ANÁLISE DAS VIOLÊNCIAS INTERPESSOAIS VIVENCIADAS POR NÃO-HETEROSSEXUAIS
Autoria: Henrique Luiz Caproni Neto, Renata de Almeida Bicalho
Resumo
Este artigo visa analisar as violências interpessoais vivenciadas por sujeitos nãoheterossexuais no meio social, com destaque para o ambiente de trabalho. Para isso,
discorreu-se teoricamente acerca da violência interpessoal. E realizou-se uma pesquisa
qualitativa com dezessete indivíduos não-heterossexuais. O levantamento de dados foi feito
por meio de história oral e a análise de dados, por análise de conteúdo qualitativa. A maioria
das violências interpessoais relatadas são discursivas e envolvem piadas, “brincadeiras”,
indiretas, comentários maldosos, apelidos depreciativos, xingamentos e fofocas. Por fim,
sugere-se novas pesquisas acadêmicas e debates sobre diversidade nas organizações.
1. Introdução
O presente estudo visa analisar as violências interpessoais vivenciadas por sujeitos
não-heterossexuais no meio social, com destaque para o ambiente de trabalho.
Considerando as minorias nas organizações, os não-heterossexuais podem ser vistos
como uma das dimensões menos enfatizada e mais difícil da gestão da diversidade nas
organizações contemporâneas. Os homossexuais tendem a ser vítimas de diversas situações de
constrangimentos e violências no ambiente de trabalho ao passo que a travesti ou as
transexuais, muitas vezes, nem ao menos conseguem uma posição no mercado de trabalho
formal. Assim, Siqueira e Zauli-Fellows (2006) ressaltam que os homossexuais como minoria
têm muito mais dificuldades para obter seus direitos, inclusive no meio organizacional, do que
outras minorias, em virtude da homofobia e do heterossexismo e que, além disso, a
homossexualidade é tratada como piada ou com desprezo nas organizações.
Destarte, discutiremos sobre as pesquisas relacionadas com a diversidade sexual nas
organizações, sobre o assédio moral no trabalho, principalmente com base nas ideias de
Hyrigoyen (2003, 2005), e adotaremos os pressupostos da violência interpessoal conforme
Bicalho (2008). Em seguida, trataremos da metodologia adotada nesta pesquisa e da análise
dos dados empíricos coletados. Por fim, desenvolveremos algumas considerações.
2. Diversidade Sexual nas Organizações
Nesta seção, o foco será as pesquisas envolvendo os não-heterossexuais nas
organizações posto a relevância de tal tema ao envolver aspectos, como ética, justiça
organizacional, equidade, políticas de diversidade, satisfação e bem-estar no trabalho.
Os comportamentos sociais e as estratégias de sobrevivência dos homossexuais, no
ambiente de trabalho, foram pesquisados por Irigaray (2007) que detectou três categorias de
indivíduos homo ou bissexuais: os totalmente assumidos, os parcialmente assumidos e os não
assumidos. Assim, as estratégias adotadas por estes iam desde aquelas em que havia uma
posição de enfrentamento, pacificadora, de alta competência, relacionada com o estereótipo
do “macho latino”, postura de “Don Juan” com as mulheres até uma postura de invisibilidade.
O “sair do armário” nas organizações foi pesquisado por Ferreira e Siqueira (2007),
destacando que ambientes mais favoráveis à diversidade impulsionam tal processo, ao passo
que, ambientes mais rígidos, inflexíveis e não abertos à diversidade, contribuem para que o
homossexual permaneça no “armário”. A decisão de permanecer no “armário” é decorrente de
que os homossexuais, tendo revelado sua orientação sexual, serão foco de piadas, chacotas e
brincadeiras, que impactarão negativamente em suas relações interpessoais no ambiente de
trabalho. Além disso, impacta nessa decisão, a crença de que tendo revelado sua orientação,
não terão oportunidades de crescimento e ascensão profissional.
Outra abordagem sobre o tema encontra-se no estudo sobre a relação entre o humor e
as manifestações de discriminação nas organizações, desenvolvido por Irigaray, Saraiva e
1
Carrieri (2010) por meio de entrevistas com 14 gays e 24 heterossexuais residentes de São
Paulo ou do Rio de Janeiro. De modo geral, os pesquisadores observaram que os
heterossexuais utilizam o humor para desqualificar profissionalmente homossexuais
femininos e masculinos, o que é também uma limitação para o crescimento dos últimos no
ambiente organizacional. Além disso, o humor (com expressões de ironia, comicidade e
piadas) naturaliza a homofobia, posto que rir dos homossexuais é respaldado pela sociedade, o
que acarreta em desrespeito perante os mesmos.
Sobre a discriminação exercida pelos próprios homossexuais, Souza e Pereira (2010)
realizaram pesquisa com oito homossexuais masculinos, a qual demonstrou que os
homossexuais “definem” quais seriam os comportamentos aceitáveis para os homossexuais,
de acordo com os tipificados como masculinos (aceitos) e os tipificados como femininos
(rejeitados), o que demonstra a discriminação perante os homossexuais efeminados. Assim,
salientam que “existe uma naturalização do modelo heterossexual pelos homossexuais e uma
tentativa de estabelecer regras de funcionamento similares às do heterossexualismo” (SOUZA
& PEREIRA, 2010, p. 10).
Tratando, especificamente, da homofobia, Siqueira et all (2009), por meio de pesquisa
com nove homossexuais masculinos no Distrito Federal, verificaram, além da omissão dos
superiores hierárquicos, diferentes formas de violência moral para com os homossexuais, por
meio de ações diretas ou veladas de agressão, como perseguição por chefes e colegas,
punições, sabotagem no trabalho, barreiras para progressão na carreira, divulgação da
orientação sexual, piadas homofóbicas etc. Diante disso, os autores enfatizam a importância
das organizações assumirem uma postura que vise à prevenção e combate à discriminação,
bem como a qualquer forma de violência moral no trabalho.
No mesmo sentido, diferentes perfis de homossexuais femininas foram entrevistadas,
do Rio de Janeiro e de São Paulo, por Irigaray e Freitas (2009). Assim como os homossexuais
masculinos, elas são vítimas de discriminação nas organizações tanto de modo explícito como
implícito. Contudo, o processo de discriminação pode ser atenuado quando elas possuem
maior poder aquisitivo, pele branca ou conformidade com os padrões estéticos. É importante
ressaltar alguns fatores que tornam o ambiente de trabalho mais confortável, na visão das
entrevistadas: a organização implementar de fato políticas visando o respeito à diversidade;
trabalhar com colegas abertos à diversidade e que não realizam comentários jocosos ou
piadas; e, trabalhar com outras pessoas, especialmente chefes, de mesma orientação sexual.
As travestis e as transexuais também enfrentam grandes dificuldades no mercado de
trabalho, conforme pesquisa de Irigaray (2010) com 10 travestis e 4 transexuais na cidade do
Rio de Janeiro, a maioria delas não consegue uma posição no mercado de trabalho formal em
decorrência da discriminação e estigmatização das quais são vítimas. Por não terem apoio da
sociedade e da família, para sobreviver, boa parte delas já se prostituiu ou ainda o faz.
Geralmente, aquelas que não estão no mercado da prostituição, trabalham em
estabelecimentos GLS ou em salões de beleza. No mercado de trabalho formal, travestis e
transexuais ocupam posições operacionais, em setores específicos como entretenimento, lazer
e beleza, uma vez que possuem pouca educação formal. Cabe ressaltar que as poucas que
conseguem trabalhar em organizações, inclusive naquelas que adotam políticas de
diversidade, são vítimas de agressão, intolerância e forçadas a utilizar a identidade social
masculina.
Nota-se que as pesquisas relacionadas com a diversidade sexual no trabalho tem dado
maior atenção ao gay (e.g. IRIGARAY, 2007; FERREIRA & SIQUEIRA, 2007; SIQUEIRA
et al., 2009; DINIZ & GANDRA, 2009; SARAIVA & IRIGARAY, 2009; LOPES et al.,
2009; IRIGARAY et al., 2010; SOUZA & PEREIRA, 2010) sendo relevantes que novas
pesquisas se dediquem às lésbicas, travestis e transexuais. As pesquisas citadas demonstram a
discriminação, o preconceito, a homofobia, a heteronormatividade, a desigualdade no
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tratamento, a dificuldade de crescimento na carreira etc. Logo, ressalta-se que tanto no meio
social como no organizacional, aqueles que fogem ao modelo de sexualidade valorizado
socialmente são alvo de discriminação, preconceito e violência.
Visando discutir e analisar as violência interpessoais sofridas pelos nãoheterossexuais, iniciaremos com a discussão a respeito do assédio nas organizações.
3. Assédio Moral
A violência no ambiente de trabalho foi abordada, primeiramente, pelo psicólogo
alemão Heinz Leyman através da designação mobbing. Entretanto, ele não fora o primeiro a
utilizar este mote, deste modo, ponderamos que é preciso resgatar a origem de tal conceito.
Leyman (1996) faz referência ao estudo do etnólogo Konrad Lorenz como pioneiro no estudo
do mobbing, apesar deste referir-se a outra instância de investigação. Lorenz empregou o
termo mobbing no sentido de caracterizar um ataque procedente de um grupo de animais
menores ameaçando um animal maior e sozinho. Anos depois, o mesmo conceito foi
empregado por Peter-Paul Heinemann para o estudo de comportamentos destrutivos
empregados por pequenos grupos de crianças e dirigidos contra (na maioria das vezes) uma
criança sozinha (idem).
Leyman (1996, p. 167, tradução livre) relata que, então, “seguindo esta tradição, eu
tomei emprestado o termo mobbing no inicio dos anos 1980, quando eu encontrei um tipo
similar de comportamento no ambiente de trabalho”, na Suécia. A apropriação deste conceito
não se deu sem uma reflexão e adequação paralela, uma vez que “o bullying na escola é
fortemente caracterizado por certos atos de agressividade física. Em contraste, a violência
física é muito raramente encontrada no comportamento do mobbing, referente ao trabalho”
(idem, p. 167, tradução livre). Destarte, o autor propõe o emprego do termo bullying para
interações violentas ocorridas entre crianças e adolescentes, designadamente na escola, e
preservar o termo mobbing para relacionamentos violentos entre adultos.
A partir da adoção do termo mobbing at work, sua referência foi revista por Leyman
(1996, p. 165), como o mesmo relata, passando este conceito a expressar um conflito em que
a vítima é submetida a um processo sistemático e estigmatizante e a usurpação dos seus direitos
civis. Se isso durar anos, pode finalmente levar a expulsão do mercado de trabalho quando o
indivíduo em questão é incapaz de encontrar emprego devido ao dano psicológico incorrido
(tradução livre).
Neste esteio, o autor estabelece critérios para que seja possível detectar o assédio
moral no trabalho:
terror psicológico ou mobbing na vida no trabalho envolve a comunicação hostil e não-ética, que é
dirigida de forma sistemática por um ou alguns indivíduos principalmente em direção a um
indivíduo que, devido ao mobbing, é impelido a uma posição de impotência e indefesa, sendo
mantido ali por meio da continuidade das atividades de mobbing. Estas ações ocorrem sobre bases
muito frequentes (definição estatística: ao menos uma vez por semana) e por um longo período de
tempo (definição estatística: ao menos seis meses de duração). Por conta da alta frequência e longa
duração do comportamento hostil, este mau-tratamento resulta em considerável miséria
psicológica, psicossomática, e social. A definição exclui conflitos temporários e focados no
período em que a situação psicossocial iniciou para resultar em condições patológicas
psiquiatricamente e psicossomaticamente. Em outras palavras, a distinção entre conflito e mobbing
não foca no que é feito ou como isto é feito, mas na frequência e duração do que é feito. [...] A
definição científica do termo mobbing se refere a uma interação social através da qual um
indivíduo (raramente mais que um) é atacado por um ou mais (raramente mais que quatro)
indivíduos quase diariamente e por períodos de muitos meses, levando a pessoa a uma condição
quase sem defesas com riscos potencialmente altos de expulsão (LEYMAN, 1996, p. 168, tradução
livre).
Os trabalhos de Leyman influenciaram Marie-France Hirigoyen, que durante a década
de 1990 passou a desenvolver estudos na França tratando do assédio moral no trabalho, bem
como a repensar e rever o conceito apregoado por Leyman. A ordinariedade com que se
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desenvolvem os assédios morais nas organizações associada à potencialidade devastadora
destas ações rotineiras e veladas para a saúde psicológica e a vida profissional dos
trabalhadores-vítimas foram alguns dos motivadores iniciais desta autora. A ocorrência, em
sua prática clínica, de casos que retratavam esta violência insidiosa possibilitou à autora
vislumbrar o reflexo da atuação de um sujeito perverso nas várias instancias de
relacionamento social (HIRIGOYEN, 2003). Inclusive, o primeiro livro de Hirigoyen –
‘Assédio moral: a violência perversa no cotidiano’ – discorre sobre o assédio moral em vários
contextos das relações humanas: casamento, família e trabalho; enquanto o segundo livro –
‘Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral’ – trata exclusivamente das violências
circunscritas na esfera do trabalho.
No primeiro livro, Hirigoyen (2003) introduz a discussão acerca do assédio moral em
vários contextos das relações humanas. Notadamente, a respeito do “assédio na empresa” é
descrito pela autora como
qualquer conduta abusiva manifestando-se sobretudo por comportamentos, palavras, atos, gestos,
escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de
uma pessoa, pôr em risco seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho (HIRIGOYEN, 2003,
p. 65).
Neste mesmo livro, Hirigoyen aborda como a manifestação desta violência se realiza
nas instâncias já enunciadas, como se caracterizam os envolvidos em e como se desenvolvem
as relações marcadas pela perversidade de um indivíduo, o assediador, e quais são as
consequências psicossociais do assédio para as suas vítimas. O livro termina com a
apresentação de capítulos propositivos a respeito de alternativas para a superação da condição
de opressão estabelecida.
Já no segundo livro, o enfoque é restrito ao âmbito do trabalho e o conceito de assédio
moral anteriormente estabelecido é revisto pela autora, por considerar urgente uma definição
que demarque seu entendimento e que, assim, impossibilite a utilização deste termo de
maneira abusiva ou errônea. Nesta nova produção editorial,
o assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta abusiva (gesto, palavra,
comportamento, atitude...) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou
integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de
trabalho (HIRIGOYEN, 2005, p. 17).
Estabelece, ao mesmo tempo, que qualquer definição de assédio moral precisa
caracterizá-lo como “uma violência não-reptícia, não-assinalável, mas que, no entanto, é
muito destrutiva” (HIRIGOYEN, 2005, p. 17), a qual é mais direta, verbal ou física nos
setores de base das organizações e mais sofisticada, perversa e difícil de perceber a medida
que as relações se estabelecem em porções mais elevadas da pirâmide hierárquica. Hirigoyen
(2005) preocupa-se também com a ilustração, por meio de casos empíricos, das relações que
podem ser designadas pela ocorrência do assédio moral e com o estabelecimento de
proposições para a prevenção do assédio moral no local de trabalho, apregoado a ética e a
responsabilidade individual como fundamentos.
O trabalho de Hirigoyen e a associada discussão sobre assédio moral repercutiram em
diversas instâncias sociais e meios de comunicação acadêmicos e populares, após a tradução
de seu primeiro livro (Assédio moral: a violência perversa no cotidiano) para o português, em
2001 (FREITAS, 2007). Especificamente na área de estudos organizacionais, destacaram-se
três autores brasileiros na discussão desta temática, os professores Maria Ester de Freitas,
Roberto Heloani e Margarida Barreto, respectivamente, das áreas de administração de
empresas, educação e psicologia social.
Em recente trabalho publicado em parceria (Assédio moral no trabalho), estes três
pesquisadores elaboram um retrospecto das discussões iniciadas por Hirigoyen e por eles
mesmos desenvolvidas, de acordo com as particularidades nacionais. Neste livro, Freitas et al.
(2008) caracterizam a organização contemporânea do trabalho, inclusive como estimuladora
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da violência; discutem o assédio moral e os reflexos de sua perpetração nas organizações para
o ambiente de trabalho, a própria empresa e para os indivíduos; e analisam as formas de
punição e prevenção de episódios abarcando esta manifestação de violência. Os autores
adotam integralmente o conceito de assédio moral estabelecido por Hirigoyen (2005) no livro
‘Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral’. Destacamos deste trabalho a correlação
estabelecida entre os processos de discriminação e a ocorrência do assédio moral e a
declaração feita pelos autores de que “as nossas pesquisas em todo o território nacional nos
autorizam a afirmar que esta prática cruel [o assédio moral] está disseminada em todas as
organizações, quer públicas ou privadas” (FREITAS et al., 2008, p. 105).
4. Violência Interpessoal
Primeiramente, cumpre retornar ao conceito de assédio moral apresentado no tópico
anterior. Segundo expusemos, tal acepção perpassa pelos fundamentos da maior parte dos
autores que dissertam sobre esta temática e pode ser assim sintetizada: condutas hostis,
impróprias, repetitivas e prolongadas por meio de comportamentos, palavras, gestos e/ou
situações humilhantes com o trabalhador, ou com um grupo, durante a jornada de trabalho.
Este conceito expressa nítidas influências da redefinição proposta por Hirigoyen (2005, p.
17):
o assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta abusiva (gesto, palavra,
comportamento, atitude...) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou
integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de
trabalho.
A autora em questão se propôs a rever o conceito inicialmente desenvolvido dada uma
série de interpretações inadequadas que possibilitaram a caracterização de qualquer tipo de
agressão como um assédio moral, o que propiciaria a sua banalização com base na
desqualificação de seu significado. Tal preocupação com uma clara significação e com a
possibilidade de generalização do termo são constantes entre os pesquisadores de assédio
moral, seja na linha de estudos da psicossociologia, do direito ou das relações de trabalho
Questionamos, neste esteio, a necessidade de uma recursividade para caracterizar o
assédio moral. Como já apontado por Bicalho (2008, p. 12), “uma violação pontual, seja ela
física ou discursiva, pode impactar de maneira mais perniciosa para o sujeito do que pequenas
violências sucessivas, cabendo ao próprio avaliar aquilo que mais lhe vitimiza, ou seja, faz o
sentir violentado”. Assim, a limitação imputada por tal conceito, ao invés de delimitar e
impossibilitar a sua banalização, restringe as percepções do sujeito àquilo que o pesquisador
entende como assédio, negando as vivências e análises que não se adéqüem ao conceito
estipulado.
A limitação desta leitura não finda neste ponto. Utilizando ainda as ideias de Bicalho
(2008) como base, os impactos do assédio moral são limitados, na grande maioria dos
trabalhos, à degradação das relações de trabalho e dos demais elementos circunscritos à
organização e, quando trata dos impactos na saúde do trabalhador, associa isso ao
comprometimento de seu desempenho, que pode impactar em um menor rendimento, na perda
de possíveis oportunidades de ascensão profissional e na necessidade deste se licenciar ou
abandonar o emprego. Esta leitura menospreza a vida do sujeito além das fronteiras
institucionais, desconsidera que as relações marcadas pela violência que o sujeito vivencia no
ambiente profissional podem refletir em inimagináveis outros aspectos da vida deste sujeito.
Aliás, ousamos afirmar que a perspectiva que norteia tais análises parte do ponto de vista da
própria gestão, isto é, o foco não é necessariamente o sujeito violentado, mas as
consequências da violência para a organização. Um exemplo que ilustra o impacto da
vivência no ambiente de trabalho na vida do sujeito, em sentido pleno, é o caso apresentado
por Dejours (1996), em que a realidade opressora na qual um trabalhador desenvolvia as suas
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atividades repercutiu claramente em suas relações sociais, uma vez que ele passou a evitar
seus familiares e conhecidos, além de agredir seus filhos para afastá-los.
Outros pontos são passíveis de crítica na conceituação de assédio estabelecida por
Hirigoyen (2005), como a qualificação do assediador, necessariamente, como um indivíduo
que possui a patologia da perversão narcísica, a qual se manifesta no sujeito por um
sentimento de grandeza, um egocentrismo descomedido e uma completa falta de empatia por
outrem, acompanhados de uma inveja aguda daqueles que possuem algo que ele não tem ou
que sentem prazer com a própria vida, de mais a mais, falta a ele densidade afetiva e ele é
incapaz de entender as emoções alheias (HIRIGOYEN, 2003). Será, realmente, que todo
assediador ou violentador tem este tipo de patologia? Preferimos considerar que, mesmo
quando a violência é deliberada, o que em nosso ponto de vista não é uma regra, o sujeito
pode agir em decorrência de algum desvio moral motivado por certo interesse, o que não
caracterizaria seu ser, mas seria reflexo de uma escolha frente àquela dada circunstância
moldada e permitida, inclusive, pelo espaço organizacional. Isso, inclusive, é corroborado
pela própria Hirigoyen (2005, p. 350), ao assegurar que: “Todos nós somos ‘assediadores’
potenciais, eventuais futuras vítimas de superiores hierárquicos ou subordinados de alguém”;
sendo assim, somos todos potenciais possuidores da patologia da perversão narcísica?
O fundamento de deliberação da ação que caracteriza o assedio moral é também um
eixo crucial e obscuro no trabalho de Hirigoyen (2005). Em uma das primeiras páginas de seu
segundo livro, Hirigoyen (2005, p. 17) afirma que “um assédio extremamente destruidor pode
ocorrer sem que inicialmente houvesse qualquer intenção nociva”, contudo em inúmeras
outras passagens do mesmo livro esta autora defende a premeditação como necessária,
exemplos:
Pode-se então falar de assédio moral, pois se trata efetivamente de uma ação deliberada para se
livrar de uma pessoa, humilhá-la, rebaixá-la, por puro sadismo (idem, p. 31, grifos nossos);
Frequentemente, é muito difícil a distinção entre assedio moral e más condições de trabalho. É
neste caso que a noção de intencionalidade adquire toda a sua importância (idem, p. 33, grifos
nossos);
Uma crítica também necessária dirige-se a Leyman (1996), pois para ele uma agressão
dirigida a outrem caso seja fruto do estresse ou do destempero emocional momentâneo e
seguida de arrependimento e pedido de desculpa não caracterizaria um assedio moral
(mobbing at work, em seus termos). Sua argumentação indicaria que o pedido de desculpas
minimiza ou exclui o assédio infringido? Ou que uma instabilidade emocional breve
justificaria e abrandaria a violência ocorrida? Entendemos que tais questões se fundamentam
em uma flexibilidade moral controversa, tendo em vista que as implicações da violência
tantas vezes não podem ser ou deseja-se que não sejam eliminadas graças a escusas ou
alegações duvidosas.
Outro ponto passível de revisão é a restrição dos estudos sobre assédio em relação às
violências interpessoais, desconsiderando os aspectos simbólicos da organização e da
sociedade como um todo presentes nas relações e passíveis de serem utilizados para violentar
o sujeito. Catley (2005) já apontou esta limitação, enfatizou inclusive o apego da academia
pelas agressões físicas, defendendo uma leitura atenta às violências estruturais, que para ele
caracterizam o cotidiano dos ambientes de trabalho contemporâneos.
Torna-se ainda mais importante uma abordagem que não se limite ao plano das
relações quando tratamos de aspectos que envolvem o preconceito, como é o caso desta
proposta de estudo, tendo em vista que os “sofrimentos individuais podem ter suas raízes na
estrutura social do preconceito” (PRADO; MACHADO, 2008, p. 76) justamente porque “a
homossexualidade é um problema social e político” (idem, pp. 43-44).
Depois das considerações apresentadas, não poderíamos nos restringir ao conceito
inicial. Deste modo, adotaremos a vertente da violência interpessoal para abordar o assédio
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moral no trabalho, referente às relações interpessoais, através do conceito apregoado por
Bicalho (2008, p. 12):
a violência interpessoal decorre do ato de agredir o sujeito física ou discursivamente em seu
ambiente de trabalho, impactando de modo degradante em questões atinentes ao seu trabalho, à
sua vida pessoal e às suas relações; com destaque para as implicações psicopatológicas.
Optamos por tal conceito tendo em vista que este não restringe a análise das
percepções do sujeito à prerrogativa da recursividade nem desconsidera os impactos da
violência infligida nos vários âmbitos da vida do sujeito, ou seja, não reduz as consequências
aos reflexos percebidos no ambiente de trabalho. Adicionalmente, este conceito não é adstrito,
como o de Hirigoyen (2003; 2005), pela necessidade do assediador possuir a patologia da
perversão narcísica e dele estar consciente e agir deliberadamente quando violenta outrem.
Ademais, é relevante destacar que o objetivo principal deste artigo envolve a violência
de cunho interpessoal perante os não-heterossexuais. Entretanto, muitas violências
interpessoais relacionadas a esse grupo são tidas como legítimas na sociedade, dado a
construção de discursos de verdade, sócio-historicamente desenvolvidos, que estabelecem o
padrão heterossexual como certo, normal e desejável, relegando ao extremo oposto as
orientações sexuais que desviem dessa visão hegemônica. Assim, a heteronormatividade serve
de base e justificativa para uma série de violências interpessoais e simbólicas da qual os
indivíduos não-heterossexuais são vítimas ao longo de sua vida e em seu cotidiano.
5. Metodologia
Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa em decorrência de ter como foco
a subjetividade de trabalhadores não-heterossexuais. Nesse esteio, Chizzotti (2008, p. 79)
ressalta que “a abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica
entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um
vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”.
Utilizou-se a estratégia multi-casos, posto que esta pesquisa contempla vários sujeitos
que são pessoas de diferentes profissões e de diversas organizações. Como o foco da pesquisa
é o trabalho e diversidade sexual, buscaram-se profissionais com ao menos dois anos de
trabalho e pessoas que tivessem disponibilidade e vontade de participar. Foram selecionados
por conveniência por meio da técnica de bola de neve, em que um entrevistado indica o outro.
Com relação aos participantes da pesquisa são dezessete indivíduos nãoheterossexuais conforme a seguir: uma mulher bissexual, seis homens gays, uma mulher
hermafrodita ou intersexual, quatro lésbicas, uma transexual feminina não operada e quatro
travestis. Conforme Picazio (1998), adotamos neste estudo os seguintes conceitos: os
homossexuais masculinos e femininos, respectivamente o gay e a lésbica, são aqueles que
possuem desejos afetivos e sexuais por alguém do mesmo sexo; já o/a bissexual sente desejos
afetivos e sexuais por pessoas de ambos os sexos. O/a transexual nasce em um determinado
sexo, porém sente que pertence ao gênero oposto, assim o sexo biológico não corresponde à
identidade. O/a hermafrodita é a pessoa que nasce com características dos órgãos sexuais dos
dois sexos em decorrência de um erro na combinação cromossômica, uma mutação no código
genético ou um desequilíbrio na dosagem hormonal. Ainda de acordo com o autor, utilizou-se
o conceito do travesti popular, o qual se identifica com o seu sexo biológico, contudo se sente
homem e mulher ao mesmo tempo, utiliza trajes e roupas femininas e na maior parte das
vezes são homossexuais.
Ainda sobre o perfil dos sujeitos da pesquisa, possuem idade média de 34 anos, tempo
de trabalho médio de 14 anos e são residentes de Juiz de Fora - Minas Gerais. Sobre o tipo de
organização em que os entrevistados trabalham: 12% são empregados em organizações
públicas ao passo que 65% trabalham em empresas privadas. A transexual feminina é
estudante e foi profissional do sexo durante 10 anos. É interessante destacar que três travestis
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(17% dos entrevistados) são proprietárias de seus negócios, empresas de menor porte, sendo
uma pequena loja mística, uma loja de acessórios e um atelier.
O método de levantamento dos dados utilizado foi a história oral com foco na
trajetória profissional. Essas entrevistas foram realizadas entre agosto e dezembro de 2011.
Meihy (1996, p. 9) salienta que um dos motivos de destaque da história oral é “a inclusão de
histórias e versões mantidas por seguimentos populacionais antes silenciados, por diversos
motivos, ou que tenham interpretações próprias, variadas e não oficiais, de acontecimentos
que se manifestam na sociedade contemporânea”, tal como os não-heterossexuais. Já o
método de análise dos dados utilizado é a análise de conteúdo temática qualitativa, conforme
preceitos de Bardin (2008) cujo objetivo é “compreender criticamente o sentido das
comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explícitas ou ocultas”
(CHIZZOTI, 2008, p. 98).
6. Análise das Entrevistas
A análise das violências interpessoais está de acordo com duas categorias básicas:
violência interpessoal no meio social e violência interpessoal no trabalho. Neste estudo, as
manifestações de violência interpessoal relatadas pelos entrevistados são discursivas em sua
maioria e envolvem situação de piadas, “brincadeiras”, indiretas, comentários maldosos,
apelidos pejorativos, xingamentos e fofocas.
6.1 Violência interpessoal no meio social
Esta seção será dedicada à temática da violência interpessoal no meio social dos não
heterossexuais. Os dois primeiros relatos têm por foco a questão da piada e dos apelidos
pejorativos.
Então, embora, eu tivesse tido muitos problemas na adolescência, na infância com isso, de receber
nomes, títulos, todos aqueles que a gente já conhece (Entrevista de gay cinco).
.... Eu tive um professor que foi extremamente preconceituoso, que fez piadinha, e eu também
respondi à altura. E eu levei a conhecimento da coordenação e acho que a coordenação tomou a
melhor atitude. Se ele está dentro de uma faculdade de Direito, dando aula para futuros operadores
de Direito, é inadmissível o cara ter preconceito, pode até ter, mas não pode expor de maneira
nenhuma. É antididático, é inadmissível de todas as formas porque ele está dando aula para uma
turma de Direto, ele não pode ter preconceito, não pode ter preconceito. Você está entendendo? E
a faculdade tomou a melhor atitude, viu que ele não cabia mais no quadro funcional da faculdade e
demitiu o professor, e eu permaneci… (Entrevista de travesti três).
É notória a presença de apelidos pejorativos principalmente na adolescência e infância
desses homossexuais, consoante o gay cinco, as pessoas o tratavam por chacotas ou apelidos
pejorativos como “viadinho”, “bichinha” ou “mulherzinha”. Nesse sentido, a travesti três
descreve uma história que se passou em sua faculdade na qual um professor a violentou
discursivamente por meio de uma piada homofóbica, pode-se enfatizar a revolta da travesti
com a atitude desse professor, tendo reclamado à coordenação do seu curso, o que culminou
na demissão do professor homofóbico.
Os relatos em seguida dizem respeito à escola e às violências, como o bullying.
… sempre gostei muito de estudar, mas na época eu tive que parar. Não tinha condições mesmo de
me manter no colégio. Eram tempos assim de violências exacerbadas contra homossexuais na
escola, sofria bullyings violentíssimos… Então, eu achei melhor deixar de estudar, fiquei 10 anos
sem estudar… (Entrevista de transexual feminina).
… você vê a aceitação nossa foi em termos de cinco anos, tá começando, mais ou menos, com o
negócio do casamento… antes era muito pesado, eu estudava, eu sou de Brasília, estudava lá, você
ia com um cabelo um pouco mais assim, o povo já jogava pedra, "é veado”, era uma coisa horrível,
coisa do famoso bullying que hoje… (Entrevista de travesti um).
Nota-se a violência interpessoal na menção ao bullying frequente na trajetória escolar
dos não heterossexuais, conforme relatos da transexual e da travesti um. A transexual destaca
que teve de deixar de estudar em decorrência de tais violências ao passo que a travesti um
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relata que as pessoas a agrediram fisicamente e discursivamente, enfatizando o adjetivo
horrível relacionado com tais violências.
O próximo relato envolve violência discursiva no ambiente familiar.
… me criticam, “mulher com mulher, esse negócio não dá certo”.
E, assim, esse tipo de crítica fora de casa, você já ouviu também?
Não.
Na rua?
Não. Não. Já escutei, já gritaram assim “ai sapatão”. Eu já falo assim “vai”. Entendeu? Vou
andando (Entrevista de lésbica dois).
Em decorrência da não aceitação familiar de sua homossexualidade e de seu
relacionamento com outra mulher, a lésbica dois já sofreu situações de ofensa em sua família.
Além de já ter vivenciado tais situações no ambiente social também.
O depoimento adiante envolve a questão da violência em diversos ambientes sociais.
Quando a pessoa não te aceita, ela te olha diferente.
Você sente as pessoas te olhando?
Sempre existe um comentário, igual eu falei com a minha irmã ontem, sempre existe alguém
cutucando. Para no trânsito, alguém cutuca, aponta. Não me incomoda… Mas, por exemplo,
quando eu sou convidada para uma festa de casamento, sempre eu sou porque eu trabalho
diretamente com isso, então sempre ali vai existir uma meia dúzia de gato pingado que vai te
recriminar ou vai se incomodar com a sua presença demais ou uma mulher que olha e retira o
marido pela condição às vezes de medo, sei lá. Eu, na verdade, vivencio isso muito pouco como eu
te falei, mas ainda vivencio em fila de banco, em trânsito, trânsito é mais porque trânsito é mais
constante. Ontem mesmo, eu estava indo com a minha irmã e a minha tia, a gente num sinal, falei
assim “nossa, mas ele é muito otário”, assim se incomodando comigo conversando com a minha
irmã, tava abrindo vidro de carro, falei “nada a ver”. Isso é muito explícito, é muito explícito…
(Entrevista da travesti quatro).
A não aceitação da travesti se transforma em uma violência caracterizada como leve,
explícita e interpessoal, destarte, a travesti ressalta as situações de violência em que nota
comentários maldosos, apontamentos, críticas, recriminações e até mesmo certo receio,
incômodo ou desconforto com a presença dela em diversos ambientes.
O trecho abaixo evidencia uma análise geral sobre as travestis e transexuais e a
temática da violência.
As travestis e as transexuais são muito discriminadas, sofrem violências diretas tanto é que todo
dia está exposto na televisão, na mídia para quem quiser ver, sofrem violências diretas, as
agressões são muito fortes, são muito, são muito específicas. Elas estão sendo espancadas, estão
sendo agredidas, estão sendo mortas. Eu não vou falar que isso tenha aumentado porque eu não sei
se tem aumentado, mas, pelo menos, tem sido divulgado, coisa que antes não era. Antes era
mostrado como um crime comum, de assassinato. Hoje em dia, mostra que foi por identidade, por
questão de identidade de gênero principalmente (Entrevista de transexual feminina).
De acordo com a análise da transexual, são evidentes as violências interpessoais e
diretas nas vivências das travestis e transexuais, inclusive violências físicas e assassinatos por
identidade de gênero.
As violências interpessoais para com as transexuais e demais não-heterossexuais se
perpetuam e manifestam também no trabalho, como veremos a seguir.
6.2 Violência interpessoal no trabalho
Esta subcategoria terá como foco a violência no trabalho dos não heterossexuais. O
primeiro relato versa sobre uma violência que ocorre por meio de um comentário maldoso
realizado por um gerente, conforme a seguir.
... eu já ouvi algumas piadas no momento de reunião, por exemplo, já ouvi alguns comentários de
reportagem que saíam, por exemplo, teve uma vez que saiu alguma coisa falando sobre a Igreja
Católica e algumas manifestações que estavam tendo em relação ao papa e ai um dos gerentes fez
um comentário. Eu acho que, no fundo, ele sabia que eu era e fez o comentário na minha frente.
Então, ele nem se privou de fazer o comentário, assim se tava atingindo alguém ali ou não, ele nem
se preocupou com isso, então eu acho que, no fundo, tem gente que gosta de dar uma espetada na
situação sabe, gosta de cutucar... De repente você está numa mesa de reunião e vê um assunto
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sobre homossexualidade ser abordado de uma maneira tão vulgar, eu acho que não é por aí
(Entrevista de gay um).
Nota-se uma violência pautada por um comentário depreciativo, relacionada com a
homossexualidade e a Igreja Católica, realizado por um gerente em um momento de reunião
de trabalho. Para o gay, o gerente buscava desestabilizá-lo ou constrangê-lo, mesmo que por
meio de uma violência leve, sem se importar com as repercussões desse comentário. Por fim,
o depoente destaca a vulgaridade e a falta de sutileza com a qual a homossexualidade foi
tratada, expressando seu incômodo e insatisfação em tal situação. Adiante, outro depoimento
que envolve piadas ou comentários maldosos:
... Ah, sempre tem aquelas piadinhas né “ah, você vai sair? Você tem namorada? Você está
casado? Você não casou ainda não, você já está com 30 anos, você não vai casar não?”. Sempre
tem aquelas piadinhas, aqueles joguinhos, na [nome de universidade privada na qual trabalhou
anteriormente] tinha isso, na vida pessoal, na vida profissional, no geral.
…E você sentia que podia estar se referindo a sua sexualidade, esses comentários?
Sim, com certeza.
Como você se sentia quando acontecia isso?
Ah, não sentia bem. Péssimo.
Péssimo?
(silêncio)…
… Às vezes tinha alguma piada da minha colega, igual eu te falei “você não tem namorada não?
Vai dar um jeito na vida não?” (Entrevista de gay seis).
Na passagem acima, o homossexual destaca que sempre foram presentes as piadas, as
indiretas e os comentários maldosos sobre sua homossexualidade, tanto nas esferas
profissional, pessoal ou familiar. O deboche é notório nesses comentários e o indivíduo se
sentia péssimo diante deles. É interessante enfatizar o parágrafo final, pois há também
elementos claros de violência simbólicai, posto que quando a colega de trabalho diz “você não
tem namorada não? Vai dar um jeito na vida não?” está implícita a demanda para que ele se
ajustasse a heteronormatividade, ou seja, que o correto é ser heterossexual, assim o
homossexual seis resolveria sua vida ou se “encaixaria” na sociedade.
A seguir, outra fala com foco em piadas ou “brincadeiras” no trabalho:
… Aí, um dia, ela, gritando comigo, me faltando com respeito, eu comentando com uma pessoa no
MSN que era uma colega onde eu mantinha um contato bom, um advogado viu e contou para ela.
E ela começou a fazer piadinhas comigo, falando da minha perna cruzada debaixo da mesa, então
ela ficava fazendo piadinhas, tipo aquela coisa que eu só podia esperar de uma pessoa como ela,
tipo assim “e essa perninha cruzada, não sei não, esse jeitinho muito assim, tal”. Eu tive problema
com isso. Também não bati de frente porque não era o caso, eu também não queria expor a minha
sexualidade naquele ambiente para ninguém, porque para mim, embora muitas vezes eu não tinha
consciência ou mesmo argumento para isso, mas, para mim, a sexualidade nunca esteve na frente
(Entrevista de gay cinco).
O homossexual relata sobre um trabalho em um escritório de contabilidade do Rio de
Janeiro, no qual uma secretária o agrediu discursivamente iniciando com gritos e,
provavelmente, quando tal secretária soube que o gay cinco estava comentando sobre ela no
MSN, ficou enfurecida e decidiu atacá-lo por meio da sua sexualidade, por meio do deboche,
visando a sua desestabilização. Diante disso, o entrevistado recuou a fim de não se expor.
Segue outro ato de violência interpessoal vivenciado pelo gay cinco, na mesma organização.
… Ele chegou a tocar sim, uma vez, falando que, que existiam umas boates no Rio de Janeiro, e
que se eu tinha coragem de frequentar, que se eu tinha interesse de frequentar que ele poderia, um
dia, me levar nessa boate, boate onde tinha mulheres e tal… Mas eu acho que na época eu saí em
defesa dizendo para ele que eu não gostaria que ele tocasse em nenhum ponto, que ele estava
invadindo uma fronteira. E ai esse boçal... na realidade foi um somatório. Essa pessoa com quem
eu trabalhava muito próximo, eu não me dava, então isso acabou. A soma de tudo fez com que eu
tomasse a atitude de pedir demissão (Entrevista de gay cinco).
Nota-se uma ironia da parte do colega de trabalho que o convidou para uma boate de
strip-tease o que o deixou, de fato, desestabilizado, já que não esperava esse tipo de convite,
tanto que pediu ao colega que não voltasse a tocar nesse assunto e que ele estava invadindo
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seu espaço, de certo modo, passando dos limites. É evidente a insatisfação desse entrevistado
mesmo se tratando de uma situação que ocorreu uma única vez.
Essas situações de violência interpessoal com a secretária e sobre o convite da boate
culminaram no pedido de demissão do gay cinco de tal emprego. Pode-se inferir que o tal
escritório de contabilidade não seja propício à diversidade ou que tais profissionais não
tenham sido sensibilizados ou educados para o convívio e o respeito à diversidade sexual,
tanto pela organização como em suas trajetórias pessoais. Ademais, tais situações, mesmo não
sendo recursivas, tiveram implicações negativas para o sujeito.
Adiante, um depoimento que relaciona a questão da violência, do pejorativo e da
depreciação da travesti.
Eu dava aula primeiro e ele era depois de mim. Então ele, dizem as meninas, eu nunca vi. Não
falou na minha frente, nunca é. Mas ele ficava comentando sobre seios, assim, peitão, e falava,
mas não só isso, não é questão de..., era pejorativo, “vocês chamam de que? Nome dele ou
dela?”… E aí, as meninas da escola foram à diretoria e falaram para a diretora. Ele teve que se
reportar, pedir desculpas. Foi até bom, porque você vê que a escola assim, os alunos estavam até
preparados sim, não tinha nenhum problema com alunos, mas ele encheu o saco (Entrevista da
travesti um).
No trabalho de professora do ensino médio, a travesti vivenciou uma situação de
violência interpessoal cometida por outro professor, que ocorreu por meio de piadas e de
comentários pejorativos fazendo referência ao seu corpo, a sua identidade de gênero e ao seu
nome social. Cabe ressaltar que não era uma agressão direta, porém provavelmente o
professor homofóbico sabia que esses comentários seriam levados aos ouvidos da professora
travesti. É interessante que a entrevistada destaca que os alunos lidavam de modo natural com
a questão da diversidade, ao ponto de defendê-la, enquanto esse professor não. Mesmo o
professor tendo pedido desculpas, é evidente o incomodo da travesti nessa fala.
Segue uma situação que associa violência interpessoal com o estereótipo do
homossexual.
Se a pessoa não tem um jogo de cintura, você dança, você não entra no mercado tanto que logo
que eu entrei lá, há muito anos atrás, eu escutei muitas indiretas, mas aquele negócio, tá falando
com você, comigo entra por aqui e sai por aqui, então não é comigo. Então você tinha aquelas
coisa, fulano daria melhor se fosse cabeleireiro, maquiador, tá falando comigo, não tá, tá falando o
nome de outra pessoa, então comigo, não é comigo (Entrevista do gay quatro).
Ao iniciar suas atividades profissionais no setor administrativo de uma organização da
área hospitalar, o entrevistado relata que ouviu diversas indiretas relacionadas com a restrição
do homossexual no mercado de trabalho, ressaltando que deveria tornar-se cabeleireiro ou
maquiador, tendo em vista que as citadas profissões seriam mais “adequadas” a ele. Assim,
pode-se ressaltar o estereótipo de feminino associado ao homossexual o qual deveria trabalhar
em profissões ditas femininas como a beleza ou estética. Por fim, também notamos a fuga e a
negação da violência pelo entrevistado ao dizer que tal comentário não seria dirigido a ele.
Mesmo no mercado da beleza, que seria um meio mais aberto, há também situações de
violência.
… tem uma mulher que mora aqui no [nome de bairro] que até hoje ela diz que “salão que trabalha
veado, ela não entra”, não entrava porque hoje ela é minha cliente.
E além dessa situação, teve mais situações?
Ah, já teve homem de entrar, quando vê que era eu que ia atender, voltar (Entrevista de travesti
dois).
A cabeleireira travesti relata uma história de violência na qual uma senhora, que até
tornou-se sua cliente, não aceitava receber seu tratamento capilar e estético em um salão de
beleza no qual travestis ou homossexuais trabalhassem, o preconceito era tão forte que ela
dizia que não entraria nesse ambiente. Também ocorreu situações em que um homem, ao
entrar no salão e perceber que seria atendido por uma travesti, se recusou e foi embora.
Ambas as situações de violência demonstram que mesmo no setor da beleza pode ocorrer a
exclusão da travesti.
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Veremos nesse depoimento que destaca a violência interpessoal indireta no trabalho.
… tinha um vigia do [nome de órgão ligado à área de Cultura] que ele era muito preconceituoso,
mas ele nunca tinha falado nada comigo, nunca falou, nunca sofri preconceito da parte dele. Mas
eu sempre notei que ele cutucava quando passava um gay, cutucava o outro amigo e começava a
rir. E aí, eu fiquei pensando comigo, puxa vida, se eu me assumir, ele vai cutucar e vai rir da
minha cara. E aquilo me deixou um pouco magoada, sabe. É desconfortável você saber que uma
pessoa que convive num meio tão aberto para isso, porque o [nome do órgão ligado ao setor de
cultura] tem muitos atores, artistas que passam lá o tempo inteiro, os bolsistas e os estagiários
todos são dessa área, muitos homossexuais. E uma pessoa que convive ali trata alguém com tanto
preconceito sem motivo nenhum porque nunca fizeram nada para ele (Entrevista de bissexual
feminina).
Nota-se que até um ato como rir de alguém à distância ou debochar pode ser
considerado um tipo de violência, até caracterizada como indireta ou sutil, tendo como
impacto o receio e a mágoa em virtude da não aceitação.
Outra situação de constrangimento e agressão discursiva é retratada a seguir:
No alojamento, eu também sofria esse tipo de constrangimento porque você era diferente. Veja
bem, eu morava num alojamento em que praticamente mil homens moravam ali. Então tinha nível
superior para peão, de nordestino a rio grande do sul, misturava todo mundo. Era homem andando
pelado para cima e para baixo porque não tinha porta, o banheiro era coletivo para todo mundo [...]
tomava banho de porta aberta. Então quer dizer, há sempre constrangimento, chegou, uma vez, um
e falou assim: “Você vai deixar seu cabelo crescer?”. Eu falei: “não, realmente estou precisando
cortar”. E ele: “Você ficaria bonitinha de cabelo comprido, você acha?”. Daí, eu entrei na
brincadeira, e falei assim “ah, eu acho que eu ficaria uma bichinha melhor como você de cabelo
bem curtinho”. Aí, morreu o assunto, a partir do momento que você entra na brincadeira, ou a
pessoa entra na gozação, acaba o clima ou o negócio fica sério. Então, nas empresas, gay é gay,
veado é gay, sempre vai ter preconceito, pelo menos nos lugares que eu passei sempre foi assim,
sempre teve esse tipo de preconceito (Entrevista de gay quatro).
Durante o período em que o entrevistado realizava estágio no escritório de uma usina,
ficou em um alojamento no qual vários homens compartilhavam este espaço. O entrevistado
narra uma situação de agressão verbal que tinha por objetivo o deboche e a ofensa, na qual
reagiu à agressão no mesmo tom e, assim, o assunto foi encerrado. Por fim, diz que sempre
houve esse tipo de discriminação em sua trajetória profissional.
O destaque do próximo depoimento é da professora de música intersexual e está
relacionado com a sua transformação para uma aparência feminina.
Eu tive assim uma animosidade muito grande por parte dos pais de alunos, fizeram um motim
geral assim, reuniões, tentando me tirar da escola e tal; de alguns colegas professores da época, e
da direção da escola, a direção muito preocupada com aquilo e até de forma assim cruel mesmo,
eles se mobilizaram a favor de me tirar da escola. E eu tive que lutar com muita garra por isso,
chorar, brigar, xingar todo mundo, e mostrar que eu tinha uma pessoa que tinha uma moral, e que
podia trabalhar na escola como outro funcionário qualquer. Mas, foi muito difícil, uma fase assim
que o preconceito me doeu muito. E foi, assim, eu tive que invadir uma reunião dessas de pais e
mostrar, dar a minha cara a tapa e falar “eu sou um ser humano digno de respeito, eu mereço esse
respeito”. Eu queria uma chance para mostrar que o meu trabalho é o mesmo. Foi mais ou menos
assim, as pessoas assustaram, mas souberam entender… Eu tive casos de pais me chamarem de
nomes pejorativos, bichinha… (Entrevista da Intersexual).
A intersexual destaca a falta de aceitação que sofreu com os pais dos alunos. A
violência está expressa na realização de reuniões, apoiadas por professores e direção da
escola, com o objetivo de demiti-la. Além das reuniões, houve situações de agressões verbais
por meio de apelidos pejorativos. É notório, no depoimento da professora, a exclusão, a
mágoa e a dor que vivenciou nesse momento que tem grandes implicações negativas para a
professora.
Com relação às lésbicas entrevistadas nesta pesquisa, há três situações de violência
interpessoal que enfocam a questão da fofoca, de comentários maldosos e de “possíveis”
relacionamentos com outras mulheres do trabalho.
Já, já teve situação. Tinha uma amiga minha que ela não sabia cozinhar. Ficava com pena dela,
levava ela para almoçar lá em casa. Então, começou a sair uma picuinha. Sinceramente, eu não dei
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a mínima para isso. A gente, muito pelo contrário, a gente ria. Porque, a partir do momento, que eu
adotei a posição de rir disso, eu entrava na sala dela, falando assim “amor, você vai almoçar lá em
casa hoje?” Todo mundo caia em gargalhadas, inclusive ela. Aí, se ela saísse com um cara “você
está me traindo?” Eu fazia de questão de falar na frente das pessoas que estavam fazendo a
fofoquinha. Depois de um tempo isso acabou, sempre deixei as pessoas até sem graça por causa
disso, exatamente por não esconder nada… (Entrevista da lésbica um).
Fofoca tem. Uma vez só porque, não tem nem muito tempo. A gente que é mulher, homens
também, a gente não pode ter um amigo, uma amiga muito próxima. Aí, já fala que a gente tá
interessada, tá apaixonada. Até uma amiga minha que estava grávida, na época, o povo do hospital
falava que se nascesse loirinho era meu filho. Eu e ela, a gente levou na brincadeira… Mas a gente
via que tinha maldade. Mas não tinha, era amizade mesmo, pura amizade. Graças a Deus, o
menino nasceu moreninho. (risos)… (Entrevista da lésbica três).
Vou basear quando eu trabalhava na clínica. Já teve assim comentários que eu era..., que eu fiquei
sabendo, que me chateou. Então, essas coisas já aconteceram comigo. Tipo uma das pessoas sabia
que eu era..., que era uma amiga minha, sabia da minha sexualidade. Ela veio falar para mim que o
pessoal estava comentando… Aí, já teve esse tipo de comentários que eu era... e tinha uma outra
fisioterapeuta que estava interessada em mim, que eu estava interessada na menina, nem lembro
mais. Não tinha nada a ver. Eu namorava e tudo mais. Eu já fiquei sabendo de paciente que
comentou com a dona da clínica que achava que eu era... Eu fiquei sabendo dessas histórias, são
coisas que me chatearam porque assim é ambiente de trabalho… (Entrevista da lésbica quatro).
Notamos que são comuns os comentários maldosos sobre os “possíveis”
relacionamentos das lésbicas com suas colegas de trabalho quando há maior proximidade na
amizade. Diante desse tipo de comentário ou fofoca, a lésbica um e a lésbica três trataram
com humor a situação visando se defender da intriga e do constrangimento, enquanto que L4
se sentia chateada e incomodada. Por fim, a lésbica quatro, que é fisioterapeuta, conta sobre
um paciente que questionou sobre sua sexualidade com a dona da clínica na qual trabalhava.
Uma “brincadeira” de mau gosto é relatada pelo gay três como forma de violência.
… chegou num ponto que uma menina recém-contratada lá, e o que eles fizeram, falaram para ela
tipo, ela gostava de negões e era loira, então não sei o que... Botaram ela para me encher o saco até
vir e ela falar que tava a fim de ficar comigo e não sei o que e eu falando não, não, não, não. Até
que eu tive que virar e falar com ela assim, “oh acorda”. Aí, eu acho que também foi uma coisa
que chocou eles, porque eles não acharam que eu ia fazer isso… (Entrevista de gay três).
Os colegas de trabalho incitaram uma funcionária recém-contratada a dar em cima do
homossexual, mesmo sabendo sobre sua sexualidade, com o objetivo de importunar, debochar
e envergonhar. É evidente o péssimo gosto de tal “brincadeira”, que teve repercussões
negativas para ambos os envolvidos, uma vez que constrangeu tanto o entrevistado quanto a
colega de trabalho e, possivelmente, repercutiu de modo contraproducente no ambiente de
trabalho.
A próxima passagem envolve um relato de assédio sexual.
Você tocou no assédio moral, você podia me contar o que aconteceu?
…na minha época de [nome da organização], que tinha um superior a mim que me fez um assédio
moral, até então, ele me cantava e tudo, a diferença de idade entre nós era pouca, e muito como eu
disse, eu tava começando a me descobrir, muito inocente. Depois que eu fui começar a entender as
coisas, mas fui vendo que não daria certo, então eu acabei vencendo ele pelo cansaço.
Mas, quando você fala que era um assédio moral é porque ele tava querendo
Ele tava querendo usar a hierarquia, no caso, que ele era meu superior, impor de uma forma que eu
teria que fazer algo que ele queria.
Esse algo seria sexo? Seria sair com ele?
É.
E no caso o que ele falava? Ele falava coisas grossas?
Não, algumas vezes, além de me cantando, ele andou me convidando para sair, querendo telefone,
email, forçando algumas situações, insinuações também, e ficava assim as pessoas ao redor não
percebiam, mas eu e ele percebíamos, então era uma situação delicada, mas até que eu soube
contornar bem, porque eu sabia que se ocorresse alguma coisa, além dos problemas que poderiam
acarretar pra mim, poderia ele depois acabar falando para as próprias pessoas, quem seria
prejudicado no caso seria eu, porque ele era meu superior e não daria certo.
E no caso, você já tinha dito que não queria e ele continuava insistindo?
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Continuava insistindo. E ai foi insistindo, foi insistindo, mas depois eu fui saber que não foi só
comigo, que teve também um outro colega meu de trabalho também e que era homossexual e que
aconteceu a mesma coisa, que ele me contou, mas eu acabei contornando bem (Entrevista de gay
dois).
O homossexual informa que foi vítima de intimidações de um superior hierárquico o
qual tinha o objetivo de contatos afetivos e sexuais com o entrevistado e que o mesmo visava
impor algo que ele não queria, ou seja, o contato sexual. Também enfatiza que foi uma
situação muito delicada posto que buscava fugir das investidas desse chefe ou “contornava”
tal episódio, inclusive porque o entrevistado tinha o receio de que esse superior invertesse a
situação e o colocasse como o agressor. É importante destacar a dificuldade que o
homossexual tem ao lidar com uma situação como essa, no ambiente de trabalho, pois com
quem ele poderia se abrir, como ele deveria agir ou pedir ajuda diante dessa situação.
Ademais, outro aspecto preocupante desse relato é que, na época, ele era apenas um
estagiário, ou seja, um elo fraco nessa situação trabalhista.
O relato a seguir trata da violência interpessoal física e pesada a um estagiário.
… Então, na usina, tinha um cano que seria uma válvula de descarte de lixo, entulho, mais coisa
líquida. Por eles saberem que era, como o rapaz teve a infelicidade de ficar dentro da usina
mesmo, o que eles fizeram de sacanagem com ele, eles mandaram ele limpar para sair, para abrir a
torneira, veio aquele troço de lixo dentro da cara do rapaz, isso só porque ele era gay. Ah, isso era
porque era no meio de peãozada, peãozada faz esse tipo de coisa (Entrevista de gay quatro).
O homossexual descreve uma agressão física e pesada, representando a violência
interpessoal, a outro estagiário homossexual. Nota-se que o objetivo dos agressores é, de fato,
machucar fisicamente a vítima em virtude de sua sexualidade.
7. Considerações finais
O objetivo deste artigo foi analisar as violências interpessoais vivenciadas por sujeitos
não-heterossexuais no meio social, com destaque para o ambiente de trabalho. Nesse sentido,
revisitamos pesquisas sobre diversidade sexual no trabalho, em seguida, discorreu-se
teoricamente acerca da violência interpessoal, partindo do conceito proposto por Marie France
Hirigoyen e o ampliando, de acordo com a proposta de Renata Bicalho. Essa teoria balizou a
análise dos dados de uma pesquisa qualitativa, que foi desenvolvida a partir de entrevistas de
história oral com indivíduos não-heterossexuais, sendo eles: uma mulher bissexual, quatro
lésbicas, seis homens gays, uma mulher hermafrodita ou intersexual, uma transexual feminina
não operada e quatro travestis. Os dados empíricos foram analisados por meio do método de
análise de conteúdo e duas categorias foram definidas, violência interpessoal no meio social e
violência interpessoal no trabalho.
Enfatizando a violência interpessoal no trabalho, esta ocorre principalmente por
comentários maldosos ou pejorativos, piadas, indiretas pautadas pelo deboche ou pela ironia,
agressões verbais, ofensas, fofocas, “brincadeiras” ou mentiras. Assim, essas manifestações
basicamente visam à desqualificação, à depreciação e à desestabilização do nãoheterossexual. Tais observações também remetem à questão do humor e da discriminação no
trabalho, na visão de Irigaray, Saraiva e Carrieri (2010, p. 902), pois além do humor
naturalizar a homofobia, ele é uma forma de discriminação aceita e apoiada pela sociedade
heteronormativa para com os não-heterossexuais. Os autores ainda manifestam que, mesmo o
humor tendo uma função social para aproximar as pessoas e que os gays podem utilizá-lo para
integração social, o humor é causa de sofrimento ao estar relacionado com a rejeição e
exclusão dos não-heterossexuais na sociedade. Destarte,
… do ponto de vista empírico, é responsabilidade inequívoca das organizações incluir, como
parâmetro de análise de resultados, os aspectos de justiça social e de qualidade de vida de seus
empregados, o que implica reconhecer e respeitar suas diferenças para poder tratá-los em pé de
igualdade. À sociedade, por fim, cabe refletir sobre o fato de que ser complacente com práticas
discriminatórias de qualquer tipo, mesmo com as bem humoradas, é contribuir para a
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continuação das desigualdades entre os indivíduos. Rir junto com o agressor, sob qualquer
pretexto, significa tornar-se cúmplice de piadas invariavelmente de mau gosto. E isso não tem
graça nenhuma.
Retomando os resultados, destaca-se que as violências interpessoais são mais pesadas,
diretas, e, de certa forma, mais cruéis com os gays, com as travestis e com as transexuais do
que com as lésbicas entrevistadas. Os relatos que envolvem esse tipo de violência com as
lésbicas estão relacionados com fofocas ou com comentários caracterizados de modo indireto,
enquanto que os relatos dos gays, travestis e intersexual estão relacionados com agressões
discursivas mais diretas e, em determinados casos, mais cruéis e/ou depreciativas. Isso pode
estar relacionado com a invisibilidade que envolve as lésbicas, que é considerada por Borillo
(2010, p. 29) “uma atitude que manifesta um desdém muito maior, reflexo de uma misoginia
que, ao transformar a sexualidade feminina em um instrumento de desejo masculino, torna
impensável as relações erótico-afetivas entre mulheres”. Ademais, a escolha por assumir
socialmente uma identidade lesbiana, tida como estigmatizadora, raramente se efetiva,
cabendo às lésbicas conciliar uma vida pública heterossexual e uma vida privada
homossexual, sendo que “no mundo heterossexual, necessitam ‘passar por héteros’ ou pelo
menos ‘desenvolver uma representação que as defina como fêmeas’”, isso tendo em vista que
“em uma sociedade heterocentrista, qualquer atitude que afaste um ser humano nascido com o
sexo feminino de seu papel de gênero de mulher é vigiada e cobrada” (GOMIDE, 2007, p.
407).
Notamos também nesta pesquisa e enfatizamos que tais violências sofridas pelos não
heterossexuais não precisam ter um caráter recorrente para serem consideradas violentas ou
agressivas e atuem de modo a impactar negativamente sobre os não-heterossexuais, o que
ratifica a visão de Bicalho (2008).
Por fim, espera-se que esse estudo não se esgote em si mesmo, mas que se inclua tais
sujeitos em pesquisas acadêmicas e debates sobre diversidade nas organizações. Sugere-se,
então, outros estudos, que se direcionem a questões críticas relativas à inserção de sujeitos
não-heterossexuais no ambiente e no mercado de trabalho, a partir da mesmo referencial ou de
outros correlatos.
Referências Bibliográficas
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BICALHO, R. A. Categorias Frankfurteanas para uma Tipologia da Violência nas
Organizações. In: ENCONTRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS, 05, 2008, Belo
Horizonte. Anais... Belo Horizonte: ANPAD, 2008.
BORILLO, D. Homofobia - história e crítica de um preconceito. Belo Horizonte, Autêntica:
2010.
BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
CATLEY, B. Workplace violence and the forging of management and organization history.
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i
Entende-se por violência simbólica: uma “violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se
exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais
precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (BOURDIEU,
2003, p. 7-8).
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