HISTÓRIAS DE UM PASSADO NÃO TÃO DISTANTE: POLÍTICAS E PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL NO INTERIOR DO BRASIL. Caroline M. Cortelini Conceição Unisinos/Unioestei [email protected] Palavras-chave: educação infantil; história da educação; políticas públicas. Introdução Este artigo aborda a constituição da educação infantilii a partir do final da década de 1970 em município do interior do estado do Paraná – Francisco Beltrão. Realizo uma análise do papel desempenhado pela Legião Brasileira de Assistência – LBA na educação da primeira infância, abrangendo as condições de profissionalização daquelas que iniciaram nas primeiras instituições de educação infantil e as condições de infra-estrutura das instituições. Através de uma abordagem teórico-metodológica fundamentada na história cultural (PESAVENTO, 2008; BURKE, 2008), articulando fontes orais e documentais, na perspectiva defendida por autores como Fischer (2005, 2008), Stephanou e Bastos (2005) e Gouvêa e Jinzenji (2006), tenho empreendido a tarefa de garimpar alguns dados sobre a educação infantil em meu contexto de atuação profissional. Assumo a História Cultural como base teórico-metodológica por entender que pode contribuir com a tarefa de olhar o passado e pensar o presente da educação. De acordo com Pesavento (2008), nesse processo o historiador acessa o tempo passado através de registros e sinais, que são representações do acontecido e, através de seu olhar, constituem-se em fontes ou documentos para a pesquisa, fragmentos que não possuem uma verdade inerente, pronta para ser desvelada, mas que a partir do trabalho do pesquisador irão compor uma narrativa que constitui sua leitura do passado. Nessa análise articulo documentos escritos e orais, como fontes de investigação, conforme aponta Fischer (2008), com a finalidade de identificar as condições que fizeram emergir personagens, itinerários e acontecimentos no período delimitado. Assim, entrevisto pessoas envolvidas no processo, consulto jornais da época, relatórios institucionais e documentos escolares. Silva e Rosa (2001), acentuam, fazendo referência à obra O Silêncio dos Inocentes, de José Martins, que crianças e mulheres têm sido os mudos da história. Nesse sentido, nem sempre se encontra fontes escritas que dêem conta de contar a história desses sujeitos. Assim tem sido na educação e especialmente na educação infantil, considerada “uma questão menor”, que por muito tempo esteve “`a parte do sistema oficial de ensino”, de modo que há uma acentuada lacuna em relação aos dados sobre essas instituições (SILVA e ROSA, 2001). Diante disso, a história oral se coloca como uma importante ferramenta para trazer à tona e registrar as experiências e histórias que compõem esses contextos. Sob essa perspectiva, busco destacar algumas características de como se deu num contexto específico – Francisco Beltrão, município localizado na região sudoeste do Paraná – o projeto nacional de expansão da educação infantil. Nesse município, localiza-se na década de 1980 a criação das primeiras creches públicasiii. Esse processo foi efetuado pela Associação de Proteção à Maternidade e à Infância - APMI que desempenhou relevante papel no município no campo da assistência social (FRANCISCO BELTRÃO, 2007). A fim de ampliarmos a compreensão sobre essa área de investigação, em processo de construção, Souza (2011) salienta que tanto os estudos de caráter longitudinal quanto estudos mais recortados de abrangência local e temporal podem oferecer importantes contribuições. Este último permite “potencializar um mergulho por entre as redes de relação social e as instituições de educação infantil, os sujeitos e suas práticas culturais, os objetos e saberes em circulação e os modos de constituição e difusão dessas práticas educativas para as crianças no Brasil” (SOUZA, 2011, p. 267). Desse modo, tais investigações ao visibilizar contextos específicos, com recorte espacial e temporal, possibilitam ampliar o conhecimento sobre concepções e práticas no campo da educação infantil, permitindo localizar mudanças e permanências na área e ampliar a compreensão sobre determinados aspectos que permeiam a educação da criança pequena. Assim, a reflexão aqui proposta vai ao encontro dessa perspectiva, de maneira que estudos que articulem história, política e educação infantil apresentam-se como uma importante frente investigativa. 2 O papel desempenhado pela Legião Brasileira de Assistência – LBA na educação da primeira infância em Francisco Beltrão/PR No final de 1970 e início de 1980 ocorreu, no Brasil, a implantação de um modelo de educação de massa, alinhado aos indicativos do UNICEF e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, pautado por modelos “não formais” a baixo investimento público (ROSEMBERG, 2002, 2003a, 2003b). Rosemberg argumenta que nesses países a educação infantil transformou-se na “rainha da sucata”, incorporando como características espaço físico inadequado, precariedade de material pedagógico e ausência de qualificação profissional. Rosemberg (2003b) destaca que os argumentos, princípios e propostas do modelo de educação infantil para os países subdesenvolvidos elaborados e gradualmente divulgados pela UNESCO e UNICEF, pautam-se pela ideia de que a educação infantil constitui uma via para combater a pobreza e melhorar o desempenho do ensino fundamental. Diante disso, a educação compensatória passou a ser diretriz importante das políticas educacionais voltadas à criança pequena a partir da década de 1970 no Brasil. Kramer (1987) enfatiza que nesse período ocorreu uma transposição de programas compensatórios de origem européia e principalmente norte-americanaiv. Tais propostas fundamentam-se na abordagem da privação cultural e destinam-se à população pobre, atribuindo a esta uma carência cultural que seria a responsável pelo fracasso escolar. A educação pré-escolar é defendida como a solução para os índices catastróficos do Brasil no campo da escolarização (KUHLMANN JR, 2000). Essa concepção atingiu o país durante o período de ditadura militar, encontrando as condições para sua proliferação e recriação, pois a Doutrina de Segurança Nacional incluía o combate à pobreza e a participação da comunidade na implementação de políticas sociais (ROSEMBERG, 2002). Sobre essa questão Kramer (1987, p. 11 – 12) faz a análise de que a escassa e ambígua legislação referente à área faz com que “sejam implantadas alternativas comprovadamente fracassadas em outros países e que foram planejadas para realidades diferentes da nossa”. E em 1981 foi lançado o Programa Nacional de Educação Pré-Escolar, o qual tinha como algumas de suas características: o compromisso oficial e formal com a educação da criança de quatro a seis anos; o estabelecimento de metas de atendimento; a alocação de recursos financeiros no orçamento do Ministério, a proposição da elaboração de programas municipais e de programas estaduais de educação pré-escolar (DIDONET, 1992, p. 22). 3 Conforme Rosemberg (1992) tratava-se da proposta do MEC de 1975, o II PSEC, com alguns ajustes. No entanto, apesar do MEC ter formulado a proposta de educação de massa foi a Legião Brasileira de Assistência – LBA que efetivamente implantou-a, através do Projeto Casulo, lançado em 1977. Criada em 1942 com a finalidade de prestar serviços de assistência social e proteção à maternidade e à infância às famílias dos convocados para a II Guerra Mundial, a partir de 1946 torna-se órgão de consulta do Estado, voltando-se exclusivamente à maternidade e à infância e passa a efetuar suas ações através dos centros de proteção à criança e à mãe (APMI – Associação de Proteção à Maternidade e à Infância) que são difundidos por todo Brasil. É considerada a primeira instituição de assistência social de âmbito nacional e o Projeto Casulo torna-se seu principal projeto (KRAMER, 1987; CAMPOS, ROSEMBERG, FERREIRA, 1995). O Projeto de Creches da LBA caracterizava-se por ser um programa de âmbito nacional que atuava através de convênios, repassando verbas para as prefeituras ou instituições privadas; destinava-se ao atendimento da população de baixa renda; propunha jornada diária de atendimento de 4 ou 8 horas e a instalação das creches em equipamentos simples, com aproveitamento de espaços ociosos da comunidade e, concepção preventiva e compensatória de atendimento infantil (CAMPOS, ROSEMBERG, FERREIRA, 1995). No contexto de investigação, Francisco Beltrão, destaca-se o papel da LBA no âmbito do atendimento à criança pequena, pois foi a partir dos recursos disponibilizados por este órgão que foram criadas e mantidas as primeiras creches no município. Esse processo iniciou em 1981, ocasião da criação da primeira creche municipal sob a responsabilidade da APMIv. Em entrevista com Lourdes, presidente da APMI no período, ela acentua que a partir da reestruturação dos Clubes de Mães, nos bairros, a equipe da APMI passou a perceber a necessidade de instituições para o atendimento à infância. Com isso, a primeira creche foi implantada junto ao Centro Social Urbanovi, que na ocasião havia sido recém criado pela associação. Essa creche, atualmente, denominada Centro Municipal de Educação Infantil Nice Bragavii, permaneceu junto ao Centro Social até a década de 1990, onde dividia seu espaço com o atendimento a adolescentes e adultos (CMEI NICE BRAGA, 2008). Lourdesviii expressa a política da LBA afirmando que “eles não se importavam, o tanto que você tivesse um espaço adequado, não precisava ser prédios, desde que você pudesse estar fazendo essa proteção” e complementa que “eles não exigiam”. Esse aspecto é também explicitado no histórico de uma das instituições de educação infantil, onde retrata o processo de sua criação: 4 O Centro Municipal de Educação Infantil Carrossel entrou em funcionamento em novembro de 1983, sendo uma das mais antigas creches do município, uma conquista da comunidade junto à administração municipal. [...] Não possuindo estabelecimento próprio, instalou-se no Centro Comunitário da Capela São Sebastião de Bairro São Miguel, atendendo inicialmente 50 (cinqüenta) crianças carentes, [...]. Em 1985 a Instituição entrou em funcionamento em seu prédio próprio, onde atualmente encontra-se localizada (CMEI CARROSSEL, 2008). Fica explicito que não havia a preocupação de uma estrutura física inicial para que as creches iniciassem seu funcionamento. Essa situação é recorrente em diversas instituições criadas na década de 1980 no município. A narrativa de Noeliix, uma das primeiras monitoras de creche de Francisco Beltrão, corrobora com essa questão, pois assinala as condições físicas improvisadas de uma instituição em que trabalhou. Em sua fala fica acentuado que essas mesmas marcas impregnaram as condições de trabalho das profissionais das instituições. Ela descreve que lá também, na época, foi bastante difícil, a gente iniciou num pavilhão na associação de motoristas, onde era só um salão, onde só tinha a coberta e as paredes e o banheiro só, mais nada. No berçário foi colocado um balcão pra dividir pros grandes não passarem. Aí lá eu trabalhei com a turma dos maiores, com aquela turminha que já pegava várias idades, porque como eu falei não era distribuída as salas, até porque nem sala não havia, não tinha como dividir. Lá eu era sozinha, e tinha a pessoa da limpeza que me auxiliava naquela época, [...], ela limpava e me ajudava com as crianças, eram bastante e as idades bem diferenciadas, ela que me dava um auxílio (Entrevista com Noeli, 2011). Fica explicito que assim como para a estrutura física não havia necessidade de muitos recursos, no que concerne às profissionais que trabalhavam diretamente com as crianças a situação era a mesma, as primeiras profissionais não possuíam formação específica para atuar com as crianças, explica Lourdes que “havia necessidade das creches e a gente também tinha pessoas que tinham necessidade de um trabalho, a gente percebia que ela estava, assim, pronta para trabalhar com criança”. Cerisara (1996) aponta que essa realidade é encontrada em diversos outros contextos no Brasil e explica que a constituição histórica dessa profissão está vinculada a uma identidade feminina, que estabelece associações com a maternagem e o trabalho doméstico, fazendo com que essa se caracterize como uma atividade que necessita de pouca qualificação e, portanto, oferece menor remuneração. No início desse processo de criação das primeiras creches em Francisco Beltrão não havia diferenciação entre as funções a serem realizadas na instituição. Desde a limpeza até o trabalho direto com as crianças, as funções foram distribuídas utilizando o critério de 5 interesse, sem necessidade de qualquer qualificação. Através da entrevista com Noeli é possível exemplificar como ocorreu esse processo, ela narra como foi a reunião realizada em um bairro para a criação de uma das creches municipais, com outras mulheres que haviam sido indicadas para trabalhar na instituição: Aí, a pessoa que estava encarregada para fazer a colocação dos funcionários no trabalho disse que precisava de uma para a lavanderia, outra para a limpeza, outra para ser a cozinheira, outra pegava a turma dos grandes, e tinha o berço. Então, quando me perguntaram qual a atividade que eu gostaria, eu falei que eu vi que ia ter um berçário, e até agora ninguém falou que quer cuidar do berçário, então eu fico com o berçário (Entrevista com Noeli, 2011). Inicialmente esse grupo de profissionais que atendia diretamente as crianças foi contratado, com carteira assinada, para o cargo de auxiliar de creche e a partir de 1985 foram reenquadradas no cargo de monitor de creche, ao que houve correspondente alteração salarial. Em Francisco Beltrão a primeira denominação para o cargo foi auxiliar de creche, posteriormente passou para monitor de creche e, em 2008, foi alterado para educador infantil, de acordo com Lei Municipal N. 3464/2008. O primeiro concurso foi efetuado em 1990 para o cargo de monitor de creche. A LBA repassava verbas que possibilitavam a cobertura de parte dos custos que os municípios tinham com as creches. A instituição mantenedora, neste caso as prefeituras, responsabilizavam-se por complementar com os recursos necessários e atender aos critérios estabelecidos pelo convênio. Isso é enfatizado em reportagem de jornal local, intitulada “LBA repassa recursos à APMI”, do Jornal de Beltrão, de 9 de julho de 1991, que trata sobre o convênio estabelecido entre a LBA e a APMI, apontando que o recurso desse convênio destina-se à alimentação nessas instituições. A reportagem explica que a presidente da APMI “assinou importante convênio com a Legião Brasileira de Assistência – LBA” em Curitiba, onde ficava localizada à época a Superintendência Estadual da LBA. Nessa ocasião “a LBA repassou à APMI de Francisco Beltrão, recursos da ordem de 13.467.993 (treze milhões quatrocentos e sessenta e sete mil novecentos e trinta e três cruzeiros)” destacando que “estes recursos serão aplicados na alimentação das crianças das creches mantidas pelo município, por um período de aproximadamente seis meses” (JORNAL DE BELTRÃO, 09/07/1991, p. 7). Esse processo é melhor compreendido quando ampliamos o olhar e abrangemos o contexto nacional em que se configuram os princípios e estratégias de ação da LBA e de seu Projeto Casulo. A partir da compreensão de que a pobreza poderia constituir uma ameaça à 6 segurança nacional políticas de assistência foram implantadas no período do regime militar. Dentre elas destaca-se o modelo de pré-escola de massa, desempenhando função de assistência, que foi introduzido no Brasil sob influência de propostas divulgadas pelo UNICEF e UNESCO. Essas propostas tiveram suas bases conceituais lançadas nas décadas de 1950 e 1960, pelo UNICEF, e serão efetivamente operacionalizadas no país no final da década de 1970 e inicio de 1980. O UNICEF ao longo desse tempo foi alterando suas ações, até então com ênfase no binômio saúde-nutrição, para o envolvimento em projetos educacionais, até ocuparse da criança como um todo e a partir desse momento voltar sua atenção à educação préescolar, passando a dividir espaço com a UNESCO. Destacam-se três aspectos das orientações dessas agências: a ênfase na participação da comunidade, a atuação junto aos governos nacionais e a entrada na área da educação. Essas serão as bases do Projeto Casulo que, conforme argumenta Rosemberg (2006), teve as condições propícias para sua implantação em nível nacional porque se incorporava aos preceitos da Doutrina de Segurança Nacional do governo militar. Os princípios desse projeto contemplavam um discurso de prevenção; propiciava entrada direta do governo no nível local; baseava-se em baixos investimentos e adoção da estratégia de participação da comunidade, em sintonia com as proposições desses organismos. O discurso da LBA para atuar junto à infância pobre continha um forte componente preventivo, que adquire os contornos do contexto histórico em que se realiza e passa a justificar-se em função da garantia da segurança nacional, pois como acentua Rosemberg (2006, p. 152) “os pobres poderiam ameaçar a integração nacional”. O segundo aspecto de destaque, salienta a autora, a inserção do governo federal diretamente nos municípios, possibilitou fazer o marketing direto do governo utilizando como lema a bandeira de que investir na criança significava investir na segurança nacional. E por fim, quanto ao terceiro aspecto, baixo investimento e participação da comunidade, Rosemberg (2006) destaca que, embora se tratando de indicativos das agências internacionais, foi apresentado como tipicamente nacional. Esse aspecto é explicitado no Projeto Casulo (LBA, 1977, apud ROSEMBERG, 2006, p. 153 – 154): A creche ou casa da criança tradicional prevê, para seu funcionamento, um número julgado ideal de técnicos, pessoal de apoio e recursos materiais. A realidade brasileira, entretanto, não comporta a sofisticação dos dados técnicos em utilização nos países desenvolvidos, que até agora vêm sendo o padrão para as entidades que pretendem implantar serviços de atendimento a menores. Torna-se necessário o estabelecimento de métodos mais simples, 7 que possibilitem o surgimento de maior número de vagas/dia, a fim de que se possa, realisticamente, enfrentar o problema. Essa questão é plenamente exemplificada na realidade investigada, em que algumas das creches utilizaram-se de estruturas físicas pertencentes às comunidades, como os salões das igrejas ou das associações de bairro, dentre outros, para instalarem-se. Outro ponto que se destaca a partir da análise dos documentos é que a LBA também se envolveu na qualificação dos profissionais das instituições. O Jornal Folha do Sudoeste (25/05/1996, p. 5) na reportagem intitulada “APMI e o Programa Pedagógico nas creches de Francisco Beltrão”, refere-se à realização do Projeto Araucária no município, a partir de 1983. O Projeto Araucária – Centro de Apoio à Educação Pré-escolar foi um programa de extensão desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná com apoio da Fundação Bernard Van Leer, da Holanda. O projeto teve duas fases, a primeira de 1985 a 1988, consistiu em uma atuação em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI) e prefeituras de Curitiba e Rio Branco do Sul, com o objetivo de implantar uma proposta pedagógica para o trabalho com crianças de quatro a seis anos. A segunda fase, compreendendo o período de 1989 a 1992, o Projeto Araucária transformou-se num Centro de Apoio à Educação Pré-escolar, responsabilizando-se por ações que abrangiam curso de aperfeiçoamento para as diferentes categorias de profissionais da Educação Infantil, elaboração e implantação de proposta pedagógica para o atendimento da criança de 0 a 6 anos, produção de material didáticopedagógico e realização de pesquisas. A realização das ações da segunda etapa, junto às creches e pré-escolas foi efetuada por meio de convênios com a Legião Brasileira de Assistência e prefeituras municipais (PARANÁ, 2006). A preocupação com a formação das profissionais vai se intensificar na década de 1990 e culminar com o processo de titulação das profissionais conforme as exigências da LDB, de maneira que a maioria das monitoras prosseguiu seus estudos realizando Curso Normal, Normal Superior e Pedagogia, que conforme Pasqualotto (2008) foram realizados prioritariamente à distância, ofertados por diversas instituições privadas. Fica acentuado que o improviso e a precariedade quanto à estrutura física e os seus profissionais são marcas do inicio da educação infantil em Francisco Beltrão, aspectos que vão ao encontro das condições postuladas pela LBA, modelo informal a baixo custo com apoio da comunidade. Dentro desses moldes de ação o projeto se expandiu rapidamente em âmbito nacional, em menos de quatro anos do inicio da sua implantação ele já atendia a quase um milhão de crianças, conforme dados apresentados por Rosemberg (2006). 8 Ainda na década de 1980, o Movimento Brasileiro em Prol da Alfabetização – MOBRALx, coordenado pelo MEC, também entrou no campo da educação pré-escolar, com objetivos e estratégias bastante semelhantes. Arce (2008) afirma que o MOBRAL atuou pela expansão da educação infantil em todo o território brasileiro de maneira rápida e barata, carregando fortemente as marcas do voluntariado. Rosemberg (1992, p. 29) assinala que “MOBRAL e LBA parecem ter disputado a mesma clientela infantil, apoiando-se em instrumentos administrativos semelhantes – uma rede de profissionais vinculados à administração federal e o repasse de verbas através de convênios”. Na década de 1980 ocorre o reconhecimento do direito à educação da criança pequena, de 0 a 6 anos, complementar à família na Constituição Federal. Nesse período, Rosemberg (2003a) pontua, foram elaboradas propostas de políticas nacionais de educação infantil que se afastavam do modelo anterior mais vinculado ao setor da assistência, preponderando a influência do campo educacional na educação infantil. As creches passam gradativamente a ganhar legitimidade social, ampliando-se para além da ideia de uma instituição voltada aos filhos dos pobres. A análise dos documentos no contexto pesquisado corrobora com essa questão destacando-se dois aspectos nesse sentido, que irão despontar no início da década de 1990, são eles: a preocupação com a formação/qualificação dos profissionais das creches e a instalação de turmas de pré-escola nestas instituições sob a responsabilidade direta da Secretaria Municipal de Educação. Em Francisco Beltrão a destinação à pobreza, como propósito que motivou a criação das creches, fica clara, pois as idades atendidas nestas instituições variavam bastante, eram atendidos bebês até jovens de 14 anos. As crianças em idade escolar permaneciam no contraturno, faziam as refeições e eram auxiliadas nas tarefas escolares. Na narrativa de Noeli ela aponta a preocupação central no trabalho com as crianças: Naquela época a gente cuidava muito das crianças, era muito voltado, no sentido delas chegarem muito sujinhas na creche. Eram crianças muito pobres, de condições muito precárias [...]. Ali entrava o banho, cortar a unha, passar veneno para matar o piolho, tinham bicho de pé [...]. Então a gente fazia tudo, praticamente tudo pelas crianças, era muito difícil. E a gente fazia tudo... Alimentava, dava banho, arrumava bonitinha e à tardinha a gente entregava e logo pela manhã no dia seguinte voltava novamente e tinha que fazer tudo de novo. Então a gente se preocupava muito com esse lado, a alimentação e a higiene. Era praticamente tudo com nós. Tinha criança que fazia a última refeição ali com nós e às vezes só ia fazer outra refeição no dia seguinte (Entrevista com Noeli, 2011). A partir de 1990 aparecerão em âmbito nacional as primeiras formulações sobre a indissociabilidade entre cuidado e educação no atendimento à criança pequena. Nesse período 9 a nova política do MEC para a área se afasta do modelo não formal com baixo investimento público, assumindo metas de expansão com critérios de qualidade. Estas iniciativas buscavam operacionalizar as conquistas da Constituição Federal, no entanto, esse processo democrático foi interrompido com a entrada dos indicativos do Banco Mundial para a educação infantil no Brasil (ROSEMBERG, 2003b). Considerações finais A análise dos dados obtidos permite confirmar o que vinha ocorrendo também em outros contextos do Brasil, isto é, a LBA desempenhou papel marcante junto às esferas locais, influenciando o panorama da educação infantil a partir de uma concepção preventiva e compensatória de educação da criança pequena. Em outras palavras, uma política que incentivava a instalação de creches em espaços físicos simples, com infra-estrutura precária e a contratação de profissionais sem qualificação. As mudanças vêm ocorrendo lentamente, LDB no 9.334/96 demarcou algumas mudanças no contexto das instituições de educação infantil, contudo, a passagem das instituições de atendimento à criança pequena para o sistema educacional não é suficiente para superar concepções impregnadas de infância, de rotina, de educação aí presentes, de tal modo que atualmente ainda nos deparamos com embates entre assistência, cuidado e educação e o que isso efetivamente representa no contexto da educação infantil. A ampliação do acesso à educação infantil no Brasil foi demarcado pela baixa qualidade e acirramento dos processos de exclusão, é possível afirmar que esse é um elemento que imprime ainda hoje marcas na realidade brasileira. A fim de contribuir para a compreensão da área e proposições de mudança entendo que a educação infantil demanda estudos que possibilitem contemplar suas especificidades que a inserem em outros contextos para além do educacional. Afinal, a história tem permitido visualizar que essas instituições têm origens distintas da escola obrigatória, sendo constituída por múltiplos propósitos/funções, assistencial, sanitária, compensatória, guarda, cuidado, educacional, dentre outros, que a configuram como uma instituição social com características e papel social peculiares. Por fim, é apropriado destacar a afirmativa de Kuhlmann Jr (2004, p. 194) de que “a interpretação da história deixa de ser uma linha evolutiva: se há um passado sombrio, o terreno é o da ambigüidade e não o da polaridade entre passado e presente”. Nesse sentido, corre-se riscos ao fazer generalizações ao produzir conclusões ainda que provisórias. Há que 10 se continuar aprofundando a investigação sobre a história da educação infantil, buscando olhar para o passado no intuito de identificar diferentes movimentos que foram se estabelecendo ao longo do tempo e suas especificidades em cada contexto. 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E a expressão educação infantil surge na década de 1990 para referir-se inicialmente à educação da criança de 0 a 6 anos e a partir de 2006, com a Emenda Constitucional nº 53 essa idade é redefinida para até 5 anos de idade. iii Entre 1981 e 1983 haviam sido criadas cinco creches, distribuídas em cinco bairros da cidade, Miniguaçu, Entre Rios, Cango, Industrial e São Miguel. iv Conforme destaca Kuhlmann Jr (2004), a influência norte-americana terá seu início no Brasil, no campo da assistência à infância, já no início do século XX. O 3º Congresso Americano da Criança juntamente com o 1º 12 Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, evento realizado em 1922 no Rio de Janeiro, demarca essa definição. Nessa ocasião foi definido 12 de outubro como o Dia da Criança, assim, associava-se a data da descoberta do Novo Mundo com a infância, que deveria ser educada conforme o espírito norte-americano, trazendo a tona a ideia do pan-americanismo. Nesse contexto os Estados Unidos passaram a representar para a América Latina, um pólo de dominação econômica, militar e de influência cultural. v A Associação de Proteção à Maternidade e à Infância é atualmente uma organização vinculada à Secretaria da Assistência Social. As APMIs foram disseminadas no Brasil na segunda metade do século XX contando com o apoio técnico e financeiro da LBA (Legião Brasileira de Assistência) com ações voltadas à proteção à criança e à mãe. vi Projeto de âmbito nacional que tinha como finalidade promover a integração social das populações circunvizinhas aos equipamentos e por meio de seu envolvimento em atividades comunitárias, nas áreas de educação e cultura, saúde e nutrição, desporto, trabalho, previdência e assistência social, recreação e lazer, propiciou-se o início de atendimento materno infantil em creches, bem como de adolescentes com a criação da Guarda Mirim (CMEI NICE BRAGA, 2008). vii Criado e instalado em 1994 e regulamentado pelo Decreto Municipal nº 451 de 15 de Setembro de 1995 (CMEI NICE BRAGA, 2008). viii Esteve na coordenação da APMI; nos períodos de 1977 a 1983 e 1993 a 1996, na condição de 1ª. Dama, e assumiu como secretária da Assistência Social em 2001, estando a frente dessa secretaria até 2012. ix Atuou como monitora em creches municipais de Francisco Beltrão/PR até a sua aposentadoria, no período de 1983 a 2009. x Programa do Governo Federal iniciado em 1971, cujo objetivo era a erradicação do analfabetismo no Brasil, sendo extinto em 1985, vinculado ao MEC. 13