CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DE MINAS GERAIS Mestrado em Estudos de Linguagens Camila Cristina Santos Gonzaga-Pontes AGUARDE MAIS INFORMAÇÕES: Uma análise da webnotícia com base na releitura da estrutura da notícia de Teun van Dijk Belo Horizonte (MG) 2012 Camila Cristina Santos Gonzaga-Pontes AGUARDE MAIS INFORMAÇÕES: Uma análise da webnotícia com base na releitura da estrutura da notícia de Teun van Dijk Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Estudos de Linguagens – POSLING – do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET-MG, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagens. Orientador(a): Prof(a). Dr(a). Ana Elisa Ferreira Ribeiro Belo Horizonte (MG) 2012 Camila Cristina Santos Gonzaga-Pontes AGUARDE MAIS INFORMAÇÕES: Uma análise da webnotícia com base na releitura da estrutura da notícia de Teun van Dijk Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Estudos de Linguagens – POSLING – do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEFET-MG, em 06 de agosto de 2012, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagens, aprovada pela Banca Examinadora constituída pelos professores: ____________________________________________________ Prof(a). Dr(a). Ana Elisa Ferreira Ribeiro - CEFET/MG – (Orientadora) ____________________________________________________ Prof(a). Dr(a). Juliana Alves Assis – PUC Minas ____________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Frederico de Brito D’Andrea – UFV ____________________________________________________ Prof( ). Dr(a). Maria Raquel de Andrade Bambirra – CEFET/MG (Suplente) a Avenida Amazonas, 5253 – Belo Horizonte, MG – 30.480-000 – Tel. (31) 3319-7139. Dedico este trabalho às “Pontes” da minha caminhada, meu amado Marido, a quem prometo mais tempo para um tempo sem fim. Também para minha orientadora, Mãe Ana Elisa, doutora do humor, da crença, do compromisso. AGRADECIMENTOS Agradeço, liricamente, à vida, por ser essa poesia de amor, essa paródia do impossível, essa sátira do ruim. À Prof(a). Dr(a). Ana Elisa Ferreira Ribeiro, orientadora no sentido mais estrito da palavra, pelo privilégio de ter alguém tão admirável assinando este trabalho comigo. Agradeço à minha família, especialmente, ao papai e à mamãe, por acreditarem e demonstrarem um orgulho ímpar por mim. Aos meus irmãos (Carol, Gabi, Cláudio, Helton e Vanessa) e sogros, pela parceria e pelo incentivo, cada um ao seu modo e ao seu tempo. Ao afilhado Caíque, ao sobrinho João, aos cunhados, padrinhos e amigos, por me terem feito saber e lembrar de que é possível se divertir durante uma especial empreitada de compromisso. À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior), pela bolsa concedida nos últimos meses, sem a qual não seria possível a minha dedicação total ao presente trabalho. Aos colegas de turma, por dividirem as mesmas aflições, dúvidas e anseios. Ao jornalista Luiz Fernando Rocha, pela rica entrevista concedida sobre o portal O TEMPO Online. Ao Paulo Pontes, marido, melhor amigo, conselheiro, crente em mim. Em muitos momentos pensei não ter saída e ele foi a ponte para eu descobrir que do outro lado ainda tinha como continuar. A Deus, por me conceder sabedoria e me conduzir até aqui. Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. Fernanda Pessoa RESUMO Com a disponibilidade de atualização de conteúdos e outros recursos da web, novos desafios foram postos para a produção jornalística. Dentre eles, selecionamos analisar a influência da web no modo de organização global do discurso da notícia factual. A pesquisa foi conduzida à luz da linguística, sob os critérios fundamentados por van Dijk, que estudou a estrutura (temas e esquemas) da notícia impressa. O objeto de estudo foi selecionado a partir da seção “Últimas Notícias” de dois sites webjornais mineiros, compondo o corpus de webnotícias que foi analisado conforme o objetivo de encontrar uma estrutura característica desse produto. Segundo os resultados obtidos, concluímos que ainda não há uma estrutura própria da notícia na web. Além disso, a análise nos permitiu apontar a fragilidade da dinâmica de atualização e suas possíveis consequências. A pesquisa se estende a uma proposta que visa contribuir para o fortalecimento da relação de credibilidade webjornalismo – leitor. Palavras-chave: webnotícia; estrutura global da notícia; temas e esquemas da webnotícia; notícia na web; atualização de conteúdos. ABSTRACT With the availability of updated content and other web resources, new challenges were put to the journalistic production. Among them, we selected to analyze the influence of the web in the way of the overall organization of factual discourse of news. The survey was conducted in light of the language, based on the criteria by van Dijk, who studied the structure (themes and schemata) of printed news. The object of study was selected from the section "Últimas Notícias" of two sites webnews of Minas Gerais, constituting the corpus of webnews it was analyzed according to the goal of finding a structure characteristic of this product. According to the results, we conclude that there is still no proper structure of the news on the web. Moreover, the analysis allowed us to point out the fragility of the dynamic update and its possible consequences. The research extends to a proposal to contribute to the strengthening of the credibility webjournalism - reader. Keywords: webnews; overall structure of the news, themes and schemes webnews; news on the web, update contents. 14 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 FIGURA 2 FIGURA 3 FIGURA 4 FIGURA 5 FIGURA 6 FIGURA 7 FIGURA 8 FIGURA 9 FIGURA 10 FIGURA 11 FIGURA 12 FIGURA 13 FIGURA 14 FIGURA 15 FIGURA 16 FIGURA 17 FIGURA 18 FIGURA 19 FIGURA 20 FIGURA 21 FIGURA 22 FIGURA 23 FIGURA 24 FIGURA 25 FIGURA 26 FIGURA 27 FIGURA 28 FIGURA 29 FIGURA 30 FIGURA 31 FIGURA 32 FIGURA 33 FIGURA 34 FIGURA 35 - Diagrama representativo da estrutura temática de uma notícia. . . . . . . Diagrama representativo da estrutura esquemática da notícia. . . . . . . . Modelo representativo News Diamond . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1: Publicação da webnotícia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1: versão 3 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1: versão 4 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1a: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1a: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 1a: versão 3 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 2: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 2: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 2a: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3: versão 3 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3: versão 4 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3: versão 5 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3a: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 3a: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 4: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 4: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 4a: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 4a: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 4a: versão 3 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 3 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 4 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 5 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 6 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 7 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 8 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5: versão 9 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Caso 5a: publicação da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 45 61 73 74 75 76 81 82 82 84 85 87 89 90 91 92 93 98 99 102 102 105 106 107 109 109 109 110 110 111 111 112 112 116 15 FIGURA 36 FIGURA 37 - Caso 5a: versão 2 da webnotícia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - Correção de notícias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 126 16 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - Representação da constituição do corpus em uma semana . . . . . . . . 69 QUADRO 2 - Elementos de referência para a análise. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 QUADRO 3 - Estrutura Global da webnotícia (caso 1, versão 4). . . . . . . . . . . . . . . 77 QUADRO 4 - Estrutura Global da webnotícia (caso 1a, versão 3). . . . . . . . . . . . . . 83 QUADRO 5 - Estrutura Global da webnotícia (caso 2, versão 2). . . . . . . . . . . . . . . 85 QUADRO 6 - Estrutura Global da webnotícia (caso 2a). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 QUADRO 7 - Estrutura Global da webnotícia (caso 3, versão 5). . . . . . . . . . . . . . . 94 QUADRO 8 - Estrutura Global da webnotícia (caso 3a, versão 2). . . . . . . . . . . . . . 100 QUADRO 9 - Estrutura Global da webnotícia (caso 4, versão 2). . . . . . . . . . . . . . . 103 QUADRO 10 - Estrutura Global da webnotícia (caso 4a, versão 3). . . . . . . . . . . . . . 107 QUADRO 11 - Estrutura Global da webnotícia (caso 5, versão 9). . . . . . . . . . . . . . . 113 QUADRO 12 - Estrutura Global da webnotícia (caso 5a, versão 2). . . . . . . . . . . . . . 118 17 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................... 19 1.1 O jornalismo ............................................................................................................... 22 1.2 A notícia ..................................................................................................................... 24 1.3 Consolidando e justificando o objetivo ....................................................................... 27 1.4 Perguntas e Hipóteses ................................................................................................. 28 1.5 Desenvolvimento da pesquisa ..................................................................................... 29 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ................................................................................... 31 2.1 Pressupostos Teóricos: o autor e sua obra ................................................................... 31 2.1.1 Aprofundando o modelo cognitivo ....................................................................... 34 2.1.2 Introduzindo os estudos sobre jornais ................................................................... 38 2.1.2.1 Estruturas temáticas no discurso da notícia (macrossemântica) ......................34 2.1.2.2 Estruturas esquemáticas no discurso da notícia (macrossintaxe) ....................38 2.1.3 Contexto líquido ................................................................................................... 49 3 SOBRE NOTÍCIA E JORNALISMO NA WEB ....................................................... 51 3.1 Webjornalismo: muito a discutir, pouco a concluir ...................................................... 51 3.2 Entre benefícios e adaptações ..................................................................................... 55 3.3 Novas possibilidades com desafios profissionais ......................................................... 56 3.4 Responsabilidade enquanto webnotícia ....................................................................... 59 3.5 Redigindo webnotícias ................................................................................................ 60 3.6 Re(configurando) a (web)notícia ................................................................................. 62 3.7 Construções textuais no webjornalismo ...................................................................... 64 4 METODOLOGIA ....................................................................................................... 66 4.1 Procedimentos de coleta dos dados ............................................................................. 67 4.2 O cenário do corpus .................................................................................................... 70 4.3 Procedimentos de análise ............................................................................................ 71 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS......................................................... 72 5.1 Considerações analíticas ........................................................................................... 119 5.2 Resultados e Discussão ............................................................................................. 121 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 124 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 127 18 1 INTRODUÇÃO “Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo.” (José Saramago, em entrevista ao jornal O Globo, em julho de 2009). Ser apresentada à internet foi, indiscutivelmente, um desafio para a humanidade. A epígrafe acima não objetiva adotar uma perspectiva negativa para o trabalho que se segue, quer, na verdade, dar um tom concreto ao campo de observação desta pesquisa. Novidades, aceleração do tempo, encurtamento das distâncias, tudo parece ser melhor, ou nunca antes visto; tudo nos vem como novo e, agora, possível. Perceber as mudanças que a web trouxe para o cotidiano é inevitável. Já não se trocam recados, não se usam os serviços de um banco, não se faz compra, nem se estuda como há 20 anos. E, também, já não somos informados sobre esse cotidiano como antes. A notícia jornalística não é mais a mesma. Será? O que chamamos de diferente? O meio em que a recebemos? A forma? A periodicidade? Começamos, então, a constituir nosso objeto de estudo: informar-se na web, o jornalismo na internet, mais especificamente, a notícia na web. Para o tradicional leitor de jornal impresso, aquele que o esperava ser entregue logo pela manhã, lia-o com uma xícara de café quente, ainda de pijama e, então, seguia o dia com a sensação de estar informado sobre tudo o que poderia influenciar o seu cotidiano, seja bem-vindo, a mudança, realmente, já chegou. Não sabemos exatamente se em tempo e/ou espaço, em conteúdo e/ou qualidade, o que podemos afirmar é que temos um novo contexto, proporcionado pela web, em que a cobertura factual ganha outra abordagem, mais possível, movendo um jornalismo dado a informar o que acabou de acontecer. E o que queremos saber é como esse contexto influencia na estrutura da notícia na internet, ou seja, no modo de produzir uma notícia e de se informar por ela1. 1 Gostaríamos que você, leitor desta introdução, imaginasse-se frente ao recurso F5 do seu teclado e em uma página da web, acionasse-o e lesse novamente esse conteúdo. Ele foi atualizado. O rodapé da página seguinte traz informações sobre essa mudança e a seguir explicaremos por que fizemos essa opção. 19 1 INTRODUÇÃO “Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo.” (José Saramago, em entrevista ao jornal O Globo, em julho de 2009). Ser apresentada à internet foi, indiscutivelmente, um desafio para a humanidade. A epígrafe acima não objetiva adotar uma perspectiva negativa para o trabalho que se segue, quer, na verdade, dar um tom concreto ao campo de observação desta pesquisa. Novidades, aceleração do tempo, encurtamento das distâncias, tudo parece ser melhor, ou nunca antes visto; tudo nos vem como novo e, agora, possível. Perceber as mudanças que a web trouxe para o cotidiano é inevitável. Já não se trocam recados, não se usam os serviços de um banco, não se faz compra, nem se estuda como há 20 anos. E, também, já não somos informados sobre esse cotidiano como antes. A notícia jornalística não é mais a mesma. Será? O que chamamos de diferente? O meio em que a recebemos? A forma? A periodicidade? Começamos, então, a constituir nosso objeto de estudo: informar-se na internet, o jornalismo na web, mais especificamente, a notícia na web. Para o tradicional leitor de jornal impresso, aquele que o esperava ser entregue logo pela manhã, lia-o com uma xícara de café quente, ainda de pijama e, então, seguia o dia com a sensação de estar informado sobre tudo o que poderia influenciar o seu cotidiano, seja bem-vindo, a mudança, realmente, já chegou. Não sabemos exatamente se em tempo e/ou espaço, em conteúdo e/ou qualidade, o que podemos afirmar é que temos um novo contexto, proporcionado pela internet, em que a cobertura factual ganha outra abordagem, mais possível, movendo um jornalismo dado a informar o que acabou de acontecer. E o que queremos saber é como esse contexto influencia na estrutura da notícia na web, ou seja, no modo de produzir uma notícia e de se informar por ela2. 2 Observe que a primeira versão desta Introdução foi escrita como se web e internet fossem palavras sinônimas, mas não são. De acordo com Fragoso, Recuero e Amaral (2011), a web é um subconjunto das informações disponíveis na internet, organizadas por documentos interligados por hiperlinks e acessíveis por softwares específicos. A web está dentro da internet, é sustentada por ela, mas não é ela. Nosso foco são os webjornais e eles estão em páginas da web. 20 A opção por introduzir este trabalho simulando o recurso de atualização de uma página web tem várias justificativas. Entre elas, a que motivou esta pesquisa. A representação anterior é o que encontramos, recorrentemente, nos webjornais, notícias publicadas sem apurações completas e/ou seguras dos dados e que depois podem ser agregadas e/ou “consertadas”, atualizadas. Essa é uma inferência proveniente de experiências profissionais 3. As primeiras observações partiram de episódios já inseridos em uma rotina de trabalho jornalístico, mas ainda despercebidas ou não problematizadas. O que gostaríamos de destacar nesse processo é esse “primeiro” olhar desprovido de questionamentos acadêmicos, empírico, no sentido mais estrito da palavra. A curiosidade estava em se deparar com uma notícia factual em metamorfose, construída enquanto divulgada, com uma estrutura sem um desenho final, uma atuação fora do que nos parecia familiar. A indagação, que ainda ecoa, era: que notícia é essa, que se completa, que pode recomeçar, consertar, atualizar? Ela é estruturada, é equivalente às demais escritas em outros suportes, ou estamos diante de uma nova estrutura da notícia? 4 Uma apurada busca pela literatura nos levou ao linguista Teun A. van Dijk e a suas pesquisas sobre a estrutura do discurso da notícia impressa. O autor desenvolveu um modelo de notícia sob o enquadramento estrutural (temático e esquemático) e que elegemos como base teórica para o estudo da estrutura da notícia na web, em um contexto de mudanças advindas da internet. Trata-se, então, de uma releitura da teoria de van Dijk, avaliando se ela pode ou não ser identificada na webnotícia. É possível perceber a justificativa para este estudo, mesmo que implicitamente, nas linhas anteriores, mas para fomentá-la vamos estabelecer o que significa o jornalismo para a sociedade e o que é a notícia. 3 Camila Gonzaga-Pontes, autora da dissertação, é jornalista, formada desde 2008, atuou como produtora em jornal impresso, rádio e TV universitária; trabalhou quatro anos na TV Alterosa – SBT, onde desenvolveu, entre outras atividades, apuração de factuais. 4 Apoiamo-nos mais uma vez nas pesquisas de Fragoso, Recuero e Amaral (2011), para esclarecer que não tratamos a internet como um mundo à parte, como se as coisas acontecessem separadas dentro e fora dela. 21 1.1 O jornalismo Depois de alguns anos de pesquisas em jornalismo, pudemos concluir que ele não tem uma definição autossuficiente. Parece-nos necessária uma associação de definições. Genericamente, entendemos o jornalismo como um meio de informação, “(...) uma forma de conhecimento social, que constrói diariamente o mundo que nos cerca” (TUCHMAN, 1983, p.197). Para Bucci (2000) o jornalismo é o discurso que se destina ao atendimento do direito à informação e, não por acaso, a ideia de imprensa5 nasce vinculada à ideia de democracia. Kovach e Rosenstiel (2004) designam como finalidade do jornalismo oferecer a dose de informação de que precisam os cidadãos para ser livres e se autogovernarem. Para evitar um lirismo exacerbado, já que certa dose de utopia é própria dos anseios jornalísticos, apoiamo-nos no que Charaudeau (2006) descreveu como a lógica das mídias, na qual se instalam os jornais: econômica (faz viver a empresa), tecnológica (qualidade e quantidade de difusão), simbólica (servir à democracia cidadã). Focando a prática jornalística, Traquina (2005) caracteriza um profissional que anseia apreender o momento, um acontecimento, captar a história, o seu presente. Para atingir esse objetivo, ele interpreta ações através da seleção de relevâncias, construindo algo mais contundente do que comentários, por exemplo. Nas palavras de Traquina, “(...) uma profissão de enorme responsabilidade social” (TRAQUINA, 2005, p.31). Uma das teorias que explica o processo de produção desse trabalho é a do newsmaking6. Um estudo que aponta a sistematização da rotina produtiva jornalística, com divisão de tarefas, aplicação de valores-notícia, seguindo critérios de importância e noticiabilidade. Tuchman, citado por Wolf (1995), designa três exigências mínimas desse processo jornalístico: a) tornar possível o reconhecimento de um fato desconhecido; b) elaborar formas de relatar os acontecimentos; c) organizar o trabalho, temporal e espacialmente, de modo que os acontecimentos noticiáveis possam convergir e ser trabalhados de forma planificada. Essa rotina sustenta o objetivo jornalístico de informar, e informar, nesse contexto, de acordo com Rodrigues (1997), faz parte da transmissão de experiência em que o destinatário não teve acesso direto e imediato ao fato. Charaudeau (2006) designa a informação como o 5 Imprensa engloba os veículos de comunicação que exercem jornalismo e outras funções de comunicação informativa (ABREU, 2002). 6 Estudos de comunicação acerca da produção de informação (sociologia dos emissores), Wolf (1995). 22 que “(...) constrói saber e, como todo saber, depende ao mesmo tempo do campo de conhecimentos que o circunscreve, da situação de enunciação na qual se insere e do dispositivo no qual é posta em funcionamento” (CHARAUDEAU, 2006, p. 36). Na prática, o jornalista apura os fatos de um acontecimento, estrutura uma notícia a partir de estratégias discursivas para, então, levá-la aos receptores. Esse processo precisa ter validade, sustenta-se na credibilidade, “(...) isto é, aquilo que determina o ‘direito à palavra’ dos seres que comunicam, e as condições de validade da palavra emitida” (CHARAUDEAU, 2006, p.49). Serra (2006) relaciona a credibilidade à confiabilidade das fontes, à confirmação dos fatos, à construção de um discurso objetivo associado aos deveres e às regras dos jornalistas e das instituições jornalísticas. Essa situação de confiança estabelece-se dentro de um campo de referências, de cointencionalidade, o qual Charaudeau (2006) nomeia de contrato de comunicação. É uma situação de comunicação (que considera as características dos seus componentes), em que o jornalista reconhece as suas restrições e supõe um destinatário também com a capacidade de reconhecer essas mesmas restrições. Trata-se de um acordo prévio sobre os dados de referência, garantido nessas restrições e que sem o seu reconhecimento não haveria possibilidade de intercompreensão. O jornalista é o produtor dessa situação de comunicação, ele tem uma intenção e, a partir dela e da consideração do seu público, opta por uma visada discursiva. Charaudeau (2006) a chama de “visada de ‘informação’: eu quer “fazer saber”, e ele está legitimado em sua posição de saber; tu se encontra na posição de “dever saber” alguma coisa sobre a existência dos fatos, ou sobre o por que ou o como de seu surgimento.” (CHARAUDEAU, 2004, s/p.). Articulamos até aqui o que consideramos pontual sobre jornalismo para esta dissertação. É-nos ainda fundamental estabelecer o produto jornalístico notícia, a ser desenvolvido a seguir. 23 1.2 A notícia A notícia7 é um produto do jornalismo. Basicamente, é o relato de um acontecimento. Acontecer, de acordo com Sodré e Paiva (2005), é romper com a rotina cotidiana, sair da previsibilidade, uma ruptura em âmbito privado ou público. O acontecimento é um fenômeno de ordem hermenêutica, pede para ser compreendido e é chave para a compreensão, ele é o que ele se torna (QUÉRÉ, 2005). Para Sousa (2002) o conceito de notícia tem uma dimensão tática (gênero) e outra estratégica. Então, vamos desenvolver sua definição a partir dessa orientação. De acordo com Bonini (2003), a notícia é concebida como gênero 8, pois formata uma ação de linguagem, cujo propósito é comunicar a ocorrência de um fato. A dimensão estratégica está na produção das notícias, já que, segundo Traquina (1993), elas não podem ser vistas como emergindo naturalmente dos acontecimentos do mundo real. A notícia é resultado de um processo de produção, desenvolvido na: percepção, seleção e transformação de uma matéria-prima (os acontecimentos) num produto (as notícias). Além de não ser apenas uma emergência de fatos, a notícia não relata o real sem partir de um ponto de vista. Um acontecimento não diz nada, não é nada, ele passa a ter significado enquanto discurso, quando é construído, no caso por um jornalista, considerando os valores de determinado grupo social (CHARAUDEAU, 2004). Assim, os leitores recebem as notícias como um índice do real, acreditando que os jornalistas não a emitem sob um caráter ficcional (TRAQUINA, 1993). Evidentemente, os jornais não conseguem relatar todos os fatos imprevisíveis no cotidiano, por isso foram convencionados filtros para os acontecimentos se tornarem notícia, os critérios de noticialidade. A noticiabilidade é “(...) o conjunto de requisitos que se exige dos acontecimentos – do ponto de vista da estrutura do trabalho nos órgãos de informação e 7 Nosso objetivo aqui não é problematizar teorias da notícia, objetivamos conceituar notícia, um esclarecimento para subsidiar nossa análise. 8 Gênero, segundo Bonini (2011), é a unidade da interação linguageira que se caracteriza por uma organização composicional, um modo característico de recepção e um modo característico de produção. Pode ser de natureza verbal, imagética, gestual, etc. O autor destaca a dificuldade de definição de um gênero textual e ressalta que, no jornalismo, por exemplo, a notícia é comumente confundida com a reportagem. (Adotamos essa definição visto que Bonini vem desenvolvendo diversas pesquisas envolvendo jornalismo e gênero. Nosso objetivo não é aprofundar na discussão sobre gênero). 24 do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas – para adquirirem a existência pública de notícias” (WOLF, 1995, p. 168). Wolf (1995) acrescenta ainda que a noticiabilidade é todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo de produção da notícia. Ela é composta também por valores-notícias, que são os atributos dos acontecimentos, o que os valoriza enquanto potenciais notícias. Vejamos alguns exemplos: a novidade, a imprevisibilidade, o peso social dos personagens implicados, a quantidade de pessoas e lugares envolvidos, o provável impacto sobre o público-leitor e as perspectivas de evolução do acontecimento. Uma vez selecionados os acontecimento noticiáveis, é tarefa jornalística aproximar ao máximo o instante do seu surgimento ao instante do seu consumo (CHARAUDEAU, 2004). Quanto a essa atividade, é preciso considerar as possibilidades de cada suporte jornalístico – impresso, rádio, TV, internet – pois cada qual vai atender a demanda de cobertura factual em função dos seus meios técnicos. Charaudeau (2004) considera que todos eles estão em busca da notícia enquanto atualidade, mas cada um em seu possível. O autor entende a atualidade como o que se passa neste momento, sendo fundamental no contrato midiático. Inclusive, é uma das mais importantes influências nas escolhas temáticas. A notícia se faz sob uma forte carga de inesperado. O tempo só se impõe ao homem através do filtro de seu imaginário e, para as mídias, através do imaginário da urgência. Urgência na transmissão da informação que faz com que, uma vez concluído o ato, produz-se um vazio que deve ser preenchido o mais rapidamente possível por uma outra urgência; assim, de vazios em urgências constrói-se atualidade com uma sucessão de notícias novas, num avançar sem fim, e mesmo por antecipação” (CHARAUDEAU, 2004, p.134). Foi também a pressão sobre o tempo uma das responsáveis pelo desenvolvimento da técnica de redação mais usada no jornalismo, a pirâmide invertida. Fontcuberta (1993) a define como uma prática que se resume em hierarquizar os dados por importância, 25 respondendo às perguntas do lead9, seguidas dos demais dados, sempre hierarquicamente, pela relevância. A técnica está em prática há mais de 100 anos e seu surgimento é atribuído à necessidade do envio, por telégrafo, de informações rápidas e precisas durante a Guerra de Secessão norte-americana. De acordo com Genro Filho (1987), a técnica chegou ao Brasil em 1950. A adesão à pirâmide invertida está associada ainda à busca pela objetividade no discurso jornalístico. Propõe-se um texto em que se priorizam importâncias. A analogia a uma pirâmide invertida é porque, ao contrário das pirâmides físicas, o mais importante estaria no alto, ou seja, no início do texto. Há ainda supostas vantagens, como a de um texto mais fácil de ler, reconhecível, além de facilitador da edição (CAMPOS, 2003). É importante ressaltar que a objetividade é um anseio do discurso jornalístico, isso não quer dizer que seja alcançada. Genro Filho (1987) explica o motivo. O autor considera que a objetividade é impossível; interpretar, ser subjetivo, é próprio da comunicação humana. Mas, o fato de tentar ser objetivo, em um contexto em que se assume a impossibilidade de objetividade dos discursos, é uma vantagem da notícia. Enfim, dois importantes conceitos resumem nosso entendimento do que é notícia, o primeiro está, literalmente, nas palavras de Sousa. A notícia é um artefacto linguístico porque é uma construção humana baseada na linguagem, seja ela verbal ou de outra natureza (como a linguagem das imagens). A notícia nasce da interacção entre a realidade perceptível, os sentidos que permitem ao ser humano ‘apropriar-se’ da realidade, a mente que se esforça por apreender e compreender essa realidade e as linguagens que alicerçam e traduzem esse esforço cognoscitivo. (SOUSA, 2002, p.3). E ainda o conceito de Charaudeau (2004), que propõe chamar de notícia o conjunto de informações que se relaciona a um mesmo espaço temático (está no domínio do espaço público), tendo um caráter de novidade (novos elementos, o que proporciona pelo menos um 9 O lead assume, normalmente, o primeiro parágrafo do texto jornalístico, contendo as respostas às seis perguntas consideradas básicas sobre o acontecimento: o que, quem, quando, onde, como e por que? Deve ser um resumo conciso das principais e mais recentes informações (BAHIA,1990). 26 caráter do novo), proveniente de determinada fonte (onde a credibilidade está posta) e podendo ser diversamente tratado. 1.3 Consolidando e justificando o objetivo Empregamos nossa justificativa na responsabilidade social do jornalismo, independentemente do meio ou da influência tecnológica sobre ele, em relatar fatos do cotidiano que influenciam diretamente a vida social. E ainda, e principalmente, considerando a notícia um gênero e, também, um produto textual10 que responde às demandas do seu tempo, acreditamos ser essencial conhecer a notícia, estruturalmente, em um novo contexto, o digital. No capítulo a seguir, veremos que já se passou mais de uma década do início dos estudos brasileiros sobre o webjornalismo. Com algumas temáticas saturadas, outras superficialmente abordadas, mas pelo desenvolvimento das discussões, parece-nos ter havido uma apropriação notável das novas tecnologias sobre os modos de fazer notícia e jornalismo. Diante desse quadro, uma teoria da estrutura da notícia, tal como a de van Dijk, que discutiremos a seguir, merece ser relida e reposicionada, conforme as conclusões que se possa tirar de uma espécie de “aplicação” à prática na criação do texto da webnotícia. Partiremos, então, das considerações do linguista sobre a estrutura da notícia impressa para analisar um corpus de webnotícias e comparar à descrição que se poderia encontrar hoje para a composição de webnotícias. Fica assim estabelecido o nosso objetivo principal: identificar quais influências o contexto, configurado pela produção na web, pode exercer sobre a estrutura global da notícia (temas e esquemas, segundo van Dijk), que justifique sua renomeação como webnotícia. 10 Aqui estamos entendendo que, com o advento da informática, de acordo com Coscarelli, “(...) o conceito de texto parece continuar o mesmo, uma vez que pode tomar infinitas formas para continuar sempre sendo um mecanismo de interação” (COSCARELLI, 2002, p.68). 27 1.4 Perguntas e Hipóteses Alguns questionamentos e suas hipotéticas respostas são essenciais norteadores para esta dissertação. Eles são fomentados sob o problema de uma estrutura de organização textual que dê conta do dinamismo da web. Vejamos: 1) A notícia, a qual consideramos gênero jornalístico e modelo de compreensão consolidado, muda sua estrutura textual em função de um novo suporte? Essa pergunta torna-se mais expressiva se consideramos que na base principal de comunicação dos meios impresso e on-line11 encontramos a escrita. Quando os outros suportes chegaram, rádio e TV trouxeram imagem e áudio, respectivamente, como pontos-chave e, então, adaptaram modelos de notícia sob essa justificativa. Claro, presumimos que tenha havido uma mudança qualitativa na composição desse gênero de texto, resultado de um cenário em que, provavelmente, ocorrem também mudanças nos expedientes de publicação e de produção da notícia. Supomos que o jornalismo ainda está se apropriando das possibilidades do ambiente digital e que, portanto, a estrutura textual da webnotícia ainda não tenha encontrado o seu formato, tendo, por exemplo, que se apropriar do modelo de compreensão que se estabeleceu ainda na notícia impressa. 2) A web, caracterizada pelo dinamismo, com constante atualização de conteúdos, “espera” que suas composições textuais sejam enquadradas em um modelo, uma estrutura recorrente de apresentação dos textos, no caso, de webnotícias? Veremos, no desenvolvimento desta dissertação, que as notícias na web são caracterizadas, entre outras, pela possibilidade da cobertura instantânea dos acontecimentos. Nas linhas anteriores, discutimos que o “acabou de acontecer” é um anseio jornalístico, ou seja, a web atenderia à demanda de encurtar a distância entre o acontecimento e a recepção da notícia. Supomos, relativizando o cenário de publicações fragmentadas, notícias divulgadas enquanto apuradas, que, mais do que nunca, as notícias precisam de estruturas que as façam inteligíveis. Isso não quer dizer que elas são exatamente como as impressas, mas que se estabelecem em prol do que é webnotícia. 11 É uma hipermídia, tem também imagem, vídeos, som, entre outros, mas a webnotícia é composta majoritariamente pela escrita. 28 3) O que, nesse cenário, posto pelas características da web, impõe a necessidade de uma nova estrutura global para a notícia? Parece-nos indiscutível que novas possibilidades tecnológicas enriquecem o horizonte da comunicação. Julgamos que notícias parciais demandam estruturas parciais, que deem conta de atualizar conteúdos sem perder características essenciais à informação, uma customização de informação para o leitor. Discutir a possibilidade de uma nova estrutura global para a notícia implica discussões acerca, por exemplo, da credibilidade, de possíveis mudanças na noticiabilidade, da nãolinearidade da notícia (por meio de links), da relação entre tempo e espaço, entre outras. Essas implicações e os objetivos desta dissertação serão desenvolvidos nos capítulos estruturados conforme explicaremos a seguir. 1.5 Desenvolvimento da pesquisa Este estudo se organiza em seis capítulos, todos em uma estrutura que visa a sustentar, fomentar, selecionar, analisar, inferir, assegurar subsídios para alcançarmos o objetivo da pesquisa. Nossa revisão bibliográfica se divide em dois tópicos: revisão da literatura e fundamentação teórica. A revisão da literatura mapeia o cenário atual das pesquisas em webjornalismo e webnotícia, como elas têm abordado o tema e evoluído na discussão sobre o assunto. A fundamentação se dedica a explicar os conceitos chaves para a análise. A partir dos estudos de van Dijk sobre a estrutura global da notícia impressa, selecionamos referências que fomentam esta pesquisa. O capítulo contribui para entendermos e identificarmos a organização temática e esquemática de um discurso noticioso. O método, ou o caminho para se alcançar nosso objetivo, compõe o capítulo 4, que contempla uma combinação de estratégias para o desenvolvimento metodológico do trabalho. Indicamos o modo para a coleta e a análise das webnotícias, bem como os procedimentos analíticos que explicitam o foco do estudo. 29 Depois de selecionadas, as webnotícias são apresentadas e analisadas em um capítulo específico. O corpus é devidamente identificado e parte dele posto em quadros de referência para a análise global da webnotícia. Ainda na análise, resgatamos os conceitos trabalhados na revisão bibliográfica, fundamentais para se alcançar os objetivos. A conclusão traz considerações consequentes de todas as etapas seguidas e descritas anteriormente. Além de indicar estudos futuros, propõe uma opção para promover a credibilidade jornalística na web. 30 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Neste capítulo, apresentamos os pressupostos teóricos que definem os conceitos fundamentais relacionados a esta pesquisa. É ele que vai subsidiar nossa análise de dados e dar firmeza aos nossos resultados. Propomos uma releitura dos estudos sobre a estrutura da notícia (impressa) de Teun A. van Dijk. O intento é resgatar o convencional como parâmetro de análise para o novo (notícia na web). Além disso, em um segundo momento dessa fundamentação, faremos um panorama sobre o contexto que envolve o discurso noticioso na web. 2.1 Pressupostos Teóricos: o autor e sua obra Já mencionamos que a base teórica deste estudo é formulada segundo as pesquisas de Teun A. van Dijk. O teórico é holandês, formado em Línguas e Literatura Francesa e Teoria da Literatura. É doutor em Linguística, desde 1972, quando defendeu a Gramática Gerativa do Texto. Desenvolveu importantes pesquisas nas áreas de linguística textual, análise e análise crítica do discurso. As pesquisas sobre a gramática textual intentaram proporcionar uma descrição explícita das estruturas gramaticais dos textos. Foi desses estudos que emergiu o conceito de macroestrutura. O fundamento da macroestrutura indica que os textos não têm uma relação apenas pontual, relacionando frases em sequência, mas, também, uma relação em âmbito mais geral, ou seja, estruturas gerais definindo coerência e organizações globais. As macroestruturas foram dividas em dois tipos: estrutura global do significado e estrutura global da forma do discurso (VAN DIJK, 2006). Porém, percebendo a resistência de outros teóricos (linguistas) à proposta da macroestrutura, van Dijk procurou apoio na psicologia para sustentá-la. Foi quando começou seus trabalhos com Walter Kintsch, um psicólogo americano de origem austríaca, de quem van Dijk já havia usado referências em suas pesquisas. Com Kintsch, van Dijk desenvolveu, entre outras, a pesquisa sobre a psicologia do processamento do texto, quando indicaram que as relações referenciais se apoiam em modelos mentais. Desencadeia-se assim a noção de que os usuários da língua não constroem simplesmente uma representação semântica do texto em 31 sua memória, mas, também, uma representação do evento, da situação do texto, ou seja, um modelo de situação. Dessa parceria com Kintsch, derivaram trabalhos tanto em linguística quanto em psicologia da leitura, tais como o de 198312 e o de 198513, que se tornaram verdadeiras referências para os estudos da leitura e da produção escrita. Na obra de 1985 (reeditada e traduzida em 2004 no Brasil), van Dijk trata da notícia impressa no seu âmbito global, aplicando conceitos como os de micro e macroestrutura. Mas antes de detalhar esse estudo, a ser usado como parâmetro em nossa análise, propomos conhecer o contexto histórico em que emergiu esse arcabouço teórico. Apoiando-nos na contextualização dos estudos em linguística textual14 organizada por van Dijk (1996), identificamos que até a década de 1970 havia raras problematizações que considerassem os textos além dos limites da sentença. Também nessa década reconheceu-se o uso da língua como objeto empírico das teorias linguísticas, o que trouxe relevância ao estudo do discurso, que, em seu desenvolvimento, foi se configurando interdisciplinar. Esse caráter interdisciplinar (com relações entre linguística e psicologia, linguística e microssociologia, psicologia e etnografia) associado ao interesse pela memória representam os primeiros passos em direção a um modelo cognitivo 15 de compreensão do discurso. Van Dijk e Kintsch investiram em uma série evolutiva de estudos sobre esse modelo, sendo que o mais recente aparece como melhoramento de outros passados e abre portas para futuros. A proposta a ser observada aqui tem abordagem estratégica e consiste em um modelo mais dinâmico, de base processual e “on-line” (simultâneo). Alguns pressupostos (teóricos e contextuais) são fundamentais para o entendimento do modelo. O pressuposto construtivista dá conta da representação mental construída frente a um evento. Ela pode ser visual, testemunhal ou uma versão linguística, uma história sobre o evento. Voltando-se ao aspecto semântico do discurso, aos significados construídos a partir 12 VAN DIJK, T.; KINTSCH, W. Strategies of discourse comprehension. New York: Academic Press, 1983. VAN DIJK, T. A. Structures of news in the press. In: VAN DIJK, T. A. (Ed.) Discourse and Communication. Berlin: de Gruyter, 1985. p. 69-93. 14 Resumidamente, a Linguística Textual considera o texto como uma unidade básica de manifestação da linguagem (KOCH, 2004). 15 A orientação cognitiva nos estudos do texto emerge na década de 1980, a partir da conscientização de que todo fazer sempre é acompanhado de processos de ordem cognitiva, constatou-se que quem age precisa de modelos mentais de operações e tipos de operações referenciais (KOCH, 2004). 13 32 dos acontecimentos, temos o pressuposto interpretativo. Há ainda o pressuposto on-line, configurado pela compreensão simultânea ao processamento das informações, ou seja, há uma atribuição de significado sem processar e armazenar as informações dos acontecimentos. A compreensão está diretamente relacionada à capacidade de se construir uma representação mental, e construir essa representação só é possível a partir de um conhecimento mais geral a respeito do acontecimento em questão. “Compreender envolve não somente o processamento e interpretação de informações exteriores, mas também a ativação e uso de informações internas e cognitivas” (VAN DIJK, 1996, p.15). Nesse pressuposto está ancorada a conjetura pressuposicional do modelo. Como destacado acima e sem desconsiderar os pressupostos já apresentados, a base do modelo de van Dijk e Kintsch tem expressivo apoio no pressuposto estratégico, quando a representação mental na memória é entendida como um processo estratégico construído a partir do discurso, associado ao uso de informações internas e externas, para interpretá-lo e entendê-lo. Mas ainda é preciso considerar o contexto (sociocultural). De acordo com os teóricos, só o cognitivo não é suficiente para o processamento de um discurso. O processamento é o resultado de uma interação das dimensões contextuais e cognitivas. É apoiando-se nesse ideal que se configura o primeiro pressuposto contextual, o pressuposto funcionalista, que exige que o modelo cognitivo considere o discurso e o seu processamento como atores funcionais dentro do contexto social. A consequência desse pressuposto é uma representação mental além do texto, ela abrange, interativamente, também o contexto. Pelo exposto até aqui, podemos entender que os discursos carregam intenções, eles podem afirmar ou prevenir algo. Além disso, eles contam com a interpretação do receptor. Essa é a base do pressuposto pragmático do modelo de processamento de discurso, em que a forma e a interpretação de uma história podem ter funções determinantes. Considerando propósitos e intenções dessa interação (verbal e não-verbal), esse pressuposto acaba por ser considerando interacionista. Contexto, função, formalidade, valores, atitudes, são várias as dimensões das situações de um discurso e elas compõem o pressuposto situacional. 33 Van Dijk (1996) e Kintsch reconhecem previamente as limitações do modelo proposto por eles: o modelo está limitado aos processos de informação semântica; não se delineia a base de conhecimento de forma completa, será intuitivo; é ignorada a representação sistemática das informações contextuais. Enfim, todos esses elementos, partes do modelo de van Dijk e Kintsch, não são composições de uma fórmula, de um processo único de compreensão do discurso, portanto, o modelo é flexível, ajusta-se aos tipos de discurso, o que permite possíveis especificações posteriores. 2.1.1 Aprofundando o modelo cognitivo A proposta de van Dijk e Kintsch é um modelo estratégico. Isso se explica na iniciativa de uma análise do processamento do discurso partindo de unidades de temas gerais ou macroestruturais, baseando-se em complexidade, ou seja, não se baseiam em níveis, como nos demais modelos linguísticos, que apresentam uma interação de níveis de objetos linguísticos (morfológico, sintático, semântico, pragmático). A noção de estratégia de compreensão não é de van Dijk ou Kintsch. Ela é originária da década de 1970, quando foi usada de forma restrita. A apropriação dos teóricos comporta a sua aplicação ao nível do discurso, reforçando seu impedimento de qualquer associação a regras ou algoritmos. Portanto, essa apropriação não oferece garantias. Um processo estratégico é relativo. “As estratégias aplicadas são como hipóteses operacionais eficazes sobre a estrutura e o significado corretos de um fragmento de texto e podem ser desconfirmadas em processamentos subsequentes” (VAN DIJK, 1996, p. 23). Essas estratégias dependem ainda dos usuários da língua, da sua carga cultural, social, do seu conhecimento de mundo 16, ou seja, o leitor pode ressignificar, a partir de suas experiências, os significados pretendidos (pelo autor) de um texto. 16 É o conhecimento que pode ser pressuposto em todas as formas de discurso público. “Esse conhecimento cultural compartilhado é base de toda a cognição social. Qualquer conhecimento de grupo ou pessoal em última instância tem raízes nesse conhecimento comum. (...)” (VAN DIJK, 2005, p.21). 34 Essas características fazem do modelo estratégico um conjunto aberto, que oferece a oportunidade de adaptação a novos tipos de discurso e formas de comunicação. As estratégias, formalmente chamadas de produção, são aprendidas/adquiridas ao longo da vida, algumas (palavras e orações) com pouca idade, outras com mais e algumas só com estudos específicos, elas acabam por se tornar automatizadas. A estratégia geral (composta de outras mais específicas) do modelo tem como objetivo a construção de uma base textual a ser representada na memória. Ela se forma na representação semântica do discurso, que vai se instalar na lembrança consciente das pessoas, na memória episódica. A base textual é considerada eficaz quando atende um número mínimo de critérios, como coerência local e global. Essa base é definida ainda em termos de proposições e das relações entre elas, há também a atribuição de estruturas a essas proposições (mais do que o comum). A compreensão do discurso envolve, simultaneamente, além da base textual, o modelo situacional. Ele é a representação cognitiva dos acontecimentos, coisas, pessoas, genericamente, é a situação sobre a qual o texto se baseia. O modelo de situação é, constantemente, associado com o modelo episódico, isto é, com o que já sabemos. A compreensão estará, então, envolta pela base textual (com coerência global e local) e, também, por um modelo situacional correspondente. Uma combinação de conceito e referência. O modelo estratégico tem um controle geral, um sistema que “(...) garante que todas as estratégias estejam direcionadas à produção de informações, tais como representações semânticas (...) e que sejam compatíveis com os objetivos gerais de compreensão” (VAN DIJK, 1996, p. 25). Ele tem um lugar específico na memória episódica. Pudemos observar que o modelo envolve grandes quantidades de conhecimento (episódico e geral, mais abstrato) e eles precisam ser acessíveis para a compreensão estratégica de um discurso. Dependendo então de uma organização, que torne o acesso e a recuperação (do conhecimento) eficazes. Essa organização está associada à proposta de esquemas, vinda dos campos da Inteligência Artificial e da Psicologia. Das diversas formas de organização, o modelo proposto se apropria das estratégias de uso do conhecimento (uma ativação estratégica), monitoradas pelo sistema de controle, considerando objetivos dos 35 usuários, quantidade de conhecimento disponível em texto e contexto, além do nível de processamento para a compreensão. O modelo estratégico de compreensão, aqui apresentado em termos gerais, é constituído de diversos componentes, estratégias e regras que o fazem possível. Entre eles estão: estratégias proposicionais, de coerência local, macroestratégias, estratégias esquemáticas, de produção, além de outras, que apresentaremos a seguir. O primeiro passo que compõe o modelo é a construção estratégica das proposições 17. Ela tem base nos significados das palavras (ativados da memória semântica) e estruturas sintáticas das orações. Relativizando diversas questões linguísticas, presume-se um esquema proposicional que envolve relações estruturais (como sujeito, agente) ou funções. O esquema é uma fonte estratégica, permitindo análise de estruturas de superfície, baseadas em regras (semânticas) relativamente fixas e simples. Estando, assim, as relações estruturais com seus componentes, reconhecidamente, posicionados e identificáveis. As sentenças complexas serão também analisadas enquanto esquema de preposições complexas. Partimos para as estratégias de coerência local, um diferencial deste modelo em relação a outros modelos de processamento de discurso. Ele advém do entendimento de que há conexões significativas entre as sucessivas sentenças de um discurso. Para esta fase do modelo, a compreensão está relacionada com a construção da coerência (local). Construir uma coerência local também é uma ação estratégica, que compreende um papel a ser desenvolvido pelo usuário da língua. Ela precisa encontrar, com certa eficiência, as indicações (para a compreensão) vindas das relações proposicionais. Entre as estratégias para se estabelecer a coerência local estão: procurar elementos de ligação entre as proposições, ordenação de cláusulas, conectivos explícitos, conhecimento da memória de longo prazo18 e outros. Ainda sobre a coerência local, faz-se saber que ela ocorre na memória de curto prazo (armazenamento limitado) e que é estabelecida pelos usuários da língua o mais breve possível, antes mesmo de se chegar ao fim de uma oração. 17 Aqui cada oração será considerada uma proposição, de acordo com os teóricos em questão. Onde se armazenam as lembranças, de acordo com van Dijk (1996), um banco de conhecimento construído durante a vida. 18 36 Usando da mesma estratégia apresentada acima, na coerência local, as macroestruturas aparecem como um componente central do modelo, com caráter flexível e heurístico. Partimos do entendimento de que o macro está no âmbito mais geral. As macroproposições são inferidas de proposições sequenciadas em partes do texto. Essa estratégia, repetida por vezes, culmina em níveis de macroestruturas, que reconhecemos como tramas, enredos, tópicos de um texto. Novamente voltamos à ideia de que o usuário da língua não precisa chegar ao fim para inferir. Segundo os teóricos há uma “adivinhação” de qual é o tópico partindo do mínimo de informação, aquela vinda das proposições. São previsões sustentadas em títulos, palavras e sentenças temáticas, conhecimentos prévios, contexto, entre outros. Ainda sobre previsões, muitas delas se fazem possíveis porque alguns discursos têm uma forma familiar de se apresentar. Eles têm uma forma global (recorrente) de organizar a macroposição. A essa organização é dado o nome de esquema ou, mais especificamente, superestrutura. Superestruturas respondem pela organização hierárquica de categorias que já são recorrentes, elas dispõem das regras que regem o significado global. Os usuários da língua usam dessa convenção de um discurso, estrategicamente, ativando-a na memória semântica a partir da primeira dica inferida. O esquema passa a ser usado como um recurso “top-down” de processamento, atribuindo funções globais às macroproposições e/ou suas sequências. Além de, ao mesmo tempo, delimitar significados (locais e globais) à base textual. Apesar de estarmos abordando um modelo de compreensão, estratégias de produção são, consequentemente, discutidas. Interessa o modo como o discurso é produzido sob o objetivo de se fazer compreendido. O produtor e o receptor do discurso se relacionam com diferentes tipos, níveis, graus de informação. O receptor vai topificando o texto, lendo, a partir de diversas inferências que lhe são possíveis, enquanto o produtor já sabe o tópico do discurso em questão. Assim, esse produtor passa a ter mais uma tarefa, um papel: construir o discurso a partir de elementos do conhecimento geral, considerando a situação, o contexto e assim por diante. A leitura, para van Dijk (1983), depende de uma integração entre estruturas manifestas, informação pressuposta e estratégias de interpretação. Essa interação entre elementos de dentro e de fora do texto também era considerada e empregada nas metodologias de análise usadas por ele. 37 2.1.2 Introduzindo os estudos sobre jornais Todo esse desenvolvimento teórico esteve atrelado ao interesse de van Dijk por entender o papel social desempenhado pelos discursos. Não por acaso o autor propõe uma teoria da notícia impressa. Para van Dijk (1990) notícias devem ser estudadas como uma forma de discurso público. O interesse do linguista tem como pano de fundo as relações complexas entre o texto da notícia e o contexto. A motivação, entre outras, está em entender como essas relações influem nos processos cognitivos (produção e entendimento das estruturas do discurso) e como as estruturas do discurso influem e são influenciadas pelo social. Essa teoria objetivou também suprir um vazio entre análises de microníveis e macroníveis de notícias. Van Dijk (1990), considera que notícia é a informação que proporciona conhecer um evento recente, “novo”. O discurso da notícia que leva essa informação se diferencia dos demais em diversos aspectos, os quais serão explicitados a seguir. Estudando o discurso da notícia, van Dijk foca a estrutura e o processamento cognitivo, em uma dimensão psicológica, que não é meramente cognitiva, mas sociocognitiva. Para analisar o discurso noticioso, van Dijk (1990) destaca algumas considerações acerca da teoria da Análise de Discurso. É um campo interdisciplinar, com diversos focos ao longo da sua história. Seu principal objeto consiste em produzir descrições explícitas e sistemáticas de unidades de uso da linguagem. Essas descrições têm duas dimensões principais: textual e contextual. Analisar o discurso jornalístico exige tanto uma descrição das estruturas textuais das notícias, como uma descrição do processo de produção e recepção do discurso, em situações comunicativas e contextos socioculturais (VAN DIJK, 1990). Uma análise completa do discurso, de acordo com van Dijk (1990), necessita problematizar o uso de significados (funcional) e referências (referencial), uma relação de coerência. A coerência é o que contribui para a organização da informação textual, sendo um elemento fundamental da notícia a informatividade. De acordo com Koch (2004), a informatividade está associada à distribuição de informação no texto e ao seu grau de previsibilidade, redundância. O texto informativo se baliza entre o que há de novo e o já conhecido. Ele nunca é totalmente novo, isso é cognitivamente inviável, já que seu leitor não 38 vai conseguir processá-lo, e também não deve ser totalmente conhecido, isso implicaria a perda da sua razão de existir. Faz-se importante saber que para van Dijk (2005) não há notícia sem conhecimento. E esse conhecimento começa no jornalista que vai construir a notícia. Ele precisa conhecer o evento e seus atores para conseguir esse objetivo. Preocupar-se com conhecimento, aqui, é um exercício que foca a sua influência no entendimento da produção e da compreensão da notícia, que é uma complexa interação entre conhecido e desconhecido. Ao eleger a notícia como objeto de estudo, van Dijk defendia a pesquisa de unidades maiores da língua. Com base em um corpus extenso de notícias impressas de jornais de mais de uma centena de países (cerca de 250 jornais, sendo mais de 700 artigos), o pesquisador trabalhou descrevendo uma composição padrão que emergia dos textos noticiosos estudados. É relevante notar que não se trata, então, de um modelo (do que deveria ser uma notícia, uma espécie de proposta a ser cumprida), mas de uma estrutura comum à maioria dos textos analisados. Para Van Dijk (1985, p. 70, tradução nossa), “a forma estrutural e o sentido global de um texto noticioso não são arbitrários, mas resultado de rotinas sociais e profissionais de jornalistas em contexto institucional”. O reconhecimento de que essas “rotinas” pressionam a construção dos textos é fundamental para a compreensão de que vários elementos influenciam a mudança dos textos, a construção de sua história como gênero e mesmo sua total reconfiguração. A tecnologia em que são capturados, produzidos e por meio da qual circulam certamente é um desses elementos. Após a análise, quantitativa e qualitativa, de centenas de notícias, van Dijk (1985) nomeou como macroestrutura, microestrutura e superestrutura os elementos que são percebidos pelo leitor. A seguir, vamos conhecer elementos do âmbito macro, ou seja, focamos no estudo dos temas e esquemas do discurso da notícia. 2.1.2.1 Estruturas temáticas no discurso da notícia (macrossemântica) Quando alguém lê uma notícia, supostamente, objetiva se informar, saber sobre um assunto e, então, entre outras coisas, poder dizer sobre ele. Essa derivação, a capacidade do leitor de dizer sobre “o que” leu, topicalizar, resumir, sumarizar, apontando o mais 39 importante, é o que van Dijk (1996) chama de tema do discurso. Intuitivamente, os temas organizam o que é mais importante no texto. Essas derivações estão em macroestruturas19 de um texto, segundo o autor, denominadas semânticas, já que se relacionam com sentido e referência de fragmentos mais amplos do texto. Os temas garantem que um texto tenha uma unidade semântica. Talvez mais que em outros discursos, o tema tem papel crucial no discurso jornalístico, o que será explicado no decorrer desta fundamentação. As macroestruturas compreendem elementos capazes de propiciar inferências sobre as ideias centrais de um texto, permitindo simplificar o conteúdo, ou seja, reduzir a complexidade de um texto a um nível mais geral. Empenhando-se sob essa dinâmica, van Dijk ressalta que os temas podem ser subjetivos e, portanto, o tema não é simplesmente uma “posse” que se obtém do texto, mas uma atribuição do escritor e/ou do leitor. Isso permite entender, ainda, que temas são unidades cognitivas e que conhecimentos, crenças, atitudes, interesses pessoais, ideologias vão atravessar a sumarização e o entendimento da notícia. Para viabilizar o entendimento e as pesquisas com a estrutura temática, selecionamos algumas considerações de van Dijk (1996): com base nos textos, é possível extrair um ou mais tópicos ou sumários; a sumarização pode ser detalhada ou ampla, abranger apenas o mais importante; a sumarização pode ser subjetiva, indicar o mais importante a partir de um ponto de vista particular; os tópicos de um texto podem estar, literalmente, dentro dele, com as mesmas palavras; normalmente, formulam-se tópicos sem os detalhes do texto, em compensação, podem-se envolver generalizações; abstraem-se sequências de ações, propondo uma substituição que singularize o conteúdo descrito. Esses atributos permitem identificarmos importantes propriedades das macroestruturas, além dos princípios sumarizadores, elementos capazes de inferir ou derivar ideias centrais de um texto. A partir de macrorregras (basicamente, um resumo de informações), reduz-se a estrutura de sentido complexa de um texto a um nível geral. Esse resumo pode acontecer de três maneiras: supressão - suprimindo o que não é relevante; 19 A macroestrutura define não só a estrutura de organização de um texto, mas também sua coerência global. Para limitar as inúmeras interpretações, van Dijk (1990) designa: macroproposições (ou tema) são as proposições que fazem parte da macroestrutura. E a partir disso, podemos supor que cada tema de um texto pode ser representado como uma macroproposição. 40 generalização - fazendo generalizações a partir de sequências de proposições; construção – substituindo-se uma sequência de proposições que denotam condições usuais, componentes, ou as consequências de um ato, por uma macroproposição que denote o ato ou evento como um todo. As macrorregras são recursos e podem ser usadas a cada nova demanda de resumo, aumentando o nível de abstração e resultando, de acordo com van Dijk, em níveis diferentes de (macro-)proposições. Essas (macro-)proposições contêm sumarização de conteúdos mais especificados, organizados (macroestrutura), então, hierarquicamente pelo nível de generalização. Até agora apresentamos características cognitivas da macrointerpretação considerando, de modo geral, a estruturação sobre textos já conhecidos. Quando se volta ao leitor, em seu primeiro contato com o texto, a dinâmica é diferente. O leitor sumariza enquanto lê, não sabe o que é mais importante antes da leitura, vai usando seus sentidos, um conhecimento contextual para tentar extrair o tópico, que se caracteriza provisório, evoluindo no decorrer da leitura. Ou seja, o leitor, de acordo com van Dijk, usa macroestratégias para derivar tópicos ao longo da leitura de um texto. No discurso jornalístico, as manchetes e o lead costumam ser “previsões eficazes sobre a informação mais importante do texto” (VAN DIJK, 1996, p. 133), eles compõem uma estrutura temática, contemplando o sentido global do texto, já antecipando o papel do leitor e o guiando. Quando conhecemos o tema, como nas manchetes e no lead de uma notícia, fica mais fácil compreender as orações do texto. Esse é um exemplo do que os psicólogos chamam de processamento global. Mas é necessário ressaltar que essa é a macroestrutura do jornalistaescritor e que o leitor pode fazer outras inferências a partir de seus interesses, por exemplo. Manchetes e leads só conseguem abordar parte da informação mais importante do texto, ficando espaço para as interpretações do leitor. Os temas do discurso jornalístico não são listados, mas estruturados hierarquicamente. O princípio da atualidade, próprio da rotina de produção jornalística, e o caráter informativo das notícias culminam em uma estrutura de relevância, o que tem implicações, de acordo com van Dijk, para a organização do layout e o processamento da leitura. Geralmente, o tópico mais importante é apresentado na manchete; o lead abrange o topo da macroestrutura 41 completa do texto; detalhes importantes (tempo, local, participantes, causas/razões, consequências) aparecem nas sentenças ou parágrafos iniciais, de nível mais inferior. Essa hierarquização de tópicos pode sofrer influências, por exemplo, do anseio jornalístico pela atualidade, o que é fundamental para entender a estrutura temática da notícia. A manchete pode ser “tendenciosa”, segundo van Dijk, ou seja, nem sempre abranger a importância compatível à de todo o texto, casos em que o tópico principal organiza apenas parte da informação, destacando uma relevância. Assim como a maioria das estruturas semânticas, o discurso jornalístico também se organiza mediante certo número de categorias fixas, incluindo causas, antecedentes ou consequências. Uma importante característica da organização da estrutura temática no discurso jornalístico é a relação condição/causa ou consequências sobre os fatos mencionados e não apenas uma relação entre as orações em si. Em cada tema ou nível temático pode-se observar um contexto ou uma situação específica, com atores, atos principais, etc. Essa organização temática pode ser explicada nos termos do modelo cognitivo, já problematizado acima. Van Dijk (1996) elaborou uma estratégia de produção do discurso noticioso no âmbito global, explicando – em termos cognitivos – o que os jornalistas fazem no processo de escrita de uma notícia. Esse processo de produção, de acordo com Van Dijk, é atravessado por conhecimentos, ideologias, modelos, movimentos práticos, ou seja, definidores da estrutura de relevância do discurso noticioso. Tal processo pode ser resumido nos seguintes passos: 1) Ativar o modelo da situação atual; 2) Derivar uma estrutura temática global desse modelo de situação, com o objetivo de expressar os temas por meio de um texto noticioso; 3) Decidir quais dos temas principais da estrutura temática são os mais relevantes e importantes; 4) Iniciar a produção real pela expressão do tema principal mais relevante como manchete, e o resto da estrutura de topo de temas principais como o lead de um artigo noticioso; 42 5) Cada parágrafo seguinte deverá desenvolver um tópico de nível imediatamente inferior (menos importante), de acordo com os seguintes princípios de produção (estratégias de escrita): a) Consequências importantes; b) Detalhes de um evento ou autor sucedem-se à menção global do evento ou pessoa; c) Causas ou condições de eventos são mencionadas após o evento e suas consequências; d) Informação contextual e de background vêm por último. FIGURA 1 – Diagrama representativo da estrutura temática de uma notícia. Fonte: Adaptado de van Dijk (1996). Basicamente, a estrutura de organização temática jornalística se apresenta assim: global, relevância controlada e cíclica. Ou seja, os atos dos participantes principais aparecem primeiro, seguidos, em todos os ciclos, dos detalhes desses participantes, a identidade dos participantes secundários, os componentes, condições, consequências, forma dos atos, detalhes do momento e da situação, etc. Van Dijk destaca, ainda, que o critério de relevância (relatar primeiro as consequências e depois o evento, eventos antes de condição) é uma estratégia cognitiva de produção da narrativa jornalística que, notadamente, diferencia-a das demais. Outra característica típica dessa organização é uma apresentação “picada”, por partes, do tema. Essa organização está apoiada no princípio da relevância, a informação mais importante e relevante vem mais destacada e em níveis mais altos. Isso significa que para 43 cada tema a informação mais importante vem primeiro. A organização temática, então, é estabelecida de cima pra baixo (e não da esquerda para direita) e também do mais importante para o menos importante (apesar de algumas vezes detalhes semânticos serem mais relevantes). Alguns aspectos podem influenciar na produção das notícias, van Dijk (1990) destaca alguns deles: raramente os jornalistas testemunham os acontecimentos, eles obtêm versões codificadas através de agências de notícias, testemunhas oculares, mensagens de outros meios, documentos, entrevistas, comunicados. Por isso, a reprodução e reconstrução dos acontecimentos informativos no processo de escrita jornalístico incluem tanto formas altamente complexas do processamento do texto, quanto estratégias e representações cognitivas subjacentes nesse processo. A discussão do tema estava no âmbito da macrossemântica. Passamos agora à macrossintaxe do discurso da notícia, o esquema, uma estratégia convencional para a organização global do conteúdo do texto noticioso. 2.1.2.2 Estruturas esquemáticas no discurso da notícia (macrossintaxe) O esquema ou superestrutura é uma forma convencional para a organização do conteúdo global do texto. A noção de “esquema” tem raízes distintas, discussões de apropriação e pontos em desacordo. Van Dijk (1996) ressalta esse contexto, considera as contribuições e desvantagens e, então, adota suas cautelosas definições: os esquemas narrativos são constituídos de categorias, regras, estratégias convencionais para a construção de textos, exercem-se sobre o nível global, pertencem a unidades temáticas e se aplicam à análise de narrativas típicas. Van Dijk considera que, estudando o discurso da notícia, consegue-se assumir um esquema fixo, com categorias típicas (que devem se organizar e ordenar a disposição global dos episódios), de caráter convencional, o que acaba por familiarizar o discurso (para jornalistas e leitores), mesmo que implicitamente. Para tornar o esquema do discurso da notícia mais inteligível, van Dijk construiu uma representação em categorias ordenadas hierarquicamente, expressa a seguir: 44 FIGURA 2 – Diagrama representativo da estrutura esquemática da notícia. Fonte: Adaptado de van Dijk (1996). Atribuir uma forma ou um esquema global a um texto, como o representado acima, de acordo com van Dijk (1990), requer estabelecer relação com o significado global e, então, preencher esse esquema. Assim, cada categoria da superestrutura se associa com um tema da macroestrutura semântica. O esquema determina como os temas de um texto poderiam ou deveriam se ordenar e, a partir disso, como as sequências e as orações deveriam aparecer no texto. E as regras de coerência local são o que explica as relações de significados detalhados entre as orações. Os esquemas são organizações regidas por regras semelhantes às das estruturas sintáticas de sentenças. Nesse contexto, o princípio da sequência ordena uma notícia, geralmente, assim: primeiro o Sumário (Manchete e Lead), seguido pelo Episódio Principal e os Eventos Prévios e Contexto próximos a esse Principal. Após isso, é comum aparecerem as categorias de Background, como História. As Reações Verbais (citações) estão mais associadas ao fim da notícia, antes, porém, dos Comentários. 45 Essa sequência e os fatores que podem desconstruí-la foram observados por van Dijk ao longo do seu estudo. A relevância, mais uma vez, é um exemplo do que pode “exigir” interferências na estrutura do discurso da notícia, uma desconfiguração do esquema “canônico”, digamos. A ordenação se configura ora uma regra rígida, ora uma estratégia de “regras” variáveis, de acordo com o contexto, como os que envolvem factuais. A fluidez dos processos de organização faz do esquema da notícia um input para estratégias de produção, indicando quais “temas e que categorias deveriam vir primeiro, e quanta informação de cada tema ou categoria” (VAN DIJK, 1996, p. 151). Van Dijk estava certo de que uma estrutura rígida não conseguiria abranger a diversidade dos contextos que envolvem os eventos noticiáveis, sendo, portanto, o modelo cognitivo o indicado para dar conta dessa complexidade, um enfoque que explicaria os processos de produção (e os de compreensão) e seus resultados na estrutura concreta da notícia, como problematizado anteriormente. Abaixo desenvolvemos uma representação para explicar cada categoria (o que é e a relação entre elas) que compõe o esquema do discurso da notícia: Topo: 1) Sumário e 2) Relato Jornalístico Sumário: 1.1) Manchete e 1.2) Lead Relato Jornalístico: 2.1) Episódios e 2.2) Comentários Episódios: 2.1.1) Eventos 2.1.2) Consequências / Reações Comentários: 2.2.1) Expectativa 2.2.2) Avaliação Eventos: 2.1.1.1) Evento principal 2.1.1.2) Background Background: 2.1.1.2.1) Circunstância 2.1.1.2.2) História Circunstâncias: 2.1.1.2.1.1) Contexto 2.1.1.2.1.2) Eventos anteriores - Sumário: 1.1) Manchete e 1.2) Lead Manchete e Lead são constituídos das macroposições mais importantes do texto, ou seja, de nível mais alto, ocupam o topo da página. Essas características fazem o sumário da notícia, que pode ser apresentado (layout) sob regras de “expressão”, como o texto em bold, fonte 46 maior que a do restante do texto, cobrindo as colunas, representando um destaque que, normalmente, muda de jornal para jornal. - Relato Jornalístico: 2.1) Episódios e 2.2) Comentários Episódios: 2.1.1) Eventos 2.1.2) Consequências / Reações Comentários: 2.2.1) Expectativa 2.2.2) Avaliação Os Episódios de notícias se constituem da organização dos Eventos (seus temas) e suas Consequências e Reações, respeitando restrições semânticas de situações específicas. O Episódio é o acontecimento principal do contexto e seus antecedentes. Usualmente, no discurso jornalístico, os antecedentes aparecem depois dos acontecimentos atuais ou principais. As Consequências são eventos desdobrados do Evento Principal e é uma categoria recorrente no discurso jornalístico. O valor informativo de uma notícia é parcialmente determinado pela seriedade de suas consequências. Os Comentários, geralmente jornalísticos e opcionais, aparecem no fim das notícias, trazendo conclusões, expectativas, avaliações, especulações, informações sobre os Eventos (Apesar de essa manifestação não ser almejada para esse tipo de discurso, ela aparece com certa frequência, em alguns casos de maneira indireta.). O comentário é divido em duas subcategorias principais: avaliação e expectativa. - Eventos: 2.1.1.1) Evento Principal 2.1.1.2) Background O Evento Principal é a descrição do que é a notícia. É destacável que para cada notícia há mais de um Evento Principal, ou seja, essa categoria é recursiva, pode ser usada quantas vezes for preciso. Para ordenar esses Eventos Principais, indica-se tratá-los como Episódios. Eles são, normalmente, acompanhados por expressões de simultaneidade (por exemplo: “enquanto”, “durante”). - Background: 2.1.1.2.1) Circunstância 2.1.1.2.2) História: Circunstâncias: 2.1.1.2.1.1) Contexto 2.1.1.2.1.2) Eventos Anteriores O Background é a contextualização, é fazer conhecido o cenário em que aquele evento é algo noticiável. Ele pode ser divido em tipos. A categoria História, organizando as informações 47 históricas (eventos do passado) relacionadas à notícia, foca na história não recente da situação atual e seus acontecimentos, ela não pode ser o evento principal. Diferencia-se dos Eventos Prévios por não ter uma relação direta de causa ou (des)encadeamento. A noção de “modelo de situação” explica o papel dos Eventos Prévios ou Anteriores, usados, frequentemente, para lembrar o leitor de um evento ocorrido previamente, que pode ser considerado parte das circunstâncias que desencadearam o evento atual, essa categoria não tem uma dimensão histórica. O Contexto organiza a situação atual em que a notícia se apresenta, o Evento Principal é significativo na constituição dessa categoria. História, Eventos Prévios e Contexto podem vir juntos em uma notícia. O que contribui para a distinção dessas categorias são usos de diferentes verbos, tempos verbais ou advérbios temporais. O esquema estruturado por van Dijk tem categorias abertas, sem relação de causa e consequência, tem também interpretação ambígua, sua aplicação não é rígida e permite inferência formal ou pessoal na construção do texto. Ainda assim, essas categorias são tidas como importantes, segundo van Dijk, já que permitem distinções e indicam relevâncias em um texto noticioso. A importância do esquema, de acordo com os estudos de van Dijk, está, entre outros, nos subsídios à compreensão, armazenamento e recuperação da memória relativa aos textos. Se os esquemas da notícia forem profissionalmente conhecidos e partilhados, eles também facilitarão a produção de notícias. Eles organizam a complexidade por vezes desconcertante dos temas da notícia e permitem ao jornalista esquadrinhar estrategicamente sua memória ou bases “exteriores” de informação, como serviços de documentação. (VAN DIJK, 1996, p.152-153) Sem aprofundar nas questões psicológicas, mas apropriando do que Kintsch (1998) considera compreensão dos textos, temos as definições fundamentais para entender esse processo. Compreender um texto significa que as pessoas foram capazes de construir um modelo mental dele, e mais, elas fazem conexões entre as ideias expressas no texto e um conhecimento relevante, já adquirido em outra situação. 48 2.1.3 Contexto “líquido” Temos, então, o fundamento teórico necessário para estudar a estrutura da webnotícia, em seu nível global, a partir de temas e esquemas. Como já esclarecemos, a fundamentação contempla a versão impressa da notícia e o nosso objeto está instalado na web. O próximo item deste capítulo pretende exercer o importante papel de contextualizar o cenário das pesquisas sobre webjornalismo, mas há ainda um hiato entre essas unidades (teoria e objeto), mais especificamente, no que diz respeito ao contexto. Inferimos dos estudos de van Dijk que o discurso é uma forma de uso da linguagem, comunica um conteúdo, é uma prática que envolve a interação entre o social e o cognitivo (sociocognitivo), ou seja, tem convenção na sociedade, um contexto discursivo. E ainda, o campo discursivo não se define pelos seus temas, mas pela forma de introduzir, lapidar esses temas. Outra importante constatação feita a partir dos estudos de van Dijk é que a cultura deve ser entendida como uma forma dinâmica de conhecimento, influenciada pelo contexto, crenças, costumes e normas sociais, passadas e vigentes, formando bases de cognição social20. Assim, significações consolidadas em um âmbito macro dessas cognições constroem, a cada momento discursivo, novas significações (VAN DIJK, 1999). O que pretendíamos destacar aqui é a importância que van Dijk emprega ao contexto. Seguimos, então, sob a justificativa de reconhecer que contexto é esse que envolve a webnotícia. Bauman21 (2001) diz que é a era da instantaneidade. Aquela em que a velocidade do movimento chegou ao seu “limite natural”; o durável, outrora símbolo de grandeza e poder, rende-se à velocidade da substituição, da reciclagem, do envelhecimento. 20 Van Dijk (1999) definiu “cognição social” como uma espécie de gramática das práticas sociais específicas de um grupo, incluindo representações mentais na organização dessas práticas. Em seu modelo cognitivo do discurso, as informações provêm de vários níveis – base de conhecimento, atitudes, ideologias - e interagem de forma complexa. Para o autor, os aspectos cognitivos envolvidos no processamento linguístico da informação referem-se a processos estratégicos e não a processos algorítmicos. 21 Bauman (2001) está engajado em discussões acerca do poder, da dominação social, política, entre outras, mas que não serão empregadas neste estudo. 49 Usando a metáfora da liquefação, o autor se envereda em uma caracterização do contexto22, onde a falta de uma forma impera sobre as relações humanas e os processos. Um trecho citado por Bauman explica a emergência dessa discussão: Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas – por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados… Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos. (VALERY citado por BAUMAN, 2001, p.7). Esse caráter efêmero é próprio do estado líquido, que tem como característica a propriedade de se moldar em relação a diversas estruturas e se manter completo entre o sólido. Como nunca esteve estável, o relacionamento humano, agora posto a uma diversidade indeterminada de opções, carregada de uma suposta sensação de liberdade, tem se revelado mais individualizado. E mais, tem despertado novas características comportamentais, “As pessoas de nosso tempo sofrem por não serem capazes de possuir o mundo de maneira suficientemente completa” (BAUMAN, 2001, p.96). Há situações em que o caráter líquido pode “derreter” o passado, desmistificando crenças, tornando acessíveis informações, quebrando padrões. Todos esses fatores desencadeiam um cenário de modificações, atualizações, maleável, ágil e de diversas possibilidades, para o qual Virilio (1997) deixa o alerta: quanto mais rápido, mais acidental e menos substancial. Para complementar a caracterização desse contexto, desenvolveremos o capítulo a seguir com uma revisão da literatura sobre o jornalismo e a notícia na web. 22 Para Bauman (2001), esse contexto começa a se construir na separação entre espaço e tempo. 50 3 SOBRE NOTÍCIA E JORNALISMO NA WEB Quando suprimimos o encantamento e assumimos que a internet não é uma salvação, como alertou Saramago 23, conseguimos entender por que abordagens que estão dentro do seu campo de estudo têm sido tão problematizadas. Reconhecemos um cenário instigado por novidades, possibilidades, recursos, desafios, que engloba também as discussões em foco neste estudo: a notícia e, consequentemente, o jornalismo na web. Após um abrangente levantamento bibliográfico, foi-nos possível apontar uma seleção das principais discussões relacionadas ao nosso objetivo de pesquisa, entre elas estão: nomenclatura; características e potencialidades do meio; a relação de dependência com o modelo impresso; hipertextualidade; atualização de conteúdos; gerenciamento de um crescente fluxo de informação; novas relações da fronteira espaço – tempo; novas diretrizes entre produção e consumo; fases do webjornalismo; o papel do jornalista; a webnotícia; credibilidade no webjornal; modelos de redação; construção textual; entre outros. 3.1 Webjornalismo: muito a discutir, pouco a concluir Nomear os processos, atividades, objetos é uma ação que atravessa a história da humanidade, é o que observamos também para o contexto estudado. Há autores que, em um primeiro momento, preocuparam-se em adotar e justificar um nome para o jornalismo na web. Já outros o nomeiam como uma máxima definida e sem necessidade de esclarecimentos. Entre os nomes mais usados estão: Webjornalismo (ALZAMORA, 2004; CANAVILHAS, 2006; MOHERDAUI, 2008; TORRES, 2006), Jornalismo Digital (MACHADO, 2007) e Jornalismo Online (BARBOSA, 2002; MIELNICZUK, 2003; SANTOS; FLÔRES, 2009; SILVA JÚNIOR, 2002). Isso significa que é possível encontrar estudos que abordam práticas semelhantes, porém com nomes diferentes. Ao longo deste panorama será notada essa dissonância. Para esta dissertação adotaremos webjornalismo, de acordo com Canavilhas (2006), que justifica a nomeação pelo suporte, portanto, jornalismo praticado na web e ainda, Mielniczuk (2003a), que entende que a produção de conteúdo para a web deve ser chamada de webjornalismo. 23 Em referência à epígrafe usada na abertura da Introdução, página 13. 51 Mais complexas e amplas nos pareceram as questões que envolvem o que é o webjornalismo, quais suas características e desafios. Começamos por Baldessar e Longui (2008), que estabelecem um questionamento, em certa medida, extremo: a internet seria mesmo uma mídia para ter o status de englobar um novo tipo de jornalismo ou seria apenas uma ferramenta? Depois de desenvolver seus estudos, concluem que a internet classifica-se, sim, como mídia, já que possui a construção de linguagens próprias, a partir de ferramentas como hardware e software. Tem-se uma importante conclusão que envolve toda esta nossa contextualização dos estudos sobre a notícia na web. Um destaque nas pesquisas sobre webjornalismo é Marcos Silva Palacios, da Universidade Federal da Bahia, além dos estudiosos associados às suas pesquisas. Em 1999, sob a coordenação de Palacios, foi feito um mapeamento das características e tendências no jornalismo online brasileiro, identificando: hipertextualidade (a possibilidade de interconectar textos através de links), interatividade (notícia com a capacidade de fazer com que o leitor/usuário sinta-se parte do processo), multimidialidade (convergência 24 dos formatos das mídias tradicionais), personalização (produtos jornalísticos configurados de acordo com os interesses individuais do usuário), memória (acúmulo das informações, mais viável técnica e economicamente) e atualização contínua. Aparecem ainda como diferenciais do webjornalismo o espaço ilimitado, a não periodicidade e o baixo custo de produção. Diversos autores se apropriam dessa caracterização 25 (DAL VITT, 2009; RIBAS, 2004; SANTOS; FLÔRES, 2009; TORRES, 2006), acrescentado suas considerações, que serão citadas no decorrer deste capítulo. É frequente o jornalismo na web ser apontado como uma derivação do impresso, já que a escrita embasa as duas plataformas, o que pode ser explicado, em parte, nos elementos da convergência (BARBOSA, 2002; MOHERDAUI, 2008). Configura-se, portanto, um jornalismo híbrido, influenciado por outras mídias, mas composto por novas possibilidades, (ALZAMORA, 2004; BALDESSAR; LONGUI, 2008). 24 A convergência propõe “(...) uma integração de ferramentas, espaços, métodos de trabalho e linguagens anteriormente separados, de forma que os jornalistas elaboram conteúdos que se distribuem através de múltiplas plataformas, mediante as linguagens próprias de cada uma” (SALAVERRÍA, 2010, p.59). 25 Depois de apresentar essas características, inferimos que as notícias na web podem atender apenas parcialmente esses critérios e ainda assim serem consideradas webnotícias. É o caso do nosso objeto, que discutiremos a seguir. 52 Possibilidades: essa é uma das palavras mais recorrentes quando o assunto é o webjornalismo, afinal pesquisadores se enveredam em um amplo campo composto, basicamente, por uma rede global de computadores interligados, com circulação de informação crescente, produções aprimoradas, recursos multimídia (BALDESSAR; LONGUI, 2008), multimodalidade (BARBOSA, 2002), hipermídia, um ambiente de intercâmbio informativo, onde o cenário se refaz a cada nova interação/intervenção de um internauta (ALZAMORA, 2004). Fica evidente que o texto habitualmente divulgado nos jornais impressos não comporta os recursos dessa nova produção possível na web. O hipertexto (referindo ao texto com links eletrônicos) é uma possibilidade. Genericamente, ele é caracterizado por uma estrutura a partir de nós, blocos, não hierárquica, uma rede que se transforma, recria-se a partir dos usos, permitindo a interatividade, o acesso ilimitado e gerando um fluxo dinâmico de informações (MURAD, 2000; SANTOS; FLÔRES, 2009). Esse hipertexto é trabalhado no webjornalismo sob o regime da instantaneidade. Agilidade, atualização, tempo real, para Moretzsohn (2002), falamos de um jornalismo que, mais do que nunca, anseia pela velocidade. No livro News Online, publicado em 2010, por Meikle e Redden, essa dinâmica é nomeada: tempo real em escala global. Uma circulação que se faz cada vez mais rápida, com mais “conteúdo” e alcance, ditando um novo ritmo, que, consequentemente, proporciona mudanças na produção e recepção da informação (BARBOSA, 2002; TORRES, 2006). É o que Lia Seixas (2004) considera como as características das hard news. A agilidade, supostamente, valorizada pela sociedade, a atualização tecnicamente possível, em períodos indefinidos, feita de qualquer lugar, a qualquer momento. Um novo compasso jornalístico, onde o acontecimento é realçado e (re)construído mediaticamente pela notícia, de acordo com Seixas (2005), o produto mais factual do jornalismo. Dentro dessa demanda pela aceleração advinda dos recursos da web, o modelo de jornalismo digital em base de dados é mais uma referência. Barbosa (2007) o descreve como: (...) o que possui as bases de dados como definidoras da estrutura e da organização, bem como da apresentação dos conteúdos de natureza jornalística, de acordo com funcionalidades e categorias especificas, que vão permitir a criação, a manutenção, a atualização, a disponibilização e a circulação de produtos jornalísticos digitais dinâmicos (BARBOSA, 2007, p.218). 53 Mas não nos enganemos. Antes mesmo da chegada da internet, o jornalismo já era refém do tempo, do relato do factual (SOUSA, 2002). A mudança está, mais uma vez, na potencialização que a web representa ao jornalismo, no caso, a viabilidade de se publicar instantaneamente. Como consequência, ressalta-se a incessante busca pelo relato do momento, que se constrói por um registro que em pouco está no passado, abafado pelo evento mais novo e, então, em destaque (REIS, 2002). Ao contrário da informação jornalística impressa, “a informação webjornalística caracteriza-se por ser efêmera e circunstancial, alterando-se a cada instante de acordo com usos cada vez mais aprimorados dos recursos de linguagem do meio” (ALZAMORA, 2004, p.108). O passado da realidade imediata está muito próximo do presente da mídia (TEIXEIRA; GOMES; MORAIS, 2000). O aparecimento das seções Últimas Notícias nos webjornais é produto dessa factualidade, dessa ansiedade pela presentificação. Um lugar que se configura como sendo próprio da mudança, da cobertura ágil, atualizada e atualizável, que agrega e se (re)compõe a qualquer momento (MURAD, 2000). Aparentemente paradoxal, a web se assessora da propriedade da constância da memória, anseia, sim, pela atualização, mas “eterniza” o acesso ao seu conteúdo (ALZAMORA, 2004). “O texto jornalístico muda de status na era da informática, passando de um produto perecível, de 24 horas de duração, para um documento perene que pode ser acessado a qualquer momento” (FERREIRA, 2004, p.131). Mas nem sempre uma possibilidade é significado de uma apropriação. Considerando o modelo de ativação, proposto por van Dijk, explicado no referencial teórico desta dissertação, Gabriela Norá (2011) o problematiza segundo o jornalismo online e faz algumas indagações: Mas, o que dizer das consequências da perda de memória dos meios, quando, por intermédio de uma narrativa fragmentada e centrada apenas no factual, no instante mais específico de cada acontecimento, privam-se os leitores dos significados que muitas vezes podem ser construídos a partir das conexões, das remissões e das alusões a algo que já ocorreu ou mesmo que ainda ocorre, contemporâneo ao fato noticiado? Fatos que ajudariam a entender as conjunturas e “os porquês” de determinado acontecimento, mas que são deixados de lado em benefício das notícias curtas e rápidas, em prol da velocidade e da manutenção do fluxo informacional. (NÓRA, 2011, p.7) 54 A velocidade demandada às publicações, na concepção de Briggs (2007), não deve significar uma mutilação do jornalismo. As notícias ainda precisam ter manchetes, precisam ser revisadas, nem que tudo isso passe a ser uma atribuição apenas do repórter. E mais do que antes, hoje o repórter tem recursos múltiplos para agregar informação à notícia, afinal, falamos do espaço multimídia, com possibilidade para uma foto, um infográfico interativo, um vídeo, áudio, quadro de comentários, resgate histórico por links, enfim, novos aliados. Veremos a seguir que não significa que essa prática já esteja definida. O jornalismo na web ainda está em adaptação. 3.2 Entre benefícios e adaptações Há uma série de pesquisas, parte delas apresentadas a seguir, sobre os benefícios da internet para a prática jornalística e que envolve aspectos interessantes ao nosso estudo. Consideramos que o jornalismo se consolidou sob o ideal de servir a sociedade, informá-la e, mesmo ponderando o institucional, o econômico, e todos os elementos que se revelam um paradoxo desse objetivo, entendemos que a atividade se mantém sob essa proposta ao longo da sua história (KARAM, 1997). Para contextualizarmos como o webjornalismo vem se desenvolvendo, apropriamonos da pesquisa sobre interfaces jornalísticas, de Silva Júnior (2002), que divide o desenvolvimento do jornalismo on-line – com base na progressão da criação, adaptação e gestão de conteúdos – em três estágios: transpositivo, perceptivo e hipermidiático. No primeiro, o modo de produção resumiu-se à transposição do conteúdo das mídias tradicionais para a rede, sendo marcado por certo desconhecimento de uma linguagem apropriada para a web. O estágio perceptivo destacou-se por uma maior utilização dos recursos da internet, embora as rotinas ainda estivessem atreladas ao jornalismo impresso. Por fim, o estágio hipermidiático caracteriza-se pela intensificação da hipertextualidade, dos recursos multimídia e pelo uso de plataformas distintas para a difusão de um produto. Há autores que classificam esses estágios em três modelos narrativos: Linear (impresso copiado para a internet), Hipertextual básico (indicativa de inserção de links, mas com o modelo impresso) e Hipertextual avançado (organização em blocos de textos linkados) (MIELNICZUK, 2003; PALACIOS et al., 2002; RIBAS, 2004; TORRES, 2006). 55 Há ainda uma apresentação não listada anteriormente, a simulação de jornais impressos na web. A versão simula áudio e movimento da passagem das páginas de um jornal de papel. De acordo com Ribeiro et al. (2009), não há pretensão de se substituir o impresso, mas talvez de reinventar, testar hipóteses e possibilidades. Como é uma adaptação, tornam-se inevitáveis as comparações. Os autores ressaltam a existência de peculiaridades acentuadas entre as disposições (impressa e web), definindo-se, nesse contexto, experiências inconfundíveis. Voltando à classificação de Silva Júnior (2002), tomando o estágio hipermidiático, ou hipertextual avançado, configurado pela possibilidade de ampliar o fluxo informacional, encurtar as distâncias entre os espaços geográficos, revelar âmbitos sociais, tornar acessíveis aspectos históricos, facilitar a mobilidade, dar autonomia, proporcionar efeito simultâneo, instantâneo e global identificamos características a favor de um webjornalismo cidadão, o cidadão produzindo conteúdo informativo (BARBOSA, 2002; BARRETO, 1998; CABRAL; PAIVA, 2005). Abre-se um jornalismo mais acessível ao seu público, com um universo de vozes, em que as notícias, em alguns casos, não são mais, exclusivamente, monopólio das empresas e a participação, acredita-se, reforça a cidadania e a informação (MEIKLE; REDDEN, 2010). Supostamente, sai de cena a unilateralidade dos interesses. Essa é a expectativa do jornalismo na web, que, para além da acessibilidade, ganha a carga de ser substancialmente cidadão, respondendo aos anseios do público de forma significativa e interativa. Esse público participativo quer, subjetivamente, combinar a produção industrial com a produção cidadã (MEIKLE; REDDEN, 2010). 3.3 Novas possibilidades com desafios profissionais São novas possibilidades no “contrato” do produtor e do consumidor de jornalismo, que indicam uma produção aberta, caracterizada pela interação do receptor com a informação, que tem desempenho em tempo real e a opção de não se limitar a um caminho único e/ou pouco maleável. O receptor aparece como um personagem que não só recebe, mas também age, pauta, sugere, critica, constitui sua “linearidade”, um caminho que vai seguir agregando (BARBOSA, 2002; BARRETO, 1998; BRITTES, 2004; CABRAL; PAIVA, 2005; 56 CANAVILHAS, 2001; DAL VITT, 2009; MURAD, 2000; NUNES, 2005). A partir desses aspectos, o texto jornalístico deve ser produzido arquitetando possíveis reorganizações, considerando as interferências do leitor (BALDESSAR; LONGUI, 2008; SCHWINGEL, 2005). Dentro do âmbito estabelecido até aqui, há leituras positivas e negativas para a prática do webjornalismo. O excesso de informação, a dinâmica em que se ganha em espaço, mas se perde em tempo (PUCCININ, 2003), em que os leitores têm conteúdos ilimitados, mas atenção limitada (RIBAS, 2004), acaba por demandar um gerenciamento em prol de se manter um espaço de credibilidade que, contraditoriamente, não se torne vazio. O que se observa é que novas rotinas de produção culminaram em diferentes conflitos, por exemplo, entre tempo e qualidade da informação; possibilidades tecnológicas e apropriação adequada desse potencial; um esforço em não criar cópias de modelos já consolidados em outras mídias; atender a demanda da instantaneidade (PUCCININ, 2003), com prazos indefinidos, produção constante e mutável (KARLSSON; STRÖMBÄCK, 2010), apresentando publicações rascunhadas, notícias que não estão completas, verificadas, apuradas. Komirt W. McChesney, no livro News Online (2010), em uma abordagem em certa medida pessimista, de caráter político, entre outros, reconhece as vantagens da internet para a comunicação e também para a informação, mas não entende esse jornalismo, já praticado na web, como sendo participativo ou mesmo como um ideal informativo. Para o pesquisador, há um aumento substancial da circulação de textos, porém sem conteúdo (MEIKLE; REDDEN, 2010). Nesses conflitos, há quem aponte o fim do jornalismo, em que o homem recebe carta de alforria para vagar sozinho no mundo das informações (REIS, 2002). Qual seria, então, o lugar ou o papel do jornalista quando entram em cena ferramentas de automatização das atividades, leitores-produtores e processos ainda indefinidos? Ele perde seu ideal ou ganha ainda mais importância para dar credibilidade às informações? Essas incógnitas têm fomentado diversas pesquisas sobre webjornalismo. Adghirni (2005) relata os conflitos advindos da emergência da internet para o jornalismo enquanto profissão. Para a autora, esse é um movimento esperado, que aconteceu no nascimento de outras mídias, como televisão, rádio, mas que não deixa de ser denso e 57 problemático. Apesar desse cenário conflituoso, a autora considera que a produção de notícias para a internet já tem suas especificidades. Usando os termos “jornalismo em pé” e “jornalismo sentado”, oriundos dos estudos franceses, Adghirni (2005) faz um paralelo do que seria ideal e do que é feito no jornalismo na web. Considerando a prática do tempo real, própria do universo on-line, a autora aponta que o “jornalismo em pé”, aquele em que o jornalista vai ao local da notícia, apura, relata, fotografa, escuta os lados da história estaria entre o que é esperado desse (web)jornalismo dado a publicar o que acaba de acontecer. Assim, o jornalista estaria no local da notícia, apurando informações e as passando para um redator na redação. Este estaria encarregado de construir o texto, publicar e atualizá-lo, a cada nova informação apurada. Seguindo suas pesquisas, a autora identificou que, ao contrário disso, o que é mais comum é a prática do “jornalismo sentado”, quando o jornalista não sai das redações, vira um administrador de conteúdos advindos de outros meios, de parcerias, conteúdos já publicados, agências de notícias, enfim, fazendo um combinado de informações não apuradas por um jornalista próprio do veículo, para construir as notícias. Outra influência nessa construção é o tempo real, já citado. Os valores-notícias, relembrados na introdução desta dissertação, na concepção da autora, permanecem basicamente os mesmos, mas as notícias passam a ser uma publicação a “(...) ‘conta-gotas’, de informações ainda sem confirmação e de notas praticamente irrelevantes do ponto de vista do internauta” (ADGHIRNI, 2005, p.12). Leal (2002) problematiza essa mudança na rotina produtiva do jornalista, que deixa de apurar os fatos no local dos acontecimentos, entendendo que ele passaria de “caçador” de informações a “caça”. Ser essa caça “facilitaria” o trabalho do jornalista, que muitas vezes deixa de escrever e apenas reorganiza o que está em um release, por exemplo. Um modo de trabalho que, segundo o autor, acarretaria algumas consequências para o jornalismo, entre elas, uma narrativa que se constitui segundo textos secundários, além de interferências na credibilidade e na qualidade da informação. Credibilidade e qualidade, características associadas, também, ao testemunho do jornalista no local dos fatos. Apesar de considerar o jornalista um leitor crítico e capaz de reescrever, reorganizar os conteúdos, o autor ressalta o jornalismo como uma produção que traz em si um olhar sobre as experiências, não cabendo textos pré-fabricados, relatos vazios e distantes. 58 3.4 Responsabilidade enquanto webnotícia A webnotícia, assim como a notícia, é a síntese de uma situação diversa, de várias faces, trazendo uma intriga que se configura no título e logo no primeiro parágrafo. Seu texto prima pela objetividade (SEIXAS, 2005). Briggs (2007) entende que essa urgência, que passa, inevitavelmente, a fazer parte do noticiário (online) altera também os critérios de seleção/filtro do que é uma notícia, isso considerando que os acontecimentos passaram a ser selecionados antes de uma apuração final. Ameaças, por exemplo, podem ser noticiadas na web, enquanto, provavelmente, não seriam publicadas no impresso, caso não se concretizassem. Mas, acredita-se que o exercício da imparcialidade nos discursos jornalísticos, uma proposta norte-americana para coibir o sensacionalismo, continua, no webjornalismo, envolvendo as notícias para conquistar credibilidade. A notícia (na web) permanece com o importante papel social de contribuir para a noção de “presente” do mundo, ou seja, isso é independente do meio (TEIXEIRA; GOMES; MORAIS, 2000). Essa responsabilidade herdada de mídia para mídia, indicando, primordialmente, a apuração dos fatos (PUCCININ, 2003), configura-se um desafio quando “vencer” o tempo torna-se uma das prioridades. Não por acaso, Natalie Fenton e Tamara Witschge, no livro News Online (2010), elegem o resgate de uma atividade ética como o essencial para os (web)jornalistas. A ética jornalística representa uma das principais diferenças entre o profissional e o amador (cidadão), o fato (verificado) e a opinião (MEIKLE; REDDEN, 2010). Durante a abertura do 3° Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação: redes sociais e aprendizagem, em 2010, no Recife, Pierre Lévy ressaltou que vivemos em uma era da livre informação, em que o acesso é indiscriminado e o fluxo, crescente. Neste momento em que as informações circulam com tanta liberdade, as fontes credíveis serão cada vez mais valiosas. Lévy questionou: Será que o webjornalismo, cometendo ônus por supostos bônus, vai ser o escolhido pela sociedade como uma dessas fontes credíveis? (informação verbal). 26 26 As informações foram obtidas durante a participação da autora desta dissertação no evento já mencionado. 59 De acordo com Briggs (2007), quando o jornalista passa a atender uma necessidade de atualização para o webjornal, o foco deixa de ser uma matéria completa, passa a informes parciais e atualizados, publicando o suficiente para se saber apenas o que está acontecendo. O segredo desse modo de divulgação da informação, de acordo com o autor, está em não tentar relatar o que ainda não se apurou sobre os fatos. Todo esse cuidado com a informação parte da consideração, dos autores aqui articulados, de um contexto social ruidoso, da hiperinformação e da recusa do silêncio (REIS, 2002). Portanto, possíveis soluções de gerenciamento desse fluxo começam a ser sugeridas e articuladas. Filtros de notícias (DAL VITT, 2009), segmentação de conteúdos por regionalização e direcionamento de editorias (BARBOSA, 2002) são algumas delas. Caminha-se para a necessidade de se criar um estilo, uma familiaridade credível com o leitor do webjornalismo (LEAL, 2002). Lembrando que as notícias são classificáveis, são unidades de significação jornalística que, organizadas, compõem o jornal. Ele é construído por notícias e essas notícias são tematizadas formando editorias. A organização na web deixa de ser numerada e divida por páginas, mas precisa se estabelecer em profundidade (FIDALGO, 2004). 3.5 Redigindo webnotícias Ainda dentro da perspectiva de uma familiaridade, a busca do modelo de redação para a webnotícia é uma hipótese em discussão entre os pesquisadores. Os estudos oscilam, basicamente, entre defesa e crítica à pirâmide invertida, uma prática que se resume em priorizar os dados por importância. Canavilhas (2006) propõe a seguinte reflexão: para buscar uma linguagem para o webjornalismo, é preciso passar pela apropriação das características da web. A pirâmide invertida, para o autor, é um modelo que atende ao jornalismo de outra época, que venceu seus desafios a partir do desenvolvimento dessa técnica de organização textual. O autor acredita que aplicá-la ao webjornalismo é desconsiderar o potencial da web. Canavilhas (2006) indica o que considera uma solução: a pirâmide deitada. Uma proposta de organização em camadas, com quatro níveis de leitura: base (o essencial: o quê, quando, quem, onde), explicação (por quê e como), textualização (mais informações, mas de 60 forma complementar, um vídeo, infográfico), exploração (ligação entre interno e externo à notícia), com foco na liberdade de navegação dentro da notícia. Outra formulação nesse sentindo é o modelo news diamond, desenvolvido por Bradshaw (2007), também em busca de nortear uma redação própria da web. Antes de apresentar a proposta, o autor faz uma consideração determinante: a velocidade e a profundidade - características contraditórias - são os pontos fortes do espaço online. Valorizando o aspecto acima e um “ciclo de vida” das notícias, na figura de um diamante de informação, Bradshaw (2007) propõe as seguintes etapas: alerta (de um acontecimento noticiável – Twitter), projeto (primeiras apurações - blog), artigo/pacote (do provisório para o definitivo – jornal online), contexto (resgate contextual – jornal online), análise/reflexão (reações – jornal online), interatividade (envolvimento – fórum), personalização (à necessidade do usuário - RSS). FIGURA 3 – Modelo representativo News Diamond Fonte: Bradshaw (2007). 61 O jornalista e pesquisador Guillermo Franco, no livro Como escrever para a Web, partiu de experiências profissionais e interesses específicos para problematizar o modo de escrever para o webjornalismo. O prólogo, escrito pelo ex-professor do autor, Fernando Ávila, traz considerações determinantes quanto ao conteúdo do restante do livro. Para Ávila e Franco (2010), a pirâmide invertida é recuperada e modernizada na web, imprimindo um novo estilo para a técnica, ditado pela economia, dando-se preferência às palavras curtas, conhecidas e precisas. Para Franco (2010), a pirâmide invertida permanece na web porque os leitores continuam querendo saber o que aconteceu. Segundo o autor, é preciso considerar que essa técnica nasceu da necessidade de encaminhar informações com agilidade, na época por causa da fragilidade na transmissão do telégrafo, que poderia ser cortada a qualquer momento. A diferença estaria, então, nos níveis de utilização disponíveis na web. O autor observou os seguintes aspectos já em prática no webjornalismo: a pirâmide invertida básica, como é aplicada no impresso; tematização do texto, selecionando subtemas e criando certa independência entre eles em uma mesma página; ainda a partir dessa tematização, porém criando links, camadas com informações acerca desses subtemas. Franco (2010) destaca que esses níveis estão relacionados, entre outros, com o tamanho do texto. Não há por que criar camadas para uma notícia de dois parágrafos, por exemplo. 3.6 Re(configurando) a (web)notícia Está claro o esforço de teóricos em entender e interpretar os novos desafios postos pela relação web e jornalismo. Há uma dificuldade de se delinear os moldes do webjornalismo, que ainda está atrelado ao campo do impresso, ou seja, é um modelo em configuração (MURAD, 2000). Porém, essa dificuldade não justifica a adoção de um modelo, uma forma fixa de notícia, consolidada em outros meios (SODRÉ, 2009). Formas fixas não corresponderiam à capacidade de proporcionar leituras dinâmicas e interativas, pretendidas na internet (SANTOS; FLÔRES, 2009), ou seja, estruturas convencionais, como propostas por van Dijk, estariam comprometidas na visão desses autores. 62 Não há um consenso da melhor forma para noticiar na web, mas de que esse é mais um meio no futuro do jornalismo não se tem dúvidas (MEIKLE; REDDEN, 2010). Apesar desse reconhecimento, a recente história das pesquisas têm mostrado que o jornalismo praticado na web não se revela novo, mas uma adaptação, potencialização dos atributos já existentes em outros meios (DAL VITT, 2009). Para Barbosa (2002), a “criação” do jornalismo na web sempre foi uma metáfora do impresso. Supostamente justificada na citação de McAdams, que ressalta: “(...) a metáfora do jornal ajuda o leitor a criar familiaridade com o produto digital. Talvez seja por isso que a maioria reproduz no meio digital as seções do produto impresso” (MURAD, 2000, p.4). Essa mimetização pode ser identificada também na estruturação da página noticiosa desenvolvida para web, caracterizando-a como apenas uma reconfiguração de formatos existentes (MOHERDAUI, 2008). Daltoé (2003) também interpreta que esse é um processo de adequação. O impresso contribui para a formatação do online, que toma sua forma e já influencia mudanças no impresso. Não se anda para trás na história, uma mídia não acaba com a outra (BALDESSAR; LONGUI, 2008), ao contrário, agrega: “(...) descobertas e invenções são acúmulos e servem de background para outros inventos” (DALTOÉ, 2003, p. 8). De acordo com o que vimos até aqui, identificar um estilo jornalístico para um veículo é uma relação direta com a familiaridade a se estabelecer com o seu público (LEAL, 2002). A notícia é um produto e depende desse estreitamento na relação para ser consumida. Cada veículo se desenvolve para estabelecer um acordo de consumo e de convivência com seu público. “(...) pode-se observar a importância do padrão jornalístico como uma forma de controle da ficcionalidade e de construção do pacto de credibilidade” (LEAL, 2002, p.7). Os horizontes do webjornalismo estão ainda por definir, assim como os da fronteira digital (TORRES, 2006). Apropriando-se das ideias de Derrick de Kerckhove, Torres (2006) destaca que “mesmo a melhor e a mais útil tecnologia do mundo não pode impor-se a um público não preparado. Porque pode não haver espaço para ela na nossa psicologia colectiva. Pelo menos por enquanto” (TORRES, 2006. p. 321-322). Finalmente, há uma série de pesquisas que tentam prever determinações para o webjornalismo. Nunes (2005), por exemplo, acredita que o caráter multimídia vai ser o diferencial da informação na web. Para Monteiro (2000), os conceitos já consolidados no 63 impresso devem, basicamente, ser repensados para um novo ambiente informacional, que, de acordo com Silva Júnior (2002), precisa dar conta de arranjar tantos recursos quanto necessário. O hipertexto, por si só, segundo Murad (2000), já reconfigura as bases da atividade jornalística. Veremos a seguir que alguns autores já têm discutido essas reconfigurações, observando a construção textual no webjornalismo. 3.7 Construções textuais no webjornalismo É indiscutível que um suporte pode influenciar na construção de textos27. Pesquisadores têm concluído seus trabalhos propondo diversas sugestões como a construção de textos pensando na usabilidade (CANAVILHAS, 2001), a utilização de banco de dados, enquadrando o “mundo” em uma lista de itens (BALDESSAR; LONGUI, 2008), aderindo a uma visão sistêmica para alcançar a arquitetura ideal da informação (SCHWINGEL, 2005). Torna-se uma demanda pensar em produzir jornalismo para a web, na web (TORRES, 2006). “É preciso estruturar os textos para o ambiente online levando em conta o comportamento e os objetivos do usuário” (FRANCO, 2010, p.38). Com mais recursos, os (web)jornalistas precisam ser mais estratégicos, ramificar o uso dos links, como o de resgate histórico (RIBAS, 2004). A notícia sobre a morte de uma celebridade, por exemplo, pode trazer link para marcos da sua carreira. Enfim, “(...) escrever de forma hipertextual requer uma maneira própria de planejamento, organização e elaboração de uma história” (RIBAS, 2004, p.10). Segundo d’Andréa (2010), a fragmentação é uma das características mais evidentes da produção da notícia na atualidade. Essa característica é associada, entre outros, também à instantaneidade, em que novas publicações são divulgadas a cada nova informação apurada. D’Andréa (2010) observa que a adaptação aos recursos tecnológicos vem acarretando mudanças à produção e ao produto jornalístico. Essas mudanças, que vão desde as estruturas das organizações, com quadros de profissionais suprimidos, até o texto jornalístico, que, como já ressaltado, passa a ser publicado enquanto apurado, configurando essa publicação contínua, de múltiplas páginas e fragmentada citada pelo autor. 27 Um exemplo dessa afirmação: Assis (2005) mostra como o e-mail como ferramenta tecnológica altera os modos de construção do texto, isto é, como linguagem e tecnologia se interinfluenciam. 64 Admitindo a especificidade da webnotícia, isto é, uma notícia fragmentada e dada no decorrer do tempo, sem um deadline prescrito ou mesmo sempre inacabada, vários autores (como os citados aqui) a consideram uma “metamorfose”. É muito comum nesse contexto a identificação da reescrita. Apoiando-nos na revisão sobre retextualização e reescrita de d´Andrea e Ribeiro (2010), relacionamos alguns esclarecimentos sobre esses conceitos. Do ponto de vista da produção, retextualização e reescrita estão envolvidas com a tentativa de trilhar um texto do “original” ao “final”. Com o foco voltado para os objetivos desta dissertação, absorvemos as seguintes definições: a retextualização é uma modificação mais ampla do texto, que pode alterar até o meio em que o texto é produzido/veiculado. Seria a produção de um texto novo, mudando o propósito, uma intervenção estrutural sobre um texto original. Já a reescrita está em um âmbito menor, algo em torno de uma nova versão do texto, enquadrando-se como o refinamento dos parâmetros discursivos, textuais e linguísticos, podendo significar um melhoramento do texto, um retorno sobre o que foi escrito, um agir sobre a textualidade e a discursividade. Pode ainda ser resumida – de acordo com Fiad e Menegassi, baseados em Fabre e citados por d´Andrea e Ribeiro (2010) – com base em quatro operações: adição, substituição, supressão e deslocamento. É, então, a reescrita que encontramos nas operações de atualização das webnotícias. Entre novas construções textuais, reescrita e outros, Moraes (2004) entende que a notícia online informa de maneira peculiar. Considerando a internet uma mídia heterogênea e segmentada, portadora de um público crescente, diversificado, cada vez mais participativo e, ainda, se assumimos a internet como uma mídia, então temos que dar conta de personalizá-la, ela tem suas características, que, para a autora, podem ser identificadas no processo de produção online, na narratividade do discurso jornalístico da web. A autora atém-se à estrutura textual da notícia online e aponta uma primazia do uso do lead, da pirâmide invertida. Para a autora há uma mescla de traços do jornalismo tradicional às características do meio, formas narrativas canônicas ganham contornos peculiares no contexto online. Contexto em que Palacios e Mielniczuk (2001) elegem o link como o elemento essencial na estrutura da narrativa (de formato hipertextual), além de poder ser considerado um elemento com funções paratextuais. É preciso considerar essa possibilidade mais 65 ressaltada, permitida pelo hipertexto, de o usuário hierarquizar as informações, acessar os subtemas mais relevantes, segundo sua intenção (FRANCO, 2010). Essa é uma forma do autor reforçar que a web não é um simples canal de distribuição e que, portanto, seus textos têm suas particularidades. Um título jornalístico, por exemplo, tem de ser ainda mais expressivo, uma vez que ele pode ser acessado fora do seu contexto, como em um RSS, site de busca, redes sociais, não tendo o aporte de outros elementos que contribuem para sua interpretação. Considerando pesquisas de usabilidade, Franco (2010) identifica outras influências para estruturar o texto na web: o lado esquerdo da página é mais visualizado, deve receber as informações mais importantes; demanda, em muitos casos, o uso da voz passiva e dos dois pontos, relativamente incomum para a objetividade jornalística 28. A revisão da literatura apresentada aqui nos permite dizer que temos uma vasta gama de temáticas sobre webjornalismo e que elas dão conta de processos editoriais, aspectos tecnológicos, institucionais, sociais, de produção, entre outros. Tais trabalhos não costumam se ater, no entanto, à construção propriamente estrutural e cognitiva de notícias produzidas de forma fragmentada, regidas pela instantaneidade, uma característica e até mesmo um diferencial do jornalismo na web. Entendemos a importância de todos os enfoques e destacamos a validade de se dedicar um trabalho à estrutura textual da notícia na web. 4 METODOLOGIA Conhecidos os objetivos, os pressupostos teóricos e o cenário do campo de estudos que engloba esta pesquisa, envolvemo-nos com a necessidade de desenvolver um método que permitisse coletar e analisar dados compatíveis com nosso problema de pesquisa: a possibilidade de uma nova estrutura para a notícia factual que justifique o designo webnotícia. Nossa pesquisa contou com uma adequação estratégica de metodologias, o que nos pareceu mais eficiente à proposta. O caminho metodológico conta com um levantamento de obras representativas em webjornalismo e webnotícia, usado depois da coleta de dados como 28 Apesar de não nos aprofundarmos nas questões sobre a leitura do webjornal, destacamos, segundo tese defendida por Ribeiro (2009a), que não se fazem necessárias novas habilidades leitoras para se compreender um jornal ou um texto na tela, ou seja, ele pode ser o “mesmo” do jornal impresso. 66 um mapa conceitual de referência para a análise da notícia na web. Análise que se concretiza à luz da linguística textual, sob os critérios fundamentados por van Dijk. Esse processo se desenvolve em uma abordagem qualitativa, que nos permite observar, descrever e entender o fenômeno sob investigação (GIL,1999). 4.1 Procedimentos de coleta dos dados As pesquisas sobre jornalismo na web, revisadas para este trabalho, em sua maioria, usaram métodos conhecidos para estudar a notícia. Identificamos estudos etnográficos, análise de conteúdo, quantitativa, qualitativa, entre outras, o que se configurou problemático para o tipo de estudo que propusemos. Karlsson e Strömbäck (2010) se depararam com o mesmo incômodo. Para eles, os estudos falam de um conteúdo existente em outro contexto, esquecendo-se de considerar o caráter imediatista da notícia na web, que a faz diferente a cada novo fato apurado-agregado. A proposta dos autores é tentar congelar o fluxo das webnotícias, permitindo, então, a sua investigação. Apoiando-nos nessa proposta e resguardando-nos das considerações de Fragoso, Recuero e Amaral (2011), que destacam a não existência de fórmulas prontas para fazer pesquisas, construímos um método estratégico e particular, que abarca características singulares e pretende ser coerente à problematização proposta. Articular essa metodologia tem relação direta com um dos aspectos que motivaram o estudo, a atualização de conteúdos. Como não temos um produto webnotícia finalizado em cada publicação, e é essa a curiosidade do objeto, a proposta é viabilizar registros da notícia factual em metamorfose, as suas fases de construção, até o suposto produto final. Criamos, então, uma rotina que pretende comportar a composição do nosso objeto de estudo, sem esquecer que estamos falando da seleção de um objeto líquido, móvel e perecível, de que, de acordo com Fragoso, Recuero e Amaral (2011), é preciso seguir desconfiando. Essa rotina de seleção será subsidiada pela proposta de Karlsson e Strömbäck (2010), na tentativa de congelar o fluxo das notícias. Indica-se acompanhar de perto cada número selecionado, partindo da primeira publicação em diante e, então, ir identificando as mudanças 67 ao longo das atualizações. Como as webnotícias podem mudar em segundos, o ideal, de acordo com os autores, seria capturar cada versão e o contexto de cada notícia. Toda vez que o conteúdo ou o contexto mudar, baixa-se manualmente aquela versão para posterior análise. A partir da experiência profissional no jornalismo mineiro, foi possível constatar que o rádio, na maioria dos casos, pauta os demais veículos de comunicação, quando consideramos os factuais29. Uma notícia (factual) veiculada no rádio desperta um perceptível esforço de cobertura imediato dos portais de notícias30. Foi também esse subsídio (experiência) que nos amparou na seleção dos suportes para a coleta do material a ser estudado. O Portal Uai e o O Tempo Online estão entre os portais jornalísticos mais representativos de Minas Gerais. Nosso recorte é a seção Últimas Notícias31 de cada webjornal, na editoria Gerais. Outro veículo escolhido para a constituição do corpus é a Rádio Itatiaia, uma referência em radiojornalismo no estado. A opção por dois portais visa a tornar a seleção representativa, destacando semelhanças e permitindo generalizações sobre a estruturação da notícia nos webjornais. Considerando todos os aspectos traçados até aqui, constituímos a seguinte estratégia: fizemos “rádio escuta32” da Rádio Itatiaia, que veicula plantões de notícias a cada hora, diariamente, como o ponto de partida para a nossa coleta. Para esse passo, os sites já estavam sendo monitorados, quando a notícia factual era veiculada na rádio, já sabíamos se ela ainda não tinha sido publicada no site. A partir desse ponto, elas se tornaram o nosso foco. As páginas foram atualizadas até a publicação da notícia selecionada a partir da rádio. Uma vez postadas, elas passaram a ser monitoradas (e copiadas, pela função Print Screen do computador) a cada modificação de conteúdo e/ou contexto, de minuto em minuto, na 29 Essa é uma constatação quanto à mídia mineira, tomando como referência, principalmente, a Rádio Itatiaia e os portais em.com.br e O Tempo Online. 30 A rádio Itatiaia tem relevante representatividade no mercado jornalístico mineiro, destaca-se pela força no relacionamento com as fontes, principalmente as policiais, ou seja, um diferencial para a cobertura de factuais, divulgando notícias, muitas vezes, antes dos demais veículos. Essas afirmações são fruto de 4 anos de trabalho na área e 1 ano de pesquisa especificamente para este trabalho. 31 Caracterizada pelos jornais como o espaço das notícias atualizadas em tempo real. 32 Termo usado no jornalismo para a atividade do apurador, jornalista que trabalha na apuração dos assuntos de última hora. São repórteres dentro da redação que checam as informações vindas de fontes oficiais, mídias (rádio, televisão e Internet) e ou denúncias. (Fonte: Manual de Telejornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, acessado pelo: jornal.metodista.br/tele/manual/manual.htm) 68 primeira hora; de 30 em 30, a partir da segunda hora; e da terceira em diante, a cada hora, até o fim do dia. Esse procedimento foi repetido uma vez por semana, durante os meses de dezembro de 2011 e janeiro de 2012, em períodos diferentes do dia. A coleta aconteceu nos dois sites, sendo selecionadas cinco notícias em comum. Os jornais foram acompanhados de segunda a sexta-feira, dias em que a circulação de factuais é mais expressiva. Formamos uma semana “falsa”, com a pretensão de evitar qualquer caráter tendencioso na seleção do material. Na primeira semana, a coleta foi na segunda-feira; na segunda, terça-feira; e assim por diante, até concluirmos cinco semanas, constituindo uma semana. QUADRO 1 Representação da constituição do corpus em uma semana 1ª semana 2ª semana 3ª semana Segunda-feira Caso 1 - EM Caso 1a - OT Terça-feira Caso 2 - EM Caso 2a - OT Quarta-feira Caso 3 - EM Caso 3a - OT 4ª semana Quinta-feira Caso 4 - EM Caso 4a - OT 5ª semana Sexta-feira Caso 5 - EM Caso 5a - OT Fonte: Composto pela autora. Legenda: EM (Estado de Minas). OT (O TEMPO Online). Com o corpus selecionado, a proposta é enquadrar cada versão final33 de notícia na representação de temas e esquemas de van Dijk, com suas categorias, regras e estratégias, explicadas na nossa fundamentação teórica, assim, possivelmente, identificando a estrutura global da webnotícia. Essa se configurará, inevitavelmente, também uma fase qualitativa da pesquisa, quando avaliaremos cada atualização de conteúdo captada. 33 Consideramos “versão final” aquela que não é mais atualizada dentro do dia acompanhado na coleta. Ela é a mais analisável por que é a única que tem influência de todas as versões já publicadas, contendo a suposta estrutura de uma webnotícia. 69 Para facilitar a visualização e o entendimento dos dados em análise, desenvolvemos um quadro que representa a estrutura global da última versão de cada caso de notícia, em cada webjornal. Os quadros (de 3 a 12), com três colunas cada, são compostos pelo texto da notícia, os tópicos, sumarizando o tema de cada parágrafo, além das categorias esquemáticas. Apropriando de outro alerta problematizado por Fragoso, Recuero e Amaral (2011), consideramos: como as notícias selecionadas representam, em alguns casos, exemplos que podem ser considerados negativos profissionalmente, vamos preservar os nomes dos jornalistas que atuaram no desenvolvimento das notícias selecionadas para constituir o corpus desta pesquisa. 4.2 O cenário do corpus Justificamos a escolha dos webjornais Portal Uai e o O Tempo Online, dos quais extrairemos nosso material noticioso, mas ainda não descrevemos qual cenário eles compõem, segundo sua representatividade jornalística. O Portal Uai34 faz parte do grupo Diários Associados, foi fundado em 1999 e intitulase o maior portal de notícias e conteúdo online de Minas Gerais. Tem acesso médio de 45,7 milhões/mensais (última apuração em julho de 2008). A seção Últimas Notícias é do Estado de Minas (em.com.br), instalado no portal. Ela se caracteriza, segundo o portal, pela publicação de factuais, com conteúdos diversos e atualizados. O portal converge o conteúdo de todos os outros veículos do Diários Associados em Minas: os sites do Estado de Minas, TV Alterosa, Guarani FM, AQUI-MG, além do UAI Mídia e do EM Digital, ou seja, a sua notícia conta com a contribuição da produção de todos esses veículos. O O Tempo Online35, como se conhece hoje, foi estruturado em 2007 e reformulado em 2010. Sua preocupação principal são os conteúdos atualizados. O webjornal conta, 34 Para mais informações sobre o Portal Uai, acesse: http://www.diariosassociados.com.br/home/veiculos.php?co_veiculo=17 35 As informações sobre o O Tempo Online foram obtidas a partir de entrevista com um dos idealizadores do site de notícias, o jornalista Luiz Fernando Rocha. 70 atualmente, com uma equipe de 36 pessoas, que revezam em uma escala de apuração de 6 da manhã à meia-noite. A dinâmica que rege a constituição das webnotícias, segundo um dos idealizadores do site, é conseguir o mais básico de uma informação, publicar e aguardar a apuração dos repórteres do jornal impresso, que vão ao local do acontecimento. O foco na atualização se comprova pelo número de renovações do layout da página inicial, que é 100% móvel e chega a ser completamente mudado cinco vezes ao dia. 4.3 Procedimentos de análise O quadro 2, a seguir, representa um parâmetro dos itens que van Dijk observou na organização global do discurso da notícia impressa. Ele é um guia ao qual recorremos durante a análise das webnotícias. QUADRO 2 Elementos de referência para a análise Tema – sentido global Esquema – forma global Atos dos participantes principais aparecem primeiro, seguidos em todos os ciclos, dos detalhes desses participantes, a identidade dos participantes secundários, os componentes, consequências, condições, forma dos atos, detalhes do momento e da situação. Primeiro o Sumário (Manchete – Manchete Secundária – e Lead), seguido pelo Episódio Principal e os Eventos Prévios e Contexto próximos a esse principal. Após isso, é comum aparecerem as categorias de Background, como História. As Reações Verbais (citações) estão mais associadas ao fim da notícia, antes, porém, dos Comentários. Critério de relevância: consequências – eventos – condições Observações: Observações: - Apresentação fragmentada, por partes do tema. - Uma estrutura de relevância, indicando o que é mais importante. - Para cada tema, a informação mais importante vem primeiro. - Cada parágrafo é uma unidade temática. - Relevância pode sobrepor a importância. - Organização hierárquica das unidades temáticas (parágrafos). - Cada categoria se associa a um tema. Fonte: Composto pela autora. Algumas observações são fundamentais para facilitar a compreensão da análise. As categorias esquemáticas serão escritas com caixa alta, conforme indicado por van Dijk. As setas vermelhas indicam pontos em destaque ou para os quais queremos chamar a atenção. Como as estruturas – temática e esquemática – são apontadas a partir da última versão das 71 webnotícias, a análise se desenvolve em comparações entre o que influencia essas estruturas em cada versão publicada anteriormente. Apesar de os erros gramaticais e ortográficos não fazerem parte, diretamente, dos subsídios para se chegar ao nosso objetivo, eles serão ressaltados, já que acreditamos na sua relação com a dinâmica de atualização da produção web, além de configurarem um risco à credibilidade jornalística. 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Com os dados selecionados conforme a metodologia, este capítulo abrange a apresentação, as considerações durante o percurso analítico e a análise desses dados propriamente dita. A investigação se recai sobre um material trabalhado em tempo real, objetivando identificar a estrutura global (temas e esquemas) da webnotícia sob a fundamentação teórica já apresentada. O primeiro caso é recortado do Portal Uai, noticiando um acidente com vítima. A publicação e as versões são apresentadas a seguir. 72 FIGURA 4 - Caso 1: Publicação da webnotícia Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2011/12/12/interna_gerais,266891/motorista-fica-feridoem-acidente-entre-caminhao-e-carreta-na-br-381-em-betim.shtml 73 FIGURA 5 - Caso 1: versão 2 da webnotícia Fonte: Portal Uai 74 FIGURA 6 - Caso 1: versão 3 da webnotícia Fonte: Portal Uai 75 FIGURA 7 - Caso 1: versão 4 da webnotícia Fonte: Portal Uai 76 QUADRO 3 Estrutura Global da webnotícia (caso 1, versão 4) Texto da webnotícia Tópicos Motorista fica ferido em acidente entre caminhão e carreta na BR-381, em Betim Motorista ferido em acidente (Manchete principal) A batida causa lentidão no sentido Belo Horizonte/ São Paulo Batida causa lentidão (Manchete secundária) (Legenda da foto) O motorista ficou preso às ferragens e foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros Um congestionamento quase se transformou em tragédia na manhã desta segunda-feira, em Betim, na Grande BH. Uma retenção, causada por uma simples colisão traseira, acabou surpreendendo um motorista de caminhão baú, que seguia pela rodovia em alta velocidade. Foi somente ao chegar na curva da antiga barreira da cidade que o motorista pode perceber a retenção à frente, contudo ele não conseguiu evitar que seu caminhão colidisse com uma carreta. Osiel Custódio, de 38 anos, ficou preso nas ferragens e precisou do auxílio de vários homens do Corpo de Bombeiros e do Resgate da Auto Pista Fernão Dias para ser retirado do caminhão. Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Motorista preso às ferragens é socorrido (Manchete secundária) Congestionamento e alta velocidade causam acidente com ferido. Sumário: Lead (GALERIA DE FOTOS) Segundo o relato do motorista da carreta, Alessandro Rodrigues Pereira, de 39 anos, Osiel estaria em alta velocidade quando colidiu. “Eu estava na faixa do meio quando vi que o trânsito estava parado. A faixa da esquerda estava livre e não vinha ninguém, então mudei para ela, parei e liguei o pista alerta”, conta. Porém, o aviso do alerta não serviu para Osiel. “Ele veio correndo e bateu na minha carreta, que até foi empurrada para frente com a batida. Infelizmente ele foi imprudente”, comenta. Imprudência do motorista ferido. Ao colidir com a carreta, o caminhão de frente achatada, teve seu pára-brisa quebrado e motor esmagado. De acordo com relatos dos Bombeiros, o painel recuou prensando as pernas dele. Osiel teve seu pescoço imobilizado durante a ação de socorro, contudo, os Bombeiros só souberam confirmar, no momento da retirada, ferimentos nos membros inferiores. Caminhão prensou as pernas do motorista, que ficou ferido. Episódio Principal Consequências 77 Ele foi encaminhado para o Hospital Regional de Betim. Fonte: Composto pela autora. Com temas e um esquema identificados na versão final da webnotícia, voltamos à publicação do caso 1. Começamos a análise por sua versão inicial, online às 10h55. De acordo com a Manchete e a Manchete secundária podemos identificar que os temas designados principais, mais importantes da estrutura temática dessa versão da webnotícia, são: “ferido em acidente” e “trânsito lento em consequência do acidente”. Observe-se que toda a produção do corpo da notícia, dividida em três parágrafos, é basicamente o que se designa lead. Tematicamente, o primeiro parágrafo começa compatível ao que foi selecionado como mais relevante, o caminhoneiro ferido. A consequência mais importante (motorista ferido), seguida de alguns detalhes (quando e onde), que sucedem a menção global do evento (como) e o fechamento com as condições/causas do acontecimento, além de uma consequência secundária, compõem a estrutura temática. Destacamos alguns recursos exclusivos da web na organização da página da notícia, mas que não interferem diretamente na sua estrutura global, o link “Saiba mais...” relaciona a webnotícia a outra de conteúdo semelhante, também um acidente com ferido e trânsito lento. A página traz ainda um aviso ao leitor: “Aguarde mais informações”, deixando entendido que o conteúdo vai mudar, ser agregado, por exemplo. Vejamos uma problematização sob um dos tópicos eleito principal, o congestionamento, um alerta de momento, factual, que aparece como Manchete secundária, porém é o último tema a ser desenvolvido. Esse é o tipo de abordagem, praticamente, impossível ao jornal impresso, sendo um caso específico da web. Mas observe que, quando o congestionamento é eleito Manchete secundária, ele recebe uma função global e uma indicação hierárquica dentro do esquema da notícia que ele consegue cumprir, já que aparece imediatamente ao desenvolvimento do tema selecionado mais importante, ou seja, considerando o tamanho e o nível de superficialidade da webnotícia, aquele seria mesmo o lugar da abordagem significativa desse tema. Segundo a relação estreita entre a estrutura temática e esquemática, conseguimos, antecipadamente, indicar fatores importantes quanto à organização dos tópicos. 78 Esquematicamente, a Manchete e o Lead assumem o topo da macroestrutura, a Manchete em destaque, com fonte maior e em bold. O Lead é distribuído entre os três parágrafos que compõem a webnotícia, ou seja, esse esquema tem apenas o Sumário, com as categorias Manchete e Lead. Até aqui a análise atentou-se à publicação do caso 1, mas ela possui mais três versões. A versão 2 acrescentou à publicação apenas o nome de outro repórter, do jornal impresso, um aviso de que a notícia passa a contar com informações apuradas por outro jornalista, provavelmente, no local do acontecimento, além de uma mensagem para acompanhar a webnotícia pelo Twitter. Esses acréscimos não trazem consequências para a estrutura global da notícia, diferentemente das versões 3 e 4, que representam uma reorganização da estrutura das versões iniciais. Entendemos que essas versões foram reestruturadas tendo como base mais informações apuradas. Elas podem ser identificadas no quadro 3, já que a versão 4 é uma atualização da 3, sem alteração na estrutura textual, adicionando apenas uma galeria de fotos. Com foto, legenda, testemunha, identificação dos envolvidos no acidente, as versões finais se estruturam segundo diferentes macroproposições, vejamos. Parte do topo da notícia é igual em todas as versões. As versões finais, porém, acrescentam uma foto com legenda, compondo mais uma Manchete Secundária. Observe-se que a localização do acidente aparece na manchete e nas primeiras versões é especificada ainda no nível superior da macroestrutura, enquanto nas versões finais essa informação é suprimida. Considerando que a localização do acidente tem uma relevância factual, entendemos que ela faz parte da generalização do que é principal e importante sobre o acontecimento, ou seja, espera-se que essa relevância seja parte do conteúdo a ser desenvolvido pela webnotícia. O testemunho que revela um ponto fundamental sobre o contexto e a motivação do acontecimento, a imprudência do motorista, sendo também um relato do evento, não “pode” ser considerado ao estruturar as primeiras versões da notícia. Além disso, as divulgações estão ancoradas em fontes distintas: a publicação é baseada em informações da Polícia Rodoviária 79 Federal, enquanto a versão 4 é baseada nos dados dos Bombeiros e do Resgate Auto Pista, sem coexistirem. Faz-se interessante observar que o texto da versão 1 foi desenvolvido conforme o critério de relevância descrito para o desenvolvimento de temas por van Dijk: consequências – evento – condições. Enquanto avaliamos que a organização temática de cima pra baixo, do mais importante para o menos importante, se desestrutura nas versões 3 e 4. Os temas eleitos principais, compondo a manchete, não são desenvolvidos como tal no restante da produção do topo da macroestrutura. A organização hierárquica das categorias esquemáticas é compatível com a esperada (com base em van Dijk), mas a organização de temas é regida por outros critérios. O Lead tem uma organização cronológica do acontecimento, assim como a disposição dos relatos da testemunha ocular, que prioriza a sequência dos fatos na ordem dos acontecimentos, enquanto esperava-se relatar primeiro as consequências e, depois, as causas, destacando o mais importante. Essa estruturação se dá ao aprofundamento da apuração dos dados. Já se tinha a informação de que uma retenção tinha causado o acidente, mas depois de novos detalhes apurados, ela passou a ser um dos eventos condicionantes e principais para o acontecimento, ganhando a abertura da produção do corpo da webnotícia. Apesar de não ter se construído uma nova manchete com essa indicação. O último parágrafo, com as consequências do acidente, organiza-se priorizando detalhes do evento e, depois, as consequências e suas especificidades. Alguns erros, que, supostamente, associamos à demanda pela instantaneidade, foram identificados na publicação e ainda na versão final, ou seja, sem serem corrigidos nas atualizações. Exemplo, na última versão, localizamos “pista alerta”, mas esse recurso de um veículo se chama “pisca alerta”. Ainda analisando o caso 1, mas sob a versão do O TEMPO Online, partimos para a apresentação do caso 1a e sua análise: 80 FIGURA 8 - Caso 1a: publicação da webnotícia Fonte: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=137768,NOT&IdCanal= 81 FIGURA 9 - Caso 1a: versão 2 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online FIGURA 10 - Caso 1a: versão 3 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online 82 QUADRO 4 Estrutura Global da webnotícia (caso 1a, versão 3) Texto da webnotícia Caminhões batem e uma pessoa fica ferida na BR-381, em Betim Uma pesoa ficou ferida nesta segunda-feira (12) após um acidente na BR-381, na altura de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com o Corpo de Bombeiros o acidente envolveu dois caminhões, no bairro Jardim Petrópolis, perto da antiga barreira da polícia no sentido São Paulo. O motorista do caminhão que bateu na traseira do outro veículo ficou com as pernas presas e precisou ser socorrido pelos bombeiros. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, até às 16h o trânsito ainda era lento no local, em ambos os sentidos. Tópicos Batida com ferido em Betim Um ferido em acidente entre dois caminhões. Motorista teve as pernas prensadas e foi socorrido. Trânsito lento em consequência do acidente. Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Sumário: Lead Episódio Principal: Evento Consequências (secundária) Fonte: Composto pela autora. A publicação do caso 1a foi divulgada às 11h05, quando se tinha basicamente a composição de um lead, sem o porquê do acontecimento. A batida, o ferido e o local do acidente compõem a manchete dessa webnotícia, em uma organização em que a causa é relatada antes das consequências. Já o lead abre a produção do texto da webnotícia com a consequência, seguida da causa, das propriedades do evento, tempo, lugar e suas circunstâncias. Após o fim da webnotícia, um alerta de “aguarde mais informações”. A versão 2 do caso 1a não informa quando foi atualizada, mas traz diferentes informações para a sua organização temática. O lead é parcialmente reorganizado, acrescentando uma referência sobre a localização do acidente e separando um parágrafo para a apresentação do evento. O último parágrafo traz uma nova informação, o trânsito lento no local em consequência do acidente. O alerta para aguardar mais informações permanece. A última versão é atualizada às 16 horas, informação que substitui o alerta de “aguarde mais informações”. Nesta versão, em comparação com a versão 2, é possível observar a correção de um erro gramatical, a troca do artigo “A” por “Segundo” e a reestruturação da 83 última frase da webnotícia, atualizando a informação anterior. Porém, um erro ortográfico segue da primeira à última versão. A palavra pessoa está grafada como “pesoa” em todas as versões da webnotícia. E ainda, mesmo depois das atualizações de conteúdo, não se contemplou o porque do acidente (o qual sabemos segundo a versão do Portal Uai). As categorias do esquema se resumem, superficialmente, também no caso 1a, em Sumário – Evento – Consequências, hierarquicamente organizadas pela relevância. A Manchete é grafada em bold e em fonte maior do que a usada no restante do texto, posicionada no topo da webnotícia. O Lead ocupa parte do topo da página, contemplando as macroproposições mais importantes. O Evento e as Consequências (secundária), categorias com tópicos de nível inferior, fecham a organização. Partimos agora para o caso 2, um assalto a uma lanchonete. A seguir as versões dessa webnotícia no Portal Uai. FIGURA 11 - Caso 2: publicação da webnotícia Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2011/12/20/interna_gerais,268414/assaltantesinvadem-lanchonete-na-cristiano-machado.shtml 84 FIGURA 12 - Caso 2: versão 2 da webnotícia Fonte: Portal Uai QUADRO 5 Estrutura Global da webnotícia (caso 2, versão 2) Texto da webnotícia Assaltantes invadem lanchonete na Cristiano Machado O grupo levou um malote com dinheiro do caixa. Um dos assaltantes usava uniforme da Polícia Civil Quatro homens armados assaltaram o Habibs na Avenida Cristiano Machado, no Bairro Cidade Nova na Região Nordeste de Belo Horizonte. Eles invadiram a loja na manhã dessa terçafeira. Segundo informações de militares, o grupo rendeu e prendeu os funcionário dentro do escritório do estabelecimento. Em seguida, os homens levaram um malote Tópicos Invasão à lanchonete (Manchete principal) Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Grupo rouba dinheiro e um dos assaltantes usava uniforme da polícia (Manchete secundária) Homens assaltam lanchonete e rendem funcionários Sumário: Lead Assaltantes levam 85 fechado com todo o dinheiro do caixa. O grupo fugiu de carro o em direção ao Centro da capital. Os suspeitos do crime não foram localizado. De acordo com as vítimas, um dos homens estaria com uma camisa preta onde estava escrito Polícia Civil. Não há estimativa da quantia levada pelos assaltantes. dinheiro do caixa e fogem. Episódio Principal: Evento Vítimas contam que viram assaltante com camisa da polícia. A quantia levada não foi contabilizada. Fonte: Composto pela autora. As versões dessa webnotícia têm o mesmo conteúdo e estrutura global, as mudanças são quanto aos erros de digitação, que foram corrigidos, apesar de essa retificação não englobar todos os erros, como alguns de concordância, indicados pelas setas vermelhas. Quanto à estrutura temática, temos como tema principal a invasão dos assaltantes à lanchonete na Cristiano Machado, uma avenida de Belo Horizonte. A manchete secundária traz a consequência e as propriedades dos personagens principais do acontecimento. A webnotícia é divida em dois parágrafos, um dando continuidade ao outro, como se constituíssem um único parágrafo. O lead abre com detalhes do tema eleito principal e o lugar do acontecimento, a ação principal é seguida das suas propriedades (quando e como). As consequências aparecem apenas no segundo parágrafo, relatando o roubo, a fuga e detalhes da ação. O esquema é composto pelo Sumário e o relato do evento, com a sequência: Manchete – Lead – Evento. A Manchete, no topo da webnotícia, aparece destacada, sumarizando parte da informação principal sobre o acontecimento. As categorias estão em posição hierárquica convencional, mas a forma de organização dos seus temas é ora por relevância, ora na ordem cronológica dos acontecimentos. Um exemplo, o primeiro parágrafo tem parte organizada por relevância (assalto – invasão), já o último tem parte em ordem cronológica dos acontecimentos (roubam o dinheiro – foge – não são localizados). Vejamos a publicação dessa webnotícia no portal O TEMPO Online. Observe que ela não teve versões, apenas a publicação, às 12h29. 86 FIGURA 13 - Caso 2a: publicação da webnotícia Fonte: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=138489,NOT&IdCanal= QUADRO 6 Estrutura Global da webnotícia (caso 2a) Texto da webnotícia Dupla invade famosa rede de fast food, rende funcionários e foge levando mais de mil reais em BH A polícia de Belo Horizonte está à procura de dois suspeitos que armados e encapuzados invadiram uma loja de uma famosa rede de fast food no bairro Cidade Nova, na região Nordeste de BH, renderam funcionários e fugiram levando mais de mil reais em dinheiro nesta terça-feira (20). De acordo com a polícia, os funcionários contaram que foram ameaçados e trancados no escritório do local. Apesar do susto, ninguém se Tópicos Categorias Esquemáticas Invasão à lanchonete, com roubo e funcionários rendidos (Manchete principal) Sumário: Manchete Polícia procura assaltantes de rede fast food Sumário: Lead Vítimas foram rendidas Episódio Principal: Evento 87 feriu. Patrulhamento é feito pela cidade, mas não há pistas do paradeiro dos suspeitos. Há a hipótese de que outras pessoas estejam envolvidas no assalto e auxiliaram na fuga, mas tal fato ainda não foi confirmado. Suspeitos procurados podem ter tido fuga facilitada Episódio Principal: Reações A Equipe do Portal O TEMPO Online tentou entrar em contato com a loja, mas não conseguiu contactar nenhum responsável. Tentativa de falar com a loja assaltada Comentários Fonte: Composto pela autora. A Manchete é ampla, elege a ação principal, detalhes da ação e as consequências como os temas principais. O Lead prioriza a procura dos suspeitos de assaltar a loja, os participantes, modo da ação, propriedades do evento, local e tempo e entre eles a consequência do acontecimento. A informação da procura dos assaltantes pode ser mais relevante e ocupar o lugar de outras mais importantes, considerando a emergência de encontrar os suspeitos. O segundo parágrafo desenvolve o tema sobre a ação de um evento do episódio principal, os funcionários rendidos. Esse tema foi destacado na manchete e traz o relato de testemunhas segundo a polícia. O parágrafo seguinte representa a apresentação fragmentada de um tema, comum aos discursos jornalísticos, como ressaltado na fundamentação teórica. Ele detalha a procura aos suspeitos, tópico já citado anteriormente. A estrutura temática desenvolve ainda um parágrafo que contempla o comentário da equipe de jornalismo do portal, ressaltando ter procurado a loja para mais informações, porém sem sucesso. Uma tentativa, consideramos, de justificar a falta de detalhes do evento e suas consequências. Ao explicar o desenvolvimento das macroestruturas, aqui, expomos também a ordem das categorias compostas por esses temas, ou seja, o esquema da webnotícia. Sumário, com Manchete e Lead, um Evento do Episódio Principal, Reações vindas desse Episódio e um Comentário jornalístico sobre a dificuldade para conseguir uma informação. De modo geral, os temas que compõem essas categorias estão organizados pelos acontecimentos, seguido de seus antecedentes. 88 O caso 3 é uma webnotícia maior, que desenvolve mais categorias e versões no Portal Uai, vejamos. FIGURA 14 - Caso 3: publicação da webnotícia Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/01/04/interna_gerais,270647/bombeirosencontram-segundo-corpo-soterrado-em-ouro-preto.shtml 89 FIGURA 15 - Caso 3: versão 2 da webnotícia Fonte: Portal Uai 90 FIGURA 16 - Caso 3: versão 3 da webnotícia Fonte: Portal Uai 91 FIGURA 17 - Caso 3: versão 4 da webnotícia Fonte: Portal Uai 92 FIGURA 18 - Caso 3: versão 5 da webnotícia Fonte: Portal Uai 93 QUADRO 7 Estrutura Global da webnotícia (caso 3, versão 5) Texto da webnotícia Tópicos Categorias Esquemáticas Bombeiros encontram segundo corpo soterrado em Ouro Preto Encontro do segundo corpo soterrado (Manchete principal) Os militares ainda não confirmaram se é do taxista que estava desaparecido Não confirmam se vítima é um taxista (Manchete secundária) Bombeiros utilizaram retroescavadeiras para retirar a terra de cima do veículo Trabalho de resgate dos Bombeiros (Manchete secundária) O Corpo de Bombeiros conseguiu chegar na tarde desta quarta-feira no segundo carro que ficou soterrado no desabamento em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais. Os militares confirmaram que o corpo do taxista Denílson Maciel Araújo, de 26 anos, que estava desaparecido, estava lá dentro. Com mais uma morte, já chega a seis o número de vítimas da chuva. Encontrado soterrado o corpo do taxista que estava desaparecido Sumário: Lead Outro corpo, soterrado em decorrência do deslizamento, já tinha sido encontrado. Eventos Prévios Consequências da chuva. Consequências No fim da tarde de terça-feira o corpo do taxista Juliano Alves, 28, foi retirado do carro, que estava sob os escombros. Um deslizamento de terra no Morro do Piolho atingiu o terminal na madrugada de ontem e deixou um rastro de destruição. A terra invadiu a rodoviária e fechou a Rua Padre Rolim, na entrada da cidade histórica. De acordo com a prefeitura da cidade, houve 168 deslizamentos no município. Oito residências foram parcialmente atingidas e duas completamente destruídas. Outras seis casas ainda correm risco de desabar. Sete famílias foram incluídas no aluguel social, 67 estão desabrigadas e 52 desalojadas. Nos últimos anos, a chuva vem aumentando gradativamente na cidade. Em 2010, choveu 1.523 milímetros e, em 2011, 1859 milímetros. Somente neste início de mês foi registrado um acumulado de 208 milímetros. A previsão para janeiro é de 260 mm. Histórico de chuvas local. Sumário: Manchete (secundárias – de um Evento Prévio) Background: História Mais vítimas 94 O número de mortes ainda pode aumentar. Estão sendo procurados Rita Vieira de Souza, que foi arrastada pela água do Córrego dos Bambus, em Santo Antônio do Rio Abaixo, e Genésio Cândido Martins Filho, 42, levado pela correnteza em Guidoval. Outro homem morreu em Ponte Nova, na Zona da Mata de Minas. De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura da cidade, Diego Tuler Vieira, de 27 anos, saiu de sua casa no Bairro Copacabana para pedir ajuda, já que a mãe e a irmã estavam ilhadas na residência. Ao subir em um parapeito às margens do Rio Piranga, o homem encostou em uma luminária, levou um choque e caiu. Ele ficou preso por um tempo, até a água levá-lo. Ainda pode ter mais vítimas. Circunstâncias: Eventos Anteriores e Contexto Mais uma vítima ainda não encontrada. A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) de Belo Horizonte considera também como vítima da chuva o motociclista que foi atingido por um fio de alta tensão durante um temporal na capital, no dia 11 de outubro de 2011. Relato de outra vítima da chuva. No estado, 53 municípios decretaram situação de emergência. Mais de 9 mil pessoas estão desalojadas e 2.121.144 foram afetadas pela chuva. Consequências da chuva para o Estado. Fonte: Composto pela autora. A estrutura temática do caso 3, a partir da versão 5, prioriza os temas: corpo encontrado pelos Bombeiros e falta de confirmação se o corpo é de um taxista desaparecido. A legenda ilustra a foto, explicando o modo de operação de resgate dos Bombeiros. Quando partimos para o desenvolvimento do Lead, ainda no topo da macroestrutura, observamos uma distorção em relação à Manchete secundária. O Lead, construído pela ação principal, suas consequências e personagens, além de uma indicação de que esse é um evento desdobrado de um acontecimento anterior, traz a informação de que o corpo encontrado é do taxista desaparecido, enquanto a manchete secundária alega que não há a confirmação desse fato. O parágrafo seguinte apresenta um evento anterior e começa a ativar o modelo de situação, que é complementado por uma galeria de imagens e os links organizados pelo box 95 “Saiba mais...”. Em seguida, temos detalhes da situação de momento e consequências secundárias mais gerais. Um relato histórico organiza uma referência sobre a dimensão do acontecimento atual. A partir do inter-título “Mais vítimas”, desenvolvem-se eventos anteriores que compõem parte das circunstâncias do contexto do evento atual, como a procura por mais vítimas, o relato de outra vítima da chuva e as consequências da chuva para o estado. Todos esses temas, de modo particular, compõem as categorias do esquema, organizadas hierarquicamente assim: Sumário (Manchete e Lead) – Eventos prévios – Consequências (secundárias) – História – Circunstâncias. Essas categorias têm organização priorizando acontecimentos e, então, seus antecedentes. Voltemos às primeiras versões para tentar identificar o problema da distorção entre a manchete secundária e o conteúdo da webnotícia. Observe-se que a publicação do caso 3 informa, também no lead da notícia, que o corpo não tinha sido identificado como sendo do taxista desaparecido. Essa informação se repete da publicação à versão 4. Considerando ainda as atualizações, identificamos que a partir da versão 2, acrescenta-se ao lead uma informação contextual, que indica que o evento é um desdobramento de outro anterior. Inclui-se também o link para uma galeria de fotos, o box com links nomeados, o “Saiba mais...”, além de outros dois parágrafos, um com consequências (secundárias) e o outro com dados históricos. Corrigiu-se um erro de concordância na primeira frase. A versão 3 não acrescentou novas informações, fez apenas algumas correções no texto, como uma vírgula, tirou palavras, consertou o tempo verbal de uma frase do lead que dizia que o taxista estava desaparecido, porque ele ainda estava, no caso era “está”. Apesar dessa correção não ter se estendido à manchete secundária, que apresentou o mesmo problema em todas as versões. A versão 4 acrescenta algumas circunstâncias, além de uma foto e a sua legenda, no topo da webnotícia. Entendemos, então, que a webnotícia foi agregando informações às categorias, de acordo com novos dados apurados, mas não reestruturou sua estrutura temática, proporcionando a distorção entre o Lead e a Manchete secundária. Observa-se ainda uma organização do lead 96 que não prioriza o mais recente, no caso, a identificação de que o corpo era do taxista. As categorias são as mesmas, cabendo o mesmo esquema, mas o sentido dos temas é alterado, o que, acreditamos, demandar uma reestruturação da macroestrutura, não identificada. 97 FIGURA 19 - Caso 3a: publicação da webnotícia Fonte: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=139746,NOT&IdCanal= 98 FIGURA 20 - Caso 3a: versão 2 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online 99 QUADRO 8 Estrutura Global da webnotícia (caso 3a, versão 2) Texto da webnotícia Tópicos Bombeiros encontram corpo de segundo taxista soterrado em Ouro Preto Corpo de taxista soterrado é encontrado (Manchete principal) Carro da vítima foi localizado em meio aos escombros (legenda – foto) Nesta quarta-feira (3), o Corpo de Bombeiros retirou o segundo corpo soterrado em Ouro Preto, na região Central de Minas, depois que o Morro do Piolho, que fica no centro da cidade, desmoronou e invadiu a rodoviária. O taxista é a sexta vítima oficial das chuvas em Minas. Por volta das 15h, o carro dele foi localizado em meio aos escombros. O homem, de 25 anos, estava dentro de um veículo Gol, completamente destruído. Os militares chegaram ao carro pelo teto e, para ter acesso ao corpo, foi preciso cortar a lataria do veículo. O governador Antonio Anastasia está em Ouro Preto, acompanhando os trabalhos. Mais cedo, ele o vice-governador Alberto Pinto Coelho visitaram cidades da Zona da Mata atingidas pelas chuvas, nos últimos dias. O governador esteve em Ubá, Guidoval, Dona Euzébia e Muriaé. O vice-governador visitará Visconde do Rio Branco e Cataguases. Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Carro localizado (Manchete secundária) Corpo de Bombeiros resgata vítima de soterramento Como foi feito o resgate do corpo. Ações dos políticos quanto às consequências das chuvas Sumário: Lead Episódio Principal: Evento Episódio Principal: Reações Tragédia O táxi em que as vítimas estavam ficaram cobertos pela lama e estavam estacionados em um ponto de táxi localizado na frente da rodoviária do município. O terminal, que parte desabou, foi tomado pelo grande volume de terra. A lama também interditou por completo a rua Padre Rolim, que é a principal rua da cidade e onde um hotel e uma casa também foram atingidos. As buscas pela vítima foram iniciadas na madrugada dessa terça-feira, logo depois que grande parte do Morro do Piolho desmoronou sobre a rodoviária da cidade. Após mais de 18h de trabalho, o Corpo de Bombeiros retirou o corpo de um taxista. A vítima, de 28 anos, foi encontrada dentro de um táxi com placas da cidade e que, na hora do deslizamento de terra, estava estacionado na frente do terminal, que Lama soterra táxi e causa estragos na cidade Eventos Anteriores O trabalho de buscas ao taxista Eventos Anteriores 100 parte desabou. O corpo do taxista foi levado para o Instituto Médico Legal (IML) de Ouro Preto. Fonte: Composto pela autora. Na versão 2, caso 3a, a Manchete, a Manchete Secundária (legenda da foto) e o Lead selecionam o encontro do corpo do taxista como o tema principal da estrutura temática. O Lead traz as ações principais do acontecimento e o contextualiza. O parágrafo seguinte aborda propriedades do evento, com tempo, localização e circunstâncias do resgate. A terceira unidade temática desenvolve as reações políticas ao evento. A partir do subtítulo “Tragédia”, o modelo de situação é ativado, detalhando os acontecimentos anteriores. A webnotícia é encerrada com uma galeria de fotos, que reforça o modelo de situação, além das opções para acessar outras notícias relacionadas ao assunto. O esquema é composto por categorias organizadas, hierarquicamente, assim: Sumário (Manchete e Lead) – Episódio Principal (Evento) – Episódio Principal (Reações) – Eventos Anteriores. A Manchete está destacada, com fonte em bold e maior. As categorias têm temas ordenados por acontecimento e após os seus antecedentes. A versão analisada é uma atualização da publicação, divulgada 48 minutos antes, quando ainda não se tinha a informação de que o corpo encontrado era do taxista. Pudemos identificar que a atualização representou a mudança da estrutura global dessa webnotícia. O tema principal era o carro soterrado que foi encontrado e o Lead trazia a informação de que o carro era do taxista desaparecido. O evento principal estava mais voltado ao trabalho de busca, enquanto na última versão o foco era como foram encontrados o carro e o corpo. A categoria reações não é contemplada. O relato dos detalhes da ação principal, quais recursos seriam usados nas buscas, é um tema abordado na primeira versão e que deixa de ser relevante quando já se encontrou o corpo, sendo, portanto, suprimido na versão 2. Identificamos assim uma reestruturação temática e esquemática dessa webnotícia. O caso 4 é publicado às 15h22, no Portal Uai, noticiando a reação a um assalto. A seguir, o exemplo. 101 FIGURA 21 - Caso 4: publicação da webnotícia Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/01/12/interna_gerais,272032/dono-deoficina-reage-a-assalto-e-leva-quatro-tiros-em-contagem.shtml FIGURA 22 - Caso 4: versão 2 da webnotícia Fonte: Portal Uai 102 QUADRO 9 Estrutura Global da webnotícia (caso 4, versão 2) Texto da webnotícia Dono de oficina reage a assalto e leva quatro tiros em Contagem O homem foi socorrido e encaminhado para o Hospital Municipal de Contagem. Os suspeitos não foram presos O dono de um oficina mecânica foi baleado durante uma tentativa de assalto na manhã desta quinta-feira, no Bairro Canadá, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ricardo de Jesus Mendes, de 35 anos, levou quatro tiros e foi socorrido para o Hospital Municipal de Contagem, onde segue internado. De acordo com a Polícia Militar, dois homens entraram na oficina armados com um revólver e anunciaram o assalto. Ricardo começou a discutir com os suspeitos e acabou entrando em luta corporal com um deles. Os homens reagiram e atiraram cinco vezes contra o dono do estabelecimento. Tópicos Reage a assalto e é baleado (Manchete principal) Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Baleado é socorrido e suspeitos fugiram (Manchete secundária) Dono de oficina é baleado durante assalto Vítima reage ao assalto e é baleado A vítima levou dois tiros no abdômen, um nas costas e outro no braço. Ela foi socorrida por um funcionário da oficina e encaminhada para o hospital. Baleado é socorrido Ricardo afirmou aos militares que os suspeitos fugiram em um veículo cor prata, que estava parado na Rua Almerinda da Costa Ribeiro. A dupla ainda não foi encontrada. Suspeitos fugiram e não foram encontrados Sumário: Lead Episódio Principal: Evento Consequências Evento (secundários) Fonte: Composto pela autora. Ordenando causa e consequência, a Manchete da versão 2 elege a reação ao assalto e os tiros como o mais relevante da webnotícia. A manchete secundária aborda o socorro à vítima e a fuga dos suspeitos como outros temas importantes. O Lead sumariza o acontecimento e os parágrafos seguintes trazem alguns dos seus detalhes. 103 O evento principal é desenvolvido no segundo parágrafo, trazendo a ação principal, contada na ordem cronológica dos fatos, segundo relato da Polícia Militar. As consequências priorizam os detalhes da ação principal e o socorro à vítima. A webnotícia fecha sua produção com informações dos personagens principais, que fugiram. O esquema organiza o discurso pela Manchete, em destaque, Manchetes Secundárias, Lead, Episódio Principal, Consequências e Evento, em uma apresentação fragmentada. Essas categorias são ordenadas, hierarquicamente, por sua relevância. Elas são organizações regidas ora por uma sequência cronológica, ora priorizando os acontecimentos e depois os antecedentes. A publicação do caso, em relação à versão 2, tem pequenas diferenças pontuais, sem interferir na estrutura global da webnotícia. Um erro é observado nas duas versões, o artigo “um” é usado no lugar do “uma”, no começo da primeira sentença do texto. Vamos observar como o O TEMPO Online trabalha esse acontecimento. 104 FIGURA 23 - Caso 4a: publicação da webnotícia Fonte: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=140578,NOT&IdCanal= 105 FIGURA 24 - Caso 4a: versão 2 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online 106 FIGURA 25 - Caso 4a: versão 3 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online QUADRO 10 Estrutura Global da webnotícia (caso 4a, versão 3) Texto da webnotícia Dono de oficina mecânica reage a assalto e é baleado em Contagem O proprietário de uma oficina mecânica, de 35 anos, foi baleado, na tarde desta quinta-feira (12), ao reagir a um assalto. A loja fica na rua Almerinda da Costa Ribeiro, no bairro Canadá, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com militares do 18º batalhão, os assaltantes invadiram a loja e, após anunciarem o assalto, dispararam quatro vezes contra a Tópicos Reage a assalto e é baleado (Manchete principal) Dono de oficina baleado ao reagir a assalto Assaltantes invadiram a loja e atiraram contra Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Sumário: Lead Episódio Principal: Evento 107 vítima. Conforme a PM, o homem teria reagido ao assalto. Depois do crime, os assaltantes fugiram em um carro prata e, até às 15h, ainda estavam foragidos. Os militares não souberam informar se algo foi levado da oficina. Conforme a polícia, a vítima foi socorrida e levada para o Hospital Municipal de Contagem, onde passa por cirurgia. Ela foi atingida por dois tiros no abdômen, um nas costas e outro no braço. a vítima que reagiu Evento Assaltantes fugiram (secundário) Consequências Vítima ferida e socorrida Fonte: Composto pela autora. O dono de uma oficina mecânica baleado ao reagir a um assalto é o mais importante desse caso, na versão 3, segundo sua Manchete. O Lead resume esse evento, porém com um aspecto destoante, o local do assalto é chamado de oficina na manchete e de loja no lead. Há ainda a identificação do personagem principal e detalhes da localização do evento. O segundo parágrafo desenvolve a ação principal, segundo relato da Polícia, em sua ordem cronológica dos acontecimentos. O parágrafo seguinte continua detalhando o evento, porém descrevendo a ação dos participantes, que fugiram. A webnotícia fecha a estrutura temática com o relato, fragmentado, das consequências. O esquema da webnotícia a organiza segundo as seguintes categorias: Manchete, Lead, Evento e Consequências. Observando as duas versões iniciais da webnotícia, é possível identificar que a informação sobre o “quem” do acontecimento é diferente em cada versão. A primeira versão afirma que o gerente de uma concessionária reagiu ao assalto, na segunda ele é gerente de uma oficina mecânica, quando a Manchete também é atualizada, passando de “loja” para “oficina”, mas essa informação não é atualizada na segunda sentença do texto, o que permanece até a última versão. A versão final traz a informação de que a vítima é o proprietário da oficina, quando a Manchete é atualizada mais uma vez. Considerando que a identificação de um dos personagens principais é uma importante atribuição de sentido global, essas atualizações são expressivas para o conteúdo/definição de um tema e do seu significado para a webnotícia. 108 Partimos para o último caso dessa análise, quando a divulgação do Portal Uai conta com nove versões, apresentadas a seguir. FIGURA 26 - Caso 5: publicação da webnotícia Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/01/20/interna_gerais,273481/presos-tressuspeitos-de-matar-policial-civil-durante-troca-de-tiros-em-contagem.shtml FIGURA 27 - Caso 5: versão 2 da webnotícia Fonte: Portal Uai FIGURA 28 - Caso 5: versão 3 da webnotícia Fonte: Portal Uai 109 FIGURA 29 - Caso 5: versão 4 da webnotícia Fonte: Portal Uai FIGURA 30 - Caso 5: versão 5 da webnotícia Fonte: Portal Uai 110 FIGURA 31 - Caso 5: versão 6 da webnotícia Fonte: Portal Uai FIGURA 32 - Caso 5: versão 7 da webnotícia Fonte: Portal Uai 111 FIGURA 33 - Caso 5: versão 8 da webnotícia Fonte: Portal Uai FIGURA 34 - Caso 5: versão 9 da webnotícia Fonte: Portal Uai 112 QUADRO 11 Estrutura Global da webnotícia (caso 5, versão 9) Texto da webnotícia Tópicos Presos três suspeitos de matar policial civil durante troca de tiros em Contagem Presos suspeitos de matar um policial (Manchete principal) Um quarto suspeito acabou morrendo Um suspeito morreu (Manchete secundária) Três pessoas foram presas na tarde desta sextafeira, suspeitas de matar um investigador da Polícia Civil durante uma troca de tiros na Vila São Paulo, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Um quarto suspeito morreu. Uma moradora da região foi baleada durante o tiroteio. Três presos e um morto suspeitos de matar um investigador. Uma moradora foi baleada De acordo com a Polícia Civil, uma equipe da delegacia antidrogas fazia uma operação no local para tentar apreender uma carga de 10 quilos de drogas que chegaria para traficantes da região. Quando estavam em um beco, os policiais foram surpreendidos pelos suspeitos, que dispararam várias vezes. Houve troca de tiros e um detetive acabou baleado. Ele foi socorrido e encaminhado para o Hospital Santa Rita, no Barreiro, mas não resistiu. O agente foi identificado como Sérgio Barbosa Toledo, conhecido como Serjão. Uma moradora da região também se feriu e foi encaminhada para um hospital. A ocorrência mobilizou várias equipes da Polícia Civil. Até mesmo agentes à paisana, que estavam de folga, foram para o local ajudar nas buscas pelos bandidos. A Polícia Civil informou que vai passar mais detalhes durante uma coletiva, que deve ser realizada ainda nesta sexta-feira. Detetive baleado durante troca de tiros Detetive morto e moradora ferida socorridos Policiais se mobilizaram para procurar os suspeitos Polícia vai fornecer mais informações sobre o caso Categorias Esquemáticas Sumário: Manchete Sumário: Lead Eventos Anteriores Consequências Reações (eventos anteriores) Reações Fonte: Composto pela autora. O caso 5, em sua nona versão, elege como temas mais relevantes: a prisão dos suspeitos de matar um policial e a morte de um dos suspeitos desse acontecimento. A sua produção de 113 topo continua com o Lead, que desenvolve os tópicos principais indicados nas Manchetes, sumarizando o acontecimento ao relatar a consequência seguida do evento. Observamos, contudo, que a produção restante da webnotícia é composta por categorias referentes ao evento anterior do eleito como tema principal. O segundo parágrafo relata as ações principais do evento anterior, em ordem cronológica dos acontecimentos, de acordo com o relato da Polícia Civil. As consequências desse evento anterior são o tema do parágrafo seguinte, com detalhes do evento sucedendo sua menção global. A seguir, temos a mobilização dos policiais como tema, uma reação ao acontecimento (anterior). O fechamento da webnotícia é a promessa de uma fonte quanto à divulgação de mais detalhes do evento. O esquema do discurso é organizado nas seguintes categorias, hierarquicamente, por sua importância: Manchete – Manchete Secundária – Lead – Eventos Anteriores – Consequências – Reações (eventos anteriores) – Reações (eventos). Analisando as versões anteriores é possível identificar por que a abordagem acima esteve mais voltada ao evento anterior do que ao evento principal. Vamos acompanhar as atualizações e mudanças estruturais das versões desse caso. A publicação tem como tema principal, expresso na sua Manchete, um policial baleado (ainda não se tinha a informação da sua morte), a webnotícia é basicamente o Lead, construído com informações repetidas e com um desenvolvimento confuso, sem a motivação, o “porquê” do acontecimento. Alguns minutos depois, na versão 2, o Lead é reorganizado, tirando a repetição de informações e acrescentado alguns detalhes da ação principal. Após 5 minutos, em uma nova versão, o Lead acrescenta a informação de que o policial baleado morreu (essa informação não é atualizada na manchete). Mais 5 minutos depois, acrescenta-se ao Lead que o policial passou por uma avaliação médica antes de se constatar sua morte. A versão seguinte, publicada 6 minutos depois, identifica o personagem principal pelo seu nome e o Lead é dividido, separando a informação da sua morte e a identidade do policial. A versão 7 acrescenta, no fim da produção, a reação de polícias ao acontecimento, que se mobilizaram para encontrar os suspeitos. 114 Às 14h22, o Lead é reestruturado, com mais informações apuradas, partindo das informações da polícia, sumarizando o evento em sua ordem cronológica, explicando ainda qual significado se atribui à “ocorrência”, presente em todas as versões da webnotícia de modo genérico. No fim da página, incluiu-se o nome do jornalista que contribui com as novas apurações, além da adição de uma manchete secundária com o “como” do acontecimento, que indica que a troca de tiros acontece enquanto os suspeitos são flagrados assaltando uma empresa. Essa informação é reafirmada no Lead. Observe, porém, que a atualização feita 14 minutos depois, com a contribuição de um repórter do jornal Aqui Betim, traz informações diferentes, mas com a mesma manchete secundária, o que cria uma relação distorcida entre manchete e texto. Na notícia atual, a informação é de que os suspeitos já tinham roubado uma empresa e foram flagrados enquanto a polícia procurava um traficante e não mais de que eles foram flagrados em uma tentativa de assalto. A versão volta a juntar ao Lead a informação da morte do policial. Até a oitava atualização, as notícias traziam o alerta de “aguarde mais informações”. A seguir o caso 5a, que representa o acontecimento acima noticiado no portal O TEMPO Online. 115 FIGURA 35 - Caso 5a: publicação da webnotícia Fonte: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=141366,NOT&IdCanal= 116 FIGURA 36 - Caso 5a: versão 2 da webnotícia Fonte: O TEMPO Online 117 QUADRO 12 Estrutura Global da webnotícia (caso 5a, versão 2) Categorias Esquemáticas Texto da webnotícia Tópicos Policial civil morre após ser baleado em Contagem Policial morre baleado (Manchete principal) Sumário: Manchete Policial morre baleado em Contagem Sumário: Lead Um policial civil morreu após ser baleado no início da tarde desta sexta-feira (20) em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. De acordo com informações da Polícia Militar, a ocorrência foi registrada no bairro Industrial. Segundo a assessoria de imprensa da Polícai Civil, o policial chegou a ser socorrido e levado para o Hospital Santa Rita, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na unidade. O agente estava em serviço quando foi baleado. Ainda não há informações sobre circunstâncias ou motivação para o crime. as Vítima foi socorrida, mas não resistiu Faltam informações sobre o crime. Consequências Comentário Fonte: Composto pela autora. A Manchete, na versão 2, prioriza as consequências e segue com a causa, elegendo como tema principal a morte de um policial. O Lead, ainda no topo da macroestrutura, se desenvolve também sobre a organização consequência – causa, sem o “porquê” do acontecimento, que não é relatado e isso é justificado no último parágrafo. O segundo parágrafo dedica-se ao desenvolvimento dos detalhes das consequências e do personagem principal. Observamos, nesta unidade, um erro de digitação na palavra “Polícia”. Essa organização temática compõe as categorias do seguinte esquema: Manchete, destacada do restante do texto – Lead – Consequências – Comentários. Consideramos esse comunicado, que fecha o texto da webnotícia, como um comentário do jornal, que revela a falta de informações para constituir a notícia. A publicação do caso 5a apresenta outra Manchete, o policial baleado, ainda não se tinha apurado a informação da sua morte. O corpo do webnotícia tinha menos informações apuradas, mas foram organizadas considerando as mesmas prioridades e hierarquia. 118 5.1 Considerações analíticas Apresentados os dados e alguns importantes aspectos da análise, caminhamos para as repercussões desse desenvolvimento analítico. A fase inicial da análise nos permitiu reconhecer e problematizar diversos aspectos apresentados na nossa revisão da literatura, sendo que alguns fomentam nossas discussões. As webnotícias factuais estudadas se apropriam pouco dos recursos apresentados por Palacios, em 1999, quando ditou as tendências do jornalismo online brasileiro. O destaque é o uso da atualização contínua, chegando a nove versões no caso 5 do nosso corpus. O espaço ilimitado é subutilizado na maior parte dos exemplos. Os links não aparecem na composição da estrutura do texto, não identificamos uma apresentação em camadas. Em sua maioria, eles são conteúdos relacionados, mas são independentes, estão em um box, por exemplo, o “Saiba mais...”. Com exceção das fotos. Isso é justificado por Franco (2010), quando afirma que não há por que criar níveis, camadas, em uma notícia que se conseguiu apurar um conteúdo que compõe um ou poucos parágrafos. As afirmações sobre o anseio à velocidade são comprovadas, atualizações foram registradas em espaços curtos de tempo, chegando a acontecer em intervalos de 5 minutos. O caso 5 e suas versões representam a busca incessante pelo relato do momento, o baleado passa a ser o morto, passa a ser identificado pelo nome, entre outros. É o que Murad (2000) chamou de ansiedade pela presentificação. Essa ânsia pela agilidade da publicação de versões nos fez comprovar a superficialidade dos conteúdos, como apontou Nóra (2011). Vimos que no caso 1a, não havia informações suficientes para compor um lead. Por outro lado, não podemos deixar de sinalizar que links relacionados, fotos, galerias, box, entre outros são recursos que vão sendo inseridos a cada atualização,ou seja, não é uma situação extrema, nem só o que o impresso já fazia, nem algo exclusivo da web. Identificamos uma composição fragmentada, priorizando o que se acabou de apurar, mas sem desconsiderar as possibilidades de relação entre eventos, por exemplo. O caso de Ouro Preto representa bem essa afirmação: um evento no dia anterior é o que desencadeia o acontecimento atual e a webnotícia usa recursos, tecnicamente diferentes do impresso, para ativar o modelo de situação. 119 Nos cinco casos (dez exemplos) analisados, não encontramos traços de interatividade, apenas o comentário de um leitor, que não desencadeia um processo interativo, aparece no caso 2, versão 2. Ou seja, a webnotícia factual, aqui analisada, não tem espaço para um público participativo, que ajuda a construir a notícia, defendendo seus direitos e interesses. A opinião do leitor pode ser significativa, sendo uma manifestação imediata e, assim, possível apenas no espaço online, mas que não desperta nenhum processo reativo. Os estudos de Adghirni (2005) sobre o “jornalismo sentado” se revelaram fundamentais quando nos deparamos com créditos de jornais impressos, ou até de TV, identificados no topo da webnotícia. Essa identificação dos jornais/repórteres associadas às contribuições de Adghirni nos permitiu inferir que a webnotícia passa a contar com o apoio de outro jornalista, provavelmente no local dos acontecimentos, enviando fatos apurados para o jornalista “sentado” na redação do webjornal. É analisando essas indicações que se torna compreensível o que a autora chamou de publicação “conta-gotas”, exemplificada no caso 5, em que a webnotícia é construída com dados apurados da TV Alterosa e do jornal impresso Aqui Betim. Uma notícia publicada com informações ainda mal apuradas, desordenadas, consertada e organizada aos poucos, já online. É a exposição dessa fragilidade dos processos jornalísticos, com erros de conteúdo, gramaticais, ortográficos, que nos permite concordar com as aflições de autores como Lévy (2010) e Briggs (2007), cada qual à sua maneira, refletindo as consequências de um conteúdo que atende à demanda da instantaneidade, mas que enfraquece as relações de credibilidade. Não estamos dizendo que os erros não acontecem em outros suportes, ao contrário, no impresso, por exemplo, eles são perpétuos. O que queremos ressaltar é uma constatação, vinda da nossa análise, de que, apesar da disponibilidade de se reescrever uma notícia já publicada, corrigindo erros, entre outros, poucas vezes isso é feito. Afirmação comprovada em todos os casos, em pelo menos um dos webjornais. Observamos um lado que pode ser positivo na web, a acessibilidade, que não sentencia o leitor a uma condição de erro. As publicações sobre o mesmo acontecimento nos dois webjornais, considerando o processo de coleta dos dados, mostram a facilidade de acesso a assuntos semelhantes e, mais, como eles são estruturados de modos diferentes e, algumas 120 vezes, até com dados e conteúdo distintos, como o exemplo do caso 1 e 1a, em que O Tempo Online não relata a imprudência do motorista como uma das causas do acidente. As propostas de Canavilhas (2006) e Bradshaw (2007), em prol de modelos de redação que comportem a dinâmica da web, não são identificadas no corpus selecionado. O Twitter, por exemplo, que segundo o News Diamond seria o primeiro passo na divulgação de um acontecimento ainda em apuração, faz o papel inverso, liga à webnotícia já publicada. As composições estão embasadas ainda na pirâmide invertida. Destacamos que também não se observa aquele cuidado indicado por Franco (2010), quando afirma um novo estilo para a técnica, em que há preferência por palavras mais curtas ou expressivas. Unanimemente, não identificamos uma escrita de forma hipertextual, como indicou Ribas (2004), falta planejamento, organização e elaborações, afirmação comprovada, mais uma vez, no curto espaço de tempo entre as publicações. O que encontramos é algo que podemos considerar um desdobramento, uma evolução do que d’Andréa chamou de fragmentação, conteúdos agregados a cada apuração, uma composição desarticulada de um texto e do que Moraes (2004) caracterizou como uma mescla de traços dos meios, em que o canônico (impresso) ganha contornos peculiares na web. Essas considerações analíticas compõem o contexto no qual caminhamos objetivando identificar a estrutura global do texto da webnotícia. A seguir, promovemos essa discussão. 5.2 Resultados e discussão Os dados e a análise apresentados até aqui já nos permitem voltar às hipóteses que regeram esse trabalho e dizer se as refutamos ou as comprovamos. Permite-nos também algumas considerações já com teor conclusivo. O estudo do corpus de webnotícias factuais nos levou a inferir que a internet, enquanto “novo” suporte, ainda não estabeleceu uma estrutura global particular para suas notícias. Isso não quer dizer que ela seja, exatamente, a mesma da impressa e que, portanto, merece ser chamada de webnotícia. Vamos colocar essa afirmação em termos mais práticos. 121 Observemos que as categorias são ordenadas, esquematicamente, ou seja, quanto à forma do conteúdo global, como nas notícias impressas. A hierarquia das categorias continua indicando o que é mais importante, apesar de, na maior parte dos casos, a falta de categorias bem definidas dificultarem a análise da superestrutura. Identificamos um caso (versão 1, caso 1), por exemplo, em que a categoria Lead se dividia entre os parágrafos que compunham toda a notícia. Além das webnotícias produzidas com, basicamente, o Sumário (Manchetes e Lead) e o Episódio Principal. As mudanças estruturais mais expressivas estão no âmbito dos temas. O que podemos identificar é que as primeiras versões são publicadas regidas por uma organização temática semelhante à impressa, mas a cada atualização nem sempre se reestrutura essa organização de significados. Um exemplo claro é o caso 3, que atualiza a informação de que o corpo de um taxista desaparecido foi identificado, mas não a modifica na Manchete Secundária. A webnotícia recebe dados informativos que representam um novo tema, mas ela não reconsidera a eleição das suas relevâncias, o que gera distorções. Afirmamos, então, que nem sempre uma atualização representa uma nova estrutura temática. Há exceções, como o caso 3a e o caso 5. Esse último cria uma nova manchete a partir da atualização de conteúdo no Lead, mas desenvolve os tópicos de nível inferior da notícia, apenas com o evento anterior. Genericamente, observamos estruturas parciais que se confundem, casos de perda de unidade semântica e coerência global dos textos, em uma máxima de muitas versões e pouco conteúdo. O lead passa a sumarizar o que a notícia não vai desenvolver, ele é o sumário do acontecimento e não do mais importante a se ler no restante da notícia. Os temas são organizados ora por relevância, ora na ordem cronológica dos fatos, produzidos muito mais sob uma solução imediata, funcional, do que sob uma estratégia de organização de formas e significados. Há uma mescla de propriedades dos dois suportes, em uma estrutura pensada para apenas um deles. Portanto, é uma consequência não encontrar os recursos disponíveis da web em todas as webnotícias factuais. Um exemplo é o caso 5, que apesar de ter contato com a apuração de um repórter de TV, não acrescentou um vídeo sobre o acontecimento, uma “sonora” de testemunha ocular, entre outros. Presumíamos ainda uma mudança qualitativa, que se comprovou na superficialidade dos conteúdos, o que consideramos ser justificado pelo caráter factual da seção. Essa parte é 122 mesmo reservada para o que acabou de acontecer, o que está em apuração, onde a disponibilidade de espaço e recursos é subvertida pelo tempo. O alerta “Aguarde mais informações”, no fim da página de cada webnotícia, assume essa superficialidade das informações, avisa que tem mais a se noticiar. Embora supuséssemos que as notícias na web precisavam ter uma estrutura global rígida e específica para se estabelecer o que é webnotícia, a análise nos proporcionou considerar que há uma diversidade de situações e possibilidades, em um dinamismo que não cabe a uma organização fixa, como já tinha alertado Santos e Flôres (2009). Acreditamos que compete, então, à webnotícia e ao seu cenário de “parcialidades” encontrarem dinâmicas que deem conta de atualizar conteúdos sem perder o que é essencial à informação, a credibilidade e os processos de entendimento do discurso. Uma customização que já está se desenvolvendo, segundo o que se comprova nessa análise. Nesse sentido, esta pesquisa contribui para reflexões que caracterizam o que está sendo produzido enquanto notícia factual na web e na discussão do que pode e deve mudar. Registrar as atualizações, na tentativa de entender o processo de organização global da webnotícia, foi essencial para se concluir que ainda não temos uma estrutura própria das webnotícias. 123 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Quando já existe um parâmetro, quando ele é consolidado, estudado, definido como a notícia no jornal impresso, as comparações são inevitáveis e muitas vezes infundadas ou inapropriadas em relação a sua produção em um meio distinto, no caso, a notícia na web. É comum atribuir à internet um mérito que não é dela e criticar essa mídia pelo que se consolidou no impresso, por exemplo. O que buscamos aqui foi, a partir do diálogo entre as ciências da Comunicação e da Linguagem, atingir o objetivo de identificar, relativizar, analisar e refletir sobre a estrutura global do discurso jornalístico na web. Desde a introdução, o que estamos problematizando é a opção de se atualizar um conteúdo, por motivações diversas, alterar o significado de um tema, numa operação de reescrita, que muitas vezes não contempla uma (re)estrutura para essa atualização. Nosso estudo nos mostrou uma webnotícia ainda instável, isto é, não tem sua composição estruturada de um modo coerente, ainda não podemos apontar uma estrutura característica da webnotícia, o que não quer dizer, como já ressaltamos, que ela seja a mesma da impressa. Ela é uma mescla entre uma estrutura de referência, a impressa, e uma estratégia emergente, em construção. É uma obviedade concluir que, por o jornalismo ainda estar se apropriando das possibilidades do ambiente digital (e da hipermídia), este gênero (webnotícia) ainda não encontrou seu eixo. Apesar das mudanças pontuais no processo de produção e circulação da notícia, ela ainda é reconhecida como tal (impressa). Sua origem não se anulou, o que nos leva a considerar as inovações ocorridas como elementos incrementais, que talvez agregue novas características ao gênero notícia, enriquecendo o horizonte da comunicação. Das estruturas observadas à luz de van Dijk, a webnotícia aqui analisada apresenta elementos do esquema de forma mais organizada e estruturada, apesar da escassez de categorias, do que os elementos de seu tema. As consequências disso para o leitor podem ser ruins, já que ele, em alguma medida, depende das pistas textuais para tirar suas conclusões. 124 Aos jornalistas, elemento fundamental da tríade “autor-texto-leitor”, cabem o exercício e a experiência com e para a webnotícia, agregando, sugerindo, testando. Reconhecemos os limites dessa pesquisa, por tratar um corpus relativamente pequeno, se compararmos ao que van Dijk estudou, não nos possibilitando uma margem de segurança quanto às estruturas comuns. Mas o nosso foco recai sobre a estrutura factual, segundo a disponibilidade de atualizações de conteúdo que a web traz à notícia. Portanto, consideramos que o método de coleta nos permitiu a aleatoriedade necessária para alcançar a diversidade ou particularidade desse tipo de produção. Não esperávamos também que uma teoria da notícia impressa fosse o suficiente à produção web, mas a elegemos como parâmetro. Escolhemos problematizar uma opinião de van Dijk para finalizarmos, por ora, as reflexões desse estudo. Em entrevista ao jornal El Tiempo, de Bogotá, em 5 de março de 2004, van Dijk disse que a notícia é uma forma particular de construir a realidade e que o jornalismo está comprometido com as suas instituições e não com a sociedade. Apesar disso, entendemos que as instituições precisam do “consumo” dessa sociedade e isso motiva o que Leal (2002) indica como a construção de um pacto de credibilidade, desenvolvido para estabelecer um acordo de convivência com o público. A possibilidade de atualizar conteúdos e noticiar, cada vez mais, o que acabou de acontecer têm representado um diferencial e uma emergência de atenção aos processos informativos. A falta de uma estratégia de atualização tem exposto o trabalho de produção da notícia, revelando erros de conteúdo, linguagem, (re)estruturações. Cenário que nos permite inferir aspectos positivos e negativos. Por um lado, a credibilidade, ponto-chave da relação jornalista-leitor, tem, consequentemente, sua qualidade enfraquecida. Mas, positivamente, ressalta-se a transparência para a atividade jornalística que esse processo representa. Essa é uma conclusão que pode ser encontrada além dessa análise. Já observamos propostas no sentido de promover, valorizando o leitor, a credibilidade jornalística. Lembra quando, na metodologia desta pesquisa, usamos o alerta de Fragoso, Recuero e Amaral (2011) de seguir desconfiando de um objeto móvel, como esse que se coleta na web? Depois do fim da fase de construção do nosso corpus, já em maio de 2012, o Portal Uai acrescentou à página das suas webnotícias o ícone “Correção de notícias”, que acessa a janela a seguir: 125 FIGURA 37 – Correção de notícias Fonte: Portal Uai A disponibilização dessa opção leva a diversas inferências. Há uma preocupação com a credibilidade, uma recorrência de erros avisados pelos leitores por outros meios, enfim, uma tentativa de melhorar/caracterizar os processos que envolvem a webnotícia. Além disso, esse recurso pode ter uma relação direta com a estrutura da webnotícia, considerando, por exemplo, que a correção indicada seja algo relacionado a um significado, ao sentido global. Os estudos, reflexões e resultados desenvolvidos até aqui, levaram-nos a propor outro recurso, como o acima exemplificado, contribuindo para o fortalecimento dos laços de credibilidade no espaço digital, em relação à webnotícia. A proposta é inserir um campo no final da página da webnotícia em que o leitor, ao se interessar por determinado conteúdo factual, em construção (com o aviso de aguarde mais informações), possa inserir o seu endereço de email e receber cada atualização daquela webnotícia. Designando ao jornalista/jornal, mesmo que de modo automatizado, a responsabilidade de retificar e avisar alterações no conteúdo informativo. Como trabalhos futuros, sugerimos o estudo da recepção da webnotícia, como fica o processo de compreensão e a credibilidade do ponto de vista do (web)leitor. Essas propostas e sugestões de continuidade do estudo são reflexos das novas possibilidades tecnológicas, mas também a demanda de um novo contexto, em que acreditamos que a influência social recebe mais subsídios. 126 REFERÊNCIAS ABREU, Alzira Alves de. A Modernização da Imprensa (1970-2000). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. ADGHIRNI, Zélia Leal. 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