DISCURSOS SOBRE GÊNERO E SEXUALIDADE NA INTERNET Silvana Souza Santos - UFRGS Rosa Maria Bueno Fischer - UFRGS RESUMO - Ao longo da história o corpo passou pelo domínio da religião, da política e da medicina. Atualmente pode-se verificar a influência da tecnologia, da internet e das ciberculturas na vivência de sexualidade e corporeidade humana, abordando a discussão sobre gênero, corpo, discurso, poder e educação. Para isto foram realizadas pesquisas nos chats de sexo virtual e posteriormente uma análise dos discursos sobre sexualidade e corpo que transita por este mundo virtual, tão concreto e presente na vida de milhares de pessoas. Utilizando-se o referencial da Pedagogia Cultural, esta análise apresenta a linguagem e o discurso como elementos centrais que interpelam os sujeitos, disputando-os e modificando assim a percepção de tempo e espaço, além de construir dialeticamente o cibermundo e portanto a cibercultura. A cada dia a educação enfrenta o desafio de congregar e refletir juntamente com os educandos todos estes discursos que circulam na grande mídia, que através de imagens e sons, favorecem o cenário para a identificação da padronização das formas de beleza, dos corpos e das sensações, contribuindo para a busca imediata e individual dos discursos divulgados na mídia e, favorecendo a constituição de identidades efêmeras e imaginárias. Atualmente muitos estudos discutem as questões vinculadas ao corpo e à sexualidade como uma construção social e cultural, e não como algo fechado em si, estagnado, sem este movimento dialético entre sujeito e cultura. Portanto, compreendendo o sujeito como um ser atuante socialmente, podemos dizer que somos agentes transformadores desta época em que vivemos; agentes que constituem a história, à medida que por ela são constituídos. Em certa medida, as alterações históricas pelas quais passou o corpo, modificando não apenas sua percepção, mas também sua forma, estão diretamente vinculadas à evolução das tecnologias que a cada dia multiplicam-se em torno da matéria que nos existencializa, abrangendo desde complementos alimentares que podem transformar os corpos até a hibridização, que confunde o que é humano e o que é máquina. Sem dúvida, todas estas alterações vão produzindo novos discursos que passam a ditar as normas de beleza, os cuidados com o corpo, os gestos adequados, a melhor maneira de vivenciar a sexualidade, enfim, sugerindo novas reflexões sobre sociedade e educação. Um dos maiores fenômenos tecnológicos desta época está vinculado a informática, que vem apresentando a cada dia novas possibilidades de abrangência, entre elas, a Internet. Esta, por sua vez, apresentada como um tipo de mídia interativa e globalizada, estando vinculada ao mundo dos negócios, conhecimento, informação e entretenimento, tem conseguido diariamente aumentar o número de Internautas, produzindo efeitos também em termos de educação. Entre todas estas possibilidades, é também na Internet que podemos dialogar com inúmeras pessoas entrando no chats (salas virtuais onde as pessoas se encontram para conversar). Este trabalho concentra-se nestes chats onde o assunto é sexo virtual, e em torno deste, as reflexões a respeito dos discursos que surgem neste cibermundo, que de alguma maneira afetam as subjetividades, produzindo uma nova cultura. Apenas como uma forma didática, abordaremos no primeiro momento como ocorre efetivamente esta conexão ao mundo virtual, em seguida uma breve reflexão a respeito das Subjetividades em tempos de globalização entrelada com a história e, para finalizar, faremos uma pequena viagem à construção daquilo que hoje chamamos de sexualidade. Com isto temos subsídios para focalizar os chats de sexo virtual, 2 envolvendo os conceitos que têm sido utilizados pelos Estudos Culturais sobre identidade e diferença, sujeito e discurso. SUBJETIVIDADES E IDENTIDADES EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO A Internet permite a conexão com qualquer lugar do mundo através de um provedor, basta digitar um password (senha) e em seguida escolher um nickname (apelido escolhido para acessar os chats), que pode estar de acordo com meu sexo ou com a minha opção sexual, tanto faz, neste mundo virtual vale tudo: criar, fingir, mascarar, atuar em diversos papéis e cenários incontáveis. Instantes depois abre-se uma página com sons e imagens que seduzem e induzem o envolvimento. Já estou on line, já estou conectado ao mundo através de uma janela. Depois de todos estes passos, estou fazendo parte de uma comunidade virtual, onde as leis são efêmeras tanto quanto os desejos. Cria-se um espaço onde posso manifestar ansiedades, medos, alegrias sem ser identificado; e em termos de pesquisa surge mais um local para indagar a respeito das identidades que se desdobram e se multiplicam, tornando perceptível a constituição de identidades flexíveis, maleáveis e passageiras. Porém, neste mundo virtual, existe uma experiência concreta que ocorre em tempo e espaço real, dificultando, em certos momentos, a delimitação do campo real e virtual. O concreto ocorre pela relação estabelecida, pois quando um chat é acessado, acontece de maneira efetiva a interação entre sujeitos, porém, esta interação é mediada por dois computadores e uma linha telefônica que pode romper a conexão em qualquer instante, além de abrir a possibilidade de “brincar” com a identidade, tornando cada vez mais importante o papel da educação no auxílio deste caminho para compreender criticamente quais são os alguns desdobramentos decorrentes desta modernidade virtual afetiva. Estas novas formas de se relacionar além de informar sobre sexualidade, também participam na formação de sujeitos ditos pertencentes a era tecnológica. Isto por que a liberdade para falar da sexualidade tem aumentado gradativamente, mas é para falar de uma determinada concepção de sexualidade que está atrelada a uma ideologia política que ainda é dominante prevalecendo os preconceitos e as desigualdades. Assim, a Internet é acima de tudo uma forte divulgadora de discursos que mexem e remexem nas identidades, entendidas neste estudo como algo que se constrói culturalmente. Portanto, o cibermundo surge como uma outra forma de mídia que discursa sobre a sexualidade; em certa medida um discurso que mantém, controla e padroniza os comportamentos, pois à medida que surge a necessidade de falar sobre o sexo, surge também a necessidade de fazer escolhas compatíveis com o que é aceito socialmente, ou seja, com o que foi culturalmente constituído como norma. Contudo, torna-se difícil pensar as relações sociais, afetivas sexuais, políticas e econômicas (que estão vinculadas às políticas de identidade e diferença) sem que imediatamente surja um item em discussão: a globalização. Assunto que rapidamente alastrou-se pelo mundo de forma persistente, talvez porque realmente esteja provocando alterações no cotidiano de muitas pessoas devido ao trânsito de fronteiras, conforme Giddens, a comunicação eletrônica instantânea não é apenas um meio pelo qual notícias ou informações são repetidas instantaneamente, sua existência altera a própria estrutura de 3 nossas vidas quer sejamos ricos ou pobres (GIDDENS, 2000, P.22). Assim, a globalização não é apenas um fenômeno econômico, como muitos acreditam. “A globalização é política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica” (GIDDENS, 2000, p.22). Hoje a informação já representa um mercado econômico, disputando espaço nas transações da bolsa de valores, no meio acadêmico, na própria preservação dos direitos mais comuns. Este é o produto: informação; que já ocupa um vasto número de satélites bem como uma enorme variedade de comunicação eletrônica. E sem dúvida todo este arsenal tecnológico que possibilita salvar vidas, encontrar mais rapidamente a cura para certas doenças, conhecer o mundo sentado em uma poltrona na sala de estar, simultaneamente produz efeitos que alteram as percepções de tempo e espaço, que alteram códigos genéticos, produzindo novas noções de sujeito e portanto, de subjetividades. Sob este aspecto, nossa subjetividade é altamente afetada com a evolução tecnológica, pois devido à comunicação em rede podemos interagir com inúmeras pessoas, talvez um número bem maior de oportunidades e riscos se estabelecem, abrindo a possibilidade de escolher como vamos utilizar o tempo ao qual dispomos, ou seja, na interação concreta ou virtual. Mas nem sempre foi assim. A história vai sendo contada para aprendermos com ela. Stuart Hall nos ajuda a compreender que identidade, vista como algo flexível e transitório já foi considerada um centro rígido e permanente. Segundo o autor, o sujeito do Iluminismo era um “indivíduo totalmente centrado e unificado” (1998, p.10). Entretanto, com o passar do tempo este sujeito centrado foi construindo-se como alguém não mais reconhecido como auto suficiente e portanto, a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou uma essência interior que é o eu real, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem ( HALL, 1998, p. 11). Devido esta quebra de fronteiras que torna a própria identidade algo desconhecido de si mesmo, cabe surgir novas formas de proteção, de exílio, de defesa. Assim, configura-se um cenário que favorece a individualidade, a comunicação eletrônica e as relações virtuais. Mais uma vez este é o cenário que a escola enfrenta: alunos carregados de informação sem instrumento para analisá-las criticamente. Corpos que se movimentam e se organizam sem ter a percepção do caminho que estão seguindo. E nesta estreita relação entre ser humano e máquina, o modo como as identidades estão sendo constituídas alteram-se individual e socialmente. Estudiosos da cultura afirmam que a identidade está cada vez mais fragmentada, na inversa proporção da quebra de fronteiras, ou seja, quanto maior a globalização das informações e dos territórios, menor a constituição de identidade fixa e estável. Na pós-modernidade, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente” (Hall, 1998, p. 13). De acordo com esta afirmação, pode-se refletir a respeito da Internet como um campo de identidades flutuantes, onde é possível atuar em diferentes papéis ao mesmo instante em que ocorre a interpelação por outros tantos e variados personagens, “uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela 4 tornou-se politizada” (Hall, 1998, p.21 ). Desta forma, o mundo virtual amplia as redes de relações e comodamente facilita o acesso em diferentes locais em um menor espaço de tempo, estimulando a expansão das relações ao mesmo instante que ausenta o corpo deste processo. SEXUALIDADE FAZENDO HISTÓRIA Navegar pelas ondas da Internet, principalmente quando o objetivo é focar a lente na sexualidade, leva-nos a pensar um pouco a respeito da construção daquilo que hoje chamamos de sexualidade, pois estas noções se modificam ao longo da história, das diferentes crenças e culturas. Segundo Foucault (1998, p. 109), a história da sexualidade supõe duas rupturas: a primeira no século XVII, como nascimento das grandes proibições e a segunda, no século XX, quando os mecanismos de repressão começam a afrouxar, eliminando grande parte dos tabus que pesavam sobre a sexualidade infantil. Mesmo assim, as crianças desde muito cedo compreendem que sexo é um assunto que deve-se ter muito cuidado ao falar; o que talvez explique em muitas circunstâncias a busca de informações através dos amigos, do cinema, da televisão, etc. Esta busca é possível por que a informação encontra-se disponível em diversos “veículos”, mas por muito tempo a educação sexual foi uma tarefa assumida pela instituição escolar que adotou o discurso médico higienista na transmissão deste conhecimento. Entretanto, hoje nos parece que a sexualidade é pedagogicamente articulada como um tema transversal, não detendo-se apenas ao ato sexual e ao corpo físico, mas também buscando esclarecer as situações de risco, refletindo sobre saúde e qualidade de vida. Ainda conforme Foucault, este discurso sobre sexo não ocorre fora das instâncias de poder pois, “fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos múltiplos mecanismos da economia, da pedagogia, da medicina e da justiça incitam, extraem, organizam e institucionalizam o discurso do sexo” (1998, p.34 ). Podemos, em linhas gerais, destacar dois desdobramentos fundamentais desta institucionalização dos discursos sobre sexo. O primeiro refere-se exatamente ao controle permanente e mútuo das vivências da sexualidade, neste ponto parece que a sexualidade passa a ser um pouco público, ou seja, do domínio de um discurso que controla a sexualidade ditando o normal e o anormal, o certo e o errado. Ao mesmo tempo em que amplia os conhecimentos em torno da sexualidade, tornando permitido e legitimando um discurso em torno desta, também originando o controle de si próprio como forma de enquadra-se a normalidade da experiência sexual; conforme Jeffrey Weeks, “ao definir o que é normal tornou-se plenamente possível tentar definir o que é anormal (uma plena correspondência entre o corpo e a identidade de gênero socialmente aceitável” (1999, p. 50). Entretanto, Jeffey Weeks argumenta que “os significados que damos à sexualidade e ao corpo são socialmente organizados, sendo sustentados por uma variedade de linguagens que buscam nos dizer o que o sexo é, o que ele deve ser e o que ele pode ser” (1999, p.43). De certa forma, à medida que definimos o que é o sexo, definimos como devem agir os sujeitos para serem reconhecidos politicamente como possuidores de uma sexualidade digna e respeitada. Mesmo assim, ao longo de todas estas modificações históricas do discurso da sexualidade, em qualquer tempo ela pressupõem a relação entre sujeitos que serão agentes ativos na produção e reprodução destes discursos, ao mesmo instante em que 5 são afetados em seus cotidianos por esta complexa conjuntura envolvendo poder, linguagem, corpos e prazeres. DA SEXUALIDADE AO CIBERSEXO Ao longo do desenvolvimento deste trabalho, refletiu-se sobre as formas modernas de constituição de identidade e de sexualidade, não esquecendo, entretanto, da importância da compreensão histórica neste processo. Claro está que todo o avanço tecnológico vem transformando o cotidiano e como conseqüência alterando algo que produz o sujeito ao mesmo instante em que é produzido por ele(a): a cultura. E parte fundamental para ser analisada nos dias de hoje é o fato de que a cultura está sendo cada dia mais globalizada e com um alcance onde as “identidades nacionais estão se desintegrando(...); as identidades nacionais estão em declínio, mas as novas identidades – híbridas – estão tomando seu lugar” (Hall, 1998, p.69). Escolhemos como exemplo e como foco para análise os sites de sexo virtual. Ao longo desta “viagem“ acessamos diferentes chats de conversas e estabelecemos relações com as questões discutidas no decorrer deste trabalho, que serão estabelecidas por tópicos, apenas para uma melhor apresentação didática. LINGUAGEM E SEXUALIDADE Aqui está um item central deste trabalho, pois entendemos as relações são estabelecidas através da linguagem, sejam elas verbais ou corporais; a linguagem é a nossa ferramenta para expressar o que pensamos e o que sentimos e, mesmo da maneira mais eficaz, de alguma forma, ela ainda nos escapa, pois as palavras transitam disponível e carregam uma diversidade tão grande de significados que apenas nos resta como alternativa, usufruir desta imensa possibilidade de interpretação. Além disto, conforme Tomaz Tadeu, “a linguagem, entendida aqui de forma mais geral como sistema de significação, é, ela própria, uma estrutura instável” (Silva, 2000, p.78), e é justamente esta estrutura instável que desacomoda também as identidades, uma vez que são disputadas e constituídas no discurso, ou seja, “a identidade e a diferença são tão indeterminadas e instáveis quanto a linguagem da qual dependem” (Silva, 2000, p. 80). Além disto, a “cantada” ou convite que ocorre com maior incidência nestes chats resume-se à seguinte frase: vc quer tc? ou ainda: Vamos tc? Realmente para quem está navegando pela primeira vez, a saída mais fácil é perguntar: O que significa tc??? (02:11:45) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: de onde vc tc? (02:12:00) meigoequente : entra na sala (02:12:07) guloso fala para Joana: oi de onde vc tc? (02:12:08) miguel : entra na sala 02:13:05) Joana fala para ZorrodoSexo: estou entrando pela primeira vez na sala, nao sei o que e tc, pode me explicar??? (02:13:36) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: fala reservado q dai eu te explico (02:13:55) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: tc e teclar Como demonstra a conversa acima, mesmo sendo a Internet uma rede de informações onde pode-se rastear os “passos” de qualquer pessoa, ainda assim, em alguns bate papo observa-se a necessidade de uma certa privacidade, mesmo que seja ilusória. Falar ou escrever, neste caso significa expor-se, por isso talvez não seja 6 suficiente o pseudônimo do nickname. Ou ainda, conserva-se aquilo que culturalmente é considerado o correto, ou seja, o sexo é algo que deve acontecer em local apropriado e particular, e nestes sites os internautas não estão apenas conversando e sim fazendo sexo virtual, portanto surge a necessidade de olhar para a tela e saber que está em uma sala reservada, mantendo uma certa privacidade. De qualquer forma o sexo textualista joga apenas com as palavras; é o sexo que não utiliza roupas, jóias, perfumes, toques ou olhares com forma de sedução, a menos é claro que tudo isto seja descrito, mas mesmo assim é a palavra que seduz. Segundo Branwyr, intercambios sexuales basados en el texto, compusexo: erotismo para cibernautas. El más corriente, consiste en descripciones explícitas de lo que cada participante supuestamente está haciendo. Otro tipo, apreciado por los amantes de las orgías, consiste en la invención colectiva de fantasías sexuales (Branwyr, apud Mark Dery, 1998, p.227). O texto abaixo exemplifica brevemente a descrição de uma situação com o intuito de provocar, de chamar para uma conversa mais intima. (00:03:30) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: acabei de tomar um bom banho, tô só de cueca e vc???? (00:04:43) Bruna fala reservadamente para GatoBaiano: eu acabei de chegar de uma festa, estou de vestido!! 00:08:15) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: hummmm.... malhadinha de vestido! inspira minha libido. (00:54:00) Lancaster fala reservadamente para Todos: Procuro uma parceira, para uma troca de fantasias sensuais, no campo do implícito ou do explícito....... Todas estas reflexões que rodeiam a linguagem também podem ser observadas nos demais diálogos que apresentamos neste trabalho, mesmo que estes estejam localizados nas reflexões referentes ao gênero e representações, pois entendemos que a linguagem está vinculada a todas as ações, pensamentos, desejos e sentimentos que possuímos; e esta mesma linguagem nos altera, nos constitui e nos interpela compondo esta espiral dialética entre o sujeito e a cultura. SEXUALIDADE, GÊNERO E REPRESENTAÇÃO As questões vinculadas ao estudo sobre gênero, relacionadas com a construção social da diferença entre os sexos envolvendo regras, limites, proibições e liberdade para homens e mulheres são amplamente discutidas atualmente, principalmente depois do Movimento Feminista, que conforme Stuart Hall, “politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação” (Hall, 1998, p.45). Além disto, estes movimentos representam um marco na história da construção da própria identidade, ou seja, da reflexão sobre identidade e diferença e portanto, de uma política de identidade. Portanto, como podemos observar no exemplo abaixo, também ocorre nos chats de sexo virtual a interação entre sujeitos que discursam e disputam (através da linguagem), muitas vezes, uma companhia para o “bate-papo”. (23:58:22) Bruna : tem alguem a fim de bater um papo??? (23:58:30) zorro fala reservadamente para Bruna: Olá, vc tc de onde? (23:58:30) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: Oí! vamos bater um papo gostoso????? (23:58:30) GATINHO fala reservadamente para Bruna: SIM 7 (23:58:34) Jonas : entra na sala (23:58:48) viperdw fala reservadamente para Bruna: ita tc (23:58:48) Jonas : oi (23:58:54) tony fala reservadamente para Bruna: de onde tc Neste exemplo, o nickname Bruna (que faz parte da pesquisa) pergunta se alguém está a fim de bater um papo, logo podemos observar que surgem várias opções para contato, A grande maioria das frases acima podem ser classificadas como convites para teclar com a “Márcia”, tais convites ocorreram mesmo antes da manifestação da internauta. Mas o que será que acontece quando alguém entra com um nick masculino? (23:52:59) cowgirl : entra na sala (23:53:06) Jack : tem alguem a fim de bater um papo??? (23:54:17) tony fala reservadamente para Todos: Alguma menina quer tc ou ter prazer comigo ao telm (23:54:23) GatoBaiano : entra na sala 23:55:05) viperdw : entra na sala (23:55:12) Jack : e ai galera, estou a fim de tc ... alguem mais ta a fim??? 23:55:37) marcela : entra na sala (23:55:37) cowgirl fala para GATINHO: claro (23:55:45) viperdw fala para EScrava: oi quer tc Com estes exemplos cabe indagar se estas comunidades virtuais, que são ditas modernas por trocarem experiências eletrônicas, não estão reproduzindo os rituais e discursos tradicionais e cristalizados culturalmente, onde ao homem cabe atacar e conquistar. Uma outra questão que consideramos importante, a respeito deste tópico está relacionado aos nicknames, ou seja, aos codinomes que são escolhidos para acessar os chats. Possivelmente o nickname, ainda que seja ilusório, defina em grande parte o sucesso das conquistas virtuais ou então, no mínimo, garanta alguém para teclar como foi demonstrado nos exemplos anteriores. Tudo indica que um nick feminino facilita o contato, pois ao entrarmos na sala com um nick feminino obtivemos resposta imediata de vários pretendentes, entretanto com um nick masculino torna-se um pouco mais difícil estabelecer alguma comunicação. Conforme Elisabete Garbin, “o nickname na Internet funciona como um marcador crucial de identidade entre os/as jovens internautas” (Garbin, 2001, p.168), assim, entrar com este ou aquele apelido pode significar estar sendo desta ou daquela maneira neste momento da vida, este pseudônimo carrega uma simbologia identitária que ao mesmo instante em que esconde o sujeito propriamente dito, demonstra outros aspectos de sua subjetividade. Neste jogo de poder a palavra possui uma força imensa, pois este é o instrumento utilizado para a aproximação e um possível contato sexual. Para Rosa Fischer “falar e ver constituem práticas sociais permanentemente presas, amarradas às relações de poder que as supõem e que as atualizam”; assim, as “falas” dos internautas podem ser consideradas como um destes elementos das práticas sociais amarradas às relações de poder; falar reservadamente pode instauras a sensação de “imunidade” aos julgamentos e padronizações sociais. Contudo, conhecer é uma forma de poder, pois o conhecimento de um hacker divulgaria a origem e a identidade virtual do(a) internauta, neste sentido, falar e ver são práticas sociais que se encaminham atreladas às relações de poder. 8 Para o mundo virtual não basta apenas pensarmos que existe um discurso a respeito da sexualidade que está vinculado às relações de poder e ao convívio social e político; neste mundo o discurso parece ser o próprio sexo; o discurso é o que acessa o imaginário produzindo as sensações corporais, que podem ou não ser compatíveis e simultânea entre os internautas. De alguma forma a sociedade moderna parece estar atrelada aos mecanismos subliminares de poder, um poder que permanece em constante vigilância, ou melhor, em constante autocontrole até mesmo quando se trata de comunicações virtuais, de identidades on line que se diluem com a mesma instantâniedade da sua constituição. Mas este discurso é construído socialmente produzindo também as identidades coletivas; e mais ainda, produzindo os significados e as características de ser homem ou mulher nesta época e nesta cultura em que vivemos. Mesmo na Internet surgem os “chavões” de masculinidade, onde os homens, para serem considerados como tal, precisam manter uma postura mais agressiva, dominadora, desafiadora e sempre em prontidão para o sexo. As questões de gênero aparecem com bastante freqüência nestes sites, seja como forma de discurso padrão reproduzido, ou então como discussão de identidade sexual. O cibermundo possibilita, aparentemente, a inexistência dos preconceitos que ainda circulam em torno da homossexualidade tanto masculina quanto feminina, porém, quando alguém utiliza um nick que não define o sexo é imediatamente questionado: (02:53:54) Sarah pergunta para Sozinho: vc é gay? 23:40:07) renato16 fala reservadamente para Todos: tenho 16 anos estou só vamos tc gostoso (23:40:56) renato16 fala reservadamente para Todos: sou homem 00:07:53) renato16 fala reservadamente para Todos: vc ´e bicha ? (00:08:31) fred : sim QRO GATINHAS 15à18a 01:46:03 m ou h? reservadamente fala com eiiii Mais uma vez a identidade sexual é compreendida como uma informação importante para entender comportamentos, posição política e definir o que é o normal e o que é considerado patológico, pois é assim que muitos ainda tratam a homossexualidade: como uma doença. Na Internet, espaço onde identidade é algo que pode criado com múltiplas facetas, sendo difícil identificar o que realmente é verdadeiro, ainda assim, surgem os mesmos preconceitos que muitas vezes ocorrem fora deste mundo virtual, que em certa medida, parece confundir-se. Mas reconhecemos que nada é mais virtual, abstrato e particular que o próprio pensamento e, de certa forma, é ele que estimula, aceita, acredita, acomoda ou desorganiza estes conceitos se formam ao longo da história da humanidade. De repente estamos sendo atores na elaboração de uma virtualidade externa, que veio para proteger, ou complementar a virtualidade “interna”, pois até mesmo a atração dos corpos passa por uma atração virtual dos pensamentos. Conforme Mark Derry, “la atracción respondía más a un intercambio de ideas que a una atracción física. En algunos casos depués se dio una atracción física, pero lo fundamental seguía siendo la atracción recíproca de nuestras mentes” (Dery, 1998, p.230). Entretanto, a Internet, bem como outras tecnologias, vem surgindo e apontando novos caminhos para construção de relações, conhecimentos, preconceitos, sexualidades, etc. Assim como tem colaborado no sentido de ampliar as possibilidades de comunicação, facilitando a interação entre diferentes pessoas e uma diversidade 9 significativa de culturas, tornando cada vez mais viável o questionamento dos paradigmas entendidos como natural, pois como nos lembra Foucault, “que lá onde há poder há resistência” (1998, p. 91); e complementaríamos dizendo que lá onde há poder há produção, modificando os caminhos da história, dos sujeitos e da cultura. CONSIDERAÇÕES FINAIS Independente dos motivos que nos levam a visitar estes sites, a pertencer a uma cibercomunidade ou ser adepto ao ciberorgasmo, de alguma forma este mundo virtual abre novas interpretações e percepções das relações. Mesmo que a Internet possibilite conhecer pessoas e com elas relacionar-se, não acreditamos que tais relações possam ser comparadas às relações concretas, elas diferenciam-se principalmente pelo estilo de vivência em espaços reais ou virtuais, ou seja, aquilo que vivenciamos no cibermundo parecer escapar às dimensões do palpável, produzindo ou reforçando ainda mais a subjetividade individualizada, ainda que seja construída também coletivamente. Um outro item que consideramos importante abordar é a intensidade com que o discurso é absorvido e divulgado na Internet. Esta grande mídia interativa está assumindo uma posição significativa, tendo em vista que não estar conectado ao mundo virtual representa estar fora de um determinado convívio social, significa não estar atualizado. Contudo, não encontramos diferenças de grande relevância entre os discursos de gênero, sexualidade e preconceitos que ocorrem na Internet e longe da tela do computador. Ao mesmo instante em que a virtualidade amplia a possibilidade de interação entre os sujeitos, ela também conduz ao individualismo; demonstrando a dualidade da era informatizada, que amplia e reduz os relacionamentos em verticalidade; moderniza e reproduz os discursos tradicionais. Ainda assim, a Internet representa um novo mundo, que até este momento muito pouco foi indagado; pois pesquisar sobre as cibercomunidades é um desafio que auxilia na compreensão destas novas noções de sujeito, de identidade individual e coletiva, de discurso, poder e subjetividade; para que no auge da crise entendamos que é na cultura onde todas estas questões se relacionam. OBRAS CONSULTADAS DERY, Mark. Velocidad de Escape: La Cibercultura en el Final del Siglo: Siruela, 1998. FISCHER, Rosa Maria Bueno. A Análise do Discurso: Para Além de Palavras e Coisas. in: Educação e Realidade. v. 20 nº 2. Porto Alegre, 1995, p. 18-37. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: Vontade de Saber, vol. 1. 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