SOBRE VERGONHA E LIBERDADE EM NIETZSCHE1 ON SHAME AND FREEDOM IN NIETZSCHE Oscar Augusto Rocha Santos2 Orientador: Prof. Dr. Rogério Antônio Lopes - UFMG Resumo: Trata-se de discutir a tese de que Nietzsche se mostra mais favorável a uma cultura da vergonha do que a uma cultura da culpa, isto em estreita relação com a proposta de compreender a ética nietzscheana como uma ética do caráter. Palavras-chave: Vergonha, Liberdade, Caráter. Abstract: The purpose of this paper is to discuss the thesis that Nietzsche appears to be more favorable to a shame-culture rather than of a guiltculture, that in close connection with the proposal to understand Nietzsche's ethics as an ethics of character. Keywords: Shame, Freedom, Character. Introdução A idéia de discutir as relações entre vergonha e liberdade nos surgiu a partir da leitura de Nietzsche’s Ethics of Character, estudo de Thomas Brobjer3 no qual se busca definir o lugar da ética 1 Trabalho apresentado, salvo pequenas modificações, em ocasião do VII Encontro em Filosofia da UFMG, ocorrido em Maio de 2009. 2 Bolsista de mestrado CNPq-Brasil - UFMG 3 Thomas Brobjer é pesquisador e professor do departamento de História das Ciências e Idéias da Universidade de Uppsala. Publicou um grande número de artigos sobre Nietzsche, editou o livro Nietzsche and Science (2004) juntamente com Gregory Moore, escreveu Nietzsche’s Ethics of Character (1995), Nietzsche and the English (2008) e Nietzsche’s Philosophical Context (2008). Ele é também um dos editores da edição sueca das obras de Nietzsche. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 P á g i n a | 82 SANTOS, Oscar Augusto Rocha nietzscheana em relação à história do pensamento moral do ocidente. O posicionamento do autor é claro quanto à vinculação da ética de Nietzsche, enquanto ética do caráter, às chamadas éticas da virtude – como, por exemplo, as de Homero, Aristóteles, Maquiavel e Montaigne. Em certo ponto do texto, ao apresentar a interpretação que os principais proponentes contemporâneos4 das éticas de virtudes fazem de Nietzsche, Brobjer ressalta o elogio deste à nobreza e sua preferência por uma cultura da vergonha ao invés de uma cultura da culpa [a shame-culture rather than a guilt-culture5]. Independentemente do desenvolvimento que é dado ao texto de Brobjer, a contraposição que ele lança despretensiosamente entre uma cultura da vergonha e uma cultura da culpa se nos mostrou como um caminho bastante promissor para discutir alguns pontos caros à filosofia de Nietzsche como, por exemplo, a relação existente entre o caráter ou a natureza do indivíduo e seus valores e inclinações morais. Mesmo que a estratégia de contrapor as duas culturas em questão pareça ser a via mais clara para tal discussão, não será está nossa opção. Este trabalho busca apenas expor algumas conclusões possíveis quanto às relações existentes entre vergonha e liberdade. Entretanto, nos parece ser conveniente que, desde já, tenhamos uma noção, mesmo que superficial, de o que seria propriamente uma ética do caráter. Uma ética do caráter Nossa tentativa de definir o que seria uma ética do caráter parte de sua delimitação através da contraposição a outros modelos éticos, dando-se ênfase aos pontos mais 4 No caso, Brobjer está se referindo especificamente ao estudo de Michael Slote, From Morality to Virtue (1992). 5 BROBJER, 1995, p. 51. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 83 | P á g i n a SANTOS, Oscar Augusto Rocha relevantes à proposta presente. Assim, primeiramente, podese buscar esta contraposição quanto ao núcleo de interesse de cada modelo ético, ou ainda pela maneira através da qual lidam com questões essenciais a este âmbito, como por exemplo, a questão dos valores. No entanto, optamos por começar examinando nosso problema através do chamado modelo analítico de investigação ética, segundo o qual, os problemas éticos devem ser tomados, preferencialmente, segundo seu tipo peculiar de discurso, ou seja, através da análise de seus conceitos centrais e sua forma de expressão nas relações lingüísticas. Desta forma, tomamos os principais termos morais como que divididos em duas grandes categorias: axiológicos ou avaliativos e deontológicos ou prescritivos. A ética do caráter de Nietzsche dá preferência ao uso valorativos dos termos, assim como as éticas gregas antigas faziam quando visavam o bem e a excelência enquanto valores maiores. Ora, mesmo que a determinação de algo como valoroso possa ser interpretada como uma forma de prescrição prática, é importante ter em conta que esta prescrição se dá de forma indireta e condicionada pela contextualização, mas de qualquer forma no sentido de vida exemplar e virtuosa, portanto centrada no agente e seu caráter. Neste sentido, devemos pensar a pergunta fundamental da ética não como o que devo fazer, mas antes que tipo de pessoa quero ser. De maneira geral, o importante aqui é ressaltar que, na ética do caráter de Nietzsche, a função axiológica ou valorativa é posta em primeiro plano, reservando ao uso deontológico dos termos um papel secundário e sem sentido prático de tribunal a posteriori das ações, o que de certa forma já denuncia a relação deste último uso com a idéia de culpabilidade e castigo. Contudo, não querendo delongar demais nessa estratégia analítica, nem introduzir conclusões ainda não discutidas, retornemos às outras estratégias de determinação do modelo ético. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p.81-92, 2009 P á g i n a | 84 SANTOS, Oscar Augusto Rocha Mudando nossa perspectiva, podemos dizer que, a partir da observação do objeto central de cada ética, a ética do caráter de Nietzsche se diferencia por centra-se no agente e suas virtudes. Enquanto as éticas teleológicas centram-se nas conseqüências das ações e as éticas deontológicas nas normas e deveres que regem as ações, a ética do caráter prende-se ao agente e seu conjunto de valores e virtudes, ou seja, ao caráter do indivíduo. Dizer que Nietzsche desenvolve uma ética do caráter se justifica, antes de qualquer outra coisa, pelo posicionamento que ele assume quanto à questão dos valores, ou seja, pela oposição entre fato e valor: os fatos não têm valor intrínseco, as interpretações é que são valorativas, portanto, os valores se fundam em quem valora e interpreta, por dizer, no agente. Nem as ações, nem qualquer outro objeto de interesse para o ser humano são valorosos em si mesmos, pois sempre dependem de um ser que valore, isto é, que sinta internamente atração ou repulsão pelo objeto; as coisas são valorosas porque alguém as valorou, e não o contrário. O que estamos argumentando é que o valor dado a uma ação depende única e exclusivamente do indivíduo que a avalia - o que quer dizer que os juízos de valor morais são a projeção do caráter do indivíduo sobre as ações ou posicionamentos práticos. Cabe aqui evidenciar desde já que, segundo nossa forma de entendimento da questão, caráter pode, sem maiores problemas, ser entendido como índole, como natureza ou mesmo como physis, conforme veremos em mais detalhes a seguir. Neste sentido, quando dizemos que os valores de alguém são a projeção de seu caráter sobre as coisas, estamos dizendo que os valores se fundamentam, não exclusivamente, mas de maneira determinante, nas inclinações naturais do indivíduo. Poder-se-ia questionar que esta posição é por demais relativista, ou mesmo subjetivista. Contudo, devemos negar tal questionamento dizendo, primeiro, que ela não é relativista por haver uma Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 85 | P á g i n a SANTOS, Oscar Augusto Rocha hierarquização das inclinações, o que fica bastante claro, principalmente nas obras tardias de Nietzsche; segundo, que também não é subjetivista, pois, como se sabe, Nietzsche é um crítico ferrenho da subjetividade, dando maior ênfase em aspectos inconscientes e pulsionais no tocante às tomadas de posição prática o que na verdade faz desta oposição entre subjetivo e objetivo algo um tanto quanto sem sentido nessa perspectiva. Mas retornaremos a estas questões mais à frente, depois de discutirmos alguns aspectos das relações entre vergonha e liberdade de forma que certos detalhes sejam mais bem apresentados. Vergonha, liberdade e auto-afirmação Ao final do livro III de A Gaia Ciência há uma série de aforismos bastante curtos na forma de “pergunta e resposta”, sendo que os três últimos falam sobre a vergonha [die Scham]. No primeiro, Nietzsche afirma que aquele que sempre quer envergonhar é quem deve ser chamado de “ruim”; no seguinte, afirma que poupar alguém da vergonha é aquilo que é “mais humano” em nós; por fim, o aforismo 275 diz o seguinte: “Qual o emblema da liberdade alcançada? – Não mais envergonhar-se de si mesmo.” Ora, de maneira geral, pode-se perceber que Nietzsche busca algum tipo de valoração, ou de determinação de valores a partir do sentimento de vergonha. Se a pessoa sempre quer envergonhar, ela é ruim – há aí um juízo de valor depreciativo quanto à vergonha e quem a busca; em oposição, se a pessoa sempre tenta poupar alguém da vergonha, ela é humaníssima – neste caso, tomando humaníssimo como valoração positiva; mas, o importante a ressaltar é que a pessoa dita livre é apenas aquela que não se envergonha de si, pois não se afeta diante do primeiro e não carece ou não Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p.81-92, 2009 P á g i n a | 86 SANTOS, Oscar Augusto Rocha dá motivos para o esforço do segundo. Mas, vamos por partes. Primeiro vamos buscar entender melhor o que seria a vergonha. De onde vem este sentimento? De que maneira ele se relaciona com os valores, as virtudes e a moral? Uma série de perguntas, que buscaremos tratar aqui o mais proveitosamente possível, porém cientes da impossibilidade de esgotar a problemática envolvida. Dando prosseguimento, gostaríamos de chamar a atenção para outros dois aforismos de Nietzsche, um também da Gaia Ciência e outro de Humano demasiado humano II – mais especificamente em Opiniões e sentenças diversas. No primeiro, Nietzsche afirma que a mudança do gosto geral é o que está por de trás da mudança das opiniões, ou dos juízos de valor, sejam eles morais ou estéticos. O gosto de alguém que goza de posição privilegiada passa a se tornar o gosto geral, seja por hábito, seja por obrigação. A diferença entre os gostos se explica pela singularidade do modo de vida de cada pessoa, isto é, nos valendo do texto do próprio Nietzsche, têm sua origem em “sua alimentação, digestão, talvez numa maior ou menor quantidade de sais inorgânicos no sangue e no cérebro; em suma, na sua physis.” [GC §39]. No entanto, o mais importante aqui é ressaltar que estas pessoas de quem partem as mudanças, ou que possuem o gosto que se impõe, são aquelas que dão ouvidos ao que diz seu caráter, o que nos permite concluir que, segundo o que afirma Nietzsche, nossos juízos de valor estéticos e morais são a expressão mais sutil de nossa physis, de nossa natureza. Já no segundo aforismo, novamente a questão do gosto aparece, todavia, desta vez acompanhada do sentimento de vergonha. Nietzsche afirma que professar seu gosto e nem ao menos compreender como alguém possa se envergonhar daquilo que gosta, seja lá o que for, é o que deve ser apontado como o sinal da soberania. Em suma, podemos dizer que a pessoa que não se envergonha de seu gosto, e, portanto, de seu Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 87 | P á g i n a SANTOS, Oscar Augusto Rocha caráter, é soberana; e é também livre, conforme o que vimos anteriormente a partir das três “perguntas e respostas” do final do livro III. Deste modo, podemos já dizer ao menos uma coisa sobre a vergonha: que ela está intimamente relacionada à afirmação ou não de si, de seu próprio caráter. Um segundo ponto que gostaríamos de agora avançar é quanto à idéia de que a vergonha está também ligada ao processo de moralização da humanidade, enquanto negação de instintos e inclinações. Vejamos o que diz um trecho do parágrafo 7 da segunda dissertação da Genealogia da Moral: ...O ensombrecimento do céu acima do homem aumentou à medida que cresceu a vergonha do homem diante do homem. (...) refiro-me à moralização e ao amolecimento doentios, em virtude dos quais o bicho ‘homem’ aprende afinal a se envergonhar de seus instintos. [GM II §7] É preciso fazer aqui uma pequena digressão a fim de evitar quaisquer mal-entendidos. Quando Nietzsche afirma que a moralização é algo que levou o homem a se envergonhar de seus instintos e não mais se confiar à sua natureza, ele está criticando não a moralidade como um todo, mas aquilo que se entendia por moral em sua época, isto é, a deontologia kantiana e o utilitarismo inglês como formas e expressões, em certo sentido, de uma mesma moralidade judaico-cristã6. Sem dúvida que também Nietzsche propunha 6 Cabe aqui citar o importante trabalho de Brian Leiter no qual busca diferenciar o tipo específico de moralidade a qual Nietzsche se opõe. No caso, Leiter denomina de “Moral in the Pejorative Sense” – ou apenas MPS – toda moralidade que seja contrária aos interesses do tipo superior de homem tal qual entendido por Nietzsche, isto em favor de tipos inferiores. Para maiores detalhes vale conferir seu artigo Morality in the pejorative sense: on the logic of Nietzsche's critique of morality (1995). Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p.81-92, 2009 P á g i n a | 88 SANTOS, Oscar Augusto Rocha uma moral e que também tinha seu próprio conjunto de valores, como fica claro no prefácio escrito para Aurora em 1886, onde Nietzsche diz que naquele livro enfrenta-se uma contradição: retirar a confiança na moralidade por moralidade. Nietzsche continua: Mas não há dúvida, também a nós se dirige um ‘tu deves’, também nós obedecemos ainda uma severa lei acima de nós – e esta é a última moral que ainda se nos faz ouvir, que também nós ainda sabemos viver. [A Pr §4] Dois pontos importantes se mostram na citação anterior. Primeiro, que ela funciona como uma defesa da afirmação precedente de que mesmo se dizendo um imoralista, Nietzsche tem e assume uma proposta ética, ainda que esta se mostre por meio de contradições como na fala de mestre Eckhart, em uma citação do próprio Nietzsche: “Peço a Deus que me livre de Deus” [GC §292]; segundo ponto, que a moral que ainda resta é a única que ainda se pode viver, e não compreender ou ter como manual de decisão prática. A vida de cada um é onde se define a moral de cada um, desde que se entenda vida como sendo o desenrolar da condição e constituição psicofisiológica da pessoa, ou, em síntese, o devir de sua physis. É algo que nos soa quase que sem sentido falar em alguém que seja culpado do seu caráter, ou de sua natureza. Por sua vez, falar em alguém que se envergonhe de sua natureza é algo bem mais plausível. A questão aqui é evidenciar a atitude de afirmação ou negação de si como fator de influência crucial no sentimento de vergonha. Poderíamos dizer que, enquanto Kant pensa a liberdade como libertação das inclinações naturais, Nietzsche a pensa como afirmação dessas mesmas inclinações, isto é, a Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 89 | P á g i n a SANTOS, Oscar Augusto Rocha liberdade como o estado de coincidência entre impulsos e decisões. No entanto, não confundamos aqui decisão e livrearbítrio. Quando Nietzsche fala em decisão devemos pensar em resultante final de impulsos, em vitória e sobreposição de um gosto sobre o outro, pois em matéria de inclinações o homem deve ser pensado antes como um dividuum ao invés de individuum [HH I §57]. Isto tem duas conseqüências imediatas: primeiro, que o ser humano ao agir de determinada forma sempre o faz por meio da ênfase em um impulso ou conjunto de impulsos, ou seja, de forma fragmentada; segundo, que a inocência em relação às suas ações se fundamenta em sua incapacidade de ter, por assim dizer, as rédeas da situação. Querer domar os impulsos não é algo que está sob nosso controle, mesmo que sejamos levados a acreditar que este processo se dá por deliberação consciente e racional. Em todo o processo, claramente, nosso intelecto é antes o instrumento cego de um outro impulso, rival daquele que nos tormenta com sua impetuosidade [...] Enquanto nós acreditamos nos queixar da impetuosidade de um impulso, é, no fundo, um impulso que se queixa de outro, isto é: a percepção do sofrimento com tal impetuosidade pressupõe que haja um outro impulso tão ou mais impetuoso, e que seja iminente uma luta, na qual nosso intelecto precisa tomar partido. [A §109] Sem querer nos demorar demais neste ponto, gostaríamos apenas de ressalvar que, ao entendermos o ser humano da forma como pretende Nietzsche, como uma multiplicidade dinâmica de impulsos num organismo singular, a noção de culpa fica enfraquecida, pois a liberdade deliberativa da consciência é posta em xeque. Assim como no Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p.81-92, 2009 P á g i n a | 90 SANTOS, Oscar Augusto Rocha estado de sonho não faz sentido falar em responsabilidade e culpa, da mesma forma não faz sentido assim falar sobre o estado de vigília; tanto em um estado quanto no outro, todo acontecimento é sem dúvida nosso, originado em nós, mas não como fruto de nossa escolha e decisão. Devemos antes pensar o processo como decorrência de uma específica efetividade, uma singular condição psicofisiológica inserida num contexto determinado. É o próprio conceito de “eu” que, reformulado a partir de seu aspecto biológico, desestrutura a possibilidade de culpa e castigo no sentido que até então era tido como verdadeiro. A culpabilidade só adquire sentido segundo uma espécie de erro gramatical simples: a confusão entre voz passiva e voz ativa. Enquanto as éticas modernas buscam formas de julgar as ações de maneira clara e objetiva, a proposta ética de Nietzsche pretende retomar a pressuposição antiga do agente moral, ou seja, a repersonalização da moral sob a luz deste novo conceito de “subjetividade”. Analisar uma virtude particular de forma isolada é, sem dúvida, para Nietzsche, algo bem mais difícil do que analisar um homem e seu caráter, ou seja, a totalidade de suas virtudes que, por sua vez correspondem aos seus valores e impulsos. Somando-se a isto a postura cética de Nietzsche quanto à eficácia da racionalidade enquanto método para se alcançar determinada virtude, temos os únicos motivos para chamar a ética de Nietzsche, portanto, de ética do caráter e não de ética de virtudes. As virtudes devem, desta forma, ser entendidas como traços do caráter, este sim, singular em cada um. Além do mais, este último deve ser pensado como o determinante inconsciente das tomadas de posição prática. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009 91 | P á g i n a SANTOS, Oscar Augusto Rocha Considerações finais Enfim, recapitulando para concluir, o que procuramos argumentar neste artigo foi que, a partir de uma perspectiva como a de Thomas Brobjer, onde se assume o pensamento moral nietzschiano, enquanto ética do caráter, como que vinculado à tradição ética ocidental – principalmente atrelado às chamadas éticas de virtudes da Grécia antiga – temos motivos suficientes para pensar que Nietzsche seria mais próximo de uma cultura da vergonha do que de uma cultura da culpa. Declaramos isso não no sentido de que se deva formar um grande tribunal da vergonha pública, mas sim que o ato de se evitar a vergonha, própria ou alheia, seja tomado como prédica moral, ou ao menos como algo a ser valorizado em todo homem que de tal modo age e vive. Desta forma, talvez possamos arriscar aqui em dizer que o principal valor moral para Nietzsche é a liberdade, e não o bem como pensavam os antigos. Isto porque a liberdade é justamente o estado daquele que não se envergonha de si, ou que, em outras palavras, se afirma ao afirmar suas inclinações, que se permite a entrega à sua própria natureza, que em si coincidam impulsos e escolhas, valores e virtudes. Referências bibliográficas BROBJER, Thomas. Nietzsche’s ethics of character: A study of Nietzsche’s ethics and its place in the history of moral thinking. NIETZSCHE. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. ___________. Aurora. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p.81-92, 2009 P á g i n a | 92 SANTOS, Oscar Augusto Rocha ___________. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. ___________. Humano, demasiado Companhia das Letras, 2004. ___________. Humano, demasiado Companhia das Letras, 2008. humano. humano II. São São Paulo: Paulo: LEITER, Brian. Morality in the pejorative sense: on the logic of Nietzsche's critique of morality. British Journal for the History of Philosophy, Bristol, Vol. 3 | Nº1, p. 113-145, 1995. Revista Eletrônica Print by (http://www.ufsj.edu.br/revistalable Metanóia, São João del-Rei/MG, n.11, p. 81-92, 2009