ISSN 2317-3297 Medidas de Complexidade em Economia - Aspetos computacionais do grau de dependência de uma matriz João Ferreira do Amaral Departamento de Economia, ISEG - Universidade Técnica de Lisboa Rua do Quelhas, n.o 6 1200-781 Lisboa , Portugal E-mail: [email protected] Teresa Pedroso de Lima Faculdade de Economia e CEIS UC - Universidade de Coimbra Av. Dias da Silva, n.o 165 3004-512, Coimbra, Portugal E-mail: [email protected] Edgar Pereira Departamento de Matemática - UFRN Instituto de Telecomunicações (Covilhã - Portugal) Campus Universitário - Lagoa Nova 59078-970, Natal, RN E-mail: [email protected] Palavras-chave: sistemas económicos, matrizes não-negativas, grau de dependência Resumo: O grau de dependência de uma matriz tem particular importância no contexto da análise input-output. Criada como um dos elementos de quantificação da complexidade económica enquanto interdependência, esta medida está intimamente relacionada com uma norma matricial. 1 Introdução Pretendemos analisar uma medida especialmente concebida como um dos elementos de quantificação da complexidade económica enquanto interdependência ([1] e [2]) . Esta medida considera um efeito de ”dependência”, ou seja, pretende medir/avaliar quanto do comportamento de cada parte do sistema económico é determinado por conexões internas entre os elementos dessa parte - o que significa mais autonomia e menos dependência - e quanto desse comportamento é determinado por relações externas, ou seja, relações com outras partes do sistema - o que significa menos autonomia e mais dependência. Uma vez que no contexto da análise input-output tem sentido considerar que um sistema económico pode ser representado por uma matriz quadrada não negativa em [1] é-nos proposto medir o efeito de dependência acima referido com a ajuda de uma medida matricial designada por grau de dependência. Todavia, esta medida constrói-se à custa do grau de dependência de todos os blocos principais da matriz inicial, pelo que à medida que a ordem aumenta o seu cálculo torna-se mais difı́cil e, a partir de determinada ordem, é uma tarefa praticamente impossı́vel. 482 ISSN 2317-3297 2 Grau de dependência Seja A = [aij ]N ×N uma matriz quadrada de ordem N , não negativa e, sendo M = [mij ]N ×N , ∑ ∑N definimos ∥M ∥ = N j=1 i=1 mij . No conjunto das matrizes não-negativas a medida ∥M ∥ é uma norma matricial que passaremos a designar por norma-s. Dizemos então que o quociente Ga (Aαp ) = ∥Aαp ∥ , αα αα ∥Aαp ∥ + ∥Ap×(N −p) ∥ + ∥A(N −p)×p ∥ onde α = {i1 , i2 , . . . , ip } ⊂ {1, 2, . . . , N } e α = {1, 2, . . . , N }\α é o grau de autonomia do αα bloco principal de ordem p, Aαp , da matriz A. Note-se que Ap×(N −p) é um bloco de A formado pelos elementos que pertencem simultaneamente às linhas-α e às colunas-α. Por outro lado, dizemos que αα αα ∥Ap×(N −p) ∥ + ∥A(N −p)×p ∥ α α Gd (Ap ) = 1 − Ga (Ap ) = αα αα ∥Aαp ∥ + ∥Ap×(N −p) ∥ + ∥A(N −p)×p ∥ é o grau de dependência do bloco Aαp . Finalmente, e uma vez que uma matriz quadrada de ordem N tem 2N − 2 blocos principais, definimos o grau de dependência (não corrigido) da matriz A do seguinte modo 2∑ −2 1 Gd (A) = N Gd (Aαpkk ), 2 − 2 k=1 N onde αk é um subconjunto não vazio de {1, 2, . . . , N }. É importante referir que, por definição, podemos garantir que 0 ≤ Gd (A) ≤ 1 e Gd (A) = Gd (AT ); e, ainda, que no estudo que fazemos, assumimos que A não tem blocos irrelevantes. O αα αα bloco principal Aαp diz-se irrelevante sempre que ∥Aαp ∥ = ∥Ap×(N −p) ∥ = ∥A(N −p)×p ∥ = 0 ([1]). Em [1] são referidas algumas propriedades do grau de dependência de uma matriz A = [aij ]N ×N não negativa, nomeadamente, os autores provam que: (i) O grau de dependência de uma matriz não se altera quando multiplicamos todos os seus elementos por um escalar positivo, isto é, Gd (kA) = Gd (A), para k > 0; (ii) O grau de dependência de uma matriz é superior ou igual ao grau de dependência da matriz que obtemos da inicial substituindo os seus elementos principais por zeros, isto é, Gd (Â) ≥ Gd (A), sendo  = A − diag(A); (iii) Se os elementos não principais de uma matriz são todos nulos então o seu grau de dependência é igual a zero, isto é, Gd [diag(A)] = 0; (iv) Se N ≥ 2 então 2N − 2N −2 − 1 . 2N −2 Observamos que em (iv), existe, contudo, uma matriz (que não é única) cujo grau de dependência atinge precisamente esse valor: a matriz cujos elementos da primeira linha, exceto o elemento principal, e apenas esses, são não nulos e iguais a 1. Além disso, se A é uma matriz não negativa e s, t > 0 então Gd (sA + tAT ) = Gd (A), o que nos permite assumir, sem perda de generalidade, que no cálculo do seu grau de dependência a matriz é simétrica. Assim, podemos escrever Gd (A) ≤ αk αk Gd (Aαpkk ) = 2∥Apk ×(N −pk ) ∥ αk αk ∥Aαpkk ∥ + 2∥Apk ×(N −pk ) ∥ 483 ISSN 2317-3297 e afirmar que, no que diz respeito à variação do seu grau de dependência, alterar o elemento aij da matriz A é precisamente o mesmo que alterar o elemento aji . Do ponto de vista económico - e se aplicado a um modelo input-output - tal faz sentido na medida em que um sector i tanto está dependente dos sectores a que vende a sua produção (ligação que é representada pelos coeficientes técnicos aij para todo os sectores j) como dos sectores a que compra inputs (ligação que é representada pelos coeficientes aji para todos os sectores j). Todavia, nenhuma das propriedades, anteriormente apresentadas, se revela muito útil quando nos propomos calcular, por exemplo, o grau de dependência de uma matriz de ordem N ≥ 20. Deste modo, a complexidade computacional envolvida no cálculo do grau de dependência de uma matriz de ordem elevada, motiva a procura de majorantes para Gd (A). Nesse sentido, verificamos que é possı́vel relacionar a soma das normas-s dos blocos principais de uma matriz com a sua norma-s e o seu traço, com se mostra na Proposição Se A = [aij ]N ×N é uma matriz não negativa então: (i) N −2 2∑ ∥Aαpkk ∥ = (2N −2 − 1)∥A∥ + 2N −2 trA k=1 (ii) N (∑ l) ( ∥Aαl k ∥ = k=1 ) ( ) N −2 N −2 ∥A∥ + trA, l−1 l−2 Este resultado permite a obtenção de majorantes e minorantes para o grau de dependência Gd (A) quando N > 2: Gd (A) ≤ (i) (ii) onde 3 ∥Amax N −l ∥ = Gd (A) ≥ 1 2N −1 − 1 1 2N −1 − 1 maxk ∥AαNk−l ∥ e (∥A∥ − trA) ( l=1 (∥A∥ − trA) ∥Amin N −l ∥ N −1 ∑ = N −1 ∑ ( ) N −2 1 l − 1 ∥A∥ − ∥Amax N −l ∥ ) N −2 1 , l − 1 ∥A∥ − ∥Amin N −l ∥ l=1 mink ∥AαNk−l ∥. Considerações computacionais min Repare-se que, do ponto de vista computacional, determinar ∥Amax N −l ∥ e ∥AN −l ∥ pode revelarse uma tarefa muito pesada, pelo que o resultado anterior também é dificilmente aplicável a matrizes de grande dimensão. Efetuamos vários cálculos com o Matlab , onde foi possı́vel verificar que a complexidade cresce conforme ordem da matriz A, entre os cálculos necessários para se obter o grau de dependência está a determinação de todos os subconjuntos de um conjunto de N elementos (o conjunto das partes) ou seja é necessário calcular e manter na memória 2N subconjuntos. Na prática, dependendo do tipo de entradas da matriz, conseguimos calcular até a ordem 20 e mesmo que pudéssemos dispor de computadores com maiores capacidade provavelmente o limite não ficaria muito acima disso. Este fato motiva a busca tanto de uma equivalência matemática das fórmulas atuais que envolva uma complexidade menor, como também de alternativas técnicas em termos computacionais para os cálculos. 484 ISSN 2317-3297 Referências [1] J. F. Amaral, J. Dias and J. Lopes. Complexity as interdependence in input-output systems, Environment and Planning A, 39(2007) 1170-82. [2] J. F. Amaral, J. Dias and J. Lopes. Assessing economic complexity as interindustry connectedness in nine OCDE countries, International Review of Applied Economics, (2012) 1-17. 485