CONFAEB (1997), alvo de grande comemorações. Em 98, Brasília foi mais uma vez o ponto de encontro, colocando em pauta o tema Arte-Políticas Educacionais e Culturais no Limiar do Século 21 no XI CONFAEB. Nesse contexto, destacam-se também os doze Seminários Nacionais de ArteEducação da Fundarte, de Montenegro/RS (1987-98), pelo mérito da continuidade e da busca de um caráter mais científico, com a apresentação de projetos, pesquisas e relatos de experiência. Estudantes de artes de Pernambuco, participantes do Congresso de Belém (1992), deixaram uma mensagem que caracteriza o "clima" dos eventos dos anos 90: "Viemos com uma mala cheia de preocupações. Voltamos com duas. Mas voltamos também com a certeza de que temos muitos com quem compartilhar nossas angústias, e de que estamos lutando pela causa certa." Os temas cruciais da década de 90 incluem, além da inserção da Arte na LDB, a interdisciplinariedade, assunto que já era alvo de reflexões nos anos 60 e 70, em âmbito internacional. "A década de 80 esqueceu o tema e a de 90 o retomou, relacionando-o à multiculturalidade, agora com um enfoque bem mais amplo", lembra Ana Mae Barbosa. "Os educadores estão começando a entender que somos a porta para a compreensão da cultura, da diversidade cultural. Por isso insisto tanto que os componentes do ensino da Arte sejam o fazer, mas também a leitura - a alfabetização cultural que podemos dar ao aluno - e a contextualização, ou seja, o entendimento da arte dentro da cultura geral", sustenta Ana Mae. "O componente realmente socializador é a contextualização". Desde 1996, os PCNs propostos pelo MEC figuram na pauta de discussões como um referencial importante para o professor. Sua função é orientar e garantir a coerência de políticas educacionais que propiciem melhor qualidade para o Ensino Fundamental, em todas as áreas. Os PCNs-Arte englobam o ensino de artes visuais, teatro, dança e música, abordando cada linguagem separadamente, com indicações para o desenvolvimento de trabalhos que integram a Arte com as demais disciplinas do currículo. Ao analisar os PCNs-Arte, Elizabeth Aguiar aponta a presença de pressupostos pósmodernos, expressos pela disponibilização da arte para o ensino. Ela considera que este é um encaminhamento essencial para superar diferenças e preconceitos, atribuindo ao multiculturalismo grande potencialidade de colaboração, através da escola, para a construção de um mundo mais solidário. O processo de divulgação dos PCNs na rede escolar ainda é recente, mas os arteeducadores, em geral, afirmam que há boa receptividade. "O professor sente que o PCNArte dialoga com sua prática. Ele se reconhece no documento", avalia Rosa Iavelberg. No Ensino Superior, a década de 90 assinalou a consolidação de cursos de pósgraduação e a publicação de teses de Mestrado e Doutorado sobre ensino de artes visuais. "Na universidade, as pessoas estão mais dispostas a entender a imagem, a discuti-la e a fundamentar uma compreensão sobre ela", afirma Lucimar Bello. "Não há dúvida de que hoje há maior aprofundamento e maior certeza do que se quer buscar." Quanto à mudança curricular, Lucimar Bello e Ivone Richter enfatizam a importante contribuição da CEEARTES. Os fóruns sobre a reformulação do Ensino Superior de Arte (1994-95) foram fundamentais para que as universidades percebessem que estavam encaminhando às escolas profissionais completamente despreparadas para lecionar Arte. As pesquisas ganharam maior espaço no cenário nacional. No início da década, no âmbito das universidades, havia apenas uma linha de pesquisa em arte-educação, na USP, ligada às Artes. Hoje há pesquisas sendo desenvolvidas em outras universidades, como é o caso da UFRGS (Faculdade de Educação). A ANPAP (Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas), entidade nacional voltada ao fortalecimento da pesquisa qualificada em Artes Plásticas, também abriu linha de pesquisa em Arte-Educação. Ao comemorar seu 10º aniversário, em outubro de 96, a ANPAP promoveu um grande Congresso Nacional, em São Paulo, com o apoio da ECA/USP e de comissões regionais de professores. Nos eventos internacionais, os trabalhos apresentados por arte-educadores brasileiros demonstram perfeita sintonia bibliográfica e conceitual, na avaliação de Lucimar Bello, que, juntamente com Ivone Richter, representa o Brasil na INSEA. A participação de educadores brasileiros em eventos mundiais, no entanto, foi mais expressiva no início da década. No encontro da INSEA, em 1989, no Canadá, havia 23 arte-educadores brasileiros; em 1997, na Escócia, o grupo reduziu-se a 5 pessoas. Em sala de aula, embora as realidades regionais sejam bastante diversas, e às vezes até contraditórias, considerando-se as dimensões do país e as acentuadas diferenças culturais, os arte-educadores identificam alguma melhoria nos percursos educativos em Arte. As mudanças ocorrem lentamente, num cenário ainda muito pobre no que se refere ao preparo do professor e ao acesso a informações e materiais atualizados. Em algumas regiões, como no interior de São Paulo, a municipalização da educação vem impulsionando investimentos em projetos pedagógicos escolares e em capacitação. "Nos últimos três anos, por orientação das redes públicas, tem sido possível para o professor de arte trabalhar com o todo, numa interação com colegas de outras áreas do currículo", relata Iveta Maria Borges Ávila Fernandes, coordenadora do projeto "A Educação Pública e a XXIV Bienal de São Paulo". É crescente o número de professores que buscam maior interação com instituições culturais para viabilizar o acesso de seus alunos à produção artística. Em São Paulo, todos os museus de arte já oferecem serviços de monitoria e atendimento a grupos escolares. Em 1998, a Bienal de São Paulo criou a Diretoria de Educação, materializando, pela primeira vez, uma proposta de ação educativa sistêmica para a mais importante mostra de arte do país. Em sua 24ª edição, a Bienal atendeu, indiretamente, cerca de três milhões de alunos do estado de São Paulo. Reconhecendo a arte como instigadora de abordagens múltiplas, grupos que nunca haviam demonstrado interesse na área começam a buscar maior informação e exposição ao tema, entre eles diretores de escolas e orientadores pedagógicos. A formação de professores é questão-chave que ainda deixa muito a desejar. Além do número reduzido de arte-educadores habilitados, sobretudo nas séries iniciais, existem realidades bastante díspares. Enquanto há grupos bem articulados, principalmente no Ensino Fundamental de 5ª a 8ª séries e no Ensino Médio, outros professores mantêm práticas muito tradicionais, ou assumem novas abordagens mas não as praticam com boa qualidade. Esta é a visão de Mariazinha Fusari, que reforça a necessidade de trabalhar o conceito de professor aprendiz, ou "professor reflexivo", para que as novas propostas sejam assumidas de fato, com qualidade, na vida dos professores. A falta de conhecimento e de domínio técnico do professor atravessou a década e se mantém como desafio fundamental, principalmente no contexto de aceleradas inovações tecnológicas dos últimos anos. Os arte-educadores reivindicam mais educação continuada, mais pesquisas, maior integração universidade-escola, mais publicações - além de livros e revistas, outras mídias como imagens, vídeos, CDRoms. Enfim, um ensino atualizado. "Seja através de estágios, ou na formação continuada, através da observação em sala de aula, da análise de vídeos do professor em situação de trabalho, etc, é necessário evitar que a formação teórica e a formação prática sejam dicotômicas", enfatiza Rosa Iavelberg. Como consultoras de Arte, Mariazinha Fusari e Heloisa Ferraz observaram, em suas pesquisas, que muitos professores brasileiros mantêm práticas tradicionais, mesmo depois de expostos a abordagens e propostas inovadoras e abertas, que propõem a integração da várias linguagens e a utilização de novas mídias. "Muitos professores ainda praticam um ensino exclusivamente ligado à expressão, sem qualquer contextualização. A mudança tem ocorrido de um modo muito lento. É um processo longo, mas certamente humanizador e mais permanente". Artigo extraído do BOLETIM Número 20 de Março 1999 Anexo 7 PCN nas escolas: e agora? Maura Penna Professora do Departamento de Artes da UFPB, lecionando no curso de Educação Artística e no Mestrado em Educação. Coordenadora do Grupo Integrado de Pesquisa em Ensino das Artes. Graduada em Música e em Educação Artística pela UNB. Mestre em Ciências Sociais pela UFPB. Doutora em Lingüística pela UFPE. Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino fundamental (PCN) foram elaborados “com a intenção de ampliar e aprofundar um debate educacional que (...) dê origem a uma transformação positiva no sistema educacional brasileiro”, segundo declara o Ministro da Educação e do Desporto, no texto “Ao Professor”, que abre todos os volumes dos PCN para as 5a a 8a séries. Os PCN já estão nas escolas, influenciando a prática pedagógica e também gerando inquietações, inclusive em nossa área. Os PCN – e especificamente a proposta para Arte – envolvem complexas questões, que o Grupo Integrado de Pesquisa em Ensino das Artes, da Universidade Federal da Paraíba, tem se dedicado a investigar, desde 1997, quando tivemos acesso ao texto final da proposta de Arte para as 1a a 4a séries. Uma análise preliminar de alguns aspectos dos PCN resultou no Caderno de Textos Os Parâmetros Curriculares Nacionais e as concepções de arte (CCHLA/UFPB, 1997), já esgotado. Atualmente, encontra-se no prelo a coletânea É este o ensino de arte que queremos? (Editora da UFPB), que reúne artigos que analisam a fundo os dois documentos dos PCN para Arte, inclusive as propostas para cada linguagem artística. Os frutos de todo esse processo de trabalho têm sido apresentados e discutidos em diversas ocasiões, inclusive no XIII Encontro Nacional Arte na Escola (João Pessoa, abril 2001). Assim, retomamos aqui alguns pontos das análises, desenvolvidas no Grupo, quanto à viabilidade da proposta para Arte dos PCN, privilegiando o documento para as 5a a 8a séries (PCN-Arte), por ser este o nível de ensino em que o professor licenciado costuma atuar. Em todos os ciclos da educação fundamental, os Parâmetros Curriculares dão à área de Arte uma grande abrangência, propondo quatro modalidades artísticas: (1) Artes Visuais - com maior amplitude que Artes Plásticas, englobando artes gráficas, vídeo, cinema, fotografia e as novas tecnologias, como arte em computador; (2) Música; (3) Teatro; (4) Dança, que é demarcada como uma modalidade específica. Nos PCN-Arte, as propostas para essas diversas linguagens artísticas estão submetidas à orientação geral, apresentada na primeira parte do documento, que estabelece três diretrizes básicas para a ação pedagógica. São diretrizes que retomam, embora não explicitamente, os eixos da chamada "Metodologia Triangular" - ou melhor, "Proposta Triangular" -, defendida por Ana-Mae Barbosa na área de artes plásticas e já bastante conhecida de todos que participam do Projeto Arte na Escola. Segundo os próprios Parâmetros, o "conjunto de conteúdos está articulado dentro do processo de ensino e aprendizagem e explicitado por intermédio de ações em três eixos norteadores: produzir, apreciar e contextualizar" (PCN-Arte, p. 49). Vale ressaltar que, em nosso país, a Proposta Triangular representa a tendência de resgate dos conteúdos específicos da área, na medida em que apresenta, como base para a ação pedagógica, três ações mental e sensorialmente básicas que dizem respeito ao modo como se processa o conhecimento em arte². Com os eixos norteadores adotados, os PCN-Arte colocam-se em sintonia com as buscas desenvolvidas no campo do ensino de arte, refletindo o próprio percurso da área. Neste sentido, podem ajudar a consolidar uma nova postura pedagógica e a concepção da arte como uma área de conhecimento específico. No entanto, há certamente um grande descompasso entre a realidade das escolas e essa renovação pretendida pelas instâncias regulamentadoras e pelos trabalhos acadêmicos, até porque os Parâmetros são bastante recentes: os PCN para as 5a a 8a séries completaram 2 anos de seu lançamento oficial no Palácio do Planalto em outubro de 2000 – e não chegaram de imediato a todas as escolas do país. Ao se pensar a prática pedagógica na escola, a primeira grande questão é: como realizar, na sala de aula, a proposta dos PCN para Arte, com suas quatro modalidades artísticas? O fato é que os PCN-Arte, que apresentam uma proposta tão abrangente, não chegam a apresentar de modo claro a forma de encaminhar concretamente o trabalho com as diversas linguagens artísticas. As disposições neste sentido são poucas e dispersas pelo texto, de modo que a questão de quais linguagens artísticas, quando e como serão abordadas na escola permanece, em grande medida, em aberto. Os PCN-Arte optam pela organização dos conteúdos por modalidade artística - e não por ciclo, como nos documentos das demais áreas -, delegando às escolas a indicação das linguagens artísticas e "da sua seqüência no andamento curricular" (PCN-Arte, p. 54). Neste sentido, sugerem que, "a critério das escolas e respectivos professores, (...) os projetos curriculares se preocupem em variar as formas artísticas propostas ao longo da escolaridade, quando serão trabalhadas Artes Visuais, Dança, Música ou Teatro." (PCN-Arte, p. 62-63 - grifos nossos). À primeira vista, a flexibilidade presente na proposta de Arte procura considerar as diferenciadas condições das escolas, levando em conta também a disponibilidade de recursos humanos. Diante das condições do sistema de ensino em nosso país, seria irrealista pretender vincular a abordagem de cada linguagem artística a séries determinadas, num programa curricular fechado. Mas esta flexibilidade pode, em certa medida, comprometer a função básica dos Parâmetros Curriculares, que é garantir um padrão de qualidade no ensino, em nível nacional, inclusive em termos dos conteúdos estudados. Pois, na área de Arte, muito é deixado a cargo de cada escola ou mesmo do professor, inclusive com respeito à abordagem dos conteúdos. Neste sentido, os PCN-Arte declaram que: "Os conteúdos podem ser trabalhados em qualquer ordem, conforme decisão do professor, em conformidade com o desenho curricular de sua equipe" (PCN-Arte, p. 49 - grifos nossos). Esta flexibilidade tem, então, várias implicações, como nos casos de transferência, que podem vir a trazer prejuízos para a formação do aluno. Já que cada escola pode selecionar tanto as modalidades artísticas quanto os próprios conteúdos, um aluno que tenha que se transferir pode tornar a repetir os mesmos conteúdos na mesma modalidade artística, ou então pode ter dificuldades em acompanhar um trabalho mais aprofundado em uma linguagem que não tenha sido contemplada em sua antiga escola. Nos casos de mudanças de escola, que afetam com freqüência os alunos das camadas populares, os efeitos práticos dessa flexibilidade podem até mesmo invalidar as recomendações do próprio documento acerca da continuidade do processo educativo (cf. PCN-Arte, p. 62). A nosso ver, a proposta dos PCN na área de Arte é ambiciosa e complicada de ser viabilizada na realidade escolar brasileira. Para a sua aplicação efetiva, seria necessário poder contar com recursos humanos com qualificação - o que implica desde a valorização da prática profissional até ações de formação continuada e acompanhamento pedagógico constante -, além de recursos materiais que atendessem às necessidades da prática pedagógica em cada linguagem artística. Uma questão crucial, portanto, é o professor que irá colocar em prática os PCNArte: qual deverá ser a sua qualificação? A característica geral da proposta, que se direciona para o resgate dos conhecimentos específicos da arte, a complexidade dos conteúdos nas diversas modalidades artísticas, tudo isso parece indicar a necessidade de professores especializados em cada linguagem. Mas, na verdade, não há definições claras sobre a formação do professor de Arte, nem nos PCN, nem na atual Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Por conseguinte, como muitas vezes a contratação de professores está submetida à lógica de custos e benefícios, acreditamos que dificilmente as escolas contarão - a curto ou médio prazo - com professores especializados em cada uma das quatro modalidades artísticas dos PCN-Arte. Diante deste quadro, vislumbramos três perspectivas, não muito promissoras: 1) Poderá ser exigida do professor uma polivalência ainda mais ampla - e mais inconsistente - que aquela promovida pela Educação Artística e já tão criticada. Inclusive as provas dos concursos para ingresso em redes públicas de ensino poderão ser elaboradas neste formato, abordando as diversas linguagens artísticas, como já acontece em muitos locais nos concursos para Educação Artística. 2) As propostas dos Parâmetros serão realizadas apenas na medida dos recursos humanos disponíveis. Assim, se o professor de Arte de uma dada escola for formado em Música, por exemplo, será esta a linguagem artística contemplada no currículo. Uma outra variante desta situação, que já começa a ter lugar em estabelecimentos particulares, é a escola escolher a(s) modalidade(s) artística(s) que considera mais conveniente(s) para os seus interesses, contratando um professor com formação adequada. Neste caso, podem pesar argumentos acerca da conveniência de evitar reclamações dos pais na hora de comprar material para as aulas de Artes Visuais, ou então sobre como determinado campo da arte pode contribuir para o marketing da escola - ao produzir apresentações teatrais, por exemplo. 3) Ou ainda - e pior - as propostas dos PCN poderão servir como base para planejamentos e relatórios que ficarão apenas no papel, sem mudanças efetivas na prática educativa em sala de aula. Enfim, acreditamos que, em termos de Brasil, serão poucas as escolas - de elite, certamente - que se empenharão em oferecer as quatro linguagens artísticas de modo consistente, contratando para tal diversos professores com formação específica. Tais perspectivas colocam em discussão a possibilidade de os PCN-Arte trazerem mudanças efetivas para a prática pedagógica na área. A pretensão de um único professor realizando as propostas dos PCN-Arte em todas as linguagens artísticas contradiz a amplitude e profundidade das propostas específicas, atualizando a polivalência e conduzindo, inevitavelmente, a um esvaziamento de conteúdos. Se os PCN-Arte forem implementados desta forma, ou se ficarem apenas no papel - em belos planejamentos e relatórios -, estarão sendo reduzidos a meros atos de discurso, mascarando, na verdade, a ausência de renovação das ações pedagógicas em arte. Receamos que isto possa vir a acontecer, até porque os próprios PCN prevêem um processo progressivo para sua aplicação, como base para a atuação do professor em sala de aula - o que nem sempre está ocorrendo. Segundo os documentos introdutórios para os diversos ciclos, os Parâmetros deveriam ser utilizados progressivamente para subsidiar: 1o) as próprias ações do MEC para o ensino fundamental – o que já está sendo feito; 2o) as revisões ou adaptações curriculares desenvolvidas pelas secretarias de educação, no âmbito dos estados e municípios; 3o) a elaboração do projeto educativo (proposta pedagógica) de cada escola, construído num processo dinâmico de discussão, envolvendo toda a equipe. E só então, no quarto e último nível de concretização, caberia ao professor a realização da proposta curricular na sala de aula. Este processo seria capaz, portanto, de respaldar a ação do professor na realização das propostas dos PCN-Arte. Temos observado, contudo, que muitas vezes os PCN-Arte simplesmente "caem na cabeça" do professor, de quem a direção da escola cobra a aplicação das propostas, a despeito da falta de apoio e de condições. Diante deste quadro, é fundamental que as escolas assumam a responsabilidade de elaborar o seu “projeto educativo” (nos termos dos PCN) ou “proposta pedagógica” (conforme a LDB). Seguindo princípios de flexibilidade e autonomia, a LDB delega aos estabelecimentos de ensino a incumbência de “elaborar e executar sua proposta pedagógica” (Lei 9394/96, Art. 12), o que é reafirmado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (Resolução no 2/98 – CNE), que têm – estas sim – caráter obrigatório. Pois vale lembrar que, embora o MEC esteja colocando os PCN como referência para a avaliação das escolas e alocação de recursos, do ponto de vista formal eles não têm obrigatoriedade. Segundo o Parecer 03/97 do Conselho Nacional de Educação (CNE), “os PCN resultam de uma ação legítima, de competência privativa do MEC e se constituem em uma proposição pedagógica, sem caráter obrigatório, que visa à melhoria da qualidade do ensino fundamental e o desenvolvimento profissional do professor. É nesta perspectiva que devem ser apresentados às Secretarias Estaduais, Municipais e às Escolas” (grifos nossos). Cada escola pode e deve, portanto, elaborar sua própria proposta pedagógica. Se construída de forma participativa e compromissada – não se revestindo apenas de um caráter burocrático –, deve decidir como utilizar os recursos humanos e materiais disponíveis de modo a atender às necessidades específicas de seu alunado. A proposta pedagógica é, pois, o espaço ideal para definir o melhor modo de encaminhar o trabalho de arte na escola, fazendo uso da autonomia prevista na LDB e nas Diretrizes Curriculares, e atendendo à flexibilidade da proposta dos PCN-Arte. Neste quadro, sendo analisados e discutidos com cuidado, os PCN-Arte podem ser utilizados para respaldar uma atuação mais aprofundada em determinada linguagem artística, ou ainda como base para reivindicar as condições necessárias para uma prática pedagógica de qualidade. Para concluir, é preciso deixar claro que, apesar de todos os questionamentos em torno dos PCN-Arte, reconhecemos a importância destes documentos, que podem ajudar a fortalecer a presença da arte na escola. Sem dúvida, os PCN-Arte sinalizam um redirecionamento do ensino de arte, respondendo às buscas da própria área. É preciso lembrar, no entanto, que as normas contam sobretudo pelos seus efeitos, de modo que os PCN dependem de sua concretização - ou seja, de sua realização na prática escolar. Nesta medida, tanto a renovação da prática pedagógica em arte quanto a “transformação positiva no sistema educacional brasileiro”, a que se refere o Ministro da Educação, passam necessariamente pela prática concreta – com todos os seus conflitos – , pois é nela que tais mudanças terão que ser construídas e conquistadas. Artigo publicado no boletim Arte na Escola, consulta realizada no dia 05/06/06.