DISCURSOS SOBRE GÊNERO E SEXUALIDADE NA INTERNET
Silvana Souza Santos - UFRGS
Rosa Maria Bueno Fischer - UFRGS
RESUMO - Ao longo da história o corpo passou pelo domínio da religião, da política e da medicina.
Atualmente pode-se verificar a influência da tecnologia, da internet e das ciberculturas na vivência de
sexualidade e corporeidade humana, abordando a discussão sobre gênero, corpo, discurso, poder e
educação. Para isto foram realizadas pesquisas nos chats de sexo virtual e posteriormente uma análise dos
discursos sobre sexualidade e corpo que transita por este mundo virtual, tão concreto e presente na vida
de milhares de pessoas. Utilizando-se o referencial da Pedagogia Cultural, esta análise apresenta a
linguagem e o discurso como elementos centrais que interpelam os sujeitos, disputando-os e modificando
assim a percepção de tempo e espaço, além de construir dialeticamente o cibermundo e portanto a
cibercultura. A cada dia a educação enfrenta o desafio de congregar e refletir juntamente com os
educandos todos estes discursos que circulam na grande mídia, que através de imagens e sons, favorecem
o cenário para a identificação da padronização das formas de beleza, dos corpos e das sensações,
contribuindo para a busca imediata e individual dos discursos divulgados na mídia e, favorecendo a
constituição de identidades efêmeras e imaginárias.
Atualmente muitos estudos discutem as questões vinculadas ao corpo e à
sexualidade como uma construção social e cultural, e não como algo fechado em si,
estagnado, sem este movimento dialético entre sujeito e cultura. Portanto,
compreendendo o sujeito como um ser atuante socialmente, podemos dizer que somos
agentes transformadores desta época em que vivemos; agentes que constituem a
história, à medida que por ela são constituídos.
Em certa medida, as alterações históricas pelas quais passou o corpo,
modificando não apenas sua percepção, mas também sua forma, estão diretamente
vinculadas à evolução das tecnologias que a cada dia multiplicam-se em torno da
matéria que nos existencializa, abrangendo desde complementos alimentares que podem
transformar os corpos até a hibridização, que confunde o que é humano e o que é
máquina. Sem dúvida, todas estas alterações vão produzindo novos discursos que
passam a ditar as normas de beleza, os cuidados com o corpo, os gestos adequados, a
melhor maneira de vivenciar a sexualidade, enfim, sugerindo novas reflexões sobre
sociedade e educação.
Um dos maiores fenômenos tecnológicos desta época está vinculado a
informática, que vem apresentando a cada dia novas possibilidades de abrangência,
entre elas, a Internet. Esta, por sua vez, apresentada como um tipo de mídia interativa e
globalizada, estando vinculada ao mundo dos negócios, conhecimento, informação e
entretenimento, tem conseguido diariamente aumentar o número de Internautas,
produzindo efeitos também em termos de educação.
Entre todas estas possibilidades, é também na Internet que podemos dialogar
com inúmeras pessoas entrando no chats (salas virtuais onde as pessoas se encontram
para conversar). Este trabalho concentra-se nestes chats onde o assunto é sexo virtual, e
em torno deste, as reflexões a respeito dos discursos que surgem neste cibermundo, que
de alguma maneira afetam as subjetividades, produzindo uma nova cultura.
Apenas como uma forma didática, abordaremos no primeiro momento como
ocorre efetivamente esta conexão ao mundo virtual, em seguida uma breve reflexão a
respeito das Subjetividades em tempos de globalização entrelada com a história e, para
finalizar, faremos uma pequena viagem à construção daquilo que hoje chamamos de
sexualidade. Com isto temos subsídios para focalizar os chats de sexo virtual,
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envolvendo os conceitos que têm sido utilizados pelos Estudos Culturais sobre
identidade e diferença, sujeito e discurso.
SUBJETIVIDADES E IDENTIDADES EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO
A Internet permite a conexão com qualquer lugar do mundo através de um
provedor, basta digitar um password (senha) e em seguida escolher um nickname
(apelido escolhido para acessar os chats), que pode estar de acordo com meu sexo ou
com a minha opção sexual, tanto faz, neste mundo virtual vale tudo: criar, fingir,
mascarar, atuar em diversos papéis e cenários incontáveis. Instantes depois abre-se uma
página com sons e imagens que seduzem e induzem o envolvimento. Já estou on line, já
estou conectado ao mundo através de uma janela.
Depois de todos estes passos, estou fazendo parte de uma comunidade virtual,
onde as leis são efêmeras tanto quanto os desejos. Cria-se um espaço onde posso
manifestar ansiedades, medos, alegrias sem ser identificado; e em termos de pesquisa
surge mais um local para indagar a respeito das identidades que se desdobram e se
multiplicam, tornando perceptível a constituição de identidades flexíveis, maleáveis e
passageiras.
Porém, neste mundo virtual, existe uma experiência concreta que ocorre em
tempo e espaço real, dificultando, em certos momentos, a delimitação do campo real e
virtual. O concreto ocorre pela relação estabelecida, pois quando um chat é acessado,
acontece de maneira efetiva a interação entre sujeitos, porém, esta interação é mediada
por dois computadores e uma linha telefônica que pode romper a conexão em qualquer
instante, além de abrir a possibilidade de “brincar” com a identidade, tornando cada vez
mais importante o papel da educação no auxílio deste caminho para compreender
criticamente quais são os alguns desdobramentos decorrentes desta modernidade virtual
afetiva.
Estas novas formas de se relacionar além de informar sobre sexualidade,
também participam na formação de sujeitos ditos pertencentes a era tecnológica. Isto
por que a liberdade para falar da sexualidade tem aumentado gradativamente, mas é
para falar de uma determinada concepção de sexualidade que está atrelada a uma
ideologia política que ainda é dominante prevalecendo os preconceitos e as
desigualdades. Assim, a Internet é acima de tudo uma forte divulgadora de discursos
que mexem e remexem nas identidades, entendidas neste estudo como algo que se
constrói culturalmente.
Portanto, o cibermundo surge como uma outra forma de mídia que discursa
sobre a sexualidade; em certa medida um discurso que mantém, controla e padroniza os
comportamentos, pois à medida que surge a necessidade de falar sobre o sexo, surge
também a necessidade de fazer escolhas compatíveis com o que é aceito socialmente, ou
seja, com o que foi culturalmente constituído como norma.
Contudo, torna-se difícil pensar as relações sociais, afetivas sexuais, políticas e
econômicas (que estão vinculadas às políticas de identidade e diferença) sem que
imediatamente surja um item em discussão: a globalização. Assunto que rapidamente
alastrou-se pelo mundo de forma persistente, talvez porque realmente esteja provocando
alterações no cotidiano de muitas pessoas devido ao trânsito de fronteiras, conforme
Giddens,
a comunicação eletrônica instantânea não é apenas um
meio pelo qual notícias ou informações são repetidas
instantaneamente, sua existência altera a própria estrutura de
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nossas vidas quer sejamos ricos ou pobres (GIDDENS, 2000,
P.22).
Assim, a globalização não é apenas um fenômeno econômico, como muitos
acreditam. “A globalização é política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica”
(GIDDENS, 2000, p.22). Hoje a informação já representa um mercado econômico,
disputando espaço nas transações da bolsa de valores, no meio acadêmico, na própria
preservação dos direitos mais comuns. Este é o produto: informação; que já ocupa um
vasto número de satélites bem como uma enorme variedade de comunicação eletrônica.
E sem dúvida todo este arsenal tecnológico que possibilita salvar vidas, encontrar mais
rapidamente a cura para certas doenças, conhecer o mundo sentado em uma poltrona na
sala de estar, simultaneamente produz efeitos que alteram as percepções de tempo e
espaço, que alteram códigos genéticos, produzindo novas noções de sujeito e portanto,
de subjetividades.
Sob este aspecto, nossa subjetividade é altamente afetada com a evolução
tecnológica, pois devido à comunicação em rede podemos interagir com inúmeras
pessoas, talvez um número bem maior de oportunidades e riscos se estabelecem,
abrindo a possibilidade de escolher como vamos utilizar o tempo ao qual dispomos, ou
seja, na interação concreta ou virtual.
Mas nem sempre foi assim. A história vai sendo contada para aprendermos com
ela. Stuart Hall nos ajuda a compreender que identidade, vista como algo flexível e
transitório já foi considerada um centro rígido e permanente. Segundo o autor, o sujeito
do Iluminismo era um “indivíduo totalmente centrado e unificado” (1998, p.10).
Entretanto, com o passar do tempo este sujeito centrado foi construindo-se como
alguém não mais reconhecido como auto suficiente e portanto,
a identidade é formada na interação entre o eu e a
sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou uma essência
interior que é o eu real, mas este é formado e modificado num
diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as
identidades que esses mundos oferecem ( HALL, 1998, p. 11).
Devido esta quebra de fronteiras que torna a própria identidade algo
desconhecido de si mesmo, cabe surgir novas formas de proteção, de exílio, de defesa.
Assim, configura-se um cenário que favorece a individualidade, a comunicação
eletrônica e as relações virtuais. Mais uma vez este é o cenário que a escola enfrenta:
alunos carregados de informação sem instrumento para analisá-las criticamente. Corpos
que se movimentam e se organizam sem ter a percepção do caminho que estão
seguindo.
E nesta estreita relação entre ser humano e máquina, o modo como as
identidades estão sendo constituídas alteram-se individual e socialmente. Estudiosos da
cultura afirmam que a identidade está cada vez mais fragmentada, na inversa proporção
da quebra de fronteiras, ou seja, quanto maior a globalização das informações e dos
territórios, menor a constituição de identidade fixa e estável. Na pós-modernidade, “o
sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são
unificadas ao redor de um eu coerente” (Hall, 1998, p. 13).
De acordo com esta afirmação, pode-se refletir a respeito da Internet como um
campo de identidades flutuantes, onde é possível atuar em diferentes papéis ao mesmo
instante em que ocorre a interpelação por outros tantos e variados personagens, “uma
vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou
representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela
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tornou-se politizada” (Hall, 1998, p.21 ). Desta forma, o mundo virtual amplia as
redes de relações e comodamente facilita o acesso em diferentes locais em um menor
espaço de tempo, estimulando a expansão das relações ao mesmo instante que ausenta o
corpo deste processo.
SEXUALIDADE FAZENDO HISTÓRIA
Navegar pelas ondas da Internet, principalmente quando o objetivo é focar a
lente na sexualidade, leva-nos a pensar um pouco a respeito da construção daquilo que
hoje chamamos de sexualidade, pois estas noções se modificam ao longo da história,
das diferentes crenças e culturas. Segundo Foucault (1998, p. 109), a história da
sexualidade supõe duas rupturas: a primeira no século XVII, como nascimento das
grandes proibições e a segunda, no século XX, quando os mecanismos de repressão
começam a afrouxar, eliminando grande parte dos tabus que pesavam sobre a
sexualidade infantil.
Mesmo assim, as crianças desde muito cedo compreendem que sexo é um
assunto que deve-se ter muito cuidado ao falar; o que talvez explique em muitas
circunstâncias a busca de informações através dos amigos, do cinema, da televisão, etc.
Esta busca é possível por que a informação encontra-se disponível em diversos
“veículos”, mas por muito tempo a educação sexual foi uma tarefa assumida pela
instituição escolar que adotou o discurso médico higienista na transmissão deste
conhecimento. Entretanto, hoje nos parece que a sexualidade é pedagogicamente
articulada como um tema transversal, não detendo-se apenas ao ato sexual e ao corpo
físico, mas também buscando esclarecer as situações de risco, refletindo sobre saúde e
qualidade de vida.
Ainda conforme Foucault, este discurso sobre sexo não ocorre fora das
instâncias de poder pois, “fazer de sua sexualidade um discurso permanente, aos
múltiplos mecanismos da economia, da pedagogia, da medicina e da justiça incitam,
extraem, organizam e institucionalizam o discurso do sexo” (1998, p.34 ). Podemos, em
linhas gerais, destacar dois desdobramentos fundamentais desta institucionalização dos
discursos sobre sexo. O primeiro refere-se exatamente ao controle permanente e mútuo
das vivências da sexualidade, neste ponto parece que a sexualidade passa a ser um
pouco público, ou seja, do domínio de um discurso que controla a sexualidade ditando o
normal e o anormal, o certo e o errado. Ao mesmo tempo em que amplia os
conhecimentos em torno da sexualidade, tornando permitido e legitimando um discurso
em torno desta, também originando o controle de si próprio como forma de enquadra-se
a normalidade da experiência sexual; conforme Jeffrey Weeks, “ao definir o que é
normal tornou-se plenamente possível tentar definir o que é anormal (uma plena
correspondência entre o corpo e a identidade de gênero socialmente aceitável” (1999, p.
50).
Entretanto, Jeffey Weeks argumenta que “os significados que damos à
sexualidade e ao corpo são socialmente organizados, sendo sustentados por uma
variedade de linguagens que buscam nos dizer o que o sexo é, o que ele deve ser e o que
ele pode ser” (1999, p.43). De certa forma, à medida que definimos o que é o sexo,
definimos como devem agir os sujeitos para serem reconhecidos politicamente como
possuidores de uma sexualidade digna e respeitada.
Mesmo assim, ao longo de todas estas modificações históricas do discurso da
sexualidade, em qualquer tempo ela pressupõem a relação entre sujeitos que serão
agentes ativos na produção e reprodução destes discursos, ao mesmo instante em que
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são afetados em seus cotidianos por esta complexa conjuntura envolvendo poder,
linguagem, corpos e prazeres.
DA SEXUALIDADE AO CIBERSEXO
Ao longo do desenvolvimento deste trabalho, refletiu-se sobre as formas
modernas de constituição de identidade e de sexualidade, não esquecendo, entretanto, da
importância da compreensão histórica neste processo. Claro está que todo o avanço
tecnológico vem transformando o cotidiano e como conseqüência alterando algo que
produz o sujeito ao mesmo instante em que é produzido por ele(a): a cultura. E parte
fundamental para ser analisada nos dias de hoje é o fato de que a cultura está sendo
cada dia mais globalizada e com um alcance onde as “identidades nacionais estão se
desintegrando(...); as identidades nacionais estão em declínio, mas as novas
identidades – híbridas – estão tomando seu lugar” (Hall, 1998, p.69).
Escolhemos como exemplo e como foco para análise os sites de sexo virtual. Ao
longo desta “viagem“ acessamos diferentes chats de conversas e estabelecemos relações
com as questões discutidas no decorrer deste trabalho, que serão estabelecidas por
tópicos, apenas para uma melhor apresentação didática.
LINGUAGEM E SEXUALIDADE
Aqui está um item central deste trabalho, pois entendemos as relações são
estabelecidas através da linguagem, sejam elas verbais ou corporais; a linguagem é a
nossa ferramenta para expressar o que pensamos e o que sentimos e, mesmo da maneira
mais eficaz, de alguma forma, ela ainda nos escapa, pois as palavras transitam
disponível e carregam uma diversidade tão grande de significados que apenas nos resta
como alternativa, usufruir desta imensa possibilidade de interpretação.
Além disto, conforme Tomaz Tadeu, “a linguagem, entendida aqui de forma
mais geral como sistema de significação, é, ela própria, uma estrutura instável” (Silva,
2000, p.78), e é justamente esta estrutura instável que desacomoda também as
identidades, uma vez que são disputadas e constituídas no discurso, ou seja, “a
identidade e a diferença são tão indeterminadas e instáveis quanto a linguagem da qual
dependem” (Silva, 2000, p. 80).
Além disto, a “cantada” ou convite que ocorre com maior incidência nestes chats
resume-se à seguinte frase: vc quer tc? ou ainda: Vamos tc? Realmente para quem está
navegando pela primeira vez, a saída mais fácil é perguntar: O que significa tc???
(02:11:45) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: de onde vc tc?
(02:12:00) meigoequente : entra na sala
(02:12:07) guloso fala para Joana: oi de onde vc tc?
(02:12:08) miguel : entra na sala
02:13:05) Joana fala para ZorrodoSexo: estou entrando pela primeira vez na sala, nao
sei o que e tc, pode me explicar???
(02:13:36) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: fala reservado q dai eu te
explico
(02:13:55) ZorrodoSexo fala reservadamente para Joana: tc e teclar
Como demonstra a conversa acima, mesmo sendo a Internet uma rede de
informações onde pode-se rastear os “passos” de qualquer pessoa, ainda assim, em
alguns bate papo observa-se a necessidade de uma certa privacidade, mesmo que seja
ilusória. Falar ou escrever, neste caso significa expor-se, por isso talvez não seja
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suficiente o pseudônimo do nickname. Ou ainda, conserva-se aquilo que culturalmente é
considerado o correto, ou seja, o sexo é algo que deve acontecer em local apropriado e
particular, e nestes sites os internautas não estão apenas conversando e sim fazendo sexo
virtual, portanto surge a necessidade de olhar para a tela e saber que está em uma sala
reservada, mantendo uma certa privacidade.
De qualquer forma o sexo textualista joga apenas com as palavras; é o sexo que
não utiliza roupas, jóias, perfumes, toques ou olhares com forma de sedução, a menos é
claro que tudo isto seja descrito, mas mesmo assim é a palavra que seduz. Segundo
Branwyr,
intercambios sexuales basados en el texto, compusexo:
erotismo para cibernautas. El más corriente, consiste en
descripciones explícitas de lo que cada participante
supuestamente está haciendo. Otro tipo, apreciado por los
amantes de las orgías, consiste en la invención colectiva de
fantasías sexuales (Branwyr, apud Mark Dery, 1998, p.227).
O texto abaixo exemplifica brevemente a descrição de uma situação com o
intuito de provocar, de chamar para uma conversa mais intima.
(00:03:30) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: acabei de tomar um bom
banho, tô só de cueca e vc????
(00:04:43) Bruna fala reservadamente para GatoBaiano: eu acabei de chegar de uma
festa, estou de vestido!!
00:08:15) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: hummmm.... malhadinha de
vestido! inspira minha libido.
(00:54:00) Lancaster fala reservadamente para Todos: Procuro uma parceira, para
uma troca de fantasias sensuais, no campo do implícito ou do explícito.......
Todas estas reflexões que rodeiam a linguagem também podem ser observadas
nos demais diálogos que apresentamos neste trabalho, mesmo que estes estejam
localizados nas reflexões referentes ao gênero e representações, pois entendemos que a
linguagem está vinculada a todas as ações, pensamentos, desejos e sentimentos que
possuímos; e esta mesma linguagem nos altera, nos constitui e nos interpela compondo
esta espiral dialética entre o sujeito e a cultura.
SEXUALIDADE, GÊNERO E REPRESENTAÇÃO
As questões vinculadas ao estudo sobre gênero, relacionadas com a construção
social da diferença entre os sexos envolvendo regras, limites, proibições e liberdade
para homens e mulheres são amplamente discutidas atualmente, principalmente depois
do Movimento Feminista, que conforme Stuart Hall, “politizou a subjetividade, a
identidade e o processo de identificação” (Hall, 1998, p.45). Além disto, estes
movimentos representam um marco na história da construção da própria identidade, ou
seja, da reflexão sobre identidade e diferença e portanto, de uma política de identidade.
Portanto, como podemos observar no exemplo abaixo, também ocorre nos chats
de sexo virtual a interação entre sujeitos que discursam e disputam (através da
linguagem), muitas vezes, uma companhia para o “bate-papo”.
(23:58:22) Bruna : tem alguem a fim de bater um papo???
(23:58:30) zorro fala reservadamente para Bruna: Olá, vc tc de onde?
(23:58:30) GatoBaiano fala reservadamente para Bruna: Oí! vamos bater um papo
gostoso?????
(23:58:30) GATINHO fala reservadamente para Bruna: SIM
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(23:58:34) Jonas : entra na sala
(23:58:48) viperdw fala reservadamente para Bruna: ita tc
(23:58:48) Jonas : oi
(23:58:54) tony fala reservadamente para Bruna: de onde tc
Neste exemplo, o nickname Bruna (que faz parte da pesquisa) pergunta se
alguém está a fim de bater um papo, logo podemos observar que surgem várias opções
para contato,
A grande maioria das frases acima podem ser classificadas como convites para
teclar com a “Márcia”, tais convites ocorreram mesmo antes da manifestação da
internauta. Mas o que será que acontece quando alguém entra com um nick masculino?
(23:52:59) cowgirl : entra na sala
(23:53:06) Jack : tem alguem a fim de bater um papo???
(23:54:17) tony fala reservadamente para Todos: Alguma menina quer tc ou ter
prazer comigo ao telm
(23:54:23) GatoBaiano : entra na sala
23:55:05) viperdw : entra na sala
(23:55:12) Jack : e ai galera, estou a fim de tc ... alguem mais ta a fim???
23:55:37) marcela : entra na sala
(23:55:37) cowgirl fala para GATINHO: claro
(23:55:45) viperdw fala para EScrava: oi quer tc
Com estes exemplos cabe indagar se estas comunidades virtuais, que são ditas
modernas por trocarem experiências eletrônicas, não estão reproduzindo os rituais e
discursos tradicionais e cristalizados culturalmente, onde ao homem cabe atacar e
conquistar.
Uma outra questão que consideramos importante, a respeito deste tópico está
relacionado aos nicknames, ou seja, aos codinomes que são escolhidos para acessar os
chats. Possivelmente o nickname, ainda que seja ilusório, defina em grande parte o
sucesso das conquistas virtuais ou então, no mínimo, garanta alguém para teclar como
foi demonstrado nos exemplos anteriores. Tudo indica que um nick feminino facilita o
contato, pois ao entrarmos na sala com um nick feminino obtivemos resposta imediata
de vários pretendentes, entretanto com um nick masculino torna-se um pouco mais
difícil estabelecer alguma comunicação.
Conforme Elisabete Garbin, “o nickname na Internet funciona como um
marcador crucial de identidade entre os/as jovens internautas” (Garbin, 2001, p.168),
assim, entrar com este ou aquele apelido pode significar estar sendo desta ou daquela
maneira neste momento da vida, este pseudônimo carrega uma simbologia identitária
que ao mesmo instante em que esconde o sujeito propriamente dito, demonstra outros
aspectos de sua subjetividade.
Neste jogo de poder a palavra possui uma força imensa, pois este é o
instrumento utilizado para a aproximação e um possível contato sexual. Para Rosa
Fischer “falar e ver constituem práticas sociais permanentemente presas, amarradas às
relações de poder que as supõem e que as atualizam”; assim, as “falas” dos internautas
podem ser consideradas como um destes elementos das práticas sociais amarradas às
relações de poder; falar reservadamente pode instauras a sensação de “imunidade” aos
julgamentos e padronizações sociais. Contudo, conhecer é uma forma de poder, pois o
conhecimento de um hacker divulgaria a origem e a identidade virtual do(a) internauta,
neste sentido, falar e ver são práticas sociais que se encaminham atreladas às relações de
poder.
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Para o mundo virtual não basta apenas pensarmos que existe um discurso a
respeito da sexualidade que está vinculado às relações de poder e ao convívio social e
político; neste mundo o discurso parece ser o próprio sexo; o discurso é o que acessa o
imaginário produzindo as sensações corporais, que podem ou não ser compatíveis e
simultânea entre os internautas.
De alguma forma a sociedade moderna parece estar atrelada aos mecanismos
subliminares de poder, um poder que permanece em constante vigilância, ou melhor, em
constante autocontrole até mesmo quando se trata de comunicações virtuais, de
identidades on line que se diluem com a mesma instantâniedade da sua constituição.
Mas este discurso é construído socialmente produzindo também as identidades
coletivas; e mais ainda, produzindo os significados e as características de ser homem ou
mulher nesta época e nesta cultura em que vivemos. Mesmo na Internet surgem os
“chavões” de masculinidade, onde os homens, para serem considerados como tal,
precisam manter uma postura mais agressiva, dominadora, desafiadora e sempre em
prontidão para o sexo.
As questões de gênero aparecem com bastante freqüência nestes sites, seja como
forma de discurso padrão reproduzido, ou então como discussão de identidade sexual. O
cibermundo possibilita, aparentemente, a inexistência dos preconceitos que ainda
circulam em torno da homossexualidade tanto masculina quanto feminina, porém,
quando alguém utiliza um nick que não define o sexo é imediatamente questionado:
(02:53:54) Sarah pergunta para Sozinho: vc é gay?
23:40:07) renato16 fala reservadamente para Todos: tenho 16 anos estou só vamos tc
gostoso
(23:40:56) renato16 fala reservadamente para Todos: sou homem
00:07:53) renato16 fala reservadamente para Todos: vc ´e bicha ?
(00:08:31) fred : sim
QRO
GATINHAS
15à18a
01:46:03
m ou h?
reservadamente fala com eiiii
Mais uma vez a identidade sexual é compreendida como uma informação
importante para entender comportamentos, posição política e definir o que é o normal e
o que é considerado patológico, pois é assim que muitos ainda tratam a
homossexualidade: como uma doença. Na Internet, espaço onde identidade é algo que
pode criado com múltiplas facetas, sendo difícil identificar o que realmente é
verdadeiro, ainda assim, surgem os mesmos preconceitos que muitas vezes ocorrem fora
deste mundo virtual, que em certa medida, parece confundir-se.
Mas reconhecemos que nada é mais virtual, abstrato e particular que o próprio
pensamento e, de certa forma, é ele que estimula, aceita, acredita, acomoda ou
desorganiza estes conceitos se formam ao longo da história da humanidade. De repente
estamos sendo atores na elaboração de uma virtualidade externa, que veio para proteger,
ou complementar a virtualidade “interna”, pois até mesmo a atração dos corpos passa
por uma atração virtual dos pensamentos. Conforme Mark Derry, “la atracción
respondía más a un intercambio de ideas que a una atracción física. En algunos casos
depués se dio una atracción física, pero lo fundamental seguía siendo la atracción
recíproca de nuestras mentes” (Dery, 1998, p.230).
Entretanto, a Internet, bem como outras tecnologias, vem surgindo e apontando
novos caminhos para construção de relações, conhecimentos, preconceitos,
sexualidades, etc. Assim como tem colaborado no sentido de ampliar as possibilidades
de comunicação, facilitando a interação entre diferentes pessoas e uma diversidade
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significativa de culturas, tornando cada vez mais viável o questionamento dos
paradigmas entendidos como natural, pois como nos lembra Foucault, “que lá onde há
poder há resistência” (1998, p. 91); e complementaríamos dizendo que lá onde há
poder há produção, modificando os caminhos da história, dos sujeitos e da cultura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Independente dos motivos que nos levam a visitar estes sites, a pertencer a uma
cibercomunidade ou ser adepto ao ciberorgasmo, de alguma forma este mundo virtual
abre novas interpretações e percepções das relações. Mesmo que a Internet possibilite
conhecer pessoas e com elas relacionar-se, não acreditamos que tais relações possam ser
comparadas às relações concretas, elas diferenciam-se principalmente pelo estilo de
vivência em espaços reais ou virtuais, ou seja, aquilo que vivenciamos no cibermundo
parecer escapar às dimensões do palpável, produzindo ou reforçando ainda mais a
subjetividade individualizada, ainda que seja construída também coletivamente.
Um outro item que consideramos importante abordar é a intensidade com que o
discurso é absorvido e divulgado na Internet. Esta grande mídia interativa está
assumindo uma posição significativa, tendo em vista que não estar conectado ao mundo
virtual representa estar fora de um determinado convívio social, significa não estar
atualizado. Contudo, não encontramos diferenças de grande relevância entre os
discursos de gênero, sexualidade e preconceitos que ocorrem na Internet e longe da tela
do computador. Ao mesmo instante em que a virtualidade amplia a possibilidade de
interação entre os sujeitos, ela também conduz ao individualismo; demonstrando a
dualidade da era informatizada, que amplia e reduz os relacionamentos em
verticalidade; moderniza e reproduz os discursos tradicionais.
Ainda assim, a Internet representa um novo mundo, que até este momento muito
pouco foi indagado; pois pesquisar sobre as cibercomunidades é um desafio que auxilia
na compreensão destas novas noções de sujeito, de identidade individual e coletiva, de
discurso, poder e subjetividade; para que no auge da crise entendamos que é na cultura
onde todas estas questões se relacionam.
OBRAS CONSULTADAS
DERY, Mark. Velocidad de Escape: La Cibercultura en el Final del Siglo: Siruela,
1998.
FISCHER, Rosa Maria Bueno. A Análise do Discurso: Para Além de Palavras e
Coisas. in: Educação e Realidade. v. 20 nº 2. Porto Alegre, 1995, p. 18-37.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: Vontade de Saber, vol. 1. Rio de
Janeiro: Graal, 1998.
GARBIN, Elisabete Maria. Tese de Doutorado <www.Identidades musicais
juvenis.com.br>. Porto Alegre: PPGEDU, 2001. 257 p.
GIDDENS, Anthony. Mundo em Descontrole: O que a Globalização Está Fazendo de
Nós. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Record, 2000.
GONÇALVES, Márcio Souza. Amor Virtual. Trabalho Apresentando na Compós,
Brasília, 2002.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Tradução Tomaz Tadeu
da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A,1998.
10
HALL, Sturt, Hathryn Woodward. Identidade e Diferença: A Perspectiva dos Estudos
Culturais. Tomaz tadeu da Silva (org). Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
WEEKS, Jefrey. O Corpo e a Sexualidade. In: O corpo Educado. Guacira Lopes
Louro, (org) Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p.37 a 82.
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discursos sobre gênero e sexualidade na internet