O newsmaking do caso Eloá
Hugo Renan do Nascimento, Maria Gislene Carvalho Fonseca, Maria Herbênya
Nayara Ponte Alves1
Introdução
Durante a semana, dos dias 13 a 17 do mês de outubro de 2008, uma adolescente
foi mantida em cárcere privado. Alguns amigos seus, estiveram, também, seqüestrados
por alguns dias. O seqüestro, feito pelo ex-namorado da adolescente, teve um grande
destaque na mídia, principalmente nas grandes emissoras de televisão.
O seqüestro foi pauta dos grandes telejornais por bem mais que uma semana. Ao
assistir os programas, percebemos os apresentadores tentando formular hipóteses para
compreender o comportamento do seqüestrador e os desdobramentos do caso. As
grandes empresas de comunicação escolheram cobrir o caso de forma sensacionalista
para impressionar, chocar, e, no final, obter audiência e credibilidade de um caso “bem
coberto”.
Neste trabalho pretendemos estabelecer algumas reflexões sobre a cobertura
midiática no caso, feita pela mídia eletrônica, em específico, as emissoras de TV e a
hipótese de newsmaking. Acreditamos que é possível observar neste caso elementos que
permitem afirmar que o espetáculo na cobertura aconteceu porque as emissoras
buscavam a maneira mais “comovente” para retratar o fato. Os meios de imprensa
objetivavam, possivelmente, alavancar suas audiências, com índices no IBOPE,
acirrando a disputa entre estes meios de comunicação, visando uma margem de lucro
maior. Para atingir tais objetivos, a mídia justificou suas ações como uma busca pela
melhor notícia, por detalhes inéditos, levando as pessoas a acreditarem que isso se
configura como um acesso democrático às informações.
Como embasamento teórico, utilizamos neste trabalho os conceitos de
newsmaking em Wolf (2003) e Hohlfeldt (2001).
1. Fundamentação Teórica
O termo newsmaking2 diz respeito às rotinas de trabalho jornalístico na
“escolha/elaboração” de assuntos que possuem noticiabilidade. Um dos autores, em
1 Alunos da disciplina de Teorias da Comunicação II, 3º semestre da Universidade Federal do Ceará
2 O newsmaking trata-se da escolha dos eventos que se tornarão notícia, a partir dos critérios de
noticiabilidade que atraem o público e que serão mais interessantes para a empresa.
língua portuguesa, que aborda o assunto é Mauro Wolf (2003), que apresenta o estudo
como ligado diretamente à sociologia das profissões, no caso, o jornalismo.
A hipótese do newsmaking dá destaque à produção de informações ou à
transformação dos fatos diários em notícia a ser publicada. As pesquisas sobre a
hipótese são “pesquisas participantes”, onde o pesquisador se junta ao seu objeto, mas
sem se envolver completamente para não sofrer influências pela posição tomada pelos
demais pesquisados. O pesquisador deve familiarizar-se com seu objeto, distanciando-se
desse para criticar suas práticas.
Segundo o newsmaking, são funções dos meios de comunicação de massa tornar
possível o reconhecimento de um fato desconhecido, elaborar relatos capazes de tornar
o acontecimento generalizável, situar o fato no tempo e no espaço, de modo que os
eventos possam ser explorados racional e planificadamente. Assim, os jornalistas
justificam sua atividade, que, às vezes, é deturpada, cobrindo fatos que não são de
interesse público, mas da linha editorial do veículo.
1.2 Notícia e critérios de noticiabilidade
A aptidão potencial de um fato tornar-se notícia chama-se noticiabilidade. Tratase de um conjunto de requisitos que se exige de um acontecimento para torná-lo notícia.
É regrada por “valores-notícias”, que são conjuntos de elementos e princípios através
dos quais os acontecimentos são avaliados pelos meios de comunicação de massa e são
analisadas suas potencialidades de produzir resultados e novos eventos que se
transformarão em novas notícias. São agrupados em cinco categorias(Hohlfeldt, 2001):
1) Categorias substantivas: são categorias relativas ao grau de importância e
interesse do público.
2) Categorias relativas ao produto (notícia): envolvem brevidade, condição de
desvio da informação, atualidade, atualidade interna, qualidade, equilíbrio.
3) Categorias relativas aos meios de informação: neste critério, são apresentados
os meios técnicos que serão utilizados na transmissão da informação, que se situam
entre bom material visual x texto verbal, freqüência, formato.
4) Categorias relativas ao público: referem-se ao conhecimento que o jornalista
tem de seu público e á maneira como irá atingi-lo.
5) Categorias relativas à concorrência: exclusividade ou furo, geração de
expectativas recíprocas, desencorajamento sobre inovações.
Devido à falta de espaço e pretendendo alcançar a objetividade, apenas o aspecto
relativo à concorrência será abordado nesta análise.
A categoria referente à concorrência é percebida quando os veículos de
comunicação buscam noticiar em primeira mão e adivinhar o que a concorrência irá
cobrir para não ficar para trás. Os veículos costumam apresentar as matérias de forma
que a cobertura não conteste os valores morais de seu público. Os novos profissionais e
novas emissoras acabam copiando os estilos daqueles que surgiram primeiro e que
possuem um grande público.
O caso teve um valor-notícia muito alto, pois este consiste na possibilidade de
desdobramento e de produção de mais noticias que um fato possui.
2. Análise
Vislumbramos no caso do seqüestro, seguido de morte, da adolescente Eloá
Pimentel, ocorrido na cidade de Santo André, interior de São Paulo, uma
exemplificação do que denominamos, na hipótese da comunicação de newsmaking. A
referida hipótese demonstra que a notícia nada mais é do que um fato verídico
potencializado, quer dizer, rico de detalhes e especulações, onde os meios de
comunicação buscam atender aos anseios do público, saciando a curiosidade inerente
aos seres humanos.
Em contrapartida, a mídia televisiva – ao fornecer e ostentar esse tipo de notícia
– tem como seu objetivo primordial, não o bem comum ou uma mera informação à
sociedade, mas sim a disputa por maiores índices de audiências. Isto aumenta a
concorrência e uma busca desenfreada por informações.
A busca pela maior audiência desencadeia o que poderíamos denominar de um
“jogo do vale-tudo” onde o que conta são os lucros obtidos com a informação que é
veiculada.
A sociedade, por outro lado, confunde a democratização da informação com a
exacerbação de informações. A causa disso pode ser explicada devido à falta de leitura
crítica das notícias pela maioria das pessoas. Isso, objetivamente, tem causas sociais que
não vamos nos apreender frente ao nosso objetivo neste trabalho.
As supracitadas observações coadunam com o que assistimos ao longo de quase
vinte dias, quando da cobertura do caso em análise por toda a mídia brasileira. Por
breves momentos. Assistimos a um verdadeiro leilão de informações. Em todos os
locais, a mídia televisiva exerceu o seu papel de algoz, incutindo em nossas mentes o
bandido e a mocinha, uma visão maniqueísta, universal e atemporal.
O mercado de notícias exige que as informações sejam cada vez mais precisas e
o público demanda sempre mais conteúdo sobre um mesmo assunto. Especulando-se as
informações para a obtenção de lucro, como se essa fosse a finalidade precípua e única
dos meios de comunicação como um todo.
Nesse cenário, percebeu-se ao longo de todo o seqüestro de Santo André as
maiores emissoras de televisão do país se mobilizarem para realizar chamadas ao vivo
(plantão) nas proximidades do condomínio onde as adolescentes Eloá Pimentel e
Nayara Rodrigues eram mantidas como reféns, encontrando-se sob julgo do garoto
Lindemberg, alguém descrito por seus parentes como uma pessoa pacata, embora suas
atitudes, naquele momento, contrariassem essa descrição.
A cidade de Santo André, um município brasileiro localizado na Região
Metropolitana de São Paulo, compondo o que se conhece como Região do Grande
ABC, teve sua rotina modificada pela “instalação” de redes de televisões e pela
presença constante de repórteres, que buscavam as mais variadas informações acerca do
caso.
Todos aqueles que de qualquer modo conhecessem ou soubessem notícias dos
envolvidos eram assediados pela mídia. Nesse diapasão, assistimos entrevistas com
vizinhos, amigos de rua, amigos do racha, do trabalho, da escola, adolescentes que
habitavam o bairro e “poderiam” ter destinos semelhantes ao da adolescente
seqüestrada, pais de adolescentes, ou seja, a especulação não tinha limites. De acordo
com o estabelecido nos pressupostos vistos sobre newsmaking, é possível que os meios
de comunicação apresentem reflexões como enquanto se tem telespectadores ávidos por
notícias, temos que fornecê-las.
As chamadas para os telejornais traziam cenas do local. Em todos os
programas, os repórteres traziam comentários e “novidades” sobre o seqüestro. Até a
diminuição da venda de drogas pelos traficantes, intimidados pela enorme e constante
presença de policiais foi noticiado3. A participação da sociedade ou “reposta” da
audiência pode ser percebida nos comentários em telejornais e em informações
prestadas aos repórteres, como por exemplo, a rotina do seqüestrador.
3
http://br.ibtimes.com/articles/20081018/traficantes-encomenda-morte-lindembergue-sequestradorsequestro-santo-andre-heloa-nayara-tiros-cabec.htm acesso em 26 de novembro de 2008.
O fato foi transformado em notícia por aproximadamente 20 dias, sendo que
durante uma semana configurou como a pauta principal dos maiores telejornais do país.
No intermédio do processo, jornalistas chegaram a interferir no curso dos
acontecimentos. Foram, estes profissionais, em alguns momentos, responsabilizados
pelo fracasso da negociação, devido às excessivas informações que o próprio
seqüestrador obtinha da situação, em virtude de ele também ser um telespectador, além
de protagonista. De acordo com alguns especialistas, o status de notícia que o
seqüestrador recebeu da mídia atrapalhou no andamento das negociações.
A imprensa não se preocupou em preservar a integridade das seqüestradas,
menores de idade, divulgando o nome e rosto das mesmas. Isto fere o código de ética no
artigo 11, inciso II4, segundo o qual o jornalista não pode divulgar informações de
caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em
cobertura de crimes e acidentes.
O seqüestrador, por alguns instantes, foi o homem - e a notícia principal de
todo um país que tinha e ainda tem questões sérias a resolver. A seqüestrada – a vítima,
no entanto, figurava como personagem secundária, pois a amiga da seqüestrada, por
breve momento, chegou ofuscar a todos, sendo importante pelas informações que trazia
do cativeiro. A polícia era uma mera receptora das vontades do seqüestrador (quase
todas atendidas!), mas em um ato insano e de desespero, o seqüestrador provocou um
desfecho trágico e não desejado, retirando a vida de Eloá e pondo em risco a vida da
adolescente Nayara.
As grandes emissoras estavam presentes nas proximidades do condomínio
onde acontecia o seqüestro e disputavam entre si as melhores imagens, o melhor ângulo
e, ainda, quem conseguia obter mais informações com o próprio seqüestrador. As
emissoras buscavam informações exclusivas para podar as concorrentes e ganhar
credibilidade. O programa “A tarde é sua”, da apresentadora Sônia Abrão, chegou a
ligar para a casa da garota e falar com o seqüestrador, buscando informações
privilegiadas e inéditas, detalhes eram importantes, atraiam o público. A preocupação
com o público ou com qualquer conseqüência que a cobertura mal feita poderia causar
foi ultrapassada pela possibilidade de “levar” o receptor para estar cada vez mais
próximo do acontecimento. Vendo-se indistintamente qual a prioridade do meio de
4
Para mais detalhes, conferir código de ética disponível em
www.jornalistas.org.br/download/legis_codigo_etica.doc+c%C3%B3digo+de+%C3%A9tica+dos+jor
nalistas+brasileiros&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br
comunicação. Seria transmitir uma mera informação ou formar opiniões, atrair o
público, chocar a sociedade, gerar audiência.
A mídia, em sua busca pela melhor imagem e informação, foi incapaz, ou não
quis, prever os resultados de sua conduta. A informação chegou ao telespectador, mas
também atrapalhou. O que está em discussão neste trabalho é a oposição entre a
democratização da informação e sua banalização visando lucro. A liberdade de
imprensa deve ser repensada e os excessos devem ser extirpados, sob pena de pagarmos
um alto preço em um futuro não tão distante.
O espetáculo, no caso, foi escolhido com a estratégia para conseguir audiência.
Valores foram confundidos, priorizando a informação em detrimento de uma solução
saudável para um caso policial, onde uma vida poderia (e deveria) ter sido preservada.
A sociedade sedenta de informações não mantinha fidelidade a um programa, não
hesitando em mudar o canal várias vezes, sempre em busca de maiores detalhes, ou
entrevistas. Se mudar a rotina fosse necessário para saber um pouco mais, isso seria (e
foi) feito por diversas pessoas sem titubear.
“A ênfase permanente em determinados temas, chegaria a interferir
diretamente na percepção do mundo externo por parte dos receptores” (Hohlfeldt, 2001,
206). A rotina, imposta pelas emissoras durante a cobertura do caso, mudou a vida de
muitas pessoas que se mantinham “presas” à televisão. Muitas dessas pessoas assistiam
à cobertura da Rede Record, abarrotada de cenas do ambiente externo do cárcere - o
condomínio, onde a adolescente fora mantida em cativeiro, durante toda a cobertura do
caso.
Na referida entrevista, o repórter Luis Guerra perguntava sobre a situação,
sobre o estado emocional do rapaz, tentava fazer negociações que foram consideradas
por Rodrigo Pimentel, ex-comandante do BOPE como
“uma irresponsabilidade tão grande que eles poderiam, através dessa conduta,
deixar o tomador dos reféns mais nervosos, como deixaram, poderiam
atrapalhar a negociação, como atrapalharam. Foi irresponsável, infantil e
criminoso o que Sônia Abrão fez. Essas emissoras, esses jornalistas
criminosos e irresponsáveis devem optar na próxima ocorrência entre ajudar à
polícia ou aumentar sua audiência”5
Ainda segundo o ex-comandante do BOPE - especialista em ações táticas - o
repórter tratava o seqüestrador com muita intimidade, queria saber sobre o
relacionamento e chegou a perguntar se ele, o seqüestrador estava tratando bem sua
refém. Fatores que podem ter influenciado no desfecho que a história teve.
Ainda na mesma ligação, ao falar com Eloá, o repórter perguntou se estava
“tudo bem” e quando ela respondeu, o entrevistador sugeriu: “então confia nele”.
Denota-se, desta forma o caráter apelativo, sensacionalista da entrevista, colocando-se
em segundo plano os sentimentos dos familiares da adolescente. O sensacionalismo e o
caráter apelativo ficam ainda mais explícitos quando, em determinado momento da
entrevista, a garota afirma amar seus pais e o repórter falou: “pode falar de novo, mande
um beijo de novo”5.
Outro exemplo do descuido da mídia ao veicular a notícia, visando apenas um
aumento em seus índices de audiência, é o anúncio do falecimento da garota Eloá
Pimentel pela apresentadora Fátima Bernardes, da Rede Globo, e Augusto Xavier, da
RedeTV, no dia 17/10/2008 antes do efetivo acontecimento que se deu somente no dia
seguinte.
O caso teve um valor-notícia muito alto, pois este consiste na possibilidade de
desdobramento e de produção de mais noticias que um fato possui. Exatamente o que
ocorreu com o caso em tela e conforme já restou exaustivamente comprovado através da
presente análise, confirmando o que inicialmente expostos, ou seja, a ocorrência da
hipótese do newsmaking.
A repercussão do caso pode ter comprometido a mídia em fornecer uma
informação verídica e de qualidade, que faça com que o telespectador analise e reflita
sobre determinadas notícias veiculadas nos meios de comunicação. Pode ser que isso
não tenha acontecido, especificamente, no caso do seqüestro, devido ao excesso de
notícias repetitivas e especulações.
A mídia televisiva postergou a oportunidade de se afirmar como um meio de
comunicação que preze e preserve os cidadãos brasileiros. Deixou de se firmar como
um instrumento de informação capaz de aguçar o senso crítico das pessoas, retirar da
inércia aquele que dorme, pautando-se na busca de uma sociedade construída através de
valores sólidos, primando e preservando o Estado Democrático de Direito, a pessoa
humana e sua dignidade.
Deixamos de valorizar uma mídia que promove a reflexão e a autocrítica para
concedermos audiência (e lucro). A mídia parece perdida em seu papel, preterindo
sempre o newsmaking. O seqüestro teve uma imensa repercussão e transformou a vida
de adolescentes em notícia. Pessoas saíram do anonimato. Vidas foram modificadas,
5
http://www.youtube.com/watch?v=Y3oTNzkxUQE, acessado em 26 de novembro de 2008.
muitas vezes, transtornadas, sem ter nem mesmo a privacidade de viver em sua própria
casa.
Os desdobramentos do caso, como a prisão do seqüestrador, a morte da
seqüestrada, a doação de seus órgãos, a saída da amiga da seqüestrada do hospital, as
análises feitas por psicólogos, psiquiatras, juristas, etc. sobre a ação passional do
seqüestrador e sobre a idade da garota quando começaram a namorar, tomaram conta
dos noticiários e dos programas de entretenimento na televisão.
O público mantinha um interesse pelo fato inusitado, pela ação heróica da
melhor amiga que voltou ao cativeiro para tentar negociar com o seqüestrador. A
sobrevivência da adolescente depois do fim do seqüestro fez da garota a nova estrela da
Rede Globo. O programa Mais Você, da Ana Maria Braga, fez a primeira entrevista
com a garota quando saiu do hospital. Na mesma semana o Fantástico foi entrevistá-la.
A repórter do Fantástico chegava a tentar manipular as respostas da amiga da
seqüestrada para que ela respondesse a grande questão que havia ficado com o fim do
seqüestro, se a invasão da polícia foi, ou não, precipitada.
Ainda na busca pela audiência, na semana seguinte, Nayara foi com a família
conhecer os estúdios das novelas da Globo e responder a mais perguntas da
apresentadora, como por exemplo: “você é uma boa aluna?”
Outro assunto que também representou um suíte desta noticia foi a polêmica
sobre o que aconteceu primeiro: se foi o tiro do seqüestrador ou a explosão da porta pela
polícia, além da má atuação dos policiais em diversas situações durante o seqüestro. As
emissoras davam destaque a peritos que iam avaliar o que aconteceu antes da explosão,
se houve barulho de tiro, e cada empresa tinha seu perito, onde um contradizia o outro.
A cobertura do caso pela imprensa gerou muita polêmica, tendo em vista que
chegou a atrapalhar o processo em andamento, pois o seqüestrador tinha conhecimento
do que estava acontecendo, conforme já relatamos anteriormente.
Importante frisar que as emissoras de comunicação dependem da audiência.
Sem público, não há anunciantes. Cada emissora, a sua maneira, busca chamar a
atenção do público. Elas mostram o que as pessoas querem ver, muitas vezes apelando
para o lado sentimental, tocando a sensibilidade dos receptores. Os meios de
comunicação aproveitam-se de casos como esses para exibirem reportagens especiais,
documentários que englobam os motivos e as conseqüências de casos similares.
A busca pelo ineditismo da reportagem possibilita o erro. A necessidade da
agilidade, o temor de não dar a notícia primeiro fez com que os fatos não fossem
checados antes de serem transmitidos ao público, em algumas ocasiões.
Ainda na mesma perspectiva, o Fantástico anunciou que possuía imagens
exclusivas de dentro do prédio na hora da invasão da polícia e antes que ele fosse ao ar,
a Record utilizou as imagens no programa Domingo Espetacular.
No presídio onde o seqüestrador esteve preso, repórteres das diversas
emissoras estiveram de plantão. Quando uma advogada resolveu assumir o caso a
Record levou-a aos seus estúdios na tentativa de impedir que ela pudesse ser alcançada
por seus concorrentes, e conseguiu, com exclusividade, entrevista-la em primeira mão.
O conteúdo chegou, muitas vezes, a ser repetitivo, cansativo, com uma
sucessão de informações que já haviam sido transmitidas, entretanto as chamadas
induziam ao erro dos telespectadores, senão víamos a chamada: “Mais informações
sobre o seqüestro no próximo bloco!”, atraindo o público ávido por novidades.
Após o fim do seqüestro, as emissoras buscavam a maneira mais “comovente”
para retratar o fato, pois esta era a forma encontrada para ganhar audiência na
concorrência com outras emissoras, fazer o caso se prolongar.
A prisão do seqüestrador, bem como o socorro prestado às reféns, foram alvos
de forte apelo emocional. A cronologia dos fatos gerou polêmica no tocante a ordem em
que tudo havia ocorrido no momento em que o apartamento havia sido invadido. Cada
emissora recorreu a um perito para avaliar as imagens. Segundo o perito da Rede Globo
de Televisão, os disparos ocorreram depois da explosão. Já o perito da Rede Record
afirmou que, segundos antes da explosão, havia sido executado um disparo. A única
verdade que sabemos é que milhares de casos semelhantes ocorrem todos os dias em
nosso país, e que poucos recebem destaque da mídia. Este não foi o primeiro nem será o
último espetáculo transmitido pela televisão. A velocidade dos fatos e a busca
incessante por informações farão com que as pessoas esqueçam esse fato e percam a
sensibilidade a ele. Nesse momento, um novo espetáculo surgirá.
Conclusão:
A hipótese do newsmaking relacionada ao caso do seqüestro da adolescente Eloá
Pimentel, Santo André, foi o foco principal deste artigo, portanto a análise da referida
hipótese nos faz concluir, primeiramente, que ela é responsável pela transformação dos
acontecimentos em notícia, o que no caso Eloá, a ênfase permanente no tema pela mídia
interferiu diretamente na percepção por parte dos receptores. Isso pode ter gerado uma
visão maniqueísta do caso, tanto por parte da imprensa como por parte das pessoas que
assistiram aos noticiários.
Em segundo lugar destacamos o potencial do caso em evoluir atingir
conseqüências, o que para os veículos de comunicação gera um maior interesse à
medida que os receptores vão criando o hábito de saber o que aconteceu com o fato ou
se houve algum desdobramento. O interesse humano também foi decisivo. As pessoas
costumam se interessar por notícias catastróficas que remetem ao sensacionalismo, à
emoção, o que desperta o sentimento de agir, de tomar partido e de resolver a situação.
Percebemos também a questão da concorrência. Foi verificada a briga pela
audiência por quem transmitiria primeiramente os desdobramentos do caso. A grande
mídia tratou o caso com relevância além do necessário, pois cada veículo decidia sua
pauta partindo da concorrência, o que gerou um desgaste e uma cansativa batalha pela
audiência. Esse exemplo reflete no papel da imprensa, que em desacordo com as
práticas da profissão, extrapolou o bom senso em nome da audiência e dos furos de
reportagem.
Em muitos veículos de comunicação, a capacidade de noticiabilidade foi
reduzida ao caso do seqüestro. Finalmente, o desfecho veio à tona e com ele uma gama
de informações e especulações sobre o caso. Sabemos que a hipótese do newsmaking
nos ajuda a refletir acerca das intenções e dos verdadeiros papéis que a imprensa exerce
sobre um acontecimento. Conseguimos analisar os fatores e os critérios de
noticiabilidade no caso do seqüestro e pudemos perceber que acima das técnicas
jornalísticas existe uma ética comum a todos e que não foi respeitada pela maioria da
imprensa.
Bibliografia:
WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1995.
HOHLFELDT, Antonio; MARTINO,Luiz C.; FRANÇA ,Vera Veiga.
(organizadores)
Teorias
da
Comunicação:
conceitos,
escolas
e
tendências.Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
http://www.youtube.com/watch?v=Y3oTNzkxUQE,
http://br.ibtimes.com/articles/20081018/traficantes-encomenda-mortelindembergue-sequestrador-sequestro-santo-andre-heloa-nayara-tiros-cabec.htm
www.jornalistas.org.br/download/legis_codigo_etica.doc+c%C3%B3digo+d
e+%C3%A9tica+dos+jornalistas+brasileiros&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br
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