RELATO DE TRABALHO
TÍTULO
A INSERÇÃO DA PSICOLOGIA EM NÚCLEOS DE SAÚDE DA FAMÍLIA: UMA
EXPERIÊNCIA COM ESTAGIÁRIOS DE PSICOLOGIA
RESUMO
O estudo resulta de um Estágio de Psicologia realizado pelo Curso de Psicologia da
Universidade Federal de Mato Grosso no município de Rondonópolis-MT, em 2008,
num Núcleo de Saúde da Família. O estágio foi composto basicamente por duas
atividades: uma caracterizada pela oferta de pronto atendimento, avaliação, orientação,
atendimentos individuais adultos e adolescentes e encaminhamentos de crianças. A
outra atividade visou oferecer atenção psicológica aos agentes comunitários de saúde
(ACS) por meio de grupos de conversa, que ocorreram semanalmente com um grupo de
seis ACS. Em decorrência dessa prática, os dados obtidos com os ACS foram
sistematizados com o objetivo de analisar seus discursos de modo que fossem
especificados aspectos que relacionassem o sofrimento psíquico descrito por eles às
suas condições de trabalho. Neste âmbito, considerou-se que havia uma série de
situações que caracterizavam a precarização do trabalho do ACS em vários sentidos.
Duas conseqüências foram apontadas, uma relacionada com a perda das especificidades
da profissão, o que pareceu levar ao desvirtuamento das atribuições da profissão e a
outra, associada à insalubridade das condições e relações de trabalho. Ambas pareceram
concorrer para a produção de sofrimento psíquico nestes profissionais. No tocante aos
atendimentos psicológicos ofertados à população, surpreendeu a grande demanda e
complexidade dos casos que requeriam intervenções que transcendiam o que fora
proposto para o âmbito de uma unidade básica de saúde, situação explicada pela
ausência de uma rede de saúde mental na atenção básica do município. Frente à
complexidade das situações de sofrimento psíquico encontradas no Núcleo de Saúde da
Família estudado, considerou-se que há espaço e necessidade de intervenções de
natureza psicológica na Estratégia Programa Saúde da Família e é premente a instalação
dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família com serviços de saúde mental.
PALAVRAS-CHAVES: Psicologia; Núcleo da Saúde da Família; Agente Comunitário da
Saúde.
A INSERÇÃO DA PSICOLOGIA EM NÚCLEOS DE SAÚDE DA FAMÍLIA:
UMA EXPERIÊNCIA COM ESTAGIÁRIOS DE PSICOLOGIA
Autor (es): Afro Marcondes dos Santos Junior1; Cíntia de Sousa Carvalho2
Professor Orientador: Professor Dr. Alcindo José Rosa.
1
Graduado em Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso/Campus Universitário de
Rondonópolis ([email protected]).
2
Graduada em Psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso/Campus Universitário de
Rondonópolis e Mestranda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
([email protected]).
MEMORIAL
Este estudo se propõe a caracterizar e analisar a experiência do projeto de
estágio intitulado “Práticas Psicológicas em Saúde Pública”, que foi desenvolvido em
um Núcleo de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde de RondonópolisMT, durante o ano de 2008. A escolha deste lócus de intervenção se deu pela
preocupação que nos acompanhou durante o Curso de Psicologia, principalmente nas
disciplinas de Saúde Pública I e II, cujo um dos objetivos, foi desenvolver estratégias de
atuação psicológica que fizessem uma interface da Psicologia com a Saúde Coletiva.
Com esse intuito, tivemos contato com outras formas de intervenção por meio de
estágios em hospitais, casas abrigos, clínica-escola e pudemos compreender que se por
um lado as atuações psicológicas de natureza individual têm suas contribuições, por
outro, estão muito aquém da realidade encontradas nas instituições que operacionalizam
as políticas públicas.
Também tivemos com este trabalho, o objetivo de expandir as questões
encontradas no campo psi para outras áreas e profissionais que atuam na Estratégia
Programa Saúde da Família.
INTRODUÇÃO
A oferta de serviços de Psicologia em larga escala nos serviços públicos de
saúde é uma experiência recente e circunscrita apenas às regiões mais desenvolvidas do
Brasil. Nas demais regiões, a difusão desta oferta é precária e, em muitos locais, até
mesmo os serviços públicos estão ausentes. Isto ocorre, malgrado o fato de existir
conhecimentos e programas suficientemente elaborados e propostos no âmbito das
políticas públicas que o próprio poder público, por meio de seus gestores, não tem
conseguido desdobrar em propostas e intervenções territoriais.
Entretanto, mesmo nas regiões onde há significativos avanços, a Psicologia
ainda tem dificuldades para estabelecer-se como disciplina necessária e prática
qualificada para atenção das demandas que se apresentam na saúde pública. Neste
sentido, por muitos anos, o modelo de prática psicológica adotado pelos profissionais da
Psicologia em tais contextos foi caracterizado pela mera transposição do modelo
tradicional/privado para o público.
Assim, a possibilidade de construção de um cenário de atendimento psicológico
para a saúde pública, parece requerer da Psicologia que se aproxime dos princípios e
diretrizes do SUS. Esta aproximação tem instrumentalizado a Psicologia na
consolidação de práticas qualificadas que melhor se adaptem às demandas da saúde
coletiva e desloquem o eixo das intervenções do modelo curativo para o da promoção
em saúde e prevenção de agravos à saúde.
Este posicionamento é orientado pelo conceito de produção social da saúde, do
qual decorre, a busca da integralidade no planejamento das ações de saúde e da
interdisciplinaridade como metas norteadoras das relações entre os trabalhadores da
saúde pública. Parece decorrer desta postura, o que LIMA (2005) chama de ‘atuação
psicológica coletiva’, “processo contextual de identificação de demandas, de
planejamento
e
de
execução
de
necessidades
de
atendimento
psicológico
socioeconômica e culturalmente orientada” (p. 433), estratégia que nos parece, atende à
necessidade de conceitualização da inserção e desenvolvimento das práticas
psicológicas no âmbito da saúde pública.
Contudo, a construção de práticas psicológicas que levem em consideração as
dimensões coletivas na produção de subjetividade demanda esforços enormes e de
várias partes. “Um dos pontos nodais que sustenta as reflexões sobre como tem ocorrido
a inserção e a atuação do psicólogo nos serviços públicos de saúde diz respeito ao seu
despreparo para esse tipo de trabalho, decorrente da formação profissional oferecida e
reforçada nos cursos de Psicologia” (Lima, 2005. p. 432).
Como tentativa de resolver este impasse, as diretrizes curriculares para os cursos
de Psicologia (Resolução CNE/CES nº 8, de 7 de maio de 2004) parecem contribuir
significativamente para a mudança dos paradigmas da formação. Nesse sentido, há a
indicação de que os cursos devem levar em consideração os contextos públicos de
atuação do psicólogo, que, aliás, é o setor que mais absorve os profissionais psicólogos.
De modo semelhante, a Associação Brasileira de Ensino em Psicologia (ABEP),
ao longo do ano de 2006, realizou diversas oficinas com a finalidade de problematizar
as questões relativas à formação dos psicólogos e que culminaram na Oficina Nacional
da ABEP e na produção do relatório intitulado “A presença qualificada no SUS como
um desafio para a Psicologia: Propostas da Oficina Nacional da ABEP”. Este
documento aponta um conjunto de propostas de várias naturezas que podem contribuir
para o aperfeiçoamento da formação do psicólogo no sentido de qualificá-lo para atuar
no âmbito do SUS.
Encampando aspectos das diretrizes curriculares, as indicações da ABEP e um
conjunto de reflexões do corpo docente, o Curso de Psicologia do Campus Universitário
de Rondonópolis-UFMT contempla em seu Plano Político Pedagógico (Resolução
CONSEPE nº. 121, de 12 de dezembro de 2006) uma interface com a saúde pública. No
núcleo comum, o curso oferece a disciplina Psicologia e Saúde Pública I (120 h) e na
Ênfase Curricular Processos de Subjetivação, Saúde e Cultura, a disciplina Psicologia e
Saúde Pública II (60 h) e deixa aberta, por meio das Disciplinas de Estágio Específico I
(180 h) e II (360 h), a possibilidade de oferta de projetos de estágios em diversos
serviços de saúde pública.
Neste cenário, um dos projetos de estágio desenvolvido durante o ano de 2008
teve como um dos objetivos, a inserção de serviços psicológicos em três Núcleos de
Saúde da Família (NSF) do município de Rondonópolis-MT por meio da realização de
atividades profissionalizantes.
APRESENTAÇÃO DO LOCAL
As atividades de estágio ora relatadas foram desenvolvidas no Núcleo de Saúde
da Família Jardim Atlântico, bairro da periferia do município de Rondonópolis/MT, mas
que conta com várias benfeitorias públicas, como asfalto, luz elétrica e água encanada.
O esgoto é coletado por meio de fossas sépticas.
A estrutura física da unidade de saúde e de recursos humanos atende às
exigências previstas pela legislação atinente ao Programa Estratégia Saúde da Família e
contava com cerca de 1200 famílias cadastradas.
Contudo, apesar do local apresentar boas condições de funcionamento, uma das
primeiras questões que emergiram por parte da coordenação do serviço referiu-se ao
como inserir os serviços de Psicologia na instituição, pois não fora planejada para
receber tal tipo de serviço. Inicialmente, as dificuldades foram de natureza
arquitetônica, mas posteriormente muitas outras foram reveladas.
Houve algumas ressalvas burocráticas para a nossa entrada na unidade, como a
necessidade de apresentação de documento comprobatório da condição de estagiário e a
de utilização de jaleco. Outra preocupação exposta pela coordenação da instituição
relacionou-se à forma como o serviço de Psicologia seria divulgado. Não deveria ser por
meio de cartazes, pois a gestora acreditava que a demanda seria maior do que a
imaginada, fato que se confirmou posteriormente.
Assim, iniciamos os trabalhos, utilizando-se da sala multiuso, local utilizado
pelos ACS para convívio e realização de atividades de rotina. Este espaço foi ofertado
por que não havia outro e de certa forma, sua utilização, não interferiria na oferta dos
demais serviços. Esta sala, embora utilizada pelos ACS, permanecia grande parte do
tempo subutilizada, tendo em vista que eles desenvolviam seus trabalhos fora da
Unidade. Essa situação nos levou a pensar o que representava o serviço de psicologia na
sala multiuso.
DESCRIÇÃO DO TRABALHO
O estágio foi composto basicamente por duas atividades: uma referente à
realização de pronto atendimento, avaliação psicológica e psicoterapia individual de
adultos e adolescentes, e outra, pautada pela oferta de atenção psicológica aos agentes
comunitários de saúde por meio de grupos de conversa, que ocorreram semanalmente
com seis ACS.
No tocante à psicoterapia individual e pronto-atendimentos, os usuários foram
encaminhados, em parte, pela médica e outra parte pelos ACS, o que pareceu ser uma
experiência
interessante
e
que
subverte
a
lógica
de
encaminhamentos
médico/especialistas. Os ACS, no contato diário com os usuários, divulgavam o serviço
de Psicologia e até mesmo, hierarquizavam os usuários com maior necessidade de
atenção, além de apontarem suas observações domiciliares acerca dos usuários no ato
do encaminhamento.
Nesse sentido, houve um grande entrosamento entre a Psicologia e os ACS. Eles
também colaboraram para a operacionalização do serviço, pois tiravam muitas dúvidas
dos usuários sobre a forma de atendimento da Psicologia (muito diferente dos outros
serviços ofertados pela unidade). Isto pareceu colaborar para a construção da identidade
da Psicologia naquela unidade de saúde, elucidando mitos e preconceitos que rondam a
prática do psicólogo. Esse movimento, muitas vezes de parceria psicologia/ACS,
sinalizou para a necessidade de capacitação desses profissionais acerca das temáticas
psicológicas, o que certamente, aperfeiçoaria suas orientações e encaminhamentos.
Foi neste sentido, que propusemos o “grupo de conversa” com os ACS. O
trabalho foi realizado com seis ACS, que participaram voluntariamente. Os encontros
do grupo ocorreram semanalmente na Sala Multiuso da unidade durante três meses, com
duração de 90 minutos para cada encontro. O trabalho foi desenvolvido por uma
estagiária e contava com outra estagiária, que permanecia na condição de observadora,
estratégia que pareceu contribuir significativamente para a análise do material
produzido pelo grupo.
Inicialmente, foi proposto ao grupo, que por meio do “grupo de conversa”, os
participantes deveriam levantar questões atinentes ao cotidiano do trabalho do ACS e
deveriam problematizá-las. A estagiária de psicologia geria as conversas de tal forma
que a palavra circulasse entre todos os participantes e, em algumas situações, fazia
apontamentos e questionamentos sobre alguma posição do grupo. Em alguns momentos,
optou-se pela realização de dinâmicas, como forma de fomentar discussões posteriores.
Além do trabalho no “grupo de conversa”, foram realizadas observações da
rotina de trabalho dos ACS e entrevistas semi-estruturadas com outros membros da
equipe e com usuários da unidade de saúde que eram atendidos pelos ACS. Estas
atividades tiveram o objetivo de incrementar a coleta de dados acerca do trabalho do
ACS. Como esta parte do trabalho teve também um caráter exploratório, os
participantes foram esclarecidos e consentiram sua participação por meio de Termos de
Consentimento Livre e Esclarecido.
A intervenção realizada com os ACS teve o objetivo de investigar aspectos que
indicassem situações de desvalorização e valorização do trabalho de agentes
comunitários de saúde. Os dados foram obtidos a partir do registro cursivo dos
discursos e observações captadas durante as atividades. Para tanto, foi realizada uma
pesquisa sobre questões que envolviam a profissão do ACS, levantamento que também
serviu para instrumentalizar a intervenção e posterior análise.
De acordo com o Ministério da Saúde (1998), podemos elencar duas atribuições
centrais do agente comunitário de saúde: a primeira refere-se à oferta de orientações à
população para que tenham acesso qualificado aos serviços de saúde. A segunda pautase pela coleta de informações que caracterizam a comunidade atendida, sua forma de
organização, suas queixas e necessidades, aspectos estes, que são importantes para a
construção de uma atenção territorializada.
Entretanto, apesar das atribuições destes profissionais estarem bem esclarecidas,
na prática cotidiana, isso se subverte. Aparentemente, isso se explica em parte por causa
da precária formação destes profissionais, – queixa apresentada pelos ACS durante os
grupos – que são focadas apenas em conteúdos históricos e biológicos e que são
estudados por meio de estratégias pouco esclarecedoras e que excluem a dimensão
afetiva e relacional do trabalho.
Pareceu-nos que essa inconsistência da formação provoca no agente comunitário
de saúde certa insegurança para exercer suas atribuições, que em muitos casos, são
substituídas por atividades mecânicas e burocráticas, como entrega do aviso de
consultas e exames. Parece-nos que essa indefinição do trabalho afeta também os outros
membros da equipe, que por vezes legitimam e valorizam esta inversão das atribuições.
Percebemos que estas contradições afetam a qualidade da assistência oferecida pelo
ACS e a imagem construída pelos demais membros da equipe acerca da profissão.
Além disso, parece que, por coexistir entre tantas outras profissões alicerçadas
em modelos bio-médicos, o agente comunitário de saúde não tem conseguido
diferenciar-se e delimitar suas atribuições num outro paradigma de saúde, calcado na
promoção da saúde e prevenção de agravos.
Temos, portanto, que apesar das atribuições dos agentes comunitários
pressuporem a oferta de atenção diferenciada do modelo médico, acabam apenas
trabalhando para a operacionalização do funcionamento do sistema, muitas vezes,
centrado no médico. Esta condição parece colocá-los em um processo de desvalorização
dentro da equipe, pois seu trabalho não é considerado como imprescindível ao
andamento dos serviços.
APRECIAÇÃO E DISCUSSÃO DAS ATIVIDADES
O que em seguida apresentamos constitui um recorte deste conjunto de
atividades e tem por objetivo descrever e analisar o momento inicial de entrada dos
estagiários de Psicologia nos NSF. Os dados utilizados no estudo foram obtidos a partir
do registro das observações da dinâmica institucional, dos discursos obtidos com
usuários e funcionários (agentes comunitários de saúde, agentes administrativos,
técnicos de enfermagem, médicos e coordenadores de unidades) e das discussões
realizadas em supervisão. A análise dos dados foi feita por meio da interpretação de
algumas situações que ocorreram durante a experiência de estágio, tomadas, portanto,
como situações analisadoras.
A primeira situação analisadora refere-se ao momento de apresentação dos
estagiários ao NSF. Foi caracterizada por uma exigência sugestiva para a compreensão
das contradições presentes na ESF: os estagiários deveriam usar jaleco, assim como os
demais profissionais. Isso nos levou a especular que o contexto de trabalho do NSF
ainda apresenta resquícios do modelo médico-hospitalar. Não ignoramos com isso, que
em alguns procedimentos realizados no NSF, os profissionais devem estar devidamente
paramentados.
A segunda situação ocorreu ainda neste momento inicial. Nesta, a coordenadora
empreendeu uma verdadeira busca por uma sala para a realização das atividades ‘dos
psicólogos’. Entretanto, todas as salas estavam designadas para algum tipo de serviço
(farmácia, almoxarifado, vacina, despejo, preventivo, copa, etc.) ou ocupadas por algum
profissional (médico, dentista, enfermeira). Por fim, foi designada a sala multiuso, que
também era ocupada pelos agentes comunitários.
A partir desta experiência, surgiram as seguintes reflexões: Por que os
estagiários precisavam de uma sala? Será que os NSF estão preparados para receber
outros profissionais?
Começamos a compreender, então, que embora nossa disposição fosse
transcender o modelo tradicional da Psicologia, lá estávamos querendo nossa sala, nossa
identidade, talvez para providenciar o setting psicoterápico! Por outro lado, a busca de
salas para ‘os psicólogos’ pareceu indicar a dificuldade, não apenas de falta de espaço
físico, mas também, representacional acerca das possibilidades de intervenção
psicológica. Ou seja, embora o espaço físico não estivesse garantido, o espaço
representacional da prática psicológica estava pré-determinado e supunha-se que
deveria ocorrer dentro de uma sala, embora não fossem nossas intenções.
A terceira situação é composta por três atos: em certa ocasião, depois de um
estagiário não abrir a porta para que alguém apanhasse alguma coisa na sala multiuso
durante suas atividades, lhe foi perguntado quando tiraria férias, numa clara referência
ao quando deixaria de incomodar. Quatro meses depois, lhe foi perguntado até quando
prosseguiriam os atendimentos e se no ‘ano que vem’, outra equipe continuaria os
trabalhos, demonstrando desta vez, valorização do seu trabalho.
Finalmente, dias
depois, surgiu na sala um cartaz esclarecendo sobre os horários de uso da sala multiuso
pelos ‘psicólogos’.
Aparentemente, esta situação é reveladora das dificuldades de construção de
uma prática num campo ainda incerto, tanto para o psicólogo, como para aqueles que
compartilham o mesmo ambiente de trabalho. Demonstra ainda, que o desenvolvimento
do trabalho foi permitindo uma maior compreensão de sua dinâmica pela equipe,
passando a ser valorizado e conquistando o seu espaço.
Por fim, uma última situação analisadora: um usuário do serviço de psicologia
relata durante o atendimento, que num comício político-eleitoral, num ímpeto, tomou o
microfone e argumentou ao candidato a prefeito da cidade que a Psicologia precisaria
ter seu espaço e ser respeitada no NSF, pois ele percebia que embora estivesse sendo
beneficiado pelo trabalho da Psicologia, seu ‘psicólogo’ trabalhava de maneira
improvisada.
Temos nesta situação, uma demonstração de tal qual pode ser o objetivo do
trabalho do psicólogo nos NSF: o empoderamento dos sujeitos e sua retirada do campo
meramente individual para o coletivo.
A busca de saídas coletivas também foi um dos objetivos dos ‘grupos de
conversa’ realizados com os ACS e é esta experiência que passamos a analisar
doravante. Destacamos que os nomes utilizados são fictícios.
Os ACS não apresentaram queixas referentes às relações interpessoais.
Entretanto, as relações entre eles e os demais funcionários do NSF mostrou-se bastante
conflituosa e com várias situações que dificultam o andamento dos serviços. Valéria
desabafou: Você viu como eles não respeitam a gente? Toda hora bate aqui querendo
alguma coisa. Ela sabe o número de prontuário, mas têm que nos incomodar.
Pareceu-nos, que há certo menosprezo por parte do restante da equipe em
relação aos ACS, embora ocorra de maneira velada. Relacionamos tal situação à
aparente incompreensão acerca das atribuições dos ACS pela equipe, que parece
considerá-los funcionários sem voz ativa no processo decisório da Unidade. A este
respeito, Nogueira et. al (2000) pondera sobre a necessidade de sedimentação de uma
identidade para esta profissão, ora concebida como da equipe de enfermagem, ora como
trabalhador desvinculado da saúde. A falta de formação, além de favorecer uma
inexatidão quanto às reais atribuições destes profissionais na ótica da equipe, alimenta o
sentimento de desvalorização do ACS com sua própria profissão, que muitos
consideram como profissão secundária ou desnecessária.
A este respeito, Josemara disse: “na verdade, eu não escolhi ser ACS, surgiu
uma oportunidade e eu precisava muito do emprego. Eu não quero ser um ACS, isto é
passageiro. Não gostaria de ser um ACS nem se o salário fosse muito alto. Vera, por
sua vez, disse: Não sou apaixonada por ser ACS, mas gosto de trabalhar com pessoas.
Se você entra no PSF como ACS, vai morrer ACS. Se eu não precisasse trabalhar, não
seria uma ACS”.
Pareceu-nos, então, que os ACS não se identificam com o trabalho que realizam,
nem mesmo o relacionam a uma profissão. Vários disseram que a escolha da profissão
de agente comunitário de saúde se deu muito mais pela maleabilidade de horário que ela
proporciona – na maioria dos casos, os agentes estavam dedicando-se a outras
atividades que poderiam lhes proporcionar outro emprego posteriormente – do que por
uma compreensão do papel do ACS e/ou identificação com o seu trabalho.
Dessa forma, os ACS sentem-se inferiores, impotentes, alheios ao processo de
que fazem parte. Andréia afirmou: Existe uma não integração dos ACS no posto, parece
que não somos funcionários do PSF como os outros profissionais da equipe. Não temos
voz na resolução de problemas, nossa opinião não é levada em conta. Juliana
acrescentou: Certa vez, a enfermeira propôs uma premiação como forma de incentivo
para trazer pessoas ao posto, não concordamos, mas não fomos nem consultadas sobre
isso. Todo mundo fala que o ACS é a principal função no PSF, mas o ACS não é
valorizado, ele é cobrado e muito, as pessoas não vêem o ACS como parte da equipe do
PSF.
Apesar de apresentarem estas queixas, os agentes também não se posicionam
ativamente frente à situação de modo que possam modificá-la. O sentimento de
impotência em que estão imersos, os fazem acreditar que não podem ser agentes de
mudança. Essa situação é também reforçada pelo modo de administração dos NSF. De
acordo com os ACS, são raras as reuniões entre eles e o restante da equipe da Unidade
e, geralmente, as reuniões semanais com o grupo de ACS são utilizadas apenas para
imposição de decisões tomadas verticalmente ou para cobranças de resultados. Ana
disse: Uma vez tentamos expressar nossa opinião, fizemos uma pauta para uma reunião
sobre o que não estava bom no PSF e o que precisava ser melhorado, entregamos esta
pauta para a enfermeira, mas esta reunião nunca aconteceu.
Dentre as questões levantadas nos ‘grupos de conversa’, pareceu-nos que as
mais recorrentes giravam em torno do desprestígio da profissão frente aos demais
membros da equipe, apesar deste não ser um aspecto presente nos discursos destes
profissionais. Observamos que esta desvalorização ocorre na forma de funcionamento
da Unidade de Saúde e de como são geridas as relações neste espaço.
Os discursos apresentados pelo restante da equipe realçaram uma visão positiva
referente ao trabalho dos agentes comunitários. Anelise, auxiliar de enfermagem, disse:
Sem o ACS o PSF não funcionaria, porque a maioria dos usuários vem ao PSF por
causa deles, principalmente, as vacinas. As mães trazem os filhos porque o ACS avisa e
fala pra trazer. Entretanto, esse discurso de valorização pareceu não se sustentar, pois
havia várias situações em que o trabalho do ACS era dificultado pela equipe.
De modo inverso, outra questão proeminente foi a valorização do trabalho do
ACS pela comunidade atendida. Parece-nos, que esta contradição caracteriza um
aspecto importante para pensarmos a prática do agente comunitário de saúde. D. Janice,
uma usuária, gabou-se: Eu acho importante a visita do ACS, eu me sinto bem, a
Secretaria está valorizando mais as pessoas, as famílias. Outra usuária, Daniela,
continuou: Eu me sinto bem com a visita, agente conversa, ela dá força pra gente,
orienta. O PSF sem o agente seria muito ruim. Num momento de problema de saúde, a
visita do ACS deixa a gente mais confiante, o ACS dá força pra gente fazer o regime
que a gente precisa fazer, ele acaba sendo um amigo. Por fim, Joana acrescentou: Eu
me sinto mais a vontade de falar com a ACS do que com a minha mãe. A ACS acaba se
tornando uma amiga, uma pessoa com quem compartilho minha vida.
Portanto, de modo inverso ao discutido, há a valorização deste profissional pelos
usuários e justamente pelos aspectos que o restante da equipe observa com reticências.
Pareceu-nos que a desvalorização do ACS pela sua própria equipe está
relacionada a questões de âmbito maior aos das relações humanas e de poder. A
representação que se tem do profissional de saúde ainda está associada ao modelo
médico-assistencial e isso não se encaixa no profissional ACS, que tem em suas
atribuições tarefas muito diferentes dos tradicionais procedimentos e rotinas médicas.
Mas por outro lado, o próprio ACS também vivencia esta contradição e desvaloriza sua
profissão. Talvez por isso, muitos se dediquem a estudar o curso técnico de enfermagem
ou mesmo a graduação em enfermagem.
Por outro lado, há a valorização do ACS pela população, sendo este um
indicativo importante para guiar o trabalho destes profissionais. O Programa de Saúde
da Família (PSF) foi criado pelo Ministério da Saúde em 1994, e corresponde a uma
estratégia de reordenação do setor saúde a partir da atenção primária. Assim, como o
próprio nome já diz, o foco deste programa é a família. Os usuários demonstraram
preocupação com a saúde dos ACS. Além disso, o discurso de uma família evidencia o
quanto uma visita do ACS simboliza uma valorização destas famílias e pessoas. Uma
população acostumada a estar à margem e esquecida pelas políticas públicas sente-se
empoderada ao ser ouvida em sua própria casa. Uma das usuárias disse-nos: Eu acho
importante a visita do ACS, eu me sinto bem, a Secretaria está valorizando mais as
pessoas, as famílias. Outra usuária concorda: Eu me sinto bem com a visita, agente
conversa, ela dá força pra gente, orienta. O PSF sem o agente seria muito ruim. Num
momento de problema de saúde, a visita do ACS deixa agente mais confiante, o ACS dá
força pra gente fazer o regime que agente precisa fazer, ele acaba sendo um amigo. E:
Eu me sinto mais a vontade de falar com a ACS do que com a minha mãe. A ACS acaba
se tornando uma amiga, uma pessoa com quem compartilho minha vida.
Nestes discursos é evidente o papel de apoio emocional e psicológico assumidos
pelos ACS em suas visitas. De modo inverso, os ACS ao serem informados da posição
da população sobre seu trabalho, de prestígio e valorização, mostraram-se
profundamente tocados. Essa é uma forma de otimização do trabalho destes
profissionais, pois acreditamos que a valorização do trabalho pela população é um
preditor positivo para que estes profissionais desenvolvam suas atribuições de forma
mais motivada e comprometida. Este é um aspecto encontrado também na pesquisa
realizada por Levy (2004). Sendo assim, observa-se, de acordo com Nunes (2002), que
existe uma demanda da população que extrapola a busca da saúde física e que quando
encontram a atenção procurada, sentem-se também altamente valorizados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta experiência demonstrou que a inserção da Psicologia nos NSF ainda resvala
nas contradições do modelo de atenção, que ainda não rompeu com o assistencialismo.
Isso representa um risco para a prática da Psicologia nos NSF, caso esta não esteja
qualificada no sentido da produção social da saúde e de acordo com os princípios do
SUS. Julgamos que este risco também corremos com a implantação dos Núcleos de
Apoio à Saúde da Família (NASF), afinal há que ter cuidados para que não se tornem
ambulatórios de saúde mental.
Por outro lado, considerando as atividades realizadas com os ACS, parece
razoável considerar que o trabalho de agente comunitário de saúde possui uma
dimensão insalubre, o que parece constituir um paradoxo, afinal, o ACS é um cuidador
que também requer cuidados. Assim, convém considerar que há ligações entre as
condições e relações de trabalho e o sofrimento psíquico descrito pelos ACS, dimensão
que pode ser atenuada pela efetiva profissionalização do trabalho.
Não há dúvidas que tecnicamente considerado, o trabalho do ACS tem
importância capital e está em pé de igualdade com demais profissionais, mas na prática,
seu trabalho não é assim considerado, ao contrário, muitas vezes, é tomado como de
segunda categoria. Parece-nos que esta é uma questão para a qual a Psicologia pode
oferecer suas contribuições em diversas dimensões, desde a gestão de recursos
humanos, de maneira que promova a interdisciplinaridade, até a qualificação de serviços
de educação para a saúde e prevenção de agravos.
Embora este trabalho tenha inicialmente buscado investigar e propor modos de
intervenção psicológica em Núcleos de Saúde da Família, outros vieses foram
revelados, como as questões político-administrativas, que muitas vezes, estrangulam os
serviços. Neste sentido, o estágio serviu para mostrar que não apenas oferecíamos
serviços psicológicos, mas ocupávamos também uma posição de proponentes de
estratégias para melhor concretizar os ideais do SUS. Assim, parece não haver dúvidas
de que a efetivação do SUS passa por melhorias da formação de seus futuros
profissionais.
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RESUMO
O estudo resulta de um Relatório de Estágio de Psicologia realizado pelo Curso de Psicologia
da Universidade Federal de Mato Grosso no município de Rondonópolis-MT, em 2008, num
Núcleo de Saúde da Família. O estágio foi composto por duas vertentes: realização de
atendimento individual e trabalho grupal. O primeiro foi composto por psicoterapia individual
com adultos, adolescentes e crianças usuários da Unidade. O segundo, de caráter exploratório,
visou analisar os discursos dos ACS de modo que fossem especificados aspectos que
relacionem o sofrimento psíquico descrito por eles às suas condições de trabalho. Foi
realizado a partir do registro cursivo dos discursos captados durante as atividades. Percebeuse que o modelo clínico de atendimento individual por si só é insuficiente para suprir a
demanda nas instituições de saúde pública. Portanto, lançou-se mão de um trabalho coletivo e
de maior alcance, no trabalho realizado com os ACS. Considerou-se que há uma série de
situações que caracterizam a precarização do trabalho do ACS em vários âmbitos. Duas
conseqüências são apontadas, uma relacionada com a perda das especificidades da profissão,
o que leva ao desvirtuamento das atribuições da profissão e a outra, associada à insalubridade
das condições e relações de trabalho. Ambas concorrem para a produção de sofrimento
psíquico nestes profissionais. Sinalizou-se a necessidade do profissional da Psicologia neste
espaço como catalisador de mudanças privadas e públicas/políticas necessárias.
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uma experiência com estagiários de ps