341
o
CONFRONTO
COM A LINGUAGEM
POETICA
GRITO
de. caminhar,
linguagens
cando-as
em confronto.
que se traduzem,
facetada
, que vai do grito
para
melhor
Llspector.
ultimos
A Hora
livros:
POl'
este
detectarmos
colo
-
a linguagem
que se reverte,
e que se anula:
a linguagem
Para
isso escolhemos
da Estrela.1
Comecemos
DO
trabalho,
que se espelham,
ao sussurro,
que se questiona
tlca de Clarlce
LISPECTOR:
AO SUSSURRO
Gostarta
cruzando
s~nverte.
DE CLARICE
que
po~
urn de seus
pelo
rim:
"Sllencio.
Se urn dia Deus
vier
a terra
"S11encio.
o
vossa
neeessidade?
flnal
foi bastante
Morrendo
5ei. Morreu
em urn 1nstante.
po em que
pneu
no chao
etc.,
0
do carro
e depois
ela virou
nao toea mais
etc. No fundo
silen
-
grandlloquente
para
a
ar. Ar energetiCo?
0 instante
correndo
havera
e aquele
atlmo
em alta velocldade
e depois
ela nao passara
Nao
de tern
toca
toea de novo.
de uma ca1xinha
Etc.,
de musi-
ca desaflnada.
Eu vas pergunto:
e
- Qual
E agora
sarro
e 11' para
gente
morre.
casa,
Alberto
peso
- agora
Meu Deus,
da luz?
80 me re5ta
50
acender
agora me lembre1
urn c1-
que a
Mas - mas eu tambem?1
Silencl0.
linguagem
0
poetica,
Pimenta:
Eis a1
Como afirma
"0
que
ha
0
ponto
Maeherrey.
de essencial
crucial
citado
de toda
pelo
a toda palavra
poeta
e
0
342
silencio". E no dizer de Plmenta: "Este silencio deve ser e~
tendido como at1tude ante a ideia de qualquer representa~ao
do mundo, no sentido da !'armula~ii.a
de Angelo Guglielmi: lOA
melhar representa~ao
serla 0 sllencloll•
Acantece parem que Sartre !'azurna conyer sao dlaletica dessa pOS1caa, e esta canversso seguir-nos-a
como uma sambra ate aa !'im: "calar-se naa e sar muda, e recu
sar talaI', partanto !'alar a1nda"
3
Cruzanda-se esse falar sabre 0 silencl0,
coma
escr1tura de Clar1ce:
"Quando rezava conseguia um oco de alma -
e esse aco e 0 tudo que posso eu jamais tel'.Mais do que 1sso, nada, mas 0 vazl0 tem
0
valor e a semelhan~a do pleno.Urn
meio de tel' e nao procurar, um meio de tel'
e .omente acredltar que
0
e
0
de nao pedir
sllencl0 que eu creio em mim
e
re~
posta a meu'misterlo.
Pre tendo , corno ja ;{M~nueJ:',;;
oescrever de mQ
do cada vez mais simples. Alias 0 material de que d1sponho
e
parco e singelo demais, as informa~Oes sobre as personagens
saa poucas e nao muito elucldatlvas, inform~oes
penosamente me vam de mim mesmo,
e
essas que
trabalho de carpintaria.
Sim, mas nao esquecer que para escrever
nao-1mporta-o-que
e
0 meu material baslco
a palavra. Asslm e
que eata h18tor1a sera felta de palavras que se agrupam em
frasea e destas se evola urn sentldo secreta que ultrapaasa
palavras e frasea."
4
"Com esta h1storla eu yOU me senslbll1zar,
e bem sei que cada dia e um dla raub ado da morte. Eu nao sou
uq intelectual, escrevo com 0 corpo. E
0
que escrevo
e
urna
nevoa umida. As palavras sac sons transtundidos de sombras
que se entrecruzam des1guais, estalactites, renda, musica
transflgurada de Orgao. Mal ouao clamar palavras a essa rede
vibrante erica,
morblda e obscura tendo como contratom
0
baixo grosse da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar Duro do
carvao. Sel que estoll adiando a hlstoria e que brinco de bo-
1a sem a bola. 0 ~ato
sem palavras.
E
e
urn ato? Jura que este llv~o
e
~elto
uma ~otogra~la muda. Este livro e um silen -
cia. Este livro e uma pergunta."
5
Falar em nevoa nesse instante de revela~ao
da earpintaria poetica, metaforiea, bel!ssima, do fazer en quanto se faz a obra, no instante mesmo da eria~ao,
e
falar
do instante memsmo do naseimento do discurso - instante ate~
e
poral, sem comeQo e sem rim -
a instante mesmo do percepto
materia de trabalho do inconsciente (para Peirce), j& que e~
te e eondiQao para aquele. E
mo etapa seguinte
0
0
instante primeiro, que tern c2
Juizo conceptual. ja duplo.
Dai percebermos que
captar
0
0
caminho e
0
ten tar
poetico do instante mesmo desse percepto - pre-lin~
guagem- sussurro, estag10 pre11m1nar
a
aquislgao de lingua -
gem, e, portanto, do discurso, fundamentado pelas sensa~oes
pr1me1ras: encontro do 8ujeito com seus proprios sentidos.
o escrever em bel{ssima imagem:
U
e
Nao, nao
facil escrever. t duro como
quebrar rochas. Mas voarn raiseas e laseas como a~os espelhadOs.uS
palavra ternque parecer com a palavra, Instrumento meu. Ou
nao sou urn escritor? Na vcrdade sou mals ator porque, com spenas urnmodo de pontuar, te~o malabsrismos de entonaQao, 0briso
0
resplrar elheio a me aeompanhar
0
texto.,,7
Acompanhemos, portanto, a texto de Claric~
caminhemos pela trama, tentando encontrar aquele que eria.
Se pUd8ssemos definir
0
que
e
ser autor, dlrlamos como Albe£
to Pimenta, ao cltar Sartre: "0 poeta esta fora da lIngua,
ve
as palavras ao contrarl0, como se nao perteneesse
a
eondi
;&0 humana, chegando junto dos homens, comeQesse par encon trar a palavra como uma barrelra.,,8~ru•...
zarIamos tal conelu sao com as dos poetas Camae. e Fernando Pessoa:
"Nlnguem the fala;
0
mar de longe bate;
Move-se brandamente 0 &rvoredo;
9
Leva-lhe 0 vento a voz, que ao vento delta."
as
"Se
vezes digo que as nores
sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Nao
e
porque eu julgue que
ha
sorrlso nas flores
E canto no correr dos rios •••
f porque assim fa~o mais sentir aos homens falsos
A existencia verdadeiramente
real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrif1co-me as vezes
A
sua estupidez de.sentidos •••
Nao concordo com1go mas absolvo-me,
Porque
sou so essa coisa seria, um interprete da Natureza,
Porque he.homens que nao percebem a sua linguagem,
Por ela nao ser urna linguagem nenhuma." 10
Conclusao desse entrecruzar:
0
poeta e
0
sujeito-artista, aquale de obra onde seu nome desaparece, d!
ante da iminencia de ter escrlto algo e nao ter rescrito.
Poesia
e
espanto da trombada com 0 real e esse espanto
e
ful
gurancia que desaparece.
"Ela (a palavra) nao tende a tornar aceita
vel a realidade tornando-se ela masma aceitavel, mas, pelo
contrarl0, a restituir 0 espanto, a religl0 primordial, para
realizar uma evocacao, que
e
suSCltada pela realidade ao re-
cusar-se a ser conjurada, ao recusar-se ao exorclsmo abstrativo". afirma Aldo Tagliaferri, citado por Alberto Pimenta.11
"Jamais uma arvore
matou urna arvore.
J amais uma pedra
depoe
contra uma pedra.
so
0
nome pedra
mata, ao depor
sobr.e 0 nome pedra"
Arma-se
gno e diatancla-se
espa~o
esse distanciamento
ja que tenta produzir
coisa de que fala
neeessarlamente
do enigma:
signo gera si-
cada vez mais do seu ponto de partida:
real. No caso do poeta,
centua-se,
0
0
e
poeta
0
e
a palavra,
mUltipliea-se,
urn real que
vazio:
e
alporoso,
signifieante
que nao
inven~ao,
e
possIvel
e
respira,
respira.
antes
Materi-
aqul a vida de urna rnolecula eom
de atomos.
rninha obriga~ao
lhares delas.
revelhar-lhe
e
0 nao sentido.
que respira,
urn dia viverei
seu estrondo
~
Inatingivel.A
"Nao se trata apenas de narrativa,
de tudo vida primaria
L
0 que eserevo
e
mais do que
contar sobre essa mo~a entre mi-
E dever meu, nem que seja de pouca arte, 0 de
a vida.
Porque he
0
direito
ao grlto.
- eu grJ.to."
.
12
Entao
"Macabea,
serena,
terra do perdao,
Ave Maria.
cheia de gra~a,
tem que chegar
0
tempo, ora pro nQ-
bis, e eu me uso como forma de conhecimento.
te
0
ossa por intermedio
ra
ti,,13
o
unidade
que desfaz
do Outro,
falar do Outro
0
incorpora
de uma encanta~ao
duplo. 0 narrador
0
do nele seu carater
utlliterio:
"Palavra
trutura utiliteria
tlvldade
mls50r e receptor,
•
leitura
de Interpretantes
llIIItl
falando
a si
reconhecen-
lemos anterlorrnente
de infra-es-
iconica.
de leltura,
Da!
0
onde pela ~
da linguagem,
ambos, ~
outra vez cada urn a seu modo transformam14
"Nestes ultimos
ra
ja
a
meu"
em toda super-estrutura
se tambem em linguagem.
personagens,
que descobre
sempre urna especle
- da parodia:
relacional
como
instrumento
t
urn signi!icante.
que ele busea no discurso.
Dal haver
eanto paralelo
Eu te eonhe~o ~
que vem de mim p~
sim esse Outro para descobrlr-se
rnesrno.E a analogia
em Clarice:
e ja
terra
despersonalizo-me
roupa. Despersonallzo-me
tres dias, sozlnho,
sem
e tiro-me de mlm como quem t!
a ponto de. adormecer. ,il5
Segundo Borges: So podemos dar 0 que demos uma vez. So podemos dar
0
que
ja e
do outro. As coisas vam do outro e ao ou-
Para Clarice:"A
a<;ao desta hlstoria tera
como resultado minha transfigura<;ao em outrem e minha materl
aliza<;ao enfim em objeto. Sim, e talvez alcance a flauta dace em que me enovelarei
em maeio cipo.,,16
Em A Hora da Estrela esse outro e
de uma unidade
indissoluvel
0
duplo
contida no percepto - revelada
0
ao leitor por urn trabalho de dobrar-se 0 crlador sohre sua
propria realiza<;ao, desvendando-a
(ocultando-a) no ate mesmo
de produzi-la:
"Como eu irei df!izer agora, esta historia
sera
0
resultado de uma visao gradual - ha dois anos e ~el0
venho aos poucos deseobrindo
as porques.
E
visao da imlnen-
cia de. De que? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que e~
tau escrevendo
na hora me sma em que sou lido. So nao inicio
pelo fim que justificaria
0
come<;o - como a morte parece di-
zer sabre a vida - porque preciso registrar
dentes.
It
08
fatos antece-
16
Nesse duplo movimento de desvendar/ocultar
o ate de construir essa narrativa
- que nada tern do narrar
mas slm tudo do poema - ha espa<;o para 0 lan<;amento de hipoteses de produ<;Bo poetica:
"Proponho-me
escreverei,
a que nao seja complexo
embora obrigado a usar as palavras
tentam. A historia
0
que
que vos sus -
- determino comfalso livre arbitrl0 - vai
ter uns sete personagens
e eu sou urn dos mais importantes de
les, e claro •••
Historia exterior e explicita,
sim, mas
que contem segredos - a come<;ar por um dos titulos: "Quanto
ao futuro", que e precedido por um ponto final e seguido de
outro ponto final. ,,1?
Ao rastrear esse procedimente
que nae 5e faz por indu<;ao - onde cabe
0
hipotetico
slntagma referenci
al regido pela causalidade
- nem por deduCao - que trabalha
o que deve ser, mas sim por abducao, onde tudo pode ser, onde se colocam
0
inventivo
e a poetico.
"Os racioclnios
proxlmariam
dedutivos e indutivos se ~
da massa de informa~ao que compoe
gerado pelo interpretante
ponsabiliza-se
final e a racioclnio abdutlvo res-
pelas informacoes
rio gerado pelos interpretantes
o
repertorio
0
que caracterlzam
0 reperto-
imediato e dinamico. ,,18
outro eXigido e vivenciado pelo discur-
so de Clarice Lispector
e
0
do lnterpretante
Dlnamlco, nunca a lnterpretante
Imedlato e
0
do
Final que elucida, conclui,
finaliza. As relaqoes estao abertas, a se fazer no ato mesmo
do escrever
e do ler, atos de "mente
va, relaciona1,
19
mo.u
Interpretadora
produt!.
ativa, interpretante
na justa acepcao do ter
Nesse choque com
Dutro, da-se a secundi-
-
.
dade, a Interpretante
ca da 11nguagem:
0
dinamlco, a convuls~o epifanlca da bu~
"Val ser diflcil escreve'r esta h1storia. A-
pesar de eu nao ter nada a ver com essa moga, terei que me
escrever
todo atraves dela par entre espantos meus. 05 fatos
saa sonoros mas entre 05 ratos ha urn sussurro.
20
que me impressiona."
o
impressionar
sent1do os sensa~ao, e
ficas do discurso.
0
aqui
impressionar
e
E
a sussurro
mais do que s1mp1es
do imprimir marcas gr~
Tenta a construgao sintatica:
Eu sou Macabea
Macabea
e
0 Narrador
Macabea me matou
o
Dutro da dualidade torna-se uno. Crta-se
a sintaxe do grau zero, do vazio - que nao
te
e
zio nao
e
a nada pois es-
oposto a tUdo, mas nao equ1vale ao zero, ao vaz10. Va
e
duplo, mas
e
uno, indivisivel.
0 vazio
e
circunda-
do por uma volta. Da1 a abduqao: nao ha interpretante
a verdade nao se acha no fim: morte
e
final:
vida e volta-se a un1-
volta:
nao deseja
morte).
Macabea:
a epifania
Cria a epirania
caixinha
(viver
do Sllencio:
de musica
e
urn 1uxo.
0
custo
e
a
sintaxe do grau zero -
desafinada;
sintaxe desorganiza-
da.
1. Llspector.
2.
Clarice,
Idem, ibidem
3. Pimenta,
a
Alberto,
Portugal,
78, pg.
4. Lispector,
Si1encio
Clarice.
6. idem.ibedem.
RJ.84
dos Poetas, A Regra do Jogo,
op. cit. pg. 20 e 21
22 e 23
pg 25
7. idem, ibidem.
pg. 30
Alberto.
9.1dem,ibidem.
Fronteira,
98
5. idem, ibidem, pgs
8.Pimenta,
A Hora da Estre1a.Nov~
pg. 97 e 98
op. cit. pg. 101
pg. 97
10. idem, ibidem,
PB 100
11. idem, ibidem. pg 184
12. Lispector,
Clarice.
13. idem. ibidem.
14. Ferrara.
Lucrecia.
15. Lispector,
16.idem.
Clarice,
ibidem.
Pi!:
A Estrategia
dos signos, Perspectiva,al
ap. cit. pg.ao
27
17. Clarice,
Llspector,
18. Ferrara,
Lucrecia,
19. Ferrara.,.
Lucrecia.
20. Llspcctor,
op. cit. pg. 19
pg 93
Clarice,
op. clt. pg 19
op. cit. pg. 6lD
op. cit. pg 61
op. cit. pg. 30