CAPÍTULO OITAVO A ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO SOBRE A FORMAÇÃO MORAL DOS ALUNOS: RELIGIOSA, PSICO-AFECTIVA E MASS MÉDIA 0. Premissa Após uma análise descritiva dos dados pessoais dos alunos e seus familiares, torna-se mais viável um estudo analítico e interpretativo dos argumentos hipotéticos que devem provar ou não a necessidade de uma formação moral, profissional e social nas Escolas Secundárias de Cabo Verde. Procuraremos, neste capítulo, fazer uma abordagem ampla que retracte a vivência dos estudantes nas várias vertentes da sua vivência, com objectivo de, sobretudo, perceber as suas reais necessidades, interesses e motivações, de modo que o estudo possa ser objectivo e realista nas suas propostas pedagógicas e educativas. Portanto, o estudo que se pretende realizar através dos dados recolhidos é uma contribuição para a formação integral dos estudantes cabo-verdianos, e que abarca todo o processo do desenvolvimento da sua personalidade. Se as hipóteses concebidas anteriormente, vamos debruçar-nos sobre a dimensão ética-afectiva e religiosa dos alunos como critério indispensável para a cultivação dos valores morais que devem nortear, harmonizar e equilibrar as dimensões da sua personalidade em todos os sentidos. Daí a necessidade de analisar um conjunto de acções que envolvem a vivência moral dos adolescentes e jovens estudantes. Um estudo analítico e interpretativo da dimensão moral dos mass media, e psicoafectiva e religiosa dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde permite conhecer mais de perto, com uma visão realista, as bases sobre as quais se está implementando a formação do homem cabo-verdiano do ponto de vista pessoal, social e profissional. Um estudo da dimensão ética da personalidade humana e da vivência moral não implica impingir algo de extrínseco ao indivíduo, mas fazer emergir aquilo que é próprio e intrínseco à pessoa humana. A própria educação, em si, obriga, moralmente, os educadores a educar nesse sentido, isto é, ajuda os educandos a tomarem consciência da sua própria dimensão ética e da sua vivência moral, espiritual e afectiva. Se partirmos do princípio segundo o qual cada educador é no acto 383 prático um docente de ética1, então, é um dever categórico demonstrar aos educandos o que está mal e o que está bem, com base nos princípios e nas normas universais que defendem a integridade e o bem da humanidade e, em particular, da humanidade que está presente em cada ser humano. Fazer uma reflexão do ponto de vista ético e moral à volta das análises dos dados não significa justificar ou relativizar os comportamentos e as atitudes dos estudantes, mas é apenas uma tentativa de individualizar um percurso que os oriente, para que a sua vivência e as suas acções sejam finalizadas segundo os princípios normativos, capazes de salvaguardar a humanidade, a responsabilidade, a liberdade, a moderação, a prudência, o respeito pela diversidade e o direito à cidadania no sentido de pertença à raça humana. É o papel da escola ajudar os alunos a terem a consciência e a assumirem responsabilidade dos seus actos. De facto, na sociedade actual, quase a totalidade das crianças, ainda muito cedo, frequenta o pré-escolar e depois um período longo de escolaridade, e isso nos faz a afirmar que há uma transferência substancial da função educativa das famílias para as escolas. Daí a necessidade de a escola assumir o seu compromisso de educadora e de instrutora como forma de “suprir” aquilo que, eventualmente, não se consegue fazer no seio familiar. Por isso, A. Prost disse que «a escola recebe o encargo de ensinar as crianças a respeitar os constrangimentos de tempo e de espaço, as regras que permitem viver em comum, a encontrar a relação correcta com os outros, e mais do que uma socialização das aprendizagens (a escolaridade) representa uma aprendizagem da sociedade»2. Perante as inúmeras dificuldades e os problemas pessoais e sociais que afligem a nova geração, adolescentes e jovens de hoje, que frequentam as escolas secundárias, não é fácil encontrar um espaço alternativo à escola, como ambiente catalizador do mal-estar profundo dos jovens, apesar de ela ser, para muitos alunos, apenas um meio para conseguir o bem-estar económico, prestígio social, e não um meio para o seu crescimento pessoal, conforme os dados vistos anteriormente. Embora haja centros juvenis, grupos eclesiais de jovens, grupos sociais de «malta», muitos adolescentes e jovens continuam a manifestar sintomas de mal-estar e de instabilidade psico-afectivo e social, que as escolas e seus agentes não podem ignorar3. Uma das alternativas que a escola deve avaliar e tomar em consideração é a educação ético-moral tendo em conta a vivência e a experiência religiosa e espiritual do indivíduo e do colectivo. É bom que não se banalize as vivências espirituais dos estudantes e das comuni1 Cf. G. DEIANA, La legge morale dentro di me e la virtù dei cittadini, Milano, Unicopli, 1999, p. 7. A. PROST, Fronteiras e espaço do privado, in P. ARIÉS et ali. (Edd.), História da vida privada, Porto, Afrontamento, 1991, pp. 75-97, p. 82. 3 Cf. M. PELLEREY, Educazione morale, educazione sociale, educazione del carattere: i compiti della scuola, in “Orientamenti Pedagogici”, Ano XLII, 42 (1995), pp. 219-233, p. 222. 2 384 dades, precisamente porque poderão servir de substrato para uma verdadeira implementação da consciência moral que deve nortear a convivência social e ajudar os indivíduos a decidir e optar por aquilo que serve para o seu crescimento e realização pessoal como forma de superar o seu mal-estar e a sua instabilidade emocional. A resolução de muitos problemas pessoais que afectam o estado emocional dos alunos, além de ser dum suporte psicológico, deve ser procurada através da interiorização dos valores éticos que dêem firmeza e suscitem convicções, sobretudo, numa sociedade em constante transformação, onde se aprende tudo de novo para sobreviver e lidar com a vida no dia a dia. Perante essa sociedade complexa, a própria escola é interpelada por novos desafios que põem em causa as suas regras, seus modelos e suas metodologias e estratégias de ensino e aprendizagem. Daí a necessidade de se apostar em princípios fundamentais e ao mesmo tempo encontrar novos métodos e novas estratégias para acompanhar as mudanças que a sociedade impõe às instituições educativas, aos seus sujeitos e à sua estruturação. Nessa circunstância social, a escola não é mais uma instituição especializada e cristalizada como se pretendia numa sociedade compacta e solidária, mas uma instituição que ensina, sem perder de vista os princípios éticos fundamentais, os seus educandos a mudarem e a terem um espírito flexível e competitivo. Essa ideia está bem patente nos pensamentos de alguns autores e reflectidos nas suas obras, quando afirmam que a escola de modernidade e pós-modernidade é aquela que ensina a aprender4, que ensina a projectar a liberdade e a felicidade5, que ensina a existir6 como compromisso e tarefa para a realização pessoal. Segundo G. Deiana, tudo isso está correlacionada com os valores de solidariedade e responsabilidade social, enquanto pilares essenciais para uma ética laica e pluralista7. O ensino da moral e religião foi uma disciplina contemplada no sistema do Ensino Escolar em Cabo Verde no tempo do regime colonial, o qual considerava a Doutrina da Igreja Católica como uma espécie de “religião de Estado” e, por conseguinte, servia para a formação de carácter, de cidadania e de evangelização do indivíduo. Devido à essa interligação intrínseca e conatural, muitas vezes, a moral se identifica com a religião, na mentalidade de muitos cabo-verdianos, sobretudo, dos que têm uma formação ideológica marxista e leninista. Talvez tenha sido essa a razão pela qual há uma certa resistência quando se tenta afirmar alguns princípios morais para uma sã convivência de grupos e das comunidades. Não obstante essa ambiguidade, a escola e outras instituições educativas presentes numa determinada sociedade 4 R. BASSOLI et al., I nuovi adolescenti, radiografia di un’età dimenticata, Roma, Riuniti, 1995, p. 13. Cf. S. ACQUAVIVA, Progettare la felicità, Roma-Bari, Laterza, 1994. 6 Cf. F. CRESPI, Imparare ad esistere. Nuovi fondamenti della solidarietà sociale, Roma, Donzelli, 1994. 7 G. DEIANA, La legge morale dentro di me e la virtù dei cittadini…, p. 29. 5 385 têm o dever de responder aos grandes interrogativos éticos à volta dos problemas sociais vividos e praticados pelos jovens estudantes, o dever de responder às demandas de projecção humana através do avanço científico e tecnológico. Perante uma moral laica e pluralista, o estudante que se considera crente sabe que nada disso deve diminuir a sua fé e enfraquecer a sua prática religiosa e, tanto menos, separá-lo dos outros companheiros de boa vontade com os quais pode colaborar, embora sendo distintos na sensibilidade religiosa e cultural. Sendo o Estado cabo-verdiano laico, não se pretende insinuar o ensinamento de uma religião específica, mas implementar um conhecimento básico dos princípios éticos e morais que devem regular os comportamentos e as atitudes humanas independentemente da sua crença ou convicção religiosa e ideológica. O que faz um acto humano (bom) ser cristão ou apenas humano é a consciência e a convicção de cada indivíduo. De facto, como afirma G. Gatti, a procura de consciência crente nunca foi uma procura do que é justo em si mesmo, em abstracto, mas uma procura daquilo que Deus fala ao homem aqui e agora, mesmo que seja verdadeiro que Ele me fala somente daquilo que já é justo e bom, apenas do ponto de vista humano8. É importante que cada indivíduo saiba escutar a voz da sua consciência, as suas reais intenções, partindo dos seus conhecimentos sensíveis e racionais, precisamente porque a intencionalidade da consciência se revela plenamente no acto da sua escolha racional e deliberada9. É a partir de um estudo objectivo das condições juvenis que estaremos em condições de situar os adolescentes e jovens no seu ambiente e contexto social para podermos compreender as suas necessidades e exigências a fim de encontrar alguns critérios valorativos para melhorar e incentivar os seus comportamento morais do ponto de vista psico-afectivo e espiritual. Passemos agora a analisar e interpretar os dados referentes aos comportamentos dos alunos face aos meios de comunicação, a educação psico-afectiva e comportamentos sexuais dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde e a sua experiência e interiorização dos valores religiosos, segundo as faixas etárias ou os ciclos de escolaridade. 1. A experiência moral-religiosa e a interiorização dos valores As análises e as interpretações dos dados que retratam os comportamentos morais, as atitudes e as percepções dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde à volta da utilização dos meios de comunicação de massa e da sua dimensão psico-afectiva no campo da 8 9 G. GATTI, Morale sociale e della vita física, Leumann (To), Elledici, 1990, p. 10. Cf. D. DENNETT, Evoluzione della libertà, Milano, Rafaello Cortina, 2003. 386 moralidade, demonstram, antes de tudo, a intenção de abarcar a vivência e a experiência dos estudantes na sua globalidade. Por isso, um estudo que abranja a sua experiência moral, enquanto interiorização dos valores religiosos, faz sentido nesta perspectiva de compreender a vivência dos estudantes adolescentes, para que, depois, se possa estabelecer métodos, estratégias e conteúdos para uma melhor consolidação das suas convicções valorativas do ponto de vista espiritual e religioso. Como já foi dito anteriormente, o ser humano é por sua própria natureza um “ser religioso”, por isso, seria injusto assumir a atitude de indiferença perante uma dimensão espiritual que compõe a personalidade de cada indivíduo na sua integridade. As análises e as interpretações dos dados referentes aos valores espirituais e religiosos dos estudantes são importantes para a compreensão quer da sensibilidade espiritual quer, eventualmente, do próprio vazio existencial perante a transcendência que a própria vida com os seus infinitos “porquês” propõe dia após dia aos seres humanos. Daí a necessidade de orientar os estudantes a compreenderem a sua crença em relação à religião e ao sacro, não como uma mera compensação psicológica, mas como uma autêntica necessidade existencial de auto-compreensão e de responsabilização do ponto de vista ético pelas suas escolhas e opções fundamentais, de modo que a sua condição religiosa seja compatível com a sua maturidade humana10. Pode-se dizer, em princípio, que a mentalidade religiosa e moral dos cabo-verdianos é eminentemente de matriz cristã, tendo em conta a sua origem histórica. Se, no passado, Cabo Verde era considerado um País maioritariamente católico e com uma participação expressiva e significativa da população aos Sacramentos – Eucaristia, Baptismo, Crisma, Reconciliação, Matrimónio – actualmente, essa situação está retrocedendo por diversos factores: a contínua emigração, o elevado nível económico e instrutivo da população, a emergência de novos incentivos culturais, a propagação de ideologias políticas e maçónicas contrárias à Igreja Católica e à religião cristã, em geral, a influência sistemática da secularização, com o desenvolvimento científico e tecnológico, e do racionalismo proveniente dos países de expressão marxista-leninista, o proselitismo religioso ou expansão das seitas. São situações que não só põem em causa a unidade da fé dos crentes, como também, a própria moralidade da população na sua vivência social. A mudança de comportamentos e de atitudes morais que se verifica na sociedade cabo-verdiana é a consequência desses factores e de outros mais ligados ao desenvolvimento económico e tecnológico da sociedade moderna e pós-moderna. 10 Cf. V. ORLANDO et al., L’Esperienza religiosa nell’attuale vissuto giovanile, in M. MIDALI L’esperienza religiosa dei giovani, 1. L’ipotesi, Leumann (To), Elledici, 1997, p. 87. et al. (Edd.), 387 Devidos a esses mesmos factores presentes e devido o avanço de um individualismo na fé, a fraca obediência à autoridade moral da Igreja e pouca adesão às actividades organizadas pela Igreja, nota-se que o processo de socialização religiosa no seio da juventude está sendo cada vez mais reduzido. Como poderemos constatar, mais à frente, a transmissão de valores religiosos à nova geração é uma realidade que está sendo coarctado, devido a uma constante discrepância entre a crença e convicção dos adultos e as novas exigência e necessidades dos jovens do tempo actual, como também, a falta de uma nova metodologia pastoral, por parte da Igreja, tendo em vista o envolvimento dos jovens numa dinâmica inovadora de vida de fé e interiorização de novos valores éticos e religiosos. Não obstante essa situação crítica presente no nosso contexto sócio-eclesial, há quem defenda o emergir de um esforço contínuo de ambas as partes (Igreja – juventude) na busca de um amadurecimento de fé pessoal cada vez mais aberta às novas formas culturais e religiosas11. Embora nos encontremos num contexto social e pluralístico, quer no aspecto político e cultural, quer no aspecto religioso, um estudo reflexivo e interpretativo dos dados sobre a experiência moral e valores religiosos pretende focalizar a pessoa dos estudantes na sua totalidade como um “ser uno” nas suas várias dimensões que compõem a sua personalidade, e capaz de saber coadunar o seu ser moral e religioso, independentemente da prática de uma religião qualquer. Dentro dum parâmetro educativo e pelo respeito à pessoa humana nos seus direitos, a crença e a prática religiosa devem ser encaradas não como alienação, ensinada pela ideologia marxista e ateísta nas escolas e nos centros juvenis, mas como opção livre, sincera, responsável do indivíduo, precisamente porque a «liberdade responsável deve ser entendida e vivida como doação e possibilidade de uma vida humanamente “completa” na comunhão com Deus seu criador que se torna, por sua vez, comunhão com o seu semelhante»12. Portanto, o crente, independentemente da idade, do sexo, da raça, da cultura e da posição social (económica e política), assume livre e responsavelmente a sua adesão de fé como critério para viver mediante um projecto de vida, como realização de um amor incondicional de Deus – Ser Supremo – na história da humanidade e de cada homem em particular. Portanto, o crente é aquele que sabe interpretar a vontade de Deus na sua vida, vivendo na paz, na justiça e em comunhão com os homens seus irmãos e com as criaturas que o universo contém. Através das análises dos dados empíricos relevados nas escolas secundárias de Cabo Verde, abordaremos alguns aspectos respeitantes à experiência moral-religiosa e à interioriza- 11 Cf. Y. LAMBERT, Un regain religieux chez les jeunes d’Europe de l’Ouest et de l’Est, in O. GALLAND et ali. (Ed.) Les jeunes européens et leurs valeurs, Paris, La Découverte, 2005, pp. 63-93. 12 Cf. S. BASTANEL, Una opzione fondamentale di fede-carità, in G. COFFELE et al., (Ed.), Problemi morali dei giovani oggi, Roma, Las, 1990, pp. 65-79, p. 71. 388 ção dos valores, nomeadamente, a condição religiosa: pertença e crença dos estudantes; a socialização religiosa que abrange as atitudes e valores; e a experiência de fé e vivência moral dos alunos, como condições para a estruturação de um plano educativo e formativo que reflicta a vida moral, profissional e social dos alunos do Ensino Secundário. 1.1 A condição religiosa: pertença e crença dos estudantes Qualquer abordagem sobre a vivência social de um indivíduo deve ter em conta a sua posição moral-religiosa, espiritual, cultural e política. Também, um estudo educativo e formativo à volta dessa camada juvenil não poderia menosprezar a sua dimensão espiritual e pertença religiosa no contexto cabo-verdiano. De facto, uma análise que pondere todos os aspectos da vivência de um indivíduo estará em condições de proporcionar um conhecimento real da sua situação em todos os sentidos (positivos e menos positivos). Mediante os dados, é mais fácil projectar um plano educativo, que tenha por fim reforçar os aspectos positivos e melhorar os que apresentam lacunas na sua vivência e nas suas relações pessoais e interpessoais. 1.1.1 A pertença e a crença religiosa dos alunos O sentido de pertença a uma religião ou a uma seita religiosa, como também, o sentido da crença noutras modalidades de vida espiritual, não diminuem a pessoa humana, antes, pelo contrário, é algo que deve reforçar o seu ser religioso com firmeza e determinação desde que a pessoa seja educada segundo o espírito de tolerância, de justiça e de paz. O estudo sobre a pertença e crença religiosa dos estudantes cabo-verdianos mira, essencialmente, demonstrar às escolas secundárias do País e aos seus professores, que os alunos do Ensino Secundário têm o direito (embora sem a consciência disso), de ser apoiados na sua pertença à religião e à Igreja na qual professa a sua fé, de modo que possa viver a sua vida consoante os critérios morais da sua convicção e confissão religiosa. É importante que o Plano Curricular que contempla a “Formação Pessoal e Social” dos alunos do Ensino Secundário seja reestruturado segundo as reais necessidades e direitos dos alunos e não se conforme com as ideologias contidas na política educativa ou segundo o partido que conduz a governação da Nação. Analisando os inquéritos efectuados nas escolas secundárias de Cabo Verde, verificamos que uma maioria dos alunos (70,8%) pertence à Igreja Católica. De realçar também que 10,8% dos entrevistados pertencem a outras igrejas cristãs não católicas, e que dos 11,8% que não pertencem a nenhuma religião, apenas 3,8% pertences às seitas religiosas, havendo 389 2,6% dos alunos não responderam. Além dessa pertença pessoal, é bom que conheçamos, também, a pertença religiosa dos pais, sabendo que a família exerce um influxo não indiferente no comportamento dos filhos. Dos dados apurados, certificamos que 60,1% dos alunos indica que o Pai pertence à Igreja Católica, apenas 6,8% pertencem às outras igrejas cristãs não católicas. Além disso, é da salientar que 16,5% indicam que o pai não pertence a nenhuma religião. 12,7% não responderam, 1,2% pertencem à religião muçulmana e 2,8% pertence a seitas religiosas. Há uma percentagem elevadíssima de alunos (70,1%) declarando que a Mãe pertence à Igreja Católica; apenas 9,2% referem-se à Mãe como pertencente a outras igrejas não católicas; 10,4% a nenhuma religião; 3,8% as seitas. Somente 5,9% dos entrevistados não respondem (cf. Fig. 11). Fig. 11: A pertença religiosa dos alunos e seus respectivos pais (em %) Aluno Pai Mãe 80 70,8 70 60,1 70,1 60 50 40 30 20 10 12,7 2,6 10,8 5,9 6,8 16,5 11,8 10,4 9,2 3,9 2,8 0,2 1,2 0,5 3,8 0 Não resp Igreja Católica Igr. Não católica Rel. muçulmana Nenuma religião Outras seitas Através dos dados, verificamos que a maioria dos alunos que frequenta o Ensino Secundário declara a sua pertença à Igreja Católica. Nota-se algo de bastante tradicional, no sentido que os dados coincidem com os dos pais e, sobretudo, da Mãe. Através dos dados, podemos ainda discriminá-los segundo as faixas etárias e o sexo. Antes de tudo, a declaração dos alunos de 11-14 anos é um pouco menos elevada (63,8%), do que a de 15-16 anos (75,7%), e 17-21 anos (72,7%), ao passo, que o sexo feminino (72,7%), é relativamente mais elevada do que a do sexo masculino (68,4%). Também apuramos que há uma diferença relativa entre a pertença dos alunos segundo a profissão – posição económica – dos pais. De facto, 390 a pertença religiosa dos que têm pais com uma profissão Baixa (77,2%) é mais elevada dos que têm pais com profissão Alta (67,7%) e nível de profissão Média (62,5%) (cfr. Tab. 5). Tab. 5: A Pertença religiosa segundo idade, sexo e profissão dos pais (em %) Faixa etária Sexo Profissão dos pais Total 11-14 15-16 17-21 M F Alta Média Baixa Igreja Católica 70,8 63,8 75,7 72,7 68,4 72,7 67,7 62,5 77,2 Outras igrejas 29,2 36,2 24,3 27,3 31,6 27,3 32,3 37,5 22,8 Embora a pertença religiosa seja elevada no contexto social cabo-verdiano, não significa que a maioria frequenta ou pratica uma determinada religião. Antes, no acto prático prevalece sempre uma minoria da população que se considera praticante. E dessa minoria, a participação mais elevada é a classe baixa. Para termos uma ideia clara e evidente sobre a questão da crença em relação à prática religiosa dos estudantes e respectivos pais, é bom apresentarmos os dados que os descrevem segundo a sua condição religiosa: os que se declaram essencialmente crentes; os crentes não praticantes; os que estão em busca de fé; os que são indiferentes ou ateus e agnósticos. Antes de tudo, analisaremos os estudantes e seus pais como pessoas que, num certo modo, se consideram crentes-praticantes, e crentes-não-praticantes. De facto, no contexto sócio-eclesial de Cabo Verde predomina uma percentagem elevada de pessoas que se consideram crentes, mas sem um engajamento na vivência religiosa. Se excluirmos 24,2% dos que não responderam, identificaremos 25,8% que se consideram crentes-praticantes e 17,5% que se consideram crentes-não-praticantes. Na condição de crente-praticante, apuramos que os alunos do sexo Masculino (36,9%) são menos elevados do que os do sexo feminino (41,1%). E na condição de crente-não-praticante, os dados referente às meninas (11,3%) são ligeiramente inferiores aos referentes a rapazes (13,9%). E há uma percentagem não indiferente dos estudantes (20,2%) que anda à busca da fé. Isso significa que a sua frequência religiosa é irregular e vive numa situação ondulante de incerteza e de dúvida. Nessa condição nota-se uma diferença entre o sexo masculino (25,8%), menos elevado do que o sexo feminino (28,3%). Nesse grupo, também, assimilamos que 25,8% dos alunos declaram que o Pai é crente-praticante; outros (17,5%) afirmam que o pai é crente-não-praticante; e 20,2% que anda à busca da fé. Em relação ao pai, nota-se um estreito laço do aluno com o pai em termos de condição religiosa. E no que se refere à condição religiosa da Mãe, 36,3% dos alunos apontam que a mãe é crente-praticante; 14,2% atestam que a mãe é crente-não-praticante; e uma per- 391 centagem relativa dos alunos (24,1%) declara que a mãe anda em busca da fé. Verifica-se uma diferença relativa entre a condição da mãe e dos filhos alunos. Pode parecer que o pai influencia negativamente o filho, mas, no contexto social cabo-verdianos, há um outro factor que mostra que um número não indiferente dos filhos vive com a mãe e não com o pai. Um outro aspecto ligado à condição religiosa dos estudantes, embora seja insignificante, é a indiferença religiosa e o agnosticismo. Segundo os entrevistados, apenas 2,7% se consideram não-crentes e não-praticantes; 2,9% possuem uma atitude de indiferença em relação à religião; 1,8% acham que são ateus convictos. Entre os géneros, há uma ligeira prevalência dos os rapazes sobre as meninas. Essa condição é um pouco mais visível na pessoa do pai do que na pessoa da mãe. Ainda conforme os dados cruzados verificamos que 7% dos estudantes que se consideram não-crentes e não-praticantes têm pai que exerce uma profissão Alta na sociedade. Às vezes, certas atitudes e convicções são adquiridas através de relações e laços com figuras significativas (confere a tabela 6). Tab. 6: As condições religiosas dos alunos e seus pais (em %) Condição religiosa dos alunos Condição religiosa dos pais Aluno M F Pai Mãe Crente e praticante 24,2 36,9 41,1 25,8 36,3 Crente e não praticante 17,5 13,9 11,3 17,5 14,2 À procura da fé 20,2 25,8 28,3 20,2 24,1 Não crente e não praticante 2,7 3,4 2,1 4,9 2,9 Indiferente a qualquer religião 2,9 3,9 1,9 3,9 3,0 Ateu convicto 1,8 2,6 1,1 2,4 2,1 Outro 1,2 1,5 1,1 1,2 1,0 Não respondido 12,7 12,0 13,1 24,2 16,4 Reorganizando os dados, pode-se concluir que as situações religiosas dos estudantes que frequentam o Ensino Secundário de Cabo Verde podem ser resumidos em três aspectos essenciais que, também retractam o mundo juvenil dos cabo-verdianos, em geral (confere a figura 12). A condição religiosa dos estudantes retracta, no campo espiritual, a diversidade de sensibilidade existente e que precisa ser encorajada e apoiada pelos professores e educadores, a fim de que os alunos encontrem um verdadeiro sentido da vida e a razão de ser e de existir neste mundo. Às vezes, os problemas emocionais ou psico-afectivos e sociais que afectam a juventude deparam com o vazio existencial da sua dimensão espiritual. Isso está patente nas referidas atitudes de “indiferença religiosa” e ‘busca da fé” como condições que precisam de 392 orientação e de formação para que os estudantes se tornem conscientes da sua real existência enquanto seres eminentemente transcendentais e espirituais. Fig. 12: As condições religiosas dos alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (em %) À procura da fé 26,9 Indiferente-ateu 20,9 Crente praticante 39,5 Não resp. 12,7 0 10 20 30 40 50 Ser crente na sociedade é, antes de tudo, uma forma de situar-se para compreender o mundo circundante e compreender-se a si mesmo e, em segundo lugar, põe a pessoa em condições morais de avaliar as suas relações pessoais, os seus comportamentos e problemas; enfim, é capaz de ajudar a elaborar uma hierarquia de valores que orienta a sua escolha, o seu juízo moral e determina as suas decisões13. Então, os adolescentes e os jovens estudantes poderão superar progressivamente as suas inquietações existenciais que se manifestam, muitas vezes, na instabilidade comportamental, na incerteza decisiva e no obscuro senso de perspectiva humana, profissional, social e espiritual. 1.1.2 A crença natural-supersticiosa-trascendental Além da crença religiosa, vista numa perspectiva comunitária ou colectiva segundo as tradições institucionais e familiares, é justo que se faça uma abordagem para compreender o tipo de crença popular e a interiorização do conhecimento da dimensão transcendental do ser humano depois da morte por parte dos estudantes adolescentes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Não basta especular sobre o nível de credulidade e dar um juízo temerário ou menosprezar aquilo que os alunos têm como interessante e expressivo na sua vida. O que é preciso fazer, antes de tudo, é alargar o nível de conhecimento dos alunos e demonstrar as 13 Idem., p. 72. 393 razões e os porquês de cada posição, seja ela de natureza astrológica e supersticiosa ou seja de natureza transcendental e de fé. Tentaremos na última parte retomar esse aspecto para ajudar os alunos a compreender o verdadeiro sentido e o significado apresentando conteúdos pedagógicos e educativos para que eles possam ter uma ideia correcta daquilo que se deve acreditar ou não como algo de fé, de natural e de superstição. Para isso, precisamos conhecer o nível de crença dos estudantes no que tange à influência de astrologia e de cartomancia; a crença supersticiosa no espiritismo – reincarnação; e crença na existência das realidades transcendentais que envolvem a vida humana depois da morte. De notar que muitos desses fenómenos são utilizados como forma de exploração económica, depauperando os desprevenidos, sendo, por conseguinte, meios moralmente ilícitos que devem ser controlados e corrigidos mediante a consciencialização moral e religiosa dos estudantes nas escolas secundárias e noutras instituições educativas. 1.1.2.1 As crenças na astrologia, cartomancia e superstição Primeiramente, analisamos os dados que reflectem a forma como os estudantes encaram os objectos que fazem ligações com o seu temperamento e carácter, e como prever o futuro. Trata-se de crença na influência dos seres, dos astros e da cartomancia na vida dos seres humanos. Partindo dos dados apurados, destacamos, antes de tudo, a crença no horóscopo que pode ter um significado para a vivência humana e sobretudo sentimental dos alunos do Ensino Secundário, como um signo que interpreta o seu estado emocional e as suas expectativas em relação à vida futura. Verificamos que 27,7% dos entrevistados acreditam no horóscopo, havendo uma diferença entre os sexos, em que as meninas (30,8%) acreditam nos signos mais do que os rapazes (24%). Verificamos igualmente que 25,4% não acreditam. 38,5% não têm opinião e 8,4% não responderam. Partindo do princípio que o ser humano é um microcosmo inserido num macrocosmo, a influência do universo celeste é algo quase natural. Daí uma certa interacção baseada sobre a influência do ciclo astrológico na existência do ser humano. Conforme a interpretação de que as posições planetárias representam ou espelham os símbolos daquilo que ocorre na terra, a nível individual e colectivo, é bom que se verifique o tipo de crença na astrologia segundo os estudantes. Conforme os dados, 26,6% dos alunos acreditam na astrologia; 23,3% não acredita. Há sempre uma percentagem consistente (38,5%) dos que não têm opinião, excluindo-se 11,6% que não quiseram pronunciar-se. Nesse tipo de crença verifica-se que os 394 alunos do sexo masculino acreditam mais na astrologia (31,1%) do que os do sexo feminino (21,8%). Uma outra crença popular, difusa na mentalidade cabo-verdiana, tem a ver com a utilização do baralho – cartas de jogo – para a prática divinatória, conhecida como cartomancia. Sobre a crença na cartomancia, verificamos que apenas 8,9% dos estudantes acreditam nessa prática, e que 33,7% não acreditam, havendo uma percentagem elevada de 41,9% de alunos sem opinião. 15,5% não responderam. Entre os sexos não há uma diferença substancial. Uma segunda componente que mexe bastante com o psiquismo ou com a vivência espiritual e social das pessoas no contexto social cabo-verdiano é a crença supersticiosa, isto é, a crença na força espiritista do bem e do mal, interligada com a magia branca e a magia negra, o mau olhar, a força comunicativa com os espíritos dos defuntos e a reincarnação dos espíritos nas pessoas e nos animais, um conjunto de fenómenos que mexe com a sensibilidade popular. Muitas dessas crenças podem encontrar a sua explicação quer no uso que os “curandeiros” ou “jabacouces” fazem das ervas, quer na manipulação da dimensão psíquica das pessoas. Embora saibamos que se trata de crenças populares enraizadas na cultura ancestrais dos antepassados, o conhecimento do grau dessa credulidade no seio dos estudantes torna-se uma exigência pedagógica e educativa como necessidade de esclarecer e interpretar a sua posição segundo uma ordem racional e lógica da fé e da ciência, para que o comportamento moral seja livre e isento de suposições e preconceitos. Falemos, antes de tudo, do fenómeno de feitiçaria ou bruxaria. Trata-se de uma tradição ligada a elementos culturais herdados das etnias africanas, conforme já foi evidenciado na I Parte deste estudo. Analisando as opiniões dos estudantes, verificamos que 24,3% acreditam nessa modalidade e uma maioria (53%) não acredita. Apenas 16,4% não têm opinião, sendo que 6,2% não opinaram sobre isso. Embora não seja muito relevante, o sexo masculino (21,9%) acredita menos do que o feminino (26,9%) nessa crença supersticiosa. Sempre nessa linha de suposição ou de preconceito sobre a feitiçaria, há uma outra expressão que caracteriza um certo mal-estar psicológico, isto é, a crença no mau-olhado ou quebranto. Para se defenderem desse fenómeno imaginário, as pessoas costumam confeccionar saquinhos – totem – com determinados conteúdos (ervas, cânfora, mensagem) que serve de protecção. É bastante sintomático que 36,3% dos estudantes dizem acreditar nesse gesto popular. Entretanto, 40,7% dos alunos não acreditam; 15,7% não tem opinião e 7,3% dos entrevistados não responderam. A diferença entre os sexos não é expressiva, sendo que as meninas (37,7%) são ligeiramente mais elevadas do que os rapazes (35%). Segundo a mentalidade cabo-verdiana, o fenómeno de feitiçaria é entendida como uma espécie de “magia negra” que se diferencia do fenómeno de “magia branca” considerada 395 benéfica e exibida publicamente durante os espectáculos. Também a acerca deste (magia branca), os alunos foram interpelados a se pronunciarem, tendo resultado que 25,3% dos que foram entrevistados acreditam nessa modalidade de crença, ao passo, que 48,2% não acreditam. Entre os outros alunos, destacamos 18,9% que não têm opinião e 7,6% que não quiseram exprimir-se. Nesse tipo de crença, a diferença entre os géneros é irrelevante. Entre as outras crenças populares e, fortemente apoiadas por seitas religiosas, topamos com os fenómenos do “espiritismo” e da “reincarnação”. Antes de tudo, o espiritismo é uma filosofia bastante divulgada pelo “Racionalismo cristão” que se encontra nalgumas ilhas de Cabo Verde. Embora seja uma seita aberta ao público, a secção (culto) é muito marcada pelo secretismo. As sessões têm sempre lugar à noite, com a participação do médium. Durante as sessões, os espíritos comunicam com os presentes. Os estudantes que acreditam nessa expressão religiosa (38,5%) são relativamente mais elevados dos que não acreditam (30,8%). Somente 21,8% dos entrevistados não têm opinião, havendo uma percentagem de 8,8% que não se manifestou. No que se refere aos géneros, é de salientar que o sexo masculino (40,4%) é mais elevado do que o sexo feminino (36,5%). Tab. 7a: A crença: natural e supersticiosa (em %) Não Resp. Acredito Não acredito Sem opinião No horóscopo 8,4 27,7 25,4 38,5 Na astrologia 11,6 26,6 23,3 38,5 Na cartomancia 15,5 8,9 33,7 41,9 Na feitiçaria 6,2 24,3 53,0 16,4 No mau olhar 7,3 36,3 40,7 15,7 Na magia 7,6 25,3 48,2 18,9 No espiritismo 8,8 38,5 30,8 21,8 Na reencarnação 11,6 23,3 38,8 26,4 Quanto ao fenómeno da reincarnação dos espíritos nas pessoas e nos animais, além de ser uma reminiscência do pensamento popular ligada ao conceito de animismo adquirido através das culturas africanas, verifica-se que, actualmente, essa doutrina está sendo divulgada em Cabo Verde pela seita das “Testemunhas de Jeová”, os quais, acreditam que as almas reincarnam-se no fim dos tempos. Dos alunos que foram entrevistados a propósito desse fenómeno, os que acreditam (23,3%) são menos dos que não acreditam (38,8%). Entre os outros (26,4%) são sem opinião e (11,6%) não responderam à questão. No que toca aos géneros, a diferença não é muito expressiva, havendo uma ligeira prevalência das meninas (24,4%) sobre os rapazes (21,7%), confere Tabelas. 7a e 7b. 396 Tab. 7b: Crença: natural e supersticiosa segundo o sexo dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde (em %) Não Resp. Acredito Não acredito Sem opinião M F M F M F M F No horóscopo 8,6 8,3 24,0 30,0 28,1 22,7 39.3 38,2 Na astrologia 9,7 13,5 31,1 21,8 23,8 23,0 35,4 41,8 Na cartomancia 14,2 16,5 8,2 9,6 35,2 32,4 42,3 41,6 Na feitiçaria 6,9 5,7 21,9 26,9 54,7 51,5 16,5 15,9 No mau olhar 7,7 7,1 35,0 37,7 42,5 39,3 14,8 15,9 Na magia 6,7 8,5 25,7 24,8 48,3 47,6 19,3 19,1 No espiritismo 6,7 10,6 40,4 36,5 29,4 22,7 23,4 20,2 Na reencarnação 11,6 11,5 21,7 24,4 40,1 38,1 26, 26,0 1.1.2.2 A crença transcendental Há um último grupo de questões que se enquadram dentro daquilo a que chamamos crença na existência das realidades transcendentais que tem a ver com a vida humana depois da morte: Inferno, Purgatório, Paraíso e a existência do diabo. O que leva nestas questões, não é a simples autoridade de uma religião qualquer, mas a crença subjectiva e objectiva dos alunos, como sujeitos com direito de expressar e de conhecer os fundamentos doutrinais daquilo que sabem e conhecem, assim como daquilo de cuja existência não têm consciência. Analisando os dados sobre algumas crenças supersticiosas, nomeadamente, a feitiçaria ou a magia negra, é fácil entender que por detrás disso reina o espírito satânico ou diabólico. Uma percepção natural ou humana de algo de natureza espiritual que é mau, enganador e destruidor é, certamente, familiar aos estudantes. É nessa perspectiva existencial que entendemos conhecer a opinião dos alunos sobre a crença no Diabo. Embora saibamos que nem todos têm um conhecimento doutrinal e, muitas vezes, são inclinados a compreender só aquilo que é evidente, material e palpável, procuraremos esclarecer o conceito no seu devido lugar. Entretanto, é bom que evidenciemos os dados que revelam essa crença. Antes de tudo, verificamos que 29,4% dos alunos acreditam na existência do diabo, uma minoria, se comparados aos que não acreditam (45,9%); dos outros evidenciamos que 18,8% dos estudantes não têm opinião e que 5,9% não deram nenhum a esse respeito. Nota-se uma diferença relativa entre o sexo masculino (25,8%) e o ao sexo feminino (32,9%). Os dados que reflectem a crença na existência transcendental do Inferno, visto como condição de condenação após a morte do ser humano, demonstram que 37,8% dos alunos acreditam nessa modalidade de fé cristã e que 37,5% dos entrevistados declaram que não 397 acreditam, havendo também18,4% dos alunos que não têm opinião e 6,2% que se omitiram. Nessa crença, a diferença entre os sexos não é consistente: os rapazes que acreditam são 36,5%, enquanto que a percentagem das meninas é levemente mais alta (38,4%). Uma outra condição transcendental de vida após a morte é a crença na existência do Purgatório em que as almas dos seres humanos se purificam antes de entrar definitivamente no Reino de Deus. Os dados revelam que os estudantes têm a noção do que significa essa condição de vida após a morte corporal. Mais concretamente, 26,1% dos alunos acreditam na existência do Purgatório e 26,9% não acreditam. Os alunos sem opinião (34,7%) são mais elevados dos que se exprimiram, sendo que 12,3% não quiseram opinar. A diferença entre os géneros não é consistente. A crença na existência transcendental do Paraíso, como condição que exprime a plena e eterna felicidade do ser humano com Deus depois da morte, parece ser a realidade com a qual os alunos se sentem mais familiarizados. Isso está bem patente na maneira como 66,4% dos alunos acreditam nessa dimensão beatífica das almas. Apenas 14,2% dos entrevistados manifestam a sua incredulidade perante a existência do Paraíso, ao passo que 12,9% não têm opinião e 6,5% não opinam sobre o caso. Em relação aos sexos, verificamos que o número de meninas que acreditam (68,7%) é superior ao dos rapazes (64%) conforme se pode ver nas Tabs. 7c e 7d. Tab. 7c: A crença transcendental dos estudantes (em %) Não Resp. Acredito Não acredito Sem opinião No diabo 5,9 29,4 45,9 18,8 No inferno 6,2 37,8 37,5 18,4 No purgatório 12,3 26,1 26,9 34,7 No paraíso 6,5 66,4 14,2 12,9 Das análises dos dados, verificamos que a crença na influência de seres naturais, astros e cartomancia é pouco mais de ¼ e reflecte a mentalidade comum dos jovens e adultos da sociedade cabo-verdiana. Sobre essa modalidade (crença na influência dos objectos naturais na vida psíquica do ser humano), os alunos têm o direito de ser ajudados a compreender a necessidade e o mecanismo psicológico e biológico que está por detrás dessas doutrinas ligadas ao mundo natural. Embora os que acreditam sejam uma minoria relativa, a formação da consciência moral sobre os motivos e os porquês dessa crença, não crença e outras atitudes deve dada a todos os alunos. É importante que todos tenham um conhecimento crítico e objectivo sobre essa “crença natural”. 398 Tab. 7d: A crença transcendental segundo o sexo dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde (em %) Não Resp. Acredito Não acredito Sem opinião M F M F M F M F No diabo 5,1 6,5 25,8 32,9 47,6 44,1 21,5 16,5 No inferno 6,0 6,5 36,1 39,3 36,5 38,4 21,3 15,8 No purgatório 11,0 13,1 26,0 26,9 27,9 25,7 35,0 34,3 No paraíso 5,2 7,6 64,0 68,7 15,7 13,1 15,0 10,6 O núcleo que pode afectar não só a vida psíquica do indivíduo, mas também a sua vida moral, é a “crença supersticiosa” nas diversas manifestações que interpretam o desequilíbrio humano como intervenção dos espíritos malignos. Não se pretende fazer um juízo sobre essa modalidade comportamental que existe na mente dos cabo-verdianos e segundo a qual os distúrbios psíquicos são atribuídos a fenómenos de natureza satânica ou diabólica, mas sim mostrar a necessidade de uma educação e formação moral capaz de consciencializar os alunos sobre a necessidade de uma maior investigação e compreensão daquilo que a religião ensina como factor chave e indispensável para não ceder às crenças com base na superstição. Os dados sobre a crença na existência das realidades transcendentais não revelam, objectivamente, aquilo que os alunos sabem ou têm a consciência do sentido e do significado que essas realidades exprimem do ponto de vista antropológico e teológico. Além de acreditar ou não sobre as condições analisadas, emerge a necessidade de uma formação doutrinal e catequética para que os adolescentes conheçam as razões profundas das realidades transcendentais que, num certo sentido, são as metas que devem definir e orientar as opções pessoais e os comportamentos humanos, morais e religiosos. Os estádios da vida transcendental são caracterizados, essencialmente, pela forma como se vive aqui e agora. Entretanto, ajudaremos os alunos a ter uma melhor compreensão dessas realidades mais a frente, independentemente da sua crença ou não. Isso pressupõe um conhecimento do tipo de socialização religiosa assimilada ou interiorizada através da catequese, da cultura e vivência familiar. 1.2 A socialização cristã dos alunos: atitudes e valores Durante longos anos, a Igreja Católica com as suas várias paróquias e centros de acolhimento educacional foi considerada a única instituição que desempenhava um papel cultural, desportivo e recreativo no seio da camada juvenil. Para além da formação cristã e humana, baseada essencialmente na moralidade e no civismo, os jovens aprendiam um conjunto de 399 acções recreativas e profissionais com os agentes da referida igreja. Se partirmos do princípio de que mais de dois terços da população pertencem à Igreja Católica, deduziremos que a maioria da população teve uma formação cristã inicial, ao menos na sua infância. Portanto, é justo que se faça uma abordagem analítica sobre a socialização religiosa dos alunos para podermos compreender a forma como conseguiram interiorizar as atitudes e os valores que são essenciais para a orientação das suas relações pessoais e interpessoais e dos seus comportamentos morais. Apesar desse impulso cultural implementado pela Igreja, é do conhecimento de todos que no tempo actual, com o aparecimento de meios de diversão e grupos que se autoorganizam, as igrejas não são mais as únicas agências de formação e de educação dos grupos juvenis, ou seja, não constituem mais o campo exclusivo da socialização da juventude. Por outro lado, as escolas e outras agências educativas presentes na sociedade, não podem excluir as igrejas como parceira no processo do desenvolvimento humano, espiritual e moral dos adolescentes e jovens. Entretanto, seria bom que todos compreendessem que as igrejas não são ambientes periféricos na sociedade, mas sim espaços suficientemente credíveis, interactivos e abertos a colaborar com pessoas, famílias e demais instituições que se ocupam dos adolescentes e jovens na fase do seu crescimento e, por conseguinte, têm como tarefa a sua socialização religiosa14 que nenhuma outra instituição estaria vocacionada para desempenhar. Apesar de formação cristã inicial que os alunos tiveram na sua infância, os dados que foram apontados, anteriormente, revelam que a crença juvenil é bastante superficial no que concerne ao conhecimento de doutrina e de fé cristã. Além de terem pouco conhecimento, os adolescentes estudantes são pouco propensos a reflectir sobre os assuntos especulativos que exigem esforço racional e adesão pessoal para a tal compreensão. Além desse factor eminente nas atitudes dos estudantes cabo-verdianos, acrescentamos, ainda, que o advento da secularização e a difusão da ideologia marxista – anti-religião – nas escolas secundárias contribuíram para que os adolescentes estudantes se sentissem menos motivados e inclinados à educação religiosa e cristã. Não obstante essa contracorrente a nível social e cultural e as dificuldades na compreensão das verdades religiosas, apontaremos um conjunto de noções que comprovam a forma como os estudantes conseguiram interiorizar certos princípios básicos cristãos para a sua orientação moral na vida social e familiar. Os dados recolhidos revelam que 26,9% dos alunos andam “à procura da fé”, o que demonstra que há, de facto, uma necessidade notável de os esclarecer. Antes, são os próprios 14 Cf. F. GARELLI et ali, La socializzazione flessibile. Identità e trasmissione dei valori tra i giovani, Bologna, Il Mulino, 2006, p. 125. 400 estudantes a apontar as razões das suas dúvidas de fé após a primeira fase da sua socialização religiosa. De facto, 22,7% declaram que essa situação deve-se, antes de tudo, à carência de conhecimento de certas verdades religiosas, e 6,1% indicam a falta de formação. Nisso, a diferença entre as faixas etárias e sexos são insignificantes. Embora 29,1% não respondam à questão, constatamos que 25,3% dos entrevistados não duvidam da sua própria fé, com uma diferença substancial entre o sexo masculino (20,6%) e o sexo feminino (30,3%). As outras variáveis que interferiram na fé dos estudantes adolescentes do Ensino Secundário não são muito consistentes (cfr. Tab. 8). Tab. 8: As variáveis que interferiram na fé dos estudantes do Ensino Secundário (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Dificuldade de compreender verdades religiosas 22,7 20,7 23,8 23,4 23,6 22,3 Falta de formação e doutrina de base 6,1 5,8 6,7 5,9 6,9 5,3 Não cumprimento de obrigações morais 1,8 1,5 2,2 1,7 0,9 2,7 Experiência negativa na família 1,7 3,2 1,2 0,6 2,1 1,4 Influência de certas disciplinas escolares 3,0 5,8 1,7 2,0 2,8 3,2 Mau comportamento dos agentes da Igreja 3,6 2,0 2,7 6,2 4,5 2,8 Modo de pensar dos companheiros 4,5 6,7 3,7 3,1 6,0 2,8 Não duvido 25,3 24,8 24,3 27,3 20,6 30,3 Outro: 2,1 2,3 1,7 2,5 2,6 1,4 Não respondido 29,1 27,1 31,8 27,3 30,0 27,8 Para essa camada parcial de alunos que apontam as reais dificuldades que lhes impedem de aprofundar a sua fé ou os leva a viver numa situação de dúvida, surge a necessidade de colmatar essa lacuna no campo formativo cristão e humano, como condição moral e psicológica para melhor viver a sua crença com a consciência de quem sabe e compreende as razões das suas atitudes e seus comportamentos humanos e religiosos. É importante que as escolas secundárias e seus agentes saibam que a formação cristã não diminui nem atrapalha o conhecimento que os alunos adquirem paulatinamente através das ciências humanas, sociais e técnicas, mas contribui para que a sua formação humana e social seja vivida com coerência e congruência, segundo os princípios morais que são ensinados, religiosamente, pelas igrejas e pelas famílias. Certas interferências na vida espiritual e moral dos alunos por parte dos professores de algumas disciplinas (biologia, história, filosofia, psicologia) põem em causa não só o conhecimento adquirido mediante a socialização, como também, a própria estrutura valorativa da família e da igreja. 401 Em termos de informação cristã e moral, os estudantes não estão desprevenidos, talvez, o que se deveria fazer é ajudá-los na interiorização de tudo aquilo que aprenderam durante a sua infância, ou seja, durante a fase que decorre dos 5-12 anos de idade. E para que os estudantes tenham uma efectiva orientação nesse sentido, é necessário, antes de tudo, que os educadores e professores conheçam as atitudes humanas e cristãs, as rectas ideias ligadas à fé dos alunos e a importância dos valores que eles adquiriram, interiorizaram e assimilaram na sua igreja e na sua família, durante o seu processo de socialização. 1.2.1 A aquisição das atitudes humanas e cristãs Os adolescentes estudantes que frequentam o Ensino Secundário são sujeitos que, num certo sentido, já adquiriram determinadas atitudes comportamentais durante a primeira etapa do seu desenvolvimento (infância), através da família, da igreja e da escola básica. Aliás, a maioria dos adolescentes tiveram a oportunidade de socializar-se do ponto de vista cristão e religioso. Portanto, não é justo que essa dimensão seja negligenciada e menosprezada pelo sistema do Ensino Educativo. Antes, o seu ingresso num novo subsistema escolar deve contribuir para que a nova etapa do seu crescimento tenha a continuidade progressiva em todos os aspectos: humano, espiritual e moral. Para que o acompanhamento moral, pessoalprofissional e social dos alunos seja realmente um acto educativo, é necessário conhecer o nível de aquisição das atitudes humanas e cristãs que eles tiveram durante o processo da sua socialização, através das diversas instituições educativas. Às vezes, a própria dificuldade no campo educativo e formativo deve-se à falta dessa pré-compreensão como factor preliminar para a instauração de uma relação interpessoal, moralmente correcta, com os alunos. É de capital importância que todos os professores pensem nisso como elemento base para uma educação integral e uma instrução efectiva. A família é o ambiente no qual os adolescentes e jovens adquirem as suas atitudes comportamentais do ponto de vista humano e cristão. Portanto, é correcto que analisemos algumas atitudes humanas e cristãs dos estudantes cabo-verdianos com o intuito de perceber o nível de qualidade informativa que os alunos têm e que poderá servir como base sobre a qual implementar um plano de estudo que contemple a sua formação moral, especialmente a formação do carácter e do temperamento, como condição para poder estabelecer boas relações interpessoais, sobretudo no campo profissional e social. De acordo com os dados apurados, é possível identificar um conjunto de atitudes comportamentais que os alunos aprenderam na sua respectiva família. E do ponto de vista relacional, essas atitudes podem ser caracterizadas como de carácter pessoal, altruísticas e evangélica-cristãs. 402 Em primeiro lugar, enquadramos as atitudes que os alunos aprenderam mediante a sua socialização humana e cristã na família e na igreja, como um modo de ser e viver, e que são consideradas como “atitudes de carácter pessoal” que servem como critérios básicos para a definição e orientação da sua moralidade. Se os seus comportamentos não estiverem em consonância ou de acordo com essas atitudes, significa que há incoerência e incongruência do ponto de vista moral. Sobre essas atitudes pessoais, 87,1% apontam que aprenderam a viver com honestidade como condição indispensável para suscitar confiança e credibilidade a seu respeito. Não há diferença consistente entre os sexos, no que toca a esta atitude. Mas, no que se refere à profissão dos pais (posição social), verifica-se uma diferença relativa, em que os alunos com pais de nível baixo (82,5%) adquiriram menos essa atitude do que aos alunos com pais de nível médio (91,4%) e de nível alto (91,1%). Numa sociedade fortemente marcada pela luta de sobrevivência e com fracos recursos materiais para uma economia razoável, facilmente os adolescentes estudantes acabam por absorver uma outra atitude condizente com o estilo de viver cabo-verdiano. De facto, 49,2% dos alunos admitem que aprenderam a lidar na vida com todos os meios possíveis na sua família. É a própria condição socio-económica das ilhas em via do desenvolvimento que induz os seus habitantes a exercerem muitas actividades com fins lucrativos a fim de poderem sobreviver mesmo sem uma profissionalização numa determinada área específica. Há diferenças na aprendizagem dessa atitude, quer a nível do género, em que o sexo masculino (53,7%) é relativamente mais elevado do que o sexo feminino (44,6%), quer em relação à condição económica e social dos pais, em que os alunos com pais de profissão alta (53,3%) são um pouco mais elevados dos que têm pais com profissão média (50,3%) e baixa (46,6%). Poderia até ser contrário, visto que os filhos de pais com uma posição alta têm mais possibilidade de intervir, de agir e de se impor no meio ambiente do que os outros com a posição média-baixa. A atitude de autonomia é mais uma componente que caracteriza a vivência de muitos adolescentes estudantes cabo-verdianos. Como foi evidenciado na análise descritiva do contexto educativo, precisamente no parágrafo sobre a educação formal e informal no ensino de Cabo Verde, as crianças em idade escolar participam muito nos afazeres domésticos. Trata-se de algo que pode explicar essa atitude de autonomia na acção e decisão. Dos alunos foram entrevistados, 44,3% adquiriram essa atitude na família. Há uma unanimidade entre os alunos adolescentes de pais com uma posição profissional baixa (45,6%), alta (44,7%) e média (44,1%). Assim como não há diferença relevante entre os géneros. Isso demonstra que todos têm na família um papel específico, de acordo com as suas funções e características. Sempre nessa linha de autonomia, os alunos revelaram uma outra atitude: ser original e criativo. As crianças cabo-verdianas sempre aprenderam, pessoalmente ou com os 403 membros da família, a confeccionar os próprios brinquedos e outras actividades de modo criativo. 33,2% dos estudantes entrevistados falam dessa essa atitude adquirida no seio da família. Os dados revelam uma diferença relativa entre o sexo masculino (37,5%) e o sexo feminino (29,4). Também essa atitude é mais evidente nos alunos que têm pais com uma profissão alta (37%) do que nos de pais de profissão média (35,2%) e de profissão baixa (29,6%). A vida moral, uma das atitudes fundamentais é o sentido da responsabilidade e liberdade. Dos alunos que foram inquiridos, 51,3% admitem que essa atitude foi adquirida na própria família (não havendo diferença substancial entre os sexos), ao passo que os alunos de pais com profissão alta (55,6%) e média (55,6%) são um pouco mais elevados do que os alunos de pais com profissão baixa (47%). Entre as atitudes pessoais e interpessoais, os alunos foram interpelados a se pronunciarem sobre uma atitude menos altruística, isto é, cada um por si Deus por todos. De facto, é pouco relevante na mentalidade dos cabo-verdianos essa atitude egoística. Entretanto, 9,5% dos entrevistados admitem ter adquirido essa forma de pensar e de se comportar com os outros. A nível dos sexos, essa diferença é irrelevante, mas os alunos de pais com profissão baixa (14,4%) são mais elevados do que os de pais com profissão alta (3,9%) e profissão média (6,9%). Em segundo lugar, temos as atitudes adquiridas pelos alunos na família, caracterizadas como “atitudes altruísticas” e como condição moral que induz os alunos a estabelecerem relações de tolerância, respeito e solidariedade para com os seus semelhantes. Segundo os dados, 71,5% dos alunos afirmam ter adquirido a atitude de tolerância e respeito para com os outros. Trata-se de uma atitude que sempre manteve um certo equilíbrio entre as gerações. A diferença percentual não é consistente entre os géneros e entre os alunos com pais de nível profissional diferente. Uma outra componente moral indicada pelos alunos e que espelha esse tipo de atitude é a solidariedade e o serviço do próximo. Dos alunos que foram entrevistados, 37% declaram ter adquirido essa atitude na família. Embora não seja relevante, há uma diferença entre o sexo masculino (34,3%) e o sexo feminino que apresenta uma percentagem mais elevada (39%). Os alunos com pais de posição profissional média (41,1%) são mais elevados do que os de pais com profissão alta (35%) e baixa (34,5%). Além dessas atitudes que mostram o valor da moralidade, salientamos outras que estão relacionadas com a vivência religiosa, que, segundo os alunos, são adquiridas através da família e que fazem parte do processo da sua socialização cristã. Trata-se, eminentemente, de “atitudes evangélicas ou cristãs”. Como verificámos anteriormente, 39,5% dos estudantes são crentes praticantes e, por conseguinte, os dados que apontam que a prática de religião 404 (42,4%) são uma atitude adquirida na família e tem a sua confirmação. A diferença entre os alunos de sexo masculino (40,3%) e de sexo feminino (43,2%) é pouco expressiva, ao passo que a diferença é mais saliente entre os alunos de pais com uma posição profissional baixa (50,7%), percentagem bastante elevada em relação aos alunos de pais com profissão média (32,9%) e alta (37,7%). Sempre nesta perspectiva, um outro elemento que descreve essa atitude evangélica aprendida na família é amar a Deus e ao próximo (75,6%). Trata-se duma condição básica que dá sentido à vida moral e à fé do crente. Dos que foram entrevistados, 72,7% são do sexo masculino, numero relativamente inferior ao do sexo feminino (78,1%). A posição social baixa (81,3%) prevalece dos prevalece sobre a alta (73,2%) e a média (70,4%). De facto, a inclinação para prática religiosa em Cabo Verde está mais presente na classe baixa e na categoria feminina do que nos nas outras classes e na camada masculina (cf. Tab. 9). Tab. 9: A aquisição das atitudes segundo e sexo e profissão social dos pais (em %) Atitudes dos alunos Profissão social dos pais Total M F Alta Média Baixa Viver com honestidade 87,1 86,7 88,0 91,1 91,4 82,5 Saber lidar na vida 49,2 53,7 44,6 53,3 50,3 46,6 Autonomia na própria decisão 44,3 44,2 45,5 44,7 44,1 45,6 Ser original e criativo 33,2 37,5 29,4 37,0 35,2 29,6 Sentido de responsabilidade 51,3 51,9 51,0 55,6 55,6 47,0 Cada um por si Deus por todos 9,5 10,1 8,2 3,9 6,9 14,4 Tolerância e respeito para todos 71,5 70,4 72,7 73,2 72,0 70,4 Ser solidário com o próximo 37,0 34,3 39,8 35,0 41,1 34,5 Praticar a religião 42,4 40,3 43,2 37,7 32,9 50,7 Amar a Deus e ao próximo 75,6 72,7 78,1 73,2 70,4 81,3 Outro 2,1 2,2 2,1 2,3 2,6 1,8 Não respondido 0,6 0,7 0,5 0,4 1,3 0,2 Duma forma geral, os dados sobre as atitudes assimiladas nas famílias pelos estudantes do Ensino Secundário demonstram, claramente, que os alunos têm a consciência dos aspectos positivos presentes nas suas respectivas famílias e das qualidades fundamentais para a condução de uma vida moralmente correcta. Isso está bem patente nas atitudes éticovalorativas: honestidade, solidariedade e responsabilidade. Além desse fundamento natural da moral de vida humana, os estudantes sabem que a consciência moral não depende somente da relação horizontal, mas, também, da visão transcendental que deve nortear toda a vida do ser humano. Isso está patente na forma como quiseram expressar o sentido do amor a Deus e ao 405 próximo e a prática da religião como expressão efectiva de manifestação da sua própria fé em Deus. Portanto, as atitudes de carácter pessoal, altruístico e cristão que foram analisadas, são antes de tudo, condições basilares que revelam as disposições presentes nos alunos, os quais, estão abertos a assimilar propostas educativas para a sua orientação e formação moralcristã. Daí a necessidade de recuperar ou de resgatar os valores éticos e cristãos para um maior engajamento dos estudantes do Ensino Secundário na condução da sua própria vida, com sentido moral e segundo as suas convicções e princípios cívicos e religiosos. 1.2.2 A interiorização das ideias associadas à Fé cristã De acordo com os dados pesquisados no campo em que se encontram inseridos os alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, verificamos que eles não estão desprovidos das ideias associadas à sua fé cristã e nem, tanto menos, das ideias que exprimem a moralidade pessoal, social e religiosa. Estes pressupostos levam a concluir que as escolas secundárias do país e seus respectivos professores estão perante uma realidade humana e cristã que merece ser cultivada, esclarecida e preservada. Ensinar e educar os alunos não significam eliminar as vivências pessoais, culturais, religiosas e sociais por eles interiorizadas desde o seu nascimento, mediante o processo de socialização. Talvez tenha acontecido esse atropelamento durante o acto educativo, aliás é um erro pedagógico no ensino escolar não cuidar da vivência e a da experiência moral e religiosa dos alunos. Além da transmissão dos conteúdos das disciplinas escolares pelos professores com responsabilidade e seriedade, a questão moral e educativa que está por detrás de cada disciplina, método, técnica e estratégia, exige que os professores conheçam as experiências e vivências pessoais, os valores éticos e religiosos interiorizados pelos seus alunos. No campo educativo não interessa tanto aquilo que o educador sabe e conhece, mas sobretudo aquilo que o educando pensa e experimenta no seu contexto de vida real, para ser acompanhado e orientado com critérios éticos e princípios morais. O ensino escolar dos alunos (aspecto intelectual) não está desvinculado dos outros aspectos do acto educativo da pessoa do educando na sua totalidade. É importante que os educadores saibam que o processo de crescimento moral e 406 religioso do educando caminha a par e passo com o processo do desenvolvimento físico e intelectual do mesmo educando no seu todo15. O modo como os alunos relacionam os conceitos e os pensamentos com a ideia de fé, justifica, em parte, a sua forma de conhecer algumas realidades com a dimensão, essencialmente, religiosa. Analisaremos alguns aspectos para demonstrar que os alunos têm a noção de uma fé com a dimensão transcendental, existencial e vivencial, e não uma mera especulação psicológica como se pretende inculcar nas instituições escolares públicas. Destacamos, primeiramente, os dados que reflectem a fé como uma dimensão transcendental do ser humano. Essa dimensão está caracterizada pelos dados pesquisados, através dos quais se demonstra que a maioria dos estudantes relaciona a sua fé cristã com a ideia de Deus (68,4%), de Jesus Cristo (53,6%) e de mistério (8%). São conceitos que explicam a forma como os alunos interiorizaram a ideia de fé com sentido real de algo que está para além das limitações humanas. Um outro grupo de pensamentos ou de ideias intimamente ligadas à fé cristã faz-nos compreender que, para os estudantes do Ensino Secundário, a fé é algo de existencial, porque dá sentido à vida humana. De facto, os dados traduzem essa profunda percepção, quando constatamos que 46,3% dos alunos indicam que a confiança na vida humana, em geral, é algo que está ligada à fé do indivíduo; ou que 20,9% afirmam que é uma razão para viver e para esperar; ou ainda que 17,3% atestam que a busca de sentido de vida é uma ideia de fé existencial para o ser humano. Tudo isso demonstra que os estudantes têm uma ideia realística daquilo que se deve ter como fé subjectiva e pessoal no seu relacionamento com o Criador e Redentor da vida humana, apesar de ser um grande mistério para a inteligência humana. Um terceiro grupo de ideias que explicita a interiorização das ideias ligadas à fé cristã, segundo os pareceres dos alunos, é que essa mesma fé é algo vivencial que se exprime no comportamento moral e no amor. Com base nos valores percentuais derivados das ideias e pensamentos conexos com a fé cristã, identificamos 24,9% dos estudantes que afirmam que o comportamento moral correcto está ligado à ideia de fé cristã, e uma percentagem elevada que associa o amor ao próximo (51,4%) à vivência da própria fé n’Aquele que deixou bem explícito esse mandamento16. Identificamos ainda 10,7% de alunos afirmando que a experiência comunitária na igreja é uma outra manifestação dessa fé cristã vivida entre as pessoas que comungam e comunicam o mesmo credo. 15 Cf. Z. TRENTI, La fede dei giovani. Linee di un progetto di maturazione alla fede dei giovani, Leumann (To), Elledici, 2003, p. 138. 16 Cf. Lc 10,27. 407 Fig. 13: Pesamentos associados à ideia de Fé segundo os estudantes do Ensino Secundário (em %) 1,2 1,2 Outros Sem interesse Transcendental Existencial Vivencial Psicológica 1 Rejeição 2,6 Sentimento de culpa 4,9 Emoção profunda 6,8 Realização pessoal 51,4 Amor ao próximo 24,9 Comportamento moral Razão de viver e esperar 20,9 Confiança na vida 17,2 Sentido de vida 17,2 Mistério 8 Jesus Cristo 53,6 Deus 68,4 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Além dessas componentes, encontramos outras que foram indicadas e que podemos caracterizar como elementos que exprimem a fé como necessidade psicológica. No seio dos estudantes, essa modalidade é claramente insignificante. Basta ver que apenas 6,8% encaram a fé cristã como a realização pessoal; outros a entendem como expressão sentimental de uma profunda emoção (4,9%); e há outros ainda que, por causa de uma decepção sentimental ou mal-estar pessoal, familiar e social, percepcionam a fé como sentimento de culpa (2,6%); há, finalmente, quem considere a fé como um acto de rejeição dos bens terrenos (1%) ou algo que não lhes interessa (1,2%) (Fig. 13). As ideias que foram realçadas para demonstrar o enquadramento da fé dos estudantes merecem ser tomadas em consideração quer a nível das instituições escolares e do Sistema Educativo e Curricular, quer a nível das instituições religiosas, como elementos básicos para a orientação da própria vida dos alunos, e como valores invioláveis que devem ser protegidos não só contra os fenómenos sociais (droga, álcool, delinquência), dos problemas sexuais (prostituição, HIV/Sida, doenças sexualmente transmissíveis), como também certas ideologias políticas e religiosas (ateísmo prático e teórico, materialismo histórico e científico, agnosticismo, maçonaria, crenças fundamentalistas e intolerantes), que podem causar desnorteamen- 408 to mental ou psicológico e desvio de normas sociais e religiosas. É urgente que se faça equilíbrio entre fé e ciência ou razão e fé17. 1.2.3 A assimilação dos valores humanos e cristãos A assimilação de valores humanos e cristãos não acontece por acaso, mas no seio das instituições bem definidas e delimitadas: família, escolas, igrejas, centros educativos e grupos de coetâneos, através do processo de socialização. É importante que os professores percebam esse processo de socialização de forma permanente, contínua e dinâmica, não segundo o estilo teórico de J. Piaget18 e de T. Parsons e R.B. Bales19, para quem tudo está enquadrado numa perspectiva de estádio final do desenvolvimento humano. É a partir dessa visão que os professores estarão em condições de poder acompanhar os seus estudantes mediante a interacção educativa, a fim de que esse processo de assimilação dos valores possa solidificar-se e ganhar consistência, tornando-os pessoas moralmente maduras e responsáveis. Numa sociedade em transformação, onde a cultura e os valores se multiplicam e os comportamentos morais são constantemente interpelados a confrontarem-se com o pluralismo de ideias e convicções políticas, religiosas e culturais, a interiorização dos valores nesta conjuntura social não significa mais identificar-se passivamente com um padrão-modelo definido ou institucionalizado segundo o esquema cultural de uma determinada sociedade, mas, são considerados «dispositivos»20 que o indivíduo pode adquirir através da interacção com as figuras significativas e que o torna sujeito activo e reflexivo sobre as suas próprias condutas morais e princípios valorativos. Para isso, os estudantes precisam de uma educação para os valores para a sua orientação moral, inserção e integração social e religiosa nos diversos sectores sociais e institucionais desta sociedade pluralista. Os dados sobre os valores, que serão analisados seguidamente, reflectem o sentido e o significado que têm na vida dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Entretanto, sabe-se que a assimilação desses valores depende muito da incidência que as instituições educativas tiveram na vida dos seus educandos. Embora a perspectiva de análise tenha a ver com a dimensão moral-cristã, destacaremos, nos dados apurados, três grupos de valores que caracterizam a vivência dos alunos do ponto de vista religioso, pessoal, interpessoal e social. 17 Cf. GIOVANNI PAOLO II, Fides et Ratio, in “Enchiridion Encicliche”, Bologna, Edb, 1998, pp.1808-2001. Cf. J. PIAGET, Il giudizio morale nel fanciullo, Firenze, Giunti, 1972. 19 Cf. T. PARSONS - R. B. BALES, Famiglia e socializzazione, Milano, Mondadori, 1974. 20 Cf. F. GARELLI et ali, La socializzazione flessibile…, p. 194. 18 409 No entanto, vamos analisar objectivamente os dados, para além do enquadramento teórico feito anteriormente e da apresentação das linhas operativas que faremos mais a frente, para uma sã educação aos valores pessoais, interpessoais, sociais e religiosos dos alunos das escolas secundárias. Após essas considerações de base, aduzimos primeiramente os valores religiosos que mais contam na vida dos estudantes cabo-verdianos. Os dados apontam que 84,8% dos estudantes consideram que acreditar em Deus é um valor que conta muito na sua vida. Há uma diferença relativa entre os alunos de sexo masculino, com uma percentagem menos elevada (M.1.15) do que os do sexo feminino (M.1.10). Apenas 11,5% consideram que esse valor conta pouco, também, com uma prevalência dos rapazes (15%) sobre as meninas (8,5%). Uma outra componente que entra nessa perspectiva religiosa é a fé cristã dos alunos do Ensino Secundário. De facto, 84,2% acham que este valor é muito importante na sua vivência. Os rapazes (M.1.19) posicionam-se menos do que as meninas (M.1.11). Somente 12,5% dos alunos consideram que esse valor é pouco importante na sua vida. Além daquilo que os alunos sentem como valor, é necessário um meio espiritual onde possam manifestar a sua crença e a sua fé religiosa, isto é, a religião. De facto, verificase que 54,1% dos alunos declaram que a religião é um valor que tem muito significado na sua vida. E o resto dos entrevistados (37,4%) afirma que a religião tem pouco valor na sua vida quotidiana. A diferença entre o sexo é substancialmente considerável: os rapazes (M.1.56) consideram menos a religião como um valor para a sua vida do que as meninas (M.1.41). De facto, a camada feminina é aquela que mais marca a presença nos eventos religiosos em Cabo Verde, como já foi referido. Em segundo lugar, apuramos outras componentes que os estudantes consideram como valores pessoais e interpessoais. São valores que caracterizam a dimensão moral dos adolescentes estudantes na medida em que, esses mesmos valores se tornem modelos e critérios de comportamentos. Um dos valores pessoais e interpessoais mais utilizado e conversado entre grupos de pessoas é o valor da amizade. É bom, portanto, que os alunos opinem sobre esse valor importante nas suas relações humanas. Mais de ¾ (95,8%) dos estudantes consideram que a amizade é um valor muito sensível na sua vida e que caracteriza certo tipo de relacionamento entre as pessoas. Sobre este valor não verifica nenhuma diferença entre os sexos. O número dos que vêem a amizade como algo de pouco peso (2,5%) na sua vida, são irrelevantes. Ainda nessa perspectiva de relacionamento, o amor como um valor está no topo da apreciação dos estudantes (95,9%), antes, é muito significativo para a sua vida, podendo-se constatar também que não há nenhuma diferença entre o género masculino e feminino. A percentagem dos que o consideram como pouco importante (2,2%) é insignificante. 410 São muitos os fenómenos políticos, sociais e naturais que desafiam a vida humana e, muitas vezes, são os próprios jovens que põe em risco a sua vida desviando-se das normas. Importa, por isso, analisar o valor da vida dentro dum parâmetro de valores morais, para podermos compreender o sentido e o significado que os estudantes lhe atribuem segundo uma hierarquia de valores. Segundo os dados apurados, 87,1% dos estudantes conferem à vida um valor muito importante para a sua existência terrena. A diferença entre os sexos é pouco relevante: o sexo masculino é ligeiramente inferior (M.1.13) ao do sexo feminino (M.1.10). Dos entrevistados destaca-se um grupo menos posicionado (8,2%) que aponta a vida como um valor que conta pouco na sua existência. Uma outra característica que determina o comportamento moral do indivíduo no seu relacionamento humano é o valor da liberdade. Sobre esse valor, 72,5% dos estudantes atribuem o seu juízo, afirmando que isso conta muito na sua vida. Neste aspecto valorativo, há uma diferença relativa entre o sexo masculino com uma média relativamente superior (M.1.24) ao do sexo feminino (M.1.28). Entre os entrevistados (22,7%) há uma percentagem não indiferente que considera a liberdade como um valor pouco relevante na sua vida. Tratase de um elemento que poderá explicar o desvio moral de certos comportamentos sociais de alguns estudantes do Ensino Secundário, como veremos no decorrer deste estudo, mais precisamente, na dimensão social dos alunos. Do lado oposto desse valor encontra-se o seu pólo complementar, isto é, o valor da responsabilidade que faz parte integrante da estruturação da personalidade do indivíduo. Dos alunos inquiridos, 74,4% são da opinião que esse valor é muito significativo na sua vida. Nesse pólo valorativo de comportamento ético, há uma inversão entre os sexos, no que se refere à responsabilidade, isto é, a média é um pouco mais elevada para as meninas (M.1.24) do que para os rapazes (M.1.28), dados que revelam que os rapazes se sentem mais livres e menos responsáveis e as meninas se sentem mais responsáveis e menos livres. Isso poderá perturbar os relacionamentos interpessoais. Daí a necessidade de uma educação dos alunos para os valores éticos, como forma de ajudá-los a encontrarem um justo equilíbrio comportamental. Além dessa percentagem, há um grupo consistente dos estudantes (18,4%) que acha que o valor da responsabilidade é algo que conta pouco na sua vida, e uma percentagem irrelevante dos alunos (3,3%) dizendo que isso não é nada. Vamos tentar agora analisar um terceiro grupo de elementos valorativos que podem ser facilmente enquadrados como valores sociais, quer pela sua importância social, quer pelo facto que a pessoa humana é um ser social que deve contribuir com a sua dimensão para o crescimento moral e profissional da sociedade, conforme o nível da assimilação dos valores no processo da sua socialização. Num mundo ameaçado pela guerra, pela fome, pela injustiça 411 e exploração dos seres humanos indefesos, pelo desrespeito dos direitos humanos, o valor da paz torna-se para a humanidade e para a sociedade um imperativo moral. É significativo que mais de ¾ dos estudantes do Ensino Secundário apontam para o valor da paz, antes, 95,5% deles consideram esse valor muito importante para sua vida e fundamental para a vivência de toda a sociedade e a humanidade, em geral. A diferença entre os géneros à volta desse valor é quase irrelevante: rapazes (M.1.04) e meninas (M.1.03). Apenas 3,2% dos entrevistados consideram esse valor de pouco peso. A constituição de uma família é uma condição bastante crítica no seio da sociedade cabo-verdiana e, sobretudo, para a nova geração. Entretanto, uma maioria absoluta, 92,2%, dos estudantes é unânime em afirmar que a família é um valor muito importante na vida deles e para a vida da própria sociedade, em geral. Somente 5,1% dos alunos é da opinião que esse valor conta bem pouco na sua vida. Sobre esse valor não há nenhuma diferença entre o sexo masculino (M.1.06) e feminino (M.1.06). A consciência da cidadania no contexto socio-político cabo-verdiano é uma atitude embrionária, no sentido que, ainda, Cabo Verde é um país jovem, como já tivemos ocasião de frisar ao falarmos da sua evolução do ponto de vista histórico-político, e que precisa de tempo, de educação e formação da consciência de ser mais cidadão e menos partidário, em termos políticos. Portanto, ser bom cidadão é uma condição moral e social para saber colocar o interesse da Nação acima dos interesses individuais e partidários. Essa aspiração dos estudantes revela-se na forma como 77,9% afirmam que ser bom cidadão é um Valor social que conta muito na sua vida, e que precisam de ser educados para o cumprimento dos seus direitos e deveres na sociedade em que estão inseridos. No que diz respeito a esse valor, os dados confirmam que não há nenhuma diferença entre o sexo masculino (M.1.18) e sexo feminino (M.1.18). 14,3% são do parecer que esse valor é pouco apreciável na sua vida. Numa época marcada por um certo individualismo, a solidariedade torna-se um valor que contribui para um justo equilíbrio social, baseado no sentido de justiça social que deve reinar entre os cidadãos. A solidariedade não é uma simples “djunta-mon” (dar as mãos uns aos outros) numa determinada acção comunitária, mas sim uma condição moral que deve nortear todos os cidadãos para uma vivência justa e equitativa em todos os aspectos sociais, de modo que, cada um se sinta sujeito de direitos e deveres na realização da sua pessoa e da sociedade, ao mesmo tempo. Através dos dados, nota-se que o valor da solidariedade é considerado pelos alunos (72,1%) como condição muito indispensável para a convivência social. Essa condição é um pouco mais elevada nas meninas (M.1.22) do que nos rapazes (M.1.31). Além dessa percentagem, identificamos um grupo não indiferente de estudantes (18,8%), que aponta esse valor como algo que tem pouco relevo na sua vivência social. 412 Tab. 10: Os valores que contam na vida dos estudantes cabo-verdianos (em %; em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 3.00)*21 Os valores na vida dos alunos Sexo Não Resp. Muito Pouco Nada MP M F Acreditar em Deus 2,9 84,8 11,5 0,8 1.13 1.18 1.10 Fé 2,3 84,2 12,5 1,0 1.15 1.19 1.11 Religião 4,3 54,1 37,4 4,2 1.48 1.56 1.41 Amizade 1,5 95,8 2,5 0,2 1.03 1.02 1.03 Amor 1,5 95,9 2,2 0,4 1.03 1.03 1.03 Vida 3,6 87,1 8,2 1,2 1.11 1.13 1.10 Liberdade 3,3 72,5 22,7 1,4 1.26 1.24 1.28 Responsabilidade 3,8 74,4 18,4 3,3 1.26 1.28 1.24 Paz 1,1 95,5 3,2 0,2 1.04 1.04 1.03 Família 2,4 92,2 5,1 0,4 1.06 1.06 1.06 Ser bom cidadão 6,5 77,9 14,3 1,3 1.18 1.18 1.18 Solidariedade 6,1 72,1 18,8 2,9 1.26 1.31 1.22 Emigração 7,0 26,0 52,0 14,9 1.88 1.83 1.93 Outro 89,8 4,0 2,8 3,5 1.95 1.93 1.98 Embora a emigração não seja um valor que motiva e dá gosto às pessoas, ela é sempre encarada como uma necessidade de ordem económica e cultural, mais do que um estilo de vida. Todavia, para muitos cabo-verdianos a emigração para os países desenvolvidos continua a ser um fenómeno que faz nascer neles expectativas. Partindo deste pressuposto, é importante que seja verificada o nível valorativo deste fenómeno no seio dos estudantes das escolas secundárias. Pelos vistos, 26% dos alunos consideram que a emigração é um valor muito importante para o seu futuro, ao passo que a maioria dos estudantes (52%) acha que esse fenómeno tem pouco valor para a sua vida, e 14,9% são da opinião que esse valor social não conta nada na sua vida. Há uma diferença nesse aspecto valorativo entre o sexo masculino (M.1.83), mais inclinado a atribuir um valor à emigração, e o sexo feminino (M.1.93) (cf. Tab. 10). Seguindo a ordem utilizada para analisar a forma como os estudantes assimilaram os valores e o peso que esses valores têm na sua vida, podemos interpretar alguns aspectos que achamos mais pertinentes nestes três grupos de componentes valorativas. Antes de tudo, é possível concluir que uma maioria qualificada dos estudantes é crente, isto é, acredita em 21 * Média ponderada: os valores da M. em escala: 1 = Muito; 2 = Pouco; 3 = Nada 413 Deus (M.1.13); em segundo lugar, os estudantes se consideram pessoas de fé (M.1,15), ao passo, que a religião, como meio de expressar a própria fé religiosa, é uma componente valorativa com pouca adesão por parte dos estudantes (M.1.48). Todavia, importa considerar que esses e outros valores religiosos são assimilados essencialmente na família e na igreja. Portanto, o aspecto valorativo depende muito do tipo de interacção que os adolescentes estudantes instauram com pessoas significativas, ao longo do seu desenvolvimento humano e espiritual. No que se refere aos valores pessoais e interpessoais, verificamos que as componentes valorativas – amizade (M.1.03) e amor (M.1.03) –, estão mais relacionadas com a vida sentimental, afectiva e emocional dos estudantes e são mais relevantes do que a vida em si mesma (M.1.11), exigindo compromissos éticos e morais – liberdade (M.1.26) e responsabilidade (M.1.26) – no relacionamento interpessoal. Contudo, a educação deve apostar mais no uso da racionalidade do que na exploração dos sentimentos dos alunos para uma maior interiorização dos valores éticos. Algumas observações de carácter interpretativo sobre os valores sociais, segundo o ponto de vista dos estudantes, são fundamentais para compreendermos a sua sensibilidade e os seus interesses reais para com a vivência social. Antes de tudo, a paz (M.1.04) é a componente mais evidente, pelo facto de ser demasiadamente generalizada pelos meios de comunicação de massa, pela política e pela religião. Em segundo lugar, a aspiração valorativa de que a família (M.1.06) é muito importante na vida dos estudantes, demonstra a necessidade de criar condições para um maior incremento na criação de núcleos familiares com as condições necessárias para a sua sobrevivência e estabilidade. A forma de prevenir os comportamentos desviantes, como o abandono de crianças e adolescentes nas ruas das cidades de Cabo Verde, é a constituição sólida, eficiente e moral das famílias cabo-verdianas. A apreciação dos alunos demonstra essa real necessidade presente na sociedade cabo-verdiana. Enfim, as outras componentes valorativas exprimem a consciência que os alunos têm da importância do seu engajamento na vida social como bons cidadãos e solidários em relação aos problemas nacionais e internacionais. 1.3 A experiência e vivência de fé religiosa e moral dos alunos A apresentação de um plano educativo de matriz religiosa para os alunos do Ensino Secundário pressupõe, antes de tudo, o conhecimento da sua vivência e experiência de fé adquirida na família e na igreja. Então, o que se deve preconizar nesse processo formativo não é tanto acrescentar algo de novo, mas sim fazer com que haja continuidade da sua formação 414 espiritual e moral para o seu crescimento humano e a sua maturidade espiritual. Isso é um pressuposto essencial que define e orienta os seus comportamentos, do ponto de vista moral, de forma livre e responsável. Uma análise ponderada da experiência de fé ou vivência religiosa dos adolescentes e jovens estudantes cabo-verdianos não é, certamente, uma tarefa fácil perante uma sociedade que põe à disposição um conjunto de meios de diversão que distraem e submergem a vontade, as motivações e os interesses dos jovens, impedindo-lhes de fazer uma experiência partindo das realidades transcendentais que a sua própria fé exige. A experiência de fé, isto é, a capacidade de atravessar o âmbito sensível e racional para um outro transcendente, é próprio do ser humano, dotado de inteligência e de bons sentimentos. Daí a necessidade de uma formação moral-religiosa, para que os alunos possam compreender as suas reais aspirações, precisamente porque ainda estão intelectual e psicologicamente abertos a aceitar uma perspectiva religiosa como um elemento intrinsecamente vital e válido, como as outras exigências fundamentais da vida humana22. Não obstante o contratempo histórico-político cabo-verdiano que afastou das escolas básicas e secundárias a formação moral-religiosa dos estudantes, o próprio tempo acabará por ensinar que a formação da pessoa humana deve ser integral e com a participação de todas as ciências humanas sociais e religiosas. O Sistema Educativo não pode negligenciar a crença, a fé e a moralidade religiosa dos estudantes que frequentam os estabelecimentos do ensino no País. Na realidade, os estudantes experimentam e vivem, individual e comunitariamente, a sua fé em Deus revelado pelo seu Filho Jesus Cristo, portanto, têm o direito de ser apoiados pelas instituições educativas, e o dever de prosseguir a sua formação moral-religiosa, profissional e social nas escolas de Cabo Verde. Para que estes pressupostos tenham o seu fundamento, vamos fazer algumas constatações empíricas demonstrando a fé cristã dos alunos do Ensino Secundário, manifestada através da sua experiência religiosa e a sua vivência moral segundo a consciência que têm do pecado. 1.3.1 A experiência de fé cristã dos estudantes O fundamento da fé cristã não é uma simples doutrina baseada numa ideologia inventada pelos lideres políticos e religiosos, mas tem o seu fundamento numa pessoa concreta, real, histórica e divina, Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem. O cristianismo é uma 22 Cf. V. ORLANDO et al., L’Esperienza religiosa nell’attuale vissuto giovanile…, p. 87. 415 religião que tem a sua origem em Eventos salvíficos de Cristo. Por conseguinte, é uma doutrina que explica a Encarnação de Deus feito Homem, antes, é uma doutrina da revelação divina na pessoa do Filho Jesus Cristo. Dessa forma livre e incondicional, o Deus de Jesus Cristo entrou na história da humanidade e de toda a criação uma vez para sempre. À luz de Cristo tudo foi renovado. O cristianismo é também uma doutrina reveladora dos mistérios da redenção e salvação da humanidade, através da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. São considerações que nos ajudam a verificar o que é que os alunos pensam de Jesus Cristo. A maioria dos adolescentes estudantes cabo-verdianos já teve, de facto, uma primeira experiência de fé cristã com as famílias ou frequentando as igrejas presentes no País. Então, é útil que façamos uma análise dos dados para averiguarmos o conhecimento e o significado da fé cristã para os alunos do Ensino Secundário. Partindo do pressuposto que Jesus Cristo é o Filho de Deus, é justo que seja verificado, ao lado de tantas outras opiniões, qual é a concepção dos estudantes sobre essa figura que é o fundamento da sua fé. Conforme os dados relevados, 80,9% dos alunos afirmam que Jesus Cristo é o Filho de Deus feito Homem. Isso demonstra que mais de dois terços dos estudantes das escolas secundárias tiveram noção evangélica ou catequese sobre a doutrina cristã. Verificamos também que há alunos com opiniões diferentes: 7,1% consideram Jesus um profeta, e uma percentagem pouca significativa considera Jesus Cristo uma personagem histórica (5,7%), enquanto que 2% outros dizem que se trata de um mito ou de uma fábula (cfr. Fig. 14), o que revela que há uma porção de alunos que não teve nenhuma formação cristã ou é indiferente em relação a qualquer doutrina religiosa cristã presente no País. Fig. 14: Quem é Jesus Cristo segundo os alunos do Ensino Secundário (em %) Um mito/fábula 2 2,8 Outro 7,1 Filho de Deus feito homem 5,7 Profeta 1,5 Personagem histórica 80,9 Não resp. 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 416 Embora essa concepção seja alta, o conhecimento ou a formação cristã sobre a pessoa de Jesus Cristo no seio dos adolescentes estudantes é bastante escasso no sentido que faltam ulteriores aprofundamentos e apoios no esclarecimento da doutrina cristã devido, também, à carência de conexão entre as instituições educativas (Famílias – Escolas - Igrejas). Não basta ter uma noção de quem é Jesus Cristo, é necessário, também, uma adesão consciente de fé à sua pessoa como condição de vida engajada numa comunidade cristã, segundo as leis ou os mandamentos do amor por Ele anunciado, como normas de vida cristã. Às vezes, essa adesão de fé é, também, para os adolescentes cabo-verdianos, apenas a manifestação de uma «espécie de ideologia e de um certo conformismo familiar e ambiental»23. Para termos uma ideia daquilo que, realmente, constitui a fé cristã dos estudantes, procuremos examinar alguns dados que descrevem o sentido e o significado que eles dão a si mesmos acerca do que significa ter fé em Deus. Segundo os dados observados, é fácil deduzirmos três atitudes bastante pertinentes que caracterizam o modo como os alunos encaram o seu relacionamento com Deus. Segundo as suas opiniões, ter uma fé cristã em Deus é sentida, antes de tudo, como uma motivação intrínseca, em segundo lugar, é vista como uma necessidade extrínseca, e finalmente, os alunos manifestam uma certa atitude de indiferença quanto a esse tipo de relacionamento. 1.3.1.1 A Fé como motivação intrínseca Como já foi realçado anteriormente, a dimensão religiosa é parte constitutiva do ser humano, por conseguinte, é natural que um indivíduo seja inclinado a sentir a sua fé em Deus como uma motivação intrínseca. De facto, uma percentagem qualificada de alunos (56,7%) comprova que ter fé em Deus vem de uma motivação pessoal sentida fortemente, antes, é uma necessidade existencial para a sua vivência espiritual. Comparando as faixas etárias dos estudantes notamos que essa motivação é mais elevada nos alunos da faixa etária de 17-21 anos (63,7%), do que nos alunos de 15-16 anos (56,8%), e dos de 11-14 anos (49,9%). Isso significa que os alunos mais crescidos já possuem uma consciência de que a fé é algo de pessoal e faz parte de uma necessidade natural do próprio indivíduo. Entre os géneros não se verifica nenhuma disparidade. A fé como um dever moral intrínseco é, também, bastante expressiva entre alunos das escolas secundárias de Cabo Verde (41.4%). A fé como um dever é mais visível na faixa 23 Cf. V. ORLANDO et al., L’Esperienza religiosa nell’attuale vissuto giovanile…, p. 88. 417 etária de 11-14 anos (49,9%) do que nas de 15-16 anos (42,4%) e de 17-21 anos (32,7%). Essa diversidade percentual, está, talvez, ligada a uma fase em que o adolescente se sente inclinado a agir mais por obrigação moral do que de espontânea e livre vontade, ao fazer uma escolha. Há uma diferença relativa entre os sexos no que tange à essa modalidade, ou seja, que entre as meninas (38,8%) ter fé em Deus como um dever intrínseco é menos elevado do que entre os rapazes (44,8%). Nessa dimensão de fé, as meninas demonstram que são mais espontâneas do que os rapazes. O desabrochamento harmonioso de todas as dimensões humanas da personalidade do indivíduo conduz necessariamente à sua plena realização, enquanto pessoa humana dotada de todas as faculdades. Logo, a faculdade espiritual é uma dimensão humana que desabrocha através da maturidade da própria fé em Deus. Conforme os dados apurados, 36, 1% dos alunos afirma que ter fé em Deus é importante para a sua plena realização humana e espiritual. Sobre essa componente a diferença entre as faixas etárias é relativamente insignificante: 1114 anos (33,2%); 15-16 anos (37,7%); e 17-21 anos (36,6%). O mesmo se pode afirmar entre os alunos do sexo masculino (35%) e do sexo feminino (37,2). Essa convicção de fé confirma que esses estudantes são crentes e praticantes (37,7%), segundo os dados cruzados nessa pesquisa. 1.3.1.2 A Fé como necessidade extrínseca Um segundo aspecto que caracteriza os significados que os alunos atribuem à sua fé em Deus, é manifestado como uma necessidade extrínseca à pessoa humana. Ter fé em Deus é visto mais como instrumento para a resolução dos problemas existenciais e que dá segurança no caminhar quotidiano do que uma graça incondicional e de livre iniciativa divina. De todas as componentes, a fé vista como algo que ajuda a superar momentos difíceis (75%), é a mais sentida e vivida pelos alunos. Essa postura aparece menos nos alunos de 11-14 anos (68,5%) do que nas outras faixas de 15-16 anos (76,2%) e de 17-21 anos (79,7). Isso demonstra que os alunos crescidos pressentem a gravidade dos problemas mais do que os outros menos crescidos. Essa diversidade é pouco evidente entre os géneros: um pouco menos nos rapazes (73,8%) do que nas meninas (76,6%). Essa pequena diferença revela que as meninas cabo-verdianas passam por momentos mais difíceis e críticos do que os rapazes caboverdianos. Cabo Verde é um país com pouco recursos materiais, cuja população, muitas vezes, é vacinada por uma luta sem trégua na busca da sua sobrevivência. Nessa conjuntura social, a fé 418 cristã é alvejada para muitos como um caminho seguro sem o qual é difícil avançar na vida. O estudo denota que esse modo extrínseco de encarar a fé é muito expressivo pelos estudantes do Ensino Secundário (52,8%). A fé como suporte para avançar na própria caminhada não diferencia tanto entre as faixas etárias de 11-14 anos (56%) e 17-21 anos (56,6%) e menos sentida pela faixa de 15-16 anos (46,7%). Ao passo, que há uma diferença relativa entre o sexo, antes, as meninas (57%) sentem essa necessidade muito mais do que os rapazes (48,7%). Essa postura dos estudantes reflecte uma característica típica da vivência caboverdiana. Antes, demonstra que no plano de vida social e dos afazeres domésticos e familiares as mulheres são sempre mais preocupadas com a vida quotidiana do que os homens. Trata-se de um reflexo vivido pelos próprios estudantes no seu dia a dia. Se partirmos do pressuposto de que 20,9% dos alunos são indiferentes à prática religiosa, é fácil deduzir que essa experiência de fé cristã não é vivida e experimentada como factor intrínseco e extrínseco para todos os estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Entre as outras componentes atributivas à fé cristã, destacamos algumas, embora sejam menos relevantes, que espelham essa atitude de indiferença no seio dos estudantes. Partindo dos dados, verificamos que 9,3% dos alunos consideram que ter fé em Deus é um problema que não lhe diz respeito. Essa atitude de indiferença é mais evidente nos alunos de faixa etária de 11-14 anos (12,5%) do que nos outros de 15-16 anos (8,7%) e de 17-21 anos (7,3%). Há pouca diferença entre o sexo masculino (10,9%) e o sexo feminino (7,8%). Sempre nessa perspectiva, individualizamos uma outra atitude de indiferença que explica, eventualmente, uma certa carência de consciência moral em alguns indivíduos em fase de crescimento. Na verdade, 10,6% dos alunos afirma que ter fé em Deus é algo que não tem muita influência na sua vida. Nessa mesma linha, os alunos da faixa etária de 11-14 anos (13,4%) são um pouco mais elevados do que os outros alunos de 15-16 anos (11,7%) e de 1721 anos (6,2%). Entre o sexo não há nenhuma diferença (cf. Tab. 11). A experiência e a vivência de fé cristã para muitos alunos cabo-verdianos não espelham o essencial e a profunda adesão incondicional à pessoa de Cristo. Embora, haja um substrato pessoal como necessidade existencial ou natural da fé, os adolescentes estudantes necessitam de uma formação doutrinal sólida para que essa fé seja vista como uma dimensão divina e pura graça de Deus na vida do ser humano. Pelo facto, que dois terços dos entrevistados (75%) concebem a fé como uma pura instrumentalização para ultrapassar as suas dificuldades e seus problemas existenciais, e mais de metade dos estudantes (52,8%) vê a fé como algo sobre o qual apoiar para atingir os objectivos durante o percurso existencial, são provas evidentes de que há falta de interiorização dos elementos da doutrina cristã como modo para um melhor esclarecimento sobre a importância da fé em Deus. 419 Tab.11: Os significados que os alunos atribuem à sua fé em Deus (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F É uma necessidade pessoal que sinto fortemente 56,7 49,9 56,8 63,7 56,2 56,8 É algo que sinto como um dever 41,4 49,9 42,4 32,7 44,8 38,8 É importante para a minha plena realização 37,1 33,2 37, 36,6 35,0 37,2 É algo que ajuda a superar momentos difíceis 75,0 68,5 76,2 79,7 73,8 76,6 É caminho seguro sem o qual é difícil avançar 52,8 56,0 46,7 56,9 48,7 57,0 É um problema que não me diz respeito 9,3 12,5 8,7 7,3 10,9 7,8 É algo que não tem influência na minha vida 10,6 13,4 11,7 6,2 10,3 10,3 Outros 3,9 4,4 4,9 3,7 4,1 3,9 Não respondido 1,2 1,5 1,5 0,6 1,5 0,7 Doutro lado, a fase adolescencial é marcada por uma forte concentração sobre si mesma, por isso, não se pretende que tudo seja segundo um padrão de conhecimento doutrinal já definido. Todavia, os adolescentes e jovens estudantes mostram que estão em busca de experiência qualificada que poderiam conduzi-los a encontrar com pessoas significativas a estabelecer modelos e valores capazes de os orientar na vida24. Conforme o nosso contexto sócio-eclesial, deparamos com um número razoável de estudantes que fazem um percurso de fé conseguindo progressivamente a um amadurecimento da sua fé através da prática religiosa nas suas respectivas paróquias ou centros de culto doutras seitas religiosas cristãs e não cristãs. 1.3.2 A prática religiosa dos alunos cabo-verdianos Aquilo que foi evidenciado à volta da experiência de fé dos estudantes será confirmado logo a seguir sobre a forma como os jovens participam nas actividades religiosas desenvolvidas pelas igrejas ou cultivadas pessoalmente através de leituras, da meditação ou da oração, como momentos expressivos de uma relação com Deus. Relativamente aos dados relevados, tentamos debruçar-nos sobre a modalidade de participação dos alunos nas diversas actividades que caracterizam a sua vivência religiosa. A vivência religiosa dos alunos é caracterizada por algumas modalidades que indicam o nível da sua participação. No que se refere ao culto religioso em Cabo Verde, sabe-se que a frequência mais expressiva da população acontece no seio da Igreja Católica, de resto, e 24 Cf. Z. TRENTI, La fede dei giovani…, p.139 420 como já foi evidenciado anteriormente, 70,2% dos estudantes pertencem à mesma Igreja. Entretanto, os alunos que participam na eucaristia dominical com regularidade, como preceito da lei divina e como manifestação pura da fé em Cristo ressuscitado, são uma percentagem reduzida. Antes, somente 28,9% frequentam sempre a eucaristia. Dos entrevistados, verificamos que 34,4% frequentam irregularmente (às Vezes) e 28,3% nunca frequentaram a santa missa. Não se pronunciaram 8,4% dos alunos. Quanto à frequência com regularidade, nota-se que essa vivência é mais expressiva na faixa etária de 15-16 anos (M.2.16) do que nas de 1721 anos (M.1.97) e de 11-14 anos (M.1.87). Também, há uma diferença relativa entre os géneros, em que o sexo feminino (M.2.10) é mais elevado do o sexo masculino (M.1.90). A Igreja Católica torna-se visível e oficial através da actualização dos Sacramentos que exprimem a vivência do mistério salvífico de Cristo morto e ressuscitado25. Portanto, a vivência sacramental é a expressão de uma fé engajada na comunidade cristã que exprime a Igreja, Corpo de Cristo. Sobre a modalidade de participação nos sacramentos (Reconciliação, Comunhão Eucarística e Confirmação) verificamos que 18,9% dos alunos participam sempre, e os que, às vezes participam são mais elevados (35,2%). Além disso, topamos que 33% dos estudantes nunca frequentaram aos referidos sacramentos. Dos entrevistados, 12,9% não responderam. Observando essa participação do ponto de vista de idade, vemos que a faixa dos 15-16 anos (M.1.94) é um pouco mais elevada do que a dos 11-14 anos (M.1.81) e de 17-21 anos (M.1.76). O mesmo se pode observar entre o sexo feminino (M.1.95) com mais frequência do que o sexo masculino (M.1.72). Quanto aos dados que retratam a pertença dos estudantes às outras igrejas não católicas (29,2%), é bom que seja verificada a sua participação no culto das referidas igrejas. Também para essa modalidade constatamos que somente 5% dos alunos frequentam Sempre no culto dessas igrejas e que 23,8% participam com irregularidade (às Vezes). Uma maioria dos estudantes (59,3%) nunca se interessou por essa participação, e 11,9% não responderam. Não há diferença nem entre as faixas etárias nem entre o sexo. Além da exteriorização ou manifestação visível da própria crença, o ser humano encontra-se com Deus duma forma mais íntima e pessoal. A fé, enquanto dom de Deus é possível ser vivida numa outra dimensão, respeitando a liberdade de consciência de cada indivíduo e a sua profunda aspiração à oração pessoal. Sem entrarmos em pormenores, verificaremos dois aspectos essenciais que permitem ao indivíduo exprimir a sua relação íntima com Deus. Antes de tudo, é próprio do ser racional a capacidade de auto-análise e, por conseguin- 25 Cf. CONCILIO VATICANO II, Sacrosanctum Concilium, n.7, in “Enchiridion Vaticanum” Bologna, Edb, 1976, pp.14-95, p. 25. 421 te, o crente é solicitado a fazer diante de Deus o sua próprio exame de consciência. Nessa perspectiva, vê-se que apenas 24,4% dos alunos do Ensino Secundário se interessam Sempre por essa vivência pessoal. E uma maioria dos estudantes (35,7%) vive, às vezes, essa dimensão religiosa. Dos outros, destacamos 27,5% que nunca ousam fazer o exame de consciência; 12,4% não responderam à questão. Essa capacidade de interiorização ou de relação íntima com Deus na existência dos alunos diferencia-se segundo o seu estado de crescimento e sua maturidade de fé e de crença. Tendo em consideração os dados apurados, verifica-se que a faixa dos alunos do III Ciclo, dos 17-21 anos (M.2.04) é mais propensa à essa modalidade espiritual do que a dos 15-16 anos (M.1.98) e dos 11-14 anos (M.1.87). O mesmo acontece entre os géneros, em que as meninas (M.2.10) são mais inclinadas para essa dimensão espiritual do que os rapazes (M.1.84). Em segundo lugar, verificámos a frequência que caracteriza a vivência religiosa dos alunos através da oração pessoal. Como se trata de uma condição espontânea e pessoal, era natural que a maioria (45,5%) dos alunos entrevistados respondesse que sempre reza por conta própria. Parece que 32,6% dos alunos, de forma irregular (às vezes), aposta na oração individual, havendo 10,4% que não opinaram. Essa é uma atitude interior quase generalizada entre os alunos do Ensino Secundário, mas não entre os sexos, em que verificamos que as meninas (M.2.50) são mais propensas para a oração pessoal do que os rapazes (M.2.25). Um outro sector que merece uma análise para a compreensão da vivência religiosa dos estudantes é a questão da leitura de livros sagrados e espirituais como tarefa pessoal para a sua autoformação espiritual. Pressupõe-se que, para o cristão, a leitura da Bíblia é essencial quer para o enriquecimento da sua fé, quer para a sua vivência religiosa pessoal e comunitária. Numa perspectiva individual, constatamos que somente 20,1% dos alunos lêem Sempre a Sagrada Escritura, e que uma percentagem qualificada de 52,4% faz uso, às vezes, desse meio sagrado. Verifica-se ainda que os que nunca leram a Bíblia são 21,7% e que 5,8% não opinaram. Se compararmos os grupos etários, nota-se facilmente que os alunos dos 11-14 anos (M.2.08) lêem a Bíblia um pouco mais dos que se encontram na faixa dos 15-16 anos (M.1.96) e dos 17-21 anos (M.1.93). Nessa linha diferencial é bastante evidente que as meninas (M. 2.08) lêem com mais frequência do que os rapazes (M.1.88). Nesta óptica de leitura espiritual apuramos que apenas 16,6% dos alunos lêem livros espirituais; e que 45,4%, às Vezes, fazem uso dessas desses livros. Entre os outros evidenciamos que 25,8% nunca leram um livro espiritual e que 12% dos alunos não responderam a essa questão. Embora a diferença não seja consistente, constata-se que os alunos dos 11-14 anos (M.1.91) lêem mais do que os de 15-16 anos (M.1.89) e de 17-21 anos (M.1.89). A nível 422 de sexos, nota-se que os rapazes (M.1.84) lêem um pouco menos do que as meninas (M.1.98), conforme Tabs. 12a e 12b. Tab. 12a: A prática religiosa dos estudantes cabo-verdianos (em % - em M: média ponderada: mínima frequência = 1.00 e máxima = 3.00)*1 Prática religiosa Não Resp. Nunca Às vezes Sempre MP Participação na Eucaristia Dominical 8,4 28,3 34,4 28,9 2.01 Participar nos sacramentos 12,9 33,0 35,2 18,9 1.84 Participação no culto de outras igrejas 11,9 59,3 23,8 5.0 1.38 Fazer exame de consciência 12,4 27,5 35,7 24,4 1.97 Rezar por conta própria 10,4 11,4 32,6 45,5 2.38 Ler a Bíblia 5,8 21,7 52,4 20,1 1.98 Ler livros espirituais 12,0 25,8 45,4 16,8 1.90 Outro 88,8 5,1 3,5 2,7 1.79 A vivência religiosa entre os alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde é bastante flutuante. Tendo em conta que a maioria acredita em Deus e são cristão-católicos, é natural que haja uma prevalência da oração pessoal (M.2.38), da participação eucarística dominical (M.2.01) e na leitura da Sagrada Escritura (M1.98). Os dados apontam também que as meninas são mais sensíveis à vivência religiosa do que os rapazes. Sendo a maioria pertencente à Igreja Católica, os dados indicam que ela deve rever a sua pastoral juvenil para que possa haver maior engajamento dos adolescentes na catequese e na participação aos santos sacramentos. Nota-se actualmente, um certo divórcio, em termos de relacionamento, entre a camada juvenil e o mundo sagrado. Muitos grupos juvenis são orientados directa ou indirectamente por outros interesses que incutem o sentido de protagonismo, de diversão e do saber lidar com um mundo cultural apostado no espectáculo, no desporto que facilmente pode parecer muito mais aliciante do que o culto, o rito e as celebrações litúrgicas. Há uma necessidade urgente de formação e educação da consciência dos estudantes, no sentido de ajudá-los a encontrarem-se consigo mesmos e a perceber-se como pessoas humanas que devem cultivar a própria vida fazendo do mundo cultural e do mundo religioso um campo harmonioso de expressão comunicativa e de valores éticos para a sua própria realização humana e espiritual e não, apenas, espaços de fuga da realidade e de relacionamento consigo mesmos, com os outros e com Deus. 423 Tab. 12b: A prática religiosa dos estudantes cabo-verdianos (em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 3.00) Prática religiosa – Faixas etárias Sexo 11-14 Anos 15-16 Anos 17-21 Anos M F Participação na Eucaristia Dominical 1.87 2.16 1.97 1.90 2.10 Participar nos sacramentos 1.81 1.94 1.76 1.72 1.95 Participação no culto de outras igrejas 1.42 1.38 1.36 1.39 1.38 Fazer exame de consciência 1.87 1.98 2.04 1.84 2.10 Rezar por conta própria 2.38 2.39 2.37 2.25 2.50 Ler a Bíblia 2.08 1.96 1.93 1.88 2.08 Ler livros espirituais 1.91 1.89 1.89 1,84 1.96 Outro 1.73 1.67 1.91 1.74 1.86 Uma outra componente que se deve tomar em consideração é a autoformação cultural e religiosa dos estudantes do Ensino Secundário. Se partirmos do princípio que durante o processo de aprendizagem, o aluno não só aprende aquilo que lhe é ensinado pelo professor e demais educadores, mas aprende, também, através da sua autoformação, leitura pessoal, pesquisa e exercício das tarefas escolares que faz para enriquecer o seu conhecimento e a sua sensibilidade humana, espiritual e cultural, então, é natural que se exija dos alunos do Ensino Secundário um tipo de formação mais individualizado que o capacite a ser autónomo na busca dos recursos para melhorara tanto a sua cultura humana como a sua cultura espiritual. Sabe-se, porém, que a maioria dos adolescentes e jovens cabo-verdianos não tem uma “cultura de leitura”, como foi observado anteriormente, somente 5,9% dos alunos lêem jornais e revistas com regularidade. As escolas secundárias do País estejam a envidar esforços para criar as condições necessárias a fim de proporcionar aos alunos momentos de leitura e de estudo, a falta de hábito de leitura, mas existe o problema da falta de bibliotecas nas famílias e nas escolas. O hábito de leitura se adquire, sobretudo, na família e com os pais que se dedicam e se interessam por esse meio tão útil ao conhecimento. Portanto, não é de admirar que o interesse pela leitura espiritual não seja muito significativo no seio dos estudantes caboverdianos. Talvez o que se deve incrementar nas escolas nas comunidades é o método de concursos e jogos que implicam muita leitura e cultura geral entre os adolescentes estudantes. 424 1.3.3 A dimensão moral e o sentido de pecado O mundo em que movemos e existimos está envolvido em tantos problemas humanos e sociais que se torna difícil, às vezes, a apresentação de um discurso moral-ético que realce a dignidade da pessoa humana como centro de convergência de todas as aspirações da humanidade em geral. Trata-se de uma situação que pode decepcionar a nova geração na sua aspiração humana, espiritual e social. Não obstante essa dimensão complexa e problemática que o mundo apresenta, nesta conjuntura de globalização e na nova visão cultural baseada, essencialmente, na inter-culturalidade ou no pluralismo cultural, todos os homens de crenças e de ideologias diferentes estão de acordo acerca da necessidade de salvaguardar a “dignidade da pessoa humana”, considerando-a como centro de todos os valores. Essa é, também, a convicção da doutrina da Igreja Católica, quando diz: «a dignidade da pessoa humana se torna cada vez mais evidente na consciência dos homens do nosso tempo»26. E quando se apresenta a dignidade da pessoa como um valor, pretendemos, antes de tudo, sublinhar uma categoria moral para exprimir a dimensão ética da pessoa que deve ser preservada em todos os sentidos (humano e espiritual) e prevenida dos contágios do mal ou dos pecados durante o seu percurso existencial. Embora o mundo actual esteja marcado por vários factores políticos, económicos, raciais, culturais, a visão doutrinal da Igreja Católica não mira um projecto ou plano condenatório dessas situações, mas tem sim em vista a pessoa humana que deve ser salva mediante um projecto baseado na ética e na moralidade. Essa vontade moral-religiosa de salvar a dignidade moral da pessoa humana está bem patente na Constituição Pastoral Gaudium Spes, onde se faz uma devida proclamação da “dignidade da pessoa humana”27. Mas é, sobretudo, a declaração “Dignitatis humanae” que demonstra que a liberdade religiosa é uma categoria moral que preserva e dignifica a pessoa humana. Isso está bem explícito quando se afirma que «o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer»28. Se o objectivo principal no campo formativo e educacional é a pessoa humana, então, é natural que se deva fazer uma abordagem sobre o sentido do pecado para podermos compreender a sensibilidade ética dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Tomando em consideração o aspecto teórico à volta do pecado na sua dúplice dimensão ética e religio- 26 CONCILIO VATICANO II, Dignitatis humanae, n.1, in “Enchiridion Vaticanum”, Vol I, Bologna, EDB, pp. 578-605, p. 579. 27 CONCÍLIO VATICANO II, Gaudium et Spes nn.12-22, op. cit. pp. 791-813. 28 CONCILIO VATICANO II, Dignitatis humanae, n. 2…, p. 581. 425 sa, é bom que os alunos crentes e não crentes entendam que não se trata apenas de uma justaposição nessas duas dimensões, mas sim de dois aspectos que se complementam quer do ponto de vista da fé cristã quer do ponto de vista da consciência ética do indivíduo. Tanto os crentes como os não crentes, vivem num espaço de relacionamento uns com os outros e com o mundo que os circundam. Nessa óptica de complementaridade e numa perspectiva transcendental, segundo M. Vidal, o pecado é a negação da esperança escatológica operante no interior da história humana. A negação da esperança traduz-se na “individualização” das pessoas e dos grupos: fechar-se em si mesmos gera o egoísmo e, por sua vez, o egoísmo gera a desintegração. O pecado não une, antes dispersa. Dispersão que é alienação do homem pelo homem29. Hoje fala-se muito da perda de consciência do pecado, pelo facto, que há muita incoerência e incongruência em termos de pensamentos e comportamentos das pessoas. Permanecendo no campo juvenil, até que ponto essa “perda de consciência” do pecado é relevante no seio dos adolescentes estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde? Independentemente da crença ou pertença religiosa, os alunos são interpelados a opinar sobre o significado do pecado. A análise que se segue demonstra o tipo de sensibilidade dos alunos em relação às normas de vivências interpessoais, sócio-ambientais e religiosas como condições que podem ser viciadas e deturpadas pelas más atitudes, pelos pensamentos negativos e maus comportamentos. 1.3.3.1 O pecado como má convivência pessoal e social O pecado é visto pelos alunos como uma má convivência pessoal e interpessoal, que se concretiza em comportamentos ou actos negativos, isto é, algo de “mal” que uma pessoa pratica contra ao seu semelhante e contra si mesmo. De facto, 87% dos alunos inclina-se para esse tipo de definição do pecado, isto é, fazer mal a uma outra pessoa. Essa sensibilidade é expressiva em todas as faixas etárias: a faixa de 15-16 anos (84,1%) é um pouco menos em relação às de 11-14 anos (87,2%) e de 17-21 anos (90,4%). O mesmo se pode dizer, em termos de relevância, que há pouca diferença entre os géneros: masculino (86,5%), e feminino (88,3%). A consciência de que o pecado, em relação ao próximo, depende da atitude interior e da incapacidade de amor incondicional está patente no modo de pensar dos estudantes. De 29 Cf. M. VIDAL, Para conhecer a ética cristã…, p. 76. 426 facto, nessa dimensão interpessoal, os alunos (65,2%) acham que o pecado é não amar o próximo. Os alunos mais crescidos e com um nível de consciência mais individualizado, isto é, os de 17-21 anos (76,6%) têm uma percepção maior desse tipo de pecado, do que os outros alunos de 11-14 anos (59,5%) e de 15-16 anos (59,6%). Essa diferença é visível entre os sexos, em que as meninas (69,9%) são mais sensíveis a esse tipo de pecado do que os rapazes (60,1%). Entre os alunos que foram entrevistados, identificamos que 49,8% têm a consciência de que o pecado é um factor de consciência pessoal, e sabem que se pode pecar contra a própria pessoa, não respeitando a si mesmo. Isso pode acontecer através de actos que não dignifiquem ou atentem contra a própria pessoa (masturbação, narcisismo, masoquismo, suicídio). Na mesma perspectiva verificamos que os alunos de 17-21 anos (53,5%) sentem esse tipo de pecado um pouco mais do que os de 11-14 anos (47,2%) e de 15-16 anos (48,4%). Do mesmo modo, a camada feminina (52,6%) considera esse tipo de pecado mais do que a camada masculina (47,2%). É bom também que se saiba o modo como os alunos encaram as leis da natureza e do Estado. Se partirmos do princípio de que cada cidadão é responsável pelo seu meio ambiente e pela nação da qual, faz parte, então, o não cumprimento ou desrespeito das leis vigentes é um acto pecaminoso contra a natureza e contra o Estado. O problema que se põe é o seguinte: em que medida os alunos têm a consciência da sua participação na construção da Nação e na preservação da natureza? Nos dados, verifica-se que há uma percentagem não muito expressiva de alunos que encaram o pecado na sua dimensão sócio-ambiental. Segundo os dados apurados, 33,3% dos alunos admite que transgredir a lei da natureza é, também, um pecado. Essa sensibilidade é mais visível nos alunos de 11-14 anos (38,8%), talvez porque se encontram uma fase em que estão mais sensíveis às coisas da natureza e menos racionalistas do que os de 15-16 anos (33,5%) e de 17-21 anos (27,6%). Em relação ao sexo, os rapazes (35,8%) são mais inclinados a admitir esse tipo de pecado do que as meninas (30,6%). Em relação à nação, somente 14,3% dos estudantes do Ensino Secundário consideram que transgredir as leis do Estado é pecado. Sobre essa dimensão de pecado não há uma diferença substancial entre o sexo masculino (15,4%) e sexo feminino (13,1%). E para os alunos de 11-14 anos (20,4%) essa dimensão de pecado social revela mais um problema de consciência de que uma própria obrigação, ao contrário dos de 15-16 anos (15,1%) e de 17-21 anos (7,6%), que cumprem leis apenas por obrigação. O facto de o seu não cumprimento implicar punição objectiva não cria problemas de consciência moral. 427 1.3.3.2 O pecado é um mal contra Deus Não há dúvida nenhuma que os alunos têm uma visão de pecado, eminentemente, religiosa. Conforme os dados inqueridos, topamos que mais de dois terços dos alunos, mais precisamente, 79,7%, consideram que transgredir a Lei de Deus – os dez mandamentos – é um pecado. Trata-se de uma dimensão significativa que abrange dum modo geral os alunos e de ambos os sexos sem uma diferença relevante. É lógico que se apure, também, a dimensão ligada ao amor a Deus. A maioria dos alunos (73,2%), acha que a rejeição do amor de Deus é um pecado. Essa componente é mais elevada nos alunos de 17-21 anos (77,2%) do que nos outros de 11-14 anos (70,8%) e de 15116 anos (72%). Isso demonstra o nível de formação de consciência religiosa dos alunos mais crescidos. Nessa concepção de pecado não há nenhuma diferença entre os alunos de sexo diferente. Tab. 13: Os significados que os alunos atribuem à sua fé em Deus (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Fazer o mal a uma outra pessoa 87,0 87,2 84,1 90,4 86,5 88,0 Não amar o próximo 65,2 59,5 59,6 76,6 60,1 69,9 Não respeitar a si mesmo 49,8 47,2 48,4 53,5 47,2 52,6 Transgredir a lei da natureza 33,3 38,8 33,5 27,6 35,8 30,6 Transgredir a lei do Estado 14,3 20,4 15,1 7,6 15,4 13,1 Transgredir a lei de Deus 79,7 79,3 81,6 78,0 79,0 80,0 Rejeitar o amor de Deus 73,2 70,8 72,0 77,2 73,6 73,1 Transgredir a lei da Igreja 51,1 52,5 53,8 46,5 52,4 49,9 É uma invenção da Igreja 15,1 16,3 16,4 12,7 15,0 14,5 Outro 4,6 5,2 5,2 3,7 3,9 5,3 Não respondido 0,5 0,6 0,7 0,3 0,9 0,2 Uma outra dimensão religiosa do pecado está ligada à maneira como as Igrejas se expressam através das suas normas pastorais e canónicas. A partir dos dados, pode-se averiguar que 51,1% dos estudantes consideram que a transgressão das leis da Igreja é um pecado. Os alunos de 17-21 anos (46,5%) são os que opinam menos em relação a essa modalidade do pecado, em relação aos de 11-14 anos (52,5%) e de 15-16 anos (53,8%). A diferença entre os sexos é pouco consistente, antes, notando-se que os rapazes (52,4%) prevalecem ligeiramente sobre as meninas (49,9%). Sabendo que há uma certa indiferença, consciente ou 428 inconsciente em relação ao pecado e à Igreja, era conveniente que os alunos se pronunciassem sobre a causa eficiente do pecado. A este respeito, 15,1% dos alunos são de opinião que o pecado é uma invenção da igreja, não havendo diferença, neste ponto, entre as faixas etárias e os sexos sobre essa opinião (cf. Tab. 13). Os dados, na sua generalidade, revelam que a maioria dos estudantes têm um conhecimento teórico do que é o pecado em relação à dimensão religiosa, interpessoal e sócioambiental, mas com pouca incidência na sua vida existencial, conforme os comportamentos morais verificados ao longo deste estudo. Daí a necessidade de uma formação da consciência moral dos alunos para que saibam compreender o verdadeiro sentido do pecado, enquanto negação harmoniosa da sua personalidade e desta em relação ao mundo que o circunda, com a humanidade, com a sociedade, com as pessoas e com Deus, como Sumo Criador de tudo e de todos, para os que têm fé. 2. A educação psico-afectiva e comportamentos sexuais dos alunos Uma análise sobre a incidência moral que os meios de comunicação têm sobre os adolescentes estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde, induz-nos a reflectir seriamente sobre alguns dos seus comportamentos motivados pelo seu estado emocional e afectivo. A evolução tecnológica no campo dos meios de comunicação de massa espelha o tipo de transformações sócio-económicas na sociedade em que vivemos, com repercussões bastante fortes e incisivas na vivência da população, especialmente, na da nova geração. De facto, essa mudança sociológica na vertente económica põe em causa toda a vivência da população e incide especialmente na família, fazendo com que os seus membros mudem o estilo de vida a nível funcional, cognitivo e operativo. É a partir dessa mudança provocada no seio do núcleo familiar pela invasão de tudo aquilo que a sociedade moderna produz com a sua tecnologia avançada, criando novas necessidades, que se deve estudar as condições dos adolescentes estudantes para melhor compreender as suas atitudes e comportamentos de natureza emocional e sexual. Perante uma sociedade que se transforma rapidamente, é fácil constatar, no seio juvenil as seguintes situações: conflituosidade entre família e escola, entre filhos e pais, professores e alunos, grupos de pares; frustrações e necessidade sexuais; dificuldades de inserção 429 social30. Cada uma dessas condições será analisada segundo os dados adquiridos através dos inquéritos aplicados aos estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde. Devido à força dos meios da comunicação, incentivados pela nova tecnologia, é evidente que a nova geração não compactua mais com os hábitos tradicionais, com os ensinamentos morais de outrora e, por conseguinte, sente-se obrigada a programar o seu futuro com base em seus próprios planos, muitas vezes, não objectiváveis, sobretudo quando se trata de planos que envolvem a sua personalidade. Permanecendo na área do nosso estudo, é possível verificar um fenómeno bastante visível que reflecte a nova mentalidade entre os indivíduos da sociedade contemporânea e que, directa ou indirectamente, influencia os adolescentes e jovens. E é o seguinte: no campo da sexualidade, nota-se, no momento actual, uma nítida separação entre o prazer e a procriação. Essa dissociação faz com que haja um consumo ou uso exagerado e desumano de sexo, sem finalidades criar uma família e uma comunidade de amor. Talvez porque a constituição da família e a procriação dependem de factores económicos e não de laços afectivos e de comunhão interpessoal que devem orientar o casal a crescer como homem e como mulher, enquanto pessoa, isto é, ser-em-relação. As relações sexuais, sem nenhum compromisso, entre os adolescentes estudantes do Ensino Secundário são situações que preocupam a família, a escola e a sociedade, em geral. Perante esse fenómeno, a escola, a família e os seus agentes não podem refugiar-se no relativismo ou no permissivismo. Além de alguns factores que estão na base dessa aceleração sexual - o influxo dos mass média e da tecnologia, o bem-estar económico, a mentalidade hedonística31 - seria mais realista analisar os dados concernentes às condições dos nossos adolescentes estudantes para termos uma ideia da dimensão psico-afectiva e os seus comportamentos sexuais durante esta fase escolar. Precisamente porque o aspecto psico-afectivo é uma componente indispensável da inteligência no processo do ensino e aprendizagem. 2.1 A educação sexual dos alunos no Ensino Secundário A educação sexual dos alunos que frequentam o Ensino Secundário é um contributo fundamental para o crescimento integral da sua personalidade. Ela não abrange apenas a formação da dimensão anatómica ou biológica do indivíduo, mas também toda a sua sexualidade. Certo é que a característica biológica da sexualidade começa com a fecundação entre o 30 Cf. J. NUTTIN, Psychanalyse et conception spiritualiste de l’homme, Louvain, Publications Universitaires, 1962, p. 242. 31 Cf. N. GALLI, Educazione sessuale e mutamento culturale, Brescia, La Scuola, 1980, p. 12. 430 óvulo e o espermatozóide, e temos que considerar essa dimensão peculiar na vida de cada ser humano, não como simples realidade adquirida do mundo externo, mas como algo que nasce com a pessoa e que num segundo momento interage com o seu ambiente tomando a sua configuração conforme o sexo masculino ou feminino. Noutras palavras, a sexualidade, enquanto “projecto-programa”, é condicionada pelo aspecto psicológico do próprio sujeito e pelo ambiente cultural onde nasce ele está inserido32. É natural que se faça conhecer aos alunos a importância da sua vida sexual como pessoa e não como um ser vivo qualquer ou apenas como objecto que suscita prazer. Segundo esse critério personalista, emerge então a necessidade de uma educação sexual como prevenção, sobretudo, num ambiente que faz do sexo um objecto de comercialização mediante um vendaval de publicidade. Nessa novo contexto social, o sexo humano deixa de ser pessoa e passa a ser produto de aprazimento ou “objecto de libido” 33, segundo H. Marcuse. Isso comporta uma profunda manipulação da consciência, especialmente, da camada juvenil menos preparada para enfrentar esses desafios de insistência sobre o prazer, a sedução e atracção sexual que a sociedade a impõe mediante o seu relativismo ético. Fig. 15: Os alunos que já ouviram falar sobre a educação sexual (em %) Não Resp. 2 NÃO 9,2 SIM 88,9 0 20 40 60 80 100 Partindo dessas considerações, apresentaremos as ideias e opiniões dos alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde sobre a educação sexual como uma componente indispensável para a formação moral e pessoal do indivíduo em fase decrescimento. Os dados pesquisados atestam que uma maioria qualificada 88,9%, dos alunos já ouviram falar de educação sexual (ao menos em termos de informação) e, somente, 9,2% deles nunca teve essa informação (Fig. 15). 32 33 Cf. N. GALLI, Educazione sessuale e mutamento culturale…, p. 249. H. MARCUSE, Eros e civiltà, Torino, Einaudi, 1977, p. 74. 431 A ideia de que os alunos já tiveram a oportunidade de ouvir falar da educação sexual é, de facto, uma realidade. Porém, resta-nos saber quem são os intervenientes, para que possamos, depois, averiguar a incidência dessa formação pessoal nos seus comportamentos e suas atitudes perante a sua própria sexualidade e em relação à sexualidade dos outros seus semelhantes. Os dados realçados neste inquérito mostram que 88,8% dos alunos afirmam que foram os seus professores a informá-los sobre a educação sexual; 46,1% dos alunos dizem que foram os seus pais a falar-lhes desse tema; ainda, 20,6% dos alunos foram informados pelos amigos; finalmente, 29% tiveram acesso à informação através da leitura dos livros (Fig. 16). Fig. 16: Os intervenientes na informação dos alunos acerca da Educação sexual (em %) Livros 29 Parentes 2,7 Amigos 20,6 Formação cristã 4,8 Animadores 3,1 Pais 46,1 Professores 88,8 0 20 40 60 80 100 Perante esse leque de intervenientes, é evidente a presença dos professores, no sentido de que o tema da vida sexual é tratado na disciplina de “Formação Pessoal e Social” no Ensino Secundário de Cabo Verde. Um outro aspecto saliente é a figura dos pais nesse tema de informação. Isso significa que, actualmente, há mais abertura e atenção, da parte dos pais, para falar da sexualidade com os filhos do que no passado, em que falar do sexo com os menores era quase um tabu. Talvez essa abertura seja devido aos problemas inerentes ao alargamento exagerado de relações sexuais no seio dos adolescentes e jovens, e aos fenómenos relacionados à vida sexual, tais como: a gravidez precoce das alunas nos liceus, a prática de aborto entre os menores, a propagação do HIV/SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis. Portanto, são problemas que constrangem os pais a intervir para prevenir o envolvimento dos filhos nessas determinadas situações. Nem sempre a intervenção dos pais nesta matéria é pacífica, pedagógica e construtiva, porque agem à base de padrões comportamentais socialmente estabelecidos como regras 432 de conduta. E é natural que os filhos adolescentes se sintam reprimidos nos seus próprios impulsos perante essas intervenções. Mais de que reprimir os impulsos sexuais, segundo padrões de comportamentos, os pais devem procurar outras modalidades pedagógicas para ajudar a resolver os problemas, tentar conhecer os interesses dos filhos e levá-los a envolverse num processo que conduz ao amadurecimento fisco e psicológico da sua sexualidade, infundindo neles sentimentos de entusiasmo e de serenidade como condições basilares que os ajudem a superar os traumas e os conflitos34. A presença dos intervenientes na educação sexual dos alunos é um factor que não despensa os meios utilizados para essa finalidade. Certo é que os meios com que os alunos foram informados e formados sobre a importância da educação sexual poderão constituir uma estratégia para os professores e pais no prosseguimento das suas tarefas educativas. A educação que mexe com a intimidade da pessoa nem sempre depende daquilo que se sabe, a priori, mas da forma como a pessoa se sente interiormente para se relacionar com os outros. Nesse sentido, a educação sexual depende do tipo de relacionamento que os adolescentes estudantes instauram com os seus formadores. Sobre os meios utilizados na informação e formação dos alunos sobre a educação sexual, verificamos que 56,6% dos alunos utilizam os livros apropriados que explicam os conteúdos de natureza sexual. Um outro aspecto que é preciso ter em consideração nesta matéria é a privacidade. Note-se que 55,2% dos entrevistados tiveram essa informação através do diálogo pessoal com pessoas de maior relação. A reunião de grupo foi um outro meio que levou 42, 2% dos alunos a receber essa informação. Além disso, essa informação foi veiculada através das conferências (12,8%), formação humana (17,1%) e formação cristã (6,4%) (Fig. 17). Dos dados cruzados que caracterizam o “diálogo pessoal” apontam algumas diferenças entre as faixas etárias e os géneros. No que se refere a faixas, os alunos de 11-14 anos são os que menos, tiveram o diálogo pessoal em relação (48,6%), seguidos dos de 15-16 anos (58,15) e dos de 17-21 anos (58,6). Em relação aos géneros, os alunos do sexo masculino tiveram menos diálogo pessoal (52,2%), do que os do sexo feminino (58,5%). Os meios utilizados para a formação ou informação dos alunos sobre a educação sexual, fazem reflectir nalgumas atitudes importantes que os pais e professores devem assumir durante o exercício das suas funções. Antes de tudo, a vida sexual do indivíduo é uma componente extremamente pessoal e privada, por conseguinte, exige atenção e delicadeza, quando se faz uma abordagem da dessa matéria. O respeito pela intimidade do indivíduo é fundamental para a instauração de um relacionamento efectivo e interactivo entre o educando e o edu- 34 Cf. N. GALLI, Educazione sessuale e mutamento culturale…, p. 15. 433 cador ou entre os pais e o filho. Essa relação interpessoal foi devidamente explicitada pelo pensamento de H. Franta: se o educador interage como pessoa verdadeira e não camuflada através duma fachada do papel que desempenha, não será reconhecido somente pelos educandos como uma pessoa autêntica e congruente, mas os seus esforços para implementar adequadamente a sua responsabilidade pedagógica e para realizar uma atitude emocional positiva terão maior efeitos na medida em que serão experimentados como genuínos35. Fig. 17: Os Meios utilizados na informação da educação sexual dos alunos (em %) 1,8 Não resp. 55,2 Diálogo pessoal 6,4 Formação Cristã 56,6 Livros apropriados 17,1 Formação humana 42,2 Reunião de grupo 12,8 Conferência 0 10 20 30 40 50 60 Isso justifica como é significativo para os alunos adolescentes e jovens um “diálogo pessoal” ou interpessoal sobre a sua sexualidade com pessoas de confiança. Em segundo lugar, é conveniente oferecer ao educando subsídios que descrevam a sua idade evolutiva e a partir daquilo que assimilou, provocar um diálogo de confiança e de partilha sobre algumas ideias e experiências pessoais à volta da própria sexualidade, considerando que os livros apropriados fazem parte do repertório de conhecimento nessa matéria. Enfim, o grupo de encontro organizado com critérios de orientação contribui para despertar um espírito solidário de partilha de vivência e de experiência sobre a própria sexualidade. Como se pode atestar, são os próprios educandos a fornecer as linhas de estratégias para a execução de um plano pedagógico e educativo. Portanto, não é conveniente que os pais e os professores se afastem dos problemas que afectam a vida sexual dos filhos e educandos. O facto de os pais e professores não assumirem a própria responsabilidade na educação sexual 35 H. FRANTA – G. SALONIA, Comunicazione interpersonale, Roma, Las, 1981, p. 40. 434 dos seus filhos e educandos, segundo as directrizes individualizadas, pode suscitar neles, sentimentos de ansiedade, inquietação, curiosidade, sentimento de culpa, desconfiança, que serão contraproducentes para o equilíbrio da sua personalidade, e poderão conduzi-los a desvios sexuais, comportamentos não correctos e uma visão destorcida do sexo que se aprende com os companheiros da mesma idade ou através de outras fontes impróprias (revistas, livros e filmes pornográficos). Daí a necessidade de uma educação contínua sobre a vida sexual do indivíduo, conforme a exortação endereçada aos pais e educadores, em geral, pelo pedagogo A. S. Makarenko: a vida sexual do homem do futuro educa-se passo a passo, mesmo quando os pais e os educadores não pensam na educação sexual36. Não basta a escolha de meios para obter apenas uma informação genérica. É bom que se saiba aquilo que os alunos pensam da educação sexual. E só conhecendo os seus pensamentos, é possível encontrar formas e modalidades para incentivá-los, melhorá-los e corrigilos nos seus comportamentos e atitudes. Começando pelos dados inqueridos, conferimos que do ponto de vista comportamental, 72,5% dos entrevistados pensam que a educação sexual é uma forma de ajudá-los a terem um comportamento responsável, e 58,4% dos alunos são da opinião que isso os ajuda a tomar decisões livres e responsáveis. Do ponto de vista relacional, 43,9% dos alunos entendem que a educação sexual é um modo de construir uma família harmoniosa, 20,4% são da opinião que isso permite a escolha de um partner e, finalmente, facilita relações com pessoas. Um outro aspecto a ter em conta naquilo que os alunos pensam acerca da educação sexual, é a dimensão pessoal ou subjectiva. De facto, 61,3% dos alunos julgam que a educação sexual contribui para a construção saudável da sua própria vida, 39,3% acham que é um modo de conhecer a anatomia do próprio corpo com objectividade e 26,3% afirmam que essa educação ajuda-os a conhecerem-se e compreenderem, em parte, a própria pessoa do ponto de vista psicológico e moral. Os alunos pensam, também, que a educação sexual tem uma vertente preventiva. Dos entrevistados, 49% admitem que a educação sexual consiste no uso de contraceptivos, e 56,4% são da opinião que a educação sexual contribui para a defesa das doenças sexualmente transmissíveis (cf. Fig. 18). No campo educativo é sempre bom que os educadores insistam nos dois pólos interdependentes dos valores éticos – responsabilidade e liberdade – como critérios inseparáveis e indispensáveis que devem nortear qualquer comportamento humano. É, por isso, que a vida moral se fundamenta na liberdade e na responsabilidade. Pode-se afirmar, então, que ser livre é ser responsável ou agir moralmente37. Os alunos devem também ser ajudados a compreender que a tomada de uma decisão depende dos objectivos e das metas que se pretende a atin36 37 A. S. MAKARENKO, Consigli ai genitori, Roma, Riuniti, 1961, p. 102. M. VIDAL, Para conhecer a ética cristã, Porto, Perpétuo Socorro, 1997, p. 34. 435 gir. Nesse sentido, devem conhecer, materialmente, as finalidades intrínsecas e extrínsecas de uma relação sexual, e não uma mera decisão de usar o sexo enquanto tal. Fig. 18: As opiniões dos alunos sobre as finalidades da educação sexual (em %) Não resp 7,3 Relações com pessoas 33,2 Compreender própria pessoa 26,3 Conhecer o próprio corpo 39,3 Escolher partner 20,4 Defender das doenças 56,4 Usar contraceptivos 49 Família harmoniosa 43,9 Vida saudável 61,3 Decisões livres 58,4 Comportamento responsável 72,5 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Na verdade, a educação sexual é um contributo formativo da pessoa humana ao longo do seu crescimento e que a torna adulto e maturo do ponto de vista intelectual, psicológico e moral. O que se deve esclarecer aos alunos é o aspecto preventivo da educação sexual. Além da sua materialidade, como é o caso dos contraceptivos, os alunos devem adquirir e interiorizar um conjunto de atitudes morais que os tornem virtuosos nos seus comportamentos e os levam a valorizar o próprio sexo como uma dimensão humana e não um mero objecto para usar, sem perspectivas e orientações éticas. 2.2 Os sentimentos e as atitudes afectivos dos estudantes Uma análise dos dados que nos faz perceber os sentimentos dos adolescentes estudantes cabo-verdianos do Ensino Secundário, contribui para que os pais e educadores com- 436 preendam o nível de relacionamento emocional dos filhos e educandos com os indivíduos de sexo oposto. Os sentimentos que os estudantes provam no seu relacionamento com o outro sexo são apenas o desabrochamento da vivência da sua dimensão psico-afectiva. Só conhecendo os verdadeiros sentimentos emocionais, poder-se-á proporcionar aos alunos uma educação capaz de evitar quaisquer pensamentos deturpados (sexofobia, angelismo, biologismo) sobre o sexo, que lhes tenham sido impingidos ou adquiriram através das falsas informações. Os sentimentos humanos não são meros sinais que os indivíduos emitem perante uma situação vivida no momento, antes, é todo o organismo psico-físico do indivíduo que se põe em movimento. Portanto, os sentimentos podem ser comparados a uma cadeia energética que põe em funcionamento uma cidade toda, segundo os seus vários sectores. Nessa dinâmica psicoafectiva, a educação sexual adquire valor, tendo presentes as correlações de todas as dimensões do indivíduo em fase de crescimento38. Nesse sentido, a educação sexual contribui para o desenvolvimento integral e harmonioso da pessoa dos adolescentes estudantes. Na fase de adolescência, os psicólogos e sociólogos concordam que o indivíduo tem a propensão para procurar a sua própria identidade como um problema central para a sua autoafirmação. Não há dúvida que isso implica ruptura, contestação e conflito com os pais, professores e adultos, comportamentos insólitos, relações com grupos de pares monossexuais ou heterossexuais. Nesse período, a relação com a menina ou com o rapaz é uma tarefa evolutiva que os adolescentes são interpelados a solucionar. Portanto, namorar é para muitos adolescentes uma forma de evidenciar a sua própria imagem experimentando sentimentos emocionais. 2.2.1 Os sentimentos em relação ao coetâneo de sexo oposto Os dados que retractam os sentimentos dos estudantes do Ensino Secundário ao aproximarem-se de um(a) coetâneo(a) de sexo oposto são bastante sugestivos e nos facultam uma compreensão geral quer a nível de faixa etária quer a nível de géneros. Há que ter em conta duas modalidades circunstanciais: os sentimentos que provocam mal-estar e sentimentos que dão uma certa deleitação. Deixando de lado os 19,3% dos alunos que não experimentam nenhum sentimento nessa aproximação, apuramos um conjunto de sentimentos que revelam um certo mal-estar dos alunos que se aproximam do sexo oposto. Antes de tudo, 14,3% dos alunos provam sentimento de rejeição. Os estudantes da faixa etária de 11-14 anos (17,5%), sentem-se mais 38 Cf. N. GALLI, Educazione sessuale e mutamento culturale…, p. 17. 437 rejeitados que os da faixa de 15-16 anos (14,9%s) e de 17-21 anos (10,4%). É significativo que, entre os géneros, 16,9% dos rapazes sentem-se mais rejeitados do que as meninas (11,5%). Às vezes, essa aproximação causa perturbação nos adolescentes e jovens. De facto, 25,7% dos inqueridos consideram-se perturbados. Também a faixa etária que mais prova o sentimento de perturbação é de 11-14 anos (29,7%), seguida dos alunos de 15-16 anos (27,3%) e de 17-21 anos (20,3%). Há uma diferença irrelevante entre rapazes e meninas. 26,4% para os rapazes e 24,2% para das meninas. É importante que façamos, acerca deste sentimento, uma observação sobre os estudantes que residem em ambientes diferentes: os que moram nas Aldeias (31,8%) sentem-se mais perturbados dos que habitam na Cidade (24,7%) e na Vila (19,1%). Um outro sentimento não indiferente, apontado pelos alunos (36,5%) é o medo provocado por essa aproximação do sexo diferente. Esse sentimento é bastante significativo entre as faixas etárias: os alunos de 11-14 anos (44%), são os que mais experimentam o medo em relação aos alunos de 15-16 anos (37,5%). Vêm a seguir os de 17-21 anos (27,6%). Há também uma diferença substancial entre os géneros: os estudantes do sexo feminino (42,3%), sentem mais medo do que os do sexo masculino (29,8%). Diferença também no que diz respeito a ambientes de vida: esse sentimento é mais elevado nos que moram nas Aldeias (45,5%) e menos nos que moram na Cidade (28,8%) e nas Vilas (31,1%). Finalmente, um outro sentimento que ateia o mal-estar nos estudantes (29,8%), é a timidez e o embaraço. Entre as faixas etárias não há uma diferença substancial: os alunos de 11-14 anos (28%), os de 15-16 anos (29,8%) e os de 17-21 anos (31,3%). Ao passo que a diferença é significativa a nível do sexo, em que 24,7% dos rapazes sentem-se menos tímidos e atrapalhados do que as meninas (34,5%). A segunda modalidade circunstancial é a que suscita nos estudantes sentimentos de deleitação. Em primeiro lugar, os dados revelam que o sentimento de amizade (55,1%), é o que os estudantes sentem mais quando se aproximam do sexo oposto. Não há uma diferença significante entre as faixas etárias e tanto menos a nível do género. Talvez seja um sentimento fortemente generalizado no seio da população. Os dados revelam também que 46,2% dos estudantes experimentam profundamente o sentimento de prazer e alegria. Neste ponto, há uma diferença qualificada entre o sexo masculino (54,1%) e o sexo feminino (39,35%) e diferença não relevante a nível de faixa etária: 44,3% para os estudantes de 11-14 anos, 45,7% para os de 15-16 anos e um pouco mais para a faixa de 17-21 anos (49%). Sempre nessa modalidade há um sentimento mais inclinado para a sensualidade, ou seja, 34% dos alunos admitem que experimentam o sentimento de atracção sentimental ou paixão pelo sexo oposto. Essa manifestação é ligeiramente mais visível nos estudantes do 438 sexo masculino (36,1%) do que nos estudantes do sexo feminino (32,4%). Há também uma diferença no que se refere a faixas etárias: os alunos de 17-21 anos (39,7%), sentem mais esse sentimento do que os da faixa de 11-14 anos (29,7%), e os de 15-16 anos (33%). Sempre nessa linha de impulso sexual, há uma percentagem de estudantes (17,6%) que experimenta a excitação erótica quando se aproxima do sexo oposto. Os dados indicam, também, que há uma diferença consistente entre os rapazes, (22,8%) que se sentem mais excitados do que as meninas (13,1%). E uma diferença progressiva entra as faixas etárias: de 11-14 anos (15,7%), de 15-16 anos (16,9%) e de 17-21 anos (20,8%) (Tab. 14). Tab. 14: Os sentimentos que os alunos experimentam aproximando-se do sexo oposto Segundo as faixas etárias, sexo e zonas de residência (em %) Faixa etária Sexo Zonas de residência Total 11-14 15-16 17-21 M F Cidade Vila Aldeia Rejeição 14,3 17,5 14,9 10,4 16,9 11,5 13,9 12,5 16,4 Perturbação 25,7 29,7 27,3 20,3 26,4 24,2 24,7 19,1 31,8 Medo 26,5 44,0 37,5 27,6 29,8 42,3 28,8 31,1 45,5 Timidez e embaraço 29,8 28,0 29,8 31,5 24,7 34,5 30,2 33,0 26,6 Alegria e prazer 46,2 44,3 45,7 49,0 54,1 39,3 46,4 48,1 45,0 Amizade 55,1 55,4 53,6 56,9 54,9 55,4 54,6 58,7 52,5 Atracção sentimental 34,0 29,7 33,0 29,7 36,1 32,4 36,3 35,0 31,1 Excitação erótica 17,6 15,7 16,9 20,8 22,8 13,1 17,3 19,7 16,1 Nada 19,3 20,4 18,1 19,4 17,4 20,0 23,1 21,1 15,9 Outros 3,1 3,8 3,2 2,3 2,2 4,1 5,4 3,4 1,4 Não respondido 2,2 0,3 2,2 3,9 1,9 2,7 2,0 2,3 2,5 Os sentimentos emocionais ligados à dimensão psico-afectiva dos estudantes adolescentes são fundamentais para o despertar da consciência moral da própria masculinidade e feminilidade como pessoa, ser-em-relação. Portanto, o despertar desses sentimentos nessa idade é fundamental para a estruturação da própria identidade sexual. Embora a teoria freudiana admita que a sexualidade não surge com a puberdade, mas está presente desde os primeiros anos de vida e prossegue segundo os estádios do desenvolvimento afectivo, a maioria dos psicólogos concorda que é na adolescência matura que a sexualidade aparece plenamente, 439 no sentido de que os adolescentes sentem atracção genital, que tende a estabelecer relação de reciprocidade e procriação39. Acerca dos sentimentos, evidenciamos duas modalidades expressivas que os estudantes experimentam nessa fase evolutiva. Quer uma quer outra são condições essenciais para que eles possam tomar consciência de si mesmo como sujeitos capazes de ultrapassar os obstáculos emocionais para poderem instaurar relações sadias que facilitam o conhecimento recíproco para o próprio crescimento psico-sexual. É importante que os pais, professores e educadores saibam falar com os filhos e educandos, que atravessam essa fase, sobre o valor moral da sexualidade como plena expressão humana que desabrochará no ser homem e mulher, com sentido de maturidade e responsabilidade que leva a construção de uma família como meta indispensável para a vida de cada ser humano. E que lhes mostrem a necessidade de autodisciplina dos seus impulsos mediante o uso racional da vontade como critério de auto-domínio e de realização de si mesmo para um bem que se pode escolher e construir com o exercício da própria sexualidade. 2.2.2 As atitudes em relação ao coetâneo de sexo oposto A aproximação de um(a) coetâneo(a) pressupõe um tipo de relacionamento que acabará por desembocar numa atitude de enamoramento. No que diz respeito a essa atitude, é bom que saibamos qual é o nível de significado que os estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde lhe atribuem, isto é, o que significa ter um(a) namorado(a) nesse período escolar. Conforme os dados, há um grupo de significados, alguns pertinentes e outros nem por isso. Entretanto, distinguimos três grupos de significados que os estudantes deram à essa atitude: a necessidade de auto-afirmação; a necessidade de afectividade recíproca; a exigência fisiológica e de entretenimento. São dados que merecem uma adequada educação sobre essa condição juvenil para o seu crescimento como pessoa moralmente responsável. Antes de tudo, apresentamos o grupo de significados que apontam para a necessidade de auto-afirmação. Para 16,5% dos estudantes ter um(a) namorado(a) é um modo de apoiarse reciprocamente. A nível de faixas etárias, constatamos uma diferença gradual, isto é, os alunos de 11-14 anos são 11,1%, e os de 15-16 anos são 15,1%, ao passo, que os de 17-21 anos são os que mais sentem essa necessidade (23,4%), talvez porque se sentem mais desvinculados dos laços familiares e mais adultos. A diferença não é muito significativa em relação 39 Cf. N. GALLI, Educazione sessuale e mutamento culturale…, p. 285. 440 aos géneros, como indica a percentagem dos dados: os rapazes (17%) e as meninas (15,6%). Essa necessidade de sentir o namoro como apoio é um pouco mais visível nos estudantes com pais que vivem uma situação estável, casados, do que os outros que têm pais na condição de união de facto (13,9%) e separados ou divorciados (16,2%). Sempre nessa condição que abrange o aspecto afectivo, 31,2% dos estudantes sentem o namoro como a necessidade de segurança. Essa sensação está bem evidenciada nas faixas etárias: 32,1% a nível dos estudantes de 11-14 anos; 33,5% para os de 15-16 anos e um pouco menos na faixa entre os de 17-21 anos (27,6%). No que se refere ao sexo, verificamos que os estudantes do sexo feminino (38,1%) procuram essa segurança mais do que os do sexo masculino (24,2%). A necessidade de segurança afectiva revela, também, o tipo de situação familiar. Nesse sentido, é evidente que 29,9% dos entrevistados têm os pais casados; 33,7% têm pais numa situação de união de facto; finalmente, 30,9% dos estudantes têm pais divorciados ou separados. Uma outra necessidade expressa pelos alunos (18,5%), sobre o que significa ter um(a) namorado(a), tem a ver com o sentir-se adulto. Essa atitude é mais acentuada na primeira fase da adolescência. De facto, os da faixa de 11-14 anos são 21% em relação aos de 15-16 anos (17,1%) e de 17-21 anos (17,7%). A percentagem do sexo masculino (23,6%) é mais elevada em demonstrar essa atitude como uma necessidade existencial, do que a do sexo feminino (13,6%). Essa necessidade de sentir-se adultos revela que 16,6% dos estudantes inquiridos, têm pais são casados; 18,5% apontam que os pais convivem em união de facto; e 21,1% têm pais divorciados ou separados. Em segundo lugar, aparece um outro grupo de significados que aponta o namoro como uma necessidade de afectividade recíproca. A nível desse grupo verificamos que 83,9% dos inquiridos concordam que o namoro é uma questão de afecto e amor. Essa afirmação permanece como base sobre a qual construir uma família, enquanto espaço de crescimento pessoal e social de cada indivíduo. Os dados revelam uma unanimidade e sem grande diferenças entre as faixas etárias e os géneros. Assim também para os alunos que têm pais em situação familiar diferente. Embora não seja relevantes, aparecem outros dados que caracterizam outros aspectos como necessidades de afectividade recíproca em ter um(a) namorado(a) e são os seguintes: uma forma de ter um conhecimento recíproco (16,7%), e um modo de valorização recíproca (10,2%). Também, nesses casos, os dados são bastante relativos para as faixas etárias, para o sexo e para a situação familiar (confere a Tabela 11a). Há, finalmente, há uma percentagem não muito significativa, de alunos que pensam que o namoro é apenas uma exigência fisiológica e de entretenimento. Apesar da sua insigni- 441 ficância, é importante que os dados sejam conhecidos, pois que revelam atitudes pouco construtivas a nível de relacionamento interpessoal e do ponto de vista moral. Em primeiro lugar, 5,3% dos alunos imaginam que ter um(a) namorado(a) é um modo de vangloriar-se com os amigos, uma atitude mais visível na faixa etária dos alunos de 11-14 anos (7,3%) do que nas faixas de 15-16 anos (5,5%) e de 17-21 anos (3,1%). Também é mais expressiva no sexo masculino (6,2%) do que no sexo feminino (4,4%). Essa mesma atitude é mais expressiva nos alunos dos pais casados (7,5%), do que nos alunos que tem pais em situação de união de facto (4,1%) e divorciados ou separados (4,3%). Tab. 15a: Os significados de ter um(a) namorado(a) segundo os alunos: Faixas etárias e sexo (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Apoio recíproco 16,5 11,1 15,1 23,4 17,0 15,6 Segurança 31,2 32,1 33,5 27,6 38,1 24,2 Sentir-se adulto 18,5 21,0 17,1 17,7 23,6 13,6 Afecto e amor 83,9 80,8 85,6 85,4 83,1 84,4 Conhecimento recíproco 16,7 14,3 17,1 17,7 17,2 16,1 Valorização recíproca 10,2 9,6 8,7 11,8 10,9 9,4 Vangloriar-se com amigos 5,3 7,3 5,5 3,1 6,2 4,4 Diversão 17,6 24,8 17,9 10,1 18,5 16,8 Passatempo 32,6 39,9 33,5 25,4 30,9 34,5 Satisfação fisiológica 5,4 8,7 5,0 3,1 5,6 5,5 Outros 1,8 1,5 1,7 2,3 1,5 2,1 Não respondido 1,8 1,2 1,7 2,5 1,7 1,8 Às vezes, o relacionamento entre os estudantes namorados parece um divertimento. De facto, 17,6% dos entrevistados afirmam que ter um(a) namorado(a) é apenas uma diversão. Essa atitude de conceber o namoro como um entretenimento é bastante significativa na fase inicial da adolescência (11-14 anos): 24,8%; é, também, significativa na fase da adolescência média (15-16 anos): 17,9%); menos expressiva na fase da adolescência final de 17-21 anos: 10,1%. O sentido de namoro responsável cresce na medida em que o indivíduo cresce do ponto de vista psico-físico e se torna responsável de si mesmo e dos outros seus semelhantes. Os estudantes adolescentes diferenciam-se pouco a nível do género, nessa atitude de encarar o namoro. De facto, verifica-se que 18,5% dos rapazes pensam dessa forma e um pouco menos as meninas (16,8%). Também, a diferença é irrelevante entre os estudantes que têm os pais em situação de casados (17,6%), de união de facto (18%) e de divorciados ou separados (17,1%). 442 Sempre nessa perspectiva de entretenimento, uma percentagem significativa dos estudantes vive esse momento de namoro com muita ligeireza de vida e pouco condizente com a moralidade. Nesse sentido, apuramos que 32,6%, dos alunos acham que ter um(a) namorado(a) é uma forma de passatempo. Essa exigência é bastante expressiva nas faixas etárias. Efectivamente, os alunos de 11-14 anos (39,9%) concebem essa condição de viver o namoro mais do que os de 15-16 anos (33,5%) e de 17-21anos (25,4%). Essa atitude é mais sentida nas meninas (34,5%) do que nos rapazes (30,9%). É possível que essa incapacidade de enfrentar uma opção com responsabilidade e compromisso, seja devida à a forma como os adolescentes e jovens encaram os seus pais. A situação dos pais poderá ter peso na forma como os alunos se relacionam com os outros. Dos dados, constatamos que 28,4% dos alunos que exprimem essa atitude têm pais casados; 33,9% têm pais que vivem em união de facto; e 36,4% têm pais divorciados ou separados. Tab. 15b: A necessidade de ter um(a) namorado(a), comparada com a situação dos pais (em %) Situação familiar dos pais Total Casados Un. de facto Divorc/separados Apoio recíproco 16,5 19,3 13,9 16,2 Segurança 31,2 29,9 33,7 30,9 Sentir-se adulto 18,5 16,6 18,5 21,1 Afecto e amor 83,9 82,7 84,6 84,4 Conhecimento recíproco 16,7 19,6 16,7 12,8 Valorização recíproca 10,2 9,3 9,9 11,6 Vangloriar-se com amigos 5,3 7,5 4,1 4,3 Diversão 17,6 17,6 18,0 7,1 Passatempo 32,6 28,4 33,9 36,4 Situação fisiológica 5,4 6,0 4,1 6,4 Outro 1,8 2,3 1,8 1,2 Não respondido 1,8 1,3 2,5 1,5 Embora, na teoria o sexo não significa objecto de gozo, constata-se que apenas 5,4% dos alunos pensam que o namoro é uma satisfação fisiológica. Segundo os dados cruzados, os alunos de 11-14 anos (8,7%) são mais propensos a pensar dessa forma do que os de 15-16 anos (5%) e de 17-21 anos (3,1%) e não há diferença entre o sexo masculino (5,6%) e feminino (5,5%), nem tão pouco entre os alunos com pais em situação de casados (6%), união de facto (4,1%) e separados ou divorciados (6,4%) (cf. Tab. 15a e 15b). Segundo os dados analisados, os estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde sentem, antes de tudo, o período de enamoramento como um modo de auto-afirmação da pes- 443 soa, uma necessidade de instauração da afectividade recíproca e uma exigência fisiológica e de entretenimento. São percepções que descrevem o tipo de interiorização desse valor, tão importante para a vida humana na família, nos grupos e numa sociedade que dispõe de tantos seus meios de propaganda sobre esse argumento. Algumas dessas percepções merecem ser sustentadas, apoiadas, outras melhoradas, preventivamente, mediante uma formação sexual que oriente, do ponto de vista pedagógico, para uma “educação para o amor”40. É papel dos pais e professores maturos e responsáveis ajudar os filhos e alunos adolescentes, nesse período, a compreenderem o sentido global do amor humano que se encontra nessa fusão substancial do eros (amor como atracção física) com o ágape (amor como oblação de si mesmo). Só interiorizando o valor dessas componentes, os estudantes adolescentes estarão em condições de passar do «o princípio do prazer»41 egoístico para o princípio de realidade, enquanto, condição de crescimento pessoal. Também, alguns dados que foram analisados, comprovam que, parcialmente, o divórcio e a separação dos pais afectam directamente a formação e as relações psico-afectivas dos estudantes. O fenómeno de namoro entre os adolescentes estudantes na sociedade cabo-verdiana, não é apenas uma “paixão” passageira de emoções agradáveis, antes pelo contrário, está assumindo formas bastante alarmantes que a conduzem a um envolvimento não somente a nível de emoção erótica, mas a uma verdadeira consumação sexual. Este assunto será desenvolvido mais à frente e serão apresentados dados que confirmam essa visão hipotética. Antes de entrarmos no tipo de experiência eminentemente sexual dos alunos, é oportuno ver o que é que os alunos dizem e o que significa para eles uma “relação sexual”, para podermos, depois, compreender melhor os seus comportamentos e atitudes perante este tema que merece uma análise aprofundada e uma individualização de estratégia preventiva. 2.2.3 Os significados atribuídos à relação sexual Os significados que os alunos atribuem à relação sexual mostram que eles têm uma noção objectiva do que é na realidade um comportamento sexual do ponto de vista moral ou imoral. Para facilitar a compreensão desses significados, agrupamo-los em três aspectos: uma visão egocêntrica do sexo, uma visão oblativa e fiel da sexualidade e o sexo como conhecimento pessoal e interpessoal. Isso demonstra que é possível uma educação sexual para os aju- 40 41 Idem., p. 283. S. FREUD, Al di là del principio del piacere, Torino, Boringhieri, 1975, p. 17. 444 dar a interiorizar as verdadeiras finalidades das relações sexuais como auto-realização da própria pessoa e o rejuvenescimento da sociedade e da humanidade em geral. Nos dados que foram apurados, embora não sejam muito expressivos, verificamos que os alunos têm uma visão egocêntrica do sexo. Em primeiro lugar, 10,6% dos alunos acham que a relação sexual deve ser feita sem nenhum compromisso pessoal. Essa opinião é mais relevante na faixa etária de 11-14 anos (17,5%), com uma mentalidade relativamente imatura, do que na faixa de 15-16 anos (9,4%) e de 17-21 anos (5,1%). Essa última faixa mostra já uma certa maturidade na forma de compreender a importância do sexo. Verifica-se uma diferença expressiva entre os géneros: os estudantes do sexo masculino (13,7%) apontam mais para essa forma de pensar do que os do sexo feminino (7,4%). Em segundo lugar, 12,6% dos estudantes afirmam que a relação sexual é uma simples busca de prazer físico. Nesta questão não há uma diferença expressiva entre as faixas etárias: 11-14 anos (13,1%), 15-16 anos (12,9%) e 17-21 anos (10,4%). Todavia, essa forma de opinar é mais notório nos rapazes (15%) do que nas meninas (9,4%). Enfim, a relação sexual vista como ocasião de violência é insignificativa para os estudantes (1,2%). Um outro grupo de dados que exprimem a opinião dos estudantes sobre o significado da relação sexual, revela, eminentemente, uma visão oblativa e fiel da sexualidade. Conforme o inquérito, 38,3% dos alunos acham que a relação sexual é um acto de amor conjugal. Esta percepção é bastante significativa nos vários grupos etários: a percentagem dos alunos da fase de adolescência final, 17-21 anos, é de 43,4%, superior à faixa de 15-16 anos (37,7%). Há uma diferença significativa entre os géneros nessa forma de opinar. De facto, os do sexo masculino, 34,6%, são menos favoráveis do que os do sexo feminino (41,6%). Na linha duma visão fiel da sexualidade, 34,2% dos alunos opinam que o acto sexual deve ser visto como uma relação de fidelidade entre o casal. Nessa perspectiva, constatamos que os alunos de 15-16 anos (38,2%) têm uma visão mais positiva do que os de 11-14 anos (32,9%) e de 17-21 anos (31%). Há, também, uma diferença evidente entre os sexos: a percentagem do sexo masculino (30,9%) é inferior à do sexo feminino (37,5%). Um aspecto bastante preocupante nessa visão oblativa: os alunos não encaram, suficientemente, uma outra finalidade do acto sexual, que é a procriação. Apenas 3,2% dos alunos opinam a esse respeito, sem nenhuma diferença entre as faixas etárias: os rapazes (4,9%), são um pouco mais favoráveis do que as meninas (1,6%). Um outro aspecto que merece ser evidenciado, embora seja menos relevante na opinião dos estudantes, é a relação sexual como modo de conhecimento pessoal e interpessoal. Nesse caso, evidenciamos 3,7% dos que admitem que a relação sexual implica um conhecimento recíproco entre o homem e a mulher. Nessa perspectiva de opinião não há diferença 445 significativa entre os grupos etários, e um pouco menos nos géneros, em que a percentagem do sexo masculino (2,8%) é um pouco inferior a do sexo feminino, que aponta para 4,4%. Identificamos também uma componente em que 9,7% dos alunos são da opinião de que a relação sexual é um modo de sentir-se homem e mulher. Também, nisso não aparece uma grande diferença entre os grupos etários e a nível do género (cf. Tab. 16). Tab. 16: Os significados sobre a relação sexual segundo os alunos (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Sem compromisso 10,6 17,5 9,4 5,1 13,7 7,4 Busca de prazer físico 12,6 13,1 12,9 10,4 15,0 9,4 Ocasião de violência 1,2 2,0 1,2 0,3 0,9 1,4 Amor conjugal 38,3 33,8 37,7 43,4 34,6 41,6 Relação de fidelidade 34,2 32,9 38,2 31,0 30,9 37,5 Procriação 3,2 3,2 2,5 3,9 4,9 1,6 Conhecimento recíproco 3,7 3,8 3,2 3,9 2,8 4,4 Sentir-se homem e mulher 9,7 10,8 10,2 7,9 11,2 8,3 Não respondido 3,7 3,5 2,7 5,1 3,4 4,1 Os três aspectos referidos, visão egocêntrica do sexo, visão oblativa e fiel da sexualidade e conhecimento pessoal e interpessoal, descrevem a forma como os alunos percepcionam o relacionamento de natureza sexual entre as pessoas. É evidente que uma percentagem significativa dos dados apurados revela os pensamentos positivos dos alunos sobre a relação sexual. Isso demonstra que há uma predisposição para que a formação sexual seja promovida nas escolas secundárias como condição indispensável para prevenir os maus comportamentos que os pensamentos negativos, acima indicados, podem induzir os jovens a cometer. A ideia de que a relação sexual deve ser um acto praticado a nível do amor conjugal e uma relação de fidelidade entre marido e mulher não é totalmente correcto, na prática, como se poderá verificar, em seguida, analisando os comportamentos sexuais dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. 446 2.3 As relações sexuais entre os alunos e a sua prevenção Partindo do pressuposto admitido pelos alunos acerca dos seus sentimentos e das suas atitudes psico-afectivos, tentaremos agora analisar os dados que espelham os seus comportamentos sexuais do ponto de vista moral. Ao fazermos uma abordagem das relações sexuais pressupomos, necessariamente, uma reflexão sobre a qualidade do namoro que existe entre os estudantes do Ensino Secundário, segundo os critérios apresentados no enquadramento teórico da II Parte do estudo em curso. E como o caso já foi introduzido quando falámos do que significa para os alunos um(a) namorado(a), aproveitamos para apresentar algumas considerações de base para que se possa entender com objectividade os comportamentos dos adolescentes estudantes cabo-verdianos nessa matéria tão pertinente para os pais, aos professores e à sociedade cabo-verdiana em geral. Na verdade, a questão do enamoramento ou do próprio namoro em si no seio dos alunos nas escolas secundárias tornou-se tão complexa, do ponto de vista social, religioso e moral, que desafia a todos os educadores. Se no passado, o enamoramento era a expressão de um sentimento emocional que podia acontecer com os adolescentes, em que os rapazes podiam enamorar-se várias vezes e as meninas atraiam vários rapazes ao mesmo tempo, no momento actual, esse sentimento provoca de imediato a prática de relações sexuais. É urgente que haja uma educação preventiva por parte das famílias e das escolas, a fim de se evitar que essa situação se generalize entre os pré-adolescentes, adolescentes e jovens, tornando-os vulneráveis e desequilibrados do ponto de vista psico-afectivo. Infelizmente, esse desequilíbrio é bastante visível no seio dos adolescentes cabo-verdianos por causa dessa falta de formação sexual na família e nas escolas. Embora haja muita informação sobre o sexo, enquanto objecto material a proteger, falta uma formação verdadeira e sistemática capaz de mudar os comportamentos e as atitudes dos estudantes adolescentes, e de ajudá-los a assumirem responsabilidade pessoal e a reflectirem sobre si mesmos e sobre os outros como pessoas humanas dignas de serem respeitadas em todas as suas dimensões. Na IV Parte deste estudo apresentaremos as linhas características que devem orientar os adolescentes estudantes na questão valorativa e moral de enamoramento, como condição indispensável para o seu crescimento psico-afectivo. Entretanto, a prática exagerada de relações sexuais no seio dos estudantes do Ensino Secundário é uma situação preocupante, porquanto põe em causa a sua própria sexualidade como dimensão que caracteriza a pessoa humana na sua totalidade. Uma demasiada preocupação com o aspecto genital, mediante a oferta de preservativos aos alunos, significa instigá-los a dissociarem psiquicamente a função do genital da sexualidade. Trata-se de um erro educativo da parte dos adultos 447 que fomentam tal comportamento. Porque, a verdadeira educação ou formação sexual deve levar os alunos a compreenderem a sua pessoa baseando-se no princípio de unidade entre a sexualidade e a função genital42. Os alunos adolescentes e jovens merecem ser ajudados a perceber essa unidade intrínseca, que deve nortear o seu comportamento enquanto pessoas, como valor e não como simples objecto de prazer. Nesta análise e interpretação dos dados sobre as relações sexuais e a sua prevenção, realçaremos a dimensão do namoro como acto sexual entre os estudantes, os desvios sexuais e problemas amorosos, e a utilização dos preservativos e prevenção como situações problemáticas que põem em questão todo o plano de reflexão pedagógica e do acto educativo nas escolas secundárias, nas famílias e na sociedade em geral. 2.3.1 O namoro como acto sexual entre os estudantes Apresentando o período de namoro como um momento em que acontece a consumação do acto sexual entre os estudantes do Ensino Secundário pode parecer descabido para os adultos com uma vida regulada e estável. Os dados estatísticos afirmam que mais de metade dos entrevistados (50,2%) que frequentam as escolas secundárias de Cabo Verde, já tiveram a relação sexual. Efectivamente 49,4% dos alunos afirmam que não tiveram essa experiência amorosa (Fig. 19). Fig. 19: As relações sexuais entre os alunos de Escolas Secundárias de Cabo Verde (em %) Não Respondido; 0,4 NÃO; 49,4 SIM; 50,2 0 42 10 20 30 40 50 Cf. G. CONCETTI, Sessualità, Amore, Procreazione, Milano, Ares, 1990, p. 22. 60 448 São dados que, moralmente, devem preocupar os educadores, pais e professores. Essa prática é expressiva em todas as faixas etárias e a nível de género. Antes de tudo, os alunos da faixa etária de 11-14 anos (32,4%) admitem ter tido relações sexuais, assim como os outros de 15-16 anos (47,4%), sendo que a percentagem dos alunos de 17-21 anos (71%) é bastante elevada. No que se refere aos géneros, essa prática sexual é mais expressiva nos alunos do sexo masculino (69,3%) do que no sexo feminino (32%) (cf. Tab. 17). Tab. 17: As relações sexuais entre os alunos segundo idade e sexo (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F SIM 50,2 32,4 47,4 71,0 69,3 32,0 NÃO 49,4 67,6 52,1 28,5 30,3 76,4 Não respondido 0,4 0,0 0,5 06 0,4 05 Estamos perante comportamentos de um número significativo de alunos que reflectem a forma de encarar a sexualidade apenas do ponto vista genital. E essa forma de ver a própria sexualidade contribui para tornar os alunos mais egoístas e individualistas, precisamente porque o sexo deixa de ser um meio para uma verdadeira relação de comunhão e transmissão de vida e passa a ser um fim em si mesmo, apenas uma forma para satisfazer uma necessidade puramente fisiológica. Isso deixa entrever uma profunda incapacidade de autodomínio e de controlar o próprio impulso sexual, devido à falta de uma formação moral nesse sentido. Na educação sexual, é fundamental que os alunos tenham conhecimento do seu instinto sexual como componente da sua pessoa e que faz parte do seu património físicopsicológico. O instinto em si é positivo e não alienante, enquanto parte essencial da pessoa humana devidamente acompanhado da vontade e liberdade da pessoa humana. Todavia, tornase um desvio, se não for controlado pela vontade racional, concretizando-se em actos e gestos contrários à ordem moral que rege comportamentos de uma sociedade e de instituições43. As relações sexuais verificadas no seio dos estudantes cabo-verdianos demonstram, claramente, o esvaziamento de moralidade, frustrações pessoais e familiares e outras carências de natureza económica e social. Qualquer comportamento humano tem sempre por detrás de si causas extrínsecas ou intrínsecas à pessoa que o põe em acto. Por isso, a educação ou formação sexual não julga ou 43 Cf. A. GÜNTHOR, Chiamata e risposta.Una nuova teologia morale, – Morale generale, Vol. I, Alba, Paoline, 1974, p. 566. 449 condena a pessoa pelos seus actos, mas tenta conhecer as intenções e as causas principais que estão por detrás das suas acções. Os alunos das escolas secundárias que tiveram relações sexuais foram convidados a explicitar, pessoalmente, os motivos ou as razões que os levaram a praticar esses actos. Dos dados que foram apurados, evidenciamos algumas atitudes que estão na base dessas precoces relações sexuais entre os estudantes, para além de incentivos sociais que podem incrementar esses comportamentos. São três atitudes mais comuns no seio dos estudantes: a vontade de experimentar a sua própria masculinidade e feminilidade; cumplicidade no relacionamento entre os namorados; incapacidade racional para dominar a própria paixão ou instinto sexual. Primeiramente, analisamos os dados que descrevem os adolescentes e jovens estudantes que tiveram relações sexuais porque sentiram a vontade de experimentar a sua sexualidade do ponto de vista genital. Antes de tudo, 70,9% dos alunos que tiveram esse tipo de comportamento, afirmaram que foi apenas por curiosidade. De facto, a adolescência é um período de descoberta e de experimentação dos próprios sentimentos emocionais e psicofísicos. Isso pode concretizar-se em actos imorais, se os adolescentes não forem acompanhados, explicitamente, nessa etapa crucial da sua existência. O cruzamento dos dados indica claramente, que esses alunos são privados de acompanhamento dos pais, independentemente de eles viverem a situação de pais casados (69,7%), em união de facto (77,9%), separados ou divorciados (63,6%), ou do nível profissional Alto (72,4%), Médio (71,8%) e Baixo (69,3%). Há uma diferença quer nas faixas etárias quer a nível do género. Assim, essa curiosidade é mais elevada nos alunos de 11-14 anos, com uma percentagem de 79,3%, do que nos outros alunos de 15-16 anos, com 71,7%, e de 17-21 anos, com 67,9%. O mesmo verifica-se nos estudantes do sexo masculino (78,6%), com uma percentagem mais elevada do que nos estudantes do sexo feminino (56,9%). Sempre nesse modo de experimentação, nota-se que há uma percentagem dos alunos (28,8%) que foram influenciados pelos comportamentos dos colegas. Entre os grupos etários, a diferença não é significativa: 11-14 anos (27%); 15-16 anos (27,7%); 17-21 anos (30,2%). Mas nota-se uma diferença substancial a nível do género, em que os rapazes (35,4%), sentemse mais influenciados pelos comportamentos dos colegas do que as meninas (16%). Essa influência é bastante generalizada entre os alunos com pais na situação familiar de casados (28,3%), união de facto (27,1%) separados ou divorciados (30,9%), ao passo que a percentagem entre os alunos com pais de profissão alta (32,8%) é um pouco mais elevada dos que têm pais com profissão média (25,8%) e baixa (28,7%). Uma outra razão manifestada pelos alunos que está por detrás das suas relações sexuais é a falta de uma formação sexual no seu tempo devido (20,4%). Essa componente 450 causal é fortemente evidenciada pelos alunos de 11-14 anos (40,5%), e muito menos pelos outros grupos etários de 15-16 anos (16,2%) e de 17-21 anos (15,1%). No que toca ao sexo a diferença é insignificativa, isto é, para os do sexo masculino (21,1%)), a percentagem é ligeiramente mais elevada do que para os do sexo feminino, (19,9%). É fundamental que seja sublinhado esse aspecto em relação aos alunos que residem em Cidades (13,6%), menos do que os outros das Vilas (17,9%), e das Aldeias (26,4%), que não tiveram uma formação sexual adequada. Também, é verificável segundo as situações familiares e condições sociais dos pais. Entre os alunos que têm pais casados e não receberam uma formação sexual a percentagem é de 19,7%; para os que têm pais que vivem em união de facto é de 23,6%; e para os que têm pais divorciados e separados, 17,6%. Em relação à situação socio-económica dos pais, nota-se que é menos significativa entre os alunos que têm pais com uma profissão alta (14,7%) e média (15,3%) do que os que têm pais com uma profissão baixa (27,9%). Portanto, os alunos que se encontram em situação económica de baixo nível têm pouca informação sobre a vida sexual. Presenciamos também uma outra componente que descreve algumas variáveis que estão na base do comportamento sexual dos alunos. No relacionamento entre os namorados reina uma certa cumplicidade como consequência de uma fraca estruturação da própria personalidade. Nos dados apurados temos 40% dos alunos que declaram ter relações sexuais devido à influência do(a) próprio(a) namorado(a). Trata-se de uma influência recíproca e com uma dose de cumplicidade. Essa atitude é visível quer nos estudantes do sexo masculino (39,5%) quer nos do sexo feminino (40,3%). A nível de idade há uma diferença, com vantagem substancial para os alunos de 15-16 anos (45%), em relação aos outros de 11-14 anos (36,9%) e de 17-21 anos (38,1%). Embora não seja diferença relevante, verificamos que os alunos cujos pais vivem numa situação familiar mais estável (casados) e os que vivem na união de facto (41,9% e 39,7%, respectivamente), deixam-se influenciar mais do que os que têm pais a viverem na situação de divorciados (38,2%). Ao passo, que a percentagem dos alunos de pais com profissão baixa (43,9%) sentem-se mais influenciados do que os de pais com profissão alta (40,5%) e média (36,8%). Sempre nessa atitude de cumplicidade e de resgate afectivo, 15,5% dos estudantes cedem à relação sexual para evitar entre eles brigas, especulações sobre frieza sexual, perda do(a) namorado(a). São atitudes que espelham uma baixa auto-estima. É sintomático que 20,7% dos alunos que cedem o próprio corpo para uma relação sexual, não gostam do seu sexo. Isso revela uma certa crise de identidade sexual. Os alunos que sentem-se mais ameaçados por esse tipo de comportamento pertencem à faixa etária de 11-14 anos (24,3%), seguidos dos de 15-16 anos (18,8%) e de 17-21 anos (8,3%). A diferença percentual é insignificante em 451 relação aos géneros: o sexo masculino (15,7%); o sexo feminino (13,8%). Apesar dessa insignificância, os rapazes são um pouco mais inclinados a praticarem tais actos do que as meninas, conforme os dados apurados. Os alunos que têm pais separados ou divorciados, estão mais inclinados a ter relações sexuais para evitar brigas do que os de pais casados (13,6%) e união de facto (13,1%). Os alunos filhos de pais com nível de profissão baixa (17,2%) são mais propensos a esse tipo de comportamento do que os de pais de profissão alta (15,5%) e média (12,3%). Uma última análise das razões que estão na origem das relações sexuais realizadas pelos estudantes das Escolas Secundárias confirma que a maioria deles não tem a suficiente capacidade racional para dominar a própria paixão ou instinto sexual. Os dados mostram que 72,3% dos alunos tiveram relações sexuais porque se sentiram apaixonados. Entre os grupos etários, os estudantes de 11-14 anos, 58,6%, são os que, nesse sentido, aparecem menos em relação aos de 15-16 anos (70,2%, havendo uma percentagem elevadíssima (80,2%), para os alunos de 17-21 anos. A nível de género, os dados que indicam que as meninas (77,3%) praticam mais o acto sexual por paixão do que os rapazes (70,3%). A causa passional é menos expressiva entre os estudantes de pais separados e divorciados (68,5%) do que os de pais casados (73,7%) e de união de facto (74,4%). E a diferença respeitante ao nível de profissão dos pais é pouco relevante: alta (70,7%); média (69,9%), baixa (73,8%) (cf. Tab. 18a e 18b). Tab. 18a: As razões que induzem os alunos a terem relações sexuais Segundo as faixas etárias e sexo (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Curiosidade 70,9 79,3 71,7 67,9 78,6 56,9 Influência dos colegas 28,8 27,0 27,7 30,2 35,4 16,0 Falta de formação sexual 20,4 40,5 16,2 15.1 21,1 19,9 Influência do(a) namorado (a) 40,0 36,9 45,0 38,1 39,5 40,3 Evitar brigas entre namorados 15,5 24,3 18,8 8,3 15,7 13,8 Senti-me apaixonado 72,7 58,6 70,2 80,2 70,3 77,3 Outros 11,5 6,3 9,9 15,5 10,0 15,5 Não respondido 0,9 0,0 2,1 0,4 0,8 0,6 Os dados analisados espelham a existência de uma percentagem relevante de estudantes que vivem o seu período de namoro, fortemente marcado por relações sexuais e, se não houver uma educação moral dos indivíduos como pessoas racionais dotadas de vontade e 452 liberdade, essa situação vai generalizar-se, sobretudo no seio dos mais imaturos do ponto de vista físico e psico-afectivo. Tab. 18b: A falta de formação sexual dos alunos conforme a situação familiar e profissão dos pais (em%) Situação dos pais Profissão dos pais Total Casados Uni. de Facto Div/sep. Alta Média Baixa Curiosidade 70,9 69,7 77,9 63,6 72,4 71,8 69,3 Influência dos colegas 28,8 38,3 37,1 30,9 32,8 25,8 28,7 Falta de formação sexual 20,4 19,7 23,6 17,6 14,7 15,3 27,9 Influência do(a) namorado (a) 40,0 41,9 39,7 38,2 40,5 36,8 43,9 Evitar brigas entre namorados 15,5 13,6 13,1 20,0 15,5 12,3 17,2 Senti-me apaixonado 72,7 73,7 74,4 68,5 70,7 69,9 73,8 Outros 11,5 11,6 11,6 11,5 12,9 16,0 7,4 Não respondido 0,9 1,0 0,5 1,2 0,0 0,6 1,2 Esse fenómeno não deve ser enfrentado, apenas, por medo de alastramento das doenças sexualmente transmissíveis. Independentemente disso, é preciso formar a formação da consciência moral, para que o aluno saiba que a verdadeira prevenção começa pelo autodomínio dos seus impulsos sexuais, pela convicção dos seus princípios humanos e espirituais e pelo seu modo de ser livre e responsável na suas relações afectivas com a pessoa com a qual quem pensa construir um projecto de vida. As modalidades que realçamos para apresentar as razões que levam os estudantes a cometerem actos sexuais, demonstram que os alunos não sabem controlar os seus instintos sexuais e a sua concupiscência, e são inclinados a procurar o prazer sexual influenciando os que, eventualmente, podiam ser capazes de dominar-se conservando um estado prudente de equilíbrio, com temperança44. Isso está mais do que evidente no tipo de relacionamento e de influência que existe entre os namorados e os colegas. Além dessas influências interpessoais, é evidente que estão por detrás outros mecanismos aliciantes que incentivam os alunos a buscar a satisfação sexual, cultivando os sentimentos hedonísticos e eróticos. Trata-se dos produtos propagandísticos transmitidos pelos meios de comunicação de massa e a forma como, também, os alunos assimilam certos produtos publicitários e de carácter sensual. Dos alunos instigados pela curiosidade sexual, 78% gostam de ver filmes pornográficos, e os que são dominados pela paixão são 69,1% que, também, gostam de ver esse tipo de filme. É mais do que evidente que os alunos encontram-se num meio ambiente difícil de con44 Cf. G. CONCETTI, Sessualità, Amore, Procreazione…, p. 25. 453 tornar, se não houver uma consciencialização colectiva da importância da moralidade em toda a sociedade. Todavia, é importante que os educadores equilibrados e prudentes do ponto de vista psico-afectivo ajudem os alunos a entender que os instintos ou impulsos sexuais podem ser domados com o uso da razão. Somente o ser humano tem essa faculdade natural e espiritual de auto-domínio, segundo a lei da sua racionalidade e não da sua animalidade. Portanto, a pessoa humana é digna de si mesma e da sua vocação humana na mediada em que sabe enfrentar a sua paixão, as suas tendências desordenadas e sabe reflectir sobre os verdadeiros valores morais e espirituais, isto é, a liberdade, a responsabilidade e a dignidade transcendente, que contribuem para o enriquecimento da sua personalidade45. 2.3.2 Os problemas psico-afectivos e os desvios sexuais Após as considerações sobre os dados que descrevem o envolvimento dos estudantes na actividade sexual, é chegada a hora de se fazer uma reflexão sobre os problemas concernentes à vida sexual para conhecermos mais de perto e objectivamente, o terreno no qual os alunos estão inseridos e como percepcionam esses problemas nas próprias zonas e no seio da juventude com laços afectivos e sexualmente activos. Os comportamentos e as atitudes dos alunos dependem da interiorização de modelos adquiridos no seu meio ambiente, relacionando-se com os próprios coetâneos. Portanto, uma reflexão sobre os dados que caracterizam os jovens no seu ambiente, segundo a sua percepção, contribuirá para nos ajudar a deduzir alguns problemas de desvios sexuais que poderão, eventualmente, afectar os seus comportamentos e torná-los sujeitos desviantes. A compreensão dos problemas de natureza afectiva e sexual da juventude depende do contorno metodológico e pedagógico que se quer abordar. Preferimos fazer uma abordagem indirecta e informal ou projectiva em que os estudantes se sentem mais à vontade para opinar e pronunciar-se sobre os problemas afectivos e sexuais que afligem a juventude do tempo actual do que questioná-los directamente sobre os seus problemas psico-afectivos. Num primeiro momento, analisaremos os dados que espelham os problemas que espicaçam a natureza das relações interpessoais na vida psico-afectiva dos estudantes adolescentes e, em segundo lugar, evidenciaremos de forma analítica os problemas sexuais como comportamentos desviantes, sobretudo, nas zonas que os alunos frequentam ou nas quais residem. 45 Idem., p. 26. 454 2.3.2.1 Os problemas psico-afectivos no seio da camada juvenil Uma análise dos problemas psico-afectivos no seio dos jovens cabo-verdianos, implica, antes de tudo, que sejam evidenciados alguns componentes mais deturpados e controversos em termos de relações interpessoais que deveriam ser fundamentais para a estabilidade dos namorados, do casal e da família. Certos tipos de relacionamento entre os namorados e casais jovens podem decepcionar os estudantes e condicioná-los, também, na sua opção pela vida amorosa e a pela vida de casal na construção de uma família futura. Veremos que há um grupo de variáveis que, talvez, estejam na origem e criem uma mentalidade conforme o ditado popular que diz “melhor sozinho que mal acompanhado” e que não ajudam os jovens adultos cabo-verdianos de assumirem os compromissos na constituição de uma família. Partindo dos dados inqueridos, verificamos que o fim de uma relação amorosa entre os jovens cabo-verdianos é muito frequente (46,1%), segundo a opinião dos estudantes entrevistados. Além destes, 22,8% acham que é frequente; outros (16,9%) afirmam que é pouco frequente; finalmente, 7,9% são de opinião que esse tipo de conduta relacional acontece raramente. Segundo as posições dos estudantes, essa componente conflitual é mais caracterizada e com frequência elevada entre os jovens da Cidade (M.1.73), um pouco menos para os que habitam nas Vilas (M.1.78) e muito menos, ainda entre os que moram no meio rural ou nas Aldeias (M.2.01). Conforme os dados relevados, a incompreensão entre os namorados é uma outra variável que, segundo 43% dos estudantes é frequente entre os jovens. Dos que opinaram, 23,2% são da opinião que esse comportamento é muito frequente; além disso, verificamos que 18,7% dos alunos apontam que é pouco frequente; somente 6,2% são da opinião que isso sucede raramente. Em relação às zonas, os estudantes indicam que esse comportamento acontece mais frequente nas Vilas (M.1.97) do que nas Cidades (M.2.07) e nas Aldeias (M.2.19). Há um componente bastante sensível e pouco desenvolvido no relacionamento entre os cabo-verdianos. Trata-se do diálogo como elemento indispensável no relacionamento interpessoal, que é um componente estrutural no relacionamento psico-afectivo. Segundo os inqueridos nas escolas secundárias de Cabo Verde, 29,2% admitem que há frequentemente a dificuldade de diálogo entre os jovens no relacionamento amoroso. Além disso, temos 2% que indicam que isso é pouco frequente e 23,8% que dizem muito frequente, além do 11,4% que dizem raramente. 11,3% não responderam Essa dificuldade é mais presente no meio rural, isto é, nas Aldeias (M.2.37). Talvez, essa dificuldade seja devido a pouco conhecimento, ao facto de as mulheres serem mais submissas aos homens, como demonstram os dados, 455 onde o sexo Feminino (M.2.21) aponta esse problema mais o sexo Masculino (M.2.31). Vêm a seguir os alunos das Vilas (M.2.19), um pouco mais do que das Cidades (M.2.22). O elemento que deve caracterizar um verdadeiro e estável relacionamento entre os jovens namorados, casais e núcleos familiares é o princípio de fidelidade. No entanto, verifica-se que o problema de infidelidade está bastante presente afecta bastante a dimensão psicoafectiva de muitos jovens cabo-verdianos. Segundo o parecer dos estudantes, isso é muito frequente (35,4%) entre os jovens namorados e casais, mas 22,8% dos estudantes são da opinião que esse problema psico-afectivo é frequente e 17,4% acham que isso é pouco frequente. Apenas 13,2% reconhecem que isso acontece raramente, excluindo os 11,2% dos entrevistados que não responderam. Para os inqueridos que habitam nas Vilas (M.1.97), esse problema é mais pertinente dos que habitam nas Cidades (M.2.07) e nas Aldeias (M.2.25). Um sentimento emocional que emerge, muitas vezes, entre os jovens namorados e jovens casais e que merece ser tomado em consideração é o caso de frustrações amorosas. No contexto social cabo-verdiano, esse sentimento descreve a situação de muitas meninas que se engravidam e são abandonadas pelos seus namorados, e de rapazes que são abandonados pelas suas namoradas por causa das suas fracas condições económicas. Muitas vezes, as meninas procuram uma certa segurança económica como garantia de uma vida futura. E, por causa disso, estão sujeitas a frustrações no seu relacionamento amoroso. Segundo os estudantes (30,6%), esse sentimento de mal-estar revela-se frequentemente entre os jovens. Há uma percentagem de alunos (25,6%) que está de acordo que isso é pouco frequente. Somente 20,6% dos inqueridos admitem que esse sentimento é muito frequente. Apenas 10,2% dos alunos declaram que esse sentimento de mal-estar acontece raramente, exceptuando-se os 13,1% que se omitiram. A frequência desse sentimento é mais visível para os alunos residentes nas Vilas (M.2.23) do que para os das Cidades (M.2.27) e das Aldeias (M.2.36). Todas as componentes evidenciadas até agora influenciam directa ou indirectamente a estabilidade psico-afectiva dos jovens namorados. Apesar desse aspecto geral, os alunos foram solicitados a opinarem de forma directa sobre a questão da estabilidade entre os jovens namorados e casais. O problema de instabilidade na relação afectiva e sexual entre os jovens é frequente, segundo 31,5% dos estudantes. Identificamos também uma percentagem relativa dos estudantes (24%), que reconhecem esse problema como sendo pouco frequente. Ao passo que 21% dos estudantes indicam que o problema é muito frequente. Apenas 10,5% opinam dizendo que isso acontece raramente, tendo ficado de fora 13% que não opinaram sobre o assunto. Segundo a opinião dos que residem nas Cidades (M.2.19), o problema de instabilidade na relação afectiva entre os jovens é mais frequente do que nas Vilas (M.2.27), e nas Aldeias (M.2.36). 456 Um outro aspecto que merece ser destacado nesta análise é a questão de conflituosidade entre os jovens namorados e casais. Segundo os estudantes (30,5%), o conflito com o parceiro com quem os jovens relacionam do ponto de vista afectivo é muito frequente. Vem logo a seguir uma outra percentagem de alunos (27,5%), que são do parecer que esse tipo de problema comportamental acontece frequentemente, ao passo que para outros (21,1%), é ainda pouco frequente. Somente 11,6% dos estudantes acham que é um comportamento que acontece raramente, além de 9,3% que não responderam. A nível de zonas de residência, os alunos que habitam nas Vilas (M.2.06), são da opinião que o conflito entre jovens namorados e casais é mais expressivo do que os alunos que habitam nas Cidades (M.2.12) e nas Aldeias (M. 2.27), conforme se pode ver nas Tabelas 19a e 19b. Tab. 19a: Os problemas psico-afectivos mais frequentes entre os jovens cabo-verdianos (em %; e em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 4.00)*46 1 2 3 4 Não Resp. Muito Frequente Frequentemente Pouco Frequente Raramente Fim de uma relação amorosa 6,2 46,1 22,8 16,9 7,9 1.86 Incompreensão entre namorados 8,8 23,2 43,0 18,7 6,2 2.09 Dificuldade no diálogo com o par 11,3 23,8 29,2 24,2 11,4 2.26 Infidelidade 11,2 35,4 22,8 17,4 13,2 2.09 Frustrações amorosas 13,1 20,6 30,6 25,6 10,2 2.29 Instabilidade na relação 13,0 21,0 31,5 24,0 10,5 2.28 Conflitos com o par 9,3 30,5 27,5 21,1 11,6 2.15 Outros 84,0 4,3 3,4 4,0 4,3 2.52 Mp Para além dos dados analisados na sua generalidade, pode-se verificar, em particular, quais são as variáveis que têm maior incidência na relação afectiva entre os jovens namorados e casais. Segundo os adolescentes estudantes, o fim de uma relação amorosa (M.1.86) é mais elevado. Foram evidenciados outros dois problemas com a mesma percentagem: a incompreensão entre os namorados (M.2.09) e a infidelidade entre os jovens namorados e casais (M. 2.09). Como se pode constatar, essas variáveis indicam um certo nível de instabilidade no relacionamento psico-afectivo entre os jovens namorados e casais. São atitudes comportamentais que dão pouca garantia para a constituição de uma família, e podem impressionar e condicionar os adolescentes e jovens estudantes no seu relacionamento e nas suas opções futuras para a constituição de um núcleo familiar. 46 * Média ponderada: os valores da M. em escala: 1 = Muito frequente; 2 = Frequentemente; 3 = Pouco frequente; 4 = Raramente 457 Tab. 19b:Os problemas psico-afectivos mais frequentes entre os jovens Segundo as zonas (em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 4.00) Cidades Vilas Aldeias Fim de uma relação amorosa 1.73 1.78 2.01 Incompreensão entre os namorados 2.07 1.97 2.19 Dificuldade no diálogo com o par 2.22 2.19 2.37 Infidelidade 2.07 1.97 2.25 Frustrações amorosas 2.27 2.23 2.36 Instabilidade na relação 2.19 2.27 2.36 Conflitos com o par 2.12 2.06 2.27 Outros 2.52 2.44 2.57 As opiniões dos estudantes provenientes das diferentes zonas, podem exprimir o tipo de comportamentos por eles interiorizados no seu contexto residencial e social. Por conseguinte, é possível considerar as suas zonas como variáveis independentes que dão a visibilidade às atitudes comportamentais verificadas na sua generalidade. Em termos comparativos, pode-se dizer que certos problemas psico-afectivos são mais evidentes nas Cidades e nas Vilas do que no meio rural ou Aldeias. Depois de termos analisado as atitudes comportamentais ligadas à vivência afectiva dos jovens namorados e casais, vamos tentar uma abordagem analítica dos problemas atinentes ao sexo ou comportamentos sexuais desviantes das normas morais e duma sã convivência humana. Viver a própria sexualidade como pessoa digna, equilibrada e responsável é aspiração universal de cada ser humano. Nesse sentido, importante que os alunos tenham mais em conta os princípios éticos que deveriam regular e nortear os seus comportamentos morais do que os problemas a serem solucionados com meios que, às vezes, não dignificam nem valorizam a sua pessoa como tal. 2.3.2.2 Os problemas sexuais nas zonas de residências Os estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde foram solicitados a responder a uma questão de fundo e condizente com as zonas da sua residência: quais são os problemas sexuais mais frequentes na sua zona (cf. Anexo, pergunta n.75). A partir das suas respostas, é possível conhecer a frequência dos problemas de cada zona e pensar no tipo de prevenção moral e educativa para cada localidade. Baseando nessas expectativas, tentaremos analisar três componentes ligadas aos problemas sexuais que poderão, eventualmente, favorecer os 458 desvios sexuais: a falta emergente de orientação sexual; as situações que afectam o relacionamento sexual; os comportamentos desviantes ligados ao sexo. Em primeiro lugar, os dados afirmam que os estudantes são de parecer que há falta de “orientação ou formação sexual” mais personalizada nas suas zonas. Esses alunos concordam que é muito frequente as dúvidas respeito ao sexo (28,8%); outros (21,3%) acham que isso é frequente. Também, um grupo de 23,8% considera que esse problema é pouco frequente; outros ainda (17,1%) dizem que isso acontece raramente; apenas 9% dos estudantes não responderam à questão. Verificámos, também, numa abordagem ligada às zonas de proveniência, que os problemas dessa natureza são confirmados mais pelos alunos dos meios rurais ou Aldeias (M.2.21), do que os outros das Cidades (M.2.31) e das Vilas (M. 2.44). Fala-se ás vezes, muito sobre o sexo (aspecto fisiológico) com os estudantes em termos de informação, menos do aspecto formativo e personalizado da dimensão sexual da pessoa humana como parte integrante da sua personalidade. Pelos vistos, a parte formativa fica um pouco à margem da educação sexual. Dos alunos entrevistados, 29,9% disseram que nas suas zonas a pouca orientação sobre o sexo é pouco frequente; outros (24,4%) afirmam que é frequentemente. Ao passo que 20,5% dos alunos são da opinião que esse problema é muito frequente; apenas 14,4% dos alunos atestam que isso acontece raramente, excluindo 10,7% que não responderam. No que se refere às zonas, os alunos apontam que a falta de orientação sobre o sexo é mais frequente nas Cidades (M.2.32), do que nas outras zonas das Vilas (M.2.51) e das Aldeias (M.2.42). Sempre na mesma linha de orientação sexual, evidenciámos a frequência de mais uma carência: a pouca informação sobre a gravidez. Entre os entrevistados, 26,4% dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde são da opinião que essa carência é muito frequente nas suas zonas; 24,9% dos alunos declaram que é frequentemente. Outros (22,6%) acham que esta carência é pouco frequente. Ao passo que 16% dos alunos são de parecer que isso sucede raramente. 10,1% não deram respostas. A nível de zonas de residência, evidenciámos que os alunos são da opinião que esse problema é mais frequente nas Cidades (M.2.18) do que nas Vilas (M.2.30) e nas Aldeias (M.2.40). Uma segunda componente ligada aos problemas de natureza sexual é a que descreve as situações que afectam o relacionamento sexual. Com o aparecimento do HIV/SIDA, surge uma campanha de luta contra as doenças sexualmente transmissíveis, também conhecidas como doenças venéreas. Trata-se de vírus, bactérias e outros organismos infecciosos que são transmissíveis de uma pessoa para a outra, através de relações sexuais. Essas doenças são caracterizadas como sífilis, gonorreia, herpes genital, que serão apresentadas na parte operativa e didáctica, com sugestões necessárias para uma adequada prevenção. Entretanto, o que se 459 pretende conhecer, empiricamente, é a existência das doenças sexualmente transmissíveis nas zonas de residência dos alunos que frequentam as escolas secundárias de Cabo Verde. Exceptuando 11,3% que não ousaram responder, para 33% dos alunos que se pronunciaram, essas doenças são raramente presentes nas suas zonas. Dos outros entrevistados, 30% admitem que é pouco frequente; outros (13,6%) afirmam que essas doenças são frequentes nas suas zonas; apenas 12% são de opinião que isso é muito frequente. Os dados apontam que os alunos provenientes das Cidades (M.2.78) têm uma opinião mais elevada sobre as doenças sexualmente transmissíveis dos que os outros que moram nas Vilas (M.2.92) e nas Aldeias (M.3.09). Um outro problema que põe em causa o relacionamento sexual é a insatisfação sexual. A relação sexual, como é sabido, além de ser a expressão de amor entre os casais, tem uma finalidade intrínseca que é a procriação. Muitas vezes, a insatisfação sexual não vem apenas da consumação parcial do acto, em si, mas nasce também duma vontade de querer estabelecer uma relação natural, rejeitando-o como acto de procriação. Muitas vezes, a frieza, a inflexibilidade ou rigidez mental que podem acontecer no relacionamento psico-afectivo e sexual dependem dessa atitude de anti-procriação. O problema é bastante relevante nas zonas de residência dos estudantes. De facto, 33,8% consideram que a insatisfação sexual é pouco frequente, enquanto que 22,5% afirmam que esse problema é frequente e 12,5% são da opinião que isso é muito frequente. Há uma percentagem não indiferente de alunos (16,8%) que consideram esse problema raro nas suas zonas, excluindo 14,4% que não deram respostas. Esse tipo de problema é mais saliente para os que habitam nas Cidades (M.2.55) do que para os que moram nas Vilas (M.2.69) e nas Aldeias (M.2.67). Sempre nesse enfiamento de atitudes comportamentais que afectam o relacionamento sexual, quisemos sublinhar um outro aspecto que pode ser pertinente nas zonas que envolvem os estudantes. Trata-se de temor quanto ao desempenho sexual que poderá induzir os indivíduos ao auto-erotismo, isto é, à masturbação. Nesse caso, os indivíduos que fogem do seu compromisso sexual para o auto-comprazimento, são considerados seres que agem contra o amor. Essa questão será elaborada de forma pedagógica e didáctica na última parte com sugestões que orientarão os comportamentos dos estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde. Neste momento, o que nos interessa é conhecer as opiniões dos alunos acerca desse problema. Para 33,3% dos entrevistados, esse problema é pouco frequente nas suas zonas; 23,2% são da opinião que esse problema acontece frequentemente; somente 11,9% admitem que se trata de um assunto muito frequente, ao passo, que 17,5% consideram-no como algo raro nas suas zonas, sendo que 14,2% não opinaram. Verificando as zonas residenciais dos alunos, nota-se que é mais expressivo nas Aldeias (M.2.60) do que as Vilas (M.2.65) e as Cidades (M.2.70). 460 Uma terceira componente envolve, essencialmente, os comportamentos desviantes do sexo observados pelos alunos nas suas referidas zonas. Alguns dos problemas que analisamos, neste momento, serão revistos mais à frente, duma forma pessoal e social. Aqui tentaremos apenas realçá-los como problemas que poderão afectar a dimensão psico-afectiva dos alunos e condicionar os seus comportamentos morais. Antes de tudo, é bom salientar um fenómeno bastante difuso na sociedade cabo-verdiana, isto é, a distribuição de preservativos, sem controlo e sem nenhum discernimento. Embora esteja na base o pretexto de prevenir contra o HIV/Sida, essa é, na realidade, uma forma de incentivar as relações sexuais sem critérios morais de responsabilidade e de compromisso no seio dos adolescentes e jovens desprevenidos do ponto de vista pedagógico e educativo. Por isso, pensamos que seja justo saber o nível de frequência do uso dos preservativos nas zonas residenciais dos alunos. Dos alunos inqueridos, 38,9% afirmam que há um uso muito frequente desse instrumento nas suas zonas e 24,8% dizem que se faz uso frequente. Apenas 17,2% dos entrevistados acham que é pouco frequente e 10,8%, que isso acontece raramente. 8,4% não responderam. Dos dados analisados, parece que os das Cidades (M.1.94) fazem uso um pouco mais do que os das Vilas (M.1.98) e das Aldeias (M.2.01). 2.3.2.3 Os problemas sexuais que afectam a camada feminina Um dos comportamentos sexuais que mais afecta os estudantes do sexo feminino nas escolas secundárias é a gravidez precoce. À volta dessa problemática foram tomadas algumas medidas de suspensão temporária das alunas grávidas pelo Ministério da Educação. Para além dessa medida, a própria escola podia procurar outras formas e metodologias adequadas para acompanhá-las. Essa lacuna é o resultado de uma falta de moralidade nos estabelecimentos do Ensino Secundário. Certo é que não se trata de uma percentagem elevada, todavia, pelos dados apurados, vê-se que há uma referência relevante dos adolescentes estudantes que passam por essa situação que retrata um comportamento do desvio sexual na idade prematura. Partindo das opiniões dos próprios estudantes, verifica-se que 28,3% dos entrevistados confirmam que o fenómeno de gravidez precoce é muito frequente nas suas zonas. Há também um grupo (22,5%), que admitem que é frequente. Os que acham que isso é pouco frequente são 22,6%. Somente 16,8% dos entrevistados são da que isso sucede raramente. Ficam de fora 9,6% que não responderam. Trata-se de um problema generalizado quer no Arquipélago de Cabo Verde quer nas suas referidas zonas segundo os dados conferidos: Cidades (M.2.24); Vilas (M.2.24); um pouco menos nas Aldeias (M.2.41). 461 Um outro fenómeno ligado à sexualidade é o aborto voluntário. Embora a lei diga que pode ser praticado dentro de um certo período e somente nos hospitais devidamente equipados, trata-se sempre de um desvio comportamental do ponto de vista moral e é um tentado à vida humana. Sobre esse assunto falar-se-á mais à frente de modo que os alunos possam ter a consciência moral daquilo que é lícito e não lícito, e as consequências psicológicas do indivíduo após ter cometido um acto do género. Entretanto, para 18,9% dos estudantes, o aborto é muito frequente nas suas zonas, para 15,2% isso é frequentemente praticado, ao passo, que para 29,9% o aborto é pouco frequente. Sempre nessa perspectiva, 26,5% são da opinião que isso acontece raramente, afora 9,5% que se omitiram. Relativamente aos dados, esse fenómeno é mais praticado nas Cidades (M.2.53) do que nas Vilas (M.2.66) e nas Aldeias (M.2.86). Tab. 20a: Os problemas sexuais mais frequentes nas zonas dos estudantes cabo-verdianos (em %; e em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 4.00)*47 1 2 3 4 Não Resp. Muito Frequente Frequentemente Pouco Frequente Raramente Mp Dúvidas respeito ao sexo 9,0 28,8 21,3 23,8 17,1 2.32 Pouca orientação/ o sexo 10,7 20,5 24,4 29,9 14,4 2.43 Pouca informação/ Gravidez 10,1 26,4 24,9 22,6 16,0 2.32 Doenças sexl/ transmissíveis 11,3 12,0 13,6 30,0 33,0 2.95 Insatisfações sexuais 14,4 12,5 22,5 33,8 16,8 2.64 Temor/ desempenho sexual 14,2 11,9 23,2 33,3 17,5 2.66 Uso de preservativos 8,4 38,9 24,8 17,2 10,8 2.00 Gravidez precoce 9,6 28,3 22,5 22,6 16,8 2.31 Aborto 9,5 18,9 15,2 29,9 26,5 2.71 Prostituição 13,4 11,9 12,9 26,0 35,0 2.99 Outros 84,8 3,9 2,7 4,2 5,1 2.73 Com a implementação do turismo fala-se muito do fenómeno de prostituição. Todavia, trata-se de um fenómeno que esteve ligado a um tempo em que passavam muitos marinheiros e militares provenientes da Metrópole, sobretudo, nas duas Cidades um pouco mais desenvolvidas: Mindelo, na ilha de S. Vicente, e Praia na ilha de Santiago. Além destas, podemos acrescentar outras duas, Boavista e Sal, em risco da propagação desse fenómeno anti-social. Embora não seja alarmante, é justo que sintamos as opiniões dos estudantes sobre 47 * Média ponderada: os valores da M. em escala: 1 = Muito frequente; 2 = Frequentemente; 3 = Pouco frequente; 4 = Raramente 462 a existência dessa realidade que está tomando consistência na mentalidade e no comportamento das pessoas. Dos alunos que foram inqueridos, 11,9% confirmam que é muito frequente nas suas zonas o ‘problema de prostituição, e 12,9% que isso é frequente. Entre os outros estudantes, 26% são da opinião que é pouco frequente, 35,8% acham que isso acontece raramente, tirando 13,4% que não responderam. No que se refere às zonas dos alunos, verifica-se que as Cidades (M.2.83) o fenómeno está mais presente do que as outras Vilas (M.2.89) e Aldeias (M.3.17), conforme se pode ver nas Tabs. 20a e 20b. Tab. 20b: Os problemas sexuais mais frequentes nas zonas dos estudantes cabo-verdianos (em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 4.00) Cidades Vilas Aldeias Dúvidas respeito ao sexo 2.31 2.44 2.21 Pouca orientação sobre o sexo 2.32 2.51 2.42 Pouca informação sobre Gravidez 2.18 2.30 2.40 Doenças sexualmente transmissíveis 2.78 2.92 3.09 Insatisfações sexuais 2.55 2.69 2.67 Temor ao desempenho sexual 2.70 2.65 2.60 Uso de preservativos 1.94 1.98 2.01 Gravidez precoce 2.24 2.24 2.41 Aborto 2.53 2.66 2.86 Prostituição 2.83 2.89 3.17 Outros 2.57 2.89 2.73 Segundo as análises interpretativas que foram desenvolvidas, é fácil concluir que entre os problemas mais frequentes que descrevem a falta de uma orientação ou formação sexual nas zonas residenciais dos estudantes adolescentes, temos sobretudo as dúvidas sobre o sexo (M.2.32) e a informação sobre a gravidez precoce (M.2.32). Em segundo lugar, entre os problemas situacionais mais frequentes que afectam o relacionamento sexual, temos a questão da insatisfação sexual (M.2.64). Finalmente, segundo os alunos entrevistados, entre os comportamentos desviantes mais frequentes nas suas zonas, está o uso de preservativo (M.2.00) e a gravidez precoce (M.2.31). Especificando as zonas residenciais dos alunos, podem ser verificados os problemas mais frequentes no que se refere à falta de orientação ou formação sexual: nas Aldeias emerge muita dúvida sobre o sexo (M.2.21), ao passo que nas Cidades emerge a falta de orientação sobre o sexo (M.2.32), e a informação sobre a gravidez (M.2.18), sendo que este segundo problema é bastante visível nas Vilas (M.2.30. Quanto às situações que afectam o relaciona- 463 mento sexual, nas Cidades verifica-se mais frequentemente as doenças sexualmente transmissíveis (M.2.78) e insatisfações sexuais (M.2.55); nas outras zonas são as questões de natureza psicológica, isto é, o temor quanto ao desempenho sexual: nas Vilas (M.2.65) e nas Aldeias (M.2.60). Os problemas psico-afectivos e os desvios sexuais são duas situações problemáticas bastante sensíveis na sociedade cabo-verdiana. Por isso, além das escolas e famílias, é urgente um trabalho preventivo mais abrangente, que envolva toda a sociedade civil, para que os estudantes adolescentes se sintam protegidos e seguros do ponto de vista moral e psicológico, quer na sociedade, quer na família e na escola. Para isso, é bom que haja regras e normas nessas instituições que orientem os seus comportamentos humanos em direcção às metas, para que possam realizar plenamente a sua vocação humana, social e profissional. 2.3.3 A utilização dos contraceptivos De acordo com os dados estatísticos apurados neste estudo, onde se afirma que mais de metade dos entrevistados (50,2%) que frequentam as escolas secundárias de Cabo Verde, já tiveram a relação sexual. Por isso, é necessário fazer uma abordagem sobre a utilização dos meios contraceptivos e as acções preventivas do HIV/SIDA, sabendo que se trata mais de um pretexto para a propagação dos preservativos no seio dos mais indefesos, do ponto de vista moral e psicólogo, do que de uma verdadeira educação e formação sexual de base para melhorar os comportamentos e as atitudes em relação à vida sexual, enquanto dimensão da personalidade humana. O uso dos contraceptivos nas relações sexuais pode ser, também, encarado como desvio de comportamentos sexuais, precisamente porque contrapõe-se ao estado natural de uma relação sexual. Todavia, é preferível considerá-lo como um ponto distinto e que seja tratado na parte operativa e didáctica, entre os meios materiais de prevenção racional e de educação sexual da pessoa na sua integridade. O significado e o conteúdo de cada conceito de contraceptivo serão estudados e apresentados na altura em que pensamos propô-los como objectos de conhecimento e com critérios críticos sobre a sua eventual utilização. O que se deve privilegiar neste momento, é o conhecimento da modalidade que os alunos fazem deles durante as relações sexuais. Dos dados apurados, verificamos que há uma percentagem qualificada de alunos (78,7%), que utiliza preservativos (camisinhas) durante as relações sexuais. É o meio mais divulgado no seio dos adolescentes e jovens. Ao nível de faixas etárias, os alunos de 11-14 anos (58,6%) fazem menos uso dos preservativos do que os da faixa de 15-16 anos (80,6%) e de 17-21 anos 464 (85,7%). A diferença entre os sexos é irrelevante: masculino (78,4%) e feminino (79,6%). Em segundo lugar, 19,7% dos alunos fazem uso das pílulas, sobretudo os do sexo feminino (34,3%). Sempre nesta linha decrescente, verifica-se que 16,5% dos alunos não utilizam Nenhum contraceptivo e que 13,7% fazem uso do método natural – contagem do período em que a namorada está em estado de fertilidade. Esse método está menos presente na faixa etária dos 11 a14 anos (14,4%) e na dos 17 a 21 anos (11,9%) e um pouco mais na dos 15 a16 anos (16,2%), sendo que as meninas (16%) são mais atentas nesse sentido do que os rapazes (12,4%). Finalmente, há um grupo de alunos (7,8%) que faz a interrupção do coito durante as relações sexuais, com uma prevalência para os da faixa de 11-14 anos (11,7%) e menos nas faixas de 15-16 anos (7,9%) e de 17-21 anos (6%). Entre os géneros, nota-se que esse acto é mais praticado pelos rapazes (9,7%) do que pelas meninas (4,4%). Os outros meios contraceptivos utilizados pelos alunos são quase insignificativos apesar de alguns alunos os utilizarem: Injecção contraceptiva (5,2%); DIU – esterilização (2,5%); Diafragma (1,4%); Espermicidas (1,4%) (cf. Tab. 21). Tab. 21: Os métodos contraceptivos usados durante as relações sexuais (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Camisinha 78,7 58,6 80,6 85,7 78,4 79,6 Pílulas 19,7 20,7 18,3 20,6 11,9 34,3 Método de contagem (natural) 13,7 14,4 16,2 11,9 16,0 12,4 Coito interrompido 7,8 11,7 7,9 6,0 9,7 4,4 Injecção anticonceptiva 5,2 7,2 7,3 2,8 5,1 5,0 Diu 2,5 5,4 2,6 1,2 2,4 2,8 Diafragma 1,4 3,6 1,6 0,4 1,6 1,1 Espermicidas 1,4 3,6 1,6 0,4 1,6 1,1 Nenhum contraceptivo 16,5 23,4 15,2 15,1 19,2 11,0 Outros 2,8 1,8 2,1 4,0 3,8 1,1 Estamos perante comportamentos que pretendem reduzir a um simples objecto egoístico, tirando ao acto sexual a finalidade para a qual deveria ser endereçado, isto é, a procriação que garante a preservação, a estabilidade e a harmonia da família humana no tempo e no espaço. Essa atitude comportamental é a consequência da evolução de uma mentalidade racionalista e individualista que se vem criando em todas as sociedades e, em particular, a sociedade cabo-verdiana. Embora o sexo (estrutura biológica) seja uma componente indivi- 465 dual, todavia, a sua funcionalidade enquadra numa dimensão humanitária e cultural mais abrangente. É a partir dessa visão colectiva e humanitária que os alunos devem conhecer a finalidade da sua sexualidade, não como algo de privado, mas como um bem comum para a renovação e o prosseguimento da humanidade. Na educação sexual é bom que se faça ressaltar de novo a dimensão institucional da sexualidade, isto é, a sua relação com matrimónio, como acto público de um amor conjugal, e a dimensão ética objectiva, tendo também presente um conjunto de normas tradicionais que são fundamentais para tornar o acto sexual um património cultural e humanitário48. De facto, o que deve prevalecer na educação sexual é o ideal da pessoa humana a ser construída integralmente para o bem da sociedade e não, apenas, uma dimensão parcial da sua personalidade em detrimento de todo o resto. 2.3.4 As acções preventivas do HIV/SIDA Neste tempo de modernidade e pós-modernidade, as relações sexuais no seio da juventude e da população, em geral, estão sendo fortemente desafiadas pela emergência do fenómeno do vírus HIV/SIDA, uma das doenças sexualmente transmissíveis mais mortíferas. Trata-se de um fenómeno para o qual não basta a prevenção material durante o uso sexual, é necessária também uma educação da consciência moral para que seja capaz de contribuir pedagogicamente para a mudança de mentalidade e de comportamento. Sobre essa problemática falar-se-á, também, mais à frente quer no seu conteúdo quer na sua prevenção. Por enquanto, tentaremos fazer uma abordagem empírica com vista a conhecer de perto a frequência das acções preventivas na luta contra Sida, enquanto, fenómeno ligado à vida sexual dos alunos das Escolas Secundárias de Cabo Verde. A frequência dessas acções preventivas pode ser estudada e analisada segundo quatro modalidades: a primeira abarca toda uma campanha de informação e consciencialização acerca do problema HIV/SIDA; a segunda coloca a família como lugar e protagonista na prevenção da Sida; a terceira descreve as acções de acolhimento dos seropositivos e convívio entre jovens; e última se interessa pela prevenção objectiva e material do HIV/SIDA. É fundamental que conheçamos, atempadamente, as opiniões e os pareceres dos estudantes acerca das acções feitas ou em curso nas suas zonas como forma de prevenir pedagogicamente o flagelo da Sida mediante o enquadramento da campanha de informação e consciencialização. Nesta perspectiva, verifica-se que a informação através dos meios de 48 Cf. G. CONCETTI, Sessualità, Amore, Procreazione…, p. 152. 466 comunicação social, segundo os alunos entrevistados (38,4%) é muito frequente; e 33,2% dos alunos aponta que essa modalidade é frequentemente. Ao passo, que 13,6% é de opinião que essa informação é pouco frequente; apenas, 6,2% acha que isso ocorre raramente, excepto 8,5% dos que não responderam. Embora a diferença seja relativa entre as zonas residenciais, os alunos das Cidades (M.1.81) e das Vilas (M.1.82) indicam que há mais frequência de informação através dos meios de comunicação de massa do que os alunos que residem nas Aldeias (M.1.96). Uma componente informativa e formativa bastante ponderada na consciencialização sobre a problemática é o tipo de conferência e debate desenvolvido nos grupos e nas comunidades educativas. Os alunos inqueridos (46,5%) afirmam que a conferência e debate sobre Sida é muito frequente; outros (28,6%) que atestam que essa modalidade é frequentemente; e 13,6% dos alunos é de opinião que isso é pouco frequente. Apenas, 5,9% exprimiu que essa acção acontece raramente, banindo o 5,3% não respondido. Essa modalidade de informação e consciencialização na luta contra HIV/SIDA é um pouco mais expressiva pelos estudantes residentes nas Cidades (M.1.72) dos que moram nas Vilas (M.1.78) e nas Aldeias (M.1.81). Uma das componentes indispensável na luta contra HIV/Sida é a família como núcleo da sociedade e modelo preventivo que deve ser apresentado para que os jovens possam projectar o seu futuro pessoal na construção de uma vida saudável baseada no amor, na união, na comunhão e na fidelidade. Segundo as informações recolhidas, é possível considerar a família como lugar de prevenção do HIV/SIDA. Um elemento bastante utilizado na campanha de luta contra Sida é o conceito de fidelidade. É justo os estudantes adolescentes saibam e percebam que a fidelidade não é, tanto, um comportamento que depende unicamente da relação sexual, mas de uma vida estável vivida em família e na família. Segundo os dados apurados, verificamos que 24% dos estudantes admite que a fidelidade conjugal é um assunto de conversa muito frequente no seu meio ambiente; ao passo, que 27,1% concorda que essa modalidade é frequentemente. Emergem outras posições, em que, 26,6% dos alunos é de ideia que esse tipo de conversa é pouco frequente; apenas, 11,9% afirma que isso advém raramente, omitindo o 10,4% dos que não ousaram opinar. A conversa sobre a fidelidade conjugal é um assunto mais frequente segundo a opinião dos estudantes que moram nas Cidades (M.2.19) dos que habitam nas Vilas (M.2.36) e nas Aldeias (M.2.32). Com base naquilo que foi dito sobre o sexo, muitas vezes, entendido como algo privado e objecto de prazer, é aconselhável que os adolescentes e jovens estudantes se consciencializem sobre o valor do amor conjugal vivido e partilhado no seio de uma família devidamente constituída. Um número considerável de estudantes entrevistados concorda que há no seu meio ambiente actividades em prol da consciencialização sobre o amor conjugal. Con- 467 forme os dados, 24,5% dos estudantes declaram que essa tarefa é muito frequente e 26,1% afirmam que acontece frequentemente. Entretanto, 27,2% dos estudantes atestam que essa modalidade de informação é pouco frequente. Dos outros estudantes, apenas 12,8% opinam, dizendo que isso sucede raramente. Entre os alunos que residem nas zonas diferentes, nota-se que os das Cidades (M.2.21) apontam para uma frequência mais elevada à volta da consciencialização sobre o amor conjugal do que os das Vilas (M.2.31) e das Aldeias (M.2.36). Para que haja uma devida consciencialização sobre esse tipo de prevenção é aconselhável que se aposte de forma sistemática e pontual na formação e educação da família como protagonista essencial na materialização de um plano estratégico e preventivo para os adolescentes e jovens estudantes. Sobre essa tarefa pedimos aos estudantes que opinassem sobre o nível de encontro que se faz entre as famílias cabo-verdianas no seu meio ambiente. Partindo dos dados deparamos que somente 20,8% dos estudantes confirmam que essa acção é muito frequente, ao passo que 26% dos entrevistados concordam que se trata de uma acção feita frequentemente. Dos outros alunos, certificamos que 24,2% anotam que isso é pouco frequente e 17,7% que é feita raramente no seu meio ambiente. No que se refere as zonas de residência, verificamos que os alunos provenientes das Cidades (M.2.38) e das Aldeias (M.3.38) essa frequência é um pouco mais elevada dos provenientes das Vilas (M.2.51). O matrimónio é uma componente institucional e fundamental que confirma e legaliza um relacionamento amoroso do ponto vista civil e religioso. Embora saibamos que se trata de um valor pouco realizado entre a população cabo-verdiana, na educação e na formação da juventude não convém menosprezá-lo como elemento que exprime uma firme adesão ao próprio compromisso com fidelidade e perpetuidade. No momento em que se fala muito do flagelo do HIV/Sida, é importante conhecer o juízo dos estudantes sobre o que matrimónio. Na perspectiva de alargar o campo de experiência, buscar novas estratégias e resgatar os elementos institucionais para a implementação de uma luta séria contra o flagelo, dos estudantes que foram entrevistados, apenas 15,6% disseram que o debate sobre o matrimónio é muito frequente, e 21,8% consideram que essa acção é feita frequentemente. Uma percentagem mais elevada (28,5%) sustenta que se trata de uma actividade pouco frequente, e 24,3% é da opinião que acontece raramente, excluindo 9,7% que não opinaram. As opiniões dos alunos diversificam-se segundo as zonas de residência. Para os das Cidades (M.2.58), essa frequência é relativamente elevada em relação aos alunos das Aldeias (M.2.68) e das Vilas (M.2.78). O flagelo do HIV/SIDA é um fenómeno que abate o indivíduo e a sociedade tanto do ponto de vista físico como psicológico. Também em Cabo Verde é uma situação que preocupa todos os cidadãos. Daí a necessidade de conhecer o tipo de sensibilidade da população em relação aos elementos afectados por esse vírus do HIV/Sida. Para isso, é necessária uma aná- 468 lise de algumas acções de acolhimento e convívio na sociedade cabo-verdiana, em favor dos que sofrem por causa desse flagelo. 33,5% consideram que o acolhimento dos doentes de Sida é muito frequente; 18% acham que se trata de um acolhimento desenvolvido frequentemente pelos cidadãos; de entre outros grupos que responderam, 20,9% concordam que esse tipo de acção é pouco frequente; ao passo que 18,9% são da opinião que isso acontece raramente, sendo que 8,7% não responderam. Nota-se, entre os estudantes provenientes das zonas de residências, uma diferença relativa, com o sinal mais para os das Cidades (M.2.13) e menos para os das Vilas (M.2.31) e das Aldeias (M.2.34). Talvez, essa diferença seja um indício de que os doentes de HIV/SIDA estão mais presentes nas Cidades do que nas outras zonas. Além desse acolhimento, pode acontecer que haja, também, uma certa rejeição dos doentes de Sida pelas comunidades devido a preconceitos. A esse respeito, 15,5% dos alunos opinam dizendo que essa atitude comportamental é muito frequente; 16,6% concordam que isso acontece frequentemente. Entretanto, a maioria dos entrevistados (31,6%) atesta que se trata de um comportamento que ocorre raramente, e 24,9% admitem que é uma atitude pouco frequente, retirando o 11,5% dos que não opinaram. No tocante a este ponto, verificamos que há uma certa prevalência para os que residem nas Cidades (M.2.72) em relação aos das Vilas (M.2.81) e nas Aldeias (M.2.88). A aceitação dessa doença não é, ainda, muito fácil, sabendo que a sua cura está em fase de pesquisa e com muito sucesso, bastando pensar no uso de “retrovirais” que podem prolongar a vida do paciente. Não obstante esse avanço científico, é preciso que haja uma campanha pedagógica e com muita tolerância por parte dos agentes sanitários e de todos que directa ou indirectamente prestam um serviço de assistência. E os que se encontram em estado de seropositivos devem ser tratados como pessoas normais, para que possam viver uma situação de doença com naturalidade. É importante que os estudantes saibam que essa doença é como tantas outras que exige uma vida com regras e orientações nos seus comportamentos morais e sociais. Nesta perspectiva de prevenção, verificamos que 34,3% dos estudantes são unânimes em afirmar que há apoio de serviço médico muito frequente no seu meio ambiente; 27,5% atestam que essa actividade é frequente. Dos outros alunos, 22,2% apontam que esse tipo de serviço é pouco frequente; apenas 8% declaram que isso se desenvolve raramente, exceptuando 7,7% que não se pronunciaram. No que se refere às zonas de residência, nota-se que a frequência dessa acção é um pouco mais visível nos estudantes das Vilas (M.1.99) do que nos outros das Cidades (M.2.03) e das Aldeias (M.2.09). Essa visibilidade é, talvez, devido às limitações do meio ambiente e às dificuldades de informação. Na luta contra HIV/SIDA, está emergindo um elemento que merece ser analisado, na linha de prevenção, isto é, o convívio entre os jovens. De facto, entre outros fenómenos, o 469 convívio entre os jovens é bastante evidente, como demonstram 29,9% dos estudantes que assinalam como sendo muito frequente essa modalidade preventiva; igualmente, 29,8% dos entrevistados aponta que isso acontece frequentemente. Verificamos ainda que 21,6% dos alunos dão o seu juízo dizendo que essa acção é pouco frequente; 9,3% declaram que isso acontece raramente, excluindo 9,5% que não se declararam. Não há diferença consistente nessa modalidade entre os estudantes das Cidades (M.2.10) e das Vilas (M.2.10), enquanto que os alunos das Aldeias (M.2.12) se revelam um pouco menos na atribuição dessa frequência. Uma última componente desse leque de acções preventivas, enquadra-se no âmbito da prevenção objectiva e material do HIV/SIDA. O foco de atenção na luta contra esse flagelo envolve dois aspectos materiais: primeiro, faz-se uma mobilização, quase irracional, do uso dos preservativos (camisinhas), tendo presente que a sua propagação acontece através das relações sexuais; o segundo aspecto é que a atenção debruça-se sobre a utilização de certos utensílios pessoais ou materiais usados (lâmina, seringa etc.), tendo presente que o contacto com o sangue é um outro canal de propagação do Vírus HIV/SIDA. Então, é bom analisarmos os dados apontados pelos estudantes sobre a prevenção da Sida no que tange, antes de tudo, à distribuição de preservativos. Verifica-se que 42,5% dos estudantes afirmam que essa acção é muito frequente; por seu lado, 22,7% acham que esse meio é frequentemente utilizado no seu ambiente social. Somente 16,6% dos entrevistados admitem que se trata de uma actividade pouco frequente e apenas 10% consideram que isso ocorre raramente. 2% não responderam. Há uma diferença relativa, quando aos locais de residência, com uma certa prevalência dos estudantes das Vilas (M.1.88) sobre os das Cidades (M.1.91) e das Aldeias (M.2.00), na distribuição dos preservativos. Um outro foco de atenção que põe em movimento a acção preventiva na luta contra HIV/SIDA é não à utilização de objectos usados (lâmina, seringa etc.). Segundo os estudantes (30,6%), essa campanha de informação e de sensibilização é muito frequente; assim como 18,3% afirmam, que essa actividade é desenvolvida frequentemente, destacando-se ainda 20,9% dos que pensam que essa actividade é pouco frequente; igualmente, 20,1% dos entrevistados acham que isso acontece raramente, além de 10,2% que não se pronunciaram. Segundo as proveniências dos estudantes, certificamos que a frequência da sensibilização sobre não à utilização de objectos usados é um pouco mais elevado para os alunos das Vilas (M.2.18), do que para os das Cidades (M.2.30) e das Aldeias (M.2.50). Entretanto, é necessária uma maior sensibilização nesse aspecto, sobretudo onde a promiscuidade é mais volúvel (Tabs. 22a e 22b). Segundo as análises efectuadas à volta das acções na luta contra o Vírus HIV/SIDA, há, no desenrolar da campanha de informação e consciencialização da população, uma com- 470 ponente importante que são as conferências e debates sobre a Sida (M.1.78). Essa modalidade de luta contra Sida tem mais impacto na vida pessoal dos jovens do que os meios de comunicação social (M.1.87). Portanto, se essa actividade for desenvolvida na base de uma relação interactiva envolvendo as pessoas e criando grupos de reflexão poderá ter o seu efeito positivo na área da prevenção, e tornando os participantes mais conscientes e responsáveis dos seus actos e das suas atitudes. Tab. 22a: As acções preventivas mais frequentes na luta contra HIV/SID (em %; em M: média ponderada: máxima frequência = 1.00 e mínima = 4.00)*49 1 2 3 4 Não Resp. Muito Frequente Frequen temente Pouco Frequente Raramente MP Informação através dos meios de comunicação social 8,5 38,4 33,2 13,6 6,2 1.87 Conferência/debate sobre Sida 5,3 46,5 28,6 13,6 5,9 1.78 Falar de fidelidade conjugal 10,4 24,0 27,1 26,6 11,9 2.29 Consciencialização sobre o amor conjugal 9,4 24,5 26,1 27,2 12,8 2.31 Encontro entre as famílias 11,2 20,8 26,0 24,2 17,7 2.44 Debate sobre o casamento 9,7 15,6 21,8 28,5 24,3 2.68 Acolhimento / doentes de Sida 8,7 33,5 18,0 20,9 18,9 2.28 Rejeição dos doentes de SIDA 11,5 15,5 16,6 24,9 31,6 2.82 Apoio de serviço médico 7,7 34,3 27,5 22,2 8,0 2.05 Convívio entre os jovens 9,5 29,9 29,8 21,6 9,3 2.11 Distribuição dos preservativos 8,2 42,5 22,7 16,6 10,0 1.93 Não utilização de objectos usados 10,2 30,6 18,3 20,9 20,1 2.34 Outros 77,6 5,5 5,4 5,2 6,2 2.54 Das acções que tomam a família como foco de atenção na prevenção do flagelo da Sida, segundo as opiniões dos estudantes, encontram-se duas componentes de capital importância. Antes de tudo, o modo de conversar sobre a fidelidade conjugal (M.2.29) é uma componente que espelha essencialmente o comportamento do casal constituído maritalmente. Não se trata apenas de um relacionamento entre os namorados. A prevenção desse tipo coloca a instituição familiar como lugar indispensável de protecção da vida da pessoa humana. Nesta perspectiva, os estudantes quiseram realçar a importância da consciencialização sobre o amor conjugal (M.2,31) como condição fundamental para a estabilidade de um relacionamento 49 * Média ponderada: os valores da M são: 1 = Muito frequente; 2 = Frequentemente; 3 = Pouco frequente; 4 = Raramente 471 afectivo e sexual entre os casais. Estas duas componentes estão mais frequentes nesse processo de sensibilização, mas isso não significa que não se deva apostar noutros aspectos que são essenciais para um maior incentivo na luta contra a SIDA, tais como, encontros periódicos de famílias e debates sobre o matrimónio, apresentando-o como modelo ideal aos adolescentes estudantes do Ensino Secundário. Tab. 22b: As acções preventivas mais frequentes na luta contra SIDA, segundo os estudantes cabo-verdianos (em M: média ponderada: máximo frequência = 1.00 e mínimo = 4.00) Cidades Vilas Aldeias Informação através dos meios de comunicação social 1.81 1.82 1.96 Conferência e debate sobre SIDA 1.72 1.78 1.81 Falar de fidelidade conjugal 2.19 2.36 2.32 Consciencialização sobre o amor conjugal 2.21 2.31 2.36 Promover encontro entre as famílias 2.38 2.51 3.38 Promover debate sobre o casamento 2.58 2.78 2.68 Acolhimento dos doentes de SIDA 2.13 2.31 2.34 Rejeição dos doentes de SIDA 2.72 2.81 2.88 Apoio de serviço médico 2.03 1.99 2.09 Convívio entre os jovens 2.10 2.10 2.12 Distribuição dos preservativos 1.91 1.88 2.00 Não à utilização de certos objectos usados... 2.30 2.18 2.50 Outros 2.46 2.59 2.57 A verdade é que há uma certa sensibilidade em prol dos seropositivos na sociedade cabo-verdiana. Nos dados analisados, certificamos que o apoio de serviço médico (M.2.05) é a componente mais frequente nesse processo de acções de acolhimento dos doentes do HIV/Sida, segundo a percepção dos estudantes. Essa presença acolhedora poderá contribuir para que haja mais diálogo, informação e sensibilização à volta do problema. É importante que esse acolhimento seja um factor de consciencialização da pessoa como verdadeiro protagonista da sua saúde e da saúde dos outros. Uma outra componente, bastante frequente, que foi realçada pelos estudantes é o fenómeno do convívio entre os jovens (M.2.11). Trata-se de momentos recreativos sob a forma de desporto, campo-escola e festas, havendo organizações nacionais e internacionais que promovem economicamente essa modalidade preventiva no seio juvenil. Se, por um lado, essa modalidade tem objectivo de sensibilizar os jovens quanto à gravidade da situação, implementando um clima suave e descontraído, por outro, o aspecto de diversão pode enfatizar a própria situação, se os adolescentes e jovens não estiverem conscientes, abertos e preparados para 472 a interiorização da mensagem que se quer transmitir através dessas expressões de convivência. Daí a necessidade, também, de uma pedagogia de consciencialização acerca da própria diversão como momento de crescimento na liberdade e na responsabilidade do próprio agir – jogos, festas e demais brincadeiras. Em todas as acções preventivas na luta contra Sida não faltam palavras de ordem: sim ao uso dos preservativos e não à utilização de objectos usados. Nessa campanha de prevenção objectiva e material na luta contra Sida sobressai, certamente, a distribuição de preservativos (M.1.93) em relação à não utilização dos objectos usados (M.2.34), segundo os estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde. Perante o uso material do sexo, é importante que seja lembrado um princípio: dada a gravidade do problema que afecta a pessoa humana, não é a escolha do meio fácil e ilícito que resolve, defende e protege o indivíduo do contágio. O que deve prevalecer na pessoa humana é o uso da sua racionalidade e a opção que faz com base num projecto para a preservação e o bem da sua vida e da vida de quem ela escolhe para viver no amor e na fidelidade. Nas análises sobre os estudantes provenientes de zonas residenciais, averiguamos que no desenrolar da campanha de informação e consciencialização na luta contra sida, as duas componente de informação através dos mass media, conferências e debates, são mais frequentes nas Cidades do que nas outras zonas, assim como todas as acções que colocam a família como centro de atenção e lugar de prevenção da Sida. Relativamente ao acolhimento dos seropositivos, através do apoio dos médicos, nota-se que a frequência é maior nas Vilas (M.1.99) do que nas outras zonas. Finalmente, a prevenção objectiva e material da Sida, é também mais frequente nas Vilas do que nas Cidades e Aldeias. 3. As condutas dos alunos no uso dos mass media O estudo dos comportamentos e reacções dos estudantes que frequentam as escolas secundárias de Cabo Verde faz-nos reflectir, necessariamente, na sua adolescência como uma realidade complexa presente numa sociedade, por sua vez, também, complexa e em constante mudança do ponto de vista económico, político e cultural. Qualquer abordagem dessa fase evolutiva comporta, em teoria, leva a sob dois ângulos cíclicos: o ciclo vital que descreve as suas modificações morfológicas, funcionais, constitutivas e evolutivas, e o ciclo históricosocial no qual o indivíduo se encontra inserido50. Nesse processo de amadurecimento evoluti- 50 Cf. P. ABRAMS, Sociologia storica, Bologna, Il Mulino, 1983. 473 vo há que ter em conta a sua volubilidade em todos os sentidos: físico, psico-afectivo, psicossocial e comportamental. Muitas vezes, é devido à sua própria natureza que as instituições e seus agentes são solicitados, pontualmente, a actualizarem as suas actividade educativas através de estudos, seminários e conferências sobre o sentido e significado dos comportamentos e das atitudes dos adolescentes segundo as circunstâncias sociais, ambientais e familiares. Além dessas conotações inerentes à teoria da adolescência, pensamos que o nosso estudo mira sobretudo a conhecer os aspectos sociais e, particularmente, familiares, os grupos de pares, os meios de comunicação, o sistema educativo e formativo, as condições económicas, as relações inter-gerações que directa ou indirectamente influenciam os comportamentos morais, as atitudes e os estados emocionais dessa fase em crescimento, vista como adolescência. Uma abordagem analítica e interpretativa da maneira como os estudantes encaram, assimilam e se comportam perante e sob a influência dos meios de comunicação social é de extrema importância para compreender o valor da moralidade que está por detrás de tudo aquilo que é veiculado pelo poder que o mass media exerce na sociedade, influenciando as atitudes e os comportamentos dos cidadãos. Portanto, a escola secundária e seus agentes não podem ficar indiferentes perante essa realidade denominada por L. Porcher, no seu livro, “l’école paralléle”51 – a escola paralela – através da qual os alunos e todos os seus utentes recebem um leque de informações, de conhecimentos e cultura geral, segundo os instrumentos disponíveis (jornais, revistas, rádio, televisão, computador-internet). Se antes havia da parte das escolas, dos professores e educadores uma certa resistência aos meios de comunicação, como agente concorrencial, que os alunos utilizavam, actualmente parece um problema superado, no sentido de que se reconhece que certos meios de comunicação são imprescindíveis na sociedade actual. O problema que se põe à educação e à própria pedagogia é o uso que os alunos fazem desses meios de comunicação e a incidência moral nos seus comportamentos e nas suas atitudes. É a partir dessas considerações que vamos analisar os dados relativos à utilização dos meios de diversão e comunicação social que comprovam as hipóteses sobre a influência que eles têm sobre os comportamentos morais dos alunos, com o intuito de proporcionar algumas linhas de orientação pedagógica e educativa para o bom equilíbrio moral dos alunos na utilização dos referidos meios e seus produtos como expressão de uma formação cultural numa sociedade cada vez mais desafiante. 51 Cf. L. PORCHER, L’école parallèle, Paris, Larousse, 1974. 474 3.1 A influência de linguagem do som e da imagem Com o avanço da tecnologia e a proliferação dos instrumentos cada vez mais sofisticados de sons e imagens, a nova geração têm um largo acesso a esses meios para a satisfação dos seus prazeres psico-afectivos e sentimentais. É bastante visível a invasão da música, das telenovelas e outras modalidades culturais nos canais de televisão, presentes em quase todas as casas de Cabo Verde, sobretudo, nestes últimos anos, com a expansão da rede eléctrica em todas as ilhas e povoações. Não há dúvida, que a linguagem do som e da imagem faz parte da cultura juvenil e da sociedade cabo-verdiana, em geral. A questão de fundo, não é tanto a presença e o acesso a esses meios, mas a forma como os estudantes os encaram e assimilam essa linguagem tão pertinente e o uso que fazem dessa linguagem. Antes de tudo, é fundamental que se conheça os seus pontos de vista sobre a música, os programas televisivos e o uso que fazem, também, da Rádio, enquanto linguagem de sons e de imagens. 3.1.1 A Música e as condutas dos estudantes A escuta da música que era objecto de interesse comunitário e familiar, hoje, está sendo um objecto de uso privado ou individual com o aparecimento e divulgação dos chamados “walkman”. Os dados fornecidos pelo inquérito apresentam o significado que os estudantes atribuem à escuta da música. De facto, 39,4% deles escutam-na como uma exigência que não sabem como dispensar; ao passo que 52,9% fazem isso somente só quando lhes apetece. Uma percentagem insignificativa (2%) não escutam ou são indiferentes, havendo 5,7% que não responderam. Nesse sentido, convém focalizar o nível de interesse entre os géneros. De facto, sobre a escuta da música como uma exigência, há uma diferença significativa que apresenta os alunos do sexo masculino (35,4%) com uma percentagem inferior aos do sexo feminino (42,7%). Isso significa que as meninas fazem o uso da música mais do que os rapazes que frequentam o Ensino Secundário. Não há uma grande diferença percentual entre os que vivem nas Cidades (41,4%), nas Vilas (40,7%) e os que habitam na Aldeias (38,2%). São dados que caracterizam o nível de acesso que a camada juvenil tem aos meios que emitem a linguagem de som, e demonstram que os meios de difusão da música estão bastante desenvolvidos no Arquipélago de Cabo Verde (cf. fig. 20). Sempre nessa linha de escuta da música, os adolescentes estudantes cabo-verdianos interessam-se pela música que está entre os seus interesses pessoais e lhes satisfaz do ponto de 475 vista sentimental, emocional e mental. Assim, 82% dos alunos escutam a música da sua preferência e apenas 13, 8% ouvem somente aquilo que está na moda. Fig. 20: O significado que os alunos atribuem à escuta da música segundo o sexo (em %) 60 50 40 52,9 50,3 56,4 42,7 39,4 35,4 Total 30 F M 20 10 2,2 2,3 1,7 5,7 4,8 6,6 0 Exigência Quando apetece Não escuta Não resp. Nessa ideia de preferência não há uma diferença significativa entre o sexo masculino (82,6%) e o sexo Feminino (81,6%), conforme se pode ver na Fig. 21. Pelos vistos, devido aos meios informatizados, há um enorme repertório de música nacional e internacional que permite uma escolha ilimitada de modalidades musicais e de ritmos de diversos tipos. Segundo as nossas observações pessoais, existe um número elevado de músicas estrangeiras e, sobretudo, de origem americana que os estudantes utilizam nas discotecas, nas danças, no convívio e nos espectáculos públicos, mais do que as músicas nacionais. Sempre na linha de observação in loco, verificamos que no seio da camada juvenil e estudantil, há muita imitação de cantores e dançarinos estrangeiros e pouca valorização e aperfeiçoamento daquilo que é próprio da cultura cabo-verdiana. É bom que os agentes educativos saibam que a música que os alunos preferem escutar tem uma valência pedagógica e educativa, por conseguinte, a mensagem e o estilo musical que a música transmite, devem ser descodificados para que os alunos possam compreender o seu sentido e significado. Para isso, há que conhecer quais são as atitudes dos estudantes perante a música, para uma melhor compreensão do mecanismo dos seus comportamentos e atitudes, e melhor intervir com sentido pedagógico, ajudando-os a valorizar a filosofia de cada música e, sobretudo, a música cabo-verdiana. 476 Fig. 21: Os tipos de interesse pela música (em %) 3,5 4,5 Não resp. 4,2 F 14,7 12,9 Moda M Total 13,8 81,8 82,6 Preferência 82 0 20 40 60 80 100 Certo é que o valor da música não deixa ninguém indiferente, antes, é a obra artística que mais mexe com os sentimentos humanos. A própria indiferença (5,3%) revela uma atitude perante a música. Por isso, não é difícil descortinar as atitudes subjectivas dos adolescentes nesta matéria tão sensível à sua idade. O valor objectivo da música, em si, é pouco significativo (12,4%) no meio dessa camada juvenil. Isso demonstra que, muitas vezes, a música é utilizada como diversão e não como objecto estético por si mesmo. Os que escutam a música com a atitude de compreender a mensagem que os leva a ter uma atitude de aspiração, são 81,6%, e os que a escutam pelos seus conteúdos humanos, como meio de reflexão acerca das vivências dramáticas e felizes de pessoas e povos, são 52,7%. Além dessas atitudes em relação à objectividade da música, os alunos exprimem outras atitudes, quando dizem ver a música como uma provocação de sentimentos e emoções subjectivas. Através dos dados, identificamos que 77,6% dos entrevistados são da opinião que a música é um factor estimulante de sentimentos humanos, e que 32,2% consideram que a música é um elemento excitante (Fig. 22). O nível das atitudes que aparece neste estudo deixa claro que a música é um factor que desperta nos indivíduos em fase de crescimento determinados sentimentos positivos e menos positivos. O problema que se coloca nessa fase não é tanto o dos sentimentos, em si, mas a forma como esses sentimentos se convertem em tipos de comportamentos morais ou imorais. Partindo dos dados, podemos reflectir sobre duas dimensões da personalidade dos estudantes: intelectual e psico-afectivo. Do ponto de vista intelectual, as duas atitudes, aspiração e reflexão, demonstram que a música pode exercer um papel importante na vida dos estudantes. Além de aumentar a sua capacidade de percepção e de conhecimento pode ainda contribuir para aumentar a sua capacidade social, tornando-os mais solidários com os problemas alheios. A outra dimensão, a psico-afectiva, abrange duas atitudes: estimulação e excitação. Embora não sejam atitudes nega- 477 tivas em si, o estilo da música e a instrumentalização da própria música induz o indivíduo a comportar-se de forma sensual, emitindo gestos e comportamentos eróticos. Fig. 22: As atitudes dos estudantes perante a música (em %) Não resp. 1,7 5,3 Indiferença 32,2 Excitação 77,6 Estimulação Reflexão 52,7 12,4 Música em si 81,6 Aspiração 0 20 40 60 80 100 No repertório das músicas cabo-verdianas, quase todos os clips – vídeos e DVD’s – apresentados nos nossos canais televisivos, trazem sabores de exibicionismo, sensualismo e erotismo. Isso está patente na forma como os adolescentes cabo-verdianos e adultos, em geral, materializam o ritmo da música através de danças, mostrando o corpo seminu e gesticulando sensualmente. A música que os estudantes adolescentes preferem e faz parte do seu repertório tem, pois, uma certa dose de romantismo e expressões eminentemente eróticos. Através da música, as crianças, os adolescentes e jovens cabo-verdianos exibem o seu corpo como forma de auto-afirmação e de fazer valer perante os colegas e adultos. Perante essa exibição, há uma posição acrítica e relativista quer da parte da sociedade quer da parte das comunidades e instituições educativas. Se, por um lado, admitimos a liberdade de quem usufrui desses produtos, doutro lado, é necessário que haja responsabilidade dos adultos, dos educadores e de quem é de direito para controlar os produtos que induzem determinados comportamentos imorais na sociedade e salvaguardar a dignidade dos indivíduos em fase de crescimento. Através desse estudo pode-se provar algumas insinuações e incidências que a música tem sobre os comportamentos dos estudantes. Partindo da música como um elemento difuso na cultura juvenil e com uma forte incidência nos seus comportamentos psico-afectivos, constata-se que uma percentagem significativa se sente estimulada e excitada a cometerem actos sexuais precocemente. Conforme os dados cruzados, encontramos indivíduos que experimentaram relações sexuais e, entre eles, temos antes de mais, os que consideram a música como um factor estimulante (78,7%). Os que admitem que a música é um elemento excitante 478 (32,5%) já tiveram relações sexuais em idade precoce, como veremos mais à frente neste estudo. 3.1.2 As atitudes dos alunos perante o uso da Rádio Para além das aparelhagens sonoras (gravadores, gira-discos, CD, DVD) que emitem a linguagem sonora, há um outro meio de comunicação bastante difuso no Arquipélago de Cabo Verde que emite, além de programas musicais, outros de carácter formativo e informativo. Trata-se da Rádio. Sabendo da sua importância pedagógica e educativa, sobretudo no campo da promoção cultural, seria justo que conhecêssemos positivo ou negativo que esse meio tem na vida dos adolescentes estudantes cabo-verdianos. Antes de tudo, realçamos os dados que caracterizam a importância que a escuta da rádio tem para os estudantes do Ensino Secundário e, em segundo lugar, as motivações que levam os estudantes à escuta desse meio tão útil à população cabo-verdiana. Segundo as modalidades de frequência, 66,7% dos estudantes acham que é muito importante a escuta da Rádio. Por outro lado, 31,1% dos entrevistados concordam pouco com a sua importância e uma percentagem insignificante (1,3%) acha que isso não faz sentido. Entre as faixas etárias, pode-se dizer que os de 11 a 14 anos (M.1.38) acham isso menos importante em relação às outras faixas de 15-16 anos (M.1.30) e de 17-21 anos (M.1.34). E há uma diferença significativa entre os géneros no que se refere à importância da escuta da Rádio. De facto, segundo os dados, é menos importante para os do sexo Masculino (M1.40), do que para o sexo feminino (M.1.29) (cf. Tab. 23). Tab. 23: A importância da escuta da Rádio segundo as faixas etárias e sexo (em M: média ponderada: máximo importância = 1.00 e mínimo = 3.00)52 52 Não resp. Muito Pouco Nada MP Total 0,9 66,7 31,1 1,3 1.34 11-14 Anos 0,9 62.7 35.0 1.5 1.38 15-16 Anos 1,5 70.2 26.8 1.5 1.30 17-21 Anos 0,0 67.6 31.3 1.1 1.34 Masculino 1,1 61.6 35.0 2.2 1.40 Feminino 0,5 71.2 27.8 0.5 1.29 * Média ponderada: os valores da M. em escala: 1 = muito; 2 = pouco; 3 = nada 479 Em geral, a escuta da Rádio para a camada juvenil é extremamente importante, mas não significativa como veremos de seguida. Na verdade, o mais importante são as motivações e as razões que impulsionam os estudantes à utilização desse meio de comunicação e ver se esse meio é, de facto, utilizado pelos estudantes das escolas secundárias de Cabo Verde. Em conformidade com os dados obtidos chegamos à conclusão de que entre a importância da escuta da Rádio e a sua efectiva e significativa utilização há uma diferença qualificada. Antes de tudo, 32,3% não responderam a questão sobre as razões da sua utilização; ao passo que 34% dos estudantes utilizam a Rádio só para escutar a música; uma percentagem insignificativa (3,8%) utiliza a rádio para escutar os programas educativos; apenas, 11,2% dos entrevistados faz o uso da Rádio para ouvir o noticiário; enfim, somente 18,7% dos estudantes utilizam esse meio para acompanhar todos os programas radiofónicos (cf. Fig. 23). Conhecendo a sensibilidade juvenil cabo-verdiana, neste momento está-se expandindo a difusão das rádios locais que apostam fortemente na expressão musical, em detrimento de outras duas rádios de frequência nacional, Rádio Nacional de Cabo Verde e Rádio Nova, de Inspiração Cristã com uma grelha de programas mais abrangentes. Fig. 23: Motivações dos estudantes do Ensino Secundário na escuta da Rádio (em %) Não respondido 32,3 18,7 Todos programas Ouvir noticiário 11,2 3,8 Prog. Educativo Escutar música 34 0 5 10 15 20 25 30 35 40 Estas constatações são sinais evidentes de que não há uma estreita relação entre as estações da radiodifusão e as escolas secundárias. Aponta-se, ainda, que o desenvolvimento dos planos curriculares no Ensino Secundário do País têm pouca referência e o sistema não incentiva os alunos a procurar um acompanhamento activo e efectivo dos programas radiofónicos para a sua formação pessoal e social. Seria justo que os professores incentivassem, um pouco mais, os seus alunos a acompanharem as actividades radiofónicas, especialmente, as 480 notícias nacionais e internacionais, como forma de estarem a par do que se passa no país e no estrangeiro; a escutar e reflectir nos programas educativos, especialmente nos temas de actualidade ligados à sexualidade, à família, à droga e aos outros problemas que afectam a camada juvenil e a população, em geral. Tudo isso contribui para a formação moral dos alunos adolescentes. 3.1.3 As imagens televisivas e o comportamento dos alunos Após essas apreciações analíticas sobre as duas realidades, passemos a analisar uma linguagem mais poderosa na vivência da população e da nova geração, em particular. De facto, a cultura da imagem televisiva parece ser a que mais convence a mente das pessoas e, especialmente, dos indivíduos em idade escolar. É visível na sociedade cabo-verdiana o modo como a imagem influencia os comportamentos das crianças, adolescentes, jovens e adultos. Assim, é inevitável que a utilização da televisão nas famílias constitua um problema de relacionamento se para o seu uso não forem estabelecidas atempadamente, regras de conduta. Na realidade, os pais e os professores não podem ignorar que a televisão é o meio que mais estimula e provoca o uso do sexo e os actos de violência, com as suas imagens sublimadas e obsessivas de publicidade, apresentando os novos mitos presentes no desporto, na música, nas telenovelas, ou de indivíduos que conseguem ter «sucessos» na vida através de seus comportamentos transgressivos e imorais Entretanto, a educação à utilização da televisão não é somente uma tarefa dos pais, é também dos professores, os quais, podem colaborar, demonstrando a importância e o benefício da televisão e os aspectos pouco positivos que as imagens televisivas podem provocar nos indivíduos imaturos e inexperientes por causa da sua idade e sensibilidade moral. Na realidade, os ritos televisivos são os mais imitados pelas crianças e pelos adolescentes da nossa sociedade. Qualquer intervenção pedagógica e educativa nesse sentido pressupõe, em primeiro lugar, conhecer o valor que os alunos dão à utilização da televisão, enquanto linguagem de imagem na sociedade cabo-verdiana. Segundo os dados que pudemos relevar, 68,6% dos estudantes do Ensino Secundário declaram que se sentem livres perante a utilização desse meio de comunicação, escolhendo os programas segundo uma hierarquia; os que se sentem alienados pela televisão são apenas 11,2%; ao passo que 17,5% dos entrevistados vêm pouco a televisão e se consideram indiferentes na sua utilização, havendo 2,7% que não opinaram (cf. Fig. 24). 481 Fig. 24: As atitudes dos estudantes do Ensino Secundário perante o uso da televisão (em %) 2,7 Não resp. Indiferentes 17,5 Livres no uso 68,8 11,2 Alienados 0 20 40 60 80 Além destes dados, é sintomática essa liberdade de escolha de programas segundo as faixas etárias dos alunos que frequentam a escola secundária: os que se encontram na faixa de 11-14 anos são 63,8%; os de 15-16 anos são 70%; finalmente, os de 17-21 anos são 71,8%. Sempre nessa atitude de uso com liberdade de escolha dos programas televisivos, há uma diferença substancial entre os géneros, sendo 72,5% os estudantes do sexo masculino e 65% os do sexo feminino. Verifica-se, também, uma diferença, em termos de alienação. Assim, as meninas (12,9%), sentem-se mais alienadas em relação ao uso da televisão do que os rapazes (9%). Quanto às zonas de residência, não há diferença substancial no que se refere à liberdade do uso da televisão. De facto, os dados apontam para os que residem nas Cidades (69,8%), nas Vilas (67,8%) e na Aldeias (69,3%). Isso demonstra que a presença e a utilização da televisão no seio das comunidades cabo-verdianas é, também, bastante generalizada. Portanto, as escolas secundárias são solicitadas a educar os seus alunos ao uso, moralmente correcto, deste meio que poderá, também, deturpar e alienar a mente dos mais jovens, com os seus produtos não condizentes com as regras morais. A nível dos que optam por ver a televisão segundo uma hierarquia de preferência, é importante que saibamos qual é o critério valorativo que determina essa hierarquia de programas passados quer pelo canal nacional, quer pelos outros canais que emitem a partir do exterior. Se excluirmos uma percentagem, não indiferente, dos que não responderam à questão (37,6%), podemos verificar esse critério de hierarquia segundo os programas abaixo indicados. Antes de tudo, 12,7% dos estudantes preferem o programa de informação (telejornal); 4,3% optam para o programa que transmite cultura (nacional e internacional); 14,8% inclinam-se para o desporto. E a maioria dos alunos entrevistados (30,6%), escolhem programas de diversão, filmes e espectáculos (cf. Tab. 24). 482 Tab. 24: Os critérios de preferência dos programas televisivos (em %) Total Faixa etária Sexo 11-14 15-16 17-21 M F 15,0 Informação (telejornal) 12,7 13,7 12,7 11,5 10,3 Cultura 4,3 4,7 2,7 5,1 2,1 6,2 Diversão (filmes, espectáculos) 30.6 38,5 29,5 24,2 16,7 43,5 Desporto 14,8 16,0 16,1 12,4 27,2 2,8 Não respondido 37,6 27,1 39,0 46,8 43,4 32,4 Entre essas preferências, é bom que sublinhemos algumas particularidades que diferenciam os estudantes. Há uma nítida diferença fundamental entre os géneros, especialmente no que toca à preferência de programas de diversão na televisão. Em primeiro lugar, só 16,7% dos rapazes escolhem programas de diversão, ao passo que 43,5% das meninas preferem tais programas. Essa preferência reverte-se noutro critério de selecção, em que 27,2% dos rapazes preferem o desporto na televisão, um tema em que encontramos apenas 2,8% das meninas. Apesar dessa dimensão lúdica e diversiva que é importante na vida, emerge a necessidade de uma formação moral dos estudantes não só no uso desse meio de comunicação de massa, mas na sua valorização como meio de crescimento humano, de equilíbrio da personalidade de cada indivíduo que quer fazer da rádio e da televisão um uso correcto, justo e humano. O uso da televisão em Cabo Verde continua a ser, ainda, muito presente nas famílias e nas comunidades. Em princípio, cabe à família educar os filhos menores ao uso da televisão com critérios morais, para que a assimilação dos conteúdos seja interiorizada e os filhos se comportem com civismo. Para a compreensão do impacto que esse meio tem no seio da família cabo-verdiana, importa conhecer as opiniões dos próprios estudantes sobre os interesses e os problemas que a Televisão, eventualmente, suscita no interior das famílias. À volta do uso da televisão na família, é possível destacar três grupos de reacções essenciais que acontecem, segundo as opiniões dos estudantes: todos os membros da família sentem-se informados; todos partilham e dialogam sobre aquilo que é emitido pela Televisão; surgem problemas conflituais entre os membros. Portanto, é justo que analisemos estes três aspectos, evidenciando as atitudes e comportamentos dos membros que constituem o núcleo familiar em relação à utilização desse meio que é indispensável à informação e formação no processo da socialização e inculturação da comunidade. Primeiramente, a televisão é um meio social que tem como finalidade informar e formar todos os telespectadores. Conforme os dados adquiridos através dos inquéritos, 90% dos estudantes são da opinião que em Cabo Verde a televisão exerce no seio da família um 483 papel de informação daquilo que se passa no País e no mundo em geral. As informações televisivas, em si, são, também, portadoras de conhecimento e formação dos seus utentes. Daí que 87,8% dos alunos afirmam que a televisão ajuda os membros da família a conhecerem coisas muito interessantes e extraordinárias, permitindo, assim, um alargamento de conhecimento e da cultura geral. Sempre nesta linha de informação, 65% dos alunos concordam que o uso da televisão na família é um contributo importante na medida em que incentiva o sentido de solidariedade para com os problemas que afectam o mundo do ponto de vista económico, social, político e cultural. Em segundo lugar, a televisão é um instrumento comunicativo no sentido que promove partilha e diálogo no seio das famílias, das comunidades e dos grupos de encontro. Sob este princípio basilar, constatamos que 60,3% dos estudantes são da opinião que o uso da televisão na família suscita conversação sobre as coisas importantes e de actualidade. Através do diálogo sobre os temas anunciados pela televisão, os membros da família tornam-se mais comunicativos e aprendem uns com os outros a valorizar o ponto de vista alheio e a ser mais flexível e tolerante. Embora o uso da televisão imponha silêncio no lar, continua a ser sempre um elemento catalizador. 62,7 % dos estudantes entrevistados acham que a televisão contribui para que os membros fiquem em casa à noite e nos dias de descanso. Há, porém um segundo aspecto mais problemático, mas com menos relevância em relação às duas finalidades que acabamos de analisar. A utilização da televisão na família causa alguns conflitos. Os dados indicam que 17,6% dos estudantes afirmam que esse meio de comunicação dificulta o diálogo pessoal entre os membros da família. Para estes, o uso desse meio torna-se uma fuga e não contribui para a resolução dos problemas interpessoais. Às vezes, acontece que há um uso continuado no tempo e põe em causa as regras comunitárias. Por isso, 36,7% dos alunos são da opinião que o uso da televisão na família, muitas vezes, tira o tempo de repouso. Isso demonstra que no seio das famílias cabo-verdianas a utilização desse meio não segue as regras que controlam tais comportamentos. E mais, 35,2% dos estudantes afirmam que o aumento dos canais televisivos em Cabo Verde veio elevar o nível de conflituosidade entre os membros da família no que toca à escolha de programas conforme os interesses individuais. Sempre nesta linha problemática, 19% dos entrevistados asseguram que a utilização da televisão influencia negativamente o seu modo de pensar, viver e agir; assim como 25,4% dos alunos afirmam que a televisão transmite programas não adequados às suas sensibilidades e aos seus interesses pessoais (falaremos depois sobre os conteúdos dessa influência negativa e programas não adequados, ao analisarmos algumas atitudes dos estudantes em relação aos programas). Finalmente, 35% dos alunos declaram que a rotina da utilização desse meio acaba por tirar o tempo que podia ser dedicado a coisas mais importantes. 484 Nessa opinião é possível entrever que o uso contínuo e desregrado da televisão contribui para prejudicar os alunos no estudo, enquanto compromisso fundamental na idade escolar (cf. Fig. 25). Fig. 25: Reacções familiares através do uso da televisão segundo os estudantes (em %) Não resp. 1,9 Tira coisas importantes 35 Participação do mundo 65 Influência negativa 19 Faz estar em Casa 62,7 Programas não adequados 25,4 Ocasiões de discussão 60,3 Conflito na escolha 35,2 Tira o descanso 36,7 Coisas interessantes 87,8 Dificulta o diálogo 17,6 Informar sobre o mundo 50 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Em todas essas modalidades verificamos que o uso da televisão pelos estudantes do Ensino Secundário é, fundamentalmente, objecto de diversão e de prazer. E além do passatempo, esse meio pode servir como forma de se libertar ou de alimentar os próprios impulsos de agressividade, os sentimentos, emoções, ficções e imaginações, através de filmes e telenovelas. A par do uso da televisão, gostaríamos de evidenciar dois factores que podem despertar nos estudantes os instintos de vida e de morte. Trata-se de filmes violentos e pornográficos. Sem entrarmos em detalhas, os alunos foram interpelados a se pronunciarem sobre esses tipos de filme, ou seja, se gostam ou não de os ver. Os dados que sobressaíram são preocupantes para indivíduos que estão na fase de crescimento. Isso indica que é necessária uma intervenção preventiva apostando seriamente na formação moral, quer na escola secundária quer na família. Dos alunos que foram entrevistados, 43,9% gostam de ver filmes violentos, ao passo que 55,4% não gostam. Embora não haja uma diferença exorbitante, a faixa de 11-14 anos é de 40,5% para o SIM e 59, 2% para o NÃO; e os que abarcam a faixa de 15-16 anos, 42,9% 485 são para o SIM e 56,3% nitidamente para o NÃO; na faixa de 17-21 anos, os mais crescidos constituem uma percentagem mais elevada, isto é, 48,2% são para o SIM e 50,7% para o NÃO (cf. Fig. 26). Fig. 26: Os alunos das escolas secundárias gostam de ver os filmes violentos e pornográficos (em %) 60 50 40 30 20 10 0 Filme violento Filme pornográfico SIM 43,9 38,8 NÃO 59,4 59,3 Os dados que mais exprimem esse prazer são os que diferenciam os rapazes das meninas e as zonas de residência dos estudantes. De facto, 59,6% dos rapazes gostam de ver filmes violentos, ao passo 29,7% das meninas apreciam esse tipo de filmes. A exibição de filmes violentos induz os rapazes e as meninas a manifestarem a própria masculinidade e feminilidade através de uso de força física, e acham que a violência pode ser uma modalidade de afirmação da própria identidade psico-sexual. Todavia, essa característica é mais evidente nos rapazes do que nas meninas. Uma outra detalhe que é preciso ter em conta tem a ver com as zonas de residência dos estudantes. Os que moram na Cidade (52,2%) e na Vila (49,9%) gostam de ver os filmes violentos mais dos que residem nas Aldeias (35,2%). Esses dados reflectem a sociologia da juventude no seu contexto social: os que vivem num ambiente concentrado sentem essa necessidade de compensar o seu estado de ânimo agressivo e menos solidário, ao passo que os que vivem num ambiente mais descentralizado são propensos a ter atitudes solidárias e com menos necessidade de alimentar o impulso agressivo. Um outro elemento sugestivo que merece ser realçado no mundo juvenil, neste caso estudantil, é o caso dos filmes pornográficos que mexem quer com o estado emocional quer com a dimensão psico-afectiva dos estudantes em fase de crescimento. Assim como aconteceu com o outro tipo de filmes, também, neste os estudantes foram convidados a emitir a sua opi- 486 nião, ou seja, a dizerem se gostam ou não de filmes pornográficos. Os dados, praticamente, são semelhantes aos do anterior, talvez, com um pouco de pudor. Entretanto, os que gostam de ver filmes pornográficos são 38,8% e os que não gostam 59,3%. Entre as faixas etárias, apresentamos apenas os dados que indicam o gosto positivo, isto é, os que responderam o SIM: de 11-14 anos são 35,9%; os de 15-16 anos são 39,2%; e os de 17-21 anos são 41,4%. Há uma diferenciação significativa entre os géneros e os que provêm das zonas diferentes. Antes de tudo, há uma prevalência dos rapazes no gosto para filmes pornográficos (57,7%), sobre o sexo feminino (21,9%). Assim também, os que moram nas Cidades (50,8%), gostam mais do que os outros que residem nas Vilas, 38,5%, e nas Aldeias, 32,5% (cf. Tab. 25). Tab. 25: Os alunos gostam de ver filmes violentos e pornográficos: Segundo as faixas etárias, sexo e zonas de residência (em %) Tipo de filme Filme Violento Sexo Faixa etárias Zona M F 11-14 15-16 17-21 Cidade Vila Aldeia SIM 59,6 29,7 40,5 42,9 48,2 52,2 49,9 35,2 NÃO 39,9 69,4 59,2 56,3 50,7 46,6 49,9 64,1 Não respondido 0,6 0,9 0,3 0,7 1,1 1,0 0,3 0,7 Filme pornográfico SIM M 57,7 F 21,9 11-14 35,9 15-16 39,2 17-21 41,4 Cidade 50,8 Vila 38,55 Aldeia 32,5 NÃO 40,3 76,1 63,0 56,8 55,8 46,8 59,3 66,4 Não respondido 2,1 1,9 1,2 2,0 2,8 2,4 2,3 1,1 Os dados que foram analisados nos induzem a afirmar que os filmes violentos e pornográficos incidem directa ou directamente nas condutas pessoais e sociais dos estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Embora haja quem tenta evitar, formalmente, a invasão desses programas nos canais televisivos, a falta de moralidade nas instituições educativas não permite que haja uma certa contenção desses produtos que provocam comportamentos imorais no seio dos alunos. De facto, as agressões e alguns homicídios nos estabelecimentos do Ensino Secundário de Cabo Verde encontram as suas causas nesse demasiado uso dos filmes violentos por parte dos adolescentes e jovens. Muitos alunos com uma estrutura psicológica frágil e com pouco estima de si mesmos, acabam por interiorizar os modelos de comportamentos agressivos através das imagens televisivas. De facto, o herói no filme é aquele que abate os inimigos. Numa turma aparece quem quer ser herói de tais filmes é aquele abate o inimigo. Essa constatação pode verificar-se quer no acto prático quer a nível de imaginação. 487 Daí a necessidade de incentivar os verdadeiro modelos racionais que apontam mais para o uso do raciocínio com a metodologia do diálogo do que o uso de força física através do método de armamento. Por causa de constante bombardeamento de filmes violentos na televisão cabo-verdiana, emerge a necessidade da moralidade nas escolas secundárias que facilita a assimilação de valores pessoais e interpessoais para um justo equilíbrio moral dos alunos. O mesmo se pode afirmar a respeito dos filmes pornográficos, que estimulam os adolescentes a comportarem-se de forma prematura, pondo em causa a estruturação da sua própria personalidade. Segundo os dados, dos alunos que gostam de ver filmes pornográficos, 51,7%, já tiveram relações sexuais. Isso significa que há uma descompensação psico-afectiva nos alunos, devido a esse incentivo sensual. Nesse caso, é bom, também, que as escolas tomem medidas preventivas e educativas capazes de melhorar a situação que, pelos vistos, tende a alargar-se sempre mais. 3.2 O uso da linguagem virtual – computer-internet As análises efectuadas à volta da linguagem do som e das imagens, não pretendem excluir a nova cultura de sons e de imagens que envolve a sociedade moderna e é fonte de atracção para a juventude. Antes, preferimos debruçar-nos sobre esse novo património cultural que espelha a modernidade e pós-modernidade sob um outro prisma, isto é, a linguagem virtual produzida pelo poder das novas tecnologias electrónicas e informáticas, que revolucionou todo o sistema de mass media até agora vigente. Não há dúvida que tudo isso faz parte de um percurso histórico, científico e cultural da humanidade. A utilização da expressão “linguagem virtual” serve para indicar um novo impacto que esse meio tem na vida dos adolescentes e jovens da sociedade actual. De facto, o termo virtual é utilizado para descrever a forma como as novas tecnologias da multimédia – informática – consegue representar os fenómenos reais como modelos ou representações simbólicas através da simulação de eventos físicos, de ficção e criação de mundo e coisas fictícias53. Partindo dessa suposição, tudo pode ser objecto de simulação e com o risco de as imagens acabarem por se tornar elas mesmas pontos de referências e não mais aquilo que elas representam. Surge, então, a importância de uma formação moral sobre a utilização do computador e seus produtos. É importante que os alunos em fase de crescimento e com pouca experiência sejam educados e orientados a diferenciar o mundo real do mundo virtual. Preci- 53 Cf. A. CALVANI, Educazione, comunicazione e nuovi media. Sfide pedagogiche e cyberspazio, Torino, UTET, 2001, p. 30. 488 samente porque o contacto com a “realidade virtual”54 tende a levar o indivíduo a identificarse com a própria máquina que utiliza. Aliás, o indivíduo não olha mais para o ecrã do computador, mas torna-se membro activo no ecrã com a sensação de sentir-se imerso na mesma situação. É precisamente essa ilusão que caracteriza o nível da eficiência de um programa que faz parte da realidade virtual55. Sabendo que a informática está sendo um meio bastante aliciante no seio da juventude moderna, é justo que façamos uma análise para sabermos o nível da sua utilização no seio dos estudantes cabo-verdianos. Apesar de ser um número reduzido de alunos que utiliza o computador e seus derivados, e sendo uma disciplina optativa implementada no Sistema do Ensino em Cabo Verde, particularmente no terceiro ciclo do Ensino Secundário, apresentaremos os dados e suas respectivas análises a fim de conhecermos, efectivamente, qual é a importância desse novo meio que está à disposição dos alunos cabo-verdianos. Fig. 27: O tempo que os alunos utilizam o computador (em %) 60 48,9 50 40 22,7 30 20 15,2 8,2 10 0 Mais de 2 Horas 1 ou 2 Horas Menos 1 Hora Nunca ou quase nunca Embora haja uma percentagem elevada de alunos de alunos que nunca ou quase nunca utilizaram o computador (48,9%), o conhecimento da sua existência é já uma realidade entre os estudantes cabo-verdianos. Os alunos que fazem uso de computador, têm um tempo bastante limitado, pelo facto de que ainda são poucos os que o têm em casa. E são apenas 8% os alunos que o usam mais de 2 duas horas por dia. Talvez, dessa percentagem, possamos deduzir que alguns tenham computador em casa e de fácil acesso. O inquérito revela também 54 Cf. M. ANDREOLETTI, La realtà virtuale, in C. SCURATI (Ed.), Tecniche e significati.Linee per una nuova didattica formativa e protesti virtuali, Milano, Vita e Pensiero, 2000, pp.39-79. 55 A. CALVANI, Educazione, comunicazione e nuovi media…, p. 32. 489 que os que o utilizam uma ou duas horas por dia são 15,2%, ao passo que 22,7% dos alunos usam-no menos de uma hora por dia (fig. 27). Nesses dois casos, a sua utilização acontece nas escolas, nos centros comunitários ou nos cyber-cafés mediante pagamento. Entretanto, não há uma diferença percentual entre as faixas etárias e entre os géneros que o utilizam. E como já dissemos, anteriormente, a “utilização do computador” é uma disciplina optativa para o terceiro ciclo em todas as escolas secundárias do País. Além da aprendizagem de como manuseá-lo, as razões da sua utilização, excluindo 23,4% dos que não responderam, têm a ver com a execução de tarefas escolares, conforme a afirmação de 34,6% dos alunos. Fig. 28: As motivações que levam os alunos a utilizarem o computador (em %) Outros 5,4 Divertimento 15,7 Exerc. Inteligência 16,5 Tarefas escolares 34,6 Vídeo-game 4,5 Não resp. 23,4 0 5 10 15 20 25 30 35 40 A utilidade desse meio está-se tornando um critério indispensável na sociedade caboverdiana. Antes, a disciplina sobre a “utilização do computer” é uma oportunidade que os alunos têm para se familiarizarem com os programas e aprenderem a manobrar esse meio que é indispensável aos vários sectores sociais. Em segundo lugar, há uma percentagem de alunos (16,5%) que usam o computador como forma de exercitar a própria inteligência. Isso demonstra que há uma porção de curiosidade positiva no seio dos alunos, os quais, não só reconhecem a utilidade desse meio no campo intelectual, como também a sua dimensão lúdica. De facto, 15,7% dos estudantes utilizam o computador para se divertirem, enquanto que 4,5% utilizam-no com uma finalidade específica, isto é, procurar ser hábeis em jogos – vídeo-games (fig. 28). A escola foi sempre um campo, onde os meios de comunicação de massa tiveram uma forte incidência, como materiais didácticos, sobretudo no campo da escrita e do audiovisual. Com o aparecimento do computador, a escola é envolvida não só como parceira na sua divulgação, mas como interlocutora para a formação da consciência da nova geração sobre a 490 sua utilidade para o desenvolvimento pessoal e da sociedade. Portanto, surge a necessidade de uma sã educação ao uso do computador para que os alunos aprendam a distanciar-se do mundo virtual, permanecendo com uma visão real e objectiva do mundo em que se encontram, e a participar activamente na construção de uma sociedade humanizada e humanizante. 3.3 O uso da linguagem escrita: jornais e revistas Ao completarmos este percurso de análise dos meios de comunicação e a sua incidência na conduta dos alunos, não nos resta que apresentar uma outra linguagem dos mass média – “a linguagem escrita”. Embora saibamos que os estudantes devem labutar com os estudos através de livros e manuais, de acordo com as disciplinas escolares, o interesse de conhecer as atitudes dos adolescentes e jovens estudantes vai para uma outra direcção. Isto é, a utilização que fazem dos jornais e das revistas como uma das tantas modalidades de aquisição da cultura geral e para se sentirem actualizados ante aquilo que acontece no País e no mundo. Tab. 26 A frequência com que os alunos lêem jornais e revistas (em M: média ponderada: mínimo frequência = 1.00 e máximo = 3.00)*56 Faixa etária Total Sexo 11-14 15-16 17-21 M F Nunca 7,0 8,7 6,9 5,1 10,9 3,2 Às vezes 86,7 82,5 84,9 93,2 83,9 89,9 Todos os dias 5,9 8,5 7,7 1,7 4,9 6,7 Média Ponderada 1.99 2.00 2.01 1.97 1.94 2.04 A leitura que os alunos fazem dos jornais e das revistas não é uma condição sistemática. Dos que foram inqueridos, 7% admitem que Nunca leram esses meios de comunicação; a maioria dos alunos (86,7%), afirma que Às Vezes lê jornais e revistas. Apenas 5,9% dos estudantes lêem Todos os Dias revistas e jornais. Quanto a faixas etárias, destacamos os de 15-16 anos (M. 2.01) que fazem mais uso desses meios, se comparados com os de 11-14 anos (M. 2.00) e de 17-21 anos (M. 1.97). Apesar de não ser muito significativo, há diferença percentual entre os géneros: o sexo feminino (M.2.04) faz o uso mais do que o sexo masculino (M.1.94) (cf. Tab. 26). 56 * Média ponderada: os valores da M. em escala: 1 = Nunca; 2 =Às vezes; 3 = Todos os dias 491 A partir dos dados apontados, não é difícil deduzir que a maioria dos estudantes cabo-verdianos têm pouco hábito de leitura. Talvez seja essa a causa de pouca assimilação da língua portuguesa quer na escrita quer na oralidade da parte dos alunos. É preciso dar a conhecer aos alunos cabo-verdianos as causas da sua pouca assimilação da língua oficial de Cabo Verde e incentivá-los a superar as lacunas mediante o exercício de leitura e compreensão sistemática dos textos. Já que uma percentagem significativa dos alunos (60,3%), escolhe livremente os jornais e 38% não têm a liberdade de escolha, há que estimular neles o gosto pela leitura, através de reforços positivos, isto é, mediante concursos promocionais que têm uma forte repercussão social (fig. 29). Fig. 29: Alunos escolham livremente os jornais e revistas (em %) 2% 38% 60% SIM NÃO Não Resp Nessa escolha de jornais, há uma particularidade no que se refere aos alunos provenientes das Aldeias, isto é, 65,9% sentem-se mais livres na escolha do que os das Cidades (59%) e das Vilas (54,4%). Entretanto, a forma para incentivar a leitura entre os jovens depende dos seus interesses pessoais e os assuntos que mais condizem com as suas opiniões. Dos entrevistados, apuramos que 36,4% dos estudantes lêem notícias nacionais, 52,1% interessam-se pelas notícias do mundo, 9,4% pelas crónicas, 43% pelo desporto e 28,8% pela cultura. Há diferença de alguns interesses entre os estudantes segundo as faixas etárias e sexo. Antes de tudo, nota-se uma prevalência de interesses para as notícias do país (46,5%) entre os alunos da faixa de 17-21 anos, sobre a de 11-14 anos (26,5%) e de 15-16 (36%). Se para o desporto não há uma diferença significativa, o mesmo não acontece em relação à cultura. De facto, 40% dos da faixa de 17-21 anos se interessam pelos jornais na vertente cultural mais do que os da faixa de 11-14 anos (21%) e de 15-16 anos (26,3%). Além disso, notamos que há uma diferença substancial entre os géneros nalgumas preferências de leitura. Os alunos do sexo feminino (54,2%), interessam-se pelas notícias do mundo um pouco mais do que os rapazes (49,8%). E no que respeita ao desporto, 65,4% dos rapazes lêem muito mais os jornais 492 do que as meninas (21,9%). Ao passo que as meninas (34,5%), se interessam mais pela leitura de páginas ligadas à cultura do que os rapazes, 23,2% (cf. Tab. 27). Tab. 27: Interesses que levam os alunos a ler jornais e revistas (em %) Faixa etária Sexo Total 11-14 15-16 17-21 M F Notícias do país 36,4 26,5 36,0 46,5 35,2 37,5 Notícias do mundo 52,1 45,5 56,3 54,4 49,8 54,2 Crónicas 9,4 6,4 7,2 15,2 7,1 11,9 Desporto 43,0 42,0 42,9 44.2 65,4 21,9 Cultura 28,8 21,0 26,3 40,0 23,2 34,5 Outros 7,3 6,7 7,7 7,3 3,7 10,4 Não respondido 3,0 2,3 3,7 2,5 3,6 2,1 Os dados sobre os assuntos que interessam aos alunos, demonstram claramente o tipo de inclinação que eles têm. Conhecendo essas reais necessidades, torna-se mais fácil para as escolas e seus professores implementarem leituras e pesquisas dos temas ligados às tendências dos alunos, segundo as faixas etárias e sexos. 4. As sínteses conclusivas As análises e as interpretações dos dados sobre a dimensão moral dos alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde ajudaram a focalizar muitos aspectos que justificam, de certo modo, as diversas hipóteses apontadas. Assim, pensamos apresentar, resumidamente, as sínteses conclusivas deste capítulo. A maioria dos alunos tem a consciência da sua pertença religiosa, mas isso não é suficiente para o amadurecimento da sua fé. Os dados revelam que há uma necessidade profunda de educação e formação da fé cristã dos adolescentes estudantes do Ensino Secundário de Cabo Verde. Essa necessidade confirma as hipóteses de que a maioria dos crentes tem uma base de conhecimento religioso bastante limitado (cf. hipóteses particulares sobre o nível de formação moral, 4). Isso demonstra que a maioria dos alunos é crente mas não praticante. Se por um lado os alunos estão suficientemente informados sobre a importância dos valores para a sua vida, doutro lado, os dados reflectem uma profunda necessidade de interiorização desses valores, como critérios de orientação no seu modo de viver e relacionar com os outros. A falta de uma hierarquia de valores que oriente a existência humana, espiritual e 493 moral, quer individual, quer no seio da instituição educativa, é mais do que evidente (cf. hipóteses particulares sobre o nível de formação moral, 6). A consciência que os alunos têm do mal no mundo, que afecta a humanidade, demonstra a necessidade de uma maior formação sobre as suas causas e comprovam as hipóteses anteriormente levantadas (cf. nível de formação moral, 5). Não há dúvida que o mal é sempre fruto do pecado enquanto desobediência das leis contidas na natureza humana, no universo e, por conseguinte, do próprio Criador. A formação moral é um incentivo para a consciencialização da pessoa humana enquanto ser dotado de racionalidade, de liberdade e responsabilidade, e é capaz de ajudá-la a compreender e aceitar as leis de reciprocidade, reconhecendo o Ser Supremo como autor principal do equilíbrio, da harmonia existente entre todas as coisas visíveis e invisíveis. A evidência de alguns sentimentos emocionais ligados à vida sexual dos alunos adolescentes é um factor que deve preocupar quer os pais quer os professores. Essa preocupação confirma em parte a hipótese (3) presente no nível da formação moral, isto é, a urgência de uma educação à sexualidade. Emerge a necessidade de um acompanhamento psicopedagógico durante essa fase de crescimento e desabrochamento da vivência sexual – genital. Também, a forma como os alunos encaram a sua vida afectiva mostra, claramente, a deficiência que existe na relação afectiva familiar. De facto, a precariedade da situação familiar (instabilidade conjugal) afecta bastante os filhos (adolescentes estudantes) no seu relacionamento afectivo. Nota-se, nos dados, que há uma percentagem de estudantes que assume o namoro com pouca responsabilidade e sem nenhum compromisso para a vida futura. A forma como os estudantes adolescentes encaram a própria sexualidade (apenas o aspecto genital) demonstra que é urgente uma educação moral à volta da vida sexual na escola secundária que ponha equilíbrio a essa dimensão tão importante na identidade psico-sexual do ser humano e confirma as hipóteses na sua generalidade (3). Para além do acto imoral e irresponsável do sexo sem compromisso de vida pessoal e interpessoal, é importante que os alunos sejam educados a compreender que o desequilíbrio emocional é um factor que põe em risco a integração da sua personalidade e contribui para o pouco aproveitamento na aprendizagem. O facto de que uma percentagem consistente dos alunos faz da música uma exigência da qual não sabem como distanciar-se demonstra uma certa alienação que os leva para uma espécie de fuga da realidade, isto é, dos compromissos escolares, familiares e grupos. Aquilo que pode parecer um meio de diversão e manifestação de destreza, poderá converterse em outras formas de comportamentos que não ajudam os alunos no seu crescimento e na assimilação de valores e princípios normativos, e na aprendizagem da matéria escolar, sobretudo, quando, indo para a escola, estão permanentemente a ouvir música através do Walkman, 494 ou então nos intervalos das aulas. E mais, o uso que os alunos fazem da rádio para escutar música é mais elevado do que a utilização do mesmo instrumento para acompanhar programas informativos, culturais e educativos. Além da evasão da música, constatamos, também, o risco que os alunos correm, em termos de comportamentos e relações interpessoais ou familiares, no uso que fazem dos meios de comunicação de massa, especialmente, a televisão. Conforme as análises dos dados, é evidente que as hipóteses (a nível de formação moral, 1) preconcebidas sobre a utilização dos meios de comunicação de massa confirmam, em parte, esse desequilíbrio relacional no seio familiar, que causa um certo transtorno no cumprimento dos deveres escolares e demais compromissos.