XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 Adoção de métodos de gestão da produção em três empresas de linha branca Alessandra Rachid (UFSCar) [email protected] Adriana Marques Cunha (FACAMP) [email protected] Leda Maria Caira Gitahy (UNICAMP) [email protected] Ângela Maria Carneiro Araújo (UNICAMP) [email protected] Resumo Este texto apresenta parte dos resultados de um projeto de uma pesquisa internacional sobre a indústria de linha branca. Investigou-se se os gerentes estão familiarizados com métodos de gestão selecionados e qual é a sua compreensão de cada um, visando avaliar a forma como cada método é utilizado nessas empresas. Buscou-se saber, também, as formas pelas quais os entrevistados obtiveram informações a respeito dos métodos. Observou-se que a prática das empresas e os treinamentos por elas oferecidos constituem as principais fontes de informação. A migração de pessoal entre empresas também tem um papel relevante. Palavras-chave: Métodos de gestão da produção, Difusão, Linha Branca. 1. Introdução A entrada de produtores transnacionais na indústria brasileira de linha branca intensificou o processo de reestruturação de suas principais empresas, sendo acompanhado pela introdução de diferentes métodos de gestão da produção, em sua maioria já utilizados pelas matrizes das empresas e por suas subsidiárias em diversos países. Muitos desses métodos são associados ao modelo de “produção enxuta”. Um aspecto importante para avaliar a introdução de métodos de gestão é a sua divulgação entre os gerentes, porque esses são os responsáveis por conduzir boa parte do processo de sua introdução, mesmo quando o seu treinamento é realizado na matriz ou quando são contratadas empresas de consultoria. Este texto apresenta parte dos resultados de uma pesquisa sobre a indústria de linha branca em cinco países: Brasil, China, Coréia do Sul, Taiwan e Turquia. A pesquisa no Brasil foi financiada pela FAPESP e pelo CNPq e envolveu fábricas de três empresas entre 2002 e 2005, utilizando o mesmo método de pesquisa que nos demais países. Foi aplicado um questionário a diretores, gerentes, chefes, supervisores, coordenadores e encarregados, que serão chamadas apenas de “gerentes” ao longo do texto. As respostas foram tabuladas no SPSS (Statistical Package for Social Science) e houve uma análise qualitativa de seu conteúdo. Investigou-se se este staff está familiarizado com métodos de gestão selecionados pela equipe de pesquisa e qual é a sua compreensão de cada um, o que permite construir uma imagem sobre a forma como cada método vêm sendo utilizado nessas empresas. Para se compreender os meios pelos quais tem ocorrido a difusão dos métodos, buscou-se saber onde os entrevistados obtiveram informações a seu respeito. O Item 2 apresenta as empresas pesquisadas e o 3, os dados sobre a familiaridade dos entrevistados com métodos de gestão da produção mais difundidos. O Item 4 mostra e analisa as principais fontes de informação sobre esses métodos, entre os quais os treinamentos ENEGEP 2006 ABEPRO 1 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 oferecidos pelas empresas, analisados no Item 5. 2. As empresas de linha branca pesquisadas As mudanças da indústria mundial de linha branca deram origem a um oligopólio misto, caracterizado pela concentração da produção em um número reduzido de grandes empresas e uma das estratégias visando a manutenção da rentabilidade tem sido a internacionalização produtiva. Neste sentido, tem havido investimentos diretos externos, muitos dos quais por meio da aquisição de produtores domésticos em países emergentes. Com o objetivo de avaliar a influência da internacionalização na difusão de métodos de gestão da produção, foram pesquisadas as empresas apresentadas a seguir. Para manter em sigilo os nomes das empresas e dos entrevistados, serão utilizados nomes fictícios. No Brasil, foram estudas três empresas. Estas eram de capital nacional e foram adquiridas por grupos multinacionais na década de 1990. As três fábricas pesquisadas se localizam no interior de São Paulo. A primeira foi a BrasilCookCo, uma fábrica de fogões fundada na década de 1930 e que foi adquirida por um grupo norte-americano, chamado de MNA. Nesta empresa, foram entrevistadas 48 gerentes. A segunda foi a BrasilFridgeCo, uma das maiores produtoras brasileiras de fogões e de refrigeradores adquirida por um grupo europeu, chamado de MNE. Nesta empresa, foram entrevistados todos os 30 gerentes da fábrica. A terceira empresa estudada, a BrasilWashCo, é, atualmente, uma das maiores produtoras brasileiras de eletrodomésticos de linha branca. Inicialmente, a empresa se associou a uma das maiores multinacionais de eletrodomésticos de linha branca do mundo, também de origem européia, chamada de MNLB, que depois a adquiriu. Nesta empresa, foram entrevistados todos os 14 supervisores de produção. Na China, foi estudada uma produtora de refrigeradores, a ChinaFridgeCo, que era uma pequena empresa estatal até a década de 1990, quando se tornou a base para a formação de uma joint-venture entre o setor estatal chinês, com 30%, e a MNE, com 70% (TONGQING e WEI, 2003). A taiwanesa, TaiwanCo, tem sua origem ligada a uma empresa nacional, importadora de aparelhos elétricos, fundada na década de 1940. Em 1953, tornou-se representante comercial de uma empresa japonesa do setor eletroeletrônico, chamada de MNJ, que conseguiu introduzir uma de suas marcas no mercado taiwanês. Na Coréia, foi estudada uma multinacional do país, a CoréiaCo, formada a partir da fusão de uma empresa oriunda da indústria química e outra da indústria eletrônica, fundadas na década de 1950. A nova empresa se tornou um dos principais exportadores nos anos 1960 e 70. Atualmente, é uma das principais empresas mundiais do setor eletroeletrônico, com mais de 70 subsidiárias em 40 países (APPLIANCE MAGAZINE, World Appliance Companies, 2002). Na Turquia, uma das fabricantes de eletrodomésticos estudadas, a TurquiaFridgeCo, foi formada a partir de uma associação entre uma empresa turca e a MNE nos anos 1990. A outra, a TurquiaCo, foi na década de 1950 como uma fornecedora de móveis de aço para escritório antes de entrar no setor de eletrodomésticos (APPLIANCE MAGAZINE, World Appliance Companies, 2002). A entrada de multinacionais em vários desses países tem reconfigurado o mercado, exigindo a reestruturação das empresas já instaladas e funcionando como uma referência quanto aos métodos de gestão vigentes. A seguir, são explorados os dados a respeito da familiaridade dos gerentes entrevistados com os métodos de gestão pesquisados. ENEGEP 2006 ABEPRO 2 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 3. Conhecimento e percepção sobre os métodos Muitos métodos de gestão se prestam a diferentes leituras e interpretações por parte das empresas, que podem utilizá-los para legitimar os mais diversos tipos de mudanças (Eccles et al., 1994), como observado por McCabe e Wilkinson (1998) e principalmente por Zbaracki (1998) em relação aos programas de Qualidade Total. Por isso, interessa explorar a forma como cada método tem sido implantado em cada empresa. A Tabela 1 apresenta quantos gerentes conhecem métodos de gestão da produção, selecionados em função de terem sido freqüentemente observadas em pesquisas anteriores do grupo e na literatura. Pelo mesmo motivo, a equipe de pesquisa no Brasil incluiu alguns as certificações, o Seis Sigma, a manutenção preventiva e o CEP (controle estatístico de processo), e dividiu o just-in-time em interno, às fábricas, e externo, relativo às entregas dos fornecedores. Método de gestão Qualidade total Certificações Trabalho em grupo Seis Sigma Manutenção preventiva Círculo de controle qualidade Produção flexível Produção enxuta Just-in-time interno Just-in-time externo Reengenharia CEP Kaizen BrasilCookCo no. de % (n=48) gerentes 97,9 47 95,8 46 97,9 47 95,8 46 79,2 38 70,8 34 35 72,9 54,2 26 89,6 43 85,4 41 79,2 38 72,9 35 60,4 29 BrasilFridgeCo no. de % (n=30) gerentes 28 93,3 30 100,0 30 100,0 19 63,3 26 86,7 14 46,7 19 63,3 26 86,7 23 76,7 20 66,7 17 56,7 22 73,3 25 83,3 BrasilWashCo no. de % (n=14) gerentes 14 100,0 14 100,0 14 100,0 13 92,9 13 92,9 13 92,9 14 100,0 11 78,6 14 100,0 14 100,0 14 100,0 13 92,9 14 100,0 Tabela 1 - Métodos conhecidos pelos gerentes das empresas brasileiras Na BrasilWashCo, os entrevistados têm grande familiaridade com os métodos, o que pode ter ocorrido pelo fato deles serem poucos e todos engenheiros formados. Os métodos mais conhecidos nas duas outras empresas são a Qualidade Total, o trabalho em grupo e as certificações, métodos que mais usam em suas atividades diárias. Na BrasilCookCo, os gerentes associaram a Qualidade Total ao Seis Sigma e à certificação ISO 9000. Para eles, “todos os conceitos básicos do Six Sigma estão relacionados à qualidade total”. Na BrasilFridgeCo, associaram à certificação e aos “requisitos de quem compra, que podem ser clientes internos ou externos”. Na BrasilWashCo, os entrevistados associam o método à prevenção de defeitos e “estar preocupado com o processo inteiro [...] atuando desde o projeto até a fabricação. Isso envolve fornecedor, envolve tudo”, associado ao uso de um pacote de “ferramentas: CEP, quadros de indicadores, FMEA, medição de freqüência, mais os grupos de trabalho”. A maior parte dos entrevistados na BrasilCookCo e na BrasilFridgeCo vê o CEP (controle estatístico do processo) como parte do Seis Sigma. Na BrasilFridgeCo, o método considerado “muito trabalhoso”, só usado “de vez em quando”, “quando tem anomalias”. Na BrasilWashCo, foram apontadas dificuldades em sua aplicação “para mais peças”, pois isso exigiria mais funcionários para a análise das informações coletadas. Por essas falas, observa- ENEGEP 2006 ABEPRO 3 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 se que o uso tem sido mais seletivo do que ocorreu na indústria automobilística (RACHID, 1996). O trabalho em grupo foi associado a “motivação”, “envolvimento” e “colaboração de todos”. Na BrasilFridgeCo, foram mencionados grupos para desenvolvimento de produto ou solução de problemas vinculados ao Seis Sigma. Na BrasilWashCo, dois entrevistados citaram as células de fabricação, um deles referindo-se a sua experiência anterior em uma empresa de confecção, onde, ao mesmo tempo em que se introduzia as células com trabalhadores polivalentes, se “investiu muito em cronoanálise”, mostrando como métodos típicos da produção enxuta, como as células de manufatura e a polivalência, aliam-se a métodos típicos do “velho” modelo taylorista, como o estudo de tempos e métodos e a cronoanálise. Os gerentes da BrasilCookCo são o mais familiarizados com o Seis Sigma (95,8%). Na BrasilFridgeCo, muitos não o conheciam, porque os treinamentos relacionados não haviam sido estendidos a todos os gerentes na época da pesquisa. Na BrasilWashCo, os gerentes tem informações sobre o método, mas de forma superficial, pois este “ainda será implementado na empresa”. Para um dos gerentes, o Seis Sigma “é a nova coqueluche”. Esta forma de ver a difusão de métodos coincide com a visão de que o ambiente influencia as organizações a adotarem métodos da “moda” (MEYER e ROWAN, 1991). Quase todos os gerentes conhecem as certificações ISO 9000 e ISO 14000. Há um consenso que é uma “exigência de mercado” ou, como colocado, um “mal necessário” e se reconhece a importância de ser examinado por órgãos externos, mas “é aquela velha história: uma semana antes do auditor chegar, todo mundo corre. O treinamento, você assina, fala que fez”. A Produção Enxuta é associada pelos gerentes ao just-in-time e ao kanban, sem “estoques intermediários”, ao aumento de produtividade e redução do desperdício. Alguns entrevistados associam o termo à “flexibilidade” e à terceirização de atividades. A Produção Flexível também foi relacionada à “adoção do just-in-time, kanban” e ser capaz de “se adequar aos pedidos da área de vendas” ou ainda “produzir mais de um produto na mesma linha”, como um entrevistado havia visto numa fábrica na Europa. Na BrasilWashCo, uma linha produz dois modelos de lavadoras, a “Front load e Top load [abertura frontal e superior].” Alguns entrevistados ressaltaram que, para isso é necessário o “treinamento de pessoas” e produtos com “projeto pensado para [...] ter peças intercambiáveis”. Na época das entrevistas, a BrasilCookCo e a BrasilFridgeCo estava se deparando com dificuldades para a implantação do just-in-time. A BrasilWashCo não adotava o método. Em todos os casos, os entrevistados apontam as principais dificuldades: a programação se alterava com muita freqüência, “quatro dias é o que dá pra congelar”. No tocante ao just-in-time externo, “a gente tentou já várias vezes, mas não dá” para exigir, mesmo de fornecedores fisicamente próximos. Segundo um entrevistado, o just-in-time “no Brasil, isso é coisa de ficção”. Os CCQs são mais conhecidos pelos gerentes da fábrica de lavadoras, 92,9%, apesar de nunca ter sido implantando lá, seguidos pela de fogões, 70,8% e depois a de refrigeradores, 46,7%. Como observado na indústria automobilística por Rachid (1996), a BrasilWashCo criou um programa semelhante de sugestões, com outro nome, de Kaizen, descrito a seguir. Os gerentes que conheciam o Kaizen, explicaram-no como sendo a “busca de melhoria contínua”. Essa definição também foi citada na BrasilWashCo, mas a maior parte de seus gerentes associa o método a reuniões de grupos, porque é dessa forma que o método vem sendo aplicado na fábrica. Esta conta com “duas pessoas dedicadas ao Kaizen”, que está “direcionado aos pilares produtividade, qualidade, custos, motivacional e segurança”. ENEGEP 2006 ABEPRO 4 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 Segundo um dos entrevistados, em 2004, foram elaboradas trezentas sugestões, “com premiação, com viagens” para quem as fez. Alguns gerentes conheceram a reengenharia em experiências anteriores e a BrasilCookCo e a BrasilWashCo, plantas mais antigas, passaram por processos de redução de pessoal, associada a esse método. Um entrevistado atribuiu sua adoção à nova gestão, após a aquisição pela MNLB. A maioria avalia que a reengenharia já “foi ultrapassada”, uma “onda que passou”. A Tabela 2 acrescenta os dados das empresas na China, Taiwan, Coréia e Turquia. Os métodos mais conhecidos pelos gerentes dos cinco países estudados são o trabalho em grupo, a qualidade total, o just-in-time e os CCQs. Porcentagem dos gerentes que conhecem Brasil Brasil Brasil China Taiwan Coréia3 Turquia4 CookCo5 FridgeCo5 WashCo5 Trabalho em grupo 84,1 64,7 81,2 99,0 97,9 100,0 100,0 Qualidade total 93,2 76,5 90,0 97,0 97,9 93,3 100,0 Just-in-time 75,0 56,9 95,8 74,0 89,6 76,7 100,0 CCQs 38,6 74,5 90,0 94,0 70,8 46,7 92,9 Produção enxuta 34,1 19,6 56,2 62,0 54,2 86,7 78,6 Kaizen 34,6 47,0 64,6 71,0 60,4 83,3 100,0 Reengenharia 18,2 37,2 65,3 50,0 79,2 56,7 100,0 Produção flexível 6,8 60,8 84,0 71,0 72,9 63,3 100,0 Fontes: 1TONGQING e WEI, 2003; 2CHOU, 2003; 3Elaborado a partir de bases de dados da Coréia; 4 Média das empresas de NICHOLS e SUGUR, 2004; 5Pesquisa de campo. Método de gestão 1 2 Tabela 2 – Métodos conhecidos pelos gerentes de diferentes países Os gerentes da ChinaFridgeCo consideravam a produção flexível como o uso flexível das horas dos trabalhadores. Segundo um dos gerentes: “no período de alta [demanda], os trabalhadores precisam de sete dias por semana. [...] No período de baixa, nós lhes devolvemos as horas extras. Eles trabalham quatro dias por semana.” Os gerentes da empresa em Taiwan conhecem menos a Produção Enxuta, apesar da reestruturação da empresa envolver a redução de desperdícios, a racionalização de pessoal e a redução de custos, objetivos que Chou (2003) considera típicos desse método. O Kaizen é conhecido por 83% dos gerentes da TurquiaFridgeCo, 73% da fábrica de lavadoras da TurquiaCo e por 55% da fábrica de fogões dessa empresa. Os gerentes dos níveis mais altos na hierarquia falam com facilidade sobre a Qualidade Total e estão familiarizados com os seus jargões (NICHOLS e SUGUR, 2004). Analisa-se, a seguir, as formas por meio das quais eles conheceram esses métodos. 4. As fontes de informações sobre os métodos Os entrevistados responderam onde haviam obtido informações a respeito de cada um dos métodos com os quais tinham familiaridade. Esses dados estão na Tabela 3. A utilização dos métodos na prática das empresas é a principal fonte de informação para os gerentes nos quatro casos, principalmente na BrasilWashCo e na na Turquia. De onde conhecem os métodos Prática da empresa Cursos e treinamentos Outras empresas ENEGEP 2006 Brasil CookCo 32,1 21,9 11,2 Brasil FridgeCo 27,3 14,6 22,1 ABEPRO Brasil WashCo 39,9 23,0 8,2 Turquia 39,6 20,6 -- 5 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 Curso superior Livros Imprensa Outras fontes Total 11,5 11,2 8,2 3,8 100,0 13,5 12,5 9,3 0,7 100,0 12,0 12,0 2,6 2,3 100,0 9,5 19,7 5,5 5,1 100,0 Tabela 3 - Fontes de informação sobre os métodos conhecidos pelos gerentes (%) A segunda principal fonte de informações para os gerentes da BrasilCookCo e da BrasilWashCo foi a participação em cursos e treinamentos oferecidos nas empresas, analisados no Item 5. Para os gerentes da BrasilFridgeCo, foram outras empresas, pelo dessa fábrica ser mais nova, tendo contratado muitos gerentes com experiência anterior. Nesta fábrica, doze entrevistados vieram da indústria automobilística, seis de outras empresas da linha branca e dois tiveram experiências anteriores nessas duas indústrias. A BrasilCookCo é uma empresa antiga e seus funcionários têm muitos anos de casa. Muitos gerentes tiveram seu primeiro emprego formal na empresa e nela constituíram suas carreiras. Para estes, a prática da empresa e os cursos oferecidos por ela se destacaram como os principais canais de informações sobre os métodos de gestão. Ainda assim, catorze entrevistados já haviam trabalhado no setor automobilístico e tinham grande familiaridade com as técnicas integrantes do Seis Sigma. Na área da qualidade, todos os seis entrevistados percorreram essa trajetória. A empresa também havia contratado sete pessoas com experiência em outras empresas de linha branca. Percebe-se que a migração de funcionários entre empresas é uma importante forma de difusão de métodos de gestão. Na BrasilWashCo, a experiência anterior foi menos importante, ainda que quatro entrevistados tenham vindo de outras empresas da cadeia de linha branca e quatro de empresas de outros ramos metalúrgicos. A Tabela 4 apresenta a porcentagem de gerentes e trabalhadores cujo primeiro emprego foi na empresa pesquisada. As menores porcentagens são das empresas brasileiras. Existem, no país, setores que já passaram por um processo de reestruturação e essa experiência é um fator de interesse para a contratação de seus profissionais. Empresa Gerentes Trabalhadores Brasil FridgeC o 3,5 5,8 Brasil CookCo 22,9 18,9 Brasil WashCo 6,7 7,7 China FridgeC o 40,9 70,0 Coréia Co Taiwan Co Turquia Co 94,0 60,0 66,7 60,8 41,3 27,2 Turquia FridgeC o 38,0 38,0 Tabela 4 - Entrevistados com primeiro emprego industrial na empresa pesquisada (%) Na Coréia, apenas 6% dos gerentes tiveram alguma experiência anterior em outras empresas, o que parece ser reflexo do chamado “emprego vitalício”, típico do Japão (NICHOLS e ÇAM, 2003). O mesmo fenômeno se repete na Coréia e em Taiwan, embora os entrevistados tenham dito que não se adota mais essa forma de emprego neste país (CHOU, 2003). Na ChinaFridgeCo, foram contratadas como trabalhadores temporários pessoas demitidas das empresas estatais locais. A empresa encontra dificuldade para contratar gerentes experientes, tendo que trazê-los da capital da província, cuja rotatividade voluntária é alta (TONGQING e WEI, 2003). Curso superior e livros também foram destacados pelos gerentes como importantes fontes de informação sobre os métodos, seguida pela grande imprensa. A seguir, são analisados os cursos e treinamentos em que os gerentes participaram, ENEGEP 2006 ABEPRO 6 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 considerando sua importância para a difusão de métodos de gestão da produção. 5. Treinamentos No Brasil, com exceção de três gerentes da BrasilFridgeCo, todos os demais haviam participado de treinamentos nos 12 meses anteriores à pesquisa. Na BrasilCookCo, 79,2% dos entrevistados tiveram dez dias ou mais de treinamentos. Esssa porcentagem é de 60% na BrasilWashCo e 46,2% na BrasilFridgeCo. Na Turquia, apenas 41% dos 142 gerentes entrevistados participaram (NICHOLS e SUGUR, 2004). Na BrasilCookCo, além do gerente responsável pelo Seis Sigma, entrevistados das áreas de recursos humanos, exportação, tecnologia e produção receberam treinamento na matriz e A formação dos trainees também inclui um período de treinamento na matriz. A empresa foi responsável por 77,2% dos cursos mencionados, o SENAI por 8,9% e as empresas de consultoria por 9,1%. Na BrasilWashCo, tem-se priorizado os treinamentos para fortalecimento de equipes. A empresa foi responsável por 51,4% dos cursos mencionados, empresas de consultoria, por 41,4%, faculdades privadas por 5,7% e uma escola de informática, por 1,4%. Na BrasilFridgeCo, vieram pessoas da Espanha e da matriz para treinar os trabalhadores durante a implantação da fábrica. Seus gerentes eventualmente participam de treinamentos oferecidos por outras empresas do grupo. A empresa foi a responsável por 54% dos cursos oferecidos para os gerentes, empresas de consultoria por 5,6% e o SENAI por 4,8%. Como mostra a Tabela 5, o conteúdo dos cursos é bastante variado, muitos dos quais voltados para qualidade e produtividade e para a gestão de recursos humanos. Tipos de cursos e treinamentos Gestão de recursos humanos Meio ambiente, saúde e segurança no trabalho Gestão da qualidade Gestão da empresa Gestão da produção Técnico-operacionais para a produção Idiomas Total BrasilCookCo no. de men% ções 92 35,7 33 12,8 58 22,5 40 15,5 15 5,8 19 7,4 1 0,4 258 100,0 BrasilFridgeCo No. de men% ções 21 16,0 10 7,6 35 26,7 20 15,3 16 12,2 22 16,8 7 5,3 131 100,0 BrasilWashCo no. de men% ções 29 37,7 2 2,6 24 31,1 6 7,8 6 7,8 10 13,0 0 0,0 45 100,0 Tabela 5 - Tipos de cursos mencionados pelos gerentes Na BrasilCookCo, o Seis Sigma absorveu boa parte dos recursos investidos em treinamentos. O gerente responsável pelo programa, o Black Belt Master, passou por cinco meses de treinamento no país da matriz. Na BrasilFridgeCo, nove gerentes citaram os cursos de Seis Sigma e o treinamento para a implantação do SAP, que acabou sendo adiada, exigiu um investimento de cerca de R$ 3 milhões, bem mais alto do que a média anual da empresa. Os cursos de idiomas foram mais citados nesta empresa, o que provavelmente se deve à presença de gerentes provenientes da matriz. Entre os cursos voltados para gestão de recursos humanos, os de liderança foram os mais citados. Nos outros países, destacam-se os dados sobre treinamento da TaiwanCo, que, desde 1973 ENEGEP 2006 ABEPRO 7 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 tem um centro de treinamento. Os empregados são encorajados a participar de testes nacionais de habilidade técnica e existem várias competições anuais no país. A empresa também utiliza muito o treinamento da MNJ, no Japão. 6. Considerações finais Os métodos mais conhecidos nas empresas pesquisadas no Brasil são a certificação ISO 9000, a Qualidade Total e o trabalho em grupo. Destaca-se ainda o conhecimento do Seis Sigma, principalmente na BrasilCookCo, já que este programa vem sendo implantado em todas as subsidiárias de sua controladora, a MNA. Pôde-se observar que o aspecto comportamental está muito presente na percepção em relação a alguns métodos, principalmente no conceito sobre o trabalho em grupo, distanciando-se, em geral, da concepção acadêmica que relaciona este método às experiências suecas de grupos semi-autônomos. A existência desse tipo de grupo ainda é rara mesmo nos países com longa tradição de industrialização, como apontam Nichols e Sugur (2004) em relação ao Reino Unido. A produção enxuta também é bastante conhecida, no entanto, na TaiwanCo e na CoréiaCo, justamente as mais influenciadas pelos métodos japoneses, a produção enxuta é o método menos conhecido. Isso pode ser explicado pelo fato do principal veículo de sua divulgação, o livro de Womack et al. (1992), ser dos EUA. O just-in-time é menos conhecido no Brasil, provavelmente por ser usado de forma restrita e não em todas as empresas. Na China e na Turquia, ele é bem conhecido. O que surpreende é que na TaiwanCo apenas pouco mais da metade dos gerentes o conheçam, principalmente considerando o fato da matriz ser japonesa. A prática das empresas constituiu a principal fonte de informação sobre os métodos de gestão da produção e a segunda principal fonte foram os treinamentos por elas oferecidos. Dessa forma, a influência das matrizes na adoção desses métodos se reforça. Como os responsáveis pela divulgação dos métodos são, em vários casos, treinados nas matrizes, essas acabam virando a principal referência para muitos dos entrevistados. Observou-se também que a migração de funcionários entre empresas é uma importante na difusão dos métodos de gestão, principalmente quando estes vêem de setores que já passaram pelo processo de reestruturação, como a indústria automobilística. Referências APPLIANCE MAGAZINE (2002) World Appliance Companies, 1997 e 2002. CHOU, W. (2002). White Goods in Taiwan. Paper presented at the Conference International Sector Comparison of Management Strategy and Employee Relations in White Goods, Cardiff School of Social Sciences. Cardiff, February. ECCLES, R.G., NOHRIA, N. & BERKLEY, J.D. Assumindo a responsabilidade, Ed. Campus, 1994. RACHID, A. (1996) "O Brasil Imita o Japão? A Qualidade em empresas de Autopeças". In: Cadernos de Gestão Tecnológica, n.32, São Paulo, CYTED: NPGCT/USP. 67p. Site: www.fea.usp.br/programas/ cyted/subprogramaXVI/cadernos.htm. MEYER, J.W. & ROWAN, B. (1991) “Institutionalized organizations: formal structure as myth and ceremony”. In: Walter W Powell e Paul J. DiMaggio The new institutionalism in organizational analysis. Chicago, University of Chicago Press. pp.41-62. McCABE, D. & WILKINSON, A. (1998). ‘The rise and fall of TQM’: the vision, meaning and operation of change. Industrial Relations Journal, vol.29, no. 1, p.18-29. NICHOLS, T. & SUGUR, N. (2004). Global management, local labour: Turkish workers and modern industry. ENEGEP 2006 ABEPRO 8 XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006 London, Palgrave Macmillan. ISBN 1403917507 TONGQING, F. & WEI, Z. (2002). The research report of ChinaCo Cooling Appliances. Paper presented at the Conference International Sector Comparison of Management Strategy and Employee Relations in White Goods, Cardiff School of Social Sciences. Cardiff, February. WOMACK, J. P.; JONES, D. T. & ROOS, D. (1992). A máquina que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Ed. Campus. ZBARACKI, M. J. (1998). The rethoric and reality of total management. Administrative Science Quarterly, vol.43, p.602-636. ENEGEP 2006 ABEPRO 9