Artigo
Trata-se de uma reflexão sobre as realizações, os
tropeços e as
(im)possibilidades de quem
ousa fazer marcas sobre o
brincar infantil. Comentase um estudo sobre o
tema que vai da
psico(bio)logia do jogo infantil (através da análise
das teorias clássicas do
jogo infantil de Stanley
Hall e Karl Groos e prevendo filiações teóricas
com certas posições atuais)
à psicanálise (que defende
ser o brincar infantil um
faz-de-conta que é adulto,
sendo a antecipação possível de um desejo que percorre toda a infância: ser
adulto e entender o desejo
que anima o mundo dos
adultos).
D O DRAMA
CANTADO À DANÇA
DA BUNDINHA:
BRINCAR É FAZER
DE CONTA QUE É
ADULTO?
M a r i a da G l ó r i a F e i t o s a F r e i t a s
Jogo; brincar infantil;
fazer de conta; psicologia; psicanálise
FROM THE "SING DRAMA"
TO THE DANCE OF THE
"BUNDINHA": PLAYING IS
A MAKE-BELIEVE ESSENTIALL Y ADULT, LIVING IN A
WORLD WHICH IS GOVERNED BY DESIRE?
This paper is about the
achievements, pit-falls and
(im)possibilities
experienced by those who dare to
make "pit" about
children's games. A scientific paper, which starts with
the psycho(bio)logy of
children's games (pasting
from an analysis of Stanley Hall and Karl Groos
classic theories on
children's games and anticipating affiliations as far
as theory goes with certain
present positions) and reaches up to psychoanalysis
(which defends the position that children's playing
constitutes a make-believe
essentially adult, possibly
being an anticipation of a
desire which may be traced through the entire
childhood: to be adult
and to understand the desire which animates the
adult world).
Games; children's playing;
make-believe; psychology;
psychoanalysis
"O homem
deixou
saiu de a pé comendo
certidão
vereda.
desse homem
Tem tapera
o filho
fruta
num cisco e
no mato. Tem
por tudo
e osso de caititu
quanto.
Manuel de Barros, Arranjos
quanto.
É
por
tudo
É
lugar"
para
assobio
N
A*, N ossa reflexão sobre o brincar infantil
tenta percorrer as realizações, os tropeços e as
(im)possibilidades de quem ousa fazer "marcas" sobre esse tema. Estudamos o jogo infantil, da
psico(bio)logia do jogo infantil (ou seja, de algumas
teorias psicológicas do jogo infantil) ao desejo de
fazer de conta que se é adulto (à concepção da psicanálise sobre o brincar infantil).
•
a
Pedagoga; mestre em Educação pela USP, prof da
Universidade Estadual Vale do Acaraú (Sobral, CE).
A o l o n g o de nossa trajetória em t o r n o do tema, fomos nos
q u e s t i o n a n d o . É possível q u e d e t e r m i n i s m o s psico(bio)lógicos cont i d o s e m certas t e o r i a s s o b r e o j o g o i n f a n t i l " p a t r o c i n e m " certas
p o s i ç õ e s e p r á t i c a s d o s a d u l t o s d i a n t e d a s h o r a s d e b r i n c a r das
crianças c o n t e m p o r â n e a s ?
A certa altura d o "jogo", suspeitamos que seria possível a esses
d e t e r m i n i s m o s serem m a i s b e m e n t e n d i d o s p o r m e i o d o c o n h e c i m e n t o h i s t ó r i c o d o q u e r e p r e s e n t o u t r a n s f o r m a r u m saber (o saber
psicológico) e m ciência m o d e r n a (a psicologia, a p a r t i r de W u n d t ) .
S e n d o assim, " p u l a m o s " para d e n t r o da história da psicologia e
r e p e n s a m o s nossas certezas iniciais. N o c o m e ç o d o " c a m p e o n a t o " ,
a c r e d i t á v a m o s q u e era possível t r a n s f o r m a r jogos infantis em m é t o d o de e n s i n o . E o p r i m e i r o p a s s o d a d o foi c o l e t a r u m " a r s e n a l "
de jogos infantis d i g n o s de q u a l q u e r Itard d e d i c a d o a cientificar as
"coisas" mais simples da vida.
F o m o s n o s q u e s t i o n a n d o , aos p o u c o s : a n o s s a i n s i s t ê n c i a e m
realizar a criação de m a i s u m m é t o d o " n o v o " p a r a e s t i m u l a r capacidades m a t u r a c i o n a i s das crianças de G u r i ú ( l o c a l i d a d e d o litoral
oeste cearense) n ã o era o r e s u l t a d o d e n o s s o c o n d i c i o n a m e n t o a o
p e n s a r p s i c o l ó g i c o , feito ciência a p a r t i r d o século XIX?
Desejávamos c o n s t r u i r mais u m m é t o d o "salvador" das mazelas
q u e o fracasso e s c o l a r causa às c r i a n ç a s ( m a i s e s p e c i f i c a m e n t e às
crianças de G u r i ú ) . O q u e q u e r í a m o s ? Era realizar a p o s s i b i l i d a d e
de u m a p r á t i c a e d u c a t i v a e m q u e n a d a p u d e s s e faltar?
D i a n t e da " d e s i l u s ã o " ( a c o n t e c i d a aos poucos...) c o m m é t o d o s
q u e salvam q u a l q u e r p r á t i c a pedagógica d o fracasso escolar, pensam o s que talvez a história d o p e n s a m e n t o psicológico p o d e r i a explicar a o r i g e m das crenças q u e aos p o u c o s f o m o s a b a n d o n a n d o .
Igual a u m j o g o de " e s c o n d e - e s c o n d e " , o c u p a m o s o l u g a r de
q u e m faz a busca d o s o c u l t o s " i n g r e d i e n t e s " q u e n o s i m p r e g n a r a m
d a v o n t a d e de "cientificar" as práticas educativas de u m a p e q u e n a
praia - Guriú.
Era a caça aos c o n d i c i o n a n t e s da "obsessão" c o n t e m p o r â n e a de
u s a r as b r i n c a d e i r a s i n f a n t i s e m p r o l d e u m d e s e n v o l v i m e n t o d e
capacidades m a t u r a c i o n a i s certas e esperadas. E m d e t e r m i n a d o m o m e n t o d e i x a m o s d e a c r e d i t a r q u e as b r i n c a d e i r a s p r e c i s a m ser
t r a n s f o r m a d a s e m a t i v i d a d e s p r o g r a m a d a s e m p r o l d o desenvolvim e n t o de u m a c a p a c i d a d e específica.
P a r t i m o s para a realização de u m a análise da influência b i o l ó gica c o n t i d a nas teorias p s i c o l ó g i c a s s o b r e o b r i n c a r i n f a n t i l , q u e
m o v e m desejos i d ê n t i c o s aos nossos desejos iniciais: t r a n s f o r m a r as
b r i n c a d e i r a s e m técnicas e d u c a c i o n a i s , e q u e reificam o b r i n c a r .
Conhecidas as origens desses condicionantes, acreditamos que ent e n d e r í a m o s m e l h o r a o r t o p e d i z a ç ã o d o brincar, os m é t o d o s lúdicos
q u e u s o u I t a r d ( n o século XIX) c o m o "selvagem" Victor e d e m a i s
cientistas d o jogo infantil, o "fim" (?) dos b r i n q u e d o s m a n u f a t u r a d o s
p o r e c o m o a m o r d o s a d u l t o s a m a d o s pelas crianças, e as s o m a s
q u e são gastas para p r o d u z i r b r i n q u e d o s , c o m p r o v a d o s e cientificam e n t e testados e a p r o v a d o s , c o m o fator p r i m o r d i a l d o p l e n o desenv o l v i m e n t o n a t u r a l (que p o d e ser visto c o m o i d ê n t i c o a t o d o s ; n ã o
prevê vicissitudes, só a e s t i m u l a ç ã o de funções).
O c o m a n d o m o d e r n o parece ser: e, se algo funcionar mal, vale
duplicar a dose necessária de estimulações diárias, à m o d a de Itard e
Schreber ( a m b o s d o século XIX) ( M a n n o n i , 1977, p.32; Itard, 1988,
p.157). C o m b r i n q u e d o s o u b r i n c a d e i r a s infantis o r i e n t a d o s !
Nesse v e r d a d e i r o j o g o de "pega-pega", p o r e n t r e os d a d o s d a
história da psicologia, d e p a r a m o s c o m u m discurso tão aliado à
biologia, para se fazer ciência, que resolvemos dar-lhe o " p s e u d ô n i m o " de p s i c o ( b i o ) l o g i a , ciência q u e reifica as e m o ç õ e s , e t o r n a a
nossa existência u m previsível acontecer, controlável e sem incertezas.
C o m p r e e n d e n d o os c o n d i c i o n a n t e s d a psicologia, v i s i t a m o s os
ideários de Karl G r o o s e Stanley H a l l , dois clássicos p e n s a d o r e s da
Psicologia d o J o g o , representantes d o s séculos XIX e XX respectivam e n t e ; e e x e r c i t a m o s u m c e r t o " r a s t r e a m e n t o " das s e m e l h a n ç a s de
s u a s o b r a s c o m r e l a ç ã o às p u b l i c a ç õ e s r e c e n t e s s o b r e o b r i n c a r
( m e s m o que eles n ã o sejam d i r e t a m e n t e lançados c o m o inspiradores
das m o d e r n a s c o n c e p ç õ e s sobre as manifestações lúdicas infantis).
A n o s s a i n t e n ç ã o era investigar a p o s s i b i l i d a d e de u m a certa
"filiação" entre certas posições correntes e d u a s posições d e n t r o da
Psicologia d o J o g o , q u e l i m i t a m o b r i n c a r i n f a n t i l p o r significá-lo
c o m o algo que pré-exercita funções (Groos) o u é h e r a n ç a instintiva
d o s a n t e p a s s a d o s (Stanley H a l l ) (Linaza, 1992).
É atual estimular capacidades m a t u r a c i o n a i s c o m jogos infantis,
é m o d e r n o entregar b r i n q u e d o s a serem c o n s u m i d o s em u m a específica faixa e t á r i a , está e m v o g a t r a n s f o r m a r as b r i n c a d e i r a s e m
m e t o d o l o g i a . E, até o n d e c a m i n h a m o s , Karl G r o o s e Stanley H a l l
n ã o são l e m b r a d o s c o m o figuras i n s p i r a d o r a s . A c r e d i t a m o s estarem
recalcados, p o r é m vivos nessas práticas!
O b s e r v a n d o a l g u n s livros atuais sobre o j o g o i n f a n t i l , p r o p o m o s q u e h á u m a c e r t a f i l i a ç ã o s i m b ó l i c a e n t r e esses m o d e r n o s
m a n u a i s e o p e n s a m e n t o de Itard, G r o o s e Stanley Hall. S e n d o u m
c i e n t i s t a d o s é c u l o XIX, I t a r d o b r i g a o p o b r e V i c t o r a s u p o r t a r
situações "lúdico-pedagógicas" parecidas c o m as descritas e m alguns
l a n ç a m e n t o s editoriais festejados ( M a l s o n , 1980, p.157).
O u s a m o s p r o p o r q u e a a t i t u d e de e m p u r r a r jogos c o m objetivos " e d u c a t i v o s " b e m d e f i n i d o s a o p e q u e n o V i c t o r n ã o é t ã o dist i n t a de certas descrições d e n o m i n a d a s c o n s t r u t i v i s t a s e q u e m a i s
p a r e c e m ter s a í d o da cabeça d e I t a r d . Q u e p o r sinal n e m é lem-
b r a d o . S u p o m o s q u e o p a i de t u d o isso é b e m m a i s I t a r d d o q u e
q u a l q u e r c o n s t r u t i v i s t a q u e a h i s t ó r i a t e n h a n o s feito c o n h e c e r .
É possível c o m p r e e n d e r q u e I t a r d p r o p o n h a a o r t o p e d i z a ç ã o
d o b r i n c a r . Ele h a v i a c a s a d o c o m a c i ê n c i a n o v e c e n t i s t a , estava
l o n g e d o q u e deveria ser u m p a i , e m q u a l q u e r t e m p o d a h i s t ó r i a .
Já os pais m o d e r n o s , apaixonados pela tecnologia, são diferentes
o u p a r e c e m m a i s cientistas d o século XIX, replicantes de I t a r d , o u
c o n s u m i d o r e s das maravilhosas criações lúdicas dos Itards atuais?
E n c o n t r a d o s p r o n t o s nas lojas, os b r i n q u e d o s p e r d e r a m aquele
algo m a i s q u e n o s s o s e n t r e v i s t a d o s de G u r i ú n o s n a r r a r a m (e q u e
lá m e s m o se vai t a m b é m p e r d e n d o . . . ) : o a m o r de q u e m os fez e o
b r i l h o n o s o l h o s de q u e m os recebe e n ã o m a i s os esquece.
Por q u e n ó s , as c o m p a n h i a s a d u l t a s das crianças, n o s destituím o s desse l u g a r j u n t o a o b r i n c a r i n f a n t i l ? P o r q u e o b e d e c e m o s ,
tão-somente, aos d i t a m e s da ciência? Por q u e j u l g a m o s q u e os especialistas s a b e m mais d o q u e os pais, e d u c a d o r e s e d e m a i s " a c o m p a n h a n t e s " da infância? P o r q u e a c r e d i t a m o s t a n t o nas v a n t a g e n s d o
jogo i n f a n t i l p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o de c a p a c i d a d e s m a t u r a t i v a s e
d o seu u s o e m m e t o d o l o g i a s eficazes c o n t r a o fracasso escolar, que
p i p o c a m a q u i e ali, n o s q u a t r o c a n t o s d o planeta?
R e a l i z a m o s j u n t o ao b r i n c a r das crianças que estão sob a nossa r e s p o n s a b i l i d a d e algo p a r e c i d o c o m a t i t u d e s q u e r e t i r a m as resp o n s a b i l i d a d e s s o b r e n o s s a s d o r e s . É b o m l e m b r a r q u e s o m o s as
presas de fácil c a p t u r a d o s r e m é d i o s à p r o v a de q u a l q u e r s i n t o m a ,
d o s r e e d u c a d o r e s capazes de c o m b a t e r q u a i s q u e r fracassos escolares,
das t é c n i c a s infalíveis p a r a c u r a r q u a l q u e r e n x a q u e c a , de t r u q u e s
i n q u e s t i o n á v e i s p a r a deixar d e fumar... assim, as d i f i c u l d a d e s p a r a
viver (adeus, mal-estar!) são s u p e r a d a s .
A brincadeira é enlatada, encaixotada, n o r m a t i z a d a e vendida em
supermercados. Livros e n s i n a m as crianças a brincar e, aos adultos, o
que deve ser u m pai m o d e r n o (aquele que c o m p r a as novidades? Alguém que abdica de u m "antigo" lugar de construtor de brinquedos?).
Nessa nossa c a m i n h a d a pelos d o m í n i o s da Psicologia d o J o g o
foi p o s s í v e l c o m p r e e n d e r q u e a l g u m a s t e o r i a s l e v a m à c r e n ç a n a
possibilidade de e s t i m u l a r capacidades m a t u r a c i o n a i s c o m o u s o de
jogos i n f a n t i s m e t o d i c a m e n t e p r e p a r a d o s .
O s a d u l t o s q u e a s s i m a g e m são c o n s i d e r a d o s p o r t a d o r e s de
idéias a v a n ç a d a s ! São d i g n o s d a t i t u l a ç ã o d e " m o d e r n o s " . S e n d o
a s s i m , p a i s m o d e r n o s n ã o se a r r i s c a m a c o n s t r u i r b r i n q u e d o s de
lata, m a s engajam-se nas tarefas de c o m p r a r e e n t r e g a r aos seus fil h o s os b r i n q u e d o s a serem c o n s u m i d o s e m u m a faixa etária específica, e d e u m m o d o já p r e s c r i t o .
N o m e r c a d o das ilusões, dá-se u m jeito e m t u d o ! E n q u a n t o os
a d u l t o s fracassam o u r e n u n c i a m a seus p a p é i s de e d u c a d o r e s (La-
j o n q u i è r e , 1997, p.27-43), as crianças
fazem o que já faziam os nossos entrevistados (hoje idosos): brincam para ent e n d e r o m u n d o que q u e r e m habitar,
ou seja, o m u n d o dos adultos (e conseg u i r saber sobre o desejo q u e os anima). Assim julgava Freud e a psicanálise.
Voltando a pensar em Guriú há
m a i s de 60 a n o s , i m a g i n e m o s a sala
cheia, nos t e m p o s sem televisão, e
u m a criança que recita. Apresenta aos
espectadores u m d r a m a cantado. Essas
m e n i n a s de o n t e m , d r a m a t i z a n d o cenas de amores c o r r e s p o n d i d o s ou fracassados, realizavam u m desejo que as
a c o m p a n h a v a sempre: serem adultas?
O q u e r e a l i z a v a m as m e n i n a s
dramistas d o passado e as meninas d o
s é c u l o XXI q u e d a n ç a m a d a n ç a d a
" b u n d i n h a " ? Pré-exercitam capacidades
m a t u r a c i o n a i s ( G r o o s ) , fazem u s o de
m a t e r i a l i n s t i n t i v a m e n t e h e r d a d o de
antepassados (Stanley Hall), ou realizam
o desejo de serem adultas (Freud)?
Ser u m a d r a m i s t a é a p r e n d e r a
sofrer, e x e r c i t a n d o os e s q u e m a s inatos "de s o f r i m e n t o ? É l a n ç a r m ã o de
u m a herança instintiva de s u p o r t a r o
sofrimento? É disso que se trata? Por
que o sofrimento é escolhido c o m o
t e m a de b r i n c a r o n t e m e hoje? N ã o
é estranho u m a criança exercitar o
d r a m a , os d e s e n c o n t r o s , os d e s e n l a ces, as misérias da v i d a c o t i d i a n a ?
O u v i n d o esses relatos d o passad o , p a r e c e u - n o s q u e o r e c i t a d o fala
de u m certo e n t e n d i m e n t o da vida
o u m e s m o de u m a tentativa de vir a
e n t e n d e r o m u n d o a d u l t o . Refletindo
s o b r e as confissões de u m a i n f â n c i a
c o m d r a m a s cantados e sem televisão,
a r r i s c a m o s a f i r m a r q u e as m e n i n a s
a p r e s e n t a v a m aos a d u l t o s e d e m a i s
espectadores o que e n t e n d i a m d o que
s o m o s ao l o n g o d a v i d a e q u a i s os
segredos dela, das c o n q u i s t a s , dos
a m o r e s , das seduções, d o desejo q u e
p u l s a e m n ó s e n o s faz sujeitos.
Recitando dramas em vida, a
c r i a n ç a está t r a n s f o r m a n d o p u l s õ e s
e m c u l t u r a ? As p u l s õ e s s e x u a i s i n fantis e r a m t r a n s f o r m a d a s e m letras,
músicas, ritmos e coreografias
a p r e n d i d a s pelas c r i a n ç a s e apresent a d a s aos a d u l t o s ? As p u l s õ e s viravam trabalho?
O u v i m o s os d r a m a s c a n t a d o s ,
d e n t r o de u m a velha c o z i n h a , atacad a p o r c u p i m , n a v o z d e u m a exmenina-atriz, representante de u m a
infância passada há várias décadas,
q u e resiste a c o m e ç a r a falar, a cantar, p o r causa d o s c u p i n s o u de u m
p r o b l e m i n h a na garganta, causado
p o r ter c o m i d o caranguejo. M a s , aos
p o u c o s , vai c a n t a n d o , r i n d o , l a m e n t a n d o t o d a s essas " v i c i s s i t u d e s " d a
m e m ó r i a , q u e fazem os d r a m a s ficar e m " q u e b r a d o v e l h o " ( n ã o t ã o lineares q u e f a l t e m frases, q u e p a l a v r a s
sejam esquecidas, q u e palavras sejam
trocadas). U m desejo de descobrir os
l a p s o s , q u e vai das t e n t a t i v a s até o
desespero p o r n ã o c o n s e g u i r r á p i d o !
E m a l g u n s m o m e n t o s n o s parece q u e ela faz a g o r a , já n ã o s e n d o
mais u m a dramista, o e n t e n d i m e n t o
das coisas; nas p e q u e n a s explicações
q u e vai d a n d o , vai c o m p l e t a n d o as
l a c u n a s , vai d a n d o u m c o n t e ú d o
m a i s m a n i f e s t o a o q u e l h e foi oferecido na infância em "barras", n ã o
de c h o c o l a t e , m a s até de d o c e e
t a m b é m de a m a r g o , e c o n d e n s a d o ,
como um sonho.
A nossa entrevistada, envolvida
c o m dores e atribulações d o m é s t i c a s ,
entregava-se ao riso, ao c o m e n t a r as
" b e s t e i r a s " d a i n f â n c i a e c o m p a r á - l a s c o m as " d u r e z a s " d a v i d a
a d u l t a . O s risos f o r a m a p a r e c e n d o , a l é m d o s apelos a D e u s o u a
Jesus C r i s t o pelas vicissitudes da sua m e m ó r i a , pelos esquecimentos
das falas d o s d r a m a s de sua i n f â n c i a . P e r c e b e m o s que, d i a n t e d o s
lapsos, havia u m a v o n t a d e de r e d e s c o b r i r os dizeres ( c o m o é mesm o q u e se recitava? O q u e d i z i a a m o c i n h a ? O q u e d e c l a r a v a o
C o r c u n d a ? O q u e p e d i a a mãe?).
É b e m v e r d a d e q u e a r e t i r a m o s d a sua c o n d i ç ã o d e m u l h e r
de mais de 70 a n o s , a p o s e n t a d a , solitária e p o v o a d a de l e m b r a n ç a s .
A l é m de estar sufocada c o m os p r o b l e m a s que lhe h a v i a m c a u s a d o
certos visitantes indesejáveis: os c u p i n s . Aquela c o z i n h a - c e n á r i o dos
seus d e p o i m e n t o s estava a m e a ç a d a pela ação de tais invasores!
O f e r t a m o s a essa m e n i n a - d r a m i s t a nascida em 1925 a c o n d i ç ã o
de memorialista, de alguém que t e m o legado de registrar o passado
d o b r i n c a r de u m a antiga infância em G u r i ú ; f o m o s retirando-a d o
i m e n s o leque de lamentações pelas dores, d a n d o - l h e a palavra e rest i t u i n d o - l h e o s o r r i s o q u e v i n h a lá da infância (ou desse l e m b r a r ) .
E nos recitou o drama d o "Corcunda"...
Eu j á
fui
Corado
e
Pulava
Mas
qord\nho,
e
saltava.
andei
Eu j á
fui
Passear
As
menino,
pertinho.
à
de
feira,
butina,
meninas
da
Me chamavam
Eu
Mas
sou
janela,
curutino.
velhinho,
não me
embaraço,
Eu levo a
corcunda,
Debaixo
braço.
do
Eu fui a fe\ra,
Passear de boné,
A s meninas da
\ane\a,
Me chamavam
Coronel
Eu
sou
velhinho,
M a s tenho
dinheiro,
A f a l t a de
moça,
Eu não morro s o l t e i r o .
A o nos contar e cantar esse d r a m a , nossa entrevistada ri da certeza de o c o r c u n d a a r r u m a r u m a m o ç a . Q u e lições s o b r e o r i g e m ,
vida, sexo e m o r t e estariam entrelaçadas nesses dramas que imitavam a
vida? As novelas mexicanas, atuais e dramatizadas pelas meninas, trazem
as m e s m a s intenções simbólicas? O que havia nessas r e p r o d u ç õ e s de
u m "velho", a dizer que já foi m e n i n o , e que ia além de treinar habilidade inata? O s dramas falam da vida? Representar as "coisas" dramáticas da vida ajudaria a acalmar nossos desânimos diários? O que é
que esse c o r c u n d a apresenta a mais n a vida, para saber vivê-la assim
c o m tantas certezas, que n ó s n ã o temos n o cotidiano?
Pensemos nessas meninas-dramistas e n o que as animava! Esquec e n d o a o b s e s s ã o m o d e r n a de p r é - e x e r c i t a r o u t e s t a r c a p a c i d a d e s
h e r d a d a s , o q u e p o d e ser esse b r i n c a r ? Seria u m d e s l o c a m e n t o d o
desejo de satisfação sexual direta infantil, que dá "lugar à satisfação
s u b l i m a d a , artística, p o r e x e m p l o , graças ao prazer i n t e r m e d i á r i o de
gratificação narcísica d o artista. É r e a l m e n t e o n a r c i s i s m o d o artista q u e c o n d i c i o n a e favorece a a t i v i d a d e c r i a d o r a d e sua p u l s ã o
s u b l i m a d a " ? ( N a s i o , 1 9 9 1 , p.85).
A psicanálise afirma-nos q u e os desejos inconscientes aparecem
"disfarçados". Freud lembra-nos que reprimir os desejos inconscientes
n o s faz p e r d e r " f o n t e s d e energia m e n t a l q u e (...) t e r i a m s i d o de
g r a n d e valor n a f o r m a ç ã o d o caráter e n a luta pela vida. C o n h e c e m o s u m a solução m u i t o mais c o n v e n i e n t e , a c h a m a d a 'sublimação',
pela qual a energia dos desejos infantis n ã o se anula, mas, ao contrário, p e r m a n e c e utilizável, substituindo-se o alvo de algumas tendências p o r o u t r o mais elevado, quiçá n ã o mais de o r d e m sexual. Exat a m e n t e os c o m p o n e n t e s d o i n s t i n t o sexual caracterizam-se p o r essa
faculdade de s u b l i m a ç ã o , de p e r m u t a r o fim sexual p o r o u t r o mais
d i s t a n t e e de m a i o r valor social. A o reforço de energia p a r a nossas
funções mentais, p o r essa maneira o b t i d o , devemos provavelmente as
m a i o r e s c o n q u i s t a s da civilização" (Freud, 1910, p.59).
A s u b l i m a ç ã o age n o b r i n c a r i n f a n t i l , e os d r a m a s c a n t a d o s
de G u r i ú r e p r o d u z e m u m m u n d o p o r e n t e n d e r (qual é o " o b s c u r o " desejo q u e a n i m a a vida adulta?).
As crianças de hoje e de o n t e m , habitantes dessa localidade litorânea, n o s i n d i c a r a m que o b r i n c a r r e s p o n d e a algo que realiza u m
desejo que percorre a infância inteira: o desejo de ser a d u l t o (Freud)
e de c o m p r e e n d e r o desejo que a n i m a os seus a d u l t o s significativos
(seja em t e m p o s sem televisão, c o m d r a m a s a representar, seja c o m a
r e p r o d u ç ã o das d a n c i n h a s de Xuxa o u Carla Perez).
Pareceu-nos q u e as m e n i n a s de hoje (que " i m i t a m " artistas da
televisão) e os r e l a t o s das m e n i n a s de o n t e m ( e n c e n a n d o os seus
d r a m a s ) r e a l i z a m u m a f o r m a de e n t e n d e r o m u n d o q u e as cerca.
N a h o r a d o faz-de-conta, r e p e t e m palavras p r o n u n c i a d a s p o r perso-
n a g e n s das novelas, d a n ç a m a d a n ç a da " b u n d i n h a " (referência ao
g r u p o m u s i c a l b a i a n o ) , c a n t a m músicas de cantores de sucesso n o s
m e i o s de c o m u n i c a ç ã o .
E n f i m , a t u a l m e n t e , t e n t a m e n t e n d e r o e n c a n t a m e n t o dos adultos presos à tela da televisão. É possível "profetizar" que essas danças n ã o c h e g u e m a o v e r ã o s e g u i n t e , m a s " n o t i c i a m " algo d e u m
desejo infantil disfarçado de " b a i l a r i n a " Carla Perez, que, n a época
d a nossa passagem, e m 1998, a i n d a era d o g r u p o É o T c h a n .
A leitura desses d r a m a s c a n t a d o s traz-nos a " f l u t u a ç ã o " d o sent i d o das palavras, essa capacidade de m e t a m o r f o s e d o d i t o e que se
refere ao n ã o - d i t o , q u e desloca os dizeres p a r a a l é m d o s significados, resgata significantes, leva-nos ( c o m esses d r a m a s cantados) para
além d o lugar d o ser p e n s a n t e ( n ã o é só pré-exercitação de capacidades cognitivas o u u s o de h e r a n ç a i n s t i n t i v a ) . D e v e m o s n o s exerc i t a r p a r a n ã o p r o c u r a r só e l e m e n t o s l ó g i c o s nesses d r a m a s . H á
algo a q u i d o recalcado, d o i n c o n s c i e n t e e d o desejo q u e n ã o sabem o s o n d e está, n e m o q u e q u e r m e s m o de n ó s .
Santa Roza e Reis a f i r m a m que n ã o p o d e m o s negar as ligações
" e n t r e o desejo i n c o n s c i e n t e e fantasias c o m o b r i n c a r . O q u e n o s
parece p r o b l e m á t i c o é a caracterização de u m a manifestação essencia l m e n t e i m a g i n a t i v a e c o n s c i e n t e c o m o a l g o n o q u a l se p u d e s s e
v i s l u m b r a r imediata e d i r e t a m e n t e a sexualidade infantil" (Santa
R o z a & Reis, 1997, p.81).
C r i a n ç a s b r i n c a m de ser. E configuram-se aí n ã o só as i m p o s sibilidades p r ó p r i a s da idade (já que n ã o alcançaram a i n d a a puberd a d e ) ; elabora-se t a m b é m , e m cada faz-de-conta, q u e se é d o n a de
casa, o u o m a r i d o q u e vai t r a b a l h a r , u m a p o s s i b i l i d a d e de m e l h o r
c o m p r e e n d e r o que a i n d a viverão, o u seja, a vida a d u l t a e o desejo
q u e a a n i m a (Jerusalinsky & Tavares, 1992, pp.6-9; F r e u d , 1908).
O e x a m e das c o n s i d e r a ç õ e s da psicanálise s o b r e o b r i n c a r inf a n t i l r e v e l o u - n o s q u e , p a r a a l é m de pré-exercício de c a p a c i d a d e s
m a t u r a c i o n a i s e de lançar m ã o da h e r a n ç a instintiva dos ancestrais,
a b r i n c a d e i r a de u m a c r i a n ç a fala-nos d a v i d a . T r a t a - s e d e u m a
"arte" infantil que c o n s t i t u i o sujeito. É possível e n c o n t r a r nas
b r i n c a d e i r a s i n f a n t i s os t r a ç o s , as m a r c a s , os e s b o ç o s , os d e t a l h e s
desse fazer-se a l g u é m q u e deseja, desse fazer-se sujeito d o desejo.
Santa Roza defende u m a " d i m e n s ã o ontológica d o brincar c o m o
u m m o v i m e n t o c o n s t i t u i n t e da realidade psíquica, capaz de p r o m o ver o estabelecimento das relações d o sujeito c o m a realidade. Longe
de ser apenas u m a expressão da sexualidade infantil, ele p r o m o v e a
tessitura da fantasia, r e c o n c i l i a n d o o i n c o n c i l i á v e l , c o m o lugar da
ilusão, da realização d o desejo" (Santa Roza, 1993, p.144).
N o s t e m p o s a t u a i s , já q u e n o s a g r a d a viver s o n h a n d o c o m a
vida d o s atores, l i m i t a m o - n o s a ver nossas crianças i m i t a n d o , c o m
t o d o o j o g o de s e n s u a l i d a d e , as atrizes d a ú l t i m a h o r a . Livres d o
p a s s a d o , das d í v i d a s c o m os a n c e s t r a i s , e s t a m o s s o f r e n d o c o m as
d o r e s d o s e m e r g e n t e s d a TV.
Q u a n d o o u v i m o s as c r i a n ç a s a falar o u a d a n ç a r / c a n t a r as
d a n ç a s d a m o d a , p e r c e b e m o s q u e h a v i a televisões ligadas e o l h o s
d o s a d u l t o s e n c a n t a d o s c o m t o d a essa m a r a v i l h o s a v i d a c o l o r i d a ,
alegre e e n c a n t a d o r a . As c r i a n ç a s n ã o p o d i a m d e s c o n h e c e r esses
b r i l h o s n o s o l h o s d o s pais! As crianças p o d e m s u p o r q u e algo q u e
a n i m a o desejo d o a d u l t o se o r i g i n a das telas.
F r e u d revela-nos o q u a n t o a criança vai desejar e n t e n d e r e viver esse m u n d o a d u l t o e dedicará as suas b r i n c a d e i r a s a esse intent o : fazer de conta que é adulta. Realizar esse desejo de ser a d u l t o ,
a i n d a n a sua i m p o s s i b i l i d a d e , p e l o b r i n c a r ( F r e u d , 1908, 1344).
B r i n c a n d o , p o r t a n t o , as crianças realizam u m persistente desejo, q u e o r i e n t a suas atividades i n f a n t i s , e n t r e elas a b r i n c a d e i r a . E
esse desejo é o desejo de ser g e n t e g r a n d e .
N a o b r a de 1908, Freud escreve sobre as s i m i l a r i d a d e s e n t r e o
poeta e a criança q u e b r i n c a ; e julga que as crianças r e p r o d u z e m , à
hora em que brincam, aquilo que vão conhecendo sobre a vida
dos adultos que os cercam. Seriam os d r a m a s cantados representados
pelas v o v o z i n h a s de G u r i ú ( q u a n d o e r a m crianças...) u m a f o r m a de
m o s t r a r aos a d u l t o s seus p r ó p r i o s conflitos h u m a n o s t r a n s f o r m a d o s
e m arte, arte de r e p r e s e n t a r ? Essas m e n i n a s - a t r i z e s r e a l i z a v a m u m
desejo q u e as perseguia, o de serem a d u l t a s .
D u r a n t e t o d a a n o s s a t r a j e t ó r i a , n o s s o s faróis f o r a m as ent r e v i s t a s , as a n o t a ç õ e s d e c a m p o , u m s u s p i r o o u u m s o r r i s o d e
u m a d u l t o - desses s u s p i r o s e s o r r i s o s i n e s q u e c í v e i s n a h o r a d a
n a r r a ç ã o de suas histórias de vida. A nossa escrita é m a r c a d a
p o r l e m b r a n ç a s d e G u r i ú , d o s d i a s p a s s a d o s p o r lá e d o q u e
essas p e r m a n ê n c i a s n o s r e v e l a r a m s o b r e o b r i n c a r i n f a n t i l d e
o n t e m e de hoje. L a n ç a m o s , ao l o n g o deste t r a b a l h o , p e r g u n t a s
e reflexões q u e n o s " t r a n s p l a n t a v a m " p a r a a q u e l a p r a i a d o oeste
cearense.
E s c o l h e m o s o c a m i n h o da crítica aos d e t e r m i n i s m o s
p s i c o ( b i o ) l ó g i c o s q u e r e c h e i a m as t e o r i a s s o b r e o b r i n c a r e q u e
t e r m i n a m exercendo influência sobre a educação ( q u a n d o se pretende realizar u m a n o v a m e t o d o l o g i a q u e envolva as b r i n c a d e i r a s infantis), sobre o estabelecimento das c o m p r a s de b r i n q u e d o s dos
pais (que d e v e m seguir p a d r õ e s científicos), s o b r e o " g i g a n t i s m o "
d a t e l e v i s ã o i n v a d i n d o as b r i n c a d e i r a s das c r i a n ç a s e p a s s a n d o a
i l u s ã o d e s e r m o s p e s s o a s f a l a n d o a m e s m a l í n g u a d e n t r o de u m
país cheio de G u r i ú s c o m tantas especificidades, d a n ç a n d o a m e s m a
d a n ç a da Xuxa o u d a C a r l a Perez e c h o r a n d o d i a n t e d o s d r a m a s
d o s p e r s o n a g e n s das novelas.
F i n d a d a a pesquisa e m 1998, p e n s á v a m o s q u e n ã o havia qualq u e r p o s s i b i l i d a d e de s u s p e n d e r o u s o das televisões nesse r e c a n t o
j u n t o ao m a r . As lutas de dois i r m ã o s q u e c h a m a v a m a atenção da
p o p u l a ç ã o n ã o p o d i a m mais ser a p r i n c i p a l atração d o d o m i n g o , e
as m e n i n a s n ã o apresentavam mais os d r a m a s c a n t a d o s . O s d o m i n gos e r a m os dias c o n s a g r a d o s a Xuxa e F a u s t ã o .
A televisão e m G u r i ú , tal e qual nas grandes e médias cidades
deste país, m o n t o u u m " i m p é r i o " eficiente e l u c r a t i v o p a r a q u e m
dela faz c o m é r c i o . P r o d u t o s e m a r c a s estão d i a n t e d o s o l h o s atentos à tela.
E n t r e t a n t o , s e n t i m o s a falta de o u t r a s m a r c a s ; q u e , t a n t o n o
p a s s a d o q u a n t o n o p r e s e n t e , são f u n ç õ e s d o s a d u l t o s . F a l t a m as
marcas simbólicas, e delas a televisão n ã o t e m c o n s e g u i d o d a r conta. D o q u e p o d e m o s ver e m G u r i ú , i m p u n h a - s e u m a u r g ê n c i a :
m e s m o que os b r i l h o s dos d r a m a s c a n t a d o s n ã o p o s s a m ser c o m p a rados ao e s p l e n d o r da TV, é u r g e n t e recuperar a m e m ó r i a dos pais
(pois essas m a r c a s s i m b ó l i c a s aí estão).
J u l g a m o s q u e as m a n i f e s t a ç õ e s c u l t u r a i s de G u r i ú , l o n g e das
" d a n c i n h a s " q u e a televisão n o s a p r e s e n t a , p r e c i s a m ser revividas.
Se u m dia for possível fazer u m a espécie de "caça aos tesouros perd i d o s n o f u n d o d o m a r " , q u e b a n h a G u r i ú , algo d i f e r e n t e p o d i a
c o m e ç a r a ser l a n ç a d o . E q u e essa m o v i m e n t a ç ã o n ã o devia d e m o rar a a c o n t e c e r : este foi o v o t o d e fé q u e i m p u l s i o n o u a escrita
deste t r a b a l h o .
N ã o e s t á v a m o s d i s p o s t o s a arriscar o p e s c o ç o p r o p o n d o algo
p a r e c i d o c o m o d e s l i g a m e n t o d e t o d a s as televisões, e m p r o l d o
" p l e n o d e s e n v o l v i m e n t o infantil". É impossível apagar, da noite
p a r a o dia, o e n c a n t a m e n t o q u e a TV desencadeia. P r e v í a m o s q u e
seria possível r e t o r n a r a G u r i ú e c o l a b o r a r p a r a q u e as diferenças
e n t r e o b r i n c a r de o n t e m e de hoje p u d e s s e m dialogar. Acreditávam o s nessa p o s s i b i l i d a d e de d i á l o g o entre o p a s s a d o e presente,
e n t r e n e t o s e avós.
D e f e n d í a m o s q u e talvez fosse possível realizar j u n t o aos educadores, aos n o s s o s m e m o r i a l i s t a s e aos jovens e crianças algo q u e
fale e m n o m e d a p r e s e r v a ç ã o de u m a m e m ó r i a c u l t u r a l , q u e n ã o
i r e m o s q u e s t i o n a r se é r e g i o n a l o u u n i v e r s a l , se c h e g o u de b a r c o
o u veio a pé, m a s q u e faz parte d o s relatos d o s mais velhos e que
t e m a ver c o m esses b r i n q u e d o s usados n o passado, c o m os d r a m a s
c a n t a d o s exibidos a n t i g a m e n t e e que r e m o n t a m ao c e n á r i o das brigas d o s d o i s i r m ã o s de G u r i ú q u e c o l o r i a m os d o m i n g o s sem TV.
A escola, esse a n t i g o " t e m p l o " d o saber e da m e m ó r i a deixada
pelas mais antigas gerações que n o s antecederam, talvez pudesse ser
u m lugar a p r o p r i a d o p a r a esses e n c o n t r o s ao r e d o r das alegrias d o
b r i n c a r de avós, pais e c r i a n ç a s .
Crianças atuais p o d e r i a m ser preparadas pelas avós para realizar
u m a a p r e s e n t a ç ã o p ú b l i c a de u m d o s " v e l h o s " d r a m a s - c a n t a d o s , e m
a l g u m a festividade i m p o r t a n t e para essa c o m u n i d a d e . Nesse p e q u e n o
e n c o n t r o , seriam ensaiadas algumas marcas, que p o d e r i a m desencadear a r e d e s c o b e r t a d o s p o t e n c i a i s c r i a t i v o s , de u m a " i n t e r v e n ç ã o "
a d u l t a j u n t o ao b r i n c a r das c r i a n ç a s e de g e n t e de " c a r n e e o s s o "
t r a n s f o r m a n d o s i n t o m a em criação artística. E fazendo já alguma diferença, m o v i m e n t a n d o c o r p o e cabeça, de f o r m a criativa, agora est a c i o n a d o s a ver s o m e n t e os p e r s o n a g e n s " e m e r g e n t e s " da t e l i n h a .
V i s i t a m o s a c o m u n i d a d e d e G u r i ú e m j a n e i r o d e 1998, e n o s
d e d i c a m o s às pesquisas bibliográficas e d e p o i s a escrever a dissertação. Até o m o m e n t o e m q u e p e g a m o s o c a m i n h ã o de v o l t a , e dec r e t a m o s o fim da pesquisa, era c o m u m e n c o n t r a r m e n i n a s i m i t a n d o C a r l a Perez, r e p e t i n d o frases ditas nas novelas, investindo-se d o
p a p e l de b o a s o u m á s p e r s o n a g e n s das p r o g r a m a ç õ e s televisivas.
As p a l a v r a s q u e e r a m d i t a s n a h o r a d o faz-de-conta e r a m d a
o r d e m d o t r a n s i t ó r i o , d o p a s s a g e i r o , d a ú l t i m a m o d a e d o s person a g e n s d o m o m e n t o . N a d a havia q u e c o m e m o r a s s e o p a s s a d o , q u e
lembrasse feitos d o s a n t e p a s s a d o s . S o m e n t e as falas das suas avós.
N a q u e l e m o m e n t o os d r a m a s c a n t a d o s , saberes orais de G u r i ú ,
já n ã o e r a m m a i s e n c e n a d o s . R e f l e t i n d o s o b r e a r e a l i d a d e e m q u e
h a b i t a m o s , n e s t e fim d e s é c u l o , e m G u r i ú o u e m o u t r o r e c a n t o
q u a l q u e r , c o n c o r d a m o s c o m Calligaris e m q u e " t r i u n f a a c o n v i c ç ã o
de q u e o real, b i o l ó g i c o o u q u í m i c o q u e seja, oferece o u oferecerá
as r e s p o s t a s p a r a t o d o s os n o s s o s p r o b l e m a s . N i s s o n ã o h á n a d a
s u r p r e e n d e n t e . N o s s a c u l t u r a d e i x a aos p o u c o s - o u m e s m o aos
m u i t o s - de se referir a valores s i m b ó l i c o s , exalta a a u t o n o m i a d o
i n d i v í d u o , m a s - p a r a d o x o previsível - c h o r a sobre os belos t e m p o s
das certezas p e r d i d a s e c o n c l a m a , c o m r a z ã o , q u e f a l t a m c r i t é r i o s
éticos. A é p o c a e m q u e v i v e m o s oferece d u a s o p ç õ e s s u b s t i t u t i v a s :
em vez de critérios, e n c o n t r a m o s i m a g e n s positivas o u negativas de
h o m e n s o u m u l h e r e s c o m os quais é r e c o m e n d a d o identificar-se o u
n ã o . E, e m vez de sabedorias t r a d i c i o n a i s , e n c o n t r a m o s a a u t o r i d a de d o q u e é a p r e s e n t a d o c o m o a irresistível evidência d o real, b i o lógico, q u í m i c o , a n a t ô m i c o e, p o r c o n s e q ü ê n c i a , c i e n t í f i c o . N u n c a
foi tão explícita a preferência social p o r q u a l q u e r t i p o de simplificação que pareça resolver cientificamente nossos d r a m a s c o t i d i a n o s "
(Calligaris, 1996, p.100).
P o i s as falas d a s " v o v o z i n h a s " d e G u r i ú p a r e c e m fazer ren o v a d o s ecos! A l g o se re-significou n a p r e s e n ç a d o s a d u l t o s significativos, j u n t o a o b r i n c a r i n f a n t i l . Pareceu-nos q u e falar de infâncias p a s s a d a s , a i n d a q u e t e n d o o v o l u m e a l t o das p r o d u ç õ e s
televisivas c o m o u m d o s e m p e c i l h o s d o c a m i n h o , fez r e n a s c e r os
dramas cantados.
E m 1999 f o r a m e n c e n a d o s dois d r a m a s , c o o r d e n a d o s p o r u m a
o b s t i n a d a professora a p o s e n t a d a , exausta p o r t e n t a r p r o d u z i r e p r o vocar marcas q u e a n d e m além das passageiras marcas d o s p r o d u t o s
q u e Xuxa, C a r l a Perez e os d e m a i s e m e r g e n t e s a n u n c i a m .
Ela avisa que a empreitada é dura, os desafios são imensos. E m
a l g u n s m o m e n t o s t e m v o n t a d e de desistir. M a s vai t e n t a n d o ! As
m e n i n a s q u e r e m adaptar os d r a m a s cantados às danças da Xuxa. Ela
insiste e m q u e d e v e m i n c o r p o r a r p e r s o n a g e n s , ser atrizes, representar. Ir além da r e p r o d u ç ã o da d a n ç a da b u n d i n h a . E a luta c o n t i n u a r á ? T o r c e m o s p a r a q u e sim!
Q u e r e n d o o c u p a r o seu t e m p o de a p o s e n t a d a , essa m u l h e r parece n o s provar que os adultos precisam semear idéias, deixar marcas
simbólicas e ajudar a c o n t o r n a r a o r d e m "estabelecida". O r d e m que
insiste em p r o m e t e r - n o s u m a felicidade q u e se c o m p r a c o m c a r t ã o
de c r é d i t o , p o r telefone, e q u e n o s r e d i m e das tristezas, d o mal-estar e n o s exime da responsabilidade para c o m os referentes simbólicos oferecidos p o r essa "gente g r a n d e " q u e n o s cerca q u a n d o a i n d a
s o m o s crianças, e levamos b o a p a r t e d o t e m p o a b r i n c a r .
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na análise.
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infância
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NOTAS
* Da psico(bio)logia
desejo
de fazer
Um estudo
sobre
do jogo
de conta
infantil
ao
que é adulto
o brincar
infantil
é o
t í t u l o de n o s s a d i s s e r t a ç ã o de m e s t r a d o .
Realizamos a pesquisa de c a m p o em G u r i ú
(Ceará), nos anos de 1996, 1997 e 1998.
^ Visitamos G u r i ú em fevereiro de 2000 e
t i v e m o s a g r a t a s a t i s f a ç ã o de s a b e r q u e ,
e n q u a n t o escrevíamos a nossa d i s s e r t a ç ã o ,
os d r a m a s c a n t a d o s v o l t a r a m
espontanea-
m e n t e a ser e n c e n a d o s . A p e s q u i s a c o n t i n u a , e as a l i a n ç a s c o m a p s i c a n á l i s e n o s
t r a r ã o n o v a s reflexões, l e i t u r a s e escritas
sobre o b r i n c a r .
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brincar é fazer de conta que é adulto?